sábado, 13 de dezembro de 2008


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René Pélissier
Análise Social, vol. XLII (185), 2007, 1105-1123

Soldados, gorilas, diplomatas e outros literatos

Em relação aos segundos, temos de admitir com tristeza que escrevem pouco e que os seus escritos não recebem a atenção que merecem. Mesmo no Instituto Nacional das Línguas e Civilizações Orientais de Paris (as ex- -Langues O), lamento dizê-lo, as suas obras são negligenciadas e, à excepção talvez no Maiombe de Cabinda, não estou certo de que exista no mundo uma única biblioteca que, sistematicamente, coleccione os seus trabalhos. Em contrapartida, os seus primos mais espertos, os diplomatas na reforma, estes são cada vez mais prolixos à medida que a idade avança e se recordam de todos aqueles anos em que tiveram de sorrir, em vez de dizerem o que pensavam. Iremos ao seu encontro mais tarde. Comecemos por outro ramo ainda mais frutífero da nossa árvore genealógica comum: os soldados de cabelos brancos.

Abramos as hostilidades com uma salva em honra do coronel António Lopes Pires Nunes, cujo magnum opus 1 se impõe pelo seu volume (cerca de 1400 páginas), mas que continua e continuará, infelizmente, pouco conhe- cido, como consequência de uma política editorial que o impede de chegar às mãos de um número significativo de leitores, a começar pelas centenas de milhares de portugueses que cumpriram o serviço militar em Angola. Trata-se exclusivamente da história oficial, mas não temos nada mais deta- lhado sobre a guerra colonial na África lusófona. O primeiro volume com- preende o período até ao final de 1964; o segundo vai até 1974. É necessário que sejamos claros: esta imensa compilação e exploração de documentos — aparentemente, nem todos utilizados — foi elaborada para honra e glória das forças terrestres portuguesas, o que é normal, uma vez que a obra foi produzida por um estado-maior nacional. Assim, na descrição das operações e na análise dos seus resultados pouco encontramos que possa pôr em dúvida as suas capacidades, a fundamentação dos seus métodos, as vitórias sobre este ou aquele ponto, e tudo o mais que um observador externo poderia contestar ou reprovar ao Alto Comando. Nem tudo são rosas no Page 2 1106 René Pélissier quadro pintado pelo autor, mas, no plano estritamente militar, a tendência geral é optimista. A derrocada do MPLA a oriente, a quase impotência da resistência a noroeste (onde se inclui Cabinda), a fraqueza ou a inactividade relativa da FNLA e da UNITA no início de 1974, confirmam, por outro lado, inegavelmente as conclusões do autor. É uma linha de defesa profissional que não se provou na Guiné, mas que para Angola permaneceu pertinente até às vésperas do 25 de Abril de 1974.

Não é este o local indicado para insistir no que não podemos encontrar nestes volumes: a começar pelo moral dos oficiais e pelas zonas de sombra que já foram iluminadas noutros livros não oficiais. Enquanto historiador, que conhece alguma coisa sobre a reconquista do Noroeste em 1961 (René Pélissier, La colonie du Minotaure, Editions Pélissier, Orgeval, 1979, 717 páginas, nomeadamente pp. 301-653), gostaria simplesmente de sublinhar veementemente cinco aspectos: (a) a vastidão do trabalho investido na ex- ploração de uma massa documental que cremos seleccionada, mas que é ainda assim esmagadora; (b) o desaparecimento quase total do maniqueísmo e da propaganda diabolizante, sempre inevitáveis num conflito que durou treze anos; (c) a imensidão das informações, que não encontramos em mais nenhum sítio e que nos permitem seguir a evolução das operações após o Outono de 1961; (d) a qualidade dos serviços de informações da PIDE/DGS, de organismos conexos e das forças terrestres, que se inteiraram ou «com- praram» uma parte dos segredos políticos e militares dos três movimentos nacionalistas; (e) a riqueza das estatísticas relativas à acção psicológica, às «inovações» (a reintrodução da cavalaria montada, etc.), às tropas auxiliares ou irregulares, ao material, etc. A bibliografia é relativamente abundante mas limitada ao que encontramos nas bibliotecas militares portuguesas (e nem em todas). A produção estrangeira sobre este assunto é, como de costume, pouco utilizada. Em resumo, do ponto de vista historiográfico, estes dois volumes são indispensáveis e encontram-se a léguas do que ficamos a saber (ou melhor, do que ficamos a ignorar) através dos lacónicos comunicados da imprensa portuguesa ou pela propaganda dos intervenientes nesta guerra. Mas, uma geração depois de 1974, podemos colocar uma questão que também se aplica a todos os exércitos coloniais recentes: onde se alojou o bicho que os impediu de concretizarem a sua aparente e relativa superioridade no plano técnico? No ramo da árvore ou nos seus frutos? Não encontraremos resposta para todas estas questões nos livros que imediatamente se seguem, mas é sempre interessante ir atrás das imagens oficiais. Comecemos por outro coronel, também ele reformado. O livro de Maximino Cardoso Chaves 2 , é constituído pelas suas memórias, enquanto tenente pára-quedista que combateu no Planalto maconde e não teria agradado a Kaúlza de Arriaga. Para o autor, a operação «Nó Górdio» foi um «fracasso» Page 3 1107 Soldados, gorilas, diplomatas e outros literatos (p. 150), no qual o esquadrão de cavalaria (Panhard) foi «dizimado» pelas minas e as bases da FRELIMO foram encontradas abandonadas. Ele não data as operações, mas descreve a vida na Beira, sede do seu batalhão, que operou a partir de Mueda, nos postos mais ameaçados (neste caso, Nangololo e Mocímboa do Rovuma). Não é habitual um oficial pára-quedista — mesmo humanista — admitir que os africanos explorados tinham boas razões para estarem ao lado da guerrilha. Estávamos longe de Gilberto Freyre! Outro oficial de carreira 3 , também pára-quedista, escolheu contar as pequenas histó- rias que viveu, algumas das quais à volta de Mueda, perto de Sagal (1970) e Nangololo, sem falar nas que tiveram por palco Zala e a serra do Uíge (tomada de um campo da UPA/FNLA em 1965), em Angola, ou a desordem em Timor. Sempre na mesma região «quente» do Norte moçambicano, mas não exclusivamente no terreno dos macondes, quem se interessar detalhadamente por esta quarentena de microguarnições portuguesas estacionadas frente à FRELIMO deve consultar o álbum 4 de Manuel Pedro Dias. Constituído essencialmente por fotografias realizadas pelas diferentes companhias que aí se sucederam durante dez anos, o conjunto é completado por um comentário patriótico e mesmo heróico. Os temas? A vida quotidiana e as patrulhas. Abandonados em 1974, estes postos militares foram parcialmente revisitados pelo autor em 2004, que pôde constatar a degradação das instalações (in- cluindo os próprios cemitérios). Um livro 5 mais complexo, pois reflecte os estados de alma de um antigo suboficial de telecomunicações destacado em Angola, num posto na picada entre Lucunga e Damba, no Uíge, de Dezembro de 1971 a Fevereiro de 1974, é-nos dado pelo autor, que ilustra as suas memórias introspectivas com extractos das cartas que escreveu à sua noiva. A particularidade do texto está no facto de Nogueira Baptista se encontrar numa companhia de artilharia composta, em parte, por cabo-verdianos. Anti-salazarista, acredita, no entanto, que os africanos eram portugueses e defende o império, apesar de saber que a guerra estava perdida, pois escutava, obviamente, as rádios estrangeiras. Tendo participado numa operação contra a UPA/FNLA na serra da Mucaba, mostra-se igualmente desdenhoso em relação aos colonos que querem a independência. Um assunto verdadeiramente angustiante é tratado num excelente livro do género «memórias de uma derrota anunciada». Este Diário da Guiné 6 é a via-sacra, a derrota lúcida e frouxa de um exército desmoralizado e ultrapas- sado. O autor, alferes de Junho de 1972 a 17 de Abril de 1974, redigiu a sua obra a partir do seu diário pessoal e dos aerogramas que enviou à família. Teixeira Pinto, Mansoa, Cufar (no Sudeste) foram as etapas desta derrocada, à qual assiste sem, no entanto, participar nas operações, pois pertencia à sacrossanta Administração Militar. Graça de Abreu observa a política contestada de Spínola e permanece duvidoso quanto às pretensões Page 4 1108 René Pélissier do PAIGC em dominar todo o território, mas cedo se apercebe de que, pelo menos entre os manjacos, décadas de exploração colonial não podem ser apagadas por tardias reformas materiais. Apesar da calma na zona de Teixeira Pinto, as emboscadas na estrada de Bissau intensificam-se. A partir de Feve- reiro de 1973, quando chega a «chao» balante, os guerrilheiros encontram-se a 4 ou 5 quilómetros. Os guerrilheiros e o exército português bombardeiam- -se à distância, mas acotovelam-se no cinema local. Em Março são abatidos os primeiros aviões por mísseis e as operações terrestres portuguesas dimi- nuem, pois os helicópteros já não descolam com frequência para evacuar os feridos. O PAIGC reforça o seu armamento e multiplica as suas picadas de vespa. Em Junho uma parte do batalhão do autor é transferida para Cufar (nas rias do Sul), reconquistado por Spínola. À medida que a data da desmobilização se aproxima, a indisciplina dos soldados aumenta. No final de 1973, Cufar e todas as guarnições em redor são bombardeados pelos 122, orgãos de Estaline do PAIGC. As tropas sabem que vão para a morte na ofensiva contra Cantanhez e as minas que os esperam. Os «sábios» de uniforme escrevem poemas que Camões não teria imaginado, mas todos mergulham no álcool para adormecerem os seus medos. O estado-maior e os serviços de saúde pública terão elaborado, posteriormente, estatísticas sobre a dependência alcoólica dos antigos combatentes portugueses? A água pura era rara na Guiné no início de 1974. Sabemos a que é que tudo isto conduziu o exército e o Estado Novo. Bastante menos dramáticos são dois livros de um ex-oficial subalterno, aviador de carreira, com cerca de quarenta anos de serviço e perto de setenta meses na África portuguesa, e que se encontra agora reformado e dedicado aos demónios da literatura de guerra. No primeiro romanceia pequenas his- tórias amorosas 7 de soldados durante a guerra colonial, tal como as ouviu contar ou inventar no avião que os repatriou (juntamente com os colonos) de Angola em 1974. A seguir, mais ambicioso, em Triângulo nublado 8 o autor compila as suas memórias anedóticas dos tempos em que serviu como militar. O interesse deste livro reside no facto de, nele, o autor observar — sem ilusões patrióticas — os costumes coloniais presentes na Guiné, como o racismo tácito em Bissau, antes da insurreição: Bissau, Farim, Nhacra, por volta de 1962-1963. A partir de Novembro de 1964, ele está na Beira, onde impera o bloqueio petrolífero ordenado pelos britânicos à Rodésia. Os por- tugueses receiam um ataque (de verdade?) aéreo da parte dos seus mais velhos aliados, mas, provavelmente, é quando chega ao terceiro vértice do seu triângulo (a base aérea de Henrique de Carvalho/Saurimo) que ele é mais original. Aqui o autor descreve minuciosamente a vila e a sua microssocie- dade branca de 1971 a 1974, abastecida por comboios de camiões, escol- tados por soldados desde o Luso/Luena. A localidade não se desenvolveu muito, apesar da guerra e do tráfico de diamantes. Esta obra é ainda útil porque nos dá uma panorâmica da organização aérea do Leste angolano, do qual Cazombo é uma antena relativamente importante. Page 5 1109 Soldados, gorilas, diplomatas e outros literatos Mencionemos brevemente, e visando futuros candidatos a um doutora- mento em História consagrado ao corpo de oficiais que combateram no império (na sua última fase), um repertório 9 que reúne as fichas autobiográ- ficas dos cerca de 200 alunos finalistas da Escola do Exército, do curso de 1956. Ao ler estas páginas, ficamos a saber como evoluíram as suas car- reiras, quer no ultramar, quer posteriormente. Algumas anedotas finais rela- tivas a África e a bibliografia das suas publicações mostram-nos que alguns cultivaram outros géneros literários, para além do militar ou político, como, por exemplo, a poesia. Dos antípodas dos oficiais que escolheram fazer carreira no exército (os Xicos) chega-nos um volumoso romance-documento 10 de um ex-alferes miliciano que, em Setembro de 1972, desembarcou com 120 metropolitanos em Mazoe, posto militar situado sobre a estrada estratégica e, por isso mesmo asfaltada, que ligava a Rodésia ao Malawi, via Tete. Aí eles encon- traram-se com os 120 soldados africanos que deviam juntar-se-lhes, uma vez que, como afirmava o Estado Novo, sendo Portugal multirracial, todos os jovens, negros e brancos, deviam defender a pátria. Não sabemos muito bem que pátria, mas é claro que o nosso alferes não morre de amores pelos mitos oficiais, quando confrontados com as realidades africanas. E com ele começa uma das mais implacáveis demolições literárias da guerra colonial em Moçambique. Não porque os combates aí sejam particularmente duros (os rodesianos não o permitiam), mas porque o desfasamento entre o que dizia a propaganda pós-salazarista e aquilo que vêem e vão viver os recém- -chegados é abissal. Não podemos resumir aqui as 450 páginas desta pseudoficção, na realidade, de memórias dialogadas do autor, que é hoje arquitecto e vive no Porto. Ele trata temas habituais na literatura dos antigos combatentes, hostis a um sistema que lhes malbaratou a juventude, acres- centando outros, mais insólitos, para Moçambique. Sem sermos exaustivos, podemos referir: (a) o mal-estar provocado por uma política desumana de concentração forçada das populações em aldeias criadas de raiz mas desadaptadas às suas necessidades e aos seus costumes; (b) as relações tensas com a PIDE/DGS; (c) o modus vivendi tácito estabelecido com a FRELIMO muito antes do 25 de Abril; (d) o respeito pela sabedoria dos velhos chefes costumeiros; (e) os diferendos entre os comandos e esta tropa que não queria combater mas simplesmente sobreviver; (f) o caminho mi- nado de uma coluna de abastecimento para Chioco, um dos postos mais isolados do distrito de Tete. Passemos agora a outros guerreiros, muito mais calmos, pois estes con- sideram, com razão ou sem ela, que foram os vencedores da sua guerra. Falo dos sul-africanos em Angola, começando por uma arma, a marinha, que desempenhou um papel necessariamente modesto em virtude da falta de adversários no mar. O estudo 11 do almirante na reforma Chris Bennett é, como o título indica, consagrado à história de três fragatas ao serviço entre Page 6 1110 René Pélissier 1954 e 1985, entre as quais a President Steyn, que foi encarregue de ir resgatar de improviso a Ambriz, em 28 de Novembro de 1975, 9 oficiais, 2 civis e 15 soldados sul-africanos que apoiavam as tropas da FNLA na sua tentativa de tomada do poder em Luanda. Sabemos o fiasco total em que redundou a aventura de Holden Roberto face aos cubanos e ao MPLA, mas o que mais nos surpreende é o secretismo que rodeou a intervenção terrestre (Operation Savannah) do exército sul-africano em Angola e que o levou a nem sequer advertir os marinheiros de que a operação estava em curso desde 24 de Setembro de 1975! Já havia mais de dois meses que os sul-africanos estavam envolvidos com Savimbi, antes de intervirem directamente sozi- nhos! É incrível, mas verdadeiro, como podemos ler no livro que se segue e que, pelo menos que eu conheça, é o mais detalhado, em inglês, sobre o primeiro período (de 1975 a 1980) da guerra entre angolanos e sul-africanos. Borderstrike! 12 revela-se, nesta 3.ª edição, um livro quase inteiramente novo, com pelo menos três vezes mais informação do que a versão original de 1983, hoje obsoleta. Trata-se da obra de um jornalista, especialista em questões militares, que conduz a sua narrativa como uma investigação, apoiado pelas publicações editadas nos últimos vinte e três anos. O tom é heróico-patriótico, mas, tendo recuperado a sua liberdade de apreciação, ele não esconde nem as insuficiências, nem os erros, nem os desaires do seu exército. O autor ignora as fontes em espanhol, extremamente difíceis de encontrar fora de Cuba, mas isso é compensado pelo volume de factos novos revelados, nomeadamente sobre o ataque de Cassinga em Março de 1978. Nem todas as suboperações são tratadas (nomeadamente a ofensiva Foxbat, em 1975, desde o Centro de Angola até ao oceano) e ele insiste, talvez demasiado exclusivamente, no duelo Cuba-África do Sul. O MPLA e a UNITA não são apresentados de forma muito favorável, tal como também não é elogiado o remanescente das forças portuguesas (em Moçâmedes) nem os contra-revolucionários portugueses (estacionados no Sul e apoiantes de Roberto). Quanto ao MFA em Angola, coitado! Na minha opinião, a estocada sobre o Queve foi demasiado minimizada. De facto, trata-se de uma macrorreportagem a posteriori, comparável às realizadas pela imprensa ame- ricana durante a guerra do Vietname, com os acontecimentos individualiza- dos por centenas de nomes dos participantes sul-africanos. Dito isto, este livro será do agrado dos amantes de relatos de guerra e daqueles que querem compreender como é que um exército muito eficaz, altamente profissionalizado, motivado e dispondo de importantes recursos materiais não conseguiu vencer claramente face a adversários igualmente motivados ideologicamente e apoiados por aliados generosos em material de guerra sofisticado, mas pouco cuidadosos com as perdas humanas. No fim de contas, foi o factor humano e, sobretudo, a opinião pública interna e internacional que fizeram a diferença. Esta visão do soldado sul-africano Page 7 1111 Soldados, gorilas, diplomatas e outros literatos vencedor é, evidentemente, a de Magnus Malan 13 , comandante do exército sul-africano durante o período (treze anos) que durou o envolvimento inter- mitente no Norte da fronteira namibiana e mais tarde nomeado chefe supre- mo dos três ramos (terra, mar e ar) e ministro da Defesa de Pretória. A sua obra é uma defesa veemente da luta anticomunista e, neste sentido, complementa bem o texto anterior, ao introduzir a dimensão política como orientadora das decisões operacionais, dos limites a não ultrapassar, da importância dos efectivos a mobilizar, etc. Por isso, Malan dedica mais de 100 páginas a Angola, na perspectiva do estado-maior e dos ministérios implicados. Morreram apenas 35 sul-africanos na Operation Savannah, o que é um bom indicador, por um lado, da intensidade relativa dos combates e, por outro, da competência dos militares sul-africanos.

A partir de Maio de 1978, os ataques contra a SWAPO, nomeadamente em Cassinga, ganharam uma feição mais cruel e, vinte e oito anos depois, o debate sobre o que verdadeiramente aí ocorreu continua em aberto. Parece ter sido preciso esperar por Junho de 1980 para que ocorresse um confronto decisivo com o exército do MPLA, tendo-se registado mais cinco entre 1981 e 1984. A captura e a destruição de material pesado soviético atingiram valores até então inigualáveis, mas os pesados combates só começaram verdadeiramente a partir de 1985, com o empenhamento massivo de cubanos e de tropas do Pacto de Varsóvia contra a UNITA. Sabemos que estes confrontos culminaram em verdadeiras batalhas de tanques (1987-1988), bem documentadas a partir daí, com cubanos e sul-africanos a reivindicarem simultaneamente a vitória e, segundo Malan, com o emprego de armas químicas pelos cubano-soviéticos. Ele não nos dá muitos pormenores novos em relação à bibliografia já publicada. Segundo um dos autores citados, as perdas entre o Cuíto- -Cuanavale e as proximidades de Mavinga foram de 94 tanques, 100 trans- portes blindados de tropas, 389 camiões, etc., para o MPLA e os seus aliados, que, segundo o autor, perderam igualmente 7000 a 10 000 (?) homens e cerca de mil milhões de dólares de material. As forças sul-africa- nas (3000 homens) apenas perderam 3 tanques, 11 transportes blindados, 3 aviões e 31 soldados. Estamos mais perto d’El Alamein (1942) do que de Guiledge ou de Mueda, mesmo que nada seja dito sobre os mortos nas fileiras da UNITA. Naturalmente, a controvérsia sobre a identidade do ven- cedor está longe de estar terminada. Podemos ainda interrogar-nos sobre o bombardeamento da barragem de Calueque e sobre as suas consequências.

Em resumo, para Malan, nestas memórias, não há qualquer dúvida. Mas eu, que li os livros publicados pela imprensa militar de Havana, pergunto-me se estão a falar da mesma coisa. Aguarda-se, pois, a abertura dos arquivos e o emergir de historiadores verdadeiramente neutrais (se é que estes estão disponíveis para estudar conflitos cujos participantes ainda estão, quase todos, vivos). Talvez um suíço? Page 8 1112 René Pélissier E agora demos um salto por cima dos meridianos e catapultemo-nos até uma outra guerra que mobilizou a opinião pública internacional tardia mas massivamente. Talvez de forma artificial, sem dúvida de forma emocional, a sorte dos timorenses levou o muito respeitado medievalista José Mattoso a passar, desde 2000, cinco ou mais anos nesta ilha insalubre para organizar os arquivos locais. Tratou-se de uma acção de apostolado puro e desinteres- sado. A dignidade 14 , que Mattoso dedica a Konis Santana, mártir da resis- tência anti-indonésia, é uma espécie de hagiografia comovida, mas crítica, em conformidade com os estudos iniciais do autor, que, se pudessem lê-la, surpreenderia os milhares de missi dominici que a ONU enviou para Timor Leste a fim de o tirar do «nada». Qualquer que seja a recepção deste livro nesses meios, pela minuciosidade dos pormenores e pelo inimaginável traba- lho de reconstituição histórica da luta da FRETILIN (e de tudo o que a rodeou), Mattoso revela-se o melhor de todos aqueles que escreveram sobre as convulsões militares posteriores a 1974. Nunca ninguém, em todos os comités de apoio e entre os seus émulos posteriores, pôde dispor de uma tal abundância de fontes de arquivo e orais. Konis Santana, que se transformou no líder de facto dos resistentes armados após a prisão de Xanana Gusmão (20 de Novembro de 1992), morreu de doença a 11 de Março de 1998. Contudo, e apesar de lhe manter a aura, o autor não esconde as fragilidades e as intrigas dos exilados e dos combatentes, da mesma forma que não esquece as traições no seu seio. Porém, para além da pequenez de alguns actores, o que ele revela é a vontade de os timorenses permanecerem eles mesmos, mesmo que não se entendam entre si. Um livro admirável, mas que não é angélico nem ingénuo relativamente a estes combatentes extremistas, defensores de uma causa que pensávamos perdida. Regressemos a Moçambique em guerra, mas remontando ao período de 1914 a 1918, graças a um livro de 527 páginas muito densas, entre as quais 25 só de bibliografia (mais de 600 entradas) e de fontes de arquivo. Em princípio, isto bastaria para o considerar imponente. Mas continuemos no âmbito das estatísticas e acrescentemos que, das cerca de 480 páginas dedicadas à narrativa propriamente dita das 52 meses de operações na África oriental, apenas 50 páginas são consagradas aos dez ou doze meses de ope- rações que tiveram como palco Moçambique e Nevala, incluindo ainda um estudo do contexto político português. Enfim, dito de outra forma, o leitor que pretenda encontrar uma relação e uma análise pormenorizadas dos acon- tecimentos que devastaram o Norte de Moçambique e humilharam o exército português da I República terá de esperar que alguém se decida um dia a publicar uma monografia específica que, em meu entender, utilizando todas as fontes disponíveis, não deverá ter menos de 350 páginas compactas, pois sobre este período há uma lacuna enorme na historiografia sobre Moçambique. Não sei se este autor hipotético partilhará todas as conclusões Page 9 1113 Soldados, gorilas, diplomatas e outros literatos de Edward Paice 15 sobre o papel e as actividades dos portugueses, mas, pelo menos, deverá agradecer-lhe ter indicado cerca de seis dezenas de livros e artigos relacionados, directa ou indirectamente, com Moçambique durante a Grande Guerra. Uma leitura atenta dos capítulos dedicados a este tema demonstra que Paice, infelizmente, não utiliza senão uma pequena parte das entradas da sua bibliografia, mas, pelo menos, os seus sucessores poderão facilmente «desaportuguesar» as suas fontes, explorando e alargando o que referenciou em alemão e inglês, uma vez que ele chama a atenção para um corpus já assinalável (que, no entanto, esquece, inexplicavelmente, Ross Anderson, The Forgotten Front, Stroud, Tempus Publishing, 2004). O autor fez mes- mo um esforço e consultou o Arquivo Histórico Militar e o arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Este livro tem múltiplas qualidades, a saber: (a) lê-se muito bem, o que, neste caso, não é uma qualidade menor, pois trata-se da descrição de dezenas e dezenas de batalhas; (b) dá-nos o pano de fundo político e diplomático deste interminável conflito «esquecido», que custou ao império britânico um terço das despesas feitas durante a guerra dos bóeres, ou seja, o equivalente à totalidade do orçamento militar do Reino Unido para o ano de 1913; (c) tem em consideração todos os intervenientes europeus (e, portanto, também os belgas e os portugueses), africanos e asiáticos, ao contrário de certos livros triunfalistas que se con- tentam em cultivar unicamente o duelo anglo-alemão; (d) não transforma os chefes militares em heróis, pelo contrário, assinala as suas insuficiências e incompetências e até mesmo a sua crueldade; (e) concede um «lugar de honra» às vítimas civis da África oriental e mesmo da África centro-austral (provavelmente, foram mortos entre 500 000 e um milhão de africanos nas picadas e nas povoações). Esta obra volumosa, que renuncia ao pitoresco fácil, deve ser, por isso, considerada uma base de partida para um estudo aprofundado desta página negra que cobre uma grande parte do Norte de Moçambique. E, depois desta exaltação de «vitórias» pelas armas, vejamos o que pensa um politólogo da terrível guerra civil angolana. A organização do livro 16 é complicada e, curiosamente, entre cerca de trezentas fontes utilizadas, cita unicamente três em português! Apesar de não ser o autor um veterano de guerra, a sua obra é uma das análises mais pertinentes das causas da vio- lência em Angola. O título diz tudo sobre o pensamento do autor: para ele, o MPLA e a UNITA revelaram-se incapazes de construir uma sociedade fundada sobre a igualdade dos cidadãos e não sobre a guerra. Assis Malaquias não poupa os ladrões, no poder, nem Savimbi, que acusa de fazer o culto da guerra e cuja paranóia (pp. 96-98) degenera, depois de 1992, numa «insurreição criminal» (dixit, p. 101). Em suma, apesar de não se centrar na história militar que atormentou a infeliz população angolana, o seu Page 10 1114 René Pélissier texto não tem aquela parcialidade que é uma das fraquezas das muitas páginas redigidas pelos serviços oficiais ou para-oficiais. E os gorilas no meio disto tudo? Vamos encontrá-los como consultores ou activos em algumas embaixadas e direi mesmo que muitos foram sufi- cientemente hábeis para se infiltrarem num livro em hebraico que é uma pérola rara na bibliografia angolana. Atrever-me-ia a brincar com um país que perdeu um milhão de habitantes, ou mais, em virtude da guerra civil e internacional? Não, evidentemente, e posso prová-lo. Um livro que, em ca- racteres latinos, se intitula Gorilot ye-diplomatyah: mifgeshe adam ye-teva be-Angolah 17 , o que, traduzido, dá em português Gorilas e diplomacia: encontros do homem com a natureza em Angola, não pode mentir e, na verdade, são gorilas o que o leitor encontrará pela pena de uma zoóloga/ ecologista israelita que se aventurou no Maiombe cabindês, apesar da guerra local. Este texto é a primeira obra em hebraico consagrada exclusivamente a Angola e, provavelmente, a primeira a ser publicada em Israel sobre este país. E não se trata de uma reportagem qualquer, de um qualquer jornalista ou humanitário, uma vez que Tamar Golan foi a primeira embaixatriz de Israel em Angola e, Tamar Ron foi até à Jamba, antiga «capital» de Savimbi, onde, refira-se, ergueu, num pedestal, uma locomotiva miniatura, em honra de seu pai, que foi o primeiro chefe de gare africano do caminho de ferro de Benguela. A centenas de quilómetros da linha e num mato que não está pronto a ser inteiramente desminado! Estamos na «futura» reserva de caça de Luiana, que o governador da província do Cuando-Cubango, um antigo general de Savimbi, pretende repovoar de elefantes e de girafas. Para isso é necessário «limpar» um corredor migratório para os trazer desde o Botswana. Até que a desminagem do Cuando-Cubango, realizada por uma empresa sul-africana, esteja total- mente concluída, receio que muitas gerações de elefantes morrerão. E, ge- ralmente, quando não são vítimas dos homens e dos seus malefícios, estes paquidermes vivem muitos anos. O capítulo dedicado às visitas de Tamar Ron às «Terras do Fim do Mundo» nada nos diz sobre os gorilas, uma vez que este não é o seu habitat, mas a descrição dos seus encontros com o governador-general (ou o inverso) é original. Não é comum um banto acor- rer em auxílio dos bosquímanos — mesmo que recentemente aliados, já que estes eram ex-mercenários dos sul-africanos — na qualidade de guarda de reservas naturais. Mais vale ler isto do que as estatísticas sobre o extermínio parcial de bosquímanos pelo MPLA, que os acusou de colaboração com a PIDE/DGS. Este capítulo não é o único verdadeiramente original neste livro, pois a antiga embaixatriz perdeu-se de amores pelos angolanos e expõe claramente (trata-se de uma antiga jornalista) alguns dos problemas destes, com preferên- cia especial pelos das mulheres, das crianças e dos refugiados. Relativamente Page 11 1115 Soldados, gorilas, diplomatas e outros literatos ao resto (como o petróleo ou os diamantes), confio nela, pois lembrar-me-ei sempre do que me disse, há mais de trinta anos, o mais célebre dos jornalistas africanistas franceses dessa época: «Quando chego a um país subsariano que conheço mal, se quero ter informações actualizadas, fiáveis e rápidas sobre o pessoal político local, não as procuro junto dos diplomatas franceses. Estes nada sabem. Consulto directamente os diplomatas israelitas, que são os mais bem informados. São os melhores.» E isto não deve ter mudado desde essa altura; pelo contrário, deve ter-se acentuado ainda mais. Sobretudo para os países ricos, como Angola, os diamantes assim obrigam! E, já que acabei de dizer bem dos diplomatas israelitas, quero dizer outro tanto dos seus colegas portugueses, que foram — e talvez continuem a ser — ainda mais fortes, pois no final do século XIX e no início do século XX a sua delegação de Londres foi dirigida, não por um gorila, mas por um outro primata superior, amigo íntimo do príncipe Eduardo (futuro rei Eduar- do VII), que o informou do acordo secreto anglo-alemão de 30 de Agosto de 1898 sobre a «futura» repartição do império português entre as duas potências. Oficialmente, como no Anuário Diplomático, ele era designado por conde de Soveral, mas em todas as chancelarias era conhecido pelo epíteto de «macaco azul», o que acabo de saber pela leitura da bela tese 18 de Gisela Guevara, publicada muito judiciosamente pelo Instituto Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Por isso, não subestimemos nunca a sagacidade e a competência dos diplomatas portugueses, muito menos a influência oculta dos antropóides na história das relações internacionais. Mais seriamente, este trabalho universitário revela alguns aspectos inova- dores, já que penso que é o primeiro, em português, que se baseia nos arquivos alemães e numa forte bibliografia alemã compilada no terreno. Além disso, a autora interessa-se, naturalmente, pelo destino de Lourenço Mar- ques, objecto de múltiplos estudos anteriores, mas dedica-se também à baía dos Tigres e ao projecto do caminho de ferro que os alemães aí pretendiam realizar na direcção do Sudeste. Gisela Guevara destrói ainda a opinião ge- neralizada sobre a incapacidade de a monarquia defender diplomaticamente o império e revela-nos o lado secreto da «aliança luso-belga» contra a Ale- manha, bem como, aspectos pouco conhecidos, em português, sobre a Companhia do Niassa e sobre o financiamento da dívida portuguesa. Tendo escolhido um período curto (ca. 1891 a 1903 e, sobretudo, os anos de 1898 a 1902) e um assunto limitado (exclusivamente a luta diplomática), o seu trabalho deixa naturalmente de lado o papel dos africanos. Por exemplo, o nome de Gungunhana é mal ortografado (p. 156) e, se Chaimite é referido, é-o com uma data errada. O capitalista Esser também não é um verdadeiro explorador: ele «inventou» a sua viagem até ao médio Cunene. Tudo isto é de somenos face à enorme utilidade deste livro que o Instituto Diplomático teve a excelente ideia de publicar. Page 12 1116 René Pélissier Mas ainda não terminaram as boas surpresas que o Ministério dos Ne- gócios Estrangeiros nos oferece, pois acabo de descobrir, já muito tardia- mente, e não devo ser o único, duas outras publicações que, literalmente, me entusiasmaram. Como e por que é que um texto tão rico, percuciente e original como Ensaios sobre nacionalismos em Timor-Leste 19 é tão dolosamente ignorado pela maior parte das grandes livrarias de Lisboa e do Porto, ultrapassa o meu entendimento. Talvez devido a imperativos burocrá- ticos ou financeiros, mas isso não me diz respeito. O que me importa é que os milhares de portugueses que se inflamaram pela causa timorense e que são capazes de ler outros textos, para além dos jornalísticos ou sentimentais, saibam que encontrarão na escrita de Armando Marques Guedes e Nuno Canas Mendes (entre outros autores das contribuições reunidas nesta reco- lha) as análises mais profundas, mais pormenorizadas e mais realistas que alguma vez li em português (e mesmo em inglês) sobre a génese, o presente e… o futuro do ou dos nacionalismos timorenses. Não vou entrar nos seus labirintos onde o inocente leitor se arrisca a ver as suas convicções abaladas se ainda acredita na simplicidade «adâmica» da vida política e da luta pela independência, como uma certa geração de de- fensores estrangeiros da causa nos quer fazer crer. Com estes dois autores ultrapassamos, finalmente, o mero reflexo das coisas e a propaganda de ontem torna-se ridícula. Mas o que mais me surpreende são as bibliografias estrangeiras citadas. Em que bibliotecas portuguesas é que eles se encon- tram? No Palácio das Necessidades, numa misteriosa central de que não há registo na PORBASE? Que o leitor compare com aquilo que se encontra disponível no mercado português e me informe para que eu possa medir a extensão das minhas lacunas. Um livro tão indispensável como o primeiro desta crónica não deve ficar reservado a uns poucos «eleitos». Espero que a distribuição em Timor Leste ultrapasse o mínimo dos 300 exemplares, se não, de que vale publicar um livro tão importante como este em Portugal? Digo o mesmo de um outro título sobre Timor 20 que, na sua infinita sabedoria, os diplomatas portugueses acolheram no seu seio, ainda que se trate de um tema técnico que me ultrapassa, bem como, talvez, à maioria dos agentes do Ministério. Num livro patético mas humorístico de uma jornalista australiana que contava, desiludida com o seu romance, a sua vida amorosa com o chefe da missão da GNR portuguesa em Díli recolhi, indirectamente, uma opinião positiva relativamente à polícia portuguesa em missão. Mas não poderia adivinhar, como é evidente, que, dois anos depois, iria ler um estudo sobre a criação, por oficiais da PSP, de uma polícia timorense sob a égide da ONU. Contrariamente aos diplomatas de todos os países, os polícias, pelas funções que lhes são próprias, estão em contacto directo com o povo, que têm por obrigação proteger, encaminhando ou reprimindo os comporta- Page 13 1117 Soldados, gorilas, diplomatas e outros literatos mentos desviantes. Assim, no livro de Luís Elias encontramos elementos que nunca aparecem nos despachos diplomáticos sobre a vida social, a justiça, os costumes locais — nem sempre edénicos —, a criminalidade e uma série de outras questões que influenciam a prática e a ética de uma polícia que a ONU desejava modelar e que o autor do texto se esforça, em 2002-2003, por colocar no bom caminho. Os acontecimentos posteriores talvez não tenham respondido a todas as suas esperanças, mas, pelo menos, ele explica-nos o que será preciso fazer para aí chegar. Perto de 1500 páginas profundas e mesmo fundamentais justificam que nos debrucemos agora sobre a produção, mais ligeira, de antigos — embora os diplomatas, tal como os militares de carreira e os eclesiásticos, fiquem para sempre marcados pela sua matriz profissional — representantes de Portugal nos PALOP «órfãos». Em tempos de inocência 21 destina-se a todos aqueles que gostam de ler revelações sobre a alta política, neste caso conduzida pelo autor, que foi o primeiro embaixador de Lisboa em Bissau (de Junho de 1977 a Fevereiro de 1980), durante a presidência de Luís Cabral. António Pinto da França escolheu comunicar, sob a forma de anedotas cáusticas, as suas opiniões sobre o pessoal político local, a arraia miúda e, sobretudo, os diplomatas estrangeiros com quem, pelas suas responsabilida- des e pelas suas preocupações, foi obrigado a conviver. Aliás, o mesmo já tinha feito num livro anterior para a sua missão posterior em Luanda. Se bem entendi — embora não esteja certo disso —, uma excelência da sua quali- dade e importância só tem três inimigos ou adversários principais nas antigas colónias africanas: os mosquitos, os cooperantes portugueses marxistas e os diplomatas franceses. No fim de contas, são todos mosquitos, só que de raças diferentes, sendo os últimos apenas um pouco maiores do que os primeiros. Por conseguinte, altivo, examina-os com toda a indulgência condescendente de um entomologista distinto, sobrinho-bisneto de Teixeira Pinto — uma referência na Guiné. Mas, magnânimo, enterrou o machado de guerra e, estando 1913-1915 já muito longe, defende a memória de Amílcar Cabral e é amigo sincero do seu meio-irmão, o presidente Luís Cabral. A abertura de espírito e a benevolência dos funcionários sempre me fasci- naram. Relativamente aos mosquitos e aos marxistas, «intolerantes e incultos», na sua opinião, se não estão satisfeitos, são suficientemente grandes para se defenderem sozinhos. O mesmo se diga da viúva de Agostinho Neto, que declarou (p. 126) «vestir… só do Dior» e de quem ele parece não gostar. Em relação aos diplomatas franceses, fiquei um pouco surpreendido com a aten- ção que lhes dedica, pois consta-me que aqueles que o Quai d’Orsay enviava nesta altura para as colónias portuguesas e, mais tarde, para os PALOP não pareciam particularmente importantes ou ofensivos ao seu ministro. Mas a opinião abalizada de um antigo embaixador junto da Santa Sé e da Ordem Page 14 1118 René Pélissier Soberana e Militar de Malta (1996-2000), não sendo de considerar leviana, foi mais convincente para o historiador que há em mim e, após as informa- ções que consegui obter, é verdade, três embaixadores franceses (um em Dacar e dois em Luanda), desprezados ou postos a ridículo pelo autor, mereciam, efectivamente, ser vítimas da implacável demolição empreendida por este novo duque de Saint-Simon. Resta o caso do quarto representante francês que tinha a dupla deficiência de já ser velho e apenas barão, apesar de encarregado de negócios. O nosso crítico total apressa-se a dizer que era seu «amigo», ainda que pudesse «ter servido de modelo a Monsieur Hulot» (p. 101), e que ele não falava nem português nem crioulo. Foi precisamente tradutor de chinês e de Léopold Senghor para o provençal. Na minha humilde opinião, só por milagre ou por intervenção inesperada da Providência é que este barão, resgatado ao século XVII , se tornou o autor do primeiro estudo publicado em francês sobre a literatura da Guiné-Bissau. Admito que rir do seu «amigo» é, provavelmen- te, um combate diplomático retroactivo leal que faz rir quando se está na reforma. Mas, entretanto, assinalemos a este longínquo discípulo de Bordalo Pinheiro que será duas vezes centenário antes de encontrar no Largo do Rilvas um funcionário capaz de interpretar ou traduzir sozinho turco, tagalo, suaíli, albanês, pelo menos quatro línguas eslavas, três bálticas e não sabe- mos mais quantos idiomas do Médio Oriente e de Madagáscar, sem falar no tétum, todas as línguas germânicas e escandinavas, hebraico e grego moder- nos e, provavelmente, um terço de todas as outras que se ensinam nas Langues O. O Sr. Hulot? Um génio da linguística, segundo me asseguraram. A inocência é, por vezes, a última desculpa quando queremos esquecer uma ferida secreta que remonta a um desses traumatismos ocultos que marcam todos aqueles que são obrigados a participar nas feiras de vaidades. Mas felicitemos o autor, pois, na verdade, dos quatro alvos franceses que escolheu, apontou com precisão e abateu três, o que, bem contado, lhe dá 75% de sucesso, o que o qualifica para as olimpíadas do humor diplomático. Por isso, recomendo vivamente este livro a quem quiser saber como e quanto é possível divertirmo-nos nas embaixadas do mundo inteiro. Se ficarmos nessas posições avançadas «sob ameaça», onde os chefes do mundo sacrificam os seus melhores agentes e os seus maiores peritos em dissimulação, para que resistam aos sorrisos assassinos, ao vinagre e à cirrose do fígado, a fim de refazerem a Conferência de Berlim e conserva- rem ou engrandecerem as suas zonas de influência, encontraremos outro livro de memórias diplomáticas. Estórias de Angola 22 é um texto optimista, sem maldade nem pretensão, redigido pelo adido cultural (1996-2001) em Luanda, cidade donde é natural. De regresso ao país natal, aí vive como peixe na água. As suas observações sentimentais e humorísticas versam, essencialmente, sobre a vida quotidiana Page 15 1119 Soldados, gorilas, diplomatas e outros literatos na capital, mas também em Sumbe e no Lubango. Ele dá conta da corrupção da polícia, das tensões entre alguns representantes diplomáticos, das debili- dades dos meios financeiros portugueses, da desorganização e da falta de seriedade das «elites» angolanas, bem como da insegurança que se vive. O glossário tem mais de 220 termos do linguajar local. E encontramos ainda um embaixador de Espanha alcoólico. O seu homólogo polaco era, igualmen- te, um grande amante de vodka — o que reforça a minha convicção sobre os perigos da vida diplomática e me permite saltar até Maputo, onde vamos encontrar outros polacos, estes acima de qualquer suspeita, já que se trata de um arcebispo polaco enviado do papa João Paulo II a Moçambique e que nos faz a descrição 23 da construção da nunciatura apostólica, concebida por uma arquitecta, também polaca, que não deve ser confundida com um fan- toche de embaixada. O que mais impressiona é o sentido artístico deste eclesiástico, que de 2000 a 2002 orientou e supervisionou a edificação e a decoração deste símbolo da influência da Igreja Católica, durante a presidên- cia de Chissano. Uma verdadeira obra-prima de originalidade, de modernismo e de bom gosto. Texto trilingue em inglês, italiano e português. Eis-nos, portanto, instalados em Moçambique e, sem a bênção diplomá- tica, refiramos um pequeno texto 24 que é uma novidade enternecedora dedicada às jovens meninas sul-africanas «arco-íris» e que tem como per- sonagens um trio de adolescentes tricolor em férias multirraciais em Maputo. A novela tem como público-alvo as teenagers da moda, uma nova juventude dourada (ainda que mestiça e negra-africana) que copia os comportamentos dos turistas brancos. Nesta produção, que se quer paradigmática das boas relações inter-raciais e internacionais na África austral, vamos encontrar todos os tiques da imprensa feminina. Bastante mais denso e complexo, um romance 25 palpitante, que arrasta o leitor para uma cavalgada ofegante entre épocas e países? Parte da história tem lugar em Moçambique entre 1969(?) e 1984(?). Não percebi tudo, mas o autor baralha a cronologia, não gosta muito da FRELIMO na sua fase marxista e ainda menos das gentes da RENAMO. Simon Ings parece ter conhecido o interior de Moçambique durante a guerra civil ou, pelo menos, os aventureiros anglófonos que percorreram o país durante esses tempos conturbados. Provavelmente, cooperantes e activistas da causa. Ele muda a toponímia, os nomes das personagens históricas, mas, muito provavelmente, a sua descrição da confusão que reinou entre 1980 e 1994 na fronteira do Malawi baseia-se na sua própria experiência. O atentado contra Mondlane e os acontecimentos nas fileiras da FRELIMO no exílio na Tanzânia são-lhe familiares. Uma história difícil de seguir, mas a descobrir. Voltemos a temas menos controversos com um autor dos Países Baixos que se transformou em detective do passado para nos oferecer uma ex- traordinária biografia de um explorador alemão que foi o primeiro europeu Page 16 1120 René Pélissier «conhecido» a atingir o lago Niassa/Malawi a partir da costa da África oriental. Personagem das mais misteriosas, que não deixou qualquer livro ou artigo fundamental sobre esta viagem épica, a estada do Dr. Roscher 26 em África só pode ser reconstituída graças às cartas que enviou para a Alema- nha. Em Moçambique vamos encontrá-lo por breves instantes na ilha-capital, onde fez escala em 1858, e no interior, onde permaneceu mais longamente, quando atravessou o Rovuma (Outubro de 1859), vindo de Zanzibar, e chegou ao lago Niassa, em Nussewa (19 de Novembro de 1859). Encontran- do-se muito doente, regressou ao Rovuma. No total, terá estado cerca de quatro ou cinco meses no Niassa «moçambicano», onde o chefe da aldeia de Kisanguni o assassina em Março de 1860. O seu diário e os seus papéis foram roubados. O assassino apanhado será executado em Zanzibar. Este episódio da história da exploração moçambicana levou o autor a fornecer um impressio- nante volume de pormenores sobre as relações dos europeus com Zanzibar e o interior do país. Sobre os portugueses, ausentes da região nesta época, diz pouca coisa, mas descobrimos um pioneiro quase esquecido e ficamos a saber qual era a dimensão do comércio de Zanzibar no Niassa muito antes do surgimento de uma presença europeia estável. Um bom trabalho. E, já que estamos nas biografias «transfronteiriças», onde não se aven- turaram os historiadores de profissão, passemos a Angola a partir da Namíbia actual. Quem é que em Portugal, no século XXI , já ouviu falar de Axel Wilhelm Eriksson 27 ? Trata-se de uma figura esquecida, tal como, mar- ginalmente, na Suécia, mas não em Angola, onde deixou o seu nome a um vau no Cunene, e não é mesmo certo que com a africanização de toda a toponímia este tenha chegado a ser desbaptizado. O que evocaria o bóer! Ora trata-se de um sueco que, antes dos alemães, foi um dos grandes comerciantes e pioneiros europeus na Namíbia. As suas relações com os portugueses de Humbe, da Huíla e de Moçâmedes são mencionadas e mes- mo, por vezes, descritas no texto do casal Rudner, que, ao longo dos anos, traduziu e anotou os principais livros de viagens dos suecos que chegaram, depois de Charles John Andersson, ao país. Esta ressurreição de Eriksson interessa a Angola por diversas razões. Em Agosto de 1880 está no Evale e começa a importar mercadorias via Moçâmedes em 1881. Trata-se de um homem de negócios e de um caçador que foi bem acolhido pelo governador e regressou a Angola por diversas vezes. Em 1890 encontramo-lo no Cubango e no Cuanhama, onde comprou os direitos de exploração do mi- nério ao soba local (chefe, rei). Regressou em 1894, 1895 e 1897 (encontra- -se com a expedição portuguesa encarregada de vacinar os bois do Humbe). Em 1899 acompanhou o capitão alemão Franke ao Cuanhama e ao Humbe. Enriquecido com o comércio de armas, álcool, cavalos, bois, marfim, etc., a sua generosidade vai levá-lo à pobreza na sua morte. Amigo dos sobas ovambo e dos portugueses, passou diversos anos a traficar e a caçar de Page 17 1121 Soldados, gorilas, diplomatas e outros literatos Moçâmedes ao Cuanhama e até ao Cubango. O seu único erro foi não ter deixado algum livro escrito para a posteridade. A sua vida foi, por isso, reconstruída a partir das cartas que enviou à família para a Suécia. Um dos seus filhos, mestiço, instalou-se no Sul de Angola, participando em várias campanhas portuguesas e vivendo como um patriarca nas décadas de 20 e 30 do século XX (e talvez depois disso). A obra é aconselhada aos que se interessam pela história do Sul de Angola, para «arejar» concepções dema- siado lusocentristas, introduzindo nas bibliotecas uma biografia muito bem escrita e que ultrapassa o Sul da fronteira. O mesmo se pode dizer, mas com sentido inverso, para os namibianos. Desejos pios? Há outra biografia «transfronteiriça» que merece ser referida, pois diz respeito a um «proto-angolano». Trata-se da história 28 da ascensão social de um africano nascido em 1887 perto de Naulila (de triste memória para os portugueses) e que era criado de um bóer de Humpata, o qual ajudou os alemães a vencerem Roçadas em Naulila em 1914. Em virtude deste facto, não podendo regressar a Angola, entre 1921 e 1955 transformou-se no indispensável intermediário entre a administração sul-africana e os emigrantes angolanos que chegavam, em busca de trabalho, ao Sul da fronteira. Poli- glota (falava sete línguas africanas, português, afrikaans, alemão e inglês), este polícia-interprete, instalado no posto que estava frente ao Cuangar, era igualmente um pilar da Igreja luterana e polígamo. Após a transferência para oriente da administração, torna-se chefe de um clã no país que não o viu nascer. Apesar de pedófilo, mandou construir uma escola e é recordado como um grande homem na sua «pátria» adoptiva. A passagem por este minúsculo posto de 3212 angolanos em busca de trabalho no Sul de 1925 a 1931 (p. 93) é, evidentemente, a ponta de um enorme icebergue constituído pela situação salarial em Angola e, chamemos as coisas pelo seu nome, pelo trabalho forçado que, sob formas diversas, ali reinava bem antes e muito depois de ter florescido igualmente noutras ex- periências coloniais em África. Mesmo o mais sectário dos defensores do lusotropicalismo e da «brandura dos nossos costumes» acaba por admitir que nem tudo era irrepreensível, neste domínio, no balanço da colonização portuguesa. Vamos encontrar exemplos disso numa excelente obra 29 que reúne as contribuições apresentadas no Porto em 2005 e que foram publicadas com uma rapidez a que não estamos acostumados em Portugal. É mesmo uma excepção à qual não será, provavelmente, alheio o facto de o encontro ter tido lugar no Porto… Para mim não se trata de dar, em poucas linhas, uma visão, mesmo que superficial, da extrema riqueza e utilidade deste livro. A sua primeira qualidade parecer ser, contudo, o seu carácter comparativo. Mesmo se eliminarmos os cinco artigos sobre a es- cravatura no Brasil, continua a sobrar suficiente matéria para tranquilizar o especialista sobre a pertinência do adjectivo «comparadas» que encontramos Page 18 1122 René Pélissier no título. Em que outro livro encontraremos em Portugal estudos sobre a cultura forçada do algodão no Norte dos Camarões, ou sobre o trabalho forçado no Quénia, sem falar do trabalho escravo no forte dinamarquês de Christiansborg, ou sobre a «república negra» de Annobom? Nenhum dos PALOP foi esquecido, a liberdade de tom dos autores é total, mesmo que alguns puxem um pouco mais pela polémica. «The British civilising mission was tantamount to that of Nazi Germany» (p. 464) afirma um queniano acerca da repressão dos mau mau. Não vou discutir a qualidade (ou não) deste ou daquele autor, mas, na minha opinião, este texto é, simplesmente, e acho que é uma pena que assim seja, absolutamente necessário ao grande público por- tuguês ou mesmo brasileiro, quer por ignorar estes assuntos, quer por não querer ouvir falar neles, por serem aborrecidos. Não se trata de um problema de arrependimento forçado imposto a uma população que não é, em nada, responsável pelo que fizeram os seus antepassados. Trata-se de um problema de informação. A este respeito, bem gostaria de ler os livros de história utilizados actualmente nas escolas primárias e secundárias portuguesas para saber se se continuam a inculcar nos alunos os mesmos mitos herdados de séculos de cegueira voluntária sempre que as palavras «descobrimentos», «expansão» ou «colonização» eram pronunciadas. O que pensam os diploma- tas e os seus amigos, os gorilas, sobre isto? Redigido em Maio de 2007. NOTAS 1 António Lopes Pires Nunes, Aspectos da actividade operacional. Resenha histórico- -militar das campanhas de África (1961-1974), 6.º vol., t. I , Angola, Estado-Maior do Exército, Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974), Lisboa, livro 1, 1998, 629 páginas, com fotografias a preto e branco e um mapa desdobrável a cores, livro 2, 2006, 733 páginas, com fotografias a preto e branco e dois mapas desdobráveis a cores. 2 Maximino Cardoso Chaves, Andanças, tribulações e reflexões em tempo de guerra. Memórias de uma comissão de serviço em Moçambique (1968 a 1971), Coimbra, MinervaCoimbra, 2005, 170 páginas. 3 António dos Santos Frias, Do céu em pára-quedas. Histórias vadias, s. l., ed. de autor, 2006, 80 páginas. 4 Manuel Pedro Dias, Aquartelamentos de Moçambique. Cabo Delgado, 1964-1974, Odivelas, ed. de autor, 2006, 138 páginas, com muitas fotografias a preto e branco e a cores. 5 Nogueira Baptista, Contagem decrescente, Cacém (Portugal), VoxGo, 2.ª ed., 2006, 317 páginas. 6 António Graça de Abreu, Diário da Guiné. Lama, sangue e água pura, Lisboa, Guerra e Paz Editores, 2007, 220 páginas, com fotografias a preto e branco. 7 J. Loufar, A mola real do combatente, é a mulher, Leiria, Diário de Leiria, 2003, 163 páginas. 8 J. Loufar, Triângulo nublado, Leiria, ed. de autor e Diário de Leiria, 2004, 322 páginas. 9 Alberto Ribeiro Soares (coord.), Bodas de ouro dos cursos entrados na Escola do Exército em 1956. 50 anos 1956-2006, Lisboa, Academia militar, 2006, 224 páginas, com fotografias a preto e branco. Page 19 1123 Soldados, gorilas, diplomatas e outros literatos 10 João Carlos Sarabando, As hienas também choram, Porto, Papiro Editora, 2006, 451 páginas. 11 Chris Bennett, Three Frigates (President Class Frigates bring the SA Navy to maturity), Durban, Just Done Productions Publishing, 2006, xx-270 páginas, com fotografias a preto e branco. 12 Willem Steenkamp, Borderstrike! South Africa into Angola 1975-1980, Durban, Just Done Productions Publishing, 2006, revisto e actualizado (3.ª ed.), XIV -328 páginas, com fotografias a preto e branco. 13 Magnus Malan, My life with the SA Defence Force, Pretória, Protea Book House, 2006, 509 páginas, com fotografias a preto e branco. 14 José Mattoso, A dignidade. Konis Santana e a resistência timorense, Lisboa, Círculo de Leitores, 2005, 323 páginas, com fotografias a preto e branco e a cores. 15 Edward Paice, Tip and Run. The untold tragedy of the Great War in Africa, Londres, Weidenfeld & Nicolson, 2007, XXXIX -488 páginas, estampas fotográficas a preto e branco. 16 Assis Malaquias, Rebels and Robbers. Violence in Post-Colonial Angola, Uppsala, Nordiska Afrikainstitutet, 2007, 263 páginas. 17 Tamar Golan e Tamar Ron, Gorilot ye-diplomatyah: mifgeshe adam ye-teva be- -Angolah, Telavive, Am Oved Publishers, 2006, 257 páginas, estampas a preto e branco e a cores. 18 Gisela Guevara, As relações entre Portugal e a Alemanha em torno da África. Finais do Século XIX e Inícios do Século XX, Lisboa, Instituto Diplomático (Ministério dos Negócios Estrangeiros), 2006, 507 páginas. 19 Armando Marques Guedes e Nuno Canas Mendes (eds.), Ensaios sobre nacionalismos em Timor-Leste, Lisboa, Instituto Diplomático (Ministério dos Negócios Estrangeiros), 2005, 431 páginas. 20 Luís Elias, A formação das polícias nos estados pós-conflito. O caso de Timor-Leste, Lisboa, Instituto Diplomático (Ministério dos Negócios Estrangeiros), 2006, 529 páginas. 21 António Pinto da França, Em tempos de inocência. Um diário da Guiné-Bissau, Lisboa, Prefácio, 2006, 192 páginas. 22 Luís Mascarenhas, Estórias de Angola, Lisboa, Prefácio, 2006, 137 páginas. 23 Juliusz Janusz, Apostolic Nunciature in Mozambique, Cracóvia, Rzecz Piekna, s. d. [c. 2002-2003], 84 páginas, com muitas ilustrações a cores. 24 Nokuthula Mazibuko, A Mozambican Summer, Claremont (África do Sul), New Africa Books, 2005, 84 páginas. 25 Simon Ings, The Weight of Numbers, Nova Iorque, Black Cat/Grove/Atlantic, 2006, 420 páginas. 26 J. W. Heldring, The Killing of Dr. Albrecht Roscher. The Story of a Young German Explorer in East Africa 1858-1860, Leicestershire, Upfront Publishing (?), 2003, 393 páginas, com fotografias e mapas a preto e branco. 27 Rudner, Ione e Jalmar, Axel Wilhelm Eriksson of Hereroland (1846-1901). His Life and Letters, Windhoek, Gamsberg Macmillan, 2006, XVII -19-302 páginas, com fotografias a preto e branco e mapas. 28 Hans Martin Milk, «For the power and glory». Die Lebensgeschichte des Makaranga Kavango/Namibia, Colónia, Rüdiger Köppe Verlag, 2004, 201 páginas, com fotografias a preto e branco. 29 Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto (coord.), Trabalho forçado africano — Experiências coloniais comparadas, Porto, Campo das Letras, 2006, 575 páginas
Terras do Fim do Mundo
- Campanhas do Kuamato (1905,1906,1907) -
Mestre José Carlos de Oliveira*
Deste documento faz parte um documentário, composto por cerca de 150 fotografias relacionadas com o assunto, criteriosamente seleccionadas. A realização audiovisual foi criada para ser exibida em complemento ao entendimento do espírito do tempo em que os factos se passaram. Sem esse suporte, torna-se mais difícil qualquer abordagem. Porém tanto o documentário como o presente artigo reflectem o ângulo de visão e de opinião do autor que, não por acaso, é antropólogo.
Tal como vem acontecendo há 45 anos, os Ex-Instruendos da classe de 1959 da Ex EAMA (Escola de Aplicação Militar de Angola) de Nova Lisboa, mais uma vez se reuniram, e diga-se em abono da verdade, para que se saiba, todos fomos incorporados em companhias Indígenas.
A meio da última confraternização (2005), numa troca de palavras com um velho e grande companheiro, no caso o Coronel Catolino Dias Pinto, (sem qualquer desrespeito pelos restantes) lamentava-me eu, da actuação menos própria de alguns militares. Em resposta, recebi uma grande lição “Zé, não te esqueças, antes de militares são homens, e algumas características menos dignas, também se encontram inscritas na nossa natureza humana…
E ao começar pela abordagem dos valores morais, que teimam em pautar a atitude dos homens e das mulheres, pertençam eles à Nação que perten­cerem (no sentido de chão, de país, de terra dos pais) lembrei-me daqueles que, dum lado e de outro, nos antecederam nas vicissitudes da vida militar.
Nesta Zona de África tudo começou para os portugueses por volta de 1485. Diogo Cão ia dando continuidade às ordens dos seus maiores, percorrendo as etapas necessárias, estabelecendo os respectivos contactos, que facilitariam o posterior encontro com o “Adamastor”. Na sua segunda viagem, colocou o padrão do Cabo Negro1 situado perto da povoação de Pinda e de Porto Alexandre, entre os paralelos 15 e 16 de latitude sul.
A sul da costa de Moçâmedes situa-se a enseada da “Angra do negro” conhecida pelos ingleses por “Little Fish Bay”, mas que para os naturais sempre foi conhecida como Bisungo‑Bitolo. As embarcações portuguesas ron­dariam estas paragens à caça de baleias e na rapina de “peças” (escravos), havendo notícias da presença dos portugueses no século XVII. Terá sido por volta dessa altura que um português deu o nome de Moçâmedes à Baía, embora estas informações sejam muito obscuras. Outras mais concretas dão notícia de uma expedição comandada pelo rico sertanejo Gregório José Mendes na patente de Sargento-mor das ordenanças.
Incumbido de actualizar informações das rotas do comércio do interior, e por outro lado corrigir a infeliz incursão da expedição marítima do Tenente de mar António Valente e do Tenente-coronel Pinheiro Furtado. Ousaram explorar terra depois de arribar em 3 de Agosto de 1785 a Angra do Norte. Foram assassinados quando exploravam a margem do Bero.

Segmento de carta geográfica de 1907 com localização das Terras do Fim do Mundo “Kuamato”
E tudo isto porque tinham sido incumbidos pelo governador da zona para explorarem a possibilidade de criarem ali um possível presídio 2. Sempre que os exploradores europeus, de qualquer potência colonizadora, menosprezaram a inteligência dos nativos, sofreram as respectivas consequências, acabando com frequência por morrer inutilmente.
Todo um passado recente dizia aos potentados quão perigosa se tornaria a permanência militar dos brancos na zona. E note-se que então como hoje, fazer incursões não era difícil, a dificuldade estava em permanecer nos locais avassalados. O adversário sabia memorizar as circunstâncias. Quem invadia, tratando-se de europeus, não estava minimamente adaptado ao clima, à geografia e era desconhecedor quase absoluto dos trilhos de contacto com as populações. Foi assim também nos primeiros dois anos da guerra colonial vivida a partir de meados dos anos cinquenta, já lá vão outros cinquenta anos.
Um astuto, ousado e conhecedor sertanejo, António Guimarães Júnior ofereceu-se, já em 1839 para fundar um estabelecimento em terras de Moçamedes. O objectivo era o de comercializar, carne salgada, fabrico de sola, uma vez que nos nativos eram possuidores de imenso gado bovino.
Todavia não podemos esquecer que estes privilégios concedidos pelo governo tinham por detrás, para além do lucro, a espionagem a favor da implantação do domínio português.
O elemento militar português, ou o que por tal passava, era ainda em 1845‑1848, mais do que nunca o escudo do comércio dos grandes negociantes de Luanda e Benguela. E estes, por sua vez, contavam com a resistência e coragem dos seus pumbeiros e aviados, comerciantes ambulantes, negros mestiços libertos ou forros e mesmo até escravos que deambulavam pelos mercados do interior, tanto os já afectos aos portugueses como aqueles em que os europeus ainda pagavam pela permissão de comprar e vender. Estas relações explicam em grande parte a continuidade de um sistema de trocas (álcool armas, pólvora, panos, etc.) a que correspondia um equilíbrio económico que não conhecera substituto em África.
A grande força dos portugueses provinha da quase total ausência de concorrência comercial e política... Só estava seriamente ameaçado, a norte das possessões reais ao longo do que os portugueses chamavam a Costa do Norte. Era grande e muito experiente a habilidade dos armadores “estáticos” de Luanda e Benguela ao utilizarem a resistência e coragem dos seus pombeiros e aviados, negros mestiços libertos ou forros e mesmo até escravos, quando não eram até degredados, foragidos ou não, como aconteceu com João Brandão e José do Telhado.
Deambulavam pelos mercados do interior, tanto os já afectos aos portugueses como aqueles em que os europeus ainda pagavam pela permissão de comprar e vender. Estes agentes itinerantes iam funar (leia-se praticar o comércio ambulante) pelos mercados do interior no sertão já subjugado ou pelos ainda insubmissos potentados. A perpetuação do sistema de trocas (álcool, armas, pólvora, panos etc.) correspondia a um equilíbrio económico que não conhecera substituto em África.
Um dos principais conflitos residia na oposição que os comerciantes faziam aos militares. Tentavam a todo o transe transformar a transferência de poderes fiscais no sertão. Os missionários por sua vez não viam com bons olhos a ocupação militar, pressentiam as razias. Todos, sem excepção, desconfiavam de todos.
São do General Norton de Matos as seguintes palavras: A 1ª Grande Guerra fez desaparecer o enorme império Austríaco do mapa da Europa, formando com ele diversas nações, no meio das quais a Áustria ficou mínima em território e população, sem finanças próprias, servindo a ensaios e experiências políticas, quase como uma curiosidade de museu3.
E diz mais: Que mandou uma carta a 1 de Janeiro de 1913 ao ministro das colónias de então com os seguintes dizeres:
Desejo-lhe um ano novo cheio de venturas. Venho pedir-lhe que leia o livro de F.Von Bernhardi. A Alemanha e a próxima guerra que foi posto à venda nos fins de 1911. Sei que V. Exa., lê correctamente o alemão, mas já há deste livro uma tradução inglesa4.
Nos tempos que antecederam a Grande Guerra estava a Alemanha ocupada na sua fantástica obra a federação Central Europeia. Para tanto teria que empregar os meios julgados convenientes alargando os seus territórios coloniais em África. Ocorreram acontecimentos que mostravam a possibili­dade da Alemanha obter grandes territórios em África e na América do Sul em consequência de negociações pacíficas subjacentes com a crise financeira e política Portuguesa…
Apresentava-se assim uma oportunidade excelente para se apoderar das colónias portuguesas mais valiosas, embora se tenha dito que a Inglaterra depois de ter chegado a acordo com a Alemanha sobre a partilha das colónias Lusitanas, garantiu a Portugal, (por meio de uma convenção especial) a posse de todas as suas colónias.
Continuam as transcrições, “as terras de África, que terão de passar para a nossa posse devem de ser encaradas sobre dois aspectos: desejamos que umas sejam próprias para a colonização alemã, para a fixação dos colonos germânicos e outras que sejam fornecedoras de matérias-primas e constituam mercados dos produtos alemães”.
Não devemos, porém perder de vista a absoluta necessidade de não enfraquecer na África o elemento germânico, espalhando os colonos ou os comerciantes pelos territórios africanos. Temos de os reunir em blocos compactos, em centros políticos de gravidade, próprios para a criação de mercados das nossas exportações, para a difusão da cultura alemã.
Foi contra este Golias germânico, entre outros que o pequeno Portugal teve de se haver. De que lado enfileirar então? A coabitação, a dominação e a influência dos Portugueses, por antigas que fossem, podiam a todo o momento ser contestadas pelos seus súbditos, vassalos e vizinhos.
A disenteria, a malária, o escorbuto, a filaria, a tuberculose faziam as suas razias nas tropas expedicionárias, àa quais não faltava a semente da desunião. Não admira portanto que um dos piores revezes tivesse acontecido em Setembro de 1904 com os Kuamato. Um guia ovimbundo que fora deportado para o Humbe5 levou-os a cair numa emboscada em Umpungo.
Guerreiros Kuamato Foto do então Alferes Veloso e Castro 1905
Os guerreiros Kuamato, munidos de excelente armamento, muito dele conseguido com a venda de gado, mais para o sul do que para o norte… eram, e continuam a ser, possuidores de excepcionais qualidades militares. As populações vizinhas, juntavam‑se a eles, constituindo a temível Liga Ovampo, sempre que era necessário combater o inimigo comum, o branco.
Como sempre, os Kuamato quando entravam em contacto com os inimigos e em especial contra os portugueses mantinham-se ocultos entre as árvores, tal como aconteceu com a expedição do Comandante Aguiar. Começaram por disparar sobre os oficiais e depois avançaram. A cavalaria, carregou sobre as árvores e perdeu as montadas, tudo aconteceu como em 1891. Os Kuamato estavam a 100 150 metros e tinham concentrado um poder de fogo invulgar nos confrontos bélicos em Angola.
Pior que tudo, o Comandante Aguiar mandou usar a artilharia, as peças mal apontadas dispararam sobre os sobreviventes, que saíam do mato. Naquela ratoeira os Kuamato não fizeram prisioneiros acabando por dar a morte aos últimos sol­dados que ainda resistiam.
Foto do Alferes Veloso e Castro campanhas do Kuamamto 1905
Por volta de Agosto de 1904 todos os Ovambo pressentiam6 que algo acontecia com o Exército Português estacionado na zona. Preparavam uma grande guerra e pareciam muito confiantes.
Os sacrifícios eram incomensuráveis, a fotografia intercalada que se apresenta dá certamente uma pálida ideia do que era, por exemplo, um carro com dez juntas de bois preparado para transportar três toneladas. Muitas vezes o condutor carreiro, era preto, já civilizado, manejando o chicote a preceito, coadjuvado pelo homem do travão e candeeiro, que normalmente não passava de um rapazito e seguia à frente da primeira junta de bois7. Pode imaginar-se o que seria comandar uma expedição militar, constituída por 2 291 militares, oficiais, sargentos e praças, incluindo indivíduos civis, condenados, e indígenas; 115 auxiliares portugueses, boers e indígenas; 100 cavalos, 181 muares, 620 bois de carro, 40 bois para abater (deveriam contar-se entre os bois a abater os que se fossem perdendo das juntas de bois de tracção). E falamos nós hoje de dificuldades. O autor destas linhas foi militar numa companhia indígena, mais propriamente a 5ª Companhia de Caçadores Indígenas do Batalhão de Caçadores Nº 3 (com muita honra) de 1959 a 1963, sempre no Norte de Angola. Sabe muito bem do que fala, durante 35 anos manteve-se na Zona. Acaba de chegar do Uije, onde foi reconfirmar e adquirir novos conhecimentos para dar continuidade à sua tese de doutoramento.
Libata do kuamato 1905
O terreno em terras do Kuamato e do Ovampo é relativamente plano, apenas ligeiras ondulações aqui, além coincidindo em regra com zonas de cultura… Quem atravesse qualquer dos vaus de Balaonde, Pemba, do Encondo ou Macuma, embrenha‑se de seguida em matas marginais, atingindo depois um plató, cujo o aspecto geral seria o de uma vastíssima campina de capim, salpicada por vezes de manchas de mutiati. Essas manchas de mata, ligadas entre si, envolvem as zonas de capim que ficam livres e tomam o nome de chanas. Estas por sua vez, quando extensas e estreitas e correspondendo a depressões sensíveis do terreno, tomam o nome de mulolas. Em regra é à volta das chanas, no meio do mato, que vivem os naturais em libatas, bem defendidas por cercados de pau a pique.
Weyulu, o grande chefe político e militar, já não estava entre os vivos para poder mandar incutir aos seus lenga (guerreiros comandantes) a força mágica vital induzida aos Kuanhama em vitórias anteriores, faltavam‑lhes também os grandes conselheiros alemães... como faltaram às gentes do norte a “inteli­gência” inglesa. O sucessor de Weyulu seu irmão Nande, segundo algumas informações de fonte fidedigna, não era muito afecto aos brancos alemães. Dizia-lhe a experiência vivida e pelos seus antecessores transmitida que, se os seus queriam sobreviver tal custaria a separação do reino. Os brancos dividiriam o país Ovambo entre si. O melhor seria fazer as pazes com eles, embora os chefes guerreiros Lenga, quase todos Ovampo, não Kuanhama, ou mesmo renegados Humbe ou Ganguela, fossem deten­tores de uma enorme vantagem: muito astutos e profundos conhecedores do seu chão, sabiam ler todas as pegadas e pela forma como se inscreviam no terreno até conheciam as intenções do inimigo. Comandavam de forma magistral cerca de 300 homens. A sua experiência era longa, tinham presenciado primeiro e comandado depois, inúmeras razias e saques, sendo essa experiência a força da sua razão, por isso, resistiam às incertezas do seu rei. Se fosse necessário desobedecer, o recurso seria envenenamento do rei. Não deixariam de retirar a sua parte da presa de guerra. Era o seu ofício.
Segundo o missionário francês Lecomte8 “só os Kuamato e os Vale (Mucubais) eram de temer. Eram corajosos, ao passo que os Kuanhama baseavam a sua estratégia no efeito de surpresa e na sua rapidez de atacar as povoações”. Aquilo a que chamamos razias.
Mas Nande, interiormente não se deixava enganar. A sua intuição dizia‑lhe que mais tarde ou mais cedo, as metralhadoras alemãs a sul e as portuguesas a norte, acabariam por crivar de balas a sua independência. O Padre Ernesto Lecomte9 numa das suas “duas cartas dum missionário...” escrevia. Foi ele que em 1901 teria exclamado para o irmão Weyulu: “Visto isso, tu hás-de pertencer aos alemães e eu aos portugueses (Nande administrava o Norte) verás que daqui a meia dúzia de anos já não seremos mais nada e o poder há-de ser dos brancos 10.
Só a indecisão da administração portuguesa iria permitir aos Ovambo, pelo menos aos Kuanhama conservar a sua independência até ao verão de 1915. Facto absolutamente notável, pois só os Dembu a Norte, e a revolta de Buta na zona fronteiriça de S.Salvador, hoje Banza Kongo, tinham similitudes notáveis. Independentemente de tudo isto, o envenenamento espreitava Nande se quisesse tocar no tecido social e económico dos Kuanhama. Extraordinariamente penoso foi admitirem que os brancos eram possuidores das novas magias de matar. Os seus chefes espirituais não as compreendiam, e por isso, não conseguiam transmitir ao seu líder a forma de suportar a derrota.
O autor está ciente (e não necessita de ser um estratega militar) que embora o canhão fosse uma força dissuasora era muito difícil de locomover nestes terrenos. Três novos elementos introduzidos foram fundamentais para conduzir os brancos à vitória:
A metralhadora que passou a devastar filas inteiras de comba­tentes indígenas.
O telégrafo morse, grande ganhador das comunicações e que destronou o tambor de guerra das forças indígenas.
E, finalmente, a fotografia, órgão que punha à disposição do Estado‑Maior do Exército dos brancos o panorama real e factual do que acontecia no terreno.
Acrescente-se que quando os missionários ingleses no norte de Angola utilizaram pela primeira vez esta tecnologia, “a Caixa Mágica” para surpreender as elites políticas que olhavam estarrecidas a figura do seu rei falecido, o seu espanto era enorme e os grandes feiticeiros mais uma vez ficaram, perante os seus notáveis sem poder justificar tal poder detido pelos “feiti­ceiros” brancos. Ainda hoje, no norte de Angola, a máquina fotográfica, na posse de um estrangeiro europeu é olhada com muita reserva.
O já Major Roçadas com oficias do seu Estado-Maior nas campanhas do kuamato
Com estas vantagens contou o Capitão Roçadas, (durante as três campanhas que dirigiu 1905, 1906, 1907) mas também com um vasto conhecimento adquirido pelas expe­dições anteriores. Ines­ti­mável foi a actuação do fidalgo Kalipalula Kuamato da mais alta linhagem. Vo­tado ao ostracismo pelas suas gentes, teve de abandonar com a família e haveres o seu chão. Encontrado muito ferido pelos portugueses, foi curado, em troca conduziu a expedição de Roçadas com a maior segurança, os menores custos e a maior rapidez em alcançar o objectivo.
Os Kuamatos já esperavam os portugueses. Tinham levado para o mato os mantimentos e as armas que podiam. Nas refregas foram auxiliados por outros povos vizinhos surpreendendo muitas vezes os exaustos expedicionários. Estas palavras do Capitão Roçadas são testemunho da valentia do adversário11, As qualidades guerreiras do inimigo e a sua força de combater”.
Estavam prestes a começar os recontros. Os Kuamato tinham reunido o máximo de vizinhos que podiam, mas por si eram os mais temidos, os mais aguerridos os mais audazes, sendo temidos pelos próprios Kuanhama e Evale. Estavam lá também os Kuambi, muito temidos no assalto à arma branca, enfim também os ganguela, barantus, e hingas. Ao todo cerca de 20 000 homens. Tal como Nande os seus guerreiros Kuamato renderam-se momentaneamente, a guerra na zona iria perdurar até para lá de 1920. Curiosamente a última guerra em Angola iria acabar com a morte de Jonas Malheiro Savimbi já lá vão quatro anos (2001).
Recordemos que no início mencionámos o General Norton de Matos: “Desejo-lhe um ano novo cheio de venturas. Venho pedir-lhe que leia o livro de F.Von Bernhardi. A Alemanha e a próxima guerra que foi posto à venda nos fins de 1911. Sei que V. Exa., lê correctamente o alemão, mas já há deste livro uma tradução inglesa.12”
Do discurso do Comandante de Operações do Kuamato, José Augusto Alves Roçadas, proferido na Sociedade de Geografia de Lisboa em 1908 ressalta um trecho final “…seja organizado por um processo idóneo, parece que seria o meio de iniciar desde já o ressurgimento daquela nossa pérola colonial, que, filha ainda, na infância, a mãe pátria deve cuidar em instruir, desenvolver e preparar para a luta futura, de forma a que no dia em que chegue à sua maioridade, ela possa dar-lhe voluntariamente o emblema da independência, na certeza do que terá quem continue a representar dignamente, como sucede hoje com o Brasil, a velha raça lusitana, e a considerar-nos como nação favorecida nos tratados mútuos.
Estas apreciações dependem sempre do mérito que o leitor possua em saber interpretar o espírito do tempo em que os acontecimentos se desenvolveram…
______________________
* Mestre em Ciências Sociais e Políticas, Antropologia Cultural e Estudos Africanos pelo ISCSP/UTL.
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1 Silva, Raul José Candeias Subsídios para a História da Colonização do Distrito de Moçâmedes Durante o século XIX, Stúdia Nº32 (Junho 1971) p. 371.
2 Idem p. 374.
3 Matos, Norton Memórias e trabalhos da minha vida, volume 4 pp. 9‑10.
4 Idem, p.18.
5 Pelissier, Rene, História das campanhas de Angola II, p. 191.
6 Pelissier, Rene História das campanhas de Angola II. p. 189.
7 Roçadas, José Augusto Alves Conferência sobre o Sul de Angola, A propósito das operações Militares do Cuamato, Sociedade de Geografia de Lisboa, 1908 p. 11.
8 René Pelissier, obra citada, II p. 190.
9 Lecomte, Ernest, Duas cartas do missionário Ernesto Lecomte, P. E Af. Nº132 Dezembro de 1904.
10 René Pélissier, obra citada I, p. 35.
11 Roçadas, José Augusto Alves, obra citada, p. 23.
12 Idem, p.18.
in www.revistamilitar.pt

sábado, 6 de dezembro de 2008

A África e o "outro" africano dentro da identidade nacional lusa

A África e o "outro" africano dentro da identidade nacional lusa

Por: Sandro Campos1
Precisamos (...) de manter sempre vivo na gente portuguesa o sonho de além-mar, e a consciência e orgulho do Império. A África é mais do que a terra que se ex-plora agriculturamente e é capaz de produzir aquilo de que a Metrópole precisa. A África é, para nós, uma justificação moral e uma razão de ser como potência. Sem ela seríamos uma pequena nação; com ela somos um grande país2
Editorial de O Mundo Português (1935)
África foi durante muito tempo parte essencial na identidade portuguesa, tor-nando-se símbolo da sua história e das suas realizações. A memória e a crença nesses feitos se tornaram um dos principais pilares da construção da confiança e o orgulho na-cional português. Nesse sentido, uma análise sobre a atuação lusitana na África e a ma-nutenção do Império Português não deve ser feita considerando apenas aspectos econô-micos e políticos. É importante que se reflita também acerca dos elementos identitários e simbólicos que rodeiam o projeto colonizador português. Uma análise dessa natureza é de vital importância para entendermos a complexidade do Império Ultramarino Português.

Sabemos que os empreendimentos portugueses em territórios do além-mar se iniciam no século XV. Nesse sentido, a identidade e o pensamento colonialista português foram construídos ao longo de séculos. Contudo, acreditamos que não seria frutífera, nesse texto, uma discussão tão extensa. Em vista do objetivo deste artigo, deter-me-ei apenas na construção do pensamento colonialista a partir do início do governo de Anto-nio Salazar.

Após o estabelecimento do Estado Novo, uma das principais preocupações de Salazar foi a restauração da confiança e do orgulho nacional português. Visando este objetivo, esse governante passou a defender a idéia de que o poder e o prestígio de um povo deveriam ser medidos, não através de critérios materiais, mas sim através de seu espírito, temperamento e sua história. Dessa forma, afirmava-se a glória e a grandiosidade portuguesa, desprezando o constrangedor baixo desenvolvimento tecnológico e econômico existente em Portugal neste momento. Com o intuito de demarcar a glória e o prestígio do país, Salazar e uma parcela da intelectualidade portuguesa passaram a evocar o passado imperial e a importância do pioneirismo português na exploração do mundo e os feitos de sua “missão” na África.

A citação inicial deste artigo reflete a preocupação em disseminar este ideal colonialista. O editorial da revista “O Mundo Português” se insere em uma campanha nacional que, através inúmeros livros, panfletos, revistas, discursos e conferências exaltavam e glorificavam a história e os feitos lusos no além-mar. Desse modo, a grandeza e o orgulho nacional relacionam-se diretamente com o ultramar português e assim, é possível entender a importância da manutenção dos territórios ultramarinos. Em outras palavras, o continente africano se torna a razão de Portugal ser uma potência.3

Image
"Cartaz de propaganda nacional com o intuito de difundir a idéia de que os territórios africanos faziam de Portugal uma grande nação".

A “questão ultramarina” constituía-se como uma das principais preocupações dentro Estado Novo4 sob o controle de Salazar, e posteriormente, Marcello Caetano. O nacionalismo, baseado na glória de Portugal, era um dos principais pilares de sustentação deste regime, e neste sentido, as províncias ultramarinas eram parte essencial na construção de uma imagem grandiosa da nação. Os territórios africanos não representavam apenas interesses econômicos e políticos, mas também estavam relacionados a uma identidade portuguesa defendida pelo regime. Dessa forma, a perda das províncias ultramarinas significaria um grande abalo a uma das principais bases ideológicas e identitárias do Estado Novo.

Havia um intenso debate sobre a “questão ultramarina” nesse período. Todavia, essa discussão possuía grandes limitações e entraves. A censura foi uma das principais marcas do governo salazarista. “O radio, o teatro, o cinema, e, a partir de sua instalação em Portugal, a televisão foram objeto de censura crescente e sistemática, palavras e instalação não podiam ser pronunciadas ou difundidas sem prévia aprovação dos censores.”5 Em Portugal não ocorre um verdadeiro e completo debate sobre o projeto colonialista. A intensa e constante atuação da censura no governo de Salazar limitava e excluía a participação de possíveis anticolonialistas no debate publico. Nesse contexto, qualquer idéia contrária ao projeto colonialista era considerada uma oposição à própria nação.6

Antes de prosseguirmos, seria interessante discutir alguns aspectos do pensamento colonialista português. Primeiramente, deve-se inferir que o conjunto de idéias acerca das colônias é bastante complexo e, em diversos momentos, ele se mostrava conflitante e pouco condizente com as práticas realizadas na África. Todavia, essas idéias se faziam bastante presentes nas mentes portuguesas até meados da década de 1970.7 Vale também assinalar que o pensamento colonialista se transforma ao longo dos anos duran-te o século XX, de acordo com conjunturas e condições especificas.

Desde o fim do século XIX, Portugal passa a defender que as regiões sob seu con-trole são partes indissociáveis do Império Português. “Os territórios são ‘terras portu-guesas’, ‘pedaços da nação’ espalhados pelo mundo, inegociáveis e dos quais a Pátria-mãe não pode e não deve abrir mão sem ver-se, ela mesma, amputada de alguns de seus membros.”8 Com o advento do Estado Novo, esse pensamento é reforçado, tornan-do-se vital na identidade nacional: o solo da África Portuguêsa seria, de fato, território português e seus habitantes parte integrante da nação lusitana. A possessão de terras no além-mar é mais do que um simples resquícios da História ou de uma fonte de glória para Portugal, ela se torna a indissociável da imagem e da nacionalidade portuguesa.

Da mesma forma, a “missão” portuguesa também ocupa um papel central nesta i-dentidade. Segundo o pensamento colonialista, Portugal foi responsável por levar a “civilização” e a “fé” para os “povos primitivos”. A idéia de evolução é importante dentro desta concepção colonialista. Portugal foi responsável por conduzir e educar os povos africanos. Todavia, acreditava-se que esse processo ainda não estava finalizado. A ne-cessidade de “civilizar”, ajudar e organizar os habitantes dos territórios da chamada África portuguesa foi – até o fim do Império na década de 1970 – uma das justificativas da permanência lusitana na África.

Os portugueses sempre acreditaram na diferença entre os “portugueses europeus” e os africanos. Porém, é a partir da década de 30, que essa diferença ganha um caráter legal e jurídico. Convenciona-se uma “diferença de estado civilizatório”. O assim chamado indigenato contrapunha o “nativo” e o “assimilado”. O objetivo final do indigenato seria inserir as populações africanas na cultura e “civilização” européia e portuguesa. “A incorporação ‘gradual’ das populações coloniais ao corpo político e espiritual da nação imprime um caráter messiânico e temporal ao projeto colonial português.”9 Podemos ver então, a concepção de “missão civilizadora” formalizada legal e juridica-mente. Uma vez que ainda existissem “nativos” nas colônias, a “missão” portuguesa ainda não estaria completa, e dessa forma, se justifica a presença portuguesa na África. Um outro aspecto de grande importância para entendermos de forma mais complexa o pensamento colonialista refere-se à antiga colônia portuguesa na América.

Durante todo o século XIX e inicio do século XX, a mestiçagem existente no Bra-sil fora percebida através de olhares negativos. Para muitos, as deficiências e os problemas brasileiros provinham da grande mestiçagem gerada ao longo da Colônia e do Império. Contudo, a partir da década de 1930, essa concepção passou a ser repensada. O sociólogo Gilberto Freyre foi um dos principais intelectuais responsável pelo surgimen-to de uma nova perspectiva a cerca da mestiçagem brasileira. Para ele, o surgimento de mestiços durante a colonização portuguesa era algo a ser valorizado. A mestiçagem deveria ser entendida como uma evidência de que a colonização portuguesa ocorreu de forma pacifica com outros povos e outras culturas.

Segundo este pensamento, denominado luso-tropicalismo, os portugueses, diferentemente dos outros colonizadores europeus, não tiveram dificuldades em se “misturar” com os povos colonizados. O surgimento de um grande número de mestiços nas colônias de Portugal demonstraria essa aptidão portuguesa em se relacionar com indivíduos de diferentes etnias e culturas das regiões tropicais.10 A colonização portuguesa seria marcada, principalmente, por uma grande tolerância e pela convivência pacifica com povos de diferentes cores, religiões e culturas.

Ao contrário dos demais colonizadores europeus, a assimilação, a dominação e a relação com os demais povos não teria sido realizada através da espada, mas sim através do amor e sexo.

O português foi por toda parte, mas sobretudo no Brasil, esplendidamente criador nos seus esforços de colonização. A glória do seu sangue não foi tanto a de guerreiro imperial que conquistasse e subjugasse bárbaros para os dominar e os explorar do alto. Foi principalmente a de procriador europeu nos trópicos. Do-minou as populações nativas, misturando-se com ellas e amando com gosto as mulheres de cor.11

Podemos perceber que, para Freyre, a miscigenação é vital para compreender e es-tudar a colonização portuguesa, pois, através dela, é possível entender o seu caráter.

A afirmação feita por Freyre de que os portugueses seriam colonizadores despro-vidos de racismos e preconceitos se comprovaria – principalmente – pela constatação de um grande número de miscigenado no território brasileiro. Todavia, a miscigenação não é necessariamente sinônimo de relações não-racistas e amistosas. De fato, a história do Brasil é marcada por um alto nível de miscigenação entre o colono branco, os escravos negros, e os índios. Todavia, não devemos achar que o surgimento de mestiços na sociedade brasileira é conseqüência de falta de preconceitos e racismos. Ao analisarmos o passado, não é difícil de perceber que a sociedade brasileira estava imersa em segregações raciais. O grande número de miscigenação está muito mais relacionado ao fato de existirem poucas mulheres brancas na América Portuguesa e menos a um suposto espírito tolerante e não-racista. Além disso, a mestiçagem ocorrida no Brasil não nas demais colônias africanas. Segundo o historiador Gerald Bender, durante o século XIX, em Angola – uma das principais colônias portuguesas – os mestiços dificilmente representavam 1% de toda a população.12

Na concepção de Freyre, uma vez que o processo de colonização portuguesa – seja a colonização brasileira, ou a africana no século XX – é caracterizada pela interação pacífica do português com outros povos e isso acabou por construir uma unidade. É bastante simbólico o fato de Freyre iniciar seu livro, “O Mundo que o Português Criou”, - um dos seus principais livros sobre a colonização portuguesa – com a seguinte declaração: “Portugal, Brasil, a África e a Índia Portuguesa, Madeira, os Açores e Cabo Ver-de constituem hoje uma unidade de sentimento e cultura.”13

Freyre sistematiza, dessa forma, um grupo de idéias que valorizam a colonização lusitana no Brasil. Contudo, essa bem sucedida empreitada deve-se a características naturais e inatas do povo português. Nesse sentido, a colonização portuguesa não teria sido fruto apenas de conjunturas históricas especificas, mas sim obra de um suposto espírito miscigenador português. Esse espírito colonialista seria ahistórico, e nesse sentido, se faria presente também na colonização das terras da África no século XX.14 Para Freyre, era possível ver nos territórios africanos de língua portuguesa o mesmo processo ocorrido na formação do Brasil.15

A partir da década de 50, o pensamento luso-tropicalista de Freyre passa a ser uti-lizado frequentemente por Marcello Caetano e Salazar em seus discursos. Analisando a conjuntura específica deste momento, é possível entender a razão para a absorção das idéias luso-tropicalistas.

A partir de 1951, intensificou-se na ONU as críticas anti-colonialistas. Logicamente, Portugal era um dos principais alvos dessas admoestações. Visando escapar e se defender delas, Portugal passou a dar ênfase à necessidade de preservação e desenvol-vimento das sociedades multirraciais existentes em na África de língua portuguesa.

Os crescentes ataques internacionais à manutenção do Império português forçou Portugal a reavaliar sua postura em relação à seus domínios africanos. Ainda na década de 50, o termo “colônia” fora substituído pelo termo “província”, com o intuito de evitar que Portugal fosse visto como uma potência colonial. Através dessa medida, Portugal tenta demonstrar que seus territórios ultramarinos não seriam colônias sob o controle de Lisboa, mas sim, terras portuguesas fora da Europa. Busca-se, assim, investir na concepção de que as províncias ultramarinas – assim como a sua população – fazem parte de uma grande nação portuguesa16.

Como dito anteriormente, até o fim do Império português, a idéia de que Portugal encontrou na África territórios desolados habitados por povos primitivos e que sua colonização foi responsável por levar para esses territórios a civilização e organização política se fez presente na mentalidade colonialista portuguesa. Contudo, como já foi salientado, a partir da década de 50, o discurso colonialista modifica ligeiramente sua essência. A partir de então, o argumento central na defesa da presença portuguesa na África baseava-se principalmente na sociedade multirracial.

Fica claro, dessa forma, a razão da adoção do pensamento luso-tropicalista pelo governo português. Os estudos de Freyre se tornam uma justificativa e um excelente discurso de defesa para a presença lusitana na África. Utilizando o exemplo da socieda-de brasileira, os portugueses passam a serem mostrados como capazes de criar socieda-des onde os homens brancos e negros convivem pacificamente sem descriminação de cor. Em um de seus discursos como líder do governo, Marcello Caetano declara a res-peito da colonização portuguesa na África:

Repetidamente se faz a demonstração de que em África não dominamos Nações nem oprimimos culturas. Repetidamente se evidencia que criamos sociedades abertas e tolerantes, sem discriminação racial, onde está em curso a mais generosa e fraterna experiência de convivência dos homens no meio tropical, na seqüência do que foi feito e está à vista no Brasil.17

A defesa da sociedade multirracial também se fez presente nos discursos de Anto-nio Salazar:

Que a sociedade multirracial é possível prova-o em primeiro lugar o Brasil, a maior potência latino-americana e precisamente de raiz portuguesa, e seria por-tanto preciso começar por negar esta realidade, além de muitas outras, para recusar a possibilidade de constituição social desse tipo em território africano.”.18

Na segunda metade do século XX, o Império Ultramarino entra em crise. Inici-almente, por motivo das crescentes criticas internacionais por parte da ONU, dos paises africanos independentes, das potências européias e dos Estados Unidos. Porém, na dé-cada de 60, a crise do Ultramar se intensificou ainda mais com o início da luta pela in-dependência das “províncias” portuguesas.

A partir dos anos 60, o luso-tropicalismo passou a ser denunciado por guerrilheiros e líderes intelectuais, como o Amílcar Cabral e Mario de Andrade,19 como sendo uma ideologia pragmática que visava esconder a verdadeira relação portuguesa com suas colônias. Todavia, em um regime, como o de Salazar, marcado pela repressão, discursos e idéias contrárias ao projeto colonizador não eram aceitos e eram violentamente combatidos.20

O ano de 1961 foi marcado pelo início do conflito entre os nacionalistas angolanos e os colonialistas portugueses. No dia 4 de fevereiro daquele ano, Luanda – capital de Angola – se tornou palco de uma série de ataques contra postos militares e policiais.21 Logo, os nacionalistas das demais colônias portuguesas seguiriam o exem-plo dos guerrilheiros angolanos e passariam a lutar pela independência de seus territó-rios. Nasciam, então, as lutas de independências das colônias portuguesas. A chamada Guerra Colonial, ou Guerra do Ultramar, teve seu desfecho apenas em 1974, com a Re-volução dos Cravos em Lisboa, que depôs Marcello Caetano, o então Presidente do Conselho de Ministro.

Após a eclosão da Guerra do Colonial, o governo português necessitou modificar parte de suas políticas coloniais, com o objetivo de captar o apoio da população africana de suas “províncias”. Em setembro de 1961, fora realizada uma grande reforma nas colônias. A abolição da apropriação ilegal de terras, assim como a supressão formal do indigenato e do trabalho forçado22, são alguns exemplos de medidas tomadas para atingir tal objetivo. Essas mudanças podem ser entendidas como mais uma forma de rebater as crescentes reprovações internas e externas em relação à política colonial portuguesa.

Após treze anos de conflitos com os movimentos de libertação, Portugal se encontrava bastante enfraquecido, seja no que se refere às questões políticas, econômicas, militares, ou mesmo morais. A luta constante e prolongada pela manutenção das províncias passou a representar um grande peso para essa pequena nação européia. O custeio da manutenção da guerra na África havia debilitado de maneira intensa a economia de Portugal.23 Além disso, grande parte das Forças Armadas – uma importante base de sustentação do regime – presumia que a Guerra Colonial estava longe de ter seu desfecho, e que a derrota de Portugal era uma possibilidade que se fazia presente. Nesse sentido, membros de alta patente, como o General Antônio de Spínola, – vice-chefe do Estado-Maior – passaram a defender uma solução política e não militar para o conflito na África. O discurso desses membros do exército, contra a política ultramarina do go-verno português, possuiu um papel central na queda do regime salazarista.

No dia 25 de abril de 1974, um levante militar pôs fim ao regime político que vi-gorava há mais de quatro décadas em Portugal. Este episódio ficou conhecido como o 25 de Abril ou a Revolução dos Cravos. Após a queda do regime, o novo governo, logo, estabeleceu as negociações com os grupos guerrilheiros, dando, assim, início ao proces-so de descolonização das antigas províncias.

A imagem da África é demasiadamente forte na mentalidade dos portugueses do século XX. A “missão” empreendida no continente africano e sua história naquele con-tinente marcaram profundamente a construção da identidade portuguesa. É através dessa perspectiva que se baseia a presença portuguesa no Ultramar. A África passa a ser uma razão de ser para Portugal. Além disso, os territórios africanos sob domínio português são concebidos não como colônias ou territórios dominados por Portugal, mas sim como parte integrante da Nação portuguesa. A manutenção dos territórios africanos era consi-derado como uma defesa da própria pátria-mãe, e assim sendo, a perda das províncias, além de que uma perda política, representava, também, uma perda afetiva.

Para entendermos a afirmação e a defesa da unidade do Império Ultramarino, devemos considerar os fatores econômicos e políticos por de traz dos atos e discursos de Salazar e Caetano. De fato, o luso-tropicalismo e a defesa da unidade do Império eram idéias que tinha por objetivo a manutenção da dominação portuguesa. Porém, esse tema é um pouco mais complexo. Para uma análise mais completa e profunda, é imperativo que se reflita sobre os meios que levam à construção de uma identidade nacional como a de Portugal. Esta não passa apenas pelo seu caráter político, porém, também, pelo seu caráter emotivo e simbólico, os quais oferecem um sentido ou significado para a empre-sa portuguesa, sem o qual, possivelmente não haveria ganhado ressonância junto ao povo português.

As influências lusitanas possuíram um papel fundamental na formação das sociedades africanas sob seu domínio. No entanto, a África também desempenhou um importante papel na constituição da sociedade portuguesa. Sem a África, a identidade portu-guesa como concebida durante o século XX não existiria. Isso não significa dizer que os portugueses passaram a adotar elementos da cultura africana no seu cotidiano. Porém, ao pensarmos na imagem que Portugal criou de si próprio, devemos sempre considerar a posição da África e desse “Outro” africano dentro dessa identidade.

Notas

1 Integrante do grupo de Pesquisa “África e Diáspora Negra” do Laboratório de Estudos do Tempo Pre-sente, coordenado pelo Prof. Dr. Silvio de Almeida Carvalho Filho.

2 Editorial de O Mundo Português, 2, julho-agosto de 1935, p.218. Apud. BENDER, 1980, p.25.

3 BENDER, 1980, p.24-25.

4 THOMAZ, 2002, p.92

5 THOMAZ, 2002, p.88

6 THOMAZ, 2002, p.89-90

7 BENDER, 1980, p.21.

8 THOMAZ, 2002, p.62

9 THOMAZ, 2002, p.75.

10 HENRIQUES, 2004. p.52-53.

11 FREYRE, 1940, p. 43.

12 BENDER, 1980, p. 45.

13 FREYRE, 1940. p.42.

14 THOMAZ, 2002. p. 282.

15 THOMAZ, 2002. p. 284.

16 BENDER, 1980. p.6.

17 Discurso proferido em junho de 1971. CAETANO, 1973 p. 55-56.

18 Discurso proferido em 1966. apud BENDER, 1980. p. 43

19 Amílcar Cabral e Mario de Andrade foram dois importantes líderes na luta de libertação das colônias africanas de língua oficial portuguesa. Amílcar Cabral nasceu em Cabo Verde e Mario de Andrade em Angola.

20 THOMAZ, 2002, p. 285-286.

21 ANDERSON, 1966, p.102.

22 LINHARES, 2005 p. 59.

23 LINHARES, 2005. p.59.

Referências

ANDERSON, Perry. Portugal e o Fim do Ultracolonialismo. Rio de janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1966.

BENDER, Gerald J. Angola Sob o Domínio Português: Mito e Realidade. Lisboa: Sá de Costa Editora, 1976.

FREYRE, Gilberto. O Mundo que o Português Criou. Rio de Janeiro: Jose Olympio, 1940.

HENRIQUES, Castro Isabel. Os Pilares da Diferença: Relações Portugal-África. Sé-culo XV-XX. Casal de Cambra, Ed. Caledoscópio, 2004.

LINHARES, Maria Yedda Leite. Descolonização e Lutas de Libertação Nacional. In: FILHO, Daniel Aarão Reis; FERREIRA, Jorge; ZENHA, Celeste (orgs.). O Século XX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. v. 2.

THOMAZ, Omar Ribeiro. Ecos do Atlântico Sul: Representações sobre o terceiro im-pério português. Rio de Janeiro: Editora UFRJ/FAPSP, 2002.

CAETANO, Marcello. Razões da Presença de Portugal no Ultramar. Lisboa: 1973.
CAMPOS, S. A África e o "outro" africano dentro da identidade nacional lusa. Rio de Janeiro: Revista Eletrônica Boletim do TEMPO, Ano 3, n. 08, Rio, 2008. [ISSN 1981-3384]
in TEMPOPRESENTE.ORG

René Pélissier O francês com uma paixão pela África portuguesa


René Pélissier

O francês com uma paixão pela África portuguesa


Leonor Figueiredo

O historiador francês René Pélissier apaixonou- se pela nossa história colonial. E, apesar de não o dizer, adivinha-se que se enamorou do País e dos portugueses "mas de uma forma lúcida". Nesta relação ainda mal esclarecida que dura desde a adolescência, ainda não parou de escrever sobre o nosso passado e queixa-se de não ser reconhecido por Portugal. Em França, os adeptos do tema também não devem ser muitos. Apresenta-se René Pélissier, um homem só.

No livro que acaba de lançar, previne que não se trata de "libelo nem acusação" a Portugal. Mas isso esperar-se-ia de um historiador?

Só o historiador ideal é imparcial. A objectividade é uma fábula prisioneira de preconceitos, ideologias, antipatias e nacionalismo. Mas para a história colonial portuguesa basta consultar os autores de língua inglesa. Há séculos que a maior parte a denuncia como negreira, arcaica, brutal e incapaz: a quinta essência do ultracolonialismo sob os trópicos.

É a sua grande obra, fruto de 40 anos de pesquisa, muito mais do que a compilação de livros anteriores?

Certamente. É o meu testamento historiográfico em honra dos portugueses, se quiserem abrir os olhos sobre a sua história colonial recente. Nos livros anteriores, sobre a conquista de Angola, Moçambique, Guiné e Timor, fiz uma análise profunda do avanço da fronteira colonial. Mas faltava a visão global e o estudo da progressão da implantação no império. Neste livro para o grande público, não posso pormenorizar, o leitor ficaria perdido no formigueiro cronológico de 490 operações militares. É uma síntese documentada, em que demonstro que não houve colonização sem primeiro haver soldados, na África tropical continental e Timor.

Por isso defende que a colonização começa no séc. XX, e não no XV.

Quis dinamitar o mito dos "cinco séculos de colonização/exploração". Como falar de "cinco séculos" em que o colonizador não aparece, senão na viragem do século XIX para o XX? Para destruir este mito que tanto mal fez a Portugal, nada melhor do que o estudo da sua história militar colonial desde 1800. É uma evidência que para haver colonização é preciso haver colonos. Ora, as estatísticas oficiais, apesar de frágeis, mostram que a esmagadora maioria dos colonos estavam concentrados em Luanda. Mesmo em 1900 - admitamos que havia dez mil europeus -, o povoamento branco era minúsculo. Durante décadas crescerá muito lentamente. Penso mesmo que, em 1900, metade dos futuros angolanos, no mínimo, nunca tinha visto um único branco. Sei que a África portuguesa nunca foi o Jardim do Éden, mas foi pior nas outras colónias tropicais europeias. A diferença é que as suas metrópoles nunca reivindicaram nem cinco, nem quatro, nem três (à excepção da África do Sul) séculos de colonização.

Estudou a política colonial de vários regimes. Há grandes diferenças entre monárquicos, republicanos, a ditadura militar e Salazar?

Não houve grandes diferenças entre a monarquia e a I República no plano militar, à excepção talvez de os oficiais da república não hesitarem em empregar métodos radicais. Salazar herda uma situação militar "calma", o que convém à sua visão contabilística: o império deve não só bajular o orgulho nacional da metrópole, como também contribuir para enriquecê-la. Em 1930 e 1940, era a ambição admitida por todos os colonizadores, europeus e japoneses. Salazar trouxe continuidade na gestão governamental e evitou a perda de parte ou de todo o seu império para os aliados. Mas, prisioneiro do mito da unicidade do caso português, esclerosou-se, acreditando poder escapar, só, ao desaparecimento dos impérios ultramarinos, mais ricos e desenvolvidos do que o seu. Vítima do mito dos cinco séculos, não quis ver as realidades e preparar o futuro. A sua obstinação transformou-se em pesadelo para a maioria dos portugueses, de 1961 a 1975. E bem depois.

Chamou às colónias "antídoto" psicológico para "a falta de confiança, pessimismo e complexo de inferioridade dos portugueses". Continua a pensar assim?

Não. Desde 1974-75 parece que o português médio retomou confiança no seu futuro europeu.

Mas escreveu em Explorar (1979) que os portugueses tinham nove espelhos para se verem na História.

Agora terão menos, talvez, mas a fórmula de Eduardo Lourenço continua pertinente - "Portugal é um país que nunca soube viver a sua história, senão como História Santa". Ainda há trabalho a fazer para os "jovens" historiadores ou jornalistas lusófonos. A luta continua!

Acusou alguns jornalistas portugueses de terem feito propaganda. Quando? Como bibliógrafo, chega à mesma conclusão ao ler os muitos livros que têm sido publicados?

Sim, quando os PALOP ainda eram colónias do Estado Novo e mesmo depois, nos anos das ilusões, após 1974. Agora é diferente, com a chegada de gerações de grandes profissionais. Consegui - e às vezes foi difícil, pois certos editores portugueses não sabem o que é um serviço de imprensa ou julgam que a minha opinião não vale o custo de envio - os livros de reportagem ou de análise que estes novos jornalistas publicam sobre os PALOP e Timor. Alguns são notáveis e fazem um trabalho de historiador, o que escrevi, preto no branco, nas minhas crónicas bibliográficas internacionais na Análise Social.

A paixão por África começa aos 12 anos, ao ler a revista Science et Voyages. E o caso português?

É uma história de amor. Fiquei encantado com o Terceiro Império. O desconhecido fascina-me. Tive vocação de explorador tardia, mas obstinada! Interrogava-me: como conseguiram negligenciar os portugueses cultos, míopes pelos "fumos da Índia", a história feita pelos parentes há duas ou três gerações? Estava tão apaixonado pela mina de ouro que é a biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa que cheguei a pensar naturalizar-me português para entrar neste continente misterioso.

Porque não se naturalizou?

Por três razões: a primeira é que prefiro Fernão Mendes Pinto à poesia épica; a segunda, é que com o fim dos impérios coloniais, se tivesse exercido o meu espírito crítico como historiador não partidário, teria tido, como português, sérios problemas com a PIDE; a terceira é que fui para o terreno africano confrontar os livros com as realidades. E como não gosto dos mitos, fiquei estrangeiro, mas sempre grande consumidor de publicações portu- guesas - uma droga dura para mim, pois moro em França numa biblioteca ultramarina! - , mas livre de me exprimir, sem ser acusado de ser traidor à "nova" pátria.
Posted by Pitigril

Algumas desmitificações de Silva Cardoso

Algumas desmitificações de Silva Cardoso

Deixo umas breves notas, a título de exemplo, sobre a desmistificação que no livro “25 de Abril – a Revolução da Perfídia” o sr. general considera «ser a mais insidiosa manipulação da nossa História entre 1933 e 1975 nomeadamente nas seguintes linhas de força:

- a guerra do Ultramar foi, principalmente, um episódio da guerra entre os EUA e a URSS e não uma luta de autolibertação e desenvolvimento dos povos;

Cita os textos da autoria de José Manuel Barroso publicados no Diário de Notícias a 27 e 28 de Fevereiro de 202, intitulados: “Luanda na mesa das Superpotências” (págs. 28/29/30) e “Concentrar meios no elo mais fraco” (págs. 36/37) onde analisa e desenvolve historicamente ambos os textos.

- a guerra estava a ser ganha militarmente e a batalha do desenvolvimento atingia crescimentos sociais e económicos muito elevados;
«Bastará comparar os efectivos dos guerrilheiros que se nos opunham com os dos recrutados localmente e que combatiam ao nosso lado. Na Guiné, o PAIGC dispunha dum efectivo na ordem dos cinco mil homens, contra cerca de doze mil guineenses que se lhe opunham; em Angola, depois da derrota do MPLA na frente Leste, da apresentação e entrada para os Flechas dos duzentos guerrilheiros da primeira região político-militar do Quanza Norte, a de duzentos homens mal armados e sem dispor de qualquer apoio externo; a FNLA, cujos efectivos eram difíceis de estimar, mas que através da fraquíssima acção desenvolvida no terreno não iria além dos três mil homens, a maioria dos quais zairenses descendentes de angolanos, dispondo as forças da contra-subversão de recrutamento local perto de quarenta mil militares, alguns dos quais constituíam forças de elite como os Flechas e os TE`s representando um potencial considerável; por fim, em Moçambique, aquando dos acordos de Lusaca, a Frelimo não dispunha de mais de mil guerrilheiros moçambicanos, tendo recorrido a zambianos e tanzanianos para acabar por surgir com pouco mais de cinco mil homens, contra dez mil militares de unidade de combate especiais GE`s (Grupos Especiais) e GEP`s (Grupos Especiais de Pára-Quedistas) e uma série de unidades regulares (milícias) que, na sua totalidade, ultrapassavam as forças deslocadas da Metrópole. (Pág. 64).

«Em 1973/74 a realidade nos territórios africanos sob a jurisdição portuguesa era, sem qualquer margem para dúvidas, altamente promissora para a constituição de comunidades com padrões de vida substancialmente acima da média dos verificados nos países africanos que se tinham tornado independentes com os “ventos da História”, especialmente na década dos anos 50.» (Pág. 56)

«um território cujo padrão de vida antes do 25 de Abril era o terceiro de toda a África sub-sahariana (sendo apenas suplantado pelo da África do Sul e pela, então, Rodésia)…» (Pág. 23)

- a subversão na retaguarda e a inoculação do vírus revolucionário nas Forças Armadas foi a solução que a URSS opôs à nossa vitória militar;

Escreve: «A quebra da unidade na retaguarda iniciou-se logo após o desaparecimento de Salazar, com as indecisões de Marcello Caetano, a crise estudantil de 1968 e o movimento grevista onde o PCP, na clandestinidade, era certamente o motor.» (Pág. 85).

Refere o “descontentamento provocado em Julho de 1973, ao nível dos capitães e majores do quadro permanente que vinham lutando em África, com a publicação do Decreto-Lei 353/73” e refere as entrevistas de Salgueiro Maia à revista “Fatos e Fotos”, em que este afirmava que “o que esteve na base do chamado Movimento dos Capitães foi a legislação que punha em causa a dignidade da carreira militar”; e a de Otelo ao Expresso, na qual este abrileiro considerava uma injustiça, “ a ultrapassagem na escala de antiguidades de oficiais do quadro permanente pelos oriundos do quadro de complemento, em condições que os primeiros – aqueles que entraram para a Academia Militar depois de completarem o sétimo ano do liceu.”» (Pág. 46)

Aborda a incapacidade do governo de Marcello Caetano na resolução desta questão e que essa «incapacidade foi aproveitada pelo Partido Comunista para pôr em prática o plano que iria conduzir ao golpe comunista do 25 de Abril. As iniciativas políticas do General Spínola na Guiné dão origem a uma primeira cisão ou enfraquecimento da unidade da retaguarda que, na óptica da URSS, era imperioso promover. Para quebrar a coesão nas unidades militares actuando nas frentes de combate, foram constituídas células comunistas no seio das tropas, essencialmente formadas por oficiais e sargentos milicianos que tinham estado na génese do levantamento académico de 1968.» (Págs. 46/47)

«O virús revolucionário, segundo os planos de Moscovo, nasceu na Guiné e rapidamente alastrou pelos restantes teatros de operações, não só às unidades como igualmente a outros órgãos das Forças Armadas empenhados em debelar a subversão e proteger as populações.
(…) Também na Metrópole as iniciativas de grupos mais ou menos organizados pelos comunistas levaram a efeito acções tendentes a incrementar o espírito anti-guerra colonial como por exemplo de:
- Direcção da Organização Regional do Sul do PCP:
- Comité Directivo da Resistência Popular Anticolonial;
- Federação dos Estudantes Marxistas-Leninistas;
- Contestação da Capela do Rato (1972);
- Congresso da Oposição Democrática em Aveiro a 27 de Maio de 1973;
- Encontro de Liberais em Lisboa e 6 de Junho de 1973.
E outros eventos como greves, demonstrações de rua, etc, todos com o mesmo objectivo de quebrar a unidade na retaguarda.» (págs. 88/89).

- os autores da traição e do descalabro têm nomes e são os que, conscientemente, fizeram o jogo da URSS, isto é, o PCP e seus “compagnons de route”.»
Abstenho-me de transcrever esta parte porque a selecção é difícil dada a sua quantidade.

Um reparo: o sr. General não refere uma única vez o papel do Grupo Bilderberg, da Maçonaria e da Igreja (mormente nos padres missionários protestantes, verdadeiros agentes da CIA e alguns católicos em África que pregavam a doutrina democrática e comunista) neste descalabro trágico que marcou o fim histórico de Portugal.