domingo, 30 de novembro de 2008

III") - A ESCRAVATURA - UMA TRAGÉDIA UNIVERSAL

III") - A ESCRAVATURA - UMA TRAGÉDIA UNIVERSAL


-----(TRANSCRIÇÕES PARCIAIS) DE : -----


===== A) - OBRAS DO AUTOR :


-- a) - "DO TEJO GRANDIOSO AO ZAIRE PODEROSO" - Poema Épico - 1º Volume - 2ª Edição -
--- CANTO SEXTO : "O DRAMA DA ESCRAVATURA" - ANOTAÇÕES (Referentes a muitas das suas estâncias,num total de 698) :

... 1 ) - "Muitos escravos foram retomados
... Que eram vendidos em boa quantidade,
... Sendo pra novas terras embarcados
... Que deles havia lá necessidade.
... Mas os poderes régios contrariados
... Logo os mandavam de volta à sua herdade,
... Sendo caso de má e desleal conduta,
... Não fosse obra feia, de filhos de puta!"

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== (1) - A África deve ter sido realmente o continente onde o homem surgiu pela primeira vez. Não é de admirar que tenha tido um papel preponderante na evolução humana, mesmo pré-histórica.
- A palavra escravo provém do facto dos eslavos (Europa Central) serem vendidos na Idade Média. A escravatura já existia há séculos na Europa e na Ásia, com várias categorias de escravos, em especial os domésticos e os de guerra,sobre os quais havia mesmo o direito de dispor de suas vidas.
-- ..."Foi ela sem dúvida um dos fardos mais pesados que oprimiu a África e constitui uma das mais tristes recordações da Europa -- e também dos países árabes -- sobre este continente...
... A escravatura parece ser quase tão velha como a humanidade, pois a encontramos em quase todos os povos antigos e sabe-se quanto ela pesou na sociedade do império romano, de refinada civilização" ... (em : "Angola, cinco séculos de Cristianismo", de D.Manuel Nunes Gabriel.

-- ... "A escravatura não foi trazida pelos europeus para a África, pois ela já existia mais ou menos em quase todos os africanos"...(da mesma obra).

== 2) - ..."Negociantes de TOMBOCTU e do mercado do deserto em Waden, traziam escravos e ouro em pó à feitoria de D.Henrique em Arguim, recebendo em troca trigo e panos brancos, albornozes, mercadorias europeias, enviadas pelo Infante num navio" ... "As caravelas de Portugal, seguindo o seu rumo ao longo da costa africana, já se não anunciavam pela violência, mas por ofertas de amizade e trocas justas com os indígenas dessas terras"... -(em "Descobrimentos Henriquinos", de E.Sanceau.)

-- "...O príncipe D.Henrique ordenou que as suas caravelas fossem armadas para a paz e para a guerra, ao país da Guiné, onde as gentes são extremamente negras"... (em "Crónicas", de Diogo Gomes).

-- O tráfico de escravos desencadeado pelos portugueses ao longo da costa africana não foi uma acção premeditada; foi surgindo à medida que faziam as conquistas ou até, ao princípio, por curiosidade, pela presença de povos desconhecidos e pela conveniência de justificativo dos lugares então alcançados. O principal objectivo do Infante seria talvez o de alcançar o reino cristão do misterioso Preste João para propagar a doutrina católica e combater o restante povo infiel.

-- "... Não consente o Senhor Infante que se faça dano a nenhum deles"...(em "Navegações", de Alvisse Cadamosto).

== 3 )-..."As expedições africanas faziam-se "por serviço de Deus e do Infante Nosso Senhor, e honra e proveito de nós mesmos."...(E.Sanceau-o.c.).

== 4 ) - D.Henrique não aprovava a simples captura de escravos, antes desejava manter boas relações (mesmo que fosse com objectivos comerciais), com tribos do interior. Assim, em 1445, segue para o Rio do Ouro o escudeiro João Fernandes e Antão Gonçalves, ficando este a viver no deserto com os berberes até encontrar-se com Ahude Meymom, magnate, possuidor de muito gado e ouro no Mali.
O Infante, só por si, talvez não penssasse em ..."reduzir à escravidão os povos descobertos"..."depois da descoberta de Arguim começaram a ser numerosos os escravos dali enviados para Lisboa. Formou-se uma companhia em Lagos para explorar o negócio dos escravos, que depois passou a ser reservado à coroa. Em meados do século XVI Lisboa contava com cerca de 10.000 escravos africanos"...(D.Manuel Nunes Gabriel, obra citada) -

-- Em 1486 foi fundada a Casa de Escravos.

== 5 ) "...O sultão do Egipto não deixa cristão nenhum passar para a Índia pelo mar Vermelho nem pelo rio Nilo para o Preste João, com receio de que os cristãos tratem com ele para que este rio lhes seja retirado"...

== 6 ) ..."se o preste João quizesse,faria desviar o rio para outro lado"...dizia La Broquiére.

... 7) - "A bons e novos portos iam chegando
... Cada dia mais além,por esses mares,
... O sonho em verdadeiro se tornando
... E bem mais quentes sendo os novos ares.
... Com tudo isso porém não lhes bastando
... Uns outros mais cuidavam dos bazares,
... No regresso levando negras gentes
... Por serem das suas algo diferentes;"

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== (7) - No século XVI os catalães visitavam as Canárias e faziam negócio de escravos para suprir a carência de mão-de-obra da Metrópole; uma das razões dessa falta no meio do século foi a peste que reduziu a população a menos de metade.
A "grande peste" (negra), propagou-se pela Europa entre 1348 e 1350; foi disseminada pelos genoveses fugitivos, chegados ao porto de Messina(1347), motivando uma enorme baixa na população, consequente falta de mão-de-obra e do aumento do seu custo. Provocou o abandono de aldeias, vilas e cidades, desagregando toda a economia, com efeitos durante muitos anos.

... 8) - "Logo vendo melhores e bons ganhos
... (Satisfazendo real necessidade),
... Começam de captar povos estranhos
... Que na defesa nem tinham vontade :
... - Uns,por curiosidade ou seus tamanhos,
... Mas outros destinados a uma herdade,
... Já sendo alto luxo entre a fidalguia
... Quem mais negros escravos possuia.
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== 8 ) - Nas cortes europeias começam a surgir servos negros nos mais diversos lugares domésticos, passando a ser um "luxo possuir em casa essas raridades"... Outros ocupavam lugares de guardas e soldados nos palácios reais.

... 9 ) - "E os lusos no negócio escuro estavam
... Desde que Tristão ao áureo rio seguira,
... Alcançando alguns tristes,nus andavam
... Com calor e secura que alguém vira.
... Ao continente berberes levavam,
... Testemunho do ponto que atingira,
... Mas chegando entre pasmo e orações
... Como estranhos seres ou aparições.
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== 9 ) - Em 1441, Antão Gonçalves e Nuno Tristão, na Costa do Ouro; uns outros que resistiram foram mortos. Em 1444, Lançarote de Lagos, leva 263 escravos que os vende logo à chegada !

... 10) - "Grande mal assim nem sempre cuidavam
... Por ser costume habitual muito antigo
... Que entre si mesmo todos operavam
... Sem haver nisso crime ou algum castigo.
... Nas guerras comuns logo ali os captavam
... E em servos punham tão fraco inimigo,
... Ficando alegre se à morte poupado,
... Não sendo pelos canhões atirado!
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== 10 )- ..."a fecunda e principal origem dos cativeiros nasce dos costumes bárbaros dos negros os quais eles abandonariam logo que conhecessem as verdades católicas e as máximas do Evangelho conformassem as suas acções"... "procedem-os cativeiros dos negros que outros nos vêm vender e que nós compramos para os transportar para o Brasil"...(de : D.Miguel António de Mello(governador-geral de Angola,1797/1802)-

--"...A escravatura florescia em África, havia milénios; os negros reduziam-se uns aos outros à escravatura, como ainda o fazem, ao passo que os árabes e os bérberes caçavam negros e vendiam-nos nos portos de Mediterrâneo... Os teólogos em geral estavam convencidos de que ela favorecia o maior bem dos seus irmãos pretos"...(em "D.Henrique,o Navegador", de E. Sanceau) -

-- Muitas vezes, em terra ou já durante as viagens havia motins, pelo que os escravbos eram postos a ferros ou espancados até à morte, o que acontecia por vezes nas fazendas onde eram amarrados ao "tronco" e chicoteados, na presença dos restantes e, outras vezes, em algumas guerras, atirados por pequenos canhões!

== 11) - Lançarote de Lagos e Gil Eanes,em navios com bandeira da Ordem de Cristo, fornecidos pelo Infante, faziam uma caçada entre o Cabo Branco e Arguim, capturando mais de 200 escravos, levando-os para Portugal, sendo desembarcados entre uma multidão embasbacada.

-- ..."E, animados do prazer benévolo,os seus amos enchiam-nos de mimos. Alguns deles é de recear que morressem com tantas bondades, empaturrados de comidas a que não estavam habituados. Começavam de lhes crescer os ventres -- diz-nos Zurara concisamente, e por tempo eram enfermos,... alguns deles eram assim compleicionados que o não podiam suportar e morriam... A maioria deles, porém,aclimatou-se e em breve se reanimou"...

-- ..."A escravidão nos países de língua portuguesa viu-se sempre na sua forma mais atenuada, e quanto aos primeiros africanos trazidos no tempo do Infante, a sua sorte era boa"...- (E.Sanceau - o.c.) -

== 12) - Nas costas de Cabo Verde, o chefe senegalês,Budomel, trocava cem escravos por sete cavalos arreados !

== 14 ) - Em certos pontos mais importantes o tráfico de escravos assumia um elevado movimento, constituíndo até o maior negócio, como em Jena, Timbuktu (Tombouctu), nas margens do rio Níger,havendo príncipes ou mesmo comerciantes que possuiam mais de uma centena de escravos; assim acontecia ainda na costa oriental(Zanzibar e outros pontos).

Estando autorizado o "negócio", eram os escravos trazidos do interior ou capturados pela costa e metidos em "gaiolas" ou a monte em armazéns, sem atender sequer à separação das famílias, chegando a matarem os filhos pequenos para negociarem as mães, sem que lhes fosse permitido protestarem, sob pena de "chicote" ou mesmo de morte,a não ser que fossem pagos em conjunto por um bom preço !

... 15 ) "A tanto era o negócio rendoso
... Que até os cativos outros permutavam
... Com objectos de aspecto duvidoso
... Ou pelo vinho com que embriagavam.
... Antes havia um controle cuidadoso
... E os menos sadios ao lado ficavam,
... Sendo às vezes trocados como saldo
... Por alguns que sobrassem do rescaldo."
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== (15) - Entretanto,nalguns países africanos, os escravos eram muitas vezes integrados nas famílias; noutros, como no Congo, eram tratados com certa tolerância, vendo-se até escravos a substituírem os chefes ausentes e Ngola Aire, filho de uma escrava, receber de Fernão de Sousa o trono do Dongo (Angola),em 1626. Também havia escravos que, por sua vez,possuíam escravos, e algumas tribos em que não havia qualquer tipo de escravatura.
Por vezes alguns senhores e, por certas razões. concediam-lhes carta de Alforria, indo em liberdade ou continuando ao seu serviço.

== 16 ) - Os congueses eram considerados bons escravos, sendo alegres e trabalhadores. Depois de seleccionados eram classificados, sendo os melhores designados "peças da Índia", chegando a valer o dobro ou o triplo dos outros mais fracos ou mais idosos; faziam-lhes um exame directo da cabeça aos pés (olhos, dentes, dedos, sexo, pés,etc); era negócio rendoso,feito à base de permuta,onde usavam as mais variadas artimanhas!
Depois de negociados eram marcados com ferro em brasa, no peito,pernas ou seios !
O Reino de Angola suplantaria o do Congo e mais tarde mesmo as feitorias da Costa do Ouro e Benin (Costa dos Escravos, tal o volume que atingiria a saída de escravos, principalmente para a América (Brasil e outros países), para substituir os índios, considerados fracos para o trabalho das plantações.

== 17 ) - Alguns reis possuíam nas suas cortes um elevado número de mulheres escolhidas, cuja missão era a de seduzirem jovens, por vezes de conivência com os próprios maridos, para depois serem acusados de adultério e por tal ficarem sujeitos ao regime de escravatura.



== 18 ) - O tráfico de escravos pelos árabes estava mais orientado para os serviços domésticos e para soldados e guardas (sendo castrados para não haver descendentes), tendo um ou outro, de preferência forte e saudável, seleccionado para "reprodutor".
As mulheres mais dotadas eram as escolhidas para o harém dos grandes senhores e algumas como criadas das jovens (mucamas).

== 19 ) - Antes do embarque nos navios negreiros, faziam novas escolhas, pelo que muitas vezes os pais e filhos, ou as mulheres e seus parceiros ficavam separados para sempre. Nesses momentos de desespero alguns se escapavam e deitavam-se ao mar e outros se estrangulavam mesmo. Antes da chegada ao destino os que estivessem doentes ou muito fracos eram lançados ao mar para evitar o pagamentode impostos, sem terem grandes hipóteses de os venderem.Os recuperados eram engordados à pressa,drogados e polidos para apresentarem melhor aspecto e resistirem aos exames físicos e empurrões dos compradores para verificarem se estavam em boa forma.
Das plantações do Brasil, Cuba e outros lados por vezes eram ainda revendidos para novos donos em mercados e feiras e novamente marcados com o malfadado ferro em brasa !

... 20 ) "Grilhetados a Lagos aportavam
... Por entre a gente aflita e boquiaberta,
... Sendo tamanhos os gritos e ais que usavam
... Quando os donos lançavam alta oferta !
... Fartos de dor e raiva se esmurravam
... Ou se deitam a terra quando ela aperta,
... Tal o receio p'los tratos que temiam
... Mas para alguns as penas cessariam."
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== 20 ) - Chegada de escravos a Lagos (Algarve)e sua venda no mercado.

... 21 ) "Mães e filhos iam cada uma por seu lado
... Em sendo diferentes os patrões,
... Sem cuidarem do laço mais sagrado
... Nem de humanas, vitais satisfações !
... Muitos do que ali estavam no mercado
... Não ocultavam suas emoções
... Chorando tanto como os infelizes
... E escondendo o pingar dos seus narizes.
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== 21 ) - "...Era uma maravilhosa cousa de ver...mas era também dilacerante. Alguns dos cativos choravam, uns gemiam, outros soltavam lamentos e havia os que davam punhadas no rosto e se atiravam ao chão"... (de : Zurara) -

... 22 ) "Num belo cavalo,o Infante os observava,
... Não mostrando o que estava ali sentindo,
... E escolhendo o quinto que lhe calhava
... O fez pra Sanra Igreja ir prosseguindo.
... Outro grupo melhor tratado estava
... Que em vez de chorar já ficava rindo,
... Sendo dum igual modo bem cuidados
... Sem ver as cores com que foram nados.
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== 22 ) - "...D.Henrique, montado num grande cavalo, observava a estranha cena; não sabemos se sentiu compungido. Segundo Zurara, estava... "considerando com grande prazer na salvação daquelas almas,que antes eram perdidas"..."Os amos não faziam diferença entre eles e os seus servos brancos livres -- se qualquer diferença havia, parece que era a favor dos africanos" ... (de E.Sanceau - o.c.) -

-- "...ao contrário do que sucede com os holandeses, o português entrou em contacto íntimo e frequente com a população de cor. Mais do que nenhum outro povo da Europa, cedia com docilidade ao pressígio comunicativo dos costumes, linguagem e das seitas dos indígenas e negros. Americanizava-se , conforme fosse preciso. Tornava-se negro, segundo a expressão consagrada da costa da África..." - (em "Raízes do Brasil", de Sérgio Buarque de Holanda ) --

... 23 ) - "Mas,muitos outros,os negros negociavam
... Mandando-os para as novas descobertas,
... Nisso grande proveito retiravam
... Maior sendo a procura que as ofertas.
... Com loucura a tal todos se entregavam
... De manhas e outras causas encobertas,
... Pondo em tudo o seu´pérfido disfarce
... Sendo mais forte que melhor roubasse !
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== 23 ) - "...Todos os povos marítimos da Europa ocidental e do norte se entregaram desenfreadamente ao tráfico : - portugueses, franceses, holandeses, ingleses e dinamarqueses. Não eram uns melhores do que os outros"... - "...Angola exportava anualmente, pelos portos de Loanda e de Benguela, cerca de 15.000 escravos...os ingleses e holandeses traficavam também ao norte do Ambriz e na foz do Zaire, e os franceses no Loango, Malembo e Cabinda..." - ( de : D.Manuel N.Gabriel - o.c.) -

== 24 ) - Muito embora as ordens régias não o permitissem era então o melhor negócio que havia, mesmo para o erário público pelos impostos e direitos que cobrava.

== 25 ) - Muitos eram provenientes de S.Tomé, onde residiam os condenados, aventureiros e judeus perseguidos pela Inquisição, alguns casados com jovens escravas, apoiados por um governador corrupto e ambicioso (Fernão de Melo); ou mesmo escravos ou seus descendentes auferindo da liberdade (por alforria) concedida pela Carta Régia de D.Manuel I, em 1515. Os de Cabo Verde, metidos em negócios e resgatess na Guiné, proibidos em 1517, enquanto o rei D.Carlos V autorizava Riscalde e Garrevod praticarem o mesmo ramo, proibido aos restantes.

-- ..."O comércio da escravatura,o principal, mais importante ramo da fazenda real neste reino, é geralmente feito por indivíduos mandados expiar aqui os crimes atrozes que na Europa cometeram...Mas este vil tráfico fomenta e entretém uma constante imoralidade nos índivíduos deste país...parece que tais monstros perderam na passagem do equador toda a lembrança e interesse pelo país onde nasceram..." --(de Cristóvão Avelino Dias - governador-geral de Angola(1823)."-

== 26 ) - Os próprios povos negróides do Saara, na busca dos rios e lagos onde se pudessem instalar, escravizaram ou expulsaram os outros povos menos fortes, como por exemplo o que se deu com os povos Khoisans -- (hotentotes e busquímanos(Kungs) -- corridos pelos probantos,como no Congo.
-- Até os sobas vendiam os seus "fidalgos" e os pais vendiam os filhos : -... o padre Cavazzi afirma que alguns, por um preço abjecto, como um colar falso, um pedaço de vidro ou algum vinho da Europa -- vendem os pais, os filhos, os irmãos, as irmãs, afirmando aos compradores, com mil pragas, que são escravos e condenados muitas vezes à morte"...

== 28 ) - Vários delitos podiam levar à escravidão : - adultério com mulher legítima, morte numa luta, prisão em guerras (Kuata,Kuata),etc. Alguns sobas vendiam os seus vassalos quando não possuíam outros escravos para troca com mercadorias ou faziam as tais guerras contra vizinhos apenas com o propósito de adquirirem "escravos de guerra".

== 29 ) - Alguns chefes mantinham famílias de escravos que descendiam de outros há várias gerações, alguns sem terem realmente conhecimento da sua efectiva condição de escravos. Como a lei proibia a separação dos escravos casados, os senhores faziam tudo para evitar os casamentos ou simplesmente nem cumpriam a lei.

== 30 ) - Os espanhóis possuíam um vasto domínio na América,tendo dizimado as populações nativas(índias e astecas),ou escravizando outras nas plantações; porém, estas não se adaptavam aos trabalhos, fugindo ou morrendo (ou sendo mortas); assim, voltavam-se para os escravos africanos, adaptados a climas semelhantes e mais resistentes.

== 32/33 ) - Tráfico que só podia ser efectuado por intermédio dos portugueses que ali possuíam um monopólio consagrado pelo Papa Nicolau V, no ano de 1454 e confirmado expressamente depois pelo Tratado de Tordesilhas(1494), por Alexandre VI (e antes,1479, pela Paz de Alcáçovas).

== 34 ) - "...Na América Central e nas Caraíbas os colonos não descansaram enquanto não arrancaram ao rei de Espanha um decreto que permitia reduzir os índios à escravidão"... - (D.Manuel N.Gabriel - o.c.) -

== 35 ) - "... Las Casas(Bartolomeu)-- 1474/1566), nasceu em Sevilha e foi o grande defensor dos índios contra os conquistadores, tendo ficado conhecido por "Apóstolo das Índias". Escreveu a História Geral das Índias.
Porém, os espanhóis, concluindo que os índios não satisfaziam nos trabalhos. conseguiram autorização para os substituir pelos escravos africanos, apenas com a exigência papal de que deveriam ser baptizados. Além de solução prática o escravo africano funcionava como "moeda "internacional", com "visto" de reis e papas !

== 36 ) "Já Colombo trouxera uma remessa
... Que nas ocidentais Índias teria,
... Talvez fiado nalguma vã promessa
... Que afinal da Católica não havia,
... Tendo de os soltar todos mais à pressa
... Que nunca viram tão grande alegria !
... Cada qual tomou novo amo ou outro rumo
... Mas com comida certa e bom aprumo."

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== (36) - Cristóvão Colombo(1451/1506), sob a bandeira ..dos reis de Espanha e na busca doutro caminho marítimo para as Índias,recusado por D.João II,chegara às Américas em 1492, desconhecendo que alcançara o continente americano, onde tinham chegado muitos anos antes (talvez mesmo cinco séculos)os vikings, EriK, o Vermelho. e seu filho Leif, o Afortunado;( à Gronelândia, em 982/85).

..."Quando Colombo regressou da sua 1ª viagem à América, trouxe um carregamento de índios para vender em Espanha. A rainha, Dona Isabel, a Católica, teve escrúpulos em permitir a sua venda e mandou pô-los em liberdade" . --(D.Manuel N.Gabriel - o.c.) --

== 37/39 ) - Só os espanhóis estavam autorizados a negociarem, mas não possuindo os necessários conhecimentos, nem feitorias próprias,
para o abastecimento da mão-de-obra. logo socorriam-se dos portugueses que, aproveitando a situação, os ludibriavam.

-- "... Não se esqueça também que a ocupação europeia da maior parte da África quase até aos nossos dias e a de Angola pelos portugueses tiveram também muitos aspectos positivos..." -- (Sérgio B.Holanda - o.c.) --

-- Em 1570 D.Sebastião fixara várias normas de conduta sobre essa ocupação e proibindo ainda o comércio de escravos.

== 46/7 ) - Concessão da donatária de Angola a Paulo Dias de Novais, em 19 de Setembro de 1571.
Inquérito efectuado por Abreu de Brito.

49 ) "Em celas apertadas,muito escuras,
... Mas que de barcos assim se tratavam,
... Morriam cheios de fome e de securas
... Ou das muitas pancadas que apanhavam.
... Para mais tristes sortes,desventuras,
... Eram vendidos por ouros que odiavam,
... Caíndo p'la terra quente,afastados
... Das suas mulheres,fracas,noutros lados.
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== (49) - Só os homens é que normalmente interessavam aos negreiros por resistirem melhor às durezas das viagens,e,mesmo para esses,eram muitos os sacrifícios e tormentos que passavam. Além de serem muito demoradas, as cargas que cada navio levava, sem nenhumas condições, tornavam bastante piores essas viagens.

53 ) - "E mais defronte,os lusos insistentes
... Com medidos esforços e canseiras,
... Obtinham resultados sorridentes
... Em causas de outras válidas maneiras.
... Com eles iam sabidos e alguns crentes
... Que noutros lados,com razões ou asneiras,
... Tinham obtido paz e condições
... Em lucros de melhores divisões.
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== (53) - "...Neste caso o Brasil não foi teatro de nenhuma novidade. A mistura com gente de cor tinha começado amplamente na própria Metrópole. Já antes de 1500, graças aos trabalhos dos pretos trazidos das possessões ultramarinas, fora possível, no reino, estender a porção de solo cultivado, desbravar matas, dessangrar pântanos e transformar charnecas em lavouras,com o que se abriu passo à fundação de povoados novos"... - (Sérgio B. Holanda - o.c.)-

== 54 ) - Também os jesuítas ali possuiam os seus escravos,embora contrariando a orientação papal; mantinham diversos nas suas propriedades para o cultivo das terras.

58 ) - "Iam em lotes dobrados,por cuidado
... Prevendo as mortes talvez habituais,
... O que em cada nau tinha-se elevado
... Forçando a carregar braços a mais.
... De tal forma era o número aumentado
... Que, com fomes e apertos sem iguais,
... Ao mar encapelado se lançavam
... E da bruta força humana escapavam!

59 ) - "Homens,mulheres,eram amarrados,
... Corpos rapados,nus,ali estendidos
... Uns contra os outros postos,alternados,
... Pra aproveitar espaços já vendidos.
... Os naturais alívios ali obrados
.... Entre os líquidos,gazes expelidos,
.... Mais parecendo fétida estrumeira
.... Duravam assim a viagem inteira !"
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== (59) - Com os corpos quase nus e rapados, eram deitados uns contra os outros de maneira a ocuparem menos espaços, todos comprimidos e sujos pelos próprios dejectos!

== 60 ) - Às vezes, durante o dia,os escravos eram postos na ponte, a arejar ou a trabalhar; outras vezes obrigavam a fazer danças,sob chicotadas. Nos motins os cabecilhas eram executados ou lançados ao mar; outros chicoteados até ficarem em sangue e servindo de espectáculo,ou retalhados e servidos como refeição !...

== 61 ) - Outras vezes eram picados ou retalhados e tratados com misturas picantes e pólvora. Os condenados à morte recebiam a notícia com alegria por se libertarem daquele inferno..."Em seguida com a satisfação pintada na cara, olhando com desdem o carrasco e recusando que pusesse mão neles, lançavam-se ao mar,onde encontravam pronto remédio para os seus males"... - (em : "A causa dos escravos negros" - de FROSSARD) --

== 63 ) - Proibição aos portugueses de irem a CARTAGENA, dada por Filipe IV.

64 ) - "Depois um novo acordo combinaram
... Que permitia maior venda de gentes;
... Em porões carregados as embarcavam
... Para certos "assientistas" exigentes.
... Uns outros ali rápidos chegavam
... Da fortuna fácil muito crentes,
... Ficando os castelhanos co fracasso
... Porque primeiro alguém passara o laço.
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== (64) - Junta de Escravos (1614) -- Carlos V concede aos flamengos um "assiento", em 1518, sobre a "tonelagem de escravos" permitida nos seus navios, depois transmitida aos genoveses,portugueses e ingleses. Os barcos tinham dispositivos adequados ao transporte de escravos para aproveitar o máximo de espaço e evitar as suas fugas para o mar. Em terra havia uma complicada organização à roda das feitorias, com barracões onde os escravos, amontoados,aguardavam a chegada dos navios. Um sistema de taxas e impostos enchia os bolsos de muitos exploradores de vários países. Os que não tinham feitorias praticavam acções de pirataria, com assaltos aos outros negreiros. Assim era em Arguim, Goreia(na ilha de Goree), Fernando Pó, S.Tomé, bem como mesmo em Luanda. Enquanto os franceses quase não possuiam instalações, os holandeses e ingleses eram os mais apetrechados nesse tráfico, servindo-se de todos meios para aliciarem os menos precavidos, tais como : - mulheres, bebidas alcoólicas e armas; quando já estavam entorpecidos eram amarrados e embarcados à força! Além dos portos indicados havia também grande movimento por quase toda a costa africana (Senegal),Serra Leoa, Costa do Marfim, Costa do Ouro, Ajudá, Benin,etc.) -

== 67 ) - Governador-geral Correia de Sousa enviara alguns povos (macotas e lengas) para o Brasil,tomando ainda severas atitudes contra os reinos do Congo e Benguela para os eliminar.

== 69 ) - D.Fernando de Toledo conseguiu um "assiento" para quinze mil licenças de venda de escravos.

Em Inglaterra formara-se a primeira Companhia para o negócio da escravatura, concedido ao famigerado John Hawkins e na qual a própria rainha D. Isabel teria(?) interesses, funcionando em regime de monopólio durante muitos anos!
Em Lagos também funcionava uma outra designada "Companhia" dedicada ao mesmo ramo, pois ali há muito existia o respectivo mercado.

== 70 ) - Os holandeses tiveram uma certa autonomia marítima a partir do século XVI, sendo superados depois pelos franceses e ingleses já no século XVII. Utilizavam o tristemente e bem célebre "Triângulo de Nantes", sendo os outros dois vértices na Costa de África e na América,fazendo toda a espécie de roubos e de piratarias.

71 ) - "Até um rei negro e sua corte vendiam
... Depois de seduzidos em cilada,
... Que as palavras assim nada valiam
... Entre gentes de má fé demonstrada.
... Nova Companhia logo formariam
... Apoiados p'lo Cardeal nessa jornada;
... A Colbert noutra até mais ajudaria
... Com certo monopólio que fazia.
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== (71) - Em 1602 é fundada a Companhia Holandesa das Índias Orientais, estendendo-se a sua acção aos países situados além do Cabo da Boa Esperança. Seria extinta em 1798 - (200 anos de exploração).

Em 1626 a Companhia Ruanesa obtinha autorização do cardeal Richelieu para o negócio da costa africana.

Colbert cria a famosa Companhia das Índias Ocidentais,em 1664, monopolizando durante muitos anos todo o tráfico a partir de Cabo Verde até ao Cabo da Boa Esperança e mar das Antilhas. Os portugueses e espanhóis, depois do descalabro da "Invencível Armada", enviada por Filipe II de Espanha, contra a Inglaterra (1588), ficam reduzidos a uma pequena fatia do grande bolo que apenas lhes pertencera!

== 72/3 ) - Os próprios negros,por vezes, conduziam alguns escravos aos mercados e feiras onde logo os vendiam ou trocavam por qualquer bugiganga, espingardas, pólvora, tecidos, etc. Os melhores iam para os ingleses e os mais fracos ou rejeitados para os portugueses que os pagavam com a "moeda" local (zimbo - um marisco de concha univalve, em forma de coração, pescado na Ilha de Luanda).

-..."Eram ainda os portugueses e espanhóis os que manifestavam mmais humanidade no seu trato"... (D.Manuel N.Gabriel - o.c.) -

== 74 ) - João do Campo e Paulo Martel eram comerciantes no Rio da Prata (Buenos Aires).

75 ) - " E sentado num Cabo pedregoso
... Estava o negro ancião se recordando,
... C'os olhos no horizonte,bem receoso :
... - Quantos filhos seus foram transportando
... Certos negreiros pra um fim duvidoso,
... Sob controle de pérfido comando,
... Sem esperanças de os voltar a ver
... Em seu mais triste e trágico viver ?!..."
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== 75 ) - Imagem simbólica de quantos escravos foram obrigados a deixar a sua terra e suas famílias para um destino desconhecido,fatal tantas vezes !...

- Quantas "crias" - (filhas de escravos) - enriqueceram os "hárens" dos grandes senhores !?

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-- INTERNET - a consultar :
http://www.releituras.com/gilbertofreyre_bio.asp

-- http://plano-da-obra.blogspot.com/2006/05/2-roteiro-da-viagem.html

--- http://prossiga.bvgf.fgf.org.br/portugues/index.html

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--- b) - De : "ANGOLA - DATAS E FACTOS" - lº Volume -1482/1652 - 2ª edição :

== 1624 - OUTUBRO - 1/3 - Bando criando as Feiras para o negócio de escravos em : DONGO (BUMBA ARQUIZAMBO), SAMBA ANGOMBE,CACULO CABAÇA E AMBUÍLA --

== 1626 - DEZEMBRO - Foram abertos os seguintes locais para Feiras : - GUIZAMBAMBE --CACULO -- SANGA -- QUIPAPA (QUIAPAPA), NADLA KISUA (MBONDO) --

== 1628 - A Coroa efectuara um contrato com ANDRÉ RODRIGUES ESTREMOZ para o monopólio comercial (com tráfico de escravos) em ANGOLA e CONGO, durante 8 anos.

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--- c) - de "ANGOLA - DATAS E FACTOS" - 2º Volume (1652/1837) - :

== 1660 - "DEZEMBRO - A exportação de escravos que alcançara elevados valores, entra em diminuição, excepto para o BRASIL e CUBA, destinados às suas culturas de cana-de-açúcar e café.
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sábado, 29 de novembro de 2008

O inicio da guerra em Angola: O 4 de Fevereiro



O inicio da guerra em Angola: O 4 de Fevereiro

Como já deves saber pelos jornais, houve assaltos a vários estabelecimentos de Luanda (cadeias civis, Casa de Reclusão Militar e Quartel da Brigada Móvel da PSP), na madrugada do dia 4 do mês corrente. No dia seguinte, domingo, quando a maioria da população desta cidade acompanhava à última morada os agentes da ordem mortos no dia anterior, alguns agitadores dispararam tiros, entregando‑se a demonstrações de provocação. A polícia e o exército intervieram logo, travando luta com os díscolos. Houve dez assaltantes mortos e muitos outros foram presos. Também num outro ponto da cidade houve motins. Vários polícias ficaram feridos. Na quarta‑feira, dia 8, os assaltantes atacaram a cadeia de S. Paulo. Morreram 17 assaltantes e muitos foram feridos, efectuando‑se numerosas prisões, tal como já acontecera no sábado, dia 4. A grande maioria dos assaltantes nativos estava fortemente drogados com “marijuana” e possuíam armas brancas (catanas) e armas de fogo de origem checoslovaca. Entre os assaltantes mortos ou presos havia alguns europeus pintados de preto. A polícia e o exército têm efectuado “rusgas” pelos muceques e prendido numerosos indígenas suspeitos de tomarem parte nos assaltos. Perto do cemitério foram encontrados muitos pretos feridos, tratados por duas feiticeiras, num hospital improvisado. Foram todos presos (1)

Os polícias da Brigada Móvel terraplanaram os terrenos à volta do quartel, instalaram projectores nos diversos edifícios do dito quartel e cercaram‑no de arame farpado que, segundo dizem, está pronto a ser electrificado no caso de um novo assalto. Na cadeia de S. Paulo foram instalados projectores e a guarda foi reforçada. No Quartel General da PSP a guarda foi reforçada. De vinte em vinte metros encontra‑se um polícia de metralhadora e com a baioneta calada. São ao todo seis polícias e um cipaio. Tirando isto e as “rusgas” aos muceques, tudo está normal, como antigamente. (MLF - 1961.02.23)

(1) Toda a população branca da cidade foi aos funerais. Estava tudo dentro do cemitério da Estrada de Catete quando alguém gritou Eles venhem aí! começando a ouvir‑se rajadas de metralhadora. A partir daí foram o pânico generalizado e o caos, com as pessoas a correrem desordenadamente, aos gritos, uns para aqui e outros para ali, todos confluindo para o portão principal do cemitério, pequeno para tão grande avalanche. Lá dentro, havia sapatos pelo chão, pessoas correndo com um pé descalço e outras partindo árvores e estacas de sustentação para improvisadas armas. Conseguimos sair, todos juntos, em direcção à carrinha no meio dos inúmeros veículos que estavam cá fora estacionados. De repente ouviram‑se novas rajadas de metralhadora, e aí deitei‑me no chão, esperando que uma cova se abrisse debaixo de mim para me proteger. A viagem de regresso fez‑se a passo de caracol e seguramente que muitos brancos teriam sido chacinados se tivesse mesmo havido um ataque. E a imagem que me ficou, perante o absurdo evidente daquela retirada geral sem qualquer segurança, foi a imagem dum negro desolado à beira da estrada, esfarrapado e ensanguentado. Essa noite e os dias que se seguiram foram de represálias e massacres indiscriminados sobre os negros dos musseques, perpetradas pelos civis brancos armados.

ADENDA - Antigamente havia quem escrevesse muito e muitas dessas cartas acabam por ser testemunho dos tempos que corriam, interpretados de acordo com os diferentes ângulos de visão, que também ao longo dos tempos podem mudar. Estudando em Angola, de Angola pouco sabíamos, como registo no meu poema Raízes. Lembro-me que na 4ª classe havia um pequeno livro de capa avermelhada dedicado à História de Angola, que começava com a chegada de Diogo Cão ou Paulo Dias de Novais. Para trás nada havia e os feitos «celebrados» eram os dos «descobridores» brancos de Portugal, encarregados de levar a «Fé Cristã» e a «Civilização» aos bárbaros que povoavam África desde tempos imemoriais. Havia salvo erro uma referência à rainha Nzimba Mbandi NGOLA Mas depois, no ensino secundário, Angola desaparecia perante a omnipresença de Portugal Continental,, o «Puto», como se dizia. E no entanto, nos livros em inglês ou em francês que me ofereciam nas datas festivas, Portugal resumia-se quanto muito, a uma escassa meia dúzia de linhas, talvez apenas a Vasco da Gama e Fernão de Magalhães. Afinal, como descobri depois, havia uma outra história e outras culturas e mundividências e o começo da guerra em Angola contra os «brancos» começara muitos séculos antes, praticamente desde a chegada dos portugueses ao território que daria origem a uma colónia denominada Angola, «juntando» povos rivais, cuja divisão se fomentava, dentro do princípio de que para reinar é preciso dividir e acirrar os antagonismos. Mas, mesmo entre os brancos, havia quem quisesse a independência de Angola, cujo desenvolvimento económico a Metrópole coarctava. Mas esta seria para muitos uma independência que lhes permitisse manter a sua situação privilegiada face à esmagadora maioria da população, do mato e dos musseques.

RAÍZES


"Maianga Maianga
Bairro antigo e popular
Da velha Luanda
Com palmeiras ao luar ..."

''A Praia do Bispo
Cheiinha de graça
De manha á noite
sorri a quem passa ..."

(das Marchas Populares em Luanda)


Longo era o bairro ao longo da marginal
Longo era o bairro do morro de S. Miguel ao morro da Samba
Grande era o bairro e grandes as casas
No meio o bairro operário e a igreja de S.Joaquim,
estreitas as ruas, pequenas as casas.

Nas traseiras, o morro,
no alto o Palácio,
Na frente a larga avenida,
o paredão, as palmeiras e os coqueiros
a praia que já não era do Bispo
mas das pedras, dos limos e dos detritos.

Mais além a ilha que era península
com a sanzala dos pescadores
casas de colmo no areal
da extensa e boa praia
o mar sem fim.

Em Luanda nasci
Em Luanda vivi
Em Luanda estudei

Não Angola mas Portugal
Todos os rios e afluentes
Todas as linhas férreas e apeadeiros
Todas as cidades e vilas
Todos os reis e algumas batalhas
as plantas e animais
que não eram do meu país.

De Angola
pouco sabiamos
até ao 4 de Fevereiro, até ao 15 de Março
Veio a guerra e
a mentira
que alimenta
a Guerra,
Veio a guerra e a violência
veio a guerra e a liberdade.

Em Évora a 11 de Novembro
Em Luanda a bandeira do meu país
no mastro subiu.
Era o tempo da liberdade e da esperança.

No Porto
Em Lisboa
Em Évora estudei
Em Évora casei
Em Évora vivi e nasceram o Rui e a Suzana.

Em Setúbal moro e no Barreiro trabalho

Perdidos os amigos,
perdida a infância
Estrangeiro sem raízes sou em Portugal.

Victor Nogueira - 1982

Publicada por Victor Nogueira

O Início da Guerra do Ultramar


O Início da Guerra do Ultramar [nas colónias ou para a Independência].

1º excerto do programa "Prós e Contras" dedicado à Guerra do Ultramar e transmitido a 15 de Outubro de 2007 na RTP1.
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NOTA de VN - O que Salazar, seus apoiantes e grandes beneficiários econóimicos esconderam foi o regime de verdadeiro trabalho escravo existente e sucessivamente condenado pela ONU. O que Salazar escondeu foi aquilo que muitos entretanto soubemos e o General Galvão de Melo revelou neste programa: Os EUA informaram previamente da ocorrência dos massacres, a serem perpertados pelo movimento racista e tribalista de Holden Roberto, a UPA. Mas o Governo Português resolveu «ignorar», para ter um pretexto pata evitar cumprir as sucessivas resoluções da ONU para a concessão da indepêndencia às colónias portuguesas e assim ter poder mobilizar com o grito «Para Angola e em Força»
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O que Salazar e o seu Governo e a maioria dos grandes interesses económicos escondiam era que a maioria da população negra não sabia falar português e que semanas antes a aviação militar portuguesa, na Baixa do Cassanje, tinha bombardeado e incendiado com napalm aldeias ou sanzalas negras provocando milhares de mortos entre os camponeses, que se recusavam a trabalhar para a Cotoonang, empresa produtora de algodão.
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O que os órgão de informação esconderam é que depois dos ataques do MPLA em 4 de Fevereiro contra prisões para libertar presos políticos, muitos brancos de Luanda organizaram milícias populares liquidando indiscriminadamente a população negra dos musseques, só porque eram negtos e potenciais «terroristas».
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O que o Governo de Salazar fez foi não ter forças armadas em Angola, nem o exército preparado para uma guerra de guerrilhas, mas sim para uma guerra convencional com armamento obsoleto, morrendo como tordos os primeiros contingentes das forças expedicionáeias portuguesas.
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Um livro interessante sobre este tema é:
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Castelo, Cláudia - Passagens para África - o Povoamento de Angola e Moçambique com Naturais da Metrópole (1920-1974) - Edicões Afrontamento (Biblioteca de Ciências Sociais), Lisboa 2007
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Também pode ver:
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Reflexões sobre a história e os diferentes ângulos de visão - Victor Nogueira
O 15 de Março em Angola - Victor Nogueira
O 4 de Fevereiro e o início da guerra em Angola - Victor Nogueira
Colonialismo: um Crime - Waldir José Rampinelli

Angola - Evolução do Dinheiro nalgumas imagen

Angola - Evolução do Dinheiro nalgumas imagens



Pano


Sal


Boi


Escravos


Copper Lingot from Zakros Crete.


Cauri (ilha de Luanda)


«brasss»


Benim - português rodeado de 5 manilhas


Soba angolano com manilha no braço




1 Macuta - seculo XIX

1 Macuta - seculo XVIII

Macuta - 1837














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Para saber mais ver:
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3. - Nova pagina (Evolução do dinheiro)
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4. - Serviços - Museu do Banco de Portugal
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5. - Ron Wise's Geographical Directory Of World Paper Money
Veja dinheiro do mundo inteiro nesse site, é só você escolher o continente e depois o país e ver a evolução do dinheiro através dos tempos.
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Guerra, Descolonização e tentativa de branqueamento da História



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* Victor Nogueira
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Posso apenas servir-me das minhas «memórias» e estas perdem-se nas brumas do tempo e nas mudanças do olhar (1).
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Mas perante tantos cronistas encartados que na Televisão e na auto-denominada «imprensa de referência», como Marcelo Rebelo de Sousa, Miguel Sousa Tavares, Nuno Rogeiro, Jorge Coelho, Santana Lopes, José Sócrates, António Barreto, Emídio Rangel e Vital Moreira, etc., etc., etc., abalizados fazedores de opinião pública e outros que peroram ou peroraram abalizadamente sobre tudo como se inclíticos descendentes do «renascentista» e genial Leonardo Da Vinci fossem, permitam-me estas opiniões «impressionistas» dum bloguista Zé Ninguém.
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De 1961 a 1966 vivi diariamente em Luanda e depois daí, estudante universitário apenas e até às Férias Grandes de 1972, posso dar a minha opinião, por vezes «impressionista», tal como os «sábios» «opinion makers» acima referidos, aceitando rectificações contudo fundamentadas às minhas «memórias».

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A «independência» do Congo ex-belga, nunca chamada à colação mas mais «assassina» ou «criminosa» que a Portuguesa nos moldes em que foi feita (recordemos o abandono dos colonos brancos e da secessão do rico Katanga, do apoio a Moise Tshombe e do assassinato de Lumumba, este apresentado como sanguinário analfabeto pela imprensa portuguesa - lembremo-nos também das «anedotas» sobre Samora Machel, (2) ... Lumumba, apesar de «protegido» pelos capacetes azuis no Congo Belga, que fora «propriedade particular» do imperador da Bélgica, teve a mesma «sorte» que os seus compatriotas no século XIX que, sob a pata do «venerável» Leopoldo II, foram assassinados: 50 % da população do da fatia do Reino ou Império do Congo, pela Conferência de Berlim artificiosamente «dividido» entre Portugal, a França e Leopoldo (entenda-se, não à Bélgica), formando este o que chamou Estado Livre do Congo. (3)(4)
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A chegada de levas de colonos brancos aterrorizados fugidos do Congo ex-Belga com uma mão à frente e outra atrás, foi habilmente explorada pela imprensa angolana ferreamente controlada pelo fascismo Português para «demonstrar» a inferioridade dos negros, terroristas e sanguinários selvagens incapazes de se autogovernarem.
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Considerados «mentecaptos» pelo fascismo salazarento português, os negros em África (durante séculos coisas e mercadoria escrava na América) eram considerados incapazes de viverem em democracia, tal como os brancos e as mulheres no Puto. Durante séculos Angola foi vasta colónia de degredo, para criminosos de direito comum ou presos políticos, de Portugal ou do Brasil. É verdade que os líderes dos chamados «terroristas» eram intelectuais negros, licenciados ou não pela salazarenta Universidade Portuguesa, como
Agostinho Neto, Amílcar Cabral, ViriatoCruz, Eduardo Mondlane, Mário Pinto de Andrade ou Savimbi ...


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A tragédia do Congo teve influências negativas em Angola após os assaltos em Luanda à Cadeia Civil de S. Paulo, ao Quartel da Polícia Móvel e ao Forte de S. Fernando, ocorridos em 4 de Fevereiro de 1961, para libertar os presos políticos, e reivindicados pelo
MPLA. Desses assaltos resultaram mortos apenas entre os assaltantes e as forças policiais, neste caso sete. O senhor Coronel Manuel Amaro Bernardo dá o seu testemunho sobre a preparação das forças militares portuguesas para a guerra de guerrilha e sobre a ausência de massacres sobre as populações negras.
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Eu, como muitos outros brancos, estávamos lá. Éramos brancos da 2ª geração, éramos brancos angolanos a quem Portugal nada dizia (veja-se o meu poema Raízes) e já dei testemunho com um saber de experiência feita dos massacres sobre as populações negras perpretados indiscriminadamente pelas milícias da Organização Popular de Vigilância e Defesa Civil de Angola no PortugalClub, no macua.blogs - 25_de_abril_o_antes_e_o_ agora e no Kant_O_XimPi
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A benevolência do colonialismo ou o «luso-tropicalismo» de Gilberto Freire (5) são uma ficção, mesmo num país «exemplar» mas de facto racista como é o Brasil. Isto para não falar nos EUA ou em muitas «repúblicas» inde+endentes da chamada América Latina. Latina? Anglo-saxónica? Apenas e na sequência da Conferência de Berlim. nos finais da Monarquia - após o ultimatum do velho e «aliado» amigo e opressor e colonizador de Portugal, sobretudo na sequência do leonino Tratado de Methuen - e durante a 1ª República, com as chamadas «Campanhas de Ocupação», se dominou aparentemente a resistência ao invasor estrangeiro, igual à enaltecida independência de Portucale ao Reyno de Leão ou à resistência de Portugal à ocupação do Castela ou às invasões napoleónicas.
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Os resistentes de Portugal à colonização do Portugal europeu, incluindo aos ideais da Revolução Francesa (Liberdade, Igualdade e Fraternidade) são considerados heróis exemplares, enquanto os resistentes na «Mãe-Pátria» eram apresentados como «agentes» e «traidores» a «soldo» de Moscovo e os das colónias eram apresentados como selvagens, sub-humanos, negros pagãos envolvidos nas trevas da idolatria e terroristas. Mas foi o carro do consul norte-americano em Angola que os «brancos» de Luanda atiraram à baía ou as missões evangélicas norte-americanas que foram depredadas. Na altura não havia ilusões nem «revisões» da história.
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O senhor Cor. Manuel Amaro Bernardo não refere o esclavagismo que era o «contrato de trabalho» em Angola e S. Tomé, denunciado mesmo por Henrique Galvão, anti-comunista e até certa altura defensor da «gesta imperial», nem os comprovados «crimes de guerra» silenciados pela censura do «democrático» fascismo português, de que são exemplo o genocídio sobre as populações camponesas negras, regadas a napalm, em greve face ao regime de monocultura imposto pela Cotonang para integrá-los na economia de mercado. Nem refere a «exploração» do chamado tribalismo entre congoleses e bailundos, «aproveitada» pelos fazendeiros do café no norte de Angola, como o fascismo e os latifundiários se aproveitavam da miséria dos «ratinhos» da Beira Baixa para impor baixos salários aos assalariados agrícolas alentejanos nas praças de jorna ou em greve por melhores condições de vida e de trabalho.

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Podem oficiais do Quadro Permanente, «retornados» e saudosistas de Salazar dizerem que a guerra estava militarmente ganha. Mesmo que assim fosse ela estava económica e políticamente perdida face à cegueira e ganância de quem económicamente sustentava o fictício e embaraçante poder de Salazar/Caetano. O esforço de guerra era feito pelos oficiais milicianos e pela «tropa» camponesa portuguesa que fugia e emigrava.
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Como confirmou o falecido e anti-comunista General Galvão de Melo, na RTP, num debate colectivo prévio à apresentação da série sobre a Guerra «tout court», o exército português na altura não estava preparado para uma guerra de guerrilha mas sim para uma guerra convencional. Como ele ou outro participante confirmou, apesar da espumosa apoplexia dum seu «camarada» de armas, defensor da tese da vitória militar das Forças Armadas Portuguesas em 1974, Salazar foi antecipadamente informado pelo Governo norte-americano da revolta da UPA, que apoiava e financiava. Salazar nada fez para evitar os massacres e após o falhanço do ingénuo golpe palaciano de Botelho Moniz pronunciou o célebre «Para Angola em Força».
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As primeiras forças expedicionárias portuguesas foram recebidas em delírio ao desfilarem garbosamente em Luanda na mítica e bela Avenida Marginal Paulo Dias de Novais (embora adolescente, eu estava lá).
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Será verdade que breve o entusiasmo dos «brancos» se transformou em menosprezo face aos «maçaricos» mal armados, que morriam como tordos, e cujas armas obsoletas lhes rebentavam na cara, como passou a constar mais ou menos em surdina?
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Sem ofensa, podem oficiais do Quadro Permanente, «profissionalizados» nas «artes» da guerra, puxarem lustro aos galões, mas terá fundamento a opinião dos brancos, pelo menos em Luanda, de que eles limitavam-se a ficar na rectaguarda, a partir de certa altura «cansados» de sucessivas comissões e de andarem com a casa às costas?
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Pode haver quem louve o «democrata» militar profissional de carreira General Spínola, apoiante e observador das tropas nazis durante a invasão da URSS perante o «silêncio» e passividade dos «manos» democratas republicanos protectores de nazis após a fantochada do Tribunal de Nuremberga ou da condenação à morte de Eichmann pelos sionistas do artificial Israel (que esteve para ser em Madagáscar ou no Sul de Angola), como Churchill (o da cortina de ferro) e F. D. Roosevelt ou Truman (o da Guerra Fria, criminoso de guerra e responsável pela destruição de Hiroshima e Nagasaki), «pai» de McCarthy, ou medíocres actores como Reagan's, mulherengos e viris Kennedy's' ou Clinton's, (com o beneplácito de Jacqueline's «Onassis» ou Hilary's) ou «geniais» Bush, estrénuos defensores dos direitos humanos e de todos os golpes fascistas na América Latina ou no chamado 3º Mundo perpetrados na sombra mais ou menos encoberta da Companhia ou de másculos «travestis» e tarados sexuais.
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Mas que os distingue face a por eles considerados «criminosos», «terroristas» e/ou «ditadores», «inimigos da Liberdade e dos Direitos Humanos», alguns poderosos «patrões» e outros simples «marionetas» como Estaline,
Pol Poth, Park Chung Hee, Ho Chi Minh, Mao Zdong, Tito, Yasser Arafat (Prémio Nobel da Paz), Fidel Castro, Nelson Mandela (Nobel da Paz que ainda hoje figura na lista dos «terroristas» elaborada pelo Tio Sam), Muammar Kadafi, Milosevic, a URSS ou a China «Popular» ou Chavez, enquanto deram ou dão apoio a impolutos Uribes, Vargas, Castelo Branco e Companhia, Péron, Videla, Castillo Armas, Salazares, Francos, Pinochets, Bin Laden, Papa Doc's, Fulgêncios, Trujillos, Noriegas, Idi Amin Dada, Mosh Dayan, Mobuto, Tschombé, Savimbi, Holden Robertos, Suharto, Marcos, Saddam, Reza Pahlavi, Faiçal ou Fahd, Ngoh Dim Dien, Van Thieu, Park Chung Hee, Chiang Kai-Chek, ou defensores do Apartheid como Ian Smith, Daniel Malan e P. Botha e uma infindável lista de democratas defensores dos direitos humanos, transformados alguns em terroristas, ou inimigos da humanidade quando tiveram a veleidade de enfrentarem «a Voz do Dono», sem falar em Hitller, Hirohito, Vichy ou Mussolini, impunes até à derrota nazi na Batalha de Estalinegrado, [reedição da Napoleónica Batalha de Moscovo], volte face que permitiu mais tarde, no século XX, o arranque do Exército Vermelho mas impediu a sua imparável avançada até às praias de Portugal porque entretanto e finalmente os restantes «aliados» acordaram e resolveram finalmente ouvir os apelos da URSS para abrirem a «frente ocidental» e desembarcar na Europa, a Sul de Itália e na Normandia (ver O Dia D), após a fuga de Dunquerque (Batalha de Dunquerque) e a resistência europeia, sustentada também pelos partidos comunistas e outros democratas não colaboracionistas, incluindo Charles de Gaulle ?

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Apesar das semelhanças, há diferenças. Napoleão espalhou as ideias da Revolução Francesa por toda a Europa, apesar de as ter traído quando depois de brilhante general ao serviço da República, de consul se auto-proclamou Imperador. O Czar de Todas as Rússias era um déspota feudal e defensor da servidão da gleba.Adolf Hitler era um defensor da superioridade ariana (embora ele e a sua corte não fossem louros, altos e de olhos azuis como as Waffen-SS) enquanto a URSS era povoada por duas raças sub-humanas a exterminar: os eslavos e os judeus, escravos de Krupp, Schindler, nas suas grandes ou pequenas indústrias. Não confundir com a Schindler Portugal, ou Aristides de Sousa Mendes, defendido na RTP pelo insuspeito José Miguel Júdice, contradizendo 0 popular José Hermano Saraiva.

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A Série sobre a A Guerra Colonial de» Joaquim Furtado recentemente transmitida pela RTP e distribuída presentemente pelo tablóide Correio da Manhã - líder de vendas - conjuntamente com a colecção «Os Anos de Salazar», mas ignoradas pela imprensa de referência e «desprezado» pelos «intelectuais» e pelas «classes» alta e média alta, abriram os olhos a «retornados» e «ex-combatentes» provenientes da ralé e compulsivamente incorporados nas Forças Armadas Portuguesas, integradas na superioridade dos «brancos» e da «civilização ocidental cristã (católica)», a tal que se horrorizava perante os «sacrifícios» sangrentos das civilizações pté-colombianas, que exterminou apesar de cientidicamente mais avançadas, tal como os árabes (mouros), chineses e japoneses, enquanto apadrinhava sangrentas guerras religiosas na Europa e torturava Galileu e outros «hereges», quando não os queimava nos autos de fé em tudo idênticos aos sacrifícios dos maias e de cristãos, estes pelo imperialismo romano (o tal da paz dos cemitérios) santificados e mortos nos «Coliseus», subversivos monoteístas então condenados à clandestinidade das Catacumbas.
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Quanto ao inefável estratega e herói do 25 de Abril, de seu nome Otelo Saraiva de Carvalho, não passa dum verborroico, como muitos ultra-revolucionários acérrimos inimigos do «social-fascismo», agora convertidos às delícias do capitalismo e seus serventuários. Eles eram os «Pinta-Paredes», os impolutos ultra-revolucionários maoístas, simples barretes morgadios, de falso tesão, filhos de Sant'Annas de Portas Abertas, conservados em salmoura, ontem estrénuos defensores da demo-cracia ou da Liberdade e do Zé Papa-Açordas ou inimigos do capitalismo de Estado da URSS e defensores da Revolução Cultural do bando dos quatro, hoje renegados de Mao Zdong e acérrimos adversários dos «amarelos» da milenar China e mergulhados na Lama.
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Em 25 de Novembro de 1975 o grande Otelo pôs os seus adeptos na rua e foi para casa dormir, incomunicável, indiferente ao desencadear duma guerra civil. O «comandante» e notável estratega deu luz verde às suas «tropas» e depois zarpou.
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Ultra-revolucionário candidato às eleições Presidenciais contra Ramalho Eanes, o estratega do 25 de Novembro (ver os depoimentos, «registos» para a verdadeira HISTÓRIA, do
Tenente General Tomé Pinto, do General Silva Cardoso, do Contra ventos e marés .... João Brandão Ferreira - TCor Pilav (Ref), do Coronel Amaro Bernardo, do Almirante Rosa Coutinho, do General Gonçalves Ribeiro (A BATALHA DE LUANDA), do General Galvão de Melo, do Coronel Matos Gomes, de Pires Veloso, (General na Reforma, o encoberto e verdadeiro estratega do 25 de Novembro?) ... retomando o fio à meada Othelo contra Octávio Pato, candidato do PCP.

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Onde estão a A Verdade e a A Mentira?

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O grande Otelo, estratega do 25 de Abril, confessou anos mais tarde, «candidamente», que apesar de candidato votara no «adversário» Ramalho Eanes, porque «a democracia já estava consolidada». Santa ingenuidade daqueles de cujo voto se aproveitou e traíu para permitir a vitória de Ramalho Eanes e limitar a votação no PCP. As autodenominadas Forças Populares do 25 de Abril, lideradas pelo «ingénuo» Otelo, acusadas de bombistas e de crimes de sangue, foram julgadas e condenadas, enquanto as gémeas forças do Exército de Libertação de Portugal ou do Movimento Democrático de Libertação de Portugal lideradas pelo «Marechal» Spínola, Alpoim Calvão, Cónegos Melo e Ferreira Torres nunca foram levados à barra do Tribunal nem por isso precisaram de amnistias, pelo que morreram em cheiro de santidade e sem escândalo. Talvez um dia sejam transladados pera o «Panteão» Nacional, já que não possuem sangue azul que lhes permita repousar em S. Vicente de Fora.

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Com lágrimas de crocodilo choram-se os mortos pela Guerra Civil em Angola, aponta-se o dedo ao MPLA e a Cuba, mas deixam na sombra a UNITA, Savimbi e o exército racista da União Sul Africana. Chora-se a «traição» dos que deixaram os Flechas no terreno e que foram fuzilados, mas não se diz que o mesmo fizeram os EUA aos colaboracionistas no Vietname enquanto os últimos americanos fugiam como ratos embarcando nos helicóperos no telhado do edifício da «sua» embaixada. Choram-se os mortos e as vítimas da «barbárie» após a descolonização portuguesa, mas deixam-se na sombra os milhões de mortos no Iraque, na Indonésia, em Dresden, em Hiroshima e Nagasaki, nas colónias europeias ou no quintal do Tio SAM. Censura-se Iago, mas esquecem que a pacífica Revolução dos Cravos teve poucos mortos e esses foram provocados pela «valerosa» PIDE ou pelos bombistas do ELP/MDLP, a norte de Rio Maior. Enquanto isso, elogia-se a Padeira de Aljubarrota, que assassinou à pazada derrotados, perdidos e assustados castelhanos, ou admira-se a populaça que assassinou os derrotados e fugitivos soldados napoleónicos e aplaude-se o assassinato de Miguel de Vasconcelos, o traidor.

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Quanto à «traição» de Álvaro Cunhal, a «soldo» de Moscovo ou de Mário Soares, também a «soldo» de Moscovo para uns, «agente» da Companhia» para outros, é bom recordar que a cadeia de comando foi quebrada nas colónias pelo pé descalço «miliciano» cansado da guerra e em Portugal por aqueles que então gritavam «Nem um Soldado para as Colónias, Já!» em nome da «Revolução a Todo o Vapor», hoje sentados nas poltronas do Poder que diziam combater, pagos por Roma a troco duma travessa recheada de lentilhas, clari-videntes visionários de argueiros no olho do vizinho mas cegos da trave que lhe tapa o olhar, ou «horrorizados» e assépticos investigadores sociais e/ou «opinion makers» que então se apresentavam como os verdadeiros comunistas ou reorganizadores do partido do proletariado. . É da História que apenas Ramalho Eanes e Álvaro Cunhal se opuseram á aceitação da ocupação de Timor Leste pelas «democrática» Indonésia, com o beneplácito protector do Tio SAM, que exterminou milhares de resistentes timorenses que mal sabiam falar português, tal como os negros em África antes da independência ou a generalidade dos goeses do «Estado» Português da Índia.


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(1) comentários ao texto Dois intelectuais distraídos e um provedor paternalista, do Cor. Manuel Amaro Bernardo

(2) anedotas idênticas às que portugueses contam dos galegos ou dos alentejanos, que brasileiros contam dos portugueses ou de brancos sobre os negros e «mouros».

(3) Adam Hochschild - O Fantasma do Rei Leopoldo

(4) Joseph Conrad - Coração das Trevas (Heart_of_Darkness)

(4) - O Luso-Tropicalismo de Gilberto Freire e Lusofonia e Luso-tropicalismo
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O 15 de Março









O 15 de Março










* Victor Nogueira
Das cartas por mim então escritas e os comentários que o tempo e outra visão ditaram posteriormente

Registaram‑se massacres no Norte de Angola, praticados por terroristas. Os europeus e os indígenas que não quiseram aderir aos terroristas foram martirizados e mortos. Muitos dos mortos foram cortados às postas pelos terroristas. Grande número de fazendas ([1]) e pontes foram destruídas. Em Luanda os civis têm‑se exaltado. Anteontem foram falar com o cônsul americano, o qual lhes perguntou o que desejavam. Após ouvir as alegações dos civis, teria respondido: “Vão‑se embora que isto é dos pretos.” Aqueles, ouvindo isto, arvoraram a bandeira portuguesa no mastro do consulado e atiraram o automóvel do cônsul ao mar. Ontem outro grupo de civis atacou a Missão Evangélica, mas foi disperso com bombas lacrimogéneas. ([2])

Têm‑se formado Milícias de Defesa Civil do Território, nos bairros da cidade. Na Praia do Bispo ainda se ofereceram 15 homens, que têm feito a ronda nocturna. No entanto ontem eu e outro rapaz andámos a distribuir os papéis de inscrição pelo bairro. Houve uma casa em que me responderam: “Nós somos velhos, não precisamos disso. Vai‑te embora.” Essa é uma casa de mulatos. Se eles aceitassem menores de 18 anos para fazer a ronda eu oferecia‑me. Assim só precisam dos menores para fazer os serviços dum contínuo quase.

A semana passada aprendi a carregar e descarregar uma espingarda, quando fui com o meu pai ver os funcionários das O.P. [Obras Públicas] que ficam de velada à noite. O meu pai é quem abre as portas dos armazéns onde dormem. (JLF - 1961.03.24)

Registaram‑se no Norte de Angola, nas regiões de Maquela do Zombo e S. Salvador insurreições de indígenas. Há a lamentar numerosas vítimas, quer entre os europeus, quer entre os indígenas (principalmente os bailundos) que defenderam as fazendas. Segundo os relatos dos refugiados os insurrectos após martirizarem os europeus e indígenas cortaram‑nos às postas! Para evitarem a fuga dos europeus os revoltosos abriram valas nas estradas e derrubaram as pontes. Felizmente que a calma já se encontra restabelecida! ([3])

Em Luanda os civis têm‑se exaltado e já por diversas vezes atacaram pretos pela simples razão de serem pretos. Anteontem um grupo de civis foi falar com o cônsul americano, mas estes ter‑lhes‑ia dito: “Vão‑se embora que isto (Angola) é dos pretos”. Claro que os civis indignaram‑se e, após espatifarem o carro do consulado, atiraram‑no à baía, cantando “A Portuguesa” e dando vivas a Salazar. Ontem outro grupo de civis queria fazer uma manifestação em frente do consulado americano, mas a polícia dispersou‑os com bombas lacrimogéneas. No entanto mudaram de rumo e depredaram a Missão Evangélica. (NID - 1961.03.24)

Registaram‑se no Norte da Província, nas regiões de Maquela do Zombo, S. Salvador e outras, insurreições dos indígenas. Estes praticaram atrocidades. Além de assassinarem os colonos europeus mataram os pretos que a eles não quiseram aderir. Sanzalas inteiras e fazendas foram arrasadas. Graças à rápida intervenção das forças armadas as insurreições acham‑se quase dominadas. Têm‑se efectuado numerosas prisões. A grande maioria dos europeus até aqui presos são pequenos funcionários, a quem tinham prometido os cargos de ministros dos governos do Negage e de Camabatela, que se haviam de formar. As zonas assaltadas pelos terroristas estavam cheias de colonos barbaramente mutilados, estando muitos vexados, principalmente as senhoras e raparigas.

Em Luanda os civis têm‑se exaltado. No dia 22 um grupo de civis foi falar com o cônsul americano. Este ter‑lhes‑ia dito: “Vão‑se embora que isto é dos pretos.” Aqueles exaltaram‑se, arvoraram a bandeira Portuguesa no consulado e atiraram com o carro do cônsul à baía. No dia seguinte tentaram fazer outra manifestação no consulado americano, mas a polícia dispersou‑os com bombas lacrimogéneas. Nesse mesmo dia assaltaram a Missão Evangélica partindo todos os vidros. (...) A Missão situa‑se perto do Colégio das Irmãs e o Consulado na Av. Marginal, mas foi disperso com bombas lacrimogéneas.

Não sei se conhecias o Cónego Manuel das Neves, aquele padre velhote que celebrava a missa na Sé, geralmente às 9 horas. Pois bem, foi preso. Com ele foram encontrados planos para diversas insurreições, uma delas em Luanda. Esse cónego seria um dos ministros do novo estado!!! (JG - 1961.03.27) ([4])

Isto cá por Angola não vai muito melhor. No entanto os nossos mortos podem contar‑se pelos dedos, comparados com as pesadas baixas que temos infligido aos terroristas. (JG - 1961.06.19)

[1] - Herdades agrícolas ou roças.

[2] - Neste processo os maus da fita eram os EUA e as igrejas protestantes, acusados de apoiarem a UPA (União dos Povos de Angola) de Holden Roberto, apresentado como um preto estrangeiro que nem português sabia falar!
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[3]- Estava creio que numa festa de aniversário quando soube dos massacres no Norte de Angola, massacres atribuídos ao mau exemplo da independência do Congo ex‑belga tempos antes, sendo Lumumba apresentado como um malfeitor e Tschombé, separatista do Katanga, como um amigo. Os massacres pareciam inexplicáveis, tanto mais quanto a maioria de nós desconhecia que semanas antes a aviação militar portuguesa tinha bombardeado aldeias e chacinado camponeses no Norte de Angola, em greve devido ao regime de monocultura estabelecido pelas grandes companhias, em detrimento das culturas tradicionais de subsistência. Neste contexto poderá ser explicado o ódio aos fazendeiros e indígenas com eles colaborantes, independentemente doutras considerações. A verdade é que entre os brancos se instalou um autêntico clima de histeria, alimentado pela publicação de fotos, notícias e romances dos massacres dos europeus, sem que a outra parte pudesse fazer o mesmo. Eram frequentes os boatos em Luanda sobre o envenenamento da água das canalizações ou da descida dos negros dos muceques, infiltrados de terroristas, para massacrar os brancos da cidade. Muitas vezes fomos todos dormir para o escritório do meu pai, num arranha‑céus na Marginal, adultos e miúdos todos deitados uns ao lado dos outros, à espera do que viesse. Este clima de histeria desculpava e justificava os massacres indiscriminados sobre os negros, linearmente o inimigo, logo ali abatidos pelas milícias populares ao menor gesto suspeito. A célebre frase de Salazar, «Para Angola e em força», marcou uma viragem no ânimo dos civis, levado ao rubro pela chegada e desfile dos primeiros contingentes militares que marchavam pela Marginal perante as ovações de quem pejava os passeios. Tropa mal preparada, que nos primeiros tempos morria como tordos nas emboscadas, com armamento obsoleto que muitas vezes rebentava na cara e nas mãos dos soldados, os maçaricos como depreciativamente começaram a ser tratados pelos brancos de Angola.

[4] - O Cónego Manuel das Neves era um velhote simpático, mestiço, com quem gostava de falar, que me baptizou, crismou e deu a 1ª comunhão. Apesar de todas as histórias que se passaram a contar, nunca o vi como um terrorista sedento de sangue. Aliás, nunca consegui embarcar nas teses maniqueístas dos brancos bons vítimas da maldade dos negros a soldo do estrangeiro. Foram criados negros que andaram comigo ao colo, me embalaram e contaram histórias para adormecer; foram negros os criados com quem brinquei; eram negros a lavadeira e os criados com quem conversava, que gostavam do menino Vitó porque os tratava sem arrogância, os considerava seus iguais e procurava que tivessem os mesmos direitos que os brancos! Lembro‑me da Maria, lavadeira, velhota, que fumava os cigarros com o morrão para dentro. Lembro‑me dos criados, como o Sebastião, o Laurindo, o Ambrósio ou o Fernando, este que se dizia filho dum soba e sucessor do pai lá na sua aldeia no sul de Angola.

in kantoximpi.
Gravuras - Goya - Os desastres da Guerra

ANGOLA


1. RAZÃO DO NOME Angola

– Assim se chama porque um dos seus reis a séculos idos era chamado Ngola e dele se notabilizou uma sucessão de reis que afamaram em Angola a dinastia Ngola. Estudos arqueológicos confirmam que este país é habitado por vários reinos e etnias desde a idade da pedra.

2. LOCALIZAÇÃO GEOGRÁFICA A República de Angola, situa-se na costa ocidental do continente africano, na sua costa austral. É um país com uma superfície terrestre de 1 246 700 Kilómetros quadrados, uma fronteira terrestre de 4 837 Kilómetros e, a Oeste uma fronteira marítima de 1 650 Kilómetros. Angola localiza-se a sul do equador e a oriente do meridiano nas seguintes coordenadas: # Latitude Norte: 4º 22Gr # Latitude Sul: 18º 02Gr # Longitude Oeste: 11º 41 # Longitude Leste: 24º 05

3. AS FRONTEIRAS O nosso país faz fronteira a Norte com a República Democrática do Congo e República do Congo; a Leste, com a República Democrática do Congo e a República da Zâmbia; a Sul com a República da Namíbia e a Oeste com o Oceano Atlântico.

4. GEOMORFOLOGIA ANGOLANA Geomorfologicamente, Angola divide-se em quatro partes: # Zona Sedimentar # Zona de transição # Zona montanhosa ( esta zona começa no município da Humpata, província da Huila e segue até em Kassongue, província do Kwanza Sul) # Zona Planáltica, também conhecida de Zona maciça ou maciço antigo.

5. CLIMA O clima é equatorial em Cabinda (província mais a norte), tropical seco e por vezes temperado nas restantes províncias do Norte e, desértico e semidesértico no sul. Page 3

6. HIDROGRAFIA Angola possui 47 bacias hidrográficas que alimentam diversos agradáveis e longos, com belas quedas, cascatas e outras surpreendentes características enquanto atravessam paisagens em todo o seu curso. Dois desses rios dão a maior alegria aos angolanos e aos turistas estrangeiros pela sua larga extensão de navegabilidade, que são os rios Kwanza e Zaire. O rio Kwanza ( nome adoptado à moeda nacional) tem um percurso de 240 quilómetros navegáveis, enquanto o rio Zaire é navegável em todos os 150 qulómetros que atravessam o nosso país, uma vez que outra parte resta no território da República Democrática do Congo ex- Zaire.

7. RECURSOS MINERAIS Angola é um país eminentemente rico em recursos minerais. Estima-se que o seu subsolo alberga 35 dos 45 minerais mais importantes no comércio mundial.

8. POPULAÇÃO No Século XV, os portugueses haviam estimado em Angola um senso populacional de 18. 000. 000 de habitantes, mas, devido ao tráfico de escravos, até ao fim da escravatura, em 1836, foram achados no país, apenas 8. 000. 000 de habitantes, o que prova que cerca de 10. 000. 000 de habitantes haviam sido vendidos noutros países povoando essencialmente a ilha de S.Tomé e Príncipe e o Brasil. Hoje, a população angolana está estimada aos 11. 000. 000 de habitantes, numa composição de 49,3% homens e 50,7% mulheres. Esta população é maioritariamente jovem, uma vez que 65% desta têm menos de 25 anos de idade. A esperança de vida é de 45 anos para os homens e, de 48 anos para as mulheres. O país enfrenta um défice de 65% de população analfabeta e outros dados revelam que 15 109 habitantes existem para um médico, sem deixar de enfatizar que maior partes de médicos está concentrada apenas em Luanda – cidade capital. Page 4

O catolicismo é a religião da maior parte da população angolana, com 68%. Além destes, existem os protestantes com 20% e outros 12% dos seguidores de crenças tradicionais. A língua oficial falada em Angola é o português. E estão em promoção oito línguas nacionais entre as inúmeras faladas no território: Umbundo Kimbundo Kicongo Nyaneka Tchokue Nganguela Kwanhama Fiote

9. BREVE SÍTESE HISTÓRICA Angola viveu cerca de 500 anos de colonização (1482 – 1975) e outros 14 anos de libertação nacional (1961 – 1975). Durante o período de colonização a grande preocupação dos colonizadores foi o forte interesse pelo comércio de escravos e em consequência disto até ao final da colonização (1975), o colono havia deixado em Angola apenas 27 angolanos licenciados, dos quais 9 eram negros. Em 1975, fruto dos acordos de Alvor em Portugal, incentivados pelo Movimento PAN-AFRICANISTA, o GRÉMIO e a LIGA NACIONAL AFRICANA foi proclamada a independência do país aos 11 de Novembro. Estes acordos, para além de determinarem a data da independência do país e o Governo de transição, elegeu-se também o Colégio Presidencial da República ora em nascimento. Mas, tudo isso para quase nada valeu visto que em 1976, meses depois da proclamação da independência, acendeu um conflito armado interno que afamou uma guerra civil sangrenta em Angola. Dezasseis anos depois (em 1992) deu-se a implantação da democracia pluripartidarista e a realização das primeiras eleições democráticas. A Constituição estabeleceu um sistema semi-presidencialista com os seguintes órgãos do estado: Presidência da República Assembleia Nacional Governo Tribunais Page 5 Anota-se que o Presidente da República tem o poder de promulgar artigos consensuais na Assembleia Nacional. As primeiras eleições democráticas foram também um fracasso, pois que terminaram no maior conflito armado em relação ao anterior. Mas, aos 4 de Abril de 2002 foram assinados os acordos de paz que agora fazem-nos angolanos prudentes e esperançosos de uma Angola una e reconstruída rumo ao progresso e desenvolvimento de todo o mundo. Esta síntese histórica, justifica que Angola é um país completamente emergente, renascendo dos vários venta vais de guerras duras que só deixaram-nos em extrema pobreza embora vivendo sobre valiosos recursos minerais. O nosso contexto é caracterizado pelos verdadeiros efeitos da guerra civil: Extrema pobreza, elevado número de crianças de rua e na rua, altas taxas de mortalidade, desemprego, injustiças e tantos outros males em que as piores vítimas têm sido crianças. Com a implantação da democracia e a essencialmente a promulgação da lei 14/91 de 11 de Maio a Sociedade Civil vem se organizando, surgindo assim Associações altruístas que ao lado do Governo e Igrejas e, o apoio reconhecido Organizações Internacionais, lutam par a passo para o progresso desta Nação angolana. Portanto, diga-se, bem claro, que as ONGs Nacionais são completamente dependentes das ajudas internacionais uma vez estarem assombradas pelos efeitos da guerra cessada a três anos atrás. São todas elas Organizações novas, apesar de entre elas se notar presença de umas mais antigas que as outras. Nenhuma Associação de carácter humanitário, de âmbito nacional e criada em Angola tem mais de 15 anos de existência legal! Mas, que se diga, também, que os esforços empreendidos por muitas das ONGs angolanas, embora desprovidas de recursos e apoios metodológicos organizacionais, revelam a boa vontade de querer ver accionada a alavanca do desenvolvimento integral do angolano e o brilhar mais proveitoso desta grande e bela pátria Angola. Nós, Organizações Nacionais parceiras da SKN-Holanda, só queremos ver o verdadeiro sorriso que a criança angolana pode dar. Lutamos e lutaremos afincadamente para que a criança seja um ser valorizado e respeitado da maneira mais certa. Page 6

10. A CIDADE DO LUBANGO Com a independência do Brasil em 1822 e das Colónias espanholas na América, o que levou à abolição da escravatura em 1836, traficantes portugueses olharam para a fraqueza da coroa portuguesa e protestaram, atenuando assim esta lei em 1858 com a criação de “prazos e etapas”. Enquanto isso, um comércio de escravos de origem angolana continuou sendo feito na clandestinidade. Porém, para a satisfação do acordo da conferência de Berlim (1884 – 1885) que dividiu a África entre as potências européias, Portugal teve de intensificar a penetração militar no interior do país para ocupar o máximo possível de territórios. Neste pensamento, começou a criar algumas colónias no interior dopais com áreas boas para o colonato. Em 1848 criou-se a primeira colónia da Região Sul, que foi a Colónia Brasileira de Moçâmedes composta por portugueses pernambucanos.

Em 1 de Agosto de 1848 chegou a “BRIGUE de GUERRA” com os primeiros 23 colonos e, logo a seguir, no dia 3 de Agosto chegou a barca brasileira de nome “TENTATIVA FELIZ” com mais 147 colonos também portugueses vindos de Pernambuco – Brasil, perfazendo um total de 170 Colonos habitantes da colónia de Moçâmedes. Com o desejo ardente de Portugal povoar o interior do país, foram-se erguendo outras colónias da Região Sul de Angola. Assim, aos 4 de Fevereiro de 1881 os Boers Holandeses se instalaram na Humpata, então região do Soba Nguimbi e formaram com a permissão do Ministro da Marinha e Ultramar em Portugal – o Visconde D. Januário, a colónia bóer de S. Januário chefiada por Jacobs Friedrich Botta, e como representante português na comunidade holandesa, foi promovido o jovem português Alferes Artur de Paiva, empossado pelo Governador do Distrito de Moçamedes – Coronel Nuno da Matta, aos 19 de Janeiro de 1882. A numerosa colónia Bóer de S. Januário, eram constituída por: 270 Holandeses 250 serviçais 2 000 cabeças de gado bovino 100 cavalos 3 000 ovelhas e cabritos, para além de gado de tracção Nos dias 19 de Janeiro de 1885, uma caravana de 222 madeirenses chegou na região do Soba Oluvango e aí instalou a colónia madeirense do Lubango, dirigida pelo português D. José Augusto da Câmara Leme. Em Agosto do mesmo ano outros 349 madeirenses chegaram no local, mas como estes não Page 7 haviam gostado da área dos Barracões e nem tão pouco do sofrimento e a vida que os da primeira leva aí passavam, entenderam ir mais ao interior e negociar terras de cultivo com os indígenas. Estes madeirenses, grandes produtores do trigo, da batata rena, cara, milho, feijão, ervilha e fava, organizaram-se e formaram um conselho rural composto por quatro colonos madeirenses encabeçados pelo português Câmara Leme.

Graças a agricultura, o Lubango nasce, desenvolve-se e prospera! Aos 26 de Dezembro de 1889, quatro anos depois da fundação da colónia do Lubango é decretado por lei o título do Lubango como vila a testa de um conselho com o mesmo nome. E, aos 15 de Agosto de 1923, aquando da inauguração do trço ferroviário Moçâmedes/Lubango e, o primeiro apitar do comboio no Lubango, a vila do Lubango ascendeu à categoria de Cidade. De lembrar que até ali as vias de comunicação terrestre não estavam asfaltadas, porque em todo o país, os serviços de asfalto das estadas começaram apenas no ano 1961 – em consequência da revolução levada a cabo pelos movimentos de libertação de Angola, que fizeram com que Portugal operasse algumas transformações no país depois dos mais de 470 anos de colonização e dominação colonial.

Este Lubango que hoje é a capital da província da Huila, contendo 14 municípios vive o contexto característico de Angola, embora notando-se nele características particulares como é o caso do clima, relevo, belezas naturais, monumentos, produção agro-pecuária e a cultura distinta do povo Nyaneka. Lubango é reconhecida, apesar de tudo, como sendo a cidade jardim de uma Angola com 18 províncias, 163 municípios e 475 comunas. Julho 2005 Sérgio Zeferino Mateus -Missionário Evangélico -“Designer” e artista de comunicação visual -Guia turístico -Coordenador Geral da CATE