segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O PLANO CAETANISTA PARA A DECLARAÇÃO UNILATERAL DE INDEPENDÊNCIA DE ANGOLA E MOÇAMBIQUE.



O PLANO CAETANISTA PARA A DECLARAÇÃOPLANO  UNILATERAL DE INDEPENDÊNCIA DE ANGOLA E MOÇAMBIQUE. E O" GRANDE TRAIDOR"... l976 - JULHO...
REVELAÇÕES HISTÓRICAS NUM ENCONTRO, EM CURITIBA, BRASIL, COM O PROBO EX-VICE PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE LUANDA, O ANGOLANO DO MPLA/REVOLTA ATIVA ABÍLIO AUGUSTO FERREIRA DE LEMOS. PROCLAMAÇÃO UNILATERAL DE INDEPENDÊNCIA DE ANGOLA E MOÇAMBIQUE - UM PLANO DE MARCELO CAETANO QUE FRACASSOU PORQUE TERÁ SIDO TRAÍDO POR UM DOS SEUS MAIS "CONFIÁVEIS" CONFIDENTES...



Corria o segundo semestre de 1976. Tínhamos desembarcado no Rio de Janeiro, vindos de Lisboa, no dia 4 de Julho, já adentrado na casa dos 50 e tendo, pela terceira vez na nossa vida, de procurar, sem ajudas, nem capital nos bolsos ou contas bancárias, um novo rumo para a nossa vida. Depois de várias desilusões e falsas ilusões, somente uma mão generosa nos foi estendida, a de José Manuel Pereira da Costa, distinto jornalista e leal amigo, ex-subdiretor do Diário de Luanda que então estava chefiando a redação de um semanário da comunidade portuguesa na cidade de São Paulo e viria a acabar seus dias, anos mais tarde, na capital portuguesa, vitimado por um ataque cardíaco, como diretor do jornal O DIA. Era ele um jornalista de grande mérito que realizara no Estado da Índia, um extraordinário trabalho de reportagem, nos nebulosos dias que precederam e acompanharam a vergonhosa queda daquela antiga possessão portuguesa situada na península hindustânica.
Ao chegarmos ao Rio, não nos ocorrera que ainda poderia estar viva a nossa grande amiga Condessa Pereira Carneiro, Diretora-Presidente do importante JORNAL DO BRASIL, de quem fôramos colaborador e se correspondia assiduamente connôsco, isso porque se tratava de uma anciã que já ultrapassara os oitenta anos de idade e por outro lado, apesar de termos sido colaborador da revista MANCHETE, a convite de Luci Bloch, devendo-se-nos o texto e as legendas do suplemento especial, a cores, PORTUGAL HOJE - ANGOLA 68, para cuja feitura integráramos uma equipa de reportagem de que faziam parte também o pernambucano Luís Câmara Cascudo, então responsável pelas edições internacionais, e Gil Pinheiro, repórter fotográfico, nossa maneira de ser, avessa a protecionismos e nepotismos, não nos moveu a buscar emprego nesta última organização jornalística, ao contrário do que fizera o diretor de um diário de Lourenço Marques (hoje, Maputo) que nela conseguiu colocação. Não foram tempos fáceis para nós, esses que estamos evocando... Pelo contrário. Mas, as duras realidades que enfrentámos em nossos primeiros meses na Diáspora, foram-nos proveitosas, constituíram lições utilitárias que nos habituaram a uma nova "maneira de estar no mundo" (como escreveria... Adriano Moreira).
Pereira da Costa, ao saber da nossa presença em São Paulo (onde tencionávamos demorar apenas alguns dias a fim de continuarmos viagem para Caracas, Venezuela, onde tínhamos, a convite de um compatriota ali residente - que nem conheciamos senão por via epistolar - , lugar como professor num colégio português, para filhos de imigrantes, denominado Colégio Santa Isabel que ignoramos se ainda existe por lá) mesmo sem lhe termos solicitado ajuda, apressou-se a procurar uma solução par o nosso caso. Em São Paulo, um ex-deputado federal brasileiro que tivera seu mandato cassado pela chamada ditadura militar, não pelo que ele dizia ser o motivo mas sim devido ao seu comporatemento social reprovável em Luanda, numa das várias visitas que, a convite do MNE português ali fizera, prometia a angolanos empregos e mordomias que não se concretizavam porque estava apenas namorando as simpatias e votos da numerosa colônia portuguesa, namorando votos para um seu parente próximo. Pessoal angolano não faltava então na capital do Estado de São Paulo (até existia um esboço de associação de angolanos na Diáspora) Habitualmente reuniam, com regularidade, num jantar de confraternização que tinha lugar no restaurante GUARACIABA, na avenida visconde do Rio Branco, pertencente a um ex-major do QSAM, afilhado do ex-GG Rebocho Vaz, que fora acusado de peculato no exército e conseguira, em Luanda, evadir-se do cárcere onde estivera detido, passando a fronteira setentrional angolana e virando (como o digno e honrado tenente-coronel Gilberto Santos e Castro, nosso amigo e conterrâneo angolano, ex-governador do distrito do Kuanza Norte) mercenário no ELNA de Holden Roberto, só o deixando quando aquele foi traiçoeiramente desintegrado com a aperente conivência do exército português, a mando do inescrupuloso filo-comunista Almirante Vermelho, de triste memória, Alto Comissário em Angola, acolitado pelo avermelhado capitão Pez...Co, que era ( a par de mais alguns "capitães dos cravos vermelhos") um " pangaré" de Agostinho Neto e seus "muchachos", antes da partida dos contingentes lusos. Isto só ocorreu depois de desembarcados, de cargueiros com pavilhão não cubano da marinha mercante, sob disfarces civis, em faixas desertas dos litorais de Kabinda e do Kuanza Sul, os contingentes cubanos de mercenários a soldo de Moscou, a fim de assegurarem ao MPLA, com o escandaloso respaldo da JSN e do governo de Lisboa que violou os ACORDOS DO ALVOR, o domínio militar da situação, mediante a destruição dos revoltosos mplaístas de Daniel Chipenda (que, na verdade, derrotara Agostinho Neto na eleição para presidente do MPLA, em Lusaka, mas, devido a uma manobra suja do Lúcio Lara e do Agostinho Neto, não lograra tomar posse do lugar), sediados numa moradia à rua El-Rei D.Diniz, em Luanda, e da delegação da FNLA, na Avenida Brasil, a cargo do vaidoso (e fútil e inútil) hoje "ministro" da CS do JES - Hendrik Val Neto, mulato escuro, então "caninamente" fiel ao presidente da FNLA Holden Roberto ou... José Gilmore, ou Roberto Holden, conforme preferirem, personagem este, sem dúvida, muito chegado ao American Committee on Africa presidido pela sra. Eleanora Roosevelt, viúva do falecido presidente Franklin Delano Roosevelt, cuja ... ONG financiava as actividades (e não só estas...) daquele agrupamento político angolano e, indiscutivelmente, à CIA, segundo apostavam seus detractores.
Esse ex-major, que alugara alguns tractores de sua propriedade aos Instituto do Algodão de Angola anos antes, confidenciou-nos descaradmente, em São Paulo, no seu restaurante, que pudera abrir aquele negócio porque, à partida de Kinshasa, HR lhe mostrara um baú que continha pacotes de notas de 50 e 100 dólares, dizendo-lhe que pegasse o que necessitasse e partisse para o Brasil; se mais tarde a situação viesse a melhorar, ele o chmaria de novo para orientar as actividades militares das suas tropas, então desmanteladas e dispersas.
Como dissemos, generosamente Pereira da Costa quis ajudar-nos em São Paulo, arranjando-nos, na capital paranaense, emprego num jornal de bairros de que era proprietário um simpático - como viríamos a verificar - deputado estadual; para esse efeito encaminhou-nos a Curitiba onde fomos carinhosamente recebido e instalado num bom hotel, gratuitamente, pelo amigo Júlio, do Barracuda de Luanda, que o estava gerenciando. Recusou-se a cobrar-nos pela hospedagem qualquer quantia, nos dois dias que ali passámos. Fôra ele co-proprietário do referido restaurante na ponta da restinga de Luanda, a que impropriamente chamavam de "ilha" (ao que parece, hoje o inesquecível Júlio está estabelecido em Cascais) ; proporcionou-nos uma surpresa, um almoço a três com o brilhante e honestíssimo compatriota euro-africano, distinto angolano e velho amigo (apesar de pertencer ao MPLA-Revolta Activa, dos irmãos Mário e Joaquim Pinto de Andrade (gente, como ele, decente, preparada e que não fôra "pé de musseque"...). Esse almoço seria para nós memorável porque nele, Abílio Ferreira de Lemos (categorizado funcionário do Banco de Angola em Luanda, analista econômico responsável pela feitura dos primorosos e badalados relatórios anuais - e não só - daquele banco central angolano, emissor de moeda, nosso Par na Assembléia Legislativa do Estado de Angola e vice-presidente, a convite do governador-geral, engº agrônomo Fernando Santos e Castro, da Câmara Municipal de Luanda, de que era então presidente, último do "ancien regime", o ex-comandante de Falange da Mocidade Portuguesa e nosso colega de curso superior no ICSP/UTL, Dr José Manuel Marques Palmeirim, atualmente alto funcionário da administração portuguesa, afilhado do ex-Ministro do Interior e ex-Director do Centro de Instrução da Milícia da Mocidade Portuguesa no Batalhão de Caçadores Nº 5, general Arnaldo Schultz,) iria desenvolver-nos uma revelação que apenas, em parte, havia aflorado aos nossos ouvidos porque o nosso amigo e distinto advogado Dr Joaquim Mendes, nosso Par na Assembléia Legislativa, de que era também 1º vice-presidente, com freqüência no exercício da presidência (a qual, por inerência, na efectividade, cabia ao governador-geral), nosso companheiro, outrossim, como presidente da mesa da assembléia geral, nos corpos sociais da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários Luandenses - Cruz Verde, de que éramos presidente da direção, já no-lo havia segredado mas não com o detalhe que Abílio Augusto Ferreira de Lemos, amigo e companheiro de infância de Santos e Castro, também angolano (que connosco e outros, inclusive os irmãos Ferreira de Lemos, Sampaio Nunes, Emílio Leite Velho, Ângelo Vidigal Dias - que viria a ser assassinado em condições muito misteriosas, quando estava detido, nos anos 50, pelo " embrião "da PIDE em Luanda, os irmãos Azancout de Meneses e outros, fundara a Casa dos Estudantes de Angola e a Casa dos Estudantes do Império em Lisboa, da qual foi o primeiro vice-presidente, com Alberto Marques Mano Lemos de Mesquita como presidente, na década de 40) que participara de um "segredo de estado" emanado de Marcelo Caetano, seu idealizador, e somente do conhecimento de meia dúzia dos seus colaboradores mais directos em quem depositava a maior confiança (mas dos quais, um se revelaria clone de JUDAS).
Tratava-se de um plano para proclamação unilateral da independência de Angola, de cujo acto solene nós, que o ignorávamos ao tempo, também participaríamos, como parlamentar angolano, num acto histórico que se realizaria na histórica Fortaleza de MASSANGANO...
Infelizmente, meses depois do nosso encontro na capital do Paraná, o solteirão Abílio Augusto Ferreira de Lemos faleceu subitamente, de ataque cardíaco, no seu posto de trabalho, desempenhando funções de analista econômico numa renomada empresa de Curitiba, para a qual entrara por mérito próprio. Finaram-se no Brasil dois angolanos de rara têmpera: Abílio Augusto Ferreira de Lemos e Artur Lemos Pereira, outro distinto euro-africano que, universitário ao tempo, também foi um dos fundadores da CEA e da CEI, mais tarde combativo e incansável Vereador da Câmara Municipal de Luanda, onde ficaram a dever-se-lhe notáveis realizações culturais (e que o diga o ELOS CLUBE DO BRASIL) e turísticas de grande vulto, acabararm seus dias esquecidos e voluntariamente exilados na nossa Diáspora: o Artur, sempre bem disposto e prazenteiro, em Campinas, Estado de São Paulo, onde vivia sózinho, gerenciando um estabelecimento hoteleiro e uma confeitaria contígua ao mesmo, vitimado também por morte súbita.
Voltaremos ao assunto, para escalpelizar o que aconteceria na Fortaleza de MASSANGANO, às margens do grande rio Kuanza, se, conforme soubemos em Pretória em Agosto ou Setembro de 74 e mais tarde nos foi confirmado por um amigo "böer" bem informado, uma personalidade portuguesa de elevada patente militar, cujo foro íntimo era inequivocamente criptocomunista, e o fôra sempre, subrepticiamente, ao longo de toda a sua carreira, até ao "estrelato", íntimo de Marcelo Caetano, que depositava nessa figura a mais alta confiança, não se tivesse esgueirado, às pressas, acompanhado da esposa, em férias, rumo a Moscou, onde, segundo informações, que nos foram reveladas por uma proeminente figura, já abordada acima, da Intelligence sul-africana, o distinto fito-geneticista e ferrenho partidário do regime "boer" sul-africano, Doutor Harold Müller, o qual há bem poucos anos trabalhava na Bahia, para onde viera proveniente da Costa Rica, onde trabalhara, em melhoramentos de plantas, para uma multinacional francesa, se teria apresentado ao Burô Político do Comité Central do Partido Comunista da URSS, patrão do MPLA, da FRELIMO, do PAIGC e do PCP e PC do B, para denunciar o plano marcelista e sugerir sua colaboração activa visando, a partir de um problema ridículo - o do ingresso de oficiais milicianos "combatentes" no quadro permanente em condições que os já profissionais oriundos da Academia Militar classificavam de prejudiciais aos seus interesses - antecipar, com oportunismo mobilizador, um movimento dos fardados. Seria esse o único leitmotiv para derrubar o regime que impropriamente todos os oponentes carimbavam como ditatorial e fascista: o salazarismo do humilde ex-clérigo de Santa Comba Dão... António de Oliveira Salazar, o ex-padre ditador, que desde 1970 repousava numa campa de cemitério, após 71 anos de trabalhosa existência, em que defendera obsessivamente, sem respaldo brasileiro na maior parte da sua "cruzada" lusófona, a fomação de uma grande comunidade luso-afro-brasileira, mas constituindo um grande espaço político-cultural-econômico-militar estratégico e com domínio do Atlântico Sul, ideía essa que agora está sendo, pelo menos no plano cultural e da cooperação econômica, reerguida, sem que eles o confessem para que não se fale de identidade com o "velho ditador", como bandeira política sobretudo pelas duas mais relevantes figuras do mundo político lusófono. Fanfarronicamente tratam o assunto como "coisa nova", que não o é, pois, além do falecido ditador da Calçada da Ajuda, também o lúcido, genial e impoluto Leopold Sedar Senghor (corruptela da palavra SENHOR, porque ele,o presidente senegalense que chegou a ministro num dos governos de Charles de Gaulle, era de ascendência portuguesa, da Guiné-Bissau... embora aparentemente fosse um melanoderme puro, um negro) defendia essa idéia com entusiasmo esperançoso e serena argumentação. Voltaremos a este assunto em breve, para contar o resto desta história inédita que tem jazido esquecida no fundo do baú lusófono...

Carlos Mário Alexandrino da Silva

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

M172 - Portugal homenageia os “comandos” guineenses (fuzilados) que combateram no Exército Português



1 -No monumento aos Combatentes do Ultramar
Portugal homenageia os “comandos” guineenses (fuzilados) que combateram no Exército Português

(…) Mas se nós, portugueses (…) nos defendemos com unhas e dentes contra uma agressão injusta e abominável, então passaremos a praticar uma política de genocídio, o que faz pôr os cabelos em pé aos próprios calvos deste mundo dementado. As coisas que se dizem sem resquícios de pudor intelectual e moral. (…)

Cunha Leal, in “A Gadanha da Morte” (1961)


Em boa hora e depois do grande esforço feito pela Associação de Comandos, ao longo de vários anos, a Liga dos Combatentes, zeladora da manutenção e conservação com dignidade, do património que é o Monumento dos Combatentes do Ultramar e do Museu do Combatente existente no Forte anexo, prestou, em nome de Portugal, a homenagem aos 53 militares “Comando” da Guiné, que foram clandestinamente fuzilados pelo PAIGC, “apenas” por se terem combatido com valor e honra, no Exército Português. Os nomes destes militares foram agora colocados nas paredes daquele Forte do Bom Sucesso, à semelhança do que já sucedera como o do Ten-Coronel Maggiolo Gouveia, fuzilado com seus companheiros de infortúnio pela FRETILIN, na antevéspera do Natal de 1975, nos arredores de Aileu/Timor.

Como considero ter havido umaa quota-parte de contribuição no esforço despendido, ao publicar em 1987, o livro “Guerra, Paz e Fuzilamentos dos Guerreiros; Guiné 1970-1980” (2007), quero agradecer aos dirigentes da Liga dos Combatentes, na pessoa do General Chito Rodrigues, o facto de terem considerado estes insignes militares (20 oficiais, 29 sargentos e 4 soldados) como representantes dos milhares (segundo o General António de Spínola) de guineenses igualmente fuzilados e enterrados em valas comuns pelo então novo governo da Guiné-Bissau. Tal aconteceu a outros militares dos três Ramos das Forças Armadas, milícias, autoridades gentílicas, cipaios, etc., que o General Nino Vieira, no jornal oficial do PAIGC, na sequência do golpe de Estado em que tomou conta do poder em Bissau, em 1980, considerou serem 500, enterrados em valas comuns de 35 a 38 pessoas.

A este propósito, considero que já devia ser tempo das actuais autoridades da Guiné-Bissau assumirem a suas responsabilidades históricas em relação a tais acontecimentos, antes de pedirem a ajuda humanitária ou a cooperação com Portugal. É que tal foi praticado, sem as vítimas serem julgadas nem ouvidas de acordo com os mais elementares dos Direitos do Homem. Na minha perspectiva ocorreu um autêntico genocídio.

Não quero deixar de destacar aqui e agora o grande militar que foi o meu amigo Coronel José Pais, falecido devido às sequelas dos ferimentos em combate na Guiné e que me exigiu a denúncia (em livro) do sucedido, antes de nos deixar em 2006; foi um oficial que sempre se empenhou em causas nobres de defesa dos desprotegidos e das vítimas das injustiças praticadas em Portugal e nos territórios ultramarinos.

Um genocídio em Angola e um massacre em Moçambique…

Assim como estes vergonhosos acontecimentos ocorreram durante alguns anos desde 1974, quando o PAIGC funcionava sob o “patrocínio” da então URSS (União Soviética), o genocídio que tinha caído inesperadamente sobre a populações brancas e nativas do Norte de Angola, em Março de 1961, segundo vários investigadores, terá sido apoiado pelos EUA, aquando da presidência de John Kennedy.

Nessa altura, em quatro dias de terrorismo fanático, foram levados a efeito assassínios de cerca de 7.200 pessoas (1.200 brancos), com tortura prévia, violações de mulheres e crianças e muitas mutilações de cadáveres.

Recordo que normalmente os escritores e jornalistas portugueses imbuídos de uma cultura de esquerda apenas costumam salientar alguns esporádicos massacres, durante a Guerra do Ultramar - infelizmente à semelhança do que tem ocorrido em qualquer guerra ao longo dos tempos -, como o foi o de Wiriyamu, em Dezembro de 1972. Sobre este caso, uma comissão da ONU (com países então adversos de Portugal), que não chegou a ir a Moçambique, veio dizer, em 1974, que tinha sido 400 o número de mortos. Marcelo Caetano afirmara anteriormente que era menos de um quarto desse quantitativo e eu, em 1994, depois de investigar sobre o assunto, concluí ser um número inferior a metade dos indicados (entre 154 e 188). Face ao descrito se pode avaliar a perspectiva com que se fazem análises sobre alguns acontecimentos conforme o posicionamento político ou os interesses de cada grupo, movimento de libertação ou país.

Voltando à Guiné…

Cunha Leal (1888-1970), um político que vinha do tempo da Iª República, e foi sempre um elemento activo contra o regime do Estado Novo, afirmava a propósito das declarações de Amílcar Cabral ao “Le Monde”, de 14-6-1961 e transcrito no seu mencionado livro (“Gadanha da Morte”):

(…) Como se acaba de ver, mais uma vez, vem a talhe de foice a impertinente e inconcebível tese de que nós, os portugueses, é que estamos a desencadear uma guerra de extermínio contra os povos africanos. Homens armados com equipamentos vindos de países comunistas, atacam inesperadamente, matam e esquartejam os colonizadores brancos, gabando-se ainda por cima, das suas sinistras façanhas, como o fizeram a um correspondente do “Le Monde”. Isto – repito – é para o sr. Amílcar Cabral, para os seu colegas de gang e – o que é mais lamentável – para um grande sector do chamado mundo civilizado, uma operação legítima, senão humanitária. Mas se nós, os portugueses (…) nos defendemos com unhas e dentes contra uma agressão injusta e abominável, então passarem os a praticar uma política de genocídio, o que faz pôr os cabelos em pé até aos próprios calvos deste mundo dementado. As coisas que se dizem sem resquícios de pudor intelectual e moral!”

Curiosamente este estilo de posicionamento do então líder do PAIGC, Amílcar Cabral, continuou a prosperar no decorrer de toda a Guerra do Ultramar, nas designadas elites da oposição ao regime e na propaganda e manipulação da opinião pública mundial contra Portugal.

E a onda chegou até Paris, onde Mário Soares ficou imbuído do designado “espírito descolonizador”, também transmitido pelos seus amigos dos movimentos de libertação; deste modo, quando chegou a hora de descolonizar no pós-25 de Abril, desconhecendo o que na realidade ocorria nos territórios, avançou para a entrega imediata das nossas possessões africanas. Mário Soares por um lado e Melo Antunes por outro, apressaram-se a fazer a descolonização, antes designada por exemplar e que este oficial, pouco tempo antes de falecer, já a apelidava de trágica. Quero ainda recordar o grande abraço de Soares a Machel, em Lusaka, quando ainda morriam militares portugueses em operações de combate em Moçambique.

Enfim, a história isenta deste período ainda está por fazer. Espero que todos os bons portugueses, actores e observadores dos eventos, que ainda estão vivos, possam colaborar neste desiderato.

Mais uma vez endereço as minhas felicitações à Associação de Comandos por ter lutado para que os nomes dos “seus” comandos guineenses tenham sido inscritos no Memorial dos Combatentes.

Igualmente, em meu nome, dos seus familiares e dos “comandos” guineenses exilados em Portugal, renovo os meus agradecimentos públicos à Liga dos Combatentes por ter salientado os nomes destes valorosos militares, que foram clandestinamente fuzilados “apenas” por terem combatido com coragem e tenacidade (muitos ao longo de uma década), no Exército Português.

Coronel Ref. Manuel Bernardo
8-11-2009

domingo, 8 de novembro de 2009

Lista de portugueses presos e desaparecidos em Angola antes e depois do fim da soberania portuguesa em 11 de Novembro de 1975

Este blog é livre e independente de todas e quaisquer ideologias, racismos, chauvinismos , etc... Aqui cabe tudo o que ajude a trazer luz a acontecimentos e factos que envolvam angolanos e portugueses nascidos ou não em Angola,  ocorridos no decurso da colonização, da descolonização, e nos momentos imediatamente a seguir à independência.
Que o conhecimento do passado nos ajude a melhor construir o futuro.


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domingo, 30 de agosto de 2009

A recolonização programada da África

Falar em "continente esquecido" é voltar a falar no "fardo do homem branco". Discurso sobre a artificialidade dos Estados africanos é desculpa para justificar sua destruição. Imperialismo jamais esqueceu um continente riquíssimo em recursos naturais — principalmente petróleo, minérios e diamantes. Potências intensificam o saque e promovem nova partilha.
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Nos últimos anos, a imprensa européia transmitiu ao mundo a imagem de uma África à deriva. Veículos como a Radio Nederland e a Deutsche Welle cansaram-se de referir-se ao "continente esquecido", intocado pelas bondades da chamada globalização.

Em discurso proferido na Universidade de Wits, em Johanesburgo (África do Sul) em dezembro último, o primeiro-ministro francês Dominique de Villepin também usou esta expressão e ofereceu os préstimos de seu país para que a África abandonasse esse status. No mesmo discurso, Villepin procurou justificar a intervenção militar na Costa do Marfim, onde Paris mantém mais de quatro mil homens no âmbito da chamada Operação Licorne, iniciada em 2002. Oito meses antes, em entrevista à revista L’Express, a ministra da Cooperação, Desenvolvimento e Francofonia (o ministério francês para as ex-colônias), Brigitte Girardin, explicou os motivos da intervenção: "a França não tem o menor interesse nos setores-chaves da economia marfinense, como o cacau, o café ou o petróleo. Nós temos uma ligação histórica e afetiva com a Costa do Marfim".

É em virtude desta "ligação histórica e afetiva", provavelmente, que o governo francês mantém na África um dispositivo militar de mais de 10 mil homens estrategicamente posicionados em bases militares localizadas no Senegal, Costa do Marfim, Gabão, República Centro-Africana, Djibuti, Reunião e Mayotte — essa última, uma ilha pertencente a Comores por cuja ocupação ilegal a França foi condenada reiteradas vezes na Assembléia Geral da ONU.

E deve ser por não ter também "o menor interesse em petróleo" que o governo do USA anunciou, no início de fevereiro, a criação de um comando militar especialmente dedicado à África, o Africom. Desde 2002, o USA mantém 1800 homens numa base militar no Djibuti, próxima ao Canal de Suez e na entrada do Mar Vermelho, zona de mais intenso tráfego petrolífero no mundo.
Colonialismo humanitário

Não é a primeira vez que propósitos caridosos são esgrimidos para justificar o saque aos recursos do continente. O colonialismo do século XIX foi impulsonado pelo discurso de que cabia aos europeus cumprir uma missão civilizadora na África, missão que seria, na expressão do poeta Rudyard Kipling — partidário fervoroso do imperialismo vitoriano —, o "fardo do homem branco". Foram estes ideais filantrópicos que levaram Cecil Rhodes a iniciar o saque dos diamantes da Namíbia e da África do Sul, ainda hoje a principal fonte de sustento do monopólio fundado por ele, a De Beers, e da Anglo American. Um século depois, não são poucos os que se dispõem a seguir a trilha aberta por ele.

As companhias de petróleo estão entre os primeiros da fila. A crescente resistência antiimperialista no Oriente Médio faz com que a cobiça das corporações do setor e dos Estados aos quais elas estão ligadas volte-se para a África. Em sua Estratégia de Segurança Nacional apresentada em 2002, o governo ianque fala na necessidade de incrementar a exploração do petróleo africano. Hoje, aproximadamente 15% do petróleo produzido no mundo vem do Golfo da Guiné (que estende-se da Costa do Marfim até Angola). Prevê-se que esta proporção chegará a 25% em 2015.

O interesse do imperialismo não se limita às matérias-primas. Monopólios do setor de telecomunicações disputam os mercados africanos. Nos dois primeiros meses deste ano, várias transações importantes ocorreram. A Sonatel, sediada no Senegal e pertencente à France Telecom, venceu a Global Voice, do USA, na disputa pela exploração da telefonia celular na Guiné Bissau. A Maroc Telecom (que pertence ao truste francês Vivendi e negocia suas ações nas bolsas de Paris e Casablanca), engoliu a até então estatal Gabon Telecom. Pouco antes, a mesma Maroc Telecom havia açambarcado a Onatel, ex-estatal de Burkina Faso, vencendo uma disputa com a France Telecom e a alemã Detecon. A empresa controla também, desde 2001, a ex-estatal Mauritel, da Mauritânia.
Mitos desfeitos

Estes dados contradizem a imagem de um continente incapaz de atrair investimentos estrangeiros — aspecto apontado pela imprensa monopolista como causa da miséria africana. Outro mito diz respeito ao alegado fator de inibição desses investimentos: as guerras civis étnicas, que causariam instabilidade e prejuízos à infra-estrutura, afugentando os monopólios.

A África é, de fato, um lugar devastado. Mas essa devastação não é senão um mecanismo de que o capital estrangeiro lança mão para poder iniciar ou manter em curso seus empreendimentos.

Um exemplo de país arrasado é o Congo (ex-Zaire). Seu território é rico em ouro, urânio e petróleo e guarda as maiores reservas de coltan (colômbio-tântalo) do mundo. O coltan é vital para fabricação de aparelhos eletrônicos, principalmente telefones celulares.

No final dos anos 90, a pretexto de proteger a população tutsi do Congo, o exército ruandês invadiu o país. Em 99, um acordo celebrado em Lusaka, na Zâmbia, dividiu-o em duas zonas, uma controlada pelo governo de Kinshasa, outra nas mãos de grupos ligados à Ruanda.

O exército ruandês transporta o coltan até seu país e, de lá, o envia para a Europa. Através dos aeroportos de Entebbe (Uganda) e Kigali (Ruanda), companhias aéreas como a belga Sabena levam o mineral e trazem armas. Mas a gerência ruandesa não é senão o intermediário a soldo de capitais europeus.

Nas zonas sob seu controle, foram canceladas as licenças para exploração de coltan anteriormente concedidas a companhias ianques e instituído o monopólio da Sociedade Mineradora dos Grandes Lagos (Somigl), controlada pela belga Cogecom através de uma subsidiária. É a Somigl quem paga 10 dólares por quilo de coltán e o revende a 250 ou 300 dólares em Londres. Um de seus melhores clientes é a alemã Starck (subsidiária do monopólio químico-farmacêutico Bayer), que produz 50% do tântalo em pó no mundo. As operações financeiras relacionadas ao negócio são realizadas, em sua etapa africana, através do BCDI, correspondente bancário do Citibank (do USA) sediado em Kigali.

Em fevereiro, esteve em evidência o conflito de Darfur, no oeste do Sudão. Os ianques divulgam as cifras de 400 mil mortos e 2,5 milhões de desabrigados — impossíveis, se levarmos em conta que Darfur não tem 6 milhões de habitantes. O USA propaga a mentira de um conflito entre árabes e negros, chegando a falar em "limpeza étnica" — isto quando, segundo explica o professor Mahmood Mamdani, do departamento de Estudos Africanos da Universidade de Columbia (USA), em artigo publicado na revista Black Commentator, "todas as partes envolvidas no conflito de Darfur — fale-se em ‘árabes’ ou ‘africanos’— são igualmente autóctones e negras; todos são muçulmanos e todos são dali; os chamados "árabes de Darfur" são africanos que falam árabe".

Para compreender o interesse do USA pelo Sudão é necessário ter em conta que o país é riquíssimo em petróleo. O discurso sobre a "artificialidade" dos Estados africanos visa legitimar sua destruição no quadro de uma nova partilha colonial do continente. O fato é que o USA estimula o separatismo no Sudão e transmite a imagem de um país submerso em conflitos regionais de fundo étnico para tomar conta de parte do petróleo — hoje em mãos da francesa Total e da chinesa CNPC. França e China, obviamente, apóiam o regime de Cartum.
A dupla face da infâmia

A mentira gêmea desta sobre a ausência de conexão entre os conflitos armados e os interesses do capital monopolista é aquela que apresenta tais conflitos como "prova" de que os países africanos estão fadados à instabilidade ou à guerra por fatores internos.

De fato, minorias nacionais diversas convivem em vários países africanos e têm suas rivalidades — a exemplo do que acontece na França, Espanha e Bélgica. E realmente, as fronteiras de muitos Estados da África foram traçadas numa mesa de negociações — assim como as de praticamente todas as nações européias o têm sido desde a conferência de Westfalia.

Quem controla diretamente a política monetária de 15 países africanos é a França

As raízes da tragédia africana estão antes na prevalência do colonialismo do que em seu suposto fim. Mesmo porque não se pode falar seriamente em independência em países onde não se verificam requisitos elementares de soberania. Um deles: moeda nacional.

Quem controla diretamente a política monetária de 15 países africanos é a França. A moeda corrente nas ex-colônias francesas de Benin, Burkina, Camarões, Chade, Costa do Marfim, Gabão, Mali, Níger, República Centro-Africana, República do Congo, Senegal e Togo é o franco CFA (sigla de Comunidade Financeira Africana). Recentemente, a Guiné Bissau e a Guiné Equatorial, respectivamente ex-colônias portuguesa e espanhola, caíram na zona do franco, renunciando a suas moedas. Em Comores — país cujas matérias-primas sustentam a indústria francesa de cosméticos e onde a França já promoveu mais de vinte golpes de Estado nos últimos trinta anos —, circula o franco comorense, subordinado às mesmas regras: câmbio fixo, conversibilidade plena (primeiro ao franco francês, agora ao euro sob garantia do Tesouro da França) e cotação definida pela França, que também controla as emissões. Os bancos centrais africanos são meros conselhos da moeda (currency boards) à moda colonial, sem nenhuma autonomia para a formulação de políticas.

O Estado imperialista francês tem, assim, a chave do controle das economias desses países. Em 1994, a França, em conluio com o FMI, desvalorizou, unilateral e repentinamente, o franco CFA em 50% relativamente à sua moeda — o que significou quebrar, de uma canetada, as economias dos países atingidos, todos eles fortemente dependentes de importações.
Sangria desatada

Na África, como em todo o mundo, a ação do capital estrangeiro gera sangria de divisas, e não enriquecimento. Inclusive quando a exploração imperialista traveste-se de "investimento produtivo": Angola, segundo maior exportador africano de petróleo, enfrenta desequilíbrios em sua balança de pagamentos porque as transnacionais do setor importam os bens de produção que utilizam.

A "solução" encontrada pelo imperialismo e pelas classes dirigentes compradoras é a mais cruel possível: incremento da exploração do campesinato. A produção agropecuária é cada vez mais direcionada à exportação visando cobrir déficts. E aqui se desfaz outra idéia falsa sobre a África: o continente da fome exporta alimentos. A paupérrima Burkina Faso fornece açúcar à França, a faminta Etiópia produz carne para o mercado inglês. É verdade que os países africanos também importam comida — ou recebem-na do USA e da Europa em programas de "ajuda humanitária" que não passam de dumping contra os produtores locais. Mas só importam porque exportam: como toda sua produção é voltada ao mercado externo, faltam alimentos para seus habitantes. É exatamente por isso que um dos itens da pauta de reivindicações da greve geral que parou a Guiné em janeiro era a suspensão das exportações de gêneros de primeira necessidade.

Mais uma vez, o imperialismo lucra com falsas soluções para problemas que ele mesmo criou: recentemente, as fundações Gates e Rockefeller anunciaram um programa de modernização da agricultura africana à base de pacotes tecnológicos da chamada "revolução verde": pesticidas, sementes trasngênicas, etc.

De acordo com Eric Holt-Gimenez, Miguel Altieri y Peter Rosset, pesquisadores da Universidade de Berkeley (USA) e militantes do movimento Food First, o programa funcionaria como um instrumento de expropriação dos camponeses: obrigados a endividar-se para fazer frente aos custos desses pacotes, grande parte deles terminaria por perder a terra.
Mas os povos lutam

À medida que se aprofunda a exploração, avoluma-se também a resistência.

Em novembro último, a população de Abdijã, capital da Costa do Marfim, protestou em massa contra a intromissão da França nos assuntos do país. O Exército francês disparou contra os manifestantes, matando 64 civis.

Na Nigéria, maior exportador de petróleo do continente e responsável por 10% do fornecimento ao USA, o monopólio anglo-holandês Shell viu-se forçado, no último mês, a evacuar suas instalações e suspender a prospecção depois que algumas de suas áreas foram tomadas por camponeses armados.

No Senegal, os ferroviários estão na linha de frente da luta contra a desnacionalização da economia e deflagraram uma greve contra a privatização da linha Dacar-Níger. Mas onde o movimento sindical se mostra mais forte é na Guiné: a greve geral de janeiro arrancou da gerência do Estado a redução do preço do arroz e dos combustíveis e a suspensão das exportações de gêneros de primeira necessidade.
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* A África e a africanização
* Orgulhoso e livre, o Congo se levantará da terra negra
* Notícias da África indomável
* Outra África é possível com o socialismo
* O triunfo do pós-colonialismo na África
* Máquina neocolonial tritura pobres no Quênia
* Imperialismo e a tragédia no Zimbábue
* Bloco da farsa eleitoral desfilou também em Angola
* Quem são os piratas?
* O império requisita a África
* Só meia liberdade pode ser negociada
* África: os 50 anos da 'descolonização'

In  NOVA DEMOCRACIA

sábado, 15 de agosto de 2009

Historia de Angola


Escravos "cangados" (foto Net)

HISTÓRIA DE ANGOLA

Valêncio Manoel

INTRODUÇÃO

A vida e a história de qualquer país começam com o conhecimento da história cultural do seu povo. Assim é para quem investiga os problemas complexos da jovem nação angolana, que está, na atualidade, perante o seu maior desafio como país independente. São muitas as questões enfrentadas, entre elas a de estabilizar a economia, pacificar os espíritos marcados por mais de trinta anos de guerra civil, encontrar os rumos da democracia norteada pelas reformas sociais para diminuir o estado de pobreza absoluta que tem assolado todo o país, melhorar suas péssimas condições sanitárias e ambientais.

Entre todas as dificuldades a maior delas está em instituir um ponto final na situação político-militar do país. Sem capacidade para resolução destas variáveis estruturais, o povo angolano segue a sua trajetória histórica marcada por longos retrocessos e pouquíssimos avanços na sua afirmação como nação soberana.

A presente dissertação teve origem no trabalho que realizamos naquele país, como voluntário das Nações Unidas, durante os anos 1995 a 1997. Angola encontra-se atualmente com péssimos índices sanitários, conseqüência dos longos conflitos bélicos ocorridos no país. Para melhorar esses índices foi desenhado o Projeto de Reabilitação Urbana e Ambiental de Lobito e Benguela, com o objetivo de dar estrutura sanitária e ambiental às duas cidades que, em função do Porto de Lobito, desempenham papel importante de corredor de exportação para os países vizinhos e toda a porção central de Angola.

Financiado por: Banco Mundial, Agência Sueca de Desenvolvimento, Agência Norueguesa de Desenvolvimento e Governo Angolano, o Projeto saiu do papel trabalhando com comunidades e beneficiando os mais carentes da Província de Benguela.

Nosso objetivo nesta dissertação foi descrever e analisar o projeto, uma vez que ele apresenta aspectos inovadores: financia diretamente as ações do poder local e da comunidade sem interferência do Governo Central; privilegia tecnologias e ações de baixo custo; forma recursos humanos nas comunidades locais.

Uma avaliação de seus resultados pareceu-nos importante para identificar seu potencial de reprodução em outras regiões africanas.

Para melhor entendimento do projeto, consideramos necessário descrever primeiramente o contexto histórico, geográfico e sócio econômico em que ele se desenvolve. Desse modo, no Capítulo 1 dissertamos sobre a história de Angola. (...)

CAPÍTULO 1 - CONTEXTO HISTÓRICO

A FORMAÇÃO TERRITORIAL E A DIVERSIDADE ÉTNICA NA CONQUISTA COLONIAL


CONTINUA... CLICAR AQUI

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Angola: lugar de castigo ou jóia do império: o degredo na historiografia e fontes (Séc. XIX)


Angola: lugar de castigo ou jóia do império: o degredo na historiografia e fontes (Séc. XIX)


AS RAZÕES DE VICENTE FERREIRA



Nova Lisboa — Capital de Angola
por:
Leonel Cosme
Quem viveu muitos anos nas ex-colónias portuguesas não estranha que o contacto com as terras e os povos tenha produzido, mesmo em altos fun-cionários do Estado que cumpriam efémeras comissões de serviço (normal-mente de dois anos), uma consciência da realidade que, em muitos casos, conflituava com os estereótipos formados pela visão das colónias como feitorias, não exigindo grandes empenhamentos nem dispêndios: até houve quem propusesse a sua venda ao estrangeiro...
O exemplo mais construtivo das “correcções” à política colonial foi seguramente o de Norton de Matos, que conseguiu, no seu segundo mandato, em 1921-1923, já com o título de Alto Comissário, ampliar os poderes que eram atribuídos aos governadores-gerais, a cujas “ousadias” o Governo Cen-tral fazia orelhas moucas. É o caso das “pretensões” sobre o desenvolvi-mento do ensino público formuladas por “africanistas” como Custódio Borja, Alves Roçadas, Jaime de Morais, João de Almeida ou Massano de Amorim, na linha aliás preconizada anteriormente pelo ministro do Ultramar Rebelo da Silva. Neste contexto, o mais “rebelde”, Filomeno da Câmara, ousou mesmo criar, em 1919, à revelia do Poder Central, o Liceu de Luanda e duas Escolas Primárias Superiores, em Sá da Bandeira e Moçâmedes, que seriam regulamentadas, três anos depois, por Norton de Matos.
A última “ousadia” foi a do governador Venâncio Deslandes, ao criar, em 1962, os Estudos Gerais Universitários, que Salazar se viu “compelido” a ra-tificar no ano seguinte (já sopravam os “ventos da mudança”), mas em con-sequência do que foram demitidos o Governador-Geral de Angola e o Minis-tro do Ultramar, Adriano Moreira...
No seu primeiro mandato (1912-1915), depois de ter passado pela Índia, Norton “aprendeu” que Angola não podia continuar a ser encarada como “feitoria” ou “colónia penal” para onde a Metrópole escoava condenados e aventureiros, mas um espaço onde teriam lugar os portugueses ambiciosos e empreendedores que, não “cabendo” já no Brasil independente, seriam os agentes do projecto “avançado” (mercantilista) que ele tinha para o Ultramar. De imediato, reconhecendo que era imperioso dilatar as vistas da Angola histórica, litorânea, para o interior inexplorado, começou por fundar, logo em 1912, o burgo do Huambo, que a partir de 1928, no governo do Alto Co-missário Vicente Ferreira, se chamou Nova Lisboa.
A Metrópole ouviu Norton de Matos, pelo menos durante o ano em que, saído de Angola, foi Ministro das Colónias, donde transitou para o Minis-tério da Guerra. Quando António Vicente Ferreira, em 1923, sucedeu a Nor-ton no Ministério das Colónias e em 1926-1928 no governo de Angola, já a semente deixada por Norton estava em plena germinação: ainda em 1928, Vicente Ferreira defende que a capital de Angola deveria ser transferida para Nova Lisboa, ideia que, no distante Terreiro do Paço, teria soado como uma fantasia de africanista enfeitiçado pela magia dos trópicos... Mas em 1933, já na vigência do Governo de Salazar, ainda reitera:
(...) Todas as considerações de ordem climatérica, sanitária, adminis-trativa, política e económica, que tornam imprópria a cidade de Luanda, para servir de capital da moderna Angola, colónia agrícola e de povoa-mento, recomendam a Nova Lisboa para esse efeito. E porque, em maté-ria de colonização moderna — talvez mais do que em outras obras huma-nas, as oportunidades mal surgem para logo desaparecerem, supomos que acertadamente andariam os homens de governo, se, aproveitando a razão favorável, lançassem com energia os fundamentos da grande obra de colonização de Angola: o povoamento —, com o seu corolário neces-sário: — a transferência da capital. E deste asserto diremos os porquês.
E primeiro porque é asado o momento.
Temos nós, como todo o mundo, actualmente, a nossa legião dos sem-trabalho, todos os dias acrescida pelo contingente dos que são repelidos, pela crise do Brasil e doutros países de imigração. Muitos cuidados e despesa custa a assistência que só a pequeno número se presta, na Me-trópole, com trabalhos públicos e municipais adrêde inventados, e por isso nem sempre dos mais justificados pela utilidade pública. Suportam assalariados e patrões o peso do impôsto a esse fim destinado, e sendo este encargo já modesto para a maioria dos que o pagam, ele teria de ser muito maior, se a todos os sem-trabalho, como de justiça, se acudisse; e porque nem é possível agravar este impôsto, nem fácil multiplicar inde-finidamente o número de obras públicas e municipais, forçoso é lançar mão daqueles recursos extraordinários, que a necessidade sugere, a ra-zão aconselha, e a previdência dos homens de Estado sabe reconhecer e aplicar.
(...) É Angola o natural destino daquele excedente de população, que as difíceis condições do mundo, na época presente, acumulou no terri-tório da Metrópole, onde não encontra trabalho adequado nem meios de subsistência. E porque as características do mal, com as suas reper-cussões sociais, que se antevêem perigosas, e a perspectiva do seu agra-vamento futuro, exigem que o remédio não tarde; e porque outras cir-cunstâncias de ordem externa, parecem aconselhar diligências no que toca a Angola, diremos que o momento é asado. (...)
Como é sabido, Salazar não afinava pelo mesmo diapasão: aos portu-gueses que quisessem emigrar para as colónias de África era exigida uma “carta de chamada”; e para o estrangeiro, só a salto... E quanto a pensar que transferindo a sede do poder político-administrativo de Luanda para o Pla-nalto Central se criaria ali um grande pólo de desenvolvimento do interior, ninguém, que saibamos, se deixou impressionar pela “ousadia” de Juscelino Kubitschek de Oliveira, ao transferir, em 1960, a capital federal do Rio de Janeiro para o Planalto Central do Brasil...
Leonel Cosme

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Declarações de Salazar a Franco Nogueira


«Isto é só para safados.»
Salazar a Franco Nogueira, 1966




In Franco Nogueira, «Um político confessa-se (Diário 1960-1968)»


Lisboa, 29 de Agosto de 1963.

«Não há dúvida: os americanos evoluíram alguma coisa, mesmo muito», principia Salazar. «Há ano e meio, há dois anos, julgaram que uma pressão, uma ameaça, um ultimato nos fariam cair, ou pelo menos modificar a nossa política. Bem: já viram que não dava resultado, desistiram. E eles próprios vêem os seus interesses afectados, têm muitos problemas, não sabem como resolvê-los, e estão perplexos. E por isso nos mandam um emissário especial de alta categoria, sem que o tivéssemos solicitado. Muito bem. Mas que nos vem propor? Na conversa consigo e na que teve comigo, reparei que Ball usou repetidamente estas palavras: assegurar a presença, a influência e os interesses de Portugal em África. Ora que significa isto? Que está por detrás disto? Que conteúdo têm estas palavras?
A verdade é que se Angola ou Moçambique são Portugal, este não está nem deixa de estar presente: é, está. Presença, para os americanos, quer dizer outra coisa: a língua, a cultura, alguns costumes que ficassem durante algum tempo até sermos completamente escorraçados. Isto e nada, é o mesmo. E o mesmo se quer dizer com a influência e os interesses. Com isto pretendem os americanos dizer que seriam garantidos os interesses económicos da metrópole, isto é, de algumas empresas ou grandes companhias. Mas tudo isto não vale nada. Que a economia comande a política é particularmente verdadeiro quanto a África. Bem vê: quem tem o dinheiro é que empresta, quem produz é que exporta; e quem tem dinheiro e empresta, e depois não lhe pagam, é levado a emprestar mais e mais; e para garantir esses novos empréstimos é depois levado a intervir, a controlar, a dominar as posições chave. E quem produz é que exporta; mas quando lhe não pagam as exportações, reembolsa-se com a exploração do trabalho e das matérias-primas locais. E ao fazer tudo isto é evidente que expulsa a influência e os interesses económicos de outros mais fracos, que nem podem emprestar tanto, nem exportar tanto. É o neo-colonialismo. Ora, meu caro senhor, nós não poderemos comparar a força económica e financeira da metrópole com a dos Estados Unidos. E o senhor está a ver, não está? Os americanos a oferecerem empréstimos baratos e a longo prazo; os americanos a oferecerem bolsas de estudo para formar médicos, engenheiros, técnicos nos Estados Unidos; os americanos a percorrer os territórios com a propaganda dos seus produtos. Em menos de um ano, de português não havia nada. Não, meu caro senhor, uma vez quebrados os laços políticos, ficam quebrados todos os outros. Mas então, sendo Angola parte de Portugal, não podem os americanos investir e exportar? Podem, decerto, mas têm de negociar com uma soberania responsável e com um governo que sabe exigir, ao passo que se o fizerem com um governo africano, inexperiente e fraco, sai-lhes mais barato. De resto, tudo isto está demonstrado: veja a Argélia, veja o Congo. Mas, para nós, o Ultramar não é economia, e mercado, e matérias-primas, e isso os americanos não o podem entender. Bem: este é um aspecto. Mas que quer dizer Ball com os prazos? É evidente que se os americanos estivessem dispostos a aceitar que Angola seja Portugal, não falavam de prazos. Poderiam querer discutir ou negociar connosco uma qualquer construção política ou jurídica que coubesse nos seus princípios teóricos, e depois apoiar-nos-iam sem reservas. Mas não: querem um prazo. Um prazo, para quê? E que se passa findo esse prazo? E enquanto decorre esse prazo, não acontece nada? Deixamos de existir no mundo, não se fala mais de nós? E os terroristas cessam os seus ataques? Ah!, mas se os americanos podem garantir que os terroristas depõem as armas, então é porque têm autoridade sobre os terroristas, orientam-nos, estão em contacto com eles. E os terroristas depõem as armas sem mais nada? Não exigem condições, não apresentam preço, e os americanos não assumem compromissos? Quais, como, para quando? E que promessas fazem ou fariam à Organização da Unidade Africana? E como justificaria esta o seu silêncio sobre nós e a ausência de ataques contra Portugal? Não, meu caro senhor, os americanos continuam a pensar que com jeito, docemente, conseguem anestesiar-nos e impelir-nos para um plano inclinado. (…) Está claro que se aceitássemos o caminho dos americanos, em troca do Ultramar choveriam aqui os dólares, receberíamos umas tantas centenas de milhões. Ficaríamos para aí todos inundados de dólares e de graça. E sabe? Os que vierem depois de nós ainda haveriam de dizer: afinal era tudo tão fácil, não se percebe mesmo por que é que aqueles tipos não fizeram isto. Mas os dólares iam-se num instante, deixavam umas fábricas e umas pontes, e depois começava a miséria. Duraria o ouro dois ou três anos. Depois era a miséria, a miséria, a dependência do estrangeiro. E em qualquer caso é-nos defeso vender o país.»
http://www.causanacional.net/index.php?itemid=373

OS ESQUELETOS NOS ARMÁRIOS

1ª parte: os ossos do colonialismo

«Ah, se eu tivesses menos vinte anos! Que faria ? Havia de pôr os brancos contra os brancos em África, e os pretos contra os pretos, e brancos e pretos uns contra os outros e nós haveríamos de sair incólumes no meio de tudo». Frase proferida por Salazar em 1966 de acordo com o que vem exarado no livro de Franco Nogueira “Salazar O ultimo combate 1964-1970” 4ªedição ( 2000) da Companhia Editora do Minho S.A.

Nos Estados Unidos e na Inglaterra é comum usar-se a frase “ fulano tem esqueletos nos armários”. O que significa? É uma metáfora: quando uma pessoa fez no passado acções pouco dignificantes ou tem na família membros que envergonham, de tal maneira que não quer que se saiba, diz-se que “fulano tem esqueletos nos armários”.
Uma explicação para esta frase assenta em uma anedota. A netinha pergunta: avozinha, o que é um amante? Amante, resmunga a avó, lívida, pondo a mão na testa, como que a recordar-se, e disparando em direcção ao sótão com a presteza que os anos lhe permitem. Depois de se arrastar pelas escadas, entra no sótão, vai directa a um grande armário, abre uma das portas e fica petrificada: de dentro, muito hirto, como é óbvio, cai um esqueleto nu.
Em África só houve quatro países onde se registaram colonizações europeias: Argélia,Angola, Moçambique e Zimbabué (ex-Rodésia do Sul). Nestes países podemos afirmar que houve colonialismo e colonização. Nos restantes países africanos apenas houve colonialismo. Este verifica-se quando os metropolitanos não se fixam, apenas desempenham cargos de funcionalismo, sempre com o fito de um regresso. Há colonização quando os metropolitanos se fixam com carácter permanente, onde lhes nascem os filhos e onde procuram o “ultimo refúgio na velhice”. Edificam uma casa com jardim à frente e horta e pomar no quintal. Há que distinguir entre colonialismo e colonização; em Angola é fácil distingui-los.
Angola teria beneficiado imenso se em vez de descolonização tivesse havido um descolonialismo! Este,sim, acabava com o colonialismo, principal causador do atraso cultural, económico e, principalmente, social.
O sótão da história colonial portuguesa tem dois grandes armários: o do colonialismo e o da descolonização. Armários grandes com trinta esqueletos. No primeiro, o do colonialismo, jazem quinze esqueletos, todos começados por C que é a primeira letra de colónia: cidadania, contrato, centralismo, cultura, comunicações, conhecimento científico da colónia, centrifugação do capital, crédito, consumo, castigos corporais, censura, colonatos, cartas de chamada, carências de energia, e compadrios (concessões, comissões, condicionamentos e cunhas).
Erros cabeludos que persistiram até ao início do” Tempo Extra”(1961), e alguns até ao “arriar do glorioso pendão das quinas”. Erros que deixaram os quinze esqueletos que atestam as causas de todas as tragédias que viriam a seguir e que, infelizmente, perdurarão durante umas boas (ou más, se persistir o egoísmo actual dos dirigentes) dezenas de anos.
O “Tempo Extra” refere-se aos 13 anos finais do colonialismo (1961 a 1974) em que o governo metropolitano finalmente acabou com um cipoal obsoleto de leis e proibições e tentou desenvolver a colónia. Muito se fez, mas não foi o suficiente, as partes social e política falharam, estrondosamente.
Façamos, resumidamente, porque eles serão dissecados exaustivamente ao longo destas mucandas, a exumação destes esqueletos. Esta exumação é mais do que legítima, não é que se pretende exumar o esqueleto do D.Afonso Henriques primeiro rei de Portugal (século12)!

CONTINUA....
http://psitasideo.blogspot.com/2009/02/os-esqueletos-nos-armarios.html


Luiz Chinguar

Entrevista com Adriano Moreira : "Tive um poder enorme como ministro do Ultramar"

Actualmente, Adriano Moreira é presidente da Academia das Ciências de Lisboa

Actualmente, Adriano Moreira é presidente da Academia das Ciências de Lisboa Foi o todo-poderoso ministro do Ultramar. Delfim de Salazar, entrou em litígio com Marcello Caetano e conseguiu o milagre único de transitar para a democracia. (Contém versão integral da entrevista que foi publicada na edição do Expresso em banca)

Ana Soromenho e José Pedro Castanheira


Transmontano, de 86 anos, Adriano Moreira foi o único ministro de Salazar que fez uma transição tranquila para a democracia. Foi presidente do CDS, deputado e vice-presidente da Assembleia da República. No plano académico nunca deixou de exercer a tutela científica no "seu" Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP).

Recebeu-nos na Academia das Ciências de Lisboa, a que preside, e que tem marcado com um notável dinamismo. Nessa manhã, Adriano Moreira acordara às quatro da madrugada para ir ao aeroporto receber pessoalmente, cavalheiro como sempre, Graça Machel, que veio a Lisboa representar o marido, na homenagem prestada pela Academia a Nelson Mandela.

Para breve, está anunciado o lançamento do aguardado livro de memórias, A Espuma do Tempo. Memórias do Tempo de Vésperas, editado pela sua velha editora, Almedina. Esta conversa, marcada semanas antes, tinha o propósito de um balanço de vida. Mas, logo de início, Adriano Moreira avisou que a entrevista teria que se cingir às matérias do livro. De fora ficaram os dias da revolução, a ressaca que constituiu o saneamento do ISCSPU, os dois anos de exílio no Brasil, o regresso à academia e à vida política activa, a sua transformação, em suma, em grande senador. Ao longo das três horas de conversa que, por vontade dele, incidiu exclusivamente sobre o Estado Novo, o professor nunca pronunciou a palavra "ditadura".

Comecemos então pelo livro. Está prometido há mais de dez anos

Não tenho recordação de ter prometido este livro a ninguém, só tenho recordação de me terem solicitado que escrevesse um livro de memórias. Tenho sempre uma prevenção em relação a este tipo de livros. A memória é muito condescendente connosco. Tem a piedade de aligeirar as coisas. Por isso, este título: Espuma do Tempo. A essas memórias procurei ser fiel. Tive alguma dificuldade material em realizá-lo, porque não tenho documentação. A que tinha, guardava-a no Centro de Estudos do ISCSPU e durante a revolução desapareceu. Não faço ideia do que lhe aconteceu.

Foi destruída?

Estou a dizer que não sei o que lhe aconteceu. Desapareceu.

Nunca escreveu diários?

Não. Recorri a alguns apontamentos.

E aos arquivos?

Também não. Os historiadores tratarão de encontrar referências, não estou preocupado com isso. Quis escrever sobre o meu sentimento, recordação e valoração do que o meu espírito conserva.

Falou com pessoas?

Falei comigo. É da minha exclusiva responsabilidade e do meu diálogo íntimo.

Fê-lo por uma necessidade de deixar o testemunho para a história, ou por uma vontade de ser o professor a escrever a sua história?

Não foi isso. O livro começa com uma carta, que data de Abril de 1974. Nunca mais escrevi durante anos. A carta era uma mensagem para os meus filhos e foi com esta decisão íntima que resolvi continuá-la.

Escreveu à mão?

Sempre. Escrevia à máquina, mas verifiquei que muda o estilo. Já não me reconhecia quando me traziam o texto. Voltei à minha caneta. Mostra o bolso interior do casaco.

Azul ou preta?

Não faço muita questão, cores vivas é que nunca. Não tenho essa necessidade de identificação. Tira a Montblanc de aparo.

São as mesmas com que assinava os seus despachos como ministro do Ultramar?

As canetas também se perdem. Estas são as que estão agora de serviço.

Quanto tempo demorou a escrever o livro?

Fi-lo em duas etapas. Com uma interrupção de quase dez anos, não tinha pressa nem grande apego à publicação. Houve um momento em que acelerei porque vieram pedir para me fazer uma biografia.

Tenta manter o tom e a distância do observador.

É capaz de ser defeito de professor. É complicadíssimo separar participação e meditação.

Retoma o subtítulo "Tempo de Vésperas", o mesmo das crónicas que escreveu em 1971.

CONT....

http://aeiou.expresso.pt/tive-um-poder-enorme-como-ministro-do-ultramar=f459552

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

"Jornal "A Província de Angola", de 3 de Maio de 1974, página 5: Parte final do Artigo de opinião de Manuel João Tenreiro

"Jornal "A Província de Angola", de 3 de Maio de 1974, página 5: Parte final do Artigo de opinião de Manuel João Tenreiro.

O movimento triunfante das Forças Armadas, aplaudido pela esmagadora maioria do povo, veio pôr termo à mistificação política Ultramarina do extinto regime e acobertarmo-nos de um fim inglório, que se avizinhava à medida em que vinham aumentando as pressões internacionais, mesmo dos nossos aliados, que já estavam dando mostras de uma impaciência, a pressagiar piores acontecimentos.

Temos agora a grande oportunidade de formar uma verdadeira e sólida comunidade multirracial, através de instituições democráticas, que servirão de garantia à participação activa, consciente e livre de cada um de nós no Governo e Administração de Angola.

As primeiras declarações da Junta de Salvação Nacional, e, antes delas, das afirmações postas pelo general António Spínola no seu livro "Portugal e o Futuro" deixam-nos tranquilos a este respeito e cumulam-nos de motivos de regozijo ao condenarem frontalmente, tanto a orientação perfilhada pelo Governo anterior como a tese racista dos que advogam a entrega do Ultramar português, pura e simplesmente, às massas nativas, com a expulsão do homem branco.

Angola vai gozar, em breve, de autêntica autonomia política, administrativa e financeira, reservando a Metrópole segundo o pensamento do general Spínola e a linha de acção que preconiza, a nossa representação no estrangeiro, a defesa de todos os territórios e a coordenação da política monetária do espaço português.

Vamos ser chamados, deste modo, assumir responsabilidades de Governo e cumprir tarefas de salvação que, apesar da sua magnitude e transcendência, não deixarão de se realizar com inteligência, dedicação e redobrado amor por Angola.

A seu tempo nos serão confiadas estas tarefas e responsabilidades, mas mesmo antes que tal aconteça devemos permanecer firmes e unidos nos ideais que farão a nossa grandeza e salvaguardarão a dignidade nacional, lutando para assegurarmos a paz, o respeito fraternal entre as diversas etnias, a indiscriminação racial, o usufruto das riquezas da terra, sem reservas ou criminosas exclusões, o direito ao trabalho, justamente remunerado e o livre acesso aos diversos cargos e funções a que sejamos chamados a exercer pelo nosso próprio mérito e capacidade.

Não nos faltarão também cuidados, preocupações e momentos de desalento, mas isso não bastará para arrefecer os ânimos ou desviarmo-nos da linha de conduta aconselhada e que se impõe à nossa consciência de homem cristão e civilizados como o único meio de ajudar a formar a Nova Angola com que sonhamos".

retirado DAQUI

terça-feira, 21 de julho de 2009

A Descolonização Portuguesa Em Perspectiva Comparada Manuel Valentim Alexandre investigador Principal, Instituto de Ciências Sociais, Universidade de

A Descolonização Portuguesa Em Perspectiva Comparada
Manuel Valentim Alexandre investigador Principal, Instituto de Ciências Sociais,
Universidade de Lisboa


A descolonização portuguesa tem sido quase exclusivamente estudada numa perspectiva de tempo curto, privilegiando o período que vai da revolução de 25 de Abril de 1974 até à data da proclamação da independência de Angola, a 11 de Novembro dano seguinte. É bem claro, no entanto, que ela faz parte de um movimento mais vasto, de ordem global, iniciado logo após a
2.ª Guerra Mundial e, nalguns casos, com raízes mais longínquas– e que só nesse contexto pode ser plenamente analisada, nos seus pontos comuns e nas suas especificidades. Trata-se de um vasto programa, que supõe um trabalho de pesquisa em grande parte ainda por fazer. No presente texto, de carácter meramente introdutório, alinham-se apenas algumas ideias gerais, de ordem comparativa, na esperança de que possam servir de pontos de referência para uma reflexão sobre o caso português.

Os Impérios Coloniais Europeus
após a 1.ª Guerra Mundial

Por vários aspectos, o período entre os dois conflitos mundiais pode considerar-se como o ponto culminante do sistema colonial europeu. É por essa altura que ele atinge a sua máxima expressão territorial, após a ocupação efectiva das possessões africanas, concluída durante a Grande Guerra, no essencial, e a partilha das regiões do império turco do Médio Oriente pela Inglaterra e a França, determinada em 1919 pelo Tratado de Versalhes (embora sob a forma de mandatos). Para além da sua superioridade militar, que as campanhas de ocupação tinham tornado patente, a Europa prevalecia-se da força da sua economia e sobretudo do brilho da sua civilização, que – a seus olhos –sobrepujaria todas as outras. Segundo muitas das formulações doutrinárias da época, a colonização encontraria a sua justificação e a sua legitimação tanto no aproveitamento dos recursos necessários ao progresso da humanidade como na transmissão às “raças atrasadas” ou mesmo “primitivas” dos valores culturais e técnicos da “raça branca”1. Nestes termos, o domínio imperial era visto como um facto histórico natural e inquestionável, destinado a perdurar por longo tempo, com o consenso dos próprios colonizados, incapazes de se governarem a si mesmos. Essa perspectiva parecia adequar-se particularmente às realidades vividas nas possessões africanas, onde um número restrito de europeus controlava então milhões de habitantes, sem sobressaltos de maior, com recursos limitados e forças armadas muito reduzidas.
A teoria de Ronald Robinson – com a sua ênfase no uso pelas potências imperiais de grupos locais colaborantes como intermediários, sendo esse o principal mecanismo de controle sobre
o mundo não europeu2 – encontra aqui o seu terreno e a sua época de eleição (o que não exclui a existência de formas de resistência a esse mesmo controle).
No entanto, ainda nesta sua fase de apogeu, é possível discernir sinais de desajustamento na evolução do sistema colonial, com efeitos a longo prazo. Uma primeira brecha, embora ténue, resulta do peso que depois da 1.ª Guerra Mundial ganhou o princípio da autodeterminação
dos povos – peso por grande parte derivado das posições assumidas pelo presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, tendo em vista a solução das reivindicações das várias potências europeias no pós-guerra. Continua....

SALAZAR E A INDEPENDÊNCIA DE ANGOLA - UMA REVELAÇÃO INÉDITA


(DOIS E-MAILS QUE FAZEM HISTÓRIA

e
Carlos Mário Alexandrino da Silva)

DOCUMENTO Nº 01

To: Carlos Mário Alexandrino da Silva (E-mail)
Sent: Monday, September 17, 2001 12:00 PM
Subject: Salazar.doc

Meu Caro Professor e Amigo,

Como decerto sabe, se a herança de meu Pai foi parca em fidúcia e em bens materiais, não o foi em bens morais e em testemunhos de uma época em que viveu e em que trabalhou para Portugal.

A maior parte desses testemunhos me foi transmitida verbalmente, a seu tempo, e muitos deles eventualmente se esfumarão na minha memória. Outros, porém, deixou escritos e talvez um dia os mande publicar.

Entretanto um deles, por inédito, por se referir a uma independência de Angola e por ter sido por si testemunhado, merece que o transcreva e envie. Dele poderá fazer o uso que por bem entender. Gostaria, no entanto que o comentasse para mim.

Com um abraço amigo,

José Augusto Rebelo


Testemunho escrito por Fernando de Sá Viana Rebelo em 1979. Este texto insere-se num conjunto agrupado sob o título "Gente que conheci" e está intitulado "Salazar":

"Quando tomei posse do cargo de Vice-Presidente da Comissão Provincial de Angola da União Nacional, o Dr. Castro Fernandes, Presidente da Comissão Executiva da U.N. levou-me, a mim e aos restantes membros angolanos, ao Forte de S. João do Estoril, a fim de visitarmos Salazar".

Comigo, iam os Dr.s Neto de Miranda (a), Penha Gonçalves (b), Aníbal de Oliveira (c), Carlos Alexandrino da Silva (d) e Eng. Bessa Victor (e).

Entramos em uma sala modesta com uma mesa grande ao meio, em redor da qual nos sentamos. Pouco depois chegou Salazar que nos cumprimentou fitando-nos bem nos olhos, penetrantemente.

O Dr. Castro Fernandes apresentou-nos e disse que tínhamos ido ali para o cumprimentar.

Salazar, sorridente, respondeu afectuosamente e depois, um a um, perguntou o que fazíamos e quais eram os nossos propósitos.

Chegada a minha vez, deteve-se mais, dadas as múltiplas funções que desempenhava, como Vice da U.N., Vice da Associação Industrial de Angola e Representante da Companhia Mineira do Lobito.

Fiquei, então, a reconhecer o conhecimento profundo de Salazar sobre as coisa e gentes de Angola, citando nomes, funções e até números.

Em certo momento, perguntou-nos de chofre:

- Que pensam duma possível independência de Angola?

Ficamos todos calados sem saber que atitude tomar.
Salazar, curioso, fitando-nos por cima dos óculos, insistiu na pergunta.

O Dr. Castro Fernandes resolveu, então, responder por nós, porém Salazar, com um gesto, dissuadiu-o. Queria uma resposta nossa.
Em face do silêncio dos outros, comecei:

- A independência é inevitável. Angola cresce e com ela a ambição de nos governarmos sozinhos, embora ligados sempre a Portugal por laços não só afectivos e culturais como comerciais. Queremos, no entanto, uma Angola para todos, brancos, pretos e mestiços, em que não haja maioria de cores, mas maioria de idéias.

E espraei-me com entusiasmo sobre este assunto que me apaixonava, não obstante os acenos dos Dr.s Castro Fernandes e neto de Miranda para que parasse.

Salazar olhava-me impassivelmente, enquanto eu falava, e eu não sabia se estava a agradar-lhe ou não, nem, na altura me importei.

Ele perguntara e eu respondia com a minha verdade, que poderia não ser igual à sua. Quando esgotei a argumentação, fez-se um silêncio gelado e eu senti-me isolado, talvez mesmo arrependido.

Salazar falou então, pausadamente, como quem está dando uma lição:

Há bastante tempo que pensava na autonomia de Angola conducente à independência, no entanto achava que era cedo para tal se concretizar porque reconhecia que Angola e sobretudo Moçambique, que, inevitavelmente, desejaria seguir Angola, não tinham ainda uma elite capaz de, em todos os escalões, as governar, quer branca, quer preta, Havia falta de gente em quantidade e em qualidade, pois nada garantia que, entre os portugueses de Angola, todos aderissem à independência e se assim fosse essa pequena elite ficaria mais desfalcada. Por outro lado, a ONU só aceitaria uma independência com "os pretos governando" e isso poderia ser perigoso para a estabilidade da província. Assim, era preferível adiar a solução para tempos mais calmos e, quanto á guerra, não temia os resultados, pois seria ganha por quem melhor resistisse e em Portugal havia divisas necessárias para a prolongar anos e anos. Os Movimentos cansar-se-iam. O que receava era a retaguarda. Essa sim poderia ruir e então aconteceria o imprevisível, talvez o descalabro do país.

Não disse se lhe agradou, ou mesmo se concordou com a minha exposição. Ouvira e dera a sua opinião, depois da qual se despediu, acompanhando-nos amavelmente até quase ao portão de saída.

Quis tirar, conosco, uma fotografia, mas o Dr. Castro Fernandes não previra o seu desejo e não havia fotógrafo.

Tive pena de não ter um retrato com Salazar, homem que admirava e hoje depois de tanto ter visto, mais admiro."

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(a) Gustavo Neto de Miranda - julgo que ex-Juiz e, à época Presidente do Conselho de Administração da ANGOL (empresa petrolífera de Angola). Regressou a Portugal.

(b) Penha Gonçalves - brilhante advogado com escritório em Luanda. Era de origem indiana. Ainda tentou continuar em Angola. Perante a impossibilidade de uma vida tranqüila, motivada pela guerra civil, julgo que terá regressado a Portugal. Tinha uma família exemplar.

(c) Aníbal de Oliveira - se bem me lembro também era advogado, embora com pouca expressão;

(d) Carlos Alexandrino da Silva - Limitar-me-ei a dizer que era um dos homens a quem meu Pai queria bem, colocando-o no rol dos seus amigos.

(e) Bessa Victor - Engenheiro ligado às Obras Públicas (julgo que em nível de Diretor). Se bem me lembro, depois da independência de Angola, e a serviço do Governo do MPLA, assumiu a Direção de Aeronáutica Civil.


DOCUMENTO 02

To: José Augusto Fortes de Sá Viana Rebelo - Ilmo Prsidente da Câmara de Comércio Luso-Brasileira do Estado de Minas Gerais - Brasil
E-mail: Monday, September 7/2001

Meu Caro Amigo Dr. José Augusto:

Quero manifestar-lhe o meu profundo agradecimento pelo envio que se dignou fazer do conteúdo histórico, valiosíssimo, de um documento deixado pelo seu ilustre e valoroso Pai e meu maior e mais saudoso AMIGO Dr. Fernando de Sá Viana Rebelo, figura de PORTUGUÊS honradíssimo que amava acrisoladamente a Pátria que o ÉPICO cantou de forma poemática, tão nobre e expressiva, exaltando assim um dos mais gloriosos capítulos da sua história nacional.
Confesso que eu próprio já havia esquecido esse episódio do encontro que tivemos com Salazar e que deve ter ocorrido em 1965 ou 66 ( a memória está me faltando, é o fim a aproximar-se...), pelo que reconhecido lhe ficaria se, compulsando as memórias do seu finado progenitor, pudesse ajudar-me a localizar no tempo esse histórico evento em que de facto tomei parte- o que muito me honra e mais ainda a referência feita à minha pessoa, como Amigo, escrita pelo punho dessa grande figura da História de Angola na era colonial, que foi o Dr. Fernando de Sá Viana Rebelo, um autêntico Português Ultramarino, apaixonado por Angola e pelas suas gentes, que se orgulhava de sua ascendência miscigenada com forte raíz timorense. Lembro-me agora que seu Pai me avisou telefonicamente na véspera da partida para Lisboa, indicando-me o Barbosa Rodrigues ( diligente caboverdiano, chefe da secretaria da Comissão de Província da UN que trabalhava por ele e pelo "Secretário" Dr. Jerónimo da Silva Rolo, alto funcionário da Junta Provincial de Povoamento e mais tarde servidor do MPLA depois do "25 de Abril", personagem bem remunerado mas teimosamente ausentista e que era afilhado do presidente Neto Miranda de quem fora secretário quando este governara o Kuanza Sul ) para eu ir pegar o bilhete de passagem aérea da TAP. Recordo-me também, graças ao documento de que acaba de me dar notícia, dessa inusitada pergunta que Salazar nos fez e a que, a contragosto dos Drs. Castro Fernandes e Neto de Miranda, cujos semblantes e gestos se mostraram discordes, afoitamente seu Pai ousou desenvolver uma pronta e objectiva resposta, afirmativa e inequívoca, com a qual eu e o Bessa Victor, euroafricano, demos, como angolanos, pronto respaldo sorrindo-lhe com agrado e corroborando-o com meneios de cabeça antero-posteriores, em sinal de aprovação, o que parece ter escandalizado, como mais tarde eles nos fizeram sentir em críticas veladas, aos demais membros da comissão de província, nossos colegas. Felicitamos o seu Pai à saída do Forte de São João do Estoril mas o mesmo não se ouviu do Gustavo Neto de Miranda, que gostava de agradar ao então ministro do Ultramar Silva Cunha, totalmente alérgico a que se falasse em independência de Angola ou Moçambique; talvez porque em ambas essas províncias ultramarinas o seu ex-patrão (que continuava lhe enviando mensalmente, ao gabinete do MU, o cheque do pró-labore, ao portador e nunca nominal, em mãos do meu colega de curso, do ISCSPU/UTL, Dr. Eduardo Custódio Silva, chefe de secção da Companhia de Cimentos de Moçambique) Antônio Champallimaud, tinha vultosos investimentos cimenteiros, bancários, etc...
Se desejar poderei enviar-lhe uma fotografia do engº Bessa Victor que ainda conservo comigo. A respeito dessa pergunta de Salazar confesso que não me surpreendeu porque, conforme relato num dos meus trabalhos editados na secção Ecmnésia Histórica Colonial do portal www.portugal-linha.pt, três ou quatro anos antes (ou talvez em 61?), quando eu era funcionário do Gabinete dos Negócios Políticos do MU, recebi ordem do inspector superior Dr. Alexandre Ribeiro da Cunha, ex-secretário de Salazar, entre nós funcionários do GNP mais conhecido por "careca gajão", para, às pressas (estávamos na hora de almoço, que não...tivemos!), elaborar um artigo que seria publicado em editorial do jornal diário matutino O SÉCULO, de Lisboa, focalizando a crescente tendência da política ultramarina em curso para um processo progressivamente autonômico, reconhecendo-se assim, através de medidas cada vez mais liberalizantes, a inevitabilidade da independência a longo prazo, quando houvesse élites preparadas e seus povos estivessem maduros para isso, dos territórios do Ultramar, o que deveria acontecer, como se ousava sublinhar nesse "editorial", no quadro de uma ligação sentimental, política, cultural e econômica com Portugall.
Ribeiro da Cunha ordenou que a 3ª oficial Maria de Lurdes Guerra Ferreira, que era uma excelente dactilógrafa e me secretariava no gabinete de imprensa e radiodifusão nacional e estrangeira do GNP/MU, por mim chefiado, permanecesse no Ministério nesse tempo de hora do almoço pois queria que eu lhe apresentasse o pretendido texto, pronto, até às 15 horas quando ele iria pegá-lo a fim de levá-lo pessoalmente ao presidente do conselho de ministros Prof. Antonio de Oliveira Salazar, que lhe incumbira de providenciar a urgente elaboração desse artigo para, repito, publicação no dia imediato. Não me explicou a razão dessa pressa. Não pude sequer rascunhar esse texto, o tempo urgia, ditei-o de improviso, tal como fazia com a resenha semanal de imprensa e radiodifusão estrangeira (a nacional estava a cargo de um colaborador eventual, muito competente e dedicado- o Nuno Múrias, filho do Dr. Manuel Múrias - director do Diário da Manhã - que substituiu o jornalista Freitas da Costa, primo do primeiro director do GNP e SubSecretrário de Estado de Administração Ultramarina, na pasta sobraçada pelo Prof. Adriano Moreira, Dr. João da Costa Freitas); essa resenha, cuja lista de distribuição era restricta, confidencial e comentada, destinada somente aos Presidentes da República e do Conselho de Ministros e às mais altas esferas governamentais e militares, Defesa Nacional e governadores das províncias ultramarinas, ocupava cerca de 50 páginas impressas mas chegava a ter 80 a 90 páginas ciclostiladas, que a já citada funcionária ia digitando na máquina, usando uma folha de stencyl e o verniz sempre que, a cada lida por ela feita em voz alta, eu lhe introduzia correcções ou alterações. Entreguei-lhe o texto à hora já referida; ele leu-o, achou bem, não fez alterações apenas dizendo que estava conforme aos tópicos que me fornecera para eu os desenvolver; mais tarde, cerca das 18 horas (eu e a Maria de Lurdes ficávamos sempre no serviço, de 2ª a 6ª feira, até cerca das 22h30, hora a que Silva Cunha saía do seu gabinete para se recolher a casa - e entrementes poderia pedir qualquer artigo, notícia ou recorte de jornal nacional ou estrangeiro... embora jamais nos pagasse por isso horas extraordinárias) veio felicitar-me, limitando-se a destacar que o senhor presidente tinha gostado do meu trabalho. No dia seguinte, quando de manhã cheguei ao gabinete, a Maria de Lurdes Ferreira trouxe-me o jornal O SÉCULO em que, na primeira página, em espaço editorial e com título alusivo ao tema progressiva autonomia das províncias ultramarinas, focalizando sobretudo Angola e Moçambique, vinha publicado o texto que eu havia elaborado, de viva voz, na tarde anterior... Logo, afigura-se-me que existia realmente uma idéia, não declarada aos quatro ventos, desse estranho personagem que era Salazar, inspiração prudente quiçá consequente do alerta dado pelos trágicos acontecimentos de 15 de Março de 1961 no Norte de Angola, de algum dia ser esse o destino das possessões ultramarinas - a independência certamente dentro de uma união de estados lusófonos como parecia ser, presumo eu, o grande sonho do "António da Calçada da Estrela" apoiado pelo presidente do Senegal Dr. Leopold Sedar Senghor. -.

Mereciam ser publicados esse e outros documentos que fazem parte do acervo de memórias do seu nobre progenitor que tão injustiçado foi (negando-se-lhe Direitos constituídos e obrigando-o à diáspora) no termo da sua vida . Seria de esperar da figura democrática mais grada da plêiade política da nova democracia lusitana {mas não mais democrática do que o seu Pai, a quem não havia angolano -europeu, africano ou euroafricano- que, em perigo ou desempregado, não recorresse, confiante, a ele, ou a mim na sua ausência, pois eu, como vogal da comissão de província da UN/ANP e director executivo do respectivo Centro de Estudos Politicos e Sociais, que mais não era do que o oficioso órgão executivo (com um só trabalhador - eu e algumas vezes um ou outro jornalista que me procurava para colaborar) do GT do Conselho de Orientação da Acção Psicológica do GG e do CCFA de Angola, sempre lhe levava ao conhecimento (e não ao do dúplice, oportunista e preguiçoso desembargador Neto de Miranda, que nada fazia de válido ou ... inválido, todos os casos escabrosos ou difíceis, até queixas contra... a PIDE, que ele prontamente resolvia apressando-se a pedir providências ao governador-geral conforme o general Silvino Silvério Marques poderá confirmar} uma atitude nobilitante e justa - a do reconhecimento de que, embora no campo oposto, seu Pai, além de ter prestado altos serviços à sua Pátria jámais foi corrupto, nunca a denegou ou abjurou nem, como eu venho fazendo, se remeteu à crítica mordaz e acusatória mas delatora de verdades históricas inconvenientes ou que maculam a "lusa grei e suas elites" porque desiludido, maltratado pelos do antes e os do depois, e inconformado com a aceitação inconsequente e o aplauso florido de tom rubro da vil traição de alguns pela mesma grei que quatro anos antes enchera as ruas da capital portuguesa para, pesarosamente, ainda que talvez só na aparência, acompanhar com repugnante hipocrisia o funeral de Salazar nos idos de 70; essa mesma afinal inconstante e volúvel grei de que no passado, quando oficial do exército em distantes terras ultramarinas, lá nas proximidades da cordilheira dos Cathay, eu me vangloriara de ser parte integrante!...-. Mas essa(s) figura(s) democrática(s) [M.S.? C.S.?] quando estava(m) em posição de fazer Justiça permitiu(ram) que a perseguição se consumasse, não levando em conta os altos serviços prestados de cabeça erguida pelo seu Pai, ao contrário do que aconteceu com o ex-inspector-adjunto da PIDE/DGS e, depois de "25 de Abril", emigrado e alcandorado a coronel dos serviços da Intelligence sul-africana Alves Cardoso,- um dos dois Cardosos que comandaram os FLECHAS de Angola e de Moçambique- condecorado pelo governo Cavaco e Silva e contemplado com uma pensão de reforma vitalícia pelos também altos serviços prestados, à frente das milícias paramilitares FLECHAS, à Pátria Portuguesa...-. Altos serviços à Pátria Portuguesa, que bem vistas as coisas não apenas o dito Alves Cardoso, ex-capitão ou major miliciano com amizades entre os capitães de Abril, teria prestado mas também alguns outros, dentre os quais sobressaía, com destaque, o seu honrado Pai, que foi incluso numa lista de cento e muitos nomes, publicada nos jornais pela comissão de extinção da PIDE/DGS e de organizações ditas "fascistas" segundo um critério muito arbitrário!, atingindo personalidades que não tinham cometido crtimes contra a humanidade ou de lesa-pátria, e que foram privadas de direitos políticos em 8 de Fevereiro de 1975. Um acto injusto, anti-democrático, doentio e persecutório. Uma vileza do dementado primeiro-ministro cripto(?!)-comunista, fâmulo de Álvaro Cunhal e do seu estalinista PCP pró-soviético, Vasco Gonçalves, revolucionariamente promovido a "general"... que se não fora uma tomada de consciência de alguns oficiais da FA e a prointa actuação do embaixador norte-americano Frank Carlucci (depois...director da CIA) teria levado Portugal para a órbita soviética... Essa clamorosa injustiça foi abafada pelas proclamadas "amplas liberdades democráticas" pós-abrilistas e continua atingindo a memória de seu ilustre progenitor porque, após seu passamento, afecta a situação econômica da sua Exma Mãe.

Com um abraço muito Amigo e grato,
Carlos Mário Alexandrino da Silva

Carlos Mário Alexandrino da Silva
in Portugal em Linha - Comunidade Lisófona

quinta-feira, 4 de junho de 2009

GILBERTO FREYRE E OS “CÃES DE GUARDA” DE SALAZAR:


A TRAJETÓRIA DO LUSOTROPICALISMO NAS PRÁTICAS INSTITUCIONAIS DOS IDEÓLOGOS DO COLONIALISMO PORTUGUÊS

NAS DÉCADAS DE 1940 - 1960

João Alberto da Costa Pinto (Universidade Federal de Goiás/Doutorando em História na UFF)

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o Estado português procura uma nova definição estatutária para a caracterização de suas colônias espalhadas pela África e pela Ásia. Salazar sabia que se não tomasse providências urgentes naquele momento de redefinição do desenho geopolítico internacional, os espaços coloniais portugueses poder-se-iam encontrar em situação dramática diante das novas concepções liberalizantes (1) dos autonomismos nacionalistas, que formuladas na década de 1940 se consumariam pela década de 1950, estendendo-se até fins da década de 1960.

Salazar, no poder desde 1926, instituíra práticas de Estado para um novo Império. O velho Império das “glórias” camonianas dos séculos 16 e 17, era revivido anacronicamente em pleno século 20 pela gestão salazarista do novo Império. O novo Império procurou também a sua essência nas práticas “civilizadoras” da velha conquista colonial. Não buscou novas colônias, mas sim colonizar efetivamente aquelas que já lhe pertenciam há séculos. A marca emblemática de tais práticas aparece em 1930 como apêndice da Carta Constitucional, trata-se do Acto Colonial. Nesse documento sumariavam-se os conceitos e os gestos institucionais do Estado português com as suas colônias. O Império e suas Colônias. Assim Salazar institucionalizava, na década de 1920 e ao longo das décadas seguintes, a grandeza “sofística” do Império Português. Através de práticas de concessão (no jogo diplomático, sujeitando-se a interesses geopolíticos da Inglaterra e dos EUA), Salazar conseguirá manter ao longo da Segunda Grande Guerra, incólumes, as fronteiras do Império. E, diante dos novos tempos, que o pós-guerra estava a impôr ao mundo, Salazar, via-se na contingência de mudar. Mudar para que tudo ficasse como estava. CONTINUA...