sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

HOLOCAUSTO EM ANGOLA 2

HOLOCAUSTO EM ANGOLA

Neste excelente livro com 611 páginas o autor, relata minuciosamente o sofrimento nas prisões da DISA de todos aqueles que não concordavam com o regime marxista-leninista imposto por Agostinho Neto. Sugerimos vivamente a sua leitura a todos aqueles que estão interessados em saber a verdade sobre o golpe de Nito Alves no 27 de Maio de 1977, as atrocidades e violações dos mais elementares direitos do homem cometidas nas prisões de Angola. Como o livro tem copyright e não será fácil de adquirir à maioria dos que vivem em Angola e sobre tudo na diáspora, extraímos apenas alguns extractos do texto que achámos mais importantes pelo solicitamos a complacência da Editora e do Autor. Por motivos de edição tivemos de eliminar no texto os números de chamada de atenção para as fontes pelo pedimos desculpa. Muito obrigado em nome de todos.

Circunstâncias que explico no capítulo seguinte conduziram-me às prisões angolanas, numa altura em que estava profissionalmente ligado aos destinos da Diamang. Aí conheci e recolhi as narrativas dos que experimentavam na carne e no espírito a violência de uma hegemonia partidocrática sustentada pela violação constante dos mais elementares direitos, num Estado sem direito. Aí me inteirei das dimensões tentaculares do poder do MPLA, poder que era uma ameaça até para os angolanos que viviam fora do território angolano.

O período em que estive na prisão coincidiu com um dos mais violentos na história da independência da nação angolana. Recentemente, o historiador Carlos Pacheco referia-se com justeza a esse tempo de brutalidades:

Nenhum militante do MPLA, supostamente tido como opositor a Agostinho Neto, escapou a esta e a outras crueldades das forças militares e de segurança. Caso da DISA (Direcção de Informação e Segurança de Angola, cujo director era o comandante Ludy Kissassunda) que transformou as prisões e os campos de concentração em verdadeiros infernos e onde, não raro, se espancavam os reclusos nas celas e nos pátios à vista de toda a gente. Chegando mesmo a matar-se à queima-roupa. Havia agentes da segurança que, com o maior despudor, se vangloriavam perante os presos, no decorrer dos interrogatórios, feitos debaixo das maiores brutalidades, que se em Cuba se tinham fuzilado 15. 000 vermes (sic), em Angola podiam-se fuzilar muitos mais.

As afirmações sublinhadas, ouviu-as o próprio historiador da boca dos agentes Geitoeira e João Baião, durante um interrogatório de cerca de duas horas, no presídio de São Paulo, em Luanda, na tarde do dia 31 de Maio de 1977. Segundo o testemunho de Carlos Pacheco, os verdugos colocaram várias vezes um fuzil de fabrico russo em cima da mesa, alegando que estavam ali para fazer "justiça sumária", segundo vontade expressa de Agostinho Neto. E o historiador continua:

Durante três anos mantiveram-se milhares de jovens nas piores condições possíveis, em estado de privação total de liberdade, sem culpa formada, sujeitos a todo o tipo de maus-tratos. A penitenciária de São Paulo (em Luanda), por exemplo, abarrotava de presos políticos incursos em vários processos: 27 de Maio, Revolta Activa (à Revolta activa pertencia a fma-flor dissidente do MPLA), OCA (Organização Comunista de Angola), CAC's (Comités Amílcar Cabral), e assim por diante.

Os odps participavam nas barreiras de controlo e, como tinham um grande conhecimento do terreno, eram muito eficazes. Às vezes "demasiado" eficazes, como daquela vez em que o carro de um diplomata da Roménia, por não ter parado num desses controlos, numa rua de Luanda, foi atingido, de tal forma que não sobreviveu ao ataque. Eram também eles que se encarregavam de hastear, de manhã, e recolher, à noite, a bandeira do MPLA em todo o território controlado por esta força política. Este sistema de vigilância, implementado entre 1975 e 1991, tornou todos os angolanos reféns do MPLA, no território angolano. Esta limitação drástica da liberdade de circulação estava ao serviço do autoritarismo partidário e, não raro, serviu arbitrariedades de todo o tamanho. Enquanto estive no Dundo, ao serviço da Diamang, precisei de um salvo-conduto para circular na área da companhia.

Durante os anos em que permaneci dentro dos muros das prisões angolanas, de 1977 a 1980, aproveitei toda a margem de manobra para fazer dessa estada um reservatório de memórias. Tirando alguns períodos de repressão mais musculada, consegui alguma liberdade de circulação dentro da prisão — eu era para grande parte dos presos e carcereiros um cota inofensivo de quem poderiam obter algum tipo de ajuda. Um problema inicial se colocava: como registar a informação. O leitor saberá que o universo prisional é um antro de tabaco. Os invólucros dos maços de tabaco que todos deitavam fora tornaram-se o pergaminho da minha memória, permitindo a anotação de tudo o que ouvia e conversava com os companheiros de destino, num código por mim forjado, a partir da minha já remota experiência militar (Departamento de Cifra do Quartel General do Comando Militar dos Açores). Apontava grande parte do que ouvia e via quando estava só — os períodos de recreio em que os presos viam televisão faziam parte do conjunto de situações privilegiadas.

O problema maior era a saída da prisão. Como sempre, estes regimes de violência arbitrária são também alfobres de corrupção. Assim, segundo expedientes que só conheci depois de sair de Angola, aqueles que me davam apoio faziam-me chegar à prisão malas da TAP com comida, roupa, sapatos e medicamentos — com as malas vinham muitos outros produtos pedidos, que eu nem chegava a ver, para satisfazer as autoridades que favoreciam a sua entrada. Como entravam, também saíam. Dentro desses sacos vinha ainda uma folha de cartão que lhes dava forma. Esse cartão foi o meu veículo de transporte e comunicação. Ele era constituído por inúmeras folhas prensadas que eu separava cuidadosamente. Depois voltava a juntá-las, mas agora com os meus manuscritos codificados, no interior delas.

A operação seguinte consistia em voltar a dar à folha de cartão o seu aspecto original. Tudo era recomposto com o auxílio de um pouco de cola e do peso do meu próprio corpo (até as capas de uma Bíblia foram, a certa altura, um veículo insuspeito). Quanto aos sapatos, o procedimento era similar. Descoladas as forras, enchimentos e solas, aí eram escondidos muitos apontamentos cifrados. Seguiam um destino em tudo semelhante às malas. Os sapatos conheceram, no entanto, uma ajuda suplementar, a dos zairenses. Estes eram a mão-de-obra usada na prisão para a distribuição da comida e outros afazeres. Ofereci-lhes muitas vezes roupa e sapatos. Muitos deles levaram-nos calçados para o Zaire, com material escondido, na altura da sua libertação (quando fui posto em liberdade, viajei de Lisboa a Kinshasa para recuperar toda essa informação). Assim, durante cerca de três anos e meio, emigraram da prisão uns quatro mil apontamentos, narrativas do quotidiano, desabafos, pequenas histórias de vidas, denúncias, um mar de observações e conversas que preencheu os dias do meu degredo.

Quando conheci de novo a liberdade, a minha primeira missão foi descodificar todos aqueles apontamentos, pois havia o risco de eu perder a memória de muitos dos pormenores que eram essenciais para a interpretação daqueles fragmentos. Foram oito meses de trabalho diário, realizado em Lisboa e Paris. O resultado foi uma vasta documentação de recolha oral que fechei no cofre de um banco. Demorei vários anos para ganhar a coragem e a disponibilidade necessárias para transformar em livro a memória dessa experiência. O trabalho era gigantesco. Acabei por escolher dentro dessas notas um determinado percurso. O que aqui se apresenta corresponde, assim, a menos de metade dessas anotações.

São, portanto, páginas de memórias. As minhas, feitas dos rostos e das palavras dos que me confiaram os seus medos e a sua coragem, as suas histórias vividas e contadas. Por isso, também as deles, que aqui são honradas como se de mim fizessem parte, contando entre o que de mais sagrado estimo.

A memória dessas noites em que a violência abria as portas de ferro das celas sobrelotadas de gente e daquele cheiro dos dejectos humanos acumulados. O chamamento dos nomes, os berros e os pontapés, os passos de todos esses a caminho da pior tortura — com vista à extorsão de informações ou à assinatura de autos forjados — ou votados ao suplício mortal. As vozes de todos esses — uns mais contidos, outros mais impertinentes —, de vinte e sete nacionalidades, de tez e línguas diversas, alguns deles empurrados para a loucura. O choro dos que iam para a morte e o alívio dos que descobriam que o nome chamado não era o seu.

Entre essas vozes, jovens estudantes na militante procura da pátria almejada, militância não alinhada, carregando o pecado da discordância e, por isso, enclausurada entre os muros do inferno prisional angolano. Outros, presos por tão pouco: a cobiça de urna casa, um carro, um frigorífico. Os portugueses, porque alguém se queria apropriar dos seus bens (alguns trouxeram, em troca, balas no corpo), sem um mínimo de respeito pelos procedimentos diplomáticos (o mesmo desrespeito pela comunidade internacional se descobriu em alguns fóruns internacionais como a OUA e a ONU, onde foram algumas vezes solicitadas explicações aos poderes do MPLA).

A memória dos Comissários Provinciais de Malange e Benguela, que carregaram para a ambulância, que os levou para o destino do fuzilamento, a pá e a picareta com que haviam de cavar a sua sepultura. Dos 150.000 quiocos que ficaram sem médico durante mais de um ano depois de as forças do MPLA terem encarcerado arbitrariamente um dos médicos da Diamang. Dos presos seleccionados para o julgamento popular de Luanda, em 1975, condenados antecipadamente ao fuzilamento, mortos aos bocados perante uma multidão de dez mil pessoas transportadas para um estádio de futebol.

A memória de narrativas inimagináveis, como a de um rapto realizado em Kinshasa, patrocinado pelas forças do MPLA, aproveitando uma viagem oficial do Presidente Agostinho Neto; como a dos militares presos que foram transportados nos Boeing 737 da TAAG, amarrados ao chão do avião, cujos bancos tinham sido retirados; como a daquele musseque de Luanda, Sambizamba, que conheceu depois do 27 de Maio (golpe político-militar a que darei atenção em capítulo próprio) acções bárbaras de demolição — visando particularmente os tidos por participar no golpe —, onde ficaram soterradas mulheres e crianças; ou ainda como aquelas narrativas que se referiam à deslocação de tantos adolescentes para Cuba para instituições de educação que tinham a missão de os tornar pontas-de-lança dos planos de sovietização à escala internacional. Tenha-se em conta que o imperialismo soviético se baseava no credo leninista-trotskista da «revolução permanente». (...)

Da Diamang aos calabouços angolanos

Não se pode amar a África e namorar os regimes corruptos e os ditadores de opereta de África. Não se pode respeitar a soberania de um pais cujo presidente chama tropas estrangeiras para se defender do seu próprio povo e do seu exército. Não se pode apregoar a amizade com os africanos e conviver no melhor dos mundos com governos que os roubam, que os condenam à fome e à miséria e que chegam ao extremo de impedir e roubar o auxílio externo.

Miguel Sousa Tavares, Grande Reportagem, Agosto de 1998.

Navegações inversas

Desenvolvi o gosto pela escrita naqueles vinte anos em que dirigi o jornal Notícias da Azambuja. Mas a vontade de escrever um livro sobre Angola vem desde os primeiros dias em que pisei aquele solo africano e conheci um povo que aprendi a admirar. Estava-se precisamente na altura em que a jovem nação independente ensaiava os seus primeiros passos.

Em 1974, eu exercia as funções de administrador concessionário do Hospital de S. Francisco em Lisboa. A agitação social que se seguiu à «revolução dos cravos» teve um impacto grande no funcionamento desta clínica, ao tempo, a maior do país (cheguei a contar com a colaboração de 160 médicos); todos os dias, recebia notícias sobre a diminuição do pessoal médico. Por outro lado, sabia da prisão de alguns dos meus conhecidos. Recordo aquele dia em que, passando junto da sede da CUF (Companhia União Fabril), vi um aparatoso dispositivo militar — tinham acabado de prender o Dr. Jorge Mello. Destino mais dramático teve o Dr. Manuel Braamcamp Sobral, deputado e meu amigo, que acabou por falecer no meio desta agitação. O êxodo dos gestores para o Brasil e para a Europa já tinha começado, e eu próprio começava a equacionar a possibilidade de novas escolhas na minha vida, uma vez que a clínica não podia corresponder já aos meus objectivos empresariais.

A Diamang surgiu no meu horizonte através de um outro interesse. O Dr. Lopes Cardoso, director dos serviços culturais da Diamang, tinha estimulado o meu interesse pelo Museu do Dundo, instituição que tinha a marca da dedicação do comandante Ernesto de Vilhena, durante muitos anos presidente da Diamang, que procurou adquirir aquilo que de valor encontrava pela Europa para o fazer regressar ao seu meio de origem. Este museu era bem conhecido nos meios museológicos, sobretudo através dos seus cuidados catálogos, publicados entre 1946 e 1975. Na qualidade de director do Museu da Azambuja, conhecendo bem as publicações do Museu da Diamang, depressa percebi que tinha de visitar aquela catedral da arte quioca. A data da independência de Angola aproximava-se — estava marcada para 11 de Novembro de 1975 —, e eu receava que depois dessa data tudo fosse mais difícil. Em Outubro de 1975, com o apoio diligente do Dr. Lopes Cardoso, empreendi essa viagem com destino ao Dundo.

Fui recebido no aeroporto pelo general Diogo Neto, que fora membro da Junta de Salvação Nacional, presidida pelo general Spínola, mas se encontrava agora em Luanda com a missão, entre outras, de dirigir a actividade de uma frota de helicópteros cuja principal incumbência era a fiscalização das minas. Foi uma recepção acolhedora que me deu a conhecer um homem apaixonado por Angola. No entanto, como a intolerância do MPLA para com os militares portugueses se avolumava, Diogo Neto abandonou Angola ainda antes da independência.

Aqueles quinze dias foram de descoberta. Sob a extraordinária hospitalidade do Eng. Mário Paiva Neto, administrador da Diamang, e da sua esposa, Dona Flora, visitei o museu, mas também muitos outros equipamentos instalados nos 50.000 km2 da concessão — a central hidroeléctrica, as oficinas, as áreas residenciais de grande qualidade, as instalações ligadas à pecuária, etc. —, e conheci as dificuldades que eram impostas pelas circunstâncias ao funcionamento da empresa. Dos dois mil funcionários, restava menos de uma centena. Como as estradas entre a Lunda e Luanda estavam bloqueadas, a empresa contratou aviões Hércules do Canadá , meio sem o qual não seria possível a distribuição de alimentação, vestuário e combustíveis, ou seja, não seria viável a sobrevivência.

Regressei a Portugal. Aí os acontecimentos continuavam a precipitar-se. Assim que voltei à clínica, recebi a visita de um agente policial que me notificou para estar presente numa reunião no Ministério do Trabalho. A mesma nota foi entregue na minha residência.

Fiz-me acompanhar do meu adjunto, Alfredo Freire. Eu tinha algumas suspeitas acerca da finalidade de tal convocação. Numa reunião de algumas dezenas de pessoas, quase todas desconhecidas, foi-nos comunicado que a partir daquele momento a clínica ficava sob "controlo operário."

Nesse dia regressei a casa profundamente desanimado, a pé, porque não circulavam táxis, e tomei a decisão: dirigi-me a casa do Eng. Carlos Abecasis, presidente da Diamang, e ofereci-me para trabalhar nesta empresa, em Angola. Começava uma nova fase na minha vida, numa empresa que me fascinava, e onde vim a realizar grande parte do meu esforço empreendedor, em sectores como a saúde, a agricultura, a pecuária, os transportes aéreos, a gestão dos abastecimentos, etc. Poucos dias depois já eu voava rumo a Angola. Nesse voo — o último antes da independência angolana —, para além de mim, do presidente e de um outro administrador da Diamang, apenas viajava uma pequena comitiva de militantes do Partido Comunista Português, que se deslocava com o intuito de chegar a Angola antes da declaração de independência — ao todo, cinco passageiros num Boeing 747.

Recordo bem esse 9 de Novembro de 1975. Aproximava-se o dia da independência. Eu chegava, mas muitos empreendiam a navegação inversa. Nas imediações do aeroporto de Luanda amontoavam-se caixas e caixotes, malas e sacos, e outros volumes, e gente, numa azáfama inquieta de rostos marcados pela desilusão. Eu chegava, eles partiam, êxodos inversos que se cruzavam naquele palco de uma das maiores pontes aéreas jamais vistas. A mim, coube-me o privilégio de ser convidado do presidente da Diamang, o Engenheiro Carlos Krus Abecasis, que me instalou com ele no complexo da Diamang, em Luanda, as mesmas instalações que acolheram Savimbi em 1992. Já nesse edifício da Diamang, em Luanda, conheci o então major, hoje brigadeiro, Mariz Fernandes, de quem herdei algumas responsabilidades. Segundo o Alto-comissário Comodoro Leonel Cardoso, permaneceriam no território uns trinta e quatro mil portugueses, tendo já abandonado o território angolano uns quatrocentos mil. Neste número não deveriam estar contabilizados os milhares de portugueses e estrangeiros, talvez uns cento e quinze mil, que abandonaram Angola com destinos como África do Sul, Brasil, Zaire, França, para além de Portugal (muitos açorianos optaram por recomeçar a sua vida nos EUA).

Foi no dia 18 de Setembro de 1975. O almirante Leonel Cardoso usou a palavra pública num discurso difundido naquela que era, na altura, a emissora oficial angolana. Eram palavras de estímulo em relação ao futuro, que procuravam prevenir para a infelicidade que se podia adivinhar, mas que dão conta, também, da precipitação que arrastaria para o desastre o jovem país:

A independência terá de ser digna do povo angolano e desta orgulhosa nação. E é tal a confiança que Portugal deposita nas boas gentes desta esperançosa terra, que decidiu retirar de Angola todas as suas Forças Armadas antes do dia 11 de Novembro. A despeito de ter ficado acordado com os Movimentos de Libertação que poderíamos prolongar o período de retirada até 29 de Fevereiro do próximo ano, não o faremos. Assim não haverá tropas portuguesas em território angolano depois da independência [...]. Aos portugueses que estão resolvidos a partir, não lhes pedirei que fiquem. Apenas lhes peço que pensem bem antes de abandonarem uma realidade perturbada e inquietante mas promissora, por um futuro cheio de incertezas e dificuldades, antes de deixarem o que, com o vosso esforço, construíram ao longo dos anos, para irem começar vida nova em condições adversas [...]. Aos angolanos que a falta de segurança fez regressar às terras de origem, não lhes pedirei que regressem aos seus lugares de trabalho tradicionais e aos seus lares abandonados. Apenas lhes peço que considerem essa possibilidade e que não percam a esperança de em breve reconstruírem as vossas vidas. Angola precisa de todos os que a amam. Todos não serão demais neste enorme e promissor país que, em vez dos seus escassos seis milhões de habitantes, tem necessidades de, pelo menos, sessenta milhões.

No dia 1 de Novembro de 1975, já todos tinham percebido que não havia qualquer hipótese de conciliação dos diversos movimentos independentistas, apesar das pressões da OUA e de vários estadistas africanos. Em declarações a um semanário angolano, transcritas no Jornal de Angola, o Alto-comissário Comodoro Leonel Cardoso punha condições à sua participação nas cerimónias da independência:

Só com um Movimento eu não entrego o poder. Não vou às cerimónias de posse desse Movimento. Mas se um outro Movimento quiser vir, ainda aceito que se faça a cerimónia com dois Movimentos.

No dia 10 de Novembro de 1975, no Palácio do Governo, horas antes de, sob escolta terrestre e aérea, abandonar o solo angolano, o Alto-comissário leu uma mensagem: http://pissarro.home.sapo.pt/memorias21.htm

Dirijo-me a vós, neste momento único da história dos nossos povos, em que Angola vai nascer para a comunidade das nações e Portugal se retira definitivamente do continente africano [...]. Lamento sinceramente não me ser possível tomar parte em qualquer cerimónia comemorativa na hora maior da vida do povo angolano, dado que, fazê-lo nas actuais circunstâncias, equivaleria da parte de Portugal a uma ingerência nos sagrados direitos que assistem àquele povo de decidir o seu próprio futuro [...]. Portugal tentou, mas o impasse manteve-se até ao fim [...]. Nestes termos, em nome do Presidente da República Portuguesa, proclamo solenemente [...] a independência de Angola e a sua plena soberania, radicada no povo angolano, a quem pertence decidir das forças do seu exercício.

Quando no dia 11 de Novembro foi declarada a independência de Angola, eu estava no Consulado de França correspondendo a um convite do Cônsul, e foi aí que vi e ouvi o festival de tiros, balas e fogo que incendiava o entusiasmo e, por outro lado, despertava a apreensão. Segundo informações reunidas por Juan Benemelis:

A 11 de Novembro, dia da declaração unilateral da independência por parte do MPLA, existem mais de 7000 soldados cubanos nesse país. Durante os meses de Dezembro e Janeiro a escalada cubana, OPERAÇÃO CARLOTA, acelera-se, elevando primeiro a 12.000, depois a 22.000 e, finalmente, em Março, a 37.000 soldados as forças estacionadas em Angola. No entanto, existe no teatro bélico o equivalente a duas divisões cubanas, reforçadas com artilharia, tanques, aviação, helicópteros, etc. Em Fevereiro, a escalada logística soviética ultrapassa os 400 milhões de dólares.

A celebração da independência não escondia a vertigem da violência que já se desenhava. A pouco mais de dez quilómetros do local das cerimónias, mais precisamente numa povoação chamada Quifandongo, travava-se uma luta sangrenta: o Movimento de Holden Roberto pretendia conquistar Luanda a fim de impedir a proclamação unipartidária da independência da República Popular de Angola. Enquanto o MPLA exaltava as virtudes gloriosas da independência e da unidade nacional, os membros da FNLA que se deslocavam do norte para Luanda eram chacinados pelas armas do MPLA coadjuvadas pelo fogo cubano — os acordos de Alvor estavam cada vez mais condenados ao fracasso. (...) Ler: http://petrinus.com.sapo.pt/batalha.htm

A Diamang

As minhas primeiras responsabilidades incluíam todo o sector dos transportes aéreos e a colaboração com o Dr. Bernardo Reis no departamento, de abastecimentos. O mundo era vasto — casas de trânsito, cantinas, hospitais, trabalhadores, etc. — e exigia a contínua utilização de meios aéreos. Durante mais de um ano dirigi, assim, missões de transportes, com Hércules canadianos, de e para vários países; entre outros, Portugal, Camarões, Malawi, Botswana, Congo, etc. Os transportes aéreos faziam parte do meu pelouro, mas fotografias como a que era apresentada viriam a ser matéria suficiente para prosseguirem com a acusação de que eu era membro da CIA.

Mas a minha memória não se confina às recordações do que eu próprio fazia, ela evoca também o trabalho de tantos outros e os acontecimentos, uns pitorescos, outros surpreendentes e alguns assustadores em que me vi envolvido. Por vezes, despertava-se-me o espanto perante factos do mundo zoológico que eu desconhecia por completo. Lembro que, no Dundo, eu gostava de passear à noite por aqueles arruamentos ladeados por mangueiras. Foi numa dessas noites. A dada altura, começo a ver muita gente nas ruas, vozes de contentamento, tudo à cata de uma espécie de térmites que tinha invadido aquele espaço urbano. O contentamento era para mim um enigma, só decifrável quando verifiquei que a população fazia da bicharada um petisco — os quiocos chamavam-lhe tulango.(...)

O inferno prisional

Começo da viagem

A minha história pessoal acabou, assim, por se cruzar com os destinos da Diamang, na medida em que a minha viagem pelos calabouços angolanos coincidiu com o próprio processo de nacionalização da empresa.

No âmbito das minhas atribuições, na Diamang, vi-me na necessidade de ter de procurar no estrangeiro os alimentos e outros bens necessários ao funcionamento da companhia. Para isso contava com os aviões Hércules alugados à companhia canadiana. Esta era a solução mais viável diante dos 1400 km que separavam o Dundo de Luanda. Não se perca de vista que a insegurança que se vivia tornava perigosas muitas das vias terrestres

Chefiando várias missões do Hércules que fazia tais deslocações, podia, frequentemente, comprar algo daquilo que, em território angolano, seria impossível encontrar: o Herald Tríbune, a revista Times e o Financial Times, bem como vários jornais franceses, que eram algumas das minhas compras favoritas. Na minha casa, foram-se, assim, acumulando vários destes exemplares.

Alguém me chamou a atenção para algo fora do comum. Acontecia no porto. A tripulação canadiana acompanhou-me numa viagem de carro até ao porto. Aí, vi um barco de aspecto tosco, cheio de crianças e adolescentes, ultrapassando largamente a lotação, apresentando condições sanitárias de uma precariedade indescritível. Os canadianos ficaram à distância. Eu consegui aproximar-me um pouco mais. Tratava-se de um conjunto de crianças e adolescentes deslocados, dando testemunho das tentativas de despovoamento de Cabinda. Quando regressei ao Dundo, percebi que alguém, de entre a tripulação canadiana, tinha feito um registo fílmico daquela visão deprimente. Não tardou que eu fosse procurado pelos disas e que estes me exigissem a entrega do filme. Entrei em contacto com um dos membros da tripulação canadiana e recebi a indicação de que o autor do filme estava de férias em Londres. Fiquei de pés e mãos atadas, uma vez que nem tinha o filme nem maneira de chegar até ao seu autor. A partir desta altura senti que uma certa vigilância começava a dar lugar à perseguição, anunciando um desfecho pouco favorável ao desenvolvimento das minhas actividades em Angola.

Nos finais de Fevereiro de 1977, tinha eu acabado de regressar de Douala, nos Camarões, quando ouvi, surpreso, voz de prisão, sob as ordens do chefe da DISA no Dundo (embora eu não lhe conhecesse, até então, tais funções), um daqueles a quem não escapava nenhuma das minhas viagens na mira de obter para si a satisfação de qualquer necessidade ou extravagância. A noite tinha caído e eu estava já deitado. A campainha tocou, denunciando a violência que se avizinhava. Já a porta estava praticamente violentada quando lá cheguei para a abrir. A chave foi-me imediatamente confiscada e eu fui deslocado para uma moradia onde estavam já outros detidos (alguns da Diamang). O interrogatório foi cerrado, mas não conseguiram de mim mais do que um silêncio perplexo.

Tinha começado a minha viagem de degredo. Primeira estação, a Casa de Reclusão: homens e mulheres circulam vergados sob as marcas da humilhação e da violência desmedida; as primeiras ordens são para que nos dispamos, eu e os outros seis funcionários da Diamang que conheceram a mesma viagem; um estrado foi o único lugar possível de espera; dos parcos haveres que comigo levava deixaram-me apenas a roupa que tinha no corpo (situação que me acompanhou desde este três de Março de 1977 até finais do mesmo ano, altura em que, já na Cadeia de São Paulo, a minha esposa me pôde prestar assistência, levantado que foi o regime de incomunicabilidade). Exibiram a nossa nudez diante daqueles que por ali passavam, homens e mulheres, enquanto revistavam os nossos corpos e as nossas roupas. Depois desta recepção fomos instalados nas celas.

A primeira semana de cativeiro na Casa de Reclusão foi um verdadeiro baptismo de horror. Os gritos que, causados por torturas, habitavam a noite tornavam-na insuportável; semeavam em nós um medo dilacerante que crescia na incerteza do que sucederia no dia seguinte (o Major Tonton, de quem ainda falarei, confessou que temia mais estas torturas do que a própria morte); nem os muros continham a violência dos bramidos.

Nas conversas possíveis fui descobrindo que parte dos reclusos não conhecia a acusação que sobre eles pendia; alguns estavam convencidos de que a sua prisão era apenas o contexto favorável para o assalto aos seus bens; outros viviam sob a acusação de pertencerem à FNLA e à UNITA — esses mesmos eram prioritariamente escolhidos para as sessões de tortura. Zeca Pinho — um dos altos responsáveis da Casa de Reclusão de que damos notícia — tinha carta branca de Onambwe para presidir a tais liturgias de sangue e nervos.

Quando a noite caía, Zeca Pinho descia do Comando, no 1.° andar, até ao rés-do-chão onde estavam as celas. Acompanhava-o um séquito de peritos: Tira Ranho, Cemitério, Talahady, entre outros. Não vinham sós — não faltava já a companhia do álcool e da liamba. As luzes da Casa de Reclusão acendiam-se num cânone de pânico crescente. Quando abriam as celas chamavam os eleitos, já previamente designados e inscritos numa lista que acompanhava aquela procissão de carrascos. O chamamento das vítimas era auxiliado por perguntas provocatórias e "reeducadoras": "És do MPLA?", "Quem manda em Angola?"... Ao cortejo dos carrascos juntava-se, então, uma procissão de vítimas que tomava a direcção do 1.° andar até ao teatro da pancadaria, já previamente preparado para tais fins.

Quando me foi dada a permissão de ir tomar um pouco de sol, pude verificar, de modo mais amplo, os resultados daquelas noites de selvajaria. Abundavam os rostos desfigurados, os membros derreados, as feridas abertas, as cabeças chagadas, os corpos que recusavam a roupa porque se encontravam revestidos de escoriações — era o meu baptismo no inferno dos piores horrores.

Era já noite quando me transferiram para a Cadeia de São Paulo, não sem antes me tirarem os óculos, objecto que acharam dispensável na minha nova morada. Essa privação, à medida que os meses passavam, trouxe-me sérios prejuízos. Já em São Paulo ousei perguntar pelo economista Rui Castro Lobo e pelo médico Manuel Videira, meus colegas na Diamang, mas a resposta foi já no jargão da cadeia: um abrutalhado bofetão.

A cela do meu destino, nos seus cerca de 150 cm por 120 cm de nojo, tinha apenas um buraco que servia as funções de retrete; a água, não a pude ali conhecer. Para me deitar, faltava o espaço necessário — as pernas eram obrigadas a ficar na vertical, encostadas a uma das paredes.

Ao segundo dia, os interrogatórios continuaram. Hélder Neto, director da DISA, fez as honras da casa. A pergunta rebentou nas minhas mãos, como se de uma bomba de espanto se tratasse: "Quem te fez agente da CIA, quem te mandou vir para Angola?". Não consegui melhor do que uma resposta curta e estupefacta: "Nada tenho a ver com a CIA". Hélder Neto, com aquele ar de vitória ignorante, abriu uma das minhas pastas, roubadas no Dundo, para exibir os vários jornais estrangeiros que eu comprara na minha última viagem. Tentei introduzir alguma razoabilidade naquele diálogo, procurando que o inquisidor percebesse que aqueles eram jornais e revistas que eu já lia quando vivia em Lisboa e que nada tinham a ver com a CIA. Mas as "provas" não estavam esgotadas. As fotografias eram as provas que faltavam.(...)

A explicação de que se tratava de uma cerimónia civil na Azambuja, onde tinha sido presidente da Câmara, não me livrou de umas coronhadas furibundas na busca impaciente de uma qualquer confissão. A minha falta de cooperação prolongava o suplício e multiplicava as acusações como aquela que acompanhou a descoberta de um número já antigo da Paris-Match — prova de que eu seria, com certeza, da polícia política francesa. A sessão prolongou-se até à exaustão, e quando regressei à cela carregava já a ameaça de que seria fuzilado. Mas, duas semanas passadas, a sorte não sorria a Hélder Neto: enredado no assalto à cadeia empreendido pelas forças de Nito Alves viria a suicidar-se (segundo alguns testemunhos). Das informações que obtive dos zairenses, concluí que na confusão do assalto as minhas pastas acabaram por ser destruídas, e, de facto, nunca mais fui importunado com perguntas acerca do seu conteúdo.

Fonte: http://pissarro.home.sapo.pt/

sábado, 31 de janeiro de 2009

LIBERTAÇÃO E QUESTÃO RACIAL

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Mais um precioso post do WR, agora sobre os problemas raciais nos movimentos de libertação africanos (no caso, portas dentro do MPLA), pode ler-se aqui e a que se promete dar continuação.

O post do WR, numa leitura imediata, induz (pelo menos, isso aconteceu-me) uma leitura taxativa de que o problema racial era um problema em si. Pela minha parte, penso que, se existia um problema racial de facto (que mais não fosse como reflexo de resposta a uma sociedade colonialista, assente ela própria no racismo, segregando um racismo preto em resposta ressentida e imediatista ao insuportável racismo branco), a sua dimensão e motivação mais preocupantes, se assim se pode dizer, extravasavam as barreiras raciais e apontava para outras fracturas e níveis de ressentimento (funcionando mais como pretexto que como causa). O facto é que a maioria das elites dos movimentos de libertação (MPLA, Frelimo, PAIGC) foram politizadas no seu contacto com o marxismo-leninismo aprendido (e, na maior parte das vezes, treinado e praticado) na Europa (por exemplo, na Casa de Estudantes do Império, em Lisboa). E, por razões de estatuto sócio-económico-cultural, uma grande parte dessa elite era constituída por africanos brancos ou mestiços (Marcelino dos Santos, Lúcio Lara, Mário Andrade, Amílcar Cabral) porque eram os brancos e os mestiços que mais hipóteses tinham de frequentar a Universidade em Portugal. Para além de que, paradoxalmente, eram os melhor aceites na aprendizagem de luta nos movimentos estudantis e no antifascismo metropolitanos. Naturalmente, para os africanos negros (e a grande massa de combatentes só podia ser de negros), havia uma espécie de percepção de fatalidade – passar do domínio dos colonialistas brancos para o mando de uma nova camada dirigente independentista onde grande parte dos lugares de destaque estava ocupada por mestiços e até alguns brancos. Ao mínimo problema de divisão ou de agudização das dificuldades, impostas muitas vezes pelas próprias agruras da luta armada, como não cair na tentação de simplificar os problemas de clivagens vendo nesses mestiços e nesses brancos a “continuação da supremacia colonial”?

Já no terreno da luta armada, essas elites iam disputar a repartição de lugares no quadro dos movimentos. Enquanto os movimentos de marca mais primária nos seus objectivos de transformação das realidades (FNLA, UNITA) tinham assumido uma dicotomia preto-branco e o facto de os brancos independentistas e mestiços estarem no MPLA levou a que não só a propaganda usasse este facto para diminuir a penetração do MPLA, apontando-o como um “movimento de mestiços”, como acabou por contaminar o interior do próprio MPLA com a questão racial. E a tal ponto que, por iniciativa de Viriato Cruz (um mestiço não escolarizado nem politizado em Portugal), os brancos e mestiços dirigentes do MPLA se auto-excluiram da direcção política (casos de Viriato Cruz, Lúcio Lara, Mário Andrade e mais alguns quadros de pele branca) para não darem “pretextos de propaganda” à FNLA e UNITA. Esta “cedência”, mais tarde rectificada, teve a importância de introduzir, de forma irreversível, a questão racial dentro do MPLA. Mas se olharmos o que se passou em Moçambique e Guiné, onde as questões raciais não têm a mesma história nem sequer pretexto idêntico, mas existiram e foram agudos (porque é que Marcelino dos Santos e Jacinto Veloso nunca passaram além de “eminências pardas” do regime frelimista?) (porque é que a imensa autoridade e prestígio de Amílcar Cabral nunca conseguiram solucionar a contradição guinéus-caboverdianos e pagou essa incapacidade com a própria vida?), não é caso para se confirmar que, na luta pelo poder, no quadro de estruturas de matriz marxista-leninista, qualquer pretexto serve (por via do próprio afunilamento de supremacia na pirâmide do “centralismo democrático”) para separar dirigidos e dirigentes, criando fracções e bases programáticas tantas vezes improvisadas e a disfarçar razões mais primárias de luta pelo poder. E movimentos construídos para libertarem povos e países de domínio colonialista e racista com séculos de poder absoluto e brutal poderiam libertar-se da ganga da contaminação dos problemas a resolver?

Estas algumas achegas para alimentar o debate em boa hora lançado pelo WR. Suponho que, num próximo post, ele vá abordar o fenómeno nitista do 27 de Maio (que também bebeu no pretexto racista, não só mas também). Espero que ele dê a sua interpretação porque é que a suposta grande alma da insurreição (Sita Valles, uma não negra de origem indiana) representava, na aparência ou de facto, a figura de eminência parda da Fracção MPLA-ML, enquanto as figuras de líderes expostos eram dois negros puros (Nito Alves e José Van Dunen), sendo certo que um numeroso lote de brancos e mestiços do MPLA engrossaram as hostes da ala negra nitista. E se neste último tipo de adesão, não contribuiu o conhecido fenómeno da atracção pelo radicalismo por parte de apressados em redimirem-se de pecados de cor de pele, em que uma grande parte de brancos e mestiços que se colocaram contra o colonialismo se assumiram (ou ainda se assumem, os que ainda não fizeram a via do desencanto) como os radicais entre os radicais, os mais apressados na fase da pressa e antes que o cansaço ocupe o lugar do frenesim.

publicado por João Tunes
In blog Agualisa

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Subsídios para uma história de Angola - III

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«Durante centenas de anos Angola — transformada em “mina de escravaria” — assistiu à saída forçada para o Brasil de milhares de seus naturais.
O negócio era de tal forma rendoso que o Estado tinha nele o seu principal esteio financeiro, como o atesta o seguinte passo da “História de Angola”, de Elias da Silva Corrêa:

“O mais vezivel, e constante, hé, e tem sido os direitos da escravaria; pois, hé inegável, que o giro dos escravos, fecunda grandes interesses à monarchia”.

Certamente, por verificarem quão difícil era a vida da Província assente em tão ruinosa actividade, os governadores Fernão de Sousa (1624-1630), D. Francisco de Sousa Coutinho (1764-1772) e D. Miguel António de Melo (1797-1802) tentaram, por várias formas, dar impulso às fontes de riqueza, fomentando o comércio, a agricultura e a indústria.

Esta luta em que tanto se empenharam resultou, a bem dizer, em insucesso.

Assim o reconheceu D. Miguel António de Melo, ao referir-se ao estado da agricultura, no seguinte passo do relatório do seu governo, datado de 25 de Agosto de 1802: “É este importante ramo o manancial mais seguro e primeiro da riqueza de qualquer estado, porém, apezar de ser ele tal como digo, e todos sabem, e havendo-se, por muitas vezes, experimentado aqui, por falta de chuvas, grandes fomes, é contudo aquele que se acha em maior desprezo”.

Aludindo à precária situação geral da Província, resultante do nefando tráfico, tem estas expressões de sentido tão humano:
— “não devemos emprehender mais conquistas, maiormente conservando as que temos indefezas e na lastimosa decadência que se observa, e que o nosso cuidado daqui em diante se deve encaminhar a tratarmos estes povos com suavidade e justiça, procurando fazer-lhes esquecer os danos, as violências e os males em que já por três séculos que os oprimimos e molestamos …”.

Como se verifica, abandonadas, por inércia, desleixo e apego ao lucro ilícito, as providências tendentes ao aproveitamento dos seus recursos naturais, Angola permanecia na apagada situação em que a lançara o desregrado comércio da escravaria.» in Subsídios para a história de Luanda, Manuel da Costa Lobo Cardoso, Edição do Museu de Angola - Luanda Angola,1954

Alguns aspectos da vida de Luanda antiga

( Conferência proferida na Associação Comercial de Luanda em 12 de Setembro de 1952.)

Para ler o restante artigo, ver página da Casa de Angol

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Fui para Angola como um cão, trouxeram-me como um cão e continuam a tratar-me como a um cão

ImageHabana - Angola foi um destino de calvário. As noites intensamente frias. Os amanheceres como preâmbulo de calores que convertiam a atmosfera num forno. O sono perturbado pelo cochicho dos ratos. As cobras vadiando pelos arredores a qualquer hora. Era uma grande conspiração contra o sistema nervoso. Temia-se pela vida e por aquela soma de hostilidades que deixava um vazio interno. Um vácuo de incertezas que bloqueava o acesso à razão.

Reflexões de um "Cão"

A esperança de regressar a Cuba são e salvo flutuava, com torpeza, na imaginação. Não havia garantia de consegui-lo. Bastava uma bala inimiga, uma rajada de metralhadora, uma morteirada desintegradora. Sobravam medos para deixar em suspenso a alegria de voltar ao seio da família, sentir o abraço da mãe, brindar com os amigos, pisar o asfalto para se esquecer do mato e os depredadores da selva.

A guerra arredando as suas cortinas para exibir o seu drama, os seus sobressaltos, a agonia dos moribundos, a passagem do bom senso e a demência.

Vários companheiros regressaram loucos, não puderam resistir ao peso das tensões, isso me disse Braulio do seu assento de condutor de um bici-Taxi. Sua copiosamente depois de acabar uma das suas extenuantes viagens. Nas suas pernas está o sustento da sua esposa e filhos. É a única opção num ambiente com outras crispações. "Este agora é o meu campo de batalha", assegurou-me com certo ar de resignação.

"Aqui não vou a morrer de uma "chumbada" no coração, mas entre a pedalada pelas ruas desniveladas, o clima dos trópicos, a perseguição da polícia e a dor que sinto pelo abandono das autoridades depois que expus a minha vida em Angola, é lógico que pense noutro tipo de morte". Um cancro na próstata, um enfarte, uma depressão nervosa como prévio escalão para a loucura. Isso significa o atribulado veterano como parte da sorte que poderia ocorrer nos próximos meses.

Com 18 anos fui enviado para esse país africano. Era uma missão a que não podia renunciar por causa da Lei do Serviço Militar Obrigatório imposta pelo governo actual a partir da década de 60 do século XX.

Decorria 1982 e o seu destino tomava o cheiro das selvas meridionais angolanas com os seus mosquitos transmissores do paludismo, as águas infestadas de amebas, os possíveis ataques dos combatentes comandados por Jonas Savimbi, o líder insurrecto já desaparecido.

Mais de 24 meses decorreram à mercê do azar. Regressou com a ideia de um reconhecimento da sua contribuição como soldado internacionalista. No entanto, actualmente é um homem com o ânimo à deriva. "Isto que tem feito a tantos jovens algum dia o terão de pagar", afirma com as sobrancelhas franzidas. Está incomodado. Consegue conter a ira e deixa no ar um leve suspiro que lhe serve para descongestionar a alma.

O seu irmão terminou no alcoolismo. Teve a desgraça de ficar mutilado mo fragor de um combate. Conta-me que apenas pode andar com as severas afectações numa das suas pernas e que o governo o deixou na mais absoluta marginalização.

Milhares de jovens que passaram pela provações da guerra, passam inadvertidos, esquecidos, muitos sem trabalho e outros encerrados na prisão por delitos.

"Mandaram-me para Angola como um cão, trouxeram-me como um cão e continuo a ser tratado como um cão", neste termos empreende a marcha costa acima por uma das ruas de Habana Velha.

Antes de ir-se, lhe digo que somos da mesma espécie. Ao menos assim me tem tratado desde que cheguei de Angola em 1983. Como a um cão.


* Jorge Olivera Castillo

Fonte: http://secretoscuba.cultureforum.net

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Cuito Cuanavale revisitado

Cuito Cuanavale revisitado

por Piero Gleijeses

Mapa de Angola. Este ano decorre o 20º aniversário do início da batalha de Cuito Cuanavale, no sudeste de Angola, quando as forças armadas da África do Sul do apartheid enfrentaram o exército cubano e as forças angolanas. O general Magnus Malan escreve nas suas memórias que a campanha foi uma grande vitória para as forças de defesa sul-africanas (SADF) mas Nelson Mandela não podia discordar mais: "Cuito Cuanavale – afirmou – foi a viragem para a luta de libertação do meu continente e do meu povo do flagelo do apartheid".

O debate sobre o significado de Cuito Cuanavale tem sido intenso, em parte porque os documentos sul-africanos relevantes continuam classificados. Entretanto, pude estudar os documentos nos arquivos fechados cubanos e também muitos documentos norte-americanos. Apesar do fosso ideológico que separa Havana e Washington estes documentos relatam uma história com impacto pela semelhança que têm

Analisemos os factos. Em Julho de 1987 as forças armadas angolanas (FAPLA) lançaram uma ofensiva de grande envergadura no sudeste de Angola contra as forças de Jonas Savimbi. Mas ao ver que a ofensiva estava a ter êxito as SADF, que controlavam as partes mais meridionais do sudoeste de Angola, intervieram no sudeste. Em princípios de Novembro das SADF haviam encurralado as melhores unidades angolanas na aldeia de Cuito Cuanavale e preparavam-se para aniquilá-las.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas exigiu que as SADF se retirassem incondicionalmente de Angola, mas a administração Reagan assegurou que esta exigência fosse uma Resolução sem maior transcendência. O secretário de Estado Adjunto dos Estados Unidos para África, Chester Crocker, disse ao embaixador da África do Sul nos Estados: "a resolução não prevê sanções e não estabelece nenhuma assistência a Angola. Isto não é por acaso e sim o resultado dos nossos esforços para manter a resolução dentro de certos limites" [1] . Enquanto isso, as SADF aniquilariam as unidades de elite das FAPLA.

Em princípios de 1988, fontes militares sul-africanas e diplomáticas ocidentes asseguravam que a queda de Cuito era iminente. Isto significaria um golpe demolidor para o governo angolano.

Mas a 15 de Novembro de 1987 o presidente cubano Fidel Castro havia decidido enviar mais tropas e armas para Angola: seus melhores aviões com os seus melhores pilotos, suas armas anti-aéreas mais refinadas e seus tanques mais modernos. A intenção de Castro não era só defender o Cuito, era retirar as SADF de Angola de uma vez e para sempre. Mais tarde ele descreveu sua estratégia ao líder do Partido Comunista Sul Africano, Joe Slovo: Cuba travaria a investida sul-africana e a seguir atacaria em outra direcção, "como o boxeur que com a mão esquerda o mantém e com a direita o golpeia" [2] .

Aviões cubanos e 1500 soldados cubanos reforçaram os angolanos e Cuito não caiu.

Tanque Olifant sul-africano capturado por soldados cubanos. A 23 de Março de 1988 os sul-africanos lançaram seu último assalto de maior envergadura contra Cuito. Tal como o descreve o coronel Jan Breytenbach, o assalto sul-africano "foi travado abrupta e definitivamente" pelas forças conjuntas cubanas-angolanas.

A mão direita de Havana preparou-se para golpear. Poderosas colunas cubanas estavam a avançar no sudoeste de Angola em direcção à fronteira da Namíbia. Os documentos que nos poderiam dizer o que os líderes sul-africanos pensaram desta ameaça continuam classificados. Mas sabemos os que as SADF fizeram: cederam terreno. Os serviços de inteligência dos Estados Unidos explicaram que os sul-africanos se retiravam porque estavam impressionados com a rapidez e a força do avanço cubano e porque consideravam que um combate de maior envergadura "teria acarretado grandes riscos" [3] .

Quando criança, na Itália, escutei meu pai falar da esperança que ele e seus amigos sentiram em Dezembro de 1941 ao ouvir na rádio que as tropas alemãs haviam tido que abandonar a cidade de Rostov do Don. Era a primeira vez em dois anos de guerra que o "super homem" alemão fora obrigado a retirar-se. Recordei-me das suas palavras – e do profundo sentimento de esperança que elas implicavam – quando li a imprensa sul-africana e da Namíbia em meados de 1988.

Aeródromo de Cahama. A 26 de Maio de 1988 o chefe das SADF anunciava que "forças cubanas e da SWAPO fortemente armadas, integradas pela primeira vez, avançaram em direcção ao sul a uns 60 quilómetros da fronteira com a Namíbia". A 26 de Junho o administrador general sul-africano da Namíbia reconhecia que MIGs-23 cubanos estavam a voar sobre a Namíbia, uma mudança dramática em relação àqueles tempos em que os céus pertenciam às SADF. Acrescentava que "a presença dos cubanos havia provocado uma onda de ansiedade na África do Sul".

Contudo, estes sentimentos de ansiedade não eram compartilhados pelos negros sul-africanos: eles viam a retirada das forças sul-africanas como uma luz de esperança.

Enquanto as tropas de Castro avançavam rumo à Namíbia, cubanos, angolanos, sul-africanos e estado-unidenses enfrentavam-se na mesa de negociações. Dois pontos eram chave: se a África do Sul aceitava a implementação da Resolução 435 do Conselho de Segurança das Nações Unidas que exigia a independência da Namíbia e se as partes poderiam por-se de acordo sobre um cronograma da retirada das tropas cubanas de Angola.

Os sul-africanos pareciam estar cheios de esperança: o ministro dos Negócios Estrangeiros Pik Botha esperava que a Resolução 435 fosse modificada. O ministro da Defesa Malan e o presidente PW Botha afirmavam que a África do Sul se retiraria de Angola só "se a Rússia e os seus títeres fizessem o mesmo". Eles nem sequer mencionavam retirar-se da Namíbia. A 16 de Março de 1988 o Business Day informava que Pretória estava "oferecendo retirar-se para a Namíbia – não da Namíbia – em troca da retirada das forças cubanas de Angola. Ou seja, a África do Sul não tem qualquer intenção de retirar-se do território em nenhum futuro próximo.

Mas os cubanos haviam revertido a situação no terreno e quando Pik Botha apresentou as exigências sul-africanas Jorge Risquet, que estava à frente da delegação cubana, caiu-lhe em cima com uma tonelada de tijolos: "a época das aventuras militares, das agressões impunes, dos seus massacres de refugiados acabou". A África do Sul – disse – estava a actuar como se fosse "um exército vencedor ao invés do que é na realidade: um exército agressor golpeado e em retirada discreta... A África do Sul deve compreender que não obterá nesta mesa de negociações o que não pode alcança no campo de batalha" [4] .

Ao terminar a ronda de negociações no Cairo Crocker enviou um telegrama ao secretário de Estado George Shultz dizendo que as conversações haviam tido "como pano de fundo a tensão militar crescente devido ao avanço em direcção à fronteira da Namíbia de tropas cubanas fortemente armadas no sudoeste de Angola... o avanço cubano no sudoeste de Angola criou uma dinâmica militar imprevisível" [5] .

A grande pergunta era: deter-se-iam os cubanos na fronteira? Para obter uma resposta a esta pergunta Crocker procurou Risquet. "Tem Cuba a intenção de deter o seu avanço na fronteira entre a Namíbia e Angola?" Risquet respondeu: "se eu lhe dissesse que não se vão deter estaria a proferir uma ameaça. Se eu lhe dissesse que se vão deter estaria a dar-lhe um meprobamato e eu nem quero ameaçar nem quero dar-lhe um calmante... o que disse é que só os acordos sobre a independência da Namíbia podem dar as garantias" [6] .

No dia seguinte, 27 de Junho de 1988, MIGs cubanos atacaram posições das SADF junto à barragem de Calueque, onze quilómetros a norte da fronteira da Namíbia. A CIA informou: "a maneira exitosa com que Cuba utilizou sua força aérea e a aparente debilidade das defesas anti-aéreas de Pretória" sublinhavam o facto de que Havana havia conseguido a superioridade aérea no sul de Angola e no norte da Namíbia. Uma poucas horas depois destes ataque com êxito dos cubanos, as SADF destruíram uma ponte próxima a Calueque, sobre o Rio Cunene. Destruíram-na – opinou a CIA – "para dificultar à tropas cubanas e angolanas o cruzamento da fronteira com a Namíbia e para reduzir o número de posições que devem defender" [7] . O perigo de um avanço cubano sobre a Namíbia nunca antes havia parecido tão real.

Os últimos soldados sul-africanos saíram de Angola a 30 de Agosto, quando os negociadores nem sequer haviam começado a discutir o cronograma da retirada cubana de Angola.

Apesar de todos os esforços de Washington para impedi-lo, Cuba mudou o curso da história da África Austral. Até Crocker reconheceu o papel de Cuba quando disse a Shultz num telegrama de 25 de Agosto de 1988: "descobrir o que pensam os cubanos é uma forma de arte. Estão preparados tanto para a guerra como para a paz. Fomos testemunhas de um grande refinamento táctico e de uma verdadeira criatividade na mesa de negociações. Isto tem como pano de fundo as fulminações de Castro e o desdobramento sem precedentes dos seus soldados no terreno" [8] .

A proeza dos cubanos no campo de batalha e o seu virtuosismo na mesa de negociações foram decisivos para obrigar a África do Sul a aceitar a independência da Namíbia. Sua defesa com êxito do Cuito foi o prelúdio de uma campanha que obrigou a SADF a sair de Angola. Esta vitória repercutiu-se para além da Namíbia.

Muitos autores – Malan não é senão o exemplo mais recente – tentaram reescrever esta história, mas documentos norte-americanos e cubanos relatam o que verdadeiramente se passou. Esta verdade foi expressa com eloquência por Thenjiwe Mtintso, embaixadora da África do Sul em Cuba, em Dezembro de 2005: "hoje a África do Sul tem muitos novos amigos. Ontem estes amigos referiam-se aos nossos líderes e aos nossos combatentes como terroristas e nos acossavam a partir dos seus países sempre que apoiavam a África do Sul do apartheid... hoje esses mesmos amigos querem que nós denunciemos e isolemos Cuba. A nossa resposta é muito simples – é o sangue dos mártires cubanos e não destes amigos o que corre profundamente na terra africana e nutre a árvore da liberdade na nossa Pátria".

10/Julho/2007
Notas
1) Secretário de Estado, na embaixada dos EUA, em Pretória, 5 de Dezembro de 1987, Freedom of Information Act (FOIA).
2) "Transcripción sobre la reunión del Comandante en Jefe con la delegación de políticos de África del Sur (Comp Slovo)", Centro de Información de las Fuerzas Armadas Revolucionarias.
3) Abramowitz (Gabinete de Inteligência do Departamento de Estado) ao secretário de Estado. 13 de Maio de 1988, FOIA.
4) "Transcripción no oficial. Conversaciones RPA-CUBA EEUU-RSA (Reunião Quadripartita) sessão da tarde de 24-6-88. "Arquivo do CC, La Habana." (en adelante, ACC)
5) Crocker ao secretário de Estado 26 de Junho de 1988. FOIA.
6) "Entrevista de Risquet con Chester Crocker, 26-6-88, ACC.
7) CIA, "South Africa-Angola-Cuba, ¨ 29 de Junho de 1988. FOIA; CIA, "South África-Angola-Cuba," 1 de julio de 1988, FOIA
8) Crocker ao secretário de Estado, 25 de Agosto de 1988, FOIA

Ver também:
  • Livro destaca internacionalismo dos voluntários cubanos em Angola , de Mary-Alice Waters, publicado em 03/Setembro/2002.


  • O original encontra-se em www.cubadebate.cu

    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

    ANGOLA, A GUERRA INJUSTA



    General Del Pino (foto TV 2006)

    Neste excelente livro o general Del Pino relata minuciosamente o que se passou em Cuba e na guerra em Angola. Sugerimos vivamente a leitura deste livro a todos aqueles que estão interessados em saber a verdade sobre a descolonização de Angola. Colocámos a cor diferente as partes mais críticas para melhor localização. Como o livro tem copyright e não será fácil de adquirir àqueles que vivem em Angola, solicitamos a complacência da Editora e do autor. Obrigado.

    Pg. 155. - No entanto, somente sete meses mais tarde se apresentou a Fidel outra conjuntura que prometia melhores dividendos que o país sul-americano: os militares portugueses em 25 de Abril derrubaram a ditadura de Marcelo Caetano.

    Com este acontecimento transcendental apresentava-se não somente a possibilidade de influir uma viragem à esquerda no país lusitano senão muito mais que proveitoso ainda, facilitava-se a sempre esperada oportunidade de poder intervir directamente nas antigas colónias portuguesas sem correr risco algum. De todas, a fruta mais madura era Angola e o almirante vermelho Rosa Coutinho se encarregou de oferecê-la em bandeja de prata.

    Pg. 156/167. - Em 15 de Fevereiro de 1975, fui citado para uma reunião especial no Ministério das Forças Armadas. Ali fui encarregado da missão de seleccionar um grupo de oficiais especialistas da força aérea, capazes de garantir as condições mínimas necessárias num aeródromo para o seu funcionamento e a recepção de aviões de transporte.

    Não obstante o grande segredo que se mantinha sobre a planificação daquela operação, tiveram de comunicar me onde e para quê se necessitava de activar um aeródromo, pois era a única maneira de poder organizar o grupo dos homens capazes de cumprir essa missão.

    Para meu assombro, que não estava seguindo o desenvolvimento dos acontecimentos nas colónias portuguesas de África, causou me grande surpresa saber que o aeródromo em questão se encontrava nada mais nada menos que no profundo do território da longínqua e afastada Angola.

    As explicações posteriores me foram tirando do meu desconhecimento até que cheguei a ter uma ideia aproximada do que se pretendia fazer pelo Alto Comando de Cuba. Tinham começado os planos para futura "Operação Carlota".

    Em 25 de Abril de 1974, um levantamento militar tinha derrubado a ditadura de Marcelo Caetano. Uma das principais medidas anunciadas pelo novo governo foi a decisão de dar a independência às suas antigas colónias da Guiné Bissau, Cabo Verde, Moçambique e Angola. No caso das três primeiras não existiam maiores dificuldades, pois estava bem definido o movimento independentista que tinha encabeçado a luta contra os colonialistas portugueses; no entanto, com Angola existia a dificuldade de que três movimentos independentistas que tinham lutado contra a antiga metrópole se adjudicavam separadamente a legítima representação das aspirações do povo angolano. O novo governo de Portugal consegue sentar à mesa de negociações os três líderes destes movimentos e em 15 de Janeiro de 1975 assinam na costa portuguesa do Algarve o acordo de Alvor.

    Este acordo estabelecia como data da independência o dia 11 de Novembro de 1975. Até esse dia o país seria regido pelo Alto Comissário português, um governo provisório integrado pelos três movimentos de libertação os quais teriam três ministérios cada um e o primeiro ministro seria rotativo equitativamente entre os três movimentos. Em Outubro deveriam fazer-se eleições livres para eleger a assembleia constituinte.

    O Acordo de Alvor previa forças armadas angolanas compostas por 8.000 efectivos de cada um dos três movimentos. Por sua vez permaneceriam no país 24.000 soldados portugueses para garantir a paz os quais começariam a ser evacuados paulatinamente deste o primeiro dia de Outubro até onze semanas depois de proclamada a independência no dia 11 de Novembro.

    Depois de inaugurado o governo provisório de transição em Luanda no dia 31 de Janeiro de 1975, deu-se início a uma desenfreada corrida ao armamento entre o MPLA apoiado pelos soviéticos e a FNLA apoiado pelo chineses, romenos e norte coreanos. Centenas de toneladas de armas procedentes de esses países começaram a chegar a Angola por diferentes vias para armar estes movimentos que não tardaram a enfrentar-se numa luta sem quartel.

    O Alto Comissário português almirante Rosa Coutinho, conhecido como o "Almirante Vermelho" pelas suas ideias comunistas, foi factor decisivo para que o MPLA se impusesse nesta luta pelo poder ao permitir todo o tipo de liberdade de acção à desmesurada entrada de armamento soviético e aos primeiros contingentes oficiais cubanos que, como é lógico, acudiam em ajuda ao movimento apoiado pela URSS.

    Encarniçados e violentos combates entre o MPLA e a FNLA se davam diariamente nas ruas de Luanda, até que a FNLA se viu na necessidade de abandonar a capital e estabelecer-se no norte do país.

    Em 4 de Julho de 1975, duzentos e cinquenta recrutas da UNITA foram massacrados em Luanda pelo MPLA na cidade de Luanda. Perante estes factos, a direcção da UNITA decidiu retirar da capital e concentrar-se nas cidades do planalto central de Angola. Desta maneira só ficava em Luanda o MPLA esperando a partida dos portugueses.

    Desde o início de 1975, em diversas conversações secretas tidas em La Habana entre o governo cubano, oficiais esquerdistas portugueses e dirigentes do MPLA se acordou enviar grupos de oficiais cubanos para que servissem como assessores em diversas escolas e centros de treino militar que foram organizados em vários lugares dos país. Além disso estes oficiais cubanos deviam preparar as condições necessárias que garantiram uma escalada ulterior com o envio de grandes contingentes de tropas regulares.

    A organização dos centros de treino militar correu totalmente a cargo dos cubanos, empregando armamento e equipamento militar que era fornecido pelos soviéticos em quantidades fabulosas desde Agosto de 1974. Somente nos últimos meses deste mesmo ano o MPLA chegou a receber mais de dez milhões de dólares em armas de diferentes tipos.


    O general Del Pino cumprimentando Agostinho Neto. (foto livro)

    Começou uma rápida corrida contra relógio. O eixo Cuba-URSS-MPLA considerava que quem estivesse na posse da capital no dia 11 de Novembro, data assinalada no Acordo de Alvor para a proclamação da independência, seria quem alcançaria o poder. Ainda que só a periferia urbana estivesse nas mãos do MPLA e o resto dos 1.246.000 quilómetros quadrados do imenso território angolano foi controlado totalmente pelos outros movimentos de libertação, aqueles que se encontravam em Luanda poderiam informar o mundo que eram os legítimos governantes.

    O eixo Cuba-URSS tinha valorizado muito bem que a situação mundial favorecia amplamente os seus planos. O colapso sofrido pelos Estados Unidos da América do Norte no Vietname lhe impossibilitava de acometer qualquer acção de envergadura contra a aberta intervenção comunista em Angola.

    Os soviéticos não eram bem vistos em África, mas possuíam mas tinham uma insubstituível carta de trunfo: O Cavalo de Tróia das tropas cubanas.

    Por sua vez, Cuba soube aproveitar muito bem as raízes africanas do seu povo enviando nos primeiros grupos de oficiais a maior quantidade de descendentes daquele continente que de imediato ganhou a aceitação por parte dos nativos.

    Tudo era questão de esperar e resistir sem perder a capital. Uma incrível concentração de armas e equipamento bélico esperavam dentro dos enormes aviões de transporte AN-22 o sinal para partir de diferentes aeroportos da União Soviética em direcção a Luanda, enquanto comboios de barcos zarpavam dos portos de Mariel em Cuba e Riga na URSS em direcção à África austral.

    A descomunal maquinaria bélica comunista tinha começado a andar e nada era capaz de detê-la. As tropas portuguesas comandadas pelo "Almirante Vermelho" permitiam livremente todo o tipo de movimento às forças do MPLA e aos assessores cubanos assim como a recepção e desembarque dos carregamentos de armas que ininterruptamente chegavam à capital angolana.

    Na reunião para que fui convocado em 15 de Fevereiro de 1975, eu tinha proposto o envio inicial de dois especialistas qualificados da força aérea que exploraram o terreno e depois nos informaram das condições existentes para poder enviar o resto do grupo. Desta forma a finais de Março de 1975 chegaram a Luanda o coronel Jaime Archer Silva, piloto de combate e ex-chefe da base aérea de Santa Clara na província cubana de Las Villas e o tenente coronel Ángel Botello de Ávila, especialista em logística de aviação, graduado na URSS e quem até ao momento da sua designação tinha estado como chefe dos serviços de retaguarda, também na base aérea de Santa Clara.

    A missão fundamental destes altos oficiais consistia em determinar todas as necessidades existentes para poder operar no aeroporto de Luanda independentemente dos especialistas portugueses e angolanos que ali se encontravam, assim como a base aérea de Henrique de Carvalho (Saurimo) situada no extremos norte do país.

    Em finais de Junho desse ano, somente a dois meses de se ter dado o colapso do governo pro-norte americano do Vietname do Sul, ordenaram-me partir para Saigão com o fim de estudar os diferentes aviões e tecnologia militar do ocidente ocupadas pelos Vietcong. Isto fez com que me alheei um pouco dos planos que se levavam a cabo para a nossa intervenção em Angola e no meu regresso encontrei o coronel Archer recém chegado de África com toda a informação necessária.

    Os portugueses permaneciam em Luanda mas tinham entregue ao MPLA a base aérea de Henrique de Carvalho (Saurimo). Esta apresentava o inconveniente de se encontrar muito longe da capital, a quase 1.200 quilómetros no profundo território angolano pelo que se dificultava o envio de meios logísticos para as operações dos voos que ali deviam de aterrar, fundamentalmente o combustível.

    Não obstante, para manter activo aquele aeródromo e operar os seus meios de comunicações e outras instalações enviámos em fins de Agosto, conjuntamente com o coronel Archer que partia novamente, dois técnicos de comunicações, um técnico de iluminação de pista, um engenheiro de telecomunicações, um técnico de energia especialista em geradores e centrais eléctricas, vários especialistas e operadores de equipamento de rádio-ajuda à navegação, um engenheiro em combustíveis e lubrificantes, um engenheiro em equipamento de segurança logística de aviação com a responsabilidade de atender os abastecedores de combustíveis, centrais auxiliares de arranque dos aviões (APU), equipamentos de oxigénio, etc.

    Além disso enviou-se o capitão Armengol, piloto de transporte especializado em aviões ligeiros para servir de contacto e um mecânico de aviação. Posteriormente, nos primeiros dias de Setembro enviámos o coronel Juan Céspedes, também piloto de transporte, para que voasse exclusivamente como piloto pessoal do general Diaz Arguelles, chefe principal das tropas cubanas em Angola.

    Este grupo especial da Força Aérea manteve operacionais as instalações da base aérea de Henrique de Carvalho (Saurimo) até que o general Diaz Arguelles decidiu que partissem para Luanda tendo permitido as autoridades portuguesas todo o tipo de operação no próprio aeroporto da capital e tornando-se desnecessário realizá-las ocultamente em Saurimo.

    Os portugueses entregaram vários aviões de transporte DC-3 a este primeiro grupo de cubanos da Força Aérea para que começassem a realizar voos de abastecimento logístico para diferentes zonas do país onde se encontravam oficiais cubanos, formando aceleradamente o novo exército do MPLA. Também se conseguiu autorização das autoridades portuguesas para por à disposição dos cubanos dois aviões de transporte turbo-hélice modelo F-27 e dois DC-3, todos pertencentes à companhia angolana TAA (Transportes Aéreos de Angola). Do Congo Brazzavile já se tinham trazido dois aviões de transporte militar Nord Atlas cedidos pelo presidente dessa nação Marian Nguabi e outro de Moçambique entregue por Samora Machel.

    Com todos estes aviões formamos um esquadrão de transporte que ininterruptamente durante o dia e noite começou a fazer missões de abastecimento às tropas cubanas e às do MPLA: transporte de feridos, de armamento, missões de exploração e, fundamentalmente, o transporte de Brazzaville até Luanda dos contingentes militares cubanos que continuavam chegando àquela localidade em aviões Britannia procedentes de La Habana. Para poder operar este esquadrão de transporte, desde meados de Setembro tínhamos enviado de Cuba três pilotos da Cubana Aviação, os oficiais da reserva da Força Aérea, Francisco Cuza, José Ramos Pagan e Elias Moisés Pasto aos quais se uniram os capitães no activo da Força Aérea, Efraín Muñoz Cordove, Amaury Léyva e Raul Ortiz. Junto a este pilotos cubanos participaram amplamente dois pilotos angolanos de nome Sampayo e Yardini.

    Os meses de Outubro e Novembro de 1975 foram sombrios e angustiantes. Sabíamos que a missão era manter Luanda a todo o custo pois posteriormente se efectuaria a mudança radical mas as tropas da FNLA acercavam-se perigosamente à capital pelo norte e pelo sul as forças da UNITA avançavam a uma velocidade vertiginosa apoiadas por unidades blindadas sul-africanas que começaram a penetrar em território angolano em 23 de Outubro desse ano. Não obstante ter-se recebido um considerável reforço nos primeiros dias de Outubro com a chegada de barcos cubanos que transportavam armamento e tropas, parecia totalmente que ia ser impossível deter o avanço da FNLA e da UNITA. A balança começava a inclinar-se perigosamente em favor do inimigo. Os projecteis da artilharia pesada de 140mm das forças de Holden Roberto começavam a detonar nos subúrbios da cidade.

    Pelo Este, perigosas colunas da UNITA avançavam ao longo da linha do caminho de ferro (CFB) que atravessa todo o centro de Angola unindo o porto do Lobito no Oceano Atlântico com o Zaire e Zâmbia. Estas colunas encontravam-se às portas da cidade do Luso (Luena) com a intenção de tomá-la e desenvolver a ofensiva em direcção a Teixeira de Sousa para apoderar-se por completo desta estratégica via férrea. A situação não podia ser mais alarmante.

    No dia 23 de Outubro as tropas da FNLA arremetem contra as forças cubanas ao norte da capital e são derrotadas. Cinco combatentes cubanos ficam isolados atrás das linhas inimigas e arrastando-se vários quilómetros durante a noite conseguem chegar às suas posições anteriores.

    A FNLA reagrupa as suas forças e na manhã do dia 6 de Novembro lança um segundo ataque com mais de 64 veículos blindados apoiados por uma forte e intensa preparação de artilharia. É derrotada novamente e as nossas tropas conseguem capturar os três primeiros mercenários brancos de origem portuguesa. A FNLA tinha encontrado uma forte resistência e apercebe-se de que as tropas à defesa não tem possibilidades de contra atacar e que paulatinamente se vão debilitando.

    No dia 5 de Novembro tinham partido de La Habana vários aviões Bristol Britânnia de Cubana Aviação transportando várias unidades das nossas tropas de elite das tropas especiais de assalto com o fim de reforçar a direcção norte e poder fixar o inimigo nessa frente. Simultaneamente, no próprio dia 6 ordena-se aos oficiais cubanos da Força Aérea tomar o aeroporto civil de Luanda para garantir a chegada e o desembarque das nossas tropas de elite. Ao anoitecer desse mesmo dia, o coronel Jaime Arvher conjuntamente com os oficiais da Força Aérea mais uma companhia das FAPLAS composta por 95 homens, penetram com vários transportadores blindados BTR-60 no aeroporto civil e o tomam.

    Às 21.00 hora local aterrou o primeiro Britannia tripulado pelo capitão Wilfredo Pérez e dirigiu-se ao lugar que lhe indicou a torre de controle. Esta última tinha sido também tomada pelo piloto Francisco Cuza para garantir a aterragem e a posterior direcção da aeronave em terra. Minutos mais tarde aterraram o resto dos aviões.

    As tropas recém chegadas dirigiram-se ao aquartelamento do Grafanil na periferia da cidade o qual já tinha sido entregue pelos portugueses aos cubanos, vestiram os seus uniformes de campanha e partiram directamente para a frente.

    No dia seguinte, 7 de Novembro, chega a Ponta Negra no Congo Brazzaville um barco soviético transportando grande quantidade de armamento e entre ele várias baterias de artilharia reactiva BM-21. Cinco destas máquinas com os seus módulos de projécteis foram transbordadas para o barco cubano "La Plata", o qual as conduziu directamente para o porto de Luanda. Depois de desembarcadas foram montadas no lugar durante a noite de 8 e levadas ocultadamente para a direcção perigosamente ameaçada de Quifangondo.

    Na frente sul a situação não podia ser mais desalentadora e preocupante. As colunas da UNITA apoiadas pelos blindados sul-africanos, que em 23 de Outubro tinham iniciado a sua rápida ofensiva para o norte, chocam dias mais tarde com os instrutores cubanos do centro de treino militar Nr.2 de Benguela, cercam esta cidade e o porto do Lobito e marcham aceleradamente para a capital pelas estradas que bordeiam a costa atlântica.


    Del Pino tripulando um MIG23 (foto Net)

    No dia 28 de Outubro, perante as notícias incertas e confusas que se recebiam em Luanda acerca dos nossos combatentes que tinham chocado com a UNITA na direcção de Benguela, o general Diaz Arguelles, chefe das tropas cubanas, é transportado em avião pelo coronel Céspedes até ao aeroporto da referida cidade que ainda estava nas nossas mãos. Depois de aterrar o general Arguelles ordena a Céspedes para realizar um voo de reconhecimento algumas milhas para o sul da cidade para determinar com mais exactidão qual era a posição real do inimigo. No seu regresso, depois de ter sido submetido a um intenso fogo antiaéreo Céspedes informa o general que o inimigo avança em todas as direcções com numerosas unidades blindadas e de infantaria.

    O general Diaz Argüelles ordena-lhe pedir a Luanda urgentemente outro avião de transporte para evacuar pelo ar os feridos e o resto do pessoal. Céspedes cumpre a ordem e permanece na torre de controle para garantir a aterragem deste avião pois o controlador civil, aterrado pelo que estava sucedendo abandonou o seu posto e fugiu. Aproximadamente à meia noite chegou o piloto Francisco Cuza tripulando um Nord Atlas; recolheram os feridos e o resto do pessoal, pegou fogo aos armazéns e instalações e saiu em direcção à capital. O general Diaz Arguelles apercebe-se do desaparecimento de um grupo de combatentes cubanos e decide permanecer na cidade procurando localizá-los. Não o conseguindo abandona o lugar, ameaçando com a pistola um patrão de um barco que os transporte por mar até Novo Redondo onde já se está combatendo e tratando de conter as forças da UNITA que avançam nessa direcção.

    Neste intervalo, Céspedes realizou várias missões de reconhecimento sobre as linhas inimigas e num desses voos é atingido pelo fogo antiaéreo do inimigo que lhe avaria um motor e outras partes do aparelho.

    As forças cubanas que tinham conseguido romper o cerco em Benguela e retirar-se tratam desesperadamente de conter o avanço do inimigo que no dia 8 de Novembro ameaçava apoderar-se de Porto Amboim.

    Na noite do dia 9 de Novembro duas companhias das tropas de elite chegadas a Luanda na noite de 5 são transportadas via aérea da capital até à pequena pista de Porto Amboim iluminada apenas com os faróis dos jeeps que se situaram em uma das suas cabeceiras. Com este esforço se conseguiu conter o inimigo momentaneamente e depois explodiram a ponte sobre o rio Queve para deixá-lo retido nessa direcção sem que pudessem passar para Novo Redondo.

    Aquilo se converteu numa verdadeira batalha contra-relógio. Por um lado a UNITA e a FNLA intentando a todo o custo penetrar na capital no dia 11 de Novembro, data fixada para a proclamação da independência e por outro as nossas unidades tratando de contê-los para procurar estabilizar as frentes na espera da chegada do grosso das nossas tropas para passar a acções ofensivas.

    A situação tinha-se tornado muito mais crítica pelas deserções em massa das tropas do MPLA que cheias de pânico abandonavam os cubanos em todas as frentes.

    A partir de 28 de Outubro, a contenda converteu-se para todos os efeitos numa guerra entre cubanos e as forças da UNITA e da FNLA.

    Aproximadamente às nove da manhã desse mesmo dia, o mecânico de aviação Vicente Hermán dirigia-se à frente norte para levar uma mensagem quando se apercebe que pela estrada que conduz a Luanda marchavam vários carros blindados BRDM tripulados por soldados angolanos do MPLA que aterrados se retiravam em direcção à capital. Hermán pára o seu jeep num lado da estrada, saindo do mesmo e de pé no meio da estrada começa a fazer-lhes sinais com os braços para que se detivessem. Expondo-se a ser atropelado pelo veiculo que encabeçava o grupo, consegue detê-los a menos de dois metros do seu corpo. Salta para cima do primeiro carro e apontando a sua AKM, obriga o condutor a retornar para a frente.

    Parecia que tudo se desmoronava. As colunas da UNITA marchavam sobre a cidade do Luso (Luena) a leste do país e as tropas do MPLA fugiam espavoridas sem enfrentar o combate deixando abandonados armas e equipamentos militares de todo o tipo. Vários dos chefes desta unidades chegaram à cidade de Henrique de Carvalho totalmente bêbados e desmoralizados.

    O Estado Maior das tropas cubanas apercebe-se das intenções da UNITA de continuar a marcha em direcção a Teixeira de Sousa com o objectivo evidente de se apoderar desta cidade e assim poder controlar toda a estratégia do caminho de ferro que une o Porto do Lobito na costa atlântica de Angola com o Zaire e a Zâmbia. Se a UNITA conseguia este propósito, ao ficar o país virtualmente dividido em duas partes, demonstraria ao mundo a sua enorme força beligerante.

    No Este deste país não existiam tropas cubanas pois as mesmas estavam fundamentalmente em Luanda tratando de impedir que o inimigo penetrasse na capital. Este dia os nossos pilotos recebem a missão de transportar urgentemente um batalhão de tropas cubanas recém chegadas a Cabinda para o aeródromo de Henrique de Carvalho. Prepararam-se quatro DC-3, um Nord Atlas e dois F-27. A operação começou a realizar-se de noite debaixo de uma condições metrológicas infernais.

    Um dos DC-3 caiu numa tormenta severa e depois de suportar muitos embates perde-se na obscuridade da noite, não consegue encontrar o aeródromo de destino e sem outra alternativa regressa a Luanda. O resto dos aviões, depois de múltiplas peripécias, conseguem aterrar em Cabinda. Essa noite foram transportados 165 homens. No dia seguinte conseguem transportar os 450 homens restantes. Esta força consegue deter o avanço impetuoso da UNITA em direcção a Teixeira de Sousa e desta maneira frustrar o seu objectivo de apoderar-se da estratégica via férrea.

    Como as tropas cubanas tinham ficado combatendo praticamente sós contra a UNITA, para garantir que de nenhuma maneira pudesse estabelecer-se o domínio desta sobre esta importante via de comunicações, o comando cubano deu a ordem de fazer uma ponte aérea fronteiriça entre Angola e Zaire.

    Na manhã do dia 10 de Novembro, na Frente Norte muito próximo da capital, as tropas do FNLA começam a mover-se pelo amplo e raso Vale de Quifangondo apoiadas por veículos blindados e tropas do Zaire decididos a quebrar as defesas cubanas e penetrar na capital antes da proclamação da independência.

    As tropas de elite cubanas que tinha ido a reforçar essa frente com baterias de artilharia reactiva BM-21 (Órgãos de Estaline ?) colocadas de maneira oculta desde a noite anterior, esperaram pacientemente que as tropas da FNLA estivessem todas nomeio do vale. Os soldados marchavam tão confiantes que avançavam cantando canções e bailando.

    Exactamente às 09.35 hora local começou a cair sobre eles uma chuva de fogo e chumbo que fez em pedaços as suas colunas em escassos minutos. No campo de batalha só ficou sucata fumegante e montes de cadáveres. O resto das forças inimigas, tomadas de pânico, fugiram espavoridas por todo o vale, abandonando veículos, feridos e armas.

    As tropas cubanas tinham conseguido para a tarde do dia de 10 de Novembro estabilizar todas as frentes de combate. A partir daquele momento, acompanhados pelas escassas e contadas forças do MPLA que não tinham desertado, começava a grande batalha dos cubanos contra a UNITA e a FNLA.

    A primeira missão tinha sido cumprida e com ela o primeiro e mais importante objectivo se tinha conseguido. Em 11 de Novembro, Agostinho Neto unilateralmente proclamava ao mundo a independência de Angola. A primeira fase da "Operação Carlota" tinha alcançado resultados positivos.

    Tradução livre

    Fonte: Memorias de Angola ( http://pissarro.home.sapo.pt/memorias0.htm )

    FNLA - MPLA - UNITA

    FNLA

    A partir do final da década de 40 surgiram, no norte de Angola, vários movimentos com o objectivo comum de se oporem ao sistema colonial. Tiveram, de início, características messiânicas e base tribal, destacando-se o movimento encabeçado pelo «profeta» Simão Toco, que anunciou o fim da miséria e nova mensagem divina. Embora detido pelas autoridades em 1949, as suas ideias estenderam-se entre os bacongos emigrados no então Congo Belga, que vieram a criar em 1956, a Aliança do Povo Zombo (ALIAZO). Este movimento converteu-se, em 1962, no Partido Democrático de Angola (PDA).

    Mas foi outro movimento, de características similares, que esteve na base da sublevação da Baixa do Cassange, em Janeiro de 1961. O movimento, que, de alguma forma, colheu de surpresa as autoridades portuguesas, iniciou-se com uma greve dos trabalhadores da Companhia Cotonang, como forma de protesto contra o atraso no pagamento de salários, mas transformou-se rapidamente em protesto da população contra o cultivo obrigatório de algodão e as duras condições de trabalho.

    Em todo o movimento, desempenhou papel de destaque António Mariano, que pertencia a uma seita católica e cujo o nome ficou ligado à insurreição, conhecida como «Guerra da Maria». os habitantes da região queimaram as sementes, destruíram ou interromperam vias de comunicação, mataram gado, invadiram armazéns e missões católicas, expulsaram os brancos, mas não utilizaram armas. Para reprimir este movimento, as autoridades socorreram-se de unidades do Exército e da Força Aérea presentes em Angola, que atacaram os grevistas de 24 de Janeiro a 2 de Março, transformando a acção num desproporcionado massacre de populações, cujo número de vítimas nunca se conheceu com exactidão.

    Contudo, a organização que viria a dar consistência ao nacionalismo bacongo foi a União dos Povos do Norte de Angola (UPNA), criada em Julho de 1954, em Leopoldville, com a finalidade de influenciar a sucessão do rei do Congo, Pedro VII, que morreu nesse ano. A UPNA pretendia que o futuro monarca fosse mais independente das autoridades portuguesas, apresentando como candidato Holden Roberto aparentado com o antigo rei. Entre os seus apoiantes encontravam-se os bacongos angolanos emigrados no Congo Belga e nas missões protestantes, numa das quais ele próprio fora educado. Mas o Governo e a Igreja Católica tinham outro candidato, António da Gama, que tomou o nome de António III. A facção derrotada iniciou, então, uma onda de agitação independentista, que alcançou o seu ponto mais alto ao longo de 1956-57.Mas como neste último ano morreu António III, as autoridades portuguesas preferiram deixar vago o trono, para mitigar o nacionalismo que nova designação poderia provocar.

    A UPNA tinha como objectivo programático a independência do antigo reino do Congo, em que se incluía Cabinda. Com esta ideia, Holden Roberto foi, em Dezembro de 1958, ao congresso dos povos africanos realizados em Acra. Perante a vitalidade da ideia do pan-africanismo ficou convencido da necessidade de diluir a componente tribal do seu partido, o que o levou a mudar-lhe o nome para UNIÃO DOS POVOS DE ANGOLA (UPA). A partir de então, a UPA transformou-se no movimento nacionalista mais bem organizado e aquele que maiores simpatias congregava. Iniciou então um processo de implantação em áreas de maior dimensão, com o objectivo de se estender a todo o país. Em Luanda, a maior parte dos seus apoiantes, que não podiam deixar de ser clandestinos, como de resto os de todos os outros movimentos, eram protestantes. Mas tinha também a simpatia de destacados católicos, como o Cónego Manuel Mendes das Neves.

    Nestes meios nacionalistas sentiu-se a necessidade imperiosa de oposição ao sistema colonial, logo a seguir às primeiras independências africanas, mas especialmente a seguir à do Congo Belga, em Julho de 1960. Foi aliás, na sequência deste sentimento, que se planeou o assalto a duas prisões em Luanda: a Casa de Reclusão Militar e o Forte de São Paulo, com o intuito de libertar alguns presos nacionalistas.

    De Leopoldville, onde estava exilado, Holden Roberto desaconselhou este projecto, sobretudo porque em Luanda, e torno da UPA, se movimentava apreciável número de mulatos, que não eram da confiança de Holden Roberto. Mas também porque ele desejava iniciar a guerra com uma insurreição de grandes proporções, já em preparação para a zona Bacongo, onde as raízes da UPA eram muito profundas. Contudo, os conspiradores de Luanda não só não detiveram a mobilização, como aceleraram a sua execução, a fim de aproveitar a presença na cidade de dezenas de jornalistas estrangeiros atraídos pelo assalto ao paquete SANTA MARIA, que poderiam vir a sensibilizar o mundo para a situação colonial portuguesa. Entre cerca de uma centena de participantes na acção, o núcleo principal era formado por protestantes ligados à UPA, havendo também estudantes católicos do seminário de São Domingos e alguns simpatizantes do MPLA e de outros grupos, porque o conceito destas militâncias não era então muito rígido.

    O ataque iniciou-se na noite de 4 de Fevereiro. O balanço oficial de vítimas foi de cerca de 40 assaltantes e de 7 polícias, já que as forças portuguesas, recuperadas da surpresa inicial neutralizaram com facilidade o ataque realizado com «catanas e varapaus». Nos dias seguintes, e em especial no dia do funeral dos polícias mortos, os colonos brancos e as forças militarizadas desencadearam violenta repressão nos bairros negros de Luanda, que durou cerca de um mês. Curioso foi que o MPLA, cuja direcção estava exilada em Conacri, reivindicou a acção, enquanto a UPA se remeteu ao silêncio.

    O conselho de segurança da ONU foi convocado para apreciar os acontecimentos de 4 de Fevereiro. A UPA, assessorada por conselheiros americanos, pretendeu aproveitar a oportunidade para conseguir as simpatias mundiais para a sua causa, o que levou a preparar uma sublevação geral de grande parte da região norte de Angola, incluindo São Salvador, Uije, Dembos, Luanda e Cuanza Norte. Nesta zona, a partir de 15 de Março, elementos da UPA e os seus seguidores destruíram tudo o que encontraram pela frente: fazendas, postos administrativos, destacamentos policiais; atacaram brancos e negros, crianças e mulheres, numa onda nunca vista de chacinas e assassínios.

    As vítimas cifraram-se em cerca de 1.000 brancos e de 6.000 negros. Esta actuação da UPA não só contribuiu para um profundo movimento de revolta dos colonos brancos, como deu ao Governo Português o argumento final de que necessitava para envolver o país numa guerra sem quartel contra qualquer movimento ou expressão nacionalista. Demonstrou também a ausência, no seio da UPA, de qualquer ideologia moderna, evidenciando-se a sua natureza tribal. De facto, os bacongos não conseguiram, nem sequer tentaram, o apoio, ou ao menos a neutralidade, dos trabalhadores negros contratados das fazendas do Norte, fundamentalmente constituídos por ovimbundos e ganguelas provenientes do Centro de Angola.

    À dureza e barbaridade tribal, as forças portuguesas responderam implacavelmente. Em 9 de Agosto, o exército entrava em Nambuagongo, proclamada antes a capital dos revoltosos. Antes do fim do ano, incompreensivelmente, alguns responsáveis portugueses davam as hostilidades por terminadas.

    Em conclusão, a UPA, ao ser a primeira organização a iniciar as hostilidades em grande escala, mobilizando milhares de seguidores, acabou por conseguir grande apoio internacional, desde os Estados Unidos até vários países africanos. Para corrigir a sua conotação tribal, a UPA transformou-se em Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) em Março de 1962, integrando o PDA. Pouco depois constituiu o Governo Revolucionário de Angola no Exílio (GRAE), que no fim de 1963, tinha sido reconhecido pela OUA e por 32 países africanos


    MPLA

    Ao mesmo tempo que surgiam os movimentos messiânicos e tribalistas do Norte de Angola, constituíram-se em Luanda várias organizações políticas clandestinas, de forma geral por iniciativa de angolanos que tinham acedido ao estatuto de assimilados. O primeiro foi o Partido da Luta Unida dos Africanos de Angola (PLUA) em 1953, seguindo-se-lhe o Partido Comunista de Angola (PCA), em 1955. Estes dois grupos acabaram por se fundir, em Dezembro de 1956, dando lugar ao Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Em 1958, surgiu o Movimento para a Independência Nacional de Angola (MINA). Que também se integrou no MPLA.

    O MPLA foi desde o primeiro momento, uma organização nacional, e ainda que a sua principal base da apoio tenha sido a etnia umbundo, que se estendia de Luanda a Malanje, contou sempre com apoios noutros grupos tribais.

    Aglutinou, além disso, elementos da pequena burguesia negra e mestiça e dos sectores operários. Contrariamente à FNLA, tinha uma ideologia mais definida e, com o tempo, evidenciou-se a sua raiz marxista. O crescimento do MPLA foi lento, ainda mais quando, em Março de 1959 e Junho de 1960, ficou praticamente decapitado pela prisão de muitos dos seus escassos quadros no chamado «processo dos 50». Neste processo foram incriminados 57 nacionalistas, alguns à revelia, dos quais 20 por pertencerem ao MPLA, destacando-se nestes o padre Joaquim Pinto de Andrade e Agostinho Neto. Nessa altura, a cúpula dirigente ficou constituída por Mário de Andrade, como presidente, e Viriato da Cruz, como secretário-geral, os quais, em face da situação, decidiram transferir a direcção do movimento de Luanda para Conacri, donde viriam a reivindicar a acção do 4 de Fevereiro, num desejo de demonstrar, tanto para fora como para o interior do movimento, que a luta devia continuar.

    Em Outubro de 1961, após a independência do ex-Congo Belga, o MPLA transferiu as suas estruturas para Leopoldville, por estar mais próximo de Angola. Politicamente, o partido tentou a aproximação à UPA, por esta ser, então, a força nacionalista hegemónica.

    Esta estratégia veio, contudo, a falhar inteiramente, em especial porque a UPA se transformou em FNLA no início de 1962, e porque este partido constituiu o GRAE, acções que consolidaram a imagem de Holden Roberto e impuseram a sua política como a única via independentista de Angola. O MPLA atravessou um período de marasmo e contradições, nunca se conseguindo libertar da condição de partido de muitos generais e poucos soldados.

    A situação em Leopoldville veio a agravar-se com a chegada de Agostinho Neto, em Julho de 1962, que havia fugido de Portugal. Já nomeado presidente honorário do MPLA, depois da sua detenção em Junho de 1960, chegou disposto a integrar-se na cúpula do partido, mas as suas ideias «presidencialistas» acabaram por se chocar com a direcção, o que viria a provocar a demissão de Mário de Andrade.

    Em Dezembro de 1962, com o intuito de ultrapassar as suas divisões internas, o movimento realizou uma conferência, mas esta não só não conseguiu a unidade, como agravou as divergências, de resto em consonância com os fracassos do movimento no terreno, incapaz de penetrar solidamente em Angola.

    Em Julho de 1963, a OUA criou uma comissão de reconciliação com a missão de aproximar o FNLA ao MPLA, mas acabaria ela própria por propor aos membros da OUA o reconhecimento do GRAE como a única organização representativa angolana, em face das divisões do MPLA. Neto e os seus seguidores culparam, por esta resolução da OUA, o trabalho fraccionário de Viriato da Cruz e do sector minoritário do movimento, que, aliás, tinha já sido expulso. Mas como um mal nunca vem só, Agostinho Neto, que tinha encabeçado a direcção com a promessa de incrementar a luta armada, acabou por não conseguir, tanto pela política de obstrução da FNLA, como por acção do Governo de Lisboa. Holden Roberto não queria competidores em solo bacongo, para além de se apresentar com o exclusivo da luta anticolonial, pelo que era essencial impedir a penetração do MPLA pela fronteira norte. Portugal, por seu lado, conseguiu de alguma forma comprometer o Governo Congolês na neutralização do MPLA, com a ameaça, sempre em jogo, do corte de saída do cobre pelo caminho de ferro de Benguela.

    Por estas e outras razões, o MPLA acabou por ser expulso do Congo-Brazzaville, onde, desde Agosto de 1963, se havia instalado um governo marxista, mais próximo do seu ideário. A partir daqui, o movimento podia aceder, com facilidade, à fronteira de Cabinda, onde se iniciou a sua actividade militar no ano seguinte.


    UNITA

    A União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) foi formalmente criada em Março de 1966, no interesse de Angola, no lugar de Tchocué do Mungai, distrito do Moxico, mas a data de criação do terceiro movimento de libertação de Angola é menos importante do que a evolução política do seu inspirador e principal dirigente, Jonas Malheiro Savimbi.

    Savimbi, filho de pastor protestante, recebeu a educação primária em várias missões evangélicas e, apesar de posteriormente ter frequentado colégios católicos, cedo revelou ideias anti colonialistas, o que lhe permitiu, nos anos que passou como estudante em Lisboa ( 1958-1960), contactar com a UPA através da rede que as organizações protestantes tinham em Portugal, e que se encarregava de tirar do país os africanos que quisessem aderir a FNLA, partido que era então o mais representativo de Angola.

    Exilado em Paris, Savimbi trabalhou para a FNLA, de que chegou a ser secretário-geral em 1961. No ano seguinte, quando se constituiu o GRAE, foi nomeado ministro dos negócios estrangeiros, mas em Julho de 1964 abandonou o cargo e o partido, por divergências com Holden Roberto. Tem-se referido, embora sem provas concludentes, que nesta época Savimbi terá tentado aproximar-se do MPLA, embora certo que, ao longo dos anos, sempre orientou a sua acção no sentido de dispor de uma força própria de que fosse o incontestado dirigente.

    A UNITA viria a iniciar a sua actividade no interior de Angola, no distrito de Moxico, contando com apoios da população ovimbundo, que representa cerca de 40% da população de Angola. Embora estabelecendo cumplicidades com agentes do planalto, não conseguiu montar aí a guerrilha, nem tão-pouco viria a implantar-se nos meios urbanos. Embora o número dos seus quadros fosse sempre muito reduzido, conseguiu alguma audiência a nível externo, em especial da China e do Egipto. Teve também alguns apoios por parte da Zâmbia, mas nunca conseguiu construir uma retaguarda firme, como foi a do PAIGC em Conacri, ou da FRELIMO, na Tanzânia. A UNITA realizou a primeira acção armada em Setembro de 1966, em Lucusse e Calunga, prosseguindo com um ataque a Teixeira de Sousa, no natal do mesmo ano.

    Em Março de 1967, atacou a linha de caminho de ferro de Benguela, importante para as Forças Armadas Portuguesas, mas fundamental também para o trânsito de mercadorias da Zâmbia. O incidente acabou por se traduzir em crescentes dificuldades de utilização, por parte da UNITA, do território zambiano, facto que, contudo, não impediu que a guerrilha penetrasse no distrito do Bié e que fossem realizadas acções na estrada Luso - Gago Coutinho e ao sul de Gago Coutinho, entre as suas bases e a fronteira.

    A UNITA surge, assim, como opositora do MPLA pelo controlo do Leste do território angolano, o que se traduziu em sucessivos confrontos entre os dois movimentos. Foi então que surgiu a oportunidade de entendimentos com as autoridades militares Portuguesas, com base no combate contra o MPLA, que estava então empenhado em alargar a sua acção militar na zona, onde actuava desde 1966.

    Até 1970, não tinha sido possível ao Exército Português responder com eficácia ao alastramento da guerrilha no leste de Angola. O MPLA havia chegado ao planalto do Bié, planeando penetrar até ao mar, para dividir Angola em duas metades, e é então que o comando militar Português procura uma solução para toda a zona leste, o que vem a incluir um acordo de cessar-fogo com a UNITA, concretizado em 1972. Este acordo assegurava a Savimbi a utilização de extensa área nos rios Lungué-Bungo, ao sul do caminho de ferro de Benguela, zona onde o exército Português não entraria, a troco do combate que ele deveria fazer ao MPLA e do fornecimento de informações militares; as autoridades portuguesas comprometiam-se também a fornecer alguma logística e material. Os contactos com o exército português estabeleceram-se por intermédio dos madeireiros portugueses que trabalhavam na área de refúgio da UNITA e nas florestas do Moxico, pelo que as diligências efectuadas ficaram conhecidas pelo nome de código de Operação Madeira. Estes acordos mantiveram-se até 1973, quando Costa Gomes e o seu comandante da zona leste, Bettencourt Rodrigues, deixaram Angola.

    Os seus substitutos iniciaram, em Setembro de 1973, um ataque às posições de Savimbi, por dois motivos: porque o entendimento dos novos comandantes não se conformava com a situação criada e porque a UNITA, uma vez diminuída a acção dos grupos rivais, queria estender a sua zona de acção ao planalto central. Contudo, em Fevereiro de 1974, os militares portugueses e os guerrilheiros da UNITA iniciaram novos contactos para repor a situação existente anteriormente, embora, quando se deu o 25 de Abril, não se tivesse chegado formalmente ao restabelecimento do cessar-fogo.

    A correspondência entre Savimbi e as autoridades portuguesas viria a ser publicada na revista AFRIQUE-ASIE, com o título de «la longue trahision de l' unita», no n.º61, de 3 de Julho de 1974, em artigo anónimo, mas da autoria de Aquino de Bragança.

    http://www.uc.pt/cd25a/wikka.php?wakka=intervns1/#upa/fnla