quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

O inicio da guerra em Angola:


O 4 de Fevereiro O 4 de Fevereiro

Como já deves saber pelos jornais, houve assaltos a vários estabelecimentos de Luanda (cadeias civis, Casa de Reclusão Militar e Quartel da Brigada Móvel da PSP), na madrugada do dia 4 do mês corrente. No dia seguinte, domingo, quando a maioria da população desta cidade acompanhava à última morada os agentes da ordem mortos no dia anterior, alguns agitadores dispararam tiros, entregando-se a demonstrações de provocação. A polícia e o exército intervieram logo, travando luta com os díscolos. Houve dez assaltantes mortos e muitos outros foram presos. Também num outro ponto da cidade houve motins. Vários polícias ficaram feridos. Na quarta-feira, dia 8, os assaltantes atacaram a cadeia de S. Paulo. Morreram 17 assaltantes e muitos foram feridos, efectuando-se numerosas prisões, tal como já acontecera no sábado, dia 4. A grande maioria dos assaltantes nativos estavam fortemente drogados com “marijuana” e possuíam armas brancas (catanas) e armas de fogo de origem checoslovaca. Entre os assaltantes mortos ou presos havia alguns europeus pintados de preto. A polícia e o exército têm efectuado “rusgas” pelos muceques e prendido numerosos indígenas suspeitos de tomarem parte nos assaltos. Perto do cemitério foram encontrados muitos pretos feridos, tratados por duas feiticeiras, num hospital improvisado. Foram todos presos. (1) Os polícias da Brigada Móvel terraplanaram os terrenos à volta do quartel, instalaram projectores nos diversos edifícios do dito quartel e cercaram-no de arame farpado que, segundo dizem, está pronto a ser electrificado no caso de um novo assalto. Na cadeia de S. Paulo foram instalados projectores e a guarda foi reforçada. No Quartel General da PSP a guarda foi reforçada. De vinte em vinte metros encontra-se um polícia de metralhadora e com a baioneta calada. São ao todo seis polícias e um cipaio. Tirando isto e as “rusgas” aos muceques, tudo está normal, como antigamente. (MLF - 1961.02.23)

O 15 de Março O 15 de Março Registaram-se massacres no Norte de Angola, praticados por terroristas. Os europeus e os indígenas que não quiseram aderir aos terroristas foram martirizados e mortos. Muitos dos mortos foram cortados às postas pelos terroristas. Grande número de fazendas (2) e pontes foram destruídas. Em Luanda os civis têm-se exaltado. Anteontem foram falar com o cônsul americano, o qual lhes perguntou o que desejavam. Após ouvir as alegações dos civis, teria respondido: “Vão-se embora que isto é dos pretos.” Aqueles, ouvindo isto, arvoraram a bandeira portuguesa no mastro do consulado e atiraram o automóvel do cônsul ao mar. Ontem outro grupo de civis atacou a Missão Evangélica, mas foi disperso com bombas lacrimogéneas. (3) Têm-se formado Milícias de Defesa Civil do Território, nos bairros da cidade. Na Praia do Bispo ainda se ofereceram 15 homens, que têm feito a ronda nocturna. No entanto ontem eu e outro rapaz andámos a distribuir os papéis de inscrição pelo bairro. Houve uma casa em que me responderam: “Nós somos velhos, não precisamos disso. Vai-te embora.” Essa é uma casa de mulatos. (…) A semana passada aprendi a carregar e descarregar uma espingarda, quando fui com o meu pai ver os funcionários das O.P. [Obras Públicas] que ficam de velada à noite. O meu pai é quem abre as portas dos armazéns onde dormem. (JLF - 1961.03.24)

Registaram-se no Norte de Angola, nas regiões de Maquela do Zombo e S. Salvador insurreições de indígenas. Há a lamentar numerosas vítimas, quer entre os europeus, quer entre os indígenas (principalmente os bailundos) que defenderam as fazendas. Segundo os relatos dos refugiados os insurrectos após martirizarem os europeus e indígenas cortaram-nos às postas! Para evitarem a fuga dos europeus os revoltosos abriram valas nas estradas e derrubaram as pontes. Felizmente que a calma já se encontra restabelecida! (4) Em Luanda os civis têm-se exaltado e já por diversas vezes atacaram pretos pela simples razão de serem pretos. Anteontem um grupo de civis foi falar com o cônsul americano, mas estes ter-lhes-ia dito: “Vão-se embora que isto (Angola) é dos pretos”. Claro que os civis indignaram-se e, após espatifarem o carro do consulado, atiraram-no à baía, cantando “A Portuguesa” e dando vivas a Salazar. Ontem outro grupo de civis queria fazer uma manifestação em frente do consulado americano, mas a polícia dispersou-os com bombas lacrimogéneas. No entanto mudaram de rumo e depredaram a Missão Evangélica. (NID - 1961.03.24) Registaram-se no Norte da Província, nas regiões de Maquela do Zombo, S. Salvador e outras, insurreições dos indígenas. Estes praticaram atrocidades. Além de assassinarem os colonos europeus mataram os pretos que a eles não quiseram aderir. Sanzalas inteiras e fazendas foram arrasadas. Graças à rápida intervenção das forças armadas as insurreições acham-se quase dominadas. Têm-se efectuado numerosas prisões. A grande maioria dos europeus até aqui presos são pequenos funcionários, a quem tinham prometido os cargos de ministros dos governos do Negage e de Camabatela, que se haviam de formar. As zonas assaltadas pelos terroristas estavam cheias de colonos barbaramente mutilados, estando muitos vexados, principalmente as senhoras e raparigas. Em Luanda os civis têm-se exaltado. No dia 22 um grupo de civis foi falar com o cônsul americano. Este ter-lhes-ia dito: “Vão-se embora que isto é dos pretos.” Aqueles exaltaram-se, arvoraram a bandeira Portuguesa no consulado e atiraram com o carro do cônsul à baía. No dia seguinte tentaram fazer outra manifestação no consulado americano, mas a polícia dispersou-os com bombas lacrimogéneas. Nesse mesmo dia assaltaram a Missão Evangélica partindo todos os vidros. (...) A Missão situa-se perto do Colégio das Irmãs e o Consulado na Av. Marginal, mas foi disperso com bombas lacrimogéneas. Têm-se formado Milícias de Defesa Civil de Angola (M.A.) Há dias, quando andava a distribuir os boletins houve uma casa, habitada por mulatos, que me disseram: “Nós somos velhos, não precisamos disso. Vai-te embora.” (…) Não sei se conhecias o Cónego Manuel das Neves, aquele padre velhote que celebrava a missa na Sé, geralmente às 9 horas. Pois bem, foi preso. Com ele foram encontrados planos para diversas insurreições, uma delas em Luanda. Esse cónego seria um dos ministros do novo estado!!! (JG - 1961.03.27) (5) 1 - Toda a população branca da cidade foi aos funerais. Estava tudo dentro do cemitério da Estrada de Catete quando alguém gritou Eles venhem aí! começando a ouvir-se rajadas de metralhadora. A partir daí foram o pânico generalizado e o caos, com as pessoas a correrem desordenadamente, aos gritos, uns para aqui e outros para ali, todos confluindo para o portão principal do cemitério, pequeno para tão grande avalanche. Lá dentro, havia sapatos pelo chão, pessoas correndo com um pé descalço e outras partindo árvores e estacas de sustentação para improvisadas armas. Conseguimos sair, todos juntos, em direcção à carrinha no meio dos inúmeros veículos que estavam cá fora estacionados. De repente ouviram-se novas rajadas de metralhadora, e aí deitei-me no chão, esperando que uma cova se abrisse debaixo de mim para me proteger. A viagem de regresso fez-se a passo de caracol e seguramente que muitos brancos teriam sido chacinados se tivesse mesmo havido um ataque. E a imagem que me ficou, perante o absurdo evidente daquela retirada geral sem qualquer segurança, foi a imagem dum negro desolado à beira da estrada, esfarrapado e ensanguentado. Essa noite e os dias que se seguiram foram de represálias e massacres sobre os negros dos musseques, perpetradas pelos civis armados. 2 - Herdades agrícolas ou roças. 3 - Neste processo os maus da fita eram os EUA e as igrejas protestantes, acusados de apoiarem a UPA (União dos Povos de Angola) de Holden Roberto, apresentado como um preto estrangeiro que nem português sabia falar! 4- Estava creio que numa festa de aniversário quando soube dos massacres no Norte de Angola, massacres atribuídos ao mau exemplo da independência do Congo ex-belga tempos antes, sendo Lumumba apresentado como um malfeitor e Tschombé, separatista do Katanga, como um amigo. Os massacres pareciam inexplicáveis, tanto mais quanto a maioria de nós desconhecia que semanas antes a aviação militar portuguesa tinha bombardeado aldeias e chacinado camponeses no Norte de Angola, em greve devido ao regime de monocultura estabelecido pelas grandes companhias, em detrimento das culturas tradicionais de subsistência. Neste contexto poderá ser explicado o ódio aos fazendeiros e indígenas com eles colaborantes, independentemente doutras considerações. A verdade é que entre os brancos se instalou um autêntico clima de histeria, alimentado pela publicação de fotos, notícias e romances dos massacres dos europeus, sem que a outra parte pudesse fazer o mesmo. Eram frequentes os boatos em Luanda sobre o envenenamento da água das canalizações ou da descida dos negros dos muceques, infiltrados de terroristas, para massacrar os brancos da cidade. Muitas vezes fomos todos dormir para o escritório do meu pai, num arranha-céus na Marginal, adultos e miúdos todos deitados uns ao lado dos outros, à espera do que viesse. Este clima de histeria desculpava e justificava os massacres indiscriminados sobre os negros, linearmente o inimigo, logo ali abatidos pelas milícias populares ao menor gesto suspeito. A célebre frase de Salazar, Para Angola e em força, marcou uma viragem no ânimo dos civis, levado ao rubro pela chegada e desfile dos primeiros contingentes militares que marchavam pela Marginal perante as ovações de quem pejava os passeios. Tropa mal preparada, que nos primeiros tempos morria como tordos nas emboscadas, com armamento obsoleto que muitas vezes rebentava na cara e nas mãos dos soldados, os maçaricos como depreciativamente começaram a ser tratados pelos brancos de Angola. 5 - O Cónego Manuel das Neves era um velhote simpático, mestiço, com quem gostava de falar, que me baptizou, crismou e deu a 1ª comunhão. Apesar de todas as histórias que se passaram a contar, nunca o vi como um terrorista sedento de sangue. Aliás, nunca consegui embarcar nas teses maniqueístas dos brancos bons vítimas da maldade dos negros a soldo do estrangeiro. Foram criados negros que andaram comigo ao colo, me embalaram e contaram histórias para adormecer; foram negros os criados com quem brinquei; era negra a Amélia, a primeira mulher com quem tive relações sexuais, tinha eu 15 anos, ambos jovens tímidos e sem sabermos o que fazer do prazer físico que tínhamos; eram negros a lavadeira e os criados com quem conversava, que gostavam do menino Vitó porque os tratava sem arrogância, os considerava seus iguais e procurava que tivessem os mesmos direitos que os brancos! Lembro-me da Maria, lavadeira, velhota, que fumava os cigarros com o morrão para dentro. Lembro-me dos criados, como o Sebastião, o Laurindo, o Ambrósio ou o Fernando, este que se dizia filho dum soba e sucessor do pai lá na sua aldeia no sul de Angola.
FONTE

UPA - FNLA - Tribalismo e nacionalismo



Tribalismo e nacionalismo

UPA - FNLA


JOSEP SANCHEZ CERVELLÓ

Partir do final da década de 40 surgiram, no Norte de Angola, vários movimentos com o objectivo comum de se oporem ao sistema colonial. Tiveram, de início, características messiânicas e base tribal, destacando-se o movimento encabeçado pelo «profeta» Simão Toco, que anunciou o fim da miséria e nova mensagem divina. Embora detido pelas autoridades em 1949, as suas ideias estenderam-se entre os bacongos emigrados no então Congo Belga, que vieram a criar, em 1956, a Aliança do Povo Zombo (Aliazo). Este movimento converteu-se, em 1962, no Partido Democrático de Angola (PDA).

Mas foi outro movimento, de características similares, que esteve na base da sublevação da Baixa do Cassange, em Janeiro de 1961. O movimento, que, de alguma forma, colheu de surpresa as autoridades portuguesas, iniciou-se com uma greve dos trabalhadores da Companhia Cotonang, como forma de protesto contra o atraso no pagamento de salários, mas transformou-se rapidamente em protesto da população contra o cultivo obrigatório de algodão e as duras condições de trabalho. Em todo o movimento, desempenhou papel de destaque António Mariano, que pertencia a uma seita católica e cujo nome ficou ligado à insurreição, conhecida com o nome de «Guerra de Maria». Os habitantes da região queimaram as sementes, destruíram ou interromperam vias de comunicação, mataram gado, invadiram armazéns e missões católicas, expulsaram os brancos, mas não utilizaram armas. Para reprimir este movimento, as autoridades socorreram-se de unidades do Exército e da Força Aérea presentes em Angola, que atacaram os grevistas de 24 de Janeiro a 2 de Março, transformando a acção num desproporcionado massacre de populações, cujo número de vítimas nunca se conheceu com exactidão.

Contudo, a organização que viria a dar consistência ao nacionalismo bacongo foi a União dos Povos do Norte de Angola (UPNA), criada em Julho de 1954, em Leopoldville, com a finalidade de influenciar a sucessão do rei do Congo, Pedro VII, que morreu nesse ano. A UPNA pretendia que o futuro monarca fosse mais independente das autoridades portuguesas, apresentando como candidato Holden Roberto (n. 1927) aparentado com o antigo rei. Os seus apoiantes encontravam-se entre os bacongos angolanos emigrados no Congo Belga e nas missões protestantes, numa das quais ele próprio fora educado. Mas o Governo e a Igreja Católica tinham outro candidato, António José da Gama, que tomou o nome de António III, cuja facção derrotada iniciou, então, uma onda de agitação independentista, que alcançou o seu ponto mais alto ao longo de 1957. Mas como neste último ano morreu António III, as autoridades portuguesas preferiram deixar vago o trono, para mitigar o nacionalismo que nova designação poderia provocar.
A UPNA tinha como objectivo programático a independência do antigo reino do Congo, em que se incluía Cabinda. Com esta ideia, Holden Roberto foi, em Dezembro de 1958, ao Congresso dos Povos Africanos realizado em Acra. Perante a vitalidade da ideia do pan-africanismo ficou convencido da necessidade de diluir a componente tribal do seu partido, o que o levou a mudar-lhe o nome para União dos Povos de Angola (UPA). A partir então, a UPA transformou-se no movimento nacionalista mais bem organizado e aquele que maiores simpatias congrega. Iniciou então o processo de implantação em áreas de maior dimensão, com o objectivo de se estender a todo o país. Em Luanda, a maior parte dos seus apoiantes, que não podiam deixar de ser clandestinos, como de resto os de todos os outros movimentos, eram protestantes. Mas tinha também a simpatia de destacados católicos, como o cónego Manuel Mendes das Neves, decano do capítulo da Catedral de Luanda, vigário-geral da mesma arquidiocese e director do Seminário de S.Domingos.

Nestes meios nacionalistas sentiu-se a necessidade imperiosa de oposição ao sistema colonial, logo a seguir às primeiras independências africanas, mas especialmente a seguir à do Congo Belga, em Junho de 1960. Foi, aliás, na sequência dese sentimento, que se planeou o assalto a duas prisões Luanda: a Casa de Reclusão Militar e o Forte de São PauIo, essencialmente para libertar alguns presos políticos nacionalistas. De Leopoldvillle, onde estava exilado, Holden Roberto desaconselhou este projecto, sobretudo porque em Luanda, em torno da UPA, se movimentava apreciável número de mulatos, entre os quais o cónego Mendes das Neves, que não eram da confiança de Holden Roberto. Mas também porque ele desejava iniciar a guerra com uma insurreição de grandes proporções, já em preparação para a zona bacongo, onde as raízes da UPA eram muito mais profundas. Contudo, os conspiradores de Luanda não só não detiveram a mobilização, como aceleraram a sua execução, a fim de aproveitar a presença na cidade de dezenas de jornalistas estrangeiros atraídos pelo assalto ao paquete Santa Maria, que poderiam vir a sensibilizar o mundo para a situação colonial portuguesa. Entre cerca de uma centena de participantes na acção, o núcleo principal era formado por protestantes ligados à UPA, havendo também estudantes católicos do Seminário de São Domingos e alguns simpatizantes do MPLA e de outros grupos, porque o conceito destas militâncias não era então muito rígido.

O ataque iniciou-se na noite de 4 de Fevereiro. O balanço oficial de vítimas foi de cerca de 40 assaltantes e de sete polícias, já que as forças portuguesas, recuperadas da surpresa inicial, neutralizaram com facilidade o ataque realizado com «catanas e varapaus". Nos dias seguintes, e em especial no dia do funeral dos polícias mortos, os colonos brancos e as forças militarizadas desencadearam violenta repressão nos bairros negros de Luanda, que durou cerca de um mês. Curioso foi que o MPLA, cuja direcção estava exilada em Conacri, reivindicou a acção, enquanto a UPA se remeteu ao silêncio.

O Conselho de Segurança da ONU foi convocado para apreciar os acontecimentos de 4 de Fevereiro. A UPA, assessorada por conselheiros americanos, pretendeu aproveitar a oportunidade para conseguir as simpatias mundiais para a sua causa, o que a levou a preparar uma sublevação geral de grande parte da região norte de Angola, incluindo São Salvador, Uije, Dembos, Luanda e Cuanza Norte. Nesta zona, a partir de 15 de Março, elementos da UPA e seus seguidores destruíram tudo o que encontraram pela frente: fazendas, postos administrativos, destacamentos policiais; atacaram brancos e pretos, crianças e mulheres, numa onda nunca vista de chacinas e assassínios. As vítimas cifraram-se em cerca de 1000 brancos e 6000 negros. Esta actuação da UPA não só contribuiu para um profundo movimento de revolta dos colonos brancos, como deu ao Governo português o argumento final de que necessitava para envolver o país numa guerra sem quartel contra qualquer movimento ou expressão nacionalista. Demonstrou também a ausência, no seio da UPA, de qualquer base ideológica moderna, evidenciando-se a sua natureza tribal. De facto, os bacongos não conseguiram, nem sequer tentaram, o apoio, ou ao menos a neutralidade, dos trabalhadores negros contratados das fazendas do Norte, fundamentalmente constituídos por ovimbundos e ganguelas provenientes do Centro de Angola.

À dureza e barbaridade tribal, as forças portuguesas responderam implacavelmente. Em 9 de Agosto, o exército entrava em Nambuangongo, proclamada antes a capital dos revoltosos. Antes do fim do ano, incompreensivelmente, alguns, responsáveis portugueses davam as hostilidades por terminadas.

Em conclusão, a UPA, ao ser a primeira organização a iniciar as hostilidades em grande escala, mobilizando milhares de seguidores, acabou por conseguir grande apoio internacional, desde os Estados Unidos até vários países africanos. Para corrigir a sua conotação tribal, a UPA transformou-se em Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) em Março de 1962, integrando o PDA. Pouco depois constituiu o Governo Revolucionário de Angola no Exílio (GRAE), que, no fim de 1963, tinha sido reconhecido pela OUA e por 32 países africanos.

sábado, 17 de janeiro de 2009

ALVOR FOI "PERFEITAMENTE SURREALISTA"

ALVOR FOI "PERFEITAMENTE SURREALISTA"

Uma grande ironia do acordo do Alvor foi Portugal, quando já estava a ver que o próprio processo democrático era complicado, ter tentado impor em Angola uma solução "perfeitamente surrealista", a de um Governo de transição com os três movimentos lá representados, disse ao JN Vasco Vieira de Almeida, que foi durante cinco meses o ministro da Economia desse Executivo.
Jornal de Notícias - O que recorda dos tempos que esteve no Governo de Transição em Angola?
Vasco Vieira de Almeida - Estive em Angola numa época particularmente difícil. Cheguei pouco antes de ter rebentado a chamada Guerra de Luanda, um período extremamente complicado porque tinha de preparar-se a saída dos militares portugueses de Angola e a passagem da Administração portuguesa para as novas autoridades saídas dos acordos de Alvor. Foi também o período em que rebentou a guerra, e todas estruturas, por se saber que a administração portuguesa ia cessar, foram completamente desestabilizadas. O que recordo é, principalmente, o esforço de alguns, entre os quais eu me contava, para tentar dar um mínimo de normalidade ao funcionamento da sociedade angolana, numa situação de conflito que tornava isso praticamente impossível.
JN - Era uma batalha perdida...
VVA - Foi um período de enorme agitação, de situações de enorme violência. Para quem, como eu, que toda a minha vida fora anticolonialista, foi uma enorme pena ver destruir inevitavelmente um país. É isso que me leva a escrever uma carta aos três movimentos de libertação, dizendo qual era a minha opinião sobre o que se estava a passar e o que ia acontecer a Angola. Infelizmente, essa carta revelou-se profética.
JN - Teria havido maneira de mudar isso?
VVA - Não, não tenho qualquer dúvida. Havia dois tipos de problemas fundamentais. O primeiro é que, quando se faz o 25 de Abril, os movimentos de libertação dizem que não aceitam nenhuma forma de negociação, só aceitam conversar desde que seja assente o princípio da independência...
JN - Mas, no terreno, a situação não era assim tão má...
VVA - Sim, mas tínhamos uma situação que levou praticamente à desmobilização da tropa portuguesa, apesar da situação militar estar longe de ser dominada pelos movimentos de libertação. Mas havia esse princípio capital, o da independência, sem o qual não seria sequer possível conversar-se com os movimentos de libertação, e a falta de disposição das tropas portuguesas para se baterem a partir do momento em que sabiam que a independência era inevitável. E havia depois outra coisa óbvia: a enorme agitação, aqui, em Portugal, que tornava impossível estabelecer uma política coerente. Não havia instruções por parte do Governo português, havia apenas algum consenso entre as forças políticas em Portugal - desde as que defendiam a independência imediata às que ainda pensavam que era possível fazer uma espécie de Comunidade Portuguesa. Perante um leque de posições destas, havia uma paralisação total do Governo.
JN - E lá?
VVA - Lá, era a total insegurança de um Governo assente na estrutura que tinha sido definida no Alvor. Havia, no mesmo Governo, três tipos de movimentos de libertação, três primeiros-ministros... Se juntar a tudo isto o clima de Guerra Fria em que a coisa se passava, com os Estados Unidos e a União Soviética interessados numa solução do problema angolano, é evidente que era uma tarefa impossível.
JN - As autoridades de Lisboa terão até dito, apesar dos avisos de Luanda, que as coisas eram o que eram, e não adiantaria tentar mudá-las...?
VVA - Devo dizer que não sou muito favorável a esse tipo de argumento, que as coisas teriam sempre de passar-se como se passaram. É uma espécie de desculpa automática para todos os erros que se fazem. E fizeram-se erros enormes do nosso lado! Mas uma coisa é terem-se feito erros, outra é supor que em Portugal havia condições objectivas para impor uma solução unificada. O Melo Antunes, naquela altura, tentou uma solução de equilíbrio, e falou com os movimentos de libertação todos. Mas o MPLA estava então numa posição extremamente dura, porque tinha uma força militar importante, e sabia que tinha o apoio da União Soviética. Essa tentativa do Melo Antunes gorou-se por causa da atitude dos movimentos de libertação, em especial do MPLA, porque era de longe o movimento mais estruturado, o que estava mais próximo de nós, os dirigentes tinham estudado nas nossas universidades, tinha uma visão dos acontecimentos históricos e uma perspectiva política que não andaria muito longe das posições políticas de Portugal. Aliás, houve vários erros nessa altura: lembro-me, por exemplo, de um discurso de Agostinho Neto - de quem era amigo pessoal e por quem tinha muita admiração - em que praticamente dava a entender que os funcionários administrativos portugueses tinham que vir-se embora. Lembro-me que me meti no carro e fui a casa dele dizer-lhe que me parecia um disparate monumental. É importante também não esquecer que o MPLA não era uma força única, e a linha que tinha mais força na altura era uma linha dura, legitimada pelas pessoas que tinham estado na luta contra Portugal, e não compreenderam que uma certa flexibilidade abria a possibilidade de uma colaboração mais estreita com as forças que, do nosso lado, também representavam alguma moderação.
JN - No Alvor, os movimentos de libertação afirmaram que apenas estavam de acordo quanto à independência, e além disso não havia qualquer tipo de acordo ou cooperação. Mesmo assim...
VVA - Acho que uma grande ironia do acordo do Alvor é nós, quando em Portugal já estávamos a ver que o processo democrático era complicado, irmos tentar impor uma situação perfeitamente surrealista, a de criar um Governo de transição com os três movimentos lá representados, como se isso fosse suficiente para acreditar na sua acção.
JN - No processo angolano houve uma originalidade: creio que em nenhum outro processo de descolonização cidadãos do país colonizador se increveram em partidos do do país colonizado. Havia portugueses inscritos no MPLA, na UNITA...
VVA - Havia. A questão aí foi que Angola teve uma colonização muito especial. Não tinha nada a ver com Moçambique, em Angola a colonização foi feita por gente muito pobre. Aliás, é isso que explica, em parte, a nossa pseudocapacidade de lidar com povos africanos...Muita gente que saía daqui vivia em condições praticamente iguais às que viviam as populações em África. Lembro-me de ter encontrado brancos a viver nos musseques, o que era uma coisa inacreditável, como engraxadores nas ruas. Quer dizer, gente do país colonizador, que exerce o poder, ser engraxador em Luanda da mesma maneira que era engraxador no Rossio, é uma coisa inacreditável. O que se verifica, de repente, quando aparecem os três movimentos, e esses movimentos são legitimados pelo acordo de Alvor, é que as pessoas tentaram obter protecção a qualquer preço. O que se passou aqui também - a seguir ao 25 de Abril, eram raras as pessoas que não se inscreveram num partido, porque achavam que isso lhes dava alguma forma de protecção. E as clivagens foram feitas um bocado de acordo com o que era a posição social das pessoas - as que tinham interesses económicos achavam que o MPLA era marxista e portanto procuravam aproximar-se da UNITA, e muita gente que achava que era preciso uma mudança, que se reconhecia nas ideias difusas da época do MPLA. Outra gente aproximou-se da UNITA. Simplesmente, não tinha qualquer espécie de voz, porque se filiaram nos partidos mas não queriam ver-se envolvidos naquele vendaval. E havia muita gente, mesmo muita gente, com menos preparação, menos acesso a informação, que ficava varada porque descobria que aquilo, afinal, não era Portugal. Fizeram-nos descobrir que não eram angolanos, e o próprio MPLA, que a princípio tinha uma grande abertura, começou a fechar-se por força das pressões daqueles que tinham estado na guerrilha e que queriam ter acesso às posições que eram ocupadas por portugueses.
JN - A questão da cidadania dos angolanos por nacionalidade ou por opção - não ficou resolvida no Alvor, ficou para depois...
VVA - No fundo, o que veio ao de cima é que tinha havido um processo de colonização menos elitista, mas há uma coisa que é preciso não esquecer: é que havia uma sobreposição clara - havia dois povos, duas culturas, tipos de interesses diferentes, um domínio completo pelos portugueses da população angolana. Embora houvesse - e isto é um fenómeno diferente em Angola -, uma burguesia negra, escritores, poetas... Essa burguesia negra, que inicialmente tinha estado de alguma forma culturalmente próxima de nós, até em termos políticos - alguns tinham-se batido aqui o salazarismo - acaba por ser submergida, quer por aqueles que conduziram a guerra, quer por camadas novas que vão aparecendo e que cada vez têm menos que ver connosco. Aliás, não tenho ilusões que, à medida que o tempo for passando, o que vai haver é afastamento afectivo e emocional.
JN - Sai do Governo por iniciativa sua ou por pressões? Foi, como se disse, intimado a sair?
VVA - Não, não fui nada intimado. Eu tinha tomado várias posições sobre a maneira como tudo se estava a passar em Angola, e tinha falado, inclusivamente, com os presidentes dos movimentos de libertação. Eu tinha um plano económico para a recuperação de Angola, foi exposto publicamente, tinha o acordo de princípio dos três movimentos - é claro que isso para eles não tinha qualquer espécie de importância, mas era minha obrigação -, e ainda vim aqui a uma reunião duma coisa que se chamava o Conselho dos 20. Essa reunião foi absolutamente inconclusiva, porque não era possível aqui obter um consenso mínimo entre as forças políticas. Voltei para Angola e escrevi uma carta aos três movimentos de libertação. Lembro-me que nessa altura tive uma conversa com o Agostinho Neto, e ele disse-me: "És muito duro também connosco", e eu respondi-lhe: "Não sou mais duro convosco do que com os outros, a vocês o que eu exigia era mais, e nessa medida vocês têm mais responsabilidades". Como não obtive resposta à carta, nem daqui, nem de lá, vim a Lisboa e disse ao Presidente da República que não continuava. Devo dizer que houve um momento em que a mim me parecia que a posição de Portugal devia ter sido a de claramente apoiar um movimento, e esse movimento só poderia ter sido o MPLA, quanto a mim. Ao fazê-lo, talvez tornasse possível um entendimento, talvez tornasse desnecessário o recurso do MPLA aos cubanos, que foram um elemento de perturbação, e teria permitido a Portugal ter moderado de alguma maneira muitas das coisas. Porque, como disse, havia várias alas dentro do MPLA. O Agostinho Neto foi uma espécie de bissectriz entre todas as tendências. Havia nessa altura um grupo de pessoas lúcidas, como as que integravam a Revolta Activa, que eram vistas na altura pelo MPLA como um grupo terrível. A Revolta Activa era constituída por homens muito inteligentes, com uma capacidade de perspectiva interessante. Mas aquele grupo de pessoas válidas a certa altura foi marginalizado pela ala mais radical e mais ignorante do MPLA.
JN - Quanto à ponte aérea. Pensa que as coisas podiam ter sido mais bem organizadas?
VVA - Inicialmente, as pessoas aqui não se aperceberam da gravidade da situação em Angola. Lá, havia uma comissão militar que estava consciente disso, e, no momento em que se estabelece o pânico, o então tenente-coronel Gonçalves Ribeiro, que era o homem que dirigia o que restava da Administração portuguesa, fez o que era possível, e penso que, apesar de tudo, a ponte aérea e a vinda das pessoas é um feito fora do vulgar.

FONTE

UM GOLPE CAÍDO DO CÉU

UM GOLPE CAÍDO DO CÉU

O 25 de Abril surpreendeu tudo e todos em Angola. Luanda vivia a vida cosmopolita de uma capital colonial, e só uma meia-dúzia de dias depois, em princípios de Maio, no Zaire e na Zâmbia, os movimentos de libertação reagem ao golpe militar em Portugal, com proclamações de continuação da luta até à independência total. Ironicamente, o golpe em Portugal haveria de conceder-lhes um protagonismo que estavam longe de ter conquistado.

José Gomes

As promessas de continuação da guerra com que o MPLA, a FNLA a a UNITA reagiram ao golpe em Portugal, diga-se em boa verdade, não tiravam o sono a ninguém.
Em 1974, a luta de libertação atravessava um período crítico: o Exército português controlava militarmente todo o território - as operações tinham cessado em 1972 e a livre circulação era um facto.
Após o surgimento, em meados dos anos 60, de actividade militar no interior - O MPLA abre em 66 a Frente Leste, a UNITA ataca Vila Teixeira de Sousa, na fronteira catanguesa, em fins de 65 -, os movimentos encontravam-se minados por profundas crises internas.
Neto mandara fuzilar, dois anos antes, vários comandantes no Leste, após a revolta dos Bundas, e o movimento está recuado na Zâmbia, envolvido num debate interno para a revitalização daquela frente. Chipenda proclamara no ano anterior a cisão, em protesto contra a assinatura, por Neto e Holden Roberto, do inesperado acordo para a criação do Conselho Supremo para a Libertação de Angola.
Mais tarde, já em 74, mas ainda antes do 25 de Abril, virá a surgir uma outra facção, a Revolta Activa, propondo amplo debate para a redefinição da estratégia da luta de libertação.
Pelo lado da FNLA, as coisas não estavam melhores. Apesar de se saber que o movimento, com apoio de Mobutu, estava a formar no Zaire um exército de 9.000 homens, treinado por instrutores chineses e bem armado, Holden Roberto estava precisado de quadros dirigentes. Mandara fuzilar, após a revolta de Kinkuzo, no Zaire, em princípios de 72, dezenas de oficiais do seu Estado-Maior, e vários outros haviam fugido para Brazzaville.
A UNITA encontra-se no interior, abaixo da linha do caminho-de-ferro de Benguela, sem actividade militar conhecida.

GUERRA ESQUECIDA

Em Luanda, em 74, os combates eram uma coisa longínqua, que a cosmopolita vida na capital fazia ainda mais remota.
"À medida que as pessoas se integravam, a ideia da guerra era uma ideia longínqua", recorda o pró-reitor da Universidade do Porto, professor Nuno Grande, na altura vice-reitor da Universidade de Luanda.
"Como as pessoas estavam longe dos focos de guerra, adormeciam um pouco em relação à situação em que se vivia", conta.
O professor recorda no entanto que a capital angolana por pouco não foi abalada por uma operação da guerrilha. "No Natal de 73, foi desactivada uma operação de guerrilha urbana que estava a ser preparada por gente da FNLA, dentro da cidade de Luanda. As pessoas não tiveram muita consciência disso, mas eu, porque estava ligado à Universidade, tive conhecimento pelos canais oficiais que uma das acções seria contra o próprio hospital universitário".
A preparação dessa acção foi contudo descoberta.
No geral, o dispositivo militar da administração colonial era na verdade muito eficaz, reconhecem hoje alguns dos que naquela altura estavam do outro lado.
O Exército, as tropas especiais africanas treinadas pela PIDE/DGS, os Flechas, a polícia política, forças militarizadas e as milícias da Organização Popular de Vigilância e Defesa Civil de Angola estabeleciam no terreno um controlo a que dificilmente escapavam os movimentos da guerrilha.
Estes faziam contudo incursões através das fronteiras de Brazzaville e da Zâmbia, e havia zonas perfeitamente demarcadas onde já se sabia que tudo podia acontecer.
Aí por volta de 1965, conta Nuno Grande, nos Dembos e no Moxico a guerrilha fez muita mossa. "Cabinda e o Leste eram sítios de onde nós, os médicos do Hospital Militar, sabíamos que os feridos vinham sempre muito maltratados".
Em Cabinda, onde foi enviado para investigar um surto de febre amarela, "havia muitos focos, com grande número de mortos. Lembro-me que, numa distância de 200 quilómetros, os comandantes das companhias que estavam ali aquarteladas diziam-me: "Temos um morto por quilómetro". Havia 200 mortos entre as duas companhias, o que era um número considerável.
"Bem sei que estavam ali dois anos, mas a guerrilha era muito mais efectiva em Cabinda, porque as fronteiras com o Congo-Brazzaville eram muito permeáveis. Eles faziam as operações, deixavam as coisas armadilhadas, e iam embora, nem sequer assistiam aos efeitos. E dava-se conta, no Hospital Militar de Luanda, quando alguém vinha de Cabinda, pelos maus tratos...", conta.
Por cá, era ler os comunicados militares que diariamente o Ministério da Guerra mandava publicar nos jornais. "O Serviço de Informações Públicas das Forças Armadas comunica que morreram em combate, na Província de Angola, os seguintes militares:" e seguiam-se os nomes de mais uns tantos que, naquele ano, entre a noite de Natal e a de fim de ano, não iriam aparecer na TV, a desejar festas felizes.
Na capital, muita gente conhecia pessoas ligadas ao MPLA. "A FNLA tinha também alguma implantação, a UNITA não me recordo de ter grande impacto em Luanda - teria provavelmente mais para leste, mas em Luanda não", recorda o professor.
"Eles trabalhavam em Luanda, tinham frequentado as escolas. As pessoas lembravam-se de alguns que tinham saído de lá nos anos 50 e 60. Desde o dr. Agostinho Neto, que tinha saído de Luanda, onde era enfermeiro, para estudar Medicina, e depois não voltou, até àquele que havia de dar o nome ao hospital universitário, o irmão do Miguel Boavida, o Américo Boavida, que foi estudante, aqui no Porto, no meu tempo. Era ginecologista em Luanda, e, portanto, muitas pessoas o conheciam".
"Referiam-se a eles com simpatia, curiosamente. Mas, ao mesmo tempo, eles representavam as forças que lutavam contra Portugal, e havia uma certa ambiguidade - as pessoas lembravam-se de quem eram conhecidas e amigas, mas ao mesmo tempo tinham a reserva inerente a alguém que sabe que em algum momento eles poderiam desestabilizar tudo", recorda Nuno Grande.

APANHADOS DE SURPRESA

A 25 de Abril de 1974, Agostinho Neto encontrava-se no Canadá, mantendo contactos com a companhia petrolífera norte-americana Gulf Oil, em busca de apoio ocidental para o MPLA. Não hesitou em classificar o golpe em Portugal como um ajuste de contas entre facções do regime.
Os três movimentos, aliás, em comunicados tornados públicos nos dias imediatos, não escondiam as suas reservas.
A FNLA, em comunicado publicado a 30 de Abril, apelava à continuação da luta do povo angolano até que "a justiça universalmente reconhecida, o bom-senso e o direito à livre determinação" saíssem vitoriosos.
No mês seguinte, o líder do movimento, Holden Roberto, admitia já negociações com Portugal, com uma condição: o reconhecimento do direito à autodeterminação e à independência.
Pela mesma altura, já Agostinho Neto ajustara a opinião sobre o golpe militar em Portugal, mas mantinha a determinação de lutar até que Portugal se comprometesse a conceder a independência, a partir do que poderia ser iniciada a negociação sobre a transferência do poder. Pelo caminho, rejeitava categoricamente qualquer federação com a antiga metrópole.
A 21 de Maio, a UNITA alinha pelo mesmo tom. Mas, segundo o jornal "Província de Angola", Jonas Savimbi teria já acordado com as autoridades portuguesas um cessar-fogo. A 13 de Junho, Savimbi tornava públicas, no mesmo jornal, as suas posições sobre a questão, propondo um período de preparação política do povo para a independência, com a participação dos três movimentos, e a realização de eleições.

AMBIGUIDADE EM LISBOA

De Portugal, a Junta de Salvação Nacional ordenara o regresso do então governador de Angola, Santos e Castro, e nomeara em seu lugar o então tenente-coronel Soares Carneiro.
Da prisão de Luanda são libertados 85 presos políticos, e da de São Nicolau, em Moçâmedes, 1.200. A PIDE é formalmente extinta, mas os agentes integrados num novo serviço de informações, o Comando da Polícia de Informação Militar.
O general Costa Gomes chega na primeira semana de Maio a Luanda, e afirma em conferência de imprensa que o combate contra os movimentos de libertação continua, até que estes deponham as armas e aceitem uma solução política.
"Nenhuma província, nenhum grupo, nenhuma raça, terão permissão para impor uma solução que não tenha passado pelo crivo de um teste democrático", disse o general, acrescentando, em resposta a dúvidas manifestadas pelos jornalistas, que "é nossa intenção continuar a luta contra as guerrilhas, e essa posição manter-se-á até que os guerrilheiros aceitem a nossa oferta para depor as armas e se apresentem como um partido político legal".
De regresso a Lisboa, Costa Gomes, que em Luanda manifesta muitas e públicas dúvidas quanto ao que "muita gente pensa e tem propagado" sobre o apoio da população angolana aos movimentos de libertação, afirma que "todos os grupos humanos dessa sociedade luso-tropical" lhe haviam dado uma grande alegria, a da "esperança da realidade efectiva da autodeterminação autêntica num quadro variável dum portuguesismo pluricontinental".
Três dias após o 25 de Abril, o general Spínola já fazia questão de separar as águas entre autodeterminação e independência: a autodeterminação é o direito de um povo livremente escolher o seu destino, a independência imediata a aceitação duma vontade que não seria a desse povo.
Mário Soares, recém-regressado do exílio e já de viagem a Bona, considera "importantes" as palavras do general, mas quando lhe perguntam se é favor de uma federação ou da independência, responde: "Sou abertamente pela independência, e, na minha opinião e na do meu partido, é necessário negociar urgentemente com os movimentos de libertação".
Ao tomar o lugar de que o almirante Tomás fora apeado, duas semanas depois, a 15 de Maio, Spínola diz para a rua, que berra pelo fim da guerra colonial e a independência imediata para as colónias: "Os nossos esforços centrar-se-ão no restabelecimento da paz no Ultramar, mas o destino do Ultramar Português terá de ser decidido por todos os que àquela terra chamaram sua".

A QUEDA DO GENERAL

Mais tarde, num encontro com o presidente do Zaire, Mobutu, na ilha cabo-verdiana do Sal, discute esse destino. A conversa foi rodeada do maior segredo, e o jornal "República" haveria muito mais tarde, em Outubro de 75, já depois da queda em desgraça do general, de noticiar que fora discutido um complexo acordo de mútuos benefícios para os interesses portugueses e zairenses, nos quais se incluiria uma inédita Federação Zaire-Angola-Cabinda, com Mobutu a presidente e o líder da FNLA a vice-presidente.
Na notícia, é difícil distinguir entre a verdade e a propaganda da época, mas não se andará longe da verdade se se disser que dos planos do general constava a aposta em Holden Roberto, o homem dos americanos, de Mobutu e, noutro tabuleiro, dos chineses, para contrariar o MPLA.
Na falta de uma política clara para o problema colonial, a incerteza dominava mesmo os sectores mais informados da sociedade luandense. Os telexes das agências noticiosas dão conta desse estado de espírito, como um despacho da Reuter publicado pelos jornais portugueses a 4 de Maio, segundo o qual brancos e africanos moderados se manifestavam favoráveis à criação de um Estado multirracial e à ideia de uma qualquer federação com a metrópole.
Em Junho, o general Silvino Silvério Marques, que fora já governador de Angola entre 1962 e 1966, os anos imediatamente seguintes ao início da luta armada, é nomeado de novo para o cargo. Quando o avião aterra em Luanda, há manifestações no aeroporto contra o general, que permanecerá no entanto na capital angolana até fins de Julho, altura em que, após o assassínio de um taxista branco num musseque, ocorrem os primeiros distúrbios.

O ÚLTIMO DIA

Na tarde do dia 10 de Novembro de 1975, a bandeira portuguesa foi pela última vez arreada no Palácio do Governo e na fortaleza, dobrada e redobrada. O alto-comissário, almirante Leonel Cardoso, ao qual coube a ingrata tarefa, proclamara horas antes a independência de Angola.
Quatrocentos e noventa e dois anos depois das naus portuguesas ali terem largado ferros, o último representante da soberania portuguesa abandonava a jóia do ex-Império, e partia, "sem cerimonial, mas de cara levantada", rumo à base naval da ilha de Luanda.
Ao largo, na baía já abandonada por barcos carregados até à borda de multidões e contentores, a fragata "Roberto Ivens" escoltava o "Uíge" e o "Niassa", com as máquinas prontas para, pela última vez, zarparem para Lisboa.
Uma semana antes, a cidade branca acabara de esvaziar-se. A ponte aérea, organizada com o apoio de países estrangeiros, retirara de Angola, no meio de indescritíveis cenas de pânico e confusão, quase meio milhão de portugueses.
As estátuas dos imortais portugueses jaziam apeadas, no sítio havia só os pedestais, já pintados com o vermelho-negro do MPLA.
Para trás ficara a companhia de pára-quedistas, o almirante e uma meia-dúzia de funcionários que agora, no meio de grande e inútil aparato militar, se dirigiam para o porto.
Polícias angolanos, de farda azul, ganharam de imediato as posições desocupadas. Às janelas do palácio, alguns criados negros assistiram à saída de blindados e "Berliets".
Na baixa luandense, nem isso. Cortadas por fuzileiros, as ruas estavam desertas.

O ADEUS PORTUGUÊS

No imponente Salão Nobre do Palácio, o alto-comissário fizera de manhã, perante um batalhão de jornalistas, um breve deve e haver daqueles meses de brasa.
"E assim Portugal entrega Angola aos angolanos, depois de quase 500 anos de presença, durante os quais se foram cimentando amizades e caldeando culturas, com ingredientes que nada poderá destruir. Os homens desaparecem, mas a obra fica. Portugal parte sem sentimentos de culpa e sem ter de que se envergonhar. Deixa um país que está na vanguarda dos estados africanos, deixa um país de que se orgulha e de que todos os angolanos podem orgulhar-se".
E arrematou responsabilidades: "A única recriminação que poderá aceitar é a de ter dado provas de extrema ingenuidade política quando concordou com certas cláusulas do acordo do Alvor".
Para o almirante ingenuidade, para Neto, que à custa de sangue e suor conseguiria proclamar-se no dia seguinte presidente em Luanda, outra coisa. "Quanto a Portugal, o desrespeito dos acordos do Alvor é manifesto, entre outros, no facto de sempre ter silenciado a invasão de que o nosso país é vítima por parte de exércitos regulares e de forças reaccionárias (...) que teimou em considerar como movimentos de libertação, tentando empurrar o MPLA para soluções que significariam uma alta traição ao povo angolano".
Leonel Cardoso não pode responder, não estava presente no palanque de Neto, cumprira a promessa feita em confidência um mês antes a Cáceres Monteiro, enviado de "O Jornal": "Se um movimento não quiser vir, ainda aceito que se faça a cerimónia com os outros dois. Só com um, eu não tomo parte nas cerimónias. A um, eu não entrego o poder. Não vou às cerimónias de posse desse movimento".
No Campo da Revolução, no Sambizanga, o povo, na véspera, condenara ao enforcamento os espantalhos dos presidentes da FNLA, Holden Roberto, e da UNITA, Jonas Savimbi. Mas nessa noite, as palavras do líder do MPLA, agora presidente de Angola, perdiam-se no barulho dos disparos de faplas festejando, e, mais ao longe, de um fragor de explosões.
Ao largo de Cabo Ledo, um submarino soviético estava para o que desse e viesse, pronto para dar fuga a Neto.
A FNLA estava a 25 quilómetros, no Caxito e Quifangondo, e Holden Roberto, que celebrava a independência em Carmona, hoje Uíge, encerrara o discurso às tropas com um "até logo, em Luanda". Vinte e quatro horas depois, à meia-noite do dia 11, não em Luanda, mas em Ambriz, proclamava a República Popular e Democrática de Angola.
No Sul, o MPLA acabara de perder Sá da Bandeira, Moçâmedes, Porto Alexandre, Benguela e o Lobito, e a UNITA celebrava naquela que viria a ser a sua capital, Nova Lisboa, depois crismada Huambo.

RECONHECIMENTO ADIADO

Em Lisboa, ao Verão Quente sucedia um Outono escaldante, o 25 de Novembro estava à vista. O ministro da Cooperação, Vítor Crespo, cancelara na madrugada de dia 10 a partida para Luanda. Um longo e polémico Conselho de Ministros, terminado a altas horas dessa noite, para que tinham sido convocados, a título excepcional, os secretários-gerais dos três partidos com assento no Governo - PS, PPD e PCP -, acabaria por reafirmar apenas o espírito do acordo do Alvor, e a não ingerência de Portugal nos assuntos internos do povo angolano, defendida pelo PS e o PPD, contra a posição do PCP, segundo o qual o MPLA era o único representante legítimo do povo angolano.
Convocado o Conselho da Revolução pelo presidente da República, general Costa Gomes, as divergências mantiveram-se.
Otelo faltou, zangado com os moderados, e Rosa Coutinho, ex-alto-comissário em Angola, num telegrama de felicitações a Neto, pedia desculpa por só mandar o coração a Luanda, que o resto era preciso aqui.
O avião da TAP, que levantara para a capital angolana com Palma Inácio, da LUAR, Carlos Antunes, do PRP, José Manuel Tengarrinha, do MDP/CDE, Pereira de Moura, do Conselho Mundial para a Paz, e delegações de vários partidos comunistas estrangeiros, foi mandado regressar a 30 minutos de Luanda.
Ao aterrar na Portela, às 5,30 horas, soube-se que a ordem de regresso fora do ministro dos Transportes, Valter Rosa, e o argumento que Luanda estava a ser bombardeada. Horas mais tarde, o aparelho, fretado pelos Transportes Aéreos de Angola, levantava de novo com o mesmo destino.
Às seis da manhã de 22 de Fevereiro do ano seguinte, Melo Antunes anunciava o reconhecimento por Portugal do Governo angolano. O Brasil fora o primeiro país a reconhecê-lo, no próprio 11 de Novembro, Portugal era o 88.o.


(Dossier do JORNAL DE NOTÍCIAS)

Angola: Os dias da Vergonha

PREFÁCIO

PALAVRAS DO GENERAL SILVINO SILVÉRIO MARQUES ANTIGO GOVERNADOR GERAL DE ANGOLA

Um dia, que esperamos a justiça dos homens não faça esperar muito, será classificado o que se passou no Ultramar Português, e especialmente em Angola, no que se refere à chamada «Descolonização». Nessa altura haverá revelações que multo surpreenderão o nosso povo.
Entretanto, a verdade dos acontecimentos está sendo, aos poucos, descoberta por testemunhas atentas e sensíveis que, numa tessitura aqui e além romanceada, vão contando o que efectivamente presenciaram, ainda sem grande preocupação, ou possibilidade, de aprofundar as respectivas causas.
Deste modo se estão produzindo verdadeiras monografias do dia a dia vivido naquilo que constituiu não uma epopeia igual aos descobrimentos, como impudicamente foi dito, mas a maior tragédia (e vergonha) da nossa História: a «Descolonização» e o «Retorno».
Num tempo em que generalizada crise de carácter se reflecte na acomodação cobarde de muitos e na amnésia de quase todos, dos responsáveis às próprias vítimas, o aparecimento dessas monografias dos acontecimentos deve ser saudado como verdadeira pedrada neste charco.
Assim fui entendendo Os Dias da Vergonha, à medida que desfolhava as suas páginas. E ficou-me um sentimento, complexo e amargo, de saudade, vergonha e desespero...
Todos, em Angola, conhecemos Reis Ventura das suas numerosas obras literárias, da sua colaboração permanente num jornal da província, da sua fluente e empolgante oratória em momentos his
Fontetóricos da vida do País e de Angola.
Numa prosa simples, acessível a todos, e rica de sensibilidade e de expressão, retraía agora, nos sentimentos, nas atitudes e nas actuações, horas cruciais vividas em Angola, naquele período de infelicidade e amargura que sucedeu ao 25 de Abril.
Nesta Crónica dos Dias da Vergonha ficam fixados factos que então ocorreram e que será crime esquecer.
A Reis Ventura passamos a dever, os "retornados» verdadeiros, e os que o somos espiritualmente e todos quantos conhecemos e compreen-demos Angola e continuamos a sofrer o destino que lhe foi preparado e imposto, a gratidão por mais este trabalho.
Reavivar assim a memória é serviço prestado a muitos de nós. E também à História.

Silvino Silvério Marques


EXPLICAÇÃO NECESSÁRIA

Neste livro se relatam factos que aconteceram em Angola desde 25 de Abril de 1974 a 11 de Novembro de 1975.
Começa ainda sob o signo da esperança, no engano do programa Inicial do Movimento das Forças Armadas, que preconizava a defesa da Nação Pluricontinental, e das promessas dos seus homens mais responsáveis. Mas termina em gritos de desespero, porque bem depressa a realidade mostrou que era tudo mentira, vergonha e traição.
Há muito boa gente da melhor do Portugal desta hora aziaga) que se admira de que os homens de Angola, tão corajosos e resolutos nos dias trágicos de 1961, se tenham mostrado tão resignados e submissos depois do 25 de Abril de 1974.
Compreendemos esta atitude, porque até nós próprios choramos de raiva, ao pensar que poderíamos ter altivamente salvo a terra dos nossos filhos, em vez de vir mendigar para a desolada Pátria de nossos pais. Correria sangue, que nós não queríamos, e haveria uma inevitável ruptura temporária com o Governo da Metrópole, que nunca deixou de ser a terra da nossa saudade. Mas não aconteceria a entrega de Angola aos russos, nem a ignóbil traição ao Ocidente, nem a tremenda desgraça de milhões de brancos, pretos e mestiços, nem a confrangedora e multimoda vergonha de uma velha e nobre Nação, nem a rápida e completa derrocada do que podia ser um grande e próspero País.
Se os brancos, pretos e mestiços que não andaram aos tiros nas matas, mas construíram a Angola moderna, tivessem decidido assumir o poder na sua terra, nunca os laços fraternos com a Mãe Pátria se quebrariam definitivamente; e dali poderia vir, a curto prazo, a força e a ajuda necessárias para salvar este velho Portugal, integrado numa efectiva e grandiosa Comunidade de Nações Lusíadas.
Mas é agora, depois dos acontecimentos, que tudo isto se vê com facilidade e clareza. No decurso deles era diferente. E é preciso tê-los vivido, no confuso clima dos primeiros meses da Revolução dos Cravos, para compreender a atitude dos portugueses de Angola.
Em 1961 tínhamos Salazar em Lisboa, um governador-geral bem português em Luanda (a) e a Nação inteira ao nosso lado.
Acordávamos com esse tremendo hino «Angola é nossa!», que parecia — e era — um clamor imperativo da alma milenar da Grei. Estávamos sem armas e sem soldados, mas sabíamos que todo o povo português acompanhava emocionadamente a nossa resistência e rezava pela nossa vitória. Durante a noite do cerco terrorista à pequenina povoação de Mucaba, houve na Metrópole muita gente que não dormiu. Tínhamos connosco a ansiedade e o apoio moral de todos os portugueses.
Depois do 25 de Abril de 1974, o mais pequeno gesto de resistência em Angola constituía pretexto para detenção imediata, à ordem dos novos senhores, que logo saltaram sobre aquela terra como lobos esfaimados. E o sofisma da «agressão ideológica» foi um látego de esclavagista nas mãos de Correia Jesuíno... Todos os homens e mulheres que tinham apoiado Salazar e Marcelo Caetano na sua decisão de defender o Ultramar ficaram imediatamente sob suspeita, quando não sob atenta vigilância. O general Costa Gomes teve o cuidado de substituir sem demora nem aviso prévio todos os comandos das Forcas Armadas de Portugal em Angola. Não se podia escrever uma palavra em defesa da acção portuguesa naquela terra, sem ser logo apodado de reaccionário e fascista. Os videirinhos de sempre trataram de alinhar na condenação de tudo quanto antes se tinha feito. A colaboração do autor deste livro para a Emissora Oficial foi suprimida por sugestão de antigos elementos da União Nacional. Quando o governador-geral Santos e Castro, tão vivamente entusiasmado com o progresso daquela portentosa terra, tomou o navio do regresso, o porto de Luanda foi fechado, para que ninguém se despedisse dele.
A independência de Angola, que primeiro se declarou dependente da vontade de todas as populações, rapidamente se tornou uma decisão ditatorial e irreversível do Governo de Lisboa. As notícias da Metrópole eram tão más que os melhores portugueses do que foi a maior província de Portugal compreenderam que nada podiam esperar desse lado. E o dr. Mário Soares declarava então, para quem o queria ouvir, que os nossos soldados abririam fogo contra os brancos do Ultramar que tentassem qualquer aventura.
Mas há outra realidade ainda mais importante: e é que os brancos de Angola foram torpemente levados de engano em engano, precisamente porque os vendilhões da Pátria sabiam que a sua reacção seria inevitável, se em tempo oportuno pudessem imaginar o que lhes viria a acontecer.
Todos os governantes de então declaravam que Angola era um caso especial. O general António de Spínola disse que a escolha do governador-geral de Angola era mais importante do que a nomeação do primeiro-ministro. E ainda hoje não somos capazes de compreender porque deu ouvidos aos emissários do MPLA, que vieram a Lisboa caluniar o general Silvino Silvério Marques, e substituiu esse homem íntegro, leal e sabedor por uma criatura tão reles e tão comprometida com os comunistas, como o almirante Rosa Coutinho.
Muito mais se poderia aqui dizer sobre a maneira covarde e nojenta como foram ludibriados os bons portugueses de Angola. Mas acrescentaremos apenas que o próprio general Costa Gomes afirmou bem alto estar convencido de que Angola continuaria portuguesa e várias vezes tranquilizou amigos íntimos, assegurando-lhes que os brancos seriam sempre consultados e tudo se faria para conservar aquela terra ligada à Metrópole da melhor forma possível.
Foi neste deslizar de engano em engano que os brancos de Angola, ainda com soldados portugueses e autoridades portuguesas naquela terra, chegaram até à situação de se verem inteiramente dependentes dos movimentos de libertação, que tinham ocupado todas as posições abandonadas pela nossa tropa no Norte da província e já em princípios de 1975 faziam em Luanda tudo quanto lhes apetecia, agredindo, incendiando e roubando, à vista da polícia e dos nossos soldados, alguns dos quais eu vi chorar de raiva, porque os não deixavam fazer-se respeitar.
Com o decorrer do tempo as nossas Forças Armadas, sobretudo o Exército, ficaram tão infiltradas por elementos comunistas, propositadamente enviados de Lisboa, que assistiam, sem um gesto, a toda a espécie de infâmias praticadas contra os brancos. E no que respeita à defesa das valiosíssimas estruturas da economia angolana, comportavam-se com a mesma indiferença.
Bem me recordo ainda de como, durante um dos dias em que os empregados da Petrangol foram impedidos de entrar na Refinaria do Alto da Mulemba por piquetes da UNTA (União Nacional dos Trabalhadores de Angola), que era — e é — uma organização do MPLA, os Unimogs da nossa tropa paravam junto das centenas de empregados acumulados à entrada do grande complexo industrial, e os nossos soldados riam da cena, inteiramente desinteressados do enorme prejuízo económico resultante da paralisação da unidade. Houve até alguns mais atrevidos (ou mais progressistas...) que foram buscar dois estrangeiros para fotografar aquele belo quadro da descolonização exemplar. Tudo uma tristeza!...
Foi neste clima humano que decidi publicar este livro no jornal A Província de Angola, pela única forma então possível, escolhendo para narrador e principal personagem um jovem angolano, que sinceramente desejasse, com dignidade e bom senso, a independência de Angola.
Não direi o seu nome, nem a sua raça, nem a sua religião.
Nada disto é da sua escolha. Usa o nome que outros lhe deram; tem a cor da pele com que nasceu; professa o culto de seus pais.
Citará o nome de outros homens, as suas ideias políticas e religiosas, a cor do seu rosto. Mas ele — o principal personagem deste livro — é apenas um homem, com o idealismo de todos os jovens, com raízes bem mergulhadas na terra de Angola, com as ambições e limitações da condição humana. Um homem com virtudes e pecados, com sonhos e desilusões, com os olhos ávidos da juventude. Um homem em que muitos homens se podem encontrar, se abstraírem de pequenas diferenças, olhando apenas o que é essencial no seu corpo e na sua alma de filhos de Deus sujeitos às tentações do diabo.
Um homem que pensa, que fala, que julga o presente, que interroga o futuro, que vive na convivência de outros homens.
O seu bilhete de identidade não é da sua iniciativa. Não foi convidado a nascer, não escolheu as linhas ou a cor do seu rosto, não influiu na posição social de seus pais. Ninguém o consultou sobre a terra da sua naturalidade. Na sua realidade mais profunda, é apenas um homem.
Mas esse jovem angolano existe e, felizmente, continua vivo.
Reproduzo, por vezes textualmente, afirmações que lhe ouvi. Creio ter interpretado as suas ideias e sentimentos, com respeito e fidelidade. Nem sequer fechei os olhos à sua arrepiante desgraça e à sua amarga desilusão que, por incrível que pareça, também aconteceu.
Não estou arrependido desta decisão, que me permitiu fixar, neste volume, o que foi uma forte e muito expressiva tendência da Juventude Angolana, na sequência da revolução de 25 de Abril de 1974. Na verdade, e sem falsa modéstia, parece-me de alguma utilidade para os futuros historiadores que se tenha anotado, ainda em cima dos acontecimentos, como foi que tantos angolanos, honestamente adeptos da independência de Angola, passaram da esperança ao desespero.
O meu ideal sempre foi outro.
Desde que me conheço, em livros, artigos, discursos e conferências sempre defendi a continuação de Portugal no Ultramar Português. Sonhei uma Pátria Grande, desde o Minho a Timor, onde coubessem todos os portugueses, em igualdade de direitos e deveres, com idênticas possibilidades de acesso ao trabalho e aos seus frutos, de participação na administração pública e suas responsabilidades, de completa integração na carne e na alma da Nação.
Queria que um preto de Luanda, um mestiço de Cabo Verde ou S. Tomé, um indiano de Goa, um fula da Guiné, um m acarta e de Moçambique ou um montanhês de Timor, qualquer deles, sem distinção de raça, cor ou religião, apenas pelas suas virtudes pessoais e com a sua dignidade de português, pudesse ascender à Suprema Magistratura da Nação.
Sonho grande demais?
Não há sonhos demasiadamente grandes, «se a alma não é pequena».
Esse ideal não morreu: — mataram-no! Mas eu nunca o reneguei.
Em Angola, mesmo durante os dias malditos, as semanas da traição e todo o tempo da vergonha, continuou a existir muita gente fiel ao belo sonho da Pátria multirracial e pluricontinental.
Em 4 de Maio de 1974, na minha primeira crónica do jornal A Província de Angola, publicada depois do 25 de Abril, escrevi o que a seguir transcrevo:
«Perante a viragem política efectuada pelas Forças Armadas de Portugal, eu, que sempre defendi os governantes agora depostos, poderia ceder à tentação de me remeter ao silêncio.
Era cómodo, mas indigno.
Mantenho inalterado todo o meu respeito pela figura histórica de Salazar.

Mantenho inalterada e inalterável a admiração que sempre manifestei ao sr. professor Marcelo Caetano, antes e depois de ele ser Presidente do Conselho de Ministros.
Considero que o sr. engenheiro Santos e Castro, que meras circunstâncias políticas afastaram do Governo Geral de Angola, fez aqui um bom trabalho e se revelou profundamente dedicado a esta terra. Quando, no último sábado (27 de Abril findo) fui ao Palácio dar-lhe um abraço de despedida, encontrei-o a arrumar, numa das malas da sua bagagem particular, as bandeiras de todos os distritos de Angola. E isso comoveu-me quase até às lágrimas.
Sempre vivi do meu trabalho e espero poder continuar a viver.
Saiu há cerca de dois anos, numa edição de cinquenta mil exemplares, um texto meu, subordinado ao título UMA PÁTRIA PARA TODOS.
Não por minha iniciativa mas com o meu consentimento, essa pequena brochura foi a única das minhas obras que saiu sem o meu nome, porque a outros pareceu que assim produzia melhor efeito.
Julgo do meu dever, neste momento, assumir a responsabilidade do que então escrevi e representa o que penso sobre a Nação Portuguesa.»
Escrevi estas palavras, sem medo nem arrogância, em plena sinceridade, apenas porque a consciência assim mo pediu. E nunca pensei que tal atitude pudesse desencadear a catadupa de telefonemas e de telegramas de apoio e aplauso, alguns em voz embargada pela emoção, vindos de várias regiões de Angola.
Recordo este pormenor de ordem pessoal, porque de algum modo documenta a afirmação que acima faço e quero deixar aqui, bem clara e peremptória: mesmo durante os dias malditos, nunca deixou de haver em Angola, entre brancos, pretos e mestiços, muita gente fiel a Portugal!
Completamente abandonados pelos novos governantes da sua Pátria, vilmente caluniados pela imprensa, rádio e televisão de Lisboa e Porto, repentinamente privados do clarão de esperança que para eles representou o Governo do general Silvino Silvério Marques, obrigados ao silêncio pela ditadura antiportuguesa de Rosa Coutinho —, esses bons portugueses, que continuavam a querer uma Angola portuguesa, viveram numa angústia permanente, esperando um líder que lhes marcasse o rumo, orientasse os passos e aglutinasse as dispersas energias.
Assim o exprimem algumas das suas atitudes, desde as sensatas às desvairadas, como a reacção ao estrangulamento dum motorista de táxi no Muceque Rangel, a greve dos camionistas, a invasão do Palácio para interpelar o Almirante Vermelho, ou essa vaga de incontível entusiasmo que deles se apoderou em 7 de Setembro, perante as notícias que vinham de Lourenço Marques, através da Rádio Clube de Moçambique...
O desejado líder nunca apareceu. Os brancos foram desarmados. Uma a uma, caíram todas as ilusões. E, só então, os melhores portugueses de Angola, que sempre estiveram dispostos a segurar nas suas mãos a mais rica parcela da sua Pátria, só então é que aflitivamente se agarraram à derradeira esperança: uma independência real e verdadeira para todos, embora sob um governo da maioria negra.
Dessa última fase dá testemunho o pescador português Manuel da Costa Marques, quando, já durante o Governo de Transição, o ministro Johnny Eduardo vai ao porto pesqueiro recomendar a reactivação das pescas.
— Eu fico por todos estes pescadores — respondeu-lhe Manuel da Costa Marques — porque os conheço a todos. Aqueles que por aqui aparecem, de noite, para roubar e com ameaças, são desconhecidos. (...) Todos nós queremos trabalhar. E é o que eu tenho feito desde que para aqui vim, em 1957. Olhe as minhas mãos, Excelência (e mostrava-Ihas, possantes e bem calejadas...). E não estou arrependido. Tenho filhos mulatos. A minha casa é um paraíso com todas as cores e sinto-me feliz: Agora, humilhado é que eu não quero ser. Mandem-me embora mas não me humilhem!
— Ninguém o vai mandar embora! — interveio o ministro. E esta foi apenas uma das muitas promessas não cumpridas...

(a) O dr. Silva Tavares.


Continua
....


sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

O capitalismo angolano entre o presente e o futuro (João Melo)

16-Mai-2008

O velho Marx dizia: - "Historicamente, o capitalismo nasceu com as mãos sujas de sangue". A frase pode parecer exagerada, mas basta lembrar os desenvolvimentos das revoluções burguesas na Europa para confirmá-lo. Para aqueles que acham que 'ler muito atrapalha as ideias', recomendo um western qualquer, para apreciarem como nasceu o grandioso capitalismo americano. Como é que o capitalismo angolano está a nascer? Qual o seu futuro imediato? Nos outros países, há livros sobre o surgimento do capitalismo e como se formaram as grandes famílias burguesas que até hoje controlam o respectivo poder. Por todas as razões, ainda é cedo para surgir um livro desses acerca da burguesia angolana nascente. Seja como for, gostaria de deixar aqui alguns contributos para algum estudioso que esteja interessado em escrevê-lo.
Com efeito, acho que já é possível, pelo menos, identificar os passos principais que a burguesia angolana emergente seguiu para se transformar, gradualmente, naquilo que é hoje: um grupo altamente restrito e endinheirado, com um apetite incontrolável e uma forte tendência para o exibicionismo e a arrogância, que está mais preocupado com os seus negócios do que com os problemas da sociedade, possuidor de um discurso nacionalista, mas que confunde cultura nacional com o 'Caldo do Poeira' e, além disso, não hesita em aliar-se a interesses estrangeiros, para melhor prosperar.

Como aconteceu em outros países pós-coloniais, a formação dessa classe (ou é melhor dizer grupo?) teve (tem) de ser feita à sombra e com o apoio do Estado. Os raros capitalistas que sobreviveram à aventura socialista de 1975 eram de origem europeia ou seus descendentes; de resto, mais ninguém herdou nada de ninguém, pelo que, quando a aventura socialista foi dada por encerrada, só havia uma forma de enriquecer: via Estado.

Assim, o primeiro passo foi lançar mão da estratégia das comissões. O segundo foi adquirir o património estatal a preços irrisórios. O terceiro foi a especulação cambial, enquanto durou a taxa de câmbio 'administrativa'. O quarto foi usar informação privilegiada. O quinto foi utilizar as posições ocupadas no aparelho administrativo para fazer negócios consigo mesmo, assim como exigir participações em projectos apresentados por terceiros, pedir propinas para viabilizar esses projectos ou, pura e simplesmente, desviá-los e fazê-los em nome próprio ou de 'testas-de-ferro'.

Talvez com a excepção da especulação cambial, as outras 'ferramentas de capitalização', digamos assim, continuam a ser utilizadas. Graças a elas, formou-se um grupo restrito, mas poderoso, que estende os seus tentáculos a praticamente todas as áreas de actividade.
O capitalismo angolano não poderia nascer de outra maneira. Do ponto de vista histórico, não há capitalismo higiénico. Daí, por conseguinte, as histórias de vigarices, trapaças, tráfico de influências e outras, que circulam nas conversas de bar, nas tertúlias, nos encontros familiares, nas farras ou nos óbitos (é aí onde os angolanos fazem a política real e não nas instâncias de tipo ocidental que, como todos os outros países periféricos, fomos forçados a adoptar).

Entretanto, a fase de acumulação primitiva de capital por parte do grupo que controla o poder efectivo em Angola está virtualmente concluída. Dois sinais apontam nesse sentido: a criação do Banco Angolano de Desenvolvimento – que é, assumidamente, uma tentativa política e financeira de criar uma classe empreendedora nacional alargada e com critérios mais ou menos democráticos e racionais, uma vez que o núcleo dominante da burguesia emergente está praticamente formado – e a entrega da gestão dos seus negócios, por parte desse núcleo, aos seus filhos e sobrinhos, muitos deles cursados no exterior, em especialidades escolhidas 'estrategicamente'.

O que esperar, assim, do futuro imediato do capitalismo angolano? A avaliar pela 'pose' dessa nova geração – entre os 30 e 40 anos de idade – que começa a gerir os negócios dos seus antecessores, não estou muito optimista. Jovens cuja primeira ambição é ser milionários, que andam todos os dias de fato preto, gravata encarnada e óculos escuros, gostam de 'estilar' de Hummer e acham que a juventude angolana é só aquela que sabe o que é 'tchilar' e frequenta o Miami Beach fazem-me ficar preocupado com os meus filhos mais novos e os meus (futuros) netos.

JOÃO MELO / JORNAL DE ANGOLA - 25.02.2008
http://pagina-um.blogspot.com/

Mobutu Sese Seko quis negociar com Marcello Caetano - Luis Gonzaga Ferreira

Não haverá no Ministério dos Negócios Estrangeiros muitos diplomatas com a experiência e o saber do embaixador Luís Gonzaga Ferreira. Em 35 anos de carreira, 33 foram passados no estrangeiro. A distância do país, a convivência com outras culturas e o contacto com personagens marcantes da História do nosso tempo deram-lhe um conhecimento da vida de que poucos se podem orgulhar.


QUADROS de Viagem de Um Diplomata é o relato em livro da missão do embaixador Gonzaga Ferreira no Zaire de Mobutu, num período particularmente difícil das relações entre Lisboa e Kinshasa, devido à guerra em Angola. Antes deste volume, o embaixador lançara outros dois, em que regista as suas memórias no Senegal de Senghor, no início da guerra na Guiné, e durante a época da queda do muro de Berlim, na Bulgária.

Aposentado desde 1993, Luís Gonzaga Ferreira nasceu nos Açores em 1928. Economista, entrou na carreira diplomática bastante tarde, com 31 anos. Com duas excepções (Tóquio e Bruxelas), foi sempre chefe de missão: Dakar, Havana, Kinshasa, Beirute e Sófia. Dos 35 anos de carreira, 33 foram passados fora. Por duas vezes, uma no princípio da guerra, outra no fim, participou em tentativas de resolução do problema colonial por via pacífica. Ambas sem sucesso. Quanto ao comunismo, assistiu à sua implantação em Cuba e participou no enterro do mesmo na Bulgária. Por ser um diplomata particularmente bem informado, houve um colega que chegou a insinuar que «ou era do PCP ou então pertencia à PIDE». Outro acha que ele foi «uma espécie de James Bond da diplomacia portuguesa».

EXPRESSO - A grande novidade do seu novo livro reside na proposta do Presidente do então Zaire, Mobutu Sese Seko, a Marcello Caetano, para tentar resolver a guerra em Angola. Como foi?

LUÍS GONZAGA FERREIRA - Foi uma proposta para tentar resolver o problema colonial português. A primeira vez que Mobutu a apresentou foi no final do Outono de 1970, mas fê-la mais três vezes, em outras tantas versões, até 72. Mobutu queria, a todo o preço, ter um papel determinante na política africana e, em particular, em Angola, como, aliás, se verificou mesmo depois da independência. EXP. - O que o levava a fazer a proposta? Acreditava num projecto autonomista para Angola, já que ela ocorre pouco depois da posse de Caetano?

L.G.F. - Ele vê que Marcello queria dar um certo movimento às questões ultramarinas. Mobutu acompanhava as questões portuguesas de muito perto, até porque no Zaire havia nessa época muitos congoleses de origem portuguesa, de Angola e de Cabinda. Estava convencido de que ia haver uma nova dinâmica na política ultramarina portuguesa e queria aproveitar o ambiente para meter «a colher». Por um lado, resolvia o problema num país com o qual tinha uma fronteira de dois mil quilómetros; por outro, «cortava as pernas» ao MPLA. A sua proposta era «substituir por dentro» a FNLA, com homens que nós mandássemos de Angola. Mobutu não tinha confiança nenhuma em Holden Roberto. Um dia mandou dizer-me que a FNLA era um «ramassis de truands» (bando de malfeitores), em quem não confiava. EXP. - Queria fazer uma espécie de domesticação da FNLA?

L.G.F. - A domesticação da FNLA e a barreira ao MPLA. O que ele não queria de maneira nenhuma foi o que veio a acontecer - a implantação de um regime comunista num país como Angola. E queria, obviamente, engrandecer a sua própria pessoa, subir à tribuna da poderosa (na altura) Organização da Unidade Africana e dizer que tinha resolvido o problema de Angola. Poderia aparecer como o chefe pan-africanista ideal. EXP. - Mas Caetano não acreditou nele, nem na viabilidade da proposta?

L.G.F. - Era uma fantasia pensar-se que seria possível dominar Holden Roberto e os seus próximos. Em África, naquela altura, eliminar essa gente, como? E substituí-los por outros que iam de Angola? Que credibilidade tinha tal projecto? EXP. - Era essa também a sua visão?

L.G.F. - Era. Toda a gente via que isso era pura manipulação. EXP. - Caetano chega a admitir que se a proposta dissesse respeito ao MPLA, tê-la-ia ponderado…

L.G.F. - Essa é a parte mais extraordinária. Eu não esperava essa posição de Marcello. Ele disse-me concretamente: «Vindo desses senhores, que são caracterizados pela ‘doublez’ (e foi essa mesma a palavra empregue), não. Mas se a proposta viesse do lado do MPLA e de Agostinho Neto, eu era capaz de a examinar com muita atenção.» EXP. - Talvez porque o MPLA fosse, então, o único movimento com real implantação.

L.G.F. - Na altura não podia dizer-se que o MPLA tivesse real implantação no terreno. Tinha a Leste, porque vinha da Zâmbia, mas não era essa a razão. Penso que, para Marcello, se tratava dos valores humanos que integravam o MPLA e da capacidade de alguns dos seus homens. O MPLA tinha implantação em Benguela e alguns quadros em Luanda. EXP. - E mais consistência…

L.G.F. - Era mais sério, culturalmente mais próximo, os seus homens eram mais capacitados e desenvolvidos, mais susceptíveis de se poder conversar com eles. EXP. - Se o MPLA tivesse feito uma proposta do género, Caetano teria aceite a sugestão?

L.G.F. - Isso já é especulação, não sei. EXP. - Escreve que a proposta de Mobutu teria tido a simpatia, senão mesmo o apoio de Spiro Agnew, vice-presidente dos EUA, mas não vai mais além…

L.G.F. - Porque a notícia não teve desenvolvimento. A ideia era a de que Spiro tinha estado em Kinshasa e teria sido encarregado por Mobutu - o que nunca se provou - de adiantar esse projecto a Marcello Caetano, numa passagem por Lisboa. EXP. - Não se pode falar, portanto, de um envolvimento norte-americano na proposta?

L.G.F. - Não creio. EXP. - No livro, conclui que, no fundo, esse projecto era impossível…

L.G.F. - Qualquer projecto, para ganhar terreno em África, tinha que contar, da parte do regime português, com uma abertura suficiente para evoluir e passar à prática. Nós sabíamos que isso não era possível. O que nós conseguimos, e essa foi uma das grandes conquistas da nossa missão em Kinshasa, foi a libertação dos 11 prisioneiros portugueses, civis e militares. Alguns deles já lá estavam há seis ou sete anos, em condições miseráveis. Tinham sido presos no decorrer de operações da FNLA e do ELNA (Exército de Libertação Nacional de Angola). Conseguimos também reconstruir a embaixada e restabelecer relações entre o Zaire e Angola. Mas não conseguimos o que era talvez o mais importante: conter a guerra a partir do Zaire. A missão que me tinha sido confiada era essa, e falhou. Houve o desgraçado incidente da PIDE ir buscar os prisioneiros a Kinshasa. EXP. - Sentiu-se traído por essa operação?

L.G.F. - Sentimo-nos todos, porque o nosso trabalho foi posto em causa. Eu estava em Lisboa na altura, mas Mobutu ameaçou prender-me se eu lá pusesse os pés. Ele próprio se sentiu traído e, a partir daí, tudo correu pior. Haveria sempre a política da «zairinização», a nacionalização das padarias, dos táxis, das pequenas e médias empresas. Mas talvez não tivesse acontecido com a mesma raiva em relação aos portugueses, que ficaram proibidos de viver numa faixa de 300 quilómetros junto da fronteira com Angola. EXP. - O golpe foi urdido exclusivamente pelo director da PIDE em Angola, São José Lopes?

L.G.F. - Sim. EXP. - Não teve luz verde de Lisboa?

L.G.F. - Não. EXP. - Nem sequer do director-geral, Silva Pais?

L.G.F. - Não sei. EXP. - E do Presidente do Conselho?

L.G.F. - Não. Até porque nós estávamos a jogar claro com a Cruz Vermelha Internacional. Nós íamos sacar de Kinshasa aqueles homens, Mobutu apenas tinha pedido que o fizéssemos a pouco e pouco, para não chamar a atenção, com receio que o MPLA pudesse fazer um escândalo. EXP. - O São José Lopes chegou mesmo a admitir a hipótese de fazer uma «incursãozinha» a Kinshasa…

L.G.F. - Ele via-se como uma espécie de Lawrence da Arábia contra os turcos de África, mas sem o Mobutu. EXP. - Era uma espécie de operação «Mar Verde» contra Kinshasa?

L.G.F. - Se não o fez é porque não era assim tão fácil. Mas passou-lhe pela cabeça essa ideia e só desapareceu porque a partir de determinada altura Mobutu precisou que nós voltássemos ao Zaire e o ajudássemos a derrubar Marien Ngouabi, que era o Presidente do Congo-Brazzaville. EXP. - Acha que operações desse género podiam ser feitas à conta exclusiva do director da PIDE em Angola?

L.G.F. - Antes de partir para Kinshasa, estava eu no gabinete do ministro Rui Patrício quando, na hora da despedida, diz-me o embaixador Caldeira Coelho: «Não se esqueça que quem manda em Angola é o São José Lopes.» Era verdade! EXP. - Não era o general Costa Gomes? Ele é que era o comandante-chefe das Forças Armadas.

L.G.F. - Ainda não estava lá. EXP. - Outra revelação é o da existência de um plano, gizado em 1973, de invasão de Cabinda, envolvendo forças internacionais, com Kadhafi (da Líbia), Bourguiba (Tunísia) e Boumedienne (Argélia)…



L.G.F. - Chegou a ser congeminado, mas não passou do papel, graças a Deus.

EXP. - Ou ao 25 de Abril…

L.G.F. - Sim, devido ao 25 de Abril. Nessa altura, Mobutu recordou-se do seu primeiro projecto e faz chegar a Bruxelas, para onde eu tinha sido mandado, Edouard Mokolo, que era um dos seus principais conselheiros. O Edouard Mokolo pede-me para eu interceder junto do novo ministro dos Estrangeiros, Mário Soares, para um encontro. Era, no fundo, a mesma ideia de interferir no processo português em África. Mobutu era um homem que nos detestava, em certo sentido e, ao mesmo tempo, nos adorava. É o mesmo homem que, depois de tudo o que nos fez, propôs ao Governo português, em 1984, que tomasse conta do sector estatal do café. Contava-se que a mãe de Mobutu lhe teria dito, no leito de morte, que não se esquecesse dos portugueses. Ele foi o homem que criou um imenso escândalo em torno da nossa embaixada, em 1965, e, três anos depois, diligenciou para que voltássemos. Quando se dá o 25 de Abril, essa ideia peregrina da invasão de Cabinda cai. Ela seria, aliás, um desastre total, não para nós, mas para ele, que introduziria um factor de dissolução dentro do Zaire que acabaria por o destruir.

EXP. - Em 1973, foi portador de uma carta de Caetano para Mobutu. No livro, todavia, não revela o seu teor.

L.G.F. - A carta relacionava-se com toda a trama que se gerou na altura no Zaire e que implicou Portugal. Ela envolvia o então ministro dos Negócios Estrangeiros, Mário Cardoso, um congolês filho de pai português. Havia outros ministros como ele, como Jean-Baptiste Alves, ministro do Comércio, ou Pinto Rafael, ministro do Trabalho. Nós tínhamos amigos e inimigos, mas havia sempre uma facção radical, antiportuguesa, em Kinshasa. Vim de propósito a Lisboa, porque Mobutu queria uma garantia do Presidente do Conselho de que não estávamos envolvidos no caso Mário Cardoso.

EXP. - Que Mobutu suspeitava de estar à frente de uma tentativa de golpe de Estado.

L.G.F. - Exacto. Só depois de Mobutu ter recebido essa carta é que o ambiente se desanuviou.

EXP. - Tem essa carta?

L.G.F. - Não, ficou uma cópia na embaixada, que foi destruída com as outras coisas todas.

EXP. - Porquê?

L.G.F. - Porque não tínhamos a mínima segurança.

EXP. - Houve documentos importantes que se perderam?

L.G.F. - Sim. Depois da questão do Mário Cardoso e, sobretudo, do caso dos prisioneiros libertados pela PIDE, em Dezembro de 1972, sentimos que tudo podia acontecer, tanto da própria FNLA, que tentou atacar três vezes a embaixada, como do próprio Mobutu.

EXP. - Chegou a admitir o pior?

L.G.F. - Em alguns países africanos, em certos momentos e com certos regimes, tem que se admitir o pior, sempre.

EXP. - Sabia que houve um projecto de independência branca para Angola?

L.G.F. - Ouvi falar. Era acalentado pelo Santos e Castro e pela PIDE. Era uma independência à rodesiana. Penso que isso ficou apenas em projecto de reuniões já um bocadinho etilizadas…

EXP. - A sua experiência africana começara em Dakar, em 1961. Dois anos depois, Salazar autorizou uma negociação com a União dos Naturais da Guiné Portuguesa (UNGP), o movimento autonomista de Benjamim Pinto Bull. Uma delegação, chefiada pelo subsecretário de Estado da Administração Ultramarina, Silva Cunha, foi enviada para Bissau, para negociar com a UNGP. O mesmo Salazar encarregou-se de deitar tudo a perder, no discurso de 12 de Agosto.

L.G.F. - Nunca esqueço que estava no Palácio de Bissau, hoje incendiado, com o Silva Cunha e o governador da Guiné, Vasco Rodrigues (entre outros), ouvindo o discurso de António Oliveira Salazar, sem suspeitarmos o que ele ia dizer e aguardando que, dentro de dias, a delegação da UNGP chegasse a Bissau. Houve ali um momento em que tudo podia ter sido jogado.

EXP. - Foi um momento histórico perdido?

L.G.F. - Sem dúvida. Se, em 1963, tivéssemos conseguido fazer entrar em Bissau os homens da UNGP e de vários outros movimentos associados, com os quais eu reunia regularmente em Dakar, poderíamos ter começado a resolver o problema na Guiné e, depois, abrir caminho para negociações semelhantes com Angola, Moçambique, Cabo Verde…

EXP. - A UNPG foi o único movimento recebido por um Presidente do Conselho.

L.G.F. - Sim. Mas o problema que discutimos era como se iria fazer a autonomia da Guiné. Primeiro: como fazê-la com gente tão pouco preparada? Segundo: como aceitariam os portugueses da Guiné essa solução? Sabíamos que o problema era dificílimo, mas não podíamos ficar tolhidos por isso, ou então nunca mais!

EXP. - Na historiografia oficial da Guiné e Cabo Verde, a UNGP é considerada um grupo mais ou menos fantoche.

L.G.F. - É evidente, mas não foi fantoche. Foi um grupo que reuniu os homens da UNGP, apoiado por Senghor e outros movimentos. Porque não existia só o PAIGC. O mal dele e depois do MPLA é que, a partir de certa altura, consideraram-se os únicos e lídimos representantes daqueles territórios. Havia outros. Mas a UNGP perdeu e, por isso, é fácil acusá-la de fantoche.

EXP. - O que é que se passou com Salazar para alterar radicalmente o seu comportamento em meia dúzia de dias?

L.G.F. - O embaixador José Manuel Fragoso, antes de partirmos para Bissau, disse a Salazar que tudo aquilo era um plano inclinado, com tudo o que isso implicava.

EXP. - Quem foram os homens que o demoveram?

L.G.F. - Os Bissaia Barreto e outros que estavam por trás dele - o grupo duro que depois aprisionou Marcello Caetano.

EXP. - Quem?

L.G.F. - Não estou muito certo.

EXP. - Franco Nogueira?

L.G.F. - Obviamente que não apadrinhava nada disto.

EXP. - Poderia, portanto, ter sido um dos homens que influenciou Salazar?

L.G.F. - É possível. Ele nunca acreditou no projecto UNGP. No segundo encontro de Pinto Bull com Salazar, em que este cedeu, Franco Nogueira não esteve presente. Porquê? É possível que tenha sido ele, mais do que qualquer outro, a demover Salazar.

EXP. - Franco Nogueira não acreditava na viabilidade do projecto ou achava que não era esse o caminho?

L.G.F. - As duas coisas.

EXP. - Foi um dos raros diplomatas portugueses que conheceu pessoalmente um dos líderes dos movimentos de libertação: Amílcar Cabral.

L.G.F. - No poder ou ainda fora dele, era um dos maiores chefes políticos africanos da época, senão o único. Conheci-o ainda aqui em Portugal, enquanto estudante.

EXP. - A última vez que o viu…

L.G.F. - …foi em Cuba. No dia 2 de Janeiro de 1966, no Palácio da Presidência em Havana, estão dois representantes ocidentais a falar entre si: o embaixador da França e este vosso amigo, enquanto se aproxima o Presidente da República, Osvaldo Dorticos, para nos cumprimentar. Estamos a conversar, de repente volto-me e vejo um friso que era composto por Amílcar Cabral, Chico Té, Domingos Ramos e mais uns quantos do PAIGC de que não me lembro. Era na véspera da Conferência Tricontinental e Havana estava cheia de delegações. Baixámos a cabeça, porque eu conhecia muito bem o Amílcar Cabral. Um sorrisozinho, não mais, não fosse alguém ver - seria o conluio entre o PAIGC e Portugal!

EXP. - Mas também se cruzara com ele em Dakar.

L.G.F. - Lembro-me de uma partida que me fez uma vez o Senghor. Íamo-nos despedir do Presidente da República senegalês. Era uma sala VIP muito pequenina: para fazer uma fila indiana dos representantes estrangeiros era uma complicação. Às duas por três, o Senghor vem, cumprimenta-me, faz uma pausa, olha para o lado e diz: «Vous vous êtes saluez déjà?» Eu olho para o lado e era o Amílcar Cabral.

EXP. - Em Julho de 1962, recebera uma carta de Amílcar Cabral, dirigida ao governador da Guiné, propondo conversações. Qual foi o destino dessa carta?

L.G.F. - Foi entregue ao governador Peixoto Correia que, por si, a rejeitou. Foi um «non recevoir». Era uma carta de um marxista-leninista e, na situação em que se vivia em Portugal, era inaceitável. Usava de uns termos bastante duros para com Salazar, que nenhum governante português na época poderia aceitar.

Entrevista de JOSÉ PEDRO CASTANHEIRA
Fotografias de LUIZ CARVALHO

in: Expresso

José Henriques e Silva: O bom colono

José Henriques e Silva chegou a Nacala em 57 para dirigir as obras do porto. Entre o clube de ténis, as festas de batuques e o chá com as senhoras, usava a Leica para fotografar os seus amigos pescadores macua.
Texto de Ana Soromenho





Ali Uacate já pode morrer. Ele tinha dito que estava muito cansado, que não queria viver mais. Pediram-lhe para esperar um ano. Que esperasse só mais um ano, para ver a exposição de fotografias do senhor engenheiro. Então ele prometeu e esperou um ano inteiro. Ali é um homem antigo, tão antigo como o tempo colonial. Ele ainda não entendeu porque é que o engenheiro foi morrer tão longe de Nacala e não foi enterrado debaixo do cajueiro, que é o lugar onde os macuas cuidam dos seus mortos. O engenheiro Silva partiu em 1983, mas o velho cozinheiro continua a não querer acreditar que ele nunca mais volta à praia de Fernão Veloso.
José Henriques e Silva foi para Nacala com 38 anos. Apaixonou-se por esta terra, onde viveu durante 23 anos, e pela sua gente, com quem estabeleceu uma relação pouco usual para um colono branco. Era um homem culto e inquieto, um curioso que gostava muito de fotografar, que andava sempre com uma Leica pendurada no ombro e que, quase acidentalmente, acabou por construir um considerável espólio fotográfico: mais de cinco mil registos a preto e branco sobre os pescadores macuas, os habitantes deste segmento de costa suaíli do norte de Moçambique.

No ano em que chegou, 1957, Nacala não era mais do que uma pequena vila da província de Nampula com meia dúzia de casas em redor da estação de comboio, o único meio de ligação entre a costa e o interior. Nampula fica a cerca de 300 quilómetros. Contam os velhos que viveram naquele tempo que os leões ainda apareciam às portas da vila. Tudo o resto era mato e uma imensa e deslumbrante baía aberta sobre o Índico.

José Henriques e Silva era engenheiro civil e tinha vindo da metrópole para iniciar as obras do porto. Instala-se em Nacala para dar seguimento ao projecto de desenvolvimento da futura cidade. A construção de um porto naquela costa era uma aposta da política colonial, uma obra imprescindível na ligação ao interior, que passaria a garantir o escoamento da produção do norte do país assente nas grandes culturas do caju e do algodão. É num ambiente de pequeníssima sociedade, provinciana e longínqua - Lourenço Marques, a capital, ficava a mais de dois mil quilómetros de distância para sul -, que José Henriques da Silva vai dirigir as obras do porto. Ele pertence à élite dos engenheiros, frequenta o clube de ténis, os chás das senhoras, participa nas tricas dos pequenos acontecimentos mundanos de uma sociedade bem instalada nas colónias e que a seu modo também reproduz o estilo de vida que os portugueses praticavam em África.

O grande crescimento da cidade, que teve início com as obras do porto e com a instalação da fábrica de cimentos de Champallimaud, faz-se sentir na década de 60. Quando a guerra em Moçambique rebenta mais a norte, na província de Cabo Delgado, constrói-se em Nacala a base aérea que passa a funcionar como retaguarda militar de apoio à guerra colonial. José Henriques da Silva também participa nas obras do novo aeródromo militar. A vinda dos militares e das respectivas famílias dá um novo fôlego à vida da colónia. Na encosta que desce sobre a grande baía de Fernão Veloso começa a edificar-se a nova cidade com os típicos complexos de habitação de traçado modernista, os arruamentos largos e as novas avenidas que rasgam a paisagem africana e dominam sobre as praias de coral.

O «Silva», como lhe chamavam os amigos, era casado com uma portuguesa de quem teve dois filhos. A família divide o tempo entre Nacala e Portugal e ele passa longas temporadas sozinho. Longe da actividade das obras de engenharia e da vida social constrói uma casa na praia, uma palhota em madeira e «makuti», como as casas dos africanos, típicas daquela região. Este lugar, junto ao mar, foi o seu refúgio de fim-de-semana e de longas temporadas isoladas da vida citadina. Era aqui que tinha os seus livros, as revistas que assinava e o mantinham em contacto com a cultura europeia, era onde lia o «Le Monde» e escutava a Radio France. Mas, mais do que lugar de eremita, a casa da praia - cuja placa com a irónica indicação «Regulado Independente Palhota Pai Silva» ainda hoje se mantém - era o lugar de transição entre dois mundos que não se tocam e por onde o engenheiro Silva circula com o olhar curioso de fotógrafo branco, fascinado pelos gestos e pelos rituais daquele povo litoral, tão particular, da África islamizada que são os macuas.

A fotografia acabará também por funcionar como um motivo de aproximação ao universo dos pescadores e da sociedade macua. Fotografando, ele atravessa essa fronteira. Para além de um olhar meramente documental ou etnográfico, o espólio de José Henriques e Silva revela uma intimidade nos registos quotidianos pouco usual na fotografia feita sobre o mundo africano na época colonial. Sempre que pode, de madrugada e ao fim do dia, o fotógrafo está na praia, recolhe imagens, observa, entra quanto pode naquela vida.

Chehane Omar, 45 anos, conta, por exemplo, o encontro que teve com «senhor engenheiro» quando ainda era um rapaz e trabalhava nas obras do porto. Vivia ao pé da praia, a mesma para onde hoje aponta com o dedo, ali foi o lugar da história: «Ele andou uns dias a observar-me e depois chamou-me para me perguntar se eu sabia pescar. Eu fui trabalhar para a casa e pescava para ele. Quando ia fotografar, levava-me sempre. Eu carregava as máquinas e falava com os pescadores para lhes dizer o que é que tinham de fazer.» Chehane mima os gestos de José Henriques e Silva com a câmara à frente dos olhos. Mostra as dunas de areia dura e o modo como o engenheiro tinha andado dias inteiros a observar e fotografar aquelas rochas até descobrir um ribeiro que levava a água doce à praia. Depois lembra-se das festas com os tocadores de batuque que «Pai Silva» organizava, aos sábados, e dos almoços de cabrito para os quais convidava os pescadores a aparecerem depois das sessões de fotografias. Também conta o fascínio do fotógrafo pelas mulheres macuas, as que cobriam a cara e o corpo com o pó branco que lhes deixava a pele mais sedosa. Silva foi apanhado por esse ambiente de sensualidade africana e, rapidamente, criou uma cumplicidade pouco usual para um branco na comunidade dos negros muçulmanos.

Ainda hoje, Ali Uacate, o cozinheiro que o serviu durante todo o tempo em que Silva permaneceu em África, mora na casa que o engenheiro lhe construiu na antiga estrada de Fernão Veloso. Ele está sentado à sombra de um cajueiro centenário, levanta-se e vem ao nosso encontro rodeado de mulheres. Não sabe a idade que tem. Mas lembra-se, como se fosse hoje, do dia em que o engenheiro o convenceu a tirar a carta de condução porque o tempo colonial tinha acabado. Foi ele, inseparável do «senhor engenheiro», quem lhe ensinou os costumes de África, e só foi aprender a guiar porque o patrão se ia embora e ele nunca mais iria querer servir alguém. Durante os anos da guerra civil, na década de 80, todos os dias Ali Uacate percorreu a estrada entre Nacala e Nampula na coluna militar, para fornecer de gasolina a empresa onde trabalhava, e todos os dias viu gente a ser atacada pelos homens da Renamo. Nunca lhe aconteceu nada. E é por isso que acredita que alguém o protegeu no céu. Estava cansado e não queria viver mais. Mas, mesmo assim, esperou. Esperou porque a Joana lhe tinha prometido que as fotografias dos «Pescadores Macua» iriam voltar à praia de Fernão Veloso.

Joana Pereira Leite, hoje economista e fotógrafa, foi para o Norte de Moçambique quando fez seis anos. Toda a sua infância se cruzou com o engenheiro Henriques da Silva com quem estabeleceu uma amizade muito particular. Mais tarde, já adulta, irá herdar todo o espólio fotográfico dos «Pescadores Macua». Lembra-se de Silva aparecer na casa de Nacala, à hora do chá, sempre cheio de histórias e novidades sobre a vida dos colonos: «Tinha um sentido de humor muito particular e toda aquela mundanidade colonial o divertia. Andava sempre de máquina fotográfica, registava tudo, depois brincava com os negativos e construía histórias muito engraçadas sobre aquele universo dos brancos de Nacala.» Eram os tempos em que o Silva a levava no Volkswagen a entrar pelo mato dentro, naquele mundo indefinido a que os brancos não acediam. «Ele enchia o banco de trás com fotografias, ia pela estrada fora, e então entrava por aquelas estradas de terra vermelha impossíveis de penetrar. Entrava a buzinar, os amigos aproximavam-se e ele ia distribuindo fotografias. Levava-me sempre. De manhã ia-me buscar e eu passava o dia na praia dele quando estava a fotografar. Foi um grande privilégio porque eu comecei a aperceber-me desse mundo, que era muito diferente. Nós éramos extremamente urbanos e ele deu-me a conhecer uma outra dimensão africana.»

Só muito mais tarde, já depois da independência de Moçambique e um ano antes de regressar a Portugal, em 1978, é que Henriques e Silva toma consciência do seu trabalho fotográfico junto dos macuas da costa suaíli, os pescadores da baía de Fernão Veloso. Tinha já começado enviar todos os negativos a Joana Pereira Leite que, entretanto, já estava em Lisboa. Juntos elaboram um esboço de um projecto documental sobre os macuas. Num testamento informal faz um apelo emocionado: «Estive 23 anos em Moçambique e verifico que o que fiz não foi realizado completamente. Agora, que não tenho possibilidade de voltar, é que constato o muito que ficou por fazer (…) Nacala sempre foi a minha base. Se alguém tiver a possibilidade de alguma vez lá voltar, que se dirija a Fernão Velozo e procure os nomes que vou citar. Esses sim, darão bons elementos se falarem no meu nome.»

Poucos anos depois de escrever este testemunho, José Henriques e Silva volta a Moçambique. Samora Machel convida-o a ir trabalhar para Nacala como responsável pela construção das novas estradas. Silva regressa em Janeiro de 1982. «Ele volta para preencher as lacunas do trabalho fotográfico sobre os pescadores porque toma consciência do material que tem em mãos e quer terminar esses trabalho», diz Joana Pereira Leite. Durante algum tempo mantém uma correspondência com a amiga na qual descreve, emocionado, o seu encontro com as gentes de Fernão Veloso. Um ano depois de ter regressado a Nacala, José Henriques e Silva volta subitamente para Lisboa. Está gravemente doente e vem morrer a Portugal.

Durante os anos que se seguem à morte do amigo, Joana Pereira Leite fica depositária dos negativos e tenta organizar o material fotográfico que tem em mãos, de modo a poder mostrá-lo em Nacala. Ainda em 1983, organiza uma primeira exposição no Arco, em Lisboa, quando Samora Machel visita Portugal. Em 1992, quando a guerra civil termina, volta a Nacala para saber se os amigos de Silva ainda estão vivos e, nessa altura, entrega uma colecção ao Arquivo Histórico de Moçambique. Em 1998, quando a Câmara Municipal de Lisboa se interessa pelo espólio, em parceria com a Comissão Nacional dos Descobrimentos Portugueses (CNCDP), no âmbito do projecto Culturas do Índico, realiza-se uma exposição composta por 150 fotografias e um livro, cujo trabalho gráfico foi criado pelo fotógrafo Vítor Palla. É a partir dessa altura que começa a desenhar-se a possibilidade de uma exposição «Pescadores Macua» para ser mostrada nas praias onde José Henriques e Silva as fotografara.

Em Setembro deste ano, na antiga praia de Fernão Veloso, que agora se chama Neherengue, os pescadores macuas puderam ver as fotografias tiradas por José Henriques e Silva há mais de vinte anos. Junto ao mar construiu-se um espaço ao ar livre em madeira e «makuti». Este encontro, planeado por Joana Pereira Leite, comissária da exposição, e financiado pela Comissão dos Descobrimentos, foi um momento de festa simples e comovente, onde os amigos do fotógrafo reviveram a passagem de um tempo delicado e povoado de memórias.

Só duas décadas depois da morte do fotógrafo, quando regressa a Nacala para realizar um documentário, é que Joana Pereira Leite toma conhecimento das circunstâncias da morte do amigo: «Em 1982, quando regressa a última vez a Nacala, Silva acredita que vai voltar a viver em Moçambique. Só que já não é possível. Ele apercebe-se disso num dia em que está a acompanhar as obras da barragem, a 30 quilómetros de Nacala, e chama a atenção para o trabalho que está mal feito. Os trabalhadores não aceitam a ordem de um branco. Mandam-no embora, dizendo-lhe que o tempo colonial acabou. O Silva fica extremamente chocado. Tem consciência de que não se pode alterar a história. E, no fundo, era isto que ele seria sempre: um bom colono». É a partir desse momento, que o engenheiro Silva fica profundamente deprimido. Abandona o carro na barragem e volta para Nacala a pé. Anda 30 quilómetros, vai para a sua casa da praia e depois isola-se. Não quer ver ninguém. Ali Uacate, encontra-o sozinho e doente e percebe que o patrão quer morrer naquele sítio, junto do seu cajueiro ao pé dos pescadores.



in: Expresso