quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

ANGOLA por Sebastão Coelho



Sebastião Coelho* , jornalista angolano

Como o feitiço que se volta contra o feiticeiro, a língua, a mais importante arma utilizada pelo colonizador para impôr domínio, transformou-se, paradoxalmente, no mais importante meio de descolonização e factor básico de unidade nacional em Angola. Assim, um quarto de século de independência fez mais pela implantação e difusão do português no território do que cinco séculos de colonização.

I . ANÁLISE INTRODUTÓRIA DAS CIRCUNSTÂNCIAS

Este dado que ainda hoje pode surpreender, era quase impossivel de imaginar sequer em 1974, época de exarcerbado nacionalismo e de forte oposição a qualquer resquício de presença portuguesa. Nessa oportunidade preparei um relatório reservado para a direcção do MPLA [1] adiantando esta hipótese e insistindo na necessidade de que o futuro governo nacional angolano desse prioridade absoluta a um plano de alfabetização prevendo a ampla difusão do português como língua veicular, de comunicação social e de unidade nacional.

Declarado “língua oficial” no próprio acto da proclamação da independência em 11 de Novembro de 1975, o português consolidou-se rapidamente e por etapas. Ultrapassada a condição de “língua do colono” passou na prática a “língua veicular” e logo a seguir a “lingua dominante” e estabeleceu-se como instrumento de alfabetização. No alvorecer do terceiro milénio conquistou a posição de “língua materna” para mais de 20% dos angolanos [2].

Tão impressionante trajectória era impensável ao escutarem-se os fortes protestos que se seguiram à sua designação como língua oficial. Foram notórios os assobios e gestos de desconformidade e frustração quando o Presidente Agostinho Neto, durante o mesmíssimo acto da proclamação da República Popular de Angola, anunciou que o Português passava a ser a língua oficial do país. Sem dúivida, a declaração surpreendeu e desagradou profundamente a grande parte dos angolanos presentes naquele acto multitudinário, em Luanda.

O próprio presidente Neto se surpreendeu com o volume da onda de protesto, mas tratou de minimizar a importância do incidente. Contudo o eco da reacção dos primeiros instantes retumbava nos dias posteriores e havia ponderosa razão para esse tipo de manifestações. Era o desabafo, era o resultado da prolongada luta anticolonial. Era, essencialmente, consequência do sentimento anti-português desse momento, exacerbado depois do 25 de Abril, pelas atitudes vacilantes das novas autoridades portuguesas, o caótico êxodo em massa dos colonos, estigmatizando negativamente tudo o que estava relacionado com Portugal. Aos olhos de todos voltava a dura imagem da debandada geral depois do saqueio, confirmando que a colonização tinha sido um roubo material e um engano moral e que atrás não ficava absolutamente nada, nem sequer as palavras, embora “fossem portuguesas”, as palavras com que se expressavam estas idéias. Ninguém parecia ter consciência deste pormenor.

A desolação era geral, havia tristeza e desconformidade ante a consumada proclamação do português como língua oficial. Multiplicavam-se as críticas a propósito da que se comentava tão “incompreensivel como desacertada decisão política do Presidente Neto”. Admitia-se ter sido ele quem cometera o erro de “escolher” a língua portuguesa, mas não se podia acusá-lo de traição. Talvez existisse algum compromisso secreto ou então era, de facto, uma decisão de carácter estritamente pessoal.



Estas criticas são fáceis de entender, se as tomamos como reflexo directo do estado emocional de uma população oprimida durante séculos. Na realidade o presidente Neto não escolheu e não tinha possibilidade de o fazer porque, simplesmente, a opção estava feita há muito e não existiam alternativas. Do que não tenho dúvida é de que, se a eleição da língua oficial tivesse obedecido ao resultado de um plebiscito, o povo, nesse momento, teria votado negativamente. Cego na sua fúria momentânea contra Portugal, por desforra e sem pensar em vantagens ou consequências, teria elegido qualquer outro idioma, o Inglês, o Francês ou o Espanhol, qualquer um e a ninguém importava qual. Podiam ser “todos”, excepto o Português.



Era manifesto o clima de hostilidade reinante, a necessidade colectiva de exorcismo, de querer banir, magicamente, meio milénio de convívio, enfim, de acabar com tudo o que recordava os portugueses, incluindo, naturalmente, a «língua do colono» [3]. Não era possível calcular quanto tempo ia durar o ressentimento, mas tal estado de espírito iria prevalecer enquanto durassem o ódio, a confusão, a insatisfação e o repúdio. Com a passagem do tempo e porque as mentalidades mudam e mais rapidamente do que se pensa, muitas coisas iriam ficando mais claras e poderia vislumbrar-se até um horizonte de entendimento e união entre as nações desavindas, a médio ou longo prazo. Assim aconteceu.



II . ANTECEDENTES

A adoção do português como língua veicular não foi decidida no momento da independência nem começa com o abrandamento das posições anti-lusitanas do pós-independência. O processo inicia-se a partir de 1961, portanto nos alvores da luta armada contra o colonialismo, ponto de articulação da viragem. Até aí o português era apenas a língua do colono, falada exclusivamente pelos colonos e uma reduzida elite de angolanos que também o utilizavam como única língua. Para o diálogo com o povo empregava-se um português básico [4] de palavras de fácil compreensão. Conformava o tipo de comunicação característico das zonas urbanas e as que se situavam em regiões do litoral ou ao longo das principais vias de penetração no território. Eram os lugares onde havia uma colonização mais intensa e, portanto, se acentuava a convivência.

Nas zonas do interior profundo, no mato, ponto de concentração da maioria absoluta da população gentílica, poucos compreendiam o português. Os diálogos eram curtos e não sempre plenamente entendíveis. Estas populações sedentárias e estáveis, comunicavam-se entre si na língua e dialectos da região e poucos se animavam a articular palavras ou curtas frases em português que regra geral apenas serviam para a permuta ou para dar simples indicações mas sem diálogo fluido. Os comerciantes e os missionários estabelecidos na zona, conheciam o essencial da língua regional para comunicar-se com a comunidade.



Com o fim da Segunda Guerra Mundial notaram-se sinais de mudança. Houve modificação notória da política colonial salazarista, reflexo da Conferência de Bandung e consequência da libertação de Goa, Damão e Diu, colónias portuguesas encravadas em território da União Indiana. Salazar, abalado nas suas convicções tratou de não passar à história como o liquidador do império e decidiu, a todo o custo, não abdicar das colónias africanas. Eliminou as restrições vigentes à entrada de colonos e em pouco tempo milhares de portugueses afluiram ao território [5], o que teve como resultado nova ampliação do uso do português.

A abertura de Angola à entrada de colonos também coincidiu com a euforia do café, que se aproximava do auge. A maior valia do produto gerou riqueza e repercutiu na actividade económica em geral e modificou o espectro dos falantes de português. Com o estimulo das roças de café ampliaram-se as plantações de sisal, de oleaginosas e de açúcar. Paralelamente desenvolveu-se a indústria pesqueira e por tudo isto intensificou-se o recrutamento de mão de obra através do chamado contrato de trabalho voluntário [6].

O aumento da mão de obra gerou maior concentração de trabalhadores nas roças e outros lugares de actividade. Estes individuos provinham de distintas regiões e sendo difícil a comunicação através do uso da língua regional de cada um, viram-se na necessidade de aprender e intensificar o uso do português, apontando já à sua consolidação como futura língua veicular.



III . O IDIOMA PORTUGUÊS EM ANGOLA



As distintas fases da introdução do português em Angola, o seu debil crescimento inicial face a várias resistências, a sua relação directa com o povo, as reticências e ódios que gerou, a sua relação com as línguas nacionais [7], mais a sua definição como língua oficial e posterior avanço até ser idioma dominante e transformar-se na segunda língua étnica do país, são alguns aspectos que pretendo focalizar neste trabalho.



Português língua de unidade nacional.



Em Angola falam-se uns dez idiomas [8] e cerca de cem dialectos, quase todos da mesma raíz bantu [9]. Cada grupo, na sua região, utiliza basicamete o seu idioma regional e respectivos dialectos. Dadas as características do território e da distribuição das tribus, não existia grande comunicação entre regiões nem a nível nacional, porque não havia nível nacional. Os angolanos em geral e os de origem rural em particular, por terem menos contactos externos, não tinham arreigados os conceitos de pátria, bandeira, hino, fronteira comum nem a ideia de unidade nacional.



Angola, como todos os países africanos, era um todo apenas para a concepção colonial europeia e mais tarde também para os responsáveis políticos nacionalistas. Por isso e perante a consumação das fronteiras aleatórias desenhadas pela conferência de Berlim, a OUA – Organização de Unidade Africana considerou absolutamente necessário estabelecer como regra única que os países membros conservassem o traçado das fronteiras coloniais. Não existia identidade nacional. Cada grupo étnico apenas conhecia a sua pequena pátria, o reino ou sobado e o vizinho era potencialmente um inimigo, ideia permanentemente inculcada pelas autoridades coloniais que estimulavam as diferenças e as divisões como forma de reinar.

O obscurantismo era outra forma da expressão colonial. Não se ensinava adequadamente o português e as línguas nacionais estavam praticamente confinadas ao seu âmbito tribal desde o consulado de Norton de Matos a quem se deve o desmantelamento da nascente burguesia africana. As línguas regionais além de restringidas eram desqualificadas para uso nos meios urbanos de tal forma que a população urbana tinha vergonha de expressar-se na sua própria lingua. Os meios naturais de comunicação estavam restringidos mas a expansão do português era, assim mesmo, muito lenta, devido a não haver programas de alfabetização..



Portanto, no começo da luta armada contra o colonialismo, a unidade nacional era o objectivo primordial dos dirigentes do MPLA e um “slogan”: – um só povo, uma só nação de Cabinda ao Cunene. Este desejo só podia processar-se através duma língua veicular, razão pela qual, por primeira vez, na posição de idoma comunicacional, o português assumiu real importância para os angolanos.



Consequências Directas da Guerra

O uso do português ganha verdadeira expressão durante a segunda metade do Séc. XX, em consequência directa das três guerras que assolaram Angola em forma sucessiva:



o Guerra anti-colonial - (1961-1974).

o Guerra de libertação - (1974-1975)

o Guerra civil - - - (1975-2002)



Estes conflitos que, juntos, resultaram ser a guerra mais longa do Séc. XX em África e em todo o mundo, actuaram, por distintos motivos, como os grandes impulsionadores da difusão da língua portuguesa em Angola. Depois, também cresceu graças aos programas de alfabetização.



1ª Expressão - O início da guerra armada (1961) implicou o natural engajamento conjunto de angolanos de distintas etnias e provenientes de todas as regiões do país. Não era fácil a comunicação utilizando diferentes línguas ou dialectos e uma das condições politicas de base era a eliminação de todo o resquício de tribalismo. Portanto não se podia escolher uma língua nacional para a comunicação, porque seria criar uma hegemonia dialectal [10]. A necessidade de intercomunicação impunha o uso do português, idioma neutro em relação às línguas nacionais e garantia a unidade com um só idioma para todos.

Portanto, nas escolas da guerrilha, em plena mata, deu-se início ao ensino do português. Desde essa época o seu uso foi crescendo nas matas e no interior do país como parte de uma nova subjectividade.



2ª Expressão – Em determinada altura o exército colonizador passou a incorporar nas suas fileiras jovens angolanos. Este pessoal ou já sabia português ou, necessariamente, devia aprendê-lo. Portanto e paralelamente à acção alfabetizadora da guerrilha, surgia assim uma nova camada de falantes que ampliava a base de utilizadores e melhorava as condições para uma futura unidade nacional.



3ª Expressão – Ao terminar a guerra anti-colonial, desencadeou-se de imediato a guerra civil e com ela a violência contra civis e os massacres que provocaram o êxodo das populações rurais [11]. Milhões de pessoas abandonaram os seus lugares de residência, os cultivos, os costumes quotidianos e consuetudinários, realojando-se em precários campos de refugiados junto às cidades, por razões de segurança e abastecimento. Nestes campos não era possível manter os hábitos tribais, guardar os mínimos aspectos da cultura ancestral e impôs-se a necessidade de comunicação com outros deslocados procedentes de lugares diferentes e falando distinta língua. Passou a utilizar-se sistematicamente a língua veicular, já reconhecida como língua oficial.


Participação dos Meios Electrónicos



A par da maior escolarização promovida pelo crescimento económico, este também determinou o aparecimento e intensificação do uso dos meios de difusão electrónicos entre a população de menores recursos. A rádio abriu novas perspectivas e o povo teve acesso à informação independentemente de quem sabia ler e escrever. Para isso teve de adaptar o ouvido a uma nova linguagem, pois todas as emissões eram em português e dirigidas expressamente aos colonos, jamais incluindo música africana. O panorama mudou completamente em 1961 quando surgiu no Huambo a primeira emissão de rádio com música angolana e locução em português e umbundu, o programa “Cruzeiro do Sul” [12].



Não abordo pormenorizadamente a imprensa escrita porque o nível de alfabetização era tão baixo que os números são inexpressivos. Os jornais de pequena tiragem circulavam apenas nas cidades com especial incidência em Luanda, mas sem acesso das massas. Por incapacidade de leitura e impossibilidade económica de comprar jornais.



O Português que se falava em Angola no tempo colonial



No ano da Independência de Angola (1975) existiam no país dois grandes grupos falantes. A sua composição é importante para se analisar o comportamento de cada um nos períodos imediatamente anterior e posterior à independência.

Grupo 1 – Individuos que falavam português - (Abrange todos, desde os que só falavam português aos que apenas falavam português).



Grupo 2 – Indivíduos que não falavam português – (Constituiam a maioria da população, eram os indígenas [13] de acordo com a Lei do Indiginato).

Entre os individuos que falavam o português (Grupo 1), a situação reinante era caracterizada pelos seguintes aspectos:



a) - Angolanos de cultura média ou superior que utilizavam correcta, sistemática e fluidamente a língua portuguesa. Quase todos desconheciam línguas nacionais e se sabiam falar alguma, coibiam-se de o fazer..



b) - Angolanos alfabetizados ou não, falando bem o português. Conheciam uma ou mais línguas nacionais. Os que sabiam ler e escrever português podiam ascender à categoria de assimilados [14].



c) – Angolanos não analfabetizados e utilizando prefentemente línguas nacionais para expressar-se. Conhecedores primários do português, utilizavam vocabulário reduzido. Mesmo assim, neste grupo detectavam-se dois níveis de domínio e uso do idioma português.



1º Nível: - Indivíduos de origem rural - Por hábito, ou por falta de termos, ou porque lhes resultava mais fácil expressar-se desse modo, era normal que no discurso do camponês em língua portuguesa, se insinuassem bastantes termos autóctones, puros ou aportuguesados, para sustentar a fluidez das frases.



2º Nível : - Indivíduos de origem urbana. Expressavam-se em português com certa dificuldade, mas, curiosamente, animavam-se, na prática, a inesperada fluidez no discurso, devido a um contacto mais directo e prolongado com o colono. Utilizavam um léxico mínimo, mas diferente do tipo rural. Na construção da frase notava-se o emprego sistemático de calão, pelo que era fácil diferençá-lo do camponês. Ao contrario dos indivíduos procedentes de meio rural, os de condição urbana, quando tratavam de expressar-se numa língua nacional, tinham necessidade de recorrer a palavras portuguesas para sustentar um discurso fluído.



O Português de Angola na Pós Independência.



A partir da independência houve fortes deslocações de populações rurais por diversas razões. Inicialmente, gente que sentia a atracção da cidade e que podia deslocar-se livremente pelo território, liberta de burocracias [15] Foi um pequeno período. Logo a seguir desencadearam-se outras guerras que determinariam os grandes êxodos. Devido a estas migrações pressionadas pela violência e pela fome começaram a notar-se importantes modificações no panorama linguístico, com uso mais frequente e sistematizado do português. Para melhor entendimento das mudanças, vou utilizar os mesmos esquemas anteriores de análise a dois níveis, realçando que os dados que se seguem se referem ao período pós- independência, portanto diferente do anterior.



1º Nível : - Indivíduos de origem rural – Atraídos pela cidade ou forçados a refugiar-se na zona urbana, os indivíduos procedentes do interior do país tiveram necessidade de comunicar-se fora da sua área dialectal com indivíduos de outras origens. Deixou de existir o clã e era vital aprender e agilizar o português, para poder comunicar-se e sobreviver, inserindo-se na mistura cosmopolita da cidade.

Os deslocados mais velhos encontraram dificuldade para adaptar-se aos costumes da cidade e à linguagem, mas o mesmo não aconteceu com as crianças. Necessitadas de sobreviver a qualquer preço, instalaram-se na rua. Abandonaram as famílias, prostituíram-se, esqueceram as tradições e até a língua original. Comunicaram-se em português e inventaram um patuá próprio. Mas algumas concorreram à escola e de algum modo o processo de alfabetização [16], ainda que precário, explica outra mais razão para o rápido crescimento do uso do português.



2º Nível - - Indivíduos habitantes da cidade – Perderam o convívio assíduo com o colono mas tiveram de dar maior uso à língua comum ou veicular e em grande parte abandonaram a língua regional de origem.

Assim, tanto os indivíduos de origem rural como os da cidade aumentaram substancialmente o uso quotidiano do português, com pequenas variantes em relação à maior ou menor percentagem de utilização e mistura de termos dialectais que passaram a ser mais frequentes. As palavras oriundas de qualquer língua nacional universalizaram-se na cidade e passaram a ser utilizados na linguagem mista e quotidiana dos dois grupos, apontando ao nascimento de um novo crioulo de raiz portuguesa. Até agora não existe um crioulo de Angola, mas começa a conformar-se um modo específico de falação, especialmente em Luanda.



Logo depois da independência o fenómeno de acrioulação incursionou rapidamente pelos jornais, rádio e televisão, consequência do êxodo de jornalistas imediatamente anterior à independência. Numa primeira etapa alguns meios foram tomados de assalto por oportunistas confusionistas, na maior parte indivíduos não angolanos que se lançaram numa falsa campanha de africanização do português, deformando propositadamente com “kk” todos os vocábulos, com objectivos que ainda hoje não tenho claros.



Na segunda etapa já participaram os primeiros jornalistas da nova camada de angolanos de boa vontade, formados à pressa para vencer as dificuldades do sector. Apesar das deficiências de expressão com que abordaram a profissão, souberam crescer e são muitos dos que hoje ocupam lugares destacados no jornalismo. O português deles, a par da linguagem dos escritores da moderna literatura, apareceu impregnado de termos autóctones e expressões populares importadas das línguas nacionais, vocábulos que, nitidamente, facilitam a comunicação local. Estes termos aplicados à agilização da linguagem quotidiana, iniciaram o processo de africanização do “português”, dando vigência permanente a vocábulos como «bué», «kínguila», «maka», «mujimbo», etc. e que mais tarde ou mais cedo vão impor mudanças no léxico geral.

IV. O PORTUGUÊS E AS LÍNGUAS NACIONAIS



1. Línguas Nacionais no esquema colonial



As Línguas Nacionais foram sufocadas quando, sistemática e injustamente, os programas de ensino oficial ignoraram a sua existência, para além de outras sanções coibitórias do seu uso e expansão. Mas isso, por doloroso que seja, tem de compreender-se, fazia parte do esquema colonial. O constante estado de abandono a que estiveram votadas as línguas locais nos centros urbanos provocou o esquecimento gradual de termos do vocabulário próprio, por falta de uso. A perda do hábito da linguagem reflecte-se especialmente nas cidades onde se desvanece [17] facilmente, o peso dos costumes ancestrais não praticados e com eles, a tradição familiar.



O uso de línguas africanas sempre foi subestimado a nível de cidade. Classificadas, depreciativamente, como «língua de cão», poucos colonos [18] excepto alguns comerciantes do mato aprendiam ou fechavam os olhos para que os filhos aprendessem ou se exercitassem livremente na prática das línguas e dialectos locais. Devido a esta posição negativa, as camadas mais instruídas (por aculturadas) da população angolana, urbana, copiavam a atitude de despeito dos portugueses e jamais utilizavam as línguas nacionais que muitos nem aprendiam..



As autoridades coloniais, obcessionadas por imporem o seu próprio padrão cultural europeu, nunca consideraram as línguas locais como um bem para preservar e adicionar ao património lusitano. Pelo contrário, jamais instigaram o seu estudo nos programas oficiais de ensino. Esta atitude não era compartilhadapelas Igrejas, que pretendiam melhorar a sua comunicação com os fiéis e sabiam que a língua materna era o caminho mais directo para chegar ao coração. Por isso, desde sempre, os missionários se esforçaram por dominar os idiomas africanos, dando-lhe, inclusivamente, forma escrita.



2. Missionários, Línguas Étnicas e um Calcanhar de Aquiles


Os estudos básicos, a recolha de informação, a adaptação e a difusão das formas escritas das Línguas Nacionais, devem-se, quase sempre, ao trabalho e curiosidade individual de missionários religiosos. A eles se deve, também, a compilação dos primeiros dicionários. O esforço destes investigadores de origem europeia ou norte-americana era individual, disperso e isolado. Para a tradução, registo e transcrição gráfica dos fonemas, cada um tomava como base a sua respectiva língua materna, com o que, a par do seu louvável esforço, se introduziu em África um complicado e perdurável problema. Ao escrever de maneira distinta as mesmas palavras e os mesmos sons, não se facilita a escrita, a leitura, nem o uso, entendimento e difusão das línguas nacionais.



Situação tão caótica resultou da falta de um plano coordenador geral, cuja inexistência permitiu que cada estudioso recolhesse e desse à transcrição dos fonemas um tratamento nitidamente pessoal, baseado, exclusivamente, nas suas convicções, no seu estilo próprio e critérios adaptados da respectiva língua materna. Esta é a razão fundamental que determina tantas discrepâncias na forma escrita das línguas nacionais que, para bem delas, conviria rever quanto antes.


REFLEXÕES SOBRE LÍNGUAS E DIALECTOS



A dolorosa verdade foi difundida há bem pouco pela Unesco. No relatório publicado em Fevereiro deste ano, a Unesco alerta para o perigo que correm as línguas minoritárias [19] de desaparecerem sob pressão das línguas dominantes ou por políticas repressivas. Segundo esse documento, a língua de uma comunidade está em perigo quando 30% das suas crianças não a aprendem. Isso acontece, entre outras razões, pela deslocação forçada da comunidade, o contacto com uma cultura mais agressiva ou acções destruidoras dos membros de uma cultura dominante.



O relatório indica várias regiões em perigo, identifica como “zonas de crise” a ilha de Twaian onde os idiomas locais cedem ante a pressão do chinês mandarim e a Nova Caledónia, cujas línguas nativas perdem terreno frente ao francês. Na Europa há várias línguas ameaçadas – por exemplo o leonês e o galego, na Espanha. Há situações similares na América Central e do Sul onde “os governos foram indiferentes e hostis para as línguas indígenas dos seus países até 1970”. Aborda problemas nos Estados Unidos e no México. Os autores do relatório também recordam o efeito catastrófico causado no último milénio pela invasão dos aztecas e mais tarde pela conquista espanhola.



Mas, não existe nenhuma referência à África, região onde alguma vez teriam sido censados uns 800 idiomas e mais de sete mil dialectos. O continente africano, em grande parte dos seus países e invariavelmente para os seus contactos exteriores, expressa-se hoje, na prática, apenas quatro idiomas e nenhum é africano: árabe, francês, inglês e português. E em Angola que acontece?



Angola perfila-se de algum modo, pelo menos nas intenções de alguns organismos nacionais como um pais multilingue, que se há- de articular no futuro em diferentes zonas, cada uma com o uso mais intensivo do seu idioma regional próprio, a par da língua oficial como instrumento de união e de universalismo. Sem dúvida que este esquema, se for vertido à realidade, vai trazer muitos benefícios à preservação da cultura, das tradições diversificadas e que são base fundamental do progresso e da angolanidade sem perda de identidade.



Esta identidade tem muito que ver com condições próprias que procedem da oralidade e que só o uso constante das línguas regionais permitirá continuar a desfrutar e salvar para a posteridade [20]. Como as línguas locais, também a literatura oral está em franco declínio. E só a literatura impressa e não sujeita a tradução, (portanto no idioma correspondente a cada lugar), como fonte mais próxima ao original, poderá conservar a tradição com certa fidelidade. A partir daí, desse original tão genuíno quanto possível, sim, poderão fazer-se copias traduzidas a outros idiomas para a sua difusão e universalização .



Por agora a literatura impressa em línguas nacionais vive de excepções, escassíssimas excepções quase sempre constituídas por traduções ou variantes experimentais que ajudam a confirmar a regra geral – não existem edições em línguas que não se aprendem na escola e os números difundidos pela Unesco são terroríficos quando explicam que a língua de uma comunidade está em perigo quando 30% das suas crianças não a aprendem.



De qualquer modo creio que a revitalização das línguas nacionais não passa unicamente pela alfabetização. Passa pelo seu uso sistemático, a importância que lhes dêem os meios de comunicação social e consolida-se através da existência de uma literatura própria. É um sonho complicado porque nunca, pelo menos nos tempos mais próximos, esse tipo de literatura parece utópico porque não existe universo que a sustente. Por outro lado a língua nacional é o factor básico da unidade de um país em busca de ser uma nação e que não pode distrair-se desse objectivo para não ser pulverizado. Portanto, escrever em línguas nacionais é por agora, penso, um cometimento quase suicida se pensado em termos de difusão quando a língua oficial é a que garante realmente a universalidade a que podem almejar os angolanos perante uma realidade de mais de 200 milhões de potenciais leitores.

VI. ALGUMAS PROPOSTAS



1. Padronização das Línguas Nacionais



Parece que é tempo dos lexicógrafos angolanos se porem de acordo, abandonarem trincheiras e encararem soluções no sentido de se unificar a ortografia, medida tendente a facilitar o indispensável ensino e a leitura das línguas nacionais. O tema não é de fácil abordagem porque, com o tempo, se criaram «escolas» que se degladiam entre si em busca de supremacia. Cada uma delas defende, dogmaticamente, a sua posição. Ninguém quer abdicar de princípios que não são tal, porque reflectem apenas o resultado artificial de circunstâncias de trabalho, acidentais e ultrapassadas.



As línguas africanas não se sujeitavam a parâmetros europeus de escrita. Portanto, sendo desconhecida a leitura ou interpretação da grafia dos fonemas, não existia o problema de saber quais eram os símbolos ou letras que conjunta ou isoladamente, melhor representava este ou aquele som ou conjunto de sons. A padronização pode ser um factor importantíssimo para revivificar as línguas nacionais e facilitar o seu uso intensivo e em especial no importante processo de alfabetização.



Nenhuma língua nacional tem condições, pelo menos por agora, para impor a sua hegemonia no país e se assim acontecesse, o problema seria para outros grupos étnicos o mesmo que ocorre com o uso exclusivo do português no processo de alfabetização. Mas abordar este tema já é entrar noutra questão alheia ao meu propósito.

2. Modificações na escritura



O português expandiu-se pelo mundo. Dados estatísticos da Unesco publicados em 1970, revelavam que era a língua que apresentava então maior índice de expansão em todo o mundo. A mesma tendência de crescimento continuou confirmando-se e de acordo com o estudo de projecção publicado pela União Latina em 1998, será a terceira língua europeia mais popular do mundo no ano 2010, logo depois do Inglês e do Espanhol [21] .

São oito os países de língua oficial portuguesa. São diferentes mas não são incompatíveis. Estudiosos de todos estes países têm de contemplar o grande crescimento que se anuncia, estabelecendo regras claras de utilização, dicionários compatíveis com a realidade e eliminando muitas complicações ortográficas que se enfrentam inclusive com certas limitações da técnica informática. E é possível perguntar porque razão perdoravel se usam o “S” e o “Ç”, se ambas letras têm o mesmo som. Por que temos de complicar-nos a vida com o aberrante Ç.? E com o “S” a servir de “Z” de vez em quando? E se o “G” é mesmo Guê porque o confundimos com J? Se K é forte porque não escrevemos Ke em vez de QUE? E para quê tanto acento inútil. Que importa que seja vídeo em vez de video, se igual se fala de filmes ? Vou tentar um pequeno exercício:



Ja sei, muitos vao dizer ke so kero complicar as coizas, que a tradisao peza muito e ke ha regras ke nao se podem mudar. Dizem iso porke nao kerem dijerir o meu discurso. Bue de jente vai reclamar contra mim mas eu insisto em ke temos de fasilitar a nosa maneira de escrever. Vai custar a mudar? Seguramente. Mas os abitos mudam-se. Ou nao mudou o portuguez desde o tempo de Camoes ate agora? Podemos experimentar ?

VII. BREVES CONCLUSÕES

o As línguas nacionais são o tesouro cultural mais importante de Angola. Guardam as tradições e a sabedoria dos “mais velhos”. Devem preservar-se. As Universidades têm um papel fundamental a desempenhar na conservação e difusão das línguas nacionais, na recolha das tradições culturais dos povos..

o A Língua Portuguesa não é incompatível com as outras línguas, nem com independência do país, nem com a liberdade dos povos que a utilizam, antes pelo contrario é um factor de consolidação dos valores próprios.

o O português é o sustentáculo principal da unidade nacional mas não pode ser usado como elemento de submissão. É um bem comum e tem de aceitar-se que os tempos exigem plasticidade e mudanças corajosas. Assim como preconizo a padronização das línguas nacionais, também sugiro que, corajosamente, se encarem transformações fundamentais na língua portuguesa, a sua repadronização. Os dicionários têm de acolher os novos vocábulos de origem africana. Sem exageros de um lado ou do outro, mas com espírito de entendimento e respeito pela diversidade. Só desse modo o pais angolano poderá sentir que participa plenamente da vantagem de pertencer de facto a uma grande comunidade.

o As Universidades têm um papel fundamental a desempenhar na aproximação, coordenação e entrosamento das diferentes vertentes da língua portuguesa, o português europeu, o português brasileiro e o português africano, o galego e o timorense, irmãos do mesmo ventre que não podem ser relegados como o foram no seu tempo as línguas tradicionais angolanas.



A paz que agora se instala em Angola pode significar em breve futuro a entrega de importantes recursos para a alfabetização, a cultura e o crescimento cientifico do país. Mas não basta a existência de recursos económicos. É indispensável que o conjunto das universidades de língua portuguesa apoiem as transformações pelas que anseia o povo angolano.

* Jornalista, professor e investigador

VIII. ANEXO

LÍNGUAS QUE SE FALAM EM ANGOLA

Não existe consenso acerca do número de idiomas que se falam em Angola nem estatísticas actualizadas que permitam ter ideia da importância de cada uma das línguas nacionais ou regionais de acordo com o número de falantes. Os elementos que utilizo provém dos estudos do etnólogo José Redinha e foram publicados no Boletim do antigo Instituto de Investigação Científica de Angola, Mapa (1962). São classificados dez grandes grupos étnicos de origem Bantu e três de origem não Bantu e 107 dialectos.

Para completar e actualizar este quadro de línguas nacionais de Angola é necessário considerar e incluir na lista de línguas nacionais e para além da sua condição de língua oficial e veicular, o português. Em Angola o português, língua de origem não africana, é falado por um grupo específico de angolanos de origem europeia ou descendentes de europeus ou de pais euro-africanos ou pais de origem africana, sendo o idioma dominante, pela quantidade de falantes.



Línguas usadas

em Angola





LÍNGUA OFICIAL:

Português





LINGUAS

NACIONAIS





POVOS DE ORIGEM BANTU


POVOS NÃO BANTOS

Ambó


KHOISAN:

Ambundu




Ganguela


Bochimanes
Grupo Conguês


Cuepes

Herrero


Cuísis

Luba




Lunda-Quioco




Nhaneca-Humbe

NÃO AFRICANOS

Ovimbundu




Xindonga


Português



Nota: A Rádio Nacional Angola (estatal), o meio de comunicação mais importante do país, difunde o seu programa N’GOLA YETU em 10 línguas étnicas que designa como “nacionais”, com tempo iguais de emissão. Por seu turno a Televisão Pública de Angola (estatal), difunde notícias em 7 línguas que designa como “regionais”, também com tempos iguais de emissão. Ambas radiodifusoras apresentam programas em Kwanyama (Cuanhama) mas a Rádio Nacional designa-a como língua Oshiwambo.

A importância do português como língua oficial e língua nacional justifica que a maior parte das emissões de ambas radiodifusoras é difundida em língua portuguesa.

RADIO NACIONAL DE ANGOLA


TELEVISAO PUBLICA DE ANGOLA

Emissões em línguas NACIONAIS


Emissões em línguas REGIONAIS






Cockwe


Cockwe - tchokwé

Fiote [*]


Fiote


Kwanyama

Kikongo


Kikongo

Kimbundo


Kimbundo

Lunda Ndembo




Luvale




Nganguela


Nganguela

Oshiwambo




Songo




Umbundo


Umbundu




[1] - Nessa altura corria o grande risco de não ser compreendido e de ser acusado de traidor à causa do nacionalismo. Esse documento, juntamente com outros que produzi na mesma altura, foi posteriormente publicado em forma de livro. Sebastião Coelho - “Informação de Angola” - Edição do Autor – Litotipo, Lda – Luanda, 1977 (esgotado). Pgs. 22/32.

[2] - Dados do Ministério da Educação de Angola indicam que nos finais dos anos oitenta, o português teria passado a ser língua materna de cerca de 11% do total da população. Segundo a mesma fonte, em estudos ulteriores, no ano 2000 esse número aumentou para mais de 21%, transformando-se assim na lingua dominante e ao mesmo tempo em principal língua étnica do país.

[3] - Não tanto a palavra «português»mas sim os termos «luso», «lusitano», «lusófono»e variantes, arrastavam ( ainda arrastam) nesses tempos iniciais de justificada euforia nacionalista, importantes cargas de tipo emocional e político, que obstaculizavam a sua utilização nas ex-colónias. Por isso, este tema, aparentemente sem importância se revestiu de espinhos no momento de se pensar na constituição do grupo finalmente designado Países Africanos de Lingua Oficial Portuguesa – PALOP.

[4] - Era a característica linguagem dita “pretoguês”.

[5] - Entre 1900 e 1940 a população branca aumentou de 9.000 para 44.000 indivíduos. O censo de 1960 já registou a presença de 172 brancos.

[6] - O contrato era um eufemismo para ocultar a existência e o tráfico interno de escravos. Os trabalhadores eram coagidos, por vários meios, a aceitarem contratos “voluntarios” anuais e mandados para as roças e pescarias. Recrutavam-se através de cambuladores, angariadores e das autoridades administrativas. (S. Coelho – Angola – “História e Estórias da Informação” – Executive Center – Luanda – 1999 – Pgs. 33/42).

[7] - Esta designação que se dá em Angola às línguas étnicas tem origem na época da independência como forma de hierarquizá-las, redimindo-as do constante desprestígio a que tinham sido sujeitas durante séculos, pelas autoridades coloniais.

[8] - Não existe acordo acerca do número exacto dos idiomas nacionais, porque não existem estatísticas válidas e porque se evita qualquer classificação de idiomas ou sub-idiomas que poderia agudizar susceptibilidades por inadequadas ou irritantes hegemonias. Ver quadro no final deste ensaio.

[9] - Apenas os descendentes de europeus e o reduzido grupo Khoisan, não são de origem bantu.

[10] - O facto da maior parte dos membros do MPLA proceder, inicialmente, da zona do Kimbundu levantou problemas especialmente com os elementos de fala Kikongo, por razões antigas da relação entre os dois povos. Também havia atritos em relação ao Umbundu. Este problema era tão delicado que nunca o presidente Neto, presidente de todos os angolanos, utilizou uma língua nacional para expressar-se, facto que lhe gerou algumas criticas e incompreensão.

[11] - A guerra civil terminou oficialmente em 4 de Abril de 2002 com a assinatura dos acordos de Paz em Luanda. As estimativas mais conservadoras sobre o conflito indicam para população de 12 milhões de habitantes, meio milhão de mortes e mais de quatro milhões de refugiados ou seja a terceira parte do total da população. Deixou também um saldo muito elevado de diminuidos fisicos por acidente, particularmente a explosão de minas.

[12] - Foi o pioneiro dos programas de rádio em línguas nacionais. Até então nunca se haviam realizado emissões que incluissem música africana e locutores falando em língua nacional. Com a emissão do Cruzeiro do Sul (programa biligue português-umbundo) nasceu uma nova rádio em Angola . Dois anos mais tarde surgiu em Luanda o programa “Tondoya Mukina O Kizomba”, falado em português e kimbundo e música africana. Deu início à massificação da música popular angolana. (S. Coelho - “Angola – História e Estórias da Informação” - ·Edição Executive Center – Luanda – 1999 – pg 194).

[13] - “O estatuto do Indígena Português é pessoal, devendo ser respeitado em qualquer parte do território português onde se ache o indivíduo que goze dele” – (Artº 1º do Estatuto) – NA - Não podiam obter Bilhete de Identidade, não eram cidadãos, pagavam imposto indígena, usavam caderneta como documento de identidade e podiam ser presos e levados para o contrato. Não podiam conduzir automóveis, não podiam viajar livremente pelo território, necessitando para isso de uma guia de marcha passada pelas autoridades administrativas.

[14] - Designava-se por assimilado o individuo identificado com a cultura do colonizador. O termo utilizava-se no tempo colonial para diferençar quem já era “quase cidadão” ou “meio‑cidadão”, meio termo entre “selvagem ou indígena” e “cidadão comum”, mas não de pleno direito. Deixava de pagar imposto indígena, podia requerer substituição da caderneta indígena pelo BI (Bilhete de Identidade) e podia requerer (prova de saber ler e escrever) e obter carta para conduzir automóveis. (S Coelho – “Osfalação di Angola” – Inédito). O assimilado estava sujeito a muitas desconfianças: <... depois, depressa, desatou a fazer perguntas, parecia queria-lhe mesmo atrapalhar: onde trabalhou; o que é que fazia; quanto ganhava; se estava casado; qual era a família; se era “assimilado”; se tinha carta de bom comportamento dos outros patrões; muitas coisas mais...> - (Luandino Vieira – “Luuanda” – pg. 24).

[15] - No tempo colonial e especialmente durante a ditadura havia grandes restrições ao movimento do pessoal. Cada indivíduo necessitava obter previamente na Administração do Concelho ou no Posto Administrativo, uma guia de marcha que o autorizava a deslocar-se de um ponto a outro. Para obter esta guia necessitava possuir caderneta indígena e ter o imposto anual pago. Se não apresentava estes documentos podia sofrer castigos corporais e ser compelido ao contrato.

[16] - O português foi, na prática, a única língua que se utilizou na alfabetização. A par da acção das missões , a partir de 1960 e devido ao crescimento económico que se começou a registar no país, mais crianças foram às escolas públicas. Angola chegou à independência com cerca de 90% de analfabetos. Luanda registava cerca de 50% do total de alfabetizados, o que dá ideia da trágica situação herdada da ditadura salazarista. (S. Coelho – “Informação de Angola” – Luanda 1977 - Edição do Autor – Pgs. 49/50).

[17] - Os governos angolanos têm feito alguns esforços, não muitos, no sentido de elevar as línguas nacionais a nível de ensino e educação, mas o fantasma da desculturalização continua vigente. <...a língua Kimbundu está a morrer...> - ( Cf. Boubacar Diarra - Perito da UNESCO e do Instituto de Línguas Nacionais - Luanda - in “Seminário de Aperfeiçoamento das Línguas Nacionais” cit. p/ «Jornal de Angola» - Luanda).

[18] - Missionários e alguns comerciantes do interior, em tempos idos, aprendiam as línguas nacionais como factor de valorização das suas actividades, a expansão da Fé ou a expansão dos negócios, mas isso não acontecia nas cidades.

[19] - Milhares de idiomas minoritários e dialectos do planeta têm os dias contados. Das seis mil línguas que se falam no mundo, metade poderia desaparecer sob a pressão de idiomas mais dominantes ou de políticas repressivas dos governos. – “Atlas dos idiomas do mundo em perigo de desaparecer” – (UNESCO – informe datado de 21 de Fevereiro de 2002 – Dia Internacional da Língua Materna).

[20] - Recolha e Preservação da Tradição Oral – . (S. Coelho - “Angola – História e Estórias da Informação” - ·Edição Executive Center – Luanda – 1999 – pg 89-90).

[21] - O relatório da União Latina publicado em Lisboa em Abril de 1998 indica que no ano 2010, haverá 219.590 milhões de indivíduos em todo o mundo que utilizarão a língua portuguesa. Nesse mesmo ano, o Inglês, será falado por 796.670 milhões e o espanhol, falado por 458.750 milhões, sendo as línguas mais populares do universo. As línguas iberófonas (português - espanhol), em conjunto, serão faladas por 675.345 milhões de indivíduos.



[*] Fiote – Não existe a língua fiote. O termo é corrupt. do Port. filhote. Apesar de carinhoso, este vocábulo era desagradável para os cabindas “mais velhos” que se sentiam diminuídos. Os colonos chamavam assim aos cabindeses para os distinguirem pelas suas qualidades , tratando-os como filhos adoptivos. Fiote era para eles uma palavrota. A verdadeira lingua de Cabinda é o Ngoyo ou Woyo, variante do Kikongo. (S.Coelho – “Osfalação diAngola” – Inédito).



Este trabalho foi apresentado por Sebastião Coelho em Maio de 2002 , no Encontro Anual da Associação das Universidades de Língua Portuguesa (www.aulp.org/), em Luanda,Angola.

Leia mais sobre o saudoso Sebastião Coelho:

Crónicas escritas nos últimos anos da sua vida na Argentina, adaptando excertos do seu livro inédito "Manamafuika" no endereço - horta.0catch.com/huambo/cronicas%20kandimba.htm
A Mulemba da Maldição no endereço horta.0catch.com/huambo/MULEMBA.PDF

domingo, 30 de novembro de 2008

Holocausto em Angola

Livro: Holocausto em Angola


Finalmente, a Verdade começa a vir ao de cima.
Era uma questão de tempo.
Demasiado tarde, na minha opinião, pois Portugal já não existe! Agora, é West Coast of Europe!!! E Angola, está despedaçada pela pata do colonialismo americano.Eis mais um livro sobre a descolonização exemplar ou, como dizem agora, a descolonização possível.
A traição está consumada e os responsáveis ficaram impunes face à justiça democrática! Mas, que não se esqueçam que acima da justiça humana está a Justiça Divina!
Como não creio quer em Léon Bloy que afirmava que Deus estava de braços cruzados, nos confins do céu; quer em Nietzsche que dizia que Deus tinha morrido, acredito, sim, em
Céline que asseverava que Deus está em reparação!
Após um silêncio editorial de quase trinta anos - sim, porque muito livro entre 1975 e 1980 foi publicado. A lista é extensa para ser divulgada, mas um dia fá-lo-ei - a editora Prefácio começou a publicar livros sobre a descolonização, como os da autoria do General Silva Cardoso ("
Angola, Anatomia de uma tragédia" (editado pela Oficina do Livro) e "25 de Abril de 1974, a revolução da perfídia"), do tenente-coronel António Lopes Pires Nunes ("Angola 1961 - Da baixa do Cassange a Nambuango"), do coronel Manuel Amaro Bernardo ("Combater em Moçambique (1974-1975)", "Memórias da Revolução (1974-1975)", é dado agora à estampa pelas Edições Vega, "Holocausto em Angola -Memórias de entre o cárcere e o cemitério", de Américo Cardoso Botelho, (v. Público, de 13.04.2008):

«Angola é nossa!
Só hoje me chegou às mãos um livro editado em 2007, Holocausto em Angola, da autoria de Américo Cardoso Botelho (Edições Vega). O subtítulo diz: "Memórias de entre o cárcere e o cemitério". O livro é surpreendente. Chocante. Para mim, foi. E creio que o será para toda a gente, mesmo os que "já sabiam". Só o não será para os que sempre souberam tudo. O autor foi funcionário da Diamang, tendo chegado a Angola a 9 de Novembro de 1975, dois dias antes da proclamação da independência pelo MPLA. Passou três anos na cadeia, entre 1977 e 1980. Nunca foi julgado ou condenado. Aproveitou o papel dos maços de tabaco para tomar notas e escrever as memórias, que agora edita. Não é um livro de história, nem de análise política. É um testemunho. Ele viu tudo, soube de tudo. O que ali se lê é repugnante. Os assassínios, as prisões e a tortura que se praticaram até à independência, com a conivência, a cumplicidade, a ajuda e o incitamento das autoridades portuguesas. E os massacres, as torturas, as exacções e os assassinatos que se cometeram após a independência e que antecederam a guerra civil que viria a durar mais de vinte anos, fazendo centenas de milhares de mortos. O livro, de extensas 600 páginas, não pode ser resumido. Mas sobre ele algo se pode dizer.
O horror em Angola começou ainda durante a presença portuguesa. Em 1975, meses antes da independência, já se faziam "julgamentos populares", perante a passividade das autoridades. Num caso relatado pelo autor, eram milhares os espectadores reunidos num estádio de futebol. Sete pessoas foram acusadas de crimes e traições, sumariamente julgadas, condenadas e executadas a tiro diante de toda a gente. As forças militares portuguesas e os serviços de ordem e segurança estavam ausentes. Ou presentes como espectadores.
A impotência ou a passividade cúmplice são uma coisa. A acção deliberada, outra. O que fizeram as autoridades portuguesas durante a transição foi crime de traição e crime contra a humanidade. O livro revela os actos do Alto-Comissário Almirante Rosa Coutinho, o modo como serviu o MPLA, tudo fez para derrotar os outros movimentos e se aliou explicitamente ao PCP, à União Soviética e a Cuba. Terá sido mesmo um dos autores dos planos de intervenção, em Angola, de dezenas de milhares de militares cubanos e de quantidades imensas de armamento soviético. O livro publica, em fac simile, uma carta do Alto-Comissário (em papel timbrado do antigo gabinete do Governador-geral) dirigida, em Dezembro de 1974, ao então Presidente do MPLA, Agostinho Neto, futuro presidente da República. Diz ele: "Após a última reunião secreta que tivemos com os camaradas do PCP, resolvemos aconselhar-vos a dar execução imediata à segunda fase do plano. Não dizia Fanon que o complexo de inferioridade só se vence matando o colonizador? Camarada Agostinho Neto, dá, por isso, instruções secretas aos militantes do MPLA para aterrorizarem por todos os meios os brancos, matando, pilhando e incendiando, a fim de provocar a sua debandada de Angola. Sede cruéis sobretudo com as crianças, as mulheres e os velhos para desanimar os mais corajosos. Tão arreigados estão à terra esses cães exploradores brancos que só o terror os fará fugir. A FNLA e a UNITA deixarão assim de contar com o apoio dos brancos, de seus capitais e da sua experiência militar. Desenraízem-nos de tal maneira que com a queda dos brancos se arruíne toda a estrutura capitalista e se possa instaurar a nova sociedade socialista ou pelo menos se dificulte a reconstrução daquela".
Estes gestos das autoridades portuguesas deixaram semente. Anos depois, aquando dos golpes e contragolpes de 27 de Maio de 1977 (em que foram assassinados e executados sem julgamento milhares de pessoas, entre os quais os mais conhecidos Nito Alves e a portuguesa e comunista Sita Valles), alguns portugueses encontravam-se ameaçados. Um deles era Manuel Ennes Ferreira, economista e professor. Tendo-lhe sido assegurada, pelas autoridades portuguesas, a protecção de que tanto necessitava, dirigiu-se à Embaixada de Portugal em Luanda. Aqui, foi informado de que o vice-cônsul tinha acabado de falar com o Ministro dos Negócios Estrangeiros. Estaria assim garantido um contacto com o Presidente da República. Tudo parecia em ordem. Pouco depois, foi conduzido de carro à Presidência da República, de onde transitou directamente para a cadeia, na qual foi interrogado e torturado vezes sem fim. Américo Botelho conheceu-o na prisão e viu o estado em que se encontrava cada vez que era interrogado. Muitos dos responsáveis pelos interrogatórios, pela tortura e pelos massacres angolanos foram, por sua vez, torturados e assassinados.
Muitos outros estão hoje vivos e ocupam cargos importantes. Os seus nomes aparecem frequentemente citados, tanto lá como cá. Eles são políticos democráticos aceites pela comunidade internacional. Gestores de grandes empresas com investimentos crescentes em Portugal. Escritores e intelectuais que se passeiam no Chiado e recebem prémios de consagração pelos seus contributos para a cultura lusófona. Este livro é, em certo sentido, desmoralizador. Confirma o que se sabia: que a esquerda perdoa o terror, desde que cometido em seu nome. Que a esquerda é capaz de tudo, da tortura e do assassinato, desde que ao serviço do seu poder. Que a direita perdoa tudo, desde que ganhe alguma coisa com isso. Que a direita esquece tudo, desde que os negócios floresçam. A esquerda e a direita portuguesas têm, em Angola, o seu retrato. Os portugueses, banqueiros e comerciantes, ministros e gestores, comunistas e democratas, correm hoje a Angola, onde aliás se cruzam com a melhor sociedade americana, chinesa ou francesa.
Para os portugueses, para a esquerda e para a direita, Angola sempre foi especial. Para os que dela aproveitaram e para os que lá julgavam ser possível a sociedade sem classes e os amanhãs que cantam. Para os que lá estiveram, para os que esperavam lá ir, para os que querem lá fazer negócios e para os que imaginam que lá seja possível salvar a alma e a humanidade. Hoje, afirmado o poder em Angola e garantida a extracção de petróleo e o comércio de tudo, dos diamantes às obras públicas, todos, esquerdas e direitas, militantes e exploradores, retomaram os seus amores por Angola e preparam-se para abrir novas vias e grandes futuros. Angola é nossa! E nós? Somos de quem?

António Barreto»

P.S. - Pilhado com a devida vénia d`O Sexo dos Anjos.
Um reparo às afirmações de António Barreto: "Que a direita perdoa tudo, desde que ganhe alguma coisa com isso. Que a direita esquece tudo, desde que os negócios floresçam."
Assim é, na realidade, mas essa direita a que se refere, a direita muito direitinha é a tal que só interessa à esquerda e com ela (con)vive! É a direita das negociatas que se está a marimbar para a Pátria, para a Soberania, para o Povo! Essa, a direita do sistema económico-financeiro que tudo vende e troca por meia dúzia de tostões, quero dizer, dólares!

“SE NECESSÁRIO O EXÉRCITO ATIRARÁ SOBRE OS COLONOS BRANCOS”

November 12, 2008

“SE NECESSÁRIO O EXÉRCITO ATIRARÁ SOBRE OS COLONOS BRANCOS”

Entrevista a Mário Soares, Ministro dos Negócios Estrangeiros

O Ministro dos Negócios Estrangeiros português Mário Soares sobre a descolonização em África

SP – Sr. Ministro, o Governo Provisório está em vias de conceder a independência às colónias da Guiné-Bissau, Angola e Moçambique. Há portugueses que se interrogam se este Governo de Transição, que não foi eleito pelo povo, mas empossado por um golpe militar, tem legitimidade para tomar uma decisão tão histórica.

MS – Isso nos perguntámos logo a seguir à revolução de 25 de Abril. Ponderamos se a descolonização se deveria fazer apenas após eleições regulares. Mas verificou-se que o problema era candente, que dificuldades e demoras surgiam no processo. E assim convencemo-nos que precisávamos de nos apressar.

SP – Há portugueses que julgam que o Sr. se tenha apressado demais – como em tempos os belgas ao se retirarem do Congo.

MS – Estamos há 3 meses no governo, e entretanto fizemos contactos e progressos, mas não creio que tenhamos sido demasiado apressados. Pelo contrário. A situação em Angola, que nos últimos tempos se tornou explosiva, prova que talvez não tivéssemos andado suficientemente depressa.

SP – Sobre as condições de independência o Sr. negoceia exclusivamente com os movimentos de libertação africanos. Na sua opinião eles são os únicos legítimos representantes das populações nas colónias?

MS – Bem, se quisermos fazer a paz – e nós queremos sem demora a paz – temos que falar com os que nos combatem. Isto não implica uma avaliação política ou ética dos movimentos de libertação, mas resulta da apreciação pragmática de determinada situação. E quem nos combate na Guiné? O PAIGC. Assim temos de falar com o PAIGC. Quem nos combate em Moçambique? A Frelimo. Assim temos de falar com a Frelimo.

SP – E com quem pode o Sr. negociar em Angola onde existem vários movimentos rivais?

MS – Em Angola há dois movimentos de libertação reconhecidos pela OUA – o MPLA e a FNLA. Assim temos de negociar com ambos. Para avaliar qual dos dois é o mais representativo do povo é um problema que os Angolanos e as coligações que no futuro formarão governo terão de resolver mais tarde.

SP – Acredita que esses movimentos e em particular os ainda discutíveis têm suficiente autoridade de impor a solução que vai ser negociada.

MS – Esperamos que sim. Mas o processo de descolonização em Portugal, no formato, não deverá decorrer de modo muito deferente do da Inglaterra e França.

SP – Na Argélia havia um movimento de libertação muito forte, como no Kénia e sem dúvida também na Guiné-Bissau e Moçambique. Mas e em Angola?

MS – Sim, na verdade em Angola a situação é difícil devido às divisões dentro dos movimentos. E nós não podemos alterar aí quase nada. Estamos prontos a falar com cada uma das facções e, dentro das nossas possibilidades, procurar que se unam. Mas não temos muitas ilusões, as nossas possibilidades de intervir aqui são muito limitadas.

SP – Se o processo de descolonização português correr como o inglês ou o francês, na sua opinião qual será a tendência a seguir - como no Kénia que seguiu a via capitalista, ou como a Zâmbia que tenta uma espécie de socialismo africano?

MS – Eu julgo que é sempre perigosa a transposição de modelos estranhos. Mas, de momento, parece-me que a evolução em Moçambique será semelhante à da Zâmbia. Noutras regiões poderá haver outras soluções. Quando falei da semelhança do nosso processo de descolonização com o inglês ou o francês, pensei mais nas linhas gerais – que nós, como potência colonial, como os ingleses e os franceses, devíamos negociar com os movimentos fortes a operar nas colónias.

SP – E o que virá depois das negociações?

MS – Parece-nos importante que as populações sejam consultadas e que, depois do domínio português, não lhes seja imposto outro domínio que poderá não ter a maioria. Gostaríamos que a liberdade da população fosse garantida e assegurada. Mas temos nós, como antiga potência colonial, autoridade bastante para discutir isso? A nós parece-nos isso muito problemático. Por outro lado, o PAIGC e a Frelimo são movimentos de libertação que em anos de luta renhida pela independência ganharam indiscutível autoridade. Eles têm chefes muito qualificados e conscientes das responsabilidades. Com quem mais, a não ser com eles, deveremos negociar?

SP – Sente-se o novo governo português também responsável por aqueles milhares de africanos que, por motivos diversos, colaboraram com o anterior regime?

MS – Certamente que nos sentimos responsáveis por essa parte da população e sobre o seu destino já se falou por diversas vezes nas conversações. No caso concreto da Guiné, onde o processo está mais avançado, tencionamos, por exemplo, repatriar para Portugal os ex-combatentes africanos que o queiram por não se conseguirem integrar na nova República independente.

SP – Quantas pessoas são essas?

MS – Sabemos de cerca de 30 antigos comandos que aos olhos do PAIGC representam um certo perigo. Para estas pessoas temos de encontrar uma solução qualquer – talvez integrá-los nas forças armadas portuguesas ou coisa semelhante.

SP – Acredita que do lado dos movimentos de libertação exista a boa vontade de não exercer represálias contra os colaboradores africanos do antigo regime?

MS – Sim, isso foi-me espontaneamente assegurado, mesmo antes de nós termos levantado o problema. Também nos deram certas garantias, os movimentos de libertação não são racistas. Eles estão conscientes dos imensos problemas que terão de enfrentar e não querem comprometer já a sua vida política com crueldades e actos de vingança.

SP – No entanto, a “Voz da Frelimo” emissora do movimento para Moçambique tem, nas passadas semanas, por diversas vezes apelado aos soldados pretos para desertarem das tropas portuguesas, sob pena de ajuste de contas após a independência.

MS – Uma guerra, infelizmente não é um jogo de cavalheiros nem um concurso hípico com regras éticas fixas. Tais excessos verbais e ameaças são lamentáveis, mas também muito naturais. Na verdade, não sei se essas ameaças foram feitas, mas considero-as possíveis. Mas até agora tivemos na Guiné e em Moçambique – em Angola ainda não – uma impressionante onda de confraternização e tudo tem corrido muito melhor do que seria de esperar depois de 13 anos de guerra.

SP – Muitos brancos nas colónias portuguesas sentem-se traídos por Lisboa. Com razão?

MS – Se acreditou nos slogans do antigo regime – que Angola é nossa e sê-lo-á para sempre, e que não são colónias mas simplesmente províncias ultramarinas – então terá razão em sentir-se traído. Mas, na realidade, a traição é do regime de Salazar e Caetano que quiseram fazer esta gente acreditar que seria possível oferecer resistência ao mundo inteiro e à justiça.

SP – Qual será o futuro destes brancos desiludidos, se, apesar de tudo, quiserem permanecer em África?

MS – Se forem leais para com os novos Estados independentes na cooperação e respeitarem as suas leis, não têm nada a temer. Na Guiné, por exemplo, o próprio movimento de libertação exortou-nos a deixar os nossos técnicos, médicos, engenheiros e agrónomos, porque precisavam deles. É cómico: a extrema esquerda portuguesa exigia a nossa saída imediata, total e sem condições, mas os próprios movimentos de libertação não exigiram nada disso.

SP – O que será dos brancos que não querem ficar em África? Em Moçambique já se iniciou entre os brancos um grande movimento de fuga.

MS – É verdade. Mas estou certo que dois anos após a independência e quando as instituições do País funcionarem razoavelmente, haverá mais portugueses, em Moçambique, que hoje. Isto é, aliás, um fenómeno geral. O Presidente Kaunda da Zâmbia disse-me, quando estive em Lusaka: ” Saiba que temos aqui na Zâmbia o dobro dos ingleses que tínhamos antes da independência”.

SP – E o Sr. acredita que isso também acontecerá em Moçambique?

MS – Sim. Primeiro virão muitos para Portugal, porque têm medo, mas depois regressarão.

SP – E em Angola?

MS – Ali ainda não há muitos que abandonaram o País. Ali generaliza-se entre os brancos uma atitude perigosa. Precisamos de convencer os brancos, no seu próprio interesse, que fiquem, mas já não como patrões, como até agora.

SP – Apesar disso Portugal tem de contar com o regresso de muitos. Como irão resolver o caso?

MS – Isto é para nós um problema económico muito sério, pois não é apenas o regresso dos colonos brancos mas também os soldados – cerca de 150.000 a 200.000 homens que regressam duma assentada. Acrescem ainda os imigrantes que querem regressar desde que Portugal é livre. O assunto está a ser estudado pelo Ministério da Economia e Finanças. Temos de criar novos postos de trabalho, mas isso significa igualmente a reestruturação da totalidade da economia portuguesa, que vai precisar de se adaptar às sociedades industriais modernas.

SP – Não existem portanto planos concretos para absorver os retornados?

MS – Há investigações adiantadas.

SP – Entre os brancos que não querem regressar a Portugal, tenta-se criar um exército de mercenários para se opor aos movimentos de libertação. Em Angola, nos últimos tempos, radicais brancos de direita provocaram confrontos raciais sangrentos. Pode Lisboa impedir que tais brancos, especialmente em Angola, tomem o poder?

MS – Eu penso que sim.

SP – Como?

MS – O exército em Moçambique e em Angola é completamente leal para com os que fizeram a Revolução de 25 de Abril. E o exército não permitirá que mercenários brancos ou grupos semelhantes se levantem contra o exército. Tentativas haverá. Em Moçambique já as houve.

SP – E em Angola onde vivem mais do dobro dos brancos e um terço menos de pretos que em Moçambique?

MS – Em Angola haverá certamente uma série de situações mais ou menos desesperadas e tensões perigosas entre as raças. Apesar disso, julgo que por ora o exército pode e fará manter a ordem – a ordem democrática.

SP – Portanto, se necessário, o exército português fará fogo sobre portugueses brancos?

MS – Ele não hesitará e não pode hesitar. O exército já mostrou que tem mão forte e quer manter a ordem a todo o custo

SP – Apesar do exército, não se pode excluir a hipótese de os brancos se declararem independentes, como na Rodésia. Pelo menos Angola podia tentar mesmo economicamente uma tal solução.

MS – De princípio, nos primeiros momentos da Revolução tive muito receio que tal pudesse acontecer. Mas quanto mais o tempo passa, mais difícil se tornará uma tal tentativa.

SP – Suponhamos, no entanto, que tal venha a acontecer – reagiria Lisboa como Londres, na altura, tentando impor um bloqueio económico?

MS – Não creio que em Angola exista uma solução rodesiana, mas se tal acontecesse combatê-la-íamos com todas as nossas forças, pois uma tal solução seria para África e para o Mundo uma aventura inaceitável.

SP – Também se pensou isso no caso da Rodésia e, no entanto, não se pôde evitar.

MS – Para nós tal solução é improvável a não ser que tivéssemos um golpe de direita aqui em Portugal. Nós – este governo democrático – não permitirá que tal solução rodesiana aconteça em Angola ou Moçambique. Eu repito! Nós combatê-la-emos com todos os meios ao nosso dispor.

SP - Porquê?

MS – Porque isso poria em causa todo o nosso processo de descolonização, a nossa credibilidade, e a nossa boa vontade. E porque com uma tal solução até o regresso do fascismo poderia ser encaminhado em Portugal.

SP – Do ponto de vista económico a perda da Guiné e de Moçambique são um alívio para Portugal. Angola, no entanto, com os seus diamantes, petróleo, café trouxe para Portugal as tão necessárias divisas. Pode Portugal dar-se ao luxo de perder essa fonte de divisas?

MS – Todas estas receitas não compensavam os custos de guerra. Nós gastávamos cerca de 2 biliões de marcos por ano com a guerra. O que pouparmos com o fim da guerra compensa plenamente a perda dessas divisas, que de qualquer modo, acabavam na maior parte nos bolsos dos americanos, alemães e ingleses.

SP – Lisboa irá ajudar no futuro as suas antigas colónias? Concretamente: -Se Moçambique independente resolvesse impedir o trânsito de mercadorias da Rodésia para Lourenço Marques ou Beira para exercer pressão política sobre o regime branco de Salisbury, estaria Portugal disposto a compensar Moçambique pela perda de divisas que tal operação acarretaria?

MS – Os nossos meios são escassos, temos de ter em atenção a nossa muito tensa situação económica. Mas, dentro das nossas possibilidades, ajudaríamos, numa tal situação.

SP – No seu livro “Portugal e o Futuro”, o general Spínola propunha uma espécie de comunidade portuguesa como forma de cooperação futura entre Lisboa e África. Os movimentos de libertação não deram qualquer importância à ideia. Como serão as futuras relações entre Lisboa e África?

MS – O discurso pragmático proferido pelo general Spínola em 27 de Julho sobre o futuro das colónias está muito distante da concepção do seu livro. Se, algum dia, uma espécie de comunidade dos países lusófonos se verificar, só na condição de todos os países serem realmente independentes. E seriam então os países africanos a dizer até que ponto tal associação poderia ir.

SP – Sr. Ministro, muito obrigado pela entrevista.

in: “Der Spiegel” - Nº 34/1974

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III") - A ESCRAVATURA - UMA TRAGÉDIA UNIVERSAL

BATISTAS PEDEM PERDÃO PELA ESCRAVATURA


"Oferecemos nossas desculpas a Deus e a nossos irmãos e irmãs por toda a dor que causamos, originada no horror da escravatura". Leia em ALC NOTÍCIAS.
.............

AO GOVERNO DE PORTUGAL CABERIA SEGUIR O EXEMPLO. Toda forma de opressão e exploração humana deve ser abominada pelos verdadeiros cristãos! Nao chega encostarmo.nos ao humanismo cristao!

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III") - A ESCRAVATURA - UMA TRAGÉDIA UNIVERSAL


-----(TRANSCRIÇÕES PARCIAIS) DE : -----


===== A) - OBRAS DO AUTOR :


-- a) - "DO TEJO GRANDIOSO AO ZAIRE PODEROSO" - Poema Épico - 1º Volume - 2ª Edição -
--- CANTO SEXTO : "O DRAMA DA ESCRAVATURA" - ANOTAÇÕES (Referentes a muitas das suas estâncias,num total de 698) :

... 1 ) - "Muitos escravos foram retomados
... Que eram vendidos em boa quantidade,
... Sendo pra novas terras embarcados
... Que deles havia lá necessidade.
... Mas os poderes régios contrariados
... Logo os mandavam de volta à sua herdade,
... Sendo caso de má e desleal conduta,
... Não fosse obra feia, de filhos de puta!"

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== (1) - A África deve ter sido realmente o continente onde o homem surgiu pela primeira vez. Não é de admirar que tenha tido um papel preponderante na evolução humana, mesmo pré-histórica.
- A palavra escravo provém do facto dos eslavos (Europa Central) serem vendidos na Idade Média. A escravatura já existia há séculos na Europa e na Ásia, com várias categorias de escravos, em especial os domésticos e os de guerra,sobre os quais havia mesmo o direito de dispor de suas vidas.
-- ..."Foi ela sem dúvida um dos fardos mais pesados que oprimiu a África e constitui uma das mais tristes recordações da Europa -- e também dos países árabes -- sobre este continente...
... A escravatura parece ser quase tão velha como a humanidade, pois a encontramos em quase todos os povos antigos e sabe-se quanto ela pesou na sociedade do império romano, de refinada civilização" ... (em : "Angola, cinco séculos de Cristianismo", de D.Manuel Nunes Gabriel.

-- ... "A escravatura não foi trazida pelos europeus para a África, pois ela já existia mais ou menos em quase todos os africanos"...(da mesma obra).

== 2) - ..."Negociantes de TOMBOCTU e do mercado do deserto em Waden, traziam escravos e ouro em pó à feitoria de D.Henrique em Arguim, recebendo em troca trigo e panos brancos, albornozes, mercadorias europeias, enviadas pelo Infante num navio" ... "As caravelas de Portugal, seguindo o seu rumo ao longo da costa africana, já se não anunciavam pela violência, mas por ofertas de amizade e trocas justas com os indígenas dessas terras"... -(em "Descobrimentos Henriquinos", de E.Sanceau.)

-- "...O príncipe D.Henrique ordenou que as suas caravelas fossem armadas para a paz e para a guerra, ao país da Guiné, onde as gentes são extremamente negras"... (em "Crónicas", de Diogo Gomes).

-- O tráfico de escravos desencadeado pelos portugueses ao longo da costa africana não foi uma acção premeditada; foi surgindo à medida que faziam as conquistas ou até, ao princípio, por curiosidade, pela presença de povos desconhecidos e pela conveniência de justificativo dos lugares então alcançados. O principal objectivo do Infante seria talvez o de alcançar o reino cristão do misterioso Preste João para propagar a doutrina católica e combater o restante povo infiel.

-- "... Não consente o Senhor Infante que se faça dano a nenhum deles"...(em "Navegações", de Alvisse Cadamosto).

== 3 )-..."As expedições africanas faziam-se "por serviço de Deus e do Infante Nosso Senhor, e honra e proveito de nós mesmos."...(E.Sanceau-o.c.).

== 4 ) - D.Henrique não aprovava a simples captura de escravos, antes desejava manter boas relações (mesmo que fosse com objectivos comerciais), com tribos do interior. Assim, em 1445, segue para o Rio do Ouro o escudeiro João Fernandes e Antão Gonçalves, ficando este a viver no deserto com os berberes até encontrar-se com Ahude Meymom, magnate, possuidor de muito gado e ouro no Mali.
O Infante, só por si, talvez não penssasse em ..."reduzir à escravidão os povos descobertos"..."depois da descoberta de Arguim começaram a ser numerosos os escravos dali enviados para Lisboa. Formou-se uma companhia em Lagos para explorar o negócio dos escravos, que depois passou a ser reservado à coroa. Em meados do século XVI Lisboa contava com cerca de 10.000 escravos africanos"...(D.Manuel Nunes Gabriel, obra citada) -

-- Em 1486 foi fundada a Casa de Escravos.

== 5 ) "...O sultão do Egipto não deixa cristão nenhum passar para a Índia pelo mar Vermelho nem pelo rio Nilo para o Preste João, com receio de que os cristãos tratem com ele para que este rio lhes seja retirado"...

== 6 ) ..."se o preste João quizesse,faria desviar o rio para outro lado"...dizia La Broquiére.

... 7) - "A bons e novos portos iam chegando
... Cada dia mais além,por esses mares,
... O sonho em verdadeiro se tornando
... E bem mais quentes sendo os novos ares.
... Com tudo isso porém não lhes bastando
... Uns outros mais cuidavam dos bazares,
... No regresso levando negras gentes
... Por serem das suas algo diferentes;"

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== (7) - No século XVI os catalães visitavam as Canárias e faziam negócio de escravos para suprir a carência de mão-de-obra da Metrópole; uma das razões dessa falta no meio do século foi a peste que reduziu a população a menos de metade.
A "grande peste" (negra), propagou-se pela Europa entre 1348 e 1350; foi disseminada pelos genoveses fugitivos, chegados ao porto de Messina(1347), motivando uma enorme baixa na população, consequente falta de mão-de-obra e do aumento do seu custo. Provocou o abandono de aldeias, vilas e cidades, desagregando toda a economia, com efeitos durante muitos anos.

... 8) - "Logo vendo melhores e bons ganhos
... (Satisfazendo real necessidade),
... Começam de captar povos estranhos
... Que na defesa nem tinham vontade :
... - Uns,por curiosidade ou seus tamanhos,
... Mas outros destinados a uma herdade,
... Já sendo alto luxo entre a fidalguia
... Quem mais negros escravos possuia.
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== 8 ) - Nas cortes europeias começam a surgir servos negros nos mais diversos lugares domésticos, passando a ser um "luxo possuir em casa essas raridades"... Outros ocupavam lugares de guardas e soldados nos palácios reais.

... 9 ) - "E os lusos no negócio escuro estavam
... Desde que Tristão ao áureo rio seguira,
... Alcançando alguns tristes,nus andavam
... Com calor e secura que alguém vira.
... Ao continente berberes levavam,
... Testemunho do ponto que atingira,
... Mas chegando entre pasmo e orações
... Como estranhos seres ou aparições.
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== 9 ) - Em 1441, Antão Gonçalves e Nuno Tristão, na Costa do Ouro; uns outros que resistiram foram mortos. Em 1444, Lançarote de Lagos, leva 263 escravos que os vende logo à chegada !

... 10) - "Grande mal assim nem sempre cuidavam
... Por ser costume habitual muito antigo
... Que entre si mesmo todos operavam
... Sem haver nisso crime ou algum castigo.
... Nas guerras comuns logo ali os captavam
... E em servos punham tão fraco inimigo,
... Ficando alegre se à morte poupado,
... Não sendo pelos canhões atirado!
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== 10 )- ..."a fecunda e principal origem dos cativeiros nasce dos costumes bárbaros dos negros os quais eles abandonariam logo que conhecessem as verdades católicas e as máximas do Evangelho conformassem as suas acções"... "procedem-os cativeiros dos negros que outros nos vêm vender e que nós compramos para os transportar para o Brasil"...(de : D.Miguel António de Mello(governador-geral de Angola,1797/1802)-

--"...A escravatura florescia em África, havia milénios; os negros reduziam-se uns aos outros à escravatura, como ainda o fazem, ao passo que os árabes e os bérberes caçavam negros e vendiam-nos nos portos de Mediterrâneo... Os teólogos em geral estavam convencidos de que ela favorecia o maior bem dos seus irmãos pretos"...(em "D.Henrique,o Navegador", de E. Sanceau) -

-- Muitas vezes, em terra ou já durante as viagens havia motins, pelo que os escravbos eram postos a ferros ou espancados até à morte, o que acontecia por vezes nas fazendas onde eram amarrados ao "tronco" e chicoteados, na presença dos restantes e, outras vezes, em algumas guerras, atirados por pequenos canhões!

== 11) - Lançarote de Lagos e Gil Eanes,em navios com bandeira da Ordem de Cristo, fornecidos pelo Infante, faziam uma caçada entre o Cabo Branco e Arguim, capturando mais de 200 escravos, levando-os para Portugal, sendo desembarcados entre uma multidão embasbacada.

-- ..."E, animados do prazer benévolo,os seus amos enchiam-nos de mimos. Alguns deles é de recear que morressem com tantas bondades, empaturrados de comidas a que não estavam habituados. Começavam de lhes crescer os ventres -- diz-nos Zurara concisamente, e por tempo eram enfermos,... alguns deles eram assim compleicionados que o não podiam suportar e morriam... A maioria deles, porém,aclimatou-se e em breve se reanimou"...

-- ..."A escravidão nos países de língua portuguesa viu-se sempre na sua forma mais atenuada, e quanto aos primeiros africanos trazidos no tempo do Infante, a sua sorte era boa"...- (E.Sanceau - o.c.) -

== 12) - Nas costas de Cabo Verde, o chefe senegalês,Budomel, trocava cem escravos por sete cavalos arreados !

== 14 ) - Em certos pontos mais importantes o tráfico de escravos assumia um elevado movimento, constituíndo até o maior negócio, como em Jena, Timbuktu (Tombouctu), nas margens do rio Níger,havendo príncipes ou mesmo comerciantes que possuiam mais de uma centena de escravos; assim acontecia ainda na costa oriental(Zanzibar e outros pontos).

Estando autorizado o "negócio", eram os escravos trazidos do interior ou capturados pela costa e metidos em "gaiolas" ou a monte em armazéns, sem atender sequer à separação das famílias, chegando a matarem os filhos pequenos para negociarem as mães, sem que lhes fosse permitido protestarem, sob pena de "chicote" ou mesmo de morte,a não ser que fossem pagos em conjunto por um bom preço !

... 15 ) "A tanto era o negócio rendoso
... Que até os cativos outros permutavam
... Com objectos de aspecto duvidoso
... Ou pelo vinho com que embriagavam.
... Antes havia um controle cuidadoso
... E os menos sadios ao lado ficavam,
... Sendo às vezes trocados como saldo
... Por alguns que sobrassem do rescaldo."
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== (15) - Entretanto,nalguns países africanos, os escravos eram muitas vezes integrados nas famílias; noutros, como no Congo, eram tratados com certa tolerância, vendo-se até escravos a substituírem os chefes ausentes e Ngola Aire, filho de uma escrava, receber de Fernão de Sousa o trono do Dongo (Angola),em 1626. Também havia escravos que, por sua vez,possuíam escravos, e algumas tribos em que não havia qualquer tipo de escravatura.
Por vezes alguns senhores e, por certas razões. concediam-lhes carta de Alforria, indo em liberdade ou continuando ao seu serviço.

== 16 ) - Os congueses eram considerados bons escravos, sendo alegres e trabalhadores. Depois de seleccionados eram classificados, sendo os melhores designados "peças da Índia", chegando a valer o dobro ou o triplo dos outros mais fracos ou mais idosos; faziam-lhes um exame directo da cabeça aos pés (olhos, dentes, dedos, sexo, pés,etc); era negócio rendoso,feito à base de permuta,onde usavam as mais variadas artimanhas!
Depois de negociados eram marcados com ferro em brasa, no peito,pernas ou seios !
O Reino de Angola suplantaria o do Congo e mais tarde mesmo as feitorias da Costa do Ouro e Benin (Costa dos Escravos, tal o volume que atingiria a saída de escravos, principalmente para a América (Brasil e outros países), para substituir os índios, considerados fracos para o trabalho das plantações.

== 17 ) - Alguns reis possuíam nas suas cortes um elevado número de mulheres escolhidas, cuja missão era a de seduzirem jovens, por vezes de conivência com os próprios maridos, para depois serem acusados de adultério e por tal ficarem sujeitos ao regime de escravatura.



== 18 ) - O tráfico de escravos pelos árabes estava mais orientado para os serviços domésticos e para soldados e guardas (sendo castrados para não haver descendentes), tendo um ou outro, de preferência forte e saudável, seleccionado para "reprodutor".
As mulheres mais dotadas eram as escolhidas para o harém dos grandes senhores e algumas como criadas das jovens (mucamas).

== 19 ) - Antes do embarque nos navios negreiros, faziam novas escolhas, pelo que muitas vezes os pais e filhos, ou as mulheres e seus parceiros ficavam separados para sempre. Nesses momentos de desespero alguns se escapavam e deitavam-se ao mar e outros se estrangulavam mesmo. Antes da chegada ao destino os que estivessem doentes ou muito fracos eram lançados ao mar para evitar o pagamentode impostos, sem terem grandes hipóteses de os venderem.Os recuperados eram engordados à pressa,drogados e polidos para apresentarem melhor aspecto e resistirem aos exames físicos e empurrões dos compradores para verificarem se estavam em boa forma.
Das plantações do Brasil, Cuba e outros lados por vezes eram ainda revendidos para novos donos em mercados e feiras e novamente marcados com o malfadado ferro em brasa !

... 20 ) "Grilhetados a Lagos aportavam
... Por entre a gente aflita e boquiaberta,
... Sendo tamanhos os gritos e ais que usavam
... Quando os donos lançavam alta oferta !
... Fartos de dor e raiva se esmurravam
... Ou se deitam a terra quando ela aperta,
... Tal o receio p'los tratos que temiam
... Mas para alguns as penas cessariam."
...........................................

== 20 ) - Chegada de escravos a Lagos (Algarve)e sua venda no mercado.

... 21 ) "Mães e filhos iam cada uma por seu lado
... Em sendo diferentes os patrões,
... Sem cuidarem do laço mais sagrado
... Nem de humanas, vitais satisfações !
... Muitos do que ali estavam no mercado
... Não ocultavam suas emoções
... Chorando tanto como os infelizes
... E escondendo o pingar dos seus narizes.
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== 21 ) - "...Era uma maravilhosa cousa de ver...mas era também dilacerante. Alguns dos cativos choravam, uns gemiam, outros soltavam lamentos e havia os que davam punhadas no rosto e se atiravam ao chão"... (de : Zurara) -

... 22 ) "Num belo cavalo,o Infante os observava,
... Não mostrando o que estava ali sentindo,
... E escolhendo o quinto que lhe calhava
... O fez pra Sanra Igreja ir prosseguindo.
... Outro grupo melhor tratado estava
... Que em vez de chorar já ficava rindo,
... Sendo dum igual modo bem cuidados
... Sem ver as cores com que foram nados.
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== 22 ) - "...D.Henrique, montado num grande cavalo, observava a estranha cena; não sabemos se sentiu compungido. Segundo Zurara, estava... "considerando com grande prazer na salvação daquelas almas,que antes eram perdidas"..."Os amos não faziam diferença entre eles e os seus servos brancos livres -- se qualquer diferença havia, parece que era a favor dos africanos" ... (de E.Sanceau - o.c.) -

-- "...ao contrário do que sucede com os holandeses, o português entrou em contacto íntimo e frequente com a população de cor. Mais do que nenhum outro povo da Europa, cedia com docilidade ao pressígio comunicativo dos costumes, linguagem e das seitas dos indígenas e negros. Americanizava-se , conforme fosse preciso. Tornava-se negro, segundo a expressão consagrada da costa da África..." - (em "Raízes do Brasil", de Sérgio Buarque de Holanda ) --

... 23 ) - "Mas,muitos outros,os negros negociavam
... Mandando-os para as novas descobertas,
... Nisso grande proveito retiravam
... Maior sendo a procura que as ofertas.
... Com loucura a tal todos se entregavam
... De manhas e outras causas encobertas,
... Pondo em tudo o seu´pérfido disfarce
... Sendo mais forte que melhor roubasse !
..........................................

== 23 ) - "...Todos os povos marítimos da Europa ocidental e do norte se entregaram desenfreadamente ao tráfico : - portugueses, franceses, holandeses, ingleses e dinamarqueses. Não eram uns melhores do que os outros"... - "...Angola exportava anualmente, pelos portos de Loanda e de Benguela, cerca de 15.000 escravos...os ingleses e holandeses traficavam também ao norte do Ambriz e na foz do Zaire, e os franceses no Loango, Malembo e Cabinda..." - ( de : D.Manuel N.Gabriel - o.c.) -

== 24 ) - Muito embora as ordens régias não o permitissem era então o melhor negócio que havia, mesmo para o erário público pelos impostos e direitos que cobrava.

== 25 ) - Muitos eram provenientes de S.Tomé, onde residiam os condenados, aventureiros e judeus perseguidos pela Inquisição, alguns casados com jovens escravas, apoiados por um governador corrupto e ambicioso (Fernão de Melo); ou mesmo escravos ou seus descendentes auferindo da liberdade (por alforria) concedida pela Carta Régia de D.Manuel I, em 1515. Os de Cabo Verde, metidos em negócios e resgatess na Guiné, proibidos em 1517, enquanto o rei D.Carlos V autorizava Riscalde e Garrevod praticarem o mesmo ramo, proibido aos restantes.

-- ..."O comércio da escravatura,o principal, mais importante ramo da fazenda real neste reino, é geralmente feito por indivíduos mandados expiar aqui os crimes atrozes que na Europa cometeram...Mas este vil tráfico fomenta e entretém uma constante imoralidade nos índivíduos deste país...parece que tais monstros perderam na passagem do equador toda a lembrança e interesse pelo país onde nasceram..." --(de Cristóvão Avelino Dias - governador-geral de Angola(1823)."-

== 26 ) - Os próprios povos negróides do Saara, na busca dos rios e lagos onde se pudessem instalar, escravizaram ou expulsaram os outros povos menos fortes, como por exemplo o que se deu com os povos Khoisans -- (hotentotes e busquímanos(Kungs) -- corridos pelos probantos,como no Congo.
-- Até os sobas vendiam os seus "fidalgos" e os pais vendiam os filhos : -... o padre Cavazzi afirma que alguns, por um preço abjecto, como um colar falso, um pedaço de vidro ou algum vinho da Europa -- vendem os pais, os filhos, os irmãos, as irmãs, afirmando aos compradores, com mil pragas, que são escravos e condenados muitas vezes à morte"...

== 28 ) - Vários delitos podiam levar à escravidão : - adultério com mulher legítima, morte numa luta, prisão em guerras (Kuata,Kuata),etc. Alguns sobas vendiam os seus vassalos quando não possuíam outros escravos para troca com mercadorias ou faziam as tais guerras contra vizinhos apenas com o propósito de adquirirem "escravos de guerra".

== 29 ) - Alguns chefes mantinham famílias de escravos que descendiam de outros há várias gerações, alguns sem terem realmente conhecimento da sua efectiva condição de escravos. Como a lei proibia a separação dos escravos casados, os senhores faziam tudo para evitar os casamentos ou simplesmente nem cumpriam a lei.

== 30 ) - Os espanhóis possuíam um vasto domínio na América,tendo dizimado as populações nativas(índias e astecas),ou escravizando outras nas plantações; porém, estas não se adaptavam aos trabalhos, fugindo ou morrendo (ou sendo mortas); assim, voltavam-se para os escravos africanos, adaptados a climas semelhantes e mais resistentes.

== 32/33 ) - Tráfico que só podia ser efectuado por intermédio dos portugueses que ali possuíam um monopólio consagrado pelo Papa Nicolau V, no ano de 1454 e confirmado expressamente depois pelo Tratado de Tordesilhas(1494), por Alexandre VI (e antes,1479, pela Paz de Alcáçovas).

== 34 ) - "...Na América Central e nas Caraíbas os colonos não descansaram enquanto não arrancaram ao rei de Espanha um decreto que permitia reduzir os índios à escravidão"... - (D.Manuel N.Gabriel - o.c.) -

== 35 ) - "... Las Casas(Bartolomeu)-- 1474/1566), nasceu em Sevilha e foi o grande defensor dos índios contra os conquistadores, tendo ficado conhecido por "Apóstolo das Índias". Escreveu a História Geral das Índias.
Porém, os espanhóis, concluindo que os índios não satisfaziam nos trabalhos. conseguiram autorização para os substituir pelos escravos africanos, apenas com a exigência papal de que deveriam ser baptizados. Além de solução prática o escravo africano funcionava como "moeda "internacional", com "visto" de reis e papas !

== 36 ) "Já Colombo trouxera uma remessa
... Que nas ocidentais Índias teria,
... Talvez fiado nalguma vã promessa
... Que afinal da Católica não havia,
... Tendo de os soltar todos mais à pressa
... Que nunca viram tão grande alegria !
... Cada qual tomou novo amo ou outro rumo
... Mas com comida certa e bom aprumo."

.......................................

== (36) - Cristóvão Colombo(1451/1506), sob a bandeira ..dos reis de Espanha e na busca doutro caminho marítimo para as Índias,recusado por D.João II,chegara às Américas em 1492, desconhecendo que alcançara o continente americano, onde tinham chegado muitos anos antes (talvez mesmo cinco séculos)os vikings, EriK, o Vermelho. e seu filho Leif, o Afortunado;( à Gronelândia, em 982/85).

..."Quando Colombo regressou da sua 1ª viagem à América, trouxe um carregamento de índios para vender em Espanha. A rainha, Dona Isabel, a Católica, teve escrúpulos em permitir a sua venda e mandou pô-los em liberdade" . --(D.Manuel N.Gabriel - o.c.) --

== 37/39 ) - Só os espanhóis estavam autorizados a negociarem, mas não possuindo os necessários conhecimentos, nem feitorias próprias,
para o abastecimento da mão-de-obra. logo socorriam-se dos portugueses que, aproveitando a situação, os ludibriavam.

-- "... Não se esqueça também que a ocupação europeia da maior parte da África quase até aos nossos dias e a de Angola pelos portugueses tiveram também muitos aspectos positivos..." -- (Sérgio B.Holanda - o.c.) --

-- Em 1570 D.Sebastião fixara várias normas de conduta sobre essa ocupação e proibindo ainda o comércio de escravos.

== 46/7 ) - Concessão da donatária de Angola a Paulo Dias de Novais, em 19 de Setembro de 1571.
Inquérito efectuado por Abreu de Brito.

49 ) "Em celas apertadas,muito escuras,
... Mas que de barcos assim se tratavam,
... Morriam cheios de fome e de securas
... Ou das muitas pancadas que apanhavam.
... Para mais tristes sortes,desventuras,
... Eram vendidos por ouros que odiavam,
... Caíndo p'la terra quente,afastados
... Das suas mulheres,fracas,noutros lados.
........................................

== (49) - Só os homens é que normalmente interessavam aos negreiros por resistirem melhor às durezas das viagens,e,mesmo para esses,eram muitos os sacrifícios e tormentos que passavam. Além de serem muito demoradas, as cargas que cada navio levava, sem nenhumas condições, tornavam bastante piores essas viagens.

53 ) - "E mais defronte,os lusos insistentes
... Com medidos esforços e canseiras,
... Obtinham resultados sorridentes
... Em causas de outras válidas maneiras.
... Com eles iam sabidos e alguns crentes
... Que noutros lados,com razões ou asneiras,
... Tinham obtido paz e condições
... Em lucros de melhores divisões.
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== (53) - "...Neste caso o Brasil não foi teatro de nenhuma novidade. A mistura com gente de cor tinha começado amplamente na própria Metrópole. Já antes de 1500, graças aos trabalhos dos pretos trazidos das possessões ultramarinas, fora possível, no reino, estender a porção de solo cultivado, desbravar matas, dessangrar pântanos e transformar charnecas em lavouras,com o que se abriu passo à fundação de povoados novos"... - (Sérgio B. Holanda - o.c.)-

== 54 ) - Também os jesuítas ali possuiam os seus escravos,embora contrariando a orientação papal; mantinham diversos nas suas propriedades para o cultivo das terras.

58 ) - "Iam em lotes dobrados,por cuidado
... Prevendo as mortes talvez habituais,
... O que em cada nau tinha-se elevado
... Forçando a carregar braços a mais.
... De tal forma era o número aumentado
... Que, com fomes e apertos sem iguais,
... Ao mar encapelado se lançavam
... E da bruta força humana escapavam!

59 ) - "Homens,mulheres,eram amarrados,
... Corpos rapados,nus,ali estendidos
... Uns contra os outros postos,alternados,
... Pra aproveitar espaços já vendidos.
... Os naturais alívios ali obrados
.... Entre os líquidos,gazes expelidos,
.... Mais parecendo fétida estrumeira
.... Duravam assim a viagem inteira !"
........................................

== (59) - Com os corpos quase nus e rapados, eram deitados uns contra os outros de maneira a ocuparem menos espaços, todos comprimidos e sujos pelos próprios dejectos!

== 60 ) - Às vezes, durante o dia,os escravos eram postos na ponte, a arejar ou a trabalhar; outras vezes obrigavam a fazer danças,sob chicotadas. Nos motins os cabecilhas eram executados ou lançados ao mar; outros chicoteados até ficarem em sangue e servindo de espectáculo,ou retalhados e servidos como refeição !...

== 61 ) - Outras vezes eram picados ou retalhados e tratados com misturas picantes e pólvora. Os condenados à morte recebiam a notícia com alegria por se libertarem daquele inferno..."Em seguida com a satisfação pintada na cara, olhando com desdem o carrasco e recusando que pusesse mão neles, lançavam-se ao mar,onde encontravam pronto remédio para os seus males"... - (em : "A causa dos escravos negros" - de FROSSARD) --

== 63 ) - Proibição aos portugueses de irem a CARTAGENA, dada por Filipe IV.

64 ) - "Depois um novo acordo combinaram
... Que permitia maior venda de gentes;
... Em porões carregados as embarcavam
... Para certos "assientistas" exigentes.
... Uns outros ali rápidos chegavam
... Da fortuna fácil muito crentes,
... Ficando os castelhanos co fracasso
... Porque primeiro alguém passara o laço.
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== (64) - Junta de Escravos (1614) -- Carlos V concede aos flamengos um "assiento", em 1518, sobre a "tonelagem de escravos" permitida nos seus navios, depois transmitida aos genoveses,portugueses e ingleses. Os barcos tinham dispositivos adequados ao transporte de escravos para aproveitar o máximo de espaço e evitar as suas fugas para o mar. Em terra havia uma complicada organização à roda das feitorias, com barracões onde os escravos, amontoados,aguardavam a chegada dos navios. Um sistema de taxas e impostos enchia os bolsos de muitos exploradores de vários países. Os que não tinham feitorias praticavam acções de pirataria, com assaltos aos outros negreiros. Assim era em Arguim, Goreia(na ilha de Goree), Fernando Pó, S.Tomé, bem como mesmo em Luanda. Enquanto os franceses quase não possuiam instalações, os holandeses e ingleses eram os mais apetrechados nesse tráfico, servindo-se de todos meios para aliciarem os menos precavidos, tais como : - mulheres, bebidas alcoólicas e armas; quando já estavam entorpecidos eram amarrados e embarcados à força! Além dos portos indicados havia também grande movimento por quase toda a costa africana (Senegal),Serra Leoa, Costa do Marfim, Costa do Ouro, Ajudá, Benin,etc.) -

== 67 ) - Governador-geral Correia de Sousa enviara alguns povos (macotas e lengas) para o Brasil,tomando ainda severas atitudes contra os reinos do Congo e Benguela para os eliminar.

== 69 ) - D.Fernando de Toledo conseguiu um "assiento" para quinze mil licenças de venda de escravos.

Em Inglaterra formara-se a primeira Companhia para o negócio da escravatura, concedido ao famigerado John Hawkins e na qual a própria rainha D. Isabel teria(?) interesses, funcionando em regime de monopólio durante muitos anos!
Em Lagos também funcionava uma outra designada "Companhia" dedicada ao mesmo ramo, pois ali há muito existia o respectivo mercado.

== 70 ) - Os holandeses tiveram uma certa autonomia marítima a partir do século XVI, sendo superados depois pelos franceses e ingleses já no século XVII. Utilizavam o tristemente e bem célebre "Triângulo de Nantes", sendo os outros dois vértices na Costa de África e na América,fazendo toda a espécie de roubos e de piratarias.

71 ) - "Até um rei negro e sua corte vendiam
... Depois de seduzidos em cilada,
... Que as palavras assim nada valiam
... Entre gentes de má fé demonstrada.
... Nova Companhia logo formariam
... Apoiados p'lo Cardeal nessa jornada;
... A Colbert noutra até mais ajudaria
... Com certo monopólio que fazia.
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== (71) - Em 1602 é fundada a Companhia Holandesa das Índias Orientais, estendendo-se a sua acção aos países situados além do Cabo da Boa Esperança. Seria extinta em 1798 - (200 anos de exploração).

Em 1626 a Companhia Ruanesa obtinha autorização do cardeal Richelieu para o negócio da costa africana.

Colbert cria a famosa Companhia das Índias Ocidentais,em 1664, monopolizando durante muitos anos todo o tráfico a partir de Cabo Verde até ao Cabo da Boa Esperança e mar das Antilhas. Os portugueses e espanhóis, depois do descalabro da "Invencível Armada", enviada por Filipe II de Espanha, contra a Inglaterra (1588), ficam reduzidos a uma pequena fatia do grande bolo que apenas lhes pertencera!

== 72/3 ) - Os próprios negros,por vezes, conduziam alguns escravos aos mercados e feiras onde logo os vendiam ou trocavam por qualquer bugiganga, espingardas, pólvora, tecidos, etc. Os melhores iam para os ingleses e os mais fracos ou rejeitados para os portugueses que os pagavam com a "moeda" local (zimbo - um marisco de concha univalve, em forma de coração, pescado na Ilha de Luanda).

-..."Eram ainda os portugueses e espanhóis os que manifestavam mmais humanidade no seu trato"... (D.Manuel N.Gabriel - o.c.) -

== 74 ) - João do Campo e Paulo Martel eram comerciantes no Rio da Prata (Buenos Aires).

75 ) - " E sentado num Cabo pedregoso
... Estava o negro ancião se recordando,
... C'os olhos no horizonte,bem receoso :
... - Quantos filhos seus foram transportando
... Certos negreiros pra um fim duvidoso,
... Sob controle de pérfido comando,
... Sem esperanças de os voltar a ver
... Em seu mais triste e trágico viver ?!..."
.......................................

== 75 ) - Imagem simbólica de quantos escravos foram obrigados a deixar a sua terra e suas famílias para um destino desconhecido,fatal tantas vezes !...

- Quantas "crias" - (filhas de escravos) - enriqueceram os "hárens" dos grandes senhores !?

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-- INTERNET - a consultar :
http://www.releituras.com/gilbertofreyre_bio.asp

-- http://plano-da-obra.blogspot.com/2006/05/2-roteiro-da-viagem.html

--- http://prossiga.bvgf.fgf.org.br/portugues/index.html

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--- b) - De : "ANGOLA - DATAS E FACTOS" - lº Volume -1482/1652 - 2ª edição :

== 1624 - OUTUBRO - 1/3 - Bando criando as Feiras para o negócio de escravos em : DONGO (BUMBA ARQUIZAMBO), SAMBA ANGOMBE,CACULO CABAÇA E AMBUÍLA --

== 1626 - DEZEMBRO - Foram abertos os seguintes locais para Feiras : - GUIZAMBAMBE --CACULO -- SANGA -- QUIPAPA (QUIAPAPA), NADLA KISUA (MBONDO) --

== 1628 - A Coroa efectuara um contrato com ANDRÉ RODRIGUES ESTREMOZ para o monopólio comercial (com tráfico de escravos) em ANGOLA e CONGO, durante 8 anos.

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--- c) - de "ANGOLA - DATAS E FACTOS" - 2º Volume (1652/1837) - :

== 1660 - "DEZEMBRO - A exportação de escravos que alcançara elevados valores, entra em diminuição, excepto para o BRASIL e CUBA, destinados às suas culturas de cana-de-açúcar e café.

IN ANGOLABRASIL
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