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sábado, 24 de março de 2012

Descolonização e Independência de Angola: MEMÓRIAS Malhas que o Império tece



Os meus bisavós maternos (sentados) que emigraram da ilha da Madeira para o Lubango no cargueiro Índia, em 1885. Estão rodeados dos filhos, já todos nascidos em África, incluindo a mais velha, a minha avó, a jovem mulher de vestido escuro. Princípios do séc. XX.

Lembro-me de quando olhava para trás e todo esse passado era a minha infância. Depois, a criança que fui foi diminuindo, diminuindo, como se eu me afastasse num carro e ela ficasse no passeio a dizer-me adeus. A criança ficou para trás, numa pequena cidade do interior de Angola, perdida no grande continente africano. Aos onze anos essa infância foi guilhotinada. Desceu a Serra da Leba e subiu para um barco de carga que a levou a Luanda. Depois, atravessou a ponte aérea.
A ponte aérea. A ponte aérea era uma ponte por onde se podia transitar num único sentido. Uma única vez. Atravessada uma vez e desaparecia em fumo. A ponte começava em Luanda. Terminava em Lisboa. Alcançada Lisboa, olhava-se para trás: a ponte desaparecera para sempre, volátil arco-íris. Olhava-se o céu, já se não via.
Não havia regresso possível. Uma viagem de avião como um cordão umbilical cortado para sempre. A mãe pousou as malas no chão do aeroporto.
Não olhou para trás. Sabia que a ponte já lá não estava. Também não olhou em frente. Estava tudo em branco. Ficou ali. Parada entre a ponte desfeita e o nada. Com as malas largadas no chão. Ficaria ali durante muitos anos.


Eles desembarcaram em Moçâmedes no séc. XIX, atravessaram o deserto a pé e subiram a Leba em carros boer, pelo Bruco, até mais de 1 700 metros de altitude. Vieram por uma estrada, os primeiros brancos a estabelecerem-se no planalto. Depois vieram aqueles que se estabeleceram na margem do Caculuvar, no sítio que é hoje chamado Barracões. Eles trabalharam a terra. Procriaram. Criaram filhos brancos para o Lubango. Recriaram, no regaço da Serra da Chela, a capela que haviam deixado na ilha da Madeira. Depois esqueceram a sua ilha distante. Ganharam uma nova terra. E amaram-na. Os seus filhos amaram-na. Os filhos dos seus filhos amaram-na. Durante cem anos, houve brancos que viveram no Lubango e o amaram.

Lubango. Quando eu era criança chamava-se Sá da Bandeira. Cidade no planalto da Huíla, rodeada de montanhas. Montanhas protectoras. Paralisadoras. Por isso rasgaram uma brecha, a fuga para a liberdade, a estrada da Serra da Leba, em direcção a Moçâmedes, ao deserto e ao mar. Para haver uma saída. Para contornar a superprotecção asfixiante da Serra da Chela. Vivíamos tão protegidos do resto de Angola e do mundo em redor que estávamos sentados num barril de pólvora e sentíamo-nos num paraíso. Quando o barril de pólvora rebentou, tudo foi súbito, devastador, um tiro nas costas. O destino errado como uma corda ao pescoço. Lubango com seu encanto e seu recato, as suas ruas de grandes vivendas com jardins, as suas ruas direitas, os seus Largos largos. Enfeitada com flores, com espatódeas, com canteiros. Limpa e ordeira. Com carros modernos pelas estradas. Com seus passeios espaçosos, quadriculados, onde se caminhava à vontade. Rodeada de paisagens grandiosas, inexploradas, múltiplas e variadas. Num país ainda a desbravar.


O Casino e a Capelinha ao longe, na serra da Chela. Cidade de Sá da Bandeira (Lubango)
A Quinta da Liberdade, a quinta do meu avô, onde todos os meus tios cresceram, era especial, um marco: não ficava na cidade, nem na serra dos muílas. Ficava atrás do hospital. Quando vinham à cidade e havia administrador que os quisesse vestidos à moda dos brancos, e alguns havia que os perseguiam, os gentios era na quinta que se refugiavam. Ali trocavam de roupa para ir a cidade, ou despiam-na para voltar à serra. Era o esconderijo, uma fronteira.
A Quinta da Liberdade, a fazenda do meu avô no Calumbiro, Lubango. Está sentado, rodeado da mulher e de alguns dos filhos, além de dois empregaditos negros.

O meu avô era um republicano laico convicto que várias vezes conheceu a prisão. Nasceu na Beira Baixa, fez a tropa em Macau e também fez de si um homem culto; rumou então a Angola, onde se tornaria num funcionário da Câmara Municipal incorruptível e obsessivamente perfeccionista. O nome que dera à sua quinta era um desafio e um sintoma do seu talento para arranjar sarilhos.



O meu avô aos 20 anos, em Macau. 1904.
Sempre soube de Camões. Eu nunca vivi na Quinta da Liberdade. Vivia na Praça Luís de Camões, no Bairro da Laje. Quando tinha seis ou sete anos, inauguraram uma estátua do Poeta na sua praça. Juntou-se um grupinho de gente e alguém discursou sobre a sua vida e obra. Camões teve ali um reino breve. O seu busto seria destronizado poucos anos depois, tal como o de João de Almeida e demais heróis dos portugueses. Para lá da estátua, do passeio frente a minha casa, todos os dias avistava a Ponta do Lubango na Serra da Chela, com o seu Cristo-Rei de braços abertos.


O Bairro da Lage, com a Ponta da Serra ao longe e o seu Cristo-Rei. Sá da Bandeira, 1969.

Como criança de África, era fanática da brincadeira. Em África brincava-se até muito tarde. Brincava-se a valer quase até aos vinte anos. Adolescentes de quinze, dezasseis, dezassete anos, eram tão fanáticos quanto eu. A Bi era um génio da brincadeira e uma catástrofe escolar. Brincou ferozmente até vir para Portugal, dois anos após a independência. No pior tempo da guerra, entretinha-se a brincar às escondidas e ao "canho" (à apanhada) com jovens guerrilheiros do MPLA, na serra da Senhora do Monte, onde moravam. Guerrilheiros com farda militar e metralhadora G3 na mão. Uma das opulentas vivendas dos brancos do local havia sido transformada em quartel do MPLA e outra num da UNITA. A Bi e as irmãs, desaparecidos os tradicionais amigos brancos, divertiam-se inocentemente a brincar com os guerrilheiros, tão adeptos de infantilidades quanto elas. Aquilo é que eram correrias pela serra abaixo com as G3 saltitando no cotovelo! Um dia, a mãe delas espreitou pela janela e viu a cena toda, Bi e irmãs mais os guerrilheiros e as metralhadoras em pleno jogo da apanhada.
Decidiu que chegara a altura de se irem embora também.
Eu brinquei quase com desespero. Talvez pressentisse que aquele tempo mágico não duraria para sempre. Que me seria retirado cedo demais. Que eu estava programada, como criança de Angola, para brincar até muito tarde. Que talento danado para sermos crianças! Eu e a minha irmã, as minhas amigas matulonas - as três Bis e as três Gordas - e a minha sombra, o pequeno Henrique. Mas também a Sara, os irmãos Tó "Naldo" e João e o kambuta (pequenote) do Ruca, que andava no karaté.
Brincar! Nunca mais nada na vida será tão verdade quanto brincar. Brincar era saltar para o epicentro de um remoinho, uma vertigem onde as horas não existiam ou existiam sucessivas dentro de segundos. Onde o espaço se transmudava em pradarias e desfiladeiros. Onde éramos verdadeiramente nós, quero dizer, verdadeiramente eu, o índio Cavalo Forte. Nunca mais seremos tão verdade, de tal maneira que ainda hoje, no fundo de mim, sou, como não sou mais nada, o índio Cavalo Forte.


Brincar! É por brincarem que as crianças são sagradas, por terem tão fácil em si essa capacidade de se transportarem para um tempo mítico, um in illo tempore exterior aos constrangimentos da vida adulta. E a vida adulta, não é tantas vezes uma procura inglória dessa dimensão outra, do tempo sem tempo irrecuperável das brincadeiras? Que resta aos adultos senão as viagens, certos momentos, certos livros, certos filmes, a música, a escrita, a pintura, para lhes darem uma sensação semelhante, mas muito mais pálida e incerta?
A brincadeira era a única verdade, o resto era a maçada das refeições e de nos vestirmos para a escola. E quando a noite caía, e acendiam-se as luzes públicas para combater sem vitória o seu manto negro, eu ressentia fundamente a crueldade das horas cronológicas. Atingiam-me como punhais ao retirarem-me do tempo mítico. Ter de jantar. Ter de dormir. O que era isso, esse tempo que vinha de fora e só tinha o dom de tudo estragar? Chorava amargamente: "Eu não quero que seja noite!" Mas a minha vontade era impotente perante as rotações siderais. Nas brincadeiras não, nas brincadeiras noite e dia surgiam segundo as minhas próprias rotações. Nas brincadeiras, podíamos construir um mundo todo novo, todo à nossa própria medida. Pequenos deuses da brincadeira.
No dia seguinte, retomávamos a brincadeira exactamente no ponto em que a tínhamos deixado. Ficara à nossa espera, intocada, suspensa, até ao nosso regresso. Desenrolava-se então com uma fluência mágica até o tempo dos adultos - escravos da cronologia -, com as suas refeições e as suas horas de dormir, uma e outra vez, virem arrancar-nos, brutalmente, daquele outro mundo paralelo que só aqueles cujo coração é puro conseguem penetrar.

Quando andava na quarta classe deu-se a revolução do Vinte e Cinco de Abril. Fiz, pois, quase toda a instrução primária no tempo do Marcello Caetano. Nessa época, a Pátria Portuguesa era muito diferente da de hoje. Até aos dez anos a minha Pátria chamava-se Portugal, mas era um Portugal maiúsculo, imenso, espalhado pelo mundo, como se Deus tivesse lançado serpentinas verdes e vermelhas sobre o planeta. Uma grande família universal. Incluía brancos, pretos, indianos, chineses e timorenses. E eu imaginava-os a todos a falar português. Todos orgulhosamente unidos pela lusitana epopeia das Descobertas, a mais grandiosa e significativa das epopeias humanas. Aquela que revelara o planeta aos seus habitantes e os ligara por mar. Os portugueses eram universalmente reconhecidos e aclamados como um povo glorioso e heróico e eu tinha a sorte de fazer parte desse país tão grande quanto a Terra. Havia o velho Portugal metropolitano, aquela lasca de Europa pronta a soltar amarras e navegar. Havia o meu berço, Angola, a jóia da coroa, com seu petróleo e diamantes, catorze vezes maior do que a Metrópole. Na outra face de África estendia-se o grande território moçambicano, ambos os territórios como que empalando em português o velho continente; havia Guiné Bissau e Cabo Verde; São Tomé e Príncipe; o longínquo Timor; Macau, aquele ponto atrevido no mapa da esmagadora China; e, na Índia mágica, três pequenas pedras preciosas chamadas Goa, Diu e Damão. Sim, Goa, Diu e Damão. Goa, Diu e Damão, cuja independência fora conseguida anos antes de eu ter nascido, eram estudadas nos manuais escolares, duas décadas volvidas, como colónias portuguesas, até vésperas do Vinte e Cinco de Abril de setenta e quatro. África, Índia, China, Oceania, e ainda o vasto Brasil a falar português nas Américas - o velho império lusitano, verdadeiramente global, era a minha Pátria. A Pátria dos Heróis do Mar. Sem fronteiras, unindo as raças, lendo "Os Lusíadas". A Pátria cujos filhos descendiam da estirpe de um Egas Moniz, de um Dom Dinis, de uma padeira de Aljubarrota, de um Nuno Álvares Pereira, de um Vasco da Gama, de um Fernão de Magalhães, de um Gago Coutinho, de um Serpa Pinto. A História de Portugal era uma sucessão de heróis e feitos de glória. O Grande Portugal. Girava à volta da Terra. Conquistara os oceanos. Desvendara os segredos dos céus. Girava à volta da Terra. Eu sentia subtis mas inquebráveis fios de ligação com as crianças de Macau, com as crianças de Timor, com as crianças de Goa. Se nos encontrássemos, havíamos de nos reconhecer, falar com orgulho a mesma língua, começar a brincar logo ali. A minha Pátria era imensa, encontrava-se em todo o mundo. A pequena Metrópole europeia, no meio disso tudo, não tinha senão a importância do seu passado. Heróis do Mar. Na escola, cantávamos o hino em cada manhã. Éramos Valentes. Imortais. Esplendorosos. Brumosos e Antigos. E eu principiava o dia cheia dessas convicções.




O meu tio Sereno Lusitano dando consultas a um grupo de muílas. Cerca de 1947.
Mas após o Vinte e Cinco de Abril, de repente, foi como se a Metrópole deixasse de ter qualquer interesse. Logo a seguir ao dia 25, os brancos do Lubango descobriram-se angolanos. Primeiro houve a vaga do Spínola, que parecia um grande herói. Spínola, Spínola, Spínola, e as "passagens à Spínola" na minha quarta classe. Todos os garotos passavam de ano. A era da igualdade chegara: descobriu-se que havia a teoria de que os pretos eram iguais aos brancos e daí inferiu-se que as notas dos cábulas também tinham de ser iguais às dos alunos brilhantes. Mas parece que só esta última teoria foi efectivamente passada à prática. Conheci um garoto preto da minha idade chamado Spínola em homenagem ao general, a quem nunca ninguém dera relevância até então. Por se chamar Spínola tornara-se especial, com um cheirinho a heroicidade. Depois houve a vaga Rosa Coutinho, sem já nada de exaltante. Nunca encontrei nenhum miúdo preto chamado Rosa Coutinho. Era odiado pelos brancos. Mas não pela minha mãe. Rosa Coutinho, muitos anos depois, moraria perto de mim. Quantas vezes tomaríamos em Lisboa o mesmo autocarro 44! Décadas volvidas e o ódio contra ele aceso, sempre aceso. Dentro do autocarro, havia sempre alguém que o reconhecia, pessoas a quem a vida "pregara uma partida" em África: "Olha quem ali vai! Aquele bandido do Rosa Coutinho! Esse é que é o culpado de tudo o que nos aconteceu! Comuna duma figa! Se estivesse aqui o meu marido havia de lhe dizer das boas!" - diziam, ora em voz alta ora num sussurro, conforme o estado geral do nível de cobardia.
Quem realmente importava, no entanto, era o Agostinho Neto e o Savimbi e o Holden Roberto, o MPLA, a UNITA, a FNLA. O que se passava na Metrópole, os seus PCP, PS e MRPP só vagamente chegava aos meus ouvidos e às minhas mãos, sob a forma de colecções de autocolantes de propaganda política que nos enviavam os tios da Metrópole. Na Metrópole tinha havido uma revolução com cravos, na qual um menino pobrezinho de caracóis louros enfiara um cravo na arma de um soldado (apareceu o poster na montra da livraria Lello, na Rua Pinheiro Chagas, e ficou lá imenso tempo), o Marcello e o Tomás fugiram para o Brasil e pronto, a Pátria de Minho a Timor deixou de importar com um simples estalo de dedos. Angola era como se já fosse independente. Só Angola importava. De vez em quando, lembrava-me de Macau e Timor, essas duas eram o meu orgulho maior, o que é que lhes estaria a acontecer? Mas os tempos eram tão excitantes em Angola, quase uma verdadeira aventura, finalmente acontecia alguma coisa de verdadeiramente interessante na minha vida. Até aí eu forjara as minhas aventuras. Mas agora não, agora a História movia-se por si, algo maior, muito maior do que eu se movia, a aventura chegava de fora, era mesmo de verdade. Sentia a História a entrar pela primeira vez na minha vida.



O famoso poster do 25 de Abril
Com uma mente de dez anos descobri que os pretos mais cultos e a maioria dos outros eram do MPLA, os brancos da Unita, os mulatos ninguém sabia de onde eram e os brancos radicais eram da UFA, um movimentozinho defensor dos seus privilégios e poder, que achava a África do Sul do apartheid um modelo a seguir. Não ficou para a História. Era o movimento das senhoras dodós, em Portugal chamadas "tias". Quando faziam manifestações não andavam por seu pé. Eram dodós, não saíam dos popós. E também nada gritavam. Limitavam-se a buzinar. As suas reivindicações deviam ser tão inconfessáveis que eram substituídas pelo som póóó. Popóóó, lá vinham elas nos seus Mercedes, nos seus BMW, das ruas da Baixa, contornavam a Praça Luís de Camões e seguiam para a Senhora do Monte. Os seus popós diziam tudo. Não era preciso mais nada.
Nós tínhamos um Volkswagen verde-folha em terceira mão e defendíamos o MPLA. Mas os pais da Sara, que tinham um Citroen ID, um Toyota Corolla amarelo torrado e um jeep Land-Rover - tudo em primeira mão - também defendiam o MPLA. O regente agrícola tinha uma carrinha Station e também defendia o MPLA. A minha mãe era qualquer coisa como uma traidora na óptica dos brancos, porque apoiava o MPLA. Tinha-se passado para o lado deles, dos pretos. Concordava que Angola devia ser governada por angolanos, fossem pretos ou brancos. Para os outros brancos, o MPLA queria Angola governada por pretos e ponto final. Quem teria razão? Éramos brancos raros. Sentíamo-nos Especiais e Esclarecidos, tão cheios de Razão que não havia espaço para mais nada. Fosse quem fosse que tentasse inculcar-nos qualquer ideia de fora, rebentava altercação e da forte. Era o grande tempo das grandes discussões. Muito se discutia! Discutia-se ferozmente, com muita emoção e pouca calma. Discutia-se inutilmente, mas em doses industriais. As pessoas, de repente, descobriram-se todas especialistas em alta política e de convicções inabaláveis. Era a Grande Época da Política. Política - foi esse o maior palavrão dos meus dez aos treze anos.

Holden Roberto, Jombo Kenyata, Agostinho Neto e Jonas Savimbi
No ano escolar de 1974-75, o programa de História deu uma volta de 180º. Afonso Henriques foi substituído pela Rainha Ginga, o condado portucalense pelo Reino de N'Gola, os lusitanos pelos muílas, os mucubais, os cuanhamas, os mucancalas, os tchokué e quejandos. Ironicamente, na minha turma havia apenas duas miúdas pretas. A maioria das crianças negras nem à Escola Primária chegava. E os professores, claro, eram todos brancos.
Os pretos, de repente, tornaram-se muito interessantes. Obriguei a minha lavadeira a ensinar-me rudimentos de olunyaneka, ao qual eu, na minha branca ignorância, chamava quimbundo. Entrei no quartito dela, coisa que jamais me passara pela cabeça fazer até então e, papel e lápis em riste, ordenei, com os meus modos autocráticos de criança branca:
- Vamos estudar os verbos! "Vestir", por exemplo. Vá, diz-me lá em quimbundo a primeira pessoa do singular do verbo vestir!
A lavadeira teve um sorriso envergonhado. Claro que não percebera patavina da minha algaraviada escolar. Era tal o fosso entre nós.

Duas das nossas empregadas: a Regina e a Margarida.
Criados. Quem era a sua mãe? Quem era o seu pai? Ninguém parecia saber. Até então, ninguém queria saber isso dos pretos. "Elas não sentem como nós.", dizia-se das mães negras que perdiam os filhos. Os pretos nunca eram olhados como filhos amados de alguém. Nem sequer como filhos. Viam-nos convenientemente autónomos, sem raízes ou sentimentos de família. Quando se empregavam criados, quase sempre muito jovens, não se sentia qualquer curiosidade por eles. Como se cada preto fosse igual aos outros. Como se não tivessem passado e o futuro fosse o mesmo beco sem saída do presente. Mas agora não, descobria-se que eles podiam ser objectos de interesse! Por exemplo, tínhamos um criadito que tinha sido monangambé. Monangambé! Como na famosa canção de Rui Mingas! Monangambé, os contratados de São Tomé, na verdade uma forma de escravatura moderna! Fazia parte do nosso novo vocabulário, a palavra Monangambé, e afinal abrigávamos nos nossos próprios anexos um verdadeiro Monangambé! Que chique. Sobre um outro criadito, descobrimos que o pai dele tinha uma quantidade de cabeças de gado. Quer dizer, era o menino fino lá da tribo. O filho de um capitalista muíla. Que excitante.



Capa do single "Monangambé"

Começava a deixar de ter paciência para os discos da Carioca e as suas histórias infantis. Metralhava os ouvidos com os singles da Pandilha, com o "Sugar baby love", "If you need me", "Kung Fu Fighting", "El Bimbo", "Pop Corn", a música do filme do Trinitá. A rádio, que nunca se ligava em minha casa até ao 25 de Abril, passou a ser usada para saber as notícias dos últimos desenvolvimentos políticos. E eu apanhava de quando em vez músicas como "La Decadence" e a música do filme "O último tango em Paris". Na livraria Lello vendia-se o livro d’ "O último tango em Paris". A Bi é que me falava destas coisas. Contara-me o filme, sobretudo os pormenores escabrosos. A Bi tinha quinze anos. Eu tinha dez. Para tentar perceber o interesse e fazer-me curiosa, folheei o livro na Lello. Passei os olhos uns segundos e percebi que não era capaz de sentir a animação que ela sentia com aquilo. Outra bomba era "La grande Bouf". A Bi falou-me, mas sobretudo os adultos, falavam muito da "Grande Bouf", com um ar entre o nojo e o excitado. Percebi que era um filme onde havia uma festa em que os adultos só comiam e defecavam. Havia pessoas, diziam, que ficavam incapazes de comer durante dias após terem visto o filme. Os adultos eram seres muito estranhos. Tudo quanto tinha interesse maçava-os, tudo quanto não tinha ponta por onde se pegasse, subitamente animava-os. Andavam sempre a ralhar com as crianças para não se sujarem, mas havia alguém que gostasse mais de porcarias do que eles? Fingiam-se enojados, mas aquelas tretas enchiam-lhes as medidas. Enchiam-lhes as medidas que eu bem via. Livra, que gente, eu é que não queria ser como eles. Ainda bem que era criança. Isto era na cidade do Lubango, Angola, na época do pós-revolução. Os costumes haviam começado a mudar havia já alguns anos. Havia muitos "liambados", a juventude que fumava liamba, e a Bi contava-me das festas devassas do Lubango. Da troca de casais. Do jogo das almofadas. A juventude, sobretudo branca, entrara no mundo da droga mas, nisso, a História veio pôr um travão. Os aviões breve os levaram para longe e Angola ficou com a sua guerra de longos anos, onde nem os traficantes ousaram penetrar. A guerra travou a voragem da droga em Angola. Eu sentia um entusiasmo todo intelectual pelas drogas e a estética psicadélica dava-me volta ao miolo. O meu vocabulário enriquecera-se com palavras como "alucinogéneo" e "ácido lisérgico". Lera tudo isso num livro de análise sociológica sobre o fenómeno hippie. Aos dez anos, 1974, eu queria ser hippie. Ainda havia hippies retardados nos anos setenta. Queria ser hippie e também queria ser índio.


Os singles dos meus 10 anos.
Além das músicas pop, enveredara ainda pela música de intervenção, o último grito da moda. O "Monangambé" do Rui Mingas era o número um, mas também o "Minha mãe", poema de Agostinho Neto. E havia as canções sobre os heróis da praxe, o mártir guerrilheiro "Valódia", a representante do sexo feminino "Deolinda Rodrigues", e o representante das crianças, "Augusto Ngangula". Agostinho Neto era muito cantado, havia o "Presidente, presidente,/ nós fazemos-te uma prece" e aquela que começava assim: "Tatamukuchi Agostinho Neto,/ camarada iabátu Angolá/ oê, oê, Angolá liberté" - pelo menos era assim que eu percebia. "É o guerrilheiro,/ que passa o tempo lá na mata"... Em todas as viagens pelo Lubango fora no Volkswagen verde-folha, percorríamos incansavelmente o nosso imenso repertório musical político. Não nos coibíamos de alindar o ramalhete com canções das facções inimigas: "Savimbi é maravilhoso/ Savimbi é maravilhoso!/ Ele sabe lidar com o povo bem,/ Savimbi é maravilhoso!/ N’zau Puma é maravilhoso!/ N’zau Puma é maravilhoso…" Era só maravilhas.

Eu e a Sara até nos inscrevemos na OPA, a Organização dos Pioneiros de Angola! Cheguei à sede com o meu habitual arsenal bélico: fisga ao pescoço, canivete no bolso. Estive quase quase a levar a minha zagaia. O camarada guerrilheiro de guarda, abraçando a sua G3, proibiu-me de entrar com tanta arma, confiscou-me a fisga e o canivete e segui para a instrução militar completamente desarmada. Um punhado de miúdos negros rodeou-me. "Trouxeste calções brancos! Vão tornar-se pretos!", disse um deles. E desataram a rir. Só hoje percebo o quanto aquela frase era profética. Dali a pouco apareceu o instrutor. E começou um treino militar a sério. Marchámos à moda do MPLA, batendo resolutamente com os punhos no peito e lançando as pernas para a frente e rastejámos no chão enlameado. O instrutor arvorava uma expressão trocista e eu suspeitava levemente que aquilo tinha a ver com a presença daquelas duas notas dissonantes brancas no meio dos miúdos pretos. De algum modo, tal suspeita incentivava-me a empenhar-me ainda mais nos exercícios. Havia de o fazer engolir a troça. Na vez seguinte, porém, a troça foi mais ruidosa. Começou a chover copiosamente e o instrutor ordenou que repetíssemos as suas palavras: "Quem tem medo da chuva é filho de tuga!" Para ele perceber que eu não me considerava filha de tuga, repeti resolutamente as suas palavras. O instrutor delirou, morto de riso, tal qual como se soubesse que o meu pai era de Santarém, e repetiu uma e outra vez a mesma frase. E eu também repetia, muito séria, muito OPA. A coisa nunca mais parava, até que chegou um negro bem vestido, com óculos, ar de intelectual. Aproximou-se do instrutor e, numa voz desagradada, segredou-lhe: "Que é isso, camarada? Estás a gozar com as crianças brancas? Não queremos esse tipo de atitude no MPLA. Elas inscreveram-se na OPA, devem ser tratadas como as outras. Pára já com essa brincadeira." O instrutor, a custo travando o riso, lá se conteve. Eu continuei a empenhar-me nos exercícios, mas mais desconsolada. No entanto, tudo isto foi bruscamente travado. O tuga soube que eu andava na instrução da OPA e ficou furioso. Que não sabia onde me estava a meter, que era de uma total inconsciência, que era de loucos, que nunca mais havia de lá pôr o pé. Chorei amargamente, mas não tornei a ir. A razão foi apenas porque a atitude do instrutor arrefecera o meu entusiasmo inicial.


Pioneiro do MPLA, com arma de madeira.
Às 4 da manhã acordei com um grito de homem vindo da rua. Começara o tiroteio. Já estávamos à espera dele. Andava a descer de Luanda e algum dia teria de chegar ali. Eu tinha ouvido tiroteios em Luanda, mas longínquos - os piores tinham passado ou estavam por vir. Só um acontecera bem perto, numa avenida espaçosa, com a minha prima Magui. Desatámos a correr por ela fora até o deixarmos de ouvir. Mas no Lubango foi naquela madrugada. A minha casa encheu-se de gente. A família das Bis e a família do Tó "Naldo" e do João, que viviam na Humpata, tinham vindo refugiar-se na Praça Luís de Camões. Asneira. O tiroteio começou precisamente ali. Acampávamos no corredor, receando os tiros que pudessem atravessar as janelas. Na parede exterior da minha casa surgiram dois buracos de bala. Ena pá, o orgulho que aquilo me deu!


A mãe da Sara apareceu na minha casa com um farnel para os guerrilheiros do MPLA. Que, coitados, deviam estar cheios de fome! E de cansaço! Vinha recrutar-nos a nós, crianças, para irmos com ela naquela piedosa romaria. Subimos a Serra no Toyota Corolla amarelo torrado até ao miradouro. Estava lá estacionado um carro blindado. Com um jovem guerrilheiro do MPLA. A mãe da Sara procedeu à sua oferenda de sandes de queijo e fiambre, acompanhadas de sumo de laranja natural. O rapaz recuou. Ela então bebeu um pouco de modo a provar-lhe que não estava envenenado. Uma senhora tão fina preocupada com guerrilheiros! Arregalava os olhos. Encontrámos ainda outro guerrilheiro e repetiu-se a dose. Igualmente atrapalhado, mas com um sorriso trocista, pelo que regressámos aos nossos lares, a mãe da Sara bem feliz por haver alimentado dois guerrilheiros do MPLA para terem mais força para dar tiros aos da UNITA.


Com tiroteio à porta, guerra no país, famílias acampadas no corredor de casa, a minha avó teve uma trombose. A debandada geral começara. Todo o branco se ocupava a encaixotar os seus bens terrenos. "Não lhes hei-de deixar nada!" - ouvia-se a cada dia. Nós deixámos quase tudo aos nossos criados e a maior parte da biblioteca foi doada ao MPLA. Como à minha irmã não podia faltar determinada medicação, a minha mãe resolveu seguir a turba na travessia da ponte aérea.
Pouco antes da partida, avistara de carro uma colega de escola, uma repetente crónica que já tinha 16 anos. Era uma mulata enorme, alta e forte, que gostava de se entreter a aterrorizar os colegas mais miúdos. Naquele dia, vestia uma farda das FAPLA. Estava encostada a uma viatura militar, conversando com os seus novos colegas. Embora tivéssemos acabado de frequentar a mesma escola, percebi que os nossos destinos iriam irremediavelmente divergir.


Pouco tempo faltava para partirmos e eu encarava tudo como uma grande aventura. Mas olhei para a espatódea no passeio frente a minha casa. Quantas vezes eu subira aquela árvore! Agora tinha de dizer-lhe adeus. Trepei uma última vez, sentei-me num dos seus robustos ramos. O conforto peculiar de estar empoleirada numa árvore. Não é um conforto físico, é mais um aconchego, um abrigo verde. Aqui e ali, flores cor de laranja, como labaredas a desafiar a verdura. Pensei na minha partida, pensei que tinha onze anos, que aos onze anos da minha vida iria para Portugal. Que preferia ter dez. Mas que, mesmo assim, era ainda criança. Eu não queria crescer. Ser grande, essa meta tão almejada pela maioria dos miúdos, a mim repugnava-me. Ser grande, para mim, era conviver com a morte. Era ter de ir ao cemitério. Os adultos tinham sempre tantos mortos! A minha mãe não nos deixava entrar no cemitério do Lubango. Ficávamos de fora, a olhar os altos muros, o enorme portão de ferro trabalhado para lá do qual os mortos descansavam. Eu não sentia curiosidade. Preferia ser criança e não ter de ver. Os adultos morriam com doenças estranhas. Nós, as crianças, nós não morríamos. Mas então pensei num miúdo amigo meu que morrera havia pouco, com uma doença lenta e terrível. Houve missa na igreja do meu largo, o Largo de Camões. A minha mãe participou na cerimónia, nós não. Éramos protegidas da morte. Fui tomada então por um súbito pavor. "Mas é raro! Mas é raro!", tentava eu descansar-me. Caía em pavores, da morte, das "almas do outro mundo" sobre as quais tanto falava uma vizinha nossa, dos feitiços, kazumbis dos kimbandas, do incontrolável, das forças maiores do que nós, das forças invisíveis. A presença do invisível sempre me pareceu óbvia.
Apesar dos seus percalços, a infância ainda assim me parecia um refúgio contra a morte. Além da associação entre o estado adulto e a morte, havia ainda o vago desprezo que eu nutria pela gente grande. Já não conseguiam brincar. Poderia haver maior condenação? Só sabiam falar. Andavam sempre a falar. A maior parte deles levava vidas desinteressantes. Nunca lhes acontecia nada. Nunca eram raptados por índios. Ficavam nos cafés a parlapatar como parvos em vez de irem subir às árvores como eu. E eram realmente grandes e desajeitados. Não cabiam em sítio nenhum e perdiam toda a graciosidade. As crianças a correr eram leves e rápidas; os adultos eram sempre pesadões e as mulheres uma desgraça, com as pernas travadas pelas saias, os saltos altos a impedi-las de avançar e as mamas a dar a dar. A queda de um adulto era embaraçosa. O chão estremecia com o estrondo do peso. Eles próprios sentiam um embaraço que se lhes via na cara. Mas as crianças até a cair tinham agilidade e graça. Os adultos, nem sequer dormir sozinhos conseguiam. Em suma, eram uma tribo ridícula.
Ainda assim, os homens tinham certas vantagens. Sabiam correr bem melhor do que as mulheres e alguns, como o pai da Sara, punham as mãos atrás das costas quando caminhavam. Eu achava que aquilo "dava estilo". Alguns homens até eram caçadores, como o Martins. As mulheres não. Pintavam-se muito. Pareciam palhaços tristes. Usavam penteados altos e armados como morros de salalé. Subiam as escadas em bicos de pés, as pernas ânforas gregas enfiadas em saltos muito altos. Tudo nelas falava de artifício e desconforto. Não pareciam muito humanas. Também os apertos de mão dos homens tinham muito mais estilo que as mulheres e os seus beijinhos sociais. Eu gostava de dar apertos de mão. O Mário C., com as famosas sobrancelhas farfalhudas, um dia deu-me um aperto de mão - e comentou que eu tinha "muita força". A mim, que tinha o culto da força. Olhei, fascinada, para ele e ganhei o dia.



Espatódea
A minha vida de princesa africana ia acabar. Ia principiar a minha vida de cigana lusa. Aos onze anos desci de carro as laçadas da Serra da Leba, atravessámos o deserto do Namibe, dormimos uma noite no Colégio das Doroteias. Acordámos cedinho, o tempo fresco de Moçâmedes, a areia do Colégio era como a da praia e havia baloiços e balancés frente ao nosso quarto. Contempleio-os com melancolia, como se pressentisse que a minha infância estava prestes a terminar. Não naturalmente, mas por imperativos históricos, muito maiores do que eu. Adeus balancés. Eu seguia por um barco de carga para Luanda, o meu pai ficaria provisoriamente, regressou ao Lubango, a mãe deu-lhe da amurada um saco. E depois descobrimos que se enganara, entregara-lhe as nossas provisões para a viagem em troca de um saco cheio de cascas de fruta. A minha mãe no seu mais típico. Ficámos sem nada para comer.
O barco estava pejado de futuros "retornados". As pessoas acomodavam-se em qualquer sítio. O barco era só metal, ferrugem desagradável ao tacto, um pouco sujo. Eu nunca andara de barco, excepto a travessia do Tejo no ano anterior, durante a "licença graciosa" da minha mãe. Mas este era muito maior, um barco de carga. Havia uns poucos camarotes, disseram-nos que eram do capitão e demais tripulação. E que havia o porão. Fomos ao porão. Descemos para um buraco por umas escadinhas de ferro e não havia lugar para pormos um pé. O porão era um amontoado de gente. Gente que se barricava na sua bagagem, tentando um mínimo de privacidade para a sua família. Gente com bom aspecto, bem vestida, homens fortes de olhar triste, havia pouco tão alegres nas ruas e nas casas que deixavam para trás. Eram como os homens que eu costumava ver no Lubango, na pastelaria Flórida, no Combinado, na livraria Lello ou na Académica. Agora, sentados no chão, apertados no porão, eram como porcos num curral. Pareciam escravos brancos. Escravos brancos num porão. Ó ironias da História! Tornei a subir a escadinha de ferro apressadamente. A minha grande aventura começara a amargar.
Onde ficar? Onde passar a noite? Percorremos o barco, encontrámos uma secção ao ar livre cheia de longos toros de madeira empilhados uns sobre os outros. As pessoas arranjaram um espaço para nós as três. Subimos para cima dos toros, que depressa nos maçaram as costas com as suas esquinas afiadas. Na outra ponta queixava-se uma senhora que conhecíamos. Era uma das senhoras dodós da UFA. Também vivera na Laje. A sua voz erguia-se num lamento:
- E eu que ontem até fui ao cabeleireiro! Oh, meu Deus! E afinal isto é o barco que nos dão! Um barco de carga! E eu que fui ao cabeleireiro, pensando que, já que nos tiraram tudo, nos dispensavam o "Príncipe Perfeito"! Tiram-nos tudo e ainda por cima nos põem num barco de carga!
Depois falou nos terroristas, referindo-se aos pretos, claro, sobretudo os do MPLA, um bando de ladrões. Ela ultimamente até punha um saquinho com umas poucas moedas perto das portas e janelas a ver se eles se contentariam com aquilo e se iriam embora sem lhe assaltar a casa a sério. Até os terroristas, por serem pretos, eram subestimados. Eu tinha boa opinião dos terroristas. Afinal, desde muito pequenas, a parelha que eu formava com a minha irmã era conhecida como "As Terroristas". Deviam divertir-se à brava, esses tais terroristas, se eram capazes de semear o terror, como nós entre a demais criançada.
Mas the times they were a-changin’. As antigas estruturas desfaziam-se em pó. As senhoras dodós do Lubango eram lançadas em barcos de carga sem qualquer conforto ou cabeleireiro, sós, desprotegidas, rumo ao desconhecido. Rumo ao desconhecido. Num barco de carga rodeado de mar, uma extensão sem fim de água anoitecida, monótona e informe. Incapaz de adormecer com o frio da noite no mar alto, com as luzes, o barulho, o movimento e a impossibilidade de qualquer conforto vindo dos toros de madeira, pus-me a olhar a juventude do barco. Tinham subido para a amurada, feito uma grande fogueira, e tocavam viola com as suas grandes guedelhas e calças à boca de sino. A juventude dos anos setenta. Um contraponto em relação à cena lá de baixo, do porão. Eu cantava para dentro "Another time", haviam-me oferecido o single, só tivera tempo de o ouvir uma vez. Não me queria esquecer da melodia. "Another time". Outro tempo vinha de encontro a nós no vento do mar alto, varria-nos para longe.




O single "Another Time"

Nada para comer. No outro dia, eu e a minha irmã tínhamos fome. Uma senhora conhecida trouxera um frango de churrasco embrulhado em papel pardo. Ofereceu-nos. Devorámos-lhe o frango todo. Um rapazote gordo lia banda desenhada da "Lola" e do recruta Zero. Eu conhecia as tiras da "Lola" e do "recruta Zero" da última página do Diário de Luanda. E o "Archie". Eu adorava o "Archie", mas isso fora uns anos antes. Talvez 1972. Mas agora era 1975 e estávamos num barco de carga a comer frango de churrasco. A senhora ficou sem nada para comer.
Depois chegámos a Luanda. Os futuros "retornados" enchiam o cais e as ruas adjacentes, havia bichas por todo o lado, parecia que Angola inteira se juntara para partir. Sem saber o que fazer, subimos por uma rua ao acaso, ao longo da qual se desenrolava mais uma grossa fila de gente. No meio da multidão, porém, por puro acaso e sorte, avistei o meu tio Francisco e o meu primo Tomás. Procuravam-nos. Explicaram que aquela gente não tinha ninguém em Luanda, estavam a tentar inscrever-se para serem alojados algures até que fossem metidos num avião para Lisboa. Nós, felizmente, tínhamos família em Luanda, podíamos ir logo embora dali. Metemo-nos no carro e breve estávamos no largo da Vila Alice, na casa da tia Lusitana Liberdade. Ali esperaríamos o nosso avião e empreenderíamos a viagem pela ponte aérea e pelas malhas que o império tecia.

Nos arredores de Luanda, na base militar portuguesa, foi onde instalaram os refugiados sem família na cidade. Um primo nosso levou-nos lá. Que triste, lá continuavam eles como porcos num porão, barricados em malas, uns em cima dos outros. Disponibilizavam-lhes apenas duas casas de banho, as bichas eram terríveis. Só esses se mantinham em pé. Davam uma lata de sardinha enlatada por dia às famílias, duas se tinham crianças. Estavam quietos, só no olhar a revolta se traía. Enjaulados. À espera do avião que os depositaria na Metrópole, para muitos território ignoto, onde também não conheciam ninguém. Eu sondava o chão, estava cheio de cápsulas de balas que recolhia com fervor. Era uma criança tonta, que amava armas e balas. G3. kalashnikov, bazooka, morteiro, granada - palavras centrais no meu vocabulário de então. Muitos anos depois, soube que, entre essas cápsulas, havia balas não disparadas e até granadas. E que uma outra criança, por esses dias, recolhendo por ali despojos de guerra como eu, ficou sem um braço quando uma granada lhe rebentou na mão.
Informaram-nos de que certo dia haveria num avião lugar para nós. Um enorme avião russo. Perto do nosso lugar havia um menino pequeno chamado Cristóvão. Um pequeno retornado louro que decerto esqueceria Angola. E ouvia-se o Samba Pati do Carlos Santana, de quem eu desconhecia o nome mas amava o som. Algo diferente vinha de encontro a mim. Sentia isso distintamente.
Mal pusemos pé em Lisboa, de novo a cena se repetiu, o porão no barco, a base militar. Lá estavam eles, mais retornados e mais retornados ocupando o chão por inteiro, acampando no aeroporto, quietos, com o mesmo olhar perplexo. E nós sempre a escapar a isso, tínhamos muita família em Portugal.



Retornados acampados no aeroporto da Portela

Chocou-me, Portugal, chocou-me linguisticamente. O seu vocabulário, a sua gramática. A tia Alba Constança e o tio Júpiter Lusitano haviam alugado uma casa de campo nos arredores de Sintra, pouco tempo antes da Invasão dos Retornados da família. Orgulhosos que estavam, apressaram-se a levar-nos de carro até lá. Eu olhava pela janela a tal Metrópole e não dizia nada. A tal Metrópole, em 1975, parecia-me toda muito pobre. Aquelas povoações de casas mesquinhas, baixinhas, aqueles homens farruscos, de grandes barrigas, mal amanhados e com bigode, à porta das tabernas... Então isto é que era a tal Metrópole? A estradazita manhosa em que, periclitante, o "Dois Cavalos" seguia... que motivo havia para orgulhos? Não percebia. A tal importância da Metrópole parecia ser desmentida a cada passo. Como podia tudo aquilo ter importância? Mais do que as chamadas províncias ultramarinas? Era tudo mentira, estava à vista que era. O sol brilhava sobre casas apodrecidas e vedações atabalhoadas, confeccionadas com paus e plásticos sem ordem ou gosto, a delimitar pequenas hortas verdes de aspecto desleixado. De repente, numa curva, consegui ler uma tabuleta torpe de madeira, meio caída numa dessas vedações. A tinta azul desbotada, haviam escrito numa caligrafia tosca: "Não bazar o entulho". Não vazar o entulho! Que feio! Aquilo não era a minha língua. Não sei por que carga de água, conseguia compreender o sentido, mas aquilo era muito estranho, diria mesmo estrangeiro. Na minha língua dizia-se "Não deitar lixo" numa placa enxuta e com letras de imprensa. Então mas que raio de coisa era esta tal Metrópole, afinal? "Não bazar o entulho"? Aquilo soava-me a muita miséria, a muita ignorância, a demasiada consonância com a paisagem em redor.
Depois, quando chegámos à casa de campo, não era nenhuma casa de campo. Era uma casita no meio de uma aldeia, com cinco assoalhadas, duas em baixo e três em cima, geminada com outra. O campo estava em volta da aldeia, não estava ali. A estrada passava mesmo em frente ao pequeno quintal. Eu imaginara, claro, uma casa de campo na acepção africana, uma mansão opulenta, com piscina, muitas árvores, court de ténis, que sei eu! Uma coisa à escala africana. Até hoje se mantém o meu desfazamento de escala. Chamam quinta ao que eu chamaria pequeno jardim. Exclamam com orgulho: "É grande, não é?" E eu penso: "Isto?" As palavras são as mesmas, o significado difere.
E o tal campo, era só pinhal! Uma estrada a dividir um pinhal. Os pinheiros não são árvores muito excitantes para alguém que as dividia segundo o critério de "serem boas para subir" ou "não serem boas para subir". O chão era terra, pinhas e agulhas de pinheiro, uma monotonia até ao mar.
A aldeia tinha casas brancas e pequenas e velhas de preto na soleira das portas. Pareciam bruxas e nunca me passaria pela cabeça dirigir-lhes palavra, mas a minha irmã era uma comunicadora nata e em breve pôs as velhas de conversa. Pergunta resposta pergunta resposta, a minha irmã num ápice despejou a versão dela da nossa vida toda no largo da aldeia. Eu preferia brincar. Sonhava brincar na tal casa de campo que afinal era aquilo.
Tive outro trauma linguístico pouco tempo depois. Em plena paragem de autocarros do Campo Pequeno. Vi aproximar-se um autocarro verde de dois andares, como o eram nos idos de setenta, e pude ler distintamente o seu letreiro: "Picheleira". Oh, meu Deus! Oh, meu Deus! Picheleira! Picheleira? Seria possível? Não tinha recuperado do choque, quando novo autocarro se aproximou e os meus olhos incrédulos distinguiram: "Galinheiras". Galinheiras? Galinheiras? Ó meu Deus, mas que assustadora terra era aquela cujos autocarros rumavam a tais lugares, às Galinheiras e à Picheleira? Que horríveis não seriam para conseguirem suportar tais nomes? Que país era aquele para onde me haviam trazido? Que profundamente contrário a tudo quanto eu fora. Naquele cair de tarde, olhei os portugueses a meu lado à espera de autocarro. Eram estrangeiros, até na sua língua me eram estrangeiros. Gente assustadora que se ia enterrar em sítios chamados Picheleira, chamados Galinheiras.


Quando entrei para o liceu, tinha colegas cujos pais, nas férias, iam "para a terra". A expressão, usada com muita frequência, causava-me viva estranheza. Se ao menos dissessem "para uma terra chamada..." ou "para a terra deles", eu compreenderia. Mas assim, "para a terra", que raio, o que é que queriam dizer com aquilo? Então não estávamos todos na Terra? Até parecia que os pais deles eram alguns extra-terrestres! Lá em Angola, estavam todos na Terra e na sua terra. Se fossem algures, pois iam para Luanda, ou para Moçâmedes, ou para a Metrópole. Para a terra, só se fosse para debaixo dela. "Ir para a terra" soava a muito mau agouro, mas os pais daquela gente passavam a vida a ir para a terra.
Outra que me matava era a do "lugar". Havia miúdos cujos pais possuíam ou trabalhavam num "lugar". Mas como seria possível não trabalharem num lugar? E diziam: "Vou ao lugar comprar batatas fritas Pala-pála." Durante muito tempo estes "lugares" permaneceram altamente enigmáticos para mim. Demorou bastante até descobrir que se tratava de pequenas mercearias.
Além do que, os portugueses chamavam camionetas aos autocarros ou machimbombos (deformação do inglês machine boom boom); e malas às carteiras e pastas de livros; e frigorífico à geleira; e gelados aos sorvetes; e comer à comida; e hospedeiras de bordo às aeromoças; e "ténis" aos kedds; e pastilha elástica ao chuínga, deformação do termo inglês; e pensos rápidos às curitas; e amendoim à ginguba; e pequeno-almoço ao mata-bicho; e batata-doce ao cará. Usavam palavras esquisitas como charneca e azinhaga e abalar e o dito entulho. E expressões ainda mais esquisitas como "estou deserta para ir à praia" em vez de "estou ansiosa..." e "faz-me espécie" em vez de "faz-me impressão". Nas aldeias, tratavam por "canalha" a miudagem. E os verbos, que desacerto, coisas que arranhavam os ouvidos, há-des, puzi-o, fizi-o. Então estes é que eram os portugueses mais portugueses?
E em Portugal havia peros e peras, pêssegos e alperces e mosquitos e melgas. Em Angola só havia peras, pêssegos e mosquitos. Por outro lado, eu dizia, por exemplo, "sobe nas minhas kakundas" em vez de "sobe para as minhas costas" e "Que kambuta!" em vez de "Que baixinho!", "Estás com tchimpululo!" em vez de "Estás com inveja!". De vez em quando, gramaticava à preto, afirmando que "sonhara no" em vez de "sonhara com o" e pedindo "Jura com Deus!" em vez de "Jura por Deus!". Enfim, metia-me em becos comunicacionais sem saída porque os miúdos de cá não entendiam o que eu estava a dizer.


Em Lisboa, íamos ao IARN que ficava ao lado do Museu de Arte Antiga. Estava sempre cheio de retornados a fazer bichas para receberem subsídios. Retornados exaltados, discutindo política, amaldiçoando os políticos. Descíamos aquela escadaria cruzada que vai dar à 24 de Julho. Um dia fomos ao Cais da Rocha, que se assemelhava então a uma cidadela de caixotes. Vagueando pelas suas ruelas, líamos os endereços inscritos nos caixotes, descobrindo alguns nomes de gente conhecida. E, a meio de uma dessas ruelas - ei-lo! -, um pequeno saco da TAP, sem endereço algum, que continha todas as nossas fotografias de infância. Chegara. Muitos caixotes nunca haveriam de chegar. A Sara e os irmãos ficaram sem qualquer foto de infância. Passados sem registo material.


No dia 11 de Novembro de 1975, claro que eu sabia, havia muitos meses, que nessa data Angola se tornaria um país independente. Mas só mais tarde, seriam dias, um mês, meses mais tarde?, ouvi comentar-se a independência de Angola em casa da tia Alba Constança.
- Nós seguimos aqui a cerimónia da independência, pela televisão. Foi muito bonita. E tenho de confessar que me comovi um bocado quando vi aquela bandeira de Portugal a baixar! Aquela bandeira de Portugal a baixar! Ai, foi muito comovente! Concordamos com a independência - mas aquela bandeira a baixar! São coisas muito fortes!
- A 11 de Novembro! - informei eu, para o caso de eles não se lembrarem. Estava surpreendida por terem dado na televisão a independência de Angola. Não imaginava que fosse o género de coisa que aparecesse na televisão. Eu não entendia nada de televisão. Tive o privilégio de uma infância sem televisão. Em Angola não havia televisão. Em Portugal havia e os miúdos andavam sempre a falar do Vicky, da Heidi, do Marco. Eu detestava tais animações.
- Foi muito comovente! - continuou a tia Alba. - Digam lá o que disserem, foi muito comovente! Ver a bandeira de Portugal a descer e a de Angola a subir!
A bandeira de Angola foi uma desilusão. Aquelas complicações amarelas no centro não se comparavam à eficácia simples da estrela. Adorava aquela bandeira. Estava entre as melhores, quase tão boa como a da Arábia Saudita, a do Nepal e a do Butão. A bandeira do MPLA e o grito da UNITA: Kuatchá África! Kuatchá Angola! Kuatchá UNITA!

11 de Novembro de 1975: independência de Angola.

Mas não me importava muito. Nem não ter visto a cerimónia de independência na televisão me provocou mais do que uma vaga pena. Aquele novo país, com uma bandeira nova e um hino novo já me não dizia muito respeito. E, no entanto, só abandonara Angola havia pouco mais de um mês. Já só contava o Otelo, o Fabião, o Diniz de Almeida, o Vítor Alves. PCP. PS. AD. UDP. Estes nomes e siglas é que ocupavam agora as nossas vozes e o nosso pensamento. Um barbudo de olhos enormes aparece na televisão a arengar e depois atrapalha-se, olha para os lados, diz coisas como o que é que se passa, mas o que é que se passa. 25 de Novembro. Era o Duran Clemente. Avionetas militares cruzam os céus de Lisboa. General Costa Gomes. Eanes. Pinheiro de Azevedo.



Otelo e Vasco Gonçalves

Vagueava pelas ruas de Lisboa, desde a minha escola no Bairro Azul. Com os meus colegas retornados, temporariamente instalados de graça no Hotel Ritz, passava pelo Tribunal, íamos até Campolide, Amoreiras, Artilharia Um, Travessa da Légua da Póvoa. Comprávamos castanhas no inverno. E pevides e tremoços a velhinhas pobres de negro que os vendiam em bancazinhas minúsculas por toda a Lisboa. Com os colegas de Lisboa, o Gigante, o Gadelhas, o Barata, o João Luís, o Sputnik Chuáck, escorregava por um barranco abaixo em perigo de derrocada, descíamos até à Praça de Espanha e íamos visitar o Museu Gulbenkian. Avenida Elias Garcia, Avenida Cinco de Outubro. Pendurávamo-nos nos eléctricos, atirávamo-nos deles em andamento e subíamos a correr as escadas rolantes do Metro que desciam. Uma vida lisboeta. Com o Sputnik Chuáck ia até à Avenida da Liberdade, à Feira do Livro, a comícios e manifestações. Schweppes, Sumol, gelados Olá. O Crispy, o Super-Maxi, o Epá. Chocolate Toffee Crisp. Água de Carvalhelhos. Muito vadeei eu por Lisboa nesse primeiro ano. O meu pai estava em Angola, a minha irmã andava noutra escola, a minha mãe nem sei onde andava. Diz que andava nas bichas do IARN, a tratar de papelada, a recomeçar a vida num novo país, a comer ao almoço um cacho de uvas.




Manifestação
Morávamos em casa alheia. Mandaram-nos embora ao fim de um ano. Enfiámo-nos então na casa de aldeia, a tal casa de aldeia que me haviam mostrado à chegada. Por fim, arranjou-se um apartamento em Alvalade, já eu tinha treze anos. Os meus pais, com quase cinco décadas de vida, recomeçaram do zero. À procura de casa. À procura de emprego. A nossa casa era um acampamento cigano. Bem longe da vivenda da Laje. Colchões no chão. O guarda-fatos, uma corda atada ao longo de uma parede. Pilhas de malas faziam de móveis. Eu e a minha irmã escorregávamos pelo corrimão das escadas abaixo ou equilibrávamo-nos sobre o parapeito da varanda. Os rostos das vizinhas assomavam às janelas. Nunca tinham visto nada assim. Crianças retornadas! Macacos de África! Hard times.

Chacóia


Brincava eu na vivenda da Laje, na garagem penumbrosa, quando senti alguém aproximar-se. Rodei a cabeça na direcção da porta. Vi o vulto negro de um gafanhoto gigante, todo braços e pernas recortado em contraluz. Fui tomada por uma vaga de terror. No segundo seguinte, reconheci a Chacóia, mas já era tarde demais. O pavor deu-me ousadia e atirei-me a ela aos socos e pontapés, gritando-lhe vai-te embora! Tu não podes entrar aqui! Devia ser muito pequena, porque toda a minha violência não sortiu efeito algum. A Chacóia olhava-me a rir, perguntava pela minha avó. Por fim, virou-se, saíu da garagem e deixou-me na porta a vê-la afastar-se de costas.
Eu não gostava daquela mulher.

Era incapaz de entender a razão do clima amistoso que reinava em volta da Chacóia. Parecia um louva-a-Deus, muito alta e magra, com dentes protuberantes. Tinha no riso a malícia do vício, um riso que diz: "Pedem-me para deixar o vício mas desconhecem as alturas sublimes a que ele conduz!". A sobranceria na servidão.
Aparecia enrolada nos seus panos nativos. A minha avó, a minha mãe davam-lhe vestidos, mas a Chacóia não os queria. Porque havia ela de andar ataviada com as roupas dos brancos? Porque pensavam os brancos que as suas roupas eram melhores? Provavelmente preferia os seus panos. Mas sobretudo vendia os vestidos para ter dinheiro para a pinga. A pinga era a sua perdição. Era uma grande bêbeda. Fazia tudo por um copinho.
A Chacóia aparecia enrolada nos seus panos, por vezes com um bebé minúsculo sumido nos ramos nus e longos dos seus braços. Com a indiferença e ausência de esforço com que se transportam panos da louça. Criaturas subnutridas, engelhadas, às portas da morte, que seriam enterradas pouco depois. Era demasiado bêbeda para conseguir criar os filhos que breve desapareciam da face da Terra. Mas, naquele tempo, ninguém tomava isso como assassínio. Quando a minha avó dava um pedaço de pão à bebé, ela arrancava-o e engolia-o ela. "Criança não quer! Criança não gosta! Criança já comeu!"
Algo nela me perturbava, talvez os filhos para a morte, o seu riso ébrio, talvez a vida enigmática, as suas perdas de consciência nas valas à beira dos caminhos, as roupas rasgadas, as tareias que levava.


Duas décadas volvidas, perguntei bruscamente:
- A Chacóia era uma puta, não era?
Com a certeza absoluta da resposta, como se sempre a tivesse conhecido. A minha mãe olhou-me com espanto. Não tanto pela pergunta mas pela palavra prestes a sair-lhe da boca:
- Era! - e, por o enunciar, foi como se o tivesse descoberto naquele preciso momento. A sua amiga de infância, a nossa mais assídua visita gentia, a estimada Chacóia, só naquele momento foi vista de um ângulo até aí obnubilado. Porque não era aquilo que importava na Chacóia. Nunca o fora.
A Chacóia era uma puta bêbeda, mas a amizade que lhe tinham na minha família impedira que vez alguma tivesse ficado reduzida à sua profissão. Nunca ninguém a descrevera assim. Só eu, durante mais de duas dezenas de anos, guardara essa suspeita nebulosamente, recondidamente, sem nunca até então chegar ao estado da formulação verbal. O eco de certos conselhos da minha avó em conversa com ela - "Fica só com um! Só com um, estás a ouvir? Arranja um homem bom!" -, a malícia no riso da Chacóia em resposta, haviam-se inscrito em mim, eram um desses milhares de trilhos que nos compõem. Nunca o seguira até àquele súbito dia e descobri que desembocava numa constatação: a de que a Chacóia era uma puta. Foi o que eu vi ao fundo do trilho, no manuscrito que só então desenrolei.
A partir desse dia, a frase "era uma puta" pôde ser dita, mas pôde ser dita por um acto de profanação. Profanação de uma amizade que vinha de muito longe.


De Chacóia conhecia-se os pais: foi a única filha serôdia de Sekulo (velho) e de Luzia, empregados do meu bisavô. Em criança foi trabalhar como criada para a Quinta da Liberdade. Como era da idade dos meus tios tornou-se mais uma companheira de brincadeiras. Adoptou-os como seus irmãos brancos. Chacóia era meiga e alegre, muito alegre, nada a conseguia aborrecer. Andava sempre a rir. Brincalhona e divertida, ralhete algum conseguia abalar a sua boa índole. Toda a gente gostava dela.
As suas irmãs brancas resolveram ensiná-la a ler. Deram-lhe um nome bem português: Maria Amélia. Mas ler não era com ela. Maria Amélia nunca aprenderia a ler. Ficou para sempre Chacóia.
Quando Chacóia era adolescente, o meu avô ficou gravemente doente durante três anos antes de morrer, de uma doença estranha e sem nome. Quando uma crise o atacava, a pequena Chacóia largava a correr para ir chamar o médico que morava longe. Largava a correr com as suas longas pernas debaixo da maior chuvada, chuvada africana, dez mil cascatas caindo do alto. Outras vezes, Chacóia galgava a inteira noite escura, sem parar um momento, descalça pelo mato. Se já gostava dela, a minha avó passou ainda a gostar mais.
Aos quinze anos da vida de Chacóia, deu-se um acontecimento que iria imprimir um rumo decisivo na sua vida. Durante três dias desapareceu com uma amiga ligeiramente mais velha. Quando regressou, tinha descoberto os homens. Nunca mais os largaria. As desaparições tornaram-se frequentes.


Chacóia em criança: na ponta direita, atrás da árvore (é óbvio que não foi convidada para a fotografia). Em primeiro plano, a minha mãe, uma amiga e uma irmã. 1939.


Quando a minha mãe regressou a Angola, depois de se formar e viver em Portugal, quis a Chacóia como criada. Quis também, diz ela, idealista sem cura, moldá-la num ser pensante. Chacóia: um ser pensante!
Para moldá-la num ser pensante trocou todas as regras. Nunca ninguém dava salário à Chacóia, conhecendo o seu fim mais do que certo: transformação miraculosa em vinho. Mas a minha mãe insistia em fazer dela uma criatura responsável. Pagava-lhe no fim do mês. Enquanto não bebia era uma criada de excepção. Uma criada que garantia que não tornaria a beber. A minha mãe acreditava, claro. Mas era demais para a Chacóia. Mal se apanhava com a féria, ala com ela, desaparecia durante dias com todos os vestidos que a minha mãe lhe dava. Que a Chacóia andava linda, calçando sapatos e tudo! Ataviada nas belas roupas que a tia Tágide Dione e a tia Miosótis Dulce carinhosamente haviam confeccionado para a irmã.
Tia Miosótis erguia aos céus olhos escandalizados:
- Oh! Quando eu vi uma sombra negra com aquela blusa encarnada!... Aquela blusa encarnada! Tu foste dar aquela blusa!
Por esse tempo tinha Chacóia um homem, um homem apaixonado. Todos os dias vinha buscá-la, o homem, ficava à espera no portão do meu quintal. Chacóia não lhe ligava, não queria ir com ele. Fazia-o esperar. Fazia-o esperar muito tempo, para que ele desistisse e fosse embora. Ele, porém, esperava por ela, esperava sempre. Chacóia tão linda, Chacóia com seus vestidos, os vestidos de Chacóia punham-lhe a cabeça à roda:
- Chacóia - boniiita!
Chacóia troçava dele, que ele gostava dela mas ela não. Tinha fraquinho por mulume (homem) branco. Era vista a rondar o quartel, cheio de filhos da Metrópole enviados para a Guerra Colonial. Tropas, camionistas, Chacóia preferia mulume branco.
Quando fomos embora e o meu pai ficou, tomou-a outra vez como criada. "A melhor criada do mundo!", exclamava ele. Toda a gente achava graça a Chacóia.
Toda a gente menos eu.


Quando nos fomos embora, ela veio despedir-se. Chorou, chorou muito, tão triste, tão triste, Chacóia atirou-se ao chão:
- Nunca mais vou ver! Nunca mais vou ver! As minha irmãs branca!
Sabia que ficava só. Eram toda a sua família. Mas essa família pertencia, de algum modo, um modo perverso e longínquo, inscrito na cor da pele, a outro continente, embora tivessem todos nascido no velho solo africano e alimentado-se dele para crescer.
Apenas a tia Estela Marinha regressaria ao Lubango. Tornou-se no amparo de Chacóia, já muito doente, com hemoptises, mas sempre bêbeda, sempre nas valas. A minha mãe escrevia-lhe, a ela, que nunca aprendera a ler e as cartas eram a sua maior alegria. Teve uma morte terrível. Só, à beira da moribunda, a sua irmã branca, a tia Estela Marinha.


A última fotografia de Chacóia, já doente no Hospital. Pedia que "as suas meninas e os seus meninos" - referindo-se aos meus tios e tias em Portugal - lhe enviassem "um casaco cor de vinho".


Kissongo

Kissongo também chorara:
- Ficamo sozinho! Os branco estão nos abandonar!
Kissongo tão triste.
Da idade das mais velhas, Kissongo fora amiga de juventude da tia Lusitana Liberdade. Kissongo era então muito elegante, possuía linda voz, voz de fada negra, muito dada a pedinchar:
- Lusitana, tenho fome! Dá-me pão! Então não puseste nada no pão? Põe conduto no pão! Lusitana, dá-me muxinha p'ra cutunga (linha para coser)! Olha o meu pano, está roto! Dá-me muxinha p'ra cutunga!


Kissongo casou com Lupito.
- Eu não gosto do Lupito, de noite não presta!
- Mas ele é tão bom! - contrapunha a minha avó, contrapunha toda a gente.
- Sim, é bom. De dia é bom, mas de noite não presta!
Lupito, esse, amava Kissongo. Mesmo ela não o querendo, não queria ele outra mulher.
O casamento durou. Sempre os conheci já muito velhinhos e curvados, Kissongo sem sombra da beleza de outrora. Visitavam-nos por vezes, devagarinho e sorrindo, vindos das suas cubatas, magrinhos, só com o seu tchinkuáni dependurado à cintura. Kissongo mais rebiteza, o Lupito muito doce. Para mim eram só dois velhinhos gentios, de que muito gostava. Fazíamos uma festa ao vê-los chegar, mas percebia que havia todo um passado partilhado entre a minha avó e eles, entre a minha mãe e eles. Uma amizade velha e fácil, da qual eu não fizera parte, que pertencia a um tempo outro da cidade do Lubango.


Lupito morava sozinho numa cubata da Quinta da Liberdade. Kissongo vivia na serra. De vez em quando, visitava o marido, fazia-lhe o favor. Lupito vivia sozinho, não queria outra mulher. Um dia entrei na sua cubata. Um pequenino espaço circular, sombrio, um leve cheiro a katinga, com umas cabaças pelo chão térreo que não faziam senão acentuar a nudez geral. Um pequenino espaço circular e todo um mundo de diferença.



Muílas e sua cubata. Anos 60.
Kaindangongo


Kaindangongo tinha três, depois quatro, cinco anos. Era sobrinha de Kissongo. Também vivia na serra. Quando ia à cidade trocar coisas, Kissongo deixava Kaindangongo na Quinta da Liberdade. Tão linda, Kaindangongo. Com trancinhas. De tchinkuáni e colares de missangas. Tão esperta, Kaindangongo. Kissongo dizia era mais esperta do que podiam imaginar. Que Kaindangongo só falava olunyaneka. Descia a serra sempre a falar com as árvores, a falar olunyaneka. Quando a deixavam na Quinta da Liberdade, os miúdos pegavam nela, davam-lhe banho, vestiam-na à moda das crianças brancas. Tão linda, Kaindangongo. Quando eu nasci, Kaindangongo já não existia sobre a Terra. Morreu muito nova. Kaindangongo para sempre criança. Durante mais de seis décadas sempre criança na memória do punhado de brancos que brincou com ela nos anos trinta do século passado. Kaindangongo tão linda a falar com as árvores.

Menina muíla

O Chuva


Tio Júpiter tinha um moleque chamado Chuva. E tinha uma bicicleta sem licença. Quando estava na tropa, o tio Júpiter não comia ração como os recrutas negros. Era-lhe trazida diariamente uma merenda pelo Chuva. Júpiter não o sabia, mas o Chuva costumava ir ao quartel levar-lhe a merenda todo impante montado na bicicleta do patrão. Certo dia, a Polícia apanhou-o sem a licença. E apreendeu-lhe a bicicleta. Por mais que o Chuva protestasse que a bicicleta não lhe pertencia, a Polícia não se demoveu. Bicicleta sem licença tinha de ser apreendida. Quando Júpiter teve folga e voltou à quinta, descobriu que a bicicleta desaparecera. O Chuva meteu os pés pelas mãos. Júpiter vociferou: "Não quero saber de desculpas! Quero a minha bicicleta! Arranjaste o sarilho, agora desenvencilha-te! Paga a bicicleta! Só sei que a quero de volta!"
Chuva desesperou. Tanto que lhe veio uma dessas ideias ditas luminosas, que disparam faíscas no meio da escuridão mais profunda. Dirigiu-se ao posto da Polícia e ordenou:
- O Sô Comandante do quartel manda buscar a sua "biscreta"!
Escutando tal, e para alívio do bom do Chuva, os polícias afligiram-se:
- Eh, pá! Por que é que não disseste logo que o teu patrão era o Comandante do quartel?
Em suma, devolveram-lhe a bicicleta.

Certo dia, o Chuva comprou um par de sapatos ténis brancos, sapatos ténis branquinhos. Passaram a ser toda a sua vaidade.
- Meus sapato branquinho! - exclamava amiúde, com deleite, olhando o alvo par de ténis.
Mal se sujaram um pouco, porém, o Chuva precipitou-se a dar-lhes um valente banho. Previsível - não para o Chuva - resultado, os sapatos encolheram. Deixaram de todo de lhe servir. O tio Júpiter surpreendeu-o precisamente no momento em que fazia uma força danada para os enfiar nos pés.
- Ai, os meu sapato branquinho! - gemia o Chuva.
O tio Júpiter perguntou-lhe:
- Então não vês que não te servem mesmo? O melhor que tens a fazer é cortar a parte da frente, de modo a deixar os dedos de fora! Não tens outro remédio!
- Cortar meus sapato branquinho? - protestou o Chuva, quase em pranto - Não quer! Aiuê, meus sapato branquinho!
Júpiter atirou então, com deleite antecipado:
- A menos que os teus pés encolham!
Chuva ficou então como que petreficado:
- Êh! É, patrão? Meus pé pode encolher mêmo?
Tio Júpiter nada respondeu e afastou-se.
À noite, o Chuva desencantou uma liga e, com toda a determinação da esperança, enfaixou os pés. Bem apertadinhos para poderem caber nos sapatos ténis. Nessa noite, sofrendo de dores terríveis, não conseguiu dormir. Mas tamanha causa merecia tal sacrifício.
No dia seguinte, os sapatos ténis, branquinhos, elegantes, pareciam irremediavelmente mais longe dos pobres pés inchadíssimos daquela alma devassada.



Tio Sereno Lusitano, tio Júpiter Lusitano e tio Léon Lusitano. Lubango, anos 50.

O Pintaças

No tempo em que Kaindangongo falava com as árvores, contam os meus tios que lá no Lubango havia o Pintaças. O Pintaças gostava de se embebedar com os seus compinchas no Carnaval - e fora dele - e causava distúrbios na ordem pública. Num desses carnavais, um polícia abordou-o:
- Queira acompanhar-me!
E Pintaças, que dedilhava uma guitarra, perguntou:
- Em que tom?


Um dia, foi ao matadouro e trouxe de lá uma braçada de chifres. Com o seu peculiar carregamento, começou a andar pela cidade de casa em casa, gritando:
- Quem quer chifres?
Ninguém respondia. Ninguém queria chifres. E ele então volvia com voz ainda mais sonora:
- Olha, estes já têm!
A Polícia acabou por o prender. Naqueles tempos, a Polícia tinha pouco que fazer. No dia seguinte, digerida a bebedeira, ao sair da cela, os chifres foram deixados para trás. Um polícia de guarda disse-lhe:
- Leve os chifres.
Resposta do Pintaças:
- Olhe, eu não os quero. Fique o senhor polícia com eles!


Na Estação Zoológica, Pintaças pintou um mural com uma cena da selva, completa com um enorme leão preso a uma árvore por uma corrente de ferro. O director da Estação indignou-se:
- Então você faz-me o leão preso com uma corrente? Que jeito tem isso?
No dia seguinte, do mural desaparecera o leão.
O director voltou à carga:
- Então que é do leão, homem?
Resposta do Pintaças:
- Você não queria a corrente, não era? Então, de que é que estava à espera? O leão fugiu!
Isto que se passou no Lubango, no Planalto da Huíla, no interior de África, é em tudo semelhante ao que se passa nas histórias dos pintores chineses que penetravam nas suas montanhas de tinta e cujos dragões largavam a voar do papel onde haviam sido pincelados.


Fotografias: de desconhecidos, da net e de vários membros da minha família.

2002
 http://demandadodragao.blogspot.pt/2006/03/memrias-malhas-que-o-imprio-tece.html

sábado, 3 de março de 2012

Portugal, os Estados Unidos e a Guerra Angolana

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António Monteiro, Embaixador. Comunicação apresentada na conferência internacional Portugal, a Europa e os Estados Unidos, Lisboa, Outubro de 2003
1. Rupturas

Novembro de 1975. O Boeing 747 da "Ibéria" ultimava os preparativos para levantar voo de Kinshasa. De repente, apercebi-me de que havia agitação junto à porta que a tripulação do avião se preparava para fechar. Pouco depois, o comandante do avião aproximou-se de mim. Disse-me que as autoridades locais pediam que eu abandonasse definitivamente o avião. Em tom firme, acrescentou que só o faria se quisesse. Olhei para a minha mulher e para a minha filha e ponderei a resposta. Decidi pela positiva, com a condição de elas também ficarem, bem como toda a nossa bagagem, que incluía o próprio carro! À saída, um funcionário zairense que conhecia vagamente limitou-se a esclarecer que eram ordens do Presidente, acabado de chegar do Gabão. Pensei então, como agora, que para a decisão do Presidente Mobutu contribuíra fortemente o parecer da Embaixada americana.
72 horas antes, recebera das mãos do Ministro dos Negócios Estrangeiros do Zaire uma curta comunicação, cortando relações diplomáticas com Portugal. A razão foi-me apenas comunicada verbalmente: as autoridades portuguesas tinham acabado de abandonar Angola e, nesse próprio dia, 11 de Novembro, o MPLA proclamava em Luanda a independência do país. Em vão procurei chamar o Ministro à razão e fazer-lhe ver que se tratava de uma reacção emocional, sobretudo prejudicial para o Zaire e para os angolanos, além de dar um sinal errado para África: Portugal era "punido" quando concluía o ciclo das independências das suas antigas possessões no continente, tanto tempo exigido pela comunidade internacional. Em conformidade com os Acordos do Alvor, Portugal saíra de Angola entregando a soberania ao povo angolano. Não houvera uma transferência de poderes para o MLPA, nem um reconhecimento de qualquer Governo angolano. Bula Mandungu não se demoveu, bloqueado na tese do conluio de forças portuguesas com o MPLA visando a derrota dos dois outros "movimentos de libertação" reconhecidos pela OUA, a FNLA e a UNITA. Saí do seu Gabinete com a nota que determinava também o meu abandono do país, onde, desde 1971, desempenhava funções diplomáticas sob diferentes chapéus. No mesmo dia, os Embaixadores de Cuba e da União Soviética conheciam destino idêntico ao do Encarregado de Negócios de Portugal...
O prazo de três dias que me fora dado decorreu num ápice. A primeira preocupação foi assegurar a defesa dos interesses portugueses, que ficou a cargo do Canadá. As consultas para a escolha deste país e as negociações triangulares com o Zaire nesta matéria ocuparam a maior parte do tempo disponível. O resto foi dedicado à organização da transferência para Lisboa de tudo o que não pudesse ficar em Kinshasa ou ser destruído e aos problemas relacionados com o destino dos restantes funcionários da Embaixada. Por isso, apenas tive discussões mais aprofundadas sobre o assunto com amigos da Embaixada americana. Discordavam da decisão tomada e pareciam surpreendidos com ela. Interrogavam-se, sobretudo, sobre se o Presidente tivera tempo de ponderar a situação, antes de se ausentar do país.
Poucos dias depois da cena imprevista no aeroporto de N’djili - e depois de regularizada de novo a situação na Embaixada, com a substituição da bandeira canadiana pela portuguesa - parti para Lisboa, chamado em serviço. A guerra em Angola estava no auge e começavam a chegar a Kinshasa notícias alarmantes sobre a debandada militar das forças da FLNA, e seus apoiantes, do norte de Angola. Em Lisboa, encontrei o ambiente político e social tenso e preocupante dos dias que antecederam o 25 de Novembro.
Menos de seis meses antes, fora já expulso de Kinshasa. Em Maio, o mesmo Ministro dera-me 24 horas para abandonar o país, na sequência de uma entrevista dada pelo ex-Alto Comissário para Angola, Almirante Rosa Coutinho, considerada pelo Governo zairense como insultuosa para com o seu Presidente. Voltara, contudo, ao meu posto, três semanas depois, conforme acordado num encontro entre os Ministros dos Negócios Estrangeiros dos dois países (Melo Antunes, do lado português). Dessa vez, creio, não houve qualquer intervenção americana, até porque o meu regresso coincidiu com a expulsão do Embaixador americano, acusado de dirigir uma conspiração da CIA visando o derrube do regime do General Mobutu... Esse foi então o ponto mais baixo das relações entre os dois países, tradicionalmente aliados. Culminou um ano de tensão provocado por uma excessiva aproximação do Zaire à China (apesar de se enquadrar na via de abertura de Nixon a Pequim) e, sobretudo, pelo corte de relações com Israel, decisão tomada por Kinshasa na sequência da guerra de Outubro de 1973. Mobutu procurava afirmar a sua estatura política "independente" em África e no Mundo (a "doutrina da autenticidade", simbolizada na alteração do nome do país de Congo para Zaire) e captar apoios financeiros árabes, bem necessários face à queda do preço do cobre e ao desastre económico da "zairinização" decretada em Novembro de 1973.
A evolução dos acontecimentos em Angola obrigou, rapidamente, à reposição da normalidade das relações entre Washington e Kinshasa. O reforço do poderio militar do MPLA, intensificado a partir dos Acordos do Alvor graças ao apoio soviético, traduzira-se na expulsão de Luanda da FNLA e da UNITA (Julho de 1975). O golpe foi sobretudo duro para Holden Roberto que até aí confiava na superioridade militar do seu movimento, apoiado pelo Zaire e por forças dissidentes do MPLA. A UNITA jogara sempre numa outra perspectiva: a das eleições prometidas pelo Alvor, que esperava possibilitassem à sua base de apoio ovimbundu conceder-lhe uma significativa fatia do poder, que a sua componente militar estava longe de poder assegurar-lhe. O resultado da luta em Luanda, porém, liquidou na prática a esperança eleitoral e a execução do acordado no Algarve. O Governo quadripartido de transição esboroou-se e Portugal era, na realidade, uma mera potência administrante formal, incapaz de gerir a cada vez mais acentuada internacionalização do conflito. É preciso não esquecer que a prioridade em Portugal foi, ao longo de 1975, assegurar a própria existência de um regime democrático no país...
A importância do controlo exclusivo da capital de Angola pelo MPLA, a poucos meses da data acordada para a independência do território, levou a Administração Ford a aumentar substancialmente a ajuda "encoberta" à FNLA. Começou igualmente, embora em menor escala, a conceder apoio financeiro à UNITA. Kinshasa era o centro das operações e o Zaire instrumental para o êxito de uma estratégia que visava declaradamente conter o avanço comunista na África Austral. Havia também interesses económicos directos ou indirectos para ambos os países em Cabinda, onde a "Cabinda Gulf" detinha a exploração do petróleo.
As reviravoltas da evolução política pós-revolucionária em Portugal inviabilizaram qualquer cooperação sistemática entre Lisboa e Washington em matéria de descolonização. Os sectores politicamente influentes em Portugal, quer no MFA, quer nos partidos políticos, dividiram-se em Angola entre os três movimentos de libertação, segundo as suas preferências ideológicas e o seu alinhamento com um ou outro dos blocos antagonistas. A história do relacionamento luso-americano em relação a África também não era confortável, embora o tempo tivesse amenizado o confronto da época Kennedy-Salazar. Em 1970, um estudo do National Security Council sobre a África Austral excluía peremptoriamente a possibilidade de um colapso português em África. Em Dezembro de 1973, Henry Kissinger escolhera Lisboa como primeira etapa de um périplo, que incluiu Madrid e Paris, de agradecimento pelo apoio prestado durante a guerra israelo-árabe desse ano. Mas a tradição anti-colonialista americana excluía manifestações públicas de cooperação de política africana entre os dois países. Além disso, discretamente, Washington mantinha a tradição de um apoio limitado à FNLA de Holden Roberto, a partir de Kinshasa. Em contrapartida Mobutu autorizara, desde 1970, uma presença diplomática portuguesa no seu país que favorecera, entre outros, o desenvolvimento de laços económicos com Angola. Quando o 25 de Abril ocorreu, a situação político-militar em Angola estava, assim, estabilizada, tanto mais que o MPLA, sediado em Brazzaville, ainda se não recompusera do abalo provocado pelas dissidências da chamada "revolta activa" e, sobretudo, da bem mais importante, do ponto de vista militar, "revolta do Leste", chefiada por um chefe carismático como era Daniel Chipenda.
Na primeira fase do período pós revolucionário em Portugal ainda ocorreu a mais séria tentativa política de encaminhar a independência de Angola num sentido pró-americano. Em Setembro de 1974, o então Presidente português, António Spínola, encontrou-se secretamente no Sal com o seu homólogo do Zaire. O objectivo, desejado por Washington, de afastar da futura liderança de uma Angola independente as forças pró-soviéticas do MPLA, gorou-se, porém, logo a seguir com a demissão do Presidente português.
Um ano depois, Washington debatia-se com um dilema quase insolúvel: como conciliar a vontade de impedir uma vitória soviética e (ainda por cima) cubana em Angola, com a imprescindibilidade de uma aliança, mesmo que não declarada, com a África do Sul, único apoio regional que poderia fazer inclinar a balança militar a seu favor. A Administração Ford não foi capaz de o resolver. O colapso no Vietname, a desmoralização do "Watergate" e a oposição interna conservadora contra a política preconizada por Nixon, são geralmente tidos como determinantes na incapacidade americana de contrariar a "ousadia" soviético-cubana em Angola. A impotência portuguesa como potência administrante e a fragilidade inesperada das forças militares da FNLA e do Zaire - não obstante serem treinadas por chineses - acentuavam ainda as dificuldades da gestão americana do "dossier". A intervenção sul-africana - ironicamente o único factor de sucesso relativo no terreno - acabou igualmente por exacerbar as oposições internas americanas e por alienar o apoio inicial maioritário da África negra independente a uma solução respeitadora dos acordos firmados. Consciente da debilidade da situação americana e dos seus aliados, o Presidente Ford tentou ainda, no âmbito da política de "détente", que Moscovo concordasse com uma proposta de supressão mútua de apoio aos movimentos que se opunham militarmente em Angola. Brejnev ter-se-ia limitado a responder que o que "estava a acontecer em Angola não era uma guerra civil, mas uma intervenção militar estrangeira directa, em particular por parte da África do Sul...".
Garantida a posse de Luanda, o MPLA e as forças de apoio cubanas rapidamente avançaram em todas as direcções. No Norte, obrigaram à fuga da FNLA e aliados para o Zaire. No Sul, limitaram-se a aproveitar a retirada sul-africana, decidida depois da adopção pelo Congresso americano da famosa "emenda Clark" que interditou qualquer apoio a movimentos angolanos. Estrategicamente, Pretória reservou a protecção da fronteira angolana com o Sudoeste Africano e dos seus interesses nessa área, nomeadamente a barragem do Calueque construída em território angolano.
A vitória militar foi acompanhada de sucessos políticos. Inicialmente relutante, a OUA reconheceu em Fevereiro de 1976 o Governo do MPLA, consagrando a aceitação internacional da República Popular de Angola. A tentativa da coligação anti-MPLA de estabelecer um Governo alternativo da "República Democrática de Angola", com sede no Huambo, desfez-se com a retirada sul-africana e não obteve apoio de nenhum país. Portugal acabou também, em Fevereiro de 1976, por reconhecer o Governo do MPLA, tal como Mobutu o fez pragmaticamente, embora no seu caso sem abertura recíproca de Embaixadas. Washington optou pelo não reconhecimento, atitude que manteria por longos anos. A presença cubana em Angola constituiu a motivação principal de uma política utilitária gerida em função dos interesses económicos americanos em Angola, nomeadamente a exploração do petróleo de Cabinda.


quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

ANGOLA in Converss de Café por Carlos Mário Alexandrino da Silva

 
Antes de responder objectivamente, permitam que decalque a seguinte definição de História, da autoria do Dr. John Henrik Clarke:

" A História é um relógio que as pessoas usam para saber o seu registo de tempo - político e cultural. Quem são e o que são. Acima de tudo, a história indica às pessoas para onde elas têm de ir e o que devem ser. Existe entre as pessoas e a história uma relação idêntica à que se verifica entre mãe e filho."

Será que alguém em Angola já ponderou, com conhecimento de causa, a história dos seus povos ? Tudo indica que não...A meu ver, Angola é e enquanto tiver tal topônimo sê-lo-à ainda por muitas dezenas de anos, talvez mesmo ao longo de todo este século, uma ficção...geopolítica, uma criação de conveniência, improvisada, artificiosa, de raiz ambundo, adaptada às pressas pelo ex- (será mesmo ex?- SERÁ QUE SAÍU...DEVERAS? MESMO... MESMO?!!!)... colonizador para denominar uma área do ecúmeno que, ao tempo da Conferência de Berlim de 1884/85, nem sequer estava delimitada topograficamente. Como escreveu um dos mais renomados historiadores angolanos da actualidade, o Dr.Carlos Pacheco, "os políticos, em geral, falam muito da guerra em Angola, todavia escapa-lhes sempre o essencial: escapa-lhes a história que, mesmo sem a conhecerem em profundidade, os incomoda e, por isso, preferem ignorá-la" (in OPINIÃO, no EXPRESSO, 31/07/99, sob o título "MPLA e UNITA: não se entendem, porquê?"). Noutro passo do seu importante artigo, Pacheco destaca: "O conflito vem de longe, é secular e radica na própria geografia social, étnica e cultural de Angola."

Com a devida vénia ao autor e ao EXPRESSO, ousamos transcrever desse inédito escrito a seguinte passagem que, em poucas palavras, explicita tudo sobre a etiologia do trágico fenômeno da guerra, já endêmica, a que se vem assistindo naquele pedaço significativo (1.246.700 km2 se... Cabinda fosse realmente Angola mas não o é senão por vil traição dos revolucionários da JSN e pseudo-socialistas portugueses ao Tratado de Simulambuco!) da primeva placa tectônica, a que geólogos e geógrafos chamam de Gonduana, fragmento do Pangéa, geratriz de vários continentes e subcontinentes (Austrália, Península Hindustânica, Antártida, América do Sul):

"No século passado, e mesmo antes, foram permanentes os conflitos, de natureza militar, entre o litoral e o que se convencionou chamar "os povos do vasto sertão" salienta o referido pesquisador, que acrescenta: " A Coroa portuguesa em vão tentou, até à Conferência de Berlim, em 1885, subjugar e avassalar todos esses povos e só alguns, próximos da raia litorânea, se submeteram.". E como não poucas vezes a HISTÓRIA fatìdicamente se repete, assistimos no último quarto de século ao que adiante reproduzo, escrito por Carlos Pacheco, onde relata, em ordem a esse passado, uma situação também vigente em nossos dias, depois da proclamada... "libertação", a qual, na verdade, não foi derrota de ninguém como se propala, com ufania despida de veracidade, pois o que houve, tanto em Angola como em Moçambique, foi uma intencional entrega espúria e desonesta de testemunho em bandeja dourada, do "desistente" ao menos apto dos três opositores, porque já desmantelado e dividido - o MPLA - mas a quem foi passada a programação elaborada pela camarilha criptocomunista do MFA e pelos patrões do Kremlin de Moscovo, ao tempo da URSS; isto quando era indiscutível já uma vitória real, total do ponto de vista militar mas também psicológica e socioeconómica, indesmentível, do colonizador (vidé "SALAZAR, O ULTRAMAR e o 25 de ABRIL", do general Silvino Silvério Marques, editora NOVA ARRANCADA, Abril 2001, Largo do Carmo, Lisboa, Portugal, páginas 92 e 93):
"Nessas acções militares contra o interior - prossegue o precitado historiador -, houve um produto da sociedade híbrida que se plasmou no litoral, resultante do contacto de europeus e indígenas e cujas peculiaridades, do ponto de vista etnocultural, se podem observar ainda hoje em muitos comportamentos, hábitos e atitudes mentais. Esse segmento, constituído por filhos do país, angolanos, em suma - brancos, negros e mulatos -, desde sempre se polarizou no papel de classe intermédia no contacto dos portugueses com o sertão. Foram eles que, praticamente, em regime de monopólio exploraram os caminhos de entrada e saída do sertão, e concentraram nas suas mãos, pelo menos até meados do século XIX, uma parcela significativa do comércio atlântico com o interior, sendo famosas algumas empresas suas cujo tráfico se fazia privilegiadamente com o Brasil, Montevidéu, Argentina e América Setentrional.".

Repare, prezado internauta que está acompanhando esta conversa no Café Luso, no trecho a seguir focalizado:
"Mas esses crioulos não controlavam unicamente as redes de comércio. A sua influência e poder nos escalões superiores da administração pública era indiscutível; como o era também nas forças militares de 1ª e 2ª linhas, onde o seu ascendente numérico foi uma constante até ao 4º decênio de oitocentos. Eram eles que, maioritariamente, governavam os presídios do interior. Porém, os abusos de autoridade e extorsões praticados contra as populações foram tantos, que um ou outro governador mais consciencioso não deixou de os denunciar para Lisboa."

Em particular é bastante elucidativa a passagem seguinte. Nela, o preclaro pesquisador angolano, que foi militante do MPLA... antigo, observa que, na falta de tropa européia "foram esses crioulos - no comando sobretudo dos corpos de infantaria - que levaram a guerra ao interior contra os "gentios", com vista a pacificá-los." E, noutro passo, o autor sublinha que tanto a UNITA como a FNLA, entre outros agrupamentos menos expressivos, "nasceram ou tiveram suporte sociológico e cultural em espaços situados fora da influência tradicional da colonização portuguesa". Um atestado da autenticidade, da "Africanidade", este, que diríamos, se aceitável face ao paradoxo de sua origem etimológica não autóctone porém, isto sim, alienígena, a favor dos dois rivais daquele que é, desde 11 de Novembro de 1975, traído que foi por Portugal, ou melhor, por inescrupulosos militares e políticos socialistas (ou antes... sucialistas) portugueses, o Acordo de Alvor, o DONO DO PODER... e que era o derrotado, o esfrangalhado já muito antes do 25 de Abril de 1974: o MPLA... versão 2 ( a do Neto/Lara...). Um privilegiado "clone"..."quod erat demonstrandum" que até aos nossos dias continua sendo apadrinhado por uma estranha "troika" visivelmente imbuída de paternalismo cìnicamente... neocolonialista. Mas mais significativa ainda, é a afirmação de que o MPLA constitui, na verdade, o corolário cultural resultante da prolongada inserção dos portugueses "na geografia litorânea de Angola", na medida em que, tanto os seus fundadores (todos já desaparecidos e de que não fazia parte o poeta-médico militante do Partido Comunista Português Agostinho Neto... que entrou tardiamente pela porta dos fundos, convidado de conveniência por ter a epiderme mais tisnada pela pigmentação, o que poderia conferir ao incipiente movimento, que não a estava conseguindo em 61/62, maior aceitação entre as massas de pura etnia banto tanto dos muceques lunadenses como de Bengulea, Lobito e demais regiões a sul do rio Kuanza , do norte Bakongo e do Leste, já não falando em Cabinda majoritariamente indiferente até hoje) como os dirigentes civis e militares mais destacados, transportam consigo a chancela inapagável da colonização "quais filhos dilectos da lusitanidade"... Ou seja: clones do colonizador!!!. Pacheco, corajosa e honestamente, ressalta: "Vezes sem conta, ouvi figuras da "nomenklatura" do MPLA citar os adversários como gentios, dizendo arrogantemente: "NÃO TÊM ALTERNATIVA; QUER QUEIRAM QUER NÃO ESTÃO CONDENADOS A SER GOVERNADOS POR NÓS." ...

Silvino Silvério Marques na obra já citada, a páginas 93, escreve:
"É talvez, a mesma característica de guerra civil (e não a de traição) que explica que, em fins de 1973, num gabinete do Ministério do Ultramar, onde se encontravam três Inspectores Superiores do Ultramar que, depois de 1961, haviam ocupado altos cargos governativos em Angola, e um jornalista de Angola, todos felizmente vivos, tivéssemos, pessoalmente, sido solicitados por um delegado do MPLA, vindo do estrangeiro, e que a todos contou a situação catastrófica em que o MPLA se encontrava, para o conduzirmos junto dos responsáveis militares portugueses a fim de lhes propor, em nome do MPLA, a junção do que restava das forças deste movimento às nossas Forças Armadas. Desejavam que, em conjunto, se combatesse o inimigo comum... Tratava-se de um delegado que estava em contacto com um elemento da Polícia Internacional que era, segundo ele, a pessoa que melhor conhecia o MPLA por dentro... Infelizmente o livro do Gen. Spínola e os acontecimentos posteriores obstaram ao seguimento do assunto.(1)"
(1) Cf. J. da Luz Cunha, Kaúlza de Arriaga, Bethencourt Rodrigues e S. Silvério Marques, ÁFRICA.A VITÓRIA TRAÍDA, editora Intervenção, Lisboa, 1977, pág. 255.
Para bom entendedor... Afinal, quem é que estava traindo... os "angolanos"? A UNITA?! A FNLA?!. E ali mais pode ser lido a respeito dessas tentativas de capitulação negociada a que Iko Carreira não ficou alheio, pelo contrário... Que pena o Daniel Chipenda ter falecido, já resignado, sem deixar "testamento político"e Américo Boavida, estranhamente morto (e não pelos "tugas"...) na Frente Leste, não poder ressuscitar como Cristo para contar o muito que sabia...

Questionam-me se valeu a pena a... "independência".!!! Boa piada! Mas...mas... "independência" de quem? Dos povos daqueles quase retângulos geográficos, o pequenino, Cabinda, dos cabindas e iombés, e o grande, a que chamam Angola, que vai do rio Zaire ou Congo até ao rio Kunene e faixa do Caprivi e do litoral Atlántico à divisa Leste com a Zâmbia e a R.D. do Congo? Não de nenhum desses coitados, enganados, espoliados, violentados, aterrorizados por bombardeamentos aéreos da moderna força áerea angolana e dos lançadores múltiplos de projecteis de fragmentação sistemática que matam e mutilam , não desses deslocados em número de milhões dentro e para fora do território, que sofrem privações sem fim, que passam fome, que estão cheios de moléstias tropicais que o colonialista há muito havia erradicado e agora padecem de uma novidade mortífera - a SIDA que já atinge 2 milhões de almas entre 12 milhões que, sem censo confiável, dizem ser a provável popukação das ... "angolas" !!! Posto isto, acham que valeu a pena essa falsa ilusão de "independência", face à situação calamitosa a que estamos assistindo num estado de criação "fantoche" e denominação de fantasia da inspiração do ex-... colonizador, e cujo supremo magistrado, de "jus solis" ao que parece são-tomense (sendo ele, portanto, se essa acusação for vera,um "angolar" e não um "angolano"!!!... tal como o era Hugo Azancout de Meneses, outro são-tomense, que, ao contrário do judeu russo que tem agora o monopólio do comércio internacional dos diamantes angolanos, não pôde ser aceite !!!) é hoje, apesar de, nos idos de 60, ter sido um paupérrimo jovem de família humilde, impreparado, residente num bidonville, num muceque,sem dotes de inteligência privilegiados nem diplomas de Doutorado feito por ele mesmo que o contemplem com um elevado Q.I. o homem mais rico do continente dito "africano". Essa denominação África é aberrante para nós, porque ela também, criação colonialista, de inspiração romana, do latim afirika ou afirigah, pois pêga do latim foi atribuída à nova província criada na actual Tunísia após a destruição de Cartago, e mais tarde pacificamente alargada pelos europeus a todo o continente em tempos recentes e ingenuamente aceite pelos resignados colonizados). Sim, Angola é uma colônia de exploração, ou melhor um grande latifúndio que pertence há 26 anos a um partideco outrora em processo necrótico cujo cacique enfileira hoje entre os plutocratas mais abonados do Orbe sem ter herdado nada de algum Cresus ou beneficiado de um vencimento que a tanto consinta ! Como foi isso? Pois, pois, a troika que pesquise e nos dê a resposta mais convincente que puder bolar... Todavia, parece que a capacidade de aforro do personagem é tão espantosa que pôde adquirir por um preço fabuloso a maior propriedade rural murada , com 700 hectares, existente em Portugal, segundo o jornal O DIABO, vendida não pelo Duque de Bragança, como referiu o autor da reportagem daquele periódico lisboeta, mas pelo Duque de Cadaval. Por seu turno, além de propriedades urbanas que possui em Portugal, nos Estados Unidos, na França e no Brasil, ao que consta, a sua actual esposa teria adquirido mais uma luxuosa mansão em região de lazer sem paralelo... perante a indioferença dos políticos do seu partido e da Assembléia Nacional "angolana"...

Esse enorme espaço geopolítico a que chamam ANGOLA (Mobutu e alguns mais não acolheram o baptismo dado pelo ex-colonizador e rebaptizaram a denominação do estado nacional - Zaire, Zâmbia, Zimbabué, Namíbia, Burkina Fasso, Ambazonia, Tanzânia, etc...) de conteúdo humano multicultural e multilingue, tão diversificado, onde se produz diariamente 1 milhão de barris de petróleo (e não 750 mil como anuncia o governo do MPLA...), ouro negro da mais alta octanagem e não de qualidade média como é o brasileiro ( o Brasil pouo mais produz diariamente), extraido e vendido a baixo preço, dilapidado o seu valor em mobilização de tropas, compra de engenhos de destruição e em proveito de corruptos... "NGOLANOS" (ALTAMENTE COLOCADOS) internacionalmente já identificados por suas escandalosas parcerias com certo aventureiro amigo de Putin, o tal Leviev, judeu russo, israelense, francês, brasileiro.., angolano por concessão especial de seu amigo especial JES e outros estrangeiros (entre os quais Monsieur... Afrique e Mitterrand Filho) que lavam seus ilícitos rendimentos graças a Fundações como a Eduardo Santos e seu patrocinador carioca ODEBRECHT) e de empresas transnacionais...
Esse espaço geográfico 14 vezes maior do que o minúsculo Portugal mas com uma população quase idêntica, poderia, se bem desenvolvido, alimentar fartamente 100 milhões de habitantes e ainda exportar bens essenciais (café, de que Angola já foi, na época colonial, o 4º produtor mundial - e hoje???-, produtos agropecuários, algodão, óleos vegetais, madeiras nobres, açúcar, pescado da rica corrente fria de Benguela que se estende ao longo de todo o seu litoral, por oposição à paupérima corrente quente Brasileira que, como tal, não beneficia a pesca do país-irmão, mármores namibenses idênticos aos mais valiosos que são exportados por Carrara, na Itália, e minérios ricos, inclusive diamantes, ouro, urânio, e os pelets de Kassinga que contêm, em cada tonelada, tanto ouro que só com ele os japoneses (de origem afro, conforme nos explicou o falecido presidente senegalense Dr. Leopold Sedar Senghor referindo-se aos primeiros habitantes do arquipélago do DAÍ-NIPON), realizavam, depois de feita a depuração, o valor do minério importado); esse território, tem agora, repetimos, se tanto 12 milhões de habitantes (menos do que a população da cidade brasileira de São Paulo) a maior parte dos quais, deserdada, ali campeando a morte por todos os lados, sendo, dentre esses, dois milhões e 600 mil deslocados, e cerca de 440 mil refugiados na diáspora vizinha. Nada menos do que 1 milhão são alimentados somente graças a ajudas externas, havendo centenas de milhar de mutilados ( em sua maior parte civis vitimados por minas anti-pessoal, bombardeamentos aéreos ( a UNITA não tem aviação...) e terrestres que destruíram totalmente as mais belas cidades interioranas, indústrias, hospitais, pontes, bairros residenciais, infra-estruturas em geral, actos esses de terrorismo oficial praticados por modernos aviões de bombardeamento e reconheciimento de fabricação brasileira, fornecidos pela EMBRAER e pilotados por mercenários ( até miltares portugueses continuam cooperando com as forças armadas do ... MPLA) ou por estilhaços de projécteis de mortíferos lançadores ASTROS II produzidos pela Avibras de São José dos Campos, Brasil, ou por órgãos de Staline de origem russa... E a dívida externa angolana à Rússia do "czar" kagebista Vladimir Putin, parece que já galgou os 13 bilhões de dólares só com aquisições de armamentos e engenhos diversos destinados a destruir e não a construir nada, em nome dos interesses dos privilegiados clones instalados ao que tudo indica a título vitalício no PODER, em Luanda. Usam processos autoritários, de repressaão policial e da desprezo absoluto pela liberdade de informação carcaterizando-se a sua administraçãode por práticas corruptas que nem na época colonial se registravam com tamanho descaramento e impunidade. O que está em Luanda é um Governo de modelo colonialistal... mas mal copiado dos desistentes quanto a metodologia e ritmo de trabalho produtivo, somente prevalecendo vistosos trajos europeus, inclusive os uniformes militares, as instituições, sistema democrático aparente, etc. não esquecendo certos maus costumes de rapacidade "empresarial". E não faltam, no meio da populaça de Luanda que se alimenta de manjares catados no lixo dos ricos membros do apparatchik do Partido do... TRABALHO (boa piada!!!), nesses mais de 2 milhões de famintos devoradodres de ratos numa cidade que mal comportava meio milhão de habitantes, os que abrem alas para passarem os sumptuosos Mercedes de luxo, privilégio modesto dos Donos do Poder.
Que pena!. Afinal, para quê descolonizar? Teria sido melhor fazer como Salazar - o judeu Elazar que nunca quis ser presidente da república nem enriquecer...- planejava: dar tempo ao tempo, ir autonomizando por etapas, paulatinamente, e preparando negros, brancos e pardos, para essa independência com quadros preparados, de paz e progresso, não de retrocesso, depredação e destruição de patrimonios e direitos... das pessoas.

-Salazar afirmou uma vez :"Ainda não existe uma elite em Angola capaz de administrar o pais independente. Nem na comunidade branca nem na comunidade negra". Terá sido uma afirmação profética ?
Indubitavelmente. O ex-clérigo-ditador, o judeu da família ELAZAR (que, por corruptela deu Salazar, como ele próprio disse a um embaixador de Israel a quem chamou ao seu gabinete numa altura em que Tel-Aviv estava fornecendo armas aos movimentos ditos de "libertação" das colônias portuguesas, manifestando sua decepção porque também ele era de origem judaica... como demonstrou) era um político muito astuto, super-inteligente, mas a meu ver nada simpático (conclusão que sempre extraí das duas ocasiões em que, em condições normais, tive acesso a ele, pois da terceira vez o "todo poderoso ditador" via-se que estava completamente imbecilizado, conquanto na véspera tivessem aparecido no Diário de Notícias, A Voz, Diário da Manhã, etc, transcrições de uma sua muito recente "entrevista" -impossivel!- a um jornal francês de direita, cristão, nem sequer deu mostras de entender o que lhe diziam integrantes de um grupo de deputados puxa-sacos madeirenses, açoreanos e goeses, a que me associei por curiosidade a fim de verificar se ele estava de facto se recuperando milagrosamente como diziam. A D. Maria, sua... "governanta", autorizara a que o víssemos por meia hora (depois de ter recomendado que em hipótese alguma aludíssemos à sua substituição pelo prof. Marcelo Caetano, já efectivada há meses, pois que ele não fôra - e será que entenderia se lho dissessem?!...- informado a esse respeito!!!...). Ocorreu a terceira e última visita na modesta casa que ele habitava e que tinha sido, segundo nos disseram, a do jardineiro e porteiro da assembléia nacional, portanto bem diferente da mansão do Futungo de Belas ... Quando no primeiro semestre de 1966, integrando um grupo de 7 políticos angolanos, após posse em Luanda, fomos recebidos por Salazar no Forte do Estoril, ele nos surpreendeu ao perguntar o que pensaríamos a respeito de uma independência de Angola (vidé www.portugal-linha.pt, Ecmnésia Histórica Colonial), questão a que respondeu o vice- presidente da União Nacional em Angola, deputado Dr. Fernando Sá Viana Rebelo, CONSIDERANDO-A INEVITÁVEL mas a longo prazo e após preparação de quadros e de realizadas condições que a viabilizassem sem conseqüências desastrosas como as do ex-Congo Belga... Eu e o engº Humberto Bessa Victor, que veio a ser director-geral da Aeronáutica Civil de Angola do governo de Agostinho Neto, fomos os únicos que demos respaldo áquele digno e distinto colega que, injustiçado e perseguido, ele que tanto fez pelos angolanos, faleceu em São Paulo, como modesto servidor (supervisor de perecíveis porque era médico veterinário) do Grupo Pão de Açúcar há uma dezena de anos. Salazar desenvolveu o tema, sem oposição, tecendo considerações, na verdade judiciosas como o tempo veio demonstrar, considerações essas que, por não terem sido observadas pelos tecelões abrilistas de independências coloniais "aceleradas" e entrega da soberania a aventureiros imprepoarados e inescrupulosos (leucodermes de, passe o paradoxo, de epiderme tisnada de cor ébano) deram os trágicos resultados que estão à vista... Ele parecia estar cônscio de que o sistema europeu de estado-nação, que afinal foi imposto à África, nada tinha a ver com a realidade humana, econômica, institucional, cultural e psicológica, ali existente.
Impunha-se um período preparatório, de certo modo prolongado, uma espécie de incubação assistida... Mas sem capacetes azuis que, afinal, para nada servem (como aliás também a ONU ... e a ora em extinção OUA que foi feita para cuidar de estados-membros institucional e geograficamente demarcados pelos ex-colonizadores sem nenhum respeito pelos valores tradicionais e culturais e pela verdadeira história dos povos do continente). O sistema Vestfaliano, nascido do tratado de Westphalia em 1648, deu origem pela primeira vez ao estado-nação na Europa. É coisa de data relativamente "fresca"... Os estados Africanos são, na verdade, repito, criações artificiais, improvisações precipitadas pois como Salazar bem sabia, certos estados Europeus são fruto de um crescimento lentamente processado, amadurecido ao longo de centenas de anos... A independência da ex-colônia belga do Congo devia ter servido de "amostragem" para o que poderia acontecer se houvesse em Angola e Moçambique, como ali aconteceu nos fins da década de 60, um processo precipitado de "abandono"... como infelizmente aconteceu.
Por outro lado, vejam bem: Portugal é minúsculo, mal cabem nele os 10,5 milhões de habitantes que possui, Angola tem hoje quase a mesma população e pode, como nos disse o professor de Geografia do Desenvolvimento da Universidade da Florida, Doutor Niddrie, em 1963, no Grande Hotel do Uije, em Carmona (hoje cidade do Uije), alimentar 100 milhões de habitantes (e o Brasil 800 milhões) se souberem aproveitar sua vocação natural de produtor de matérias primas essenciais e de alimentos. Podendo além disso ser um dos raros grandes celeiros do mundo!!! Por que razão há ser só para pessoas de "pele negra" se seus primitivos autóctones eram os boschimanes, que não são negros nem bantos, e sim khoi-sán, de tipo mongol [oide e pele amarelo-terrosa, sim os khoi-sán que os banto recalcaram para sul cometendo já então, há centenas de anos, impiedoso e inumano genocídio, eles que foram como os portugueses porém em escala maior e pior, invasores vindos do Leste africano?
Certa feita eu perguntei ao chefe do gabinete do governadoir-geral Cor. Rebocho Vaz, por que não tinha ido àvante o projecto do governador geral (1961/62) general da Força Aérea Venâncio Deslandes de povoar Angola com imigrantes de outras proveniências extra-africanas, como chineses da Formosa, para o que ali se deslocara o então Director do CITA, coronel ( mais tarde general) Cardoso (mas não o major Carlos Alves Cardoso, que só assumiu, para desgraça do CITA; mais tarde, em 64/65), búlgaros (para o que em 1966 se deslocara a Angola o actual primeiro ministro da Bulgária e ex-rei daquele país Simeão II, ao tempo do governador geral Silvério Marques) e ainda um plano que chegara a ser proposto de colonização do Kuamza Norte e Kuanza Sul por italianos vindos da antiga Somália italiana, e de Malanje por ex-colonos britânicos do Quênia e da Zâmbia (antiga Rodésia do Norte). O dito chefe de gabinete era o tenente-coronel de infantaria Álvaro de Moura Koch Fritz que lestamente me respondeu: "Isso seria desnacionalizante, senhor inspector provincial. Desnacionlizante!" Perplexo e insatisfeito com essa resposta, a meu ver incoerente e colonialista, INQUIRI-O: "SENHOR CORONEL, MAS SEU SOBRENOME PATERNO É ALEMÃO - KOCH FRITZ (SERÁ QUE A TRADUÇÃO SERIA MESMO "COZINHEIRO FRANCISCO?)!. Ele respondeu-me: MEU PAI ERA ALEMÃO. E então eu retorqui-lhe: O Senhor, afinal, está me dando razão. Fala alemão? Resposta pronta: NÃO, NÃO FALO. De novo o interpelei: Acha que é menos português do que os seus camaradas? Resposta: NÃO, EU SOU PORTUGUÊS. Paradoxal, não acham?

Pois os Estados Unidos, a Austrália, a Nova Zelândia, o Brasil, o Canadá, já foram "angolas" subpovoadas e subdesenvolvidas e hoje são grandes e pujantes estados-nações pluriculturais mas em parte a-raciais (sem etnocentrismos muito sensíveis) desenvolviodos e de populações em que , salvo os índios no Brasil que nele querem constituir um estado independente na região central e com reconhecimento da ONU, segundo entrevista recente publicada pelo jornal O Estado de São Paulo, de diveferentes origens geográficas, étnicas e culturais, falando todos a mesma língua por aculturação livremente aceite. A África como um todo, nos seus 30,5 milhões de km2 é um continente enorme, em grande parte potencialmente muito rico e subpovoado, onde o progresso não entra porque, com pouco mais de meia centena de estados mal formados, de que na região subsaariana apenas uns 7 ou 8 talvez possam ser viáveis, na opinião do próprio secretário geral da OUA, tanto administrativa como economicamente - é um desastre global, nela campeando a incompetência, a preguiça, a corrupção, o nepotismo e os sistemas autocráticos militarizados... Uma imensidão perdida para o mundo, enquanto no nordeste brasileiro há quem morra de fome porque não há água para irrigar culturas e a migração para as cidades do Sul produz tremendos fenômenos sóciopatológicos resultantes de inchaços urbanos. Por que não a transferência espacial nestes casos? Não há decassegues (brasileiros descendentes de nipónicos) no Japão em número superior a 200 mil? Por que motivo a África não há-de ser aberta à imigração de qualquer parte do Globo, num planeta que tende para a globalização total como única solução econômica e social e caminha mesmo na direção do governo mundial? Eu desejaria ser "de jure" cidaddão do Mundo e não de A, B. C, D, etc..

Sim, infelizmente, o que eu e alguns outros representantes de Angola ouvimos da boca do velho ex-clérigo... ditador, está batendo certo. Esse estadista, que não encontra paralelo em nenhum outro do finado século, era um estupor, sim, mas um judeu sagaz, experiente, tarimbado e foi realmente profético... Seu único erro foi não ter deixado o Poder após a Segunda Guerra Mundial da qual ele preservou o seu ingrato povo e os das colônias... (duzentos mil africano, negros, morreram na segunda guerra mundial combatendo omo soldados da França e da África do Sul e colônias de Sua Majestade Britãnica). Se houvesse deixado o Poder então, hoje teria uma estátua destacada numa praça pública de Lisboa, em vez de lhe terem decapitado a cabeça na estátua que lhe erigiram em Santa Comba Dão, onde nascera. Os seus opositores, auto-rotulados de "socialistas", "liberais" ou "sociais-democratas", quase todos eles burgueses emergentes sem nenhuma experiência administrativa nem cultura histórica ultramarina, a par de falta de conhecimento feito na vivência colonial, julgando-se "libertadores" e arautos da defsa dos direitos dos povos à autodeterminação e independência queriam ser glorificados e imortalizados nas páginas da sua História Pátria como "heróis da Democracia"e sem nenhum senso de dignidade responsável comportaram-se de forma zoila, irracional, precipitada e leviana, abrindo assim o espinhoso caminho do caos, desde Cabo Verde (cuja inviabilidade econômica, tal como São Tomé e Príncipe, de há muito estava demonstrada) e como Mário Soares já admite, até à longínqua princesinha da Oceania - Timor-Leste onde o próprio Prémio Nobel da Paz Bispo Ximenes Belo, um verdadeiro "timorense" e não um "half-cast" como os que ali estão sendo alcandorados a Donos do Poder, foi de opinião que a independência deveria ser adiada por 10 anos ficando o novo estado ligado a Portugal no quadro de uma união... de estados! Gato escaldado até da água fria tem medo...

- As causas dos erros em Angola. O que é que correu mal em Angola ?

Os erros já vinham de longa data... Mas inegavelmente, a partir de 1961 a política do colonizador foi orientada para um rumo progressivamente autonômico que culminaria com a concessão de independencia algum dia... E Marcello Caetano preparava-a secretamente para 15 de Agosto de 1974, no que concerne a Angola, e para 1975 em relação a Moçambique. Tudo indica que não seria uma independência do tipo "iansmithista"... Seu plano foi traído por um criptocomunista que era um dos seus homens de confiança e que a Moscovo levou a notícia em 73, a tempo de preparar a farsa do "25 de Abril", manipulando ignorantes e usando o narcisismo e a ambição spinolista...

Mas os erros maiores já vinham detrás... Sobretudo desde que a terceira dinastia começou a governar (ou desgovernar?) Portugal em 1º de Dezembro de 1640... A primeira descolonização vergonhosa operou-se em Mazagão, norte de África, no século XVIII. Nem com a implantação da República, em 5 de Outubro de 1910, os socialistas, já os daquele tempo, souberam construir comunidades solidárias, interligadas num grande complexo multi-cultural e unionista, globalizante e cooperante, a-racial ( e não estupidamente voltado para um soi-disant plurracialismo que em si mesmo, como conceito, já contém o vírus do preconceito etnico e etnocultural). Salazar, um judeu lusocentrista ou portugocentrista, apesar da sua indiscutível vocação para administrar, somente pensava nos interesses do seu quintal portucalense, às custas do sacrifício e exploração dos povos colonizados e dos descendentes dos colonos em proveito dos empresários, dos banqueiros e do proletariado têxtil do seu País... Jamais quis visitar os territórios coloniais. Seu Império Colonial era um conjunto de áreas geoeconômicas para exploração e abastecimento de matérias primas a bon-marchée e aquisição de vinho e têxteis, à Metrópole.
Depois das guerras da reconquista e a partir da expansão ultramarina iniciada pela gesta dos continuadores em Portugal da obra dos Monges-Cavaleiros Templários (de que nos primeiros anos do século XIV, 500 foram imolados pelo fogo em Paris, em acto da Inquisição, com a benção do Papa francês a quem o desonesto Rei Filipe O BELO prestava obediência e exercia influência nefasta), pela mão do Rei D.Diniz transformados em Cavaleiros da Ordem Militar dos Cavaleiros de Cristo, por ele criada, sempre os portugueses se revelaram acima de tudo mercadores com entrepostos ao longo do litoral africano, refugiados na doutrina Cristã que os cobria de indulgências, através delas plasmando a sua insaciável ganância e justificando a sua crueldade... Quando a Inquisição se implantou com vigor em Portugal, nos fins do século XV, não hesitaram em arrancar aos pais, judeus, marranos, 2000 crianças numa leva de escravos destinada a povoar, sobretudo com meninas, as desertas ilhas de S. Tomé e Príncipe. Ao fim de um ano 1.400 não haviam resitido à inclemência do clima equatorial. Foram outros desses infelizes obrigados a, juntamente com condenados e vadios, irem povoar ilhas dos arquipélagos de Cabo Verde, onde a Brava se destaca. Dos enviados como escravos para S.Tomé e Príncipe, os sobreviventes miscigenarm-se com negros, escravos, idos do norte do que hoje se chama ANGOLA (antepassados dos angolares). Esses povoadores judeus escravizados pelo Santo Ofício, ou melhor por D. João II, cujo tio-avô D. Afonso, Duque de Bragança, era também um judeu, filho bastardo de D.João I e da sua relação extra-conjugal com a bela judia Inês Pereira, filha de um sapateiro (profissão considerada, pela sua arte, importante nesse tempo, deram origem ao que poderia ser considerado como a primeira nação israelense fora da Palestina, antes mesmo de existir Israel... Azancout de Meneses delas descendia. No século XVII o governo de S. Tomé esteve confiado aos chamados cônegos pardos, "mulatos" (perdoem-me o termo) do Reino do Congo que realizaram uma notável obra de administração.

Na segunda dinastia, no entanto, não pode dizer-se que houvesse a preocupação de impor o dialecto galaico-português de que nasceu a "língua" dita "portuguesa", mas logo a religião cristã, que, a par de obras sãs, tantas crueldades e genocídeos haveria de disseminar, iniciou a sua expansão trucidando, numa acção de inaceitável colonialismo místico, as crenças autóctones, a tal ponto que hoje, em Angola e em Cabinda, os sincretismos como o Tocoísmo (que em 1974 já tinha 100 000 membros em Angola, devidamente enquadradois e organizados, e aos quais o antigo presidente da UN , o caboverdiano Ten..Cor. Piloto Aviador Henrique Medina dera grande apóio que lhe valeu caír em desgraça), o Lassismo e o Kimbanguismo que já tiveram sua época áurea nos anos entre 40 e 70 do século XX, são hoje praticamente inexpressivos... ou inexistentes. Não mais tivemos notícias dos nossos amigos do Grande Conselho dos Anciãos (17 ) da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo em Àfrica de Simão Gonçalves Toco. Poderiam, se Almeida Santos os houvesse recebido quando foi a Angola como ministro em 1974, ter evitado muitos massacres e violências contra europeus em Luanda e noutras cidades de Angola. Mas não foram ouvidos porque um sujeito do MPLA, um tal Álvaro da Silva Franco, mulato de Benguela, chefe de gabinete do Almirante Vermelho R.C., a isso se opôs. Eles só queriam cooperar, mas não foram aceites... Voltando à monarquia Bragantina:
Na terceira dinastia, avolumaram-se os erros da administração colonial seguindo o sistema dito assimilador que não logrou vencer as culturas e línguas autóctones. ANGOLA é um país multi-étnico, multi-cultural, multi-religioso e por isso as elites dirigentes necessitam, para agradar ao eurocentrismo dos "brancos" que lhes contamina as maneiras de pensar e de agir, forjar um sistema que tome em devida conta o que o ex-colonizador não quis nunca acolher com sinceridade apesar de, a todo o momento, proclamar o seu respeito pelos usos e costumes dos vizinhos das "regedorias tradicionais"... Depois das independências na África subsaariana adotaram os diferentes paises, demarcados geograficamente segundo limites de autoria européia e cindindo grupos e subgrupos etnoculturais, como línguia oficial, a do ex-colonizador. A Tanzânia constitui, todavia, a mais interessante excepção pois ali foi adoptada como língua nacional o KISWAHILI. Mobutu, por seu turno, no ora rebaptizado Congo, então Zaire, encorajou o LINGALA.. que não vingou como língua nacional..

Bem, respondendo à sua questão, eu acho que teria sido preferível esperar estes mesmos 26 anos sem nada ter sido selvaticamente destruído; educando, preparando quadros, cuidando da saúde, da habitação, do saneamento básico, da alimentação e do bem-estar geral da população, desenvolvendo o país, entregando o seu, ou os seus (pois Cabinda não é Angola e há outras diversidades regionais a estudar e a contemplar num quadro federativo) governos, aos mais aptos num sistema sem conotações eurocentristas, conforme à cultura, às tradições e à vontade dos povos..._

A descolonização como todos sabem foi um desastre com vergonhosa repercussão internacional. O meu ilustre Amigo sr. General Silvino Silvério Marques, ex-governador geral de Angola antes e depois de 25 de Abril de 1974, recentemente teve que tecer reparos a propósito de uma programa da TV2 que abordou equivocadamente aspectos históricos da antecãmara dessa descolonização de ANGOLA. COM SUA PERMISSÃO, PARA DIFUSÃO EM CONVERSA NO CAFÉ LUSO, DOU A CONHECER O TEXTO QUE AQUELE ILUSTRE OFICIAL GENERAL ME ENVIOU EM MENSAGEM ELETRONICA E QUE É O SEGUINTE:

REPAROS A UM PROGRAMA DATV2

Pessoas amigas chamaram a minha atenção para o programa da TV2 intitulado "Independência Já" que, em 4 episódios de "Africanidade", foi exibido às 23h00 de sexta-feira, entre 21/9 e 12/10. Não fui entrevistado para o programa e a minha intervenção no 1º episódio, que perdi, foi obtida por Joaquim Furtado numa entrevista que me fez, no fim da qual me pediu resposta a umas perguntas, resposta para ser cedida ao autor do programa referido. O programa tem interesse histórico, especialmente quanto a algumas revelações chocantes e tristíssimas , e manteve, segundo me pareceu, relativa isenção. Merecem-me reparos duas afirmações e duas informações, aquelas de políticos de prestígio e estas do programador.

O Dr.Almeida Santos tem a preocupação de esclarecer que divergia do Gen. Spínola quanto à ideia de consultar a população acerca do destino da Província .Tenho de admitir tratar-se de uma evolução sofrida pelo espírito do Ministro da Coordenação Interterritorial, talvez por acção do prec, uma vez que há declarações suas nas quais defende, com o brilho habitual, essa consulta, tal como o Gen. Spínola igualmente fez.. E sobretudo porque me deu como orientação prepará-la, como referi nas palavras que preferi em Luanda, ao assumir o Governo. Não creio que me tenha dado uma orientação em que então não acreditasse.

Grande confusão deve ter levado o Eng. Cardoso e Cunha a declarar, perante as câmaras, que não aceitara o convite para Secretário de Estado da Economia ( por lapso o eng. disse Ministro) do meu Governo e, talvez para justificar a recusa, a dar uma opinião arrasadora quanto à composição do Governo. Foi deselegante e, quanto a mim, injusto. Não só não o convidei, como, cumprimentado no Gabinete, por seu sogro, conhecido empresário de Angola, foi-me sugerido, durante a conversa, que convidasse seu genro para o lugar referido da Economia Informando que se tratava de uma das pessoas que me havia sido recomendada pelas suas qualidades, esclareci que tal não era possível, uma vez que o lugar já se encontrava preenchido. O sogro do Eng. Cardoso e Cunha revelava com essa diligência ter uma opinião diferente quanto à composição do Governo. Este fora constituído por pessoas conhecedoras de Angola e das suas gentes, prestigiadas pelos serviços anteriormente ali prestados, e certamente preparadas para a evolução pacífica que uma consulta às populações viesse a determinar. Acrescento que quem preencheu o lugar que o Eng. disse ter recusado, foi um economista distinto, posteriormente membro de um dos Governos do País.

Quando muito mais tarde encontrei, pela primeira vez, o Eng. Cardoso e Cunha no Congresso dos Quadros Angolanos, falámos e manifestei-lhe a minha consideração pelo seu desempenho na complexa tarefa de organizar a Expo 98. No desenvolvimento da nossa conversa revelei-lhe que o seu era um dos nomes recomendados para Secretário de Estado de Economia que constava de uma relação trazida de Lisboa e que, após troca de impressões, em Angola, com os meus colaboradores, havia optado por outra pessoa, incluída na mesma relação e que também não conhecia. E contei-lhe a diligência que seu parente havia feito.

O programador entendeu referir a criação de 40 "partidos" em Angola e pareceu deixar insinuado que isso aconteceu no meu tempo e evidenciar "descontrole". Trata-se, penso, de reprodução de uma afirmação feita em "O Jornal" de12 de Março de 1976 que dizia: (cit) "Silvino Silvério Marques e o governo por ele formado vinha favorecendo, então, grandemente, o aparecimento de "partidos políticos"... Na vigência do governo de Silvério Marques tinham aparecido, à luz do dia, em Angola, mais de 30 partidos inexistentes antes do 25 de Abril..."(fcit)
Respondi em "O Tempo" de 15 de Abril (e publiquei em "Portugal, E Agora?" Ed. do Templo, 1978, pág. 166) o seguinte: (cit) "A verdade é totalmente diferente. Não ajudei, não apadrinhei, a formação de nenhuma associação política ou partido. Mas não persegui nenhum dos que encontrei. Creio que nos escassos dias do meu governo ( de 15 de Junho a 19 de Julho) nenhum partido novo apareceu em Angola. Sem tempo para consultar os jornais de então da Província, socorro-me da "Revolução das Flores", "dossier" (dirigido e coordenado por Barrilaro Ruas) editado pela Ed. Aster. No 2º. Vol., a pág. 185, em citação de "O Século", informa-se que a 12 de Junho (ainda eu não tinha chegado a Angola) e criados, naturalmente, a partir do 25 de Abril, havia só na capital angolana, mais de 40 partidos..." (fcit)

Não é referida no programa a origem da informação de terem ocorrido 400* mortos nos tristíssimos e graves incidentes que tiveram lugar em Luanda durante a última semana do meu 2º Governo de Angola, incidentes provocados pelo assassinato de um taxista europeu. Na horrível chacina que se lhe seguiu, foram mortos 7 africanos e 1 europeu. Na altura foi propalado que os mortos haviam sido 70, o que me levou a anuir, correndo sérios riscos, ao pedido que me foi feito para que o funeral das vítimas fosse organizado colectivamente em cortejo de pesar público. Tinha-se empolado então o número de vítimas em dez vezes. Sucederam-se tumultos nos muceques com perseguições aos modestos cantineiros, muitos cabo-verdianos, e roubos e destruições de cantinas, o que se admitiu ser preparação para o saque dos estabelecimentos da baixa, como ocorria em outros lugares de África.

Também agora se faz o mesmo empolamento no número total de mortos citado no programa. Na verdade, consultado o 3º. Vol. de "A Revolução das Flores", entre páginas 199 e 215, verifica-se que "O Século" de 18 de Julho de 1974 refere que (cit) "segundo as informações dos hospitais e do Governo o número de pessoas mortas instantaneamente ou em consequência de ferimentos recebidos na semana passada totaliza 40".(fcit) Parece significar isto que é a mesma a origem dos números 70 e 400 e que foi a essa que o programador recorreu. Dir-se-ia que o horror de 7 e 40 vítimas não era considerado suficiente para o efeito que se pretendia obter...

Assinale-se que, poucos dias antes de chegarmos a Luanda, o Posto Administrativo de S. Nicolau havia sido encerrado e os presos comuns haviam sido postos em liberdade, situação que teria facilitado o desencadeamento dos tumultos. O Comando-Chefe a cuja dependência o Gen. Costa Gomes tinha passado todas as Forças militarizadas (Polícia de Segurança Pública e Organização de Voluntários), antes da minha chegada e sem que me fosse dado conhecimento, e que dispunha, conforme o Programa das Forças Armadas, da Polícia Internacional como Polícia de Informação, "controlou" o melhor que lhe foi possível os incidentes, coordenadas algumas medidas com o Governo-Geral.
Refira-se que os dirigentes do MFA local se encontravam sediados no Comando-Chefe. Somente esporadicamente tive contactos com alguns oficiais do MFA. Nomeado Governador-Geral, após consulta efectuada em Luanda pelo Ministro Almeida Santos, era do Ministro que dependia.

Com altos e baixos, os incidentes continuaram até desembocarem, na triste situação actual. Após, o terrorismo de 15 de Março com as suas estimadas (e tão omitidas!) 5 a 6 mil** horrorosas vítimas (número da ordem das vítimas do também brutal acto terrorista de Manhattan) que sucedeu ao sequestro do Sta. Maria e à chacina do 4 de Fevereiro, a paz em Luanda fora mantida até Abril de 1974. Entre nós, foi finalmente entendido por responsáveis pós Abril, em afirmações recentes do Ministro dos Estrangeiros e agora do Comissário na União Europeia, que o terrorismo (por sequestro ou por chacina) não pode servir de meio para obter fins políticos. Tudo, obviamente, de acordo com oportuna (e felizmente moralizadora) política ocidental. Para o Portugal-todo foi pena ser já tão tarde!...

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* Por lapso, referi este número que no Programa era o dos feridos, estes indicados em o "Século" de 18 de Julho como "elevando-se a mais de 160". O número de mortos que o Programa refere é de 186, cerca de cinco, e não de dez vezes, empolado em relação aos 40 de o "Século". Lamentei, em "o Diabo" de 30 de Outubro, o juizo injusto que, com base no meu lapso, havia feito sobre o programador e considerei tal juizo retirado do texto.

** Franco Nogueira, Salazar Vol V A Resistência, Ed.Civilização, 1984, pag. 218

Como se verifica pela leitura do texto acima, a desorientação da cúpula política da Revolução era tal que gerou distorções de informação e incidentes graves, com efeitos calamitosos, e que não foram da responsabilidade do governador geral Silvino Silvério Marques

- Mais recentemente,uma organização não governamental britânica , a Oxfam, chegou à conclusão de que a população angolana só é pobre porque os recursos do pais são mal administrados. O relatório desta organização secundariza a guerra como factor de pobreza extrema em Angola.

A Oxfam - e não só - foi autêntica e sincera e isso está às vistas de todos nós.

As civilizações nunca foram construídas pela força das armas. A veiculação das idéias, das técnicas é sempre o resultado de uma troca, de um acto de consenso. O militar, o soldado olha o outro, o desconhecido, o diferente, como inimigo a abater. O mercador, o comerciante, olha-o, naturalmente, como potencial cliente. Nos meios rurais, é muito forte a permanência de hábitos culturais, ao contrário do ambiente portuário e urbano onde a veiculação de novas idéias desenvolveu um inevitável cosmopolitismo, em Angola dominado pelos circuitos urbanos europeistas; é mister que os que governam entendam que a época colonial não deve prevalecer como síndrome, impõe-se adotar uma nova ordem que respeite os interioranos que são a maioria e ausculte os seus anseios. Mas, aos membros da "troika" (EUA+Rússia+Portugal... sucialista), louvaminhadora de um "ditador- presidente" que continua ilicitamente à frente do Poder Executivo, à revelia da própria Constituição, e com menosprezo por um Parlamento que há muito expirou o seu mandato, interessa a manutenção desse escandaloso "status quo ante" para poderem se locupletar com as riquezas do(s) território(s) de Angola e de Cabinda. E encontram o respaldo de certos sectores econômicos e políticos do Brasil já fortemente implantados em Angola (em 25 de Abril de 1974 havia no País somente 25 brasileiros, hoje devem ser uns largos milhares... Até padres!). Interessa às transnacionais que essa má (aliás, péssima e corrupta...) administração continue e que agências de "marketing político", brasileiras, como a PROPEG e a ORION, a primeira das quais recebeu de JES, em 1992, 100 milhões de dólares US (tão necessários às tarefas de paz que apenas contam com a ajuda dos Médicos Sem Fronteiras e outras ONG´s) pelo seu sujo trabalho de propaganda eleitoral descaradamente apregoado por esses brasileiros até em Portugal, publicamente, em busca de novos clientes entre os partidos políticos portugueses, depois de distorcido o resultado eleitoral [embora devesse ter havido uma segunda volta que nunca se realizou porque terroristas "ninjas" do MPLA assassinaram, impunemente, em Luanda, o vice-presidente e as mais destacadas personalidades da cúpula da UNITA], prossigam - e aí estão de novo, agora com reforço das Organizações Globo, do macróbio Roberto Irineu Marinho, junto da TV Pública de Angola - a sua nefanda acção psicológica, robotizando o cérebro e a vontade das populações urbanas das cidades-chave, já que aos meios rurais, praticamente despovoados, essa media não chega, nem valeria a pena levá-la ao "deserto"... aonde as urnas não chegam. Só essa atitude do JES no Brasil poderia valer-lhe uma comissão parlamentar de inquérito e uma manifestação de "caras pintadas", universiários, a exigirem seu "impeachment" como aconteceu ao Collor de Melo também eleito com a "ajuda" desses dispendiosos "meios de wash-brain"! É espantoso como agora, o novo embaixador norte-americano, mr.William Dell, quiçá bem relacionado com os lobbies afectos à texana Chevron e à Gulf Oil International, etc..., etc.., se entregou a descobrir afinidades entre o governo que representa e o "governo-desgoverno" ilícito de Angola que gasta milhares de milhões de dólares em tanques, aviões, artilharia, treinamentos de Batalhões de Caçadores especiais por... INSTRUTORES COMUNISTAS NORTE-COREANOS que certamente mataram, no passado, muitos soldados americanos naquela terrível guerra lá para as bandas do paralelo 38°, entre as duas Coréias... Para esse embaixador que em Luanda se sente em casa... parece que, quem estiver contra o usurpador do Poder e usuário das mais tenebrosas armas de destruição, morte e desolação, é terrorista; ao contrário do que pensava Papai George Bush quando era Presidente dos StatesI It´s amazing!!!... Seria interessante se ele oferecesse, lá na sua embaixada, um "Pôr-do-sol" à boa maneira "neocolonialista" convidando, para o mesmo, o general cubano que está, como atento conselheiro e comandante da segurança presidencial máxima, no palácio de verão do Futungo de Belas, sempre à ilharga do seu "Bem-Amado" pagante "angolano", que afinal vai dcerto ceder o seu ... "trono" a um "amigo do peito" - da mamadeira do MPLA que não é... o verdadeiro MPLA de Viriato Cruz e dos demais fundadores na década de 50 - e os oficiais norte-coreanos que estão fazendo o treinamento especial dos tais Batalhões de Caçadores de 1.500 homens cada, especiais. Quem teria apresentado esses terroristas norte-coreanos aos altos comandos das FAA? E quem está pagando a conta?

- Tem havido algumas correntes que defendem para Cabinda um estatuto como o da região autônoma da Madeira em relação a Portugal ao invés da autodeterminação que poderia abrir uma outra frente de conflito com os Congos vizinhos.

Na minha opinião, também os arquipélagos de Madeira e Porto Santo e dos Açores, hoje regiões autônomas que já tiveram abos esboços de movimentos de "libertação" que feneceram, deviam ser estados federados. Mummmar Al-Qathafi sempre defendeu o princípio de que o primeiro dos referidos arquipélagos, tal como as Ilhas Canária, fazem parte da África Setentrional e Ocidental, pela sua localização geográfica e tipo de povoamento, e como ele agora é o grande mentor e impulsionador da União Africana, que a partir do próximo ano vai substituir a ineficaz e falida OUA, não se admirem que qualquer dia venha a retomar essa "luta" geoestratégica e ideológica... Por outro lado, a FLA teve nos Açores alguma expressão, conquanto efêmera, talvez amparada pela sua proximidade geográfica com os Estados Unidos, afinidades devido à grande emigração que sempre deu para aquele País e importãncia estratégica de uma base aérea e de uma base naval que foram essenciais tanto na IIª Guerra Mundial como a primeira no socorro a Israel no passado.

O governo de Luanda diz que Cabinda já goza de um estatuto autônomo, mas todos sabem que é um estatuto para "matumbo" ouvir falar e não entender do que se trata... Cruz Gomes denunciou essa farsa num dos seu primorosos e objectivos artigos a respeito de Cabinda Penso que a solução preconizada pelo Arcebispo do Lubango se choca com a opinião do Bispo de Cabinda... Popr quê Timor e por que não Cabinda?!.

Qualquer dia, dentro da mesma linha de pensamento, um qualquer governo de Espanha acaba por jogar na lata do lixo todos os tratados e acordos celebrados com Portugal e exigir a reintegração desse minúsculo retângulo, afinal também um enclave, semelhante ao de Cabinda, no seu espaço nacional, pois fisicamente está ligado ao grande irmão Ibérico, o que não acontece - sublinha Cruz Gomes - com Cabinda e Angola. Cuide-se, senhor Guterres, cuide-se...

- O Governo quer realizar eleições no próximo ano mesmo sem alcançar a paz..

Sem Paz entendo que não existem as mínimas condições para se realizarem eleições e creio bem que esta é também a opinião do Presidente Bush e do Secretário de Estado General Collin Powel. Por outro lado, afigura-se-me que esse processo será moroso e delicado, o controle da eleição terá de ser efectivo e isento, será uma eleição ao sabor do... MPLA. Nada feito. Que a sociedade civil e a Igreja, a par das entidades internacionais que terão de secundar e fiscalizar esse processo, se manifestem sem cair em armadilhas.. A sociedade civil e os movimentos religiosos devem ser ouvidos e exigida a retirada de Angola de agências de marketing político como a PROPEG brasileira que em 1992 para ali fazer "wasbrain" em proveito de dos Santos e do MPLA que temiam o resultado do pleito, recebeu 100 milhões de dólares US... E lá está ela novamente em ação... no território e na mídia oficial angolana.
Rafael Marques tem razão. A fiscalização terá que excluir da troika Portugal e a Rússia para haver credibilidade... e isenção, bem como... o Brasil que tem interesses demais quer pela Braspetro-Petrobras, quer pela EMBRAER vendendo aviões de guerra, quer pela AVIBRAS vendendo engenhos mortíferos, quer pela ODEBRECHT com seus interesses em vários negócios algo sombrios...
Mas sem paz e sossego não deve haver eleições. Confiemos no bom senso do Presidente Bush e do General Powell, únicos de quem se pode ainda esperar uma solução aceitável e merecedora de crédito... Quanto ao sr. Kofi Annam parece que nem vale a pena falar mais nele. Já se sabe para onde pende, com NOBEL e tudo mais... mas o Nobel está tão avacalhado que nem merece qualquer respeito neste século em que entramos. É velharia sucialista lá do Norte do continente europeu.

Carlos Mário Alexandrino da Silva