segunda-feira, 17 de novembro de 2008

ANGOLA (AIDA VIEGAS)

Um olhar à distância

Outono

Lobito

A hora da chegada

25 de Abril

Desaparecidos

Retornados

Luanda

Angola

ISBN 972-96850-4-5

Vinte e cinco de Abril

Relembro aquela manhã de vinte e cinco de Abril de mil novecentos e setenta e quatro em que nas escolas, nas ruas, nos mercados, nas esplanadas correu de boca em boca a noticia de uma revolução em Lisboa. A revolução dos cravos lhe chamavam. Nos dias seguintes apareceu nos jornais a célebre imagem dum soldado empunhando uma espingarda com um cravo vermelho enfiado no cano, tendo nos braços uma criança.

A alegria contagiou tudo e todos e logo se começou a falar em independência. Como tudo iria ser melhor! Ar­quitectavam-se sonhos de liberdade e progresso. Uma nova era se vislumbrava no amanhecer dum novo dia. Gente de todas as cores parece que bebia o ar da vitória. A Grande Angola iria ser ainda maior. Quanto não iria valer a moeda angolana!... Até já se faziam câmbios. Repórteres de jornais e revistas vieram para a rua fazer inquéritos.

Quem pretendia a independência? perguntavam. Todos, era a resposta de brancos, negros ou mestiços. Quem queria continuar, em Angola? Todos é claro. Todos estavam empenhados no futuro desta terra; os que cá nasceram e os que a tinham adoptado como sua. Apenas uma minoria de militares, alguns quadros e poucos mais tinham intenção de regressar à Metrópole. Na população em geral uma maior onda de fraternidade mais nos irmanava. A independência tornou-se o tema geral das conversas, falava-se dela apaixo­nadamente

A grande Angola iria ser ainda maior depois que a guerra acabasse e a energia de todos fosse canalizada para o progresso daquela grande Terra.

Aqui e além porém encontrava-se alguém que fugia ao tema deixando intrigados os restantes.

O primeiro de Maio ainda foi festejado em plena harmonia. Ouviam-se na rádio canções revolucionárias e uma delas falava em emalar a trouxa e zarpar. Esta foi comentada num grupo de amigos e os comentários cheiraram-nos a esturro deixando-nos apreensivos. Passados dias começaram a correr rumores de desordens, de levantamentos. Mais tarde Luanda foi visitada por um oficial general das forças armadas, que foi recebido em festa, mas que deixou todos ainda mais apreensivos do que estavam.

As medidas que a partir daí começaram a ser tomadas pelo governo central suscitaram a instabilidade, a anarquia no seio das forças armadas e o medo e o mau estar na popu­lação em geral.

Negras nuvens começaram a adensar-se. As notícias da Metrópole eram controversas. Passámos a estar suspensos da rádio e dos jornais. Foi nomeado um novo governador de Angola. Não tardou muito para que os brancos fossem intimados a entregar todas as armas que possuíam. Bandos de negros de aspecto pouco cordial, surgidos não se sabe de onde, começaram a invadir a cidade gritando slogans revolucionários com ar ameaçador.

Soubemos do desembarque de colunas e colunas de soldados e do mais diverso e sofisticado material de guerra, tudo proveniente da Rússia e de Cuba que atravessavam a cidade e desapareciam num abrir e fechar de olhos não se sabe para onde. Os governantes, tendo conhecimento de tudo o que se passava, procediam como se nada de anormal estivesse a acontecer.

A alegria dos primeiros tempos após o vinte e cinco de Abril, cedo começou a desvanecer-se. Afinal muito poucos estavam informados do que se estava a passar. Apenas aqueles que de início fugiam ao tema da independência e os grupos que iam invadindo a cidade tinham uma vaga ideia do que se congeminava nas costas de todos os angolanos. Os militares falavam em segredo. Alguém ouvira aqui ou ali coisas um tanto ou quanto escabrosas sobre o futuro de Angola mas de nada havia certezas. Talvez não fosse verdade pois era demasiado arrepiante para o ser. O boato passou a ser o pão nosso de cada dia. A instabilidade instalou-se definitivamente. Slogans marxistas, tentando expandir ideias comunistas começaram a surgir criando focos de revolução e guerrilha por toda a cidade os quais começaram a alastrar­-se progressivamente a todo o território angolano. Luanda que desde sessenta e dois até então havia sido poupada à guerrilha, via a violência aumentar agora a cada momento. Angola

Desaparecidos

Cedo me apercebi que o que me contara o Albano fora apenas uma gota de água.

O desaparecimento das pessoas era uma constante; e muitas vezes não eram mais encontradas. Os familiares e amigos moviam todas as influências, deitavam mão de todos os meios ao seu alcance para conseguirem descobrir o paradeiro dos desaparecidos e quando pensavam estar no seu encalço, começava uma saga de desespero e esperanças temperada dum enorme sofrimento causado pela incerteza das reacções imprevisíveis dos raptores e do que eles poderiam fazer com quem raptavam: manter as pessoas den­tro da cidade sem a mínima hipótese de comunicação, torná-las alvo de violações sexuais ou outras, de maus tratos físicos e morais, obrigando-as a ingerir dejectos humanos tal como a alguns prisioneiros que foram retidos durante semanas na praça de touros, aparecerem mortas em qualquer lugar como sucedeu no quintal duma vivenda na Vila Alice onde foram encontrados quatro corpos esquartejados e enfiados numa fossa séptica ou darem-lhes sumiço nas densas matas onde os obrigariam a percorrer distâncias inimagináveis expostos a perigos de toda a ordem e por fim sumirem-nos sem deixar rasto, tal como acontecera meses antes ao casal Figueiredo, o Fausto e a Lucinda quando regressavam da sua fazenda de gado em Nova Lisboa.

A última vez que Matilde e João haviam estado juntos com estes amigos numa festa em casa dos Rodrigues, amigos comuns, o Fausto dissera ao marido de Matilde:

— Não estou minimamente preocupado com a situação, todos os pretos que têm trabalhado comigo continuam meus amigos; pago-lhes bem, sempre os respeitei, como tu sabes, e trato-os como se fossem de família.

Na realidade Fausto era uma excelente pessoa, homem bem formado, andara no seminário até tarde e quando saiu, além de continuar um bom católico era pessoa de fino trato e de um humanismo exemplar. Casara tardiamente com uma mulher já madura, a Lucinda, senhora elegante dona de dois bons colégios em Luanda onde gozava de bastante prestígio pelos cargos de directora dos seus estabelecimentos de ensino. Fausto tinha sido durante vários anos prestimoso funcionário bancário e resolvera há tempos atrás, dar um novo rumo à sua vida afastando-se do banco e dedicando-se à criação de gado numa fazenda que comprara perto de Nova Lisboa. Possuía na altura umas largas centenas de cabeças de gado e andava cheio de entusiasmo com a nova aventura.

Faziam, ele e a esposa, a viagem de regresso a Luanda após terem passado uns dias na fazenda quando foram vistos pela última vez no alto de Cambambe, ao volante do seu mercedes, que haviam comprado meses antes. Nesse local, segundo relato de testemunhas oculares foram interpelados por uma patrulha do MPLA. Constou ainda que se faziam acompanhar por um enfermeiro conhecido de Nova Lisboa, conotado como da Unita. Desconhece-se porém se o facto de terem dado esta boleia teve alguma interferência com o seu desaparecimento, tendo no entanto sido ventilada esta hipótese. O certo é que nunca mais foram vistos. Houve po­rém quem visse o seu carro no Norte, conduzido por um militar do MPLA.

A notícia do seu desaparecimento correu veloz entre os amigos e conhecidos e em breve se espalhou por toda a cidade. Foram tomadas todas as providências, usados todos os meios possíveis e imaginários mas em vão, notícias deles nunca mais. Isto acontecera pouco tempo depois do vinte e cinco de Abril.

Um irmão da Lucinda que vivia no continente ao tomar conhecimento do desaparecimento da irmã e do cunhado deslocou-se propositadamente a Angola onde morara vários anos e onde tinha grandes amizades e influências. Aí chegado, deitou mão de todos os recursos, moveu todas as influências para tentar ao menos descobrir o paradeiro dos familiares, mas nada conseguiu. A irmã sofria de grave doença e supostamente faltar-lhe-iam os remédios que necessitava tomar todos os dias, o que mais aumentava a preocupação da família. Quando passados largos meses de buscas, promessas de ajuda e seguimento de pistas, o irmão da Lucinda estava prestes a desistir alguém lhe lembrou que um Padre vedor, antigo professor e amigo do Fausto talvez o pudesse ajudar.

Numa última tentativa pediu ao sacerdote, já idoso, que se deslocasse a Luanda o que o bom homem fez pron­tamente cheio de vontade de lhes ser prestável.

Foi-lhe entregue uma foto dos desaparecidos e um mapa de Angola e o Padre conseguiu localizá-los através do mapa numa zona de densa mata junto de um rio. Disse ainda parecer-lhe que o Fausto se encontrava de boa saúde enquanto a esposa se lhe afigurava extremamente debilitada. De imediato foi mobilizado um helicóptero e outros meios aéreos que ao fim de algumas horas de busca confirmaram ser verídico o que havia sido diagnosticado pelo padre vedor. Eles lá estavam acampados junto ao rio vigiados por soldados, porém, logo que estes se aperceberam de movimentos aéreos estranhos iniciaram com os reféns a marcha por uma picada e embora seguidos por algum tempo, em breve se embrenharam na mata conseguindo despistar quem os seguia e desaparecendo definitivamente sem nunca mais deixarem rasto algum.

Chorados por familiares e amigos, durante muito tempo pairou em todos uma dúvida de esperança; talvez algum dia voltassem, certamente os turras não os iriam matar. Porque haveriam de fazê-lo? Nunca se meteram em política, o Fausto nem às forças armadas pertencera.

Amigo muito chegado de meu marido tendo sido colegas de estudo, o Fausto, desde que nos encontrámos em Luanda, ainda ele estava solteiro, era visita assídua de nossa casa, companheiro de brincadeiras e compincha de nossos filhos a tal ponto da Clarita o chamar de seu namorado.

Sentimos muito a sua perda e ainda hoje nos custa acreditar em tão fatídico destino.

Este facto, mais vinha provar que não era um comportamento racista ou de injustiça praticada contra os negros que os levava a cometer actos de vingança contra os portugueses.

Estes desaparecimentos de pessoas, antes esporádicos, eram agora o pão nosso de cada dia.

Com receio dos raptos e de muitas outras represálias e crimes os brancos iam sendo corridos das áreas altas e mais dispersas da cidade, abandonando suas casas forçados ou por sua livre vontade, ditada pelos acontecimentos funestos e ataques que dia a dia se intensificavam, levando as pessoas visadas a procurar abrigo em casa de conhecidos, amigos, parentes ou mesmo como nós em hotéis na zona baixa da cidade. Como eu havia previsto, estávamos, pouco a pouco, a ser encurralados, cada vez numa área mais restrita junto ao mar exactamente como os caçadores no mato fazem à caça.

Vindos de todas as partes do território aonde se ia estendendo a guerra, não paravam de chegar a Luanda desalojados e deslocados. Porém, aqui chegados, sem alojamento possível, procuravam protecção junto do palácio do governador, instalando-se nos jardins fronteiriços ao mesmo, amontoavam-se no aeroporto ou na zona de protecção do porto marítimo sempre na esperança de conse­guirem de alguma forma sair deste inferno.

A verdade é que os confrontos eram cada vez mais violentos, o respeito pela vida e pelos direitos das pessoas era letra morta. O roubo, o rapto, as violações, a tortura física, a morte e a justiça popular aplicada arbitrariamente, aumentavam a cada dia que passava. Formaram-se tribunais populares que faziam julgamentos ad hoc.

Os movimentos de libertação travavam entre si acusações mútuas, os acordos não se cumpriam. O MPLA aniquilara quase todas as delegações da FNLA.

No seio das tropas portuguesas sentia-se que se instalara a confusão queixando-se muitas vezes os militares de não saberem a quem obedecer pois em muitas ocasiões recebiam ordens controversas. Ao mesmo tempo muitos se queixavam de lhes estarem a fazer uma autêntica lavagem ao cérebro tentando incutir-lhes ideias marxistas que eles rejeitavam. As pessoas ao sentirem-se atacadas ou em risco pediam auxílio às nossas tropas ou à polícia mas nem uns nem outros conseguiam valer a toda a gente; respondiam sistematicamente que iriam fazer os possíveis, mas nunca chegaremos a saber o que lhes era possível fazer numa situação destas. Certo é que na maioria dos casos o auxílio não chegava. A passividade que, diz-se, lhes era ordenada, de forma alguma podia ser entendida pelos civis em perigo.

A guerra fria que aliás só em sessenta e um se tinha feito sentir em Luanda transformara-se agora em guerra quente e sangrenta acompanhada de todos os horrores que uma guerra traz consigo.

A escolha de uma fuga era cada dia menor. Por terra, ninguém poderia sair de Luanda visto as saídas estarem bloqueadas. Por outro lado ninguém pretendia fazê-lo já que as outras cidades ainda ofereciam menor segurança. As saídas eram pois apenas duas. Uma o mar, com todos os perigos que ele encerra, sobretudo quando enfrentados sem um mínimo de recursos; muitos se fizeram ao mar em traineiras e noutras pequenas embarcações. A outra saída possível era o aeroporto mas este, só para os mais felizardos já que muita gente não possuía meios monetários suficientes para custear o transporte aéreo de toda a família.

De início a maioria das pessoas pretendia um voo da TAP para Lisboa, porém fazia tempo que qualquer destino - Brasil, África do Sul, ou qualquer cidade europeia - servia para sair deste inferno. Não havia avião que levantasse voo de Luanda que não levasse a lotação esgotada. A África do Sul desde inicio ofereceu os lugares vagos nos seus aviões, que escalassem Luanda, para o transporte de refugiados, mas por incrível que pareça o Governo Português começou por não aceitar tal oferta.

Se não fosse mais tarde a ajuda de praticamente todas as grandes companhias internacionais de aviação, que ao aproximar-se a data marcada para a independência colocaram à disposição dos refugidos portugueses, os seus aviões para o seu transporte gratuito para Portugal, e, estou crente forte chacina se teria abatido sobre os portugueses indefesos que ajudaram a levantar, desenvolver e engrandecer esta terra. Muitos aqui teriam perecido, tudo se conjugava para que assim acontecesse.

Havia pouco tempo, ouvíramos em Portugal um dos vultos mais proeminentes da revolução, um dos grandes mentores da entrega apressada das nossas ex-colónias, um dos maiores responsáveis da desgraça de tanto ser humano, desgraça essa que se prolonga já por vinte e muitos anos e Deus sabe por quanto tempo mais... esse mentor da descolonização dizia num acalorado discurso político: «os retornados do ultramar estão a ser para a nação um grave problema, nós nunca esperámos este regresso em massa, pensámos que alguns viriam mas nunca toda esta avalanche e não estávamos minimamente preparados para os receber».

Com esta invasão que vem por aí é que vai ser o bom e o bonito!

Se os políticos arquitectaram tudo para que os por­tugueses não tivessem hipótese de permanecer por mais tempo em Angola com um mínimo de condições e de segurança, digam-me então qual era o destino a que toda a população europeia residente em Angola estava votada pelos governantes?

Se não fosse a ponte aérea posta à disposição dos portugueses residentes em Angola por diversos países nunca teria sido possível saírem daquela terra tantos milhares de pessoas antes da independência, e, permanecendo lá, só poderiam ter vindo a ser carne para canhão.

Durante muitos anos brancos e negros tinham vivido sem conflitos, em harmonia. As relações degradaram-se a partir do momento em que começaram a lavrar, entre as sociedades negras, as ideias de que os portugueses estavam ali a mais, que tudo o que possuíam deveria passar de imediato a pertencer aos negros, que os brancos naquela terra não eram um factor de desenvolvimento mas de atrofia e usurpação, que a independência se deveria fazer apenas com negros, os quais deveriam tomar exclusivamente e de imediato em suas mãos os destinos de Angola. Apoiada a independência por povos “amigos” como a Rússia e Cuba e incentivada pelo governo português, estas ideias rápido proliferaram dando origem a que os brancos começassem a ser escorraçados. A finalidade era banir-nos daquelas paragens não nos restando outra alternativa senão abandonar Angola.

Em todas as circunstâncias a população negra era incentivada contra o branco em geral e o português em particular facto que forçou definitivamente a nossa partida.

Retornados

Há momentos na vida em que tudo se depara negro e a esperança parece irremediavelmente perdida. Se em Angola não poderia continuar, por sua vez em Portugal, quem regressava de África era recebido do pior modo possível; com hostilidade, desdém e mesmo agressividade.

Analisando um pouco a situação logo se chegava à conclusão do motivo pelo qual a maioria dos que agora re­gressavam das ex-colónias, tinham ido lá parar. “Rapidamente e em força para Angola” foi a voz de comando do primeiro ministro português em mil novecentos e sessenta e um, quando ocorreram os fatídicos acontecimentos perpetrados no norte de Angola e extensivos à capital da província. Foi porém demasiado tardia esta ordem.

Se em lugar de ser dificultada a ida dos portugueses do continente para o ultramar como foi durante muitos anos com processos demorados, chegando ao cúmulo de ser necessária uma carta de chamada enviada por um familiar que lá residisse há um certo tempo para que outro membro da família se lhe pudesse juntar, tivessem sido criadas condições de incentivo à ida e fixação de muitos mais portu­gueses para aquelas paragens, talvez as coisas tivessem sucedido dum outro modo. A política ultramarina portuguesa pecou muito por omissão e falta de actualização.

Apesar de tudo a maior parte dos jovens militares que partiram convocados pelo governo da nação seguiu, uns mais receosos que outros, alguns mesmo com uma certa revolta mas a maioria porém, com a noção de que iriam defender uma parte integrante do território nacional, em auxílio dos compatriotas ali nascidos ou radicados cuja integridade física estava a ser ameaçada, enfim, cumprir um dever patriótico ao qual ninguém se deveria eximir. A noção de patriotismo e do cumprimento do dever acompanhou-os e fê-los lutar com valentia no momento da refrega, porém, o conhecimento daquele povo e daquelas terras aos quais, sem dar por isso, se vieram a afeiçoar e a estimar enfeitiçaram muitos deles a tal ponto de trocarem o seu torrão natal por aquelas paragens africanas, elegendo-as, para ali se radicarem e alguns até constituírem família.

Enquanto, até mil novecentos e sessenta e um, grande parte dos colonos que partiram para o ultramar eram gente ligada à terra, que dela viviam e nela trabalhavam, a partir desta data já não era bem assim; muitas pessoas formadas com cursos médios e superiores, quadros qualificados das mais diversas áreas, radicaram-se nos territórios portugueses ultramarinos, facto que deu origem a uma nova maneira de estar, novas formas de vida e um novo desenvolvimento sem precedentes na história daqueles povos.

Matilde chegou a Angola, chamada por seu marido, um dos muitos militares que se deixou enfeitiçar irremediavelmente por África logo após a sua convocatória para a guerra colonial, no ano de mil novecentos e sessenta e um. Ela partiu da metrópole, curiosamente no último voo feito pela TAP num dos antigos aviões de quatro motores a hélice com escala em Bissau, capital da Guiné portuguesa.

Nessa época era costume cantar-se, em todas as escolas de Angola antes do início das aulas pela manhã, o hino “Angola é Nossa”, muito divulgado através de todas as estações de rádio. Angola é nossa gritarei / é carne é sangue da nossa grei / para libertar, para defender, / para lutar até morrer...

Na história de Portugal ensinava-se que Angola bem como todas as outras províncias ultramarinas constituíam parte integrante do grande império português que nos fora legado pelos nossos corajosos e gloriosos antepassados que deram novos mundos ao mundo através dos descobrimentos e eram senhores de aquém e além mar.

A noção de patriotismo do cidadão português, pesava muito na formação dos jovens sendo, como é natural, mais arreigada nos militares, porém, o facto destes terem partido em defesa de um bem comum, começou a esbater-se ao longo dos anos bem como a ligação directa que estas circunstâncias tiveram com a deslocação maciça de muitas de suas famílias para o ultramar.

Os valores da nossa sociedade, com a revolução de vinte e cinco de Abril, estavam a mudar vertiginosamente e nem todos para melhor.

A dificuldade em transferir dinheiro de Angola para o Continente constituiu sempre um obstáculo difícil de contornar à maioria das pessoas que optaram fazer de Angola a sua terra.

A falta de liberdade na circulação de bens entre o ultra­mar e o continente embora fosse justificada, até determinada altura, com a intenção de reter o capital em solo africano para que aí fosse investido, a partir do momento em que se pensou na independência das províncias ultramarinas deveria ter sido de imediato modificada a fim de garantir os direitos dos cidadãos portugueses que lá residiam. Tal medida não tendo sido tomada, originou uma verdadeira catástrofe para quem foi forçado a abandonar África.

Nesta altura dos acontecimentos, dadas as circuns­tâncias das mudanças políticas ocorridas em Portugal, é de todo incompreensível que a transferência de capitais não tenha sido permitida. É intolerável que as pessoas que voluntária ou involuntariamente quisessem abandonar Angola, Moçambique, Guiné ou outra qualquer província não pudessem trazer livremente os seus haveres; dinheiro, carros ou quaisquer outros bens materiais. Prédios, terrenos urbanos ou rústicos, fazendas, fábricas, estabelecimentos, imóveis de qualquer índole, estavam sentenciados a ficar; é mais que evidente que os seus possuidores todos os pretendiam vender mas, em face da situação, não havia quem se interessasse pela sua aquisição.

A maior parte dos bens pertencentes aos cidadãos portugueses foi pura e simplesmente abandonada pelo facto de seus donos não terem outra opção. Chegou-se ao cúmulo de se trocarem carros quase novos por simples volumes de maços de tabaco ou por pequenas porções de determinados alimentos, entre eles o pão, que raramente se encontrava à venda.

Houve quem trocasse fazendas e casas por títulos de hipotéticas transferências bancárias para o continente as quais nunca chegaram às mãos dos seus destinatários. O depósito no banco nunca se concretizou e o paradeiro do burlão na maioria dos casos era desconhecido. Os lesados nunca pode­riam reclamar sob pena de incorrerem em crime punido por lei, sendo acusados de transferência ilegal e fraude, se persistissem na queixa.

No mercado negro os escudos angolanos que em tempos, em momentos de alta, chegaram a trocar-se por escudos portugueses na base dos trinta por cento, o que era escandaloso, estavam agora no mesmo mercado nos setenta, oitenta por cento e nem mesmo assim era fácil conseguir a troca. Para além de todas estas vicissitudes, terem de entregar mil e oitocentos escudos angolanos para receberem mil portugueses, não era fácil de aceitar a pessoas que viviam do seu trabalho.

O facto do Governo Português não acautelar ou, pior ainda, não autorizar a transferência dos bens dos portugueses na altura da descolonização foi uma das maiores injustiças, praticadas por quem mandava e a desgraça de tanta gente, que após longos anos de trabalho, caiu sem culpa nem pecado na mais odiosa das misérias, na pobreza extrema, no desespero, muitos na loucura e até na morte. Foi a situação mais injusta e catastrófica que imaginar se possa!

Dum momento para o outro perderem todos os seus haveres sem nada terem contribuído para essa perda. Serem forçados a abandonar o fruto do trabalho árduo no decorrei de longos anos, de canseiras, vigílias, economias feitas à custa de grandes sacrifícios. Deixarem empresas, fazendas, prédios, terrenos, carros, dinheiro, a própria casa com seu recheio, objectos pessoais, roupas, enfim... tudo, (houve pessoas que, se quiseram salvar a vida, regressaram apenas a roupa que traziam vestida).

Verem-se despojados de quanto haviam adquirido, custa muito a aceitar e, é impossível explicar por palavras a quem o não viveu.

Porém a desventura não se ficou pelo roubo de que foram vítimas.

Para quem espoliado de África, ao chegar a Portugal se encontrava sem nada, sem trabalho e sem dinheiro para fazer face às despesas mínimas, com filhos, dois, três, quatro, que necessitavam de alimentação, casa, roupa, cuidados de saúde, de educação e os demais inerentes à vida. Bater de porta em porta à procura de trabalho, de alojamento e ver as portas fecharem-se-lhe sistematicamente. Tentar junto das instâncias oficiais encontrar soluções para minimizar as causas da tragédia que sobre si se abatera e não conseguir resposta. Ver passarem-se dias, semanas, meses sem vislum­brar a mais ténue luz ao fundo do túnel era duro e de uma imensa crueldade.

O calvário destas gentes no entanto, não se deteve por aqui, continuou no acolhimento de que foram alvo, nos títulos de honra com que foram rotulados: fascistas, colonizadores, desalojados, retornados. Retornados foi ponto assente. No fim de algum tempo ficariam os famigerados retornados.

Foi com muita tristeza e enorme desespero que constataram a hostilidade com que os viam chegar em ava­lanche cada vez mais densa à medida que se ia aproximando a anunciada independência, melhor diria, a desgraça. Desgraça dos retornados, despojados de todos os seus haveres e reduzidos à pobreza, desgraça e condenação definitiva das gentes de Angola.

Para maior desgosto dos já destroçados retornados, muitas pessoas da nossa sociedade achando-se na posse do discernimento, da sabedoria, da justiça nem sequer se davam ao trabalho de camuflar os seus sentimentos de desagrado, passando muitas vezes de hostis a agressoras quer em palavras quer amiúde em actos rancorosos praticados contra irmãos, parentes, amigos, conterrâneos conhecidos ou desconhecidos que despojados de tudo regressavam de África.

Estes ouviam com frequência dizerem-lhes que vinham sem nada porque queriam, ninguém os forçara a ficar por lá. Fora a ganância que os lá retivera. Porque não continuavam lá, se era uma terra tão boa? Claro, porque os pretos os corriam porque estava na cara que os maltratavam, os exploravam, os tinham subjugados na miséria. Toda a gente sabia que fulano, sicrano e beltrano chicoteava os pretos, os roubava, os obrigava a trabalhar como escravos...

Queixavam-se de quê? Só tinham o que mereciam. Aquilo era deles, que queriam os brancos trazer? A África é dos pretos, os portugueses é que estavam lá a mais.

Ainda por cima agora queriam vir tirar o lugar aos que cá estavam, que nunca de cá saíram, porque não eram ambiciosos como eles. Quiseram tudo, tudo haviam perdido. Agora nada tinham que se lastimar.

Chegavam ao cúmulo de lhes dizerem que o que haviam ganhado lá tinha sido à custa dos pretos, portanto era justo que lá ficasse.

Agora virem para cá e querem que o estado (eles, que no fim de contas eram eles) os sustentassem à boa vida! Isso era o que mais faltava! Lá tinham vivido à custa dos pretos, cá queriam viver à custa dos brancos.

Cambada de usurpadores e parasitas, era o que eles eram, acrescentavam quando a discussão subia de tom.

Este clima de acolhimento que nunca esperaram encon­trar, deixava os retornados tristes e exasperados. No entanto, apesar de todo o infortúnio por que estavam a passar, alguns dos que chegavam, mais desprendidos ou com um espírito de humor mais apurado, constituindo uma honrosa excepção, ainda tinham ânimo que, por vezes, lhes permitia brincar com a situação.

Foi o caso duma interessante conversa que Matilde ouviu uma tarde ao entrar num pequeno bar duma vila do centro do país onde, como é habitual, um grupo de homens, costumava juntar-se em amena cavaqueira. No momento a conversa estava animada. Os temas, como as cerejas, iam-se encadeando uns nos outros passando, inexoravelmente na altura, pelos retornados.

Uns queixavam-se disto, outros acusavam-nos daquilo, sendo, porém, todos unânimes na ideia de que os regressados de África estavam a constituir uma praga, tal era o número dos que afluíam dia após dia ao Velho Continente.

— Na realidade, disse um dos presentes à laia de con­clusão, daqui a pouco, não se vê mais nada nesta terra senão retornados e cães!

— É verdade, é verdade...

— Você é que tem razão - aplaudiram quase em uníssono todos os presentes.

De repente, alguém reflectiu e, uma voz se levantou do meio do grupo:

— O senhor por acaso não é retornado? Ou é?

— Claro que sou, homem!

— Eu também, exclamou quem falara e, ambos desa­taram a rir com vontade perante o espanto dos demais que de repente não se haviam apercebido onde estava a piada.

Mas estes momentos eram raros. O discurso normal era o que vínhamos descrevendo.

Os retornados eram cada vez mais, queriam era vir tirar os lugares, os postos de trabalho, passar à frente, dos que cá estavam mas isso não iria acontecer porque eles não deixariam. Que pouca vergonha, andaram lá a ganhar muito mais do que os que cá estavam, a trabalhar muito menos, e o tempo a contar a dobrar!

Era com ditos desta estirpe que os mimoseavam.

Parece impossível, mas estas ideias andavam na cabeça de colegas, amigos e até familiares e eram apresentadas sem a menor deferência.

Tentar chamar à razão essas pessoas, que se insurgiam contra quem forçado regressava à sua terra, argumentando de mil maneiras, era tarefa vã. Dizer-lhes que afinal com a ida de muitas pessoas para o ultramar todos haviam ganhado, que as terras africanas foram alvo de um desenvolvimento sem precedentes na história, que as relações entre brancos e negros eram boas, que isso de tratar os negros como escravos, chicoteá-los, acontecera em tempos muito remotos e não na nossa geração (tempos nos quais os próprios brancos eram assim tratados, por outros brancos). Lembrar-lhes quantas mulheres na actualidade recebiam aqui maus tratos, quantas eram exploradas no seu trabalho, já não falando na prática corrente da exploração do trabalho das crianças, dos des­protegidos, dos humildes... de nada valia.

Pareciam desconhecer ou pretenderem ignorar que todas estas questões e procedimentos, embora incorrectos, eram fruto da época e aceites como normais pela sociedade então vigente. Em Angola não acontecera mais que o reflexo do que se passara cá e por esse mundo além, apenas com uma pequena mas significativa diferença; entre os portu­gueses e os nativos aconteceu o que não aconteceu com nenhum outro povo colonizador, a mestiçagem seguida ou antecedida de muitos casamentos entre brancos e negros; não era por acaso que se dizia que, Deus criara os brancos e os negros e os portugueses os mestiços.

Tentar afirmar que os portugueses na generalidade eram tolerantes amigos e respeitavam os africanos tal como os naturais do continente, pagando-lhes bem se trabalhavam bem, era tempo perdido pois tais argumentos pura e simplesmente não lhes interessavam. Era ponto assente:

quem não tinha ido ou ficado em África era honesto, quem lá permanecera era explorador.

No seu entender existiriam algumas excepções... talvez! Davam-lhes por vezes o beneficio da dúvida.

Tentar fazer com que reflectissem, lembrando-lhes que quase toda aquela gente havida perdido tudo sem culpa, pedindo-lhes que se colocassem no lugar de quem voltava de mãos vazias, tal como se um fogo ou uma catástrofe na­tural, um terramoto por exemplo, lhes destruísse todo o seu património, deixando-os dum momento para o outro sem nada, era tempo perdido pois recusavam-se a estabelecer semelhante comparação, por inverosímil.

Caricato seria perguntar-lhes se os emigrantes portugueses, na França, enriqueceram à custa de explorarem os franceses, os da Venezuela, os venezuelanos.., e se os negros não deveriam permanecer na Europa porque não é a sua terra, mas os retornados nunca poderiam colocar tais questões porque jamais pensariam desse modo.

Só passados muitos anos, grande parte dos membros da nossa sociedade viria a admitir que os retornados, na sua maioria, eram gente honesta e empreendedora. Muitos deles conseguiram refazer a sua vida em tempo recorde e, de uma forma exemplar, o que deixou admirados todos os que tiveram conhecimento do modo, talvez único, como se ajudaram mutuamente. O que por certo talvez nunca conseguirão avaliar é o sofrimento pelo qual passaram durante todo esse período de recuperação e as feridas que apesar de todos os esforços, não conseguiram jamais sanar.

Deveria, no mínimo, ter ocorrido, a seu tempo um processo de indemnização aos lesados, por parte do Governo Português, porém, até ao momento actual, por estranho e incrível que pareça, tal facto ainda não aconteceu, a justiça ainda não foi reposta.

A realidade do mau acolhimento de que estavam a ser vítimas todos os que retornavam a Portugal já Matilde a conhecia penosamente martelando-lhe o cérebro sem parar, e quanto doía! Porém era preferível enfrentar a hostilidade na sua terra, a permanecer em Angola onde a vida se havia transformado num enorme pesadelo.

Afinal ela era uma optimista nata e não perdera a es­perança de que, após ter a família reunida, iria conseguir contornar os obstáculos e vencer as dificuldades que se lhe deparassem, por maiores que fossem.

A hora da chegada

África tem em si uma atracção fatal e um feitiço que prende irresistivelmente quem a conhece. O seu clima, as suas águas quentes, os seus espaços infindos; savanas, estepes, suas florestas virgens com densas matas, a suprema riqueza da sua fauna e flora, a sua vida selvagem, os desertos, enfim um sem número de aspectos fazem daquelas terras se não o paraíso, pelo menos uma prova de que ele existe. Quem algum dia viveu naquelas paragens passa forçosamente a ver a vida com outros olhos, os seus horizontes jamais serão comportáveis em espaços exíguos, a sua mente estará sempre aberta a grandes dimensões.

Não admira que durante todos aqueles anos, apelidados de guerra colonial, muitos dos soldados que para África foram mobilizados, não resolvessem apenas ficar, mas chamassem para sua companhia as esposas, os filhos, os pais, os amigos.

Todos os dias chegavam a Angola inúmeras pessoas vindas do continente para se juntarem aos familiares e amigos que as aguardavam ansiosamente.

Nos anos sessenta a chegada de um contingente de tropas era motivo de festa e grande alegria. A população de Luanda tirava o dia para aguardar a saída dos militares do porto; esperavam-nos ao longo de toda a Avenida Marginal e aí os recebiam calorosamente. Negros e brancos aca­rinhavam-nos à sua passagem com palmas, sorrisos, abraços, beijos e flores.

Com o passar dos anos estes acontecimentos tomaram-se rotineiros. Os batalhões e as companhias passaram a chegar com regularidade e a maior parte por via aérea, razão pela qual já não se fazia o desfile das tropas à chegada.

Mas não eram só os militares que diariamente chega­vam a Angola, passaram a chegar os familiares, os amigos, os vizinhos e era sempre com grande contentamento que se via atracar um dos majestosos paquetes da frota portuguesa: o Infante D. Henrique, o Príncipe Perfeito, o Pátria, o Vera Cruz... e embora já não acontecesse como relatam os mais antigos que no dia de S. Barco ninguém trabalhava, se entre os passageiros vinha um amigo, um parente, um conhecido deixava-se tudo para ir esperá-lo, desejar-lhe as boas vindas e, quiçá, saber notícias da própria família que estava na Metrópole.

Jaime, um conterrâneo e compadre do João, um pouco mais velho do que ele, casara e tinha oito filhos, sendo o sexto um rapaz chamado Gilberto que contava agora treze anos, e era afilhado do João.

O curto vencimento que o Jaime auferia numa fábrica onde trabalhava em Aveiro, há muito tempo que era escasso para sustentar a família. Ele, ao saber que o compadre casara e mandara ir a esposa para junto de si, lembrou-se de lhe pedir para lhe arranjar emprego em Luanda. Viera já lá iam quatro anos e achou que era tempo de mandar chamar a esposa e os filhos.

Chegaram a Luanda numa manhã de Março. Atracado o barco, o Pátria, algo de anormal acontecia no porto que estava a atrasar o desembarque dos passageiros e bagagens. Dentro do navio, os bagageiros, não havia maneira de aparecerem. Zulmira, a esposa do Jaime, que esperara todos aqueles anos, mais os infindáveis dez dias da viagem não conseguiu aguentar mais a demora e decidida como sempre o foram as mulheres portuguesas, tratou de pôr à cabeça um saco onde transportava alguns haveres, chamou os filhos pegando pela mão do mais novo e com os outros em fila atrás de si, toca de descer as escadas, sendo a primeira passageira a pôr pé em terra.

Na semana seguinte, ela com os filhos eram capa da revista Notícias, que relatava um problema havido entre o pessoal de estiva e ilustrava o acontecimento com a foto da Zulmira e seus filhos.

Na fotografia via-se a Zulmira toda risonha de saco à cabeça descendo as escadas do navio acompanhada dos filhos precisamente com esta legenda: «Esta mulher decidida não precisou de bagageiros, deitou o saco à cabeça e ala que se faz tarde que o marido estava à espera».

Foi Matilde que ao folhear a revista “Notícias de Angola,” se deparou com a foto e ainda hoje guarda a revista como recordação.

Iam bem longe esses alegres dias da chegada. Sem saber como, estávamos já na dolorosa hora da partida. Também a família do Jaime e da Zulmira aguardavam angustiados o momento de deixar Luanda.

— Tanta esperança e tanta canseira para quê? Para agora termos de partir sem nada e desesperados. Comentou Matilde entristecida.

De repente pareceu-lhe ouvir marchar e disse para o marido:

Escuta, não ouves marchar?

— Marchar? Estás enganada. Quem é que queres que ande por aí a marchar?

— Os pioneiros, devem ser os pioneiros. E dizendo isto, pousou o uísque que estava a tomar e foi espreitar a Avenida.

— Vem cá, aonde vais com essa pressa toda? Não sabes que os pioneiros que nos habituámos a ver já não existem?

Agora...

Na realidade, na Avenida nada de anormal se passava, apenas o tráfego igual aos dias anteriores.

— Foi imaginação minha, pareceu-me mesmo ouvir marchar... disse Matilde, voltando ao seu uísque e sorvendo um trago, tentando assim desfazer o nó que de repente lhe apertava a garganta, nem a deixando ouvir o que João começara a dizer-lhe.

Este, aproveitando a sua distracção, com habilidade mudou de assunto, não prosseguindo a explicação que parecia ter iniciado. Era seu propósito mantê-la afastada da realidade o máximo tempo possível.

Só alguns dias mais tarde Matilde viria a tomar conhecimento que os pioneiros, que imaginara ouvir e que outrora costumavam marchar nas ruas da cidade, se haviam transformado em bandos de guerrilheiros que atacavam e perpetravam ocupações, roubos, mortes e crimes de toda a índole e entre os quais as crianças já pouco ou nada significavam.

(...)

Um Olhar à Distância

A distância no espaço e no tempo apaga a dor e a revolta, clarifica o discernimento, estabiliza, e deixa que floresçam novas esperanças no nosso olhar que pode ser selectivo ou abrangente, transmitir raiva ou ternura, inconformismo ou resignação ... Feitiço, lenda, realidade, pesadelo e ... saudade!... Tudo é Angola.

A Angola do verbo abandonar conjugado a doer tem profundas cicatrizes cujo testemunho, “a geração dos retornados,” não poderia deixar de legar...

Dado o poder que nos assiste de nos indignarmos, e pretendendo não tanto ajuizar sobre a gestão da culpa nem tão pouco analisar questões políticas mas antes relatar um pouco do drama vivido pelos civis que, estando em Angola, foram espoliados de seus haveres, com risco de suas próprias vidas, procurámos retratar a tragédia e o desespero vividos por tantas famílias reduzidas à mais ínfima miséria, tantos seres humanos destroçados psicologicamente, corridos da terra que ajudaram a defender e a progredir e recebidos com tão grande hostilidade na terra que os viu nascer.

Patenteando a sensação de que Angola, tal como a lendária Atlântida, se sumiu, não da crosta terrestre mas sim do rol das preocupações do mundo, questionamos a razão pela qual os Angolanos continuam a ser trucidados por granadas que semearam na sua terra em lugar de pão, massacrados, desenraizados de suas casas, desmembradas as suas famílias, ou mortos do modo mais ignóbil, à fome, numa terra onde tudo cresce quase espontaneamente, através de uma guerra da qual não se vislumbra o fim.

A descolonização portuguesa ultrapassou tudo o que se poderia imaginar, os acontecimentos sucederam-se de modo tão imprevisível que mais pareciam ficção.

Na nossa narração a imaginação insistiu tanto que acabou por entrar neste ou naquele espaço mais ou menos ficcionado; mas eis que sentimos haver saldado uma dívida que tínhamos para com aqueles que, não tendo vivido estes tempos em Angola, os julgavam sem terem ouvido um testemunho. Poderemos de agora em diante reiniciar um velho hábito de viver a saborear a vida, pese-nos embora a certeza de que há guerras que não mais acabam dentro de nós...


sábado, 15 de novembro de 2008

"DO TEJO GRANDIOSO AO ZAIRE PODEROSO" Poema épico

foto: © Blog da Rua Nove

CANTO I - "DO TEJO GRANDIOSO AO ZAIRE PODEROSO" -(65 estâncias)-

1)-
Não pretendo cantar lutas gloriosas
Desses antigos reis e outros senhores,
Já gabadas em versos e altas prosas
Por alguns de mais rápidos louvores,
Mas sim aquelas duras,perigosas,
As mais negras, sem fim e sem favores,
Desses aventureiros de espantar
Que venceram as terras e o alto mar !

2)-
Olhos ténues do céu azul e distante
Que sois luzes de estranhos universos,
Eis,bem erguida, minha lira sonante
Pra relatar por estes pobres versos
Quanto labotou o luso navegante
Nestes ocidentais rincões imersos,
Bem longe, nas lonjuras tão profanas
Das seculares costas africanas !

3)-
Apenas pra os de triunfos merecidos
E que, de pó,seus feitos silenciosos
Estavam já cobertos ou sumidos
P'la pata de inimigos temerosos,
A eles, de tantas lutas esquecidos,
Louvo a Calíope, para que animosos
Vibrem os seus, em som alto e mais forte
Contrariando os caprichos d'outra sorte!
..............................................

28)-
"Não pudera ser maior essa alegria
Para quem sem maldade oferecia tanto :
- Manicongo,com certa fidalguia
Tomava da sua terra,doce encanto,
Pelos peitos de RUI assim a escorria,
Fazendo-o aos seus,sem qualquer manto,
Graça de que só eram merecedores
Os que se mostravam veros senhores.

29)-
Largos dias de alegria reinou na corte
Do alto senhor do Congo agradecido,
Sendo recompensado em rara sorte
Pelas mercês que ao rei tinha pedido.
E,antes que lhe pudesse dar a morte
Ou receoso mas lutas ser vencido,
Quis logo tomar a hóstea consagrada
Que de tal era a força já mostrada !

30)-
E ainda não estando pronta a lusa igreja
Nos reais paços a gente se reunia;
Com grada devoção e mais singeleza
O braço da amizade se estendia.
Cada um teve seu título e nobreza,
Coisa que até ali nunca se fazia,
E,usando um modo fácil,certo ardil,
Viriato antigo obtinha o metal vil.

31)-
Todavia os laços santos pior corriam
Porque os sobados nunca aceitavam
Dispensar as mulheres que possuiam
E que em certos aspectos ajudavam;
Os da nova Ordem tal cousa puniam
Pelo que muitos logo os criticavam,
Em gestos demonstrando o pensamento
Que menos seguro era o fingimento.

...............................................
63)-
Mas ainda abaixo tinha ele chegado
Passando por um golfo, rumou à terra,
Onde o último padrão foi colocado,
Que já bastante pelos seus fizera !
P'ra frente nem podia ter continuado
Arriscando naquela Parda Serra,
Ponto extremo,onde ficou constrangido
Por não ir mais além quanto havia querido.

64)-
Vindo de volta, por seu grande feito,
Cansado estava o duro lusitano;
Em Yelala parou mais satisfeito
Visto que para a armada não havia dano;
E numas altas pedras,junto ao leito
Uns nomes lavrara em mais do que um plano :
- Dos mortos, com respeito os escrevia,
Em memórias que nunca se esquecia!

65)-
Estavam alcançados os objectivos
Que um Infante por Sagres estudara
Num alto,sobre o mar,lendo os motivos
E o que o horizonte distante ocultava :
- Outros Mundos e Povos primitivos
Que mais por diante tanto procurara,
Estando longe o sonho principal
De aumentar tanta glória a Portugal !

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-- ANOTAÇÕES: - Estância nº 1) - Referência ás inúmeras obras de historiadores e poetas,em especial "Os Lusíadas", de Luis Vaz de Camões(1524/1580)--
- 2) - Invocação a Calíope,musa da poesia épica e da eloquência. --

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CANTO II - NO REINO DO CONGO - (171 estências) -

1) -
Os negros barulhentos, todos ledos
Na festa com que os lusos recebiam,
Por vencerem as lendas e alguns medos
Das tantas terras que, vendo, possuíam,
Entre si, com recato e alguns segredos,
Mais dobrados cuidados lhes faziam,
Sem esconderem seus tratos e modos
Dum apreço e respeito dados a todos.

2) -
Em tão gratas mercês deles ficavam
Que deixar sair ninguém desejaria,
Pretendendo aprender quanto ensinavam
Do seu muito saber, fé e valentia.
Por diversos locais tambores soavam
Convidando ao batuque a negraria,
Cada qual em seus trajos mui variados
E aos outros parecendo desusados.

3) -
Corpos cobertos só das baixas partes
Com troncos nús e braços musculosos,
Outros fêmeos, gentis, de finas artes
Dançavam e saltavam mui graciosos,
Fazendo certas coisas sem desastres
Com pulos, gestos, gritos estrondosos;
O visitante espantado ficava
E,de certo modo, isso não admirava!
........................................

56)-
Com uns mestres de letras embarcavam
Muitos outros artífices variados,
Que da usança de cunhos ensinavam
Cos símbolos antigos respeitados.
Uns dos profissionais que lhes ofertavam
Para erguer uma igreja eram mandados,
Guardando-se os tesouros escolares,
Conforme seu desejo, em bons lugares.

57)-
Afonso melhor casa recebia
Para gozar saúde e seu sossego,
Folgando dos trabalhos que fazia
Entr'uns malvados sem qualquer apego;
E pelo bem das normas olharia
Sem os deixar sair do natural rego,
Não havendo mais dinheiros emprestados
A quem pedia pra não serem cobrados.

58)-
Voltavam os navios logo refeitos
Compensando despesas antes gastas :
- Ia o alvo marfim e tantos negros peitos
Com outras coisas,quais as mais nefastas !
Muitos estudos foram assim feitos
Em todas terras já por si mais bastas
Como outras sempre tanto apetecidas,
Supostas dum metal bem fornecidas.

59)-
Por Simão,el-rei mandara esclarecer
Dom Afonso bastante agradecido,
Que devia uma embaixada promover
Para em Roma ser mui bem acolhido.
Seu filho as bençãos iria receber
Que ao Sumo aconselhado tinha sido,
Porque lhe merecia tal distinção
Quem nas obras punha bom coração.

..............................................

120)-
Mas destas coisas tanto havia sofrido
Que sua vida ir mais longe se negara
E com ele o povo andava perdido
Com o quase nada que se aproveitara;
Leis do Reino e da Fé havia cumprido
Co ardor e sofrimento que aceitara,
Sem justa recompensa receber
P'lo respeito que havia de merecer.

121)-
Não foi mais feliz o outro sucessor
Pois tudo cada vez mais se agravava,
Perante a sua fraqueza e o seu temor
Contra ele uma revolta rebentava.
Soaram gritos da luta com ardor
Que aos iberos e aliados ppreocupava;
Cruzaram-se as zagaias co'a gritaria
Que das turbas ferozes se fazia.

122)-
Em fugida, ganhando na escalada,
Vencedores em cima de vencidos,
Nada poupavam nessa debandada
Em que se safavam alguns atordoídos.
Nem rei,nem sua família foi poupada
Bem como os que lhes eram mais queridos,
Degolados p'las gentes esquecidas
De quantos lhes sanaram as feridas !

123)-
Seguiu-se outro incapaz nessa chefia
Desleixado dos costumes sagrados
Pra que com tanto custo e garantia
Alguns lusos cristãos foram mandados.
Na política e fé não houve valia
Surgindo lutas de todos lados;
Com prejuízos para a população
Ficavam os problemas sem solução.

............................................

169)-
Em breve chegam a um entendimento
Cada qual protegendo suas fronteiras,
Não deixando que um qualquer elemento
Lhes mostrasse escondidas maroteiras,
Ou tivessem negócio em pensamento
Levando as fêmeas pr'as suas esteiras;
E pra em melhor descanso sua alma estar
Uns santos capuchinhos deixava entrar.

170)-
Ginga chega porém a novo pacto
Com o luso governo agradecido,
Ficando Dom Garcia assim estupefacto
E sem saber em que andava metido.
Seu sucessor causara forte impacto
Não tendo a dita trégua compreendido;
Bem contrariado e rápido avançando
A desafiar Sequeira e seu comando.

171)-
Em Ambuíla, a memória não esqueça,
Tentara cada qual bom resultado,
Mas o Congo perde sua cabeça
Logo andando cada um para seu lado!
Antes que nela o real sangue arrefeça
Com honra esse troféu era sepultado.
Uns lusos de ambas partes ali havia
Mas o Reino depressa sucumbia !
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CANTO III - NO REINO DE ANGOLA - (108 estâncias) -

1) -
Do Congo ao Cabo o Reino estava
Em cada dia alargando a sua fronteira,
Engolindo outros sobados, andava
Juntando tributos d'outra maneira.
Desse,que antes de Ndoango se chamava,
A Angola dava a palavra primeira,
Assim sendo para sempre conhecido
E por aquele senhor protegido.

2)-
Uns antigos os quimbundos combateram
E em seu lugar ficaram instalados,
Depois, ainda os anzicos submeteram
E tomaram as rédeas desses lados.
Um, N'gola Inene, que antes conheceram,
Seria dos angolanos iniciados
O que mais terras depois conquistara
Formando um Reino que em grande tornara;

3)-
Um que de ferrador tinha alguns jeitos
E aos seus queria com muito coração
Teve cuidado com valiosos peitos
Livrando-os da mais rude privação.
Por todas essas coisas satisfeitos
O buscaram para a nova Nação,
Designando-o po N'GOLA, rei primeiro,
E mais Mussuri, nome verdadeiro,
...................................................

64)-
Convindo novos postos alcançar
Pois que já andavam fora do comando,
Uma guarnição teve de avançar
Utilizando o férreo e bruto mando.
Logo um fortim tiveram de elevar,
Nada valendo andar sempre bufando;
Mas,achados nas praias em distração,
Massacrados ficaram sem perdão.

65)-
Nascia Calumbo,nova povoação,
Assentando mais bases para a luta,
Fazendo com disfarce a infiltração
Às terras da prata ainda escura e bruta.
Outro Branco tomava a direcção
Adonde o Negro Cabo se disfruta;
Ali maior decepção havia de sofrer
Por nada encontrar para se colher.

66)-
Era tudo de areias,dunas sem fim,
Terras do Namibe, árido deserto,
Que só raro animal,cacto ou capim
Ali podia viver a descoberto.
As verduras que viam, num ínterim,
Deles logo fugiam, ao chegar perto !
- Era a sede e o calor que davam vidas
Aos sonhos e miragens repetidas !

67)-
Uma traição, das muitas conhecidas,
Quebrou as boas relações dos soberanos :
- Punindo o capitão normas proibidas
Ordenara prender uns desumanos,
Os quais,com razões falsas,escondidas,
Não ficaram à espera d'outros anos,
Antes seguindo, pérfidos,fugidos,
Ao Ngola ofertando uns planos sabidos.
.........................................

81)-
Obtida foi p'los lusos a vitória
Chamada de Candeias pelo dia que era,
Ficando muitos anos na memória
Pois a fugida gente não a esquecera.
Cortaram os narizes pela glória
Em triunfo que ninguém assim prevera,
Restando pelos campos,estirados,
Muitos corpos em tal forma truncados !

82)-
A luta fora trágica,danada,
Que nunca mais viria a ser esquecida,
Folgando depois em terra tomada
(Por Massangano seria conhecida).
Com a ajuda por vários ali dada,
Levando os inimigos de vencida,
Instalaza-se a paz nessas regiões
Obtida com a força e sem sermões !

83)-
O capitão instalado sem mais dano
Pedia socorro ao novo monarca,
Mandando Velez e outro todo ufano
Que prestes,temeroso,logo embarca.
Queria auxílio,mas como a guerra do ano
Contra os danados mouros deixou marca,
Teria de renovar noutra ocasião
Que nessa não lhe podiam dar a mão.
.........................................
.........................................
105)-
Numa penosa marcha,em retirada
Pra Massangano, forte salvador,
Logo se apressou a tropa ali sobrada,
Rosto em sangue, gemendo tanta dor !
Antes pedem pra Loanda melhor guarda
De que Luiz Serrão nem lhe vira a cor,
Findando a donatária recebida
E surgindo uma outra medida.

106)-
Ainda assim o entendera um licenciado
Que do Brasil irmão ali tinha vindo,
E de fortes medidas do seu agrado
(As brandas nem estavam mais surtindo):
- Seria de escravos e ouros bem saldado
Para co real erário, quase caíndo,
Compensando os metidos em panelas
Que nas guerras tomavam parte delas.

108)-
Outras havia,porém,suaves,humanas,
Terminando atitudes gananciosas,
Trocando uns padres causas mais tiranas
Por lei justa e medidas proveitosas,
Porque era sua missão todas semanas
Alimentar as almas duvidosas
E ainda seus corpos fracos,muito doentes,
Forçados p'los senhores insolentes.
..........................................................

CANTO IV - O GOVERNO GERAL - (113 estâncias) -

1) -
No ano noventa e dois, sendo Janeiro,
Foi nomeado pra Angola outro gestor;
Vinha c'o ilusões e homens,bem lampeiro,
Sendo um ilustre e mui rico senhor.
Teve boa recepção, sendo o primeiro,
Nem se sabendo qual o seu valor
Porque às gentes surgia como um estranho,
Vindo que era das terras doutro amanho.

2) -
Mas o modo de sua governação
Causou protestos dalguns contrafeitos,
Feridos no interesse e na feição
E pelos quais houvera bons proveitos.
Surgia deles um padre, com acção
Alegando os haveres e direitos
Ganhos em anos de muitas canseiras
E para outros o fim das suas asneiras!

3) -
Duvidando por onde a razão andava
E sendo tantos falsos, intriguistas,
Deixou tudo ficar como ali estava
Aguardando a sentença dos legistas.
Cada soba uma nova causa dava
Sendo apoiado com largas, santas vistas,
Por certos padres que ali comandaram
E quase por si também governaram.
.............................................

72)-
"Havia chegado a boa nova do Oriente
Sobre Xavier, que a Santo era elevado,
Pelas causas obradas,sempre crente
E sem nenhuma sombra de pecado.
Surgia,como por mola,muita gente
Reunida pelos lados do Bispado,
Ali largando fogo bem vistoso
Que nisso fora o povo generoso.
..........................................

73)-
Os clarões majestosos pelos ares
E formados de vários,belos tons,
Iluminaram rápidos os olhares
Enchendo os arredores de fortes sons.
Haviam construido os mais ricos altares
Cheios de metais caros,alguns bons,
Onde,com certos ares de vaidade,
Se instalavam os grandes da cidade.
..........................................

74)-
Nas fortalezas,rudes,os engenhos,
Apoiavam o governo autorizado,
Troando com calorosos sons rufenhos
E abafando o outro fogo em tom variado.
Ao largo, conhecidos,velhos lenhos
Que à manifestação se haviam juntado,
Lançavam uns petardos coloridos
Que os povos botavam estarrecidos !
..........................................

75)-
Outros festejos mais iam preparando
Por ser ainda nas vésperas do dia,
Mas prestes tudo estava caminhando
Com as faltas que nesse tempo havia.
Da Figura do Santo ali cuidando
Com expressão que real mais parecia
E com discurso bem esclarecido
O ateu ficaria logo comovido.
..............................................

80)-
"Desfilavam na frente feios gigantes
Em suas arrogantes estaturas,
Deixando alguns indígenas errantes
Mais temerosos com as tais figuras.
Outros, de dimensões pouco importantes,
Eram os filhos,plenos de farturas,
Todos alçados,bempostos,vestidos
Com diversos e válidos tecidos.
...........................................

81)-
Depois, as santomistas bem ligeiras,
Ganhando admiração e fortes aplausos,
Passavam orgulhosas,altaneiras,
Inchadas de valor ou de outros casos !
Diante o cortejo, as danças verdadeiras
Com tecidos brilhantes,sem atrasos,
Iam fazendo com graça voltas,rodas,
Exibindo cada uma co suas modas.
.............................................

82)-
A grande nau que o Santo transportara
Noutros tempos às partes orientais,
-(Por estranhos milagres o salvara
De se finar nas águas cos demais) -,
Uns estrondosos tiros dispersara
Assustando os medrosos naturais,
Que por misteriosa e fera a fazia
Não sabendo das causas que a movia !
.............................................

83)-
Na cauda vinha a dança das espadas
Seguida pelos rápidos pastores,
Manobrando mudanças combinadas
Com o agrado dos amos e senhores.
E seguiam outras bem mais preparadas
Representando válidos valores,
Fazendo-se por serem tão vistosas
Para ganharem moedas mui valiosas."

............................................

87)-
"À frente, a Europa, tão formosa e bela,
De pérolas coberta a cabeleira,
Trazia por de sobre elas u'a capela
Toda em flores de dourada maneira;
E dos ombros marmóreos,fina estrela,
Desnudos um pedaço na dianteira,
Viam-se seus seios,forma bem perfeita,
Numa sedução mais insatisfeita !
...............................................

88)-
Adiante,os mantos divinais pendentes,
E com graça senhoril segurados,
Caindo p'los braços belos,mais atraentes,
Roçavam finos pés bem afagados.
E na esbelta cintura,indiferentes,
Lindos colares,ricos e apertados,
Salientavam seus dotes bem perfeitos
Só pela Natura sábia mais eleitos.

89)-
As outras damas bem ornamentadas
Entoando loas e músicas sabidas,
Vinham em cores ricas e variadas
Por elas a seu gosto preferidas;
E as virtudes ao Santo consagradas
Iam no mesmo carro ali reunidas,
Com simples vestes bem menos ligeiras
Mas a seu livre gosto e boas maneiras;
.......................................

90)-
Puxando o dito as belas e gostosas.
(Digna guarda,honrada e protegida),
Vinham pelas Nações,as mais valiosas
Esforçando-se pela doce vida,
Além das naires,lindas e formosas,
Todas contentes por terem guarida,
Tratando dolorosos ferimentos
Em cautelas e certos fingimentos.

91)-
Com as tranças de pérolas brilhando
Por dentro da mantilha em escalate,
Seguia Malaca em passos,desfilando
Com estilo estudado e sabida arte;
Os cabelos p'las costas adejando,
Ou tapando na frente bela parte,
Eram cobertos de esmeraldas finas
E rematados entre serpentinas !
...............................................

108)-
Nos subidos altares enfeitados
A Figura ficou em contemplação
Pelos crentes nos baixos ajoelhados
Em respeitosa e santa posição.
Vários arcos metálicos,armados
Com frutos de natural formação,
Circundavam os quadros dos eleitos
Só visíveis em tão grandes respeitos.

109)-
Um enorme castelo a meio situado
Já repleto de bombas,buscapés,
Deitava lindas luzes com mui agrado
Pelas bordas que estavam de revés.
Tinham os estudiosos ajudado
Largando muito fogo e dando aos pés;
E pela oitava ao Santo concedida
Deitaram todo o resto de fugida !

110)-
Não bastando porém as ígneas feras
Que alegria e medo punham ao sujeito,
Outras coisas mais calmas e sinceras
Suavisavam com doce e melhor jeito.
Belas canções e glosas mais austeras
Entoavam para alcançar melhor preito,
Desejando ficar co'as primazias
E receber de Mendes honrarias;

111)-
Que decerto o melhor fizera
Em trabalhos que aos outros agradara;
Pelo seu bolso u'a parte compusera
E de ver representar mui gostara.
Mas em outras oitavas mais houvera,
Correndo touros, que muito espantara,
Com músicas e danças divertidas
Em largos gestos d'arte dirigidas.

112)-
E Mendes filho atrás não lhes ficara
Com uma peça muito bem ensaiada,
A quando Xavier aos lusos salvara
Numa fera luta em Archens travada.
Aplausos no Colégio conquistara
De gente numerosa e regalada,
E de bom modo a festa se acabou
Com a ordem e paz com que começou.

113)-
Tudo o Santo lhes pagaria por certo
Em bençãos que antes já eram pretendidas,
Sendo incauto premiar o mais esperto
Deixando para os outros só as feridas.
Pelos antigos reinos, em céu aberto,
Todas suas pregações foram ouvidas,
Razão dos muitos gastos que operaram
Em despesas que não se limitaram !
......................................

----- CANTO V - A GRANDE GINGA - (63 estâncias) -----

1)-
Vasconcelos, pra Angola fora eleito
E logo toma posse de sua herdade,
Só seguindo mais tarde ao duro leito
Quer fosse p'lo receio ou pouca vontade.
Evitando um perigo ou algum mau jeito
Com holandeses sem qualquer piedade,
Tivera de fazer um melhor plano
Dispondo armas e homens com menor dano.

2)-
Os tributos ao reino destinados
P'los diversos caminhos se sumíam,
Por uns padres e chefes controlados
E que entre si essas coisas discutiam;
Despertados de sonhos, enganados,
Que com promessas vãs os iludiam,
Passaram a explorar as novas fontes
(Que andavam as cabeças ali as montes!)

3)-
Entre eles as discórdias aumentavam
Repondo em lutas pérfidos rivais,
Pois que dos mesmos meios todos usavam
Esquecendo de pronto tudo o mais.
A paz com alguns sobas negociavam
Para alcançar daqueles naturais
Auxílios necessários nas suas guerras
Com as quais se ganhavam as boas terras.

..................................................

11) -
Com grandes recepções, bem preparadas,
Reposto mais cuidado em certo trato,
Foram com um agrado encaminhadas
A quem não lhe faltava certo tacto.
E de um vistoso séquito amparadas
Em finos trajes, com rude recato,
Causavam no meio muita admiração
Não sendo vulgar tal ponderação.

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12) -
Altiva,Ginga logo que notara
A falta do seu assento reservado,
Uma jovem escrava ali prostara,
Joelhos no solo,dorso bem dobrado,
E sobre a dita então logo sentara
Ficando todo o tempo ali passado
E deixando-a estar quando levantou
Que ao memsmo banco nunca regressou !

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13) -
E já depois de ser obtida a paz
Por entre todas partes aí reunidas,
A conversão ali se tornou capaz
Entre preces solenes e subidas.
E pela benção santa mais vivaz
Titulares funções foram cedidas,
Porque enganar é fácil a vaidade
Quando se cuida não haver falsidade.

14) -
Para o distante Ngola agradecido
Levam elas diversos,bons presentes :
- Sistema velho, mas sempre sabido,
De subornar as mais escuras gentes !
E, de quanto ficou ali esclarecido,
Mandaram parte aos seus dois dirigentes,
Sendo que um em Castela residia
Vendo de longe quanto se fazia.

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24) -
E logo a esperta rainha podia uns padres
A Vaz que, pelo rei fora mandado,
Indo fiados e cientes das verdades
O pobre do Pacónio e outro,Vogado.
Porém,em vendo as tristes realidades,
Pretenderam logo outro combinado,
Devendo antes escravos entregar
Com o que a dita não havia de aprovar.

25) -
Então, fingindo enviá-los a uma feira
Que algum sobeta aliado promovia,
Outra coisa escondia dessa maneira
Que só escravos guerreiros ali havia.
Defronte a soberana mais matreira
Novo grupo em socorro aparecia,
Assim caindo Leitão e outros na cilada
Com esperteza e astúcia preparada.

26) -
Ganhando Ginga a luta ali travada
Ocupou umas ilhotas do rio Quanza,
Sendo p'la enorme corte real rodeada
Cada vez reforçando mais sua banza.
Desejava porém ser desculpada
Pelas razões daquela feia vingança,
Mas,como se informara Landroal,
Preparava de novo certo mal.

27) -
Fernão aplicava rápidas medidas
Escutando o Conselho em conferência;
Seguiam as lusas tropas aguerridas
Enfrentanto algum poovo com urgência.
Juntaram muitas gentes escolhidas
Das qu'andavam p'lo interior em falência,
Sendo melhor haver boa precaução
Que,enorme,devia ser a multidão !

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61) -
Em muitas represálias e vinganças
Esse glorioso Reino se extinguia
Depois de tantas e alvas esperanças
Que vidas inocentes consumia.
Assim resultou nessas vãs heranças
Em fracas mãos de quem não competia,
Desejoso das fáceis pretensões
Que não bastam para cuidar das nações !

62) -
Mas Amona tentara envenenar
Cavazzi, dedicado dessa rainha;
As damas da corte dava pra trocar
Por vinhos e alimentos que não tinha.
Surgira Diogo para governar
Mas sua cabeça nem ali sustinha
Perante o cutiloso e cruel jaga
Que nem o tempo um ódio tal apaga.

63) -
Nem D.Luis consegue sobreviver
Tal o poder do válido guerreiro
Apossado de novo do poder
Que em Matamba tivera, desordeiro!
Foi Gutteres depressa a combater
Cercando-o numa igreja, prisioneiro;
Dali saindo p'lo escuro,assustado,
Sem nada lucrar, sendo degolado !
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- CANTO VI - O DRAMA DA ESCRAVATURA - (75 estâncias) -

1) -
Muitos escravos foram retomados
Que eram vendidos em boa quantidade,
Sendo para novas terras embarcados
Que deles havia lá necessidade.
Mas os poderes régios contrariados
Logo os mandavam de volta à sua herdade,
Sendo caso de má e desleal conduta,
Não fosse obra feia, de filhos de puta!

2) -
Não era por Dom Henrique ou sua alegria
Que em escuros negócios se metessem,
Sendo antes para Cristo e a Santa Pia
Todos quantos a Nova ali quizessem;
Amolecendo as mentes pretendia
Evitar que outros piores ali viessem
Colher frutos em tão enorme fartura,
Que uma vida fácil nem sempre dura!

3) -
Em tendo aquele campo bem semeado
Seria farta e válida a colheita
E,próximo do tal reino ali buscado,
Uma outra melhor já havia de estar feita.
Pra tanto era o caminho procurado
Em naus que o Índico rápido rejeita,
Se outra solução não fora a escolhida
Que era a vela,mais fácil,sumetida.
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44) -
As guerras,pela Europa ensanguetada,
(Povos contra si todos revoltados),
Afastavam do mar a força ,irada
Na defesa dos montes ocupados.
E mais lucrava a malta interessada
Em escuros negócios,desejados,
Mandando negros pra onde eram escassos,
Havendo nesses Reinos tantos braços !

45) -
Por isso o Desejado,mui prudente,
Regulara com lei sua,bem medida,
O modo legal pra cativar gente
Que nas guerras ficasse aqui apreendida.
Antes, a outro ordenara na sua frente
O que fazer na terra concedida,
Deixando aos santos mestres boa vantagem
E impondo a muitos sobas vassalagem.

46) -
Paulo Dias, com poderes concedidos,
Acordava contratos mui rendosos,
Em "assientos" por si estabelecidos
Com os Filipes,também cobiçosos.
E muitos outros já nisso iam metidos
Esquecendo os terrenos trabalhosos,
Preferindo repousado viver
Que lhes desse mais válido prazer.

47) -
Primeiro desprezavam uns metais
Que só valor limitado antes possuíam,
Mas, os escuros povos e os demais,
Para não serem vistos,os encobriam;
A tais pontos os câmbios ainda mais
Do que o falado máximo subiam
C'o espanto de causar perturbação,
Colhendo o inquiridor nova lição.
.....................................

73) -
Com os zimbos e búzios escolhidos
Por gentios em negócios satisfeitos,
Ignorando os escândalos,perdidos,
Que depressa dariam maiores proveitos,
Voltavam os danados convencidos,
Cheios de lucros ganhos sem direitos,
Obtidos com feios modos,comerciantes,
Mais deixando alguns negros bem radiantes!

74) -
Outros, Campo e um Martel, bem preparados,
Com enormes riquezas se abotoavam,
Pelos muitos escravos transportados
Das costas Índias, em que os esperavam
De volta c'o ouro e prata carregados,
Que os mais antigos mestres facultavam
Sendo tratados de modo especial
Porque o sonante abafa todo o mal !

75) -
E sentado num Cabo pedregoso
Estava o negro ancião se recordando,
Cos olhos no horizonte,bem receoso :
- Quantos filhos seus foram transportando
Certos negreiros pra um fim duvidoso,
Sob controle de pérfido comando,
Sem esperanças de os voltar a ver
Em seu mais triste e trágico viver ?!...

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CANTO VII - DOS ATAQUES HOLANDESES À RECONQUISTA - (103 estâncias)-

1) -
Os mares muito turvo se tornavam
Por algumas escuras, feias razões,
Doutros que o rico Reino desejavam
Cheios de cobiça e ódio de ladrões;
Para o interior as tropas não marchavam
Poupando as fracas forças e os canhões,
E,deslocando-os antes para as costas
Protegiam-se das naus ao largo expostas.

2) -
Da outra banda dos mares oceânicos
Chegava triste nova de espantar,
Que plebes calmas já punha em pânicos
Das coisas que por certo se iam passar:
- Velas grandes, tamanhos titânicos,
Preparavam-se para os atacar !
Sendo fraca a defesa residente,
Temerosa se punha toda a gente,

3) -
Mas, suspendendo um pouco essa eminência
Os reservados, cautos holandeses,
Sabidos da possível resistência
Comum em muitas lutas e revezes,
Prosseguiam com mais pérfida violência
Sobre alguns desses pobres camponeses,
Sondando talvez aos poucos os caminhos
Pra ver que haveria entre esses ninhos.
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28) -
O peso estranho já os incomodava
Pressentindo-se certas realidades,
Que toda gente séria murmurava
Noutras maiores e vãs dificuldades.
Do reino principal então chegava
Socorro e tropas de boas qualidades,
Mas,contrariando alguém tal atitude,
Talvez por ver nos outros mais virtude !

29) -
E de Benguela, rápido um enviado
Para saber das novas escolhia,
Que foi p'la hoste porém logo apanhado
Seguindo o rumo que ela levaria.
Nesse Quicombo,já em versos cantado,
Ao desembarque então procederia,
Indo para o presídio protector
Onde resistiam com muito valor.

30) -
Contudo a sorte foi.lhes contrariada
Nas lutas frente aos jagas conhecidos
E de força guerreira bem formada
Sendo disso desde há tempos sabidos.
O destino da vida atormentada
Desviara um natural desses fugidos :
- Nem se sabendo ao certo as suas razões
Seguira a dar parte aos novos patrões.

31) -
Concluidas essas guerras se instalavam
Superando as obrigações impostas,
E as raízes de uma nova classe armavam
Vergando com o peso velhas costas;
As povoações melhor assim ficavam
Ocupando com paz ricas encostas;
Procedendo ao contrário,se dizia,
Que o gentio ledo a todos mataria !
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100)-
Como Correia de Sá não concordasse
Procuram os ditos um outro amanho
Mas sem cuidar que o luso com disfarce
Mostrava um poderio de mais tamanho :
Bem antes que o inimigo se adiantasse
Finge o general seu valor de antanho,
Descendo a terra todos seus soldados
Tendo a bordo espantalhos espetados !

101)-
Logo alcança o fronteiriço e alto Penedo
Levando quanto surgia p'la frente,
Os forte toma e ocupa de arremedo
Que a coragem fazia aumentar a gente!
Em fuga alguns se botam bem mais cedo
Cuidando noutra forma diferente,
Com os fogos danados incendiando
Tudo o que por ali iam abandonando.

102)-
Restava por refúgio a fortaleza
Que o encorajado luso ali arremete,
Defendendo-se então a cercada presa
Mas que sem forças já pouco acomete.
De novo Salvador com mais firmeza
Se prepara para honrar seu galhardete,
Quando nota no alto mastro a bandeira
Agora branca, em vez da desordeira !

103)-
"Abre-se a porta" dessa "cidadela"
Saindo os vencidos bem envergonhados,
Em número maior e em vária farpela
Entre alas dos vencedores formados.
Metidos depois numa caravela
Dali são pra sua terra despachados,
Enquanto por toda a costa angolana
Ardia de novo a flama lusitana !

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VOLUME II -- "DO ZAIRE PODEROSO AO CUNENE MISTERIOSO" --

- CANTO VIII - "A RESTAURAÇÃO DOS REINOS" ...... 71 Estâncias -
- CANTO IX - "A INFLUÊNCIA BRASILEIRA"........ 72 Estâncias -
- CANTO X - "A INEVITÁVEL EVOLUÇÃO".......... 72 Estâncias -
- CANTO XI - "NOS REINOS DO SERTÃO" .......... 59 Estâncias -
- CANTO XII - "A COBIÇA INTERNACIONAL"......... 94 Estâncias -
- CANTO XIII - "OS CAMINHOS DA LIBERTAÇÃO" ..... 72 Estâncias -
- CANTO XIV - "OS MISTÉRIOS DO CUNENE..." ..... 128 Estâncias -
- CANTO XV - "...ATÉ À DESCOBERTA DA SUA FOZ". 102 Estâncias -
TOTAL ..... 670 Estâncias -

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CANTO VIII - A RESTAURAÇÃO DOS REINOS - (71 estâncias) -

1) - Para esse mesmo Reino de Benguela
... Foi então nomeado Gomes de Gouveia
... Enquanto outros de sua douta tutela
... Fugiram da terrível alcateia.
... Muita gente, com boa e melhor farpela
... Seguia a santa, de flores toda cheia,
... Sendo o colégio antigo recompensado
... Porque junto ao palácio era situado.

2) - Assim caminham para a fortaleza
... Com uns santos e santas resguardados,
... Sendo sua fé mostrada com firmeza
... Entre tantos fiéis e alguns soldados.
... Não causara nenhuma outra estranheza
... O que logo surgira noutros lados
... Já festejando com muita alegria
... O fim do sofrimento e vilania.

3) - Outros, enviados à Vila Vitória,
... Informavam da nova situação,
... Retirando da lusa e boa memória
... Tanta desgraça e total desolação.
... Mandara recolher, sem mais história,
... Todos que se mantinham p'lo sertão
... Sendo bem mais segura a capital
... Antes que lhes surgisse novo mal.
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69)- O Congo estava a cair com desagrados
... Desafiando os poderes constituídos
... Que reunira diversos potentados
... Reformando os exércitos unidos.
... Voltam a Massangano reforçados
... Onde os congueses bem arrependidos
... Prometem boa política fazer
... E aos noviços impor o seu mister.

70) - No reino da Matamba a rainha aceita
... Negociar ampla paz com portugueses,
... Não lucrando continuar mais sujeita
... Aos seus problemas e aos dos congoleses,
... Ficando com sua fé mais satisfeita
... Como fora também diversas vezes.
... Outro Novais em sua capitania
... Renovara a que a Paulo pertendia.

71) - Afonso sexto nada governava
... Passando o seu poder para a regência,
... Assumida com fé sempre agradava
... Usando demonstrada e real sapiência.
... Diversas penitentes destinava,
... Para em Angola darem assistência,
... Mesmo, com uns colonos se casando
... E que estavam até necessitando.
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- CANTO IX - A INFLUÊNCIA BRASILEIRA - (72 estâncias) -

1) (72)-
... Para Vieira chegara a ocasião
... De assumir o comando desejado
... Tendo tido outra boa governação
... Em terras do Brasil com muito agrado.
... Aos jesuítas não alegra a nomeação
... Pelo que logo fora excomungado;
... Julgando-se em Angola superiores
... Manobravam sem ter opositores.

2) (73)-
... Massangano recebeu benefícios
... Passando a vila por merecimento,
... Depois de tanto azar e sacrifícios
... Da população em fácil crescimento.
... Os ingleses cometem artifícios
... Numa grave traição sem fundamento,
... Quando Chichorro,calmo,regressava
... E em Paraíba porém preso ficava!

3)(74)-
... Doente e com fome finha falecido
... Nem lhe valendo o farto e bom marisco
... Pois,pelo mesmo,foi depois comido
... Sendo assim muito pior que um outro risco!
... Ao sobrado esqueleto,ali esquecido,
... De nada servia já o poder ou o fisco
... E,nem mesmo o salvando,o Salvador,
... Só restando entregar a alma ao Criador!
...........................................
70(141)-
... Távora,recebera sua patente
... Prometendo en Angola governar
... Quando não tivesse algum na sua frente;
... Mas Furtado tomava outro lugar
... No Reino de Benguela,diferente,
... E sem ter tido tempo p'ra aguardar.
... O Senado da Câmara mudava
... E um novo chefe já ali governava.

71(142) -
... Na Matamba Gutteres sucedera
... A Amona,por Carrasco conhecido,
... E que,depois do que lhe acontecera,
... P'ra salvadora mata havia fugido.
... O outro capitão-mor permanecera
... Com uns oficiais, tendo preferido
... Manterem a ordem entre os comerciantes
... E os que ali redidiam todos muito antes !

72(143) -
... Mas,no Congo,o Colégio foi assaltado
... Sendo depois daí logo transferido
... Deixado p'lo jesuíta abandonado,
... Terminando o seu tempo ali perdido.
... Com tanto assunto assim mal orientado
... Fugira todo o povo espavorido.
... Rafael chegara ao trono em abandono
... De que o do Sonho queria ser o dono!

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- CANTO X - A INEVITÁVEL EVOLUÇÃO - (72 estâncias) -

1) (144)-
... Távora chega a Luanda com atraso,
... Em plena juventude da sua vida,
... Entre grande alegria,sem qualquer prazo,
... Com espanto da gente embevecida.
... Não perdendo mais tempo e, sem dar azo
... A avanços de adversários nessa lida,
... Mandara reforçar fortes, fortins,
... E outras bases de mais seguros fins.

2) (145)-
... Chegam à capital embaixadores
... Do novo rei conguês com cumprimentos
... Ao governador jovem e uns senhores
... Que davam apoio aos doutos elementos.
... Solicitam vencer usurpadores
... Estranhos, sem humanos sentimentos,
... Que mantinham negócios dos escravos
... Recordando outros tempos dos eslavos.

3)(146)-
... Dom Rafael concedera outro condado
... Que junto ao Pinda estava protegido,
... Muitos seguiam o destino desgraçado,
... Não cumprindo o tratado antes havido.
... Os jesuítas também haviam falhado
... Com o escuro negócio, repelido,
... Sendo expulsos p'ra tais bandas,distantes,
... Em companhia de certos traficantes!

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70(213) -
... O capitão-mor Sousa complicava
... As vidas dalguns povos da região
... Onde o jaga Cassanji manobrava
... Derrotando Quiguanga na questão
... Que seu padrinho,"Pai do Sol",apoiava
... P'ra não complicar essa ligação;
... No funeral de Dom Pascoal matavam
... Alguns jovens também, que ali enterravam!

71(214)-
... Afonso Terceiro, um seu sucessor,
... Encontrara diversas confusões
... Com as fugas dum Reino de pavor
... Sem conseguir segurar os cordões.
... Daniel nem se pudera recompor
... Porque Pedro Segundo,com bastiões,
... Tornara todas rédeas em fraqueza
... Suprida por Manuel com subtileza,

72(215) -
... Que,como falsa noiva, disfarçado,
... Elimina seu irmão com u'a pistola
... Mas não ganhando num outro atentado
... Que o atingira certeiro na sua tola,
... Porque Garcia Terceiro,mais cuidado,
... Lucra dos capuchinhos essa esmola !
... Sem deixar arrefecer tal vantagem
... Solicitara a régia vassalagem.

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- CANTO XI - NOS REINOS DO SERTÃO - (59 estâncias) -

1) (216)-
... Silva e Sousa chegado finalmente
... P'ra comandar o Reino principal
... Não tempo de aguçar o dente
... Contra Dala e o Cassanje, seu rival,
... Que nem aproveitou a ajuda presente
... E o livrou de sofrer um grande mal;
... Perdera assim aquele seu comando
... Ficando tudo a saque d'outro mando.

2) (217)-
... Não consegue,porém,ali aguentar
... Preferindo regressar à origem,
... Sendo logo preenchido seu lugar
... Com apoio renovado e vassalagem.
... Em Catole, Sequeira iria acampar
... Com um certo descuido,mas coragem;
... Acabava com trágica surpresa
... Perdendo terrenoe alguma firmeza.

3) (218)-
... Explodiam as barracas num instante
... Repletas de armas, muitas munições,
... Mais parecendo festa delirante
... Apavorando suas populações.
... E Sequeira, o "invencível" e triufante,
... Foi abatido com setas nos pulmões
... Sem desânimo dos seus companheiros,
... Conseguindo vencer, foram primeiros.

....................................................

56(271) -
... Beatriz Kimpa,chamada Dona Santa
... Por reencarnar António celestial,
... Esquiva,a todos pintava sua manta
... Com visitas ao Senhor Principal,
... Sendo sua convidada, o que encanta,
... Por ser de São Salvador natural !
... Uma ressurreição teria imitado
... E aquela Terra Santa havia salvado.

57(272) -
...De muito longe os fiéis ali acudiam
...Para ajudarem nessa Salvação;
...Pedro Quarto e outros não se convenciam
...Pondo um fim nessa tal encenação,
...Terminada nuns troncos que sumiam
...Com os corpos, ardendo sem cremação !
...Mas perdeu a mais antiga e sua linhagem
...Sem outro descendente ou vassalagem.

58(273) -
... Do Brasil mais escravos pretendiam
... P'ra salvar os "engenhos" desfalcados
... Mas pelo interior lutas ressurgiam
... Em terras de Caconda e seus sobados.
... Dom Pedro Quarto e os seus se recolhiam
... P'ra Lelunda, enviando o outro com aliados;
... Constantino, porém,mais desejava
... E ficar nesse trono se esforçava.

59(274) -
... Esse Pedro não aceita tal mudança
... Mandando-o prender pelo seu pescoço
... E,cortado a cutelo, com pujança,
... Perante alegria e num grande alvoroço
... Acabara de vez com tanta andança
... E pretensões de mais algum rei moço!
... Os "Quibango" reassumem a realeza
... Dando aos "Quipanzo" os restos da sua mesa.

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- CANTO XII - A COBIÇA INTERNACIONAL - (94 estâncias) -

1) (275)-
... Ribafria sucedera ao nobre Almada
... Que foi governar para outro reinado
... E para onde não houvera mais jornada,
... Que o governo acabara co'"el-dourado";
... Mesmo p'ra degredado era vedada
... Sendo Angola o destino sobejado,
... Como acontecera antes a diversos
... Embora fossem santos não perversos.

2) (276)-
... A revoltada gente da Quiçama
... Fora vencida por sobas reunidos.
... Ribafria nunca teve santa cama
... Actuando com processos mal sabidos:
... Pouco valera alguma justa fama
... Nem resolveu problemas conhecidos.
... No seu regresso teve de aquecer
... Quando seu barco estsva a fenecer.

3) (277)-
... Entretanto, chegara Dom Noronha,
... Havendo situações bem complicadas,
... Com casos muito doentes,qual peçonha,
... Para o que devia ter as mãos pesadas.
... Mesmo o Senado, com bastante ronha,
... Desviava nomeações menos cotadas
... E, por não serem da alta sociedade,
... Apenas dos musseques da cidade!

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92(366) -
... Nalgumas Feiras foi determinado
... Manter certo negócio mais habitual
... Com escravos de diverso sobado
... Ali vendidos, por bem ou por mal,
... Com estranhas influências dalgum lado
... Onde estava o danado capital,
... Não podendo os capitães intervir
... Nas vendas que pudessem ressurgir.

93(367) -
... A macuta fazia sua aparição
... Em Angola, com válidos valores.
... No Reino de Benguela houve a criação
... Duma Irmandade com alguns andores
... E,num Reino do Congo, u'a vocação
... Sucedera a Dom Pedro com clamores;
... Mas este, regressando, os sossegara
... Com protecção do bispo que o coroara.

94(368) -
... Degredados tentaram atacar
... O governador e os seus oficiais
... Praticando assassínios sem parar,
... Com assalto a Conventos e demais,
... Querendo algumas pratas arrebanhar,
... Porque os jesuítas tinham-nas a mais.
... Uns deles foram logo silenciados
... Ficando Álvares com ossos quebrados !

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- CANTO XIII - OS CAMINHOS DA LIBERTAÇÃO - (72 estâncias) -

1)(369)-
... Tomara posse Dom Sousa Coutinho
... Reunindo os comerciantes da cidade,
... Devendo cessar logo de caminho
... Com os que nunca obtinham liberdade,
... Nem havendo um imposto mais daninho
... Prejudicando toda lusa herdade,
... Mesmo tendo suas dívidas somadas
... Com as diversas, tão mal disfarçadas.

2)(370)-
... Sendo o Terreiro Público ali criado
... Para a recolha dos bons alimentos,
... Assim ficando tudo armazenado
....Para distribuir com mais fundamentos,
....Sem que algum fosse mais beneficiado
....Ficando outros com menos suprimentos;
....Assim evitam feios, fracos negócios
....Ou trocas de trabalhos pelos ócios.

3) (371)-
... A Geometria, porém, e a Construção,
... Em "aulas",antes já sendo existentes,
... Tiveram uma nova pretensão
... Havendo muitas obras dependentes,
... Porque nem encontravam solução
... Para resolver casos das suas gentes
... Em casas mais antigas,mal situadas,
... Sem posses para serem reparadas.

....................................................

70(438) -
...Aguns mestres no ensino e,certa ciência,
...Tinham ali acabado de chegar
...Pra fornecer aos jovens a sapiência
...Suficiente no saber governar.
...Nas igrejas mudara Sua Eminência
...Por uma outra que estava a começar
...Para remediar má, triste conduta,
...Que não aceitava mudança absoluta.

71(439) -
... Albergaria deseja mais colonos,
... Uns bons milhares para o povoamento,
... Antes que ali surgissem outros donos
... Prontos a colher frutos sem tormento.
... Foram gastos uns válidos abonos
... Para o "Naturalista", com talento,
... Estudar no rio Cuanza suas vantagens
... Com apoio de Donatti nas pastagens.

72(440) -
... Visita o Bispo o Sonho e o seu condado
... Que nunca recebera essa excepção;
... Com muito casamento e baptizado
... Ficava mais católica a Nação.
... Do forte militar ali iniciado
... Decidem completar a construção
... E que fora atacado p'los franceses
... Metidos em negócios tantas vezes !

..........................................................

- CANTO XIV - OS MISTÉRIOS DO CUNENE - (128 estâncias) -

1)(441)-
... Decide a Junta fixar em Benguela
... Os dirigentes das expedições,
... Como se fosse uma imensa janela
... Aberta p'ra desvendar os sertões;
... Com Furtado e Valente em curta trela
... Tinha em Silva e Lacerda uns bons peões,
... Buscando o estranho final do Cunene :
... Rio estreito,largo,rápido ou perene !?

2) (442)-
... Uns chegam a Angra do Negro p'lo mar
... Encontrando emissários dum sobeta,
... Curiosos de conhecer,"conversar",
... Como sendo "homens" dum outro planeta!
... Mais não pretendiam do que desvendar
... A ligação do rio com a sua meta,
... Julgada estar situada num maior
... Que os levasse ao longíquo interior.

3) (443)-
... Caminhara Gregório para o sul,
... Indo pelo Quilengues e mais terras
... Para alcançar em Angra o mar azul,
... Depois de atravessar deserto e serras;
... Com uma caravana passa um paul,
... Chegando a Banda(Angra) sem mais guerras
... E conseguira algumas vassalagens
... Desde Quinzamba ao Negro,fim das viagens.
......................................................

126(566) -
... As tentativas contra a escravatura
... Foram renegociadas com ingleses,
... Evitando mais saídas nessa altura
... Prejudicadas já, por tantas vezes.
... Muitos interessados, gente dura,
... Nada gostando doutros portugueses,
... Discordavam de tantas transações
... Feitas com traficantes ou ladrões !

127(567) -
... Carta Orgânica fora publicada
... Criando em Angola um governo-geral;
... Nos dois Reinos ficava completada
... Com distritos, presídios sem igual.
... A gestão militar fora trocada
... Pela forma civil, menos formal.
... Suas leis teriam um próprio difusor
... Para nem haver nenhum difamador.

128(568) -
... A ansiada Abolição foi resolvida
... Duma forma geral,definitiva,
... Para que no mar não acabasse a vida,
... Nem havendo mais pena punitiva.
... Terminava o negócio e a fé ferida
... Em que tantos, na triste comitiva,
... Sempre perderam, não só a Liberdade,
... Como, talvez, sua própria Dignidade !
.................................................


CANTO XV - ATÉ À DESCOBERTA DA SUA FOZ - (102 estâncias) -

1)(569)-
... Vidal fora o primeiro governante
... Segundo a nova Carta Nacional,
... Que orientaria os destinos doravante
... Co'a justiça p'ra todos sendo igual.
... Em Benguela ninguém seria ignorante
... Da lei aplicada por ali em geral,
... P'ra matarem mosquitos com metralha
... Ou,queimando umas ervas sem ter falha!

2) (570)-
... Ngola Quiassama,soba numa serra,
... Não concordando com a instalação
... Dum Presídio dos lusos em sua terra,
... Avança contra Ambaca,no sertão,
... Mas,a tropa depressa mais o encerra,
... Algemando-lhe com vontade a mão.
... Garcia,regente na Oylla,nem sabia
... Como dominar outra rebeldia.

3) (571)-
... O distrito "Bragança" surgiria
... Na zona em que Quiassama dominava;
... Andrade,coronel,melhor fazia
... E a ordem ali de novo se instalava.
... Benguela no local se manteria
... E,Catumbela,na memsma ficava,
... Enquanto Luanda obtinha provimentos
... Com as diversas obras e uns eventos.

......................................................
100(668) -
... Os ingleses tentaram conquistar
... O Reino de Cabinda, sem prudência,
... Sabendo que não estava p'ra alugar,
... Mas ao cargo da lusa previdência.
... Subornavam o N'hongo sem cessar,
... Fazendo quase perder a paciência
... A quem tinha a total obrigação
... De manter em boa paz sua povoação.

101(669) -
... Costa Leal percorrendo pelo sul,
... Passa a Baía dos Peixes, continuando
... Em busca do mistério, sob céu azul :
... - Se o Cunene, absorvido e sem comando
... Há tantos anos, longe do Giraul,
... Entrava nessa areia que o ia ocultando ?!
... Findava esse segredo centenário
... Um caso,talvez, bem extraordinário !

102(670) -
... Leal, manda estudar sua navegação,
... Pretendida por outros governantes,
... Pensando na possível ligação
... Ao Cubango, desejo dos meliantes,
....Para terem mais rápida função
....Com os barcos de tantos traficantes,
....Na busca dos escravos e marfim
....Sem cuidar que esses podia ser seu Fim.

----------------- FIM -----------------
...... (COIMBRA, 28/02/2003) ......

..................................................
-------------------------------------------


-- NOTA I)-- ESTE POEMA ÉPICO TEM DOIS VOLUMES COM UM TOTAL DE 1.368 ESTÂNCIAS : Vol.I = 698 e Vol.II = 670, A QUE CORRESPONDEM 10.944 VERSOS, TALVEZ O MAIOR EM LÍNGUA PORTUGUESA) --

-- NOTA II ) -- ALÉM DAS ESTÂNCIAS ACIMA TRANSCRITAS JÁ SE ENCONTRAM PUBLICADAS (VIRTUALMENTE)MAIS AS SEGUINTES :

A) - NO "SÍTIO" - http://angola.do.sapo.pt :
== VOLUME I - "DO TEJO GRANDIOSO AO ZAIRE PODEROSO" :
- CANTOS I a VII : nºs. 1-2-3 --

== VOLUME II - "DO ZAIRE PODEROSO AO CUNENE MISTERIOSO":
- CANTO VIII - nºs. 1 a 71 -- CANTO IX - nºs. 1 a 72 --
CANTO XI - nºs. 1 a 59 --

B) - NO "SÍTIO" - http://angola-brasil-portugal.blogspot.com :

== VOLUME I -
- CANTO VI - nºs 1-7-15-20-36-49-53-58-59-64-75 e 75 --

C) - NO "SÍTIO" - http://angola-brasil-portugal.blogspot.com :

== VOLUME I -

- CANTO I (1-2-3... 28-29-30-31-...63-64-65) -
- CANTO II (1-2-3-...-56-57-58-59-...120-121-122-123-...169-170-171)- - CANTO III (1-2-3-... 64-65-66-67-...81-82-83-...105-106-108) -- - - CANTO IV (1-2-3-... 72-73-74-75-... 80-81-82-83-87-88-89-90-91-108- 91...108-109-110-111-112-113)--
- CANTO V (1-2-3... 11-12-13-14-...24-25-26-27-...61-62-63) --
- CANTO VI (1-2-3... 7-8-9-10-11-12-13-14...15-20-21-22-23-..36- ...44-45-46-47-...49-53-58-59-64...73-74-75) --
- CANTO VII (1-2-3... 28-29-30-31-...100-101-102-103) --

== VOLUME II :

- CANTO VIII (1-2-3...69-70-71) --
- CANTO IX (1-2-3...70-71-72 ) --
- CANTO X (1-2-3...70-71-72 ) --
- CANTO XI (1-2-3...56-57-58-59) --
- CANTO XII (1-2-3...92-93-94) --
- CANTO XIII (1-2-3...70-71-72) --
- CANTO XIV (1-2-3..126-127-128) --
- CANTO XV (1-2-3..100-101-102) --
================================

Governadores Gerais de Angola

Soberania Portuguesa
Angola Donatária
(São Paulo de Luanda) Colónia

1 de Fevereiro de 1575 - 1589 Paulo Dias de Novais, Donatário
África Ocidental Portuguesa Colónia da Coroa
1589 - 1591 Luís Serrão, Governador
1591 - Junho de 1592 André Ferreira Pereira, Governador
Junho de 1592 - 1593 Francisco de Almeida, Governador
1593 - 1594 Jerónimo de Almeida, Governador
1594 - 1602 João Furtado de Mendonça, Governador
1602 - 1603 João Rodrigues Coutinho, Governador
1603 - 1606 Manuel Cerveira Pereira, Governador 1.º mandato
Setembro de 1607 - 1611 Manuel Pereira Forjaz, Governador
1611 - 1615 Bento Banha Cardoso, Governador
1615 - 1617 Manuel Cerveira Pereira, Governador 2.º mandato
1617 - 1621 Luís Mendes de Vasconcelos, Governador
1621 - 1623 João Correia de Sousa, Governador
1623 - 1623 Pedro de Sousa Coelho, Governador
1623 - 1624 Simão de Mascarenhas, Governador
1624 - 4 de Setembro de 1630 Fernão de Sousa, Governador
4 de Setembro de 1630 - 1635 Manuel Pereira Coutinho, Governador
1635 - 18 de Outubro de 1639 Francisco de Vasconcelos da Cunha, Governador
18 de Outubro de 1639 to 1641 Pedro César de Meneses, Governador
1641 - Outubro de 1645 Em oposição aos holandeses
Outubro de 1645 - 1646 Francisco de Souto-Maior, Governador

Soberania Holandesa
África Ocidental Holandesa
1641 - 1642 Pieter Moorthamer, Director
1642 - 1648 Cornelis Hendrikszoon Ouman, Director
Soberania Portuguesa
1646 - 24 de Agosto de 1648 Junta
24 de Agosto de 1648 - 1651 Salvador Correia de Sá e Benevides, Governador
1651 - Março de 1652 ..., Governador Interino
Março de 1652 - 1653 Rodrigo de Miranda Henriques, Governador
1653 - Outubro de 1654 Bartolomeu de Vasconcelos da Cunha, Governador Interino
October 1654 - 18 de Abril de 1658 Luís Martins de Sousa Chichorro, Governador
18 de Abril de 1658 - 1661 João Fernandes Vieira, Governador
1661 - Setembro de 1666 André Vidal de Negreiros, Governador
Setembro de 1666 - Fevereiro de 1667 Tristão da Cunha, Governador
Fevereiro de 1667 - Agosto de 1669 Junta
Agosto de 1669 - 1676 Francisco de Távora, Governador
1676 - 1680 Pires de Saldanha de Sousa e Meneses, Governador
1680 - 1684 João da Silva e Sousa, Governador
1684 - 1688 Luís Lobo da Silva, Governador
1688 - 1691 João de Lencastre, Governador
1691 - 1694 Gonçalo da Costa de Alcáçova Carneiro de Meneses, Governador
1694 - 1697 Henrique Jacques de Magalhães, Governador
1697/1698 - 1701 Luís César de Meneses, Governador
1701 - 1702 Bernardino de Távora de Sousa Tavares, Governador
1705 - 1709 Lourenço de Almada, Governador
1709 - 1713 António de Saldanha de Albuquerque Castro e Ribafria, Governador
1713 - 1717 João Manuel de Noronha, Governador
1717 - 1722 Henrique de Figueiredo e Alarcão, Governador
1722 - 1725 António de Albuquerque Coelho de Carvalho, Governador
1725 - 1726 José Carvalho da Costa, Governador Interino
1726 - 1732 Paulo Caetano de Albuquerque, Governador
1732 - 1738 Rodrigo César de Meneses, Governador
1738 - 1748 João Joaquim Jacques de Magalhães, Governador
1748 - 1749 Fonseca Coutinho, Governador Interino
1749 - 1753 António de Almeida Soares Portugal, Marquês do Lavradio, Governador
1753 - 1758 António Álvares da Cunha, Governador
1758 - 1764 António de Vasconcelos, Governador
1764 - 1772 Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho, Governador
1772 - 1779 António de Lencastre , Governador
1779 - 1782 José Gonçalo da Gama, Governador
ou João de Câmara, Governador
1782 - 1784 Juntas
1784 - 1790 José de Almeida e Vasconcelos de Soveral e Carvalho Soares de Albergaria, 1.º visconde da Lapa, Governador
1790 - 1797 Manuel de Almeida e Vasconcelos de Soveral, 1.º conde da Lapa, Governador
1797 - 1802 Miguel António de Melo, Governador
1802 - 1806 Fernão António de Noronha, Governador
1806 - 1807 ..., Governador
1807 - 1810 António de Saldanha da Gama, Governador
1810 - 1815 José de Oliveira Barbosa, Governador
1816 - 1819 Luís da Mota Feio e Torres, Governador
1819 - 1821 Manuel Vieira Tovar de Albuquerque, Governador
1821 - 1822 Joaquim Inácio de Lima, Governador
1822 - 1823 Junta Provisória do Governo
1823 - 1824 Cristóvão Avelino Dias, Governador
1824 - 1829 Nicolau de Abreu Castelo Branco, Governador
1829 - 1834 José Maria de Sousa Macedo Almeida e Vasconcelos, Barão de Santa Comba Dão, Governador
1834 - 1836 Junta Governativa
1836 - 1836 Domingos de Saldanha Oliveira e Daun, Governador
1836 - 1837 Junta Governativa
1837 - 1839 Manuel Bernardo Vidal, Governador-Geral
1839 - 1839 António Manuel de Noronha, Governador-Geral
1839 - 1842 Manuel Eleutério Malheiro, Governador-Geral Interino
1842 - 1843 José Xavier Bressane Leite, Governador-Geral
1843 - 1844 Conselho de Governo
1844 - 1845 Lourenço Germack Possollo, Governador-Geral
1845 - 1848 Pedro Alexandrino da Cunha, Governador-Geral
1848 - 1851 Adrião Acácio da Silveira Pinto, Governador-Geral
1851 - 1853 António Sérgio de Sousa, Governador Interino
1853 - 1853 António Ricardo Graça, Governador Interino
1853 - 1854 Miguel Ximenes Gomes Rodrigues Sandoval de Castro e Viegas, Visconde do Pinheiro, Governador-Geral
1854 - 1854 Governo Provisório
1854 - 1860 José Rodrigues Coelho do Amaral, Governador-Geral 1.º mandato
1860 - 1861 Carlos Augusto Franco, Governador-Geral
1861 - 1862 Sebastião Lopes de Calheiros e Meneses, Governador-Geral
1862 - 1865 José Baptista de Andrade, Governador-Geral 1.º mandato
1865 - 1866 Conselho de Governo
1866 - 1869 Francisco António Gonçalves Cardoso, Governador-Geral
1869 - 1870 José Rodrigues Coelho do Amaral, Governador-Geral 2.º mandato
1870 - 1870 Joaquim José da Graça, Governador Interino
1870 - 1873 José Maria da Ponte e Horta, Governador-Geral
1873 - 1876 José Baptista de Andrade, Governador Interino 2.º mandato
1876 - 1876 Conselho Governativo
1876 - 1878 Caetano Alexandre de Almeida e Albuquerque, Governador-Geral
1878 - 1880 Vasco Guedes de Carvalho e Meneses, Governador-Geral
1880 - 1882 António Eleutério Dantas, Governador-Geral
1882 - 1882 Conselho Governativo
1882 - 14 de Fevereiro de 1885 Francisco Joaquim Ferreira do Amaral, Governador-Geral
Província de Angola
14 de Fevereiro de 1885 - 1886 Francisco Joaquim Ferreira do Amaral, Governador-Geral
1886 - 1886 Conselho Governativo
1886 - 1892 Guilherme Augusto de Brito Capelo, Governador-Geral
25 de Agosto de 1892 a Setembro de 1893 Jaime Lobo de Brito Godins, Governador Interino
1893 - 1894 Álvaro António da Costa Ferreira, Governador-Geral 1.º mandato
1894 - 1895 Francisco Eugénio Pereira de Miranda, Governador-Geral
1895 - 1896 Álvaro António da Costa Ferreira, Governador-Geral 2.º mandato
1896 - 1897 Guilherme Augusto de Brito Capelo, Comissário Régio
1897 - 1897 Conselho Governativo
1897 - 1900 António Duarte Ramada Curto, Governador-Geral 1.º mandato
1900 - 1903 Francisco Xavier Cabral de Oliveira Moncada, Governador-Geral
1903 - 1904 Eduardo Augusto Ferreira da Costa, Governador Interino 1.º mandato
1904 - 1904 Custódio Miguel de Borja, Governador-Geral
1904 - 1906 António Duarte Ramada Curto, Governador-Geral 2.º mandato
1906 - 1906 Ernesto Augusto Gomes de Sousa, Governador Interino
1906 - 1907 Eduardo Augusto Ferreira da Costa, Governador-Geral 2.º mandato
1907 - 1907 Ernesto Augusto Gomes de Sousa, Governador Interino
Junho de 1907 - Junho de 1909 Henrique Mitchell de Paiva Couceiro, Governador Interino
1909 - 1909 Álvaro António da Costa Ferreira, Governador Interino
1909 - 1909 Conselho Governativo
1909 - 1910 José Augusto Alves Roçadas, Governador-Geral
1910 - 1911 Caetano Francisco Cláudio Eugénio Gonçalves, Governador Interino
1911 - 1912 Manuel Maria Coelho, Governador-Geral
1912 - 1912 Manuel Moreira da Fonseca, Encarregado do Governo
1912 - 1912 António Eduardo Romeiras de Macedo, Governador Interino
1912 - 15 de Agosto de 1914 José Maria Mendes Ribeiro Norton de Matos, Governador-Geral
Colónia de Angola
15 de Agosto de 1914 a 1915 José Maria Mendes Ribeiro Norton de Matos, Governador-Geral
1915 - 1915 Mário Teixeira Malheiros, Encarregado do Governo
1915 - 1915 António Júlio da Costa Pereira de Eça, Governador-Geral
1915 - 1915 Conselho de Governo
1915 - 1916 Francisco Pais Teles de Utra Machado, Governador Provisório
1916 - 1917 Pedro Francisco Massano de Amorim, Governador-Geral
1917 - 1918 Jaime Alberto de Castro Morais, Governador Interino
1918 - 1919 Filomeno da Câmara de Melo Cabral, Governador-Geral
1919 - 1919 António Nogueira Mimoso Guerra, Governador Interino
1919 - 1920 Francisco Coelho do Amaral Reis, Visconde de Pedralva, Governador-Geral
1920 - 1920 Isidoro Pedro Leger Pereira Leite, Governador Interino
1920 - 1921 José Inácio da Silva, Governador Interino
1921 - 1921 José de Abreu Barbosa Macelar, Encarregado do Governo
1921 - 1923 José Mendes Ribeiro Norton de Matos, Alto Comissário
1923 - 1924 Miguel de Almeida Santos, Encarregado do Governo
1924 - 1924 João Augusto Crispiniano Soares, Encarregado do Governo
1924 - 1925 Antero Tavares de Carvalho, Governador Interino
1925 - 1926 Francisco da Cunha Rego Chaves, Alto Comissário
1926 - 1926 Artur de Sales Henriques, Encarregado do Governo
1926 - 1928 António Vicente Ferreira, Alto Comissário
1928 - 1929 António Damas Mora, Governador Interino
1929 - 1930 Filomeno da Câmara de Melo Cabral, Alto Comissário
1930 - 1930 Bento Esteves Roma, Governador-Geral
1930 - 1931 José Dionísio Carneiro de Sousa e Faro, Governador-Geral
1931 - 1934 Eduardo Ferreira Viana, Encarregado do Governo e Governador Interino
1934 - 1935 Júlio Garcês de Lencastre, Encarregado do Governo
1935 - 1939 António Lopes Mateus, Governador-Geral
1939 - 1939 José Diogo Ferreira Martins, Encarregado do Governo
1939 - 1941 Manuel da Cunha e Costa Marques Mano, Governador-Geral
1942 - 1942 Abel de Abreu Sotto Mayor, Encarregado do Governo
1942 - 1943 Álvaro de Freitas Morna, Governador-Geral
1943 - 1943 José Ferreira Rodrigues de Figueiredo dos Santos, Encarregado do Governo
1943 - 1943 Manuel Pereira Figueira, Encarregado do Governo
1943 - 1947 Vasco Lopes Alves, Governador-Geral
1947 - 1947 Fernando Falcão Pacheco Mena, Encarregado do Governo
1947 - 11 de Junho de 1951 José Agapito da Silva Carvalho, Governador-Geral
Província de Angola
11 de Junho de 1951 - 1955 José Agapito da Silva Carvalho, Governador-Geral
1955 - 1956 Manuel de Gusmão Mascarenhas Galvão, Alto Comissário e Governador-Geral
1957 - 15 de Janeiro de 1960 Horácio José de Sá Viana Rebelo, Alto Comissário e Governador-Geral
15 de Janeiro de 1960 - 23 de Junho de 1961 Álvaro Rodrigues da Silva Tavares, Alto Comissário e Governador-Geral
23 de Junho de 1961 - 26 de Setembro de 1962 Venâncio Augusto Deslandes, Alto Comissário e Governador-Geral
26 de Setembro de 1962 - 27 de Outubro de 1966 Silvino Silvério Marques, Alto Comissário e Governador-Geral 1.º mandato
27 de Outubro de 1966 - 1971 Camilo Augusto de Miranda Rebocho Vaz, Alto Comissário e Governador-Geral
Estado de Angola
1971 - Outubro de 1972 Camilo Augusto de Miranda Rebocho Vaz, Alto Comissário e Governador-Geral
Outubro de 1972 - Maio de 1974 Fernando Augusto Santos e Castro, Alto Comissário e Governador-Geral
Maio de 1974 - 15 de Junho de 1974 Joaquim Franco Pinheiro, Alto Comissário e Governador Interino
15 de Junho de 1974 - 24 de Julho de 1974 Silvino Silvério Marques, Alto Comissário e Governador-Geral 2.º mandato
24 de Julho de 1974 - 29 de Novembro de 1974 António Alva Rosa Coutinho, Alto Comissário e Governador-Geral Interino
29 de Novembro de 1974 - 28 de Janeiro de 1975 António Alva Rosa Coutinho, Alto Comissário e Governador-Geral
28 de Janeiro de 1975 - 2 de Agosto de 1975 António Silva Cardoso, Alto Comissário e Governador-Geral
2 de Agosto de 1975 - 26 de Agosto de 1975 Ernesto Ferreira de Macedo, Alto Comissário e Governador-Geral Interino
26 de Agosto de 1975 - 10 de Novembro de 1975 Leonel Cardoso, Alto Comissário e Governador-Geral
10/11 de Novembro de 1975 Independência da República Popular de Angola

A continuação, após a independência, prossegue em Lista de presidentes de Angola.

[editar] Fontes
* http://www.rulers.org/rula2.html#angola
* http://www.worldstatesmen.org/Angola.html
* African States and Rulers, John Stewart, McFarland
História de Angola