terça-feira, 11 de novembro de 2008

MOSCOVO QUIS DAR A SAVIMBI A VICE-PRESIDÊNCIA DO MPLA


Jonas Savimbi e N'Zau Puna (foto Revista Expresso)


MOSCOVO QUIS DAR A SAVIMBI A VICE-PRESIDÊNCIA DO MPLA

"Histórico" da UNITA revela ao JN as contradições entre os principais protagonistas da luta armada

Miguel Maria N'Zau Puna, durante 24 anos secretário-geral da UNITA, afastou-se, dramaticamente, de Jonas Savimbi, pouco antes das eleições angolanas, em 1992. Hoje, deputado na bancada do Fórum Democrático Angolano (FDA), N'Zau Puna reflecte, em Luanda, sobre a evolução do país.
Luís Alberto Ferreira
Enviado JN

Quais os passos madrugadores da UPA-FNLA e do MPLA? Quem, de facto, convenceu Jonas Savimbi a ingressar na UPA-FNLA? Que antecedentes tapizaram a decantada ruptura entre Savimbi, secretário-geral, e Holden Roberto, presidente da UPA-FNLA? Savimbi "namorou", de facto, o MPLA? E, por isso, Holden Roberto quis eliminar Savimbi?
Miguel N'Zau Puna responde ao JN sem rodeios e sem calar convicções. Como quer que seja, a retrospectiva só parcialmente desvenda o que terá sido determinante e unívoco na criação da UNITA.
No peristilo da entrevista, que decorre, num entardecer cacimboso, no Bairro Azul (Samba), em Luanda, Miguel N'Zau Puna assegura que, em 1961, "muitos angolanos", ele próprio, "apoiaram o 4 de Fevereiro sem verdadeiramente saber quem era o partido ou movimento que liderava a sublevação nacionalista".
JORNAL DE NOTÍCIAS - A UNITA não existia, ainda, em 1961, mas certamente que, no interior do movimento, mais tarde, não subsistiram dúvidas quanto à autoria intelectual e material do 4 de Fevereiro em Luanda...
N'ZAU PUNA - Nenhumas dúvidas. Foi o MPLA quem desencadeou, em Luanda, o 4 de Fevereiro. As primeiras acções armadas contra o colonialismo começaram aqui mesmo, em Luanda. Com o 4 de Fevereiro. E as polícias coloniais, com a PIDE ao centro, iniciaram logo a repressão. Abafaram, praticamente, o movimento. Não havia condições para a revolução, nas cidades. É assim que começa a clandestinidade. A UPA, futura FNLA, de Holden Roberto, entra em acção no mês de Março, no norte de Angola. E torna-se mais conhecida. Ouve-se falar da UPA até na Namíbia, no Botswana e na Zâmbia... E de Luanda fogem para Kinshasa, via Cabinda, muitos angolanos.
JN - Onde estava Jonas Savimbi?
NP - Em Portugal, de onde foge para a Suíça, via Paris. Savimbi dá, então, início a uma digressão por países africanos. Vai a uma conferência em Kampala e segue dali para Nairobi, onde o "velho" nacionalista queniano Jomo Kenyatta se encontrava em regime de residência vigiada. Por imposição das autoridades (coloniais) britânicas. Foi o "velho" Kenyatta quem convenceu Savimbi a ingressar na UPA-FNLA, de Holden Roberto.
JN - Holden conhecia Jonas Savimbi?
NP - Holden Roberto tinha-se deslocado, anteriormente, à Suíça, para convencer Savimbi a aceitar o cargo de secretário-geral da UPA, mais tarde FNLA. Savimbi pediu-lhe que desse a conhecer o programa do movimento em todas as suas vertentes. E não gostou do que viu. Convincente foi, em Nairobi, Jomo Kenyatta. Ele convenceu Savimbi com os seguintes argumentos: "Se você, Savimbi, acha que a UPA-FNLA está mal estruturada, junte-se a ela, junte-se a Holden Roberto e mostre aquilo que aprendeu na Europa, nomeadamente em Portugal e na Suíça. Só assim você poderá participar na revolução". Jonas Savimbi rende-se aos argumentos de Kenyatta, vai para Kinshasa e ingressa na UPA-FNLA. Holden é o presidente e ele é o secretário-geral!
SAVIMBI "MINISTRO"

JN - Savimbi ajudou a UPA a organizar a luta armada, como lhe recomendou o líder queniano?
NP - Savimbi e Holden trabalham juntos, inicialmente Savimbi faz viagens, missões diplomáticas em vários pontos da África e do Mundo. Ele testemunha a fusão da UPA com o PDA (Partido Democrático Angolano), de que resulta, finalmente, a FNLA. Está-se em 1962 e Savimbi conclui, tal como Holden Roberto, que é preciso evoluir para outros patamares na luta armada de libertação. Que a própria UPA tinha, já, em Março de 1961, desencadeado no norte de Angola, mormente na região de São Salvador. Constituída a FNLA, decide-se logo a formação de um "governo". O GRAE, Governo Revolucionário de Angola no Exílio.
JN - Isto, portanto, em 1962. Que cargo atribuiram a Savimbi nesse "governo", o GRAE?
NP - O cargo de ministro das Relações Exteriores. Savimbi participa amplamente na divulgação do GRAE, que recebe em África múltiplos apoios. E quando se dá o processo de formação da OUA, Jonas Savimbi é escolhido para a direcção do Comité dos Movimentos de Libertação. Corria o ano de 1963. Prepara-se um documento sobre os movimentos de libertação que deve ser apresentado aos chefes de Estado africanos, no âmbito da OUA. Mário Pinto de Andrade, do MPLA, faz parte da respectiva comissão redactorial. Surge a primeira fricção, entre Savimbi e Holden, por uma questão "hierárquica": Savimbi entende que a leitura do documento deve ser feita pelo histórico queniano Oginga Odinga. Holden, contudo, argumenta que ele próprio, presidente da FNLA, deve proceder à leitura do texto. A preferência acaba por recair em Oginga Odinga...
JN - Foi um primeiro sinal público das diferenças entre Holden e Savimbi, na UPA-FNLA. Mas o "tapete" do quotidiano,em Kinshasa, era escorregadio: cresciam as clivagens, na FNLA, entre as duas tendências...
NP - A "francófona", de Holden Roberto, e a "lusófona", de Jonas Savimbi. Sim, o problema existia. Definem-se grupos no interior da FNLA, em Kinshasa. Mesmo no seio do GRAE (Governo Revolucionário de Angola no Exílio) as clivagens notavam-se. Os mais novos apreciavam o dinamismo de Jonas Savimbi. Mas houve quem conseguisse influenciar Holden Roberto. Convencê-lo de que Savimbi estaria a ir longe de mais na estratégia da luta de libertação. Claro que os quadros "francófonos" da FNLA estavam, em Kinshasa, num "habitat" familiar. Tinham estudado, esses angolanos, com Holden Roberto e com indivíduos zairenses.
NETO E O MPLA

JN - Jonas Savimbi sentia-se, portanto, na FNLA, numa situação incómoda, tanto mais que, para chegar à presidência, teria de desbancar Holden Roberto, instalado de pedra e cal... até hoje. Savimbi voltou-se, então, para o MPLA?
NP - Quando o dr. Agostinho Neto chega a Kinshasa, fugido de Portugal, e ocupa a presidência do MPLA, nós (eu, o dr. Savimbi e outros) já lá estávamos. Havia, necessariamente, certas afinidades. Dizia-se: "Nós todos viemos de Angola..." Éramos os "lusófonos" da FNLA, os "lusófonos" do MPLA... No interior da FNLA, congratulamo-nos com a fuga de Agostinho Neto.
JN - Mas, na FNLA, em 1963, era a "tendência Savimbi" quem assumia, no concreto, as aproximações ao MPLA?
NP - O próprio Savimbi. Lembremos que ele, em Portugal, quando estudante, convive com angolanos que, depois, militam no MPLA em Kinshasa. A aproximação entre Savimbi e o MPLA tornou-se inevitável, até porque Savimbi se sentia incómodo e hostilizado pelos "francófonos", na FNLA.
JN - E Savimbi acabou mesmo por ir a Moscovo. Em que contexto pretendeu Jonas Savimbi a ajuda dos soviéticos?
NP - Ao desenhar-se a ruptura com Holden Roberto e a FNLA; Savimbi diligenciou enviar guerrilheiros para a União Soviética, para serem treinados. O próprio Savimbi foi, então, a Moscovo. E registou-se um impasse. Os soviéticos queriam que Jonas Savimbi, em vez de meter ombros à criação da UNITA, aceitasse o lugar de vice-presidente do MPLA. Savimbi recusou a proposta.
HOLDEN DESCOBRIU A "TRAIÇÃO" E AMEAÇOU PRENDER SAVIMBI

O futuro líder da UNITA "deu a entender" ao dr. Neto que acarinhava
a hipótese de mudar para o MPLA

"Eu não sei se a ideia chegou mesmo a dominá-lo, mas é verdade que Savimbi deu a entender ao MPLA que encarava a hipótese de se juntar ao dr. Agostinho Neto", disse também, ao JN, Miguel N'Zau Puna.
O antigo secretário-geral da UNITA pensa que os soviéticos, quando "propuseram" ao dr. Savimbi a mudança (da UPA-FNLA) para o MPLA, onde ocuparia a vice-presidência, pretendiam esta simples coisa: concentrar, à volta de Agostinho Neto, o maior número possível de nacionalistas angolanos.
Miguel NZau Puna evita, contudo, cair na assertiva de que o dr. Neto estaria totalmente receptivo à iniciativa ou pretensão dos russos. Ele admite, simplesmente, que Agostinho Neto iria, talvez, compreender que a vice-presidência (do MPLA) para Savimbi constituiria uma "acomodação", que poderia até ser meramente transitória.
NZAU PUNA - Uma coisa é certa: numa reunião de quadros "lusófonos" da UPA-FNLA, efectuada em Kinshasa, Jonas Savimbi advertiu-nos: "Nem a FNLA, nem o MPLA; não servem. Eles têm os escritórios aqui, no Congo, fora de Angola, portanto. Estão bem instalados e deixam os camponeses angolanos entregues a si próprios". Savimbi teorizava sobre a urgência de criar um movimento cuja direcção deveria lutar, ao lado do povo, no interior de Angola.
JORNAL DE NOTÍCIAS - Quando foi que Holden Roberto se deu conta das aproximações de Savimbi ao dr. Neto e ao MPLA? Miguel NZau Puna acompanhou, presencialmente, esses desenvolvimentos?
NP - Eu mantinha, com Savimbi, uma colaboração estreita. Foi em 1963 que o presidente da FNLA, Holden Roberto, soube dos contactos Savimbi/MPLA. Holden dirige-se à capital da Tanzânia para participar numa reunião da OUA. Ali descobre tudo. Ele não estava preparado, em 1963, para dar cobertura a semelhante coisa: contactos com Agostinho Neto e o MPLA. Havia, como há pouco disse, na UPA-FNLA, um clima discriminante adverso não só para Savimbi e seus companheiros mas, também, para o MPLA. Holden, praticamente, mal falava o português. Era um puro "francófono".
JN - Holden, depois da reunião da OUA em Dar-es-Salam, quis romper com Savimbi por este ter contactos com Agostinho Neto?
NP - Pior do que isso. Holden Roberto anunciou, na Tanzânia, a sua intenção de, mal chegado a Kinshasa, mandar prender Savimbi. Eu próprio seria, igualmente, encarcerado, mas as coisas não tiveram esse desfecho. Porque, entretanto, agudizaram-se as dificuldades que o MPLA experimentava em Kinshasa, onde o regime se tornava intratável para Agostinho Neto e seus homens. O MPLA acabou por ter de se transferir para a vizinha Brazaville, na outra margem do rio Zaire.
"ORDEM"PARA O MPLA: INTEGRAÇÃO...NA FNLA!

Acabava a Organização da Unidade Africana, OUA, de reconhecer o MPLA e a FNLA como "os únicos movimentos de libertação de Angola". De súbito, conta Miguel N'Zau Puna ao JN, uma comissão da OUA desloca-se a Kinshasa. O MPLA estava em dificuldades operativas. A UPA-FNLA, dividida. E os enviados da OUA verificam, no terreno, que é a FNLA quem tem, de facto, homens a combater. Face a tal constatação, a Organização Africana "ordena", em medida talvez insidiosa: que o MPLA seja, com os seus quadros, absorvido pela FNLA, de Holden Roberto!
"A título individual", recorda Miguel N'Zau Puna, segundo o argumento da OUA, cuja comissão incluia elementos da Nigéria, Congo-Brazaville, Argélia e Guiné-Conakri.
JN - O MPLA não tinha, em 1962/63, guerrilheiros no terreno?
N'ZAU PUNA - Não tinha. Porque, uma vez retirado, obrigado a retirar-se do Congo-Kinshasa para o Congo-Brazaville, ficou quase mutilado. Mas, num rasgo de firmeza, o dr. Agostinho Neto recusou a integração na FNLA, mesmo "a título individual", como pretendia a OUA. A quem Neto mandou recado: "Se nós, MPLA, trabalhamos agora oito horas, diariamente, vamos passar a trabalhar dezoito!". Foi assim que o MPLA meteu mãos à abertura da sua "segunda região", nas matas de Cabinda.
JN - Que apreciação fez Jonas Savimbi deste caso?
NP - Achou coerente a postura do dr. Neto. Savimbi tinha por Neto uma confessa admiração. Admirava-lhe a coragem e a criação poética revolucionária. Admirava o facto de Agostinho Neto ter desafiado, em Portugal, o aparelho colonial-fascista. Savimbi discordava das posições de alguns elementos do MPLA, mas mantinha com Neto um certo entendimento.
ELE NÃO SE SENTE DERROTADO E NÃO ACEITA ENTRAR NO REGIME!

Miguel N'Zau Puna prevê que o líder do movimento do "Galo Negro" exija o máximo para evitar represálias dos seus próprios soldados...

Só mesmo quem conheça muito bem Jonas Savimbi pode expressar-se com a precisão, e o desenfado, de Miguel N'Zau Puna. Um dos fundadores da UNITA. E, por certo, também, um dos beneficiários intelectuais dos cerca de 4000 títulos que Savimbi acarinhava na sua biblioteca multidisciplinar da Jamba. N'Zau Puna, que reconhece "a espantosa capacidade de trabalho" de Jonas Savimbi, entende que ele "não vai renunciar ao partido, nem à força militar". Logo, muito dificilmente o líder da UNITA aceitará uma das (duas) vice-presidências da República angolana.

Savimbi, um homem que "não aceita conselhos de ninguém", no partido, "deve estar a preparar qualquer coisa diferente", admite, também, Miguel N'Zau Puna. O "Galo Negro" pode estar à espera da "consolidação" de Jacques Chirac e da "queda" de BilL Clinton a favor dos republicanos...
O repórter do JN faz, em Luanda, o que lhe compete: além de revisitar, com protagonistas de carne e osso, os caminhos da história remota, tenta convencer políticos e militares da utilidade de uma avaliação do processo de paz. Isaías Samakuva, da UNITA, abandona subitamente Luanda. Rumo ao Bailundo, quartel-general do "Galo Negro". O general Ben-Ben também se encontra no Bailundo: queixa-se de ter sido vítima, em Luanda, de um atentado; as autoridades referem-se a uma bala perdida, presumivelmente disparada para o interior da casa do carismático general da UNITA.
Na capital, elementos próximos do Governo e do MPLA sussurram, junto do enviado do JN: "Até agora, a UNITA mandou para os acantonamentos, somente, uma garotada, que não tem nada a ver com os seus guerrilheiros".
É a desconfiança reinstalada. O representante especial das Nações Unidas farta-se de levar as mãos à cabeça e, quando pode, vibra alguns murros na mesa.
Miguel Maria NZau Puna, o antigo secretário-geral da UNITA, está disponível para falar, também, do presente. E nem sequer se demite de arriscar algumas previsões: "Jonas Savimbi não se considera derrotado!", avisa. Ele conhece bem o líder da UNITA, com quem trabalhou desde a fundação do movimento.
JORNAL DE NOTÍCIAS - Mudaram os dados, no terreno. A África do Sul já não é a mesma. Mobutu não tem sossego. E o general João de Matos, do Exército governamental, chegou a pensar numa vitória esmagadora e definitiva sobre as FALA. Face a estes indicadores: a UNITA poderia, ainda, reacender a guerra em Angola?
N'ZAU PUNA - O material que a UNITA tem, ainda, escondido em parte incerta, pode não proporcionar acções militares de vulto, mas será o suficiente para, durante algum tempo, causar danos. Com isso, voltaria a crescer a insegurança. E os investidores fugiriam, mais uma vez.
REPRESÁLIAS

JN - Quais serão, nesta altura, os verdadeiros propósitos de Savimbi?
NP - Savimbi está a querer ver o que é que ganham, ele e os seus homens. Qual é a contrapartida. Savimbi não vai limitar-se a ocupar um posto relevante na nova hierarquia do poder em Angola. Ele pretende obter, também, cargos para os seus homens. Para que se sintam recompensados. Se o não conseguir, o próprio Savimbi corre sérios riscos na UNITA. Iriam verificar-se represálias. Savimbi deve ter por aí, ainda, muito armamento escondido. Que o Governo e as Nações Unidas não controlam. Enquanto não houver uma clarificação total, ele poderá, sempre, dizer que não autorizou nem tem nada a ver com esta ou aquela fustigação efectuada pelos seus soldados. "Foi sem o meu conhecimento", dirá ele. Porém, no caso de haver entendimento com o MPLA, com o Governo, Savimbi já terá de assumir concretamente as suas responsabilidades. Porque, na UNITA, ninguém desobedece ao Savimbi.
JN - Recentemente, Savimbi confessou-se arrependido do comportamento que assumiu, em Luanda, em 1992, depois das eleições. E também já reconheceu o que sempre negara obstinadamente: ter pactuado com o exército colonial português. Estes rasgos vão beneficiar ou prejudicar a imagem de Savimbi junto do povo angolano?
NP - De uma coisa estou seguro: com estas jogadas todas, Savimbi quererá tudo, tudo, menos queimar a sua própria imagem. Estas confissões, estes arrependimentos, o "perdão" que ele anda a suplicar, não é nada daquilo que ele diz ou propõe no seu comité restrito, na UNITA. Savimbi é assim: dentro de casa, uma linguagem. Fora, outra linguagem. Ele sabe muito bem que não é cómodo aceitar determinadas indulgências. Isso pode levá-lo, ainda, à barra dos tribunais. Só com fortíssimas garantias de ser amnistiado o Savimbi aceitaria determinados "consensos".
JN - E quanto à opinião pública angolana?
NP - Depois de tantos anos, o povo angolano está saturado, já não aguenta mais guerras. Se o Savimbi cumprir em aspectos realmente construtivos para Angola, ele poderá, ainda, conquistar muita popularidade junto dos vários grupos sociais.
RESSENTIMENTOS

JN - Para si, Miguel NZau Puna, que tão bem conhece Jonas Savimbi, é um dado adquirido que ele poderá aceitar a vice-presidência adjutória de José Eduardo dos Santos?
NP - São duas vice-presidências. Se fosse apenas uma, é possível que Savimbi "vergasse" um pouco. Mas, duas vice-presidências...? A UNITA é bem capaz de indigitar alguém, um outro dos seus dirigentes, quando no seio do partido terminarem os debates sobre o assunto. É preciso ver, também, que Jonas Savimbi não vai querer abandonar o partido e a força militar. São duas coisas importantes para o Savimbi. Ele é um político, mas a força armada, para Savimbi, é uma forma de implementar a política partidária. Savimbi prefere continuar no partido e preparar-se, assim, para as futuras eleições. E ele também calcula que os acantonamentos irão, em parte, debilitá-lo.
JN - Uma leitura em termos absolutos: por que é que Jonas Savimbi não se modera? Ambição? Complexos? Ressentimentos?
NP - Há, pelo menos, dois estigmas nucleares. Primeiro: Savimbi sempre dizia, desde os tempos de Kinshasa, que os angolanos do Norte sempre nutrem um complexo de superioridade; porque os angolanos do Sul, nomeadamente os ovimbundos, foram levados para as plantações de café do Norte. Eu tive de lembrar-lhe, um dia, que isso não está certo. Quem arrastou para as plantações do Norte os angolanos do Sul foi o colonialismo português. Segundo: Savimbi costuma dizer: "Eu lutei contra os portugueses, contra os russos, contra os cubanos, e agora vou ficar sem o poder em Angola?!". Savimbi, quem sabe, talvez se torne um pouco moderado. Mas essa moderação, por aquilo que eu conheço dele, não deve significar uma mudança!.
UNITA E SWAPO TIVERAM OS MESMOS ACAMPAMENTOS!

Na presença de Miguel N'Zau Puna, em Pretória, durante uma recepção oficial, Peter Botha, então presidente sul-africano, voltou-se para Jonas Savimbi e justificou-se: "Tirarmos o Nelson Mandela da prisão? Se o fizermos, não tarda muito estaremos nós próprios no lugar dele. Atrás das grades!".

Savimbi teria sugerido a Peter Botha, durante a conversa, a libertação "imediata" de Mandela. O episódio, naturalmente, ocorreu há alguns anos. N'Zau Puna tentava, assim, convencer o enviado do JN da bondade "ideológica" das relações de Savimbi com o regime do "apartheid". O que, deveras, não conseguiu. Bastaria reflectir sobre o que o antigo secretário-geral da UNITA nos disse sobre o "carácter" das relações de Savimbi com os americanos: "Ele está muito agradecido aos Estados Unidos porque foi deles que recebeu as armas para se opor aos aviões e aos tanques do MPLA. Não esquece os grandes investimentos dos americanos. E, agora, ele espera que os seus amigos republicanos reapareçam no poder, voltem à Casa Branca!".
Para Savimbi, os "bons" são sempre, e só, aqueles que o ajudam.
Savimbi, como quer que seja, desde muito cedo evidencia uma considerável desenvoltura nas relações internacionais, dentro e fora do Continente Africano.
Aprisionado na Zâmbia (pelo regime de Kaunda) no tempo da guerra colonial, Savimbi contou com os bons ofícios de Nasser, que lhe deu assistência no Cairo. Entretanto, na Tanzânia, regressado da China, Savimbi conhece o pessoal da SWAPO (Namíbia).
A SWAPO tinha escritórios em Dar-es-Salam. Era o início de um "processo" colaboracional que, hoje, leva Miguel N'Zau Puna a garantir-nos que "a UNITA se antecipou ao MPLA nas relações factuais com a SWAPO de Sam Nujoma".
JORNAL DE NOTÍCIAS - Mas não é também um facto que a maior carga referencial na região contempla o binómio MPLA-SWAPO?
NZAU PUNA - Está certo. Mas muito antes de se formar esse cenário MPLA-SWAPO, quando o Savimbi era secretário-geral da UPA-FNLA, e ministro das Relações Exteriores do "governo" do GRAE, já ele tinha entendimentos com a SWAPO. E, durante a luta de libertação nacional, na área do Cuando Cubango, praticamente os acampamentos dos guerrilheiros da UNITA e da SWAPO estavam geminados. Os homens da SWAPO iam combater nas envolventes da Namíbia e, depois, regressavam para junto da UNITA. A SWAPO recebia armas da OUA, a UNITA chegou a utilizá-las, quando precisou dessas armas como de pão para a boca. A tal ponto que os homens da SWAPO, o general Dimo, por exemplo, nos rotularam de gatunos!
JN - Mas, posteriormente, o MPLA monopolizou essas relações com a SWAPO e desempenhou, até, um papel histórico notável na independência da Namíbia.
NP - Das movimentações conjuntas UNITA-SWAPO em Luiana, Mucusso, Mutumbo, Chitembo, em corta-mato até Caiundo, cerca do Cunene, passou-se para outros cenários, outros tempos. Sem esquecer, ainda, que foi com a ajuda da SWAPO que o dr. Savimbi, regressado do "exílio" no Cairo, em 1968, conseguiu passar, através da Tanzânia e da Zâmbia, para o interior de Angola. Mas, enfim, as coisas mudaram. Depois do 25 de Abril em Portugal, fomos nós, UNITA, foi o próprio Savimbi quem levou os comandantes (da SWAPO) da Zâmbia para o Huambo (de avião). E eu próprio os levei para as zonas da Huila e Cunene. Quando o MPLA tomou as cidades e a UNITA voltou, em 1976, para as matas, a SWAPO naturalmente não pôde acompanhar-nos. Ficou lá e consolidou as suas relações com o MPLA. Finalmente: o corte de relações entre as partes foi quando a SWAPO verificou que a UNITA tinha relações com a África do Sul!
O PRÓPRIO SAVIMBI "DAVA AULAS" PARA DIVULGAR MAO, MARX E ENGELS

"As ideologias que nós aprendemos", em Angola, sublinha Miguel N'Zau Puna, "são ideologias importadas". Um juizo-timbre que o antigo secretário-geral da UNITA aplica, sem distinções, aos históricos movimentos de libertação angolanos. Para concluir: "Então, é necessário voltarmos a ser nós próprios, empregarmos uma nova filosofia agregativa, no essencial, de todos os angolanos".
A UNITA, recorda N'Zau Puna, "lutou contra aquilo que nós chamávamos o social-imperialismo de russos e cubanos". Porém, já depois de se reconhecer numa organização forte, o movimento de Jonas Savimbi começou a ser percorrido, internamente, por sentimentos "divisionistas".
Questões "regionalistas", talvez diferenças etnoculturais - os bienos, os umbundos, etc, etc. Savimbi e outros, como ele, naturais do Bié, detinham o poder. "Havia uma clara rivalidade entre os do Bié e os do Huambo", diz ao JN o "histórico" Miguel N'Zau Puna.
Corria, no seio da UNITA, que os do Huambo "tinham a presunção de se destacarem como intelectuais". O mais importante, porém, é que Jonas Savimbi ficou com as mãos suficientemente livres para vender, no exterior, a imagem de um anti-comunismo inabalável. A palavra de ordem: "Nós somos contra os comunistas do MPLA!".
JORNAL DE NOTÍCIAS - Savimbi convenceu, com o "slogan", os sul-africanos?
N'ZAU PUNA - Não só os sul-africanos como, também, os americanos. Mas, no interior da UNITA, preponderavam de facto as práticas maoístas. Jonas Savimbi tinha sido bem recebido na China, onde treinou alguns quadros em técnicas de guerrilha. E logo irrompeu uma máxima no funcionamento interno da UNITA: "Não se pode combater os marxistas sem conhecer a teoria marxista!". O próprio Savimbi dava aulas num centro de formação que ele mesmo implantou. Aprendíamos o marxismo-leninismo em coabitação com o maoísmo.
JN - Savimbi cultivava isso com fervor?
NP - Além dos livros, em quantidade e qualidade, Savimbi tinha, bem à vista de toda a gente, grandes fotografias de Karl Marx, Estaline, Lenine, Engels e Mao Tsé Tung. E o Savimbi mesmo dava aulas, era o professor: marxismo-leninismo, o marxismo dialéctico, o marxismo histórico. A nós, companheiros, ele dizia: "Eu sou comunista, mas se algum de vocês for lá para fora divulgar, eu vou gritar que é tudo mentira!". E o mesmo Savimbi afiançava-nos: "Quando vou à África do Sul, isto é ouro! Quando vou para os Estados Unidos, é ouro, também!".
JN - Se eu questionasse, agora, Jonas Savimbi, como é que ele se definia?
NP - Ah, neste momento Savimbi não aceitaria identificar-se como maoísta, marxista-leninista, ou simplesmente comunista... Ele diria que é social-democrata. Savimbi iria utilizar consigo a mesma linguagem que o MPLA utiliza agora.

Páginas sobre ANGOLA, neste site :
in http://www.arlindo-correia.com/200601.html

Angola 1975
Angola, 20 anos depois
Literatura Angolana
O Reino do Congo
Reis do Congo
A Rainha Jinga
António de Oliveira de Cadornega (1623-1690)
Viagem e Missão no Congo, de Fr. Rafael de Castelo de Vide (1780 - 1788)
Viagem do tenente Zacharias da Silva Cruz ao Congo, em Outubro de 1858
A escravatura
O Missionário e o negócio
Jonas Malheiro Savimbi



Recensão do livro de Ryszard Kapuscinski

MAIS UM DIA DE VIDA - ANGOLA 1975, Campo das Letras, Porto, 1998

Angola: do 25 de Abril de 1974 a 11 de Novembro de 1975

UM GOLPE CAÍDO DO CÉU

O 25 de Abril surpreendeu tudo e todos em Angola. Luanda vivia a vida cosmopolita de uma capital colonial, e só uma meia-dúzia de dias depois, em princípios de Maio, no Zaire e na Zâmbia, os movimentos de libertação reagem ao golpe militar em Portugal, com proclamações de continuação da luta até à independência total. Ironicamente, o golpe em Portugal haveria de conceder-lhes um protagonismo que estavam longe de ter conquistado.

JOSÉ GOMES

As promessas de continuação da guerra com que o MPLA, a FNLA a a UNITA reagiram ao golpe em Portugal, diga-se em boa verdade, não tiravam o sono a ninguém.
Em 1974, a luta de libertação atravessava um período crítico: o Exército português controlava militarmente todo o território - as operações tinham cessado em 1972 e a livre circulação era um facto.
Após o surgimento, em meados dos anos 60, de actividade militar no interior - O MPLA abre em 66 a Frente Leste, a UNITA ataca Vila Teixeira de Sousa, na fronteira catanguesa, em fins de 65 -, os movimentos encontravam-se minados por profundas crises internas.
Neto mandara fuzilar, dois anos antes, vários comandantes no Leste, após a revolta dos Bundas, e o movimento está recuado na Zâmbia, envolvido num debate interno para a revitalização daquela frente. Chipenda proclamara no ano anterior a cisão, em protesto contra a assinatura, por Neto e Holden Roberto, do inesperado acordo para a criação do Conselho Supremo para a Libertação de Angola.
Mais tarde, já em 74, mas ainda antes do 25 de Abril, virá a surgir uma outra facção, a Revolta Activa, propondo amplo debate para a redefinição da estratégia da luta de libertação.
Pelo lado da FNLA, as coisas não estavam melhores. Apesar de se saber que o movimento, com apoio de Mobutu, estava a formar no Zaire um exército de 9.000 homens, treinado por instrutores chineses e bem armado, Holden Roberto estava precisado de quadros dirigentes. Mandara fuzilar, após a revolta de Kinkuzo, no Zaire, em princípios de 72, dezenas de oficiais do seu Estado-Maior, e vários outros haviam fugido para Brazzaville.
A UNITA encontra-se no interior, abaixo da linha do caminho-de-ferro de Benguela, sem actividade militar conhecida.
GUERRA ESQUECIDA

Em Luanda, em 74, os combates eram uma coisa longínqua, que a cosmopolita vida na capital fazia ainda mais remota.
"À medida que as pessoas se integravam, a ideia da guerra era uma ideia longínqua", recorda o pró-reitor da Universidade do Porto, professor Nuno Grande, na altura vice-reitor da Universidade de Luanda.
"Como as pessoas estavam longe dos focos de guerra, adormeciam um pouco em relação à situação em que se vivia", conta.
O professor recorda no entanto que a capital angolana por pouco não foi abalada por uma operação da guerrilha. "No Natal de 73, foi desactivada uma operação de guerrilha urbana que estava a ser preparada por gente da FNLA, dentro da cidade de Luanda. As pessoas não tiveram muita consciência disso, mas eu, porque estava ligado à Universidade, tive conhecimento pelos canais oficiais que uma das acções seria contra o próprio hospital universitário".
A preparação dessa acção foi contudo descoberta.
No geral, o dispositivo militar da administração colonial era na verdade muito eficaz, reconhecem hoje alguns dos que naquela altura estavam do outro lado.
O Exército, as tropas especiais africanas treinadas pela PIDE/DGS, os Flechas, a polícia política, forças militarizadas e as milícias da Organização Popular de Vigilância e Defesa Civil de Angola estabeleciam no terreno um controlo a que dificilmente escapavam os movimentos da guerrilha.
Estes faziam contudo incursões através das fronteiras de Brazzaville e da Zâmbia, e havia zonas perfeitamente demarcadas onde já se sabia que tudo podia acontecer.
Aí por volta de 1965, conta Nuno Grande, nos Dembos e no Moxico a guerrilha fez muita mossa. "Cabinda e o Leste eram sítios de onde nós, os médicos do Hospital Militar, sabíamos que os feridos vinham sempre muito maltratados".
Em Cabinda, onde foi enviado para investigar um surto de febre amarela, "havia muitos focos, com grande número de mortos. Lembro-me que, numa distância de 200 quilómetros, os comandantes das companhias que estavam ali aquarteladas diziam-me: "Temos um morto por quilómetro". Havia 200 mortos entre as duas companhias, o que era um número considerável.
"Bem sei que estavam ali dois anos, mas a guerrilha era muito mais efectiva em Cabinda, porque as fronteiras com o Congo-Brazzaville eram muito permeáveis. Eles faziam as operações, deixavam as coisas armadilhadas, e iam embora, nem sequer assistiam aos efeitos. E dava-se conta, no Hospital Militar de Luanda, quando alguém vinha de Cabinda, pelos maus tratos...", conta.
Por cá, era ler os comunicados militares que diariamente o Ministério da Guerra mandava publicar nos jornais. "O Serviço de Informações Públicas das Forças Armadas comunica que morreram em combate, na Província de Angola, os seguintes militares:" e seguiam-se os nomes de mais uns tantos que, naquele ano, entre a noite de Natal e a de fim de ano, não iriam aparecer na TV, a desejar festas felizes.
Na capital, muita gente conhecia pessoas ligadas ao MPLA. "A FNLA tinha também alguma implantação, a UNITA não me recordo de ter grande impacto em Luanda - teria provavelmente mais para leste, mas em Luanda não", recorda o professor.
"Eles trabalhavam em Luanda, tinham frequentado as escolas. As pessoas lembravam-se de alguns que tinham saído de lá nos anos 50 e 60. Desde o dr. Agostinho Neto, que tinha saído de Luanda, onde era enfermeiro, para estudar Medicina, e depois não voltou, até àquele que havia de dar o nome ao hospital universitário, o irmão do Miguel Boavida, o Américo Boavida, que foi estudante, aqui no Porto, no meu tempo. Era ginecologista em Luanda, e, portanto, muitas pessoas o conheciam".
"Referiam-se a eles com simpatia, curiosamente. Mas, ao mesmo tempo, eles representavam as forças que lutavam contra Portugal, e havia uma certa ambiguidade - as pessoas lembravam-se de quem eram conhecidas e amigas, mas ao mesmo tempo tinham a reserva inerente a alguém que sabe que em algum momento eles poderiam desestabilizar tudo", recorda Nuno Grande.

APANHADOS DE SURPRESA

A 25 de Abril de 1974, Agostinho Neto encontrava-se no Canadá, mantendo contactos com a companhia petrolífera norte-americana Gulf Oil, em busca de apoio ocidental para o MPLA. Não hesitou em classificar o golpe em Portugal como um ajuste de contas entre facções do regime.
Os três movimentos, aliás, em comunicados tornados públicos nos dias imediatos, não escondiam as suas reservas.
A FNLA, em comunicado publicado a 30 de Abril, apelava à continuação da luta do povo angolano até que "a justiça universalmente reconhecida, o bom-senso e o direito à livre determinação" saíssem vitoriosos.
No mês seguinte, o líder do movimento, Holden Roberto, admitia já negociações com Portugal, com uma condição: o reconhecimento do direito à autodeterminação e à independência.
Pela mesma altura, já Agostinho Neto ajustara a opinião sobre o golpe militar em Portugal, mas mantinha a determinação de lutar até que Portugal se comprometesse a conceder a independência, a partir do que poderia ser iniciada a negociação sobre a transferência do poder. Pelo caminho, rejeitava categoricamente qualquer federação com a antiga metrópole.
A 21 de Maio, a UNITA alinha pelo mesmo tom. Mas, segundo o jornal "Província de Angola", Jonas Savimbi teria já acordado com as autoridades portuguesas um cessar-fogo. A 13 de Junho, Savimbi tornava públicas, no mesmo jornal, as suas posições sobre a questão, propondo um período de preparação política do povo para a independência, com a participação dos três movimentos, e a realização de eleições.
AMBIGUIDADE EM LISBOA

De Portugal, a Junta de Salvação Nacional ordenara o regresso do então governador de Angola, Santos e Castro, e nomeara em seu lugar o então tenente-coronel Soares Carneiro.
Da prisão de Luanda são libertados 85 presos políticos, e da de São Nicolau, em Moçâmedes, 1.200. A PIDE é formalmente extinta, mas os agentes integrados num novo serviço de informações, o Comando da Polícia de Informação Militar.
O general Costa Gomes chega na primeira semana de Maio a Luanda, e afirma em conferência de imprensa que o combate contra os movimentos de libertação continua, até que estes deponham as armas e aceitem uma solução política.
"Nenhuma província, nenhum grupo, nenhuma raça, terão permissão para impor uma solução que não tenha passado pelo crivo de um teste democrático", disse o general, acrescentando, em resposta a dúvidas manifestadas pelos jornalistas, que "é nossa intenção continuar a luta contra as guerrilhas, e essa posição manter-se-á até que os guerrilheiros aceitem a nossa oferta para depor as armas e se apresentem como um partido político legal".
De regresso a Lisboa, Costa Gomes, que em Luanda manifesta muitas e públicas dúvidas quanto ao que "muita gente pensa e tem propagado" sobre o apoio da população angolana aos movimentos de libertação, afirma que "todos os grupos humanos dessa sociedade luso-tropical" lhe haviam dado uma grande alegria, a da "esperança da realidade efectiva da autodeterminação autêntica num quadro variável dum portuguesismo pluricontinental".
Três dias após o 25 de Abril, o general Spínola já fazia questão de separar as águas entre autodeterminação e independência: a autodeterminação é o direito de um povo livremente escolher o seu destino, a independência imediata a aceitação duma vontade que não seria a desse povo.
Mário Soares, recém-regressado do exílio e já de viagem a Bona, considera "importantes" as palavras do general, mas quando lhe perguntam se é favor de uma federação ou da independência, responde: "Sou abertamente pela independência, e, na minha opinião e na do meu partido, é necessário negociar urgentemente com os movimentos de libertação".
Ao tomar o lugar de que o almirante Tomás fora apeado, duas semanas depois, a 15 de Maio, Spínola diz para a rua, que berra pelo fim da guerra colonial e a independência imediata para as colónias: "Os nossos esforços centrar-se-ão no restabelecimento da paz no Ultramar, mas o destino do Ultramar Português terá de ser decidido por todos os que àquela terra chamaram sua".
A QUEDA DO GENERAL

Mais tarde, num encontro com o presidente do Zaire, Mobutu, na ilha cabo-verdiana do Sal, discute esse destino. A conversa foi rodeada do maior segredo, e o jornal "República" haveria muito mais tarde, em Outubro de 75, já depois da queda em desgraça do general, de noticiar que fora discutido um complexo acordo de mútuos benefícios para os interesses portugueses e zairenses, nos quais se incluiria uma inédita Federação Zaire-Angola-Cabinda, com Mobutu a presidente e o líder da FNLA a vice-presidente.
Na notícia, é difícil distinguir entre a verdade e a propaganda da época, mas não se andará longe da verdade se se disser que dos planos do general constava a aposta em Holden Roberto, o homem dos americanos, de Mobutu e, noutro tabuleiro, dos chineses, para contrariar o MPLA.
Na falta de uma política clara para o problema colonial, a incerteza dominava mesmo os sectores mais informados da sociedade luandense. Os telexes das agências noticiosas dão conta desse estado de espírito, como um despacho da Reuter publicado pelos jornais portugueses a 4 de Maio, segundo o qual brancos e africanos moderados se manifestavam favoráveis à criação de um Estado multirracial e à ideia de uma qualquer federação com a metrópole.
Em Junho, o general Silvino Silvério Marques, que fora já governador de Angola entre 1962 e 1966, os anos imediatamente seguintes ao início da luta armada, é nomeado de novo para o cargo. Quando o avião aterra em Luanda, há manifestações no aeroporto contra o general, que permanecerá no entanto na capital angolana até fins de Julho, altura em que, após o assassínio de um taxista branco num musseque, ocorrem os primeiros distúrbios.

O ÚLTIMO DIA

Na tarde do dia 10 de Novembro de 1975, a bandeira portuguesa foi pela última vez arreada no Palácio do Governo e na fortaleza, dobrada e redobrada. O alto-comissário, almirante Leonel Cardoso, ao qual coube a ingrata tarefa, proclamara horas antes a independência de Angola.
Quatrocentos e noventa e dois anos depois das naus portuguesas ali terem largado ferros, o último representante da soberania portuguesa abandonava a jóia do ex-Império, e partia, "sem cerimonial, mas de cara levantada", rumo à base naval da ilha de Luanda.
Ao largo, na baía já abandonada por barcos carregados até à borda de multidões e contentores, a fragata "Roberto Ivens" escoltava o "Uíge" e o "Niassa", com as máquinas prontas para, pela última vez, zarparem para Lisboa.
Uma semana antes, a cidade branca acabara de esvaziar-se. A ponte aérea, organizada com o apoio de países estrangeiros, retirara de Angola, no meio de indescritíveis cenas de pânico e confusão, quase meio milhão de portugueses.
As estátuas dos imortais portugueses jaziam apeadas, no sítio havia só os pedestais, já pintados com o vermelho-negro do MPLA.
Para trás ficara a companhia de pára-quedistas, o almirante e uma meia-dúzia de funcionários que agora, no meio de grande e inútil aparato militar, se dirigiam para o porto.
Polícias angolanos, de farda azul, ganharam de imediato as posições desocupadas. Às janelas do palácio, alguns criados negros assistiram à saída de blindados e "Berliets".
Na baixa luandense, nem isso. Cortadas por fuzileiros, as ruas estavam desertas.

O ADEUS PORTUGUÊS

No imponente Salão Nobre do Palácio, o alto-comissário fizera de manhã, perante um batalhão de jornalistas, um breve deve e haver daqueles meses de brasa.
"E assim Portugal entrega Angola aos angolanos, depois de quase 500 anos de presença, durante os quais se foram cimentando amizades e caldeando culturas, com ingredientes que nada poderá destruir. Os homens desaparecem, mas a obra fica. Portugal parte sem sentimentos de culpa e sem ter de que se envergonhar. Deixa um país que está na vanguarda dos estados africanos, deixa um país de que se orgulha e de que todos os angolanos podem orgulhar-se".
E arrematou responsabilidades: "A única recriminação que poderá aceitar é a de ter dado provas de extrema ingenuidade política quando concordou com certas cláusulas do acordo do Alvor".
Para o almirante ingenuidade, para Neto, que à custa de sangue e suor conseguiria proclamar-se no dia seguinte presidente em Luanda, outra coisa. "Quanto a Portugal, o desrespeito dos acordos do Alvor é manifesto, entre outros, no facto de sempre ter silenciado a invasão de que o nosso país é vítima por parte de exércitos regulares e de forças reaccionárias (...) que teimou em considerar como movimentos de libertação, tentando empurrar o MPLA para soluções que significariam uma alta traição ao povo angolano".
Leonel Cardoso não pode responder, não estava presente no palanque de Neto, cumprira a promessa feita em confidência um mês antes a Cáceres Monteiro, enviado de "O Jornal": "Se um movimento não quiser vir, ainda aceito que se faça a cerimónia com os outros dois. Só com um, eu não tomo parte nas cerimónias. A um, eu não entrego o poder. Não vou às cerimónias de posse desse movimento".
No Campo da Revolução, no Sambizanga, o povo, na véspera, condenara ao enforcamento os espantalhos dos presidentes da FNLA, Holden Roberto, e da UNITA, Jonas Savimbi. Mas nessa noite, as palavras do líder do MPLA, agora presidente de Angola, perdiam-se no barulho dos disparos de faplas festejando, e, mais ao longe, de um fragor de explosões.
Ao largo de Cabo Ledo, um submarino soviético estava para o que desse e viesse, pronto para dar fuga a Neto.
A FNLA estava a 25 quilómetros, no Caxito e Quifangondo, e Holden Roberto, que celebrava a independência em Carmona, hoje Uíge, encerrara o discurso às tropas com um "até logo, em Luanda". Vinte e quatro horas depois, à meia-noite do dia 11, não em Luanda, mas em Ambriz, proclamava a República Popular e Democrática de Angola.
No Sul, o MPLA acabara de perder Sá da Bandeira, Moçâmedes, Porto Alexandre, Benguela e o Lobito, e a UNITA celebrava naquela que viria a ser a sua capital, Nova Lisboa, depois crismada Huambo
RECONHECIMENTO ADIADO

Em Lisboa, ao Verão Quente sucedia um Outono escaldante, o 25 de Novembro estava à vista. O ministro da Cooperação, Vítor Crespo, cancelara na madrugada de dia 10 a partida para Luanda. Um longo e polémico Conselho de Ministros, terminado a altas horas dessa noite, para que tinham sido convocados, a título excepcional, os secretários-gerais dos três partidos com assento no Governo - PS, PPD e PCP -, acabaria por reafirmar apenas o espírito do acordo do Alvor, e a não ingerência de Portugal nos assuntos internos do povo angolano, defendida pelo PS e o PPD, contra a posição do PCP, segundo o qual o MPLA era o único representante legítimo do povo angolano.
Convocado o Conselho da Revolução pelo presidente da República, general Costa Gomes, as divergências mantiveram-se.
Otelo faltou, zangado com os moderados, e Rosa Coutinho, ex-alto-comissário em Angola, num telegrama de felicitações a Neto, pedia desculpa por só mandar o coração a Luanda, que o resto era preciso aqui.
O avião da TAP, que levantara para a capital angolana com Palma Inácio, da LUAR, Carlos Antunes, do PRP, José Manuel Tengarrinha, do MDP/CDE, Pereira de Moura, do Conselho Mundial para a Paz, e delegações de vários partidos comunistas estrangeiros, foi mandado regressar a 30 minutos de Luanda.
Ao aterrar na Portela, às 5,30 horas, soube-se que a ordem de regresso fora do ministro dos Transportes, Valter Rosa, e o argumento que Luanda estava a ser bombardeada. Horas mais tarde, o aparelho, fretado pelos Transportes Aéreos de Angola, levantava de novo com o mesmo destino.
Às seis da manhã de 22 de Fevereiro do ano seguinte, Melo Antunes anunciava o reconhecimento por Portugal do Governo angolano. O Brasil fora o primeiro país a reconhecê-lo, no próprio 11 de Novembro, Portugal era o 88.o.
(...)
OS PRIMEIROS TUMULTOS EM LUANDA

Nos primeiros dias de Julho de 74, dão-se os primeiros incidentes violentos em Luanda, provocando ainda mais apreensão numa população branca que via já muitas nuvens no horizonte. Meia centena de negros é morta em confrontos provocados por "ultras" brancos. No mês seguinte, os primeiros 30 mil portugueses viajam para a metrópole.
José Gomes

O Verão de 74 é vivido com enorme expectativa pela população branca. "Angola é nossa", insistira o antigo regime contra ventos que sopravam de outras antigas metrópoles europeias, e muitos tinham acreditado.
Era, mas certamente ia deixar de ser, e é uma cidade cheia de dúvidas quanto ao futuro que é abalada, nos primeiros dias do mês de Julho, por violentos confrontos - que constituiriam também a mais importante tentativa dos extremistas brancos para terem um papel naquele jogo.
O episódio - a descoberta, num musseque, às primeiras horas da madrugada de 11 de Julho, do corpo de um taxista branco estrangulado - "desencadeou um grande levantamento, tiros para um lado, tiros para o outro, e, durante um mês ou dois, a situação foi de grande tensão", recorda o professor Nuno Grande.
As circunstâncias do crime não são esclarecidas, mas poucas horas depois, ao princípio da manhã, na Avenida do Brasil, o ponto de passagem obrigatório para os negros que vinham dos musseques trabalhar na cidade, extremistas brancos concentram-se e agridem, insultam e ameaçam quem por ali passe.
Os tumultos não se ficam por ali. Cerca de meio milhar de manifestantes dirige-se ao palácio do governador, agredindo pelo caminho os negros que apanhavam à mão. Um guarda negro da Polícia de Segurança Pública foi espancado, a crer num comunicado da Casa de Angola a propósito dos acontecimentos.
Face à passividade das autoridades, que se limitam a apelar à calma, a agitação continua. Em grupos de cinco, exibindo as armas, fazendo-se transportar em táxis, os extremistas interceptam ao fim da tarde um autocarro, atacando-o a tiro. Várias pessoas são mortas, e uma manifestação silenciosa de negros é dispersada pela polícia de choque frente ao Palácio do Governador, à vista do general Silvino Silvério Marques.
A violência prossegue até ao fim da manhã do dia seguinte, quando é decretada a proibição de circulação de veículos motorizados, e o recolher obrigatório. O balanço é de pelo menos 50 mortos e 200 feridos.
A intenção dos "ultras" de passarem à acção era já conhecida. Corriam rumores que partidos brancos criados em Angola após o 25 de Abril, como a Frente de Resistência Angolana, o Exército Secreto de Intervenção Nacional e a Resistência Unida Angolana, que preconizavam a declaração unilateral de independência, baseada na supremacia branca, contavam com o apoio dos Flechas, as tropas negras treinadas pela PIDE, e de cerca de meis centena de mercenários catangueses, que tinham servido na guerra colonial e se encontravam ainda num quartel no Luso, hoje Luena.
Agostinho Neto, por seu lado, acusara o Partido Cristão-Democrata de Angola, liderado por Fernando Falcão, a Frente de Unidade Angolana e a FRA de financiarem o treino militar, por instrutores sul-africanos, em campos no Sul do país, de colonos portugueses para combaterem os movimentos de libertação.

PLANO PREMEDITADO

Tudo indica que o assassínio do taxista obecedeu a um plano preparado com antecedência.
"Em Junho, exactamente no dia 10 de Junho, houve uma reunião de pessoas, escolhidas segundo algum critério, que desconheço, no que era o Colégio Lisboa, perto do Hospital Militar", lembra Nuno Grande.
Aí, "um representante do dr. Agostinho Neto - recordo-me que era africano, mas tinha um nome holandês - alertou-nos para a possibilidade de um grande conflito armado na cidade de Luanda. Estava a preparar-se a realização do Campeonato do Mundo de hóquei em patins, já havia muitos estrangeiros na cidade. Ele anunciou que haveria um movimento, a partir de homens radicais de direita, brancos e negros, no sentido de desencadear a violência, denunciando um conjunto de operações que tinham sido detectadas".
"Então nós, os que estávamos nessa reunião, decidimos juntar um grupo e falar com o arcebispo de Luanda, para que nas missas fosse feito um apelo à tranquilidade e à paz", recorda o professor.
"Algumas das tais operações anunciadas aconteceram. Só que não tiveram o impacto que as pessoas esperavam. Houve uma, que desencadeou depois toda a confusão em Luanda, o assassínio do taxista, que fora também prenunciada pelo enviado de Agostinho Neto. Quando nos procurou, avisou que poderia ser assassinado um branco, pessoa indiscutivelmente aceite pela sociedade luandense. E foi assassinado o taxista, duma maneira estranha, num musseque", conclui.
A partir daí, conta o professor, "a cidade entrou num grande desequilíbrio, e quando eu vim (a Portugal), em Julho, já havia um êxodo muito grande, as pessoas já estavam todas amedrontadas com a confusão. Estabeleceu-se um clima de pânico, já havia a sensação que aquilo podia dar origem a um grande êxodo".
No mês seguinte, Agosto, 30 mil brancos viajam para Portugal.
Após os incidentes, a 22 de Julho, o general Silvino Silvério Marques é mandado regressar a Lisboa, e nomeada uma junta militar, encabeçada por Rosa Coutinho. As tropas portuguesas tomam o controlo da situação.

PORTUGAL RECONHECE DIREITO À INDEPENDÊNCIA

Dois dias mais tarde, a 24 de Julho, é aprovada a Lei 7/74, proclamada pelo general Spínola, a qual finalmente reconhecia "o direito à autodeterminação, com todas as suas consequências", incluindo a "independência dos territórios ultramarinos".
A lei é publicada a 27 de Julho, e, considerando "conveniente esclarecer o alcance" do ponto do Programa do Movimento das Forças Armadas segundo o qual "a solução das guerras no Ultramar é política e não militar", refere que esse princípio "implica, de acordo com a Carta das Nações Unidas, o reconhecimento por Portugal do direito dos povos à autodeterminação".
No artigo 2ho, a lei diz que "o reconhecimento do direito à autodeterminação, com todas as suas consequências, inclui a aceitação da independência dos territórios ultramarinos e a derrogação da parte correspondente do artigo 1.ho" da Constituição de 1933, que considerava aqueles territórios parte integrante de Portugal.
A 9 de Agosto, a Junta de Salvação Nacional anuncia o primeiro programa formal para a descolonização de Angola.
Era prevista a formação de um Governo provisório de coligação, após a assinatura de um cessar-fogo com os movimentos de libertação, que integrariam um Gabinete em condições de igualdade com representantes dos grupos étnicos mais significativos, entre os quais o dos "brancos" é referido explicitamente.
No prazo de dois anos, após um recenseamento, seriam realizadas eleições para uma Assembleia Constituinte, segundo o princípio de um homem, um voto, e, após a elaboração da Constituição, seriam realizadas eleições para o Parlamento e o Governo, cujos resultados Portugal se comprometia a respeitar. Era igualmente admitida a possibilidade de verificação, pelas Nações Unidas, das eleições.
O anúncio, que tinha por objectivo tranquilizar a população branca, acaba por ter algum efeito contrário.
O MPLA e a FNLA rejeitam o programa, devido à proposta de representação dos maiores grupos étnicos.
Dá-se o 28 de Setembro em Portugal, Spínola é afastado, e o novo presidente da República, general Costa Gomes, toma em mãos o processo de descolonização.
Pouco mais de uma semana depois, a 10 de Outubro, uma delegação portuguesa, chefiada pelo general Fontes Pereira de Melo, viaja para a capital zairense, Kinshasa, para conversações com Mobutu, encontrando-se com representantes da FNLA e do MPLA.
Em Novembro, Portugal assina acordos formais de cessar-fogo com os três movimentos.
Savimbi fora o primeiro a comprometer-se, em Junho, a cessar as hostilidades no mês de Outubro, e a UNITA abre a sua sede em Luanda a 10 desse mês. Segue-se-lhe a FNLA, no dia 16, e o MPLA, no dia 8 de Novembro.
A entrada dos movimentos de libertação em Luanda é uma supresa para muitos. "A chegada dos movimentos de libertação é uma supresa para muita gente, porque são grupos mal armados, mal preparados", recorda Vasco Vieira de Almeida, que viria a integrar, mais tarde, em Fevereiro, o Governo de transição.
Em fins de Outubro, Rosa Coutinho, que viera a Lisboa para assistir a uma reunião da Comissão de Descolonização, anuncia que Portugal está a realizar negociações com os líderes de cada um dos três movimentos de libertação para a formação de um Governo de transição.

PROJECTO PARA O HUAMBO VEIO ACABAR NO PORTO

O que era para ser o Instituto de Biomédicas do Huambo acabou por vir pegar de estaca no Porto, quando o professor Nuno Grande, que chegara a ir escolher o terreno na capital do Planalto Central, voltou para Portugal.

Foi com pena, mas sem azedume, que Nuno Grande deixou Angola. Veio de lá em Outubro de 1974, quando era vice-reitor da Universidade de Luanda, responsável pelo Instituto de Investigação Científica.
Viera a Portugal em Junho, de férias, e, quando estava para voltar, em Setembro, recebera um convite. "Tive a informação que se estava aqui a organizar o Instituto de Biomédicas, e um convite do ministro Magalhães Godinho". Mas as obrigações em Angola levaram-no de volta.
O projecto de um Instituto de Biomédicas para o Huambo tinha tido início no Carnaval de 1974, com os dr. Fernando Real e Rui Vaz Osório, com os quais Nuno Grande chegou a deslocar-se à então Nova Lisboa para escolher o local.
Porquê o Huambo? "Primeiro, porque havia muitos alunos. Angola tinha naquele altura no primeiro ano de Medicina 500 alunos, e já não comportava em Luanda esse número. Depois, porque este modelo interessava a Angola, era um modelo moderno de ensino da Medicina, e de aproveitamento dos recursos locais, e, ainda porque havia o Instituto de Ciências Veterinárias, o Instituto de Agronomia, e o Instituto de Investigação Médica. Estavam portanto criadas as condições para se lançar o Instituto de Ciências Biomédicas. Fomos lá escolher o terreno, mas depois aconteceu o 25 de Abril...", recorda o professor.
A partir da altura em que foi anunciado que Angola iria ser um país independente, Nuno Grande começa a organizar o regresso. "Era cidadão português, teria de vir participar na reorganização da sociedade portuguesa".
Regressa a Angola em Setembro, para os exames de segunda época, e fica até fins de Outubro, quando volta, definitivamente.
O professor conhecera Angola em 1965, como médico militar. "Fiz serviço militar até 67, e regressei a Portugal. Depois fui em comissão de serviço pela Faculdade de Medicina, e decidi radicar-me lá, porque as oportunidades para uma pessoa da minha idade eram muito grandes, mais do que as que tinha aqui. E aquela terra é atractiva, quer do ponto de vista da beleza natural, quer da afabilidade das pessoas. Era profundamente atractiva. Vivi nove anos e meio em Luanda, com grande intensidade e muita felicidade".
Como médico militar, recorda uma operação em Cabinda, numa altura em que se admitia a possibilidade de um surto de febre amarela. "Fui a Cabinda, tive de visitar o enclave todo, de uma ponta à outra, ver os militares aquartelados em todos os pontos, e concluí que não havia qualquer surto de febre. Mas quando houve um foco de febre amarela na cidade de Luanda, tive grandes dificuldades para mobilizar as autoridades, em nome da Ordem dos Médicos - eu era o presidente do Conselho Regional -, sofri muitas pressões das autoridades da época. Tentaram escamotear o surto, que ainda teve 600 mortos".
Quanto à descolonização, o pró-reitor da Universidade do Porto acha que dificilmente poderia ter sido diferente. "Tenho lido muita coisa sobre as descolonizações, portuguesa e outras. Estou convencido que não poderia ter sido de outra maneira. Se olharmos, por exemplo, para a descolonização da Índia, feita pelos ingleses - a primeira sugestão de descolonização da Índia é feita o século passado, pela rainha Vitória, passaram aquele tempo todo a preparar a independência, e veja como estão as coisas. Os processos de descolonização são sempre muito traumatizantes. Estou convencido que no caso de Portugal não podia ser diferente. Primeiro, porque é um processo agudo: está-se em guerra, e na semana seguinte já se está a tentar negociar. Segundo, Portugal é um país muito frágil, e ali cruzam-se conflitos de muita espécie, interesses internacionais. Veja que eles não conseguiram ainda encontrar um caminho para a paz, matam-se com armas extremamente poderosas, e que eu saiba não há fábricas de armas em Angola. Alguém as vende. Angola tem uma característica que a torna aptecível: é muito rica, e portanto os países poderosos e os ambiciosos não vão deixá-la em paz muito tempo, a não ser que disso tirem proveito".
Mas Nuno Grande compreende a mágoa que ainda sentem muitos dos que vieram. "Eu lembro-me das circunstâncias que se viviam em Portugal nos primeiros anos após o 25 de Abril, não só em relação aos que então eram chamados retornados, como em relação ao mundo produtivo, ao capital. Eram circunstâncias complexas. Em todo o caso, compreendo a mágoa das pessoas, porque eu próprio encontrei, à chegada a Lisboa, o que entendi como alguma frieza relativamente aos nossos problemas. Fiz um esforço no sentido de compreender. Admito que cada um tenha as suas próprias razões de queixa, mas se nos lembrarmos da confusão social que se vivia em Portugal nesse período, talvez se possa entender que não era simples organizar a evacuação de 500 mil pessoas sem que houvesse atropelos, que de facto houve".
O próprio professor foi vítima desse processo. "Vim com tranquilidade - acabei por chegar definitivamente a Portugal em Novembro de 74 - mas as minhas coisas, o meu património, ficaram lá. Aconteceu até uma coisa: tive de mandar dinheiro daqui para que as minhas mobílias viessem. Normalmente, as pessoas tinham muito dinheiro cá, mas eu não tinha - estava para comprar uma casa em Luanda, já depois do 25 de Abril. Cheguei a ir vê-la, pois acreditava, a longo prazo, que houvesse possibilidade de uma transição, admitia eu, ingenuamente. Só à última hora é que o negócio se gorou. Como disse, ainda tive de mandar dinheiro daqui, e as mobílias só vieram no ano seguinte. E fiquei em casa dos meus sogros até meados de 75".
Desse período, e da maneira como os portugueses se relacionaram com as colónias, guarda uma curiosa recordação: "Recordo-me que esteve nessa altura lá, em visita, um redactor do "Monde", que fez uma reportagem sobre Angola, e ele estava espantado com a relação entre o colonizador e o colonizado no terreno. Tinha ido ao Uíge, e vinha espantado: "Vocês são um povo estranho. Então agora é que estão a investir?". Havia pessoas que tinham vindo a Portugal buscar dinheiro para investir lá. "Vocês são completamente loucos!", concluiu ele".


CONTINUA...
in http://www.arlindo-correia.com/200601.html

sábado, 18 de outubro de 2008

Viagem Pela História de Angola


3 - Introdução ao Estudo da História de Angola

3.0 Sumário do Capítulo

3.1 Donde Vem o Nome "Angola"?

3.2 Que Angola?

3.3 Diversidade Étnica

3.4 Os Grandes Períodos da História de Angola


Espero que estejam a gostar da viagem!

Xinguila

A UPA/FNLA e as atrocidades da guerra colonial

Massacre de Colua, no norte de Angola (1961)



















Orgãos genitais de um soldado português (foto Horácio Caio)

Nas declarações prestadas, em 5 de Outubro de 1962, no Posto Administrativo de Aldeia Viçosa, pelo bailundo Severino José que fora obrigado a acompanhar os terroristas desde o dia 15 de Março de 1901, encontram-se os seguintes trechos, absolutamente horrorosos:

"(...) Que do massacre de Cólua nada sabe além de cozinhamento dos quatro militares a quem cortaram os dedos e as "matubas" (testículos) pendurando-os nuns paus para secarem (ver foto) (...)"

"(...) O Bomboco e, sobretudo, o Simão Lucas organizaram autênticas cenas de canibalismo começando com os quatro soldados brancos agarrados no Cólua, obrigando os bailundos a cozinhá-los e a entrarem no festim. O pessoal de Quiguenga conseguiu agarrar um sargento que fugira do Cólua e cozinhou-o, tendo o mesmo sargento que era gordo dado muito azeite e carne (sic). O soldado morto há poucos meses atrás foi levado para o Cólua e igualmente cozinhado, tendo o declarante participado no festim, tal e qual como os outros bailundos, pois que os que se negavam a isso eram mortos e igualmente comidos, tendo o declarante assistido à morte de pelo menos vinte e cinco bailundos e que o declarante teve igualmente de comparticipar. Desde a primeira hora todos os que morreram, quer brancos, quer bailundos, quer naturais da terra, foram comidos e jamais se procedeu ao seu enterramento, pelo menos no que diz respeito ao Cauanga-Cólua-Quinguenga, embora saiba, por ouvir dizer, nas outras partes se faz a mesma coisa.http://pissarro.home.sapo.pt/


Atrocidades cometidas pela FNLA/Angola (1961)





















































Atrocidades da guerra colonial

Será possível esquecer
Estas fotografias chocam mesmo. Pela violência e pela crueldade dos assassínios - cometidos em 1961 pelos membros da UPA. Pela forma serena e quase sorridente com que os nossos soldados se deixaram fotografar frente a cabeças espetadas em paus ou corpos esventrados - com o mesmo ar com que posam para a fotografia de fim de curso.
Mas esta foi a realidade dos anos 60 em Angola. Compreenda-la é perceber melhor o que foi aquela guerra e não deixar esquecer aquilo que as guerras, sejam elas quais forem, fazem aos homens.
As fotografias que aqui mostramos nunca foram publicadas porque a censura nao deixou. Os horrores e violações flagrantes dos mais básicos direitos Humanos passaram-se no norte de Angola. São imagens da violência da guerra e, sobretudo, do terrorismo da guerra - na Fazenda Tabi, os membros da União dos Povos de Angola (UPA) liderada por Holden Roberto, mataram os administradores brancos a golpes de catana, e na Fazenda Cassoneca esventraram um soba (chefe de uma tribo) e mataram toda a sua família, porque se recusou a deixar de trabalhar para os brancos. Os negros que trabalhavam nas fazendas de café administradas por portugueses - um objectivo “militar” a atingir porque destruir a economia é uma das formas de vencer a guerra - e que eram identificados por usarem uma fita colorida á volta da cabeça, eram decapitados e as suas cabeças espetadas em paus.
Além de trabalharem para os brancos, os negros assassinados pertenciam a outras etnias. Eram originários do Sul de Angola e tinham sido trazidos propositadamente pelos colonizadores que os julgavam mais dóceis e facilmente domináveis do que os naturais do Norte.
Os soldados portugueses foram chamados a proteger estas áreas e era nessa função que aqui se encontravam. A sua expressão impassível revela bem que assistir a massacres deste tipo, contra civis, se tornou facilmente um hábito.
Numa guerra de guerrilha toda a população é o “inimigo”. E as tropas portuguesas não demoraram muito a utilizar os mesmos métodos, instigadas pelo treino que, depois, passaram a receber antes de embarcarem. Da preparação para a guerra constavam ainda slogans de conteúdo racista, que apresentavam indiscriminadamente, o “preto” como inimigo, música e canções guerreiras.
Estas histórias e as dos massacres cometidos pelas tropas portuguesas estão registadas em fotografias e filmes que estão na posse das chefias militares e de ex-combatentes da guerra colonial. Mas em Portugal, os poderes político e militar e a sociedade, de uma maneira geral, têm evitado discutir esta página negra do vida do país.
A APOIAR (Associação de Apoio aos ex-Combatentes Vítimas de Stress de Guerra) prepara-se para mandar a primeira pedra. Em Abril foi inaugurada uma exposição com material “tirado do baú”.
A violência alimenta a violência e é disso que são feitas as guerras.
Ao ver estas fotografias não é difícil perceber como funciona este ciclo de ódio.
In Notícias Magazine, diário Notícias 17 de Março de 1996

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Colocado por Victor Nogueira @ Segunda-feira, Julho 02, 2007

"A 13 de Abril, o Úcua, a pouco mais de uma centena de quilómetros da capital, sofre um assalto de terrível ferocidade. Mais vidas sacrificadas a uma sanha sanguinária, violenta de ódio habilmente cultivado, como se essa fosse a recompensa devida a muitos colonos que dedicaram uma vida inteira a melhorar a situação dos nativos (...). Numa das suas habituais visitas à Fazenda Luzia, uns dias antes dos acontecimentos em Luanda, um velho servidor seu avisara-o de que "não dormisse despido pois que nas sanzalas andava tudo muito mal, mas que nada dissesse para que os companheiros o não matassem". Acácio Cunha não dera ouvidos ao velho pois, como os demais, não acreditava que a paz e a franca convivência de anos fossem destruídas sem qualquer razão. No entanto, agora que o inacreditável aconteceu, graças à diligência daquele colono, as autoridades empreenderam uma rusga à região. Uns 640 bailundos, armados de catanas e paus, trabalhadores da fazenda, colaboraram na rusga, auxiliando o pelotão militar e os 20 civis da fazenda, armados. Dois dias depois da tropa regressar a Caxito, terminada a rusga, uma horda de bandidos assaltava o Úcua (...).
in
.http://pissarro.home.sapo.pt/

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Carlos Mário Alexandrino, mestre da Maçonaria




Carlos Mário Alexandrino da Silva,


Natural de Luanda onde nasceu a 30 de Julho de 1925, filho de goês e de minhota; pai era coronel-médico onde fez toda a sua carreira desde capitão e onde se acha sepultado, figura muito conhecida, mestre da Maçonaria - Grande Oriente Lusitano Unido - e dilecto colaborador do antigo Alto Comissário General Norton de Mattos, foi sempre da esquerda e grande amigo e companheiro de luta democrática do velho Corrêa de Freitas fundador e director do jornal "A Província de Angola", destacando-se por suas pesquisas científicas e representação de Angola em Congressos Internacionais de Medicina Tropical; com Alberto Marques Mano Lemos de Mesquita e Fernando Santos e Castro foi fundador nos idos da década de 40 da Casa dos Estudantes de Angola, na Avenida Praia da Vitória, em Lisboa, e mais tarde, como evolução daquela que chamou a si estudantes de outras colônias passando a subdividir-se em secções e transferindo sua matriz para um edifício na Avenida Duque D´Avila, frente à recolha da Carris, da famosa casa dos Estudantes do Império que seria desactivada pela PIDE em fins da década de 50.

Desde adolescente dedicou-se sempre a actividades desportivas e jornalísticas... leia mais aqui

www-
Crónicas - ECMNÉSIA HISTÓRICA COLONIAL
AUTÓPSIA À HISTÓRIA DA DESCOLONIZAÇÃO PORTUGUESA

www-
Ensaio do mesmo autor: O ALFABETO DE DEUS...E OS MENSAGEIROS DO ALÉM
=OVNIS, ET´S E O QUE SE SABE=


Leia as cronicas de Carlos Mário Alexandrino, aqui:


Crónicas

EM SONDAGEM DE OPINIÃO PUBLICA REALIZADA EM PORTUGAL PELA: TV SIC - CATÓLICA - SALAZAR....

O PLANO CAETANISTA PARA A DECLARAÇÃO UNILATERAL DE INDEPENDÊNCIA DE ANGOLA E MOÇAMBIQUE...

15 de Agosto de 1648 - SÃO PAULO D´ASSUMPÇÃO DE LOANDA FOI LIBERTADA POR TROPAS BRASILEIRAS

QUANDO O CONGO ERA UM REINO - PARTE I . PARTE II . PARTE III . PARTE IV

O QUE A HISTÓRIA DE PORTUGAL NÃO CONTA: ESCRAVOS EM PORTUGAL - PARTE I . PARTE II . PARTE III . PARTE IV

REINO DE ANGOLA : 25º ANIVERSÁRIO DA RESTAURAÇÃO DE SUA "INDEPENDÊNCIA"

CABINDA NÃO É ANGOLA - PARTE I . PARTE II . PARTE III . PARTE IV. PARTE V . PARTE VI

FUA - FRENTE DE UNIDADE ANGOLANA: OPORTUNIDADE PERDIDA POR PORTUGAL - PARTE I . PARTE II . PARTE III . PARTE IV. PARTE V

SALAZAR E A INDEPENDÊNCIA DE ANGOLA - UMA REVELAÇÃO INÉDITA

PENSANDO BEM, MUGABE EM PARTE TEM RAZÃO

O DESPERTAR DO CONTINENTE ESQUECIDO...

O BRASIL DE PORTUGAL...



domingo, 25 de maio de 2008

2.2 O INDÍGENA E A SUA EDUCAÇÃO ESCOLAR

Com excepção de um pequeno período de tempo durante a Primeira República, a política educativa referente aos povos das colónias esteve sempre ligada à actividade missionária. Esta situação trazia consigo uma dupla contradição da política colonial portuguesa. Esta atribuía aos sucessivos governos a função de civilizar e, por consequência, educar, função que, por seu lado, era rejeitada pelos governos e entregue aos missionários.
Mais grave ainda era a política anti-clerical do Estado, que impedia o desenvolvimento da actividade missionária. É conhecida a extinção das ordens religiosas por Joaquim António de Aguiar, o "Mata-Frades", em 1834, que deixou a maior parte das missões sem pastor e encerrou as casas de formação que preparavam e mandavam os missionários para as colónias. A partir de 1848, algumas ordens regressaram, sem que, no entanto, os governos da altura se empenhassem em fazê-las progredir.
Durante os últimos anos da monarquia a situação voltou a agravar-se. A luta contra a Igreja revestia agora dois aspectos. A Igreja na Metrópole era atacada por todos os meios enquanto que os próprios mentores desta luta reconheciam caber às Missões um papel fundamental na relação colonial293, sobretudo se fossem Missões Nacionais.
Os colonialistas, mesmo os anti-clericais, constatavam que nas colónias as missões estrangeiras progrediam "assustadoramente". Com efeito, na conferência de Berlin, Portugal tinha aceite a obrigação de não impedir, e proteger a instalação de missões estrangeiras nas colónias, razão pela qual ao mesmo tempo que estas se desenvolviam, a presença missionária portuguesa em África era extremamente reduzida.
O problema não era o de as missões estrangeiras não ensinarem a mesma religião. A questão residia no facto de permanecerem nas colónias cidadãos
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estrangeiros, falando línguas que não o português e exercendo uma autoridade que não tinha um carácter nacional. Dizia António Enes: "E eu próprio não me lembraria de indagar a nacionalidade de missionários que só lidassem na salvação de almas; mas o Estado é que exige algum serviço, além da lida espiritual, àqueles a quem subvenciona. Exige-lhes que quando ensinam a adorar a cruz ensinem também a reverenciar a bandeira portuguesa, que com a sua autoridade moral fortaleçam e auxiliem a autoridade política, que acostumem os indígenas a orarem a Deus na língua do Rei, e não se pode esperar tanta dedicação de estrangeiros, só devotados a interesses religiosos. Não me consta que os padres não portugueses, que têm missionado na África oriental, alguma vez desrespeitassem a soberania portuguesa, mas tão injusto seria tratá-los como inimigos e conspiradores, como seria imprudente contar com eles como se fossem súbditos.
Não os considero perigosos; todavia, propagam nos sertões idiomas europeus que não são o nosso, predispõem os povos para acatarem brancos que não somos nós"294.
A opinião sobre tais missões não tinha variado em 1926 quando se podia ter no preâmbulo do Estatuto Orgânico das Missões Católicas Portuguesas da África e Timor (Dec. N° 12.485 de 13 de Out. 1926), da autoria do então Ministro Colonial João Belo. "Promovidas e estabelecidas fora de todo o espírito das nossas tradições nacionais e religiosas e de todas as relações com o povo, o Governo e a economia de Portugal, estão infinitamente longe de ser, por si mesmas, padrões do nosso domínio, centros de radiação da nossa língua, das nossas ideias, dos nossos usos e costumes e pontos de apoio aos nossos emigrantes e colonos. Não têm a alma portuguesa e chegam a ser em muitos casos outra aposta a ela e ao amor de Portugal e ao seu prestígio"295. O que era, de facto, preciso era que se orassem a Deus, o fizessem na língua do Rei. Em 1962 ainda se escrevia "só podemos considerar verdadeiramente integrados no corpo social da Nação Portuguesa, os nativos que, ao mesmo tempo, falem habitualmente e com correcção o Português e professem convictamente a Religião Católica"296. Tanto mais que a conversão dos nativos era mais do que problemática. A angústia suprema para um missionário era ver o novo convertido "regressar”ao passado. "Dir-se-à que o cristianismo só pode viver em África como as plantas mimosas fora da área natural da sua habitabilidade, em estufas. Estufas são as missões; os cristãos que se criam na sua atmosfera artificial degeneram ao ar livre, ou, pelo menos não se reproduzem. À força de desvelos conseguem os missionários reunir e disciplinar um punhado de fiéis, o que não pode ser celebrado como milagre da religião, porque o negro é dócil,
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a tudo se sujeita, tudo se lhe ensina; aprende a rezar e a entoar cantochão como a exercer um oficio, e tanto se amolda a uma disciplina moral como à disciplina doméstica ou militar. Mas se recebe as impressões com a brandura da cera, repele-as com a elasticidade da borracha. Em regra, o educando das missões, tão depressa deixa de sentir a pressão educativa que lhe deu exterioridades de santo, regressa às crenças supersticiosas, aos costumes embrutecidos, às paixões desenfreadas da sua raça e a barbarie, sendo essa regressão ajudada pelos fenómenos biológicos, - não sei se já estudados, - que paralisam o desenvolvimento intelectual do negro ao sair da infância"2976.
Continua ...

Salazar Recusou Milhões Pela Independência das Ex-Colonias

António Oliveira Salazar rejeitou uma proposta dos Estados Unidos para a independência das ex-colónias portuguesas a troco de mil milhões de dólares (782 milhões de euros), porque "Portugal não estava à venda", revela um ex-responsável norte-americano no seu livro "Engaging Africa: Washington and the Fall of Portugal's Colonial Empire".

Segundo o secretário de Estado adjunto para os Assuntos Africanos durante a administração Clinton, Witney Schneider, o ex-presidente do Conselho rejeitou a proposta americana em 1963, durante um encontro com um enviado da Casa Branca.

O livro detalha minuciosamente, com base em documentos oficiais e entrevistas com personalidades norte-americanas e portuguesas, as relações dos Estados Unidos com Portugal e com os movimentos independentistas das ex-colónias portuguesas, em particular Angola e Moçambique, desde o início dos anos 60 até à independência de Angola, em 1975.

De acordo com o autor, em 1962, o assistente do director adjunto de planeamento da CIA, Paul Sakwa, elaborou um plano denominado "Commonwealth Plan", que visava convencer as autoridades portuguesas a aceitar o que a CIA considerava ser a inevitabilidade da independência das colónias portuguesas.

O plano previa que Portugal concedesse a auto-determinação a Angola e Moçambique após um período de transição de oito anos. Enquanto isso, seria organizado um referendo nas duas colónias para se determinar que tipo de relacionamento seria mantido entre os dois territórios e Portugal após a independência.

Durante esse período, os dirigentes nacionalistas angolano Holden Roberto e moçambicano Eduardo Mondlane receberiam "o estatuto de consultores assalariados" e seriam preparados para a liderança dos novos países.

"Para ajudar Salazar a engolir a pílula amarga da descolonização, Sakwa propôs [ainda em 1962] que a NATO oferecesse a Portugal 500 milhões de dólares [391 milhões de euros] para modernizar a sua economia", escreve Schneider.

Um ano depois a proposta daquele funcionário da CIA foi ampliada pelo diplomata Chester Bowles, que duplicou a ajuda a oferecer a Portugal, propondo que os Estados Unidos concedessem mais 500 milhões de dólares durante um período de cinco anos, ou seja um total de mil milhões de dólares durante o período de transição.

Documentos oficiais mostram que Bowles argumentou que seria "um bom negócio diplomático" se os esforços norte-americanos conseguissem resolver "o feio dilema" de Portugal a um custo de cem milhões de dólares (78 milhões de euros) por ano.

O plano dos Estados Unidos esbarrou, contudo, na inflexibilidade de Salazar.

"Portugal não está a venda", foi a resposta do ditador português quando a proposta lhe foi apresentada, em Agosto de 1963 - ainda durante a administração Kennedy - pelo secretário de Estado adjunto norte-americano, George Ball.

Franco Nogueira considerou a proposta americana uma "idiotice

O autor diz ainda que o então ministro dos Negócios Estrangeiros português, Franco Nogueira, considerou a proposta americana uma "idiotice", porque revelava que Washington acreditava poder determinar ou garantir acontecimentos a longo prazo.

Segundo Nogueira, o plano dos Estados Unidos seria o primeiro passo para a inevitabilidade do caos nas colónias portuguesas em África.

Um dos aspectos mais curiosos do livro é a exactidão com que a CIA e vários diplomatas norte-americanos fazem, com muitos anos de antecedência e em documentos oficiais, a previsão da derrota militar portuguesa em África e o derrube da ditadura.

"A derrota militar portuguesa é uma conclusão inevitável se se permitir que a revolta em Angola ganhe volume e continuidade", adverte o documento da CIA que acompanhava a proposta inicial elaborada por Paul Sakwa, pouco depois do começo da guerra em Angola.

Sakwa questiona-se mesmo se os Estados Unidos poderiam permitir que Portugal "cometesse suicídio, arrastando os seus amigos na mesma via".

O então embaixador dos Estados Unidos em Lisboa, Burke Elbrick, considerado em Washington como um simpatizante das autoridades portuguesas, enviou um telegrama às autoridades norte-americanas em 1963 em que dizia que Portugal estava "debaixo da espada de Dâmocles", pois não era "nem suficientemente grande nem suficientemente rico" para fazer frente a uma guerra de guerrilha em três frentes.

As guerras em África poderiam significar "o fim do império lusitano" e do regime de Salazar, escreveu ainda o diplomata, advertindo que o fim do regime poderia resultar na subida ao poder de um Governo "consideravelmente mais esquerdista ou neutral".

Em 1964 - dez anos antes da revolução do 25 de Abril -, a CIA advertiu que as guerras em África levariam ao aumento do descontentamento interno e que esse "aumento do descontentamento poderá convencer os militares da necessidade de substituírem Salazar".

Nesse mesmo ano, o Conselho de Segurança Nacional advertiu o Presidente Lyndon B. Johnson - que sucedeu a John F. Kennedy - de que as perspectivas de Portugal em África eram péssimas.

"Já não se trata de uma questão de saber se Angola se tornará independente ou não, pois a única questão é saber quando e como, tal como aconteceu na Argélia. Do mesmo modo, é uma certeza que quanto mais a luta durar, mais violenta, racista e infiltrada pelos comunistas se tornará, mais grave será a crise final a que os Estados Unidos terão de fazer face e mais caótica, radical e anti-ocidental será uma Angola independente", diz o documento.

Durante os anos 60, e face a estes avisos, muitos funcionários norte-americanos deram conta em documentos do seu desespero face à inflexibilidade do Governo de Salazar em mudar a política colonial.

Paul Sakwa, o funcionário da CIA que elaborou o "Commonwealth Plan", desesperado com a inflexibilidade de Salazar, terá chegado, ironicamente, a manifestar dúvidas de que o ditador português pudesse aceitar o plano americano "sem o benefício de uma lobotomia".

Para o secretário de Estado adjunto de então, George Ball, Salazar elaborava a política externa de Portugal "como se o Infante D. Henrique, Vasco da Gama e Fernão de Magalhães fossem os seus conselheiros mais próximos".

http://ultimahora.publico.pt/shownews.asp?id=1206768&idCanal=21
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From: Immigration From Hell
To: JOHNYsTONES
Posted: Tue Nov 16, 2004 4:50 pm
Subject: Re: filha da puta

terça-feira, 8 de abril de 2008

Génese da Literatura Angolana

O primeiro livro editado em Angola e escrito por um angolano data de 1849 e foi publicado em Luanda pouco depois de se ter instalado a Imprensa Oficial. Trata-se de um livro de poemas, intitulado “Espontaneidades da minha alma”, cujo autor, José da Silva Maia Ferreira, pertencia a uma família de comerciantes portugueses instalada há muito na colónia. Certos indícios fazem crer que outros angolanos se teriam dedicado às letras antes desta data, mas não encontrámos até hoje as obras, apenas referências esparsas. Preferimos pois referir que na segunda metade do século passado, e mais particularmente a partir de 1880, se desenvolve o que se pode chamar um embrião de literatura em Luanda e Benguela, cidades antigas na costa atlântica e pontos de partida para a colonização do interior. Tratava-se principalmente de obras de carácter jornalístico, muito activo nessa época marcada por grande agitação na vida da colónia, mas também poemas, romances e ensaios. Temos uma grande variedade de títulos de jornais, utilizando a língua portuguesa, kimbundo e kikongo, por vezes bilingues. A vida da maior parte destes jornais era efémera e embora tivesse sido decretada a liberdade de imprensa, vários deles eram proibidos logo desde o primeiro número, por razões políticas. É o contexto social em que se desenvolveu esta literatura que vamos tentar rapidamente examinar, para pôr em evidência a maneira como se foi criando uma cultura própria que teria um enorme protagonismo no século actual, servindo de base para as manifestações nacionalistas. O território que iria ser conhecido mais tarde pelo nome de Angola tornou-se, a partir da fundação da cidade de Luanda, em 1576, um enorme fornecedor de escravos para as Américas. A norte do território situava-se o reino do Congo, o qual já participava do tráfico há quase um século, mas tratava-se de uma entidade política independente na época, só se integrando na colónia de Angola no século XVII. Toda a economia de Angola vivia de e para o tráfico. E isto durou aproximadamente três séculos. Os escravos partiam principalmente para o Brasil. Do Brasil, Angola importava todos os produtos necessários à vida da colónia : da aguardente e pólvora até à carne seca e à madeira para construção. Portugal contentava-se em enviar pessoas e entre elas um importante contingente de deportados, condenados por crimes de direito comum e por “delitos religiosos”. Esta categoria era constituída por judeus e adeptos da reforma protestante. Os colonos eram compostos essencialmente de traficantes, comerciantes, soldados e deportados. Dadas as circunstâncias específicas em que se realizava a partida desta população para Angola e dados os objectivos visados, é fácil deduzir que se tratava de uma população principalmente masculina, o que esteve evidentemente na origem da forte mestiçagem gerada na colónia. Até ao século XIX, a situação económica e social sofreu poucas modificações, em Luanda, Benguela e nos territórios circunvizinhos que constituíam praticamente a colónia de Angola. Era de facto uma feitoria servindo de base à captura e ao embarque dos escravos. Sendo a sua principal vocação militar e administrativa, a esta se agregou alguma actividade económica ligada à pesca e a uma agricultura rudimentar nas quintas à volta das cidades e presídios e, finalmente, o comércio de alimentação e bebidas. Esta feitoria era de facto desde o século XVII governada pela colónia portuguesa do Brasil e não directamente pelo Reino de Portugal. Até ao século XIX, que constitui um período-charneira, como veremos, as características da população da colónia não variaram. Assim, a categoria dos brancos, que eram em número de dois mil e se compunham de comerciantes e soldados, permaneceu estável durante séculos. O número de mestiços aumentou progressivamente e sempre foi superior ao dos brancos. O elemento negro evoluía de maneira significativa, mesmo se uma parte importante era constituída por escravos que só ficavam nas cidades o tempo mínimo para se restabelecerem fisicamente do desgaste provocado pela viagem em caravana do interior para a costa, com o fim de poderem suportar as condições infra-humanas da viagem para a América. Luanda e Benguela eram com efeito entrepostos de engorda dos escravos capturados em guerras do interior ou vendidos pelos chefes tribais. O número reduzido de brancos, a quase inexistência de mulheres brancas, e o facto de os negros serem escravos em trânsito ou servindo nas casas dos donos, e por isso com poucas possibilidades de fundar uma família, explicam que a família mestiça tenha predominado nessa altura. Pode mesmo dizer-se que a família dominante era não somente mestiça mas também patriarcal polígama. Um homem, que podia ser europeu, mestiço ou raramente um negro com grandes propriedades, tinha normalmente uma mulher principal e várias secundárias, geralmente escravas (mucambas) que ajudavam a mulher principal nas lides da casa. Muitas vezes a mulher principal era mestiça e as secundárias eram negras, independentemente da cor do chefe de família. Se este era rico, as mulheres eram tratadas com grande luxo e ostentadas publicamente, sem nenhuma reserva, o que levava a igreja católica a elevar-se constantemente contra “a dissolução dos costumes e a degradação da moral familiar”. Mas, ao que sabemos, a sociedade fazia pouco caso das invectivas da igreja, não só porque as condições da colonização a forçavam a isso, mas também porque este factor encontrava justificação fácil nos costumes da sociedade africana tradicional, polígama por excelência. Assim, a sociedade mestiçava-se racialmente e se baseava sobre uma síntese cultural entre a estrutura familiar europeia e a estrutura familiar africana tradicional. Em Luanda, cidade situada em território de língua kimbundu, era esta língua africana que se usava correntemente na família patriarcal, mesmo se o chefe fosse branco. Do mesmo modo, inúmeras crenças e costumes africanos perduravam, sob o manto da europeização e da cristianização, em imprevistos sincretismos religiosos e culturais. Um outro fenómeno se juntava a esta evolução : o da ascensão de mestiços livres na administração, os quais representavam uma quinta parte dos funcionários. Esta ascensão social dos mestiços dava um aspecto particular às sociedades da costa, muito particularmente a Luanda e Benguela. De um modo geral, os brancos consagravam-se sobretudo ao comércio, fonte real do poder, que lhes assegurava mais vantagens materiais que os magros salários de funcionários. Por isso uma parte significativa dos cargos públicos, civis e militares, foi progressivamente ocupada pelos mestiços. No entanto sempre existiram medidas legais restritivas. Os cargos mais elevados ou de maior prestígio, compreendidos os de vereadores da Câmara, reclamavam “pureza de sangue”, o que queria dizer que o candidato não podia ter sido “contaminado” por sangue judeu, mouro ou negro. A sociedade urbana de fim do século XVIII é melhor conhecida graças ao historiador brasileiro Elias Correia , que viveu vários anos em Angola e descreveu o quotidiano dos seus habitantes. Ele considerava a sociedade dominante em Luanda licenciosa e atentatória à moral católica. Refere também que a cidade era a mais suja do mundo, com as ruas cheias de lama e de estrume, os animais vivendo nas ruas no meio do lixo atirado de todos os lados. Os habitantes sofriam de paludismo e desinteria, e todas as pestes provocadas pela atmosfera pútrida em que viviam. As casas estavam reduzidas a estado de pardieiros e os edifícios com imponentes fachadas mas ameaçando desabar estavam rodeados de cabanas sombrias e sem ventilação e casas em ruína que serviam de despejo a toda a espécie de imundícies. No entanto, talvez para reforçar os contrastes, nesta cidade descuidada, infecta, mal cheirosa, que os grandes senhores se contentavam de disfarçar mandando queimar alfazema e açúcar no interior das habitações, havia a maior ostentação de luxo. Os senhores e suas consortes vestiam caras sedas, veludos e brocados, como nas cortes europeias, sem temerem a sauna a que se condenavam, passeavam pedrarias, espadins e fivelas de ouro nos sapatos, para os mergulhar logo em seguida no esterco das ruas. Por Elias Correia sabemos ainda que não havia vida cultural, excepto raras representações teatrais nas igrejas. Os habitantes mais desafogados passavam o tempo a engolir copiosos repastos que duravam horas, bem regados de aguardente brasileira, e que terminavam invariavelmente por partidas de cartas com grossas apostas. As fortunas se faziam e desfaziam numa noite. Esta sociedade pachorrenta para a qual o desenvolvimento significava quase um insulto sofreu no século XIX dois grandes abalos que por pouco a faziam desaparecer. O primeiro abalo foi a independência do Brasil em 1822. Grupos importantes das classes dominantes de Luanda e de Benguela tentaram fomentar um movimento para se juntarem ao Brasil e prolongarem constitucionalmente o que existia na prática. A burguesia colonial de Angola vislumbrava grandes benefícios nesta ligação directa com a região que lhe comprava os escravos e sem ter de enviar o dinheiro dos impostos do tráfico para Portugal. Mas o poder português reagiu e o número de brancos aumentou consideravelmente num ano, com o envio de tropas para defenderem os direitos da coroa europeia. O resultado mais sensível da independência do Brasil foi uma diminuição progressiva da exportação de escravos, o que provocou uma crise da economia que durou um século. Em 1836, um segundo abalo iria modificar a face da colónia : a abolição do tráfico de escravos pela pressão da Inglaterra. E a crise tronou-se pânico e engendrou uma verdadeira debandada. Houve uma exportação clandestina e massiva de escravos e fuga de capitais e de pessoas para a Metrópole. O tráfico diminuiu lentamente para desaparecer completamente só no fim do século. Todavia, deixou de ser a principal e quase única fonte de receitas da colónia. A economia de feitoria terminou, deixando o lugar a outro tipo de colonização, já timidamente experimentado no passado, com o envio de maior número de colonos para o interior com o fito de se dedicarem à agricultura. Esse movimento migratório de brancos modificou pouco a pouco as relações sociais e marcou definitivamente a vida cultural. As perdas provocadas pelo fim do tráfico foram somente em parte compensadas pelos benefícios do comércio da borracha e do marfim, e pelo princípio da exploração do café. Mas a transformação do sistema de produção provocou mudanças importantes numa camada social que alguns autores qualificam como “classe média africana”, “sociedade crioula” ou “elite africana”, termos utilizados para designar essencialmente o mesmo fenómeno. As famílias patriarcais mestiçadas racial e culturalmente, como vimos, tendiam a ser dominantes nas cidades, senão em termos quantitativos, pelo menos do ponto de vista da influência social e ideológica. Era esse tipo de família que dava às cidades da costa a sua coloração particular. O pai branco enviava o filho mestiço para o interior do país para obter escravos ou dirigir o entreposto comercial. Os outros filhos mestiços estudavam para alcançarem uma carreira administrativa ou militar. O filho ou filhos brancos, se os houvesse, ficavam com a loja na cidade ou iam estudar para Portugal, onde muitos se fixavam. Os proprietários negros, ligados ao tráfico de escravos ou ao comércio de produtos agrícolas, detentores de fazendas nos arredores, também enviavam os filhos à escola. É por isso que, na segunda metade do século passado, a esmagadora maioria dos alunos das escolas de Luanda e Benguela eram negros e mestiços, mas com forte predomínio destes. Assim se formou no decurso dos anos uma camada social de mestiços e negros, incluindo alguns brancos nascidos em Angola, e possuindo um mesmo fundo cultural formado pela mistura das diferentes origens, uma tradicional africana e a outra europeia. Se é o substracto cultural que parece ser o determinante na sua caracterização, é necessário acrescentar que esta camada social gozava de uma situação económica notável e se encontrava perfeitamente integrada na vida urbana. Embora tivesse as características de uma classe média por ser fundamentalmente constituída por quadros intermédios do comércio, da administração pública e por alguns membros das profissões liberais, ela englobava também proprietários agrários e artesãos, o que aponta para uma camada social mais complexa e diferenciada. Com o fim do tráfico de escravos e a chegada de numerosos colonos, com a chamada política de povoamento, esta camada social encontrou-se confrontada com um violento processo de concorrência, que se intensificará com a espoliação das melhores terras para o café e a perda progressiva da sua posição na administração e no comércio, em favor dos metropolitanos. Este empobrecimento forçado terá consequências também urbanas, mais visíveis no século seguinte mas já iniciadas no século XIX, com a marginalização constante das famílias mestiças para a periferia e a concentração dos brancos no centro das cidades. Esta camada social deixa então de se identificar ideologicamente com o sistema colonial, de que tinha sido no entanto um elemento decisivo. A ruptura é entretanto lenta e só será definitiva a partir da segunda guerra mundial e do salazarismo. Mas não antecipemos, pois estamos sempre no século XIX, cadinho em que as ideias se cruzam e florescem. Como era inevitável, esta camada social foi a base de uma elite intelectual muito activa no último quarto do século e estreitamente ligada à actividade jornalística e literária em geral. Nos jornais, os escritores “filhos do País” ou “angolenses”, como se designavam, reivindicavam uma identidade ameaçada pela portugalização da vida económica, social e cultural. Luanda e Benguela tornaram-se centros de intensa actividade cultural e de debates onde eram abertamente defendidos em publicações os ideais da Revolução Francesa, e onde se foi desenvolvendo uma crescente vontade de autonomia política. Sucederam-se os títulos de publicações cujos caminhos vão de um jornalismo que cultua o gosto pela polémica até à defesa dos valores e interesses da camada social de que fazem parte os seus autores. A partir das denúncias de corrupção e abusos da autoridade, impressos nas páginas de periódicos como A Civilização da África Portuguesa, O Comércio de Loanda, O Cruzeiro do Sul, O Futuro de Angola, O Pharol do Povo, O Arauto Africano, o Muen'exi, O Desastre e O Polícia Africano, emergem os sinais de descontentamento com a situação sociopolítica da colónia. Estes artigos são de facto um questionamento frontal do poder estabelecido. A história da literatura angolana regista os nomes de alguns brilhantes jornalistas e escritores que estão na base do que se chamaria mais tarde a identidade cultural angolana, presságio de uma nacionalidade em formação a partir das cidades. Arriscando-me à injustiça de deixar alguns de lado, distingo Cordeiro da Matta, José de Fontes Pereira, Pedro Félix Machado, Francisco Ribeiro Castelbranco, Pedro da Paixão Franco, Apolinário Van-Dunem e Alfredo Troni, jornalistas, escritores e homens públicos. Os seus nomes são ainda hoje os de algumas grandes famílias urbanas. Desta elite de jornalistas e escritores, podemos distinguir dois nomes que têm uma importância certa na génese da literatura angolana, apenas porque algumas das suas obras puderam chegar até nós. Alfredo Troni e Cordeiro da Matta foram sem dúvida dois intelectuais dos mais representativos deste momento histórico, embora com origens e percursos diferentes. O primeiro esteve ligado a vários jornais, como o Jornal de Angola, Mukuarimi (kimbundo, cujo significado é falador, maldizente) e Os Concelhos do Leste, e é autor do texto considerado percursor da prosa angolana em língua portuguesa : Nga Mutúri, novela publicada em forma de folhetim pela imprensa de Lisboa em 1882. Nascido em Portugal, Alfredo Troni, bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra, revelou rara inteligência e cultura, com sentimentos humanitários que o levaram a combater a escravatura, sendo autor do regulamento da lei que declarou definitivamente extinto o estado de escravidão. Tal como se podia prever, essas posições não agradaram ao governo colonial. Eleito deputado por Angola, a eleição foi posteriormente anulada e ele foi transferido compulsivamente para Moçambique. Recusou a transferência, demitiu-se de todas as funções públicas e passou a viver do seu trabalho como advogado, até 1904, ano em que morreu, em Luanda. Cordeiro da Matta pelo seu lado procurou na sua actuação como professor, filólogo, etnógrafo, poeta e ficcionista, promover a divulgação da cultura popular que vinha sendo desprezada pelo pensamento dominante. Como autor do Ensaio de Dicionário Kimbundo-Português e da Cartilha Racional para se aprender a ler o Kimbundo, tentou também demonstrar que através dessa língua se veiculavam valores éticos e filosóficos. Ao publicar Delírios, antologia poética, Cordeiro da Matta reforçou a nota de ruptura em relação à lírica tradicional portuguesa, uma vez que escolheu como tema a questão racial, até então intocada pela poesia angolana. Esse desejo de romper com os padrões metropolitanos, como parte de um programa maior, confirmou-se quando na edição de um volume intitulado Philosophia popular em provérbios angolenses convocou os seus compatriotas para a missão de dedicar "algumas horas de ócio ao estudo do que Angola tiver de interessante, para termos uma literatura nossa". As suas palavras registam a vontade de ter na literatura um traço de identidade e a convicção de que o pré-requisito para isso era um mergulho mais fundo naquele universo que, de facto, diferenciava a sua terra daquela de onde vinham os exploradores. De Cordeiro da Matta ainda se pode citar a História de Angola, editada em folhetins em O Pharol do Povo. Consta que escreveu também O Loandense da Alta e da Baixa Esfera e o Dr. Gaudêncio , cujos originais se perderam. Há ainda vagas referências a respeito de um romance jamais publicado, A verdadeira história da Rainha Jinga. Se numericamente o material deixado por esta geração nos parece exíguo, o seu maior legado está no entanto na capacidade que estes intelectuais tiveram de imprimir através da palavra, num contexto extremamente difícil e hostil, os primeiros passos para a transformação das consciências que desembocaria, décadas depois, no movimento dos "Novos Intelectuais de Angola", núcleo fundador do nacionalismo moderno. Devo no entanto sublinhar que esta camada social urbana de finais do século passado, considerada legitimamente na origem do moderno nacionalismo angolano, tinha uma posição algo equívoca, a qual transparece por vezes nos seus escritos. Esta elite denunciava as discriminações e o racismo coloniais, e defendia as mesmas oportunidades para todas as raças. Da mesma forma denunciava o pouco caso que a administração fazia do desenvolvimento do território e da educação das populações, batendo-se pela Liberdade, Igualdade e Fraternidade, e censurando violentamente a corrupção que grassava nas altas esferas do Poder, quase se colocando em posição de advogar a independência do País. No entanto, ao mesmo tempo aplaudia as campanhas do exército colonial contra os chefes tradicionais que todos os anos se iam revoltando e encorajava a ocupação militar dos reinos do interior que Portugal devia submeter para legitimar a sua posse, em face das obrigações ditadas pela Conferência de Berlim para a partilha de África. Para a elite urbana, as populações do interior eram bárbaras e ignorantes, por isso não lhe repugnava a sua integração pela força das armas, para que essas populações pudessem “receber as luzes da civilização e da Fé católica”. Haveria também algum interesse material, pois a ocupação do maior número de territórios favorecia o aprovisionamento em mão-de-obra barata, através do trabalho forçado, o desenvolvimento do comércio e o aumento do número de postos administrativos, possibilidades de crescimento económico a que esta camada não era evidentemente indiferente. Republicanos e democratas para si próprios, não conseguiam ainda estender esses ideais para benefício de toda a população. Seria pedir demais, pois não devemos esquecer que estas grandes famílias guardavam na memória os sinais de esplendor da sua origem, provenientes essencialmente do tráfico de escravos que se fazia em detrimento das populações do interior. Pepetela 1 Estatísticas de 1799 revelam que existiam 110 postos de funcionários na colónia de Angola, dos quais 20 % eram ocupados por mestiços (supomos que de Angola), 6 % por brancos nascidos em Angola, 3 % por negros e 12 % por brancos vindos da Metrópole, o que significa que cerca de 60 % dos funcionários eram originários do Brasil. Uma outra estatística de 1818 indica que Angola importou do Brasil mercadorias que representavam 95,1 % do valor global, enquanto apenas 4,9 % vinham de Portugal. Quanto às exportações faziam-se exclusivamente para o Brasil, a saber 98,6 % em escravos, o resto sendo representado por uma percentagem irrisória de cera e marfim. Estes dados revelam que Angola era de facto uma colónia do Brasil até à data da independência do gigante sul-americano, colónia especializada no comércio de escravos, o que se reflectiu evidentemente na sua composição social e no seu substracto cultural. 2 – Elias A. Correia, "História de Angola", Ática, Lisboa, 1937 3 Lisboa, Edição do Autor, 1891 4 CHAVES, Rita de Cássia – "Entre intenção e gestos – A formação do romance angolano", tese de Doutoramento, Universidade de São Paulo, 199
africaminhamami.blogspot.com/2007/12/projecto...

JOSÉ DA SILVA MAIA FERREIRA (Benguela, Angola, séc.XIX - Angola, séc.XX). Tendo estudado na cidade de Lisboa, possívelmente obteve instrução superior à primária. Amanuense da Secretaria do Governo Geral de Angola, tesoureiro da alfândega de Benguela, oficial da Secretaria do Governo de Benguela. Candidato às eleições para senadores e deputados, realizadas em 1839. Colaboração no Almanach de Lembranças, Lisboa, 1879.
Publicou, pelo menos: Espontaneidades da minha alma / As senhoras africanas, Luanda, 1849.


BENGUELINHA !


Passarinho primoroso
E gentil, plumeo cantor,
Que d'aromas tão fragrantes
Não esparzes com candor,
Quando trinas mavioso
Nesse insolito rigor
De um sol forte e constante
Suaves cantos d'amor?!

Ás vezes contemplo
Do dia no albor,
Sentir o rigor
De escravo viver;

Suspiras e gemes
Em cantos d'amor,
Ah! sê meu primor
Não queiras morrer!

Anhélas no mato
Andar pelas fragas,
Viver só de bagas,
Nos ramos dormir?

Esvoaça saltando
Na tua prisão
Ai! Tem compaixão
Não vive a carpir!

Infiltra bondoso
No meu coração
O doce condão -
Do meigo trinar;

Que juro contigo
Do muito viver
Comtigo morrer,
Comtigo findar!

E as azas abrindo
O plumeo cantor,
As juras d'amor,
Ouvio a sorrir -

Em magos acentos
Endeixas trinou,
Que d'alma exalou,
Que d'alma sentiu! -


À MINHA TERRA !
 
(No momento de avista-la depois de uma viagem.)
Fundador da Literatura Angolana - 1849 -(Edicao de 2002 com chancela do Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa)