sábado, 13 de dezembro de 2008

Voz de Angola em Tempo de Ultimato


Aida Freudenthal


Resumo

Se o Ultimato constituiu o incidente diplomático mais desgastante no longo da história das relações luso-britânicas, denunciando a reformulação, por ambas as partes, da estratégia expansionista no sul do continente africano, interessou-nos investigar a projeção desse incidente em Angola, bem como o real impacto do mesmo sobre diferentes estratos sociais, quer africanos, quer europeus. A análise dos discursos produzidos, na oportunidade, por governantes, colonos e "filhos da terra", a propósito da verdadeira essência do domínio colonial, mas também dos limites da colonização portuguesa, possibilitou a detecção não apenas das divergências fundamentais, como de opiniões convergentes quanto ao futuro do território. Se na verdade o Ultimato não se revelou ali decisivo enquanto fato político, o ano de 1890 tornar-se-ia um marco simbólico na emergência de formulações proto-nacionalistas em Angola.

Palavras-chave: Ultimato inglês; fronteiras coloniais; "filhos da terra"; autonomia; imprensa angolana.

Abstract

Angolas Voice at the Time of the Ultimatum

Considering that the Ultimatum was the most abrasive diplomatic incident in the history of Portuguese-British relations, denouncing the reformulation by both parties of the expansionist strategy in the south of the African continent, the author became interested in investigating the reaction of this incident in Angola as well as its real impact on the various social strata, both African and European. The analysis of talks given by authorities, colonists and "native children" on the true essence of colonial domination and also on the limits of Portuguese colonization led to detecting not only basic divergences but also converging opinions regarding the future of the territory. Even if the Ultimatum did not in fact turn out to be decisive although a political fact, the year 1890 was to be a symbol in the emergence of the proto-nationalist formulations in Angola.

Keywords: British Ultimatum; colonial borders; "native children"; autonomy; Angolan press.

Résumé

La Voix dAngola en Temps dUltimatum

Si lUltimatum a débouché sur lincident diplomatique le plus détériorant au long de lhistoire des relations luso-britaniques, révélant, chez les deux camps, un changement de leur stratégie expansionniste au sud du continent africain, il nous a paru intéressant dexaminer les retombées de cet incident en Angola, ainsi que limpact effectif quil a eu sur différentes couches sociales africaines ou européennes. Lanalyse des discours produits à loccasion par les dirigeants, colons et "enfants du pays" à propos de la véritable essence de la domination coloniale ainsi que des limites de la colonisation portugaise, a permis disoler non seulement des divergences fondamentales mais aussi des avis convergents sur lavenir du territoire. Si, en effet, lUltimatum ne sy est pas avéré décisif en tant que fait politique, lannée 1890 est pourtant devenue un jalon symbolique dans lémergence dexpressions protonationalistes en Angola.

Mots-clé: Ultimatum anglais; frontières coloniales; "enfants du pays"; autonomie; presse angolaise.

1. Introdução

Exaltados os ânimos populares e partidários em Portugal, em conseqüência do Ultimato caíram governos e foram proferidas declarações de profundo sentido patriótico, reafirmando as virtudes nacionais, entre elas o esforço civilizador dos portugueses na África. Políticos, escritores e jornalistas exprimiram a indignação que abalou alguns setores da sociedade no ano de 1890, dando relevo à questão africana no quadro político-partidário nacional.

A investigação histórica tem demonstrado que, nas duas últimas décadas do século XIX, o choque dos imperialismos britânico e português constituiu um episódio fundamental na história portuguesa. De fato, à medida que os governantes esboçaram novas estratégias de exploração e ocupação colonial, buscando alianças no quadro das relações internacionais, a coincidência parcial de objetivos no âmbito dos respectivos projetos imperialistas para a África conduziu ao confronto declarado entre as duas potências aliadas. A contestação, em Portugal, da supremacia colonial inglesa, proveio de fortes resistências emanadas dos setores das burguesias comercial e industrial, para quem a reserva dos mercados coloniais e a proteção pautal tinham se tornado indispensáveis.

Com a finalidade de contrabalançar a influência britânica nesse contexto, Portugal estreitaria relações diplomáticas com a Alemanha, atribuindo maior visibilidade às questões territoriais e comerciais do diferendo luso-britânico que conduziria ao Ultimato de 1890.

Assim como outras potências com pretensões coloniais, Portugal preparava-se para assegurar o seu domínio nos territórios africanos, muito particularmente em Angola. No quadro colonial, desde a defesa de interesses econômicos privados face à concorrência européia, à iniciativa e apoio a expedições de reconhecimento geográfico, econômico e político realizadas a partir dos anos 1870, vários foram os sinais decorrentes da integração progressiva da colônia no conjunto mais vasto do império português na África.

Sabendo-se, contudo, que uma parte substancial das medidas aplicadas localmente dependia das decisões tomadas no Terreiro do Paço, não surpreende o desconhecimento, ou o menosprezo, da especificidade africana que as mesmas denunciam. Por este motivo, e apesar das limitações que caracterizam as fontes de que dispomos, impõe-se proceder a uma análise atenta de uma realidade até hoje mal conhecida. Com efeito, ao envolver povos e culturas muito diversos, a atuação do poder colonial só será entendida se for considerada a dimensão africana da partilha, analisando o curso dos acontecimentos no espaço que era objeto das ambições imperialistas.

A partir deste pressuposto, importa inquirir sobre a realidade que se vivia em Angola, onde a intervenção européia deixara algumas marcas pouco profundas ao longo da faixa litoral atlântica. Assim sendo, e porque a colônia recebia o eco, tantas vezes amortecido, dos conflitos europeus, tentaremos evidenciar a sua incidência na realidade local, na década que antecedeu o Ultimato, e em um contexto que, embora condicionado pela estratégia européia, não deixou de refletir o choque das forças econômicas e sociais que ali coexistiam.

Posto isto, importa averiguar se as questões internacionais, mormente as questões de fronteira, seriam entendidas, em Angola, da mesma forma por europeus e africanos.

É, hoje, consensual o reconhecimento de que, na perspectiva dos africanos, a maioria dos tratados assinados não implicavam perda de soberania, sendo entendidos apenas como acordos de cooperação e auxílio (cf. Isaacman e Vansina, 1987:57.1).

Por outro lado, sendo os acordos de fronteira o produto da negociação entre as potências européias, alheias às considerações de ordem etnocultural ou política no que respeitava à realidade africana, no término de um processo conduzido por europeus, viram-se os africanos despojados das suas identidades políticas, juntamente com a derrocada dos últimos Estados independentes da África austral.

De que modo os projetos coloniais portugueses encontravam eco junto a uma população tão heterogênea? Para tentar esclarecer esta questão, importa analisar as atitudes que as populações africanas manifestavam face à pressão crescente da administração e ao reforço do dispositivo militar. Por outro lado, quais eram as perspectivas de futuro formuladas por vários setores de opinião da sociedade colonial? Integração no império português e conseqüente aceitação da lei e da ordem vigentes, perpetuando abusos e violências há muito experimentados? Resistência pelas armas sempre que os termos da dominação ultrapassassem limites toleráveis? Ou existiriam outras opções?

Pretende-se, com este estudo, contribuir para o esclarecimento destas questões, identificando registos diferenciados da realidade colonial, através das leituras da mesma, feitas pelos mais destacados elementos da elite urbana da colônia. A diversidade de respostas organizadas em âmbitos individual ou coletivo, possibilitará o confronto de posições diferenciadas perante o colonialismo português nos finais do século XIX.

No vasto meandro de motivações pessoais, distinguem-se necessariamente os condicionalismos que as estruturas sociopolíticas impunham à mencionada elite. Esboçavam-se, afinal, entre os angolanos, os argumentos que viriam a constituir a "voz de Angola", clamando pelos seus direitos e afirmando a identidade de um grupo face ao domínio colonial, argumentos esses que se reproduziriam, no essencial, até ao surgimento do nacionalismo angolano no presente século.

2. A "Coutada Lusitana"

"Os principais estabelecimentos são tantas ilhas perdidas num oceano indígena sem limite [...] é pois preciso confessar tristemente que o nosso império no interior é imaginário".
Almeida e Albuquerque (1877)
"A colonização deve começar pelo litoral e depois avançar para o centro".
J. Duarte d'Almeida (1878)
"Inglaterra é falsa e desleal nas suas relações internacionais".
Jornal de Mossâmedes (1890)

2.1. A situação interna nos anos 1880

A partir dos anos 1870, os imperialismos britânico, francês, belga e alemão, através da sua movimentação comercial e política no centro-oeste africano, foram os intervenientes decisivos na aceleração da partilha da África, da qual Portugal participaria como parceiro indispensável, porém sob o estigma de pequeno país periférico.

Apesar dos condicionalismos internos, a política colonial portuguesa vinha sendo obviamente condicionada por fortes pressões internacionais que repercutiram em Angola ao longo do século XIX. Se até aí a relação de parceria comercial protagonizava as relações entre africanos e europeus, a partir dos anos 1880 tornou-se imperioso para estes delimitar "esferas de influência" e estabelecer relações de "protetorado" sobre as unidades políticas existentes na região, como passo decisivo na afirmação da supremacia européia.

Na seqüência do processo de partilha, a Conferência de Berlim viria a delimitar a Bacia Convencional do Congo, assegurando nela o comércio "livre" internacional e, desse modo, abrindo caminho à concorrência entre os agentes comerciais presentes na região. Como resultado destas definições, os políticos coloniais consideraram urgente o reforço da autoridade colonial, a fim de fazer respeitar os direitos adquiridos, bem como a liberdade de trânsito para as mercadorias européias e africanas (cf. Brunschwig, 1971:43-45).

Na seqüência das tendências assinaladas nos séculos anteriores, os interesses comerciais portugueses constituíram o fator de maior peso na definição das prioridades da política colonial no último quartel do século. Induzido, na realidade, pela procura externa de borracha, marfim e cera, o mercado colonial em Angola experimentou intensa atividade, desenvolvida por sertanejos e negociantes do litoral e do interior, tanto africanos como europeus, sendo notável a intensa concorrência que marcou o período em estudo. Alguns efeitos dessa concorrência levaram Oliveira Martins a afirmar, em 1885, que "o comércio de Angola fazia-se em prejuízo do comércio português" (apud Selvagem e Galvão, 1953, vol. II:106.),1 já que numerosos agentes comerciais estrangeiros transtornavam o afluxo das mercadorias aos portos da colônia, encaminhando-as para outros portos situados no Baixo Congo.

De fato, os africanos haviam constituído, ao longo dos séculos XVIII e XIX, um sistema de trocas baseado em rotas que controlavam, evitando, na medida do possível, a passagem pelas regiões sob domínio das autoridades coloniais. Como exemplo, a região ao norte do Ambriz, para onde afluíam os gêneros do interior que eram permutados por peças de algodão, armas e outros produtos, a preços muito mais baixos do que nos portos que estavam sob o controle dos portugueses.2

Em resposta a esta situação, a expansão territorial retomada pelos portugueses nos anos 1880, foi orientada no sentido de assegurar o desenvolvimento da permuta, o acesso mais fácil às áreas produtoras e a correlativa segurança das rotas sertanejas (cf. Wheeler e Pélissier, 1978:65-68.). Essa opção expansionista afigurava-se a mais adequada para enfrentarem a iniciativa concorrencial de outros países europeus,3 fazendo ressaltar a urgência de intensificar o reconhecimento de novos mercados abastecedores. Nessa linha, foram concretizadas, por exploradores portugueses, as expedições que proporcionariam, finalmente, informação sistemática acerca de povos e regiões que, apesar de contatos seculares, permaneciam obscuros para os europeus.

Após os reconhecimentos feitos por Serpa Pinto, Capelo e Ivens, na década de 1870, inseridos em uma estratégia ditada, em larga medida, por pressão internacional, abriram-se novas oportunidades à iniciativa oficial e aos interesses locais. Com efeito, na perspectiva de comerciantes mais antigos e experimentados da colônia, existiam prioridades econômicas e políticas que aconselhavam a organização de expedições a regiões ainda mal exploradas do ponto de vista comercial, onde a penetração dos portugueses não se encontrava assegurada, retardando, desse modo, o acesso a gêneros tropicais bem cotados no mercado mundial.

Através da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Geográfico-Africanos (SPCGA), fundada em Luanda em 1880, os interesses mercantis na colônia mostravam-se muito atentos ao processo político em curso, orientando-se para regiões vitais à intensificação do comércio colonial.4

É conveniente determo-nos, um pouco mais, na questão da concorrência localizada em regiões de fronteira, constituindo uma ameaça constante à "coutada lusitana" (Pélissier, 1986, vol.I:54), geradora de uma nova estratégia por parte do poder colonial. Não é demais realçar, de um modo muito preciso, que da perspectiva dos políticos coloniais, importava, em especial, defender interesses comerciais estabelecidos desde longa data, impedindo simultaneamente a instalação de novos concorrentes europeus no espaço que os portugueses reclamavam para si.

Vejamos, pois, a correlação existente entre os interesses comerciais e as decisões políticas que o poder colonial adotou, considerando as regiões-problema onde, no lapso de tempo decorrido entre a Conferência de Berlim e o Ultimato, se detectam incidentes concorrenciais que, independentemente das prioridades locais, determinaram os planos de ocupação.

2.2. A questão do Zaire

A expansão do domínio europeu na região do Zaire levou ao confronto entre os interesses estabelecidos na região desde longa data e os planos imperialistas mais recentes.

Nesse contexto, Portugal optou, no norte da colônia, por uma política agressiva relativamente ao reino do Congo: foi enviado o missionário católico António Barroso, em 1881, com o intuito de contrabalançar a influência da Missão Batista inglesa, instalada em São Salvador em 1879; na oportunidade, ele foi também um agente político junto do rei do Congo, sendo incumbido de controlar a sua ação e de conseguir o seu reconhecimento como súdito do rei português (Ferreira do Amaral apud Angolana, 1968, v. II:702; Pélissier, 1986, v. I:246-48).

Após o tratado do Zaire, firmado entre Portugal e Inglaterra em 1884, pelo qual a região entre os Paralelos 5 e 8 era cedida a Portugal, o desacordo dos alemães conduziria à convocação da Conferência de Berlim (1884-85). Na seqüência das suas resoluções, a fixação da nova fronteira norte de Angola, em 1885, correspondeu, em parte, aos planos econômicos e políticos formulados para a região pelo poder colonial (Pélissier, 1986, v. I:251-52; 257-61), ao mesmo tempo em que se cumpriam as decisões de Berlim quanto à instalação do poder efetivo dos belgas sobre a região, no âmbito do Estado Livre do Congo.

A reformulação da estratégia portuguesa visava garantir acesso às rotas que os africanos utilizavam na região do Baixo Congo, nomeadamente a rota do marfim entre Stanley Pool, Ambriz e Quissembo, que passava por São Salvador, e onde predominava a influência de casas comerciais inglesas. Uma outra rota ligava São Salvador ao estuário do Zaire, onde a concorrência entre os entrepostos europeus não era menor. Com efeito, a importação dos algodões de Manchester, das espingardas inglesas e alemãs e do álcool alemão e inglês respondia à procura africana, limitando-se os comerciantes portugueses a fornecer peixe seco, aguardente de cana e pólvora para a permuta.5

Renunciando à margem direita do rio em favor da Bélgica, Portugal conservou, no entanto, Cabinda e Molembo, e viu reconhecida, pela Conferência de Berlim, a soberania sobre Cacongo e Ambriz (1885) e todo o território da Costa Norte até Cuango (ibidem:255-56).

Ficou, deste modo, aberta a via para o comércio colonial controlar as rotas do norte, condição que se revelaria particularmente proveitosa durante o boom da borracha, no sentido de assegurar, a partir de 1886, o afluxo de grandes cargas deste produto ao litoral.

Simultaneamente, a região do Bembe – onde existira, nos anos 70, uma exploração de cobre malsucedida – voltou a atrair os interesses econômicos devido à alta do cobre nos anos 80. Na oportunidade, Luanda procurou obter a colaboração do Dembo Ambuíla, a fim de permitir que na região se procedesse novamente à exploração das minas, assim como à permuta do café,6 ao mesmo tempo em que era construída uma estrada que ligaria São Salvador a Bembe, Encoge e Ambriz.

2.3. A fronteira leste

Na multiplicidade de iniciativas imperialistas, não só a fronteira norte congregava as atenções da administração colonial portuguesa. Fora, com efeito, em direção às terras do leste que o projeto imperial português produzira o "sonho cor-de-rosa", baseado em um plano utópico datado dos finais do século XVIII, no sentido de ligar a costa atlântica ao Índico, através da hegemonia comercial portuguesa (cf. Santos, M., 1978:191). No início da década de 80, no vasto território que integrava o império lunda (ainda praticamente desconhecido dos europeus), os contatos comerciais dos africanos com as margens do espaço colonial processavam-se regularmente: atravessando o Cuango, vindos de leste, súditos do império lunda afluíam a Cassanje e Malanje, com marfim, cera e escravos. Também os comerciantes de Pungo-Andongo e do Bié negociavam com Lunda, embora a permuta de gêneros e mercadorias importadas se encontrasse ainda sob o controle dos africanos.

Abertas novas rotas para o norte através da navegação a vapor nos rios Zaire e Cassai, de responsabilidade de belgas e alemães, as autoridades portuguesas teriam de traçar, para a década de 80, uma estratégia de aproximação com os mercados do interior do Continente.

Constituído prematuramente o distrito da Lunda, a sede permanecera em Malange, sendo o limite leste da colônia, ainda em 1884, o Rio Cuango. Embora a expansão comercial para leste se desse em um ritmo lento, a cidade tornou-se, na década de 80, um centro, para onde afluíam os viajantes e comerciantes, mormente os alemães Buchner, Pogge e Wissmann, que receberam apoio dos irmãos Machado, ali residentes há muitos anos. Também Silva Porto, acompanhado por pombeiros – comerciantes que percorriam o interior –, chegara a percorrer a região central do Continente, atingindo, em 1881-2, pelo Cassai, a região dos Baluba (ibidem:260 e 338.) apresentando, posteriormente, um plano de exploração científica e comercial à Sociedade de Geografia de Lisboa.

Ainda em março de 1882, a SPCGA de Luanda propunha ao G. G. o envio do Major Henrique de Carvalho com os negociantes Saturnino e Custódio Sousa Machado, profundos conhecedores da região a leste de Malanje e da própria Mussumba, em uma viagem de interesse mercantil a Cacheche, região do Cuango famosa pela riquíssima feira de marfim que ali se realizava. A iniciativa dos irmãos Machado levá-los-ia, com efeito, ao Lubuco, em 1883, dirigindo uma comitiva de cerca de duas mil pessoas (União Africo-Portuguesa, 6/5/1882; Pélissier, 1986, v. I:353-55).

Revelou-se, deste modo, a urgência da nova política expansionista para leste: por um lado, foi iniciada a construção da linha férrea de Luanda a Ambaca; por outro, dando continuidade às anteriores viagens de Rodrigues Graça, de Silva Porto e dos irmãos Machado, a relação dos portugueses com o império lunda seria consideravelmente ampliada, através de uma missão diplomática que procuraria contrabalançar a expansão do novo Estado Livre do Congo, ao exigir de Muata Yanvo um tratado de amizade e comércio, e a aceitação da presença de um "residente político" português (Santos, M., 1978:322-23).

Quando o projeto finalmente se concretizou, foi possível a Henrique de Carvalho reunir, durante quatro anos, informação sem precedentes sobre Lunda e áreas limítrofes.7 Além da vasta informação recolhida entre 1884 e 1887, que possibilitou a elaboração do estudo etnográfico mais completo que existe sobre a região, ele teve oportunidade de estabelecer contato com autoridades que lhe deram a entender a natureza das instituições do império lunda. Neste contexto, a expedição de Henrique de Carvalho, além do alto valor etnográfico de que se revestiu, elucidou as tensões internas existentes na época entre os lunda e os tshokwe, tendo o explorador testemunhado o declínio do poder do Muata Yanvo na década de 80, quando os tshokwe tomaram posse da Mussumba. O desmembramento do império, resultante da quebra da relação tributária que algumas províncias mantinham com o poder central, proporcionou a assinatura de tratados entre alguns chefes balunda e o governo português (Pélissier, 1986, v. I:354-55; Santos, M., 1978:191).

De fato, na seqüência da expedição, já em finais de 1889, o governo colonial exigia a aceitação explícita, por Muata Yanvo, do protetorado português – "como negócio de importante alcance político" (AHU Angola, 2ªS. 2ªR. p. 14, Ofício de 15/2/1890). A pretensão foi facilitada pelo avanço de uma força militar belga até Camaxilo. Desencadeada a questão de soberania na área, Luanda promoveu o envio de uma nova expedição (1890-92), com o intuito de garantir o acesso à região. De fato, o poder colonial considerava vital o controle dos recursos de modo a assegurar importantes rendimentos à alfândega de Luanda (AHU Angola 2ªS. 1ªR. p. 10, Ofícios de 3/12/1889, de 6, 17 e 31/10/1890; 2ªS. 2ªR. p. 15, Ofícios de 31/3, 21/4, 11 e 15/8, e 4/9/1891), sem os quais se agravaria o déficit financeiro da colônia.

Em 1891, novas fronteiras seriam traçadas e o império lunda foi desmembrado entre portugueses, belgas e ingleses. A efetiva ocupação da região a oeste do Cassai prolongar-se-ia, no entanto, até 1927.

Ao sul do distrito de Lunda, alguns milhares de quilômetros separavam as terras de Benguela e Caconda, do Barotse e do Zumbo, no curso médio do Zambeze, a meio caminho do litoral Índico. Esta rota do leste era efetivamente controlada por mercadores bienos (mambari, como eram então designados) cujas comitivas atingiram dimensão proporcional ao importante papel comercial que desempenharam na África Central até o início do século XX. Seus parceiros, mas também concorrentes comerciais desde os anos 50, foram os pombeiros e sertanejos de Angola (Wheeler e Pélissier, 1978:65-7), cujos percursos deviam conformar-se com as imposições das autoridades africanas, sob a forma de tributos e prestações várias. Ainda não eram reconhecidas, na época, as fronteiras que o colonialismo viria a impor, quando a navegação a vapor e a via férrea tornassem obsoletos os antigos itinerários (Santos, M., 1978:260).

Embora a intervenção da administração colonial na região fosse incipiente, o reino do Bailundu acolhera algumas congregações cristãs, com a instalação de missionários americanos a partir de 1880,8 após autorização concedida pelo rei Ekui-kui II (1876-1893).

A sua atuação foi, contudo, interpretada por Luanda como denunciando os "projectos de conquista e de assimilação dos padres americanos", ao mesmo tempo em que intrigavam contra a política expansionista portuguesa. Após esforços continuados das autoridades de Luanda, foi só em 1884 que as autoridades africanas admitiram missionários católicos no Planalto (Pélissier, 1986, v. II:68).

Em 1889 manifestou-se uma escalada na corrida dos europeus ao Barotse, região intermédia entre o Bié e o Zumbo, colocando Portugal e Inglaterra em situação concorrencial. Perante os rumores do envio de uma embaixada inglesa à região, o governo português preparou uma expedição porque, segundo afirmava, "era necessário chegar antes" (dos ingleses, entenda-se) por considerar a questão do domínio da região, "muito grave e de um importante alcance político e nacional".9

Como prelúdio à ocupação, as autoridades de Luanda fizeram acordos com vários sobas. Por um lado, acordos comerciais que dessem preferência à permuta com a colônia de Angola, por outro, acordos políticos para que reconhecessem a soberania portuguesa, colocando os seus territórios sob o protetorado português, admitindo missões religiosas e científicas, e aceitando a instalação de uma força militar (AHU Angola, 2ªS. 1ªR, p.10, 1890).

Encarregado de uma missão destinada ao Barotse, Paiva Couceiro deu início, no meio do percurso, à construção de um forte em Belmonte, em 1890, indispondo-se, com essa decisão, com o rei do Bié, Ndunduma, que intimou os portugueses a se retirarem. Nem a mediação de Silva Porto, que habitava a região há décadas, conseguiu demover a autoridade biena, o que levou o sertanejo ao suicídio em março daquele ano.10

Apesar da insistência de Paiva Couceiro, a expedição ao Barotse foi interrompida, por efeito do Ultimato, ao mesmo tempo em que os seus efetivos foram encaminhados para o Cubango, a fim de delimitar, nesta região, a esfera de influência portuguesa (AHU Angola, 2a.S 1a.R. p. 10, Ofícios de 13/2, 8/3, 18/3 e 8/8/1890). O território a sul do Zambeze, entre os meridianos 20 e 22, era habitado pelos ambuela e lovale, povos que eram independentes do reino do Barotse, na época governado por Lewanika.

Embora o Tratado Luso-Britânico de 11/6/1891 tenha definido, no seu Artº IV (Santos, M., 1986:153) as esferas de influência respectivas, a ocupação definitiva ocorreria só no início do século XX, na seqüência de ação diplomática e de importantes movimentações militares, empenhadas em eliminar os focos de resistência africanos.

2.4. A fronteira sul

Desde a década de 50 as autoridades coloniais portuguesas vigiavam atentamente as terras do sul, alertadas pelas incursões freqüentes de caçadores e comerciantes europeus no Cunene. No contexto da corrida imperialista ao Continente africano, o receio, mais ou menos fundamentado, do avanço de estrangeiros em regiões limítrofes do território já ocupado, ainda que precariamente, pelos portugueses, manifestava-se com muita freqüência nos relatórios coloniais, referindo particularmente à fronteira sul.

Serpa Pinto afirmava, em 1878, que

[...] os ingleses protegidos pelo Governo do Cabo, estão já estabelecidos a sete dias de viagem [de Caconda], além do Cunene, no Cuanhama, e têm morto o comércio deste ponto porque apresentam ali as fazendas por metade do preço por que se obtêm em Benguela, monopolizando o comércio do marfim e das penas de avestruz e deixando apenas aos negociantes daqui o da cera e gados cuja permutação se faz só com escravos e é isso o que dá lugar a que Caconda seja uma verdadeira feira de escravatura. (Relatório de 18/1/1878, AHU Angola. CG:48)

Além destas inestimáveis informações sobre as bases da permuta entre africanos e europeus, a par da persistência do tráfico interno de escravos, o explorador registrava a presença de ingleses estabelecidos entre o Cunene e o Cubango, área que era visitada há muito por sertanejos portugueses.

Porém, nem só os ingleses preocupavam Luanda. Na década de 1880, quando despertam os interesses coloniais germânicos, a vigilância das autoridades incidia também sobre possíveis pretensões da Alemanha em ampliar a sua esfera de influência ao norte do Cunene, nos territórios situados ao norte da catarata de Ruacaná. Segundo Wheeler e Pélissier (1978: 71,74), tinha fundamento esta preocupação, uma vez que as atividades alemãs envolviam, sem dúvida, um vasto plano conspiratório para o oportuno controle da colônia, que implicava exploradores, agentes e homens de negócio, soldados e caçadores, assim como missionários protestantes. Assinado, em 1886, o acordo luso-alemão, ficou delimitada a fronteira com o sudoeste alemão, sem que, todavia, fossem eliminadas de vez as tensões que renasceriam no início do século XX.

Em parte para intensificar a vigilância na região, o poder colonial procurou reforçar a fixação de colonos, tendo-se registrado, na segunda metade do século XIX, vários fluxos migratórios no litoral de Moçâmedes, bem como no planalto da Huíla. Na maior parte dos casos, porém, o saldo foi o insucesso econômico dos empreendimentos agrícolas e o abandono das tarefas produtivas, em busca de outras ocupações. Para esse insucesso contribuíra a conjugação de fatores como a falta de qualificação específica e a falta de capital, entre outros.

Na ausência de uma política de colonização coerente, limitara-se o governo de Luanda a receber colonos portugueses, alemães e bôers (AHU, Angola, 2ªS. 1ªR., p. 15, Ofício de 21/8/1891.), manifestando a Lisboa as dificuldades existentes em custear a deslocação, o alojamento e a subsistência nos primeiros meses (ibidem). Entendia o governo que o sucesso da colonização dependia mais do número e menos da qualidade dos colonos europeus, incluindo, por isto, grandes contingentes de degredados. Apesar dos planos retomados pela administração, o peso da população portuguesa manteve-se diminuto durante as três primeiras décadas do século XX.11

Quanto à imigração estrangeira, principalmente bôer, a administração colonial decidira acolher, no início da década de 1880, uma primeira colônia proveniente do Transvaal. Uma vez obtida a autorização, fixou-se, em 1881, em Humpata, a colônia de São Januário, que em 1890 foi ampliada por novo contingente de recém-chegados, atingindo o total de cerca de 350 homens, mulheres e crianças. Em breve se revelaram novas fontes de conflitos, provenientes da ocupação de terras pertencentes às populações pastoris locais, e ainda devido à colaboração dos bôers enquanto auxiliares das campanhas punitivas e de ocupação contra o "gentio rebelde", como ocorreu no Humbe (Bender, 1980:117-18; 148-49).

Quando a colônia bôer requereu, em 1890 (O Mercantil, 686, 28/9/1882 apud AHU Angola, 2ªS.1ªR. p.10, Ofício de 19/9/1890), subsídios e um código especial para regular autonomamente a vida interna da comunidade, a reação oficial foi claramente desfavorável, a par de manifestas atitudes de xenofobia (AHU Angola, 2a.S. 2a.R. p.14, Ofício de 24/8/1890), pela ameaça eventual que daí pudesse resultar para o domínio português. Estavam criadas as condições para a retirada próxima dos bôers do Sul de Angola.

3. Angola, a Quem Pertence?

3.1. Colonização portuguesa – pró ou contra?

Alguns anos antes do episódio do Ultimato, processava-se na colônia um debate entre grupos sociais bem distintos, acerca das virtudes/malefícios da colonização portuguesa. Consoante aos interesses individuais, de grupo, de classe, de etnia, eles mesmos variáveis segundo o momento histórico, assim os habitantes africanos e europeus de Angola se posicionaram na década de 1880 perante o poder colonial. Opiniões mais ou menos generalizadas, que uma prática secular de convivência ora pacífica, ora conflituosa, ajudara a sedimentar, assumiram por vezes o caráter de bandeira à volta da qual se congregavam forças econômicas e grupos de pressão. Dentro do núcleo colonial, a profunda diferenciação social transparecia no confronto, ora entre grupos raciais, ora entre interesses regionais ou setoriais.

Em função da heterogeneidade social e racial, obtinha-se níveis de resposta diferenciados entre os habitantes, face à atuação das autoridades coloniais.

Em um outro âmbito, as sociedades periféricas que tinham conseguido preservar, até então, uma relativa independência, ainda que não isenta de restrições e interferências exteriores, estabeleciam relações multiformes com o núcleo colonial, originando conflitos que importa assinalar. Vivia-se, então, no limiar de uma nova fase de expansão do domínio colonial, cujo processo iria obviamente colidir com uma realidade africana sujeita às próprias determinações internas, daí resultando formas extremadas de confronto e violência.

Analisemos, portanto, o posicionamento de vários grupos sociais face à colonização portuguesa na década de 1880.

3.2. Os colonos

Em primeiro lugar consideremos um significativo grupo de pressão constituído por colonos agricultores, comerciantes e pequenos empresários industriais de Luanda, Benguela e Moçâmedes, e o modo como exprimiam a sua opinião sobre as questões econômicas e políticas que mais os afetavam, em uma fase muito crítica do seu crescimento econômico.

Destinada a suprir as limitações da navegação a vapor no Cuanza, bem como a carência de carregadores freqüentemente denunciada por agricultores e comerciantes no percurso entre Luanda e Malange, os comerciantes reclamavam, há muito, a construção de uma via férrea entre Luanda e Ambaca. Procedia-se, em meados da década de 1880, à construção do primeiro trecho, esperando-se, deste modo, o aumento do volume de mercadorias permutadas na região, entre o litoral e o interior. É que, simultaneamente, uma leva de colonos vinha se instalando nas áreas produtivas de cana e de café, associando a exploração agro-industrial ao comércio.

No Sul os problemas econômicos eram mais graves e tinham, aparentemente, solução mais difícil. Utilizando a imprensa, especialmente no distrito de Moçâmedes, os colonos mobilizaram fortes campanhas no sentido de influenciar decisões governamentais favoráveis ao desenvolvimento econômico, em particular a instalação da ferrovia, o apoio à agricultura, aos colonos e ao escoamento da sua produção.12

Protestando contra a morosidade das decisões, os colonos de Moçâmedes reclamavam que "sem estradas e sem bois de carro para conduzir os produtos ao litoral, não há agricultura que vingue, nem indústria que prospere" (AHU Angola CG p.48, Ofício de 15/5/1878).13

Em uma argumentação mais global, era ainda requerida a urgente construção da ferrovia, em nome do próprio sucesso da colonização: transportar os colonos do litoral para o planalto; promover as explorações mineira e pecuária; escoar os produtos agrícolas e do comércio sertanejo; e efetuar a ocupação militar, constituíam ações das quais o transporte ferroviário parecia indissociável (AHU Angola, 2ªS.2ªR. p.14, Ofício de 4/9/1890; Jornal de Mossâmedes, nº 164, 4/8/1891).

Após o Ultimato, ao longo do ano de 1890, alguns destes argumentos foram reforçados, principalmente por razões de estratégia político-militar, invocando Luanda, por essa razão, a necessidade de proteger a fronteira meridional; defendiam, então, os colonos, a aceleração dos transportes para pacificar "eficaz, segura e menos dispendiosamente e assegurar a ordem e a tranqüilidade nesta região" (Almeida d'Eça apud Jornal de Moçâmedes, nº 164, 4/8/1891).14

Marcados pela dura experiência de uma colonização carente de apoios governamentais efetivos, e às voltas com os freqüentes levantes da população africana, que pretendiam sujeitar, espoliar e explorar abusivamente, como mão-de-obra, os colonos de Moçâmedes, interrogavam-se acerca da capacidade que os governos não revelavam no sentido de promover uma "boa colonização".15

Os seus protestos, dirigidos anteriormente contra as disposições emancipadoras da mão-de-obra escrava, voltaram-se, nos anos 1880, contra os processos de recrutamento instituídos, marcados, aliás, por acentuada ambigüidade, a fim de permitir a perpetuação de práticas escravagistas. Além disso, eram enormes as resistências contra a alteração nas formas de tratamento dessa mesma mão-de-obra, ecoando na imprensa a controvérsia sobre os castigos corporais (varadas) e o serviço forçado (cf., p. ex., Jornal de Loanda, nºs 85 e 87, 8 e 24/12/1880), assim como os protestos contra o agravamento dos custos da mão-de-obra.

Preocupava a eles, além do mais, a precariedade do poder colonial, incapaz de conter as freqüentes revoltas, responsáveis pela perturbação do cotidiano das empresas locais (Jornal de Mossâmedes, nºs 155, 17/5/1890; 158, 1/7/1890; 163, 20/9/1890). No seu entender, a incúria e a ignorância colonizadora dos governos só interessaria aos estrangeiros que, no momento oportuno, se apoderariam de Angola, dando "mandado de despejo" a Portugal na sua qualidade de potência colonizadora (idem, nº 154, 1/5/1890; nº 163, 20/9/1890).

No quadro concorrencial que a atividade dos estrangeiros representava junto às fronteiras, os colonos alertavam as autoridades para as pretensões dos alemães e ingleses, no sentido de responder a eles com o desenvolvimento interno da colônia, uma vez que os "direitos históricos" não bastavam, de modo algum, para assegurar o domínio português.

Com efeito, alguns colonos entendiam que a Alemanha constituía, a médio prazo, um concorrente temível, na medida em que podia criar "sérios embaraços à autonomia colonial" (idem, nº 154, 1/5/1890). Aliás, a aproximação que Portugal promoveu em relação à Alemanha para contrabalançar o predomínio da Inglaterra era vista, na colônia, com reservas e forte apreensão. "Parece à primeira vista que a Alemanha, com a sua expansão em África, indiretamente nos desafrontará do brutal proceder da Inglaterra [...]", observava um articulista, acrescentando com lucidez que "à Alemanha será fácil provar a incapacidade de Portugal como colonizador em face do estiolamento das suas possessões" (idem, nº 159, 15/7/1890), podendo vir a aproveitar-se da vizinhança para se imiscuir na economia de Angola.

Na perspectiva de alguns colonos mais críticos, importava corrigir a má administração, a letargia do governo, o esbanjamento de fundos, a ingerência abusiva do Estado em todos os setores da vida da colônia, ao mesmo tempo em que devia ser assegurada a exploração dos recursos naturais pelos elementos mais dinâmicos da população. "Parar agora seria morrer [...]" (idem, nº 156, 1/6/1890), pelo que preconizavam a maximização das potencialidades econômicas, em especial no Sul, intensificando a pesquisa de recursos, garantindo a manutenção da ordem, praticando uma administração descentralizada a par de uma colonização agrícola em bases sólidas, apoiada na afluência de capitais (idem, nº 155, 17/5/1890).

Como se vê, não eram, efetivamente, os fundamentos da colonização que eram questionados por este grupo, nem sequer a legitimidade dos processos utilizados. Afinal, estava em questão apenas a eficácia do sistema, do qual os colonos esperavam obter maior retribuição.

3.3. A "resistência primária"

Nos finais da década de 1880, a maioria da população africana, integrada em entidades políticas de dimensões muito variáveis, manifestou outro tipo de resposta ao domínio português em Angola. As relações que mantinham com os núcleos coloniais estavam compreendidas entre dois extremos: a independência ou a sujeição totais, sendo, contudo, as situações intermédias não só freqüentes, como suscetíveis de acentuada instabilidade.

Na verdade, as pressões exercidas pelas autoridades de Luanda refletiam-se no interior das formações sociais periféricas, atuando no sentido inverso da distância que as separava do núcleo colonial. Deve, por isso, considerar-se que, em função dos interesses prioritários da política colonial, regiões houve que foram profundamente perturbadas pela intervenção européia, nomeadamente pela procura de mão-de-obra, de mercados e de matérias-primas.

Desse fato, foram conseqüência direta as diversas manifestações de "resistência primária" (Chilcote, 1972:2; Wheeler, 1972:68) provenientes dos sobados ou de reinos independentes, que ocorriam logo que se atingia um ponto crítico em que as relações de compromisso com o núcleo colonial ou seus representantes se rompiam. Eram formas de resistência passiva e/ou ativa que funcionavam como a resposta possível perante situações constrangedoras para aquelas formações sociais.

Ao contrariar global ou pontualmente a interferência política externa, buscavam as autoridades africanas preservar não só a sua soberania sobre os homens e o território legado pelos antepassados, como o controle do produto da terra, a preservação das suas estruturas sociais e o acesso a rotas comerciais e aos mercados abastecedores (cf. Chilcote, 1972:281-82, 293; Isaacman e Vansina, 1987:195-206). Se é certo que a agressividade comercial tanto de africanos (no planalto do Bié e na Bacia do Zaire, por exemplo), como de europeus (sertanejos e outros), produziu alguns episódios de resistência armada, como sucedeu em 1886,16 não foi esse o domínio mais propício à violência explícita.

Foi, pelo contrário, a ocupação de terras férteis ou próprias ao pastoreio, feita pelos colonos europeus em um ritmo acelerado a partir dos anos 70,17 que desencadeou os protestos dos seus primeiros possuidores. Essa expropriação, estendida sucessivamente por novas áreas, originou conflitos profundos que em muitos casos persistiriam até ao fim do período colonial.

Por outro lado, a persistência da escravidão na fase terminal do processo abolicionista perpetuou práticas violentas que geravam respostas idênticas às que a condição de escravo ditara durante séculos. As fontes atestam, de modo irrefutável, que perdurou o tráfico interno de escravos, utilizados como moeda de troca, mesmo depois de 1875, ano-limite segundo a legislação abolicionista.18 Correspondendo a interesses há muito instalados, nem sobas, nem comerciantes, abdicaram de imediato do tráfico. De fato, a rejeição da escravidão provinha quase que exclusivamente daqueles que continuavam a ela submetidos, em atitudes de revolta individual que deixaram sinais nos documentos.

Paralelamente, foi instituído, após 1875, o recrutamento dito voluntário de "serviçais", expressamente para substituir o anterior processo de angariação de escravos. Pela identidade de processos utilizados, desencadeou resistências renovadas entre as populações sujeitas a prestações coercivas de trabalho em Angola, ao mesmo tempo em que aumentou a exportação de "serviçais contratados" nos anos 80, tanto para São Tomé como para o Estado Livre do Congo, depauperando demograficamente as regiões fornecedoras. Nesta situação encontravam-se os Conselhos de Novo Redondo, Catumbela, Benguela, Cambambe e Dondo, que contribuíram com o maior contingente de "colonos devidamente resgatados, vacinados e contratados" pela Curadoria, em 1890 e 1891.19

Consideremos os níveis de rejeição manifestados pela mão-de-obra africana recrutada em regime forçado, através dos compromissos assumidos pelos sobas perante as autoridades coloniais, e efetivamente compelida a trabalhar nas obras públicas, nas fazendas privadas ou do Estado, nas pescarias etc.20 As atitudes mais freqüentemente registradas nas fontes indicam o seu posicionamento perante o sistema que gradualmente absorvia essa mão-de-obra: a lentidão no trabalho, o roubo e a destruição de bens, ferramentas e gado, a fuga dos locais de trabalho, o assassinato de colonos e feitores, são provas eloqüentes da difícil integração dessa mão-de-obra no sistema de exploração por meios coercivos.

Em uma avaliação global, assinale-se que: a instalação de residentes portugueses (civis ou militares) encarregados de fazer imposições às autoridades africanas, quer via negociação, quer militar;21 o traçado de fronteiras ao abrigo de tratados assinados entre as potências européias; a cobrança de impostos em nome da Coroa portuguesa, praticada por processos venais; a imposição de prestações de trabalho em jornadas mais ou menos longas e duras; e a ingerência nos processos eletivos das autoridades tradicionais, foram entre outros, fatores decisivos que precipitaram algumas revoltas ocorridas de norte a sul da colônia nesse final de século.22 Afinal, a instabilidade que se vivia era produto da contestação evidente da legitimidade da presença portuguesa em Angola, por uma parte significativa dos africanos.

3.4. A oposição crioula

Analisemos, por fim, o movimento de conscientização e protesto23 desencadeado pelos euro-africanos e negros "civilizados", que constituíam um grupo minoritário na colônia, ainda que predominante em termos sociológicos.

A caracterização desse grupo, já iniciada por Mário António (1961) e Jill Dias (1984), possibilita a compreensão do seu posicionamento político no período em estudo. A sua concentração nas regiões ao norte do Cuanza e, especialmente, nas cidades de Luanda, Benguela e Moçâmedes, identifica-os claramente como um produto da sociedade colonial. Por outro lado, a existência de laços familiares estreitos entre os elementos do grupo, conferia-lhes uma relativa coesão em torno de alguns valores comuns. Com efeito, a sua integração econômico-social nas estruturas coloniais proporcionara uma síntese de valores culturais de proveniência africana e européia, que conferiam aos indivíduos uma identidade muito particular.

Desempenhando cargos no funcionalismo, no exército, no sacerdócio e no ensino, e ainda como empresários comerciais e agrícolas, detinham o conhecimento da escrita, tendo acesso à informação veiculada pela imprensa periódica da qual alguns eram os principais colaboradores (cf. António, 1961:9-10; Lopo, 1964:65-74; Wheeler, 1972:94-97).24

Tendo integrado elementos culturais de origem européia, e identificando-se até certo ponto com uma herança cultural comum, manifestavam uma devoção patriótica a Angola, entidade política, na época circunscrita aos distritos de ocupação colonial. Desse modo, os angolanos sentiam-se distintos das pessoas oriundas do reino (Portugal), e enquanto africanos, também não se identificavam com os "gentios" do interior, em relação aos quais se sentiam culturalmente superiores (Dias, 1984:79).

Embora a elaboração de uma identidade própria dos indivíduos que compunham este grupo tenha sido um processo que se alongou por várias gerações, a sua afirmação cultural situa-se, porém, na década de 1880, quando a voz veemente de Cordeiro da Matta (1857-94), considerado o "pai espiritual" da literatura angolana, emprestou nova dimensão erudita à cultura tradicional crioula. Nessa linha, lutou incansavelmente pela revalorização da herança cultural africana através da legitimação do uso das línguas locais, nomeadamente o kimbundu (António, 1961:33-37; Wheeler 1972:71; Hamilton, 1975:52-54). Embora sendo um escritor de língua portuguesa, Matta fundamentou o seu crioulismo na interpenetração das culturas portuguesa e kimbundu, testemunhada pela própria vivência, assim como a dos seus patrícios angolanos (Dias, 1984:79).

No meio urbano, onde esse grupo constatava que nem a educação, nem as doutrinas igualitárias pregadas pelos missionários eliminavam, por si só, a discriminação social e política, foram-se instalando gradualmente sentimentos de frustração e hostilidade em relação ao poder. Paralelamente, "os filhos do país" verificavam, com indignação, o aumento do racismo e da discriminação, associados à afluência de colonos na década de 1880 (Farol do Povo, nº 9 e 11, 7 e 21/4/1883; Muen'êxi, nº 1, 2/6/1889).

Numa tentativa de preservar a posição privilegiada que até então detinham, publicaram freqüentes denúncias da violação do seu estatuto e dos direitos adquiridos, enquanto requeriam a Lisboa a proteção dos mesmos, o estabelecimento da igualdade e o fim da flagrante exploração do trabalho dos africanos.

Ao longo dessa luta, os angolanos adquiriram, nesse período, uma consciência cada vez mais profunda da precariedade do seu estatuto dentro do sistema colonial (Futuro d'Angola, 13/5/1882 apud Wheeler, 1972:75, nota 37; Muen'êxi, nº 2, 23/6/1889). Neste aspecto, o Farol do Povo, dirigido pelo republicano Arantes Braga, revelou-se o jornal mais intransigente, ao publicar os violentos artigos dos seus colaboradores angolanos. A sua difusão na colônia foi tal que preocupou seriamente o governo, segundo o qual o Farol pregava o "ódio de raça" e aconselhava os cidadãos a rebelarem-se contra a bandeira portuguesa (Ferreira do Amaral, "Relatório do Governo" (1883), apud Angolana, v. II). A ação cultural e cívica desenvolvida no último quartel do século por personalidades angolanas, constituiu um movimento essencial à definição da identidade do grupo. Com interesses em diversas áreas, da lingüística à educação, da literatura à etnografia, da filosofia à política, esses angolanos contribuíram para uma elevada consciência da própria identidade, da sua possibilidade de progredir segundo padrões ocidentais, valorizando simultaneamente a própria condição de angolanos (Hamilton 1975, v. I:53).25 Refira-se, ainda, que na década de 1880 o associativismo cultural e político africano, radicado em meio urbano, foi fruto da necessidade inadiável de refletir sobre a "nacionalidade" angolana (Futuro d'Angola, 13/5/1882 apud Wheeler, 1972:75) e de concertar formas de ação que integravam, simultaneamente, questões culturais e políticas. Foi manifestado, nessa oportunidade, o desejo de congregar os interessados em uma associação de "filhos do país", designada União Luso-Africana, a fim de lutar contra as injustiças cometidas pela metrópole e acabar com preconceitos – o "ódio de raça" (Arauto Africano, nº 1, 17/3/1889).26

Apesar de relativamente homogêneo, este grupo de angolanos que propunha a "nova renascença intelectual africana" (O Farol do Povo, nº 6, 17/3/1883) e que acreditava que a adoção dos padrões europeus era indispensável para o progresso econômico e social de Angola, perfilhou posições contraditórias relativamente a algumas questões de "política interna".

Não será excessivo chamar de moderada uma ala composta por angolanos que, não rejeitando a civilização européia, criticavam, no entanto, a colonização portuguesa, tendo como referência outras colonizações que consideravam mais bem-sucedidas. O modelo do self-government britânico era invocado freqüentemente em nome da "autonomia de governo das colônias, da descentralização e da democracia" (sic).

Na defesa constante dos próprios direitos, a voz destes cidadãos enunciava os princípios essenciais preconizados pelos teóricos do liberalismo, a saber, a liberdade, a igualdade perante a lei, a educação primária, secundária e profissional, o direito de voto, o exercício de cargos sem discriminações raciais (União Afro-Portuguesa, nº 1, 6/5/1882; Futuro d'Angola, nº 79, 15/9/1887; Muen'êxi, nº 1, 2/6/1889; Arauto Africano, nº 13, 1889).

A afirmação da própria personalidade jurídica perante o governo colonial não impedia, no entanto, uma certa consonância com as preocupações governamentais: alguns angolanos apelaram à defesa contra os "estrangeiros cobiçosos" e à proteção ao comércio e indústria, ao mesmo tempo em que se revelavam favoráveis à colonização e à instalação de missões que promovessem a "civilização" entre os africanos (Arauto Africano, nº 1, 17/3/1889).

Apesar do descontentamento social existente na colônia, e embora reclamando o respeito pelos direitos essenciais dos africanos "civilizados", esta corrente reformista era a favor da integridade do império português e da solidariedade entre as suas partes constitutivas. A maior parte dos seus componentes acreditaria, por certo, que a salvaguarda dos seus interesses econômicos e políticos residia no apoio à repressão às revoltas do "gentio", cuja ação receava. Só isso explica os louvores à atuação, nesse campo, do general Geraldo Vítor, nos anos 1880, da parte dos seus conterrâneos, assim como a defesa, pela comunidade crioula do Dondo, em 1883, da colonização portuguesa (Dias, 1984:84-5). Por outro lado, a identificação com Portugal era simbolizada pelos festejos anuais do 15 de agosto, "o dia dos angolanos", no qual as famílias crioulas de Luanda e Benguela celebravam, com grande entusiasmo, a tomada de Luanda aos holandeses, em 1648, a chamada "Restauração de Angola" (Almanaque de Lembranças 1890 apud Dias, 1984:85).

Entretanto, devido ao agravamento das práticas discriminatórias ao longo da década de 1880, sustentadas por uma legislação que discriminou os africanos na sociedade colonial, qualquer "filho do país" ficou sujeito à arbitrariedade dos juízes, curadores e outros agentes de autoridade. Agravado o processo de alienação dos seus recursos econômicos e de perda de empregos, a discriminação atingia os angolanos a tal ponto que gerou, entre colonos e africanos "civilizados", um clima de controvérsia permanente, que atingiria a sua fase mais crítica nos anos 1890 (Futuro d'Angola, nº 206, 14/6/1894).

A controvérsia conduziu à radicalização de posições da parte de alguns africanos, para quem o simples reformismo já não oferecia qualquer esperança. Entre os defensores de atitudes mais radicais, incluem-se os já anteriormente citados José de Fontes Pereira, Arantes Braga, João Inácio de Pinho e Mamede Sant'Ana e Palma, que foram as consciências mais críticas da situação. Advogavam eles a transformação do status quo colonial, uma vez que "a prosperidade das colônias só principia quando instituída a nação independente" (idem, nº 79, 15/9/1887).

Esta perspectiva mais radical quanto ao futuro da colônia, expressa nos anos 80 com clareza e alguma freqüência na imprensa local, encontrava-se, no entanto, permeada pelas idéias políticas que na época se difundiam em Angola, provenientes da Europa. Optar por um regime republicano era o que o Farol do Povo e o Arauto Africano, porta-vozes desse grupo mais radical, preconizavam, desferindo profundos ataques contra a colonização portuguesa, contra a monarquia agonizante, contra "quatro séculos de escravidão" (Echo de Angola, nº 4, 3/12/1881; Farol do Povo, 17/3/1883; Arauto Africano, nº 32, 6/1/1890 e nº 34, 20/1/1890).27

Constata-se na época, de fato, uma associação cada vez mais estreita entre o republicanismo e as aspirações mais profundas dos angolanos com relação ao futuro político da sua terra. A proclamação da República brasileira, em 1889, aclamada por uma fração da opinião angolana (O Desastre, nº 5, 15/1/1890) terá, decerto, trazido renovadas esperanças aos projetos que alguns acalentavam. Os debates que animaram as suas reuniões domésticas e associativas, e que transbordavam, por vezes, para as colunas dos jornais, incluíam questões como o trabalho forçado, o despacho coercivo de trabalhadores para São Tomé, o estatuto dos cidadãos angolanos em confronto com os do reino, a falta de escolas e de oportunidades profissionais, as péssimas condições das prisões locais etc. (Wheeler, 1972:76 e 99).

Contra a defesa da função civilizadora dos portugueses, foi, nessa oportunidade, denunciada pelos mais radicais, a "falsa civilização" introduzida em Angola, resultado da atitude obscurantista intencionalmente adotada em relação aos africanos, a quem eram negadas as "luzes", pelo receio de que através do conhecimento "dos seus costumes bárbaros", fossem "capazes de proclamar a independência do seu país" (Futuro d'Angola, 8/4 e 29/4/1882, 10/11/1886; Arauto Africano, nº 10, 26/5/1889).

Não se tratava, porém, de uma questão exclusivamente política, já que se detectava o problema subjacente da salvaguarda da sua identidade cultural. Sentindo-se os angolanos na iminência de perderem a sua "nacionalidade" sob a pressão do domínio português, preconizaram em desespero de causa o seu apoio à Inglaterra vitoriana. No quadro da disputa colonial sobre os territórios africanos, o decano dos jornalistas angolanos, José de Fontes Pereira, apresentou a proposta corajosa de que a Inglaterra se assenhoreasse de Angola (Arauto Africano, 20/1/1890).28 Este desafio, publicado em 20 de janeiro de 1890 pelo Arauto Africano, seria o mais sério que os angolanos, através do seu representante mais eminente, dirigiriam contra o poder colonial neste fim de século tão conturbado pelas questões de supremacia imperial.

Agravando a posição de Portugal como potência candidata a um domínio inconteste sobre os territórios africanos que pretensamente civilizara ao longo de quatro séculos, a crítica, não só insistente como temerária, dos princípios dessa mesma colonização, formulada por uma elite até então beneficiada pelo sistema (Wheeler e Pélissier, 1978:85-6), veio atingir mais uma vez a credibilidade da ação colonial portuguesa.

Apesar de suspeitos de parcialidade induzida pela competição internacional, alguns círculos antiescravagistas geravam denúncias que eram reforçadas no interior da sociedade colonial pelos próprios angolanos, confirmando, deste modo, as seqüelas da administração portuguesa.

Nem os conflitos de interesses entre os colonos do Sul e o poder colonial – traduzidos na crítica à prática administrativa e ao abandono a que eram relegadas as suas iniciativas –, nem os movimentos de resistência dos povos do interior – expressos em revoltas mais ou menos desgastantes para o poder colonial – abalaram tanto a estabilidade desse mesmo poder. A contestação global que as palavras de Fontes Pereira exprimiam, deixava entrever o conjunto de protestos que se avolumavam na última década entre os "filhos do país", cuja função social e política vinha sendo minada por autoridades que visivelmente se preocupavam com outras considerações que não a identidade e a autonomia dos africanos. Neste quadro conflituoso, em que governantes e governados projetavam de modos divergentes o futuro da colônia, importa analisar os dados disponíveis no sentido de averiguar em que medida terá o Ultimato constituído um fator de dissuasão ou de reforço das tendências políticas registradas nos dois campos.

3.5. O pós-ultimato

A notícia do Ultimato de 11 de janeiro de 1890 chegou por telégrafo a Luanda. Que eco teve na sociedade colonial esse incidente diplomático, que tanta perturbação trouxe à opinião pública em Portugal?29 Segundo um relato oficial,

[...] a questão anglo-lusitana produziu, como era natural, a maior indignação entre todos os portuguezes. As manifestações populares que por esse motivo se tem feito em nada tem alterado o socego e ordem publica. A grandiosa ideia de se promover uma subscrição nacional a fim de se organisar meios de defesa marítima encontrou aqui bom acolhimento no coração dos portuguezes que a abraçaram cheos de enthusiasmo e segundo me consta tem havido donativos valiosos. Os negociantes resolveram cortar as suas relações comerciais com a Inglaterra e muitos suspenderam já pedidos de mercadorias daquela nação. Conquanto pacíficas todas essas manifestações, mas temendo algum excesso ou acto de violência contra a colonia ingleza, foram tomadas as convenientes medidas policiais. (AHU Angola, 2ª S.1ª R. p. 10, Ofício de 14/2/1890; e 2ª S.2ª R. p. 14, 1890)

Nesta apreciação das reações mais evidentes e imediatas ao Ultimato por parte dos portugueses que residiam na colônia, ressalta a sua preocupação em acertar o passo com as grandiosas manifestações que ocorriam no reino. Na seqüência dos protestos nacionalistas, as reuniões feitas no Theatro de Loanda e na Associação dos Empregados do Comércio da cidade, foram as mais significativas no âmbito das intenções. Na prática, no entanto, seus efeitos foram muito escassos, mesmo entre os colonos (Correio de Loanda, nº 13, 6/4/1890; Jornal de Mossâmedes, nº 161, 15/8/1890). Senão, vejamos.

Enquanto referência noticiosa, o Ultimato não ocupou grande espaço nos jornais de Angola, nem desencadeou movimentações de algum modo comparáveis às que tiveram lugar no reino ou mesmo entre as comunidades de portugueses na Europa e no Brasil (Teixeira, 1990:120-121). O recolhimento de fundos acabou por trazer escassos resultados. As trocas com a Inglaterra, no movimento comercial referente aos anos que se seguiram ao Ultimato, aparecem pouco afetadas. Os desacatos contra os súditos britânicos residentes na época em Angola, se os houve, não ficaram registrados.

O que, de fato, parece ter produzido maior controvérsia pública, foi o artigo "Partido Colonial", de Fontes Pereira (Arauto Africano, 20/1/1890), cuja publicação levou um grupo de cerca de noventa brancos estabelecidos na colônia a assaltar a redação do jornal e a exigir a retratação do autor.30 Este ato intimidatório, além de ter atingido duramente o jornalista angolano, já em idade avançada, terá eventualmente contido outras manifestações antiportuguesas do grupo mais crítico da colonização.

Em um nível mais profundo das consciências, o Ultimato reforçou velhos temores, especialmente junto às autoridades e aos portugueses da colônia, adensando o espectro da ameaça estrangeira: qualquer ato que contestasse, ou pusesse simplesmente em causa a soberania portuguesa em Angola, era suposto ter por trás a mão de algum agente estrangeiro, especialmente britânico. Ou simplesmente se temia, e com alguma pertinência, que qualquer tendência hostil ao domínio português seria de imediato apoiada por uma força estrangeira.

Citemos alguns exemplos. O reino do Bié, no tempo do soba Ndunduma, rebelou-se contra a ingerência portuguesa na região. Segundo a explicação oficial, os incidentes tinham ocorrido "por sugestão de estrangeiros", sendo atribuída grande responsabilidade à missão escocesa de Garanganja, que teria incitado o povo à rebelião (Jornal de Mossâmedes, nº 155, 17/5/1890; nº 157, 15/6/1890; nº 160, 4/8/1890).31

Acusação idêntica seria apresentada, tempos depois, contra os missionários de Donga, que teriam influenciado um soba cuanhama no sentido de recusar a soberania portuguesa (AHU Angola, 2ªS. 1ªR. p.15, Ofício de 21/8/1891). O trauma nacionalista resultante do sobressalto que o Ultimato provocara em alguns setores da sociedade colonial, projetou-se em uma percepção exacerbada de perigos ocultos, assim como em manifestações primárias de xenofobia. Em especial nas fronteiras a leste e a sul da colônia, qualquer sinal de presença estrangeira bastava para originar boatos e atos de prevenção despropositados.

Segundo um editorial do Jornal de Mossâmedes, tanto os assaltos comandados por sobas avassalados, como as invasões freqüentes de hotentotes, que devastavam os campos e capturavam gado, matando também alguns africanos, eram tidos como atos levados a cabo

"[...] por sugestões de estrangeiros, agremiados em missões, sociedades ou companhias largamente subsidiadas pelos respectivos governos, e que são sempre um foco permanente de conspirações contra o domínio portuguez, quando para se estabelecerem nos pediram a nossa protecção e a nossa licença" (Jornal de Mossâmedes, nº 158, 1/7/1890).

A freqüência de apreciações deste teor permite-nos afirmar que o nível de acusações contra os estrangeiros, dentro ou fora da colônia, qualquer que fosse a sua atividade (desde comerciantes a missionários) foi aumentando a ponto de se tornar uma referência obsessiva no discurso nacionalista português. Fora, simultaneamente, encontrada uma explicação que mistificaria, até ao fim do período colonial, a origem das revoltas dos africanos, remetendo-a para o plano da intriga internacional contra o domínio colonial português.

O Ultimato atuou, em um outro plano, como detonador, no quadro da estratégia adotada a partir da década de 1890, em relação às populações africanas independentes da tutela colonial. Um dos efeitos imediatos do incidente luso-britânico foi a aceleração da ocupação militar dos territórios não-avassalados, sempre que a pressão exercida sobre os reis e sobas independentes, no sentido da conclusão de tratados de vassalagem ou submissão32 não surtisse efeitos imediatos. Visto que o conceito de ocupação efetiva e o entendimento dos africanos sobre esses tratados, na maior parte dos casos, se contradiziam na sua essência, a situação de conflito só podia intensificar-se (Isaacman e Vansina 1987:54, 57-8).

É fato que algumas revoltas atingiam proporções consideráveis e alcançavam maior duração, graças ao armamento de fogo que os revoltosos conseguiam adquirir com os comerciantes estrangeiros e portugueses, mormente no Sul, por permuta de cabeças de gado que eram conduzidas até ao Cabo e ao Transvaal.33

Também é certo que, na colônia, atribuiu-se ao Ultimato responsabilidades pela paralisação de algumas iniciativas em curso, como sucedeu com a ferrovia de Moçâmedes, ao retrair-se o crédito a ela destinado. Algo idêntico ocorreu quando as questões de política externa chamaram a atenção de políticos e da administração (Jornal de Moçâmedes, nº 164, 11/8/1891; nº 181, 15/5/1892), relegando a último plano realizações que só a médio prazo seriam rentáveis, ou trariam dividendos políticos aos responsáveis coloniais. Em alguns setores da opinião pública, freqüentemente manipulada pelos governantes, aconteceu que através de análises incorretas dos acontecimentos, remeteu-se para o domínio da política externa a explicação de problemas conjunturais vividos na colônia (cf. Teixeira, 1990:156).

Em outro sentido, contudo, o Ultimato foi entendido como um aviso oportuno aos governantes: o de que a inércia, o desleixo e a ignorância dos governos eram a causa da situação atual (Jornal de Moçâmedes, nº 163, 20/9/1890), sendo necessário pôr-lhes um fim o mais brevemente possível.

Por efeito do Tratado Luso-Britânico de 11 de junho de 1891, Portugal preservou o domínio exclusivo de Angola, contra as cessões que foi obrigado a fazer em relação a Moçambique (cf. Alexandre, 1979:63). Na seqüência disso, a reserva do mercado de Angola para os interesses coloniais portugueses iria constituir uma "tábua de salvação" no contexto da recuperação da crise que afetava profundamente as finanças e a agricultura portuguesas. O protecionismo dos anos 1890, traduzido localmente em numerosas medidas restritivas, iria, porém, precipitar na colônia novas ondas de protesto dos comerciantes e agricultores, revelando persistentes contradições face às burguesias metropolitanas e aos governos que as protegiam.

Conclusão

Apesar da historiografia colonial ter focalizado preferencialmente o Ultimato no quadro da história de Moçambique, por razões de estratégia imperial afigurou-se imprescindível investigar a sua eventual projeção em Angola, como parte integrante do mesmo império.

Existe, no entanto, outra justificação para fazer incidir a atenção sobre Angola na década de 1880. Foi, com efeito, esse breve lapso de tempo crucial para as populações sobre as quais se implantou gradualmente um domínio formal, adquirindo, então, especial relevo as questões de delimitação de zonas de influência européia, onde as pressões estrangeiras mais se evidenciaram.

Foi esse também o momento em que se manifestaram, no território considerado, obstáculos sérios à concretização das pretensões portuguesas: de um lado, a concorrência econômica e política das potências imperialistas, transposta para a vasta região por agentes das mais diversas procedências; de outro lado, os movimentos de resistência africana contra a integração a qualquer preço, nos novos espaços determinados por considerações a que os próprios africanos eram totalmente alheios.

Finalmente, foi também essa década crucial para a construção da identidade da população urbanizada de Angola, constituindo um processo que não foi indiferente à luta que mundialmente se desenhava em torno do Continente africano. É importante recordar que a repercussão da partilha em Angola fez avolumar o descontentamento dos "filhos do país", como foi já assinalado por outros historiadores, o qual implicou, na época, um posicionamento muito crítico em relação à colonização portuguesa.

Nunca anteriormente o domínio português em África se revelara tão precário e fora tão questionado. Justamente no momento em que, nos corredores diplomáticos, Portugal procurava legitimar pretensões expansionistas, invocando para tal os esforços desenvolvidos durante séculos (quando a prioridade dos descobrimentos portugueses legitimava os direitos históricos), eram elaborados, em alguns estratos da sociedade colonial, projetos que colidiam com os objetivos da política colonial, ou deles divergiam em absoluto.

O futuro desses projetos iria revelar-se no período seguinte, quando se afirmou a intervenção das forças expedicionárias e das forças de segunda linha, demarcando novas fronteiras e abatendo os últimos redutos independentes. A natureza muito diferenciada dos atos de resistência revelou-se com grande nitidez: enquanto uns recorriam à guerra para defender a sua autonomia e a sobrevivência das suas estruturas sociais (no sentido mais amplo), outros utilizavam os meios facilitados por uma vivência multicultural, em que o predomínio da Europa era crescente.

Para estes, a principal arma era a palavra, falada ou escrita; para aqueles, as revoltas eram o meio mais poderoso de manifestar a clara rejeição da presença portuguesa, desde que ela ultrapassasse os limites aceitáveis da convivência. Apesar disso, a correlação de forças internacionais não viabilizou a aliança desejada pelo angolano Fontes Pereira e seus companheiros políticos, nem sequer proporcionou a estes a oportunidade de tomarem nas próprias mãos os destinos da terra-mãe.

A estratégia britânica em África, orientada para as regiões Sul e Leste do Continente, não levou em consideração essa hipótese, se é que se terá apercebido dela. No entanto, quando a intransigência britânica fez abortar definitivamente o projeto do mapa cor-de-rosa, forçou os responsáveis pela política colonial portuguesa a reconhecerem que não bastava invocar direitos históricos para implantar a autoridade colonial.

A instabilidade interna que se manifestou em simultâneo, conjugada com a pressão internacional, constituiriam fatores decisivos na fase de ocupação territorial que se seguiu entre os anos de 1890 e 1920. Fora esse, afinal, o prelúdio dos confrontos decisivos que tornariam Angola uma colônia de projetos adiados.

Notas

1. A propósito das dificuldades sentidas, Ferreira do Amaral acusava, no seu Relatório, o comércio de Lisboa de falta de ousadia, ao mesmo tempo em que reclamava o abrigo de uma política protecionista através de pautas (apud Angolana, 1968, v. II).

2. Firmas européias como Daumas Béraud e Conquis Ainé, utilizavam ainda práticas de cambulação, através das quais obtinham lucros substanciais (cf. Ferreira do Amaral apud Angolana, 1968, v. II:685, 717-721).

3. Alguns viajantes visitaram regiões de Angola, ou circunvizinhas, até a primeira metade do século XIX, como Lacerda e Almeida (1798), P. J. Baptista e Amaro José (1802-11), Monteiro e Gamitto (1831), Rodrigues Graça (1843-46). Registrem-se as viagens de europeus na região durante a segunda metade do século XIX: Magyar (1849-57), Welwitsch (1853-60), Livingstone (1854-57), Bastian (1857), Andersson (Cubango, 1859), Cameron (Bié, 1873-76), Lux e Pogge (Lunda, 1875-76), Schütt (Lunda, 1878-79), Buchner (1879-81) e Wissmann (Lunda 1881-84). Ver Heintze (1999).

4. Sociedade científica, também referida como Sociedade de Geografia de Luanda, fundada em 1880 por cerca de uma centena de sócios entre os quais Henrique Dias de Carvalho, José Baptista d'Oliveira, Felisberto Miranda Júnior, Eduardo Ayalla dos Prazeres, Alfredo Mântua, Francisco de Sales Ferreira, António Urbano Monteiro de Castro. Entre os sócios fundadores, predominavam os oficiais do exército e da armada, os funcionários e os negociantes. Sua atividade parece ter terminado em 1882 (cf. Boletim da SPCGA, 1881).

5. Dos 49 entrepostos existentes no estuário do Congo, 26 pertenciam a comerciantes portugueses, 12 a holandeses, 7 a franceses e 4 a ingleses (cf. Pélissier, 1986, v. I:nota 6).

6. Vários chefes ndembu tinham preservado sua independência, desde a revolta de 1873-76, criando obstáculos à permuta com a colônia. Só em 1890 a administração colonial conseguiu impor autos de compromisso a alguns deles, no sentido de acatarem o poder colonial e reatarem as trocas comerciais. Ver AHU, Angola 2ª S. 1ª R. p. 10, Ofício de 5/12/1890.

7. Na mesma época (1884-85), realizava-se a segunda viagem de Capelo e Ivens, uma clara intenção de garantir os direitos históricos para Portugal.

8. Segundo Wheeler e Pélissier (1978:77), às primeiras missões congregacionistas do American Board of Commissioners for Foreign Missions, seguiram-se a American Baptist Foreign Mission Society (1882), a United Church of Canada (1886) e a Plymouth Brethren (1890).

9. AHU Angola, 2ªS.2ªR. p. 14, Ofício de 15/2/1890 que acompanha um telegrama de 7/12/1889, do Ministério da Marinha para o Governador Geral.

10. Nas suas cartas, Silva Porto afirmava a necessidade da ferrovia para o Bié, a fim de evitar espoliações territoriais da parte das potências estrangeiras. Cf. Jornal de Moçâmedes, nº 154, 1/5/1890.

11. Por contraste, citava-se a prática do governo britânico, que mandava "conduzir colonos à sua custa como, por exemplo, acontece em Demerara, e lhes dá auxílios muito superiores", atraindo, por esse meio também, colonos portugueses que preferiam outros destinos às colônias da África (AHU Angola, CG, p. 48, Ofício de 6/12/1878).

12. Sessão da Sociedade Propagadora de Luanda, realizada em 11/1/1882 (O Mercantil, 651, 26/1/1882).

13. Com efeito, os carros puxados a boi, introduzidos na Humpata pelos colonos bôers na década de 1880, embora constituíssem uma melhoria sensível, exigiam fretes caros que impossibilitavam a obtenção de margens de lucro compensadoras na venda dos produtos agrícolas do planalto em Moçâmedes (Jornal de Moçâmedes, nº 164, 4/8/1891). Até 1890, o custo do transporte do litoral a Lubango variava entre $950 e 1$200 (réis) por arroba de mercadoria; nesse ano, contudo, passou a 2$000 devido à falta de bois e carros, desviados para a expedição a Bié (AHU Angola 2ªS. 2ªR. p. 14, Ofício de 4/9/1890).

14. Alguns anos antes fora feito um apelo à proteção inglesa pelos proprietários e negociantes do distrito de Moçâmedes, às voltas com revoltas de africanos que o "governo portuguez não queria ou não podia" reprimir (AHU Angola CG p. 48, Ofício de 15/5/1878 e 6/12/1878) e com uma "crise de braços", resultante da emancipação dos libertos (1875).

15. Uma corrente de opinião, claramente minoritária na colônia, advogava a criação de "estações civilizadoras" como pólos de autoridade militar, administrativa e de irradiação missionária, e ainda como esteios da dominação colonial em perspectiva (Sessão da Sociedade de Geografia de Loanda, 11/1/1882 apud O Mercantil, nº 651, 26/1/1882). A propósito, veja-se o Decreto de Agosto de 1881, inspirado no neo-expansionismo da Sociedade de Geografia de Lisboa, que criava as referidas estações para propagação da "civilização e da influência européias". Os efeitos práticos limitaram-se à criação de algumas estações em Cabinda e Lunda, entre 1884 e 1887 (Pélissier, 1986, v. I:207-8).

16. Os reis do Bailundu, Bié e Tchyaka coligaram-se e tornaram-se hostis aos portugueses (Chilcote, 1972:289).

17. Os casos mais exemplares ocorreram no Cazengo, Seles, Amboim e Moçâmedes (cf. Freudenthal, 1989:76, 80-89, 116).

18. Basta citar, como exemplo, um testemunho insuspeito, no final dos anos 1870: Serpa Pinto informa Andrade Corvo sobre a existência de tráfico de escravos em Caconda, Bié, Cunene e Ganguelas, dando razão às acusações de Cameron (ver Relatório de Serpa Pinto de 18/1/1878 apud AHU Angola CG p. 48). H. D. Carvalho testemunhou o mesmo fato em Lunda (1890, v. I:283-85).

19. Entre 14/12/1889 e 31/10/1891 foram exportados cerca de 3559 "contratados", segundo os mapas da Curadoria Geral de Angola (AHU Angola, 2ªS. 2ªR. p. 14 e 15). A carência de mão-de-obra para as fazendas era atribuída a esse recrutamento, tendo originado fortes protestos por parte dos agricultores de Pungo-Andongo e de outras regiões (Boletim Colonial, nº 4, 6/12/1891).

20. Na ferrovia em construção entre Cacuaco e Quifangondo, trabalhavam 800 homens contratados (O Mercantil, nº 919, 17/3/1887).

21. Veja-se o processo da criação do distrito do Congo em 1885 em Pélissier (1986, v. I:257-61).

22. Para mais informações sobre os conflitos existentes, ver Angolana (v. II:686-87).

23. São relativamente numerosos os estudos publicados sobre esta questão. Ver, por exemplo, Chilcote (1972), Wheeler (1970, 1972), Dias (1984, 1986) e Bittencourt (1999).

24. Recorde-se que a imprensa africana se iniciou em 1881 com a publicação de O Echo de Angola, em Luanda (Lopo, 1964:75). Alguns europeus participaram do protesto ao lado dos seus colegas africanos, sendo de realçar a ação de Urbano de Castro no seu jornal A União Áfrico-Portuguesa, Luanda 1882.

25. Entre eles, há a destacar individualidades como José de Fontes Pereira (1823-1891), José Arantes Braga (fal. 1885), Lino de Sousa Araújo (1847-1907?), Arcenio de Carpo (fal. 1890?), Cornélio de Castro Francina, Mamede Sant'Ana e Palma (fal. 1908), António J. do Nascimento (fal. 1902), Pedro da Paixão Franco (fal. 1911), Augusto Silvério Ferreira (fal. 1915), Augusto T. Bastos (1872-1920?), A. J. Miranda, Francisco Castelbranco e Assis Júnior (1877-1960).

26. Na mesma linha de defesa das tradições culturais insere-se a criação de outras associações como a Filarmônica Africana, fundada em Luanda, em 1889 (O. Ribas, Izomba, 1965 apud Wheeler, 1972:73).

27. Na década de 1870, o primeiro periódico a declarar-se abertamente republicano foi o Cruzeiro do Sul, de Luanda (nº 12, 1/9/1873).

28. As reações que se seguiram à publicação deste apelo, tiveram eco na correspondência oficial (AHU Angola, 2ªS. 1ªR. p. 10, Ofício de 30/1/1890 apud Dias, 1984:85).

29. Para uma interpretação global do Ultimato, ver Alexandre (1979:189-93).

30. Ofício confidencial de Brito Capelo, de 30/1/1890, referido na nota 28

31. Após a derrota militar, foi-lhe imposta uma declaração de renúncia ao cargo, tendo sido aprisionado e deportado para Cabo Verde (AHU Angola, 2ªS. 1ªR. p. 11, Ofício de 21/2/1891).

32. Referências a autos de vassalagem no Centro e Sul de Angola cf. AHU Angola, 2ªS. 1ªR. p. 11, Ofício de Agosto de 1891.

33. A revolta dos Humbi e Cuamatui em 1891, dirigida pelo chefe Luhuna, socorreu-se de armas vindas de Walvis Bay e do Transvaal (Jornal de Mossâmedes, nºs 164, 165, 167 e 168, de agosto a outubro de 1891).

Fontes Primárias

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Periódicos

Arauto Africano, O, Luanda 1889-90

Correio de Luanda, O, Luanda 1890-95

Desastre, O, Luanda 1889-1893

Farol do Povo, O, Luanda 1883-85

Futuro d'Angola, O, Luanda 1882-94

Jornal de Loanda, O, Luanda 1878-80

Jornal de Mossamedes, Moçâmedes 1881-1895

Mercantil, O, Luanda 1870-96

Muen'exi, Luanda 1889

União Áfrico-Portuguesa, A, Luanda, 1882-83.

Boletim Colonial, Lisboa 1891

Boletim da Sociedade Propagadora de Conhecimentos Geográfico-africanos. n.1.Luanda 1881

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René Pélissier
Análise Social, vol. XLII (185), 2007, 1105-1123

Soldados, gorilas, diplomatas e outros literatos

Em relação aos segundos, temos de admitir com tristeza que escrevem pouco e que os seus escritos não recebem a atenção que merecem. Mesmo no Instituto Nacional das Línguas e Civilizações Orientais de Paris (as ex- -Langues O), lamento dizê-lo, as suas obras são negligenciadas e, à excepção talvez no Maiombe de Cabinda, não estou certo de que exista no mundo uma única biblioteca que, sistematicamente, coleccione os seus trabalhos. Em contrapartida, os seus primos mais espertos, os diplomatas na reforma, estes são cada vez mais prolixos à medida que a idade avança e se recordam de todos aqueles anos em que tiveram de sorrir, em vez de dizerem o que pensavam. Iremos ao seu encontro mais tarde. Comecemos por outro ramo ainda mais frutífero da nossa árvore genealógica comum: os soldados de cabelos brancos.

Abramos as hostilidades com uma salva em honra do coronel António Lopes Pires Nunes, cujo magnum opus 1 se impõe pelo seu volume (cerca de 1400 páginas), mas que continua e continuará, infelizmente, pouco conhe- cido, como consequência de uma política editorial que o impede de chegar às mãos de um número significativo de leitores, a começar pelas centenas de milhares de portugueses que cumpriram o serviço militar em Angola. Trata-se exclusivamente da história oficial, mas não temos nada mais deta- lhado sobre a guerra colonial na África lusófona. O primeiro volume com- preende o período até ao final de 1964; o segundo vai até 1974. É necessário que sejamos claros: esta imensa compilação e exploração de documentos — aparentemente, nem todos utilizados — foi elaborada para honra e glória das forças terrestres portuguesas, o que é normal, uma vez que a obra foi produzida por um estado-maior nacional. Assim, na descrição das operações e na análise dos seus resultados pouco encontramos que possa pôr em dúvida as suas capacidades, a fundamentação dos seus métodos, as vitórias sobre este ou aquele ponto, e tudo o mais que um observador externo poderia contestar ou reprovar ao Alto Comando. Nem tudo são rosas no Page 2 1106 René Pélissier quadro pintado pelo autor, mas, no plano estritamente militar, a tendência geral é optimista. A derrocada do MPLA a oriente, a quase impotência da resistência a noroeste (onde se inclui Cabinda), a fraqueza ou a inactividade relativa da FNLA e da UNITA no início de 1974, confirmam, por outro lado, inegavelmente as conclusões do autor. É uma linha de defesa profissional que não se provou na Guiné, mas que para Angola permaneceu pertinente até às vésperas do 25 de Abril de 1974.

Não é este o local indicado para insistir no que não podemos encontrar nestes volumes: a começar pelo moral dos oficiais e pelas zonas de sombra que já foram iluminadas noutros livros não oficiais. Enquanto historiador, que conhece alguma coisa sobre a reconquista do Noroeste em 1961 (René Pélissier, La colonie du Minotaure, Editions Pélissier, Orgeval, 1979, 717 páginas, nomeadamente pp. 301-653), gostaria simplesmente de sublinhar veementemente cinco aspectos: (a) a vastidão do trabalho investido na ex- ploração de uma massa documental que cremos seleccionada, mas que é ainda assim esmagadora; (b) o desaparecimento quase total do maniqueísmo e da propaganda diabolizante, sempre inevitáveis num conflito que durou treze anos; (c) a imensidão das informações, que não encontramos em mais nenhum sítio e que nos permitem seguir a evolução das operações após o Outono de 1961; (d) a qualidade dos serviços de informações da PIDE/DGS, de organismos conexos e das forças terrestres, que se inteiraram ou «com- praram» uma parte dos segredos políticos e militares dos três movimentos nacionalistas; (e) a riqueza das estatísticas relativas à acção psicológica, às «inovações» (a reintrodução da cavalaria montada, etc.), às tropas auxiliares ou irregulares, ao material, etc. A bibliografia é relativamente abundante mas limitada ao que encontramos nas bibliotecas militares portuguesas (e nem em todas). A produção estrangeira sobre este assunto é, como de costume, pouco utilizada. Em resumo, do ponto de vista historiográfico, estes dois volumes são indispensáveis e encontram-se a léguas do que ficamos a saber (ou melhor, do que ficamos a ignorar) através dos lacónicos comunicados da imprensa portuguesa ou pela propaganda dos intervenientes nesta guerra. Mas, uma geração depois de 1974, podemos colocar uma questão que também se aplica a todos os exércitos coloniais recentes: onde se alojou o bicho que os impediu de concretizarem a sua aparente e relativa superioridade no plano técnico? No ramo da árvore ou nos seus frutos? Não encontraremos resposta para todas estas questões nos livros que imediatamente se seguem, mas é sempre interessante ir atrás das imagens oficiais. Comecemos por outro coronel, também ele reformado. O livro de Maximino Cardoso Chaves 2 , é constituído pelas suas memórias, enquanto tenente pára-quedista que combateu no Planalto maconde e não teria agradado a Kaúlza de Arriaga. Para o autor, a operação «Nó Górdio» foi um «fracasso» Page 3 1107 Soldados, gorilas, diplomatas e outros literatos (p. 150), no qual o esquadrão de cavalaria (Panhard) foi «dizimado» pelas minas e as bases da FRELIMO foram encontradas abandonadas. Ele não data as operações, mas descreve a vida na Beira, sede do seu batalhão, que operou a partir de Mueda, nos postos mais ameaçados (neste caso, Nangololo e Mocímboa do Rovuma). Não é habitual um oficial pára-quedista — mesmo humanista — admitir que os africanos explorados tinham boas razões para estarem ao lado da guerrilha. Estávamos longe de Gilberto Freyre! Outro oficial de carreira 3 , também pára-quedista, escolheu contar as pequenas histó- rias que viveu, algumas das quais à volta de Mueda, perto de Sagal (1970) e Nangololo, sem falar nas que tiveram por palco Zala e a serra do Uíge (tomada de um campo da UPA/FNLA em 1965), em Angola, ou a desordem em Timor. Sempre na mesma região «quente» do Norte moçambicano, mas não exclusivamente no terreno dos macondes, quem se interessar detalhadamente por esta quarentena de microguarnições portuguesas estacionadas frente à FRELIMO deve consultar o álbum 4 de Manuel Pedro Dias. Constituído essencialmente por fotografias realizadas pelas diferentes companhias que aí se sucederam durante dez anos, o conjunto é completado por um comentário patriótico e mesmo heróico. Os temas? A vida quotidiana e as patrulhas. Abandonados em 1974, estes postos militares foram parcialmente revisitados pelo autor em 2004, que pôde constatar a degradação das instalações (in- cluindo os próprios cemitérios). Um livro 5 mais complexo, pois reflecte os estados de alma de um antigo suboficial de telecomunicações destacado em Angola, num posto na picada entre Lucunga e Damba, no Uíge, de Dezembro de 1971 a Fevereiro de 1974, é-nos dado pelo autor, que ilustra as suas memórias introspectivas com extractos das cartas que escreveu à sua noiva. A particularidade do texto está no facto de Nogueira Baptista se encontrar numa companhia de artilharia composta, em parte, por cabo-verdianos. Anti-salazarista, acredita, no entanto, que os africanos eram portugueses e defende o império, apesar de saber que a guerra estava perdida, pois escutava, obviamente, as rádios estrangeiras. Tendo participado numa operação contra a UPA/FNLA na serra da Mucaba, mostra-se igualmente desdenhoso em relação aos colonos que querem a independência. Um assunto verdadeiramente angustiante é tratado num excelente livro do género «memórias de uma derrota anunciada». Este Diário da Guiné 6 é a via-sacra, a derrota lúcida e frouxa de um exército desmoralizado e ultrapas- sado. O autor, alferes de Junho de 1972 a 17 de Abril de 1974, redigiu a sua obra a partir do seu diário pessoal e dos aerogramas que enviou à família. Teixeira Pinto, Mansoa, Cufar (no Sudeste) foram as etapas desta derrocada, à qual assiste sem, no entanto, participar nas operações, pois pertencia à sacrossanta Administração Militar. Graça de Abreu observa a política contestada de Spínola e permanece duvidoso quanto às pretensões Page 4 1108 René Pélissier do PAIGC em dominar todo o território, mas cedo se apercebe de que, pelo menos entre os manjacos, décadas de exploração colonial não podem ser apagadas por tardias reformas materiais. Apesar da calma na zona de Teixeira Pinto, as emboscadas na estrada de Bissau intensificam-se. A partir de Feve- reiro de 1973, quando chega a «chao» balante, os guerrilheiros encontram-se a 4 ou 5 quilómetros. Os guerrilheiros e o exército português bombardeiam- -se à distância, mas acotovelam-se no cinema local. Em Março são abatidos os primeiros aviões por mísseis e as operações terrestres portuguesas dimi- nuem, pois os helicópteros já não descolam com frequência para evacuar os feridos. O PAIGC reforça o seu armamento e multiplica as suas picadas de vespa. Em Junho uma parte do batalhão do autor é transferida para Cufar (nas rias do Sul), reconquistado por Spínola. À medida que a data da desmobilização se aproxima, a indisciplina dos soldados aumenta. No final de 1973, Cufar e todas as guarnições em redor são bombardeados pelos 122, orgãos de Estaline do PAIGC. As tropas sabem que vão para a morte na ofensiva contra Cantanhez e as minas que os esperam. Os «sábios» de uniforme escrevem poemas que Camões não teria imaginado, mas todos mergulham no álcool para adormecerem os seus medos. O estado-maior e os serviços de saúde pública terão elaborado, posteriormente, estatísticas sobre a dependência alcoólica dos antigos combatentes portugueses? A água pura era rara na Guiné no início de 1974. Sabemos a que é que tudo isto conduziu o exército e o Estado Novo. Bastante menos dramáticos são dois livros de um ex-oficial subalterno, aviador de carreira, com cerca de quarenta anos de serviço e perto de setenta meses na África portuguesa, e que se encontra agora reformado e dedicado aos demónios da literatura de guerra. No primeiro romanceia pequenas his- tórias amorosas 7 de soldados durante a guerra colonial, tal como as ouviu contar ou inventar no avião que os repatriou (juntamente com os colonos) de Angola em 1974. A seguir, mais ambicioso, em Triângulo nublado 8 o autor compila as suas memórias anedóticas dos tempos em que serviu como militar. O interesse deste livro reside no facto de, nele, o autor observar — sem ilusões patrióticas — os costumes coloniais presentes na Guiné, como o racismo tácito em Bissau, antes da insurreição: Bissau, Farim, Nhacra, por volta de 1962-1963. A partir de Novembro de 1964, ele está na Beira, onde impera o bloqueio petrolífero ordenado pelos britânicos à Rodésia. Os por- tugueses receiam um ataque (de verdade?) aéreo da parte dos seus mais velhos aliados, mas, provavelmente, é quando chega ao terceiro vértice do seu triângulo (a base aérea de Henrique de Carvalho/Saurimo) que ele é mais original. Aqui o autor descreve minuciosamente a vila e a sua microssocie- dade branca de 1971 a 1974, abastecida por comboios de camiões, escol- tados por soldados desde o Luso/Luena. A localidade não se desenvolveu muito, apesar da guerra e do tráfico de diamantes. Esta obra é ainda útil porque nos dá uma panorâmica da organização aérea do Leste angolano, do qual Cazombo é uma antena relativamente importante. Page 5 1109 Soldados, gorilas, diplomatas e outros literatos Mencionemos brevemente, e visando futuros candidatos a um doutora- mento em História consagrado ao corpo de oficiais que combateram no império (na sua última fase), um repertório 9 que reúne as fichas autobiográ- ficas dos cerca de 200 alunos finalistas da Escola do Exército, do curso de 1956. Ao ler estas páginas, ficamos a saber como evoluíram as suas car- reiras, quer no ultramar, quer posteriormente. Algumas anedotas finais rela- tivas a África e a bibliografia das suas publicações mostram-nos que alguns cultivaram outros géneros literários, para além do militar ou político, como, por exemplo, a poesia. Dos antípodas dos oficiais que escolheram fazer carreira no exército (os Xicos) chega-nos um volumoso romance-documento 10 de um ex-alferes miliciano que, em Setembro de 1972, desembarcou com 120 metropolitanos em Mazoe, posto militar situado sobre a estrada estratégica e, por isso mesmo asfaltada, que ligava a Rodésia ao Malawi, via Tete. Aí eles encon- traram-se com os 120 soldados africanos que deviam juntar-se-lhes, uma vez que, como afirmava o Estado Novo, sendo Portugal multirracial, todos os jovens, negros e brancos, deviam defender a pátria. Não sabemos muito bem que pátria, mas é claro que o nosso alferes não morre de amores pelos mitos oficiais, quando confrontados com as realidades africanas. E com ele começa uma das mais implacáveis demolições literárias da guerra colonial em Moçambique. Não porque os combates aí sejam particularmente duros (os rodesianos não o permitiam), mas porque o desfasamento entre o que dizia a propaganda pós-salazarista e aquilo que vêem e vão viver os recém- -chegados é abissal. Não podemos resumir aqui as 450 páginas desta pseudoficção, na realidade, de memórias dialogadas do autor, que é hoje arquitecto e vive no Porto. Ele trata temas habituais na literatura dos antigos combatentes, hostis a um sistema que lhes malbaratou a juventude, acres- centando outros, mais insólitos, para Moçambique. Sem sermos exaustivos, podemos referir: (a) o mal-estar provocado por uma política desumana de concentração forçada das populações em aldeias criadas de raiz mas desadaptadas às suas necessidades e aos seus costumes; (b) as relações tensas com a PIDE/DGS; (c) o modus vivendi tácito estabelecido com a FRELIMO muito antes do 25 de Abril; (d) o respeito pela sabedoria dos velhos chefes costumeiros; (e) os diferendos entre os comandos e esta tropa que não queria combater mas simplesmente sobreviver; (f) o caminho mi- nado de uma coluna de abastecimento para Chioco, um dos postos mais isolados do distrito de Tete. Passemos agora a outros guerreiros, muito mais calmos, pois estes con- sideram, com razão ou sem ela, que foram os vencedores da sua guerra. Falo dos sul-africanos em Angola, começando por uma arma, a marinha, que desempenhou um papel necessariamente modesto em virtude da falta de adversários no mar. O estudo 11 do almirante na reforma Chris Bennett é, como o título indica, consagrado à história de três fragatas ao serviço entre Page 6 1110 René Pélissier 1954 e 1985, entre as quais a President Steyn, que foi encarregue de ir resgatar de improviso a Ambriz, em 28 de Novembro de 1975, 9 oficiais, 2 civis e 15 soldados sul-africanos que apoiavam as tropas da FNLA na sua tentativa de tomada do poder em Luanda. Sabemos o fiasco total em que redundou a aventura de Holden Roberto face aos cubanos e ao MPLA, mas o que mais nos surpreende é o secretismo que rodeou a intervenção terrestre (Operation Savannah) do exército sul-africano em Angola e que o levou a nem sequer advertir os marinheiros de que a operação estava em curso desde 24 de Setembro de 1975! Já havia mais de dois meses que os sul-africanos estavam envolvidos com Savimbi, antes de intervirem directamente sozi- nhos! É incrível, mas verdadeiro, como podemos ler no livro que se segue e que, pelo menos que eu conheça, é o mais detalhado, em inglês, sobre o primeiro período (de 1975 a 1980) da guerra entre angolanos e sul-africanos. Borderstrike! 12 revela-se, nesta 3.ª edição, um livro quase inteiramente novo, com pelo menos três vezes mais informação do que a versão original de 1983, hoje obsoleta. Trata-se da obra de um jornalista, especialista em questões militares, que conduz a sua narrativa como uma investigação, apoiado pelas publicações editadas nos últimos vinte e três anos. O tom é heróico-patriótico, mas, tendo recuperado a sua liberdade de apreciação, ele não esconde nem as insuficiências, nem os erros, nem os desaires do seu exército. O autor ignora as fontes em espanhol, extremamente difíceis de encontrar fora de Cuba, mas isso é compensado pelo volume de factos novos revelados, nomeadamente sobre o ataque de Cassinga em Março de 1978. Nem todas as suboperações são tratadas (nomeadamente a ofensiva Foxbat, em 1975, desde o Centro de Angola até ao oceano) e ele insiste, talvez demasiado exclusivamente, no duelo Cuba-África do Sul. O MPLA e a UNITA não são apresentados de forma muito favorável, tal como também não é elogiado o remanescente das forças portuguesas (em Moçâmedes) nem os contra-revolucionários portugueses (estacionados no Sul e apoiantes de Roberto). Quanto ao MFA em Angola, coitado! Na minha opinião, a estocada sobre o Queve foi demasiado minimizada. De facto, trata-se de uma macrorreportagem a posteriori, comparável às realizadas pela imprensa ame- ricana durante a guerra do Vietname, com os acontecimentos individualiza- dos por centenas de nomes dos participantes sul-africanos. Dito isto, este livro será do agrado dos amantes de relatos de guerra e daqueles que querem compreender como é que um exército muito eficaz, altamente profissionalizado, motivado e dispondo de importantes recursos materiais não conseguiu vencer claramente face a adversários igualmente motivados ideologicamente e apoiados por aliados generosos em material de guerra sofisticado, mas pouco cuidadosos com as perdas humanas. No fim de contas, foi o factor humano e, sobretudo, a opinião pública interna e internacional que fizeram a diferença. Esta visão do soldado sul-africano Page 7 1111 Soldados, gorilas, diplomatas e outros literatos vencedor é, evidentemente, a de Magnus Malan 13 , comandante do exército sul-africano durante o período (treze anos) que durou o envolvimento inter- mitente no Norte da fronteira namibiana e mais tarde nomeado chefe supre- mo dos três ramos (terra, mar e ar) e ministro da Defesa de Pretória. A sua obra é uma defesa veemente da luta anticomunista e, neste sentido, complementa bem o texto anterior, ao introduzir a dimensão política como orientadora das decisões operacionais, dos limites a não ultrapassar, da importância dos efectivos a mobilizar, etc. Por isso, Malan dedica mais de 100 páginas a Angola, na perspectiva do estado-maior e dos ministérios implicados. Morreram apenas 35 sul-africanos na Operation Savannah, o que é um bom indicador, por um lado, da intensidade relativa dos combates e, por outro, da competência dos militares sul-africanos.

A partir de Maio de 1978, os ataques contra a SWAPO, nomeadamente em Cassinga, ganharam uma feição mais cruel e, vinte e oito anos depois, o debate sobre o que verdadeiramente aí ocorreu continua em aberto. Parece ter sido preciso esperar por Junho de 1980 para que ocorresse um confronto decisivo com o exército do MPLA, tendo-se registado mais cinco entre 1981 e 1984. A captura e a destruição de material pesado soviético atingiram valores até então inigualáveis, mas os pesados combates só começaram verdadeiramente a partir de 1985, com o empenhamento massivo de cubanos e de tropas do Pacto de Varsóvia contra a UNITA. Sabemos que estes confrontos culminaram em verdadeiras batalhas de tanques (1987-1988), bem documentadas a partir daí, com cubanos e sul-africanos a reivindicarem simultaneamente a vitória e, segundo Malan, com o emprego de armas químicas pelos cubano-soviéticos. Ele não nos dá muitos pormenores novos em relação à bibliografia já publicada. Segundo um dos autores citados, as perdas entre o Cuíto- -Cuanavale e as proximidades de Mavinga foram de 94 tanques, 100 trans- portes blindados de tropas, 389 camiões, etc., para o MPLA e os seus aliados, que, segundo o autor, perderam igualmente 7000 a 10 000 (?) homens e cerca de mil milhões de dólares de material. As forças sul-africa- nas (3000 homens) apenas perderam 3 tanques, 11 transportes blindados, 3 aviões e 31 soldados. Estamos mais perto d’El Alamein (1942) do que de Guiledge ou de Mueda, mesmo que nada seja dito sobre os mortos nas fileiras da UNITA. Naturalmente, a controvérsia sobre a identidade do ven- cedor está longe de estar terminada. Podemos ainda interrogar-nos sobre o bombardeamento da barragem de Calueque e sobre as suas consequências.

Em resumo, para Malan, nestas memórias, não há qualquer dúvida. Mas eu, que li os livros publicados pela imprensa militar de Havana, pergunto-me se estão a falar da mesma coisa. Aguarda-se, pois, a abertura dos arquivos e o emergir de historiadores verdadeiramente neutrais (se é que estes estão disponíveis para estudar conflitos cujos participantes ainda estão, quase todos, vivos). Talvez um suíço? Page 8 1112 René Pélissier E agora demos um salto por cima dos meridianos e catapultemo-nos até uma outra guerra que mobilizou a opinião pública internacional tardia mas massivamente. Talvez de forma artificial, sem dúvida de forma emocional, a sorte dos timorenses levou o muito respeitado medievalista José Mattoso a passar, desde 2000, cinco ou mais anos nesta ilha insalubre para organizar os arquivos locais. Tratou-se de uma acção de apostolado puro e desinteres- sado. A dignidade 14 , que Mattoso dedica a Konis Santana, mártir da resis- tência anti-indonésia, é uma espécie de hagiografia comovida, mas crítica, em conformidade com os estudos iniciais do autor, que, se pudessem lê-la, surpreenderia os milhares de missi dominici que a ONU enviou para Timor Leste a fim de o tirar do «nada». Qualquer que seja a recepção deste livro nesses meios, pela minuciosidade dos pormenores e pelo inimaginável traba- lho de reconstituição histórica da luta da FRETILIN (e de tudo o que a rodeou), Mattoso revela-se o melhor de todos aqueles que escreveram sobre as convulsões militares posteriores a 1974. Nunca ninguém, em todos os comités de apoio e entre os seus émulos posteriores, pôde dispor de uma tal abundância de fontes de arquivo e orais. Konis Santana, que se transformou no líder de facto dos resistentes armados após a prisão de Xanana Gusmão (20 de Novembro de 1992), morreu de doença a 11 de Março de 1998. Contudo, e apesar de lhe manter a aura, o autor não esconde as fragilidades e as intrigas dos exilados e dos combatentes, da mesma forma que não esquece as traições no seu seio. Porém, para além da pequenez de alguns actores, o que ele revela é a vontade de os timorenses permanecerem eles mesmos, mesmo que não se entendam entre si. Um livro admirável, mas que não é angélico nem ingénuo relativamente a estes combatentes extremistas, defensores de uma causa que pensávamos perdida. Regressemos a Moçambique em guerra, mas remontando ao período de 1914 a 1918, graças a um livro de 527 páginas muito densas, entre as quais 25 só de bibliografia (mais de 600 entradas) e de fontes de arquivo. Em princípio, isto bastaria para o considerar imponente. Mas continuemos no âmbito das estatísticas e acrescentemos que, das cerca de 480 páginas dedicadas à narrativa propriamente dita das 52 meses de operações na África oriental, apenas 50 páginas são consagradas aos dez ou doze meses de ope- rações que tiveram como palco Moçambique e Nevala, incluindo ainda um estudo do contexto político português. Enfim, dito de outra forma, o leitor que pretenda encontrar uma relação e uma análise pormenorizadas dos acon- tecimentos que devastaram o Norte de Moçambique e humilharam o exército português da I República terá de esperar que alguém se decida um dia a publicar uma monografia específica que, em meu entender, utilizando todas as fontes disponíveis, não deverá ter menos de 350 páginas compactas, pois sobre este período há uma lacuna enorme na historiografia sobre Moçambique. Não sei se este autor hipotético partilhará todas as conclusões Page 9 1113 Soldados, gorilas, diplomatas e outros literatos de Edward Paice 15 sobre o papel e as actividades dos portugueses, mas, pelo menos, deverá agradecer-lhe ter indicado cerca de seis dezenas de livros e artigos relacionados, directa ou indirectamente, com Moçambique durante a Grande Guerra. Uma leitura atenta dos capítulos dedicados a este tema demonstra que Paice, infelizmente, não utiliza senão uma pequena parte das entradas da sua bibliografia, mas, pelo menos, os seus sucessores poderão facilmente «desaportuguesar» as suas fontes, explorando e alargando o que referenciou em alemão e inglês, uma vez que ele chama a atenção para um corpus já assinalável (que, no entanto, esquece, inexplicavelmente, Ross Anderson, The Forgotten Front, Stroud, Tempus Publishing, 2004). O autor fez mes- mo um esforço e consultou o Arquivo Histórico Militar e o arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Este livro tem múltiplas qualidades, a saber: (a) lê-se muito bem, o que, neste caso, não é uma qualidade menor, pois trata-se da descrição de dezenas e dezenas de batalhas; (b) dá-nos o pano de fundo político e diplomático deste interminável conflito «esquecido», que custou ao império britânico um terço das despesas feitas durante a guerra dos bóeres, ou seja, o equivalente à totalidade do orçamento militar do Reino Unido para o ano de 1913; (c) tem em consideração todos os intervenientes europeus (e, portanto, também os belgas e os portugueses), africanos e asiáticos, ao contrário de certos livros triunfalistas que se con- tentam em cultivar unicamente o duelo anglo-alemão; (d) não transforma os chefes militares em heróis, pelo contrário, assinala as suas insuficiências e incompetências e até mesmo a sua crueldade; (e) concede um «lugar de honra» às vítimas civis da África oriental e mesmo da África centro-austral (provavelmente, foram mortos entre 500 000 e um milhão de africanos nas picadas e nas povoações). Esta obra volumosa, que renuncia ao pitoresco fácil, deve ser, por isso, considerada uma base de partida para um estudo aprofundado desta página negra que cobre uma grande parte do Norte de Moçambique. E, depois desta exaltação de «vitórias» pelas armas, vejamos o que pensa um politólogo da terrível guerra civil angolana. A organização do livro 16 é complicada e, curiosamente, entre cerca de trezentas fontes utilizadas, cita unicamente três em português! Apesar de não ser o autor um veterano de guerra, a sua obra é uma das análises mais pertinentes das causas da vio- lência em Angola. O título diz tudo sobre o pensamento do autor: para ele, o MPLA e a UNITA revelaram-se incapazes de construir uma sociedade fundada sobre a igualdade dos cidadãos e não sobre a guerra. Assis Malaquias não poupa os ladrões, no poder, nem Savimbi, que acusa de fazer o culto da guerra e cuja paranóia (pp. 96-98) degenera, depois de 1992, numa «insurreição criminal» (dixit, p. 101). Em suma, apesar de não se centrar na história militar que atormentou a infeliz população angolana, o seu Page 10 1114 René Pélissier texto não tem aquela parcialidade que é uma das fraquezas das muitas páginas redigidas pelos serviços oficiais ou para-oficiais. E os gorilas no meio disto tudo? Vamos encontrá-los como consultores ou activos em algumas embaixadas e direi mesmo que muitos foram sufi- cientemente hábeis para se infiltrarem num livro em hebraico que é uma pérola rara na bibliografia angolana. Atrever-me-ia a brincar com um país que perdeu um milhão de habitantes, ou mais, em virtude da guerra civil e internacional? Não, evidentemente, e posso prová-lo. Um livro que, em ca- racteres latinos, se intitula Gorilot ye-diplomatyah: mifgeshe adam ye-teva be-Angolah 17 , o que, traduzido, dá em português Gorilas e diplomacia: encontros do homem com a natureza em Angola, não pode mentir e, na verdade, são gorilas o que o leitor encontrará pela pena de uma zoóloga/ ecologista israelita que se aventurou no Maiombe cabindês, apesar da guerra local. Este texto é a primeira obra em hebraico consagrada exclusivamente a Angola e, provavelmente, a primeira a ser publicada em Israel sobre este país. E não se trata de uma reportagem qualquer, de um qualquer jornalista ou humanitário, uma vez que Tamar Golan foi a primeira embaixatriz de Israel em Angola e, Tamar Ron foi até à Jamba, antiga «capital» de Savimbi, onde, refira-se, ergueu, num pedestal, uma locomotiva miniatura, em honra de seu pai, que foi o primeiro chefe de gare africano do caminho de ferro de Benguela. A centenas de quilómetros da linha e num mato que não está pronto a ser inteiramente desminado! Estamos na «futura» reserva de caça de Luiana, que o governador da província do Cuando-Cubango, um antigo general de Savimbi, pretende repovoar de elefantes e de girafas. Para isso é necessário «limpar» um corredor migratório para os trazer desde o Botswana. Até que a desminagem do Cuando-Cubango, realizada por uma empresa sul-africana, esteja total- mente concluída, receio que muitas gerações de elefantes morrerão. E, ge- ralmente, quando não são vítimas dos homens e dos seus malefícios, estes paquidermes vivem muitos anos. O capítulo dedicado às visitas de Tamar Ron às «Terras do Fim do Mundo» nada nos diz sobre os gorilas, uma vez que este não é o seu habitat, mas a descrição dos seus encontros com o governador-general (ou o inverso) é original. Não é comum um banto acor- rer em auxílio dos bosquímanos — mesmo que recentemente aliados, já que estes eram ex-mercenários dos sul-africanos — na qualidade de guarda de reservas naturais. Mais vale ler isto do que as estatísticas sobre o extermínio parcial de bosquímanos pelo MPLA, que os acusou de colaboração com a PIDE/DGS. Este capítulo não é o único verdadeiramente original neste livro, pois a antiga embaixatriz perdeu-se de amores pelos angolanos e expõe claramente (trata-se de uma antiga jornalista) alguns dos problemas destes, com preferên- cia especial pelos das mulheres, das crianças e dos refugiados. Relativamente Page 11 1115 Soldados, gorilas, diplomatas e outros literatos ao resto (como o petróleo ou os diamantes), confio nela, pois lembrar-me-ei sempre do que me disse, há mais de trinta anos, o mais célebre dos jornalistas africanistas franceses dessa época: «Quando chego a um país subsariano que conheço mal, se quero ter informações actualizadas, fiáveis e rápidas sobre o pessoal político local, não as procuro junto dos diplomatas franceses. Estes nada sabem. Consulto directamente os diplomatas israelitas, que são os mais bem informados. São os melhores.» E isto não deve ter mudado desde essa altura; pelo contrário, deve ter-se acentuado ainda mais. Sobretudo para os países ricos, como Angola, os diamantes assim obrigam! E, já que acabei de dizer bem dos diplomatas israelitas, quero dizer outro tanto dos seus colegas portugueses, que foram — e talvez continuem a ser — ainda mais fortes, pois no final do século XIX e no início do século XX a sua delegação de Londres foi dirigida, não por um gorila, mas por um outro primata superior, amigo íntimo do príncipe Eduardo (futuro rei Eduar- do VII), que o informou do acordo secreto anglo-alemão de 30 de Agosto de 1898 sobre a «futura» repartição do império português entre as duas potências. Oficialmente, como no Anuário Diplomático, ele era designado por conde de Soveral, mas em todas as chancelarias era conhecido pelo epíteto de «macaco azul», o que acabo de saber pela leitura da bela tese 18 de Gisela Guevara, publicada muito judiciosamente pelo Instituto Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Por isso, não subestimemos nunca a sagacidade e a competência dos diplomatas portugueses, muito menos a influência oculta dos antropóides na história das relações internacionais. Mais seriamente, este trabalho universitário revela alguns aspectos inova- dores, já que penso que é o primeiro, em português, que se baseia nos arquivos alemães e numa forte bibliografia alemã compilada no terreno. Além disso, a autora interessa-se, naturalmente, pelo destino de Lourenço Mar- ques, objecto de múltiplos estudos anteriores, mas dedica-se também à baía dos Tigres e ao projecto do caminho de ferro que os alemães aí pretendiam realizar na direcção do Sudeste. Gisela Guevara destrói ainda a opinião ge- neralizada sobre a incapacidade de a monarquia defender diplomaticamente o império e revela-nos o lado secreto da «aliança luso-belga» contra a Ale- manha, bem como, aspectos pouco conhecidos, em português, sobre a Companhia do Niassa e sobre o financiamento da dívida portuguesa. Tendo escolhido um período curto (ca. 1891 a 1903 e, sobretudo, os anos de 1898 a 1902) e um assunto limitado (exclusivamente a luta diplomática), o seu trabalho deixa naturalmente de lado o papel dos africanos. Por exemplo, o nome de Gungunhana é mal ortografado (p. 156) e, se Chaimite é referido, é-o com uma data errada. O capitalista Esser também não é um verdadeiro explorador: ele «inventou» a sua viagem até ao médio Cunene. Tudo isto é de somenos face à enorme utilidade deste livro que o Instituto Diplomático teve a excelente ideia de publicar. Page 12 1116 René Pélissier Mas ainda não terminaram as boas surpresas que o Ministério dos Ne- gócios Estrangeiros nos oferece, pois acabo de descobrir, já muito tardia- mente, e não devo ser o único, duas outras publicações que, literalmente, me entusiasmaram. Como e por que é que um texto tão rico, percuciente e original como Ensaios sobre nacionalismos em Timor-Leste 19 é tão dolosamente ignorado pela maior parte das grandes livrarias de Lisboa e do Porto, ultrapassa o meu entendimento. Talvez devido a imperativos burocrá- ticos ou financeiros, mas isso não me diz respeito. O que me importa é que os milhares de portugueses que se inflamaram pela causa timorense e que são capazes de ler outros textos, para além dos jornalísticos ou sentimentais, saibam que encontrarão na escrita de Armando Marques Guedes e Nuno Canas Mendes (entre outros autores das contribuições reunidas nesta reco- lha) as análises mais profundas, mais pormenorizadas e mais realistas que alguma vez li em português (e mesmo em inglês) sobre a génese, o presente e… o futuro do ou dos nacionalismos timorenses. Não vou entrar nos seus labirintos onde o inocente leitor se arrisca a ver as suas convicções abaladas se ainda acredita na simplicidade «adâmica» da vida política e da luta pela independência, como uma certa geração de de- fensores estrangeiros da causa nos quer fazer crer. Com estes dois autores ultrapassamos, finalmente, o mero reflexo das coisas e a propaganda de ontem torna-se ridícula. Mas o que mais me surpreende são as bibliografias estrangeiras citadas. Em que bibliotecas portuguesas é que eles se encon- tram? No Palácio das Necessidades, numa misteriosa central de que não há registo na PORBASE? Que o leitor compare com aquilo que se encontra disponível no mercado português e me informe para que eu possa medir a extensão das minhas lacunas. Um livro tão indispensável como o primeiro desta crónica não deve ficar reservado a uns poucos «eleitos». Espero que a distribuição em Timor Leste ultrapasse o mínimo dos 300 exemplares, se não, de que vale publicar um livro tão importante como este em Portugal? Digo o mesmo de um outro título sobre Timor 20 que, na sua infinita sabedoria, os diplomatas portugueses acolheram no seu seio, ainda que se trate de um tema técnico que me ultrapassa, bem como, talvez, à maioria dos agentes do Ministério. Num livro patético mas humorístico de uma jornalista australiana que contava, desiludida com o seu romance, a sua vida amorosa com o chefe da missão da GNR portuguesa em Díli recolhi, indirectamente, uma opinião positiva relativamente à polícia portuguesa em missão. Mas não poderia adivinhar, como é evidente, que, dois anos depois, iria ler um estudo sobre a criação, por oficiais da PSP, de uma polícia timorense sob a égide da ONU. Contrariamente aos diplomatas de todos os países, os polícias, pelas funções que lhes são próprias, estão em contacto directo com o povo, que têm por obrigação proteger, encaminhando ou reprimindo os comporta- Page 13 1117 Soldados, gorilas, diplomatas e outros literatos mentos desviantes. Assim, no livro de Luís Elias encontramos elementos que nunca aparecem nos despachos diplomáticos sobre a vida social, a justiça, os costumes locais — nem sempre edénicos —, a criminalidade e uma série de outras questões que influenciam a prática e a ética de uma polícia que a ONU desejava modelar e que o autor do texto se esforça, em 2002-2003, por colocar no bom caminho. Os acontecimentos posteriores talvez não tenham respondido a todas as suas esperanças, mas, pelo menos, ele explica-nos o que será preciso fazer para aí chegar. Perto de 1500 páginas profundas e mesmo fundamentais justificam que nos debrucemos agora sobre a produção, mais ligeira, de antigos — embora os diplomatas, tal como os militares de carreira e os eclesiásticos, fiquem para sempre marcados pela sua matriz profissional — representantes de Portugal nos PALOP «órfãos». Em tempos de inocência 21 destina-se a todos aqueles que gostam de ler revelações sobre a alta política, neste caso conduzida pelo autor, que foi o primeiro embaixador de Lisboa em Bissau (de Junho de 1977 a Fevereiro de 1980), durante a presidência de Luís Cabral. António Pinto da França escolheu comunicar, sob a forma de anedotas cáusticas, as suas opiniões sobre o pessoal político local, a arraia miúda e, sobretudo, os diplomatas estrangeiros com quem, pelas suas responsabilida- des e pelas suas preocupações, foi obrigado a conviver. Aliás, o mesmo já tinha feito num livro anterior para a sua missão posterior em Luanda. Se bem entendi — embora não esteja certo disso —, uma excelência da sua quali- dade e importância só tem três inimigos ou adversários principais nas antigas colónias africanas: os mosquitos, os cooperantes portugueses marxistas e os diplomatas franceses. No fim de contas, são todos mosquitos, só que de raças diferentes, sendo os últimos apenas um pouco maiores do que os primeiros. Por conseguinte, altivo, examina-os com toda a indulgência condescendente de um entomologista distinto, sobrinho-bisneto de Teixeira Pinto — uma referência na Guiné. Mas, magnânimo, enterrou o machado de guerra e, estando 1913-1915 já muito longe, defende a memória de Amílcar Cabral e é amigo sincero do seu meio-irmão, o presidente Luís Cabral. A abertura de espírito e a benevolência dos funcionários sempre me fasci- naram. Relativamente aos mosquitos e aos marxistas, «intolerantes e incultos», na sua opinião, se não estão satisfeitos, são suficientemente grandes para se defenderem sozinhos. O mesmo se diga da viúva de Agostinho Neto, que declarou (p. 126) «vestir… só do Dior» e de quem ele parece não gostar. Em relação aos diplomatas franceses, fiquei um pouco surpreendido com a aten- ção que lhes dedica, pois consta-me que aqueles que o Quai d’Orsay enviava nesta altura para as colónias portuguesas e, mais tarde, para os PALOP não pareciam particularmente importantes ou ofensivos ao seu ministro. Mas a opinião abalizada de um antigo embaixador junto da Santa Sé e da Ordem Page 14 1118 René Pélissier Soberana e Militar de Malta (1996-2000), não sendo de considerar leviana, foi mais convincente para o historiador que há em mim e, após as informa- ções que consegui obter, é verdade, três embaixadores franceses (um em Dacar e dois em Luanda), desprezados ou postos a ridículo pelo autor, mereciam, efectivamente, ser vítimas da implacável demolição empreendida por este novo duque de Saint-Simon. Resta o caso do quarto representante francês que tinha a dupla deficiência de já ser velho e apenas barão, apesar de encarregado de negócios. O nosso crítico total apressa-se a dizer que era seu «amigo», ainda que pudesse «ter servido de modelo a Monsieur Hulot» (p. 101), e que ele não falava nem português nem crioulo. Foi precisamente tradutor de chinês e de Léopold Senghor para o provençal. Na minha humilde opinião, só por milagre ou por intervenção inesperada da Providência é que este barão, resgatado ao século XVII , se tornou o autor do primeiro estudo publicado em francês sobre a literatura da Guiné-Bissau. Admito que rir do seu «amigo» é, provavelmen- te, um combate diplomático retroactivo leal que faz rir quando se está na reforma. Mas, entretanto, assinalemos a este longínquo discípulo de Bordalo Pinheiro que será duas vezes centenário antes de encontrar no Largo do Rilvas um funcionário capaz de interpretar ou traduzir sozinho turco, tagalo, suaíli, albanês, pelo menos quatro línguas eslavas, três bálticas e não sabe- mos mais quantos idiomas do Médio Oriente e de Madagáscar, sem falar no tétum, todas as línguas germânicas e escandinavas, hebraico e grego moder- nos e, provavelmente, um terço de todas as outras que se ensinam nas Langues O. O Sr. Hulot? Um génio da linguística, segundo me asseguraram. A inocência é, por vezes, a última desculpa quando queremos esquecer uma ferida secreta que remonta a um desses traumatismos ocultos que marcam todos aqueles que são obrigados a participar nas feiras de vaidades. Mas felicitemos o autor, pois, na verdade, dos quatro alvos franceses que escolheu, apontou com precisão e abateu três, o que, bem contado, lhe dá 75% de sucesso, o que o qualifica para as olimpíadas do humor diplomático. Por isso, recomendo vivamente este livro a quem quiser saber como e quanto é possível divertirmo-nos nas embaixadas do mundo inteiro. Se ficarmos nessas posições avançadas «sob ameaça», onde os chefes do mundo sacrificam os seus melhores agentes e os seus maiores peritos em dissimulação, para que resistam aos sorrisos assassinos, ao vinagre e à cirrose do fígado, a fim de refazerem a Conferência de Berlim e conserva- rem ou engrandecerem as suas zonas de influência, encontraremos outro livro de memórias diplomáticas. Estórias de Angola 22 é um texto optimista, sem maldade nem pretensão, redigido pelo adido cultural (1996-2001) em Luanda, cidade donde é natural. De regresso ao país natal, aí vive como peixe na água. As suas observações sentimentais e humorísticas versam, essencialmente, sobre a vida quotidiana Page 15 1119 Soldados, gorilas, diplomatas e outros literatos na capital, mas também em Sumbe e no Lubango. Ele dá conta da corrupção da polícia, das tensões entre alguns representantes diplomáticos, das debili- dades dos meios financeiros portugueses, da desorganização e da falta de seriedade das «elites» angolanas, bem como da insegurança que se vive. O glossário tem mais de 220 termos do linguajar local. E encontramos ainda um embaixador de Espanha alcoólico. O seu homólogo polaco era, igualmen- te, um grande amante de vodka — o que reforça a minha convicção sobre os perigos da vida diplomática e me permite saltar até Maputo, onde vamos encontrar outros polacos, estes acima de qualquer suspeita, já que se trata de um arcebispo polaco enviado do papa João Paulo II a Moçambique e que nos faz a descrição 23 da construção da nunciatura apostólica, concebida por uma arquitecta, também polaca, que não deve ser confundida com um fan- toche de embaixada. O que mais impressiona é o sentido artístico deste eclesiástico, que de 2000 a 2002 orientou e supervisionou a edificação e a decoração deste símbolo da influência da Igreja Católica, durante a presidên- cia de Chissano. Uma verdadeira obra-prima de originalidade, de modernismo e de bom gosto. Texto trilingue em inglês, italiano e português. Eis-nos, portanto, instalados em Moçambique e, sem a bênção diplomá- tica, refiramos um pequeno texto 24 que é uma novidade enternecedora dedicada às jovens meninas sul-africanas «arco-íris» e que tem como per- sonagens um trio de adolescentes tricolor em férias multirraciais em Maputo. A novela tem como público-alvo as teenagers da moda, uma nova juventude dourada (ainda que mestiça e negra-africana) que copia os comportamentos dos turistas brancos. Nesta produção, que se quer paradigmática das boas relações inter-raciais e internacionais na África austral, vamos encontrar todos os tiques da imprensa feminina. Bastante mais denso e complexo, um romance 25 palpitante, que arrasta o leitor para uma cavalgada ofegante entre épocas e países? Parte da história tem lugar em Moçambique entre 1969(?) e 1984(?). Não percebi tudo, mas o autor baralha a cronologia, não gosta muito da FRELIMO na sua fase marxista e ainda menos das gentes da RENAMO. Simon Ings parece ter conhecido o interior de Moçambique durante a guerra civil ou, pelo menos, os aventureiros anglófonos que percorreram o país durante esses tempos conturbados. Provavelmente, cooperantes e activistas da causa. Ele muda a toponímia, os nomes das personagens históricas, mas, muito provavelmente, a sua descrição da confusão que reinou entre 1980 e 1994 na fronteira do Malawi baseia-se na sua própria experiência. O atentado contra Mondlane e os acontecimentos nas fileiras da FRELIMO no exílio na Tanzânia são-lhe familiares. Uma história difícil de seguir, mas a descobrir. Voltemos a temas menos controversos com um autor dos Países Baixos que se transformou em detective do passado para nos oferecer uma ex- traordinária biografia de um explorador alemão que foi o primeiro europeu Page 16 1120 René Pélissier «conhecido» a atingir o lago Niassa/Malawi a partir da costa da África oriental. Personagem das mais misteriosas, que não deixou qualquer livro ou artigo fundamental sobre esta viagem épica, a estada do Dr. Roscher 26 em África só pode ser reconstituída graças às cartas que enviou para a Alema- nha. Em Moçambique vamos encontrá-lo por breves instantes na ilha-capital, onde fez escala em 1858, e no interior, onde permaneceu mais longamente, quando atravessou o Rovuma (Outubro de 1859), vindo de Zanzibar, e chegou ao lago Niassa, em Nussewa (19 de Novembro de 1859). Encontran- do-se muito doente, regressou ao Rovuma. No total, terá estado cerca de quatro ou cinco meses no Niassa «moçambicano», onde o chefe da aldeia de Kisanguni o assassina em Março de 1860. O seu diário e os seus papéis foram roubados. O assassino apanhado será executado em Zanzibar. Este episódio da história da exploração moçambicana levou o autor a fornecer um impressio- nante volume de pormenores sobre as relações dos europeus com Zanzibar e o interior do país. Sobre os portugueses, ausentes da região nesta época, diz pouca coisa, mas descobrimos um pioneiro quase esquecido e ficamos a saber qual era a dimensão do comércio de Zanzibar no Niassa muito antes do surgimento de uma presença europeia estável. Um bom trabalho. E, já que estamos nas biografias «transfronteiriças», onde não se aven- turaram os historiadores de profissão, passemos a Angola a partir da Namíbia actual. Quem é que em Portugal, no século XXI , já ouviu falar de Axel Wilhelm Eriksson 27 ? Trata-se de uma figura esquecida, tal como, mar- ginalmente, na Suécia, mas não em Angola, onde deixou o seu nome a um vau no Cunene, e não é mesmo certo que com a africanização de toda a toponímia este tenha chegado a ser desbaptizado. O que evocaria o bóer! Ora trata-se de um sueco que, antes dos alemães, foi um dos grandes comerciantes e pioneiros europeus na Namíbia. As suas relações com os portugueses de Humbe, da Huíla e de Moçâmedes são mencionadas e mes- mo, por vezes, descritas no texto do casal Rudner, que, ao longo dos anos, traduziu e anotou os principais livros de viagens dos suecos que chegaram, depois de Charles John Andersson, ao país. Esta ressurreição de Eriksson interessa a Angola por diversas razões. Em Agosto de 1880 está no Evale e começa a importar mercadorias via Moçâmedes em 1881. Trata-se de um homem de negócios e de um caçador que foi bem acolhido pelo governador e regressou a Angola por diversas vezes. Em 1890 encontramo-lo no Cubango e no Cuanhama, onde comprou os direitos de exploração do mi- nério ao soba local (chefe, rei). Regressou em 1894, 1895 e 1897 (encontra- -se com a expedição portuguesa encarregada de vacinar os bois do Humbe). Em 1899 acompanhou o capitão alemão Franke ao Cuanhama e ao Humbe. Enriquecido com o comércio de armas, álcool, cavalos, bois, marfim, etc., a sua generosidade vai levá-lo à pobreza na sua morte. Amigo dos sobas ovambo e dos portugueses, passou diversos anos a traficar e a caçar de Page 17 1121 Soldados, gorilas, diplomatas e outros literatos Moçâmedes ao Cuanhama e até ao Cubango. O seu único erro foi não ter deixado algum livro escrito para a posteridade. A sua vida foi, por isso, reconstruída a partir das cartas que enviou à família para a Suécia. Um dos seus filhos, mestiço, instalou-se no Sul de Angola, participando em várias campanhas portuguesas e vivendo como um patriarca nas décadas de 20 e 30 do século XX (e talvez depois disso). A obra é aconselhada aos que se interessam pela história do Sul de Angola, para «arejar» concepções dema- siado lusocentristas, introduzindo nas bibliotecas uma biografia muito bem escrita e que ultrapassa o Sul da fronteira. O mesmo se pode dizer, mas com sentido inverso, para os namibianos. Desejos pios? Há outra biografia «transfronteiriça» que merece ser referida, pois diz respeito a um «proto-angolano». Trata-se da história 28 da ascensão social de um africano nascido em 1887 perto de Naulila (de triste memória para os portugueses) e que era criado de um bóer de Humpata, o qual ajudou os alemães a vencerem Roçadas em Naulila em 1914. Em virtude deste facto, não podendo regressar a Angola, entre 1921 e 1955 transformou-se no indispensável intermediário entre a administração sul-africana e os emigrantes angolanos que chegavam, em busca de trabalho, ao Sul da fronteira. Poli- glota (falava sete línguas africanas, português, afrikaans, alemão e inglês), este polícia-interprete, instalado no posto que estava frente ao Cuangar, era igualmente um pilar da Igreja luterana e polígamo. Após a transferência para oriente da administração, torna-se chefe de um clã no país que não o viu nascer. Apesar de pedófilo, mandou construir uma escola e é recordado como um grande homem na sua «pátria» adoptiva. A passagem por este minúsculo posto de 3212 angolanos em busca de trabalho no Sul de 1925 a 1931 (p. 93) é, evidentemente, a ponta de um enorme icebergue constituído pela situação salarial em Angola e, chamemos as coisas pelo seu nome, pelo trabalho forçado que, sob formas diversas, ali reinava bem antes e muito depois de ter florescido igualmente noutras ex- periências coloniais em África. Mesmo o mais sectário dos defensores do lusotropicalismo e da «brandura dos nossos costumes» acaba por admitir que nem tudo era irrepreensível, neste domínio, no balanço da colonização portuguesa. Vamos encontrar exemplos disso numa excelente obra 29 que reúne as contribuições apresentadas no Porto em 2005 e que foram publicadas com uma rapidez a que não estamos acostumados em Portugal. É mesmo uma excepção à qual não será, provavelmente, alheio o facto de o encontro ter tido lugar no Porto… Para mim não se trata de dar, em poucas linhas, uma visão, mesmo que superficial, da extrema riqueza e utilidade deste livro. A sua primeira qualidade parecer ser, contudo, o seu carácter comparativo. Mesmo se eliminarmos os cinco artigos sobre a es- cravatura no Brasil, continua a sobrar suficiente matéria para tranquilizar o especialista sobre a pertinência do adjectivo «comparadas» que encontramos Page 18 1122 René Pélissier no título. Em que outro livro encontraremos em Portugal estudos sobre a cultura forçada do algodão no Norte dos Camarões, ou sobre o trabalho forçado no Quénia, sem falar do trabalho escravo no forte dinamarquês de Christiansborg, ou sobre a «república negra» de Annobom? Nenhum dos PALOP foi esquecido, a liberdade de tom dos autores é total, mesmo que alguns puxem um pouco mais pela polémica. «The British civilising mission was tantamount to that of Nazi Germany» (p. 464) afirma um queniano acerca da repressão dos mau mau. Não vou discutir a qualidade (ou não) deste ou daquele autor, mas, na minha opinião, este texto é, simplesmente, e acho que é uma pena que assim seja, absolutamente necessário ao grande público por- tuguês ou mesmo brasileiro, quer por ignorar estes assuntos, quer por não querer ouvir falar neles, por serem aborrecidos. Não se trata de um problema de arrependimento forçado imposto a uma população que não é, em nada, responsável pelo que fizeram os seus antepassados. Trata-se de um problema de informação. A este respeito, bem gostaria de ler os livros de história utilizados actualmente nas escolas primárias e secundárias portuguesas para saber se se continuam a inculcar nos alunos os mesmos mitos herdados de séculos de cegueira voluntária sempre que as palavras «descobrimentos», «expansão» ou «colonização» eram pronunciadas. O que pensam os diploma- tas e os seus amigos, os gorilas, sobre isto? Redigido em Maio de 2007. NOTAS 1 António Lopes Pires Nunes, Aspectos da actividade operacional. Resenha histórico- -militar das campanhas de África (1961-1974), 6.º vol., t. I , Angola, Estado-Maior do Exército, Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974), Lisboa, livro 1, 1998, 629 páginas, com fotografias a preto e branco e um mapa desdobrável a cores, livro 2, 2006, 733 páginas, com fotografias a preto e branco e dois mapas desdobráveis a cores. 2 Maximino Cardoso Chaves, Andanças, tribulações e reflexões em tempo de guerra. Memórias de uma comissão de serviço em Moçambique (1968 a 1971), Coimbra, MinervaCoimbra, 2005, 170 páginas. 3 António dos Santos Frias, Do céu em pára-quedas. Histórias vadias, s. l., ed. de autor, 2006, 80 páginas. 4 Manuel Pedro Dias, Aquartelamentos de Moçambique. Cabo Delgado, 1964-1974, Odivelas, ed. de autor, 2006, 138 páginas, com muitas fotografias a preto e branco e a cores. 5 Nogueira Baptista, Contagem decrescente, Cacém (Portugal), VoxGo, 2.ª ed., 2006, 317 páginas. 6 António Graça de Abreu, Diário da Guiné. Lama, sangue e água pura, Lisboa, Guerra e Paz Editores, 2007, 220 páginas, com fotografias a preto e branco. 7 J. Loufar, A mola real do combatente, é a mulher, Leiria, Diário de Leiria, 2003, 163 páginas. 8 J. Loufar, Triângulo nublado, Leiria, ed. de autor e Diário de Leiria, 2004, 322 páginas. 9 Alberto Ribeiro Soares (coord.), Bodas de ouro dos cursos entrados na Escola do Exército em 1956. 50 anos 1956-2006, Lisboa, Academia militar, 2006, 224 páginas, com fotografias a preto e branco. Page 19 1123 Soldados, gorilas, diplomatas e outros literatos 10 João Carlos Sarabando, As hienas também choram, Porto, Papiro Editora, 2006, 451 páginas. 11 Chris Bennett, Three Frigates (President Class Frigates bring the SA Navy to maturity), Durban, Just Done Productions Publishing, 2006, xx-270 páginas, com fotografias a preto e branco. 12 Willem Steenkamp, Borderstrike! South Africa into Angola 1975-1980, Durban, Just Done Productions Publishing, 2006, revisto e actualizado (3.ª ed.), XIV -328 páginas, com fotografias a preto e branco. 13 Magnus Malan, My life with the SA Defence Force, Pretória, Protea Book House, 2006, 509 páginas, com fotografias a preto e branco. 14 José Mattoso, A dignidade. Konis Santana e a resistência timorense, Lisboa, Círculo de Leitores, 2005, 323 páginas, com fotografias a preto e branco e a cores. 15 Edward Paice, Tip and Run. The untold tragedy of the Great War in Africa, Londres, Weidenfeld & Nicolson, 2007, XXXIX -488 páginas, estampas fotográficas a preto e branco. 16 Assis Malaquias, Rebels and Robbers. Violence in Post-Colonial Angola, Uppsala, Nordiska Afrikainstitutet, 2007, 263 páginas. 17 Tamar Golan e Tamar Ron, Gorilot ye-diplomatyah: mifgeshe adam ye-teva be- -Angolah, Telavive, Am Oved Publishers, 2006, 257 páginas, estampas a preto e branco e a cores. 18 Gisela Guevara, As relações entre Portugal e a Alemanha em torno da África. Finais do Século XIX e Inícios do Século XX, Lisboa, Instituto Diplomático (Ministério dos Negócios Estrangeiros), 2006, 507 páginas. 19 Armando Marques Guedes e Nuno Canas Mendes (eds.), Ensaios sobre nacionalismos em Timor-Leste, Lisboa, Instituto Diplomático (Ministério dos Negócios Estrangeiros), 2005, 431 páginas. 20 Luís Elias, A formação das polícias nos estados pós-conflito. O caso de Timor-Leste, Lisboa, Instituto Diplomático (Ministério dos Negócios Estrangeiros), 2006, 529 páginas. 21 António Pinto da França, Em tempos de inocência. Um diário da Guiné-Bissau, Lisboa, Prefácio, 2006, 192 páginas. 22 Luís Mascarenhas, Estórias de Angola, Lisboa, Prefácio, 2006, 137 páginas. 23 Juliusz Janusz, Apostolic Nunciature in Mozambique, Cracóvia, Rzecz Piekna, s. d. [c. 2002-2003], 84 páginas, com muitas ilustrações a cores. 24 Nokuthula Mazibuko, A Mozambican Summer, Claremont (África do Sul), New Africa Books, 2005, 84 páginas. 25 Simon Ings, The Weight of Numbers, Nova Iorque, Black Cat/Grove/Atlantic, 2006, 420 páginas. 26 J. W. Heldring, The Killing of Dr. Albrecht Roscher. The Story of a Young German Explorer in East Africa 1858-1860, Leicestershire, Upfront Publishing (?), 2003, 393 páginas, com fotografias e mapas a preto e branco. 27 Rudner, Ione e Jalmar, Axel Wilhelm Eriksson of Hereroland (1846-1901). His Life and Letters, Windhoek, Gamsberg Macmillan, 2006, XVII -19-302 páginas, com fotografias a preto e branco e mapas. 28 Hans Martin Milk, «For the power and glory». Die Lebensgeschichte des Makaranga Kavango/Namibia, Colónia, Rüdiger Köppe Verlag, 2004, 201 páginas, com fotografias a preto e branco. 29 Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto (coord.), Trabalho forçado africano — Experiências coloniais comparadas, Porto, Campo das Letras, 2006, 575 páginas