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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O 25 de Abril: Adriano Moreira depois do exílio

Adriano Moreira depois do exílio
Maria João Avillez

Ministro de Salazar hoje dirigente do CDS, Adriano Moreira faz o ponto de um percurso acidentado dentro e fora do regime, antes e depois do 25 de Abril

«Além, ao fundo, está a Política Internacional e o Direito Internacional… Aqui em baixo, o Direito, muita coisa de História, de Filosofia, algumas memórias de chefes políticos. E aqui, encadernadas a vermelho, as obras do Instituto e as dissertações de licenciatura de todos os alunos, até eu ser demitido.» Encostado a uma das estantes do seu escritório-biblioteca, o olhar aviva-se quando pronuncia a palavra Instituto e percebo como gostaria de se deixar ir atrás do que a memória lhe evoca. Mas, antes disso, antes do professor, do político, do ensaísta, do escritor, está o homem de quem se volta a falar hoje após alguns anos de exílio voluntário e de silêncio.
«Sou muito severo na protecção do direito à minha intimidade…». Apesar disso, alguns momentos depois, diante de uma chávena de café, Adriano José Alves Moreira, 58 anos, abre-me o livro (de leitura densa e compacta e por vezes difícil) da sua vida. Nasceu em Grijó, de Macedo de Cavaleiros. O seu avô materno era um pequeno comerciante e o outro era moleiro. Passou todas as férias com o avô materno (das pessoas «mais inteligentes» que conheceu - e de quem ainda hoje «guarda a influência»). Entre várias recordações de infância surge a figura da tia Maria de Grijó (hoje com 90 anos) que o ensinou a ler pela Cartilha de João de Deus e a quem deve ter feito o curso completo de Artes Domésticas:
«Ela tinha vivido em França e no Brasil como emigrada… E então, deu-lhe para considerar que um rapaz devia saber cozinhar, coser, etc. Para melhor enfrentar os tempos que aí vinham… dizia ela». Entre um pai «sereno, pontual no cumprimento do dever» e que veio para Lisboa para assumir as funções de subchefe da PSP do Porto de Lisboa e uma mãe «penetrante e viva» (e de quem ele fala com uma imperceptível ternura), teve uma infância «modesta e simples, no seio de uma família unida e feliz, e toda vivida ali no Beco de Estevão Pinto».
Fez o liceu no Passos Manuel, jogou «à bola e ao berlinde», mas o desporto mais «refinado» que praticou foi o basquete onde confessa que «era bom marcador». Da sua passagem pela Faculdade de Direito, retém o nome de dois homens: Rocha Saraiva, professor de Direito Internacional, «o melhor professor» que conheceu; Agostinho da Silva, homem de «assombrosa estatura intelectual e grande envergadura humana».
«Nunca pertenci ao MUD»
Formou-se em 44 com 21 anos, data em que assinou umas listas patrocinadas pelo MUD (Movimento de Unidade Democrática) pedindo eleições livres. Mas, conforme diz, «nunca pertenci ao MUD, nem a nenhuma organização política, parapolítica ou sequer desportiva… Sou terrivelmente individualista e preservo a minha privacidade», repete-me.
Privacidade e prática política não podem coabitar? «Nunca houve em mim a necessidade de pertencer a nada… Talvez porque sempre pensasse que isso coarctava a liberdade de decisão. Mas assinei aquelas listas sem hesitar. Tratava-se de um movimento cívico que estava de acordo com o meu feitio.»
É assim, sem particular interesse pela política, e sem outra curiosidade por ela senão a «intelectual», que aos 21 anos entra pela primeira vez num tribunal. «Advoguei muito… Até aos 30. Mas entretanto, com 26, 27, entrara já, como professor contratado, para o Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina».
Deixa o tom de reserva polida com que até aqui me vinha conduzindo pelo seu próprio percurso e entra escancarando as portas de par em par, pelo ISCSPU. Noto que poderia (ou deveria escrever gostaria?) estar horas perdidas a falar-me dele a tal ponto que a pergunta se me torna inevitável: O Instituto foi, é, a sua paixão e obra? «A Escola foi e é a minha vida. A maior parte dos meus aborrecimentos, conflitos e alegrias foi de lá que veio.» Pausa. «Posso dizer que levei dois anos a ter ideias próprias, a perceber a mecânica de uma Escola já antiquada, com uma estrutura descompassada do tempo em que vivíamos… E depois, com vicissitudes pelo caminho, lá fiquei até hoje.»
Volta de novo ao princípio da memória: «Mas foi muito difícil transformar uma escola colonial num Instituto de Ciências Sociais e Política Ultramarina, dependente só da Universidade Técnica. Quando por fim, em 60, entrámos na Universidade, ganhara-se a mais renhida das batalhas ao professor Caetano, que ali queria ver funcionar uma escola de quadros.»
Como um dos seus mais fortes complementos, a Sociedade de Geografia, da qual Adriano Moreira foi eleito presidente em 65, cargo que desempenhou até 75, sendo a partir daí seu presidente honorário. «Depois da Academia das Ciências, não hesito em dizer que a SG é a instituição cultural mais importante do país: possui o melhor museu etnográfico português, a melhor biblioteca sobre regiões tropicais, uma cartografia sem equivalente. Aliás, considero que a SG pode ter, a nível cultural, é óbvio, um papel activo de aproximação com os povos de expressão portuguesa.»
A propósito, peço-lhe que me fale das Comunidades Portuguesas. «Foi outra paixão que seguiu a par com o Instituto», responde.
E outra história para contar. Sentado no cadeirão de couro, conta-me em voz pausada, continuando a fumar. Atarda-se com gosto nos seus mais pequenos pormenores, fala-me de como nasceu a ideia das Comunidades (a partir de um discurso que em 64 pronunciou em Aveiro), da Academia Internacional da Cultura Portuguesa, criada a pedido de 14 professores universitários estrangeiros que ensinavam Português nos respectivos países e que se tinham deslocado a Portugal no âmbito do I Congresso das Comunidades, realizado logo no ano da sua fundação, em Dezembro de 64, em Lisboa e Guimarães…
Hoje? Ele lamenta que «o conflito institucional conhecido - e que leva a que se tenha ao mesmo tempo a comemoração do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades celebrada pelo Conselho da Revolução e o Congresso das Comunidades promovido pelo Governo - se transmita como conflito interno para o seio das Comunidades…»
Ao repetir-me que é o homem do Instituto de Ciências Sociais e Política Ultramarina e do que ele considera «a obra ali feita» (a este respeito dir-me-ia, por exemplo, que «toda a doutrina reformista que se foi fazendo em relação a problemas do Ultramar nasceu lá na Escola»), ele coloca tudo o resto (excepção feita para as Comunidades) num recatado segundo plano.
Mas a verdade é que Adriano Moreira ficará na História por ter sido, em 61, o ministro do Ultramar de Salazar, no início da guerra em África. Fala pouco desses tempos. E sinto-o, mais do que nunca, medindo cada palavra, usando de uma prudência calculada, quase jogando à defesa. Ou… ter-me-ei enganado?
Ministro de Salazar: «o convite surpreendeu-me»
«O convite surpreendeu-me, mas ainda mais me surpreendeu a razão desse convite», explica-me Adriano Moreira. «O dr. Salazar, quando um dia subitamente me convocou para S. Bento, disse-me que tinha lido um relatório que eu escrevera, em 57, como resultado da minha ida às Nações Unidas, integrado na delegação portuguesa, e na minha qualidade de director do Instituto. Disse-me ele assim: ‘O senhor escreveu, em 1957, no relatório que fez, que em 61 íamos ter a guerra em África. Como adivinhou?’ Expus-lhe o meu raciocínio. Segundo o que eu escrevera o calendário de admissão de países na ONU mostrava que em 61 perderíamos a maioria e que portanto os Movimentos de Libertação passariam a ser considerados legítimos pelas resoluções da Assembleia Geral. Por isso tinha escrito que 61 me parecia um limite geral. E então, ele virou-se para mim e perguntou-me se eu era capaz de ir para África executar as reformas que deveriam ser feitas…»
Qual era nessa época, o seu olhar sobre a África Portuguesa? «Era o da Escola: queríamos uma doutrina reformista, posta em prática com a preocupação de uma maior justiça social; pôr em vigor as convenções do B.I.T.; substituir a ideia de assimilação das populações pela de integração; terminar com o estatuto do indigenato; estabelecer a igualdade de direitos políticos». Interrompo-o: e Portugal Continental? E a política interna de Salazar? E a falta de liberdades e direitos? E…e…e…
Com uma serenidade desarmante: «A minha posição em relação ao regime era a de considerar que havia uma grande falta de autenticidade, as leis eram uma coisa e a prática outra». Só? «Por exemplo, no que toca aos direitos humanos… nomeadamente em África…». África outra vez. África sempre? «Era o que me interessava. Nunca segui muito a intrigalhada aqui. Estava fixado lá…». Partiu para Angola com fé e, pouco tempo depois, juntou a essa fé «uma grande humildade»: «Pode não acreditar mas… fui tomado de uma incrível, imensa humildade… perante a obra dos colonos! É falso que Angola tivesse sido feita em cinco séculos, foi em cinquenta anos! Isso deu-me a sensação de que o tempo era curto, demasiado curto, de que era preciso queimar etapas… o que talvez explique o carácter desordenado da minha legislação. Era preciso lutar contra o tempo e todos os dias eu sentia que ele me consumia um pouco mais…»
E não era consumido pela impossibilidade dessa aventura? Pelo seu carácter irreversível? «Não. Em 61, o que era impossível era manter a estrutura. Mas não era impossível reconstruir outra maneira de viver… Aliás, foi nessa convicção que fui amigo do Eduardo Mondlane e que mandei pôr em liberdade o Agostinho Neto. Não acredita?»
Vai, mais uma vez, buscar um livro a uma estante enquanto me confessa que «deve ter para cima de dez mil». Depois senta-se de novo, acende outro cigarro, retoma a palavra onde a deixara: «Sintetizei essa necessidade de mudança num discurso que fiz em Moçambique.»
Abre o livro: «Quer ouvir?: ‘É necessário deitar fora os anéis que fazem sombra aos dedos?». Pousa o livro, olha para mim, insiste no tema: «Não se podia continuar com os sistemas de exploração que assentavam numa concepção já muito antiquada e contra a qual lutavam os próprios administradores em relatórios que um dia hão-de espantar os historiadores.»
Foi-lhe difícil ser ministro de Salazar… até à altura de isso se lhe ter tornado impossível? «Nunca tive um decreto recusado… Salazar era uma pessoa que admitia a discussão dos seus pontos de vista. Era até capaz de os corrigir. Não, não era a regra geral… mas, por vezes, corrigia-os.»
A figura de Salazar está subitamente entre nós. Noto que Adriano Moreira me fala dele com uma moderação que me espanta e sem nunca utilizar palavras como «fascínio», «devoção», por exemplo, ou qualquer daquelas usadas pelos seus pares perante e durante Salazar. Usa de uma admiração limitada e quando lhe pergunto o que pensava de Salazar, diz-me apenas que «quando ele resolvia discorrer sobre algum problema, renascia então o professor de Coimbra. E aí, quer se concordasse, quer não, inspirava respeito…»
Histórias de Salazar
Conta-me pequenas histórias do velho ditador. Como de uma vez em que, chamado ao forte de S. António do Estoril, Adriano Moreira, estando ali perto, resolveu ir a pé, não se fazendo portanto anunciar pela estridente campainha das visitas. Ao fundo da alameda reparou que a porta da capela estava aberta e, de repente, deu com a figura de Salazar, sozinho lá dentro, compondo o altar. Adriano Moreira, perante a inesperada visão do presidente do Conselho arranjando, a sós, as rendas e as figuras do altar, deu meia volta, saiu à rua, e tornou a entrar, desta feita fazendo-se anunciar pelo porteiro e pela campainha: «Não podia desabar assim naquela intimidade…»
Qual era a noção que Salazar lhe dizia ter do país, nessa data? «Suponho que a sua filosofia se resumia neste conceito: a decisão deve pertencer a um homem aconselhado».
Perante a minha incredulidade, acrescenta: «Ele ouvia, ouvia muita gente e olhe que muitas vezes era gente que não era necessariamente do Governo.»
Talvez por isso, Salazar, um belo dia, e na sequência de um processo que começara uns meses antes (e que Adriano Moreira resume como «a sua tentativa de correcção de um sistema, sobretudo económico e financeiro, com as inerentes medidas que se lhe seguiram») chama a Lisboa o seu ministro do Ultramar. O diálogo é conhecido: «Peço-lhe que seja mais suave e que abrande o seu reformismo, mudando a sua política…», diz-lhe o presidente do Conselho.
«Será então talvez melhor mudar de ministro», respondeu-lhe o titular da pasta do Ultramar. Tempos depois, o ex-ministro é sondado no sentido de vir a assumir a pasta da Educação (sorriso). «Seria talvez para abafar ou minimizar o efeito de uma saída como a minha…». E que efeito teve ela sobre si? «Nenhuma amargura. Não cultivo o ressentimento. Pelo contrário, parto para outra, como dizem os brasileiros… Hoje penso que se tratou fundamentalmente de um serviço e que… foi a época de uma obra que ficou no princípio. Quando cheguei voltei para donde saíra: o Instituto.»
Pousa agora um olhar (que sinto que lhe é completamente exterior) na década que antecedeu o 25 de Abril. Quase com secura, resume assim o que viveu, já no continente, entre 64 e 74: «Sentia que todos os dias caminhávamos para uma catástrofe…». E conta-me que num discurso que proferiu em 73, na Sociedade de Geografia, depois de expor o seu ponto de vista sobre a situação política, resumiu assim o seu pensamento: «A salvação da cidade já só poderá ser obra de cidadãos.»
Não, não gostou da escolha de Marcello Caetano. «Ele não era o homem. Chegou lá já tarde demais, como ser anímico… Já não lhe era possível. E a prova foi que o aparelho político já não dava conta dos destinos do país. Mas não direi mais porque não digo do prof. Marcello Caetano depois de morto nada que não tenha dito em sua vida.»
O delfim
Adriano Moreira, o delfim. Quem não se lembra? «Nunca me ocorreu pessoalmente vir eu a ser o ‘eleito’». E para melhor (me) convencer: «Eu não cultivava nem sequer tinha relações pessoais com quem influiu ou interveio nessa escolha».
Se aquilo que ele define como «uma total marginalização» começara com Salazar, mais tarde, com Marcello Caetano, ela torna-se quase obsessiva: «Nunca mais me convidaram para nada, nem para um banquete. Proibiram-me de escrever. Mas o que me foi quase impossível, e que provocou um dos grandes desgostos da minha vida, senão o maior desgosto, foi o ter sido afastado, em Junho de 69, da Escola».
Mais uma vez se levanta, vai buscar outro livro: «Fui demitido de todos os cargos inerentes à direcção do Instituto e ao Centro de Estudos, incluindo a Cruz Vermelha! Eu declarara que ’se as autoridades académicas eram da confiança do Governo - como hoje continuam a sê-lo - essa confiança deveria ser recíproca e o Governo não a merecia’. Fui demitido mas continuei a leccionar até 74.»
E a política? «Encarava-a como um mero cidadão e intervinha apenas ao nível do pensamento e da escrita.»
O pensamento e a escrita. Adriano Moreira escritor ou ensaísta? «Talvez seja uma mistura… mas a veia de escritor só apareceu no ‘Tempo de Vésperas?’ … O resto é tudo a história do presente. A tentativa de interpretação para os factos dispersos…». O resto são vinte e um títulos, repartidos em Política e Direito e Conjuntura Portuguesa.
Que homem está por detrás do ensaísta, do professor, do político? Abre um livro seu, e mostra-me a dedicatória dizendo: «Melhor que as palavras que eu possa dizer, leia o que aqui escrevi…». Ei-las: «À memória de Sócrates, Thomas Moore e Ghandi que morreram de morte violenta e de Erasmo que morreu angustiado». «Penso que você pode dizer de mim que a minha preocupação fundamental é entender… E aprendi muitas vezes que a gente só entende na acção. Isto é, esclarecem-se as dúvidas na acção.»
E agir, para si, foi voltar? Voltar à ribalta mesmo que a porta se chamasse Bragança e o destino CDS?
CDS: das dúvidas à acção
Sorriso onde se instala de novo uma certa prudência. Começa a falar-me mais devagar: «É também um processo de dissolução das dúvidas pela acção». Uma «acção» que ele dá a entender que é quase só confinada à tarefa da Revisão Constitucional, mas da qual há muito quem diga que pretende ser devoradora e ambiciosa: «Lastimo que a vida portuguesa esteja reduzida a um modelo de competição e conflitos individuais de tal modo que parecem raras as interpretações feitas em função do interesse público».
Viu, pode dizer-se, o 25 de Abril como uma coisa esperada, ou melhor, inevitável. E é mais uma vez com um total domínio e clareza de raciocínio que me explica porquê: «O 25 de Abril estava na Revisão Constitucional de 71… Ele tem a sua acta de nascimento na revisão Constitucional clandestina de 71! Porque essa revisão eliminou todos os objectivos coloniais que constavam do título VII e isto sem que o Governo o tivesse dito ou discutido, agindo como de uma maneira clandestina? Eu próprio escrevi sobre isto um artigo para uma revista angolana, ‘Prisma?, o que teve como consequência a expulsão do seu director… do território angolano.»
O 25 de Abril não exerce contra si «uma acção personalizada» como professor do Instituto. Mas quando em Fevereiro de 75 se desloca ao Brasil como advogado, já de lá não regressa senão em fins de 77. Motivo: uma ordem de prisão que alguém lhe comunica para o outro lado do Atlântico. «Convidaram-me para professor da Universidade Católica como coordenador do curso de mestrado de Direito. E foi lá que fundei também o Instituto de Relações Internacionais.»
Desde 75 que Diogo Freitas do Amaral «’me pede que integre o CDS’: «A verdade é que eu sempre pensei que, a intervir, teria que o fazer com legitimidade. Isso quer dizer pelo voto. Foi o que aconteceu. E também o facto de pessoas de uma outra geração - e o 25 de Abril foi um acto de geração - terem considerado, como foi o caso no CDS, com todos os seus fundadores muito mais novos que eu, que a minha presença lhes poderia ser útil».
O que é o CDS? «Que diabo de pergunta… Bom, é talvez o partido com a doutrina mais definida e mais próxima da personalidade básica do povo português, o único, afinal de contas, que poderia corresponder àquilo em que acredito… Mas, em qualquer caso, não tenho vocação para a vida partidária, como lhe disse quando começámos a conversar.»
E a AD? «É um estado de espírito. Que precisa de líderes que o encarnem. E tenho verificado com satisfação que os seus responsáveis constantemente proclamam o seu devotamento a este estado de espírito.»
Eanes? «Tenho o maior respeito pela figura do senhor general Ramalho Eanes. Não tenho o hábito de confundir nem misturar a vida pública com a privada.»
E à despedida: «Tenho a convicção de que uma acção política sadia tem que pôr a experiência dos mais velhos ao serviço da criatividade dos mais novos». O caso de Adriano Moreira?

domingo, 12 de dezembro de 2010

Entrevista a Mário Soares, Ministro dos Negócios Estrangeiros sobre descolonização de Angola

Entrevista inédita de Mario Soares -1974
O então Ministro dos Negócios Estrangeiros português Mário Soares sobre a descolonização em África 
 
 
SP – Sr. Ministro, o Governo Provisório está em vias de conceder a independência às colónias da Guiné-Bissau, Angola e Moçambique. Há portugueses que se interrogam se este Governo de Transição, que não foi eleito pelo povo, mas empossado por um golpe militar, tem legitimidade para tomar uma decisão tão histórica. 
 
MS – Isso nos perguntámos logo a seguir à revolução de 25 de Abril. Ponderamos se a descolonização se deveria fazer apenas após eleições regulares. Mas verificou-se que o problema era candente, que dificuldades e demoras surgiam no processo. E assim convencemo-nos que precisávamos de nos apressar. 
 
SP – Há portugueses que julgam que o Sr. se tenha apressado demais – como em tempos os belgas ao se retirarem do Congo. 
 
MS – Estamos há 3 meses no governo, e entretanto fizemos contactos e progressos, mas não creio que tenhamos sido demasiado apressados.
Pelo contrário. A situação em Angola, que nos últimos tempos se tornou explosiva, prova que talvez não tivéssemos andado suficientemente depressa. 
 
SP – Sobre as condições de independência o Sr. negoceia exclusivamente com os movimentos de libertação africanos. Na sua opinião eles são os únicos legítimos representantes das populações nas colónias?  
 
MS – Bem, se quisermos fazer a paz – e nós queremos sem demora a paz – temos que falar com os que nos combatem. Isto não implica uma avaliação política ou ética dos movimentos de libertação, mas resulta da apreciação pragmática de determinada situação. E quem nos combate na Guiné? O PAIGC. Assim temos de falar com o PAIGC. Quem nos combate em Moçambique? A Frelimo. Assim temos de falar com a Frelimo. 
 
SP – E com quem pode o Sr. negociar em Angola onde existem vários movimentos rivais? 
 
MS – Em Angola há dois movimentos de libertação reconhecidos pela OUA – o MPLA e a FNLA. Assim temos de negociar com ambos. Para avaliar qual dos dois é o mais representativo do povo é um problema que os Angolanos e as coligações que no futuro formarão governo terão de resolver mais tarde. 
 
SP – Acredita que esses movimentos e em particular os ainda discutíveis têm suficiente autoridade de impor a solução que vai ser negociada? 
 
MS – Esperamos que sim. Mas o processo de descolonização em Portugal, no formato, não deverá decorrer de modo muito deferente do da Inglaterra e França. 
 
SP – Na Argélia havia um movimento de libertação muito forte, como no Kénia e sem dúvida também na Guiné-Bissau e Moçambique. Mas e em Angola? 
 
MS – Sim, na verdade em Angola a situação é difícil devido às divisões dentro dos movimentos. E nós não podemos alterar aí quase nada. Estamos prontos a falar com cada uma das facções e, dentro das nossas possibilidades, procurar que se unam. Mas não temos muitas ilusões, as nossas possibilidades de intervir aqui são muito limitadas. 
 
SP – Se o processo de descolonização português correr como o inglês ou o francês, na sua opinião qual será a tendência a seguir - como no Kénia que seguiu a via capitalista, ou como a Zâmbia que tenta uma espécie de socialismo africano? 
 
MS – Eu julgo que é sempre perigosa a transposição de modelos estranhos. Mas, de momento, parece-me que a evolução em Moçambique será semelhante à da Zâmbia. Noutras regiões poderá haver outras soluções. Quando falei da semelhança do nosso processo de descolonização com o inglês ou o francês, pensei mais nas linhas gerais – que nós, como potência colonial, como os ingleses e os franceses, devíamos negociar com os movimentos fortes a operar nas colónias. 
 
SP – E o que virá depois das negociações? 
 
MS – Parece-nos importante que as populações sejam consultadas e que, depois do domínio português, não lhes seja imposto outro domínio que poderá não ter a maioria. Gostaríamos que a liberdade da população fosse garantida e assegurada. Mas temos nós, como antiga potência colonial, autoridade bastante para discutir isso? A nós parece-nos isso muito problemático. Por outro lado, o PAIGC e a Frelimo são movimentos de libertação que em anos de luta renhida pela independência ganharam indiscutível autoridade. Eles têm chefes muito qualificados e conscientes das responsabilidades. Com quem mais, a não ser com eles, deveremos negociar?
 
SP – Sente-se o novo governo português também responsável por aqueles milhares de africanos que, por motivos diversos, colaboraram com o anterior regime?  
 
MS – Certamente que nos sentimos responsáveis por essa parte da população e sobre o seu destino já se falou por diversas vezes nas conversações. No caso concreto da Guiné, onde o processo está mais avançado, tencionamos, por exemplo, repatriar para Portugal os ex-combatentes africanos que o queiram por não se conseguirem integrar na nova República independente. 
 
SP – Quantas pessoas são essas? 
 
MS – Sabemos de cerca de 30 antigos comandos que aos olhos do PAIGC representam um certo perigo. Para estas pessoas temos de encontrar uma solução qualquer – talvez integrá-los nas forças armadas portuguesas ou coisa semelhante. 

SP – Acredita que do lado dos movimentos de libertação exista a boa vontade de não exercer represálias contra os colaboradores africanos do antigo regime? 
 
MS – Sim, isso foi-me espontaneamente assegurado, mesmo antes de nós termos levantado o problema. Também nos deram certas garantias, os movimentos de libertação não são racistas. Eles estão conscientes dos imensos problemas que terão de enfrentar e não querem comprometer já a sua vida política com crueldades e actos de vingança. 
 
SP – No entanto, a “Voz da Frelimo” emissora do movimento para Moçambique tem, nas passadas semanas, por diversas vezes apelado aos soldados negros para desertarem das tropas portuguesas, sob pena de ajuste de contas após a independência. 
 
MS – Uma guerra, infelizmente não é um jogo de cavalheiros nem um concurso hípico com regras éticas fixas. Tais excessos verbais e ameaças são lamentáveis, mas também muito naturais. Na verdade, não sei se essas ameaças foram feitas, mas considero-as possíveis. Mas até agora tivemos na Guiné e em Moçambique – em Angola ainda não – uma impressionante onda de confraternização e tudo tem corrido muito melhor do que seria de esperar depois de 13 anos de guerra. 
 
SP – Muitos brancos nas colónias portuguesas sentem-se traídos por Lisboa. Com razão? 
 
MS – Se acreditou nos slogans do antigo regime – que Angola é nossa e sê-lo-á para sempre, e que não são colónias mas simplesmente províncias ultramarinas – então terá razão em sentir-se traído. Mas, na realidade, a traição é do regime de Salazar e Caetano que quiseram fazer esta gente acreditar que seria possível oferecer resistência ao mundo inteiro e à justiça. 
 
SP – Qual será o futuro destes brancos desiludidos, se, apesar de tudo, quiserem permanecer em África? 
 
MS – Se forem leais para com os novos Estados independentes na cooperação e respeitarem as suas leis, não têm nada a temer. Na Guiné, por exemplo, o próprio movimento de libertação exortou-nos a deixar os nossos técnicos, médicos, engenheiros e agrónomos, porque precisavam deles. É cómico: a extrema esquerda portuguesa exigia a nossa saída imediata, total e sem condições, mas os próprios movimentos de libertação não exigiram nada disso. 
 
SP – O que será dos brancos que não querem ficar em África? Em Moçambique já se iniciou entre os brancos um grande movimento de fuga. 
 
MS – É verdade. Mas estou certo que dois anos após a independência e quando as instituições do País funcionarem razoavelmente, haverá mais portugueses, em Moçambique, que hoje. Isto é, aliás, um fenómeno geral. O Presidente Kaunda da Zâmbia disse-me, quando estive em Lusaka: “ Saiba que temos aqui na Zâmbia o dobro dos ingleses que tínhamos antes da independência”. 
 
SP – E o Sr. acredita que isso também acontecerá em Moçambique? 
  
MS – Sim. Primeiro virão muitos para Portugal, porque têm medo, mas depois regressarão. 
 
SP – E em Angola?  
 
MS – Ali ainda não há muitos que abandonaram o País. Ali generaliza-se entre os brancos uma atitude perigosa. Precisamos de convencer os brancos, no seu próprio interesse, que fiquem, mas já não como patrões, como até agora. 
 
SP – Apesar disso Portugal tem de contar com o regresso de muitos. Como irão resolver o caso?  
 
MS – Isto é para nós um problema económico muito sério, pois não é apenas o regresso dos colonos brancos mas também os soldados – cerca de 150.000 a 200.000 homens que regressam duma assentada. Acrescem ainda os imigrantes que querem regressar desde que Portugal é livre. O assunto está a ser estudado pelo Ministério da Economia e Finanças. Temos de criar novos postos de trabalho, mas isso significa igualmente a reestruturação da totalidade da economia portuguesa, que vai precisar de se adaptar às sociedades industriais modernas.
 
SP – Não existem portanto planos concretos para absorver os retornados?  
 
MS – Há investigações adiantadas.
 
SP – Entre os brancos que não querem regressar a Portugal, tenta-se criar um exército de mercenários para se opor aos movimentos de libertação. Em Angola, nos últimos tempos, radicais brancos de direita provocaram confrontos raciais sangrentos. Pode Lisboa impedir que tais brancos, especialmente em Angola, tomem o poder?  
 
MS – Eu penso que sim. 
 
SP – Como? 
  
MS – O exército em Moçambique e em Angola é completamente leal para com os que fizeram a Revolução de 25 de Abril. E o exército não permitirá que mercenários brancos ou grupos semelhantes se levantem contra o exército. Tentativas haverá. Em Moçambique já as houve. 
 
SP – E em Angola onde vivem mais do dobro dos brancos e um terço menos de negros que em Moçambique? 
 
MS – Em Angola haverá certamente uma série de situações mais ou menos desesperadas e tensões perigosas entre as raças. Apesar disso, julgo que por ora o exército pode e fará manter a ordem – a ordem democrática. 
 
SP – Portanto, se necessário, o exército português fará fogo sobre portugueses brancos?  
 
MS – Ele não hesitará e não pode hesitar. O exército já mostrou que tem mão forte e quer manter a ordem a todo o custo. 
 
SP – Apesar do exército, não se pode excluir a hipótese de os brancos se declararem independentes, como na Rodésia. Pelo menos Angola podia tentar mesmo economicamente uma tal solução.  
 
MS – De princípio, nos primeiros momentos da Revolução tive muito receio que tal pudesse acontecer. Mas quanto mais o tempo passa, mais difícil se tornará uma tal tentativa. 
 
SP – Suponhamos, no entanto, que tal venha a acontecer – reagiria Lisboa como Londres, na altura, tentando impor um bloqueio económico?  
 
MS – Não creio que em Angola exista uma solução rodesiana, mas se tal acontecesse combatê-la-íamos com todas as nossas forças, pois uma tal solução seria para África e para o Mundo uma aventura inaceitável. 
 
SP – Também se pensou isso no caso da Rodésia e, no entanto, não se pôde evitar.  
 
MS – Para nós tal solução é improvável a não ser que tivéssemos um golpe de direita aqui em Portugal. Nós – este governo democrático – não permitirá que tal solução rodesiana aconteça em Angola ou Moçambique. Eu repito! Nós combatê-la-emos com todos os meios ao nosso dispor. 
 
SP - Porquê?  
 
MS – Porque isso poria em causa todo o nosso processo de descolonização, a nossa credibilidade, e a nossa boa vontade. E porque com uma tal solução até o regresso do fascismo poderia ser encaminhado em Portugal. 
 
SP – Do ponto de vista económico a perda da Guiné e de Moçambique são um alívio para Portugal. Angola, no entanto, com os seus diamantes, petróleo, café trouxe para Portugal as tão necessárias divisas. Pode Portugal dar-se ao luxo de perder essa fonte de divisas?  
 
MS – Todas estas receitas não compensavam os custos de guerra. Nós gastávamos cerca de 2 biliões de marcos por ano com a guerra. O que pouparmos com o fim da guerra compensa plenamente a perda dessas divisas, que de qualquer modo, acabavam na maior parte nos bolsos dos americanos, alemães e ingleses. 
 
SP – Lisboa irá ajudar no futuro as suas antigas colónias? Concretamente: -Se Moçambique independente resolvesse impedir o trânsito de mercadorias da Rodésia para Lourenço Marques ou Beira para exercer pressão política sobre o regime branco de Salisbury, estaria Portugal disposto a compensar Moçambique pela perda de divisas que tal operação acarretaria? 
 
MS – Os nossos meios são escassos, temos de ter em atenção a nossa muito tensa situação económica. Mas, dentro das nossas possibilidades, ajudaríamos, numa tal situação. 
 
SP – No seu livro “Portugal e o Futuro”, o general Spínola propunha uma espécie de comunidade portuguesa como forma de cooperação futura entre Lisboa e África. Os movimentos de libertação não deram qualquer importância à ideia. Como serão as futuras relações entre Lisboa e África?  
 
MS – O discurso pragmático proferido pelo general Spínola em 27 de Julho sobre o futuro das colónias está muito distante da concepção do seu livro. Se, algum dia, uma espécie de comunidade dos países lusófonos se verificar, só na condição de todos os países serem realmente independentes. E seriam então os países africanos a dizer até que ponto tal associação poderia ir. 
 
SP – Sr. Ministro, muito obrigado pela entrevista. 
 
Fonte: DER SPIEGEL Nº 34/1974 


Não deixe de lêr também no link em baixo:

Entrevista inédita de Jonas Savimbi.