sábado, 29 de novembro de 2008

Angola - Evolução do Dinheiro nalgumas imagen

Angola - Evolução do Dinheiro nalgumas imagens



Pano


Sal


Boi


Escravos


Copper Lingot from Zakros Crete.


Cauri (ilha de Luanda)


«brasss»


Benim - português rodeado de 5 manilhas


Soba angolano com manilha no braço




1 Macuta - seculo XIX

1 Macuta - seculo XVIII

Macuta - 1837














.
Para saber mais ver:
.
.
.
3. - Nova pagina (Evolução do dinheiro)
.
4. - Serviços - Museu do Banco de Portugal
.
5. - Ron Wise's Geographical Directory Of World Paper Money
Veja dinheiro do mundo inteiro nesse site, é só você escolher o continente e depois o país e ver a evolução do dinheiro através dos tempos.
.

Guerra, Descolonização e tentativa de branqueamento da História



.
.
* Victor Nogueira
.

Posso apenas servir-me das minhas «memórias» e estas perdem-se nas brumas do tempo e nas mudanças do olhar (1).
.
Mas perante tantos cronistas encartados que na Televisão e na auto-denominada «imprensa de referência», como Marcelo Rebelo de Sousa, Miguel Sousa Tavares, Nuno Rogeiro, Jorge Coelho, Santana Lopes, José Sócrates, António Barreto, Emídio Rangel e Vital Moreira, etc., etc., etc., abalizados fazedores de opinião pública e outros que peroram ou peroraram abalizadamente sobre tudo como se inclíticos descendentes do «renascentista» e genial Leonardo Da Vinci fossem, permitam-me estas opiniões «impressionistas» dum bloguista Zé Ninguém.
.
De 1961 a 1966 vivi diariamente em Luanda e depois daí, estudante universitário apenas e até às Férias Grandes de 1972, posso dar a minha opinião, por vezes «impressionista», tal como os «sábios» «opinion makers» acima referidos, aceitando rectificações contudo fundamentadas às minhas «memórias».

.

A «independência» do Congo ex-belga, nunca chamada à colação mas mais «assassina» ou «criminosa» que a Portuguesa nos moldes em que foi feita (recordemos o abandono dos colonos brancos e da secessão do rico Katanga, do apoio a Moise Tshombe e do assassinato de Lumumba, este apresentado como sanguinário analfabeto pela imprensa portuguesa - lembremo-nos também das «anedotas» sobre Samora Machel, (2) ... Lumumba, apesar de «protegido» pelos capacetes azuis no Congo Belga, que fora «propriedade particular» do imperador da Bélgica, teve a mesma «sorte» que os seus compatriotas no século XIX que, sob a pata do «venerável» Leopoldo II, foram assassinados: 50 % da população do da fatia do Reino ou Império do Congo, pela Conferência de Berlim artificiosamente «dividido» entre Portugal, a França e Leopoldo (entenda-se, não à Bélgica), formando este o que chamou Estado Livre do Congo. (3)(4)
.
A chegada de levas de colonos brancos aterrorizados fugidos do Congo ex-Belga com uma mão à frente e outra atrás, foi habilmente explorada pela imprensa angolana ferreamente controlada pelo fascismo Português para «demonstrar» a inferioridade dos negros, terroristas e sanguinários selvagens incapazes de se autogovernarem.
.
Considerados «mentecaptos» pelo fascismo salazarento português, os negros em África (durante séculos coisas e mercadoria escrava na América) eram considerados incapazes de viverem em democracia, tal como os brancos e as mulheres no Puto. Durante séculos Angola foi vasta colónia de degredo, para criminosos de direito comum ou presos políticos, de Portugal ou do Brasil. É verdade que os líderes dos chamados «terroristas» eram intelectuais negros, licenciados ou não pela salazarenta Universidade Portuguesa, como
Agostinho Neto, Amílcar Cabral, ViriatoCruz, Eduardo Mondlane, Mário Pinto de Andrade ou Savimbi ...


.
A tragédia do Congo teve influências negativas em Angola após os assaltos em Luanda à Cadeia Civil de S. Paulo, ao Quartel da Polícia Móvel e ao Forte de S. Fernando, ocorridos em 4 de Fevereiro de 1961, para libertar os presos políticos, e reivindicados pelo
MPLA. Desses assaltos resultaram mortos apenas entre os assaltantes e as forças policiais, neste caso sete. O senhor Coronel Manuel Amaro Bernardo dá o seu testemunho sobre a preparação das forças militares portuguesas para a guerra de guerrilha e sobre a ausência de massacres sobre as populações negras.
.
Eu, como muitos outros brancos, estávamos lá. Éramos brancos da 2ª geração, éramos brancos angolanos a quem Portugal nada dizia (veja-se o meu poema Raízes) e já dei testemunho com um saber de experiência feita dos massacres sobre as populações negras perpretados indiscriminadamente pelas milícias da Organização Popular de Vigilância e Defesa Civil de Angola no PortugalClub, no macua.blogs - 25_de_abril_o_antes_e_o_ agora e no Kant_O_XimPi
.
A benevolência do colonialismo ou o «luso-tropicalismo» de Gilberto Freire (5) são uma ficção, mesmo num país «exemplar» mas de facto racista como é o Brasil. Isto para não falar nos EUA ou em muitas «repúblicas» inde+endentes da chamada América Latina. Latina? Anglo-saxónica? Apenas e na sequência da Conferência de Berlim. nos finais da Monarquia - após o ultimatum do velho e «aliado» amigo e opressor e colonizador de Portugal, sobretudo na sequência do leonino Tratado de Methuen - e durante a 1ª República, com as chamadas «Campanhas de Ocupação», se dominou aparentemente a resistência ao invasor estrangeiro, igual à enaltecida independência de Portucale ao Reyno de Leão ou à resistência de Portugal à ocupação do Castela ou às invasões napoleónicas.
.
Os resistentes de Portugal à colonização do Portugal europeu, incluindo aos ideais da Revolução Francesa (Liberdade, Igualdade e Fraternidade) são considerados heróis exemplares, enquanto os resistentes na «Mãe-Pátria» eram apresentados como «agentes» e «traidores» a «soldo» de Moscovo e os das colónias eram apresentados como selvagens, sub-humanos, negros pagãos envolvidos nas trevas da idolatria e terroristas. Mas foi o carro do consul norte-americano em Angola que os «brancos» de Luanda atiraram à baía ou as missões evangélicas norte-americanas que foram depredadas. Na altura não havia ilusões nem «revisões» da história.
.

O senhor Cor. Manuel Amaro Bernardo não refere o esclavagismo que era o «contrato de trabalho» em Angola e S. Tomé, denunciado mesmo por Henrique Galvão, anti-comunista e até certa altura defensor da «gesta imperial», nem os comprovados «crimes de guerra» silenciados pela censura do «democrático» fascismo português, de que são exemplo o genocídio sobre as populações camponesas negras, regadas a napalm, em greve face ao regime de monocultura imposto pela Cotonang para integrá-los na economia de mercado. Nem refere a «exploração» do chamado tribalismo entre congoleses e bailundos, «aproveitada» pelos fazendeiros do café no norte de Angola, como o fascismo e os latifundiários se aproveitavam da miséria dos «ratinhos» da Beira Baixa para impor baixos salários aos assalariados agrícolas alentejanos nas praças de jorna ou em greve por melhores condições de vida e de trabalho.

.

Podem oficiais do Quadro Permanente, «retornados» e saudosistas de Salazar dizerem que a guerra estava militarmente ganha. Mesmo que assim fosse ela estava económica e políticamente perdida face à cegueira e ganância de quem económicamente sustentava o fictício e embaraçante poder de Salazar/Caetano. O esforço de guerra era feito pelos oficiais milicianos e pela «tropa» camponesa portuguesa que fugia e emigrava.
.
Como confirmou o falecido e anti-comunista General Galvão de Melo, na RTP, num debate colectivo prévio à apresentação da série sobre a Guerra «tout court», o exército português na altura não estava preparado para uma guerra de guerrilha mas sim para uma guerra convencional. Como ele ou outro participante confirmou, apesar da espumosa apoplexia dum seu «camarada» de armas, defensor da tese da vitória militar das Forças Armadas Portuguesas em 1974, Salazar foi antecipadamente informado pelo Governo norte-americano da revolta da UPA, que apoiava e financiava. Salazar nada fez para evitar os massacres e após o falhanço do ingénuo golpe palaciano de Botelho Moniz pronunciou o célebre «Para Angola em Força».
.
As primeiras forças expedicionárias portuguesas foram recebidas em delírio ao desfilarem garbosamente em Luanda na mítica e bela Avenida Marginal Paulo Dias de Novais (embora adolescente, eu estava lá).
.
Será verdade que breve o entusiasmo dos «brancos» se transformou em menosprezo face aos «maçaricos» mal armados, que morriam como tordos, e cujas armas obsoletas lhes rebentavam na cara, como passou a constar mais ou menos em surdina?
.
Sem ofensa, podem oficiais do Quadro Permanente, «profissionalizados» nas «artes» da guerra, puxarem lustro aos galões, mas terá fundamento a opinião dos brancos, pelo menos em Luanda, de que eles limitavam-se a ficar na rectaguarda, a partir de certa altura «cansados» de sucessivas comissões e de andarem com a casa às costas?
.
Pode haver quem louve o «democrata» militar profissional de carreira General Spínola, apoiante e observador das tropas nazis durante a invasão da URSS perante o «silêncio» e passividade dos «manos» democratas republicanos protectores de nazis após a fantochada do Tribunal de Nuremberga ou da condenação à morte de Eichmann pelos sionistas do artificial Israel (que esteve para ser em Madagáscar ou no Sul de Angola), como Churchill (o da cortina de ferro) e F. D. Roosevelt ou Truman (o da Guerra Fria, criminoso de guerra e responsável pela destruição de Hiroshima e Nagasaki), «pai» de McCarthy, ou medíocres actores como Reagan's, mulherengos e viris Kennedy's' ou Clinton's, (com o beneplácito de Jacqueline's «Onassis» ou Hilary's) ou «geniais» Bush, estrénuos defensores dos direitos humanos e de todos os golpes fascistas na América Latina ou no chamado 3º Mundo perpetrados na sombra mais ou menos encoberta da Companhia ou de másculos «travestis» e tarados sexuais.
.
Mas que os distingue face a por eles considerados «criminosos», «terroristas» e/ou «ditadores», «inimigos da Liberdade e dos Direitos Humanos», alguns poderosos «patrões» e outros simples «marionetas» como Estaline,
Pol Poth, Park Chung Hee, Ho Chi Minh, Mao Zdong, Tito, Yasser Arafat (Prémio Nobel da Paz), Fidel Castro, Nelson Mandela (Nobel da Paz que ainda hoje figura na lista dos «terroristas» elaborada pelo Tio Sam), Muammar Kadafi, Milosevic, a URSS ou a China «Popular» ou Chavez, enquanto deram ou dão apoio a impolutos Uribes, Vargas, Castelo Branco e Companhia, Péron, Videla, Castillo Armas, Salazares, Francos, Pinochets, Bin Laden, Papa Doc's, Fulgêncios, Trujillos, Noriegas, Idi Amin Dada, Mosh Dayan, Mobuto, Tschombé, Savimbi, Holden Robertos, Suharto, Marcos, Saddam, Reza Pahlavi, Faiçal ou Fahd, Ngoh Dim Dien, Van Thieu, Park Chung Hee, Chiang Kai-Chek, ou defensores do Apartheid como Ian Smith, Daniel Malan e P. Botha e uma infindável lista de democratas defensores dos direitos humanos, transformados alguns em terroristas, ou inimigos da humanidade quando tiveram a veleidade de enfrentarem «a Voz do Dono», sem falar em Hitller, Hirohito, Vichy ou Mussolini, impunes até à derrota nazi na Batalha de Estalinegrado, [reedição da Napoleónica Batalha de Moscovo], volte face que permitiu mais tarde, no século XX, o arranque do Exército Vermelho mas impediu a sua imparável avançada até às praias de Portugal porque entretanto e finalmente os restantes «aliados» acordaram e resolveram finalmente ouvir os apelos da URSS para abrirem a «frente ocidental» e desembarcar na Europa, a Sul de Itália e na Normandia (ver O Dia D), após a fuga de Dunquerque (Batalha de Dunquerque) e a resistência europeia, sustentada também pelos partidos comunistas e outros democratas não colaboracionistas, incluindo Charles de Gaulle ?

.

Apesar das semelhanças, há diferenças. Napoleão espalhou as ideias da Revolução Francesa por toda a Europa, apesar de as ter traído quando depois de brilhante general ao serviço da República, de consul se auto-proclamou Imperador. O Czar de Todas as Rússias era um déspota feudal e defensor da servidão da gleba.Adolf Hitler era um defensor da superioridade ariana (embora ele e a sua corte não fossem louros, altos e de olhos azuis como as Waffen-SS) enquanto a URSS era povoada por duas raças sub-humanas a exterminar: os eslavos e os judeus, escravos de Krupp, Schindler, nas suas grandes ou pequenas indústrias. Não confundir com a Schindler Portugal, ou Aristides de Sousa Mendes, defendido na RTP pelo insuspeito José Miguel Júdice, contradizendo 0 popular José Hermano Saraiva.

.

A Série sobre a A Guerra Colonial de» Joaquim Furtado recentemente transmitida pela RTP e distribuída presentemente pelo tablóide Correio da Manhã - líder de vendas - conjuntamente com a colecção «Os Anos de Salazar», mas ignoradas pela imprensa de referência e «desprezado» pelos «intelectuais» e pelas «classes» alta e média alta, abriram os olhos a «retornados» e «ex-combatentes» provenientes da ralé e compulsivamente incorporados nas Forças Armadas Portuguesas, integradas na superioridade dos «brancos» e da «civilização ocidental cristã (católica)», a tal que se horrorizava perante os «sacrifícios» sangrentos das civilizações pté-colombianas, que exterminou apesar de cientidicamente mais avançadas, tal como os árabes (mouros), chineses e japoneses, enquanto apadrinhava sangrentas guerras religiosas na Europa e torturava Galileu e outros «hereges», quando não os queimava nos autos de fé em tudo idênticos aos sacrifícios dos maias e de cristãos, estes pelo imperialismo romano (o tal da paz dos cemitérios) santificados e mortos nos «Coliseus», subversivos monoteístas então condenados à clandestinidade das Catacumbas.
.
Quanto ao inefável estratega e herói do 25 de Abril, de seu nome Otelo Saraiva de Carvalho, não passa dum verborroico, como muitos ultra-revolucionários acérrimos inimigos do «social-fascismo», agora convertidos às delícias do capitalismo e seus serventuários. Eles eram os «Pinta-Paredes», os impolutos ultra-revolucionários maoístas, simples barretes morgadios, de falso tesão, filhos de Sant'Annas de Portas Abertas, conservados em salmoura, ontem estrénuos defensores da demo-cracia ou da Liberdade e do Zé Papa-Açordas ou inimigos do capitalismo de Estado da URSS e defensores da Revolução Cultural do bando dos quatro, hoje renegados de Mao Zdong e acérrimos adversários dos «amarelos» da milenar China e mergulhados na Lama.
.
Em 25 de Novembro de 1975 o grande Otelo pôs os seus adeptos na rua e foi para casa dormir, incomunicável, indiferente ao desencadear duma guerra civil. O «comandante» e notável estratega deu luz verde às suas «tropas» e depois zarpou.
.
Ultra-revolucionário candidato às eleições Presidenciais contra Ramalho Eanes, o estratega do 25 de Novembro (ver os depoimentos, «registos» para a verdadeira HISTÓRIA, do
Tenente General Tomé Pinto, do General Silva Cardoso, do Contra ventos e marés .... João Brandão Ferreira - TCor Pilav (Ref), do Coronel Amaro Bernardo, do Almirante Rosa Coutinho, do General Gonçalves Ribeiro (A BATALHA DE LUANDA), do General Galvão de Melo, do Coronel Matos Gomes, de Pires Veloso, (General na Reforma, o encoberto e verdadeiro estratega do 25 de Novembro?) ... retomando o fio à meada Othelo contra Octávio Pato, candidato do PCP.

.

Onde estão a A Verdade e a A Mentira?

.

O grande Otelo, estratega do 25 de Abril, confessou anos mais tarde, «candidamente», que apesar de candidato votara no «adversário» Ramalho Eanes, porque «a democracia já estava consolidada». Santa ingenuidade daqueles de cujo voto se aproveitou e traíu para permitir a vitória de Ramalho Eanes e limitar a votação no PCP. As autodenominadas Forças Populares do 25 de Abril, lideradas pelo «ingénuo» Otelo, acusadas de bombistas e de crimes de sangue, foram julgadas e condenadas, enquanto as gémeas forças do Exército de Libertação de Portugal ou do Movimento Democrático de Libertação de Portugal lideradas pelo «Marechal» Spínola, Alpoim Calvão, Cónegos Melo e Ferreira Torres nunca foram levados à barra do Tribunal nem por isso precisaram de amnistias, pelo que morreram em cheiro de santidade e sem escândalo. Talvez um dia sejam transladados pera o «Panteão» Nacional, já que não possuem sangue azul que lhes permita repousar em S. Vicente de Fora.

.
Com lágrimas de crocodilo choram-se os mortos pela Guerra Civil em Angola, aponta-se o dedo ao MPLA e a Cuba, mas deixam na sombra a UNITA, Savimbi e o exército racista da União Sul Africana. Chora-se a «traição» dos que deixaram os Flechas no terreno e que foram fuzilados, mas não se diz que o mesmo fizeram os EUA aos colaboracionistas no Vietname enquanto os últimos americanos fugiam como ratos embarcando nos helicóperos no telhado do edifício da «sua» embaixada. Choram-se os mortos e as vítimas da «barbárie» após a descolonização portuguesa, mas deixam-se na sombra os milhões de mortos no Iraque, na Indonésia, em Dresden, em Hiroshima e Nagasaki, nas colónias europeias ou no quintal do Tio SAM. Censura-se Iago, mas esquecem que a pacífica Revolução dos Cravos teve poucos mortos e esses foram provocados pela «valerosa» PIDE ou pelos bombistas do ELP/MDLP, a norte de Rio Maior. Enquanto isso, elogia-se a Padeira de Aljubarrota, que assassinou à pazada derrotados, perdidos e assustados castelhanos, ou admira-se a populaça que assassinou os derrotados e fugitivos soldados napoleónicos e aplaude-se o assassinato de Miguel de Vasconcelos, o traidor.

.

Quanto à «traição» de Álvaro Cunhal, a «soldo» de Moscovo ou de Mário Soares, também a «soldo» de Moscovo para uns, «agente» da Companhia» para outros, é bom recordar que a cadeia de comando foi quebrada nas colónias pelo pé descalço «miliciano» cansado da guerra e em Portugal por aqueles que então gritavam «Nem um Soldado para as Colónias, Já!» em nome da «Revolução a Todo o Vapor», hoje sentados nas poltronas do Poder que diziam combater, pagos por Roma a troco duma travessa recheada de lentilhas, clari-videntes visionários de argueiros no olho do vizinho mas cegos da trave que lhe tapa o olhar, ou «horrorizados» e assépticos investigadores sociais e/ou «opinion makers» que então se apresentavam como os verdadeiros comunistas ou reorganizadores do partido do proletariado. . É da História que apenas Ramalho Eanes e Álvaro Cunhal se opuseram á aceitação da ocupação de Timor Leste pelas «democrática» Indonésia, com o beneplácito protector do Tio SAM, que exterminou milhares de resistentes timorenses que mal sabiam falar português, tal como os negros em África antes da independência ou a generalidade dos goeses do «Estado» Português da Índia.


_____________
.
(1) comentários ao texto Dois intelectuais distraídos e um provedor paternalista, do Cor. Manuel Amaro Bernardo

(2) anedotas idênticas às que portugueses contam dos galegos ou dos alentejanos, que brasileiros contam dos portugueses ou de brancos sobre os negros e «mouros».

(3) Adam Hochschild - O Fantasma do Rei Leopoldo

(4) Joseph Conrad - Coração das Trevas (Heart_of_Darkness)

(4) - O Luso-Tropicalismo de Gilberto Freire e Lusofonia e Luso-tropicalismo
.

O 15 de Março









O 15 de Março










* Victor Nogueira
Das cartas por mim então escritas e os comentários que o tempo e outra visão ditaram posteriormente

Registaram‑se massacres no Norte de Angola, praticados por terroristas. Os europeus e os indígenas que não quiseram aderir aos terroristas foram martirizados e mortos. Muitos dos mortos foram cortados às postas pelos terroristas. Grande número de fazendas ([1]) e pontes foram destruídas. Em Luanda os civis têm‑se exaltado. Anteontem foram falar com o cônsul americano, o qual lhes perguntou o que desejavam. Após ouvir as alegações dos civis, teria respondido: “Vão‑se embora que isto é dos pretos.” Aqueles, ouvindo isto, arvoraram a bandeira portuguesa no mastro do consulado e atiraram o automóvel do cônsul ao mar. Ontem outro grupo de civis atacou a Missão Evangélica, mas foi disperso com bombas lacrimogéneas. ([2])

Têm‑se formado Milícias de Defesa Civil do Território, nos bairros da cidade. Na Praia do Bispo ainda se ofereceram 15 homens, que têm feito a ronda nocturna. No entanto ontem eu e outro rapaz andámos a distribuir os papéis de inscrição pelo bairro. Houve uma casa em que me responderam: “Nós somos velhos, não precisamos disso. Vai‑te embora.” Essa é uma casa de mulatos. Se eles aceitassem menores de 18 anos para fazer a ronda eu oferecia‑me. Assim só precisam dos menores para fazer os serviços dum contínuo quase.

A semana passada aprendi a carregar e descarregar uma espingarda, quando fui com o meu pai ver os funcionários das O.P. [Obras Públicas] que ficam de velada à noite. O meu pai é quem abre as portas dos armazéns onde dormem. (JLF - 1961.03.24)

Registaram‑se no Norte de Angola, nas regiões de Maquela do Zombo e S. Salvador insurreições de indígenas. Há a lamentar numerosas vítimas, quer entre os europeus, quer entre os indígenas (principalmente os bailundos) que defenderam as fazendas. Segundo os relatos dos refugiados os insurrectos após martirizarem os europeus e indígenas cortaram‑nos às postas! Para evitarem a fuga dos europeus os revoltosos abriram valas nas estradas e derrubaram as pontes. Felizmente que a calma já se encontra restabelecida! ([3])

Em Luanda os civis têm‑se exaltado e já por diversas vezes atacaram pretos pela simples razão de serem pretos. Anteontem um grupo de civis foi falar com o cônsul americano, mas estes ter‑lhes‑ia dito: “Vão‑se embora que isto (Angola) é dos pretos”. Claro que os civis indignaram‑se e, após espatifarem o carro do consulado, atiraram‑no à baía, cantando “A Portuguesa” e dando vivas a Salazar. Ontem outro grupo de civis queria fazer uma manifestação em frente do consulado americano, mas a polícia dispersou‑os com bombas lacrimogéneas. No entanto mudaram de rumo e depredaram a Missão Evangélica. (NID - 1961.03.24)

Registaram‑se no Norte da Província, nas regiões de Maquela do Zombo, S. Salvador e outras, insurreições dos indígenas. Estes praticaram atrocidades. Além de assassinarem os colonos europeus mataram os pretos que a eles não quiseram aderir. Sanzalas inteiras e fazendas foram arrasadas. Graças à rápida intervenção das forças armadas as insurreições acham‑se quase dominadas. Têm‑se efectuado numerosas prisões. A grande maioria dos europeus até aqui presos são pequenos funcionários, a quem tinham prometido os cargos de ministros dos governos do Negage e de Camabatela, que se haviam de formar. As zonas assaltadas pelos terroristas estavam cheias de colonos barbaramente mutilados, estando muitos vexados, principalmente as senhoras e raparigas.

Em Luanda os civis têm‑se exaltado. No dia 22 um grupo de civis foi falar com o cônsul americano. Este ter‑lhes‑ia dito: “Vão‑se embora que isto é dos pretos.” Aqueles exaltaram‑se, arvoraram a bandeira Portuguesa no consulado e atiraram com o carro do cônsul à baía. No dia seguinte tentaram fazer outra manifestação no consulado americano, mas a polícia dispersou‑os com bombas lacrimogéneas. Nesse mesmo dia assaltaram a Missão Evangélica partindo todos os vidros. (...) A Missão situa‑se perto do Colégio das Irmãs e o Consulado na Av. Marginal, mas foi disperso com bombas lacrimogéneas.

Não sei se conhecias o Cónego Manuel das Neves, aquele padre velhote que celebrava a missa na Sé, geralmente às 9 horas. Pois bem, foi preso. Com ele foram encontrados planos para diversas insurreições, uma delas em Luanda. Esse cónego seria um dos ministros do novo estado!!! (JG - 1961.03.27) ([4])

Isto cá por Angola não vai muito melhor. No entanto os nossos mortos podem contar‑se pelos dedos, comparados com as pesadas baixas que temos infligido aos terroristas. (JG - 1961.06.19)

[1] - Herdades agrícolas ou roças.

[2] - Neste processo os maus da fita eram os EUA e as igrejas protestantes, acusados de apoiarem a UPA (União dos Povos de Angola) de Holden Roberto, apresentado como um preto estrangeiro que nem português sabia falar!
.
[3]- Estava creio que numa festa de aniversário quando soube dos massacres no Norte de Angola, massacres atribuídos ao mau exemplo da independência do Congo ex‑belga tempos antes, sendo Lumumba apresentado como um malfeitor e Tschombé, separatista do Katanga, como um amigo. Os massacres pareciam inexplicáveis, tanto mais quanto a maioria de nós desconhecia que semanas antes a aviação militar portuguesa tinha bombardeado aldeias e chacinado camponeses no Norte de Angola, em greve devido ao regime de monocultura estabelecido pelas grandes companhias, em detrimento das culturas tradicionais de subsistência. Neste contexto poderá ser explicado o ódio aos fazendeiros e indígenas com eles colaborantes, independentemente doutras considerações. A verdade é que entre os brancos se instalou um autêntico clima de histeria, alimentado pela publicação de fotos, notícias e romances dos massacres dos europeus, sem que a outra parte pudesse fazer o mesmo. Eram frequentes os boatos em Luanda sobre o envenenamento da água das canalizações ou da descida dos negros dos muceques, infiltrados de terroristas, para massacrar os brancos da cidade. Muitas vezes fomos todos dormir para o escritório do meu pai, num arranha‑céus na Marginal, adultos e miúdos todos deitados uns ao lado dos outros, à espera do que viesse. Este clima de histeria desculpava e justificava os massacres indiscriminados sobre os negros, linearmente o inimigo, logo ali abatidos pelas milícias populares ao menor gesto suspeito. A célebre frase de Salazar, «Para Angola e em força», marcou uma viragem no ânimo dos civis, levado ao rubro pela chegada e desfile dos primeiros contingentes militares que marchavam pela Marginal perante as ovações de quem pejava os passeios. Tropa mal preparada, que nos primeiros tempos morria como tordos nas emboscadas, com armamento obsoleto que muitas vezes rebentava na cara e nas mãos dos soldados, os maçaricos como depreciativamente começaram a ser tratados pelos brancos de Angola.

[4] - O Cónego Manuel das Neves era um velhote simpático, mestiço, com quem gostava de falar, que me baptizou, crismou e deu a 1ª comunhão. Apesar de todas as histórias que se passaram a contar, nunca o vi como um terrorista sedento de sangue. Aliás, nunca consegui embarcar nas teses maniqueístas dos brancos bons vítimas da maldade dos negros a soldo do estrangeiro. Foram criados negros que andaram comigo ao colo, me embalaram e contaram histórias para adormecer; foram negros os criados com quem brinquei; eram negros a lavadeira e os criados com quem conversava, que gostavam do menino Vitó porque os tratava sem arrogância, os considerava seus iguais e procurava que tivessem os mesmos direitos que os brancos! Lembro‑me da Maria, lavadeira, velhota, que fumava os cigarros com o morrão para dentro. Lembro‑me dos criados, como o Sebastião, o Laurindo, o Ambrósio ou o Fernando, este que se dizia filho dum soba e sucessor do pai lá na sua aldeia no sul de Angola.

in kantoximpi.
Gravuras - Goya - Os desastres da Guerra

ANGOLA


1. RAZÃO DO NOME Angola

– Assim se chama porque um dos seus reis a séculos idos era chamado Ngola e dele se notabilizou uma sucessão de reis que afamaram em Angola a dinastia Ngola. Estudos arqueológicos confirmam que este país é habitado por vários reinos e etnias desde a idade da pedra.

2. LOCALIZAÇÃO GEOGRÁFICA A República de Angola, situa-se na costa ocidental do continente africano, na sua costa austral. É um país com uma superfície terrestre de 1 246 700 Kilómetros quadrados, uma fronteira terrestre de 4 837 Kilómetros e, a Oeste uma fronteira marítima de 1 650 Kilómetros. Angola localiza-se a sul do equador e a oriente do meridiano nas seguintes coordenadas: # Latitude Norte: 4º 22Gr # Latitude Sul: 18º 02Gr # Longitude Oeste: 11º 41 # Longitude Leste: 24º 05

3. AS FRONTEIRAS O nosso país faz fronteira a Norte com a República Democrática do Congo e República do Congo; a Leste, com a República Democrática do Congo e a República da Zâmbia; a Sul com a República da Namíbia e a Oeste com o Oceano Atlântico.

4. GEOMORFOLOGIA ANGOLANA Geomorfologicamente, Angola divide-se em quatro partes: # Zona Sedimentar # Zona de transição # Zona montanhosa ( esta zona começa no município da Humpata, província da Huila e segue até em Kassongue, província do Kwanza Sul) # Zona Planáltica, também conhecida de Zona maciça ou maciço antigo.

5. CLIMA O clima é equatorial em Cabinda (província mais a norte), tropical seco e por vezes temperado nas restantes províncias do Norte e, desértico e semidesértico no sul. Page 3

6. HIDROGRAFIA Angola possui 47 bacias hidrográficas que alimentam diversos agradáveis e longos, com belas quedas, cascatas e outras surpreendentes características enquanto atravessam paisagens em todo o seu curso. Dois desses rios dão a maior alegria aos angolanos e aos turistas estrangeiros pela sua larga extensão de navegabilidade, que são os rios Kwanza e Zaire. O rio Kwanza ( nome adoptado à moeda nacional) tem um percurso de 240 quilómetros navegáveis, enquanto o rio Zaire é navegável em todos os 150 qulómetros que atravessam o nosso país, uma vez que outra parte resta no território da República Democrática do Congo ex- Zaire.

7. RECURSOS MINERAIS Angola é um país eminentemente rico em recursos minerais. Estima-se que o seu subsolo alberga 35 dos 45 minerais mais importantes no comércio mundial.

8. POPULAÇÃO No Século XV, os portugueses haviam estimado em Angola um senso populacional de 18. 000. 000 de habitantes, mas, devido ao tráfico de escravos, até ao fim da escravatura, em 1836, foram achados no país, apenas 8. 000. 000 de habitantes, o que prova que cerca de 10. 000. 000 de habitantes haviam sido vendidos noutros países povoando essencialmente a ilha de S.Tomé e Príncipe e o Brasil. Hoje, a população angolana está estimada aos 11. 000. 000 de habitantes, numa composição de 49,3% homens e 50,7% mulheres. Esta população é maioritariamente jovem, uma vez que 65% desta têm menos de 25 anos de idade. A esperança de vida é de 45 anos para os homens e, de 48 anos para as mulheres. O país enfrenta um défice de 65% de população analfabeta e outros dados revelam que 15 109 habitantes existem para um médico, sem deixar de enfatizar que maior partes de médicos está concentrada apenas em Luanda – cidade capital. Page 4

O catolicismo é a religião da maior parte da população angolana, com 68%. Além destes, existem os protestantes com 20% e outros 12% dos seguidores de crenças tradicionais. A língua oficial falada em Angola é o português. E estão em promoção oito línguas nacionais entre as inúmeras faladas no território: Umbundo Kimbundo Kicongo Nyaneka Tchokue Nganguela Kwanhama Fiote

9. BREVE SÍTESE HISTÓRICA Angola viveu cerca de 500 anos de colonização (1482 – 1975) e outros 14 anos de libertação nacional (1961 – 1975). Durante o período de colonização a grande preocupação dos colonizadores foi o forte interesse pelo comércio de escravos e em consequência disto até ao final da colonização (1975), o colono havia deixado em Angola apenas 27 angolanos licenciados, dos quais 9 eram negros. Em 1975, fruto dos acordos de Alvor em Portugal, incentivados pelo Movimento PAN-AFRICANISTA, o GRÉMIO e a LIGA NACIONAL AFRICANA foi proclamada a independência do país aos 11 de Novembro. Estes acordos, para além de determinarem a data da independência do país e o Governo de transição, elegeu-se também o Colégio Presidencial da República ora em nascimento. Mas, tudo isso para quase nada valeu visto que em 1976, meses depois da proclamação da independência, acendeu um conflito armado interno que afamou uma guerra civil sangrenta em Angola. Dezasseis anos depois (em 1992) deu-se a implantação da democracia pluripartidarista e a realização das primeiras eleições democráticas. A Constituição estabeleceu um sistema semi-presidencialista com os seguintes órgãos do estado: Presidência da República Assembleia Nacional Governo Tribunais Page 5 Anota-se que o Presidente da República tem o poder de promulgar artigos consensuais na Assembleia Nacional. As primeiras eleições democráticas foram também um fracasso, pois que terminaram no maior conflito armado em relação ao anterior. Mas, aos 4 de Abril de 2002 foram assinados os acordos de paz que agora fazem-nos angolanos prudentes e esperançosos de uma Angola una e reconstruída rumo ao progresso e desenvolvimento de todo o mundo. Esta síntese histórica, justifica que Angola é um país completamente emergente, renascendo dos vários venta vais de guerras duras que só deixaram-nos em extrema pobreza embora vivendo sobre valiosos recursos minerais. O nosso contexto é caracterizado pelos verdadeiros efeitos da guerra civil: Extrema pobreza, elevado número de crianças de rua e na rua, altas taxas de mortalidade, desemprego, injustiças e tantos outros males em que as piores vítimas têm sido crianças. Com a implantação da democracia e a essencialmente a promulgação da lei 14/91 de 11 de Maio a Sociedade Civil vem se organizando, surgindo assim Associações altruístas que ao lado do Governo e Igrejas e, o apoio reconhecido Organizações Internacionais, lutam par a passo para o progresso desta Nação angolana. Portanto, diga-se, bem claro, que as ONGs Nacionais são completamente dependentes das ajudas internacionais uma vez estarem assombradas pelos efeitos da guerra cessada a três anos atrás. São todas elas Organizações novas, apesar de entre elas se notar presença de umas mais antigas que as outras. Nenhuma Associação de carácter humanitário, de âmbito nacional e criada em Angola tem mais de 15 anos de existência legal! Mas, que se diga, também, que os esforços empreendidos por muitas das ONGs angolanas, embora desprovidas de recursos e apoios metodológicos organizacionais, revelam a boa vontade de querer ver accionada a alavanca do desenvolvimento integral do angolano e o brilhar mais proveitoso desta grande e bela pátria Angola. Nós, Organizações Nacionais parceiras da SKN-Holanda, só queremos ver o verdadeiro sorriso que a criança angolana pode dar. Lutamos e lutaremos afincadamente para que a criança seja um ser valorizado e respeitado da maneira mais certa. Page 6

10. A CIDADE DO LUBANGO Com a independência do Brasil em 1822 e das Colónias espanholas na América, o que levou à abolição da escravatura em 1836, traficantes portugueses olharam para a fraqueza da coroa portuguesa e protestaram, atenuando assim esta lei em 1858 com a criação de “prazos e etapas”. Enquanto isso, um comércio de escravos de origem angolana continuou sendo feito na clandestinidade. Porém, para a satisfação do acordo da conferência de Berlim (1884 – 1885) que dividiu a África entre as potências européias, Portugal teve de intensificar a penetração militar no interior do país para ocupar o máximo possível de territórios. Neste pensamento, começou a criar algumas colónias no interior dopais com áreas boas para o colonato. Em 1848 criou-se a primeira colónia da Região Sul, que foi a Colónia Brasileira de Moçâmedes composta por portugueses pernambucanos.

Em 1 de Agosto de 1848 chegou a “BRIGUE de GUERRA” com os primeiros 23 colonos e, logo a seguir, no dia 3 de Agosto chegou a barca brasileira de nome “TENTATIVA FELIZ” com mais 147 colonos também portugueses vindos de Pernambuco – Brasil, perfazendo um total de 170 Colonos habitantes da colónia de Moçâmedes. Com o desejo ardente de Portugal povoar o interior do país, foram-se erguendo outras colónias da Região Sul de Angola. Assim, aos 4 de Fevereiro de 1881 os Boers Holandeses se instalaram na Humpata, então região do Soba Nguimbi e formaram com a permissão do Ministro da Marinha e Ultramar em Portugal – o Visconde D. Januário, a colónia bóer de S. Januário chefiada por Jacobs Friedrich Botta, e como representante português na comunidade holandesa, foi promovido o jovem português Alferes Artur de Paiva, empossado pelo Governador do Distrito de Moçamedes – Coronel Nuno da Matta, aos 19 de Janeiro de 1882. A numerosa colónia Bóer de S. Januário, eram constituída por: 270 Holandeses 250 serviçais 2 000 cabeças de gado bovino 100 cavalos 3 000 ovelhas e cabritos, para além de gado de tracção Nos dias 19 de Janeiro de 1885, uma caravana de 222 madeirenses chegou na região do Soba Oluvango e aí instalou a colónia madeirense do Lubango, dirigida pelo português D. José Augusto da Câmara Leme. Em Agosto do mesmo ano outros 349 madeirenses chegaram no local, mas como estes não Page 7 haviam gostado da área dos Barracões e nem tão pouco do sofrimento e a vida que os da primeira leva aí passavam, entenderam ir mais ao interior e negociar terras de cultivo com os indígenas. Estes madeirenses, grandes produtores do trigo, da batata rena, cara, milho, feijão, ervilha e fava, organizaram-se e formaram um conselho rural composto por quatro colonos madeirenses encabeçados pelo português Câmara Leme.

Graças a agricultura, o Lubango nasce, desenvolve-se e prospera! Aos 26 de Dezembro de 1889, quatro anos depois da fundação da colónia do Lubango é decretado por lei o título do Lubango como vila a testa de um conselho com o mesmo nome. E, aos 15 de Agosto de 1923, aquando da inauguração do trço ferroviário Moçâmedes/Lubango e, o primeiro apitar do comboio no Lubango, a vila do Lubango ascendeu à categoria de Cidade. De lembrar que até ali as vias de comunicação terrestre não estavam asfaltadas, porque em todo o país, os serviços de asfalto das estadas começaram apenas no ano 1961 – em consequência da revolução levada a cabo pelos movimentos de libertação de Angola, que fizeram com que Portugal operasse algumas transformações no país depois dos mais de 470 anos de colonização e dominação colonial.

Este Lubango que hoje é a capital da província da Huila, contendo 14 municípios vive o contexto característico de Angola, embora notando-se nele características particulares como é o caso do clima, relevo, belezas naturais, monumentos, produção agro-pecuária e a cultura distinta do povo Nyaneka. Lubango é reconhecida, apesar de tudo, como sendo a cidade jardim de uma Angola com 18 províncias, 163 municípios e 475 comunas. Julho 2005 Sérgio Zeferino Mateus -Missionário Evangélico -“Designer” e artista de comunicação visual -Guia turístico -Coordenador Geral da CATE

O QUE É O "TOCOISMO" - MOVIMENTO EXPANDIDO EM ANGOLA


O QUE É O "TOCOISMO" - MOVIMENTO EXPANDIDO EM ANGOLA

Finalmente - o tocoísmo. É o movimento profético-messeânico que alcançou maior amplitude em Angola, muito embora a sua formação se tenha feito no Congo Belga. Pude ouvir no Colonato do Loge,onde esteve instalado o seu comando central para o Norte, que ali privou com chefes e adeptos. Não abandono, no entanto, a fonte informativa de que me tenho vindo a servir. A designação deriva do apelido do fundador, Simão Toco, mas é de notar como o nome de Simão se presta para a criação e chefia de movimentos desta natureza. Este, depois de Simão Kibango, é o quarto da lista. Verdade que Toco, pelo menos quando entre brancos, esquiva-se a tal relacionamento. Já sabemos, porém, ser corrente a crença indígena em sucessíveis reencarnações de Kibango.

A terra extraida destas covas em cruz é considerada Terra de Simão Toco. Pequenas pastilhas feitas com ela, vendidas a 150$00 cada, cumpre sempre aos iniciados no Tocoísmo ingeri-las.

Entre os nativos, o tocoísmo conhece-se mais por Nzambi a Simão e M'Papa ou Mapapa. Chamam-lhe também Nzambi a M'Papa, Ntongo-Tsa ou Ntongósa e Nkielo ou M'Banda. Nzambi quer dizer Deus, um Deus novo, e os últimos termos "passar as noites sem dormir, a rezer e cantar", por alusão às práticas do culto.

Inicialmente, o movimento teve como fulero Maquela do Zombo, concelho donde Simão Toco é natural, pois veio à luz no povo de Sadi Kiloango.

E Maquela sempre foi terra privilegiada para a nascença e florescimento de "profetas". Depois de abranger o grupo dos Zombos ou Mambatas, expandiu-se para Carmona, Samba, Luanda, Salazar, Malange, Caconda, Porto Alexandre, Moçâmedes, Benguela. Aí, pelos menos, existem congregações, tendo todas o seu templo.

A doutrina, baseada na Bíblia, aproveita principalmente o Velho Testamento e constitui uma sincretização do evangelismo baptista, em que Toco se educou, do Kibangismo, da Watch Tower e de certos elementos das religiões tradicionais africanas. Ou seja uma amálgama de todas as religiões com que ele tomou contacto.

O culto, de modelo protestante, pratica cânticos em conjunto, leituras bíblicas e comentários, tendo como actos rituais básicos a consagração da criança a Deus, o baptismo por imersão, como no rito baptista, a confissão pública, a comunhão, a ceia, o casamento e a oração em comum.

Além dos preceitos relativos à divindade e ao culto, ainda extrai da Bíblia normas de procedimento na vida social, sendo rigorosa a disciplina que impõe em matéria de temperança e higiene.

Toco apresenta-se como o profeta que vem anuncia a segunda vinda do "Mvulugi" - o Redentor. É o chefe supremo do seu movimento, que está organizado em congregações, dirigidas por dois professores, cada uma delas englobando os "fiéis" das localidades respectivas. Teve, como já disse, um comando central para o Norte, e tem outro para o Sul, com sede em Luanda.

A VIDA DE SIMÃO TOCO E A SUA POSIÇÃO ACTUAL

A biografia de Simão Toco ajuda a compreender o desenvolvimento obtido pelo tocoísmo e esclarece de algum modo a sua posição actual. Além disso, serve para dar ideia aos leitores que a não tenham - e será a maioria - de como se forma um profeta, e, atrás dele, uma seita.

Nascido em 1926, frequentou a Missão Baptista inglesa de Quibocolo, concelho de Maquela, cujos superiores, notando-lhe qualidades invulgares, o mandaram para Luanada, onde fez o Iº ciclo dos liceus. Confiaram-lhe, depois, o cargo de professor da escola da Missão, e, a seguir, transferiram-no para a filial do Bembe, ali permanecendo cinco anos. Uma divergência, por causa do seu propósito de casar-se e que parece ter sido apenas um pretexto, levou-o a partir para Léopoldville.

Uma vez lá, inscreveu-se na Missão Baptista local, mas estreitou contactos com a Watch Tower, que já iniciara, crê-se, em Angola. Estabeleceu-os também com elementos kibangistas e da Armée du Salut, o que certamente lhe fez ver como não era difícil a um negro tornar-se fundador de uma religião só para negros.

Foi então, 1949, que aconteceu com discípulos seus, em transe de exaltação mística, o acto de "revelação", traziso por um vento misteriosos, que nesse instante soprou. Toco, para o explicar, citou a passagem da Bíblia adequada e pela qual os convenceu de que o "Espírito Santo havia descido sobre eles". Isto bastou para lhe abrir o caminho de profeta, também por tal sopro divino assinalado.

Como principiasse a realizar reuniões nocturnas com estes iniciados e seus primeiros fiéis, as autoridades belgas - que em 1957 viriam a encetar uma política de tolerância para com os movimentos messiânicos desde que não efectassem a ordem pública - resolveram expulsá-los do seu território. Simão Toco entrou em Nóqui, e as nossas autoridades, por seu turno, fixaram-lhe residência no Bembe.

A sua acção agitou os nativos, pelo que veio a ser trazido para Luanada, e aqui prosseguiu o proselitismo. As transferências, pelo mesmo motivo, sucederam-se. Levado para o distrito da Huíla, em 1950 está no colonato indígena de Caconga, em 1952 no posto de Jau, concelho da Chibia, em 1954 no posto de Cassinga, concelho das Ganguelas. Finalmente, em 1955, isolam-no e estabilizam-no no farol da Ponta Albina, a 25 quilómetros de Porto Alexandre.

Uma dissidência faz com que um dos primeiros adeptos se entenda directamente com a sede da Watch Tower, em consequ~encia do que chega a Luanda o enviado desta, John Roy Cook, que é autorizado a avistar-se com Simão Toco. Mas este reage, defendendo a unidade da sua "igreja", sob o princípio de que ela é uma associação de negros africanos, em que não há lugar para os brancos.

Apesar disto, as Testemunhas de Jeová não desistem e outros emissários visitam o núcleo dissidente, chefiado por Mancoca João, que se localizou na Baía dos Tigres e consegue influenciar indígenas de Moçâmedes e de Benguela.

Quando da eclosão do terrorismo, os tocoístas do Colonato do Loge desaparecem dali e tomam o rumo da fronteira, incluindo-se assim no número dos indígenas refugiados no território vizinho. Simão Toco, que não se orientou activamente contra a soberania portuguesa, sobretudo com uma visita ao Norte, exerceu grande influência nas apresentações dos nativos que têm regressado do ex-Congo Belga. Na área de 31 de Janeiro, por exemplo, verificou-se serem tocoístas a maior parte dos regressados.

***

Estão aqui aproveitados, como julguei conveniente e oportuno, os dois volumes sobre os movimentos associativos da África Negra que o professor Silva Cunha publicou. Rendo a esse trabalho a homenagem que lhe é devida por qualquer português que queira estar informado acerca dos aspectos mais graves dos problemas com que o País hoje se defronta. Haverá leitores que considerem longo, e até fastidioso com as achegas que lhe pus, este meu resumo. Se assim é, peço desculpa. Todavia, outros saberão ver através dele o grande fundo do panorama que a África negra apresenta, numa evolução que actuais e poderosas forças políticas e económicas, tão voraz como traiçoeiramente - para com os próprios negros africanos ! - têm tratado a todo o custo de apressar. Sendo assim, isso me basta.

Tracei, ao começar estes artigos, o plano a que obedeceriam para o necessário enquadramento do terrorismo actual em antecedentes e causas sem cujo conhecimento - pese embora aos que a si próprios se bastam - o género de luta a que o nosso Exército está chamado não se poderá inteiramente conhecer. Ainda não larguei de mão o meu objectivo.
in MSNgroups

...............
 
O ‘Tocoismo’ e o Pensamento Político Religioso Zombo Contemporâneo
 
 
 
Embora já tenhamos, por diversas vezes, citado o conceito Zeitgeist, temos aqui, mais uma vez, a oportunidade de apelar para a sua relevância, por se tratar da ideia do "espírito da época" ou "espírito dos tempos" e daí partirmos para o estudo do fenómeno do tocoísmo.
 
No princípio do capítulo referente à colonização, ‘Algumas Especificidades da ‘Situação Colonial’ entre os Zombo Desde 1910 até ao final da 2ª Guerra Mundial (1945)‘, mencionámos os autores que suportariam a análise e o nosso pensamento sobre os zombo. Cabe agora a vez de nos auxiliarmos do pensamento do quinto e último autor: Arthur Ramos de Araújo Pereira, médico psiquiatra, psicólogo social, indigenista, etnólogo, folklorista e antropólogo. Evidenciamos que o que mais nos aproxima deste autor são as comparações que podemos estabelecer, muito nitidamente, com os kongo e, por consequência, com os zombo através de três obras de sua autoria: O Negro Brasileiro (1934)25, O Folklore Negro do Brasil (1935)26 e finalmente Estudos de Folk‑Lore (1951)27.
 
Demos a preferência ao citado autor, neste capítulo, para nos aproximarmos dos conceitos do profeta Simão Gonçalves Toco e da sua obra, dentro das igrejas cristocêntricas predominantemente existentes no Congo e especialmente entre os zombo.
 
Se Arthur Ramos, em 1934, na obra ‘O Negro Brasileiro’, não receia debruçar‑se sobre as propostas do pensamento de Lévy Bruhl, através do ‘método etno‑comparativo’ sobre A Mentalidade Pré‑lógica28 e a Lei da Participação e, com elas, construir o seu próprio pensamento, também nós, embora com ‘luvas de veludo’ mas mão firme e, apesar dos riscos inerentes à questão da Mentalidade Pré‑lógica, onde estão sempre presentes os termos civilizado e o primitivo ou selvagem, expressões que nos obrigam a enquadrar o significado na linguagem da sua época, começamos por, acerca deste último conceito citar Ramos (1934: 208) quando ele propõe:
“(…) É essa persistencia da mentalidade pre‑logica que vem a explicar todos os factos de survival fetichista entre os negros bahianos de nossos dias. Em outro logar, procurei demonstrar que as praticas do curandeirismo, nos meios incultos do Brasil, revelavam a persistencia desta mentalidade pre‑logica, ou como diz Bleuler, do “pensamento indisciplinado e autistico”. O “paganismo contemporaneo”, o folk‑lore das sociedades adiantadas, evidenciam a persistencia destes elementos pre‑logicos que podem coexistir ao lado dos pensamentos logicos.
Mas o pensamento logico não pode pretender supplantar inteiramente a mentalidade pre‑logica. Os responsaveis pela cultura e progresso sociaes devem attentar bem nesse problema (…)”.
 
Aqui temos uma achega bem forte para compreender o pensamento religioso e político zombo e tudo mais que acerca deles temos vindo a escrever. Porém, o outro pensamento que é a lei da participação (1934:207) vai entroncar no conceito mencionado acima:
“(…) A ligação das representações, no primitivo, foge, assim, às leis da logica formal. Ha nella, relações mysticas que implicam uma participação entre sêres e objectos entreligados nas representações collectivas. Lévy‑Bruhl deu o nome de lei da participação ao “principio proprio da mentalidade primitiva que rege as ligações e as préligações destas representações”. Só com muita difficuldade apprehende a nossa mentalidade a significação desta lei, e, por esse motivo, torna‑se difficil enunciá‑la sob forma abstracta. (…)”
 
Em 31 de Julho de 2005, fomos convidados, mais uma vez, por anciãos conselheiros, para assistir e participar no congresso tocoísta desse ano, que se realizou nos arredores de Lisboa, em sede própria, na rua Senhor Roubado LT1, Vale do Forno, Odivelas (será simples coincidência o nome da rua?). Relataremos o que nos parece essencial, a fim de construirmos o corpo desta secção. Por feliz permissão da direcção da mesa, foi‑nos concedido o registo em vídeo de toda a cerimónia, por isso, as considerações que fazemos são cópia fiel do que ali se passou.
Os trabalhos foram iniciados com as seguintes palavras:
“– Zulumongo é a cidade santa do Ntaya em Maquela do Zombo (…)”
 
O termo Zulumongo, pela tradução à letra, sugere‑nos o seguinte: Zulu quer dizer céu e Mongo significa monte. Ocorre‑nos então fazer uma breve extrapolação: Zulu Mongo significaria para os tocoístas, o que o Monte Sinai significa para os judeus (Êxodo 19:20).
 
Da cerimónia, retiramos dois excertos que nos parecem reflectir o seu espírito. Um dos participantes, com cerca de sessenta e cinco anos de idade, deu o seu testemunho sobre factos passados há cinquenta anos atrás, (previamente autorizado pela mesa a usar da palavra) proferindo as seguintes palavras:
“(…) – Quando Simão Toco no norte começou a percorrer as aldeias, as populações que acompanhavam Simão Toco eram vestidas de branco. Nós, naquela altura éramos muito crianças, mas ouvimos a canção que cantavam era GUNGA GUELA, que quer dizer “o sino tocava’ e tinha um significado: era o despertar das populações para um reino melhor. Eu acho que a canção GUNGA GUELA, GUELA, era uma canção fetiche que despertava as almas das populações. Não me alongo mais porque estou totalmente comovido pelos cânticos que hoje ouvimos. (…)“
 
Esta intervenção terminou com a referência ao termo fetiche que nós transferimos para o kikongo por nkisi e ao qual nos referimos, em pormenor, no capítulo quatro, na secção Particularidades do Processo Mágico.
 
A leitura do discurso do dia esteve a cargo do ‘irmão’ José António Malanga, de que salientamos as seguintes palavras:
“(…) Ao 56º aniversário da descida do Espírito Santo sobre a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo, com Sede Espiritual, em Sadi Zulumongo, Ntaya Makela do Zombo, a direcção Nacional da Igreja, em Portugal, no dia 25 de Julho de 2005, informa:
Em Julho de 1946, realizou‑se a conferência missionária internacional das missões protestantes de todo o mundo, em Leopoldville, capital do ex‑Congo Belga, com a presença de indivíduos de todas as partes do globo, na qual se tratou a educação em geral dos Africanos, o aumento da civilização, dos direitos cívicos e outros e finalmente o aumento da luz do Evangelho de Cristo. Antes do encerramento da conferência foram escolhidos três nativos de Angola para dirigirem petições a Deus.
O 1º interveniente o Reverendo Gaspar de Almeida da missão episcopal Evangélica de Luanda que orou a Deus para aumentar a instrução, educação e progresso de unificação entre brancos e negros. O 2º orador pedia a melhoria das condições sociais e que os negros pudessem ganhar dinheiro como os brancos. Esse africano chamava‑se José Jesser Chipenda. O terceiro orador foi Simão Gonçalves Toco, foi‑lhe dito pelos missionários nomeadamente pelo Dr. Tocker (?) da missão do Dondi, província do Huambo, e o Dr. Brech (?) da missão Africana de Kalukembe, província da Huíla, que pedisse apenas ao Espírito Santo afim de converter o povo africano que se encontrava nas trevas do pecado visto que sem a força do Espírito Santo, África continuaria nas trevas, assim procedeu o orador, pedindo ao Espírito Santo o aumento da luz do Evangelho em África.
Em Julho de 1949, Simão Gonçalves Toco reuniu um grupo de 3*12, que corresponde a 36 pessoas, em Leopoldville, de noite a fim de perguntar a Deus se ouviu ou não a oração dirigida, em 1946, com o pedido do Espírito Santo. À meia‑noite ouviu‑se um grande ruído e viu‑se uma luz. Muitos tremiam, outros falavam muitas línguas, coisas se passaram naquela noite. (…)”
 
 
1991, Luanda, festa tocoista que não se realizava há dezassete anos e a que assistimos.
 
Muito significativo é um relatório que encontrámos no Arquivo Histórico Militar com a referência 69 02 08, já desclassificado, com o título ‘Apontamentos sobre Simão Toco e a sua seita tomados em 1951 por um sacerdote africano da missão de Kimpangu ex Congo belga’, mencionado por Eduardo dos Santos (1972:365), na obra Movimentos Proféticos e Mágicos de Angola. Este autor deverá, na nossa opinião, ser consultado, sempre que se estudem os aspectos mágico religiosos zombo. O que importa aqui referir é a persistência com que, de tempos a tempos, (como se se tratasse de uma doença endémica), de acontecimentos revolucionários, nesta zona, a região banhada pelo rio Fulége, por nós assinalado na secção ‘A 5ª Companhia de Caçadores Indígenas versus Batalhão de Caçadores 88’ e aqui grafado como Mfuelesi, com povoações célebres como o Kimpangu com o seu mercado Kiantanu, o posto de Masseke e também de Sadi Kiloango, sendo interessante reflectirmos por momentos, no conteúdo das duas secções. Por nós, que conhecemos muito bem a região, embora deixássemos de por lá passar, vai para trinta e dois anos, admitimos que as suas características geográficas, a riqueza do seu solo e subsolo, bem como o significado simbólico que ela comporta fará com que os factos vividos e a viver pelas populações zombo, nela perdurem por muito tempo.
Do relatório, acima referido, extraímos o seguinte trecho:
“(…) Durante a leitura da Bíblia, sobretudo de noite, verificam‑se frequentemente casos de pessoas iluminadas, dizem eles, as quais recebem a inspiração sagrada do Alto. Os Iluminados começam a tremer e a ter esgares; os tremores acentuam‑se, o inspirado agita‑se fortemente e indica aos leitores da Bíblia o capítulo cuja inspiração ele acaba de receber. Os leitores lêm então o capítulo indicado… os assistentes cercam o iluminado e excitam‑no a comunicar‑lhes as ideias inspiradas…É depois aclamado e levantado pelos assistentes em sinal de honra e veneração. Acontece com frequência que na mesma reunião se assiste a dois ou três casos de iluminados, inspirados pelo “Mpeve a Mvuluzi” – Sopro divino.29(…)”
 
O sublinhado é nosso, procedemos assim para reforçar a ideia.
Ao falarmos de Simão Toco não podemos deixar de referir a figura central do profeta Simão Kimbangu, porventura, a mais representativa personagem da Teologia Cristã Africana Kongo. Não receamos colocar o termo profeta porque os teólogos católicos e protestantes kongoleses e angolanos referem‑se tanto a Simão Kimbangu como a Simão Toco como profetas, tendo nós assistido, há dias, a uma tese de doutoramento na Universidade Católica em Lisboa em que aquelas personagens foram textualmente referidas naqueles termos. São, especialmente eles, que norteiam as convicções políticas e religiosas dos zombo. A seguir daremos testemunho, com o devido destaque, a factos vividos entre os zombo, desde meados da década de cinquenta do século passado até aos anos noventa seguintes, de situações que tiveram como protagonistas destacados tocoístas de então.
 
 
António Povoa, o Mensageiro Tocoista
 
Muitos mfumu a kanda, chefes e ao mesmo tempo conselheiros tradicionais kongo, faleciam de velhos ou de doença, sem poderem transmitir os seus segredos rigidamente guardados. Desses segredos, dependia o equilíbrio da vida do clã. A sabedoria de viverem sob a tutela da administração colonial portuguesa, fazia com que aparentemente a vida não tivesse nada para transmitir. Ora, é exactamente a história da ‘Vida Vivida’ que tem o poder de orientar os povos. Alguns responsáveis transmitem às gerações seguintes conselhos que, para eles, são paradigmas do seu tempo e do que vem a seguir, escolhem então entre os seus, o que, por vezes, tem a ver com indivíduos que não pertencem por consanguinidade ao grupo de parentesco.
 
Foi o que aconteceu connosco. António Povoa, responsável tocoísta e pertencente ao ‘conselho de anciãos’, na época em que pertencer ao grupo religioso era extremamente delicado, foi‑nos educando de forma muito especial. Em carta que nos dirigiu a 20 de Julho de 1986 e com uma relação de muita proximidade diz‑nos, a determinado momento, o seguinte:
“Apesar de ser esta a primeira vez que lhes escrevo peço‑lhes que não deixem de ter confiança em mim pois tal facto deve‑se à falta de alguém que pudesse entregar a carta pessoalmente, porquanto como é do vosso conhecimento nem todos os segredos devem de ser revelados a toda a gente e em qualquer momento. Como o caso concreto desta conversa que constitui segredo religioso e que em nada agradaria a indivíduos não crentes. (…)”
 
Em 1991, por ocasião das grandes festividades tocoístas (realizadas nesse ano, pela primeira vez, após a independência) durante a nossa estada em Luanda, ficámos alojados no hotel Panorama, situado na ilha. António Povoa fez questão de ‘conversar’ connosco. Não o fez no hotel, fomos ‘conversar’ para a praia. Do muito que continuou a ensinar‑nos, ficou a forma de nos prepararmos para encontrar os caminhos que nos permitiram discernir e encarar muitos assuntos sobre os zombo, em geral. As conversas só aconteceram depois de se ter realizado a tal grande festividade tocoísta que não tinha lugar há mais de dezassete anos. Para que pudéssemos assistir às celebrações, teve lugar uma reunião especial, em casa do, na altura, ‘Velho Simão’. Nas festividades estiveram presentes grupos tocoístas de toda a Angola, foi um privilégio termos assistido, a tantos momentos que ficaram registados em fotografias.
 
O agora pastor António Mário a apresentar‑nos à Assembleia
 
António Povoa era um professor tradicional zombo e, além de conselheiro, entre os doze do ‘Mais Velho Simão’, ou seja, do profeta Simão Gonçalves Toco era ainda um excelente alfaiate, ‘tailleur’, como gostava de ser chamado. Conhecia toda a metodologia da modelagem do vestuário masculino.
 
Este aspecto da profissão teve sempre grande relevância entre os zombo tocoistas. Para Simão Toco, a realização económica do seu povo e logicamente a sua auto‑suficiência, face a outros aglomerados populacionais, era factor de primordial importância. Para que se possa avaliar a forma, como já na altura, escolhia o seu ‘Conselho Director’ citamos do relatório30 do padre católico Alberto Ndandu o seguinte trecho:
“(…) Em Sadi, povo natal de Simão, a seita funciona sob a direcção de Nkemi, o mesmo Mbongo‑Mpassi, sucessor imediato de Minguiedi Mfinda.
Este Nkembi é assistido por um conselho formado por um tesoureiro, por um económico, por alguns anciãos, por um secretário, por catequistas que ensinam nas aldeias, pelos alfaiates, etc. (…)”
 
 
Aliás, os melhores alfaiates zombo foram, nos anos cinquenta, sessenta e setenta do século passado, quase todos tocoístas. O perfil humanista de António Povoa, no que se refere ao respeito que guardava àqueles com quem convivia, fossem o que fossem, fazia dele um homem muito respeitado. Foi‑nos apresentado por Samuel Eduardo, outro tocoísta, condutor auto de profissão, que com António Bala constituíam a nossa protecção, eram os nossos informadores e companheiros de confiança. Deixemos aqui muito claro que nunca fizeram o mínimo gesto para atraiçoar os seus, bem pelo contrário, se de algum modo, a nossa actuação os prejudicava, não deixavam, estamos certos, de ponderar sobre a questão e resolvê‑la, em conformidade. A fotografia que acima foi tirada, por volta de 1965, na povoação de Taya, a célebre Zulu Mongo dos seguidores de Simão Toco. Hoje, entre a sua gente, é tratado por Sua Santidade. A postura do grupo, homens, mulheres e crianças, não deixam margem para dúvidas. Estava‑se naquele tempo, perante o melhor das elites zombo e até kongo.
 
Mais tarde, o acima referido António Bala ao apresentar‑se para servir em determinada firma comercial, (sabemo‑lo fidedignamente) informou com a maior naturalidade, a sua entidade patronal que teria que faltar, uma manhã por semana, para se apresentar à Policia de Defesa do Estado, em Maquela do Zombo. Em 1975, fazia parte dos duzentos e cinquenta trabalhadores da fábrica de vestuário CIV, em Luanda.
 
Uma manhã de Fevereiro, desse ano, o pessoal da fábrica encontrava‑se todo reunido, à porta principal do estabelecimento fabril. O técnico responsável pela produção, à chegada, perguntou‑lhes o que faziam à porta. Foi‑lhe respondido que faziam greve. Inquiridos se sabiam o que significava a palavra greve, responderam que não, só sabiam que não podiam entrar. O director de produção chamou então, de lado, António Bala e pediu‑lhe que o ajudasse a resolver a questão. Este, muito calmo, abriu a Bíblia protestante que trazia sempre consigo (escrita em kikongo) e com ar de quem os reprovava (apesar de ele mesmo se encontrar à porta quando o responsável chegou) dirigiu‑se aos colegas de serviço, mais ou menos, por estas palavras:
“Conheço muito bem a palavra de Jesus. Quero lembrar‑vos a seguinte passagem e começou: Vocês, para serem admitidos ao serviço, entraram por aquela porta estreita, se querem sair pelo portão largo e espaçoso estão a ir pelo caminho que conduz à perdição, não façam isso, vamos ao trabalho”
 
Referia‑se à passagem do Novo Testamento, Mateus 7:13. Entre os trabalhadores estavam vários tocoístas, que perceberam a intenção do seu conterrâneo. Assim que Bala entrou, todos o seguiram. Até que, em 1975, os partidos políticos começaram a defrontar‑se gravemente, nunca mais houve problemas na fábrica e António Bala continuou a apresentar‑se impreterivelmente todas as semanas à PIDE. Sabemos que, por volta dos finais dos anos oitenta, faleceu.
 
 
António Povoa explicava‑nos então que, as famílias zombo não tocoístas, dividiam os seus filhos para seguirem a religião católica ou protestante. De uma forma geral, este procedimento era seguido por todos. Por exemplo, o pai ia à igreja católica mas a mãe e a avó iam à igreja protestante. Havia uma grande diferença nas missas. A igreja protestante adoptou, desde muito cedo, um ritual mais africano, com cânticos que compreendiam, por isso as mães e avós gostavam mais de ir lá, fazendo‑se acompanhar pelos netos. Ultimamente, deu‑se um facto curioso na igreja católica no norte de Angola – foi introduzido na missa o batuque. Após o início da guerra colonial, os elementos responsáveis pela igreja evangélica baptista foram expulsos e parte das suas instalações destruídas. Os zombo daquele tempo, ainda hoje, têm saudades dos cânticos cantados em kikongo pela congregação protestante.
 
A fotografia, ao lado, foi tirada no dia do casamento de António Povoa, já em Luanda. Pensamos que não seria o seu primeiro casamento. A correspondência, que trocámos até 1995, é testemunha de uma amizade recíproca. Depois de todos estes anos, temos muita dificuldade em aceitar que, alguma vez e propositadamente, o António Povoa quisesse deliberadamente prejudicar‑nos. Apesar disso, ele sempre soube que a sua gente disputou, utilizando todos os argumentos, segundo os zombo válidos, as instalações ‘abandonadas’ pelos comerciantes europeus do zombo.
Para a frase ‘utilizando todos os argumentos’ recorremos a M. L. Rodrigues de Areia31 (1974:35) quando, a propósito da figura estruturante do sistema mágico religioso kongo, refere:
“(…) Nos princípios deste século John Weeks, estudando os Kongo, foi um dos primeiros autores a reconhecer que os nganga exercem uma acção benéfica, positiva, no seio da comunidade: «Eles (os nganga) libertam o povo dos maus espíritos e curam as doenças» (Weeks, 1909a:182). A competência destes operadores benéficos viria, segundo o mesmo autor, do recurso à medicina tradicional e também do efeito psicossomático exercido pelas danças, cânticos e imprecações aos espíritos malignos, elementos que acompanham a aplicação dos remédios ritualizando a doença e a cura (Weeks, 1909:53). (…)”
 
A estas linhas de Areia podemos, pelo seu valor documental, acrescentar o que o testemunho ocular do padre Alberto Ndandu32, em 1951, diz a determinada altura do seu relatório:
“Foi assim que neste dia pudemos encontrar ao longo do caminho do nosso percurso vários grupos de homens e mulheres, com os bébés às costas que iam consultar o afamado Nganga Ngongo. Na varanda de sua casa, feita de blocos, pudemos reconhecer algumas pessoas do Ngongo, acocoradas ou assentadas em troncos de árvores, à espera de serem atendidas. Atravessando o Mfwelesi e subida a montanha, eis‑nos chegados à aldeia de Sadi‑Kiloango. O escriturário Alberto que conhecia bem a aldeia onde havia estado várias vezes, e até no domingo anterior, disse‑me: ‘É aqui. Acolá está a casa deixada por Simão Toco. Serve actualmente de templo da seita.’ (…)”
 
Uma outra oportunidade para reflectirmos sobre o assunto desta secção apresentou‑se‑nos, em 1995, com a satisfação de conhecermos David José, estudante finalista de Sociologia, numa universidade de Lisboa. Tivemos longas conversas, aproveitávamos jantar e conversar. Entre cerca de trinta horas de conversa gravada, falamos de tocoístas e do fenómeno da possessão. David disse a certa altura:
Os tocoístas tiveram a possibilidade (paradoxalmente), uma vez que foram dispersados em pequenos grupos de ao “serem concentrados” enriquecerem todos os seus conhecimentos da vida. Em grupo, foram mais fortes que todos os outros grupos que conseguiram juntar o pai a mãe e os filhos. Nos seus cânticos sentiam e comungavam do mesmo tipo de sentimento e isso trazia‑lhes alegria, ou melhor, parece que, desse modo, transbordavam o seu “ser” para o Além. É como que fossem possuídos pelo Espírito, é como se estivessem tão livres, tão à vontade, tão felizes que a voz lhes brotava com alegria. Talvez por isso, algumas pessoas às vezes levantavam‑se a saltitar e um indivíduo estranho ao assunto, era capaz de ir a passar e, inadvertidamente, dizer que aquele fulano estava exagerar, porém o que estaria dentro de tal pessoa, é por o de fora do grupo ignorado, pensar‑se‑ia que estaria bêbado. Há até pessoas que ficam muito concentradas e são até capazes de saltar e bater em alguém. Nós podemos até dizer que de tanto saltarem perdem a atenção, mas geralmente a perca de atenção é também uma grande concentração. A minha filosofia é que quando vejo alguém na rua a andar e vendo o poste à sua frente vai lá bater. Nós dizemos que ele ia muito distraído, mas não! Eu sou capaz de responder que ele ia demasiado concentrado. As pessoas libertam‑se, criam um mundo à sua volta, concentram o pensamento, estão tão concentrados que o que os rodeia não interfere em nada no que estão a fazer e no geral nós dizemos que as pessoas estão com falta de atenção (...)”
 
Nunca mais nos saiu do pensamento esta lição, consideramo‑la extraordinária. Será bom que reflictamos um pouco, porque também faz sentido para o que se passou com os “retornados” portugueses que vieram em difíceis condições, para Portugal, em 1975, referindo‑nos só aos que trouxeram de seu a roupa do corpo e, hoje, conseguiram, a pulso, orientar (os que puderam ou quiseram) as suas famílias.
 In http://www.revistamilitar.pt/modules/articles/article.php?id=479