sábado, 20 de dezembro de 2008

O Povoamento de Angola e Moçambique com Naturais da Metrópole

Cláudia Castelo,
Passagens para África.

O Povoamento de Angola e Moçambique com Naturais da Metrópole,
Porto, Edições Afrontamento, 2007,
405 páginas.

A historiografia sobre a recente empreitada colonial portuguesa em terras africanas está a passar por uma mudança assombrosa. Podemos dizer, sem medo, que nos dias do fim da presença portuguesa nos grandes territórios de Angola e Moçambique o debate historiográfico era, em grande medida, alimentado por uma evidente polarização ideológica: de um lado, os que se alinhavam com o regime instituído pelo Estado Novo português, que resistia às transformações em curso no continente africano e insistia na realidade desterritorializada e multirracial da nação portuguesa; do outro, os que há muito se opunham à ditadura fascista e colonialista existente em Portugal e nas suas colónias e que, fortalecidos a partir do início dos anos 60 pela eclosão dos movimentos de libertação nacional, procuravam denunciar a falácia de um colonialismo de cinco séculos ou a suposta continuidade espiritual existente entre a metrópole e os territórios ultramarinos.

Se é verdade que encontramos ecos deste debate na cena pública portuguesa contemporânea ao lado de revivalismos de um luso-tropicalismo tardio e mesmo um certo mal-estar em diversos círculos portugueses, distintas correntes historiográficas vêm-se debruçando sobre as transformações que tiveram lugar nos territórios africanos de língua oficial portuguesa e, num diálogo dinâmico com a produção africanista, acompanhamos a produção de trabalhos de qualidade excepcional, preenchendo imensos vazios e formulando novas questões sobre uma história em grande medida ainda por ser escrita.

O trabalho de Cláudia Castelo pertence, sem sombra de dúvida, ao que há de mais vigoroso em Portugal.

Em publicação anterior, que teve origem na sua dissertação de mestrado, O Modo Português de Estar no Mundo. O Luso-Tropicalismo e a Ideologia Colonial Portuguesa (1933-1961) 1 , Castelo enfrentou o labirinto mítico que cercava o colonialismo português, a sua áurea de mistério e a incorporação do luso-tropicalismo freyriano com o propósito de perpetuar a presença lusitana em terras africanas. A historiadora desenvolveu então uma história crítica das ideias, revelando as distintas leituras, por vezes antagónicas, de que a obra de Freyre fora objecto em Portugal antes da sua transformação definitiva em ideologia oficial do regime. À leitura detida da obra de Freyre sucedeu outra, não menos detida, das múltiplas leituras a que Freyre foi submetido até a assunção do luso-tropicalismo por parte da intelligentsia política colonialista portuguesa. Consolidado como ideologia de Estado, e longe de um debate público democrático, 1 Porto, Afrontamento, 1999. Page 2 184 Análise Social o luso-tropicalismo acabaria por afectar a vida dos portugueses e de todos aqueles que se encontravam em territórios sob a administração colonial de Portugal. De ideologia, transforma-se numa verdadeira visão do mundo, a informar jovens obrigados ao alistamento militar e a uma guerra em terras longínquas e mesmo aqueles que procuravam nas colónias aquilo que lhes era negado em Portugal. E é sobre o povoamento com naturais da metrópole nas grandes colónias de Angola e Moçambique o novo trabalho de Cláudia Castelo.

LONGE DO BRASIL, NA ÁFRICA COLONIAL
Em Passagens para África.

O Povoamento de Angola e Moçambique com Naturais da Metrópole encontramo-nos com o mesmo vigor crítico do seu trabalho anterior — agora num trabalho de maior fôlego e ambição. Cláudia Castelo tem como propósito descrever os distintos fluxos de colonos metropolitanos rumo a Angola e Moçambique ao longo de boa parte do século XX . Se é verdade que a presença portuguesa nestes territórios sempre foi relativamente pequena (no final do século XIX e início do século XX era realmente diminuta), não é menos verdade que ela foi crescente e que não apenas houve pretensões de transformá-la em verdadeiras colónias de povoamento, como de facto o fluxo metropolitano foi contínuo, crescente e decisivo entre os anos 20 e o início dos anos 70. Parte da historiografia existente estava por de mais preocupada em denunciar as falácias do luso- -tropicalismo, insistindo mesmo, como fez Gerald Bender, na quase inexistência de colonos até um período extremamente tardio. Ora, o carácter anacrónico assumido muitas vezes pelo colonialismo português em África, a existência de colónias penais até à entrada do século XX , não deve deter a pesquisa, e Claúdia revela-nos o crescente, embora desigual ao longo do tempo, estabelecimento de naturais da metrópole nos grandes territórios africanos. E, como faz a autora de entrada, deve-se comparar o assentamento de colonos em Angola e Moçambique com outras experiências europeias no continente africano, em particular na Argélia, no Quénia, na Rodésia do Sul e mesmo na África do Sul, distanciando assim, definitivamente, a expe- riência lusitana nos grandes territórios africanos da ocorrida no Brasil. O Brasil aqui não entra como comparação, nem poderia. O país sul-americano surge antes como uma espécie de problema — para aqueles que, desde o início do século XX , queriam redireccionar os fluxos migratórios portugueses — ou como uma solução — para os que percebiam o carácter dependente do Estado português com relação às divisas geradas pela emigração. Não se trata de um parâmetro comparativo para a experiência dos colonos em África, como gostariam os entusiastas do luso-tropicalismo!

Em Angola e Moçambique, mesmo nos anos de relativa hegemonia do pensamento luso-tropical em Portugal (a partir de meados dos anos 50), a experiência Page 3 185 Livros dos colonos metropolitanos assemelhava-se antes aos assentamentos brancos da África do Sul, da Rodésia do Sul ou do Quénia: a tendência crescente para o estabelecimento das famílias; a sua concentração em núcleos urbanos com condições de saneamento e onde se sentissem protegidos diante da massa autóctone desconhecida e ameaçadora; a dispersão de um número restrito de famílias brancas pelo território, ocupando cargos burocráticos ou posições em grandes empreendimentos agrícolas; a criação de espaços sociais exclusivos, marcados pela clara segregação do elemento autóctone e pela rejeição violenta da miscigenação. Se os debates delineados por Cláudia sugerem distintas posições no que diz respeito ao povoamento de Angola e Moçambique, sempre marcados pela obsessão da classe política portuguesa, e mesmo da burguesia metropolitana, em torno da nacionalidade ou dos destinos da nação (e, nunca é de mais lembrar, constrangidos por um regime de natureza autoritária), a dinâmica assumida pelas levas de colonos que passam a dirigir-se para os territórios africanos — por vezes em função dos limites impostos pelo Estado brasileiro a emigrantes europeus, ou mesmo em competição com destinos europeus que passam a dominar a opção dos portugueses a partir da década de 50 — não foge ao já ocorrido em territórios outrora sob domínio britânico. Com uma grande diferença no futuro imediato desta colectividade: nos anos da descolonização, e apesar de afirmar o seu compromisso com o ultramar, a esmagadora maioria dos naturais da metrópole retorna a Portugal — certamente em função das dificuldades que se anunciavam nos novos países africanos, mas com toda a certeza como consequência dos fortes vínculos familiares que mantinham com a sua terra de origem, ou com a terra de origem dos seus pais e avós... o mesmo não ocorreria em determinadas colónias britânicas, pelo menos não na África do Sul e na Rodésia. Mas esta é outra história.

POVOAMENTO CONTROLADO: O MEDO DA POBREZA BRANCA

Geralmente, o trabalho dos antropólogos é cercado de uma certa áurea. Dificuldades de toda a ordem e a aventura parecem acompanhar a viagem a terras distantes. No entanto, não hesitaria um momento sequer em definir Cláudia Castelo como uma desbravadora e uma verdadeira aventureira. Como fica claro logo no início do seu texto, os arquivos portugueses e africanos — com a notável excepção do Arquivo Histórico de Moçambique 2 — 2 O Arquivo Histórico de Moçambique merece um destaque especial. Enfrentando dificul- dades de toda a ordem, e embora parte da documentação ainda se encontre à espera de tratamento, encontramos uma instituição digna que manteve as portas abertas constantemente a pesquisadores moçambicanos e estrangeiros que por lá passaram. O acesso às séries e documentos é ainda facilitado por arquivistas que realmente conhecem os meandros do AHM e estão interessados em efectivamente facilitar o nosso trabalho. Page 4 186 Análise Social estão longe de fornecerem condições ideais de pesquisa. Enfrentar caixas e caixas sem classificação, séries descontínuas, ou o descuido na manutenção de arquivos e documentos — em grande medida consequência do desinteresse daqueles que ocupam o aparelho de Estado numa política de arquivos histó- ricos —, constitui o dia a dia do historiador e do cientista social em Portugal (e no Brasil). Passagens para África revela o que pode ser feito a partir dos arquivos existentes, em particular o extraordinário (e caótico) Arquivo Histórico Ultramarino, mas também aponta para o muito que há por fazer.

O carácter desbravador de Cláudia Castelo deve-se ainda ao tema e ao método escolhidos. A memória daqueles que passaram parte das suas vidas em Angola e Moçambique faz parte da sociedade portuguesa contemporânea. E parte das novas gerações vê-se às voltas com histórias e silêncios de pais e avós que foram definitivamente marcados por um retorno nem sempre tranquilo ou pela nostalgia dos tempos africanos. Do lado africano, as coisas não são diferentes. Histórias sobre os tempos coloniais fazem parte do dia a dia de angolanos e moçambicanos. Geralmente, trata-se de histórias sobre os colonos ou sobre os brancos que se foram. E estamos longe de um mínimo consenso em torno destas histórias: um trabalho sobre a memória, muitas vezes uma memória traumática, levar-nos-ia a um campo que a historiadora quer evitar. Tratar-se-ia, enfim, de uma outra pesquisa. O necessário aqui é, sim, desbravar os arquivos, organizar os documentos, criar uma cronologia, compreender as instituições que se encarregavam do controlo dos territórios coloniais e do assentamento de colonos; saber quantos foram, em que períodos, qual a sua origem social e a que se dedicaram na terra de destino. E conhecer minimamente as informações de que dispunham sobre o continente que os iria receber, quais as suas expectativas. O trabalho ganha, assim, imensa densidade. Sempre matizando os problemas e limites do material disponível, temos muitas vezes não apenas o número de portugueses embarcados para Angola e Moçambique, como também, e em determinados períodos, a sua divisão por género, o seu estado civil, a idade e o grau de instrução.

Podemos acompanhar como, efectivamente, pelo menos a partir dos anos 40, o número de mulheres se aproxima do número de homens e, sobretudo, o grau de instrução médio daquele que se aventurava nas colónias africanas era superior ao da metrópole e certamente ao dos emigrantes que a partir dos anos 50 passam a preferir destinos europeus. Compreender este perfil exigiu da autora enfrentar o controlo que o Estado autoritário português pretendeu exercer sobre os fluxos rumo ao ultramar. Se é verdade que boa parte dos grandes projectos de colonização levados a cabo pelo Estado fracassaram — particularmente aqueles que implicavam a colonização rural —, tudo leva a crer que a tentativa de evitar uma emigração desordenada e impulsionada somente pela pobreza que imperava em Portugal foi bem sucedida. Page 5 187 Livros Mas por que evitar que Angola e Moçambique se transformassem, efectivamente, no lugar de destino das massas miseráveis que desde as últimas décadas do século XIX emigravam para o Brasil e, posteriormente, para a Venezuela, os Estados Unidos e, a partir dos anos 50, para os países desenvolvidos da Europa ocidental? Nos congressos coloniais muitos foram os intelectuais e políticos que defenderam que deveria ser a África o destino do excedente populacional peninsular. No entanto, um temor pairava particularmente entre aqueles que ocupavam cargos nas colónias ultramarinas: o temor da produção de uma massa branca pobre e despreparada a competir com os indígenas. E novamente Portugal se aproximava das demais colónias europeias do seu entorno africano: no Congo Belga, na Rodésia do Sul, no Quénia, dever-se-ia evitar a todo o custo a existência de uma pobreza branca; a consolidação do Estado sul-africano ao longo do século XX , que culmina com o estabelecimento do apartheid, representou um imenso esforço de eliminar a miséria que caracterizava as grandes massas de afrikaans que povoavam os subúrbios das grandes urbes sul-africanas. De certa forma, os esforços dos distintos Estados coloniais foram bem sucedidos e, como lembra Doris Lessing no 1.º volume da sua autobiografia, Under My Skin (1994), a memória de uma pobreza branca foi praticamente apagada de territórios como a África do Sul ou o Zimbabwe e também de Angola e Moçambique.

A pobreza branca deveria ser evitada a todo custo, pois os indígenas deveriam estar absolutamente convencidos da superioridade europeia. Era sobre a crença nesta superioridade que pretendeu-se assentar a arquitectura colonial, o que foi notavelmente eficaz, pelo menos ao longo de um determinado período de tempo. O poder colonial manteve-se não apenas pela força das armas. Após o brutal período da denominada pacificação, um complexo aparelho ideológico em torno da superioridade branca deveria não apenas ser disseminado como ritualizado. E é aqui que surge um estilo de vida colonial, tão distante da matriz europeia e que só fazia sentido naquela estrutura de poder. E este estilo de vida deveria ser tão pomposo e exclusivo quanto possível para, no caso português, e como lembra Cláudia Castelo, superar não apenas o fantasma da pobreza branca, mas evitar o que poderia definitivamente colocar em xeque o poder colonial aos olhos dos nativos (e dos demais europeus): a miscigenação e a cafrealização, ou seja, a adoção por parte dos brancos de comportamentos associados aos indígenas (p. 288).

ESTILO DE VIDA COLONIAL: O IDEAL DO NÃO TRABALHO —
Quando foi pela primeira vez a Portugal? —
Em 1937. Page 6 188 Análise Social — Gostou? — Não. Fui para ficar três anos, e não aguentei mais que um. — O que mais o surpreendeu quando chegou a Portugal? — Logo no porto tive a minha grande surpresa: ver brancos a trabalhar, a descarregar os navios. Trecho da história de vida de um moçambicano branco registada em Janeiro de 2001 Eis o que deveria ser evitado a todo o custo: o trabalho manual realizado por brancos. É impressionante o número de referências que recolhi na minha pesquisa de campo em Moçambique sobre o choque dos brancos coloniais quando chegavam à metrópole e deparavam com brancos a carregar caixas ou a servir em mesas de bar — referências estas que se repetiam no caso rodesiano 3 .

Na verdade, havia um verdadeiro debate quanto à natureza do trabalho a ser realizado pelos brancos em territórios ultramarinos, e não eram poucos os que reclamavam uma maior implantação de colonos como agricultores, trabalhando lado a lado com os nativos africanos, como forma de garantir a assimilação da massa indígena ao que se considerava uma civilização superior. No debate, e como demonstra Cláudia Castelo, predominaram muitas vezes aqueles que queriam garantir aos brancos metropolitanos as posições de mando junto da massa indígena, esta sim dedicada ao trabalho nas grandes empresas agrícolas. Para tanto, competia não apenas a visão predominante da não resistência dos brancos ao trabalho manual em ambiente tropical africano, mas mesmo a negativa dos assentados europeus. Parte dos naturais da metrópole associava a sua ida às colónias a um evidente projecto de ascensão social, o que implicava justamente deixar para trás possíveis origens rurais ou camponesas; outros procediam, na verdade, da própria burguesia metropolitana, que encarava o estabelecimento em Angola e Moçambique não só como forma de ascensão social, mas como uma estratégia para fugir à estreiteza da vida metropolitana de então. As colónias das revistas, manuais e dos romances a partir pelo menos dos anos 30 prometiam não apenas fortuna, mas também aventura e, sobretudo, um estilo de vida, que implicava uísque ou gin no fim da tarde — algo muito distante do trabalho de um camponês. 3 Numa entrevista que realizei a um rodesiano (assim se definia, embora a Rodésia já não exista), ele afirmou que a primeira vez que entrou num avião da British Airways num voo de Salisbury para Londres ficou chocado ao ver aeromoças brancas a servirem os passageiros, pois jamais fora servido por um branco. Page 7 189 Livros A foto apresentada na capa de Passagens para África — «Colonos e suas famílias em Benguela seguem para Angola e Moçambique», publicada pelo jornal O Século em 29-8-1947 — indica uma ambiente relativamente relaxado existente entre aqueles que partiam da metrópole rumo às grandes colónias africanas. Não deparamos com emigrantes assustados ou mal vestidos. Alguns homens encontravam-se engravatados, outros já usavam o inconfundível chapéu colonial, um deles com uma harmónica. Dois jovens estão ao fundo, claramente felizes. As três mulheres que aparecem na foto, à esquerda, também aparecem bem vestidas, assim como a menina sentada na mesma cadeira com aquele que possivelmente seria o seu pai. Homens, mulheres, crianças, jovens, indicam a ida de famílias, e todos estes parecem querer registar na foto a sua melhor imagem — uma imagem de alegria de quem parte para um destino que lhe reserva algo certamente mais empolgante do que sua terra de origem. Mas a implantação do estilo de vida colonial em muitas cidades de Angola e Moçambique deu-se, na verdade, com o extraordinário desenvolvimento que acompanhou as guerras de libertação nacional. O desenvolvimento e o estabelecimento de grandes comunidades brancas nestes territórios passaram a ser estratégicos no interior do esforço de guerra e de uma portugalização que se queria definitiva dos territórios, que passaram a reivindicar a partir dos anos 60 o direito à autodeterminação e à independência. Em grande medida, e como conclui Cláudia Castelo, as memórias de África que percorrem parte da sociedade portuguesa contemporânea fazem referência justamente a este período, quando a exclusividade dos espaços dos brancos coloniais começou a ser pressionada por um cada vez maior número de africanos que se representavam a si mesmos como cidadãos e que haviam sido beneficiados com o tardio crescimento das instituições de ensino em Angola e Moçambique. Uma África multirracial portuguesa já não era possível naquele momento. Embora distante dos centros de assentamento europeus, em Angola e Mo- çambique ardiam guerras de libertação nacional, transformadas ulteriormente em guerras civis. E as relações entre as transformações promovidas pelo tardo-colonialismo português, que supôs o estabelecimento sem precedentes de naturais da metrópole em terras africanas, e os conflitos sangrentos que sucederam às independências ainda estão para serem estudadas. Consciente de que esta resenha não faz justiça ao trabalho de Cláudia Castelo, na medida em que destaquei apenas alguns pontos de Passagens para África com o propósito de indicar a sua importância e de seduzir possíveis futuros leitores, permito-me uma divergência com a autora. Logo no início Cláudia adverte que, apesar de pressupor um diálogo com os estudos africanos, a sua pesquisa não se encontra no âmbito da história de Page 8 190 Análise Social África. Ora, e hoje mais do que nunca, sabemos que a colonização faz parte da história do continente africano.

No caso daquelas colónias que num determinado período foram terra de destino de milhares de famílias euro- peias, a dinâmica do assentamento europeu — e do seu fim — revela-nos parte da herança do colonialismo tardio. Passagens para África representa, assim, uma contribuição decisiva para a historiografia contemporânea de Angola e Moçambique, mas não só: lança luz sobre processos similares noutras experiências coloniais, procurando abordar com um olhar mais agudo os processos de assentamento branco na África como um todo. Nesse sentido, é, sem dúvida, importante para qualquer interessado em estudos do colonialismo europeu em África, nos estudos africanos e nos estudos pós-coloniais. O MAR RIBEIRO THOMAZ Universidade Estadual de Campinas

As desmistificações do General Silva Cardos: O 25 de Abril de 1974, a revolução da perfídia

Livro: O 25 de Abril de 1974, a revolução da perfídia

Com a chancela da Prefácio, foi editado mais um livro do general António Silva Cardoso intitulado “25 de Abril de 1974 – a revolução da perfídia”.
Nas 234 páginas do livro, o general Silva Cardoso lavra uma fortíssima acusação e denúncia sobre o golpe de estado abrilino e as repercussões que este teve para Portugal.
Na realidade, o general António Silva Cardoso é o mesmo que fez parte da Junta Governativa de Angola chefiada por Rosa Coutinho, acumulando esse cargo com o Comando da 2.ª Região Aérea. Na sequência do Acordo do Alvor foi designado Alto-Comissário (ou Alto-Corsário como dizia o
Rodrigo Emílio) para o período de transição, onde se manteve até princípios de Agosto de 1975.
Ora, o sr. general António Silva Cardoso, na sua qualidade de membro da Junta Governativa de Angola chefiada por Rosa Coutinho e de Alto Comissário de Angola foi co-responsável pela criminosa e racista descolonização, pelo desmembramento do Império português e morte de milhares de portugueses que com os seus rios de sangue inundaram o solo das Províncias Ultramarinas traindo, dessa forma, o esforço de quinhentos anos de presença e soberania portuguesa no Ultramar!
Foi o autor de "Angola, Anatomia de uma tragédia", editado pela Oficina do Livro, no ano de 2000, 690 págs., em cuja capa se vê o sr. general ao lado de Melo Antunes e de Mário Soares - em que o último a assina o "acordo".
Por muito que o sr. general escreva - e já vai em cerca de mil páginas - , já não se pode voltar atrás e pedir comovidamente desculpa como o faz no Preâmbulo deste livro, remetendo-nos para "Angola, Anatomia de uma tragédia":
«A resposta, pronta e inevitável, centra-se na constante, abusiva e obcecante tentativa de mistificação da História de Portugal relativamente a esse período. A minha vivência da maioria dos factos relatados e as imagens com frequência nos entram em casa mostrando o drama terrível e pungente que se tem abatido sobre o povo angolano para quem a fome, a dor, a doença, a tremenda incerteza do futuro, os estropiados e a morte são uma constante perante os olhos atónitos, incrédulos, mas também passivos, do mundo, levaram-me, num imperativo de consciência, a escrever a minha própria verdade como a tinha sentido e vivido. Quanto à segunda questão, porquê só agora, limito-me a citar um dos últimos parágrafos do livro:
Os anos passaram. Muitos outros hão-de ainda passar e a História, como se diz, fará o seu juízo.
(…) Naquilo que me diz respeito afirmo que a descolonização, tal como se cumpriu, será considerada como o episódio mais catastrófico, mais desprezável e mais estúpido de toda a História de Portugal; na parte que mais de perto me toca, eu julgo que é também meu dever contribuir para a formulação do juízo da História. E esta precisa de distanciamento em tempo para poder ser escrita.» (Pág. 21/22)
Assim é. Já passaram trinta e quatro anos. Duas gerações quebraram um elo de quinhentos anos de laços históricos e o sr. General foi um dos que contribuiu para essa trágica realidade!
Demasiado tarde, rios de sangue correram nas províncias ultramarinas de África que desaguaram no oceano Atlântico e no oceano Índico!
Escreve o sr. general: «Omitia a Dr.ª Maria Barroso que o seu marido é um dos grandes responsáveis pela tragédia que se abateu sobre aquele território após a chamada descolonização que ele começou por classificar de espectacular, depois de exemplar e, por fim de possível. Como é possível tal atitude quando o ilustre casal Soares sabia quem foram os seus compatriotas que transformaram um território cujo padrão de vida antes do 25 de Abril era o terceiro de toda a África sub-sahariana (sendo apenas suplantado pelo da África do Sul pelo da África do Sul e pela, então, Rodésia) num país em que se estima estarem cerca de quatro milhões de pessoas de pessoas ameaçadas de morrer de fome!» (Pág. 23)
O sr. general desmistifica o que considera
«ser a mais insidiosa manipulação da nossa História entre 1933 e 1975 nomeadamente nas seguintes linhas de força:
- a guerra do Ultramar foi, principalmente, um episódio da guerra entre os EUA e a URSS e não uma luta de autolibertação e desenvolvimento dos povos;
- a guerra estava a ser ganha militarmente e a batalha do desenvolvimento atingia crescimentos sociais e económicos muito elevados;
- a subversão na retaguarda e a inoculação do vírus revolucionário nas Forças Armadas foi a solução que a URSS opôs à nossa vitória militar;
- os autores da traição e do descalabro têm nomes e são os que, conscientemente, fizeram o jogo da URSS, isto é, o PCP e seus “compagnons de route”.»
(Pág. 25)

Um livro a ler com atenção para se compreender as razões do golpe de estado abrileiro, a descolonização, o PREC, enfim, a democracia em Portugal!
O crime de traição à Pátria
pela "
prática do crime previsto no art.º 141 do Código Penal, crime consubstanciado em documentos de que os acusados foram signatários, em pareceres dados no exercício de funções oficiais, e em declarações prestadas publicamente, usando assim de meios fraudulentos com vista à separação de parcelas do território português, objectivo que conseguiram alcançar em directa colaboração com os que pretendiam por acções violentas a apropriação das províncias ultramarinas, como eram designadas na Constituição então vigente."


ANGOLA - A CIA


ANGOLA - A CIA

-- "...Os soviéticos estão a rondar em Angola e pensa-se que a agência tem de impedi-los. Estamos a programar em conjunto a forma de dar apoio a Savimbi e Roberto. Isto é em grande, a maior coisa da Divisão para África desde o Congo. Temos 14 milhões de dólares e já começámos a enviar algumas armas por via aérea. Estamos a enviar armas apenas para Kinshasa a fim de substituir o equipamento que Mobutu está a enviar para Angola dos seus próprios stocks. A ideia é neutralizar militarmente o MPLA, até à realização das eleições em Outubro."...(afirmações de GEORGE COSTELLO, chefe de operações da Divisão da CIA para África ) --
............................................................
..."As relações turvas dos Estados Unidos com o Zaire também estimularam o desejo de Kissinger em actuar em Angola. Tanto o Zaire como a Zâmbia receavam a perspectiva de um governo apoiado pelos soviéticos nos seus flancos, controlando o Caminho de Ferro de Benguela.O Presidente Mobutu receava, particularmente,os soviéticos. Por duas vezes desde 1960 que rompeu as relações com a União Soviética e, embora as relações tivessem sido restabelecidas de cada uma das vezes,mais recentemente ele andara a fazer a corte aos Chineses, à custa tanto dos Soviéticos como dos Americanos. Na primavera de 1975 os problemas internos do Zaire tinham-se agravado e o regime de Mobutu tinha sido ameaçado pelo descontentamento.
................................................
..."Eu estava familiarizado com a colónia portuguesa da costa Atlântica no Atlântico Sul através de viagens feitas na infância e na idade adulta. Nós visitámos os portos angolanos de Luanda e do Lobito e tivéramos encontros com missionários americanos que contavam histórias alarmantes sobre as autoridades portuguesas no interior de Angola. Em 1961 um navio da marinha norte-americana, no qual eu me encontrava como elemento da informação dos Fusileiros Navais aportou em Luanda para uma breve visita. Tarefas e missões de serviço temporárias da CIA tinham-me levado para perto de Angola, por exemplo, Lubumbashi, no Zaire, em 1967, quando o grupo de Bob Denard, composto de 16 mercenários invadiu a partir da fronteira angolana.
A minha última experiência directa com as questões angolanas tinha sido em Fevereiro de 1969 quando me dirigi de automóvel de Lubumbashi para visitar um acampamento da FNLA perto da fronteira com Angola. Constatar a indolência e indisciplina e talvez a experiência me tivesse levado a substimar a tenacidade do movimento nacionalista Angolano, alguns anos mais tarde. Alguns soldados sem líder, fardas esfarrapadas e mulheres e crianças semi-nuas arrastavam-se por entre edifícios de tijolos delapidados, os quais eram o resto de um acampamento da Force Publique colonial belga. Sem instalações nem condições sanitárias, pouco diferia de uma aldeia africana primitiva, com as pequenas casas de tijolo a substituir as palhotas de colmo e espingardas ferrugentas a substituirem armas ainda primitivas."...
......................................
..."Durante muitos anos os Portugueses propagandearam um sucesso exemplar na assimilação de negros para uma sociedade colonial dita isenta de barreiras raciais. Até 1974 eles pareciam acreditar que mantinham uma relação permanente com as colónias. Nos serviços clandestinos da CIA, estávamos inclinados a aceitar as declarações dos portugueses, de uma sociedade aberta, do ponto de vista racial,em Angola e aceitava-se tacitamente que a agitação comunista era em grande parte responsável pela resistência contínua dos negros ao governo português. A razão era de base. Sendo uma organização essencialmente conservadora, a CIA mantém ligação secreta com serviços de segurança locais onde quer que actue"...
....................................................
"...Em relação a Angola diziamos normalmente... "os Portugueses estabeleceram uma sociedade anti-racial,miscegenaram-se"..."Na realidade, o papel dos Portugueses em Angola foi historicamente o da exploração e brutal repressão. Tendo iniciado em 1498, Portugal conquistou e subjugou os três reinos tribais dominantes : -- os Bakongo, os Mbundu e os Ovimbundo -- e exportou mais de três milhões de escravos, deixando vastas extensões da colónia sub-povoada. A sociedade colonial achava-se dividida em seis categorias raciais definidas pela quantidade de sangue branco em cada uma delas, com duas categorias de pretos puros, na base da escala. Os privilégios de cidadania, económicos e legais, resultavam apenas a favor dos 600.000 brancos, mulatos e assimilados ou pretos legalmente aceites entre a elite da sociedade. Os 90% da população classificados de indígenas sofreram todo o tipo de discriminação -- incluindo trabalho forçado,pancada,prisões arbitrárias e condenações sem julgamento às mãos das autoridades coloniais."...
. ................................................................
..."A desintegração da sociedade tradicional levou ao aumento da desorientação, desespero, e à preparação para um protesto violento"... "Por volta de 1961, Angola era um barril de pólvora negra com três grupos étnicos mais significativos organizados para a revolta.
..."A 15 de Março de 1961 as guerrilhas da FNLA realizaram um ataque em 50 pontos ao longo do rio Congo, numa frente de 640 kms., matando indiscriminadamente tanto homens Africanos e Portugueses, como mulheres e crianças.Imediatamente aviões da Força Aérea Portuguesa trouxeram reforços, utilizando armas da NATO, destinadas à defesa da área do Atlântico Norte, e começaram a atacar com uma fúria indiscriminada, bombardeando mesmo áreas que não tinham sido afectadas pela sublevação nacionalista. A política portuguesa prendeu nacionalistas, protestantes, comunistas e eliminou sistematicamente líderes negros executando-os ou utilizando métodos terroristas. Ao reagir e reprimir indiscriminadamente, os Portugueses ajudavam a garantir que a insurreição não seria localizada ou suprimida"...
..............................................................
..."O golpe do 25 de Abril de 1974 em Portugal apanhou os Estados Unidos
de surpresa, sem alternativas políticas à altura e sem contacto com os revolucionários africanos. A CIA não actuava no interior de Angola desde o final dos anos 50, até 1975."...
..."Apenas em Março de 1975, quando os portugueses estavam a desligar-se e a perder o controle, é que finalmente reabrimos a delegação de Luanda . Antes disso, a maior parte das informações locais da CIA sobre o interior de Angola vinham de Holden Roberto que era o líder, desde 1960, do movimento revolucionário Bakongo, chamado FNLA. Operando a partir de Kinshasa (então chamado Leopoldville), estabeleceu laços com a CIA"...
......................................................
-- Transcrições recolhidas em : "A CIA CONTRA ANGOLA" - de JOHN STOCKELL, ex. Chefe da Força de Intervenção da CIA em ANGOLA )-- pgs. 31 -39 -44 - 46 - 47/8 - 49 --

in http://angola-brasil.blogspot.com/

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

domingo, 14 de dezembro de 2008

Guerra dos Cuamatas











A DEFESA DAS COLÓNIAS E ÁFRICA, DE 1914 A 1920



Forças expedicionárias a caminho de África, em 1914
1914 18 de Agosto É decidida a organização de uma expedição militar com destino a Angola e a Moçambique. 25 de Agosto Em Moçambique dá-se o primeiro incidente de fronteira, com o ataque alemão ao posto fronteiriço de Maziúa, na fronteira do Rovuma, tendo sido morto o chefe do posto e sendo incendiado o posto e as palhotas vizinhas. 11 de Setembro Partida de Lisboa de uma expedição militar, comandada pelo tenente-coronel Alves Roçadas, com destino a Angola. Partida do corpo expedicionário para Moçambique, comandado pelo tenente-coronel Massano de Amorim. 1 de Outubro As forças expedicionárias do comando de Alves Roçadas desembarcam em Moçamedes, no Sul de Angola. A força era composta de 1 batalhão de infantaria, 1 pelotão de metralhadoras, 1 bateria de artilharia e 1 esquadrão de cavalaria. 19 de Outubro Incidente de fronteira em Naulila, no sul de Angola. São mortos três alemães, parte de uma missão, que tinha entrado na província sem autorização, e acampado na margem esquerda do Cunene, mas já no território da província. 22 de Outubro As forças expedicionárias de Alves Roçadas e forças provinciais acabam a sua concentração em Lubango, no planalto de Moçamedes, preparando a defesa do sul de Angola contra quaisquer investidas de tropas vinda da África Alemã do Sudoeste. 30 de Outubro Massacre de Cuangar. O posto português de Cuangar, na margem esquerda do rio Cubango, no Sul de Angola, é atacado por alemães armados de metralhadoras. São mortos dois oficiais, um sargento, cinco soldados europeus e treze africanos, o comerciante Sousa Machado e uma mulher, num total de 22 pessoas. 31 de Outubro Alves Roçadas determina a organização das chamadas Forças em operações ao Sul de Angola, com as forças expedicionárias e forças da província. 1 de Novembro A primeira expedição portuguesa para Moçambique desembarca em Porto Amélia, no norte da colónia. Era composta por 1 batalhão, 1 bateria e 1 esquadrão. 2 de Novembro Uma tentativa de desembarque de forças militares britânicas, vindas da Índia, em Tanga, no norte da África Oriental Alemã, é repelida, sofrendo a força invasora pesadas baixas. 5 de Novembro Forças militares de reforço da guarnição portuguesa em Angola partem de Lisboa, comandadas pelo capitão-tenente Coriolano da Costa, devido aos incidentes acontecidos com tropas alemãs na fronteira. 12 e 13 de Dezembro Encontros entre patrulhas portuguesas e alemãs, no Sul de Angola, com troca de tiros. 17 de Dezembro Forças alemãs, sob o comando do major Frank, acampam nas margens do Cunene. 18 de Dezembro Combate de Naulila. As forças alemãs atacam as portuguesas obrigando-as a retirar, em direcção a Humbe, no Sul de Angola. Morrem 3 oficiais e 66 sargentos e soldados. 19 de Dezembro As forças portuguesas abandonam Humbe, depois do paiol do Forte Roçadas ter explodido. Retiram mais para norte, para Gambos, com intenção de defender Lubango, no Sul de Angola. Motivados pelos combates entre forças europeias, as populações africanas da Huíla, no Sul de Angola, revoltam-se. São dirigidas pelo soba Mandume, da terra Cuanhama. 1915 3 de Fevereiro Mais expedições militares partem para Angola, para fazer frente ao ataque das forças alemãs, vindas da África Alemã do Sudoeste. 21 de Março O General Pereira d'Eça, novo governador de Angola e comandante das forças expedicionárias, nomeado pelo governo ditatorial de Pimenta de Castro, chega a Luanda, capital da província, substituindo o general Norton de Matos.. Junho O governador de Moçambique informa o tenente-coronel Amorim de que o governo português pretendia que se reocupasse Quionga, ocupada pelos alemães em 1894, e se invadisse o território da África Oriental Alemã. 7 de Julho As forças portuguesas reocupam Humbe, no sul de Angola, sem encontrarem resistência. 9 de Julho As forças militares da África Alemã do Sudoeste rendem-se ao general Botha, comandante em chefe das forças da União Sul-Africana. 12 de Julho O general Pereira d'Eça toma conhecimento da rendição da colónia alemã. 4 de Agosto O governo é autorizado a contrair dois empréstimos, destinados a fazer face ao aumento das despesas com as forças expedicionárias enviadas para as colónias. 15 de Agosto Uma coluna das forças do comando do general Pereira d'Eça, agora com a missão única de acabar com a revolta das populações da Huíla, no Sul de Angola, reocupa o forte do Cuamato. 18, 19 e 20 de Agosto Combate de Mongua. A principal coluna das forças expedicionárias, comandada pelo general Pereira d'Eça, dispersa um ataque realizado contra as cacimbas (depósitos de água) de Mongua, no Sul de Angola,ocupadas no dia anterior. 4 de Setembro A embala de Mandume, soba dos Cuanhama, é ocupada por um corpo de tropas ido de Mongua. 7 de Novembro Uma segunda expedição a Moçambique, comandada pelo major de artilharia Moura Mendes chega a Porto Amélia. Era composta por 1 batalhão, 1 bateria e um esquadrão, assim como de tropas de engenharia, de saúde e de serviços. 1916 9 de Março A Alemanha declara a guerra a Portugal. 27 de Maio Combate de Namaca. As forças expedicionárias portuguesas, reforçadas por forças da Guarda Republicana de Lourenço Marques, levadas para o Norte de Moçambique pelo governador Álvaro de Castro, tentam a passagem do Rovuma sendo rechaçados violentamente pelas forças alemãs. Julho A terceira força expedicionária portuguesa, a Moçambique, chega a Palma, a norte de Porto Amélia. Comandada pelo general Ferreira Gil. Era composta por 3 batalhões de infantaria, 3 baterias de metralhadoras, 3 baterias de artilharia, 1 companhia de engenharia mista e unidades de serviços. 19 de Setembro Travessia do Rovuma pela força expedicionária portuguesa a Moçambique. A África Oriental Alemã é invadida. 4 de Outubro Combate de Maúta. Uma força de reconhecimento comandada pelo capitão Liberato Pinto é surpreendida em Maúta e obrigada a retirar de regresso à fronteira de Moçambique. Será acompanhada pela coluna que a seguia. 22 de Outubro Combate da Ribeira de Nevala. As forças do comando do chefe de estado-maior da força expedicionária a Moçambique, coronel Azambuja Martins, encontram-se com as forças alemãs junto aos poços de água de Nevala. As forças alemãs retiram. 8 de Novembro Combate de Quivambo. A coluna do comando do major Leopoldo da Silva, que após a tomada de Nevala, na África Oriental Alemã, se dirigia para Mikindani, é interceptada pelas forças alemãs. Leopoldo da Silva foi morto, e o novo comandante, major Aristides Cunha, decidiu retirar. 22 de Novembro Combate da água de Nevala. As forças alemãs, reforçadas por marinheiros do cruzador Koenigsberg, no seguimento do combate de Quivambo, atacam e ocupam o posto da água de Nevala após um ataque à baioneta. 28 de Novembro As forças portuguesas abandonam o fortim de Nevala, e retiram para a fronteira, depois de uma coluna de socorro ter sido rechaçada pelas forças alemãs. 1 de Dezembro O posto de Nagandi é incendiado por fogo de artilharia alemão, impedindo que se organizasse ali um linha de defesa de Moçambique. 1917 21 de Novembro As forças alemãs do comando de Lettow-Vorbeck saindo de Nevala dirigem-se para a fronteira com Moçambique. 28 de Novembro Combate de Negomano. Os alemães supreendem as forças portuguesas em Negomano, provocando um verdadeiro massacre. Morreram 5 oficiais e 14 soldados europeus, assim como 208 soldados africanos, ficando feridos mais de 70, e prisioneiros 550 homens, entre os quais se contavam 31 oficiais que foram libertados posteriormente. 3 a 8 de Dezembro Combate da Serra Mecula. As forças comandadas pelo capitão Francisco Pedro Curado, compostas por uma bateria de artilharia e uma companhia de tropas africanas, resistem de 3 a 8 de Dezembro à coluna de tropas alemãs comandada pelo general Wahle, que separada da coluna principal se dirigia mais para o interior de Moçambique. O capitão Curado ficará conhecido pelo none de «Condestável do Rovuma». 1918 1 a 3 de Julho Combate de Nhamacurra. As tropas alemãs chegando a 40 km de Quelimane, no centro de Moçambique, atacam o depósito de uma grande companhia açucareira, defendido por tropas anglo-portuguesas comandadas pelo tenente-coronel britânico Brown, que é morto. 28 de Setembro As tropas alemãs atravessam de novo o Rovuma, abandonando Moçambique. Novembro As tropas alemãs entram na Rodésia do Norte. 12 de Novembro O comandante alemão Lettow-Vorbeck tem conhecimento do Armistício celebrado na véspera em França, e rende-se. 1919 28 de Junho É assinado em Versalhes o Tratado de Paz que põe fim à Primeira Guerra Mundial. Quionga, reocupada em Abril de 1916, é formalmente restituída a Portugal. 12 de Julho Na Conferência Colonial, realizada em Londres, é perguntado a Portugal se aceitava um mandato de administração do território de Quionga, estendendo-se este mandato igualmente a toda a província de Moçambique. A resposta é negativa. 25 de Setembro Quionga é restituída a Portugal por decisão do Conselho Supremo das Potências Aliadas e Associadas. 1920 4 de Dezembro Por portaria provincial Quionga volta a ter um comando militar português, a marcar a soberania perdida em 1894. Fontes principais: Nuno Severiano Teixeira, O Poder e a Guerra, 1914 -1918. Objectivos Nacionais e Estratégias Políticas na Entrada de Portugal na Grande Guerra, Lisboa, Estampa («Histórias de Portugal, 25»), 1996; António Simões Rodrigues (coord.), História de Portugal em Datas, 3.ª ed., Lisboa, Temas & Debates, 2000 (1.ª ed., 1997); General Ferreira Martins, História do Exército Português, Lisboa, Inquérito, 1945.

Visita ao Lubango de Norton de Matos

































































Depois do derrube da Monarquia em Portugal, em 1910, a Primeira República criou o regime dos Altos Comissários para as colónias africanas, o qual vigorou até aos anos 30. A partir daí o regime salazarista retomou a figura dos Governadores. A diferença entre um e outro é que o regime dos Altos Comissários conferia muito mais autonomia e poder ao representante do Governo metropolitano. No entanto, com excepção de Norton de Matos, que foi Governador de Angola entre 1912 e 1914 e Alto Comissário no período 1921-24, e cuja obra foi sob vários pontos de vista notável (e a que não se prestou ainda a devida justiça: Vd. Adelino Torres, O Império Português entre o Real e o Imaginário, Lisboa, Escher, 1991, 359 p.), as políticas desses representantes foram, no essencial, incaracterísticas.
.............

ANGOLA: CONFLITOS POLÍTICOS E SISTEMA SOCIAL (1928-30) 1 Adelino Torres


Adelino Torres
(...)
«Na política colonial portuguesa da primeira metade do século XX, assinala-se todavia uma excepção: a acção de Norton de Matos, nomeado pela 1ª República como Governador de Angola em 1912-14, e, mais tarde, de novo como Alto Comissário no período 1921-24. Graças a este segundo mandato com poderes muito mais alargados do que no primeiro, Norton de Matos levou a cabo a única acção governativa realmente significativa para introduzir a modernidade em Angola, combater o trabalho escravo, impôr uma política de investimentos em grande escala e abrir a colónia directamente à economia mundial. Numa palavra: minar o poder de uma burguesia colonial obsoleta. Como seria de esperar, a obra de Norton de Matos encontrou a maior resistência, tanto em Portugal ("burguesia metropolitana") como em Angola ("burguesia colonial"). Em 1924 o governo da 1ª República, cedendo a pressões, pôs abruptamente fim ao seu mandato como Alto Comissário. Com efeito, os pequenos e médios agricultores descapitalizados de Angola, cuja acumulação dependia em grande parte de uma mão-de-obra praticamente gratuita, poderiam dificilmente sobreviver à transformação e modernização das estruturas económicas e sociais pretendidas por Norton de Matos. Não é, pois, de admirar que tivessem saudado com entusiasmo o desaparecimento político de Norton de Matos.

Em 1926 teve finalmente lugar em Portugal um golpe de Estado que pretendia dar uma orientação nova ao país. O auto-intitulado "Estado Novo", corporativo e de ideologia fascista põe fim ao regime da Primeira República e nomeia um outro Alto Comissário, Vicente Ferreira, professor da Universidade Técnica de Lisboa, homem sem ligações com os partidos políticos e que está destinado a ser uma figura de transição. Apesar disso, este ainda tenta realizar algumas reformas que imediatamente desagradam às forças económicas locais. Em 1928, Salazar despede-o por telegrama (cf. primeira página do jornal A Província de Angola, em anexo).

O Alto Comissário seguinte será Filomeno da Câmara, cuja principal qualidade terá sido a sua implicação directa no golpe de Estado fascista de 1926, em Lisboa. Militar de carreira, Filomeno da Câmara é pois um homem de confiança do novo regime. As suas competências não são ainda conhecidas, mas em breve se tornará evidente que a personagem era pouco recomendável para um cargo de tão grande responsabilidade. Page 10 10 Alguns dos decretos redigidos pela sua própria mão e publicados no Boletim Oficial de Angola, são mesmo curiosos (por exemplo, trata o Presidente da República por "grande homem casto" (sic)...) ou simplesmente persecutórios. Quando chegou a Angola, estava acompanhado por um certo tenente Morais Sarmento, seu companheiro da "revolução" de 1926, indivíduo segundo parece pouco amável, obsecado por ideias fixas como fusilar todos os "antipatriotas" com pretenções à independência de Angola, "liquidar os maçónicos" e dar cabo de todos os republicanos partidários da democracia "corrompida". É de crer que esses elevados ideiais constituíam todo o seu programa político... Essa faceta seria de somenos importância se ele não exercesse grande influência pessoal sobre o Alto Comissário, e, sobretudo, não tivesse sido nomeado Director-Geral da Administração Pública, cargo que começou imediatamente a desempenhar da maneira mais surpreendente e inesperada, a qual incluía, quando Sua Excelência julgava necessário, a agressão física de funcionários, inclusivamente de altos funcionários. Como não podia deixar de ser, foi crescendo o mal-estar e a indignação tanto na Administração como na própria opinião pública. Os acontecimentos precipitaram-se quando, em Março de 1929, o Alto Comissário Filomeno da Câmara se retirou com toda a sua família para o sul de Angola sem nenhuma razão oficial válida. Este facto foi tanto mais estranho que, em vez de deixar a responsabilidade do governo ao seu substituto legal, o chefe de Estado Maior das Forças Armadas, como a lei determinava, confiou esse cargo ao obscuro tenente Morais Sarmento. Mais ainda: deixou-lhe folhas em branco já assinadas para que este pudesse publicar todos os decretos que entendesse... As razões deste insólito procedimento nunca foram esclarecidas. Falou-se de incompetência e de outras coisas menos lisongeiras, mas tais explicações parecem insuficientes. Seja como for, a situação tornou-se rapidamente muito grave porque, como referem testemunhas da época, o jovem tenente terá começado a preparar um "golpe de Estado". Segundo alguns depoimentos, o seu projecto seria de prender o chefe do Estado Maior das Forças Armadas, o Coronel Genipro Almeida, figura que teria contactos nos meios republicados do regime deposto pelo golpe de 1926, e, em seguida, prender e deportar centenas de opositores ao novo regime fascista português, nomeadamente no sector da Page 11 11 maçonaria (que tinha velhas tradições republicanas, e à qual o antigo Alto Comissário Norton de Matos também pertencia). Infelizmente para o dito tenente, o chefe do Estado Maior foi mais célere e, durante a noite de 29 de Março de 1929, cercou a sua casa com tropas do contingente africano e deu-lhe ordem de prisão. Em resumo, após um breve tiroteio, o exaltado tenente Morais Sarmento acabou morto 19 . Este epílogo provocou manifestações populares de alegria em Luanda, como se pode ler no jornal A Província de Angola, que era então uma espécie de porta-voz da oposição ao regime de Salazar. Entretanto, na sua residência no sul de Angola, o Alto Comissário acusava de "traição" os revoltosos de Luanda e tentava, sem sucesso, mobilizar tropas para avançar sobre a capital da colónia. Por sua vez, o Coronel Genipro Almeida armava batalhões de soldados africanos comandados por oficiais portugueses. Ambos os lados iam trocando, entretanto, uma abundante correspondência telegráfica com o Ministro das Colónias em Lisboa (Salazar), cada um deles afirmando a sua lealdade a Portugal. Ao mesmo tempo, em Luanda, falava-se cada vez mais em autonomia e mesmo em independência de Angola 20 , sobretudo depois de Salazar ameaçar enviar um navio de guerra para a colónia.

A atitude do Primeiro Ministro Oliveira Salazar consistiu numa série de manobras dilatórias, onde era contudo perceptível o seu apoio ao Alto Comissário Filomeno da Câmara e a sua desconfiança em relação às forças que se encontravam em Luanda, apesar da posição do primeiro ser, do ponto de vista legal, bastante mais questionável. Quais foram as consequências destes acontecimentos? 19 Num telegrama enviado pelo Alto Comissário ao Ministro das Colónias em Lisboa, é dito que a "rebelião" de Luanda teve "o apoio ou mesmo a intervenção de associações secretas nas quais estão afiliados quase todos os funcionários, militares e civis, da colónia, incluindo a magistratura, implicados na tentativa de fazer cair a ditadura (do regime salazarista de Lisboa) (...). Morais Sarmento, adversário das associações secretas, foi a primeira vítima destas", escreve Caldas Xavier. (Cf. Caldas Xavier, op. cit., p. 150) 20 "... Muitas pessoas ouviram vivas à independência" (cf. Caldas Xavier, op. cit., p. 141). O Director do jornal A Província de Angola escrevia: "... Angola terá o destino de todas as colónias.

As tendências dos grupos sociais não podem ser contrariadas, e em todos os tempos se sente o formidável desejo e a invencível aspiração dos povos à independência. A hora de Angola ainda não chegou, mas ela chegará" (citado por Caldas Xavier, p. 142). Page 12 12 O Alto Comissário, na impossibilidade de se fazer obedecer, não pôde organizar nenhuma acção armada contra os revoltosos na capital da colónia. Algum tempo depois acabou por ser "chamado à Metrópole", o que na prática significava que estava demitido das suas funções. O mesmo aconteceu ao Chefe da Estado Maior. A oposição, incapaz de se organizar, acabou por ser reduzida ao silêncio com a ajuda da censura. Assim foi esmagada no ovo o que alguns não hesitaram em considerar como tendo sido a última tentativa de rebelião contra a soberania portuguesa da primeira metade deste século. * Sobre os acontecimentos brevemente relatados, é possível fazer três observações. A primeira não passa de uma hipótese, mas uma hipótese de algum modo consistente: Salazar teria designado um Alto Comissário da sua confiança política para tentar "limpar" Angola de todas as forças ligadas à ideias republicanas (liberais, por assim dizer), alegadamente influenciadas pela franco-maçonaria 21 ... A manifesta inabilidade deste precipitou a situação de maneira imprevista, mas não invalida a hipótese. O poder do "Estado Novo" encontrava-se ainda longe de estar consolidado, e era portanto necessário avançar com prudência, o que explicaria a ambiguidade de Salazar durante este processo. Em todo o caso, é muito estranho que o Alto Comissário Filomeno da Câmara se tenha retirado com toda a sua família para uma distante e minúscula cidade do sul de Angola sem nenhuma razão válida e, mais ainda, tenha deixado o governo confiado - contra a lei e mesmo o simples bom senso - a um mero tenente, para mais conhecido pelas suas ideias extremistas. De qualquer modo, tudo leva a crer que o primeiro Alto Comissário da ditadura, sucessora do regime republicano, foi essencialmente um homem de mão da estratégia ultra- conservadora e mercantilista do novo governo de Lisboa. A segunda observação é que esta tentativa de rebelião parece ter tido a participação, ainda que num discreto segundo plano, de certos africanos "ocidentalizados", como então se 21 O antigo Alto Comissário, Norton de Matos, era Grão-Mestre da Maçonaria portuguesa e, a esse título, não é impossível que tenha deixado implantada em Luanda e em Benguela uma estrutura maçónica republicana de ideias liberais. Page 13 13 dizia, de Luanda e de Benguela. Porém, tudo indica que não terá havido qualquer ligação entre essas elites urbanas e as populações rurais, circunstância que, a verificar-se, teria dado aos acontecimentos um conteúdo completamente diferente e certamente bem mais perigoso para a potência colonisadora. Em terceiro lugar, em momento algum o governo de Lisboa se mostrou sensível às causas sociais e económicas mais profundas que estariam na origem do clima de mal-estar vivido na colónia. As preocupações de Salazar relacionam-se sobretudo com a ordem pública, a subordinação total da economia colonial aos interesses da metrópole (Pacto Colonial, proteccionismo alfandegário), o equilíbrio orçamental de cada colónia obtido com recursos próprios (o que era a mesma coisa que negar "ajuda" da metrópole ao desenvolvimento de territórios por definição carenciados) 22 . Aplicadas nos anos subsequentes, estas medidas irão estrangular o crescimento das economias de todas as colónias portuguesas em África até ao início dos anos 1960, altura em que a maior parte dos grandes investimentos em infraestruturas, como pontes, estradas e até cidades como Nova Lisboa (hoje Huambo), resultavam ainda do áureo "período Norton de Matos" (1921-24)! Se inicialmente a rebelão de 1929 teve uma origem palaciana revestida de aspectos grotestos, ela foi rapidamente transformada pela propaganda oficial salazarista num episódio político-militar desencadeado, segundo a tese perfilhada por Caldas Xavier, por "ambições pessoais" e por acções sediciosas da "maçonaria anti-clerical e anti-patriótica". Há boas razões para crer que essa dramatização forneceu o pretexto para amordaçar a opinião, eliminar o que se suspeitava serem veleidades autonomistas e afastar da Administração Pública os adversários políticos, estendendo e consolidando assim o poder do novo regime no espaço do "império colonial". Os acontecimentos relatados permitem ainda observar uma certa clivagem que se teria registado na época: as profissões liberais, os funcionários e os trabalhadores dos caminhos de ferro tomaram o partido da rebelião contra o Alto Comissário e, indirectamente, contra Lisboa. Pelo contrário, os empresários parecem ter ficado muito mais divididos. O presidente da Associação Comercial e industrial de Luanda (que incluía também os proprietários 22 A obsessão de Salazar pelo equilíbrio financeiro de cada uma das colónias, que mereceu críticas de vários dos seus contemporâneos, como Henrique Galvão ou Cunha Leal, teve consequências ruinosas no desenvolvimento posterior dos territórios africanos. Page 14 14 agrícolas) solidarizou-se com o Alto Comissário e denunciou a rebelião como uma "traição" em relação à metrópole, o que lhe valeu ser posto na cadeia pelo coronel Genipro Almeida. É difícil saber, com exactidão, até que ponto a posição assumida pelo presidente da Associação Comercial e Industrial era representativa da classe patronal.

Mas a história dos anos anteriores, sobretudo durante o governo de Norton de Matos, mostra que este grupo era pelo menos pouco sensível à perspectiva de um crescimento de tipo capitalista, se o entendermos como um processo de reformas em que os factores económicos e sociais de liberalização são interdependentes. Não será excessivo deduzir daqui, que proprietários agrícolas, comerciantes e industriais, queriam, antes de mais, continuar a beneficiar da "renda de situação" oferecida por uma mão-de-obra africana praticamente gratuita, manter-se ao abrigo da concorrência internacional graças ao sistema alfandegário vigente, e continuar ao abrigo das acusações que lhe eram feitas em certas instâncias internacionais, segundo as quais aplicavam ainda na colónia, em pleno século XX, um sistema de trabalho retrógrado bastante semelhante, em muitos dos seus aspectos, ao trabalho escravo 23 . Esse grupo constituía o núcleo duro do que chamámos a "burguesia colonial", e era em muitos casos herdeiro dos antigos patrões do tráfico de escravos e dos que tinham construído os seus haveres sobre os alicerces de uma economia mercantilista fortemente impregnada de "feodalidade", por assim dizer. Não foi certamente por acaso que, desde 1820, a fracção do poder económico dessa burguesia colonial em Angola e em Moçambique, sempre se bateu contra todas as reformas decretadas por corajosos ministros liberais do século XIX, como Sá da Bandeira e Andrade Corvo, da mesma maneira que procurou (e conseguiu) abater politicamente Norton de Matos e mesmo Vicente Ferreira, apesar das tentativas de reforma deste último serem bastante 23 A literatura sobre esse problema é abundante.

O nosso livro O Império Português entre o Real e o Imaginário, op. cit., procura fazer o ponto da situação. Mas, para além dos maus tratamentos infligidos aos homens, há outros elementos que explicam a má situação dos africanos. Entre eles um sistema fiscal particularmente duro que estava no origem da fuga para o Congo Belga (hoje Zaire) e para o Sudoeste Africano (hoje Namíbia) de centenas de milhar de angolanos. Cunha Leal escrevia, a esse propósito, que os africanos deviam trabalhar de três meses e meio a quatro meses e meio por ano só para pagar os seus impostos directos. Calculou também que para pagar esses mesmos impostos, os agricultores africanos (trabalhando por conta própria) deviam vender de 400 a 520 quilos de milho da sua produção. Vê-se assim, escreve Cunha Leal, quanto "é excessivo, verdadeiramente imsuportável, o sacrifício fiscal que se exige hoje ao negro". E acrescenta: "Os resultados da actual política fiscal são de tal maneira evidentes que só os cegos como o Dr. Oliveira Salazar não conseguem ver: o negro das regiões fronteiriças emigra em massa" (Cf. Cunha Leal, Oliveira Salazar, Filomeno da Câmara e o Império Colonial Português, Lisboa, 1930, p. 33. Page 15 15 tímidas. Não é, pois, motivo de admiração ver o Presidente da Associação Comercial e Industrial de Luanda aliar-se ao Alto Comissário Filomeno da Câmara e ao governo integrista português. *

A política colonial portuguesa foi, durante o século XIX, grandemente determinada pela luta entre liberais e mercantilistas. Estes últimos tiveram nas colónias, particularmente em Angola e em Moçambique, um aliado natural na burguesia colonial, mesmo se essa aliança comportava contradições e ressentimentos (por exemplo, os interesses comuns entre a burguesia colonial de Angola e a burguesia do Brasil, as duas associadas no tráfico de escravos do século XIX, manifestaram-se frequentemente em prejuízo da burguesia mercantil de Portugal). A partir de 1890 a batalha dos liberais estava definitivamente perdida em Portugal. Esse facto iria condicionar decisivamente todo o período subsequente, tanto em Portugal como nas suas colónias africanas. Cremos que é a luz desse facto que deve ser reavaliada uma estratégia que, fechando Portugal e cortando-o dos desafios e estímulos que resultariam da sua inserção no espaço europeu e mundial, determinou o seu atraso e condenou os actores, portugueses a africanos, à mediocridade do subdesenvolvimento. O mercantilismo vitorioso dominou as sociedades portuguesa e africana e perdurou muito para além da 2ª guerra mundial, praticamente até aos anos 1960. Só foi abalado em dois momentos: por Norton de Matos nos anos 20; e por outro governante, Jorge Eduardo da Costa Oliveira, "Secretário Provincial da Economia" de Angola entre 1964 e 1973, que retomou, em parte, a obra do primeiro. Sujeito também a condicionalismos, nomeadamente políticos, este beneficiou todavia de um contexto relativamente mais favorável. É após os anos 60 que se fazem mais sentir as repercussões políticas, nacionais e internacionais, da acção dos nacionalistas africanos em quase todos os territórios sob domínio português. As novas circunstâncias impuzeram finalmente a execução das reformas adiadas por Page 16 16 quase quarente anos de salazarismo. Mas foi a competência e a lucidez de J.E. da Costa Oliveira que as tornaram possíveis em Angola, ao recuperar em marchas forçadas, por assim dizer, até ao início de 1973, muito do atraso acumulado nas décadas precedentes. Foi só nesse período que a situação económica começou realmente a mudar. O turbilhão da revolução democrática em Portugal em 1974, e das independências em África em 1975, atirou para a poeira dos arquivos tradições e preconceitos ultrapassados, mas também fez desmoronar realizações alcançadas e sonhos que, porventura, teria valido a pena prosseguir. Mas a responsabilidade desse fracasso cabe exclusivamente à imprevisão e arrogância com que, no passado (com especial ênfase para o reinado salazarista), se ignoraram os protestos de africanos e de não poucos portugueses, e se geriram desastrosamente os destinos do espaço de língua oficial portuguesa. Matéria tão recente já não cabe neste artigo.

Recorde-se apenas que um melhor conhecimento das relações entre colonizadores e colonizados (hoje, felizmente, ex- colonizadores e ex-colonizados) continua a ser essencial, na medida em que muitas ideias e/ou preconceitos contemporâneos precisam ainda de ser esclarecidos ou re-equacionados sem a carga emotiva que lhes está inerente. Uma revisão da história colonial portuguesa, levada a cabo com rigor, ajudaria certamente a explicar o presente de maneira bem mais construtiva e útil do que certas retóricas em voga, na Europa ou em África..

Page 1 ANGOLA: CONFLITOS POLÍTICOS E SISTEMA SOCIAL (1928-30) 1 Adelino Torres


Adelino Torres (texto completo AQUI)

Missionários no Sul de Angola




























































1. Missão Huila e Iemão de S. José
2. Missão do Tschivinguiro

3. e 4. Missão da Huíla
5. Banda de música da Missão da Huila
(Papéis do Império Português) -

Os Padres Espiritanos no Sul de Angola (Séc. XIX)

"(...) Além do importante reforço dos Bóeres e dos Madeirenses, o avanço português nos espaços meridionais pôde ainda contar com o auxílio de outros aliados, que vimos chegar recentemente ao planalto: os padres católicos da Congregação do Espírito Santo. Em alguns aspectos, a conduta destes homens de fé e coragem faz lembrar a dos antigos religiosos do Congo e do Ndongo. Mas a sua acção revela-se em geral mais desprendida, virtuosa e duradoura do que a desses remotos evangeli­zadores do Norte...

No Sul de Angola, a história dos espiritanos, quase todos oriundos de França, constitui um impressionante rosário de alegrias missionárias, aventuras ro­cambolescas e martírios excruciantes. A homens como Duparquet, Antunes, Schaller, Lecomte, Delpuech, Génié, Keiling e tantos outros, ficaram os Portugueses a dever notáveis serviços e, vez por outra, a suprema dádiva da pró­pria vida..

Os missionários formavam a vanguarda piedosa e conciliadora de que eles careciam para melhor se infiltrarem. Quando, nos primeiros anos da década de oitenta, as autoridades lusas ainda se satisfaziam com manter no Humbe a guarda avançada da progressão para leste, já os padres haviam ousado cruzar o Cunene, pisando os trilhos dos sertanejos. Em 1883 andavam pelos domínios dos Ganguelas, entre o Cunene e o Cubango, mantendo uma missão em Caquele, um pouco abaixo de Cassinga. Mais para sul, tinham-se instalado em Cauva, entre os Cuanhamas, nas ime­diações da residência do soba Namadi (...)..(...)

Os padres puderam assim lançar-se pelos ser­tões com convicção e destemor, levando com eles as palavras da sua fé e o segredo mágico do apaziguamento. Às vezes passavam por aflições, como no dia em que o padre Antunes, da Huíla, requereu do soba que enviasse os seus súbditos à missa. O chefe africano anuiu com presteza. Desta forma, meia centena de muílas presencia­ram a ce­lebração num silêncio de tal forma reverente, que o missionário se imagi­nou di­ante do venturoso prenúncio de uma conversão maciça..Quando Antunes se reco­lheu, agradecido e reconfortado, à sua modesta habitação, foi surpre­endido pela furiosa vozearia da nova assembleia de crentes. Reunidos à volta da casa, os Muílas exigi­am aos berros o pagamento dos seus trabalhos. O padre caiu das nu­vens: Pagamento? Pagamento de quê? Os manifestantes vibraram de indig­nação com tamanha desfaçatez: Pagamento de estar na igreja! Antunes procurou tornear a questão, mas a gritaria subiu de tom. E não houve maneira de convencer os inter­lo­cutores de que ouvir missa fosse, sob o ponto de vista da retribuição, uma activi­dade diferente de carregar tipóia ou uma gamela de cera. Contristado, o espiri­tano lá acabou por liquidar a dívida, remoendo, decerto, em como eram às ve­zes inesperados e pedregosos os atalhos escolhidos pelo Senhor..Não obstante certos mal-entendidos, a recepção dispensada aos padres nos povoados caracterizava-se, de ordinário, pela hospitalidade. A maioria dos africa­nos acostumou-se a vê-los como seres inofensivos, animados de inten­ções benévo­las.


Nos finais de 1884, assim que o padre Joaquim Folga lhe falou de baptismo, Dumba, soba ovimbundo do Galangue, asseverou-lhe que não pensava noutra coisa. O soba, esmeradamente ataviado à europeia - calçado, engravatado e de chapéu -, estava num dos seus dias de bom humor, disposto a contentar o padre. Começou por elo­giar-lhe a cor e o tamanho das barbas emaranhadas. Folga, penho­rado, retri­buiu, passando ao de leve a palma da mão pela face do poderoso anfi­trião. Os ovimbun­dos presentes bradaram que esse gesto constituía uma inconveni­ência. Dumba apressou-se a deitar água na fervura, pedindo-lhes que deixassem em paz o missio­nário - um bom sujeito, na sua opinião, embora ignorante dos costumes do povo. Tornando ao tema do baptismo, o soba esclareceu que existiam bons ante­ce­dentes a esse respeito: o seu pai e um tio haviam recebido o santo sacramento. O tio dava mesmo pela emproada identificação portuguesa de Joaquim Carvalho das Chagas. Podia, pois, avançar-se por idêntico caminho, mas só depois de satisfeitas algumas condições.

Ele exigia em primeiro lugar uma patente militar com a farda cor­respondente. A farda deveria ser agaloada a ouro e dela fariam parte um chapéu armado e sapatos. Por outro lado, o baptismo teria lugar na presença de quatro sol­dados e um corneta - isto é, um clarim - do Exército Português, tal como acontecera com seu pai. O soba concedia com amabilidade que se lhe fossem baptizando os filhos, enquanto o missionário não estivesse em situação de pre­encher os re­quisi­tos. Tudo parecia decorrer a contento. Durante os preparativos, porém, o padre notou uma estranha restolhada: associando-se à alegria geral, o soba aprestava-se para sacrificar as vidas de alguns homens em honra dos novos cris­tãos. Folga ad­moestou-o com veemência e recorreu ao mais persuasivo dos ar­gu­mentos: se Dumba teimasse naquela barbaridade, jamais lhe seria ministrado o baptismo. Impressionado, o soba deixou cair uma promessa solene: Eu não farei mais mor­tes..

Os padres maravilhavam-se vezes sem conta com o apuro espiritual dos po­tenciais discípulos africanos. Na Huíla, devotaram-se durante largo tempo a reco­lher os dizeres amealhados na memória do povo. Para sua grande admiração, reuni­ram mais de quinhentas máximas que pressupunham a crença em Deus e no valor dos bons princípios, tal como os entendiam os cristãos:Eles crêem numa eternidade, feliz ou infeliz; os seus provérbios recomen­dam as virtudes morais e condenam os vícios, o egoísmo, a presunção, a cobi­ça, o ócio, a maledicência, a mentira, a cólera, a hipocrisia, a ingratidão, a inconstância (...). Este conjunto de crenças é um magnífico ponto de partida para levantar o espírito desta gente às verdades superiores da revelação cris­tã..


No Sul de Angola, alguns espiritanos tomados pelo anseio da comunhão huma­na abandonavam voluntariamente a pacatez bucólica das missões para se mistura­rem com os habitantes dos aldeamentos perdidos no mato. Isso sucedeu, por exem­plo, com o padre Inácio dos Santos, que resolveu passar uma temporada entre os muílas de Mucuma, a meia dúzia de quilómetros do Jau. O missionário deixou des­ses dias uma narração saudosa, impregnada de melancólica jovialidade..

Acolhido com des­confiada curiosidade por dezenas de homens armados de espingardas, fez saber ao chefe que apenas pretendia travar conhecimento com o povo. Acrescentou que não era um homem mau, que nunca fizera guerra aos pretos e que jamais lhes rouba­ra gado. Logo se viu adoptado pelos habitantes do eumbo: Eu era já tratado como uma pessoa de família, entrava e saía sem o menor reparo, os cães já me conhe­ciam e calavam o bico quando eu passava..

Generosos, os Muílas forneceram-lhe alojamento gratuito, deram-lhe a comer do seu pirão e da carne das suas capoeiras e serviram-lhe berlunga para regar as refeições: Nunca ali se comia nem bebia coisa nenhuma sem que todos comessem e bebessem ao mesmo tempo, e era aos velhos a quem primeiro se oferecia. Sobressaem nas memórias do padre as sosse­gadas palestras que ele entretinha com o povo, já noite caída, depois da ceia:.

Era para mim o bocadinho de maior interesse; todos os pretos se achavam juntos no pequeno pátio da minha casa, a vela de estearina, enterrada no chão, bruxuleava uma luz pálida, que ainda assim arrancava reflexos aos narizes mais lustrosos dos assistentes; por cima o céu e as estrelas, e a natureza contem­plando silenci­osa aquela reunião de família em que eu era feliz. Inácio discorria perante a as­sembleia sobre as maravilhas da sua terra natal e da sua cultura: Quis-lhes de­monstrar que era a Terra que andava e não o Sol, o que pouco os interes­sou; contei-lhes a maior parte das invenções dos brancos, máquinas a vapor e eléc­tricas, telégrafos e aeróstatos, canhões e navios, e as minhas narrações eram in­terrompidas por muitos apartes e sempre terminavam pela admiração final - "o branco é um grande bicho!".

Os muílas de Mucuma, por seu turno, partilharam com o missionário os pequenos e os grandes segredos do seu manso quotidiano. Explicaram-lhe por que têm os negros o nariz achatado e elucidaram-no sobre os motivos que impedem as galinhas de pôr ovos em certa época do ano. Maliciosos, asseveraram-lhe que há muito tinham desvendado o mistério das longas e sedosas barbas dos brancos - eles comiam bem e bebiam melhor..A maior das confidências referiu-se contudo ao modo como obtinham chuva para os campos. A água tom­bava a mando do soba do Jau, que era todavia intratável quanto ao preço dos seus servi­ços: Já este ano lhe tinham mandado dois bois, mas ainda não chegava, porque ele queria mais uma vaca e uma criança, e por isso é que a chuva não viera até agora; dar-lhe-iam o que queria, isto é, a vaca e a criança, mas se desta vez não a mandasse, saltar-lhe-iam no pêlo e em seu lugar haviam de pôr outro que lhes desse a chuva mais barata e a horas..

No momento da despedida, Inácio dos Santos pôde avaliar como se tornara benquisto em Mucuma: Nessa noite disse-lhes que partiria no dia seguinte pela manhã, e mostraram ares de tristeza; agradeci-lhes o modo cordial e amigo com que me haviam tratado, e eles exigi­ram que lhes dissesse formalmente que não me ia embora por estar mal contente; disse-lhes, e todos ficaram satisfeitos.


Os Muílas despediram-se do padre entoan­do os seus cânticos. Quando Inácio se voltou para trás e lhes disse adeus, eles res­ponde­ram em coro: Vai em paz!.O padre Manuel Braz, da missão do Tchivinguiro, próxima do Lubango, no Sul de Angola, granjeou o seu prestígio junto dos Muílas mercê de uma extraordinária aventura. Sabedor de que a légua e meia da missão existia uma caverna enfeitiçada muito temida pelo povo - na qual ninguém havia penetrado até então -, meteu-se certa manhã com três companheiros a caminho do local, resolvido a decifrar o mistério. Sentindo-se em paz consigo e com o mundo, levava o coração repleto de fé e poesia: A esta hora do dia a terra africana ostentava o aspecto encantador do sempre suspirado paraíso terrestre.

No monte da caverna, rodeado de uma cintura de penhascos cortados a pique, um pastor muíla procurou atalhar-lhe o passo: Se lá quiseres entrar, sabe que não tornarás a sair; o mundo morrerá para ti; e tu morrerás para o mundo. Mas neste missionário de transbordante sensibilidade habitava também o espírito de um explorador arrojado. Correndo embo­ra o risco de se transformar em morto-vivo de um instante para o outro, Braz acer­cou-se da boca da caverna: Era escura como um templo gótico, medonha como um sepulcro. Alguns raios de luz que lá penetravam com dificuldade eram tão pálidos, tão tristes, que não davam mais claridade do que a que pode dar uma lâmpada de igreja numa noite sem lua. O padre deslizou pelas penedias es­carpa­das, eriçadas de estalactites e estalagmites. Quando assentou os pés no fundo, envolvido numa luminosidade mortiça, entreviu uma gigantesca nave circular, orla­da de ni­chos e galerias. Os nervos deste audacioso sofreram uma provação terrível, assim que meteu pelo negrume de um túnel:.Em breve me achei rodeado de densas trevas e ouvia um estalar sinistro a cada passo que dava; neste momento arrepiaram-se-me os cabelos e já não ousava ir mais adiante; lembrei-me de acender um archotezinho que comigo levava. Mas, oh!, qual não foi o meu espanto quando à luz do archote vi cla­ramente debaixo de meus pés um montão de ossos humanos, todo o chão da­quele tenebroso subterrâneo juncado de cadáveres mirrados, descarnados!... Era medonho! Respirava-se um ar fétido e nauseabundo - o ar das podridões sepulcrais! Rodeado de um silêncio cheio de medos, sepultado vivo, por assim dizer, naquele jazigo imenso, os olhos fitos sobre tantos cadáveres e tantos ossos, parecia-me estar vendo através dos clarões pálidos do archote as tris­tes páginas da história deste grande povo africano, escravo de todos os po­vos..

O missionário deixou com celeridade aquele antro sinistro, provavelmente um antigo lugar de execuções. Reuniu contudo o sangue-frio bastante para transportar consigo, como provas da façanha, um crânio e um pedaço de estalactite. O resul­tado excedeu as suas melhores expectativas. Fora da caverna, viu-se jubilosamente acolhido pelos companheiros da missão e pelo povo dos eumbos vizinhos: Uns nos aclamavam como heróis, outros como filhos do Sol, estes nos chamavam feiticei­ros brancos, aqueles descendentes dos deuses.Aos imprudentes que ousaram du­vidar, reservou o padre um tratamento de choque, exibindo-lhes, com brusquidão e alguma impiedade, a caveira e a estalactite: Ficaram tão horrorizados (...) que se puseram logo na perna e desapareceram num instante, como por encanto. Com a reputação assegurada e o campo livre de cepticismos inoportunos, pôde o missio­nário tratar, com sossego e autoridade, das coisas da fé: Escutaram tudo quanto lhes disse com silencioso respeito..O luto e os espinhos do martírio abatiam-se por vezes sobre esses padres volun­tariosos. Nas terras dos Ganguelas, perto de Cassinga, apagou-se em 1884, abrasa­do de febres, o padre Hogan. Um seu compa­nheiro, o pa­dre Lynch, igualmente de­vorado pela doença, apenas lhe sobreviveu um mês. Mas a ocorrência mais trágica deu-se em Cauva, no Cuanhama, onde o jovem soba Namadi anuíra à instalação dos espiritanos.


Esta terra, a oriente do curso médio do Cunene, mantinha-se interdita à construção de bases militares dos brancos, mas era percor­rida por sertanejos e ca­çadores. Namadi, detentor do poder desde 1882, ficou re­cordado como um sobera­no desejoso de modernizar o Cuanhama. Acumulava num armazém os tesouros que obtinha dos comerciantes estrangeiros: embalagens de munições, ancoretas de aguardente, cai­xas de vinho e conhaque, enlatados diversos, vestuário, livros e, até, uma grafonola comprada a um português por vinte bois. Vestia com frequência à europeia, era bom cavaleiro e atirador exímio. Passeava-se pela terra empunhando a sua arma de repetição, uma Winchester. Dele se esboça em várias fontes o retrato de um tirano, o que parece confirmado pelas lembranças do povo. Amabilíssimo para com os brancos, exercia um mando desapiedado sobre os súbditos. É prová­vel que a inti­midade com os estrangeiros fosse julgada exces­siva pela nobreza do país, devendo residir aí a chave do seu triste destino.

.O padre Duparquet, perspicaz como sempre, estava longe de sentir-se tranquilo com as duas faces de Namadi. Um dia teve uma espécie de premonição e planeou transferir a missão para locais mais seguros. Não agiu, todavia, a tempo, e, durante uma das suas ausências, os espiritanos da missão viram-se enredados nas malhas do que parece ter constituído uma hábil conspiração para assassinar o soba cua­nhama.

Nos primeiros dias de Junho de 1885, este deslocou-se em visita de corte­sia ao carro de Jordan, o comerciante inglês. De excelente humor, Namadi comeu, bebeu e tagarelou algum tempo com os brancos. Quando se retirou, deteve-se por instantes numa cubata vizinha, onde lhe serviram omalodo, espécie de cerve­ja confeccionada com sorgo grelado. A caminho de casa, já muito indisposto, con­fi­denciou a um irmão: Vamos, depressa, porque sinto cólicas horríveis. Pouco de­pois, os missionários recebiam um pedido de auxílio do soba. Em torno da resi­dência deste, porém, acabara de fechar-se um círculo enigmático e intransponível. Às insistências dos padres retorquiam os guardas com evasivas e contradições: O soba dorme neste momento, ou: ele não está em casa..Por detrás do entrançado de espinheiros e das sólidas paliçadas que protegiam a habitação, algures, no típico labirinto das residências cuanhamas, Namadi, decerto isolado pelos conspiradores, agonizava. Dois dias mais tarde, expirou. É possível que os assassinos tenham nessa altura jogado com a crença cuanhama de que para cada morte humana existe sempre um culpado terreno, ainda que regido por qualquer espírito extraviado. Dedos acusadores viraram-se então, na sombra, contra os que menos razões teriam para suprimir Namadi: os brancos..

A 6 de Junho, instigados à vingança, grupos de cuanhamas tomaram de assalto os raros estabelecimentos comerci­ais, mas os pro­prietários conseguiram escapar-se para o Humbe, do outro lado do Cunene. Um ir­mão espiritano, Lúcio Rothan, morreu varado por uma bala. O padre Delpuech tombou logo de seguida, atingido por uma zagaia. As instalações da mis­são foram invadidas e saqueadas. O irmão Gerardo, despido e maltratado, evadiu-se por mi­lagre, sumindo-se num bosque das cercanias. Quando mais tarde se apre­sentou ao novo soba - Weyulu, um amável adolescente de quinze anos -, ouviu deste uma sentida expressão de pesar. O jovem mandou fornecer-lhe roupas e um cavalo e deixou que ele partisse para o Humbe com as crianças nativas protegidas da mis­são. Após a tragédia, um dos mais notáveis espiritanos, o padre Lecomte, desaba­faria com amargo sentido das realidades: Morrer em África, levado por uma fe­bre, mordido por uma serpente, esgotado por longos anos de trabalhos ou mas­sacrado numa revolução, o que é isto senão ser mártir? (...)"

..(José Bento Duarte - Senhores do Sol e do Vento - Histórias Verídicas de Portugueses, Angolanos e Outros Africanos- Editorial Estampa - Lisboa - 1999).
http://booksnow1.scholarsportal.info/ebooks/oca9/13/civilizandoangol00brag/civilizandoangol00brag_djvu.txt