sexta-feira, 12 de março de 2010

Ernesto Lara Filho (De o Canto de Martrindinde e Outros Poemas Feitos no Puto)

      
                                     Ernesto Lara Filho: Benguela, 1932; Huambo, 1977



Infância perdida
(para o Miau)

Nesse tempo, Edelfride,
Com quatro macutas
A gente comprava
Dois pacotes de ginguba
Na loja do Guimarães.

Nesse tempo, Edelfride,
com meio angolar
a gente comprava
cinco mangas madurinhas
no Mercado de Benguela.

Nesse tempo, Edelfride,
montados em bicicletas
a gente fugia da cidade
e ia prás pescarias
ver as traineiras chegar
ou então
à horta do Lima Gordo
no Cavaco
comer amoras fresquinhas.

Nesse tempo, Miau,
(alcunha que mantiveste no futebol)
nós fazíamos gazeta
da escola coribeca
e íamos os quatro
jogar sueca
debaixo da mandioqueira.

Era no tempo
em que o Saraiva Cambuta batia na mulher
e a gente gostava de ver a negra levar porrada.

Era no tempo
dos dongos da ponte
dos barcos de bimba
dos carrinhos de papelão

Como tudo era bonito nesse tempo, Miau!

Era no tempo do visgo
que a gente punha na figueira brava
para apanhar bicos-de-lacre e seripipis
os passarinhos que bicavam as papaias do Ferreira Pires
que tinha aquele quintalão grande e gostava dos meninos.

Era no tempo dos doces de ginguba com açúcar.

Mais tarde
vieram os passeios noturnos
à Massangarala
e ao Bairro Benfica.
E o Bairro Benfica ao luar
O poeta Aires a cantar
(meu amor da rua onze e seu colar de missangas...)
Tudo era bonito nesse tempo
até o Salão Azul dos Cubanos
e o Lanterna Vermelha - o dancing do Quioche.

Foi então que a vida me levou para longe de ti:
parti para estudar na Europa
mas nunca mais lhe esqueci, Edelfride,
meu companheiro mulato dos bancos de escola
porque tu me ensinaste a fazer bola de meia
cheia de chipipa da mafumeira.
Tu me ensinaste a compreender e a amar
os negros velhos do bairro Benfica
e as negras prostitutas da Massangarala
(lembras-te da Esperança? Oh, como era bonita
[essa mulata...)
Tu me ensinaste onde havia a melhor quissângua
de Benguela:
era no Bairro por detrás do Caminho de Ferro
quando a gente vai na Escola da Liga.
Tu me ensinaste tudo quanto relembro agora
Infância Perdida
sonhos dos tempos de menino.

Tudo isso te devo
companheiro dos bancos de escola
isso
e o aprender a subir
aos tamarineiros
a caçar bituítes com fisga
aprender a cantar num kombaritòkué
o varre das cinzas
do velho Camalundo.
Tudo isso perpassa
me enche de sofrimento.

Diz a tua Mãe
que o menino branco
um dia há-de voltar
cheio de pobreza e de saudade
cheio de sofrimento
quase destruído pela Europa.

Ele há-de voltar
para se sentar à tua mesa
e voltar a comer contigo e com teus irmãos
e meus irmãos
aquela moambada de domingo
com quiabos e gengibre
aquela moambada que nunca mais esqueci
nos longos domingos tristes e invernais da Europa
ou então
aquele calulu
de dona Ema.

Diz a tua Mãe, Edelfride,
que ela ainda me há-de beijar como fazia
quando eu era menino
branco
bem tratado
quando fugia da casa de meus Pais
para ir repartir a minha riqueza
com a vossa pobreza.
Diz tudo isso a toda a gente
que ainda se lembra de mim.
Diz-lhes. Diz-lhes
grita-lhes
aos ouvidos
ao vento que passa
e sopra nas casuarinas da Praia Morena.
Diz aos mulatos e brancos e negros
que foram nossos companheiros de escola
que te escrevo este poema
chorando de saudade
as veias latejando
o coração batendo
de Esperança, de Esperança
porque ela
a Esperança
(como dizia aquele nosso poeta
que anda perdido nos longes da Europa)
está na Esperança, Amigo.

Edelfride, você não chore
saudades do Castimbala
nem lhe escreva
cartas como essa
que são de partir
meu pobre coração.

Nesse tempo, Edelfride,
Infância Perdida
era no tempo dos tamarineiros em flor...


Ernesto Lara Filho
(O Canto de Martrindinde e Outros Poemas Feitos no Puto)
1964, Lisboa

quinta-feira, 11 de março de 2010

Luanda, meados do seculo XVII.. In "Demonstração geografica e politica do territorio portuguez na Guiné inferior ... " By Joaquim Antonio Menezes



"...E já que tocamos nas festividades determinadas pelo governo, e pela Municipalidade, notaremos aqui que Salvador Corrêa de Sá Benevides, governador do Rio de Janeiro, e ao mesmo tempo com patente de Capitão General de Angola, sahiu d'aquelle porto em 12 de Maio de 1648 com uma armada de 15 navios (comprados 4 á sua custa) levando 900 homens de guerra, e competentes munições foi dar fundo em Qwcombe, saltou em terra, e examinou o lugar em que se lhe mandara levantar uma fortaleza.


Não obstante as instrucções, que tivera da corte para manter a paz com os Hollandezes, que se haviam estabelecido no paiz invadindo-o em 1641 > e apoderando-se de grande parte das nossas conquistas; a frota foi immediatamente demandar a barra de Loanda, e fazendo o General desembarcar o seu secretario, por este communicou ao Director hollandez, que tendo elles infringido a paz jurada com os Estados geraes, maltratando osPortuguezes, e sujeitando os Sobas do nosso partido, lhe era licito interpretrar as suas instrucções, tomando a resolução de lhe declarar a guerra. Desejando comtudo evitar o derramamento de sangue, e estragos infaliveis em taes casos, lhes propunha quizessem render-se , segurando-lhes uma decente capitulação. Para responder a esta proposta pediu o inimigo oito dias, e concedendo-lhe Salvador Corrêa dous , mui sufficientes pr.ra uma definitiva decisão; findos estes tornou o mesmo secretario á terra, instruido dos signaes , que devia fazer para saber-se a bordo se queriam entregar-se ou defender-se; escolhendo os Hollandezes o segundo partido, logo que o signal foi visto a um tiro de canhão da capitania desembarcou toda a infanteria ao mesmo tempo; e marchando o general a frente das tropas, montado em um cavallo que na mesma occaciáo fez ir para terra, ganhou o corpo da guarda e o palacio do governo , abandonando os Hollandezes sem resistencia o fortim de Santo Antonio (que já não existe) e 6 pecas d'artilharia , que com mais 4 transportadas de bordo foram nessa mesma noite para o adro da Sé, que fica parallela á fortaleza de S. Miguel onde se achava recolhido o inimigo, e montando-as em duas baterias fez-lhes vivo fogo, mas como não produzisse o eifeito que esperava, viu-se obrigado a dar um assnlto geral á fortaleza, e investindo-a foram os Portnguezes por differentes partos rechaçados com 165 mortos, e muitos feridos; porém não percebendo os Hollandezes esta perda, antes su p po n do se repetiiia o assalto, levantaram , no dia seguinte . bandeira branca* e enviaram um ollicial acompanhado de um tromhcln a pedir tregoas, e ajustar capitulação, a qual foi nssignada por Salvador Corrêa com todas as condições por clles propostas, evitando assim e com a evacuação immediata do inimigo a incerteza da victoria.


Em recordação , pois, deste memoravel successo em o dia 15 de Agosto de 1648 ficou a sua capital chamando-se a cidade de S. Paulo d'A.ssumpção de Loanila , e no anniversario cTaquelle dia a Gamara Municipal f;iz celebrar solemne festa na Sé Cpthedral , a que ella assiste, o governador geral, todas as authoridades, e pessoas distinctas do paiz em que já mai.s se apagará a memoria respeitavel do seu restaurador, posto que, a fatal experiencia tenha mostrado que , aquelles povos não foram felizes escapando do dominio dos invasores....

Restam ainda sete Igrejas , e neste numero se compreende a da Mizericordia outr'ora mui decente, rica de alfaias, e pratas que mãos sacrilegas fizeram desapparecer impunemente. Luiz Cezar de Menezes que governou quatro anuos, contados de 9 de Novembro de 1697, é um dos distinctos cavalheiros, que prestou mais valiosos beneficios, da sua propria fazenda, á aquelle pio estabelecimento, no qual serviu o cargo de Provedor em quasi todo o tempo de sua estada no governo da colonia , em que se conduziu com actividade e benevolência.

Haviam tambem tres Conventos (extinctos em 1833 ) com os seus respectivos Templos empobrecidos, dois , pelo extravio que os seus Prelados ( de á 60 annos a esta parte) fizeram seguidamente de seus rendimentos, levados para Portugal nas suas aparentemente pobres saccolas. Um d'aquelles estabelecimentos religiosos, o — Convento do Carmo — foi mandado arrazar pelo governador Bressani Leite a pretexto de arruinado , e de aproveitar as madeiras, e a cantada com que havia sido edificado, para servirem na sonhada fundação do estabelecimento do — Lobito — ao Norte de Benguella, que não foi levado a effeito , mas com o qual despendeu não pouco a Fazenda publica.

INo fim da cidade baixa , e em uma ponta d'area que sobresahe ao mar, e á qual chamam ponta da Izabel, ha um extenso passeio publico com algum arvoredo , e um edificio construido á chineza em Ires divisões de recreio á borda do mar, que em 18Í3 estava em completa ruina. Esta obra ora em total abandono é um dos monumentos do governo illustrado, e suavissimo do Almirante Luiz da Alotta Feo , que será lembrado sempre com veneração.

Em toda a cidade contam-se cinco praças todas irregulares: a 1.° é a do Palacio do governo em figura de um pentágono, formando um dos lados uma muralha guarnecida de assentos abrigados por copadas arvores, a 2." do Pelourinho, a 3." doTerreiro publico, a &." dos Remedios em continuação com a da Quitanda, onde já houveram barracas de pedra cobertas do têlha formando o mercado, as quaes foram destrui d as pelo tempo, ao cuidado do qual ficaram entregues pelas Camaras , que se seguiram a sua edificação, e a 5.° da Nazaveth rFonde principia uma boa estrada que vai ler á fortaleza do Penedo, contendo em seu comprimento de um quarto de legoa 293 arvores por banda, que formam uma excellente sombra, e tornam menos desagradavel á vista a escabrosa, e esteril montanha que lhe fica quasi sobranceira.
..." Continua...

domingo, 7 de março de 2010

TESTAMENTO poema de Alda Lara

Poesia de Angola

Do pássaro para o embuçado.


Rapariga de Gabela, Amboim, desenho de Neves e Sousa.
«Testamento» um dos poemas mais bonitos e mais intensos da literatura de expressão portuguesa no período antes da descolonização. Implícita uma educação para os valores: solidariedade, fraternidade, generosidade, entrega ao outro, num lugar de afectos. Poder-se-ia falar de amor pátrio.

À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados

Em cristal, límpido e puro...
E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,

O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...
Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...
E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...
Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora..
.
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...

Alda Lara, seu nome completo, Alda Ferreira Pires Barreto de Lara Albuquerque, nasceu em Benguela, Angola, em 1930. Casada com o médico e escritor Orlando Albuquerque, veio a falecer em 1962, já depois de terminada a sua licenciatura na Faculdade de Medicina de Coimbra. Em Lisboa esteve ligada a algumas das atividades da Casa dos Estudantes do Império. Declamadora, chamou a atenção para os poetas africanos. Orlando Albuquerque propôs-se editar-lhe postumamente toda a obra e nesse caminho reuniu e publicou um volume de poesias e um caderno de contos. Colaborou em alguns jornais e revistas, incluindo a Mensagem (CEI).

sexta-feira, 5 de março de 2010

As 10 Crónicas de Kandimba

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Crónicas do Kandimba de Sebastião Coelho

As 10 Crónicas de Kandimba

CRÓNICA I - Angola País Africano
CRÓNICA II - Angola País de Contrastes
CRÓNICA III - Angola e o Peixe Aventureiro
CRÓNICA IV - Angola, Peixe e Pecadores
CRÓNICA V - Mar, Peixe e Gente do Mato
CRÓNICA VI - Peixe Mulher
CRÓNICA VII - Peixe do Capim
CRÓNICA VIII - Tukeia, o Peixe Voador
CRÓNICA IX - A Palanca Preta Gigante
CRÓNICA X - Conversa à Luz das Estrelas

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Comunidades Imaginadas. Nação e Nacionalismos em África Por Luís Reis Torgal, Fernando Tavares Pimenta, Julião Soares Sousa

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Comunidades Imaginadas. Nação e Nacionalismos em África

 Por Luís Reis Torgal, Fernando Tavares Pimenta, Julião Soares Sousa
Pré-visualização

Livro : Português em Contato. Por Carvalho, Ana M. (org.)

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Português em

Contato.

 Por Carvalho, Ana M. (org.)




sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

COMO EU ATRAVESSEI ÀFRICA DO ATLANTICO AO MAR INDICO, VIAGEM DE BENGUELLA Á CONTRA-COSTA. A-TRAVÈS REGIÕES DESCONHECIDAS


Mappa 2.--De Benguella ao Bihé

COMO EU ATRAVESSEI ÀFRICA DO ATLANTICO AO MAR INDICO, VIAGEM DE

BENGUELLA Á CONTRA-COSTA.
A-TRAVÈS REGIÕES DESCONHECIDAS;

DETERMINAÇÕES GEOGRAPHICAS E ESTUDOS ETHNOGRAPHICOS.


Por SERPA PINTO.

O LIVRO.



Não tem pretenções a obra de literatura este livro.

Escrito sem preoccupação da forma, é a fiel reproducção do meu diario de viagem.

Cortei n'elle muitos episòdios de caçadas, e outros, que um dia no descanso, produzirám um volume de caracter especial. Busquei sôbre tudo fazer realçar o que mais interessante se tornava para os estudos geogràphicos e ethnogràphicos, e se não me pude eximir a narrar um ou outro dos muitos episòdios dramàticos que abundáram na minha fadigosa empresa, foi quando a êsses episòdios se ligavam factos consequentes, de importancia, ja para alterar o itinerario projectado, já determinando demoras, ou marchas precipitadas, que seriam incomprehensiveis sem a exposição das causas determinantes.

Á Europa, e em geral ao homem que nunca viajou nos sertões do interior d'Àfrica, não é dado comprehender o que se soffre ali, quaes as difficuldades a vencer a cada instante, qual o trabalho de ferro não interrompido para o explorador.

As narrações de Livingstone, Cameron, Stanley, Burton, Grant, Savorgnan de Brazza, d'Abbadie, Ed. Mohr e muitos outros, estam longe de pintar os soffrimentos do viajante Africano. Difficil é comprehendel-o a quem o não o experimentou; áquelle que o experimentou difficil é descrevel-o.

Não tento mesmo pintar o que soffri, não procuro mostrar o quanto trabalhei, que me façam ou não a justiça de que me julgo merecedor aquelles que examinarem os meus trabalhos, hôje é isso para mim indifferente; porque me convenci, de que só posso ser bem comprehendido pêlos que como eu pisáram os longìnquos sertões do continente nêgro, e passáram os maos tratos que eu por lá passei.

Assim como só o homem que, sendo pai, pode comprehender a dôr pungente da pêrda de um filho, assim tambem só o homem que foi explorador pode comprehender as atribulações de um explorador. Ha sentimentos que se não podem avaliar sem se haverem experimentado.

Os factos narrados n'este livro sam a expressão da verdade.

Verdade triste muitas vêzes, mas que seria um crime occultar.

Procurei apresentar nêlle os resultados de um trabalho aturado de muitos mêzes, e garanto o que digo sôbre geographia Africana, porque só eu sou autoridade para falar n'ella na parte respectiva á minha viagem, em quanto outro não houvér seguido os meus passos atravéz d'Àfrica, e não me convencer do contrario.

As minhas opiniões genèricas sôbre um ou outro problema podem ser erròneas, sam sujeitas á crìtica, podem cahir por terra com uma demonstração pràtica das futuras viagens, como tem acontecido a asserções de muitos dos meus antecessores os mais illustres; mas o que não tem nem pode ter contestação, sam os factos que eu vi, sam aquelles que se referem aos paizes que percorri, e que descrêvo n'este livro com a consciencia que deve sempre dictar as acções do explorador.

Não fui á Àfrica ganhar dinheiro. Tive a mesquinha paga de official do exèrcito e não quiz outra.

Abandonei uma familia extremosamente querida; deixei a pàtria e tudo para trabalhar, e só para trabalhar, em cooperação com os outros paizes, na grande obra do estudo do continente desconhecido, e tenho a consciencia de que fiz tanto quanto podia fazer.

Deixo aos homens de sciencia e áquelles que sam autoridades em tal materia o avalial-o.

Ponho ponto n'este assumpto que parecerá filho de um orgulho que não tenho, mas factos insòlitos apparecidos no decurso dos primeiros mêzes da minha residencia na Europa, depois de ter completado a fadigosa jornada d'Àfrica, dictáram as palavras que escrevi.

Ha um anno que principiei a coordenar em livro os resultados dos meus trabalhos Africanos, mas uma pertinaz doença por vêzes interrompeu a vontade que nutria de dar á estampa esses trabalhos.

Principiado em Londres em Setembro de 1879, o meu livro foi quasi tôdo escrito nos mêzes de Setembro e Outubro, de 1880, na Figueira da Foz, em Portugal.

A pressa com que foi terminado contribuirá de certo muito para a incorrecção da forma.

A publicação d'elle é feita em Londres, onde encontrei na grande casa editora Sampson Low, Marston, Searle and Rivington, todas as facilidades que não pude obter fora d'ella.

Estes cavalheiros não recuáram ante a enorme despesa a fazer com uma tão difficil e custosa publicação, e leváram a sua condescendencia a fazer imprimir em Inglaterra a edição Portugueza; trabalho difficilimo, porque a differença das lìnguas dos dois paizes obrigou até á fundição de typo, por causa dos signaes e accentos privativos do nossa idioma.

Devo-lhes a maior gratidão pêlo interesse que t[~e]m dedicado a esta publicação, para o mèrito da qual, se é que ella tivér algum mèrito, elles de certo concorrêram muito.

O S^{nr.} Antonio Ribeiro Saraiva, que, a pesar dos seus trabalhos e da sua avançada idade, me quiz fazer o favor especial de rever as provas do livro; o S^{nr.} E. Weller, o cartògrapho, que se encarregou da gravura das minhas cartas geogràphicas; o S^{nr.} Cooper, que interpretou magnìficamente os meus esbocêtos de viagem nas gravuras que illustram a obra, concorrêram tambem de certo muito para o valor d'ella.

Ahi vai, pois, o livro, e só desejo que elle corresponda e sirva á curiosidade de uns e ao estudo de outros; e venha dar novos incitamentos á grande e sublime cruzada do sèculo XIX., a cruzada da civilisação do Continente Nêgro.

Londres, 61 Gower Street,
5 de Dezembro de 1880.

CONTINUA...

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

UM PROJECTO DE COLONIZAÇÃO PORTUGUESA EM ANGOLA NOS FINAIS DO SÉCULO XIX (1884)


Por Maria Teresa Filipe Cirne, Mestranda de História Contemporânea, F.L.U.P., 1996-1998., *

Résumé
À la fin de l'année 1884, Narciso Feyo avait reclamé à la Sociedade
de Geografia Comercial do Porto la protection et le patronne pour
son plan de colonisation africaine. Celle institution là en lui refu-
sant ce que lui avait été sollicité, a montré publiquement les désa-
vantages de tel project contribuiant de cette manière pour nourrir
une énorme controverse que c'est géré autours de la question.

1. Nota introdutória
As questões coloniais marcaram profundamente o quadro político e económico português nos finais do século XIX. Tratou-se de um período de expansionismo industrial europeu, o que implicou a procura de matérias-primas e subsidiárias, de mercados, de mão-de-obra e de locais onde fosse fácil o investimento, isto é, a internacionalização de certos processos produtivos. Tudo isto se saldou numa atenção enorme, por parte das grandes potências europeias, pelo continente africano, originando confrontos de interesses e jogos de poder. Portugal, pequena peça neste tabuleiro internacional, dotado de fracos recursos económicos e com um baixo contingente humano, assistiu quase impassível à concorrência dos outros países que usavam o vasto poder que detinham para lhe subtrair as suas tradicionais possessões e para o constranger a fazer as mais
variadas concessões1. O desprezo a que Portugal estava sendo votado é comprovado pelo facto de não ter sido convidado para a Conferência de Bruxelas (1876), realizada com a participação das varias potências europeias, e onde foram fundados dois organismos de cariz colonialista, a Associação Internacional para a Exploração e a Civilização da Africa Central. Mas foi com a Conferência de Berlim (realizada em 1885, com a participação de representantes portugueses) que o império colonial português recebeu um duro
golpe, nomeadamente com o estabelecimento de um novo direito público colonial que vinha enterrar definitivamente os velhos padrões manuelinos ao substituir o critério do direito histórico pelo critério da ocupação efectiva. Este facto esteve na origem da aceleração do ritmo da corrida a África por parte das potências europeias melhor posicionadas económica e demograficamente, colocando Portugal numa posição de arranque francamente negativa2.

2. Acção e projectos portugueses em África
A corrida a África contribuiu para acelerar o ritmo e a intensidade das expedições científicas feitas naquele continente. A par de Brazza, de Cameron e de Standley, é de salientar o papel desempenhado pelos exploradores portugueses, como Lacerda e Almeida, Pedroso Gamito, Silva Porto, Serpa Pinto, Hermenegildo Capelo, Roberto Ivens e Henrique de Carvalho que, no seguimento de uma tradição nacional, lograram alcançar inúmeros êxitos nas travessias cientificas que realizaram, apesar da grande carência de
meios .

UM PROJECTO DE COLONIZAÇÃO PORTUGUESA EM ANGOLA
Por outro lado, a atitude política liberal portuguesa face a África foi a de pugnar pelo desenvolvimento e pela modernização das colónias, advogando que tal se saldaria num recrudescimento da economia nacional. Mas este projecto liberal vai sendo obrigado a recuar ante as resistências da burguesia colonial e mercantil metropolitana e perante a inexistência de uma verdadeira revolução industrial operada em Portugal4. Assim, incapazes de elaborar um plano promotor das potencialidades africanas e proporcionador de segurança económica colonial, os portugueses de Oitocentos apenas se limitaram a ocupar reduzidas parcelas territoriais no Litoral, estabelecendo pequenas explorações agrícolas com base no trabalho nativo e um rudimentar contacto comercial com os autóctones. No intuito de se fazerem respeitar pelos indígenas que estavam sob o
domínio português, os representantes de Lisboa cobravam múltiplos impostos. Mas muitas eram as carências e os problemas da África portuguesa em finais do século transacto consubstanciados na indefinição quase total de fronteiras, na avidez particular dos funcionários coloniais, na incapacidade de proceder à ocupação
total dos territórios, na debilitada situação económica nacional e consequentemente na marginalização que a Europa lhe votava.

Dotado de parcos recursos financeiros e militares, e consciente da imperiosa necessidade de lutar para manter as suas possessões africanas através de uma ocupação cada vez mais efectiva, única via de
possibilitar o desenvolvimento económico colonial e simultaneamente único meio de se afirmar perante os adversários imperialistas, Portugal encetou uma peleja alicerçada no velho sonho, agora renascido, de ligar Angola a Moçambique. No dizer de Arnaldo Madureira, o país, após Berlim, «galvanizava-se» sob a égide do instinto «sobrevivência-ambição», tudo fazendo no sentido de efec-
tivar o «mapa cor-de-rosa».

Mas este entusiasmo precede 1885 estando patente não apenas no empenho oficial votado às expedições científicas e na inserção política e comercial portuguesa em zonas onde a sua presença era diminuta ou estava ausente, como era também visível em iniciativas de carácter particular. Com efeito, o Porto, em 1884, vai ser palco do desenrolar de um projecto ambicioso vocacionado para a criação de estações civilizadoras em África, mais concretamente no planalto de Huíla, em Angola, gerando grande controvérsia no círculo por-
tuense que debateu, apaixonadamente, aquele plano expedicionário

3. Um projecto de colonização 

Nos inícios de Novembro de 1884 a Sociedade de Geografia  Comercial do Porto recebeu uma carta de um indivíduo chamado  Narciso Feyo, «português e trabalhador», nas palavras do remetente, solicitando o apoio e a protecção para a organização de uma  colónia portuguesa que ele próprio, juntamente com mais 34 pes-
soas (as quais ele, aliás, nunca identifica) projectava estabelecer em Africa. Este empreendimento foi publicitado por um diário portuense, O Comércio do Porto, onde se pode 1er que «a sympathica e patriótica ideia de fomentar a colonisação portugueza na Africa  Occidental captivou já, como não podia deixar de ser, numerosas e decididas adhesões», tendo-se inscrito, até à data, 8 de Novembro de 1884, cerca de 70 pessoas.
O projecto de Narciso Feyo foi sendo exposto e publicitado em  diferentes conferências apresentadas em diversas regiões do país;  Lisboa, Porto, Póvoa de Varzim e Penafiel são algumas das cidades que se sabe terem sido contempladas neste périplo evangelizador.

A conferência realizada no Porto no dia 18 de Novembro de 1884, no salão da Sociedade Nova Euterpe, foi proferida por aquele entusiasta da colonização africana, patenteando aspirações  patrióticas num discurso nacionalista consentâneo com a sua índole apaixonada pelos problemas da África portuguesa. Explicava então que esse projecto de colonização da África Ocidental se devia à sua «decidida vontade de levantar o nome nacional nas nossas colonias». Evocou as gloriosas conquistas dos nossos antepassados as  quais, na sua opinião, tinham sido votadas a «um descuramento tão criminoso que dava o direito á Europa de fazer d'ellas o que nunca  nós conseguimos, pois em vista de tal abandono não nos assistia de modo algum o direito de continuar a conservar centenas de hectares de terreno por cultivar e milhares de cerebros por civilizar»

CONTINUA... 
Texto integral:

UM PROJECTO DE COLONIZAÇÃO PORTUGUESA EM ANGOLA NOS …

unirioja.es [PDF]

A Sociedade de Geografia e a política colonial de Angola desde o último quartel do século XIX ao princípio do século XX,

 
«...A observação das sociedades em presença leva‑nos a defender que o motor do advento dos portugueses, como minoria dominante da história do Kongo ao Kunene desde o último quartel do século XIX ao princípio do último quartel do século XX, foi caracterizado por desníveis de tecnologia, em especial pela invenção e operacionalidade da mais mortífera arma de guerra de então: a metralhadora3. Acrescente‑se ainda o sistema de comunicação morse, que abalou profundamente a supremacia e eficácia da comunicação Kongo (em geral pelo tambor e estafetas) e a fotografia, enquanto nova fonte de informação militar.
No início do século XX, a Sociedade de Geografia de Lisboa pretendia inculcar, na política colonial portuguesa, uma maior racionalidade e até cientificidade que pudesse assegurar e salvaguardar os interesses nacionais nas colónias, tal como Ângela Guimarães (1984: 226) afirma:
“Uma administração cientificamente organizada, dirigida por funcionários de elevado nível cultural e participada pela adesão de determi­nadas camadas da população africana chamadas a um nível superior. Os restantes elementos das populações dominadas, depois de afeiçoados à propriedade e ao trabalho livre deveriam tornar‑se competentes produtores e consumidores prevendo‑se uma estratificação com uma elevada média de técnicos auxiliares e uma vasta população de trabalhadores braçais. Uma exploração económica de tipo moderno, tendo por base a realização de infra‑estruturas necessárias […] Defendia intransigentemente a integridade de todo o território nacional e o controlo pelo Estado de todas as grandes empresas e empreendimentos.”
De um lado, estavam os colonizadores imigrantes, mais ou menos integrados na civilização da técnica e da ciência aplicada, dominados pela economia monetária e largamente dependentes dos investimentos exteriores. Estes tentavam mobilizar os recursos locais para a construção de infra‑estruturas inexistentes e para colectar ou produzir não só os produtos para exportação, mas também aqueles destinados ao incipiente mercado interno. Do outro lado, estavam os kongo, divididos em subgrupos com estruturas políticas de tipo tradicional e organizados predominantemente para a auto‑suficiência. Os seus membros utilizavam técnicas agro‑pecuárias meramente empíricas, baseadas sobretudo no esforço físico humano. A colecta e a produção destinavam‑se, na sua quase totalidade, ao consumo, num tipo de economia classificada de ‘subsistência’.
A organização social dos kongo não favorecia a diferenciação, já que o lugar e a função que o indivíduo ocupava na comunidade eram geralmente determinados pelo nascimento e pela tradição4. O desenvolvimento geral das comunidades tradicionais enfrentava obstáculos não só de cariz económico, social e político, mas também mágico‑religiosos. Graças à magia e aos rituais, fórmulas, amuletos e talismãs procurava levar‑se as forças sobrenaturais a agir em determinado sentido. Isto verificava‑se, sobretudo, no caso da guerra. O facto do indivíduo se habituar a tudo e de esperar pela eficácia da prece, da súplica, do objecto mágico ou do capricho dos espíritos dos antepassados adormecia o seu sentido crítico e constituía causa de estagnação intelectual.
 
Antes da remodelação radical introduzida nos métodos de ocupação do Congo e iniciada em 1911‑1912, a tolerância relativamente à intromissão portuguesa nos negócios da região era conquistada através de presentes, de aguardente e de transigências de toda a espécie face à real autoridade exercida pelos potentados locais. Contudo, e face à nova situação introduzida por essa mesma remodelação dos métodos de ocupação, a colonização portuguesa em Angola vinha agora opor‑se à tolerância do indígena para com a autoridade portuguesa. Porém, a carência de efectivos humanos para exercer essa mesma autoridade e para concretizar a ocupação efectiva é assim apreciada por António Jorge Dias (1957: 71):
“Infelizmente a falta de gente mantinha‑se, porque a emigração para o Brasil continuava e continua ainda hoje a levar‑nos uma grande parte dos nossos excedentes demográficos metropolitanos. Só casos excepcionais, como a colonização de Moçamedes feita por elementos portugueses repatriados de Pernambuco contrariam a regra. A nossa ocupação em África pode dizer‑se que era só costeira, pois as explorações levadas a cabo por alguns exploradores não tiveram repercussão nenhuma. A supressão das ordens religiosas, que se seguiu à revolução de 1820, impediu que as missões continuassem a exercer a sua acção civilizadora […] Pode dizer‑se que a exploração sistemática dos territórios africanos do interior, sob o ponto de vista agrícola e comercial, só começou a fazer‑se a partir do fim da 1ª Grande Guerra. […] Em Angola, a ocupação tem‑se feito aos arrancos segundo a iniciativa dos governos. Algumas dessas tentativas falharam em parte, por falta de estudo, como foi a fixação dos madeirenses agricultores na Huíla, sem terem mercados que lhes comprassem a produção. Esta população acabou por se degradar social e economicamente e hoje ocupa um status social semelhante ao do indígena. Outras foram bem sucedidas e serviram de estímulo a novas tentativas.”
Este conjunto de situações adversas aos intentos da administração colonial portuguesa justificava‑se por uma conjuntura, especialmente de ordem geopolítica internacional, nomeadamente a questão do Mapa Cor‑de‑Rosa e da “Batalha do Congo” (a luta entre as grandes potências pela ocupação da Bacia Convencional do rio Zaire ou Kongo)5. Para além do mais, toda a situação nos remete para o principal acontecimento político do primeiro quartel do século XX: a Primeira Guerra Mundial. Nesta altura, Portugal, um país pequeno e essencialmente agrícola, foi confrontado, nas suas colónias, com uma situação profundamente adversa a que não eram alheias mudanças constantes de ministros do ultramar (mais de cinquenta ministros foram entretanto nomeados). Armando Cortesão dirigia a Agência Geral das Colónias, quando pronunciou, na Sociedade de Geografia de Lisboa, em 1925 o discurso O Problema Colonial Português, do qual Pierre Daye (1929:60) destaca “(…) cette interrogation effarante: «Comment peut‑on admettre qu’un pays de l’importance coloniale du nôtre ait vu se succéder, en quatorze ans, cinquante et un ministres des colonies?»”. Não nos admiremos pois da constante mudança de Governadores‑gerais em Angola.
É neste oceano nebuloso que a nova administração colonial tenta navegar. Os seus denodados esforços esbarravam com profundos entraves, nomeadamente as mudanças ministeriais que implicavam a política das colónias e obrigavam a uma constante rotação de Governadores‑Gerais. Citamos, de seguida, alguns dos factos enumerados por Roberto Correia (2000 e 2001) relacionados com os kongo e que, naturalmente, afectavam os zombo.
 Texto completo:

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Os Zombo na Tradição, na Colónia e na Independência (I Parte)

 
Professor Doutor José Carlos de Oliveira*




Do Advento da Civilização Técnica e da Ciência Aplicada à Consequente ‘Situação Colonial’

Sempre que duas sociedades entram em contacto, existe certamente, de ambas as partes, um aperfeiçoamento de que ambas virão a comungar. Todavia, o nosso caso tem a ver com sociedades detentoras de níveis tecnológicos distintos. Este desnível tecnológico acarreta grandes perigos, de vária ordem, para a plena realização deste tipo de contacto de culturas. Cabe aqui citar Neto (1964:18) quando este afirma:
“Os exemplos de contacto em causa nas sociedades modernas mostram‑nos que os grupos intervenientes têm, além de desiguais níveis tecnológicos, desiguais expressões demográficas, coincidindo, normalmente, a menor expressão demográfica com o mais aperfeiçoado índice tecnológico.”

No caso das relações seculares entre os zombo e os portugueses, também tal se verificou: os portugueses sempre foram uma minoria detentora de outro tipo civilizacional e de conhecimentos técnicos mais aperfeiçoados que lhes permitiram obter resultados favoráveis aos seus propósitos.

Relativamente ao conceito ‘situação colonial’, este deverá ser aqui entendido tal como Coissoró (1957:12/13) o define:
“O fenómeno colonial, hodiernamente, torna‑se assim objecto de uma investigação particular, de que a nossa boa doutrina já deu conta quando, abstraindo‑se do binómio puramente formal «Metrópole‑Império colonial» procura fracturar a realidade colonial – por si polimórfica – alicerçando‑se nas estruturas básicas de cada relação colonial, terminologicamente definida por situação colonial.”

CONTINUA...

domingo, 7 de fevereiro de 2010

.Acordos de alvor não previa eleições em Novembro de 1975 -

Acordos de alvor não previa eleições em Novembro de 1975 - Video

 

VER AQUI
Lisboa - O português mas poderoso em Angola durante o período de (des) "colonialização" (1974 e 1975) Rosa Coutinho “Sabia perfeitamente que não se realizaria eleições livres e justas em Angola. “A realização de eleições em Novembro de 1975 em Angola seria uma fantasia”, assegurou o líder português que coordenou os acordos dos Alvores.dos Alvores.
Fonte: CS ETV Network/Clubk
Rosa Coutinho participou em encontros clandestinos em Cuba

Os dados acima referenciados constam numa longa reportagem de jornalistas investigativos de origem canadiana na qual se confirma que os representantes norte americanos da CIA por desconhecerem a realidade angolana na altura foram facilmente “driblados” por Sousa Continho em parceria com Cuba e a extinta União Soviética.
É assim, que o historial do MPLA em termos de incumprimento e desrespeito a temas atinentes a eleições não é de hoje. Como prova carregue o vídeo em anexo na qual confirmará que a pretensão das eleições “atípicas” advogado pelo MPLA nos últimos tempos faz parte do seu perfil obscuro em “fazer” política.

Ultimos dias em Malanje quartel 1975 (video)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A lógica da consolidação da economia de mercado em Angola, 1930-74

           Análise Social, vol. XXI (85), 1985-1.°, 83-110  Eduardo de Sousa Ferreira
             A lógica da consolidação da economia de mercado em Angola, 1930-74
 


                                                          INTRODUÇÃO
Tem sido comummente defendida a tese de que a economia de Angola, nos últimos quarenta anos da sua existência como economia colonial, não evoluiu segundo um processo lógico, mas sim devido a um encadeamento de factos mais ou menos aleatórios, essencialmente porque a economia e a política colonial portuguesa, pela sua fraqueza e dependência, não estavam em condições de seguir um modelo de exploração colonial.

Uma certa distância que permita abarcar toda a evolução do período nos seus traços essenciais — evitando assim possíveis distorções derivadas duma visão de processo «por dentro» na sua parcialidade — e uma análise dos dados socieconómicos disponíveis, se bem que insuficientes, parecem con-
tradizer uma tal tese.

A uma fase de integração crescente da mão-de-obra numa economia de mercado sucedeu, a partir dos anos 50, um grau crescente, porque mais racional, de exploração. Estas fases representam a penetração e consolidação em Angola dum modo de produção baseado na economia de mercado e orientado segundo os interesses da economia metropolitana, onde — ao contrário do que geralmente é afirmado — se encontravam os principais centros de decisão. A partir da década de 60 assiste-se à expansão deste modo de produção, com a passagem da exploração colonial através do comércio para a exploração através da penetração de capital e do aumento de possibilidades de acumulação local, com o respectivo reforço duma burguesia local fraca, mas já existente.

Patenteia-se em Angola um processo de desenvolvimento da economia que, não sendo «clássico», se mantém dentro das margens dos modelos de exploração colonial geral implantados pelas outras metrópoles. Na realidade, o baixo grau relativo de desenvolvimento da economia portuguesa irá conceder uma certa «especificidade» ao processo, derivada do facto de o capital português conseguir manter uma posição dominante na definição da política económica colonial e este capital se encontrar numa fase de «empi-
rismo», em que ainda carece da renovação dos conceitos e mentalidades, do planeamento e da organização científica do trabalho. Por outro lado, a necessidade de encontrar apoio à política seguida e a fraqueza relativa do capital industrial português levam-no a não poder, na fase final, prescindir da penetração do capital estrangeiro, tanto nas colónias como na metrópole, passando o centro de decisão da metrópole a ser partilhado com outros centros.

Mas esta «especificidade» não ultrapassa a margem de variação dum modelo colonial passível de várias combinações dum número limitado de componentes e vai conduzir objectivamente — função do próprio mecanismo das leis económicas, mas também função de decisões — à consolidação e expansão da economia de mercado em termos tais que o domínio político directo se torna cada vez menos necessário e o caminho vai ficando aberto para uma solução neocolonial. A crescente autonomia administrativa atribuída
a Angola na fase final do colonialismo não pode ser considerada uma diminuição da sua dependência em relação à metrópole: a transformação das relações Angola/Portugal, assim como o surgimento de novas relações, implicam, sim, uma dependência cada vez maior da colónia nos campos económico, monetário, financeiro e tecnológico. Esta dependência foi perdendo o carácter de controlo político directo e foi-se transformando no sentido de um controlo económico, o que representa a promoção das possibilidades de
desenvolvimento da economia metropolitana e da sua associação à Europa desenvolvida, pretendendo preparar-se assim o caminho para a participação de Portugal numa exploração de tipo neocolonialista. A solução federalista de Spínola antes do 25 de Abril é disso testemunho. Por parte do capital internacional, o grau de penetração da economia de mercado atingido em Angola na fase final revelava-se suficiente para garantir a continuidade do modo de produção, tornando-se assim supérfluo o domínio político directo e mesmo vantajosa a eliminação do intermediário até aí obrigatório que era Portugal, em contradição com as pretensões do capital português.

Conclui-se, pois, que obstáculos postos à independência de Angola não derivavam da inexistência de um desenvolvimento tipo colonial, como nas outras colónias tornadas independentes em termos neocoloniais. Para as potências «candidatas» à neocolonização de Angola (incluindo Portugal), o impedimento residia no facto de não ter sido possível criar condições que garantissem a tomada do poder por uma burguesia local correia de transmissão de um capitalismo dependente, dado que essa burguesia não conseguiu ser integrada na formação social devido à clivagem gerada por um racismo económica e socialmente necessário como defesa duma população branca pouco qualificada1; para Portugal, o impedimento derivava, além disso, especificamente, de dois factores: por um lado, o desenvolvimento do capital indus- trial português era relativamente recente e quanto mais tempo «fosse ganho» até à independência, tanto maior seria o grau de participação da economia portuguesa numa futura exploração neocolonial internacional; por outro
lado, a concessão de independência às colónias, e a Angola especialmente, iria pôr em causa todo o sistema político implantado na metrópole, e uma transição teria de ser extremamente cuidadosa e, por isso, morosa.

A verificação de que Angola foi explorada segundo uma lógica inerente a um dos modelos de exploração colonial não é contradita pelo facto de o desfecho do processo de descolonização ter sido diferente dos outros modelos de descolonização devido precisamente ao carácter «específico» da colonização portuguesa. Na realidade, se a descolonização foi essencialmente determinada tanto pela existência de forças nacionalistas não articuladas pela burguesia local, e que não aceitavam um capitalismo dependente, como pelo carácter que assumiu a revolução do 25 de Abril na metrópole, ela foi também determinada pela incapacidade da economia portuguesa de se implantar

O aspecto da tese inicialmente exposta e referente aos reflexos do desenvolvimento da economia portuguesa na política colonial cremos ter sido por nós já devidamente refutado numa análise fundada da perspectiva neocolonialista da economia portuguesa2.  O objectivo do presente trabalho é apresentar pontualmente alguns dados que permitam contribuir para a refutação do corpo da tese que cremos errada. Numa análise do período de 1930 a 1974, se bem que baseada na precariedade dos dados existentes e na impossibilidade de sintetizar pesquisas também existentes, mas ainda iniciais, pretender-se-á caracterizar a penetra-
ção e consolidação da economia de mercado em Angola, demonstrando, por um lado, que o processo de desenvolvimento teve a sua lógica, que era a de permitir uma exploração colonial racional e preparar o caminho para a neocolonização, e, por outro lado, que certos factos «aleatórios» são expressão
duma especificidade do modelo colonial adoptado que o não fazem transbordar, no essencial, para além das fronteiras dos modelos impostos pelas outras potências coloniais. O ensaio limita-se assim à análise do processo económico interno de Angola e suas ligações directas com a política económica da potência colonial, excluindo, mas sem poder de forma alguma pretender subestimar, os efeitos da conjuntura da economia mundial sobre a actividade económica em Angola, que, sendo um factor relevante a tomar em consideração, excede o âmbito da presente análise.


I. A ESTRUTURA DA ECONOMIA COLONIAL ATÉ À DÉCADA DE 60

Nas décadas de 30 até 50, o factor essencial de produção dinamizador da economia angolana foi o factor trabalho, pilar tradicional do sistema de exploração colonial. O factor capital, se bem que se tivesse vindo a reforçar principalmente a partir dos anos 203, era ainda débil em termos de acumulação local e afluía
de forma ténue da metrópole à época fracamente industrializada; por outro lado, ao capital estrangeiro deparava-se certa dificuldade de penetração devido à política proteccionista do Estado Novo, que insistia em dar preferência ao capital português4.

O sistema fiscal e o regulamento do trabalho, baseado no Código do Trabalho do Indígena, de 1928, constituíam o enquadramento institucional destinado a limitar a possibilidade de o trabalhador angolano reduzir a sua actividade à cultura de subsistência, libertando mão-de-obra a ser inserida no circuito de economia monetária, seja através da sua introdução na «rede de comercialização» pela cultura autónoma de produtos de exportação, seja através da exploração directa da mão-de-obra pelo assalariamento. Preten-
dia-se criar condições para a existência e utilização de mão-de-obra em termos favoráveis a uma economia de mercado. O método utilizado era assim duplo. Um indirecto, através do sistema de impostos, que coagia à obtenção de rendimentos monetários, sendo a aplicação das leis fiscais «utilizada  pelos funcionários da Administração para garantir a mão-de-obra necessária às plantações europeias de cacau, café ou sisal, ou a empresas como as minas de diamantes»5; o outro método era directo, através do trabalho forçado
sob variadas formas. O Decreto n.° 16 199 (Código do Trabalho do Indígena) permitia o trabalho compelido para fins de interesse público, embora a titulo excepcional (artigo 294, § único). Contudo, «na prática, como não havia afluência espontânea de mão-de-obra em número suficiente, eram as autoridades administrativas que recrutavam os trabalhadores para as obras públicas em curso»6. Também a proibição do trabalho compelido em empresas privadas era ignorada pela Administração, servindo, por exemplo, o cultivo obrigatório do algodão de pretexto para este tipo de trabalho nas plantações europeias que possuíam concessões do Governo7. «Em Angola, o Estado actua aberta e deliberadamente como agente recrutador e distribuidor do trabalho em benefício dos colonos.»8 A Convenção do Trabalho Forçado, de 1930, foi ratificada por Portugal somente em 1956 e subterfúgios legais permitiam continuar a violar a Convenção9.
O trabalho forçado, pelo impacte que provocava no trabalhador africano, tinha ainda o efeito de induzir a aceitação de salários baixos junto dos empregadores particulares, sendo assim errado assumir que estes trabalhadores, ao aceitarem contratos a baixo nível salarial, respondiam a incentivos
económicos normais10.

Em 1941, os salários médios mensais eram de 27$ para os trabalhadores agrícolas residentes na região do local de trabalho e de 36$ para a mão-de-obra migrante, acrescidos de alimentação e vestuário n. O pagamento feito aos trabalhadores autónomos situava-se igualmente a um nível extremamente baixo, sob um regime de preços fixados por lei. Em meados de 40, o preço do milho de Angola foi fixado em 1$, enquanto o dos Estados Unidos ficava a 2$05 e o da Argentina a 2$81. Daquele escudo, ao cultivador africano eram
pagos $0,5812.

Este sistema de produção, baseado quase exclusivamente no factor tra- balho e nestas condições, não podia induzir uma economia dinâmica. Na base de uma população que em 1930 pouco ultrapassa os 3 milhões e em 1950 os 4 milhões, os fracos salários distribuídos e os baixos preços pagos ao cultivador africano não permitem o desenvolvimento de um mercado interno activo de consumo, mesmo que algumas camadas sociais estivessem interessadas na sua expansão. A procura de bens de consumo encontra uma base
fraca de alargamento quase exclusivamente no poder de compra dos colo- nos, que, contudo, eram em número de 30 000 em 1930 e em 1950 não ultrapassavam os 75 000. Em 1930-31, do valor da exportação, 15°/o têm origem na produção de agricultores africanos autónomos, 20% na de contratadores
e somente 5% na produção directa de europeus. Da produção agrícola em 1942, apenas 28,9% eram de origem europeiaI3

CONTINUA...
 Ver aqui: http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1223476582X5dGR7qk4Lo82EL4.pdf.




sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

SOBRE A GÉNESE DA LITERATURA ANGOLANA


[pepetela.jpg]Por: Pepetela



O primeiro livro editado em Angola e escrito por um angolano data de 1849 e foi publicado em Luanda pouco depois de se ter instalado a Imprensa Oficial. Trata-se de um livro de poemas, intitulado “Espontaneidades da minha alma”, cujo autor, José da Silva Maia Ferreira, pertencia a uma família de comerciantes portugueses instalada há muito na colónia.

Certos indícios fazem crer que outros angolanos se teriam dedicado às letras antes desta data, mas não encontrámos até hoje as obras, apenas referências esparsas. Preferimos pois referir que na segunda metade do século passado, e mais particularmente a partir de 1880, se desenvolve o que se pode chamar um embrião de literatura em Luanda e Benguela, cidades antigas na costa atlântica e pontos de partida para a colonização do interior. Tratava-se principalmente de obras de carácter jornalístico, muito activo nessa época marcada por grande agitação na vida da colónia, mas também poemas, romances e ensaios. Temos uma grande variedade de títulos de jornais, utilizando a língua portuguesa, kimbundo e kikongo, por vezes bilingues. A vida da maior parte destes jornais era efémera e embora tivesse sido decretada a liberdade de imprensa, vários deles eram proibidos logo desde o primeiro número, por razões políticas.

É o contexto social em que se desenvolveu esta literatura que vamos tentar rapidamente examinar, para pôr em evidência a maneira como se foi criando uma cultura própria que teria um enorme protagonismo no século actual, servindo de base para as manifestações nacionalistas.

O território que iria ser conhecido mais tarde pelo nome de Angola tornou-se, a partir da fundação da cidade de Luanda, em 1576, um enorme fornecedor de escravos para as Américas. A norte do território situava-se o reino do Congo, o qual já participava do tráfico há quase um século, mas tratava-se de uma entidade política independente na época, só se integrando na colónia de Angola no século XVII. Toda a economia de Angola vivia de e para o tráfico. E isto durou aproximadamente três séculos. Os escravos partiam principalmente para o Brasil. Do Brasil, Angola importava todos os produtos necessários à vida da colónia : da aguardente e pólvora até à carne seca e à madeira para construção. Portugal contentava-se em enviar pessoas e entre elas um importante contingente de deportados, condenados por crimes de direito comum e por “delitos religiosos”. Esta categoria era constituída por judeus e adeptos da reforma protestante. Os colonos eram compostos essencialmente de traficantes, comerciantes, soldados e deportados. Dadas as circunstâncias específicas em que se realizava a partida desta população para Angola e dados os objectivos visados, é fácil deduzir que se tratava de uma população principalmente masculina, o que esteve evidentemente na origem da forte mestiçagem gerada na colónia.

Até ao século XIX, a situação económica e social sofreu poucas modificações, em Luanda, Benguela e nos territórios circunvizinhos que constituíam praticamente a colónia de Angola. Era de facto uma feitoria servindo de base à captura e ao embarque dos escravos. Sendo a sua principal vocação militar e administrativa, a esta se agregou alguma actividade económica ligada à pesca e a uma agricultura rudimentar nas quintas à volta das cidades e presídios e, finalmente, o comércio de alimentação e bebidas. Esta feitoria era de facto desde o século XVII governada pela colónia portuguesa do Brasil e não directamente pelo Reino de Portugal.

Até ao século XIX, que constitui um período-charneira, como veremos, as características da população da colónia não variaram. Assim, a categoria dos brancos, que eram em número de dois mil e se compunham de comerciantes e soldados, permaneceu estável durante séculos. O número de mestiços aumentou progressivamente e sempre foi superior ao dos brancos. O elemento negro evoluía de maneira significativa, mesmo se uma parte importante era constituída por escravos que só ficavam nas cidades o tempo mínimo para se restabelecerem fisicamente do desgaste provocado pela viagem em caravana do interior para a costa, com o fim de poderem suportar as condições infra-humanas da viagem para a América. Luanda e Benguela eram com efeito entrepostos de engorda dos escravos capturados em guerras do interior ou vendidos pelos chefes tribais.

O número reduzido de brancos, a quase inexistência de mulheres brancas, e o facto de os negros serem escravos em trânsito ou servindo nas casas dos donos, e por isso com poucas possibilidades de fundar uma família, explicam que a família mestiça tenha predominado nessa altura. Pode mesmo dizer-se que a família dominante era não somente mestiça mas também patriarcal polígama. Um homem, que podia ser europeu, mestiço ou raramente um negro com grandes propriedades, tinha normalmente uma mulher principal e várias secundárias, geralmente escravas (mucambas) que ajudavam a mulher principal nas lides da casa. Muitas vezes a mulher principal era mestiça e as secundárias eram negras, independentemente da cor do chefe de família. Se este era rico, as mulheres eram tratadas com grande luxo e ostentadas publicamente, sem nenhuma reserva, o que levava a igreja católica a elevar-se constantemente contra “a dissolução dos costumes e a degradação da moral familiar”. Mas, ao que sabemos, a sociedade fazia pouco caso das invectivas da igreja, não só porque as condições da colonização a forçavam a isso, mas também porque este factor encontrava justificação fácil nos costumes da sociedade africana tradicional, polígama por excelência. Assim, a sociedade mestiçava-se racialmente e se baseava sobre uma síntese cultural entre a estrutura familiar europeia e a estrutura familiar africana tradicional. Em Luanda, cidade situada em território de língua kimbundu, era esta língua africana que se usava correntemente na família patriarcal, mesmo se o chefe fosse branco. Do mesmo modo, inúmeras crenças e costumes africanos perduravam, sob o manto da europeização e da cristianização, em imprevistos sincretismos religiosos e culturais.

Um outro fenómeno se juntava a esta evolução : o da ascensão de mestiços livres na administração, os quais representavam uma quinta parte dos funcionários. Esta ascensão social dos mestiços dava um aspecto particular às sociedades da costa, muito particularmente a Luanda e Benguela. De um modo geral, os brancos consagravam-se sobretudo ao comércio, fonte real do poder, que lhes assegurava mais vantagens materiais que os magros salários de funcionários. Por isso uma parte significativa dos cargos públicos, civis e militares, foi progressivamente ocupada pelos mestiços. No entanto sempre existiram medidas legais restritivas. Os cargos mais elevados ou de maior prestígio, compreendidos os de vereadores da Câmara, reclamavam “pureza de sangue”, o que queria dizer que o candidato não podia ter sido “contaminado” por sangue judeu, mouro ou negro.

A sociedade urbana de fim do século XVIII é melhor conhecida graças ao historiador brasileiro Elias Correia , que viveu vários anos em Angola e descreveu o quotidiano dos seus habitantes. Ele considerava a sociedade dominante em Luanda licenciosa e atentatória à moral católica. Refere também que a cidade era a mais suja do mundo, com as ruas cheias de lama e de estrume, os animais vivendo nas ruas no meio do lixo atirado de todos os lados. Os habitantes sofriam de paludismo e desinteria, e todas as pestes provocadas pela atmosfera pútrida em que viviam. As casas estavam reduzidas a estado de pardieiros e os edifícios com imponentes fachadas mas ameaçando desabar estavam rodeados de cabanas sombrias e sem ventilação e casas em ruína que serviam de despejo a toda a espécie de imundícies. No entanto, talvez para reforçar os contrastes, nesta cidade descuidada, infecta, mal cheirosa, que os grandes senhores se contentavam de disfarçar mandando queimar alfazema e açúcar no interior das habitações, havia a maior ostentação de luxo. Os senhores e suas consortes vestiam caras sedas, veludos e brocados, como nas cortes europeias, sem temerem a sauna a que se condenavam, passeavam pedrarias, espadins e fivelas de ouro nos sapatos, para os mergulhar logo em seguida no esterco das ruas. Por Elias Correia sabemos ainda que não havia vida cultural, excepto raras representações teatrais nas igrejas. Os habitantes mais desafogados passavam o tempo a engolir copiosos repastos que duravam horas, bem regados de aguardente brasileira, e que terminavam invariavelmente por partidas de cartas com grossas apostas. As fortunas se faziam e desfaziam numa noite.


Esta sociedade pachorrenta para a qual o desenvolvimento significava quase um insulto sofreu no século XIX dois grandes abalos que por pouco a faziam desaparecer. O primeiro abalo foi a independência do Brasil em 1822. Grupos importantes das classes dominantes de Luanda e de Benguela tentaram fomentar um movimento para se juntarem ao Brasil e prolongarem constitucionalmente o que existia na prática. A burguesia colonial de Angola vislumbrava grandes benefícios nesta ligação directa com a região que lhe comprava os escravos e sem ter de enviar o dinheiro dos impostos do tráfico para Portugal. Mas o poder português reagiu e o número de brancos aumentou consideravelmente num ano, com o envio de tropas para defenderem os direitos da coroa europeia. O resultado mais sensível da independência do Brasil foi uma diminuição progressiva da exportação de escravos, o que provocou uma crise da economia que durou um século.

Em 1836, um segundo abalo iria modificar a face da colónia : a abolição do tráfico de escravos pela pressão da Inglaterra. E a crise tronou-se pânico e engendrou uma verdadeira debandada. Houve uma exportação clandestina e massiva de escravos e fuga de capitais e de pessoas para a Metrópole. O tráfico diminuiu lentamente para desaparecer completamente só no fim do século. Todavia, deixou de ser a principal e quase única fonte de receitas da colónia. A economia de feitoria terminou, deixando o lugar a outro tipo de colonização, já timidamente experimentado no passado, com o envio de maior número de colonos para o interior com o fito de se dedicarem à agricultura. Esse movimento migratório de brancos modificou pouco a pouco as relações sociais e marcou definitivamente a vida cultural. As perdas provocadas pelo fim do tráfico foram somente em parte compensadas pelos benefícios do comércio da borracha e do marfim, e pelo princípio da exploração do café. Mas a transformação do sistema de produção provocou mudanças importantes numa camada social que alguns autores qualificam como “classe média africana”, “sociedade crioula” ou “elite africana”, termos utilizados para designar essencialmente o mesmo fenómeno.



CONTINUA...

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Sul de Angola - O Gado Sagrado entre os Nhanecas-Humbes

Sul de Angola - O Gado Sagrado entre os Nhanecas-Humbes (1) O cortejo

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"O grupo étnico que apelidamos de Nhaneca-Humbe constitui um grande agregado populacional no Sudoeste de Angola. Possui uma unidade étnica bastante bem definida e a sua coesão linguística é facilmente observável para quem se dedica a estudos desta natureza.
Inclui os seguintes povos: Muílas, Gambos, Humbes, Donguenas, Hingas, Cuâncuas, Handas, Quipungos e Quilengues.
Com excepção da região de Quilengues e parte da área da Bibala, podemos dizer que estes povos ocupam a terra planáltica do Sul de Angola.
Esta área atinge o seu ponto mais elevado no planalto do Bimbe, perto da Humpata (cerca de 2300 metros), descaindo gradualmente até ao vale do Cunene.
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Não se pode falar na vida pastoril destes povos sem mencionar a existência do gado sagrado (machos ou fêmeas bovinos).
Regra geral, os animais sagrados são herdados ou recebidos como presente do pai, de um tio materno ou de um irmão. Referindo-se a um deles no singular, chamam-lhe otyi-panga, que quer dizer "o animal amigo".
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O espírito do benfeitor falecido parece protegê-los ou, mesmo, residir neles. Os espíritos comunicam por seu intermédio com os vivos. São como que a protecção da família: todo o bem que a esta sucede é facilmente atribuído à sua interferência. Por isso se lhes presta culto e se lhes dispensam cuidados muito especiais.
Tudo o que esteja relacionado com estes animais reveste um carácter sagrado - o leite, os excrementos, o vaso da ordenha, o lugar onde o leite é distribuído.
Nunca podem ser alienados e, se forem roubados, constitui tal facto um grande desastre para o dono e para a família deste.
Todo o nhaneca que se respeita deve possuir pelo menos dois bois (ou vacas) sagrados: um recebido do pai e o outro herdado do tio materno. Os mais ricos têm quatro ou cinco.
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É entre os Nhanecas que se encontram talvez mais variedades de animais sagrados. Conhecem eles pelo menos seis classes de "bois" sagrados:
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1 - Onaluhonge, que quer dizer: "aquele da vara". - Pode ser um macho que o filho recebe de seu pai. Trata-se, porém, geralmente, de uma vitela. Assim que tiver a primeira cria, o leite só poderá ser utilizado pelo proprietário ou pelos companheiros de circuncisão. Os mesmos, e só eles, podem comer a carne desta vaca, quando ela morrer de doença ou de velhice.
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2 - Ondyila-ombe - É uma vaca oferecida ao filho do falecido dono do gado. O leite pertence exclusivamente ao órfão e a seus filhos, se os tiver. Enquanto pequenos, alimentar-se-ão do leite desta vaca; uma vez crescidos, abster-se-ão de o fazer, por respeito.
De vez em quando conduzem todas as vacas ao cemitério - todas, mesmo as profanas. Vão acompanhadas dos seus vitelos, a um dos quais se racha então uma orelha ao meio. O sangue, derramado sobre as campas, é oferecido como sacrifício aos mortos aí enterrados. Se o vitelo vingar e for fêmea, ficará automaticamente sagrado como otyi-panga. Um animal destes não pode ser alienado.
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3 - Onumatwa, "a mordida", por causa da orelha fendida. Esta vaca pouco difere da precedente. Para a consagrar, porém, não é necessário ir fazer a cerimónia ao cemitério. O animal foi recebido por um sobrinho, por ocasião da morte de um tio: é como o seu memorial. O leite pertence ao dono e aos seus filhos. A descendência desta vaca pode no entanto ser vendida.
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4 - Onamphinga, "a do herdeiro". - É um boi geralmente abatido por ocasião da morte do dono. Os herdeiros só podem comer da carne do peito, que é imediatamente separada do resto, logo depois de a rês ter sido abatida. A esta carne especial têm também direito os parentes próximos paternos.
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5 - Ondilisa, "faz chorar", por alusão aos prantos fúnebres. É o boi morto por ocasião do passamento do proprietário. Mas não se lhe come a carne, a qual é lançada aos cães. O couro pertence aos herdeiros.
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6 - Onamulilo, "o do fogo". Temos aqui um boi macho muito respeitado e ao qual se não podem dar maus tratos. O dono, depois de o ter escolhido, manda um dia ministrar-lhe umas drogas por um quimbanda, o que o torna imune aos ataques do leão. Com efeito, declarou-me um velho da região da Quihita: Como poderá ele ser atacado pelo leão, se tem fogo no seu corpo?!
Quando morrer, unicamente mulheres e raparigas lhe podem comer a carne." (*)
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(*) - Adaptado de: Padre Carlos Estermann - Etnografia do Sudoeste de Angola - Vol. 2 - Grupo Étnico Nhaneca-Humbe - Junta de Investigações do Ultramar - Lisboa - Portugal - 1960.
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"A manifestação mais espectacular, respeitante ao gado sagrado, é o chamado "cortejo do boi sagrado", rito que hoje em dia só é praticado entre os Nhanecas.
A festa consiste essencialmente num cortejo solene, que leva o boi sagrado do régulo através do sobado inteiro, com todas as honras que são devidas a um animal no qual as almas dos antigos reis parecem ter estabelecido o seu habitáculo.
O boi, que é de cor branca e preta, tem ao seu serviço um séquito de altos dignitários, entre os quais se destacam o mwene-hambo, que é o chefe dos pastores do gado do soba, e o nthoma, que faz as vezes de arauto, anunciando por toda a parte a passagem do boi.
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Antes da saída do cortejo, o soba faz as recomendações seguintes:
Percorrei a terra, fazei a festa. Se o cortejo encontrar um cabrito no caminho, matai-o; se for um boi, comei-o; se for uma criança, prendei-a e que a família pague um boi para a resgatar!
Toda a pessoa adulta deve venerar o boi à sua passagem. Se houver alguém que assim não proceda, tirai-lhe tudo quanto tem. Se resistir, matai-o. Que não se chore o morto. É um tempo de regozijo!
Que tudo seja permitido! No entanto, não se devem maltratar as mulheres. Não deve haver nem questões nem querelas. Não pode haver lamentações, mesmo que alguém morra. O povo quer a festa. Se eu a não permitisse, o povo ficaria descontente. Ide, pois!
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Feita esta proclamação, procede-se à cerimónia seguinte: a primeira mulher do soba apanha um pouco do pó das pegadas do chefe dos pastores, ao mesmo tempo que uma pequena porção da bosta do boi sagrado, e leva estes produtos para o quarto de dormir, colocando-os debaixo do travesseiro de madeira. Não podendo tomar parte no cortejo, ficar-lhe-á desta maneira pelo menos indirectamente unida. Durante o cortejo, ela e o régulo têm a obrigação de guardar continência, tal como o chefe dos pastores.
A procissão do boi sagrado dura mais ou menos três semanas. Em todas as quintas por onde ele passa são-lhe prestadas todas as honras e, no decorrer da viagem festiva, junta-se-lhe muito gado para acompanhar o cortejo.
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De regresso à residência do soba, este e a mulher principal, mais uma rapariga virgem, apresentam ao animal uma bebida peculiar. O boi sagrado lambe-a com sofreguidão, o que é um motivo de alegria para todos os circunstantes e um óptimo augúrio para toda a tribo. Nesta ordem de ideias, o chefe dos pastores promete prosperidade e uma protecção especial dos espíritos dos antigos sobas para todo o povo." (*)
(*) Adaptado de: Padre Carlos Estermann - Etnografia do Sudoeste de Angola - Vol. 2 - Grupo Étnico Nhaneca-Humbe - Junta de Investigações do Ultramar - Lisboa - Portugal - 1960.

DO TEJO GRANDIOSO AO ZAIRE PODEROSO - Poema Épico - Volume I



Caravela portuguesa

CANTO I - "DO TEJO GRANDIOSO AO ZAIRE PODEROSO" -(65 estâncias)-

1) - Não pretendo cantar lutas gloriosas
...... Desses antigos reis e outros senhores,
...... Já gabadas em versos e altas prosas
...... Por alguns de mais rápidos louvores,
...... Mas sim aquelas duras,perigosas,
...... As mais negras, sem fim e sem favores,
...... Desses aventureiros de espantar
...... Que venceram as terras e o alto mar !

2) - Olhos ténues do céu azul e distante
...... Que sois luzes de estranhos universos,
...... Eis,bem erguida, minha lira sonante
...... Pra relatar por estes pobres versos
...... Quanto labotou o luso navegante
...... Nestes ocidentais rincões imersos,
...... Bem longe, nas lonjuras tão profanas
...... Das seculares costas africanas !

3) - Apenas pra os de triunfos merecidos
...... E que, de pó,seus feitos silenciosos
...... Estavam já cobertos ou sumidos
...... P'la pata de inimigos temerosos,
...... A eles, de tantas lutas esquecidos,
...... Louvo a Calíope, para que animosos
...... Vibrem os seus, em som alto e mais forte
...... Contrariando os caprichos d'outra sorte!

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CANTO II - NO REINO DO CONGO - (171 estências) -

1) - Os negros barulhentos, todos ledos
...... Na festa com que os lusos recebiam,
...... Por vencerem as lendas e alguns medos
...... Das tantas terras que, vendo, possuíam,
...... Entre si, com recato e alguns segredos,
...... Mais dobrados cuidados lhes faziam,
...... Sem esconderem seus tratos e modos
...... Dum apreço e respeito dados a todos.

2) - Em tão gratas mercês deles ficavam
...... Que deixar sair ninguém desejaria,
...... Pretendendo aprender quanto ensinavam
...... Do seu muito saber, fé e valentia.
...... Por diversos locais tambores soavam
...... Convidando ao batuque a negraria,
...... Cada qual em seus trajos mui variados
...... E aos outros parecendo desusados.

3) - Corpos cobertos só das baixas partes
...... Com troncos nús e braços musculosos,
...... Outros fêmeos, gentis, de finas artes
...... Dançavam e saltavam mui graciosos,
...... Fazendo certas coisas sem desastres
...... Com pulos, gestos, gritos estrondosos;
...... O visitante espantado ficava
...... E,de certo modo, isso não admirava!

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CANTO III - NO REINO DE ANGOLA - (108 estâncias) -

1) - Do Congo ao Cabo o Reino estava
...... Em cada dia alargando a sua fronteira,
...... Engolindo outros sobados, andava
...... Juntando tributos d'outra maneira.
...... Desse,que antes de Ndoango se chamava,
...... A Angola dava a palavra primeira,
...... Assim sendo para sempre conhecido
...... E por aquele senhor protegido.

2) - Uns antigos os quimbundos combateram
...... E em seu lugar ficaram instalados,
...... Depois, ainda os anzicos submeteram
...... E tomaram as rédeas desses lados.
...... Um, N'gola Inene, que antes conheceram,
...... Seria dos angolanos iniciados
...... O que mais terras depois conquistara
...... Formando um Reino que em grande tornara;

3) - Um que de ferrador tinha alguns jeitos
...... E aos seus queria com muito coração
...... Teve cuidado com valiosos peitos
...... Livrando-os da mais rude privação.
...... Por todas essas coisas satisfeitos
...... O buscaram para a nova Nação,
...... Designando-o po N'GOLA, rei primeiro,
...... E mais Mussuri, nome verdadeiro,

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CANTO IV - O GOVERNO GERAL - (113 estâncias) -

1) - No ano noventa e dois, sendo Janeiro,
...... Foi nomeado pra Angola outro gestor;
...... Vinha c'o ilusões e homens,bem lampeiro,
...... Sendo um ilustre e mui rico senhor.
...... Teve boa recepção, sendo o primeiro,
...... Nem se sabendo qual o seu valor
...... Porque às gentes surgia como um estranho,
...... Vindo que era das terras doutro amanho.

2) - Mas o modo de sua governação
...... Causou protestos dalguns contrafeitos,
...... Feridos no interesse e na feição
...... E pelos quais houvera bons proveitos.
...... Surgia deles um padre, com acção
...... Alegando os haveres e direitos
...... Ganhos em anos de muitas canseiras
...... E para outros o fim das suas asneiras!

3) - Duvidando por onde a razão andava
...... E sendo tantos falsos, intriguistas,
...... Deixou tudo ficar como ali estava
...... Aguardando a sentença dos legistas.
...... Cada soba uma nova causa dava
...... Sendo apoiado com largas, santas vistas,
...... Por certos padres que ali comandaram
...... E quase por si também governaram.

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CANTO V - A GRANDE GINGA - (63 estâncias) -

1) - Vasconcelos, pra Angola fora eleito
...... E logo toma posse de sua herdade,
...... Só seguindo mais tarde ao duro leito
...... Quer fosse p'lo receio ou pouca vontade.
...... Evitando um perigo ou algum mau jeito
...... Com holandeses sem qualquer piedade,
...... Tivera de fazer um melhor plano
...... Dispondo armas e homens com menor dano.

2) - Os tributos ao reino destinados
...... P'los diversos caminhos se sumíam,
...... Por uns padres e chefes controlados
...... E que entre si essas coisas discutiam;
...... Despertados de sonhos, enganados,
...... Que com promessas vãs os iludiam,
...... Passaram a explorar as novas fontes
...... (Que andavam as cabeças ali as montes!)

3) - Entre eles as discórdias aumentavam
...... Repondo em lutas pérfidos rivais,
...... Pois que dos mesmos meios todos usavam
...... Esquecendo de pronto tudo o mais.
...... A paz com alguns sobas negociavam
...... Para alcançar daqueles naturais
...... Auxílios necessários nas suas guerras
...... Com as quais se ganhavam as boas terras.

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CANTO VI - O DRAMA DA ESCRAVATURA - (75 estâncias) -

1) - Muitos escravos foram retomados
...... Que eram vendidos em boa quantidade,
...... Sendo para novas terras embarcados
...... Que deles havia lá necessidade.
...... Mas os poderes régios contrariados
...... Logo os mandavam de volta à sua herdade,
...... Sendo caso de má e desleal conduta,
...... Não fosse obra feia, de filhos de puta!

2) - Não era por Dom Henrique ou sua alegria
...... Que em escuros negócios se metessem,
...... Sendo antes para Cristo e a Santa Pia
...... Todos quantos a Nova ali quizessem;
...... Amolecendo as mentes pretendia
...... Evitar que outros piores ali viessem
...... Colher frutos em tão enorme fartura,
...... Que uma vida fácil nem sempre dura!

3) - Em tendo aquele campo bem semeado
...... Seria farta e válida a colheita
...... E,próximo do tal reino ali buscado,
...... Uma outra melhor já havia de estar feita.
...... Pra tanto era o caminho procurado
...... Em naus que o Índico rápido rejeita,
...... Se outra solução não fora a escolhida
...... Que era a vela,mais fácil,sumetida.

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CANTO VII - DOS ATAQUES HOLANDESES À RECONQUISTA - (103 estâncias) -

1) - Os mares muito turvo se tornavam
...... Por algumas escuras, feias razões,
...... Doutros que o rico Reino desejavam
...... Cheios de cobiça e ódio de ladrões;
...... Para o interior as tropas não marchavam
...... Poupando as fracas forças e os canhões,
...... E,deslocando-os antes para as costas
...... Protegiam-se das naus ao largo expostas.

2) - Da outra banda dos mares oceânicos
...... Chegava triste nova de espantar,
...... Que plebes calmas já punha em pânicos
...... Das coisas que por certo se iam passar:
...... - Velas grandes, tamanhos titânicos,
...... Preparavam-se para os atacar !
...... Sendo fraca a defesa residente,
...... Temerosa se punha toda a gente,

3) - Mas, suspendendo um pouco essa eminência
...... Os reservados, cautos holandeses,
...... Sabidos da possível resistência
...... Comum em muitas lutas e revezes,
...... Prosseguiam com mais pérfida violência
...... Sobre alguns desses pobres camponeses,
...... Sondando talvez aos poucos os caminhos
...... Pra ver que haveria entre esses ninhos.

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101)- Logo alcança o fronteiriço e alto Penedo
...... Levando quanto surgia p'la frente,
...... Os forte toma e ocupa de arremedo
...... Que a coragem fazia aumentar a gente!
...... Em fuga alguns se botam bem mais cedo
...... Cuidando noutra forma diferente,
...... Com os fogos danados incendiando
...... Tudo o que por ali iam abandonando.

102)- Restava por refúgio a fortaleza
...... Que o encorajado luso ali arremete,
...... Defendendo-se então a cercada presa
...... Mas que sem forças já pouco acomete.
...... De novo Salvador com mais firmeza
...... Se prepara para honrar seu galhardete,
...... Quando nota no alto mastro a bandeira
...... Agora branca, em vez da desordeira !

103)- "Abre-se a porta" dessa "cidadela"
...... Saindo os vencidos bem envergonhados,
...... Em número maior e em vária farpela
...... Entre alas dos vencedores formados.
...... Metidos depois numa caravela
...... Dali são pra sua terra despachados,
...... Enquanto por toda a costa angolana
...... Ardia de novo a flama lusitana !

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POEMA ÉPICO - Roberto Correia - Volume : I

NOTA - ESTE POEMA ÉPICO TEM DOIS VOLUMES COM UM TOTAL DE 1.368 ESTÂNCIAS : Vol.I = 698 e Vol.II = 670, A QUE CORRESPONDEM 10.944 VERSOS)