segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Angola 1972-1974

Em 1972 -1974 Angola era uma Nação próspera praticamente auto-suficiente em tudo. Tínhamos bons quadros técnicos, serviços de saúde pública e privada, indústrias, agricultura, pescas, minérios, petróleo e diamantes enfim tudo o que uma grande nação poderia ambicionar.


Um sorriso inocente
(foto Net)

Podia-se viajar sem problemas porque a tropa que estava em Angola era mais que suficiente para manter afastados os tais libertadores a soldo das grandes potências e, a prova disso, são as fotografias que podereis ver das minhas viagens ao interior de Angola com a minha família. A viagem que tinha projectado fazer nas próximas férias antes do 25 de Abril seria: Luanda, N'dalatando, Malange, Saurimo, Moxico, Kuito, Huambo, Namíbia, Benguela, Lobito e voltar a Luanda. Infelizmente não passou de um sonho poder voltar a visitar algumas das principais cidades e a beleza da terra que amava e a quem dei os melhores anos da minha vida.

Já não era tão fácil enviar para o exterior o capital das empresas porque havia controle, por isso, havia cada vez mais investimento e a consequente exportação. Havia escolas para todos sem excepção desde o ensino básico até à universidade. Nas repartições públicas os funcionários angolanos pretos e mestiços eram em bem maior número que os brancos. Como em todas as cidades havia os bairros periféricos chamados musseques onde habitavam inclusivamente brancos da classe mais humilde e algumas construções de vários andares como no Prenda onde eu tinha comprado um andar num desses prédios que vedes na fotografia.


Musseque Prenda- Luanda (foto Era Uma vez...Angola, Paulo Salvador)

Alguns comerciantes instalaram-se nesses musseques para maior facilidade de comercialização dos seus produtos junto dos moradores. Foram esses os primeiros a sofrer as represálias e até a morte pelos camaradas assassinos do MPLA. As principais cidades de Angola como Lobito, Benguela, Huambo, Kuito, Lubango, Uige, etc, tinham praticamente o mesmo desenvolvimento de Luanda embora esta fosse a capital. Havia praticamente emprego para todos mesmo para os menos instruídos. No interior de Angola nas povoações mesmo nas mais afastadas cultivavam-se as lavras em paz e colhiam o suficiente para o seu sustento e ainda para trocar ou vender no comerciante mais próximo adquirindo o que necessitavam. Infelizmente, actualmente não o podem fazer porque existem cerca de 18 milhões de minas anti-pessoais espalhadas por todo o lado que fazem milhares de estropeados, segundo estimativas cerca de 30.000.

Existia já uma classe média e média alta de angolanos de todas origens. Poderia dizer-se que Angola era um país rico e se nessa altura lhe fosse dada a independência, tal como foi dada à África do Sul, hoje Angola seria uma das nações mais ricas da costa ocidental de África. Por isso era cobiçada pelas suas riquezas tanto pelos americanos como pelos russos e outros mais.

"Confrontado com 13 anos de guerra colonial e com pressões do Presidente da República, Américo Tomás, Marcello Caetano que sucedera a Salazar, encorajou várias abordagens aos movimentos de libertação ou alguns dos seus dirigente, nos meses que antecederam a revolução. Aparentemente para fazer sair o país do impasse. Exemplo disso era a visita que planeava fazer a Angola no final de Abril de 1974. Dois meses depois de uma longa conversa com o governador geral."

DN, sexta-feira 27/05/2005. Temas do Dia, Bastidores da Política Ultramarina. Marcelllo Caetano admitiu Angola Independente.

Entretanto aconteceu o 25 de Abril e as intenções de Marcello Caetano infelizmente para o povo Angola e para nós, não se chegaram a concretizar.


Marcello tinha planos para a independência de Angola para 1974 (foto DN 27/05/2005)

AS REFORMAS ESTILHAÇAM-SE PERANTE O PROBLEMA COLONIAL

"Com o objectivo de consolidar-se no poder e ampliar a sua base de apoio, Caetano aproveitou as eleições de Outubro de 1969 para consultar a população acerca do problema crucial que o regime enfrentava: a questão colonial. Estas eleições foram realizadas com o propósito de garantir-lhe os apoios necessários: tanto a nível interno, reforçando a sua imagem perante os seus pares da ditadura e legitimando a sua autoridade diante da oposição democrática; e, no âmbito internacional, desanuviando o clima de hostilidade a Portugal, país que cada vez mais sofria críticas em todos os fóruns internacionais. Marcelo Caetano sabia que não iria perder as eleições. O seu prestígio pessoal e, sobretudo, a manipulação do escrutínio garantiam a vitória.

Mas, numa perspectiva história, pode dizer-se que as eleições de 1969 foram um fracasso para Marcelo Caetano. Pois, apesar de muitos dos integrantes das listas da União Nacional serem gente nova, ele teve de integrar nelas declarados inimigos seus que, vinte dias depois de inaugurada a legislatura, provocaram uma votação na Assembleia Nacional a favor da política ultramarina iniciada por Salazar.

Os limites do poder de Marcelo Caetano ficaram claros quando teve de enfrentar a ala mais ortodoxa da ditadura, especialmente por causa das divergências sobre o Ultramar. Para Caetano (assim o disse em Setembro de 1970), a permanência em África justificava-se por causa dos portugueses lá instalados e para fazer face aos compromissos internacionais contraídos pelo Governo. Ainda assim, atreveu-se a assinalar que a independência das colónias não significava a perda da nacionalidade, ideia que os ultras do regime consideravam um sacrilégio, já que, para eles, Portugal, sem as colónias, seria devorado pela Espanha. Nesse contexto, em Dezembro de 1970, o presidente do Governo apresentou na Assembleia Nacional um anteprojecto de Revisão Constitucional, com a intenção de encontrar uma via intermédia entre os deputados liberais e os de extrema-direita e realizar as reformas que considerava necessárias. Deste modo, as modificações que Marcelo Caetano introduziu na Constituição de 1933 diziam respeito à estrutura do Estado. Portugal continuava a ser um país unitário, mas passava a ter regiões autónomas com poderes próprios. O resultado da Revisão Constitucional foi discreto e teve a virtude de não agradar nem à direita nem à esquerda".

http://historiaeciencia.weblog.com.pt/arquivo/041708.html

25 de Abril de 1974

"Aos 25 minutos do dia 25 de Abril, a canção de Zeca Afonso era o sinal para o início do movimento revolucionário militar que poria fim à ditadura. A voz do cantor contestatário significava, para quem sabia, que chegara ao "ponto de não regresso" de uma revolução montada em todos os pormenores. Da Escola Prática de Cavalaria de Santarém, saíram pouco depois efectivos militares, com destino a Lisboa: dois esquadrões, um auto transportado outro de reconhecimento. A coluna sob o comando do capitão Salgueiro Maia, saiu pelo portão da Parada Chaimite, em frente do Jardim da República.

Os oficiais que permaneceram na unidade, liderados pelo major Costa Ferreira, 38 anos, seis comissões de serviço em África, começaram a tomar as disposições necessárias ao que viria a constituir a retaguarda do movimento. A revolta na Escola Prática de Cavalaria iniciara-se, de facto às 21.30 quando o 2º Comandante da unidade, tenente-coronel Sousa Sanches, posto ao corrente de revolução, recusou participar e foi "desactivado"sem grandes problemas. O coronel Augusto da Fonseca Laje, comandante da E.P.C., ausentara-se para Lisboa, por motivos pessoais.

O major Costa Ferreira, em entrevista ao "Diário de Notícias" revelou que o Movimento das Forças Armadas começou a gizar-se em Setembro. Os contactos entre os oficiais revelaram-se extremamente difíceis, sendo necessário recorrer a vários estratagemas. O movimento esteve para concretizar-se a quando da revolta das Caldas da Rainha "e a Escola prática de Cavalaria de Santarém não colaborou apenas por terem surgido dificuldades de ocasião". "No entanto não estava posta de parte a possibilidade do movimento do movimento vir a concretizar-se. Apenas se pretendia encontrar o momento oportuno para isso" – disse, ao redactor do Diário de Notícias, aquele oficial.

O primeiro sinal, "segundo o que estava idealizado" deu-o o locutor dos Emissores Associados de Lisboa, ao anunciar "Faltam 5 minutos para as 23 horas, seguindo-se a canção "E depois do Adeus", interpretada por Paulo de Carvalho. Quando a Rádio Renascença transmitiu a canção de Zeca Afonso, tanto a escola Prática de Cavalaria como em 29 outras unidades militares que apoiavam o Movimento, em toda a Metrópole, se desencadeou a revolução. Os dados estavam lançados.

Em Santarém, patrulhas militares tomaram conta dos pontos estratégicos. O Comandante Militar da cidade, coronel Hugo Leitão, "inteirado do que se passava não opôs quaisquer dificuldades". A população aderiu, de imediato, ao levantamento".

EM LISBOA E NO PORTO A POPULAÇÃO VITORIOU
AS FORÇAS ARMADAS.

"Às quatro da madrugada, o movimento das Forças Armadas dominavam, em Lisboa, os principais órgãos de Poder, enquanto recebia adesões de Norte a Sul da Metrópole. A primeira notícia de revolução foi dada pelo Rádio Clube Português, em poder dos sublevados, que se apoderaram também da Emissora Nacional. Esta transmite contínuos apelos à população para que não saísse à rua e pedia à GNR e à PSP que se rendessem, para evitar o derramamento de sangue. Numa operação perfeitamente sincronizada, grupos militares cercaram os edifícios governamentais, no centro de Lisboa, praticamente dominada quando amanheceu. Militares distribuíam panfletos em que anunciava a finalidade da revolta e as razões desta. A Emissora Nacional recomeçou a funcionar, pouco tempo depois das 8 horas transmitindo o mesmo comunicando que, de 15 em 15 minutos, era difundido pelo Rádio Clube Português, tocando a seguir o Hino Nacional.


25 de Abril de 1974 (foto DN 3/8/2005)

Forças da Escola Prática de Cavalaria, da Escola Prática de Infantaria (Mafra), do Regimento de Engenharia 1 (Lamego) e do Batalhão de Caçadores 5 dominavam a baixa Lisboeta, enquanto forças de Vendas Novas tomam posições do outro lado do Tejo, em Cristo Rei. Unidades da Marinha de Guerra, que aderiu, desde o princípio, na sua quase totalidade, à revolução, evolucionaram frente ao Restelo.

O total das forças que ocuparam o Terreiro do Paço, o Rossio, a Praça do Comércio e outros pontos estratégicos da Baixa cifraram-se em cerca de 600 homens e 50 autometralhadoras e carros de combate. A população lisboeta aderiu, de imediato à revolução por vezes complicando os movimentos das tropas, que seguiam por toda a parte.

Cerca das 11 horas, saíram do Terreiro do Paço três colunas militares com objectivos específicos. Uma de fuzileiros da Armada dirigindo-se para as instalações da DGS; outra tomou por objectivo o quartel da Legião Portuguesa e a terceira o quartel da Guarda Republicana, ao Carmo. Ali se tinham refugiado o Almirante Américo Thomaz, o Sr. Prof. Marcello Caetano e vários membros do Governo. Helicópteros da Força Aérea, sobrevoam o Quartel".


25 de Abril de 1974 (foto Notícia. Angola)

"Às 11.40, o Movimento das Forças Armadas afirma, num comunicado, que "domina a situação de Norte a Sul e dentro em pouco chegará a hora da liberdade". O povo de Lisboa, com evidência para a juventude, apesar dos apelos para que não saia de casa, reúne-se até formar multidão no Rossio e na Praça do Comércio, vitoriando as Forças Armadas. Oferecem cigarros, sanduíches e flores aos militares.

Logo no início da rebelião, os aeroportos de Lisboa, Porto e Faro foram encerrados ao tráfego. Ao amanhecer, os barcos estrangeiros surtos no Tejo receberam ordens para levantarem ferro. A fronteira com a Espanha está, também encerrada.

Às 14 horas o movimento militar está praticamente vitorioso em toda a Metrópole. O General Costa Gomes assume a chefia da 2ª Região Militar (Porto), sem encontrar, praticamente, oposição. Em Viseu, o Regimento de Infantaria 14 anuncia a sua adesão à revolta e sai do quartel, para se juntar a outras unidades militares, também sublevadas, que avançam para Sul. Em Coimbra não se vislumbra movimento de tropas.

Apenas, quase por toda a parte, se levantam dois pólos de resistência: a Guarda Nacional Republicana e a DGS., que várias vezes salvaram de "apertos" os regimes de Salazar e de Marcelo Caetano. Da parte do Exército houve um sinal de resistência inicial à sublevação quando o comandante de uma unidade constituída por cinco carros de combate, que tomara posições perto do Rossio, ordenou fogo contra as tropas sublevadas. Não foi obedecido.

Até à 16 horas, o Movimento das Forças Armadas consolida as suas posições. Oficiais da Escola Prática de Cavalaria ocupam o Ministério da Defesa, dominando todo o edifício sem oposição todo o edifício. São presos então os Chefes de Gabinete do Ministro do Exército, General Luz Cunha e do Secretário de Estado da mesma pasta, além de outros oficiais que se mantinham fieis ao regime de Marcello Caetano. O Ministro da Defesa, do Exército, das Corporações e do Interior, que dali tentavam fazer face à revolução, ao verem perdida a esperança de um "volte-face" escaparam por um buraco aberto numa parede.(...).

Os 180 agentes da DGS presos no dia anterior nas instalações da Rua António Maria Cardoso seguiram às 0.45 da madrugada para a prisão de Caxias onde ficaram internados".

In "Notícia", O Jornal de João Charula de Azecedo, Nr.752-Luanda.


25 de Abril de 1974 (foto DN 4/8/2005)

Diário de Notícias, 4 de Agosto de 2005. 1975 - Verão Quente. O Estado transformou-se no maior conglomerado da Europa ocidental, com grandes, média e pequenas empresas espalhadas pelo País. Para os historiadores, as nacionalizações são a continuidade do peso do Estado na economia herdada da ditadura. Para outros, tratou-se de corte no dinamismo de certos grupos empresariais cujas consequências o País, ainda hoje, está a pagar.

O Estado nacionalizou um terço da economia.

Luis Miguel Viana.

Em 1975, de um momento para o outro, o Estado português viu-se proprietário de 1300 empresas empresas. De alguns potentados industriais, certamente, de empresas de sectores estratégicos para qualquer economia. Mas também de barbearias na baixa de Lisboa, de restaurantes nas maiores cidades, de alguns hotéis, de modestas fábricas de transformação de tomate e de um cortejo muito pitoresco de pequenas e médias empresas espalhadas pelo País vieram ao arrasto da nacionalização dos grandes grupos. Estes, muito dentro do espírito da época, tinham tentado diversificar o mais possível a sua actividade, penetrando em sectores completamente diversos no negócio de origem.

A seguir ao Verão Quente quando terminou o Processo Revolucionário em curso (Prec), o Estado Português tinha-se transformado no maior conglomerado da Europa, no maior grupo empresarial fora dos países de economia planificada. Falou-se num peso de 30% do PIB nacional, cálculos mais recentes apontam para um VAB das empresas públicas sobre o PIB de 19,8% em 1976, contra 24,7% da Itália e 12,0% da França - embora nestes países o Estado não detivesse monopólios de sectores vitais, como a banca. (...) TRADIÇÃO ESTATISTA. Em 1975, no 11 de Março, quando se derrotou o alegado golpe golpe dos spinolistas que permitiu ao PCP empurrar o Governo de Vasco Gonçalves e o Movimento da Forças Armadas (MFA) para a estatização de empresas, Portugal não era uma economia liberal. Pelo contrário: apesar da sua matriz predominantes privada, organizara-se num modelo fortemente condicionado pelo Estado, quer como cliente, quer como regulador, quer, sobretudo, como protector das pressões da concorrência externa.(...)


Documento redigido pelos oficiais moderados do MFA,
com Melo Antunes à frente, apressou a sua queda (foto DN 7/8/2005)

Diário de Notícias, 7 de Agosto de 2005. 1975 - Verão Quente. A 7 de Agosto, há exactamente 30 anos, um grupo de oficiais pertencentes ao Conselho da Revolução entregava ao Presidente da República e fazia distribuir pelo País um documento que denunciava a extrema-esquerda política e militar, abrindo ainda mais fracturas no Movimento da Forças Armadas. Foi um marco decisivo para travar a influência comunista em Portugal. "Segundo justificou Vasco Lourenço, o Documento dos Nove foi um "grito de revolta" destinado a separar o Movimento das Forças Armadas da estratégia comunista".

Documento dos Nove. O diagnóstico de Melo Antunes. ESTADO."Verifica-se a progressiva decomposição das estruturas do Estado. Formas selvagens e anarquizantes de exercício do poder fora-se instalando um pouco por um toda a parte (até no interior das Forças Armadas)." MFA. "O Movimento das Forças Armadas, que inicialmente se havia afirmado como suprapartidário, viu-se cada vez mais enleado nas manipulações políticas de politiqueiras de partidos e organizações de massas, acabando por se ver comprometido com determinado projecto político (do PCP)."

ENONOMIA. "Aproxima-se o momento mais agudo duma crise económica gravíssima, cujas consequências não deixarão de se fazer sentir ao nível duma ruptura, já inicialmente, entre o MFA e a maioria do povo português." DESCOLONIZAÇÃO. " A fase mais aguda da descolonização (Angola) chega sem que se tenha tomado em consideração que não era possível "descolonizar", garantindo uma efectiva transição pacífica para uma verdadeira independência, sem uma sólida coesão do poder político."

COMUNICAÇÃO SOCIAL. "Larga parte dos meios de comunição social (sofre) de um rígido controlo partidário que sobre eles se exerce - particularmente nos nacionalizados -, assistindo-se hoje ao degradante espectáculo da corrida de uma boa parte da população aos noticiários de emissoras estrangeiras sobre o nosso País." SOCIALISMO. "É necessário denunciar vigorosamente o espírito fascista subjacente ao projecto que, dizendo-se socialista, acabará numa ditadura burocrática."


Último governo de Vasco durou menos de um mês. (foto DN 8/8/2005).

"DN 8/8/2005. 1975 Verão Quente. Logo no momento da posse, o presidente Costa Gomes anunciou ao País que seria um Governo de "passagem". Esta previsão, que deixou estupefacto o primeiro-ministo Vasco Gonçalves, confirmou-se por inteiro: antes do fim do mês, era anunciada a demissão do Executivo. Foi um dos governos mais breves de que há memória em Portugal. E também um dos mais polémicos.

Pedro Correia.

Havia dúvidas? Deixou de haver. No próprio discurso da posse, o presidente da República deixou claro que aquele era um Governo "de passagem". O primeiro-ministro Vasco Gonçalves, que não fora informado desta intervenção do general Costa Gomes, ficou perplexo. E o País testemunhou em directo essa perplexidade através das imagens da RTP. Era a investidura do V Governo Provisório - o último em que o PCP teve uma influência determinante. Faz agora 30 anos.

Este controverso Governo foi de imediato considerado "um nado morto". Por personalidades tão diversas como o lider do PS, Mário Soares, o major Melo Antunes (que liderava a ala moderada das forças armadas) e o secretário-geral do MRPP, Arnaldo Matos. Portugal estava sem executivo desde que os socialistas abandonaram a coligação governamental a 10 de Julho. Seis dias mais tarde, com a saída do PPD, o IV Governo Provisório chegou ao fim. Seguiram-se três semanas de imensas negociações para formação de um novo elenco ministerial. Vasco Gonçalves, que chefiara três Executivos desde Julho de 1974, estava politicamente ferido de morte. Mas recusava sair de cena.


Otelo com Rosa Coutinho (foto DN, 8/8/2005)

Socialistas e sociais-democratas desciam diariamente à rua, reclamando um Executivo que reflectisse os resultados eleitorais (no escrutínio para a Assembleia Constituinte, a 25 de Abril, o PS fora a força mais votada, com 38%, seguindo-se o PPD, com 26%). Na cimeira de Helsínquia, em Julho, Costa Gomes escutara severas palavras de líderes europeus contra um regime socialista decalcado do Bloco de Leste. E na véspera da posse do V Governo, nove oficiais que integravam o Conselho da Revolução tinham divulgado um comunicado que denunciava a contínua erosão do poder político e a quebra do tecido social português. (...)"

SAÍDA DE MARCELLO CAETANO

"Marcelo Caetano foi induzido pelos próprios sistemas de segurança a dirigir-se para o Quartel do Carmo, que se transformou no ponto central das operações militares. Ao princípio da tarde, Salgueiro Maia, comandante dos revoltosos no local, dispôs as forças em posição de cerco e preparou-se para a queda do último símbolo do regime. O povo de Lisboa, figurante activo e cada vez mais interveniente, respondia com crescente entusiasmo ao teor dos comunicados transmitidos e aos objectivos políticos do MFA. Do posto do comando, instalado no quartel do Regimento de Engenharia 1, na Pontinha, o MFA procurou conduzir a acção militar e pôr fim à expectativa.

Entretanto, no próprio Quartel do Carmo, efectuou-se um contacto entre o general Spínola e Marcelo Caetano, ficando deste encontro a expressão deste último ao afirmar que preferia entregar o poder a alguém que lhe desse garantias, em vez de deixar que caísse na rua. De certa forma, formalizou-se neste cenário a queda do governo, com a prisão de Marcelo Caetano e de alguns Ministros.

Ao princípio da noite, o MFA divulgou a sua proclamação, primeiro documento programático preparado antecipadamente e que continha as intenções fundamentais do movimento militar: entrega do Governo a uma Junta de Salvação Nacional, próxima difusão de um programa do MFA, restituição ao povo português das liberdades cívicas e eleição de uma Assembleia Nacional Constituinte".

http://jn2.sapo.pt/secdiv/especial/angola1.htm

MARCELLO CAETANO ENTREGOU A SUA RESIGNAÇÂO AO CAIR DA NOITE

"O Movimento da Forças Armadas emitiu às 20 horas o seguinte comunicado: "O Movimento das Forças Armadas informa que se concretizou a queda do Governo, tenho sua excelência o Prof. Marcello Caetano apresentado a sua rendição incondicional a sua excelência o general António Spínola.

O ex-presidente do Conselho, o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e o ex-ministro do Interior encontram-se sob custódia do Movimento, enquanto sua excelência o almirante Américo Thomaz e alguns ex-ministros do Governo se encontram refugiados em dois aquartelamentos que estão cercados pelas nossas tropas e cuja rendição se aguarda para breve.

O Movimento das Forças Armadas agradece a toda a população o civismo e a colaboração demonstrados, de maneira inequívoca, desde o início dos acontecimentos, prova evidente de que ele era o intérprete do pensamento e dos anseios nacionais. Continua a recomendar-se a maior calma e a estreita obediência a todas as indicações que forem transmitidas. Espera-se que amanhã a vida possa retomar o seu ritmo normal por forma a que todos, em perfeita união, consigamos constituir um futuro melhor para o País. Viva Portugal".


General Spínola, proclamação da Junta de Salvação Nacional.
( foto Prov. Angola 26/04/1974)

PROCLAMAÇÃO DA JUNTA DE SALVAÇÃO NACIONAL

"Spínola proclamado Chefe da Nação Portuguesa e Presidente da Junta de Salvação Nacional. É a seguinte a constituição da Junta de Salvação Nacional: general António de Spínola, que preside à Junta; general Costa Gomes; brigadeiro Jaime Silvério Marques; coronel Carlos Galvão de Melo; general Manuel Diogo Neto, ausente da Metrópole; capitão de mar-e-guerra José Baptista Pinheiro de Azevedo e capitão-de-fragata António Alva Rosa Coutinho".

A formação da Junta de Salvação Nacional

Fora inicialmente acordada uma formação em que interviriam seis elementos, um de cada ramo das Forças Armadas. Contudo surgiu a necessidade de integrar um sétimo membro, pois a um deles estaria reservado o cargo de Presidente da JSN acumulando com a função de Presidente da República a título provisório. Tal desempenho estaria reservado a Costa Gomes, cabendo a Spínola a chefia do Estado-maior das Forças Armadas.

A princípio só generais integrariam a Junta por questões de hierarquia. Era fundamental que todos possuíssem estrelas nos ombros para, desde logo, se situarem em plano de igualdade com Spínola não permitindo que a ditadura militar vingasse pela mão deste general.

Spínola não aceitava a participação de qualquer general que tivesse feito parte da Brigada do Reumático. O sétimo elemento escolhido acabou por ser Jaime Silvério Marques. A par deste compunham a Junta Militar: Spínola e Costa Gomes do Exército, Pinheiro de Azevedo e Rosa Coutinho por parte da Armada e Costa Martins e Galvão de Melo em representação da Força Aérea, todos eles exibindo nos ombros as estrelas de general.

MENSAGENS DIRIGIDAS AO POVO DE ANGOLA PELOS GENERAIS ANTÓNIO DE SPÍNOLA E COSTA GOMES.


(fotos Notícia - Angola)


Santos e Castro o último Governador de Angola.
(foto Notícia-Angola)

UM GOLPE CAÍDO DO CÉU

"O 25 de Abril surpreendeu tudo e todos em Angola. Luanda vivia a vida cosmopolita de uma capital colonial, e só uma meia dúzia de dias depois, em princípios de Maio, no Zaire e na Zâmbia, os movimentos de libertação reagem ao golpe militar em Portugal, com proclamações de continuação da luta até à independência total. Ironicamente, o golpe em Portugal haveria de conceder-lhes um protagonismo que estavam longe de ter conquistado.

José Gomes

As promessas de continuação da guerra com que o MPLA, a FNLA e a UNITA reagiram ao golpe em Portugal, diga-se em boa verdade, não tiravam o sono a ninguém.

Em 1974, a luta de libertação atravessava um período crítico: o Exército português controlava militarmente todo o território - as operações tinham cessado em 1972 e a livre circulação era um facto.

Após o surgimento, em meados dos anos 60, de actividade militar no interior - O MPLA abre em 66 a Frente Leste, a UNITA ataca Vila Teixeira de Sousa, na fronteira catanguesa, em fins de 65 -, os movimentos encontravam-se minados por profundas crises internas.

Neto mandara fuzilar, dois anos antes, vários comandantes no Leste, após a revolta dos Bundas, e o movimento está recuado na Zâmbia, envolvido num debate interno para a revitalização daquela frente. Chipenda proclamara no ano anterior a cisão, em protesto contra a assinatura, por Neto e Holden Roberto, do inesperado acordo para a criação do Conselho Supremo para a Libertação de Angola.

Mais tarde, já em 74, mas ainda antes do 25 de Abril, virá a surgir uma outra facção, a Revolta Activa, propondo amplo debate para a redefinição da estratégia da luta de libertação.
Pelo lado da FNLA, as coisas não estavam melhores. Apesar de se saber que o movimento, com apoio de Mobutu, estava a formar no Zaire um exército de 9.000 homens, treinado por instrutores chineses e bem armado, Holden Roberto estava precisado de quadros dirigentes. Mandara fuzilar, após a revolta de Kinkuzo, no Zaire, em princípios de 72, dezenas de oficiais do seu Estado-Maior, e vários outros haviam fugido para Brazzaville.

A UNITA encontra-se no interior, abaixo da linha do caminho-de-ferro de Benguela, sem actividade militar conhecida".

http://jn2.sapo.pt/secdiv/especial/angola1.htm

http://pissarro.home.sapo.pt/memorias14.htm

UMA REVELAÇÃO INÉDITA







(DOIS E-MAILS QUE FAZEM HISTÓRIA
José Augusto Fortes de Sá Viana Rebelo
e
Carlos Mário Alexandrino da Silva)

DOCUMENTO Nº 01

To: Carlos Mário Alexandrino da Silva (E-mail)
Sent: Monday, September 17, 2001 12:00 PM
Subject: Salazar.doc

Meu Caro Professor e Amigo,

Como decerto sabe, se a herança de meu Pai foi parca em fidúcia e em bens materiais, não o foi em bens morais e em testemunhos de uma época em que viveu e em que trabalhou para Portugal.

A maior parte desses testemunhos me foi transmitida verbalmente, a seu tempo, e muitos deles eventualmente se esfumarão na minha memória. Outros, porém, deixou escritos e talvez um dia os mande publicar.

Entretanto um deles, por inédito, por se referir a uma independência de Angola e por ter sido por si testemunhado, merece que o transcreva e envie. Dele poderá fazer o uso que por bem entender. Gostaria, no entanto que o comentasse para mim.

Com um abraço amigo,

José Augusto Rebelo


Testemunho escrito por Fernando de Sá Viana Rebelo em 1979. Este texto insere-se num conjunto agrupado sob o título "Gente que conheci" e está intitulado "Salazar":

"Quando tomei posse do cargo de Vice-Presidente da Comissão Provincial de Angola da União Nacional, o Dr. Castro Fernandes, Presidente da Comissão Executiva da U.N. levou-me, a mim e aos restantes membros angolanos, ao Forte de S. João do Estoril, a fim de visitarmos Salazar".

Comigo, iam os Dr.s Neto de Miranda (a), Penha Gonçalves (b), Aníbal de Oliveira (c), Carlos Alexandrino da Silva (d) e Eng. Bessa Victor (e).

Entramos em uma sala modesta com uma mesa grande ao meio, em redor da qual nos sentamos. Pouco depois chegou Salazar que nos cumprimentou fitando-nos bem nos olhos, penetrantemente.

O Dr. Castro Fernandes apresentou-nos e disse que tínhamos ido ali para o cumprimentar.

Salazar, sorridente, respondeu afectuosamente e depois, um a um, perguntou o que fazíamos e quais eram os nossos propósitos.

Chegada a minha vez, deteve-se mais, dadas as múltiplas funções que desempenhava, como Vice da U.N., Vice da Associação Industrial de Angola e Representante da Companhia Mineira do Lobito.

Fiquei, então, a reconhecer o conhecimento profundo de Salazar sobre as coisa e gentes de Angola, citando nomes, funções e até números.

Em certo momento, perguntou-nos de chofre:

- Que pensam duma possível independência de Angola?

Ficamos todos calados sem saber que atitude tomar.
Salazar, curioso, fitando-nos por cima dos óculos, insistiu na pergunta.

O Dr. Castro Fernandes resolveu, então, responder por nós, porém Salazar, com um gesto, dissuadiu-o. Queria uma resposta nossa.
Em face do silêncio dos outros, comecei:

- A independência é inevitável. Angola cresce e com ela a ambição de nos governarmos sozinhos, embora ligados sempre a Portugal por laços não só afectivos e culturais como comerciais. Queremos, no entanto, uma Angola para todos, brancos, pretos e mestiços, em que não haja maioria de cores, mas maioria de idéias.

E espraei-me com entusiasmo sobre este assunto que me apaixonava, não obstante os acenos dos Dr.s Castro Fernandes e neto de Miranda para que parasse.

Salazar olhava-me impassivelmente, enquanto eu falava, e eu não sabia se estava a agradar-lhe ou não, nem, na altura me importei.

Ele perguntara e eu respondia com a minha verdade, que poderia não ser igual à sua. Quando esgotei a argumentação, fez-se um silêncio gelado e eu senti-me isolado, talvez mesmo arrependido.

Salazar falou então, pausadamente, como quem está dando uma lição:

Há bastante tempo que pensava na autonomia de Angola conducente à independência, no entanto achava que era cedo para tal se concretizar porque reconhecia que Angola e sobretudo Moçambique, que, inevitavelmente, desejaria seguir Angola, não tinham ainda uma elite capaz de, em todos os escalões, as governar, quer branca, quer preta, Havia falta de gente em quantidade e em qualidade, pois nada garantia que, entre os portugueses de Angola, todos aderissem à independência e se assim fosse essa pequena elite ficaria mais desfalcada. Por outro lado, a ONU só aceitaria uma independência com "os pretos governando" e isso poderia ser perigoso para a estabilidade da província. Assim, era preferível adiar a solução para tempos mais calmos e, quanto á guerra, não temia os resultados, pois seria ganha por quem melhor resistisse e em Portugal havia divisas necessárias para a prolongar anos e anos. Os Movimentos cansar-se-iam. O que receava era a retaguarda. Essa sim poderia ruir e então aconteceria o imprevisível, talvez o descalabro do país.

Não disse se lhe agradou, ou mesmo se concordou com a minha exposição. Ouvira e dera a sua opinião, depois da qual se despediu, acompanhando-nos amavelmente até quase ao portão de saída.

Quis tirar, conosco, uma fotografia, mas o Dr. Castro Fernandes não previra o seu desejo e não havia fotógrafo.

Tive pena de não ter um retrato com Salazar, homem que admirava e hoje depois de tanto ter visto, mais admiro."

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(a) Gustavo Neto de Miranda - julgo que ex-Juiz e, à época Presidente do Conselho de Administração da ANGOL (empresa petrolífera de Angola). Regressou a Portugal.

(b) Penha Gonçalves - brilhante advogado com escritório em Luanda. Era de origem indiana. Ainda tentou continuar em Angola. Perante a impossibilidade de uma vida tranqüila, motivada pela guerra civil, julgo que terá regressado a Portugal. Tinha uma família exemplar.

(c) Aníbal de Oliveira - se bem me lembro também era advogado, embora com pouca expressão;

(d) Carlos Alexandrino da Silva - Limitar-me-ei a dizer que era um dos homens a quem meu Pai queria bem, colocando-o no rol dos seus amigos.

(e) Bessa Victor - Engenheiro ligado às Obras Públicas (julgo que em nível de Diretor). Se bem me lembro, depois da independência de Angola, e a serviço do Governo do MPLA, assumiu a Direção de Aeronáutica Civil.


DOCUMENTO 02

To: José Augusto Fortes de Sá Viana Rebelo - Ilmo Prsidente da Câmara de Comércio Luso-Brasileira do Estado de Minas Gerais - Brasil
E-mail: Monday, September 7/2001

Meu Caro Amigo Dr. José Augusto:

Quero manifestar-lhe o meu profundo agradecimento pelo envio que se dignou fazer do conteúdo histórico, valiosíssimo, de um documento deixado pelo seu ilustre e valoroso Pai e meu maior e mais saudoso AMIGO Dr. Fernando de Sá Viana Rebelo, figura de PORTUGUÊS honradíssimo que amava acrisoladamente a Pátria que o ÉPICO cantou de forma poemática, tão nobre e expressiva, exaltando assim um dos mais gloriosos capítulos da sua história nacional.
Confesso que eu próprio já havia esquecido esse episódio do encontro que tivemos com Salazar e que deve ter ocorrido em 1965 ou 66 ( a memória está me faltando, é o fim a aproximar-se...), pelo que reconhecido lhe ficaria se, compulsando as memórias do seu finado progenitor, pudesse ajudar-me a localizar no tempo esse histórico evento em que de facto tomei parte- o que muito me honra e mais ainda a referência feita à minha pessoa, como Amigo, escrita pelo punho dessa grande figura da História de Angola na era colonial, que foi o Dr. Fernando de Sá Viana Rebelo, um autêntico Português Ultramarino, apaixonado por Angola e pelas suas gentes, que se orgulhava de sua ascendência miscigenada com forte raíz timorense. Lembro-me agora que seu Pai me avisou telefonicamente na véspera da partida para Lisboa, indicando-me o Barbosa Rodrigues ( diligente caboverdiano, chefe da secretaria da Comissão de Província da UN que trabalhava por ele e pelo "Secretário" Dr. Jerónimo da Silva Rolo, alto funcionário da Junta Provincial de Povoamento e mais tarde servidor do MPLA depois do "25 de Abril", personagem bem remunerado mas teimosamente ausentista e que era afilhado do presidente Neto Miranda de quem fora secretário quando este governara o Kuanza Sul ) para eu ir pegar o bilhete de passagem aérea da TAP. Recordo-me também, graças ao documento de que acaba de me dar notícia, dessa inusitada pergunta que Salazar nos fez e a que, a contragosto dos Drs. Castro Fernandes e Neto de Miranda, cujos semblantes e gestos se mostraram discordes, afoitamente seu Pai ousou desenvolver uma pronta e objectiva resposta, afirmativa e inequívoca, com a qual eu e o Bessa Victor, euroafricano, demos, como angolanos, pronto respaldo sorrindo-lhe com agrado e corroborando-o com meneios de cabeça antero-posteriores, em sinal de aprovação, o que parece ter escandalizado, como mais tarde eles nos fizeram sentir em críticas veladas, aos demais membros da comissão de província, nossos colegas. Felicitamos o seu Pai à saída do Forte de São João do Estoril mas o mesmo não se ouviu do Gustavo Neto de Miranda, que gostava de agradar ao então ministro do Ultramar Silva Cunha, totalmente alérgico a que se falasse em independência de Angola ou Moçambique; talvez porque em ambas essas províncias ultramarinas o seu ex-patrão (que continuava lhe enviando mensalmente, ao gabinete do MU, o cheque do pró-labore, ao portador e nunca nominal, em mãos do meu colega de curso, do ISCSPU/UTL, Dr. Eduardo Custódio Silva, chefe de secção da Companhia de Cimentos de Moçambique) Antônio Champallimaud, tinha vultosos investimentos cimenteiros, bancários, etc...
Se desejar poderei enviar-lhe uma fotografia do engº Bessa Victor que ainda conservo comigo. A respeito dessa pergunta de Salazar confesso que não me surpreendeu porque, conforme relato num dos meus trabalhos editados na secção Ecmnésia Histórica Colonial do portal www.portugal-linha.pt, três ou quatro anos antes (ou talvez em 61?), quando eu era funcionário do Gabinete dos Negócios Políticos do MU, recebi ordem do inspector superior Dr. Alexandre Ribeiro da Cunha, ex-secretário de Salazar, entre nós funcionários do GNP mais conhecido por "careca gajão", para, às pressas (estávamos na hora de almoço, que não...tivemos!), elaborar um artigo que seria publicado em editorial do jornal diário matutino O SÉCULO, de Lisboa, focalizando a crescente tendência da política ultramarina em curso para um processo progressivamente autonômico, reconhecendo-se assim, através de medidas cada vez mais liberalizantes, a inevitabilidade da independência a longo prazo, quando houvesse élites preparadas e seus povos estivessem maduros para isso, dos territórios do Ultramar, o que deveria acontecer, como se ousava sublinhar nesse "editorial", no quadro de uma ligação sentimental, política, cultural e econômica com Portugall.
Ribeiro da Cunha ordenou que a 3ª oficial Maria de Lurdes Guerra Ferreira, que era uma excelente dactilógrafa e me secretariava no gabinete de imprensa e radiodifusão nacional e estrangeira do GNP/MU, por mim chefiado, permanecesse no Ministério nesse tempo de hora do almoço pois queria que eu lhe apresentasse o pretendido texto, pronto, até às 15 horas quando ele iria pegá-lo a fim de levá-lo pessoalmente ao presidente do conselho de ministros Prof. Antonio de Oliveira Salazar, que lhe incumbira de providenciar a urgente elaboração desse artigo para, repito, publicação no dia imediato. Não me explicou a razão dessa pressa. Não pude sequer rascunhar esse texto, o tempo urgia, ditei-o de improviso, tal como fazia com a resenha semanal de imprensa e radiodifusão estrangeira (a nacional estava a cargo de um colaborador eventual, muito competente e dedicado- o Nuno Múrias, filho do Dr. Manuel Múrias - director do Diário da Manhã - que substituiu o jornalista Freitas da Costa, primo do primeiro director do GNP e SubSecretrário de Estado de Administração Ultramarina, na pasta sobraçada pelo Prof. Adriano Moreira, Dr. João da Costa Freitas); essa resenha, cuja lista de distribuição era restricta, confidencial e comentada, destinada somente aos Presidentes da República e do Conselho de Ministros e às mais altas esferas governamentais e militares, Defesa Nacional e governadores das províncias ultramarinas, ocupava cerca de 50 páginas impressas mas chegava a ter 80 a 90 páginas ciclostiladas, que a já citada funcionária ia digitando na máquina, usando uma folha de stencyl e o verniz sempre que, a cada lida por ela feita em voz alta, eu lhe introduzia correcções ou alterações. Entreguei-lhe o texto à hora já referida; ele leu-o, achou bem, não fez alterações apenas dizendo que estava conforme aos tópicos que me fornecera para eu os desenvolver; mais tarde, cerca das 18 horas (eu e a Maria de Lurdes ficávamos sempre no serviço, de 2ª a 6ª feira, até cerca das 22h30, hora a que Silva Cunha saía do seu gabinete para se recolher a casa - e entrementes poderia pedir qualquer artigo, notícia ou recorte de jornal nacional ou estrangeiro... embora jamais nos pagasse por isso horas extraordinárias) veio felicitar-me, limitando-se a destacar que o senhor presidente tinha gostado do meu trabalho. No dia seguinte, quando de manhã cheguei ao gabinete, a Maria de Lurdes Ferreira trouxe-me o jornal O SÉCULO em que, na primeira página, em espaço editorial e com título alusivo ao tema progressiva autonomia das províncias ultramarinas, focalizando sobretudo Angola e Moçambique, vinha publicado o texto que eu havia elaborado, de viva voz, na tarde anterior... Logo, afigura-se-me que existia realmente uma idéia, não declarada aos quatro ventos, desse estranho personagem que era Salazar, inspiração prudente quiçá consequente do alerta dado pelos trágicos acontecimentos de 15 de Março de 1961 no Norte de Angola, de algum dia ser esse o destino das possessões ultramarinas - a independência certamente dentro de uma união de estados lusófonos como parecia ser, presumo eu, o grande sonho do "António da Calçada da Estrela" apoiado pelo presidente do Senegal Dr. Leopold Sedar Senghor. -.

Mereciam ser publicados esse e outros documentos que fazem parte do acervo de memórias do seu nobre progenitor que tão injustiçado foi (negando-se-lhe Direitos constituídos e obrigando-o à diáspora) no termo da sua vida . Seria de esperar da figura democrática mais grada da plêiade política da nova democracia lusitana {mas não mais democrática do que o seu Pai, a quem não havia angolano -europeu, africano ou euroafricano- que, em perigo ou desempregado, não recorresse, confiante, a ele, ou a mim na sua ausência, pois eu, como vogal da comissão de província da UN/ANP e director executivo do respectivo Centro de Estudos Politicos e Sociais, que mais não era do que o oficioso órgão executivo (com um só trabalhador - eu e algumas vezes um ou outro jornalista que me procurava para colaborar) do GT do Conselho de Orientação da Acção Psicológica do GG e do CCFA de Angola, sempre lhe levava ao conhecimento (e não ao do dúplice, oportunista e preguiçoso desembargador Neto de Miranda, que nada fazia de válido ou ... inválido, todos os casos escabrosos ou difíceis, até queixas contra... a PIDE, que ele prontamente resolvia apressando-se a pedir providências ao governador-geral conforme o general Silvino Silvério Marques poderá confirmar} uma atitude nobilitante e justa - a do reconhecimento de que, embora no campo oposto, seu Pai, além de ter prestado altos serviços à sua Pátria jámais foi corrupto, nunca a denegou ou abjurou nem, como eu venho fazendo, se remeteu à crítica mordaz e acusatória mas delatora de verdades históricas inconvenientes ou que maculam a "lusa grei e suas elites" porque desiludido, maltratado pelos do antes e os do depois, e inconformado com a aceitação inconsequente e o aplauso florido de tom rubro da vil traição de alguns pela mesma grei que quatro anos antes enchera as ruas da capital portuguesa para, pesarosamente, ainda que talvez só na aparência, acompanhar com repugnante hipocrisia o funeral de Salazar nos idos de 70; essa mesma afinal inconstante e volúvel grei de que no passado, quando oficial do exército em distantes terras ultramarinas, lá nas proximidades da cordilheira dos Cathay, eu me vangloriara de ser parte integrante!...-. Mas essa(s) figura(s) democrática(s) [M.S.? C.S.?] quando estava(m) em posição de fazer Justiça permitiu(ram) que a perseguição se consumasse, não levando em conta os altos serviços prestados de cabeça erguida pelo seu Pai, ao contrário do que aconteceu com o ex-inspector-adjunto da PIDE/DGS e, depois de "25 de Abril", emigrado e alcandorado a coronel dos serviços da Intelligence sul-africana Alves Cardoso,- um dos dois Cardosos que comandaram os FLECHAS de Angola e de Moçambique- condecorado pelo governo Cavaco e Silva e contemplado com uma pensão de reforma vitalícia pelos também altos serviços prestados, à frente das milícias paramilitares FLECHAS, à Pátria Portuguesa...-. Altos serviços à Pátria Portuguesa, que bem vistas as coisas não apenas o dito Alves Cardoso, ex-capitão ou major miliciano com amizades entre os capitães de Abril, teria prestado mas também alguns outros, dentre os quais sobressaía, com destaque, o seu honrado Pai, que foi incluso numa lista de cento e muitos nomes, publicada nos jornais pela comissão de extinção da PIDE/DGS e de organizações ditas "fascistas" segundo um critério muito arbitrário!, atingindo personalidades que não tinham cometido crtimes contra a humanidade ou de lesa-pátria, e que foram privadas de direitos políticos em 8 de Fevereiro de 1975. Um acto injusto, anti-democrático, doentio e persecutório. Uma vileza do dementado primeiro-ministro cripto(?!)-comunista, fâmulo de Álvaro Cunhal e do seu estalinista PCP pró-soviético, Vasco Gonçalves, revolucionariamente promovido a "general"... que se não fora uma tomada de consciência de alguns oficiais da FA e a prointa actuação do embaixador norte-americano Frank Carlucci (depois...director da CIA) teria levado Portugal para a órbita soviética... Essa clamorosa injustiça foi abafada pelas proclamadas "amplas liberdades democráticas" pós-abrilistas e continua atingindo a memória de seu ilustre progenitor porque, após seu passamento, afecta a situação econômica da sua Exma Mãe.

Com um abraço muito Amigo e grato,
Carlos Mário Alexandrino da Silva

Carlos Mário Alexandrino da Silva
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ANGOLA (AIDA VIEGAS)

Um olhar à distância

Outono

Lobito

A hora da chegada

25 de Abril

Desaparecidos

Retornados

Luanda

Angola

ISBN 972-96850-4-5

Vinte e cinco de Abril

Relembro aquela manhã de vinte e cinco de Abril de mil novecentos e setenta e quatro em que nas escolas, nas ruas, nos mercados, nas esplanadas correu de boca em boca a noticia de uma revolução em Lisboa. A revolução dos cravos lhe chamavam. Nos dias seguintes apareceu nos jornais a célebre imagem dum soldado empunhando uma espingarda com um cravo vermelho enfiado no cano, tendo nos braços uma criança.

A alegria contagiou tudo e todos e logo se começou a falar em independência. Como tudo iria ser melhor! Ar­quitectavam-se sonhos de liberdade e progresso. Uma nova era se vislumbrava no amanhecer dum novo dia. Gente de todas as cores parece que bebia o ar da vitória. A Grande Angola iria ser ainda maior. Quanto não iria valer a moeda angolana!... Até já se faziam câmbios. Repórteres de jornais e revistas vieram para a rua fazer inquéritos.

Quem pretendia a independência? perguntavam. Todos, era a resposta de brancos, negros ou mestiços. Quem queria continuar, em Angola? Todos é claro. Todos estavam empenhados no futuro desta terra; os que cá nasceram e os que a tinham adoptado como sua. Apenas uma minoria de militares, alguns quadros e poucos mais tinham intenção de regressar à Metrópole. Na população em geral uma maior onda de fraternidade mais nos irmanava. A independência tornou-se o tema geral das conversas, falava-se dela apaixo­nadamente

A grande Angola iria ser ainda maior depois que a guerra acabasse e a energia de todos fosse canalizada para o progresso daquela grande Terra.

Aqui e além porém encontrava-se alguém que fugia ao tema deixando intrigados os restantes.

O primeiro de Maio ainda foi festejado em plena harmonia. Ouviam-se na rádio canções revolucionárias e uma delas falava em emalar a trouxa e zarpar. Esta foi comentada num grupo de amigos e os comentários cheiraram-nos a esturro deixando-nos apreensivos. Passados dias começaram a correr rumores de desordens, de levantamentos. Mais tarde Luanda foi visitada por um oficial general das forças armadas, que foi recebido em festa, mas que deixou todos ainda mais apreensivos do que estavam.

As medidas que a partir daí começaram a ser tomadas pelo governo central suscitaram a instabilidade, a anarquia no seio das forças armadas e o medo e o mau estar na popu­lação em geral.

Negras nuvens começaram a adensar-se. As notícias da Metrópole eram controversas. Passámos a estar suspensos da rádio e dos jornais. Foi nomeado um novo governador de Angola. Não tardou muito para que os brancos fossem intimados a entregar todas as armas que possuíam. Bandos de negros de aspecto pouco cordial, surgidos não se sabe de onde, começaram a invadir a cidade gritando slogans revolucionários com ar ameaçador.

Soubemos do desembarque de colunas e colunas de soldados e do mais diverso e sofisticado material de guerra, tudo proveniente da Rússia e de Cuba que atravessavam a cidade e desapareciam num abrir e fechar de olhos não se sabe para onde. Os governantes, tendo conhecimento de tudo o que se passava, procediam como se nada de anormal estivesse a acontecer.

A alegria dos primeiros tempos após o vinte e cinco de Abril, cedo começou a desvanecer-se. Afinal muito poucos estavam informados do que se estava a passar. Apenas aqueles que de início fugiam ao tema da independência e os grupos que iam invadindo a cidade tinham uma vaga ideia do que se congeminava nas costas de todos os angolanos. Os militares falavam em segredo. Alguém ouvira aqui ou ali coisas um tanto ou quanto escabrosas sobre o futuro de Angola mas de nada havia certezas. Talvez não fosse verdade pois era demasiado arrepiante para o ser. O boato passou a ser o pão nosso de cada dia. A instabilidade instalou-se definitivamente. Slogans marxistas, tentando expandir ideias comunistas começaram a surgir criando focos de revolução e guerrilha por toda a cidade os quais começaram a alastrar­-se progressivamente a todo o território angolano. Luanda que desde sessenta e dois até então havia sido poupada à guerrilha, via a violência aumentar agora a cada momento. Angola

Desaparecidos

Cedo me apercebi que o que me contara o Albano fora apenas uma gota de água.

O desaparecimento das pessoas era uma constante; e muitas vezes não eram mais encontradas. Os familiares e amigos moviam todas as influências, deitavam mão de todos os meios ao seu alcance para conseguirem descobrir o paradeiro dos desaparecidos e quando pensavam estar no seu encalço, começava uma saga de desespero e esperanças temperada dum enorme sofrimento causado pela incerteza das reacções imprevisíveis dos raptores e do que eles poderiam fazer com quem raptavam: manter as pessoas den­tro da cidade sem a mínima hipótese de comunicação, torná-las alvo de violações sexuais ou outras, de maus tratos físicos e morais, obrigando-as a ingerir dejectos humanos tal como a alguns prisioneiros que foram retidos durante semanas na praça de touros, aparecerem mortas em qualquer lugar como sucedeu no quintal duma vivenda na Vila Alice onde foram encontrados quatro corpos esquartejados e enfiados numa fossa séptica ou darem-lhes sumiço nas densas matas onde os obrigariam a percorrer distâncias inimagináveis expostos a perigos de toda a ordem e por fim sumirem-nos sem deixar rasto, tal como acontecera meses antes ao casal Figueiredo, o Fausto e a Lucinda quando regressavam da sua fazenda de gado em Nova Lisboa.

A última vez que Matilde e João haviam estado juntos com estes amigos numa festa em casa dos Rodrigues, amigos comuns, o Fausto dissera ao marido de Matilde:

— Não estou minimamente preocupado com a situação, todos os pretos que têm trabalhado comigo continuam meus amigos; pago-lhes bem, sempre os respeitei, como tu sabes, e trato-os como se fossem de família.

Na realidade Fausto era uma excelente pessoa, homem bem formado, andara no seminário até tarde e quando saiu, além de continuar um bom católico era pessoa de fino trato e de um humanismo exemplar. Casara tardiamente com uma mulher já madura, a Lucinda, senhora elegante dona de dois bons colégios em Luanda onde gozava de bastante prestígio pelos cargos de directora dos seus estabelecimentos de ensino. Fausto tinha sido durante vários anos prestimoso funcionário bancário e resolvera há tempos atrás, dar um novo rumo à sua vida afastando-se do banco e dedicando-se à criação de gado numa fazenda que comprara perto de Nova Lisboa. Possuía na altura umas largas centenas de cabeças de gado e andava cheio de entusiasmo com a nova aventura.

Faziam, ele e a esposa, a viagem de regresso a Luanda após terem passado uns dias na fazenda quando foram vistos pela última vez no alto de Cambambe, ao volante do seu mercedes, que haviam comprado meses antes. Nesse local, segundo relato de testemunhas oculares foram interpelados por uma patrulha do MPLA. Constou ainda que se faziam acompanhar por um enfermeiro conhecido de Nova Lisboa, conotado como da Unita. Desconhece-se porém se o facto de terem dado esta boleia teve alguma interferência com o seu desaparecimento, tendo no entanto sido ventilada esta hipótese. O certo é que nunca mais foram vistos. Houve po­rém quem visse o seu carro no Norte, conduzido por um militar do MPLA.

A notícia do seu desaparecimento correu veloz entre os amigos e conhecidos e em breve se espalhou por toda a cidade. Foram tomadas todas as providências, usados todos os meios possíveis e imaginários mas em vão, notícias deles nunca mais. Isto acontecera pouco tempo depois do vinte e cinco de Abril.

Um irmão da Lucinda que vivia no continente ao tomar conhecimento do desaparecimento da irmã e do cunhado deslocou-se propositadamente a Angola onde morara vários anos e onde tinha grandes amizades e influências. Aí chegado, deitou mão de todos os recursos, moveu todas as influências para tentar ao menos descobrir o paradeiro dos familiares, mas nada conseguiu. A irmã sofria de grave doença e supostamente faltar-lhe-iam os remédios que necessitava tomar todos os dias, o que mais aumentava a preocupação da família. Quando passados largos meses de buscas, promessas de ajuda e seguimento de pistas, o irmão da Lucinda estava prestes a desistir alguém lhe lembrou que um Padre vedor, antigo professor e amigo do Fausto talvez o pudesse ajudar.

Numa última tentativa pediu ao sacerdote, já idoso, que se deslocasse a Luanda o que o bom homem fez pron­tamente cheio de vontade de lhes ser prestável.

Foi-lhe entregue uma foto dos desaparecidos e um mapa de Angola e o Padre conseguiu localizá-los através do mapa numa zona de densa mata junto de um rio. Disse ainda parecer-lhe que o Fausto se encontrava de boa saúde enquanto a esposa se lhe afigurava extremamente debilitada. De imediato foi mobilizado um helicóptero e outros meios aéreos que ao fim de algumas horas de busca confirmaram ser verídico o que havia sido diagnosticado pelo padre vedor. Eles lá estavam acampados junto ao rio vigiados por soldados, porém, logo que estes se aperceberam de movimentos aéreos estranhos iniciaram com os reféns a marcha por uma picada e embora seguidos por algum tempo, em breve se embrenharam na mata conseguindo despistar quem os seguia e desaparecendo definitivamente sem nunca mais deixarem rasto algum.

Chorados por familiares e amigos, durante muito tempo pairou em todos uma dúvida de esperança; talvez algum dia voltassem, certamente os turras não os iriam matar. Porque haveriam de fazê-lo? Nunca se meteram em política, o Fausto nem às forças armadas pertencera.

Amigo muito chegado de meu marido tendo sido colegas de estudo, o Fausto, desde que nos encontrámos em Luanda, ainda ele estava solteiro, era visita assídua de nossa casa, companheiro de brincadeiras e compincha de nossos filhos a tal ponto da Clarita o chamar de seu namorado.

Sentimos muito a sua perda e ainda hoje nos custa acreditar em tão fatídico destino.

Este facto, mais vinha provar que não era um comportamento racista ou de injustiça praticada contra os negros que os levava a cometer actos de vingança contra os portugueses.

Estes desaparecimentos de pessoas, antes esporádicos, eram agora o pão nosso de cada dia.

Com receio dos raptos e de muitas outras represálias e crimes os brancos iam sendo corridos das áreas altas e mais dispersas da cidade, abandonando suas casas forçados ou por sua livre vontade, ditada pelos acontecimentos funestos e ataques que dia a dia se intensificavam, levando as pessoas visadas a procurar abrigo em casa de conhecidos, amigos, parentes ou mesmo como nós em hotéis na zona baixa da cidade. Como eu havia previsto, estávamos, pouco a pouco, a ser encurralados, cada vez numa área mais restrita junto ao mar exactamente como os caçadores no mato fazem à caça.

Vindos de todas as partes do território aonde se ia estendendo a guerra, não paravam de chegar a Luanda desalojados e deslocados. Porém, aqui chegados, sem alojamento possível, procuravam protecção junto do palácio do governador, instalando-se nos jardins fronteiriços ao mesmo, amontoavam-se no aeroporto ou na zona de protecção do porto marítimo sempre na esperança de conse­guirem de alguma forma sair deste inferno.

A verdade é que os confrontos eram cada vez mais violentos, o respeito pela vida e pelos direitos das pessoas era letra morta. O roubo, o rapto, as violações, a tortura física, a morte e a justiça popular aplicada arbitrariamente, aumentavam a cada dia que passava. Formaram-se tribunais populares que faziam julgamentos ad hoc.

Os movimentos de libertação travavam entre si acusações mútuas, os acordos não se cumpriam. O MPLA aniquilara quase todas as delegações da FNLA.

No seio das tropas portuguesas sentia-se que se instalara a confusão queixando-se muitas vezes os militares de não saberem a quem obedecer pois em muitas ocasiões recebiam ordens controversas. Ao mesmo tempo muitos se queixavam de lhes estarem a fazer uma autêntica lavagem ao cérebro tentando incutir-lhes ideias marxistas que eles rejeitavam. As pessoas ao sentirem-se atacadas ou em risco pediam auxílio às nossas tropas ou à polícia mas nem uns nem outros conseguiam valer a toda a gente; respondiam sistematicamente que iriam fazer os possíveis, mas nunca chegaremos a saber o que lhes era possível fazer numa situação destas. Certo é que na maioria dos casos o auxílio não chegava. A passividade que, diz-se, lhes era ordenada, de forma alguma podia ser entendida pelos civis em perigo.

A guerra fria que aliás só em sessenta e um se tinha feito sentir em Luanda transformara-se agora em guerra quente e sangrenta acompanhada de todos os horrores que uma guerra traz consigo.

A escolha de uma fuga era cada dia menor. Por terra, ninguém poderia sair de Luanda visto as saídas estarem bloqueadas. Por outro lado ninguém pretendia fazê-lo já que as outras cidades ainda ofereciam menor segurança. As saídas eram pois apenas duas. Uma o mar, com todos os perigos que ele encerra, sobretudo quando enfrentados sem um mínimo de recursos; muitos se fizeram ao mar em traineiras e noutras pequenas embarcações. A outra saída possível era o aeroporto mas este, só para os mais felizardos já que muita gente não possuía meios monetários suficientes para custear o transporte aéreo de toda a família.

De início a maioria das pessoas pretendia um voo da TAP para Lisboa, porém fazia tempo que qualquer destino - Brasil, África do Sul, ou qualquer cidade europeia - servia para sair deste inferno. Não havia avião que levantasse voo de Luanda que não levasse a lotação esgotada. A África do Sul desde inicio ofereceu os lugares vagos nos seus aviões, que escalassem Luanda, para o transporte de refugiados, mas por incrível que pareça o Governo Português começou por não aceitar tal oferta.

Se não fosse mais tarde a ajuda de praticamente todas as grandes companhias internacionais de aviação, que ao aproximar-se a data marcada para a independência colocaram à disposição dos refugidos portugueses, os seus aviões para o seu transporte gratuito para Portugal, e, estou crente forte chacina se teria abatido sobre os portugueses indefesos que ajudaram a levantar, desenvolver e engrandecer esta terra. Muitos aqui teriam perecido, tudo se conjugava para que assim acontecesse.

Havia pouco tempo, ouvíramos em Portugal um dos vultos mais proeminentes da revolução, um dos grandes mentores da entrega apressada das nossas ex-colónias, um dos maiores responsáveis da desgraça de tanto ser humano, desgraça essa que se prolonga já por vinte e muitos anos e Deus sabe por quanto tempo mais... esse mentor da descolonização dizia num acalorado discurso político: «os retornados do ultramar estão a ser para a nação um grave problema, nós nunca esperámos este regresso em massa, pensámos que alguns viriam mas nunca toda esta avalanche e não estávamos minimamente preparados para os receber».

Com esta invasão que vem por aí é que vai ser o bom e o bonito!

Se os políticos arquitectaram tudo para que os por­tugueses não tivessem hipótese de permanecer por mais tempo em Angola com um mínimo de condições e de segurança, digam-me então qual era o destino a que toda a população europeia residente em Angola estava votada pelos governantes?

Se não fosse a ponte aérea posta à disposição dos portugueses residentes em Angola por diversos países nunca teria sido possível saírem daquela terra tantos milhares de pessoas antes da independência, e, permanecendo lá, só poderiam ter vindo a ser carne para canhão.

Durante muitos anos brancos e negros tinham vivido sem conflitos, em harmonia. As relações degradaram-se a partir do momento em que começaram a lavrar, entre as sociedades negras, as ideias de que os portugueses estavam ali a mais, que tudo o que possuíam deveria passar de imediato a pertencer aos negros, que os brancos naquela terra não eram um factor de desenvolvimento mas de atrofia e usurpação, que a independência se deveria fazer apenas com negros, os quais deveriam tomar exclusivamente e de imediato em suas mãos os destinos de Angola. Apoiada a independência por povos “amigos” como a Rússia e Cuba e incentivada pelo governo português, estas ideias rápido proliferaram dando origem a que os brancos começassem a ser escorraçados. A finalidade era banir-nos daquelas paragens não nos restando outra alternativa senão abandonar Angola.

Em todas as circunstâncias a população negra era incentivada contra o branco em geral e o português em particular facto que forçou definitivamente a nossa partida.

Retornados

Há momentos na vida em que tudo se depara negro e a esperança parece irremediavelmente perdida. Se em Angola não poderia continuar, por sua vez em Portugal, quem regressava de África era recebido do pior modo possível; com hostilidade, desdém e mesmo agressividade.

Analisando um pouco a situação logo se chegava à conclusão do motivo pelo qual a maioria dos que agora re­gressavam das ex-colónias, tinham ido lá parar. “Rapidamente e em força para Angola” foi a voz de comando do primeiro ministro português em mil novecentos e sessenta e um, quando ocorreram os fatídicos acontecimentos perpetrados no norte de Angola e extensivos à capital da província. Foi porém demasiado tardia esta ordem.

Se em lugar de ser dificultada a ida dos portugueses do continente para o ultramar como foi durante muitos anos com processos demorados, chegando ao cúmulo de ser necessária uma carta de chamada enviada por um familiar que lá residisse há um certo tempo para que outro membro da família se lhe pudesse juntar, tivessem sido criadas condições de incentivo à ida e fixação de muitos mais portu­gueses para aquelas paragens, talvez as coisas tivessem sucedido dum outro modo. A política ultramarina portuguesa pecou muito por omissão e falta de actualização.

Apesar de tudo a maior parte dos jovens militares que partiram convocados pelo governo da nação seguiu, uns mais receosos que outros, alguns mesmo com uma certa revolta mas a maioria porém, com a noção de que iriam defender uma parte integrante do território nacional, em auxílio dos compatriotas ali nascidos ou radicados cuja integridade física estava a ser ameaçada, enfim, cumprir um dever patriótico ao qual ninguém se deveria eximir. A noção de patriotismo e do cumprimento do dever acompanhou-os e fê-los lutar com valentia no momento da refrega, porém, o conhecimento daquele povo e daquelas terras aos quais, sem dar por isso, se vieram a afeiçoar e a estimar enfeitiçaram muitos deles a tal ponto de trocarem o seu torrão natal por aquelas paragens africanas, elegendo-as, para ali se radicarem e alguns até constituírem família.

Enquanto, até mil novecentos e sessenta e um, grande parte dos colonos que partiram para o ultramar eram gente ligada à terra, que dela viviam e nela trabalhavam, a partir desta data já não era bem assim; muitas pessoas formadas com cursos médios e superiores, quadros qualificados das mais diversas áreas, radicaram-se nos territórios portugueses ultramarinos, facto que deu origem a uma nova maneira de estar, novas formas de vida e um novo desenvolvimento sem precedentes na história daqueles povos.

Matilde chegou a Angola, chamada por seu marido, um dos muitos militares que se deixou enfeitiçar irremediavelmente por África logo após a sua convocatória para a guerra colonial, no ano de mil novecentos e sessenta e um. Ela partiu da metrópole, curiosamente no último voo feito pela TAP num dos antigos aviões de quatro motores a hélice com escala em Bissau, capital da Guiné portuguesa.

Nessa época era costume cantar-se, em todas as escolas de Angola antes do início das aulas pela manhã, o hino “Angola é Nossa”, muito divulgado através de todas as estações de rádio. Angola é nossa gritarei / é carne é sangue da nossa grei / para libertar, para defender, / para lutar até morrer...

Na história de Portugal ensinava-se que Angola bem como todas as outras províncias ultramarinas constituíam parte integrante do grande império português que nos fora legado pelos nossos corajosos e gloriosos antepassados que deram novos mundos ao mundo através dos descobrimentos e eram senhores de aquém e além mar.

A noção de patriotismo do cidadão português, pesava muito na formação dos jovens sendo, como é natural, mais arreigada nos militares, porém, o facto destes terem partido em defesa de um bem comum, começou a esbater-se ao longo dos anos bem como a ligação directa que estas circunstâncias tiveram com a deslocação maciça de muitas de suas famílias para o ultramar.

Os valores da nossa sociedade, com a revolução de vinte e cinco de Abril, estavam a mudar vertiginosamente e nem todos para melhor.

A dificuldade em transferir dinheiro de Angola para o Continente constituiu sempre um obstáculo difícil de contornar à maioria das pessoas que optaram fazer de Angola a sua terra.

A falta de liberdade na circulação de bens entre o ultra­mar e o continente embora fosse justificada, até determinada altura, com a intenção de reter o capital em solo africano para que aí fosse investido, a partir do momento em que se pensou na independência das províncias ultramarinas deveria ter sido de imediato modificada a fim de garantir os direitos dos cidadãos portugueses que lá residiam. Tal medida não tendo sido tomada, originou uma verdadeira catástrofe para quem foi forçado a abandonar África.

Nesta altura dos acontecimentos, dadas as circuns­tâncias das mudanças políticas ocorridas em Portugal, é de todo incompreensível que a transferência de capitais não tenha sido permitida. É intolerável que as pessoas que voluntária ou involuntariamente quisessem abandonar Angola, Moçambique, Guiné ou outra qualquer província não pudessem trazer livremente os seus haveres; dinheiro, carros ou quaisquer outros bens materiais. Prédios, terrenos urbanos ou rústicos, fazendas, fábricas, estabelecimentos, imóveis de qualquer índole, estavam sentenciados a ficar; é mais que evidente que os seus possuidores todos os pretendiam vender mas, em face da situação, não havia quem se interessasse pela sua aquisição.

A maior parte dos bens pertencentes aos cidadãos portugueses foi pura e simplesmente abandonada pelo facto de seus donos não terem outra opção. Chegou-se ao cúmulo de se trocarem carros quase novos por simples volumes de maços de tabaco ou por pequenas porções de determinados alimentos, entre eles o pão, que raramente se encontrava à venda.

Houve quem trocasse fazendas e casas por títulos de hipotéticas transferências bancárias para o continente as quais nunca chegaram às mãos dos seus destinatários. O depósito no banco nunca se concretizou e o paradeiro do burlão na maioria dos casos era desconhecido. Os lesados nunca pode­riam reclamar sob pena de incorrerem em crime punido por lei, sendo acusados de transferência ilegal e fraude, se persistissem na queixa.

No mercado negro os escudos angolanos que em tempos, em momentos de alta, chegaram a trocar-se por escudos portugueses na base dos trinta por cento, o que era escandaloso, estavam agora no mesmo mercado nos setenta, oitenta por cento e nem mesmo assim era fácil conseguir a troca. Para além de todas estas vicissitudes, terem de entregar mil e oitocentos escudos angolanos para receberem mil portugueses, não era fácil de aceitar a pessoas que viviam do seu trabalho.

O facto do Governo Português não acautelar ou, pior ainda, não autorizar a transferência dos bens dos portugueses na altura da descolonização foi uma das maiores injustiças, praticadas por quem mandava e a desgraça de tanta gente, que após longos anos de trabalho, caiu sem culpa nem pecado na mais odiosa das misérias, na pobreza extrema, no desespero, muitos na loucura e até na morte. Foi a situação mais injusta e catastrófica que imaginar se possa!

Dum momento para o outro perderem todos os seus haveres sem nada terem contribuído para essa perda. Serem forçados a abandonar o fruto do trabalho árduo no decorrei de longos anos, de canseiras, vigílias, economias feitas à custa de grandes sacrifícios. Deixarem empresas, fazendas, prédios, terrenos, carros, dinheiro, a própria casa com seu recheio, objectos pessoais, roupas, enfim... tudo, (houve pessoas que, se quiseram salvar a vida, regressaram apenas a roupa que traziam vestida).

Verem-se despojados de quanto haviam adquirido, custa muito a aceitar e, é impossível explicar por palavras a quem o não viveu.

Porém a desventura não se ficou pelo roubo de que foram vítimas.

Para quem espoliado de África, ao chegar a Portugal se encontrava sem nada, sem trabalho e sem dinheiro para fazer face às despesas mínimas, com filhos, dois, três, quatro, que necessitavam de alimentação, casa, roupa, cuidados de saúde, de educação e os demais inerentes à vida. Bater de porta em porta à procura de trabalho, de alojamento e ver as portas fecharem-se-lhe sistematicamente. Tentar junto das instâncias oficiais encontrar soluções para minimizar as causas da tragédia que sobre si se abatera e não conseguir resposta. Ver passarem-se dias, semanas, meses sem vislum­brar a mais ténue luz ao fundo do túnel era duro e de uma imensa crueldade.

O calvário destas gentes no entanto, não se deteve por aqui, continuou no acolhimento de que foram alvo, nos títulos de honra com que foram rotulados: fascistas, colonizadores, desalojados, retornados. Retornados foi ponto assente. No fim de algum tempo ficariam os famigerados retornados.

Foi com muita tristeza e enorme desespero que constataram a hostilidade com que os viam chegar em ava­lanche cada vez mais densa à medida que se ia aproximando a anunciada independência, melhor diria, a desgraça. Desgraça dos retornados, despojados de todos os seus haveres e reduzidos à pobreza, desgraça e condenação definitiva das gentes de Angola.

Para maior desgosto dos já destroçados retornados, muitas pessoas da nossa sociedade achando-se na posse do discernimento, da sabedoria, da justiça nem sequer se davam ao trabalho de camuflar os seus sentimentos de desagrado, passando muitas vezes de hostis a agressoras quer em palavras quer amiúde em actos rancorosos praticados contra irmãos, parentes, amigos, conterrâneos conhecidos ou desconhecidos que despojados de tudo regressavam de África.

Estes ouviam com frequência dizerem-lhes que vinham sem nada porque queriam, ninguém os forçara a ficar por lá. Fora a ganância que os lá retivera. Porque não continuavam lá, se era uma terra tão boa? Claro, porque os pretos os corriam porque estava na cara que os maltratavam, os exploravam, os tinham subjugados na miséria. Toda a gente sabia que fulano, sicrano e beltrano chicoteava os pretos, os roubava, os obrigava a trabalhar como escravos...

Queixavam-se de quê? Só tinham o que mereciam. Aquilo era deles, que queriam os brancos trazer? A África é dos pretos, os portugueses é que estavam lá a mais.

Ainda por cima agora queriam vir tirar o lugar aos que cá estavam, que nunca de cá saíram, porque não eram ambiciosos como eles. Quiseram tudo, tudo haviam perdido. Agora nada tinham que se lastimar.

Chegavam ao cúmulo de lhes dizerem que o que haviam ganhado lá tinha sido à custa dos pretos, portanto era justo que lá ficasse.

Agora virem para cá e querem que o estado (eles, que no fim de contas eram eles) os sustentassem à boa vida! Isso era o que mais faltava! Lá tinham vivido à custa dos pretos, cá queriam viver à custa dos brancos.

Cambada de usurpadores e parasitas, era o que eles eram, acrescentavam quando a discussão subia de tom.

Este clima de acolhimento que nunca esperaram encon­trar, deixava os retornados tristes e exasperados. No entanto, apesar de todo o infortúnio por que estavam a passar, alguns dos que chegavam, mais desprendidos ou com um espírito de humor mais apurado, constituindo uma honrosa excepção, ainda tinham ânimo que, por vezes, lhes permitia brincar com a situação.

Foi o caso duma interessante conversa que Matilde ouviu uma tarde ao entrar num pequeno bar duma vila do centro do país onde, como é habitual, um grupo de homens, costumava juntar-se em amena cavaqueira. No momento a conversa estava animada. Os temas, como as cerejas, iam-se encadeando uns nos outros passando, inexoravelmente na altura, pelos retornados.

Uns queixavam-se disto, outros acusavam-nos daquilo, sendo, porém, todos unânimes na ideia de que os regressados de África estavam a constituir uma praga, tal era o número dos que afluíam dia após dia ao Velho Continente.

— Na realidade, disse um dos presentes à laia de con­clusão, daqui a pouco, não se vê mais nada nesta terra senão retornados e cães!

— É verdade, é verdade...

— Você é que tem razão - aplaudiram quase em uníssono todos os presentes.

De repente, alguém reflectiu e, uma voz se levantou do meio do grupo:

— O senhor por acaso não é retornado? Ou é?

— Claro que sou, homem!

— Eu também, exclamou quem falara e, ambos desa­taram a rir com vontade perante o espanto dos demais que de repente não se haviam apercebido onde estava a piada.

Mas estes momentos eram raros. O discurso normal era o que vínhamos descrevendo.

Os retornados eram cada vez mais, queriam era vir tirar os lugares, os postos de trabalho, passar à frente, dos que cá estavam mas isso não iria acontecer porque eles não deixariam. Que pouca vergonha, andaram lá a ganhar muito mais do que os que cá estavam, a trabalhar muito menos, e o tempo a contar a dobrar!

Era com ditos desta estirpe que os mimoseavam.

Parece impossível, mas estas ideias andavam na cabeça de colegas, amigos e até familiares e eram apresentadas sem a menor deferência.

Tentar chamar à razão essas pessoas, que se insurgiam contra quem forçado regressava à sua terra, argumentando de mil maneiras, era tarefa vã. Dizer-lhes que afinal com a ida de muitas pessoas para o ultramar todos haviam ganhado, que as terras africanas foram alvo de um desenvolvimento sem precedentes na história, que as relações entre brancos e negros eram boas, que isso de tratar os negros como escravos, chicoteá-los, acontecera em tempos muito remotos e não na nossa geração (tempos nos quais os próprios brancos eram assim tratados, por outros brancos). Lembrar-lhes quantas mulheres na actualidade recebiam aqui maus tratos, quantas eram exploradas no seu trabalho, já não falando na prática corrente da exploração do trabalho das crianças, dos des­protegidos, dos humildes... de nada valia.

Pareciam desconhecer ou pretenderem ignorar que todas estas questões e procedimentos, embora incorrectos, eram fruto da época e aceites como normais pela sociedade então vigente. Em Angola não acontecera mais que o reflexo do que se passara cá e por esse mundo além, apenas com uma pequena mas significativa diferença; entre os portu­gueses e os nativos aconteceu o que não aconteceu com nenhum outro povo colonizador, a mestiçagem seguida ou antecedida de muitos casamentos entre brancos e negros; não era por acaso que se dizia que, Deus criara os brancos e os negros e os portugueses os mestiços.

Tentar afirmar que os portugueses na generalidade eram tolerantes amigos e respeitavam os africanos tal como os naturais do continente, pagando-lhes bem se trabalhavam bem, era tempo perdido pois tais argumentos pura e simplesmente não lhes interessavam. Era ponto assente:

quem não tinha ido ou ficado em África era honesto, quem lá permanecera era explorador.

No seu entender existiriam algumas excepções... talvez! Davam-lhes por vezes o beneficio da dúvida.

Tentar fazer com que reflectissem, lembrando-lhes que quase toda aquela gente havida perdido tudo sem culpa, pedindo-lhes que se colocassem no lugar de quem voltava de mãos vazias, tal como se um fogo ou uma catástrofe na­tural, um terramoto por exemplo, lhes destruísse todo o seu património, deixando-os dum momento para o outro sem nada, era tempo perdido pois recusavam-se a estabelecer semelhante comparação, por inverosímil.

Caricato seria perguntar-lhes se os emigrantes portugueses, na França, enriqueceram à custa de explorarem os franceses, os da Venezuela, os venezuelanos.., e se os negros não deveriam permanecer na Europa porque não é a sua terra, mas os retornados nunca poderiam colocar tais questões porque jamais pensariam desse modo.

Só passados muitos anos, grande parte dos membros da nossa sociedade viria a admitir que os retornados, na sua maioria, eram gente honesta e empreendedora. Muitos deles conseguiram refazer a sua vida em tempo recorde e, de uma forma exemplar, o que deixou admirados todos os que tiveram conhecimento do modo, talvez único, como se ajudaram mutuamente. O que por certo talvez nunca conseguirão avaliar é o sofrimento pelo qual passaram durante todo esse período de recuperação e as feridas que apesar de todos os esforços, não conseguiram jamais sanar.

Deveria, no mínimo, ter ocorrido, a seu tempo um processo de indemnização aos lesados, por parte do Governo Português, porém, até ao momento actual, por estranho e incrível que pareça, tal facto ainda não aconteceu, a justiça ainda não foi reposta.

A realidade do mau acolhimento de que estavam a ser vítimas todos os que retornavam a Portugal já Matilde a conhecia penosamente martelando-lhe o cérebro sem parar, e quanto doía! Porém era preferível enfrentar a hostilidade na sua terra, a permanecer em Angola onde a vida se havia transformado num enorme pesadelo.

Afinal ela era uma optimista nata e não perdera a es­perança de que, após ter a família reunida, iria conseguir contornar os obstáculos e vencer as dificuldades que se lhe deparassem, por maiores que fossem.

A hora da chegada

África tem em si uma atracção fatal e um feitiço que prende irresistivelmente quem a conhece. O seu clima, as suas águas quentes, os seus espaços infindos; savanas, estepes, suas florestas virgens com densas matas, a suprema riqueza da sua fauna e flora, a sua vida selvagem, os desertos, enfim um sem número de aspectos fazem daquelas terras se não o paraíso, pelo menos uma prova de que ele existe. Quem algum dia viveu naquelas paragens passa forçosamente a ver a vida com outros olhos, os seus horizontes jamais serão comportáveis em espaços exíguos, a sua mente estará sempre aberta a grandes dimensões.

Não admira que durante todos aqueles anos, apelidados de guerra colonial, muitos dos soldados que para África foram mobilizados, não resolvessem apenas ficar, mas chamassem para sua companhia as esposas, os filhos, os pais, os amigos.

Todos os dias chegavam a Angola inúmeras pessoas vindas do continente para se juntarem aos familiares e amigos que as aguardavam ansiosamente.

Nos anos sessenta a chegada de um contingente de tropas era motivo de festa e grande alegria. A população de Luanda tirava o dia para aguardar a saída dos militares do porto; esperavam-nos ao longo de toda a Avenida Marginal e aí os recebiam calorosamente. Negros e brancos aca­rinhavam-nos à sua passagem com palmas, sorrisos, abraços, beijos e flores.

Com o passar dos anos estes acontecimentos tomaram-se rotineiros. Os batalhões e as companhias passaram a chegar com regularidade e a maior parte por via aérea, razão pela qual já não se fazia o desfile das tropas à chegada.

Mas não eram só os militares que diariamente chega­vam a Angola, passaram a chegar os familiares, os amigos, os vizinhos e era sempre com grande contentamento que se via atracar um dos majestosos paquetes da frota portuguesa: o Infante D. Henrique, o Príncipe Perfeito, o Pátria, o Vera Cruz... e embora já não acontecesse como relatam os mais antigos que no dia de S. Barco ninguém trabalhava, se entre os passageiros vinha um amigo, um parente, um conhecido deixava-se tudo para ir esperá-lo, desejar-lhe as boas vindas e, quiçá, saber notícias da própria família que estava na Metrópole.

Jaime, um conterrâneo e compadre do João, um pouco mais velho do que ele, casara e tinha oito filhos, sendo o sexto um rapaz chamado Gilberto que contava agora treze anos, e era afilhado do João.

O curto vencimento que o Jaime auferia numa fábrica onde trabalhava em Aveiro, há muito tempo que era escasso para sustentar a família. Ele, ao saber que o compadre casara e mandara ir a esposa para junto de si, lembrou-se de lhe pedir para lhe arranjar emprego em Luanda. Viera já lá iam quatro anos e achou que era tempo de mandar chamar a esposa e os filhos.

Chegaram a Luanda numa manhã de Março. Atracado o barco, o Pátria, algo de anormal acontecia no porto que estava a atrasar o desembarque dos passageiros e bagagens. Dentro do navio, os bagageiros, não havia maneira de aparecerem. Zulmira, a esposa do Jaime, que esperara todos aqueles anos, mais os infindáveis dez dias da viagem não conseguiu aguentar mais a demora e decidida como sempre o foram as mulheres portuguesas, tratou de pôr à cabeça um saco onde transportava alguns haveres, chamou os filhos pegando pela mão do mais novo e com os outros em fila atrás de si, toca de descer as escadas, sendo a primeira passageira a pôr pé em terra.

Na semana seguinte, ela com os filhos eram capa da revista Notícias, que relatava um problema havido entre o pessoal de estiva e ilustrava o acontecimento com a foto da Zulmira e seus filhos.

Na fotografia via-se a Zulmira toda risonha de saco à cabeça descendo as escadas do navio acompanhada dos filhos precisamente com esta legenda: «Esta mulher decidida não precisou de bagageiros, deitou o saco à cabeça e ala que se faz tarde que o marido estava à espera».

Foi Matilde que ao folhear a revista “Notícias de Angola,” se deparou com a foto e ainda hoje guarda a revista como recordação.

Iam bem longe esses alegres dias da chegada. Sem saber como, estávamos já na dolorosa hora da partida. Também a família do Jaime e da Zulmira aguardavam angustiados o momento de deixar Luanda.

— Tanta esperança e tanta canseira para quê? Para agora termos de partir sem nada e desesperados. Comentou Matilde entristecida.

De repente pareceu-lhe ouvir marchar e disse para o marido:

Escuta, não ouves marchar?

— Marchar? Estás enganada. Quem é que queres que ande por aí a marchar?

— Os pioneiros, devem ser os pioneiros. E dizendo isto, pousou o uísque que estava a tomar e foi espreitar a Avenida.

— Vem cá, aonde vais com essa pressa toda? Não sabes que os pioneiros que nos habituámos a ver já não existem?

Agora...

Na realidade, na Avenida nada de anormal se passava, apenas o tráfego igual aos dias anteriores.

— Foi imaginação minha, pareceu-me mesmo ouvir marchar... disse Matilde, voltando ao seu uísque e sorvendo um trago, tentando assim desfazer o nó que de repente lhe apertava a garganta, nem a deixando ouvir o que João começara a dizer-lhe.

Este, aproveitando a sua distracção, com habilidade mudou de assunto, não prosseguindo a explicação que parecia ter iniciado. Era seu propósito mantê-la afastada da realidade o máximo tempo possível.

Só alguns dias mais tarde Matilde viria a tomar conhecimento que os pioneiros, que imaginara ouvir e que outrora costumavam marchar nas ruas da cidade, se haviam transformado em bandos de guerrilheiros que atacavam e perpetravam ocupações, roubos, mortes e crimes de toda a índole e entre os quais as crianças já pouco ou nada significavam.

(...)

Um Olhar à Distância

A distância no espaço e no tempo apaga a dor e a revolta, clarifica o discernimento, estabiliza, e deixa que floresçam novas esperanças no nosso olhar que pode ser selectivo ou abrangente, transmitir raiva ou ternura, inconformismo ou resignação ... Feitiço, lenda, realidade, pesadelo e ... saudade!... Tudo é Angola.

A Angola do verbo abandonar conjugado a doer tem profundas cicatrizes cujo testemunho, “a geração dos retornados,” não poderia deixar de legar...

Dado o poder que nos assiste de nos indignarmos, e pretendendo não tanto ajuizar sobre a gestão da culpa nem tão pouco analisar questões políticas mas antes relatar um pouco do drama vivido pelos civis que, estando em Angola, foram espoliados de seus haveres, com risco de suas próprias vidas, procurámos retratar a tragédia e o desespero vividos por tantas famílias reduzidas à mais ínfima miséria, tantos seres humanos destroçados psicologicamente, corridos da terra que ajudaram a defender e a progredir e recebidos com tão grande hostilidade na terra que os viu nascer.

Patenteando a sensação de que Angola, tal como a lendária Atlântida, se sumiu, não da crosta terrestre mas sim do rol das preocupações do mundo, questionamos a razão pela qual os Angolanos continuam a ser trucidados por granadas que semearam na sua terra em lugar de pão, massacrados, desenraizados de suas casas, desmembradas as suas famílias, ou mortos do modo mais ignóbil, à fome, numa terra onde tudo cresce quase espontaneamente, através de uma guerra da qual não se vislumbra o fim.

A descolonização portuguesa ultrapassou tudo o que se poderia imaginar, os acontecimentos sucederam-se de modo tão imprevisível que mais pareciam ficção.

Na nossa narração a imaginação insistiu tanto que acabou por entrar neste ou naquele espaço mais ou menos ficcionado; mas eis que sentimos haver saldado uma dívida que tínhamos para com aqueles que, não tendo vivido estes tempos em Angola, os julgavam sem terem ouvido um testemunho. Poderemos de agora em diante reiniciar um velho hábito de viver a saborear a vida, pese-nos embora a certeza de que há guerras que não mais acabam dentro de nós...