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sábado, 7 de janeiro de 2012

Mulheres de Benguela se tornaram intermediárias entre portugueses e a elite africana



  • Mariana P. Candido
    2/2/2011Há uma pequena cidade portuária na costa da África Ocidental com uma rica história, muito ligada ao Brasil. Benguela, fundada em 1617 entre os rios Katumbela e Kaporolo, ganhou importância na economia mundial devido ao comércio de escravos. No modesto porto local, comerciantes brasileiros, portugueses e africanos de outras regiões se instalaram e foram responsáveis pelo envio de quase meio milhão de escravos para as Américas durante o período do tráfico transatlântico de cativos. Os laços dessas comunidades uniam Benguela, Rio de Janeiro, Luanda e Lisboa, e nessa fusão de culturas, as mulheres locais tiveram um papel fundamental.
    O número reduzido de europeias e brasileiras em Benguela facilitava o contato entre os estrangeiros e as nativas. O concubinato era prática comum, o que desagradava à Coroa portuguesa. Os administradores condenavam o comportamento dos europeus, alegando que a moral sexual era “deplorável”. O marquês de Pombal, secretário de Estado português entre 1750 e 1777, chegou a criticar a ação dos portugueses que não resistiam aos meses de solidão. D. Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho (1728-1780), governador de Angola, afirmava que os estrangeiros “esqueciam estar numa capital cristã”. Embora alguns conseguissem manter relações duradouras com mulheres cativas ou livres, poucos se casavam na Igreja Católica. Este foi o caso do comerciante baiano Manoel Pereira Gonçalves, que se uniu à filha da terra Marcelina Francisca dos Santos no dia 19 de abril de 1809, na Igreja Nossa Senhora do Pópulo, em Benguela.
    O desenvolvimento do porto contribuiu para essa união intercultural. Sua localização, na costa central de Angola, facilitou a movimentação na região, que se transformou em parada obrigatória para comerciantes que levavam escravos, cera e marfim e se dirigiam a Luanda, mais ao norte. A partir do século XVII, quando os portugueses começaram a traficar na região, Benguela se tornou um refúgio para tripulações sedentas e famintas, que vinham reparar seus navios avariados. Mas a presença portuguesa se limitava à costa. Estados fortes e centralizados no interior dificultavam a penetração de comerciantes estrangeiros, ao mesmo tempo em que o clima tropical facilitava a transmissão de doenças, como a febre amarela e a malária, restringindo a população estrangeira às cidades portuárias.
    Com a constante chegada de estrangeiros e africanos do interior, Benguela se transformou, no século XVIII, em uma cidade multilinguística, onde habitantes de diferentes origens falavam suas línguas e usavam o umbundu – idioma da maioria da população – e o português para se comunicar. Todos eles buscavam oportunidades econômicas, e isso acelerou as transformações culturais na região.
    O fato era que a população masculina e cosmopolita dos centros urbanos aumentou a participação no comércio escravista relacionando-se com mulheres locais, mesmo que não estabelecesse casamentos formais. A maioria mantinha relações estáveis, o que criou uma geração de mulatos. Antônio José de Barros, por exemplo, sargento português que servia no exército de Benguela em 1797, apesar de solteiro, reconheceu a paternidade de duas meninas em seu testamento – nascidas de um relacionamento que mantivera com sua escrava Vitória –, registrado por um padre local no final do século XVIII. Barros, no seu leito de morte, libertou a mãe de suas filhas, como acontecia no Brasil escravista.
    Quando as mulheres se aliavam aos estrangeiros em Benguela, acabavam fazendo o papel de intermediárias culturais entre os comerciantes e as elites africanas do interior, exercendo funções econômicas diferenciadas. Esposas e concubinas tornaram-se fundamentais no sucesso comercial de seus companheiros, trabalhando como agentes, tradutoras e negociantes. Elas atuavam como quitandeiras, vendendo alimentos nas ruas, e também como donas das grandes casas comerciais, já que eram sócias de seus companheiros, organizando o tráfico de escravos. Além disso, davam origem a uma aristocracia afro-portuguesa: fluente no português e no umbundu, culturalmente sincrética, frequentando a Igreja de Nossa Senhora do Pópulo e vestindo-se à europeia, e ocupando a administração pública. Sua posição como intermediários culturais lhes abria portas comerciais, mas ameaçava sua segurança.
    Dona Aguida Gonçalves era uma dessas mulheres. Ela vivia em Benguela em 1797, foi identificada como mulata, viúva e proprietária de um sobrado e de um bar. Em sua residência moravam doze escravos, incluindo o alfaiate Manoel. Além dos escravos, em sua maioria mulheres, também viviam em sua casa parentes e oito aprendizes de costureiras. Sua habilidade em treinar costureiras e adquirir mão de obra prendada, como o alfaiate Manoel, garantia vantagens adicionais numa cidade de apenas três mil habitantes. Ao explorar a força de trabalho de seus dependentes, Dona Aguida provavelmente dominava o comércio de roupas local.
    Os que residiam nos núcleos urbanos controlados pelos portugueses tiravam proveito do comércio de escravos, lucrando com as oportunidades de negócio. Por outro lado, corriam riscos simplesmente por serem negros ou mulatos. Isto acontecia porque o domínio da língua portuguesa, o pagamento de impostos e a conversão ao catolicismo não eram atributos suficientes para protegê-los da escravidão quando se deslocavam para o interior, além da área sob controle português. Para garantir a liberdade, era fundamental ter bom trânsito entre os oficiais da Coroa portuguesa e as autoridades eclesiásticas.
    O caso de Maria José de Barros retrata bem o panorama. Certa vez, ela deixou Caconda, uma fortaleza portuguesa localizada no interior, e mudou-se para Benguela, onde se casou com José Joaquim Domingues, capitão das forças regulares. Lá, ela não só manteve os laços com sua comunidade, como também assumiu o papel de protetora de conhecidos que vinham do interior. Na terceira década do século XIX, ofereceu abrigo a Quitéria, uma jovem originária de Caconda. A mãe da moça enviara a filha aos cuidados de Maria José para que pudesse aprender o ofício de costureira. Em 1837, depois de uma briga conjugal, o capitão Domingues agrediu a esposa e, ao sair de casa, levou Quitéria à revelia. Ele se dirigiu rapidamente ao porto e vendeu a jovem para um comerciante carioca que se encontrava no local.
    Logo após o negócio, o feliz comprador marcou sua nova escrava a ferro e a embarcou.  Recuperada da agressão física, Maria José chegou ao porto, depois de perguntar pelo destino de sua protegida. O negociante carioca não se comoveu com a história e avisou que partiria em seguida. Assustada com a possibilidade de não conseguir apoio oficial em tempo hábil, Maria José ofereceu um molecote, um jovem escravo, em troca da liberdade de Quitéria. O comerciante aceitou a proposta e livrou a jovem das algemas. Este caso confirma a instabilidade e a violência às quais os negros livres estavam sujeitos. O mundo português abria portas e oferecia diversas oportunidades para esses indivíduos, mas quando eles se colocavam como intermediários, acabavam enfrentando uma série de desvantagens que os tornava presas fáceis. O curioso é que, mesmo em situações adversas, alguns foram capazes de usar o sistema legal português para seu próprio beneficio.
    Maria José foi apenas uma entre muitos africanos que conseguiram obter a liberdade de alguém que lhe era próximo. Casos como esses são exceções. Os mais de quinhentos mil africanos embarcados em Benguela não tiveram a mesma sorte: acabaram parando na outra margem do Atlântico.

    Mariana P. Candidoé professora da Princeton University (EUA) e autora de Fronteras de Esclavización: Esclavitud, Comercio e Identidad en Benguela, 1780-1850 (El Colegio de Mexico, 2011).

    Saiba Mais - Bibliografia
    ALEXANDRE, Valentim; DIAS, Jill (eds.). O Império Africano, 1825-1890 (Nova História da Expansão Portuguesa, ed. Joel Serrão e A.H. de Oliveira Marques, vol. X). Lisboa: Editorial Estampa, 1998.
    CURTO, José. “Resistência à escravidão na África: o caso dos escravos fugitivos recapturados em Angola, 1846-1876”, Afro-Ásia, nº 33. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2005.
    FERREIRA, Roquinaldo. “Ilhas Crioulas: O Significado Plural da Mestiçagem Cultural na África Atlântica,” Revista de História, nº 155. São Paulo, 2006.
    PANTOJA, Selma; SARAIVA, José Flávio Sombra (eds.), Angola e Brasil nas Rotas do Atlântico Sul. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Parte de um texto do Livro "Quarenta e cinco dias em Angola : apontamentos de viagem":

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Transcreve-se parte de um texto do Livro "Quarenta e cinco dias em Angola : apontamentos de viagem":

Assunto: Abolição do trafico de escravos e novo paradigma colonial de reconversão económica. Libertos, trabalho, resistências, mentalidades, usos, costumes, sobas, guerras tribais...

"...É nas margens do Zaire que actualmente mais se trafica em escravatura, e muitas das feitorias, para não dizer todas, de que acima fallei, não são mais do que capas que acobertam, ou dependem d'esse género de commercio, que as convenções propostas pela humana Inglaterra, e acceites pelo ingénuo Portugal tiveram a habilidade de tornar o mais lucrativo de toda a costa. Apesar do apparato das estações navaes, e dos nomeados cruzeiros, a escravatura continua, e ha de sempre existir, já porque os lucros são enormes e convidam, já  porque o vapor empregado no transporte dos negros apresenta um carregamento com menos despeza na Havana, fugindo rapidamente a qualquer navio que por acaso appareça na occasião da sahida. 
O negreiro, além de ser sempre atrevido e esperto, é summamente generoso; sabe dar grandes jantares e lautas ceias áquelles que lhe convém obsequiar, perde mesmo ao jogo alguns contos de reis, quando aquelle de quem depende está em veia de ganhar, e se fôr preciso emprestar, ou mandar entregar qualquer quantia em Lisboa á ordem das authoridades civis e militares da terra onde se achar, ou mesmo de algum officialde marinha, ninguém o faz com mais pontualidade.
Se as authoridades são, d'antes quebrar que torcer, o que é excessivamente raro d'encontrar em Angola, soffrem muitos desgostos, armam-se-Ihes immensas intrigas, correm mil perigos, e sempre são illudidas. Raro é aquelle que não cansa muito breve de luctar com tanto inimigo, e até com a própria consciência. A repressão da escravatura tem feito subir de uma maneira incrivel o preço dos escravos: ainda não ha muitos annos que um negro na America o mais que custava eram quinhentos mil reis, e hoje na Havana compram-se quantos apparecem pelo dobro. Facilmente se comprehende que é um negocio que deve tentar muita gente. O preço médio de um preto, ou preta em qualquer parte da costa, é de quarenta a cincoenta mil reis ; mas o negreiro por esse custo já dá um grande lucro ao agente, que o obteve a troco de alguma pólvora, de aguardente, ou de missanga. 
A fiscalisação por parte da estação naval, a maior parte do tempo é feita por um palhabote, commandado por um segundo tenente, ou por um guarda-marinha, e tripulado por um patrão e dez a doze marinheiros ; percorrem as feitorias, visitam as barcas e navios que saem dos portos suspeitos, e quando descobrem alguns pretos retidos para embarcar, ou que tentam levar para fora escondidos entre lenha e outros géneros, fazem a apprehensão, e conduzem-os para Loanda, onde são recolhidos no antigo convento ou collegio dos jesuítas, vulgarmente conhecido pelo pomposo titulo de — Obras Publicas — . A estes pretos, e aos que são appreendidos no alto mar, é que dão o nome de — libertos; custa o sustento d'esta gente cerca de treze mil reis por dia ao cofre da Província, sem d'ahi colher proveito algum. Muitos d'estes libertos são distribuidos pelos proprietários que os requisitam, debaixo de determinadas condições, entre as quaes me parece estar estabelecido o tractamento que os pre- tos hão de receber, e o numero de annos que tem de servir; porém esta ultima clausula, posso afiançar, que nao é cumprida, como provavelmente a outra não o será. 
Deveria haver da parte do Governador geral o maior cuidado em não conceder libertos senão aos proprietários, ou colonos que se dedicassem exclusivamente á agricultura, e que não tivessem meios sufficientes para comprar os escravos precisos. Seria mesmo muito conveniente e acertado, que se concedesse grande numero d'estes pretos aos agricultores das ilhas de S. Thomé, e do Principe, onde, por falta de braços, se  estão perdendo bellas colheitas de café. Sei de boa fonte, que os cultivadores  d'estas ilhas não só os tractariam com muita humanidade, mas que lhes dariam uma soldada em harmonia com o trabalho de que fossem capazes. Infelizmente, longe de proteger a cultura n'aquellas ilhas, os nossos ministros que, por desgraça, tem sempre sido homens que não formam a mais pequena ideia do que são as nossas possessões, tem legislado de um modo que lhes tem sido bem funesto. Não  quero de forma alguma contestar as boas intenções do Visconde de Sá, mas é innegavel, que mal aconselhado, ou infelizmente inspirado, elle se tem tornado prejudicial á Província d'Angola. 
Não é de certo n'um paiz onde ha falta de braços e onde o preto é por natureza o único ente próprio para o trabalho, porque elle só resiste ás fadigas e á influencia de clima que nos é tão prejudicial, que se lhe deveria ter concedido a liberdade de que não é digno. O abuso que elles fazem d'essa liberdade veio crear não poucos embaraços e difficuldades ao commercio d'aquella Provincia. O preto geralmente é traiçoeiro, mentiroso, ladrão e bêbado : ha-os bem morigerados e afeiçoados aos seus senhores, mas esses são tão raros como os bons sonetos. Todos são indolentes por habito e systema, mas as suas necessidades são mui limitadas e fáceis de satisfazer. Três metros de fazenda d'algodão estampada, um punhado de farinha de pau e uma pinga d'aguardente de canna [cachaça) são os únicos objectos de que ne- cessita para se vestir e sustentar; uma cubata ou barraca composta de ramos de coqueiro e barro, que elle levanta com summa promptidão, serve-lhe d'abrigo e a suas companheiras: uma simples esteira estendida no chão é para elle um excellente leito em que o braço faz as vezes de travesseiro. Para occorrer a tão diminuta despeza não necessita cansar-se muito, e não é raro encontrarem-se pretos a quem as pretas sustentam, sem que elles tenham mais alguma cousa a fazer, do que ir levando docemente uma vida patriarchal. 
Cabe aqui fazer distincçao de uma certa raça de pretos que, com quanto não pertençam aos nossos estados, se acham em grande numero em Loanda, onde vão procurar trabalho. Chamam-lhe Cabindas, por pertencerem a essa povoação que fica ao norte do Zaire. Esta gente occu-pa-se quasi exclusivamente em serviços marítimos: são elles que fornecem para Loanda, juntamente com os Muxi-Congos, a agua do Bengo, e que fazem todo o serviço da pequena cabotagem, e do porto. O escaler da alfandega é tripulado por doze Cabindas, que se tornam insupportaveis com a sua aborrecida cantilena com que acompanham constantemente o movimento dos remos. Esta raça de pretos é sem duvida a mais activa e a mais útil que se encontra em Angola, onde prestam excellentes serviços ao commercio. Teem um cônsul em Loanda, e são governados na sua terra por um preto educado no Brazil, fallando  varias linguas, e que se apresenta mui decentemente. Recebe n'uma soffrivel casa de habitação bem mobilada, e obsequeia todos quantos o procuram, mas para não desmerecer das sympathias dos seus patricios, habita n'uma cubata modestamente construida. Todos os navios nacionaes e estrangeiros que chegam a Loanda costumam, para poupar as tripulações, tomar para o serviço de bordo uma companha de Cabindas, commandada pelo seu capitão. Muitas d'estas companhas conservam-se a bordo dos navios que teem de percorrer a costa, e alguns d'elles já teem vindo a Lisboa a bordo dos vapores da —União Mercantil — ; consta-me até que um d'estes para cá trouxe um íilho que tem a educar n'um collegio da capital.
Os Cabindas são summamente económicos, e como a bordo recebem a ração, e uma macuta por dia (cincoenta reis fracos), chegam a juntar dinheiro; julgo-os sóbrios, mas não de delicado paladar, porque a um d'elles vi, na força do verão, comer ao almoç pimentinhãs com sal e bolaxa, beber em seguida a sua ração de cachaça, e ficou tão satisfeito como se tivesse tomado um sorvete. N'uma conversa que tive com um Cabinda foi que vim no conhecimento do verdadeiro sentido que os pretos ligam á palavra — branco — pela qual nos dominam. Perguntei-lhe se quando estavam a bordo dos navios estrangeiros entendiam as linguas que lá lhes fallavam, e elle respondeu-me com certa presumpção: — Me falia flancé, inglês e língua de Manco. Esta lingua de branco é a portugueza. Só nós somos considerados brancos, porque assim designaram os descobridores e conquistadores d'aquellas possessões, e só a elles é que os negros julgam pertencer esta denominação. Os Cabindas, á semelhança de todos os mais pretos, são mui supersticiosos: fazem uso de pequenas manilhas de ferro para afugentar o feitiço, e algumas vezes lhes vi pintar com barro certos signaes na testa e nas fontes para combater dores de cabeça, que elles attribuem a effeitos diabólicos. Se todos os pretos da nossa possessão  fossem tão industriosos como os da raça Cabinda, o commercio e a agricultura teriam por certo attingido em Angola um elevado grau de prosperidade, mas infelizmente dos outros nada se pôde esperar voluntariamente. Que meios empregar para obrigal-os ao trabalho? Em vista das tendências dos nossos ministros para a abolição da escravidão, não ha senão um : é fazer-lhes crear necessidades, obrigando-os a andar vestidos e calçados, e a ter um modo de vida qualquer, para que possam ser úteis á sociedade. Sei que esta é uma das reformas que tenciona introduzir o novo Governador Sebastião Lopes de Calheiros, e se conseguir fazêl-o, Angola dará um largo passo no caminho do progresso e da civilisação. É muito mal entendido quererem legislar e governar aquellas nossas possessões, com as nossas leis e códigos liberaes. Aquelle povo não está ainda bastante maduro, para  poder ser governado constitucionalmente. Um estado composto na sua maioria de pretos
boçaes, de degredados por toda a espécie de crimes, de negociantes em grande parte de má fé, sem educação, nem consciência, de muitos militares ambiciosos e pouco escrupulosos, não pôde civilisar-se, nem ser governado senão por um despotismo illustrado. Os Governadores geraes que tentarem fazer algumas reformas necessárias, cortando abusos inveterados e que se encontram a cada passo em todos os ramos da administração publica, teem de combater uma opposição terrivel, porque aquelles que se julgarem assim feridos nos seus interesses, não terão duvida em recorrer aos meios mais infames, para se desfazer de um homem que lhes pôde ser fatal. Se o Governador não poder pelo seu lado recorrer aos meios rigorosos e repressivos, ha de succumbir na lucta irremediavelmente. É preciso dar força sufficiente a um só homem, para poder luctar com milhares d'elles ignorantes, ou corruptos. Permitta Deus que os nossos governantes se compenetrem de todas estas considerações:  a boa escolha nos empregados a quem devem remunerar de forma que compense as privações e sofrimentos que para alli vão supportar, sem que tenham de recorrer a meios  illicitos para adquirir fortuna, é a principal base para fundamentar o progresso e engrandecimento d'aquella Provincia, e só assim e por meio da religião poderemos cumprir a nossa missão, que é de civilisar e concorrer para a independência d'aquella terra. 
Sei que esta ideia causa espanto a muita gente; mas se todos conhecessem mais de perto as nossas possessões, haviam de convir comigo, que a Africa civilisada e in- dependente nos havia de oíFerecer mil outras vantagens que hoje não oferece pelo estado selvático em que ainda se acha. Que perdemos nós com a independência do Brazil? Nada, absolutamente nada. Perderam  sim os filhos bastardos da casa real, os filhos segundos das casas titulares, os aventureiros e os protegidos a quem a corte dava os governos e os empregos das provincias como benefícios simples, mas as nossas transacções commerciaes continuaram como d'antes, e o Brazil, apesar da sua independência, não deixa de ser portuguez, e não cessará nunca de o ser em quanto alli se fallar a nossa lingua. Elles mesmos tanto o reconhecem, que já tentaram arranjar uma lingua brazileira, conseguindo apenas a pronuncia de um jocoso dialecto de preto. Na actualidade as transacções commerciaes com o Brazil parecem de menor importância, porque se acham espalhadas por muito maior numero de negociantes, do que antes da independência; mas quando assim não fosse, o monopólio dos portos já não é possivel, n'uma época em que nações fortes fabris empregam todos os meios para dar sabida aos seus productos. Entre nós, assim como nos paizes em que se tem escripto e discutido sobre a escravatura, encara-se esta questão pelo lado humanitário, e é certo que o commercio de carne humana repugna a todo o homem de sentimentos nobres. Vejamos porém se pela repressão conseguiram o fim que se propozeram, e examinemos as causas que dão lugar á escravatura. 
Os chefes das povoações do interior a quem dão os nomes de Sobas, Régulos, Príncipes, e Reis, imitando os romanos da republica, educam os seus povos na caça e na guerra, mas ignoram totalmente que aquelles, terminadas as luctas, depunham a lança e o escudo para lançar mão da charrua, e cultivarem a terra que os devia alimentar como boa mãe que é. O seu estado d'ignorancia faz com que repetidas vezes, faltando os meios de subsistência, se vejam obrigados a pedir á força ao visinho, o que elle de boa vontade lhes não concederia, altendendo a que o seu estado de prosperidade de maravilha pouco mais lisonjeiro será. Para se declarar a guerra é preciso que haja um pretexto, mas  quando o não ha inventa-se, e elles assim fazem. Atravessar os estados sem licença, caçar fora dos limites, são motivos mais que sufficientes para lançar a discórdia entre dous potentados. Se esses mesmos pretextos vem a faltar, consulta-se então o singilla que, depois de «invocar os deuses occultos, declara em tom propbelico que o Soba do estado visinho foi quem matou por feitiço os últimos individuos que falleceram naquella povoação, e que pretendia ainda fazer o mesmo a muitos outros. Feiticeiro!! guerra! guerra! grita a povoação em peso, e todos correm vingar as
victimas de tão nefando crime. O ataque é dado de improviso, e a vingança, que dizem ser prazer dos deuses, mal pode saciar a sua ira, roubando e saqueando tudo, bois, porcos, gallinbas, mandioca e fructa, e só quando nada ha mais que roubar, nem destruir, é que os valentes centuriões retiram ufanos, conduzindo os ricos despojos com que se hão de manter por algum tempo na ociosidade. Os prisioneiros pilhados com as armas na mão, são levados na frente, assim como suas mulheres e filhos, que os acompanham sempre. Estes infelizes são conduzidos ao mercado e vendidos aos agentes dos negreiros a troco d'aguardente, pólvora, missanga, e  fazendas d'algodão de cores, a que na Africa chamam pannos . Ora como nem sempre ha compradores, acontece algumas vezes que os vencedores se vêem obrigados a conservar em seu poder, e sustentar os prisioneiros; e não lhes agradando este ónus, se por desgraça a ausência dos compradores se prolonga mais que o costume, o Soba determina que, como medida económica, se corte a cabeça aos prisioneiros ! É o meio de resolver radicalmente a questão, e como entre o gentio se cumprem as leis á risca, a execução segue de perto a sentença. Não pretendo com esta ideia, que tem ares de paradoxo, justificar os negreiros, nem sei como elles tractam os escravos ; confesso que não sympathiso com semelhantes traficantes, porque aquelles que me tem sido indigitados como taes, me tem parecido
grosseiros, altivos e eminentemente desmoralisados ; mas attendendo ao numero considerável decreaturas subtrahido por elles ao cutello do algoz, havemos de concordar que contribuem com melhor êxito para o fim humanitário, que nós  pretendemos conseguir pela repressão do trafico. Escusado será também accrescentar, que estes meliantes não o fazem de maneira alguma por considerações de virtude, ou espirito de philantropia, nem elles se arriscavam por tão pouco. Se seguirmos o escravo e o formos vêr em poder do seu senhor, tanto nas Mauricias, como nos Estados-Unidos e na Havana, encontral-o-hemos vestido, bem alimentado, baptisado e educado, o que seguramente lhe não acontecia na sua terra natal, onde só
gosava da faculdade de poder passar a sua existência sem fazer cousa alguma,  tornando-se inútil a si e aos mais. Se o trabalho é uma desgraça, não somos nós todos bem desgraçados? Quantos e quantos pretos existem hoje na America, que depois de resgatarem a liberdade com o fructo das suas economias, conseguiram estabelecer-se, tornando-se cidadãos úteis ao paiz que os acolheu? Se os exemplos não são tantos, quantos eram para desejar e podiam ser, é isso devido ao desmazelo e vida desregrada da maior parte dos escravos a quem o futuro não afflige demasiadamente. O tractamento que os pretos recebem dos seus próprios, é infinitamente mais cruel do que o são os castigos infligidos pelos brancos, e d'isso nos podemos certificar  presenciando as scenas horrorosas praticadas pelos Regidos, nossos visinhos, a quem a
estúpida superstição cega a ponto de sacrificar, em honra de um mono ridiculo, victimas innocentes, abrindo-lhes o ventre, arrancando-lhes as entranhas palpitantes, e beben-do-lhes o sangue ainda quente e fumegante !

Para mostrar até onde chega a crueldade d'aquella canalha, citarei o seguinte caso, que me foi contado por um official de marinha muito conhecedor da costa Occi- dental d'Africa, onde permaneceu por muito tempo. Ha já bastantes annos um dos Sóbas do interior, homem provavelmente tão velhaco, como covarde, fez um contracto com o chefe da estação ingleza, compromettendo-se, mediante certa quantia por cabeça,a denunciar-lhe quando e onde embarcavam os escravos que elle vendia. As denuncias foram dadas com a maior exactidão, e pela sua parte o commandante inglez não foi menos pontual no pagamento em letras das quantias que pelo contracto pertenciam ao Soba. Como porém este contracto tinha sido feito sem consultar o governo inglez, este entendeu não o dever sanccionar, e as letras que o Soba tinha mandado para In- glaterra foram-lhe devolvidas. Algum tempo depois o commandante inglez, fazendo uma excursão pelas margens do rio, junto ao qual morava o tal Soba, saltou em terra com a sua gente, e divertia-se  caçando, quando o vieram convidar da pítrleo Soba para acceitar uma refeição e assistir a uma brilhante festa com que elle se propunha obsequiar o seu hospede. Movido pela curiosidade, o commandante acceitou o convite, e seguiu com a sua gente o enviado até á cubata do Soba, onde se achavam preparadas algumas iguarias, que os inglezes não recusaram por condescendência. Findo o banquete, durante o qual reinou a
melhor harmonia e cordialidade, o Soba, depois de ter dado as suas ordens em particular, convidou os inglezes para irem até á praça publica, onde devia ter lugar a festa promettida. Quando lá chegaram, duzentos pretos prisioneiros, com as mãos atadas atraz das costas, e acompanhados cada um do seu guardião armado de machado, rodeavam o local destinado para as danças e divertimentos públicos. A um signal dado pelo Soba, duzentas cabeças rolam no chão : um grito de horror escapa aos espectadores atónitos. O commandante quer saber porque motivo se pratica tão inaudita crueldade, mas o Soba interrompendo-o lhe diz : — « Inglez, convidei-te para vires assistir a uma grande festa: parece-me que cumpri a minha promessa; outro tanto, accrescentou elle, enlre- gando-lhe as letras que lhe tinham sido recambiadas de Inglaterra, outro tanto não fazem os da tua nação. Peço-te que guardes esses papeis como lembrança minha.» Foi então que o inglez conheceu em que mãos estava, e não foi sem grande espanto seu
e dos que o acompanhavam, que se viu a bordo da sua lancha sem ter soffrido o menor insulto. D'estes actos brutaes e ferinos é que os brancos, mesmo os mais endurecidos no trafico da escravatura, de certo não praticariam a sangue frio. ^Não tem, por exemplo, o Rei de Dahomey assim adquirido tão monstruosa celebridade? De vez em quando noticiam os jornaes uma nova hecatomba: sacrifícios, ou massacres de
centenares de victimas, que assombram a Europa inteira! Mas deixemos este assumpto, e voltemos ao Zaire, a respeito do qual pouco resta que referir.

Continua... "Quarenta e cinco dias em Angola : apontamentos de viagem":

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LIVRO NEGRO DO COLONIALISMO,

 Por MARC FERRO

sábado, 4 de dezembro de 2010

FRANCISCO FELIX DE SOUZA - O BAIANO QUE FEZ FORTUNA COMO MERCADOR DE ESCRAVOS



Resenha de: SILVA, Alberto da Costa e. Francisco Félix de Souza, mercador de escravos. 


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Francisco Félix de Souza, o Chachá

Chachá - O baiano que fez fortuna na África vendendo escravos


Em sua mais recente obra, o africanista Alberto da Costa e Silva realiza, segundo ele mesmo, um sonho dos tempos de adolescência: escrever a biografia daquele que é tido como um dos maiores – senão o maior – mercadores de escravos do século XIX – Francisco Félix de Souza, o Chachá. Quase desistiu, devido a um artigo recente de Robin Law – que, segundo Costa e Silva, é “quem mais sabe... da história da Costa dos Escravos” (p. 06) – e que também tratava do Chachá. Prevaleceu, no entanto, o desejo de ver seu sonho realizado. Melhor para os estudiosos e todos aqueles que nutrem interesse pela história da África, pois fomos todos agraciados com um livro profundo, mas de leitura aprazível.

Não busca Costa e Silva fornecer-nos um retrato definitivo de Francisco Félix de Souza. Este é, segundo ele, o seu retrato do Chachá. Para tanto, o autor valeu-se de documentos escritos por pessoas que tiveram contato com Francisco Félix, mas também de depoimentos orais dos inúmeros descendentes do Chachá. Não nos esqueçamos que Costa e Silva é, além de historiador, diplomata, e sua profissão levou-o a conhecer de perto o cenário onde Francisco Félix deixou de ser um anônimo para se tornar um riquíssimo mercador de escravos. Assim, é com propriedade que o autor descreve a geografia da antiga Costa dos Escravos e, mais especificamente, do antigo reino do Daomé. De como esta geografia facilitava ou dificultava as guerras entre os reinos africanos, o transporte dos escravos e o seu embarque nos portos de Ajudá, Badagry ou Lagos. E, se nos fala de Singbomey, a casa-grande que o Chachá mandou erguer em Ajudá, é de dentro do casarão que o faz.
 Tumba do Chachá, no interior de sua casa, Singbomey, no atual Benin

E é exatamente com esta descrição que Costa e Silva começa o primeiro dos 16 capítulos que compõem seu livro de 208 páginas. Somos convidados a compartilhar da intimidade do biografado, pois nos encontramos no quarto do Chachá, onde a mobília portuguesa se confunde com costumes africanos e brasileiros. É neste quarto que Francisco Félix se encontra sepultado, “dentro de casa, à daomeana” (p. 12). Sobre sua vida, segundo o autor, as dúvidas são muitas. Se há certeza quanto à data de sua morte – 08 de maio de 1849, em Ajudá – a maior parte de sua vida é cercada de incertezas. Sabe-se que nasceu em Salvador, segundo depoimento de próprio punho do Chachá, mas o ano é incerto (1754 ou 1768?). Sabe-se ainda que foi guarda-livros do almoxarife e escrivão do forte luso de São João Batista de Ajudá, mas não exatamente quando começou a prestar seus serviços. Sobre os motivos que o levaram à costa africana os documentos mais confundem que informam. Para Costa e Silva, Francisco Félix provavelmente era um degredado, cujos serviços foram aproveitados pela Coroa portuguesa. Segundo a tradição oral em Ajudá, em algum momento do final do XVIII Francisco Félix teria desistido do forte português e partido em direção a Badagry, atraído pelo lucro do comércio de escravos.

O capítulo seguinte narra a transformação de Badagry, de mero vilarejo a centro comercial de escravos no século XVIII. Foi no movimentado porto de Badagry, como vimos acima, que Francisco Félix teria buscado oportunidades como mercador de escravos, em fins do Setecentos. Depois de três anos em Badagry, Francisco Félix teria voltado à Bahia e, em 1800, retornado novamente à África, em Popô Pequeno (também chamada de Anexô). Lá, após se casar com a filha de Comalangã, rei da ilha de Gliji, teria recebido terras para fundar seu entreposto comercial, Adjido. Segundo outra versão, esta talvez teria sido a primeira vez que Francisco Félix pisava em solo africano, e ele só seria empregado no forte português de Ajudá algum tempo depois. De qualquer maneira, segundo Alberto da Costa e Silva, Francisco Félix já estava na Costa dos Escravos no começo do Oitocentos, fosse em Badagry ou Popô Pequeno, a comerciar gente.

No capítulo 3 o autor tenta explicar como Francisco Félix, um homem que chegara pobre, conseguiu se tornar um riquíssimo mercador de escravos. Conforme relato do próprio baiano, ele sobrevivera furtando a moeda local, os cauris, ou búzios, ofertados nos santuários dos voduns, divindades fons. É possível. O autor nos informa que os alimentos eram muito baratos naquela região do litoral africano, e mesmo com poucos cauris ninguém morreria de fome. Mas daí a tornar-se comerciante de escravos? Os escravos eram mercadoria cara, que não podia ser adquirida sem ouro, cauris, tecidos de luxo, tabaco baiano, aguardentes, armas de fogo, pólvora, contas, facas, cobre e latão, “produtos que, na maioria dos casos, não custavam barato em sua origem e viam o preço aumentado pelos riscos e as distâncias do transporte até o golfo do Benin” (p. 32). Neste momento a erudição de Costa e Silva orienta as hipóteses que ele levanta para explicar o sucesso de Francisco Félix de Souza: como os navios negreiros nem sempre encontravam sua mercadoria quando chegavam à Costa dos Escravos, às vezes era necessário comprar cativos a crédito, com pagamento adiantado. Ao que parece o baiano deve ter se beneficiado desse sistema de crédito após ter granjeado a confiança de algum mercador. Além disso – conjectura Costa e Silva – Francisco Félix provavelmente tinha facilidade em aprender idiomas, e deve ter trabalhado também como intérprete nas transações comerciais. O certo é que já tinha prestígio por ter se casado com a filha de um rei local. Amizades com pessoas influentes junto ao dadá (rei do Daomé) Agonglo também foram importantes para a ascensão econômica de Francisco Félix. Por tudo isso se tornara um influente mediador no comércio, entre europeus e brasileiros, de um lado, e os chefes africanos, de outro. Com seus ganhos teria Francisco Félix comprado seus primeiros escravos, sempre aguardando o melhor momento para vendê-los.

O capítulo 4 trata dos motivos que levaram Ajudá a se tornar o principal centro exportador de escravos do Golfo do Benin no início do século XVIII. Apesar de não ser bem localizada geograficamente para o embarque de escravos, Ajudá situava-se numa região densamente povoada, com muitos estados em conflito, o que garantia o fornecimento de cativos. Os comandantes dos navios negreiros preferiam os riscos oferecidos pelas ondas enormes, bancos de areia e tubarões de Ajudá, do que se demorarem em outros portos africanos à espera da mercadoria. Ademais, somos informados que a neutralidade de Ajudá nos conflitos entre estados próximos tornava seu comércio seguro. Vemos ainda que em Ajudá, no Setecentos, predominaram os negreiros oriundos do Brasil, pois detinham a moeda mais apreciada naquele parte da África: o tabaco baiano e o ouro das Minas Gerais.

O reino do Daomé, em suas guerras, produzia muitos escravos que eram vendidos ao reino de Aladá, que por sua vez revendia-os aos comerciantes de escravos de Ajudá; estes negociavam com os traficantes europeus e baianos. Conforme Costa e Silva nos mostra no capítulo 5, o dadá queria vender seus escravos diretamente aos traficantes, sem intermédios. Por isso – mas também porque tinha uma “ideologia da expansão militar permanente” (p. 51) – invadiu os reinos de Aladá (1724) e Huedá, ou Ajudá (1727). Estavam os daomeanos interessados em trocar seus escravos principalmente por armas de fogo, a fim de ampliarem sua superioridade bélica para levarem adiante sua expansão e obterem mais escravos, num círculo infindável. O porto de Ajudá, agora sob o monopólio comercial do dadá, perdeu sua neutralidade e a insegurança se espalhou. Como o dadá só vendia em Ajudá os escravos que obtinha nas guerras, o fornecimento de escravos passou a depender do bom sucesso do Daomé nas suas investidas, o que gerava períodos de escassez de cativos. Além disso, o dadá preferia os traficantes brasileiros, que pagavam em ouro. Tudo isto acabou afugentando os traficantes europeus e, posteriormente, até mesmo os brasileiros do até então movimentadíssimo porto de Ajudá.

No capítulo 6 vemos como sucessivos dadás (Agaja, Tegbesu, Kpengla, Agonglo e Adandozan) tentam devolver o vigor comercial ao Porto de Ajudá durante o Setecentos. Mas os constrangimentos que o dadá impunha aos comerciantes estabelecidos em Ajudá, como se apossar das propriedades (inclusive esposas) daquele que morria ou regressava a seu país, afastou-os de Ajudá. Estes passaram a preferir outros portos, especialmente os aparelhados por libertos brasileiros que retornaram à África, como os de Porto Novo e Lagos.

No capítulo 7, a propósito do primeiro encontro entre Francisco Félix de Souza e o então dadá Adandozan, Alberto da Costa e Silva relata como teria sido a viagem que Francisco Félix teria feito entre Ajudá e a capital daomeana, Abomé. É quando conhecemos um pouco do cotidiano do povo fon no começo do século XIX. De Ajudá, Costa e Silva fala das residências, do forte, dos mercados e das vestimentas dos diversos grupos sociais. A caminho de Abomé, ficamos sabendo da excelente qualidade da Estrada Real do Daomé, elogiada por europeus devido à sua largura e à boa manutenção. Na chegada a Abomé, Francisco Félix deve ter se deparado com uma cidade protegida por um fosso e abastecida com as águas de um riacho próximo. O autor retrata ainda as profissões e os palácios de Abomé, além da intimidade do dadá, suas esposas e seu quarto. Por fim, imagina, com base na cultura daomeana, como teria sido o encontro entre Francisco Félix de Souza e Adandozan: as reverências e os ritos da audiência.
Palácio dos dadás, ou reis, do Daomé

No capítulo oitavo encontramos Francisco Félix já comerciante de gente, exercendo seu ofício na fortaleza lusa de Ajudá, e a fornecer mercadorias em créditos ao dadá para obter seus escravos. Quando Adandozan deixa de efetuar um pagamento, Francisco Félix queixa-se e é preso. Seu infortúnio, entretanto, acabaria por favorecê-lo. Isto porque o rei Adandozan já não agradava mais nem à elite daomeana nem aos comerciantes com quem tinha tratos, e um golpe pelo trono parecia iminente. O príncipe Gapê, meio-irmão de Adandozan, procura Francisco Félix na prisão e faz com ele um pacto de sangue, à maneira dos fons. Gapê providencia a fuga de Francisco Félix, e este em troca consegue para Gapê armas e outros bens. Ajudado também por nobres, Gapê é bem sucedido no seu golpe, e se torna dadá por volta de 1818 com o nome de Guezo. O novo dadá convida Francisco Félix, que morava em Anexô, a se mudar para Ajudá. Segundo seus descendentes é nomeado chefe dos brancos e vice-rei de Ajudá, com o título de chachá. Francisco Félix conseguiu tornar-se então um importante agente comercial, com o direito de primazia na venda de seus escravos, o que lhe permitia escolher as melhores mercadorias de troca. Obteve o Chachá muito poder em Ajudá e grande influência sobre Guezo, de quem era “primeiro amigo”, conforme a tradição fon.

No capítulo 9 vemos o auge do prestígio do Chachá. Prestígio como amigo do dadá e responsável pelo forte português de Ajudá. Mesmo o tratado feito entre Portugal e Inglaterra em 1815, que proibia o tráfico de escravos ao norte do Equador (o que incluía o golfo do Benin), não foi empecilho ao sucesso comercial de Francisco Félix, que soube driblar a marinha inglesa. É certo que o Chachá teve de se adaptar ao tráfico clandestino, e seu negócio se tornou ainda mais arriscado. Mas ele contava com o privilégio da primeira escolha, e podia vender seus escravos rapidamente. Ademais, deixou de depender de terceiros para alimentar sua escravaria e passou a utilizar os cativos para produzir seu próprio alimento enquanto aguardavam o embarque. Fez alianças com portos fora dos domínios do Daomé para garantir o suprimento de mercadoria humana. Quando as disputas políticas ameaçavam seus negócios, o Chachá interferia. Por tudo isso, Francisco Félix tornou-se o maior mercador de escravos do Golfo do Benin, admirado na Europa e na América. Tanto era assim que o dadá Guezo tentou se valer do prestígio do Chachá para encontrar sua rainha-mãe, Nã Agontimé, que havia sido vendida como escrava quando Adandozan subira ao poder.

O décimo capítulo trata das conseqüências da Independência do Brasil na Costa dos Escravos. Para o Chachá era mais conveniente permanecer português, embora o grosso de seus negócios se dessem com a Bahia. Mas Costa e Silva afirma que Francisco Félix manteve as duas nacionalidades, a portuguesa e a brasileira, que eram usadas conforme suas conveniências. Entre os comerciantes brasileiros e portugueses que viviam na Costa dos Escravos não houve divisões, pois os interesses de ambos continuavam os mesmos: comerciar escravos. O Levante dos Malês, ocorrido em 1835, na Bahia, levou o governo baiano a expulsar os revoltosos libertos, e muitos foram recebidos pelo Chachá. Esses passaram a ser conhecidos na África como agudás. Embora viessem também de outras partes do Brasil, provinham, em sua maioria, da Bahia. Ao chegarem à África, não se sentiam mais ijexás, huedás, hauçás, ou jejes, ou não eram mais vistos assim pelos que imaginavam ser seu povo. Sentindo-se estrangeiros, o Brasil era um ponto em comum, e passaram a morar juntos. Os que se fixaram em Ajudá ergueram suas casas ao redor da casa do Chachá, a quem viam como protetor e líder. Isto era bom para Francisco Félix, pois ao aumentar o número de dependentes e agregados, reforçava sua riqueza e seu poder. O capítulo 11 traz alguns casos de agudás que enriqueceram como mercadores de escravos.

O capítulo 12 trata das conseqüências do Equipment Act, de 1839, através do qual a Inglaterra reservava-se o direito de prender qualquer navio que transportasse escravos. Este capítulo mostra ainda as estratégias de sobrevivência do maior mercador de escravos do golfo do Benim diante da vigilância britânica.

No capítulo 13 aproximamo-nos um pouco mais do cotidiano do Chachá. Ficamos sabendo de sua numerosa prole com as suas esposas africanas. Criados segundo a cultura de suas mães (que podiam ser fons, guns, hulas, minas, nagôs ou mahis), seus filhos eram instados a se comportarem como europeus a partir da adolescência. Alguns foram estudar na Bahia. “E a quase todos, transmitiu o que pôde de seus saberes de traficante” (p. 136). Vestia-se como europeu, morava e comia como brasileiro, e agia como chefe daomeano. Católico “à baiana”, cultuava os voduns fons. O Chachá era um excelente anfitrião, pois tratava bem até mesmo os visitantes que se opunham ao tráfico, e era por eles muitíssimo elogiado. Chegou a receber, entre os fons, louvações, à maneira dos orikis iorubás.

O ocaso do Chachá nos é apresentado nos capítulos 14 e 15 do livro. Em seus últimos anos, Francisco Félix de Souza passou a ter prejuízos devido à intensificação da repressão inglesa. Com isso, deixou de honrar os créditos que recebera antecipadamente de Salvador e de Havana. Já não podia contar muito com o dadá Guezo, que passara a enviar escravos para outros portos menos vigiados que o de Ajudá. O Chachá acabou perdendo sua condição de único agente comercial de Guezo, ainda que continuasse com alguns privilégios. Se diminuía a demanda de escravos, crescia a de azeite-de-dendê, utilizado na Europa para produzir velas e sabão. Muitos traficantes tornaram-se então senhores de dendezais, sem deixar o comércio de escravos. Quando este finda, os personagens continuam os mesmos, mudando apenas a mercadoria: de gente a azeite-de-dendê, ainda que com lucros menores. Ao contrário dos traficantes britânicos, que garantiram sua sobrevivência financeira através da diversificação de investimentos, Francisco Félix, de mentalidade luso-brasileira, preferia “investir” seu dinheiro em doações à Igreja, no luxo, na ostentação e no desperdício.  Certamente – pensa Costa e Silva – , o Chachá já antevira o declínio do tráfico, mas não sabia fazer outra coisa que não vender gente. E gostava de sua vida. “Encontrara a sua Pasárgada, e não tinha por que afastar-se dela” (p. 169).

O último capítulo narra brevemente a festa de “posse” do novo Chachá, o VIII, Honoré Feliciano Julião de Souza, em 1995, acompanhada pelos Souza e muitos agudás de Ajudá. Os atuais descendentes de Francisco Félix esquecem, de acordo com o relato de Costa e Silva, o que consideram condenável na vida de seu antepassado: o ofício de mercador de escravos. Preferem lembrar dele como patriarca e protetor dos ex-escravos regressados do Brasil. É o que o historiador inglês Peter Burke chama de “uso da amnésia social”: indivíduos ou grupos buscam tirar da memória “um passado que as pessoas por um ou outro motivo não desejam conhecer, embora talvez fosse melhor para elas se o fizessem”[1]. Mas como o esquecimento nunca é completo, ou pelo menos nem todos preferem esquecer, no meio da festa um beninense chama Costa e Silva à parte e cochicha em seu ouvido “que Francisco Félix de Souza não foi aquele grande homem a quem cantam loas, mas a principal personagem de um medonho pesadelo” (p. 175).
O Rei do Daomé (sentado, sem camisa) saúda Mitô Honoré Feliciano de Souza, o Chachá VIII, vice-rei de Uidá.
 Chachá VIII demonstra orgulho por sua ascendência brasileira

Desta maneira, percebemos que a ambigüidade prevalece deliberadamente no retrato do Chachá que Alberto da Costa e Silva busca nos apresentar em seu mais recente livro. Um retrato que às vezes aparenta estar embaçado, indefinido. E nem poderia ser diferente, já que, com sua honestidade característica, em diversos momentos Costa e Silva reconhece que apenas especula, em vez de afirmar. E lamenta que não haja, “semelhante ao de exclamação, um ponto de dúvida” para encerrar os períodos onde as incertezas abundam (p. 14).

Em outros momentos, porém, conseguimos visualizar mais nitidamente o Chachá retratado por Alberto da Costa e Silva. Onde os documentos escritos ou a memória coletiva silenciam, o autor enriquece a biografia de Francisco Félix com sua erudição acerca da geografia, dos costumes, do cotidiano, das culturas e da história dos habitantes do golfo do Benin. É inegável que ter convivido de perto com a realidade da África confere-lhe um conhecimento de causa que se torna um diferencial em relação a obras de outros historiadores que tratam do continente africano.

Francisco Félix simplesmente escapole de qualquer tentativa de um parecer definitivo sobre sua pessoa. Sendo ele um homem de mentalidade luso-brasileira colonial, que teve de se adaptar às cosmovisões dos povos que habitavam a Costa dos Escravos, especialmente dos jejes, podemos afirmar que Francisco Félix se integra, juntamente com os lançados portugueses na Senegâmbia dos fins do século XV[2], a um grupo que Costa e Silva chama de “centauros culturais: africanos entre africanos, europeus ou europeizados quando em contato com europeus” (p. 35). Tal maleabilidade cultural foi imprescindível para que Francisco Félix sobrevivesse em terra estranha e se tornasse o maior negociante de almas que o tráfico já produzira até então.

O diplomata, poeta, ensaísta, memorialista e africanista brasileiro Alberto da Costa e Silva, autor do livro resenhado


Resenha de: SILVA, Alberto da Costa e. Francisco Félix de Souza, mercador de escravos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira: EdUERJ, 2004.


[1] BURKE, Peter.  Variedades de história cultural. Trad. Alda Porto. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, p. 88.
[2] O autor discorre sobre os lançados em SILVA, Alberto da Costa e. A manilha e o libambo – a África e a escravidão, de 1500 a 1700. Rio de Janeiro: Nova Fronteira: Fundação Biblioteca Nacional, 2002. Capítulo 7, páginas 229-279.

sábado, 13 de março de 2010

ASPECTOS DO TRAFICO DE ESCRAVOS DE ANGOLA PARA O BRASIL NO SÉCULO XVI


http://www.educacional.com.br/upload/blogSite/1943/1943062/8662/Tr%C3%A1fico_escravos_p.JPG1. PROLEGÓMENOS DO INFERNO
Filipe Nunes de CARVALHO '
 

Herança da Antiguidade, a escravidão perdurou na Península Ibérica medieval. Com o início da expansão ultramarina portuguesa, no século XV, os mouros, que até então forneceram os efectivos, ao tempo já reduzidos, para o trabalho escravo vão sendo substituídos pêlos negros africanos. Em meados do século XVI cerca de dez por cento da população de Lisboa era já constituída por escravos1 e no Alentejo quinhentista o número de pessoas escravizadas correspondia a uns seis porcento do total de habitantes2.

Com o descobrimento do Brasil e a progressiva fixação dos portugueses nas suas terras, o recurso à escravização dos autóctones apresentou-se aos colonos carecidos de mão-de-obra como uma solução natural. A população ameríndia não era tão escassa como em tempos se supôs ou quis fazer crer. A dificuldade residia em submetê-la a um tipo de trabalho oposto aos seus hábitos ancestrais e à sua psicologia3. Beneficiando do acolhimento proporcionado pêlos sertões, onde o domínio português demorou a fazer-se sentir, os índios do Brasil ofereceram uma resistência que não deve ser negligenciada. A difusão
pêlos colonos de um discurso que enfatizava a bestialidade dos índios nem sempre se terá traduzido pêlos resultados pretendidos4. Os interesses dos missionários e as iniciativas legislativas da Coroa constituíram obstáculos suplementares, e nem sempre despiciendos, à redução dos autóctones ao cativeiro. Associados ao surto da economia sacarina, uns e outras conjugaram-se para favorecer o recurso sistemático à importação de negros africanos5. Além de pertencerem a civilizações tecnologicamente mais evoluídas que as
características dos naturais do Brasil, possuíam condições físicas e psicológicas para o trabalho duro e continuado nos engenhos e na mineração, a qual no século XVIII se tornaria a principal fonte de rendimento da América portuguesa. Por outro lado, os mesmos eclesiásticos católicos que se opunham à escravização dos índios mostravam-se coniventes com o cativeiro dos africanos e incentivavam a sua prática6.
Ainda no século XVI e durante toda a centúria seguinte desenvolve-se, em torno da produção sacarina, a estruturação da economia e da sociedade do Brasil. É, pois, o açúcar que constitui o principal estímulo para a importação de angolanos durante o período de que este trabalho se ocupa7. Dado que o território angolano não foi a única fonte de abastecimento de africanos ao Brasil, convém salientar que parece situar-se no século
XV11 a época de maior peso relativo da sua exportação humana8. Quando os portugueses chegaram a Angola a existência de indivíduos reduzidos à condição de escravos já era ali uma realidade, como sucedia em muitas regiões de África. O conhecimento das suas características suscitou especial interesse na fase assinalada  pela tentativa de ocupação das, afinal inexistentes, minas de prata, um mito utilizado
para mobilizar homens e recursos que permitissem a colonização9. Os que mais contribuíram para o difundir, com destaque para os Jesuítas, tinham consciência da necessidade de se encontrarem alternativas reais para a exploração económica do território Continua....



http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/3180.pdf.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Page 1 ESCRAVIDÃO E REVOLTAS DE ESCRAVOS EM ANGOLA (1830-1860) Roquinaldo Ferreira*



Foram várias as investidas para aumentar a presença portuguesa em
Angola entre 1836 e 1860. Três destas iniciativas tiveram grande visibilidade. O Ambiz, uma região sem soberania definida, foi ocupado em 1855. Fundou-se, em 1848 uma colonia, Mossamedes, com portugueses quc saíram de Pernambuco fugindo do clima de antilusitanismo durante a Revoluçáo Praieira. Além destas iniciativas, a partir de 1836, desencadeou-se um ciclo de investidas militares para submeter as regiões a leste do Rio Kwango. Nào se trata aqui de aferir o quanto tais iniciativas tiveram exito. Mossamedes. por exemplo, não teve êxito imediato. Apesar disto, é claro o esforço reordenador português em Angola a partir de 1836. E o fim do tráfico ilegal, é preciso dizer, ao afastar os riscos à soberania portuguesa, tambéin fez parte desta reordenação.
O fim do táfico ilegal significou igualmente transformações ime-
diatas no perfil demográfico de Luanda. Entre 1845 e 1850, a população total de Luanda aumentou de 5.605 para 12.656 pessoas; um aumento anual de cerca de 1 392 pessoas. Dois grupos em particular foram privilegiados por tal crescimento: os escravos e os pretoslmulatos livres. os escravos aumentaram de 2.749 para 5.900. Por esta razáo, quase metade da população total de Luanda era formada por escravos. em1850. Já os pretos e mulatos livres. aumentaram de 1.255 para 5.305. conformee indica a tabela:'

Continua....


Para saber mais 
idem




quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Escravidão, um passado para esquecer?



O Brasil teve, na sua curta história de 501 anos, 350 anos de regime escravocrata e apenas 100 anos de trabalho livre. Não levamos em consideração os primeiros 50 anos, quando praticamente o único trabalho era carregar nossa riquezas naturais para fora. Em 1817, o Brasil tinha 3,6 milhões de habitantes e 1,9 milhão de escravos, ou seja, mais da metade da população. Em 1850, esse número pulou para 3,5 milhões.

No total, nosso país trouxe da África 4 milhões de escravos, quase a metade importada por todo o continente americano.
Com os números acima, pode-se afirmar que o Brasil foi fundado e teve o seu desenvolvimento e a sua economia baseados no trabalho escravo, o que não deixa ninguém orgulhoso, muito pelo contrário. Só no Rio de Janeiro, entre os anos de 1790 e 1830, chegaram 700 mil escravos trazidos por cerca de 1600 navios. Em Salvador, segundo maior importador de escravos, também nessa época, os trabalhadores forçados representavam mais de 40% da população.

Neste dia 20 de novembro, o Movimento Negro reverencia o dia da morte de Zumbi dos Palmares, o líder do maior levante de escravos do país, o Quilombo dos Palmares, que tinha aproximadamente 20 mil negros (Leia no box ao lado). Esta data é considerada, pela consciência negra, mais importante que a de 13 de maio, dia em que a Princesa Isabel, há 113 anos, assinou a Lei Áurea que aboliu a escravatura. Alegam os líderes do movimento que a data da abolição é uma "data branca que reflete benevolência".

Segundo Roberto Pompeu de Toledo, em artigo na Revista Veja, "trocou-se um mito pelo outro, o da senhora bondosa, que gentilmente concede a liberdade aos súditos negros, pelo do negro rebelde e audaz, herói do inconformismo. Entre ambos, fica a realidade dura, cotidiana, suarenta, diversa, complexa - e, fora do círculo dos especialistas, ignorada". É a mais pura verdade: no Brasil de hoje não se fala muito no regime escravocrata, parece que existe um acordo tácito para esquecer o assunto.

Rugendas: Navio Negreiro

Como tudo começou

Depois do Descobrimento, Portugal deixou o Brasil praticamente abandonado durante 30 anos, o território sendo disputado entre corsários franceses, holandeses e ingleses. Com o declínio do comércio com as Índias, o Rei D. João III resolveu iniciar a colonização e mandou uma expedição comandada por Martin Afonso de Souza, que aportou na Bahia em 13 de março de 1531. Começou aí a ser escrita a triste página da escravidão no Brasil. Segundo Francisco Adolfo Varnhagem - Visconde de Porto Seguro, Martin Afonso desembarcou na Bahia alguns escravos encontrados na Caravela Santa Maria do Cabo, um navio que foi aprisionado e incorporado a sua frota. O mesmo expedicionário teria levado alguns escravos quando fundou a Vila de São Vicente, onde introduziu a cultura da cana-de-açúcar e construiu o 1º engenho, em janeiro de 1532.

Em setembro de 1532 foi adotado o sistema de Capitanias Hereditárias, que dezesseis anos depois mostrou-se ineficiente. Coube então a Pernambuco o nada honrável título de primeiro porto brasileiro de desembarque de escravos africanos comercializados. Isso porque Duarte Coelho, o primeiro donatário de Pernambuco, importou os primeiros escravos quando da sua chegada. A verdade é que em 1546 já existiam 76 escravos na colônia.

Com o fim das Capitanias, o Rei resolveu, então, criar o Governo Geral, baseado na Bahia. Em Portugal já existia, desde 1448, um comércio regular de escravos. Os portugueses tentaram escravizar os índios, mas não deu certo, sendo eles considerados indolentes, avessos ao trabalho e sem resistência às doenças do homem branco, o que é estranho, pois o mesmo se dizia do negro. O fato é que o início da produção de açúcar coincidiu com a chegada dos escravos africanos ao Brasil. Em 1590, eles já eram 36 mil escravos e depois passaram a ser usados, também, na lavoura do café, sendo submetidos às mais duras condições de trabalho.

Os portugueses, e depois os brasileiros, fizeram do negro africano uma valiosa mercadoria. Os traficantes de escravos da Bahia se abasteciam mais na África Ocidental, na região do Golfo de Benin, e os cariocas na África do centro-sul, onde ficam o Congo e Angola, e depois na costa oriental, em Moçambique. Não pensem os leitores que para trazer escravos da África, era necessário entrar no mato para caçá-los. As próprias tribos africanas vendiam aos traficantes outros negros de outras tribos, prisioneiros de guerra ou simplesmente capturados para serem negociados. Vendiam não, faziam escambo: trocavam por farinha, feijão, carne seca, cachaça, rolos de fumo, sal, arroz, tecidos, armas de fogo, facas, navalhas e até espelhos e bugigangas.

Castigos - Frederico Guilherme Biggs, circa 1845-1853
Desembarque de escravos

Mais Escravos

Quem mais trouxe escravos para o Brasil foi o Rio de Janeiro, seguido de perto pela Bahia. Em 1808, a Corte portuguesa se instalou no Rio, fazendo a sua população crescer muito e consequentemente aumentar a necessidade de mão de obra.

Isso significava mais escravos, pois segundo a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, "Os escravos carregavam tudo nesse Brasil, onde homens de qualidades se recusavam a levar o mais ínfimo pacote". O ouro das Minas Gerais também ajudou a transformar o porto do Rio de Janeiro no mais importante da colônia, pois no início do século XIX o Rio era responsável por cerca de 40% das importações e exportações do Brasil, contra 30% da Bahia.

Com a economia baseada principalmente na agricultura, Minas Gerais, Rio e São Paulo estavam necessitando cada vez mais de escravos, primeiro nas plantações de cana-de-açúcar e nos engenhos, e depois na lavoura do café que iniciava seu impressionante crescimento. Os traficantes de escravos abasteciam, não só a região Norte-Fluminense com seus engenhos, como o Vale do Paraíba dos barões do café, sendo responsáveis também pela remessa de escravos para São Paulo, Minas e a região Sul do País. Não foi à toa que o Rio de Janeiro comandou o mais importante fluxo de escravos do mundo, uma das maiores operações de transferência forçada de pessoas na história da humanidade.

A penosa viagem

No tráfico de escravos eram utilizados diversos tipos de navios, sendo os mais comuns o bergantim e a galera. Na média, cada embarcação trazia 440 escravos e a travessia do atlântico durava cerca de 43 dias se o ponto de partida fosse o centro-sul da África, e até o dobro desse tempo se os escravos fossem embarcados em Moçambique. "A história dos navios negreiros é a mais comovente epopéia de dor e de desespero da raça negra: homens, mulheres e crianças eram amontoados nos cubículos monstruosamente escuros dos navios, onde iam se misturando com o bater das vagas e o ranger dos mastros na vastidão dos mares. A fome e a sede, de mãos dadas com as doenças, não lhes ceifavam sempre a vida, concedendo-lhes perdão e misericórdia que não encontravam aconchego nos corações daqueles homens severos e maus de todas embarcações que só se preocupavam com o negócio rendoso que a escravaria oferecia.

A taxa de mortalidade de escravos nessas viagens variava de 6% a 9%, quando vinham do Congo e Angola, e o dobro quando partiam de Moçambique. Nada que se possa comparar à mortandade de escravos na própria África: Segundo o estudioso Joseph Miller, 40% dos escravos capturados em Angola morriam durante a marcha forçada até o litoral e outros 10% a 20% morriam nos armazéns onde ficavam esperando para serem embarcados. Ou seja, mais da metade dos negros escravizados morriam em seu próprio país, nas mãos dos seus pares. As causas das mortes eram doenças, maus tratos, alimentação insuficiente, superlotação de navios. O recorde negativo de morte de negros em viagem de navio é da galera São José Indiano, que em 1811, no caminho entre Cabinda e o Rio de Janeiro, perdeu 121 dos 667 escravos que transportava.
É importante ressaltar que, além de fornecer escravos para os traficantes, os próprios africanos também se utilizavam do trabalho forçado. No Congo, por exemplo, depois de uma guerra, os vitoriosos usavam os inimigos como escravos. Em outros países a guerra era feita justamente para capturar escravos, que eram trocados por mercadorias com os traficantes. O curioso é que no Brasil, o ex-escravo também tinha escravo, justamente para mostrar à sociedade a sua atual condição. A história registra até casos de escravo que tinha escravo! Na verdade, dependendo da safra, o negro era uma mercadoria barata e qualquer pobre podia ter um, até mesmo para alugar, ou prostituir, se fosse mulher.

Debret, 1825

Quilombo dos Palmares e Zumbi

A formação dos quilombos se deu como uma forma coletiva e organizada de rebeldia por parte dos negros escravos, que não se conformavam com sua situação e desejavam a liberdade. Os primeiros apareceram na Bahia já no final do século XVI, período em que a implantação do trabalho escravo no Brasil ainda estava em seu início. Com o grande aumento do tráfico de escravos para o Brasil, cresceu também o número de fugas de negros. Eles procuravam se refugiar em locais de difícil acesso, sertão adentro e lá formavam mocambos, um conjunto de casas. O conjunto de mocambos era chamado quilombo. Cada quilombo tinha um chefe militar, denominado zumbi e os habitantes eram os quilombolas. Eles trabalhavam pela própria subsistência: cultivavam lavouras, caçavam, faziam artesanato e até chegavam a praticar transações comerciais para conseguirem ferramentas e tecidos.
Sem dúvidas, o maior e mais famoso quilombo foi Palmares, localizado na Serra da Barriga, em Alagoas. Surgiu no início do século XVII e ganhou grandes proporções já em 1630. Chegou a contar com mais de 20 mil escravos fugidos. Os pequenos produtores brancos, que também se sentiam prejudicados pelos grandes senhores de engenho, passaram a apoiar os negros de Palmares e com eles estabeleceram sólidas relações comerciais, o que era duramente criticado pela Coroa. Em 1665 nasceu no quilombo aquele que ficaria conhecido como o heróico Zumbi. Mas ele foi levado de lá por um padre. Aprendeu latim e português e foi coroinha, mas fugiu em 1670, retornando a Palmares. Após passar por muitas provas de coragem tornou-se um mito, sendo escolhido para chefe das armas.

A metrópole tentava reagir de todas as formas e, depois de fracassar em muitas tentativas de atacar Palmares, o governo de Pernambuco contratou os serviços do bandeirante Domingos Jorge Velho, em 1694. Com homens, armas e mantimentos, Portugal começou a repressão assassina. Roupas contaminadas eram usadas para disseminar doenças nos quilombolas, enfraquecendo-os, para depois intensificar os ataques. Os comandados de zumbi dos Palmares resistiam bravamente e as perdas foram muito numerosas para ambos os lados. Só que o Rei Zumbi estava sitiado e não tinha como repor suas armas. Foi então que Domingos Jorge Velho conseguiu entrar no mocambo dos Macacos em Palmares e destruí-lo totalmente. Os sobreviventes, doentes e com fome, eram caçados pelas matas e muitos foram presos. Zumbi atirou-se num penhasco com seus guerreiros como forma de resistência. Preferia a morte a se entregar.

Um grupo bem menor continuou resistindo, com um novo Rei Zumbi, sobrinho do anterior. Mas no final de 1695 ele foi traído por um companheiro, sendo capturado e morto no dia 20 de novembro. Sua cabeça foi cortada e levada a Recife e exibida à público para servir de exemplo aos escravos que tivessem pretensão de fugir.

A mercadoria

Depois de receber os escravos do comerciante local, o capitão do navio atravessava o oceano e ao chegar no porto do Rio com a mercadoria (assim eram tratados), pagavam os direitos alfandegários e os negros eram levados para os mercados de escravos da Rua do Valongo, onde eram expostos. Ás vezes eram oferecidos de porta em porta. A maioria, entretanto, ia direto para as fazendas do interior. Mas eram realmente tratados como mercadoria: o escravo podia ser vendido, trocado, emprestado, alugado, doado e dentro do Direito, podia ser penhorado, servir de embargo, seqüestro, depósito, adjudicação, etc. O escravo só era considerado gente quando cometia um crime, quando então lhe aplicavam o Código Penal. Em função disso, escreveu Jacob Gorender: "O primeiro ato humano de um escravo é o crime."

Era longo o caminho do escravo, desde os florestas africanas até o interior do Brasil. Entre a sua captura nas savanas africanas e o desembarque aqui no país, considerando também o tempo em que ficavam esperando os navios nos armazéns africanos, poderiam se passar até 160 dias. Os que chegavam vivos, eram então submetidos ao vexame de serem expostos, como mercadoria, nos armazéns de escravos, até aparecer o comprador. Começava aí outra longa viagem até a fazenda onde ia trabalhar, no interior do Rio, São Paulo ou Minas Gerais.

Os escravos no Brasil, ao contrário do que muita gente pensa, não eram unidos, não se consideravam iguais. Provinham de diferentes países, de diferentes raças, de diferentes tribos, tinham costumes e línguas diferentes. E ainda existia o criolo, nascido aqui, que se considerava diferente do negro africano. Existia rivalidade entre os escravos, o que era incentivado pelo homem branco, pois a ele não interessava um bom entendimento entre os negros, dentro daquela máxima "dividir para governar." Um viajante inglês, Robert Walsh, escreveu que a massa negra tinha "oito ou nove castas diferentes e se empenhavam em lutas e batalhas". Por causa disso, levou algum tempo até que os negros realmente se rebelassem contra o branco opressor, que além do trabalho forçado, lhe impingia castigos terríveis

Detalhe da obra Boutique de la rue du Val-Longo, de Debret, 1825

Castigos

Protegidos por uma brutal legislação negra que permitia castigos, penas e maus tratos ao escravo, os fazendeiros e donos de engenho abusavam do direito de maltratar o negro, sendo eles chicoteados, presos a correntes de ferro a um cepo, obrigados a usar um colar de ferro (caso dos que tentavam fugir), etc. Na sua primeira fuga, o negro era castigado com cinqüenta chicotadas, e na segunda, com cem. Vários eram os instrumentos de punição: cangas, correntes, botas de ferro, colares e anjinhos, segundo Debret "um instrumento que servia para esmagar os polegares e de que se serviam os capitães-do-mato para fazer o negro confessar o nome e o endereço do seu senhor." Continua o viajante francês: "O colar de ferro, que tem vários braços em forma de ganchos, é o castigo aplicado ao negro que tem o vício de fugir. A polícia tem ordem de prender qualquer escravo que o use, e encontrado à noite, deixá-lo na cadeia até o dia seguinte. Avisado então, o dono vai procurar o seu negro ou o envia à prisão dos negros do Castelo." No julgamento dos negros que fugiram com Manuel Congo (condenado à morte), sete escravos foram condenados a 650 açoites cada um - 50 por dia - conforme mandava a lei e obrigados a andar três anos com o colar de ferro no pescoço.

Privação da liberdade, trabalho forçado e duros castigos são apenas alguns dos motivos que levavam os escravos a se rebelarem. Os primeiros levantes de escravos ocorreram na Bahia, em Salvador e no Recôncavo Baiano. A revolta dos Malês, em 1835, que ensangüentou as ruas da capital baiana, envolveu 1500 negros. Em 1789, houve uma fuga de escravos criolos na Fazenda Santana, em Ilhéus, na Bahia. Eles deixaram escritas suas reivindicações e ficaram dois anos escondidos no mato. Entre outras coisas, disseram: "Meu senhor, não queremos guerra, queremos paz.. Queremos permissão para trabalhar nas nossas roças nas sextas e no Sábado e no Domingo até brincar, folgar e cantar em todos os tempos que quisermos sem que nos impeça e nem seja preciso licença."

Em novembro de 1838, liderados por Manuel Congo, 80 escravos fugiram da fazenda Freguesia, em Vassouras - RJ, pertencente a Manuel Francisco Xavier. Era a primeira fuga na região envolvendo grande número de escravos. Mas, para ao fazendeiros, o pior estava por vir: na noite seguinte os fugitivos invadiram outra fazenda do mesmo senhor, a Maravilha, e levaram outros escravos, ferramentas e mantimentos. Depois seguiram para a fazenda de Paulo Gomes Ribeiro de Avelar e fizeram a mesma coisa. O número de escravos rebelados chegava agora a cerca de 400. Eles foram perseguidos e liquidados por uma milícia comandada pelo coronel chefe da Guarda Nacional na região, Francisco Peixoto de Lacerda Verneck, que também teve fazendas e escravos. Dos sobreviventes, 16 foram a julgamento.

Os primeiros quilombos, que a princípio foram reduzidos, de poucos negros, muitos dos quais famintos, e doentes, que fugiam dos engenhos, das fazendas e dos eitos, só foram possíveis graça a associação que o negro efetuou com o índio na causa da resistência a escravidão, e no século XVIII foi o de grandes protestos da raça africana, quando se formaram os maiores e mais tremendos quilombos que tantas apreensões causaram aos colonos e ao governo. O Maior quilombo foi o de Palmares, em Alagoas. O quilombo era, sem dúvida, a última fase de protesto - pois o negro na sua aflição de liberdade, não sentia dificuldades nem hesitava em privar-se da vida para se livrar de seus sofrimentos e por isto só restava ao escravo a fuga para as montanhas.

Em 1807, a Inglaterra aboliu seu tráfico de escravos e passou a reprimir o tráfico dos outros países, inclusive Portugal (leia Para Inglês ver no box ao lado). Para reconhecer a Independência do Brasil, a Coroa inglesa exigiu o fim do comércio de escravos e o Brasil assinou um acordo, em 1827, comprometendo-se a acabar com o navio negreiro. Mas esse acordo não seria cumprido, o que não é de se entranhar neste país, e o tráfico continuou até 1850. Neste ano encerrou-se o tráfico oceânico, mas continuou internamente, o Sudeste comprando escravos do Nordeste do país. O movimento abolicionista foi crescendo, e depois de várias leis paliativas, finalmente foi promulgada a Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, que acabou com a escravidão no Brasil. Acabou?
O que talvez leve o Movimento Negro a desdenhar a data de 13 de maio, que encerrou oficialmente uma página triste da nossa história, foi a forma como ela foi feita. De uma "penada" acabaram com a escravidão tipo assim: vocês estão livres, agora se virem. Com o fim do regime, não houve um assentamento de colonos negros em terras, não lhes deram as mínimas condições para desenvolverem um trabalho. Os escravos ficaram meio perdidos, sem saber direito o que fazer com a tão sonhada liberdade, tanto que muitos deles continuaram trabalhando no mesmo local, em um regime de semi-escravidão. Outros se aglomeraram em cortiços, cabeças-de-porco, nas periferias e morros das cidades. O resultado disso está aí, para todo mundo ver... e sentir.

Rugendas: Habitações de escravos

Os excluídos

Não vamos nos aprofundar no assunto racismo, que não cabe aqui, mas a verdade é que nem todos os problemas entre as classes sociais do Brasil estão ligados à escravidão. Segundo o historiador Flávio dos Santos Gomes, "É problemático pensar em continuidades. Se há no Brasil um sistema racial opressivo, não é necessariamente porque aqui houve escravidão. A explicação do racismo também se encontra no que ocorreu depois da abolição. É comum ouvir falar hoje em relações escravistas ou semi-escravistas no campo. Quando se diz isso, pensa-se que num modelo que não é generalizante. Houve vários tipos de relação com escravos no Brasil. Houve, por exemplo, escravos a quem era permitido manter pequenas roças, fazer um pequeno comércio ou receber por dia. Ora, relação que hoje são tachadas de escravistas podem na verdade ser piores que certos modelos que vigoraram na escravidão". Continua Manolo Garcia Florentino: "A escravidão foi a base a partir da qual se fundou uma civilização... E ao fazê-lo, viabilizou um projeto excludente, em que o objetivo das elites é manter a diferença com relação ao restante da população". E para complementar, diz Luiz Felipe Alencastro: "A escravidão legou-nos uma insensibilidade, um descompromisso com a sorte da maioria que está na raiz da estratégia das classes sociais mais favorecidas, hoje, de se isolar, criar um mundo só para elas, onde a segurança está privatizada, a escola está privatizada e a saúde também".
Segundo ainda o jornalista Roberto Pompeu de Toledo, "Falar do legado da escravidão, hoje, no Brasil, é falar da pobreza. Da miséria. Ou, para usar uma palavra mais atual - e apropriada -, da exclusão." E cita Manolo Garcia Florentino, que afirma: "O tráfico foi o maior negócio de importação brasileiro até 1850. Comprar pessoas para estabelecer diferenças foi o empreendimento deste país."

O Brasil não é o único país do mundo a esquecer, ou tentar esquecer, certos acontecimentos do passado. O incrível é que, no nosso caso, estamos falando de um passado recente, de pouco mais de 100 anos. O dia da Abolição e o dia de Zumbi dos Palmares são datas que devem ser comemoradas. Entretanto, o mais importante é a permanente consciência do que somos, pois sem a exata noção dos acontecimentos que nos informam a respeito da nossa existência, sem saber de onde viemos e o que fomos, não saberemos para onde ir.

Para inglês ver

Em 1807, Portugal já tinha perdido a supremacia dos mares, tanto que a família real, em fuga para o Brasil, veio escoltada por navios de guerra ingleses. Os portugueses fugiram por causa da invasão do país pelas tropas napoleônicas, justamente por não aderir ao bloqueio continental contra o Reino Unido decretado pelo imperador francês. Nesse mesmo ano, a Inglaterra aboliu o seu tráfico de escravos e passou a pressionar os demais países, inclusive Portugal, a fazer a mesma coisa.

Os ingleses não só condenaram os navios negreiros, como passaram a exercer permanente vigilância nos mares, seus vasos de guerra parando as embarcações procedentes da costa africana. Quando encontravam um navio carregando escravos, soltavam os presos e afundavam a embarcação.
Os traficantes portugueses, que não pretendiam parar com esse lucrativo comércio, bolaram uma forma de enganar os ingleses. Mandaram construir um fundo falso nos navios e embaixo deste colocavam os negros africanos. Entre esse fundo falso e o convés - primeira coberta do navio - carregavam mercadorias. Quando eram abordados no mar pelos britânicos, mostravam-lhes a carga que transportavam sem provocar desconfiança. A verdadeira e lucrativa mercadoria, estava embaixo do fundo falso. A mercadoria de cima, era para inglês ver... Foi assim que surgiu esse provérbio.

Gamboa
Rua do Valongo e Rua da Harmonia na história da escravatura

A Gamboa e Saúde constituem hoje bairros que abrigam uma população de baixa renda. Situados adjacentes ao centro da cidade, por trás da Central do Brasil e entre esta, o cais do porto e o Morro do Valongo (Conceição). A ocupação destas áreas data do século XVI, quando o local ainda era atingido pela praia. Além de ter o cemitério mais antigo da cidade, o dos Ingleses (1815), na Gamboa ficava também o cemitério dos escravos, inicialmente improvisado e depois definitivamente implantado, com capela dedicada a São Jorge e São João. Também no bairro ficava o cais para desembarque dos mortos vindos dos navios negreiros. Ali foi erguida, entre 1702 e 1719, a quarta paróquia da cidade, a Igreja de Santa Rita. À sua frente, em 1765, por serem deficientes os terrenos destinados ao sepultamento de escravos, mandaram abrir covas na rua e nela lançaram os cadáveres. Nos "autos de homens de negócios e mercadores de escravos", de 1758 a 1768, lê-se, ao lado de uma certidão do vigário de Santa Rita, comentário a respeito, lançado por "um advogado adverso dos possuidores de escravos". E comenta Noronha Santos: "Forte impiedade: enterrar na rua, por onde andam os povos e os animais a despedaçar os cadáveres. Que desconhecimento de Humanidade!"

Rua do Valongo (Atual Rua Camerino)

A Rua Camerino começou a ser aberta em 1741. Inicialmente denominada Rua do Valongo, tirou o seu nome da zona em que se originava, isto é, o Valongo, que compreendia trecho entre Saúde e a Gamboa. A partir de 1779, por ordem do Vice-Rei Marques do Lavradio, nela se localizou o mercado de compra e venda de negros - depósitos e armazéns de escravos - tendo em vista evitar que os escravos desembarcados transitassem pelas ruas nus, doentes, com aspectos de bichos, de "tal maneira que as pessoas honestas não se atreviam a chegar às janelas e os inocentes, vendo-os, aprendiam o que ignoravam" (depoimento do Marquês do Lavradio). A partir de 1843, por ocasião da chegada da Imperatriz D. Tereza Cristina, esposa de D. Pedro II, e por ter ela percorrido a Rua do Valongo, passou a denominar-se Rua da Imperatriz, até 1890, quando recebeu o nome atual em homenagem ao sergipano Francisco Camerino de Azevedo, herói da guerra do Paraguai.

Augustus Earle, detalhe da obra Slave market at Rio de Janeiro

Caminho do Cemitério - Rua da Harmonia (atual Pedro Ernesto)

A Rua Pedro Ernesto era conhecida em 1750 como caminho da Gamboa, fazendo a ligação com a praia do mesmo nome. Mais tarde, chamou-se Rua do Cemitério, pois ali eram enterrados em valas comuns muitos dos escravos chegados doentes da Costa da África. O cemitério de Santa Rita, que era destinado aos negros recém chegados da África que morressem nos depósitos onde ficavam aguardando os compradores. Funcionou regularmente, até que o mercado de escravos fosse transferido da Rua Direita (atual Primeiro de Maio) para o Valongo. Depois o cemitério dos "pretos novos" foi transferido para as proximidades do mercado, facilitando assim o transporte dos corpos dos que lá morriam.

Em 1814-1815, um viajante que esteve no Brasil, G.W. Freireyss, citado por Mary Karasch -, esteve no cemitério do Valongo e o descreveu como tendo, na entrada um homem em vestimentas de padre, que lia orações para as almas dos mortos, enquanto alguns negros próximos a ele tapavam "seus compatriotas" com um pouco de terra. No meio do cemitério estava uma montanha de terra e de corpos despidos em decomposição, parcialmente descobertos pela chuva. Segundo o viajante, o "mau cheiro" era insuportável, o que fez supor que os mortos eram enterrados somente uma vez na semana, e que de tempos em tempos a "montanha" de cadáveres era queimada. Os negros vivos, segundo ele, ficavam localizados tão perto do cemitério de seus companheiros que eles também deveriam ter visto os corpos. Em 1853 a rua recebeu o nome de Harmonia (!?). Em 1863 ali foi criado o Teatro de Amadores, que depois virou a escola José Bonifácio e hoje é o Centro Cultural José Bonifácio dedicado a Cultura afro-brasileira. Em 1946, receberia sua denominação atual em homenagem a Pedro Ernesto.

Litiere C. Oliveira, Monique Cardoso e Mercedes Guimarães.


Fontes: Viagem pitoresca e histórica ao Brasil, de Jean Baptiste Debret; Das cores do Silêncio, de Hebe Maria M. de Castro; Em Costas Negras, de Manolo Garcia Florentino; Negros, Estrangeiros, de Manuela Carneiro da Cunha; Negociação e Conflito, de João José Reis e Eduardo Silva; História de Quilombolas, de Flávio dos Santos Gomes; site Trafico de escravos, revista Veja e História do Brasil de Luiz Kochiba.

FONTE