sexta-feira, 14 de agosto de 2009

AS RAZÕES DE VICENTE FERREIRA



Nova Lisboa — Capital de Angola
por:
Leonel Cosme
Quem viveu muitos anos nas ex-colónias portuguesas não estranha que o contacto com as terras e os povos tenha produzido, mesmo em altos fun-cionários do Estado que cumpriam efémeras comissões de serviço (normal-mente de dois anos), uma consciência da realidade que, em muitos casos, conflituava com os estereótipos formados pela visão das colónias como feitorias, não exigindo grandes empenhamentos nem dispêndios: até houve quem propusesse a sua venda ao estrangeiro...
O exemplo mais construtivo das “correcções” à política colonial foi seguramente o de Norton de Matos, que conseguiu, no seu segundo mandato, em 1921-1923, já com o título de Alto Comissário, ampliar os poderes que eram atribuídos aos governadores-gerais, a cujas “ousadias” o Governo Cen-tral fazia orelhas moucas. É o caso das “pretensões” sobre o desenvolvi-mento do ensino público formuladas por “africanistas” como Custódio Borja, Alves Roçadas, Jaime de Morais, João de Almeida ou Massano de Amorim, na linha aliás preconizada anteriormente pelo ministro do Ultramar Rebelo da Silva. Neste contexto, o mais “rebelde”, Filomeno da Câmara, ousou mesmo criar, em 1919, à revelia do Poder Central, o Liceu de Luanda e duas Escolas Primárias Superiores, em Sá da Bandeira e Moçâmedes, que seriam regulamentadas, três anos depois, por Norton de Matos.
A última “ousadia” foi a do governador Venâncio Deslandes, ao criar, em 1962, os Estudos Gerais Universitários, que Salazar se viu “compelido” a ra-tificar no ano seguinte (já sopravam os “ventos da mudança”), mas em con-sequência do que foram demitidos o Governador-Geral de Angola e o Minis-tro do Ultramar, Adriano Moreira...
No seu primeiro mandato (1912-1915), depois de ter passado pela Índia, Norton “aprendeu” que Angola não podia continuar a ser encarada como “feitoria” ou “colónia penal” para onde a Metrópole escoava condenados e aventureiros, mas um espaço onde teriam lugar os portugueses ambiciosos e empreendedores que, não “cabendo” já no Brasil independente, seriam os agentes do projecto “avançado” (mercantilista) que ele tinha para o Ultramar. De imediato, reconhecendo que era imperioso dilatar as vistas da Angola histórica, litorânea, para o interior inexplorado, começou por fundar, logo em 1912, o burgo do Huambo, que a partir de 1928, no governo do Alto Co-missário Vicente Ferreira, se chamou Nova Lisboa.
A Metrópole ouviu Norton de Matos, pelo menos durante o ano em que, saído de Angola, foi Ministro das Colónias, donde transitou para o Minis-tério da Guerra. Quando António Vicente Ferreira, em 1923, sucedeu a Nor-ton no Ministério das Colónias e em 1926-1928 no governo de Angola, já a semente deixada por Norton estava em plena germinação: ainda em 1928, Vicente Ferreira defende que a capital de Angola deveria ser transferida para Nova Lisboa, ideia que, no distante Terreiro do Paço, teria soado como uma fantasia de africanista enfeitiçado pela magia dos trópicos... Mas em 1933, já na vigência do Governo de Salazar, ainda reitera:
(...) Todas as considerações de ordem climatérica, sanitária, adminis-trativa, política e económica, que tornam imprópria a cidade de Luanda, para servir de capital da moderna Angola, colónia agrícola e de povoa-mento, recomendam a Nova Lisboa para esse efeito. E porque, em maté-ria de colonização moderna — talvez mais do que em outras obras huma-nas, as oportunidades mal surgem para logo desaparecerem, supomos que acertadamente andariam os homens de governo, se, aproveitando a razão favorável, lançassem com energia os fundamentos da grande obra de colonização de Angola: o povoamento —, com o seu corolário neces-sário: — a transferência da capital. E deste asserto diremos os porquês.
E primeiro porque é asado o momento.
Temos nós, como todo o mundo, actualmente, a nossa legião dos sem-trabalho, todos os dias acrescida pelo contingente dos que são repelidos, pela crise do Brasil e doutros países de imigração. Muitos cuidados e despesa custa a assistência que só a pequeno número se presta, na Me-trópole, com trabalhos públicos e municipais adrêde inventados, e por isso nem sempre dos mais justificados pela utilidade pública. Suportam assalariados e patrões o peso do impôsto a esse fim destinado, e sendo este encargo já modesto para a maioria dos que o pagam, ele teria de ser muito maior, se a todos os sem-trabalho, como de justiça, se acudisse; e porque nem é possível agravar este impôsto, nem fácil multiplicar inde-finidamente o número de obras públicas e municipais, forçoso é lançar mão daqueles recursos extraordinários, que a necessidade sugere, a ra-zão aconselha, e a previdência dos homens de Estado sabe reconhecer e aplicar.
(...) É Angola o natural destino daquele excedente de população, que as difíceis condições do mundo, na época presente, acumulou no terri-tório da Metrópole, onde não encontra trabalho adequado nem meios de subsistência. E porque as características do mal, com as suas reper-cussões sociais, que se antevêem perigosas, e a perspectiva do seu agra-vamento futuro, exigem que o remédio não tarde; e porque outras cir-cunstâncias de ordem externa, parecem aconselhar diligências no que toca a Angola, diremos que o momento é asado. (...)
Como é sabido, Salazar não afinava pelo mesmo diapasão: aos portu-gueses que quisessem emigrar para as colónias de África era exigida uma “carta de chamada”; e para o estrangeiro, só a salto... E quanto a pensar que transferindo a sede do poder político-administrativo de Luanda para o Pla-nalto Central se criaria ali um grande pólo de desenvolvimento do interior, ninguém, que saibamos, se deixou impressionar pela “ousadia” de Juscelino Kubitschek de Oliveira, ao transferir, em 1960, a capital federal do Rio de Janeiro para o Planalto Central do Brasil...
Leonel Cosme

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Declarações de Salazar a Franco Nogueira


«Isto é só para safados.»
Salazar a Franco Nogueira, 1966




In Franco Nogueira, «Um político confessa-se (Diário 1960-1968)»


Lisboa, 29 de Agosto de 1963.

«Não há dúvida: os americanos evoluíram alguma coisa, mesmo muito», principia Salazar. «Há ano e meio, há dois anos, julgaram que uma pressão, uma ameaça, um ultimato nos fariam cair, ou pelo menos modificar a nossa política. Bem: já viram que não dava resultado, desistiram. E eles próprios vêem os seus interesses afectados, têm muitos problemas, não sabem como resolvê-los, e estão perplexos. E por isso nos mandam um emissário especial de alta categoria, sem que o tivéssemos solicitado. Muito bem. Mas que nos vem propor? Na conversa consigo e na que teve comigo, reparei que Ball usou repetidamente estas palavras: assegurar a presença, a influência e os interesses de Portugal em África. Ora que significa isto? Que está por detrás disto? Que conteúdo têm estas palavras?
A verdade é que se Angola ou Moçambique são Portugal, este não está nem deixa de estar presente: é, está. Presença, para os americanos, quer dizer outra coisa: a língua, a cultura, alguns costumes que ficassem durante algum tempo até sermos completamente escorraçados. Isto e nada, é o mesmo. E o mesmo se quer dizer com a influência e os interesses. Com isto pretendem os americanos dizer que seriam garantidos os interesses económicos da metrópole, isto é, de algumas empresas ou grandes companhias. Mas tudo isto não vale nada. Que a economia comande a política é particularmente verdadeiro quanto a África. Bem vê: quem tem o dinheiro é que empresta, quem produz é que exporta; e quem tem dinheiro e empresta, e depois não lhe pagam, é levado a emprestar mais e mais; e para garantir esses novos empréstimos é depois levado a intervir, a controlar, a dominar as posições chave. E quem produz é que exporta; mas quando lhe não pagam as exportações, reembolsa-se com a exploração do trabalho e das matérias-primas locais. E ao fazer tudo isto é evidente que expulsa a influência e os interesses económicos de outros mais fracos, que nem podem emprestar tanto, nem exportar tanto. É o neo-colonialismo. Ora, meu caro senhor, nós não poderemos comparar a força económica e financeira da metrópole com a dos Estados Unidos. E o senhor está a ver, não está? Os americanos a oferecerem empréstimos baratos e a longo prazo; os americanos a oferecerem bolsas de estudo para formar médicos, engenheiros, técnicos nos Estados Unidos; os americanos a percorrer os territórios com a propaganda dos seus produtos. Em menos de um ano, de português não havia nada. Não, meu caro senhor, uma vez quebrados os laços políticos, ficam quebrados todos os outros. Mas então, sendo Angola parte de Portugal, não podem os americanos investir e exportar? Podem, decerto, mas têm de negociar com uma soberania responsável e com um governo que sabe exigir, ao passo que se o fizerem com um governo africano, inexperiente e fraco, sai-lhes mais barato. De resto, tudo isto está demonstrado: veja a Argélia, veja o Congo. Mas, para nós, o Ultramar não é economia, e mercado, e matérias-primas, e isso os americanos não o podem entender. Bem: este é um aspecto. Mas que quer dizer Ball com os prazos? É evidente que se os americanos estivessem dispostos a aceitar que Angola seja Portugal, não falavam de prazos. Poderiam querer discutir ou negociar connosco uma qualquer construção política ou jurídica que coubesse nos seus princípios teóricos, e depois apoiar-nos-iam sem reservas. Mas não: querem um prazo. Um prazo, para quê? E que se passa findo esse prazo? E enquanto decorre esse prazo, não acontece nada? Deixamos de existir no mundo, não se fala mais de nós? E os terroristas cessam os seus ataques? Ah!, mas se os americanos podem garantir que os terroristas depõem as armas, então é porque têm autoridade sobre os terroristas, orientam-nos, estão em contacto com eles. E os terroristas depõem as armas sem mais nada? Não exigem condições, não apresentam preço, e os americanos não assumem compromissos? Quais, como, para quando? E que promessas fazem ou fariam à Organização da Unidade Africana? E como justificaria esta o seu silêncio sobre nós e a ausência de ataques contra Portugal? Não, meu caro senhor, os americanos continuam a pensar que com jeito, docemente, conseguem anestesiar-nos e impelir-nos para um plano inclinado. (…) Está claro que se aceitássemos o caminho dos americanos, em troca do Ultramar choveriam aqui os dólares, receberíamos umas tantas centenas de milhões. Ficaríamos para aí todos inundados de dólares e de graça. E sabe? Os que vierem depois de nós ainda haveriam de dizer: afinal era tudo tão fácil, não se percebe mesmo por que é que aqueles tipos não fizeram isto. Mas os dólares iam-se num instante, deixavam umas fábricas e umas pontes, e depois começava a miséria. Duraria o ouro dois ou três anos. Depois era a miséria, a miséria, a dependência do estrangeiro. E em qualquer caso é-nos defeso vender o país.»
http://www.causanacional.net/index.php?itemid=373

OS ESQUELETOS NOS ARMÁRIOS

1ª parte: os ossos do colonialismo

«Ah, se eu tivesses menos vinte anos! Que faria ? Havia de pôr os brancos contra os brancos em África, e os pretos contra os pretos, e brancos e pretos uns contra os outros e nós haveríamos de sair incólumes no meio de tudo». Frase proferida por Salazar em 1966 de acordo com o que vem exarado no livro de Franco Nogueira “Salazar O ultimo combate 1964-1970” 4ªedição ( 2000) da Companhia Editora do Minho S.A.

Nos Estados Unidos e na Inglaterra é comum usar-se a frase “ fulano tem esqueletos nos armários”. O que significa? É uma metáfora: quando uma pessoa fez no passado acções pouco dignificantes ou tem na família membros que envergonham, de tal maneira que não quer que se saiba, diz-se que “fulano tem esqueletos nos armários”.
Uma explicação para esta frase assenta em uma anedota. A netinha pergunta: avozinha, o que é um amante? Amante, resmunga a avó, lívida, pondo a mão na testa, como que a recordar-se, e disparando em direcção ao sótão com a presteza que os anos lhe permitem. Depois de se arrastar pelas escadas, entra no sótão, vai directa a um grande armário, abre uma das portas e fica petrificada: de dentro, muito hirto, como é óbvio, cai um esqueleto nu.
Em África só houve quatro países onde se registaram colonizações europeias: Argélia,Angola, Moçambique e Zimbabué (ex-Rodésia do Sul). Nestes países podemos afirmar que houve colonialismo e colonização. Nos restantes países africanos apenas houve colonialismo. Este verifica-se quando os metropolitanos não se fixam, apenas desempenham cargos de funcionalismo, sempre com o fito de um regresso. Há colonização quando os metropolitanos se fixam com carácter permanente, onde lhes nascem os filhos e onde procuram o “ultimo refúgio na velhice”. Edificam uma casa com jardim à frente e horta e pomar no quintal. Há que distinguir entre colonialismo e colonização; em Angola é fácil distingui-los.
Angola teria beneficiado imenso se em vez de descolonização tivesse havido um descolonialismo! Este,sim, acabava com o colonialismo, principal causador do atraso cultural, económico e, principalmente, social.
O sótão da história colonial portuguesa tem dois grandes armários: o do colonialismo e o da descolonização. Armários grandes com trinta esqueletos. No primeiro, o do colonialismo, jazem quinze esqueletos, todos começados por C que é a primeira letra de colónia: cidadania, contrato, centralismo, cultura, comunicações, conhecimento científico da colónia, centrifugação do capital, crédito, consumo, castigos corporais, censura, colonatos, cartas de chamada, carências de energia, e compadrios (concessões, comissões, condicionamentos e cunhas).
Erros cabeludos que persistiram até ao início do” Tempo Extra”(1961), e alguns até ao “arriar do glorioso pendão das quinas”. Erros que deixaram os quinze esqueletos que atestam as causas de todas as tragédias que viriam a seguir e que, infelizmente, perdurarão durante umas boas (ou más, se persistir o egoísmo actual dos dirigentes) dezenas de anos.
O “Tempo Extra” refere-se aos 13 anos finais do colonialismo (1961 a 1974) em que o governo metropolitano finalmente acabou com um cipoal obsoleto de leis e proibições e tentou desenvolver a colónia. Muito se fez, mas não foi o suficiente, as partes social e política falharam, estrondosamente.
Façamos, resumidamente, porque eles serão dissecados exaustivamente ao longo destas mucandas, a exumação destes esqueletos. Esta exumação é mais do que legítima, não é que se pretende exumar o esqueleto do D.Afonso Henriques primeiro rei de Portugal (século12)!

CONTINUA....
http://psitasideo.blogspot.com/2009/02/os-esqueletos-nos-armarios.html


Luiz Chinguar

Entrevista com Adriano Moreira : "Tive um poder enorme como ministro do Ultramar"

Actualmente, Adriano Moreira é presidente da Academia das Ciências de Lisboa

Actualmente, Adriano Moreira é presidente da Academia das Ciências de Lisboa Foi o todo-poderoso ministro do Ultramar. Delfim de Salazar, entrou em litígio com Marcello Caetano e conseguiu o milagre único de transitar para a democracia. (Contém versão integral da entrevista que foi publicada na edição do Expresso em banca)

Ana Soromenho e José Pedro Castanheira


Transmontano, de 86 anos, Adriano Moreira foi o único ministro de Salazar que fez uma transição tranquila para a democracia. Foi presidente do CDS, deputado e vice-presidente da Assembleia da República. No plano académico nunca deixou de exercer a tutela científica no "seu" Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP).

Recebeu-nos na Academia das Ciências de Lisboa, a que preside, e que tem marcado com um notável dinamismo. Nessa manhã, Adriano Moreira acordara às quatro da madrugada para ir ao aeroporto receber pessoalmente, cavalheiro como sempre, Graça Machel, que veio a Lisboa representar o marido, na homenagem prestada pela Academia a Nelson Mandela.

Para breve, está anunciado o lançamento do aguardado livro de memórias, A Espuma do Tempo. Memórias do Tempo de Vésperas, editado pela sua velha editora, Almedina. Esta conversa, marcada semanas antes, tinha o propósito de um balanço de vida. Mas, logo de início, Adriano Moreira avisou que a entrevista teria que se cingir às matérias do livro. De fora ficaram os dias da revolução, a ressaca que constituiu o saneamento do ISCSPU, os dois anos de exílio no Brasil, o regresso à academia e à vida política activa, a sua transformação, em suma, em grande senador. Ao longo das três horas de conversa que, por vontade dele, incidiu exclusivamente sobre o Estado Novo, o professor nunca pronunciou a palavra "ditadura".

Comecemos então pelo livro. Está prometido há mais de dez anos

Não tenho recordação de ter prometido este livro a ninguém, só tenho recordação de me terem solicitado que escrevesse um livro de memórias. Tenho sempre uma prevenção em relação a este tipo de livros. A memória é muito condescendente connosco. Tem a piedade de aligeirar as coisas. Por isso, este título: Espuma do Tempo. A essas memórias procurei ser fiel. Tive alguma dificuldade material em realizá-lo, porque não tenho documentação. A que tinha, guardava-a no Centro de Estudos do ISCSPU e durante a revolução desapareceu. Não faço ideia do que lhe aconteceu.

Foi destruída?

Estou a dizer que não sei o que lhe aconteceu. Desapareceu.

Nunca escreveu diários?

Não. Recorri a alguns apontamentos.

E aos arquivos?

Também não. Os historiadores tratarão de encontrar referências, não estou preocupado com isso. Quis escrever sobre o meu sentimento, recordação e valoração do que o meu espírito conserva.

Falou com pessoas?

Falei comigo. É da minha exclusiva responsabilidade e do meu diálogo íntimo.

Fê-lo por uma necessidade de deixar o testemunho para a história, ou por uma vontade de ser o professor a escrever a sua história?

Não foi isso. O livro começa com uma carta, que data de Abril de 1974. Nunca mais escrevi durante anos. A carta era uma mensagem para os meus filhos e foi com esta decisão íntima que resolvi continuá-la.

Escreveu à mão?

Sempre. Escrevia à máquina, mas verifiquei que muda o estilo. Já não me reconhecia quando me traziam o texto. Voltei à minha caneta. Mostra o bolso interior do casaco.

Azul ou preta?

Não faço muita questão, cores vivas é que nunca. Não tenho essa necessidade de identificação. Tira a Montblanc de aparo.

São as mesmas com que assinava os seus despachos como ministro do Ultramar?

As canetas também se perdem. Estas são as que estão agora de serviço.

Quanto tempo demorou a escrever o livro?

Fi-lo em duas etapas. Com uma interrupção de quase dez anos, não tinha pressa nem grande apego à publicação. Houve um momento em que acelerei porque vieram pedir para me fazer uma biografia.

Tenta manter o tom e a distância do observador.

É capaz de ser defeito de professor. É complicadíssimo separar participação e meditação.

Retoma o subtítulo "Tempo de Vésperas", o mesmo das crónicas que escreveu em 1971.

CONT....

http://aeiou.expresso.pt/tive-um-poder-enorme-como-ministro-do-ultramar=f459552

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

"Jornal "A Província de Angola", de 3 de Maio de 1974, página 5: Parte final do Artigo de opinião de Manuel João Tenreiro

"Jornal "A Província de Angola", de 3 de Maio de 1974, página 5: Parte final do Artigo de opinião de Manuel João Tenreiro.

O movimento triunfante das Forças Armadas, aplaudido pela esmagadora maioria do povo, veio pôr termo à mistificação política Ultramarina do extinto regime e acobertarmo-nos de um fim inglório, que se avizinhava à medida em que vinham aumentando as pressões internacionais, mesmo dos nossos aliados, que já estavam dando mostras de uma impaciência, a pressagiar piores acontecimentos.

Temos agora a grande oportunidade de formar uma verdadeira e sólida comunidade multirracial, através de instituições democráticas, que servirão de garantia à participação activa, consciente e livre de cada um de nós no Governo e Administração de Angola.

As primeiras declarações da Junta de Salvação Nacional, e, antes delas, das afirmações postas pelo general António Spínola no seu livro "Portugal e o Futuro" deixam-nos tranquilos a este respeito e cumulam-nos de motivos de regozijo ao condenarem frontalmente, tanto a orientação perfilhada pelo Governo anterior como a tese racista dos que advogam a entrega do Ultramar português, pura e simplesmente, às massas nativas, com a expulsão do homem branco.

Angola vai gozar, em breve, de autêntica autonomia política, administrativa e financeira, reservando a Metrópole segundo o pensamento do general Spínola e a linha de acção que preconiza, a nossa representação no estrangeiro, a defesa de todos os territórios e a coordenação da política monetária do espaço português.

Vamos ser chamados, deste modo, assumir responsabilidades de Governo e cumprir tarefas de salvação que, apesar da sua magnitude e transcendência, não deixarão de se realizar com inteligência, dedicação e redobrado amor por Angola.

A seu tempo nos serão confiadas estas tarefas e responsabilidades, mas mesmo antes que tal aconteça devemos permanecer firmes e unidos nos ideais que farão a nossa grandeza e salvaguardarão a dignidade nacional, lutando para assegurarmos a paz, o respeito fraternal entre as diversas etnias, a indiscriminação racial, o usufruto das riquezas da terra, sem reservas ou criminosas exclusões, o direito ao trabalho, justamente remunerado e o livre acesso aos diversos cargos e funções a que sejamos chamados a exercer pelo nosso próprio mérito e capacidade.

Não nos faltarão também cuidados, preocupações e momentos de desalento, mas isso não bastará para arrefecer os ânimos ou desviarmo-nos da linha de conduta aconselhada e que se impõe à nossa consciência de homem cristão e civilizados como o único meio de ajudar a formar a Nova Angola com que sonhamos".

retirado DAQUI

terça-feira, 21 de julho de 2009

A Descolonização Portuguesa Em Perspectiva Comparada Manuel Valentim Alexandre investigador Principal, Instituto de Ciências Sociais, Universidade de

A Descolonização Portuguesa Em Perspectiva Comparada
Manuel Valentim Alexandre investigador Principal, Instituto de Ciências Sociais,
Universidade de Lisboa


A descolonização portuguesa tem sido quase exclusivamente estudada numa perspectiva de tempo curto, privilegiando o período que vai da revolução de 25 de Abril de 1974 até à data da proclamação da independência de Angola, a 11 de Novembro dano seguinte. É bem claro, no entanto, que ela faz parte de um movimento mais vasto, de ordem global, iniciado logo após a
2.ª Guerra Mundial e, nalguns casos, com raízes mais longínquas– e que só nesse contexto pode ser plenamente analisada, nos seus pontos comuns e nas suas especificidades. Trata-se de um vasto programa, que supõe um trabalho de pesquisa em grande parte ainda por fazer. No presente texto, de carácter meramente introdutório, alinham-se apenas algumas ideias gerais, de ordem comparativa, na esperança de que possam servir de pontos de referência para uma reflexão sobre o caso português.

Os Impérios Coloniais Europeus
após a 1.ª Guerra Mundial

Por vários aspectos, o período entre os dois conflitos mundiais pode considerar-se como o ponto culminante do sistema colonial europeu. É por essa altura que ele atinge a sua máxima expressão territorial, após a ocupação efectiva das possessões africanas, concluída durante a Grande Guerra, no essencial, e a partilha das regiões do império turco do Médio Oriente pela Inglaterra e a França, determinada em 1919 pelo Tratado de Versalhes (embora sob a forma de mandatos). Para além da sua superioridade militar, que as campanhas de ocupação tinham tornado patente, a Europa prevalecia-se da força da sua economia e sobretudo do brilho da sua civilização, que – a seus olhos –sobrepujaria todas as outras. Segundo muitas das formulações doutrinárias da época, a colonização encontraria a sua justificação e a sua legitimação tanto no aproveitamento dos recursos necessários ao progresso da humanidade como na transmissão às “raças atrasadas” ou mesmo “primitivas” dos valores culturais e técnicos da “raça branca”1. Nestes termos, o domínio imperial era visto como um facto histórico natural e inquestionável, destinado a perdurar por longo tempo, com o consenso dos próprios colonizados, incapazes de se governarem a si mesmos. Essa perspectiva parecia adequar-se particularmente às realidades vividas nas possessões africanas, onde um número restrito de europeus controlava então milhões de habitantes, sem sobressaltos de maior, com recursos limitados e forças armadas muito reduzidas.
A teoria de Ronald Robinson – com a sua ênfase no uso pelas potências imperiais de grupos locais colaborantes como intermediários, sendo esse o principal mecanismo de controle sobre
o mundo não europeu2 – encontra aqui o seu terreno e a sua época de eleição (o que não exclui a existência de formas de resistência a esse mesmo controle).
No entanto, ainda nesta sua fase de apogeu, é possível discernir sinais de desajustamento na evolução do sistema colonial, com efeitos a longo prazo. Uma primeira brecha, embora ténue, resulta do peso que depois da 1.ª Guerra Mundial ganhou o princípio da autodeterminação
dos povos – peso por grande parte derivado das posições assumidas pelo presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, tendo em vista a solução das reivindicações das várias potências europeias no pós-guerra. Continua....

SALAZAR E A INDEPENDÊNCIA DE ANGOLA - UMA REVELAÇÃO INÉDITA


(DOIS E-MAILS QUE FAZEM HISTÓRIA

e
Carlos Mário Alexandrino da Silva)

DOCUMENTO Nº 01

To: Carlos Mário Alexandrino da Silva (E-mail)
Sent: Monday, September 17, 2001 12:00 PM
Subject: Salazar.doc

Meu Caro Professor e Amigo,

Como decerto sabe, se a herança de meu Pai foi parca em fidúcia e em bens materiais, não o foi em bens morais e em testemunhos de uma época em que viveu e em que trabalhou para Portugal.

A maior parte desses testemunhos me foi transmitida verbalmente, a seu tempo, e muitos deles eventualmente se esfumarão na minha memória. Outros, porém, deixou escritos e talvez um dia os mande publicar.

Entretanto um deles, por inédito, por se referir a uma independência de Angola e por ter sido por si testemunhado, merece que o transcreva e envie. Dele poderá fazer o uso que por bem entender. Gostaria, no entanto que o comentasse para mim.

Com um abraço amigo,

José Augusto Rebelo


Testemunho escrito por Fernando de Sá Viana Rebelo em 1979. Este texto insere-se num conjunto agrupado sob o título "Gente que conheci" e está intitulado "Salazar":

"Quando tomei posse do cargo de Vice-Presidente da Comissão Provincial de Angola da União Nacional, o Dr. Castro Fernandes, Presidente da Comissão Executiva da U.N. levou-me, a mim e aos restantes membros angolanos, ao Forte de S. João do Estoril, a fim de visitarmos Salazar".

Comigo, iam os Dr.s Neto de Miranda (a), Penha Gonçalves (b), Aníbal de Oliveira (c), Carlos Alexandrino da Silva (d) e Eng. Bessa Victor (e).

Entramos em uma sala modesta com uma mesa grande ao meio, em redor da qual nos sentamos. Pouco depois chegou Salazar que nos cumprimentou fitando-nos bem nos olhos, penetrantemente.

O Dr. Castro Fernandes apresentou-nos e disse que tínhamos ido ali para o cumprimentar.

Salazar, sorridente, respondeu afectuosamente e depois, um a um, perguntou o que fazíamos e quais eram os nossos propósitos.

Chegada a minha vez, deteve-se mais, dadas as múltiplas funções que desempenhava, como Vice da U.N., Vice da Associação Industrial de Angola e Representante da Companhia Mineira do Lobito.

Fiquei, então, a reconhecer o conhecimento profundo de Salazar sobre as coisa e gentes de Angola, citando nomes, funções e até números.

Em certo momento, perguntou-nos de chofre:

- Que pensam duma possível independência de Angola?

Ficamos todos calados sem saber que atitude tomar.
Salazar, curioso, fitando-nos por cima dos óculos, insistiu na pergunta.

O Dr. Castro Fernandes resolveu, então, responder por nós, porém Salazar, com um gesto, dissuadiu-o. Queria uma resposta nossa.
Em face do silêncio dos outros, comecei:

- A independência é inevitável. Angola cresce e com ela a ambição de nos governarmos sozinhos, embora ligados sempre a Portugal por laços não só afectivos e culturais como comerciais. Queremos, no entanto, uma Angola para todos, brancos, pretos e mestiços, em que não haja maioria de cores, mas maioria de idéias.

E espraei-me com entusiasmo sobre este assunto que me apaixonava, não obstante os acenos dos Dr.s Castro Fernandes e neto de Miranda para que parasse.

Salazar olhava-me impassivelmente, enquanto eu falava, e eu não sabia se estava a agradar-lhe ou não, nem, na altura me importei.

Ele perguntara e eu respondia com a minha verdade, que poderia não ser igual à sua. Quando esgotei a argumentação, fez-se um silêncio gelado e eu senti-me isolado, talvez mesmo arrependido.

Salazar falou então, pausadamente, como quem está dando uma lição:

Há bastante tempo que pensava na autonomia de Angola conducente à independência, no entanto achava que era cedo para tal se concretizar porque reconhecia que Angola e sobretudo Moçambique, que, inevitavelmente, desejaria seguir Angola, não tinham ainda uma elite capaz de, em todos os escalões, as governar, quer branca, quer preta, Havia falta de gente em quantidade e em qualidade, pois nada garantia que, entre os portugueses de Angola, todos aderissem à independência e se assim fosse essa pequena elite ficaria mais desfalcada. Por outro lado, a ONU só aceitaria uma independência com "os pretos governando" e isso poderia ser perigoso para a estabilidade da província. Assim, era preferível adiar a solução para tempos mais calmos e, quanto á guerra, não temia os resultados, pois seria ganha por quem melhor resistisse e em Portugal havia divisas necessárias para a prolongar anos e anos. Os Movimentos cansar-se-iam. O que receava era a retaguarda. Essa sim poderia ruir e então aconteceria o imprevisível, talvez o descalabro do país.

Não disse se lhe agradou, ou mesmo se concordou com a minha exposição. Ouvira e dera a sua opinião, depois da qual se despediu, acompanhando-nos amavelmente até quase ao portão de saída.

Quis tirar, conosco, uma fotografia, mas o Dr. Castro Fernandes não previra o seu desejo e não havia fotógrafo.

Tive pena de não ter um retrato com Salazar, homem que admirava e hoje depois de tanto ter visto, mais admiro."

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(a) Gustavo Neto de Miranda - julgo que ex-Juiz e, à época Presidente do Conselho de Administração da ANGOL (empresa petrolífera de Angola). Regressou a Portugal.

(b) Penha Gonçalves - brilhante advogado com escritório em Luanda. Era de origem indiana. Ainda tentou continuar em Angola. Perante a impossibilidade de uma vida tranqüila, motivada pela guerra civil, julgo que terá regressado a Portugal. Tinha uma família exemplar.

(c) Aníbal de Oliveira - se bem me lembro também era advogado, embora com pouca expressão;

(d) Carlos Alexandrino da Silva - Limitar-me-ei a dizer que era um dos homens a quem meu Pai queria bem, colocando-o no rol dos seus amigos.

(e) Bessa Victor - Engenheiro ligado às Obras Públicas (julgo que em nível de Diretor). Se bem me lembro, depois da independência de Angola, e a serviço do Governo do MPLA, assumiu a Direção de Aeronáutica Civil.


DOCUMENTO 02

To: José Augusto Fortes de Sá Viana Rebelo - Ilmo Prsidente da Câmara de Comércio Luso-Brasileira do Estado de Minas Gerais - Brasil
E-mail: Monday, September 7/2001

Meu Caro Amigo Dr. José Augusto:

Quero manifestar-lhe o meu profundo agradecimento pelo envio que se dignou fazer do conteúdo histórico, valiosíssimo, de um documento deixado pelo seu ilustre e valoroso Pai e meu maior e mais saudoso AMIGO Dr. Fernando de Sá Viana Rebelo, figura de PORTUGUÊS honradíssimo que amava acrisoladamente a Pátria que o ÉPICO cantou de forma poemática, tão nobre e expressiva, exaltando assim um dos mais gloriosos capítulos da sua história nacional.
Confesso que eu próprio já havia esquecido esse episódio do encontro que tivemos com Salazar e que deve ter ocorrido em 1965 ou 66 ( a memória está me faltando, é o fim a aproximar-se...), pelo que reconhecido lhe ficaria se, compulsando as memórias do seu finado progenitor, pudesse ajudar-me a localizar no tempo esse histórico evento em que de facto tomei parte- o que muito me honra e mais ainda a referência feita à minha pessoa, como Amigo, escrita pelo punho dessa grande figura da História de Angola na era colonial, que foi o Dr. Fernando de Sá Viana Rebelo, um autêntico Português Ultramarino, apaixonado por Angola e pelas suas gentes, que se orgulhava de sua ascendência miscigenada com forte raíz timorense. Lembro-me agora que seu Pai me avisou telefonicamente na véspera da partida para Lisboa, indicando-me o Barbosa Rodrigues ( diligente caboverdiano, chefe da secretaria da Comissão de Província da UN que trabalhava por ele e pelo "Secretário" Dr. Jerónimo da Silva Rolo, alto funcionário da Junta Provincial de Povoamento e mais tarde servidor do MPLA depois do "25 de Abril", personagem bem remunerado mas teimosamente ausentista e que era afilhado do presidente Neto Miranda de quem fora secretário quando este governara o Kuanza Sul ) para eu ir pegar o bilhete de passagem aérea da TAP. Recordo-me também, graças ao documento de que acaba de me dar notícia, dessa inusitada pergunta que Salazar nos fez e a que, a contragosto dos Drs. Castro Fernandes e Neto de Miranda, cujos semblantes e gestos se mostraram discordes, afoitamente seu Pai ousou desenvolver uma pronta e objectiva resposta, afirmativa e inequívoca, com a qual eu e o Bessa Victor, euroafricano, demos, como angolanos, pronto respaldo sorrindo-lhe com agrado e corroborando-o com meneios de cabeça antero-posteriores, em sinal de aprovação, o que parece ter escandalizado, como mais tarde eles nos fizeram sentir em críticas veladas, aos demais membros da comissão de província, nossos colegas. Felicitamos o seu Pai à saída do Forte de São João do Estoril mas o mesmo não se ouviu do Gustavo Neto de Miranda, que gostava de agradar ao então ministro do Ultramar Silva Cunha, totalmente alérgico a que se falasse em independência de Angola ou Moçambique; talvez porque em ambas essas províncias ultramarinas o seu ex-patrão (que continuava lhe enviando mensalmente, ao gabinete do MU, o cheque do pró-labore, ao portador e nunca nominal, em mãos do meu colega de curso, do ISCSPU/UTL, Dr. Eduardo Custódio Silva, chefe de secção da Companhia de Cimentos de Moçambique) Antônio Champallimaud, tinha vultosos investimentos cimenteiros, bancários, etc...
Se desejar poderei enviar-lhe uma fotografia do engº Bessa Victor que ainda conservo comigo. A respeito dessa pergunta de Salazar confesso que não me surpreendeu porque, conforme relato num dos meus trabalhos editados na secção Ecmnésia Histórica Colonial do portal www.portugal-linha.pt, três ou quatro anos antes (ou talvez em 61?), quando eu era funcionário do Gabinete dos Negócios Políticos do MU, recebi ordem do inspector superior Dr. Alexandre Ribeiro da Cunha, ex-secretário de Salazar, entre nós funcionários do GNP mais conhecido por "careca gajão", para, às pressas (estávamos na hora de almoço, que não...tivemos!), elaborar um artigo que seria publicado em editorial do jornal diário matutino O SÉCULO, de Lisboa, focalizando a crescente tendência da política ultramarina em curso para um processo progressivamente autonômico, reconhecendo-se assim, através de medidas cada vez mais liberalizantes, a inevitabilidade da independência a longo prazo, quando houvesse élites preparadas e seus povos estivessem maduros para isso, dos territórios do Ultramar, o que deveria acontecer, como se ousava sublinhar nesse "editorial", no quadro de uma ligação sentimental, política, cultural e econômica com Portugall.
Ribeiro da Cunha ordenou que a 3ª oficial Maria de Lurdes Guerra Ferreira, que era uma excelente dactilógrafa e me secretariava no gabinete de imprensa e radiodifusão nacional e estrangeira do GNP/MU, por mim chefiado, permanecesse no Ministério nesse tempo de hora do almoço pois queria que eu lhe apresentasse o pretendido texto, pronto, até às 15 horas quando ele iria pegá-lo a fim de levá-lo pessoalmente ao presidente do conselho de ministros Prof. Antonio de Oliveira Salazar, que lhe incumbira de providenciar a urgente elaboração desse artigo para, repito, publicação no dia imediato. Não me explicou a razão dessa pressa. Não pude sequer rascunhar esse texto, o tempo urgia, ditei-o de improviso, tal como fazia com a resenha semanal de imprensa e radiodifusão estrangeira (a nacional estava a cargo de um colaborador eventual, muito competente e dedicado- o Nuno Múrias, filho do Dr. Manuel Múrias - director do Diário da Manhã - que substituiu o jornalista Freitas da Costa, primo do primeiro director do GNP e SubSecretrário de Estado de Administração Ultramarina, na pasta sobraçada pelo Prof. Adriano Moreira, Dr. João da Costa Freitas); essa resenha, cuja lista de distribuição era restricta, confidencial e comentada, destinada somente aos Presidentes da República e do Conselho de Ministros e às mais altas esferas governamentais e militares, Defesa Nacional e governadores das províncias ultramarinas, ocupava cerca de 50 páginas impressas mas chegava a ter 80 a 90 páginas ciclostiladas, que a já citada funcionária ia digitando na máquina, usando uma folha de stencyl e o verniz sempre que, a cada lida por ela feita em voz alta, eu lhe introduzia correcções ou alterações. Entreguei-lhe o texto à hora já referida; ele leu-o, achou bem, não fez alterações apenas dizendo que estava conforme aos tópicos que me fornecera para eu os desenvolver; mais tarde, cerca das 18 horas (eu e a Maria de Lurdes ficávamos sempre no serviço, de 2ª a 6ª feira, até cerca das 22h30, hora a que Silva Cunha saía do seu gabinete para se recolher a casa - e entrementes poderia pedir qualquer artigo, notícia ou recorte de jornal nacional ou estrangeiro... embora jamais nos pagasse por isso horas extraordinárias) veio felicitar-me, limitando-se a destacar que o senhor presidente tinha gostado do meu trabalho. No dia seguinte, quando de manhã cheguei ao gabinete, a Maria de Lurdes Ferreira trouxe-me o jornal O SÉCULO em que, na primeira página, em espaço editorial e com título alusivo ao tema progressiva autonomia das províncias ultramarinas, focalizando sobretudo Angola e Moçambique, vinha publicado o texto que eu havia elaborado, de viva voz, na tarde anterior... Logo, afigura-se-me que existia realmente uma idéia, não declarada aos quatro ventos, desse estranho personagem que era Salazar, inspiração prudente quiçá consequente do alerta dado pelos trágicos acontecimentos de 15 de Março de 1961 no Norte de Angola, de algum dia ser esse o destino das possessões ultramarinas - a independência certamente dentro de uma união de estados lusófonos como parecia ser, presumo eu, o grande sonho do "António da Calçada da Estrela" apoiado pelo presidente do Senegal Dr. Leopold Sedar Senghor. -.

Mereciam ser publicados esse e outros documentos que fazem parte do acervo de memórias do seu nobre progenitor que tão injustiçado foi (negando-se-lhe Direitos constituídos e obrigando-o à diáspora) no termo da sua vida . Seria de esperar da figura democrática mais grada da plêiade política da nova democracia lusitana {mas não mais democrática do que o seu Pai, a quem não havia angolano -europeu, africano ou euroafricano- que, em perigo ou desempregado, não recorresse, confiante, a ele, ou a mim na sua ausência, pois eu, como vogal da comissão de província da UN/ANP e director executivo do respectivo Centro de Estudos Politicos e Sociais, que mais não era do que o oficioso órgão executivo (com um só trabalhador - eu e algumas vezes um ou outro jornalista que me procurava para colaborar) do GT do Conselho de Orientação da Acção Psicológica do GG e do CCFA de Angola, sempre lhe levava ao conhecimento (e não ao do dúplice, oportunista e preguiçoso desembargador Neto de Miranda, que nada fazia de válido ou ... inválido, todos os casos escabrosos ou difíceis, até queixas contra... a PIDE, que ele prontamente resolvia apressando-se a pedir providências ao governador-geral conforme o general Silvino Silvério Marques poderá confirmar} uma atitude nobilitante e justa - a do reconhecimento de que, embora no campo oposto, seu Pai, além de ter prestado altos serviços à sua Pátria jámais foi corrupto, nunca a denegou ou abjurou nem, como eu venho fazendo, se remeteu à crítica mordaz e acusatória mas delatora de verdades históricas inconvenientes ou que maculam a "lusa grei e suas elites" porque desiludido, maltratado pelos do antes e os do depois, e inconformado com a aceitação inconsequente e o aplauso florido de tom rubro da vil traição de alguns pela mesma grei que quatro anos antes enchera as ruas da capital portuguesa para, pesarosamente, ainda que talvez só na aparência, acompanhar com repugnante hipocrisia o funeral de Salazar nos idos de 70; essa mesma afinal inconstante e volúvel grei de que no passado, quando oficial do exército em distantes terras ultramarinas, lá nas proximidades da cordilheira dos Cathay, eu me vangloriara de ser parte integrante!...-. Mas essa(s) figura(s) democrática(s) [M.S.? C.S.?] quando estava(m) em posição de fazer Justiça permitiu(ram) que a perseguição se consumasse, não levando em conta os altos serviços prestados de cabeça erguida pelo seu Pai, ao contrário do que aconteceu com o ex-inspector-adjunto da PIDE/DGS e, depois de "25 de Abril", emigrado e alcandorado a coronel dos serviços da Intelligence sul-africana Alves Cardoso,- um dos dois Cardosos que comandaram os FLECHAS de Angola e de Moçambique- condecorado pelo governo Cavaco e Silva e contemplado com uma pensão de reforma vitalícia pelos também altos serviços prestados, à frente das milícias paramilitares FLECHAS, à Pátria Portuguesa...-. Altos serviços à Pátria Portuguesa, que bem vistas as coisas não apenas o dito Alves Cardoso, ex-capitão ou major miliciano com amizades entre os capitães de Abril, teria prestado mas também alguns outros, dentre os quais sobressaía, com destaque, o seu honrado Pai, que foi incluso numa lista de cento e muitos nomes, publicada nos jornais pela comissão de extinção da PIDE/DGS e de organizações ditas "fascistas" segundo um critério muito arbitrário!, atingindo personalidades que não tinham cometido crtimes contra a humanidade ou de lesa-pátria, e que foram privadas de direitos políticos em 8 de Fevereiro de 1975. Um acto injusto, anti-democrático, doentio e persecutório. Uma vileza do dementado primeiro-ministro cripto(?!)-comunista, fâmulo de Álvaro Cunhal e do seu estalinista PCP pró-soviético, Vasco Gonçalves, revolucionariamente promovido a "general"... que se não fora uma tomada de consciência de alguns oficiais da FA e a prointa actuação do embaixador norte-americano Frank Carlucci (depois...director da CIA) teria levado Portugal para a órbita soviética... Essa clamorosa injustiça foi abafada pelas proclamadas "amplas liberdades democráticas" pós-abrilistas e continua atingindo a memória de seu ilustre progenitor porque, após seu passamento, afecta a situação econômica da sua Exma Mãe.

Com um abraço muito Amigo e grato,
Carlos Mário Alexandrino da Silva

Carlos Mário Alexandrino da Silva
in Portugal em Linha - Comunidade Lisófona

quinta-feira, 4 de junho de 2009

GILBERTO FREYRE E OS “CÃES DE GUARDA” DE SALAZAR:


A TRAJETÓRIA DO LUSOTROPICALISMO NAS PRÁTICAS INSTITUCIONAIS DOS IDEÓLOGOS DO COLONIALISMO PORTUGUÊS

NAS DÉCADAS DE 1940 - 1960

João Alberto da Costa Pinto (Universidade Federal de Goiás/Doutorando em História na UFF)

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o Estado português procura uma nova definição estatutária para a caracterização de suas colônias espalhadas pela África e pela Ásia. Salazar sabia que se não tomasse providências urgentes naquele momento de redefinição do desenho geopolítico internacional, os espaços coloniais portugueses poder-se-iam encontrar em situação dramática diante das novas concepções liberalizantes (1) dos autonomismos nacionalistas, que formuladas na década de 1940 se consumariam pela década de 1950, estendendo-se até fins da década de 1960.

Salazar, no poder desde 1926, instituíra práticas de Estado para um novo Império. O velho Império das “glórias” camonianas dos séculos 16 e 17, era revivido anacronicamente em pleno século 20 pela gestão salazarista do novo Império. O novo Império procurou também a sua essência nas práticas “civilizadoras” da velha conquista colonial. Não buscou novas colônias, mas sim colonizar efetivamente aquelas que já lhe pertenciam há séculos. A marca emblemática de tais práticas aparece em 1930 como apêndice da Carta Constitucional, trata-se do Acto Colonial. Nesse documento sumariavam-se os conceitos e os gestos institucionais do Estado português com as suas colônias. O Império e suas Colônias. Assim Salazar institucionalizava, na década de 1920 e ao longo das décadas seguintes, a grandeza “sofística” do Império Português. Através de práticas de concessão (no jogo diplomático, sujeitando-se a interesses geopolíticos da Inglaterra e dos EUA), Salazar conseguirá manter ao longo da Segunda Grande Guerra, incólumes, as fronteiras do Império. E, diante dos novos tempos, que o pós-guerra estava a impôr ao mundo, Salazar, via-se na contingência de mudar. Mudar para que tudo ficasse como estava. CONTINUA...

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Tentativas para o alojamento dos judeus em Angola.

AS TENTATIVAS DE UMA POSSÍVEL
COLONIZAÇÃO EM ANGOLA

TENTATIVAS
O FRACASSO DA COLONIZAÇÃO EM ANGOLA

TENTATIVAS DE COLONIZAÇÃO

Houve muitas tentativas para o alojamento dos judeus em Angola. A primeira tentativa foi de W. Terlo, um enólogo israelita que no dia 15 de Junho de 1912 conseguiu que fosse aprovado por unanimidade no Parlamento português um projecto-lei chamado "Projecto Bravo". Este projecto previa uma colonização de uma área de 45000 Km2 no planalto de Benguela. Depois de ter sido aprovado no Parlamento o "Projecto Bravo" tinha que ser integrado na Constituição.

Mas a Jewish Territorial Organisation (ITO), uma organização israelita que se dedicava principalmente à procura de um refúgio para o povo judeu em qualquer parte do mundo, recusou o "Projecto Bravo" que foi apresentado em Viena (27 a 30 de Junho de 1912).

A ITO considerava as concessões feitas pelo governo português insuficientes. Criticava as condições económicas que limitavam as concessões de terrenos a colonos individuais, que retiravam desta forma investimentos de empresas ou sociedades de colonização. Exigia também que houvesse uma área para formar uma "nova pátria judaica".

O projecto Bravo designado mais tarde por "200 B" apresentava no primeiro artigo que os colonos deviam-se tornar portugueses para usufruir dos terrenos. Para além disso exigia também o uso exclusivo nas escolas publicas de ensino elementar e como toda a correspondência respeitante aos serviços públicos.

A ITO organizou uma expedição sobre a orientação de um cientista inglês J. W. Gregory aos terrenos em Angola. Depois de percorrer 3000 milhas quadradas, concluiu que era muito difícil colonizar.

Em 20 de Janeiro de 1934 existiu uma nova tentativa para colonizar Angola. Passado um ano depois de Hitler chegar ao poder um embaixador português em Londres, Ruy Ennes Ulrich, refere no seu relatório habitual que houve uma visita de dois judeus alemães, Dr. Fritz Seidler (antigo secretário do ex-presidente alemão, Streseman) e Dr. Ernest Meyer (membro da Federação Internacional dos jornalistas), diziam que andavam à procura de território para se estabelecerem.

Dr. Fritz Seidler tentou persuadir o governo português a aceitar os judeus dando o exemplo do rei da Prússia. Seidler quando falava ou se referia aos seus protegidos nunca os chamava "judeu" mas sim "emigrantes" ou "alemães instruídos".

No dia 24 de Fevereiro de 1934, Ulrich aconselhou o Palácio das Necessidades a desiludirem os israelitas a se estabelecerem em Angola "pois o silêncio pode ser interpretado como um acolhimento favorável".

Numa nova carta, Seidler informou que uma comissão cientifica internacional, Sociedade De Acordo De Refugiados, sediada em Paris, começava a formação do banco para a colonização que já se encontravam à disposição da sociedade.

Um mês mais tarde, o jornal inglês "Daily Herald " publicou em 30 de Abril de 1934 um artigo com o seguinte título: "Nova casa para 5 000 000 judeus. Projecto de acordo para o oeste de África. Portugal oferece-se para dar terra". Nesta notícia dizia que havia negociações secretas entre a delegação israelita e o Governo português acerca da fundação de um Estado autónomo em angola.

Este seria colonizado por 5 milhões de judeus provenientes da Alemanha, Áustria e dos Estados da Europa oriental que ficaria sob presidência da Sociedade das Nações. O governo português e o Private Inquiries (inquéritos privados) do governo britânico teriam aprovado o plano e apenas teriam imposto algumas condições.

Muitas delegações diplomáticas e consulares portuguesas ficaram alarmadas e foram ao palácio das Necessidades pedindo esclarecimentos. Com esta notícia o ministro das colónias viu-se obrigado a desmenti-la ao representante da agência Reuter e também o jornal judeu "Jewish Chronicle". Assim, o jornal "Daily Herald" fez várias investigações de várias personalidades e concluiu que a única verdade era a seguinte: "... alguns meses atrás, alguns judeus alemães tentaram com insucesso negociar com o governo português o pedido de terra em Angola, considerando, entre outros continentes para uma possível imigração para o oeste de África para Angola":

Em Dezembro de 1938, Jacques Politis veio a Portugal para negociar um certo número de colonos judeus. Este projecto era unicamente para encontrar um refúgio seguro para centenas de milhares de pessoas em risco de vida. Portugal tinha benefícios, ou seja as empresas portuguesas adquiriam o monopólio tanto no comércio como dos transportes necessários para o empreendimento. Finalmente se Angola fosse atacada cada colono era obrigado a defender o território lutando lado a lado com as forças militares portuguesas.

Uma das condições colocadas por parte do governo português tanto no projecto "Bravo" como no projecto de Jacques Politis era o uso exclusivo da língua portuguesa tanto nas escolas como na correspondência oficial, mas o projecto de Jacques Politis ia muito mais longe, ou seja o uso de português fosse obrigatório dentro das próprias famílias judias.

No ano de 1938 houve uma conferência chamada a Conferência de Évian que se dedicou à questão dos judeus residentes em territórios. Dos 32 países que participaram nenhum estava interessado em aceitar refugiados judeus. Mas esta conferência nem de todo foi inútil pois nela se criou uma nova organização internacional, a Comissão Intergovernamental (IGC). Esta organização tinha como missão negociar com as autoridades do Reich para a saída organizada de centenas de milhares de judeus residentes em território alemão.

Nos fins de Outubro de 1938 Hitler mostrou-se disposto a negociar com a IGC e, em Dezembro o presidente do banco central alemão e ex-ministro das finanças, Hjalmar Schacht, deslocou-se pessoalmente a Londres e apresentou um projecto para a saída de judeus em etapas e apenas exigia uma compensação financeira.
a fraca colonização de portugueses em Angola

Em Janeiro de 1939 Roosevelt, Presidente dos Estados Unidos, queria albergar centenas de milhares de judeus alemães em Angola. Roosevelt achava que o chefe do governo português seria incapaz de recusar esta proposta porque além de ter uma oportunidade única de ficar na História, também recebia montantes anuais provenientes directamente dos cofres do novo Estado israelita.

Os ingleses, em 1939, não ficaram muito contentes com estas propostas feitas ao governo português.

Em fins de Janeiro do mesmo ano, Myron Taylor, escreveu um ofício onde nele mostrava um certo desagrado em relação à proposta de Roosevelt provocou em Londres.

Os ingleses tinham medo porque eles tinham colónias tanto ao lado de Angola como ao lado de Moçambique e temiam que os refugiados judeus da Alemanha fossem para as suas colónias.

Uma oportunidade para a realização deste projecto surge em Junho de 1939, Dr. Augusto d' Esaguy (membro da comunidade israelita de Lisboa e presidente da comissão portuguesa para a assistência aos refugiados israelitas ) visitou Sir H. Emerson, alto comissário para os refugiados, em Londres. Dr. d'Esaguy informou que o novo governador de Angola, o seu amigo Dr. Mano estava interessado no acolhimento de refugiados.

Em Portugal ninguém ficou indiferente a estas tentativas de criar uma colónia de judeus em Angola e dominava cada vez mais a oposição a uma situação que poderia levar ao aparecimento de um estado independente em território português.

O projecto foi muito criticado porque uma colonização em massa por alemães devia ser recusada pela simples razão dos envolvidos serem alemães. Também afirmavam que "nenhuma emigração estrangeira em grupos seria vantajosa para a nossa obra de colonização" para as colónias de Angola e Moçambique.
a fraca emigração de portugueses para Angola

Lembrava-se que a atitude dos anteriores colonos alemães "não é para inspirar confiança às autoridades portuguesas" (alusão a tentativas no final do séc. XIX para a Alemanha anexar Angola) e que "a aceitação de novos colonos alemães, judeus ou não, não parece aconselhável, porque em última análise eles são sempre alemães e constituem um elemento perigoso a considerar".

Também se temia que houvesse mais desemprego, pois nesta altura reinava em todas as economias do mundo o desemprego e a deslocação de centenas de milhares ou até mesmo milhões de emigrantes representasse uma grave ameaça para a estabilidade económica e social dos países de acolhimento.

Também a imprensa portuguesa teve reacções, nomeadamente acerca do discurso de Hearst e do projecto de Cazalet. A edição do "Diário de Notícias" de 21 de Novembro de 1938 acusava o Hearst de não querer ajudar o povo israelita, mas sim de pretender resolver um assunto de política interna inglesa (que também não estava interessada em receber no seu território milhares de refugiados judeus). E justificava: "(...) não só para que a nossa soberania sobre esses territórios que descobrimos e colonizámos seja sempre fácil de exercer mas ainda o que o nosso feliz aumento da população nos aconselha a guardar para nós as riquezas que temos para explorar". Ainda neste artigo acusava Cazalet de não ser amigo dos portugueses, afirmando que o plano de alojar em Angola significaria "preparar-nos no futuro, pelo menos, uma dificuldade diplomática com o Fuhrer!" (Hitler).

Salazar ia adiando a questão referindo que queria ter mais informações acerca do estado actual da questão dos refugiados judeus e das conversas de carácter oficial, antes de tomar qualquer decisão.



O FRACASSO DA COLONIZAÇÃO EM ANGOLA

As principais razões que justificaram o fracasso do projecto de alojamento dos Judeus em Angola começaram no ano de 1938.

Na concretização deste projecto houve três dificuldades: em primeiro lugar era a questão do financiamento. Eram quantias muito altas que os alemães exigiam. Segundo, nenhum dos líderes concedia uma recompensa económica á Alemanha por deixar sair os Judeus e finalmente, poucos meses antes da Conferência de Evian nenhum governo manifestava interesse em dar territórios a milhares de Judeus.

Oliveira Salazar nunca tinha sido abordado oficialmente, ao longo do ano de 1939, acerca da implantação de um estado Israelita em Angola

A Foreign Office temia que as suas próprias colónias em África pudessem ser ameaçadas com a entrada de judeus alemães em Angola: " (...) nós devemos decidir desde já em opormo-nos a qualquer aproximação dos portugueses com o assunto e não podemos tolerar a presença de um grande número de judeus alemães em Angola durante o tempo de guerra, que pode ser uma fonte de perigo para as nossas colónias africanas."

O receio na criação de um novo foco de instabilidade política, através de um programa que usava a implantação de judeus alemães em Angola, resultou das recentes dificuldades inglesas no Próximo Oriente. Por terem autorizado a imigração de judeus para a Palestina, houve uma grande hostilidade por parte das nações árabes, colocando em perigo a sua ligação marítima com a Índia através do canal de Suez.

Num encontro de representantes dos governos americanos e ingleses sobre uma colonização judaica na Guiana Britânica, ficou bem expresso o receio de repetir o mesmo erro. Perante a proposta americana que previa uma imigração maciça, Winterton ficou furioso e afirmou que: " não é a intenção do governo britânico permitir o estabelecimento em massa em Guiana ou algo semelhante à situação na Palestina".

Quando se iniciou a Segunda Guerra Mundial, os obstáculos vieram dificultar a saída dos judeus do território alemão.

Embora esta fosse possível legalmente até ao dia 23 de Outubro de 1941, apenas 70 000 judeus conseguiram deixar o Reich no início da guerra devido à pouca solidariedade por parte de todos os governos mundiais.

Quando os representantes dos governos americanos e britânicos se encontraram em Abril de 1943, nas Bermudas, para debater o destino dos refugiados da guerra, já existiam informações detalhadas do genocídio praticado pelos nacionais- socialistas por parte da opinião pública.

Embora a vitória dos aliados fosse uma questão de tempo, eles receavam entrar em negociações directas com as autoridades nazis sobre uma saída organizada dos judeus que permaneciam nos territórios ocupados, pois se Hitler consentisse essa saída, os seus territórios iriam ser inundados de refugiados judeus.

Então estes governos desviaram a sua atenção para aqueles refugiados que iriam necessitar de um abrigo permanente após a guerra e foi aqui que os delegados americanos apresentaram o projecto de Roosevelt para a colonização de Angola por parte de israelitas, citando parte do relatório feito por Gregory, um cientista, onde eram relatados as boas condições de Angola para este propósito. Destacando as grandes vantagens que este projecto traria para o Governo Português, foi recomendado que se iniciassem de imediato os preparativos necessários para a sua realização.

Tanto o embaixador inglês em Lisboa, Campbell, como os cônsules britânicos em Lourenço Marques e Luanda confirmaram, em telegrama ultra-secreto, os factores que se opunham à imigração maciça dos judeus, dizendo que só poderiam ser apenas umas poucas centenas de refugiados.

Por outro lado, Campbell desaconselhava uma intervenção ao nível governamental porque: "Eu estou convicto que Salazar detecta uma insidiosa tentativa da nossa parte para conseguirmos influência nas colónias portuguesas de África. A única esperança de sucesso, muito ténue, viria de um apelo de uma organização pública internacional."

Tal como Campbell recomendara, o Foreign Office pediu ao presidente da Comissão Intergovernamental, Sir Herbert Emmerson, para dar os primeiros passos e em 18 de Agosto de 1943, a embaixada portuguesa em Londres recebeu a visita desta conhecida personalidade.

Com a sua visita, Emmerson quis demonstrar o grande interesse da comissão pela a ajuda portuguesa neste assunto, mas nem este importante gesto fez o governo de Salazar mudar de ideias pois Salazar fora alertado por relatórios que recebera do embaixador português em Washington, Bianchi, por altura da conferência das Bermudas e por um parecer de Fernando Nogueira em que dada altura se referiam notícias publicadas na imprensa inglesa sobre a colonização judaica em Angola, de modo que sabia que resultaria algo mais do que pequenos encargos financeiros na colaboração com a Comissão Intergovernamental. Repetiu então a estratégia que aplicara depois da Conferência de Évian e atrasou a resposta até à Primavera do ano seguinte.

Salazar recusa participar nos trabalhos da Comissão Intergovernamental, já que Portugal não fora convidado para assistir aquela Conferência e nem às nações organizadoras nem às que participaram "pareceu talvez precisa ou útil a intervenção portuguesa" e diz que não fazia sentido que o governo português fosse convidado "para executar medidas em cuja elaboração não tomámos parte e de que não tivemos conhecimento".

Com a perspicaz menção do embaraço causado por não ter sido convidado, o Chefe da diplomacia portuguesa conseguia habilidosamente desviar as tentativas das nações aliadas de tomar as colónias portuguesas, sem ofender a comunidade internacional.

Se o convite fosse aceite por Portugal, a diplomacia portuguesa encontraria dificuldades em vetar as iniciativas referentes ao aproveitamento das suas colónias, para alojar refugiados, sem perder o apoio das nações anglo-saxónias noutras questões prementes da política internacional.

Na tentativa de conseguir um território apto para alojar as centenas de milhares de foragidos provenientes de todo o mundo, Angola parecia quase o território ideal. Para os círculos judeus territorialistas, Angola tinha a enorme vantagem de ser governada por uma nação que não tinha ideologia anti-semita, garantindo aos judeus os mesmos direitos dos cristãos.

Para o governo americano contava sobretudo a localização dos territórios que estavam longe das suas fronteiras nacionais e era uma região do mundo onde os EUA não tinham nenhum interesse político. Mas também o factor demográfico parecia indicar Angola como o local ideal para a realização de um estado israelita. Numa área de 1 246 700 quilómetros quadrados viviam apenas 3 343 500 pessoas, das quais 3 300 000 negros e apenas 30 000 brancos e 13 500 mestiços.

Para muitos dos funcionários - chave do Ministério das Colónias, era a questão demográfica que impedia a instalação de uma colónia e o medo de perder esta.

Uma última razão que impedia o acolhimento de milhares de fugitivos estrangeiros foi o novo conceito colonial. O Acto Colonial de 1930 frisava, nas suas "garantias gerais", a missão imperial da nação portuguesa como difusora da civilização cristã.
António de Oliveira Salazar

Em 1912, nos planos da implantação da colónia judia, o Estado Novo recusava qualquer plano que visasse a redução ou até a perda da soberania portuguesa sobre a colónia de Angola. O presidente do Conselho, Oliveira Salazar, não deixou nenhuma dúvida: "Nós não admitimos discussão sobre a nossa soberania e a nossa soberania não pode ser discutida em Genebra, em Paris, Londres ou Roma.

As poucas experiências feitas com projectos de colonização revelaram todas um falhanço para todas as partes envolvidas.
DAQUI

Tentativas para o alojamento dos judeus em Angola.

AS TENTATIVAS DE UMA POSSÍVEL
COLONIZAÇÃO EM ANGOLA

TENTATIVAS
O FRACASSO DA COLONIZAÇÃO EM ANGOLA

TENTATIVAS DE COLONIZAÇÃO

Houve muitas tentativas para o alojamento dos judeus em Angola. A primeira tentativa foi de W. Terlo, um enólogo israelita que no dia 15 de Junho de 1912 conseguiu que fosse aprovado por unanimidade no Parlamento português um projecto-lei chamado "Projecto Bravo". Este projecto previa uma colonização de uma área de 45000 Km2 no planalto de Benguela. Depois de ter sido aprovado no Parlamento o "Projecto Bravo" tinha que ser integrado na Constituição.

Mas a Jewish Territorial Organisation (ITO), uma organização israelita que se dedicava principalmente à procura de um refúgio para o povo judeu em qualquer parte do mundo, recusou o "Projecto Bravo" que foi apresentado em Viena (27 a 30 de Junho de 1912).

A ITO considerava as concessões feitas pelo governo português insuficientes. Criticava as condições económicas que limitavam as concessões de terrenos a colonos individuais, que retiravam desta forma investimentos de empresas ou sociedades de colonização. Exigia também que houvesse uma área para formar uma "nova pátria judaica".

O projecto Bravo designado mais tarde por "200 B" apresentava no primeiro artigo que os colonos deviam-se tornar portugueses para usufruir dos terrenos. Para além disso exigia também o uso exclusivo nas escolas publicas de ensino elementar e como toda a correspondência respeitante aos serviços públicos.

A ITO organizou uma expedição sobre a orientação de um cientista inglês J. W. Gregory aos terrenos em Angola. Depois de percorrer 3000 milhas quadradas, concluiu que era muito difícil colonizar.

Em 20 de Janeiro de 1934 existiu uma nova tentativa para colonizar Angola. Passado um ano depois de Hitler chegar ao poder um embaixador português em Londres, Ruy Ennes Ulrich, refere no seu relatório habitual que houve uma visita de dois judeus alemães, Dr. Fritz Seidler (antigo secretário do ex-presidente alemão, Streseman) e Dr. Ernest Meyer (membro da Federação Internacional dos jornalistas), diziam que andavam à procura de território para se estabelecerem.

Dr. Fritz Seidler tentou persuadir o governo português a aceitar os judeus dando o exemplo do rei da Prússia. Seidler quando falava ou se referia aos seus protegidos nunca os chamava "judeu" mas sim "emigrantes" ou "alemães instruídos".

No dia 24 de Fevereiro de 1934, Ulrich aconselhou o Palácio das Necessidades a desiludirem os israelitas a se estabelecerem em Angola "pois o silêncio pode ser interpretado como um acolhimento favorável".

Numa nova carta, Seidler informou que uma comissão cientifica internacional, Sociedade De Acordo De Refugiados, sediada em Paris, começava a formação do banco para a colonização que já se encontravam à disposição da sociedade.

Um mês mais tarde, o jornal inglês "Daily Herald " publicou em 30 de Abril de 1934 um artigo com o seguinte título: "Nova casa para 5 000 000 judeus. Projecto de acordo para o oeste de África. Portugal oferece-se para dar terra". Nesta notícia dizia que havia negociações secretas entre a delegação israelita e o Governo português acerca da fundação de um Estado autónomo em angola.

Este seria colonizado por 5 milhões de judeus provenientes da Alemanha, Áustria e dos Estados da Europa oriental que ficaria sob presidência da Sociedade das Nações. O governo português e o Private Inquiries (inquéritos privados) do governo britânico teriam aprovado o plano e apenas teriam imposto algumas condições.

Muitas delegações diplomáticas e consulares portuguesas ficaram alarmadas e foram ao palácio das Necessidades pedindo esclarecimentos. Com esta notícia o ministro das colónias viu-se obrigado a desmenti-la ao representante da agência Reuter e também o jornal judeu "Jewish Chronicle". Assim, o jornal "Daily Herald" fez várias investigações de várias personalidades e concluiu que a única verdade era a seguinte: "... alguns meses atrás, alguns judeus alemães tentaram com insucesso negociar com o governo português o pedido de terra em Angola, considerando, entre outros continentes para uma possível imigração para o oeste de África para Angola":

Em Dezembro de 1938, Jacques Politis veio a Portugal para negociar um certo número de colonos judeus. Este projecto era unicamente para encontrar um refúgio seguro para centenas de milhares de pessoas em risco de vida. Portugal tinha benefícios, ou seja as empresas portuguesas adquiriam o monopólio tanto no comércio como dos transportes necessários para o empreendimento. Finalmente se Angola fosse atacada cada colono era obrigado a defender o território lutando lado a lado com as forças militares portuguesas.

Uma das condições colocadas por parte do governo português tanto no projecto "Bravo" como no projecto de Jacques Politis era o uso exclusivo da língua portuguesa tanto nas escolas como na correspondência oficial, mas o projecto de Jacques Politis ia muito mais longe, ou seja o uso de português fosse obrigatório dentro das próprias famílias judias.

No ano de 1938 houve uma conferência chamada a Conferência de Évian que se dedicou à questão dos judeus residentes em territórios. Dos 32 países que participaram nenhum estava interessado em aceitar refugiados judeus. Mas esta conferência nem de todo foi inútil pois nela se criou uma nova organização internacional, a Comissão Intergovernamental (IGC). Esta organização tinha como missão negociar com as autoridades do Reich para a saída organizada de centenas de milhares de judeus residentes em território alemão.

Nos fins de Outubro de 1938 Hitler mostrou-se disposto a negociar com a IGC e, em Dezembro o presidente do banco central alemão e ex-ministro das finanças, Hjalmar Schacht, deslocou-se pessoalmente a Londres e apresentou um projecto para a saída de judeus em etapas e apenas exigia uma compensação financeira.
a fraca colonização de portugueses em Angola

Em Janeiro de 1939 Roosevelt, Presidente dos Estados Unidos, queria albergar centenas de milhares de judeus alemães em Angola. Roosevelt achava que o chefe do governo português seria incapaz de recusar esta proposta porque além de ter uma oportunidade única de ficar na História, também recebia montantes anuais provenientes directamente dos cofres do novo Estado israelita.

Os ingleses, em 1939, não ficaram muito contentes com estas propostas feitas ao governo português.

Em fins de Janeiro do mesmo ano, Myron Taylor, escreveu um ofício onde nele mostrava um certo desagrado em relação à proposta de Roosevelt provocou em Londres.

Os ingleses tinham medo porque eles tinham colónias tanto ao lado de Angola como ao lado de Moçambique e temiam que os refugiados judeus da Alemanha fossem para as suas colónias.

Uma oportunidade para a realização deste projecto surge em Junho de 1939, Dr. Augusto d' Esaguy (membro da comunidade israelita de Lisboa e presidente da comissão portuguesa para a assistência aos refugiados israelitas ) visitou Sir H. Emerson, alto comissário para os refugiados, em Londres. Dr. d'Esaguy informou que o novo governador de Angola, o seu amigo Dr. Mano estava interessado no acolhimento de refugiados.

Em Portugal ninguém ficou indiferente a estas tentativas de criar uma colónia de judeus em Angola e dominava cada vez mais a oposição a uma situação que poderia levar ao aparecimento de um estado independente em território português.

O projecto foi muito criticado porque uma colonização em massa por alemães devia ser recusada pela simples razão dos envolvidos serem alemães. Também afirmavam que "nenhuma emigração estrangeira em grupos seria vantajosa para a nossa obra de colonização" para as colónias de Angola e Moçambique.
a fraca emigração de portugueses para Angola

Lembrava-se que a atitude dos anteriores colonos alemães "não é para inspirar confiança às autoridades portuguesas" (alusão a tentativas no final do séc. XIX para a Alemanha anexar Angola) e que "a aceitação de novos colonos alemães, judeus ou não, não parece aconselhável, porque em última análise eles são sempre alemães e constituem um elemento perigoso a considerar".

Também se temia que houvesse mais desemprego, pois nesta altura reinava em todas as economias do mundo o desemprego e a deslocação de centenas de milhares ou até mesmo milhões de emigrantes representasse uma grave ameaça para a estabilidade económica e social dos países de acolhimento.

Também a imprensa portuguesa teve reacções, nomeadamente acerca do discurso de Hearst e do projecto de Cazalet. A edição do "Diário de Notícias" de 21 de Novembro de 1938 acusava o Hearst de não querer ajudar o povo israelita, mas sim de pretender resolver um assunto de política interna inglesa (que também não estava interessada em receber no seu território milhares de refugiados judeus). E justificava: "(...) não só para que a nossa soberania sobre esses territórios que descobrimos e colonizámos seja sempre fácil de exercer mas ainda o que o nosso feliz aumento da população nos aconselha a guardar para nós as riquezas que temos para explorar". Ainda neste artigo acusava Cazalet de não ser amigo dos portugueses, afirmando que o plano de alojar em Angola significaria "preparar-nos no futuro, pelo menos, uma dificuldade diplomática com o Fuhrer!" (Hitler).

Salazar ia adiando a questão referindo que queria ter mais informações acerca do estado actual da questão dos refugiados judeus e das conversas de carácter oficial, antes de tomar qualquer decisão.



O FRACASSO DA COLONIZAÇÃO EM ANGOLA

As principais razões que justificaram o fracasso do projecto de alojamento dos Judeus em Angola começaram no ano de 1938.

Na concretização deste projecto houve três dificuldades: em primeiro lugar era a questão do financiamento. Eram quantias muito altas que os alemães exigiam. Segundo, nenhum dos líderes concedia uma recompensa económica á Alemanha por deixar sair os Judeus e finalmente, poucos meses antes da Conferência de Evian nenhum governo manifestava interesse em dar territórios a milhares de Judeus.

Oliveira Salazar nunca tinha sido abordado oficialmente, ao longo do ano de 1939, acerca da implantação de um estado Israelita em Angola

A Foreign Office temia que as suas próprias colónias em África pudessem ser ameaçadas com a entrada de judeus alemães em Angola: " (...) nós devemos decidir desde já em opormo-nos a qualquer aproximação dos portugueses com o assunto e não podemos tolerar a presença de um grande número de judeus alemães em Angola durante o tempo de guerra, que pode ser uma fonte de perigo para as nossas colónias africanas."

O receio na criação de um novo foco de instabilidade política, através de um programa que usava a implantação de judeus alemães em Angola, resultou das recentes dificuldades inglesas no Próximo Oriente. Por terem autorizado a imigração de judeus para a Palestina, houve uma grande hostilidade por parte das nações árabes, colocando em perigo a sua ligação marítima com a Índia através do canal de Suez.

Num encontro de representantes dos governos americanos e ingleses sobre uma colonização judaica na Guiana Britânica, ficou bem expresso o receio de repetir o mesmo erro. Perante a proposta americana que previa uma imigração maciça, Winterton ficou furioso e afirmou que: " não é a intenção do governo britânico permitir o estabelecimento em massa em Guiana ou algo semelhante à situação na Palestina".

Quando se iniciou a Segunda Guerra Mundial, os obstáculos vieram dificultar a saída dos judeus do território alemão.

Embora esta fosse possível legalmente até ao dia 23 de Outubro de 1941, apenas 70 000 judeus conseguiram deixar o Reich no início da guerra devido à pouca solidariedade por parte de todos os governos mundiais.

Quando os representantes dos governos americanos e britânicos se encontraram em Abril de 1943, nas Bermudas, para debater o destino dos refugiados da guerra, já existiam informações detalhadas do genocídio praticado pelos nacionais- socialistas por parte da opinião pública.

Embora a vitória dos aliados fosse uma questão de tempo, eles receavam entrar em negociações directas com as autoridades nazis sobre uma saída organizada dos judeus que permaneciam nos territórios ocupados, pois se Hitler consentisse essa saída, os seus territórios iriam ser inundados de refugiados judeus.

Então estes governos desviaram a sua atenção para aqueles refugiados que iriam necessitar de um abrigo permanente após a guerra e foi aqui que os delegados americanos apresentaram o projecto de Roosevelt para a colonização de Angola por parte de israelitas, citando parte do relatório feito por Gregory, um cientista, onde eram relatados as boas condições de Angola para este propósito. Destacando as grandes vantagens que este projecto traria para o Governo Português, foi recomendado que se iniciassem de imediato os preparativos necessários para a sua realização.

Tanto o embaixador inglês em Lisboa, Campbell, como os cônsules britânicos em Lourenço Marques e Luanda confirmaram, em telegrama ultra-secreto, os factores que se opunham à imigração maciça dos judeus, dizendo que só poderiam ser apenas umas poucas centenas de refugiados.

Por outro lado, Campbell desaconselhava uma intervenção ao nível governamental porque: "Eu estou convicto que Salazar detecta uma insidiosa tentativa da nossa parte para conseguirmos influência nas colónias portuguesas de África. A única esperança de sucesso, muito ténue, viria de um apelo de uma organização pública internacional."

Tal como Campbell recomendara, o Foreign Office pediu ao presidente da Comissão Intergovernamental, Sir Herbert Emmerson, para dar os primeiros passos e em 18 de Agosto de 1943, a embaixada portuguesa em Londres recebeu a visita desta conhecida personalidade.

Com a sua visita, Emmerson quis demonstrar o grande interesse da comissão pela a ajuda portuguesa neste assunto, mas nem este importante gesto fez o governo de Salazar mudar de ideias pois Salazar fora alertado por relatórios que recebera do embaixador português em Washington, Bianchi, por altura da conferência das Bermudas e por um parecer de Fernando Nogueira em que dada altura se referiam notícias publicadas na imprensa inglesa sobre a colonização judaica em Angola, de modo que sabia que resultaria algo mais do que pequenos encargos financeiros na colaboração com a Comissão Intergovernamental. Repetiu então a estratégia que aplicara depois da Conferência de Évian e atrasou a resposta até à Primavera do ano seguinte.

Salazar recusa participar nos trabalhos da Comissão Intergovernamental, já que Portugal não fora convidado para assistir aquela Conferência e nem às nações organizadoras nem às que participaram "pareceu talvez precisa ou útil a intervenção portuguesa" e diz que não fazia sentido que o governo português fosse convidado "para executar medidas em cuja elaboração não tomámos parte e de que não tivemos conhecimento".

Com a perspicaz menção do embaraço causado por não ter sido convidado, o Chefe da diplomacia portuguesa conseguia habilidosamente desviar as tentativas das nações aliadas de tomar as colónias portuguesas, sem ofender a comunidade internacional.

Se o convite fosse aceite por Portugal, a diplomacia portuguesa encontraria dificuldades em vetar as iniciativas referentes ao aproveitamento das suas colónias, para alojar refugiados, sem perder o apoio das nações anglo-saxónias noutras questões prementes da política internacional.

Na tentativa de conseguir um território apto para alojar as centenas de milhares de foragidos provenientes de todo o mundo, Angola parecia quase o território ideal. Para os círculos judeus territorialistas, Angola tinha a enorme vantagem de ser governada por uma nação que não tinha ideologia anti-semita, garantindo aos judeus os mesmos direitos dos cristãos.

Para o governo americano contava sobretudo a localização dos territórios que estavam longe das suas fronteiras nacionais e era uma região do mundo onde os EUA não tinham nenhum interesse político. Mas também o factor demográfico parecia indicar Angola como o local ideal para a realização de um estado israelita. Numa área de 1 246 700 quilómetros quadrados viviam apenas 3 343 500 pessoas, das quais 3 300 000 negros e apenas 30 000 brancos e 13 500 mestiços.

Para muitos dos funcionários - chave do Ministério das Colónias, era a questão demográfica que impedia a instalação de uma colónia e o medo de perder esta.

Uma última razão que impedia o acolhimento de milhares de fugitivos estrangeiros foi o novo conceito colonial. O Acto Colonial de 1930 frisava, nas suas "garantias gerais", a missão imperial da nação portuguesa como difusora da civilização cristã.
António de Oliveira Salazar

Em 1912, nos planos da implantação da colónia judia, o Estado Novo recusava qualquer plano que visasse a redução ou até a perda da soberania portuguesa sobre a colónia de Angola. O presidente do Conselho, Oliveira Salazar, não deixou nenhuma dúvida: "Nós não admitimos discussão sobre a nossa soberania e a nossa soberania não pode ser discutida em Genebra, em Paris, Londres ou Roma.

As poucas experiências feitas com projectos de colonização revelaram todas um falhanço para todas as partes envolvidas.

domingo, 24 de maio de 2009

Os !Kung San ( Bosquímanos) habitam a África Austral há mais de 20 000 anos.





Os !Kung San habitam a África Austral há mais de 20 000 anos.

A sua ancestralidade pode ser atestada pelas inúmeras pinturas rupestres que foram deixando pelos caminhos do tempo. São caçadores-recolectores, autênticas relíquias vivas do nosso passado humano. Usam uma linguagem de estalidos (representada graficamente por !) e o nome que se dão a si próprios pode ser traduzido por “Pessoas”. São geralmente conhecidos pela designação inglesa, “Bushmen” que adaptamos para “Bosquímanos”.


Os !Kung vivem no deserto do Kalahari que não é um deserto de dunas, antes, uma espécie de savana que ocupa uma extensa área partilhada pelos actuais territórios da África do Sul, Namíbia e, sobretudo, Botswana. A Norte, algumas franjas entram por terras angolanas. O Kalahari é atravessado por alguns rios que determinam os caminhos dos !Kung e tem época de chuvas que permite que a vida vegetal e animal sejam abundantes. O modo de vida deste povo do deserto que, inesperadamente, passou a contar com uma garrafa de coca-cola, ficou ternamente registado no filme de Jamie Uys, Os Deuses Devem Estar Loucos.


Há cerca de 25 anos, o Professor Viegas Guerreiro, decano da antropologia em Portugal, apresentou-me aos !Kung, exibindo um filme que ele próprio realizara durante os dois anos em que vivera com este povo. Aprendi, assim, que os San não têm chefes e que as decisões que interessam ao grupo são tomadas em grupo. Esses grupos podem ser extensos – até 100 pessoas – se os alimentos disponíveis forem bastantes, mas normalmente são menores, podendo não ultrapassar os 10 indivíduos.

Os San abrigam-se em cabanas que constroem recorrendo à vegetação alta que fazem assentar sobre uma estrutura de ramos. Os homens dedicam-se à caça e não importa os dias que demore até capturarem uma presa, porque a maior vergonha é regressar ao acampamento sem o suprimento de carne necessário. Caçam usando lanças feitas com as próprias mãos, com pontas de sílex (?) habilmente trabalhadas e que embebem em veneno eficaz. Sobre as mulheres recai a obrigação de serem elas a garantir o sustento diário, recolhendo frutos e raízes. Com que mestria o fazem! Onde nós não vislumbramos nada a não ser areia, elas abrem um buraco fundo com as mãos e encontram raízes enormes que o saber ancestral lhes ensinou a descascar bem com as suas lâminas de pedra e a pisar cuidadosamente para lhes extrair o suco venenoso. Depois resta uma farinha que assam sobre as brasas da fogueira pequena. Quando escasseiam as bagas e os frutos vão-se embora, seguindo os trilhos do rio. Pelo caminho vão deixando registos nas pedras com as suas magníficas pinturas rupestres ao ar livre.

Quando morre alguém metem-no na sua cabana. Os vivos, mesmo que haja alimentos, levantam o acampamento e partem, levando consigo o nada que possuem e quase nada deixando que permita o estudo do seu modo de vida a quem se queira guiar pelos restos materiais. O abandono dos mortos, segundo o professor Viegas Guerreiro, é das poucas manifestações religiosas dos San. A outra é a dança ritual dos curandeiros, para curar os doentes ou para pedir ao tempo que mande a chuva da sobrevivência.

Nem historiadores nem antropólogos são capazes de explicar por que razão alguns povos evoluíram no seu modo de vida enquanto outros se deixaram permanecer imutáveis. Quando, há cerca de 8000 anos o Neolítico chegou a África, os povos que se sedentarizaram e começaram a praticar a agricultura viram a sua população crescer e passaram a exercer grande pressão sobre os territórios percorridos pelos povos nómadas. Assim aconteceu com os Bantos e os !Kung San. Estes foram empurrados para o deserto que nunca foi terra que apetecesse a ninguém. Mas o golpe maior chegaria com os Boers, os puritanos holandeses que, em guerras sucessivas, iriam reduzir este povo a números insignificantes.

Em data que não sei precisar, o governo do Botswana delimitou uma área, a que chamou reserva, e encafuou lá os bosquímanos. Área sem acesso a água e pouco extensa para permitir o modo de vida tradicional, condenando-os à morte lenta. Em 1997, o supremo tribunal desse país, alegando prejuízos para o meio ambiente, decidiu expulsá-los da reserva. O mesmo organismo, há poucos dias, permitiu o seu regresso, mas desobrigando o governo do abastecimento de água e de alimentos.




Falta dizer que, na reserva, tinham sido encontradas importantes jazidas de diamantes. Pobres !Kung San!
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Os povos Pigmeus (Mbuti) e Khoisan




Pigmeus, os "pequenos habitantes" da terra (África) em extinção


Koisan, Mukankalas ou Bosquímanos...os caçadores do Deserto
Cuissis no Namibe
(...)

4. Os povos Pigmeus (Mbuti) e Khoisan

Os habitantes originais da África Central foram os povos caçadores e colectores de quem os povos Mbuti (Pigmeus) e Khoisan (Bosquímanos) descendem, que viveram na região desde há cerca de pelo menos 12.000 anos. No que respeita mais propriamente ao actual território de Angola, os Pigmeus ocupavam as florestas galerias na metade norte do território (províncias de Zaire, Uíge, Cuanza-Norte e Lundas) e os Khoisan ocupavam o extenso planalto interior das províncias de Benguela, Huambo, Bié, Moxico, Cuando-Cubango, Cunene, Huíla e Namibe.

Acredita-se ainda que os Pigmeus tenham chegado primeiro que os Khoisan, mas que se foram retirando para Norte à medida que a floresta equatorial ficava mais circunscrita à bacia do Rio Zaire.

Evidência arqueológica confirma a ocupação do território angolano pelos Khoisan desde há 12 mil anos. Devido ao seu modo de produção paleolítico, o padrão de povoamento Khoisan foi escasso e concentrou-se nas terras do planalto. Sem bem que se não saiba a data aproximada da expansão Khoisan em Angola, acredita-se que ele tenha tido lugar entre doze mil a dez mil anos atrás.


5. As Grandes Migrações dos Povos Bantos

As migrações bantas para o actual território de Angola estenderam-so ao longo de 1.400 anos, desde cerca do Séc. VI até ao Séc. XIX. A classificação de "Banto" é uma classificação linguística e não política; assim, por "povos Bantos" entendemos os diferentes povos que se espalharam na África Central e Austral (em que se inclui Angola), cuja língua tinha a mesmo origem comum da cultura Nok do Nordeste dos Camarões e Sudoeste da Nigéria. O avanço dos povos de língua Banta foi um movimento secular e vagaroso, e não uma expansão brusca. Neste processo lento e secular de contacto entre os povos Bantos e os Pigmeus e mais tarde os Khoisan, os povos Bantos detentores da tecnologia de fabricação de ferro impuseram a sua economia e cultura, ao mesmo tempo que assimilaram os povos Pigmeus e Khoisan que há muito viviam nessas regiões, resultando em culturas cruzadas como as dos povos Cuissis e Cuepes, no quadrante sudoeste de Angola, ou empurrando-os para regiões mais marginais (floresta equatorial para os Pigmeus) e inóspitas (chanas (estepes) do leste de Angola para os Khoisan).

Com a excepção dos Bakongos e possivelmente dos Ambundos, que seguiram a rota meridional a oeste da floresta equatorial, a maioria dos povos Bantos que vieram habitar Angola eram originários da região dos Grandes Lagos a leste da floresta equatorial (bacia do Zaire) e entraram em Angola através da rota oriental entrando pela Baixa do Cassange (Rio Cuango), Lundas e anharas do leste (Moxico e Cuando-Cubango).

Ainda sujeito a confirmação através de estudos mais apurados, acredita-se que os primeiros povos de língua banta a chegarem ao actual território de Angola tenham sido os Bakongo nos Séculos XII ou XIII, vindos do Norte, tomando o curso entre a floresta equatorial e o Oceano Atlântico (a Rota Sul), e que se viriam a estabelecer nas margens do rio Zaire, primeiro a norte e mais tarde atravessaram o mesmo e se espalharam pelo território até á margem do Rio Dande. O povoamento Banto da região foi lento, e na forma inicial de povoações independentes sem poder político centralizado até aos finais do Século XIV, quando se formou o que mais tarde viria a ser o Antigo Reino do Congo.

Os Ambundos vindos através da margem leste do rio Cuango expandiram-se pelas bacias dos rios Lucala e Cuanza até à sua foz, estabelecendo um número de sobados independentes que se consolidaram no que viria a ser o Reino de Angola.

O povo Herero, de modo de produção pastoril, se bem que oriundo dos Grandes Lagos, chegou à região Sudoeste de Angola (a sul de Benguela) através da rota ao longo da costa atlântica, mas vindos do sul (Namíbia). As populações de raíz Banta acabaram eventualmente por dominar a maior parte do território, estimando-se actualmente em cerca de 12 milhões de pessoas em Angola.
In IntroduçãoaoEstudodaHistoria


Acrescento:
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sábado, 23 de maio de 2009

O TRATADO DE SIMULAMBUCO

cabinda2: Cabinda - Simulambuco: celebrating the Portuguese protectorate - Neste lugar de Simulambuco, foi assinado em 1 de Fevereiro de 1885 o Tratado que integrou o território de Cabinda na nação Portuguesa (photo by FLEC) - (c) Travel-Images.com - Stock Photography agency - Image Bank
..."Nós,abaixo assinados, príncipes e governadores de Cabinda, sabendo que na Europa se trata de resolver, em conferência de embaixadores de diferentes potências, questões que directamente dizem respeito aos territórios da Costa Ocidental de África,e, por conseguinte, do destino dos seus povos, aproveitamos a estada nêste porto da corveta portuguesa "Rainha de Portugal", a-fim-de em nossos nomes e no dos povos que governamos pedirmos ao seu comandante, como delegado do Govêrno de Sua Majestade Fidelíssima, para fazermos e concordarmos num tratado pelo qual fiquemos sob o protectorado de Portugal, tornando-nos, de facto, súbditos da corôa portuguesa, como já o éramos por hábitos e relações de amizade. E, portanto, sendo de nossa inteira, livre e plena vontade que de futuro entremos nos domínios da corôa portuguesa, pedimos ao Exmo Sr.Comandante da corveta portuguesa para aceder aos nossos desejos e dos povos que governamos, determinando o dia,onde, em sessão solene, se há-de assinar o tratado que nos coloque sob a protecção da bandeira de Portugal." ----

---..."Escrito em reunião dos príncipes abaixo assinados, no lugar de Simulambuco, aos 22 de Janeiro de 1885."
..."Sinal em + de Ibiala Mamboma, Rei representante da regência; sinal em + da princesa Maria Simbo Mambuco; (a) Manuel José Puna (mais tarde Barão de Cabinda); sinal em + do príncipe Iambo Franque, governador de Chinga; sinal em + do príncipe Jack,governador de Buco-Sinto; sinal em + de Fernando Mengas, filho do príncipe Jack; sinal em + de King Jack, príncipe; sinal em + do príncipe King Faine; sinal em + de Fernando Sonça, governador do Povo-Grande; sinal em + do Mongovo Velho, dono do povo grande; sinal em + do Mongovo Mamgombe, governador de Siamona; sinal em + de Betti Jack, governador de Cai;(a)Manuel Bonzela Franque, governador de Pôrto-Rico e Mambu; (a) Francisco Rodrigues Franque,governador de Pernambuco e Vitória; sinal em + do Massabo; sinal em + de Machimbe Mafuca Franque ; sinal em + do príncipe Muan Sambi Linguister de Francisco Franque."
..."Reconhecem as assinaturas e sinais como sendo dos próprios, por os terem visto fazer,(aa) Vicente Puna, João Puna, João Barros Franque e Guilherme Franque."
..."Guilherme Augusto de Brito Capello, capitão tenente da Armada, comandante da corveta "Rainha de Portugal", comendador de Aviz e Cavaleiro de várias ordens, autorizado pelo govêrno de Sua Magestade Fidelíssima El-Rei de Portugal, satisfazendo os desejos manifestados pelos prínicpes de Cabinda em petição devidamente por êles assinada, em grande fundação concluiu com os referidos príncipes, governadores e chefes abaixo assinados, seus sucessores e herdeiros, o seguinte:" -
..."Artigo 1º -- Os príncipes e mais chefes do país e seus sucessores declaram, voluntariamente, reconhecer a soberania de Portugal, colocando-se sob o protectorado desta nação todos os territórios por êles governados."..."Artigo 2º -- Portugal reconhece e confirmará todos os chefes que forem reconhecidos pelos povos segundo as suas leis e usos, prometendo-lhes auxílio e protecção."..."Artigo 3º -- Portugal obriga-se a fazer manter a integridade dos territórios colocados sob o seu protectorado"...
...................................................
--- (Extraído da obra "NÓS,OS CABINDAS", de D.DOMINGOS JOSÉ FRANQUE (príncipe negro "Boma-Zanei-N´Vimba")-- (pgs. 9/27) - Editora ARGO - Lisboa - 1940 --
................. (Para uma mais completa informação consultar na Internet :
http://cabinda.hostingwithu.com/Cabindas.html
cabinda.org/historia.htm

ccp.home.sapo.pt/Tratado_Simulambuco.htm

http://www.scribd.com/doc/12397135/Candomble-Cambindas