sexta-feira, 19 de março de 2010

"O BOM POVO PORTUGUÊS": USOS E COSTUMES D´AQUÉM E D´ALÉM-MAR"




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Omar Ribeiro Thomaz


Para o Português o coração é a medida de todas as coisas.
Jorge Dias (1961a)

Esta afirmação tão contundente sobre o "caráter lusitano", vindo daquele que ficou conhecido como o maior antropólogo português, levanta algumas questões em torno da própria disciplina em Portugal. De certa maneira, em mais de um período, antropólogos e etnógrafos portugueses foram chamados a se manifestar sobre o "povo português" ou as características da "nação", em um processo que facilmente poderíamos associar à construção de mitologias nacionais, para o qual concorreram outros universos disciplinares e culturais, tais como a história, a sociologia, a literatura, a arquitetura ou a música. No que diz respeito à antropologia, o interesse em discutir o caso português decorre de dois pontos fundamentais absolutamente entrelaçados: grande parte do século XX foi vivido em Portugal sob um regime autoritário e o império colonial português condicionará, em grande medida, o (limitado) debate sobre a "questão nacional", quer em função do marco institucional existente (criado para atender às demandas do ultramar) quer como conseqüência dos termos a partir dos quais se podia debater a nação e o império. E é sobre uma antropologia que ora discute o "império", ora a "nação" que se debruça este artigo. A partir da produção de dois antropólogos portugueses inseridos em contextos históricos e institucionais específicos - Mendes Corrêa e Jorge Dias -, procurarei avançar na minha hipótese central: no período genético da disciplina em Portugal, e até o 25 de abril de 1974, não é possível separar rigidamente uma antropologia que tinha como objeto a nação, daquela que tinha como objeto preferencial o império.
Esta preocupação teve sua origem na observação de tendências recentes da antropologia em Portugal que revisitam sua tradição tendo em conta apenas aquela produção voltada para o território peninsular e as ilhas adjacentes (Madeira e Açores). Um império pobre e marginal não teria produzido, com algumas exceções, uma antropologia ou um saber sobre a diversidade cultural de qualidade que valesse a pena ser recuperado nos dias que correm, ao contrário dos debates em torno do Portugal europeu. Se tal tendência se tem mostrado produtiva ao promover a análise minuciosa de uma já longa tradição etnográfica portuguesa - destacando os trabalhos de João Leal (2000) -, parece-me que ela não dá conta de um elemento central: as próprias peculiaridades de Portugal enquanto nação européia que, para se manter enquanto tal, teve que defender uma estrutura imperial que passa a confundir-se, progressivamente, com a própria nação.

Antropologia da nação, antropologia do império
Dentre os elementos que particularizam a produção de "saberes" em Portugal ao longo do século XX, constata-se a própria situação periférica do país no contexto europeu, o longo período em que viveu sob um regime autoritário e, sobretudo, uma percepção desterritorializada da nação que encontra eco em várias instituições e em diversos universos da cultura, tais como a literatura, as artes e as próprias disciplinas universitárias. Entende-se por "nação desterritorializada" a idéia da existência de uma comunidade de sentido que englobaria não apenas o Portugal europeu e os arquipélagos adjacentes (Madeira e Açores), mas também os territórios coloniais na África (Cabo Verde, Guiné Portuguesa, São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique), enclaves como os de São João Batista de Ajudá e Cabinda, também no continente africano, o Estado da Índia Portuguesa (Goa, Damão, Diu, Dadrá e Nagar-Aveli), a cidade de Macau, a parte oriental da ilha do Timor e as próprias comunidades de migrantes portugueses espalhadas pelo mundo. Ao longo de todo o período autoritário (1926-1974), procurou-se "incorporar" simbolicamente e, por vezes, institucionalmente, os territórios controlados por Portugal ora sob o nome de "colônias", ora sob o nome de "províncias ultramarinas". No interior dos limites impostos por uma ditadura, podemos observar um esforço razoável que perpassa diferentes campos de saber e que procura debater uma realidade imperial que se quer a tradução da nação. Uma verdadeira escatologia lusitana que procurava unir passado, presente e futuro em uma mesma linha temporal que não faria mais do que repetir, no espaço, as particularidades da nação.
Não é, contudo, essa escatologia e sua expressão em distintos campos de conhecimento que ocupará a atenção deste ensaio, algo já discutido alhures (Thomaz no prelo), mas uma sorte de saber específico no interior do qual as idéias de nação e império se cruzaram continuamente: a antropologia. Defendo a idéia de que não é possível compreender a antropologia científica ou as tradições etnográficas nacionais sem uma análise dos "saberes coloniais" - aqueles constituídos tendo como referência os territórios coloniais, com fins aplicados ou não. Noções como "cultura" ou "diversidade cultural" foram concebidas e interpretadas em função dos contextos nacionais específicos em conjunto com a dinâmica imperialista1.
A antropologia em Portugal configura um interessante campo de reflexão2. Considerada uma tradição disciplinar marginal quando temos em conta os grandes centros europeus, certamente não pode ser comparada às suas congêneres na França e na Grã-Bretanha. É inegável, contudo, que o Estado Novo3 em Portugal direcionou esforços consideráveis na constituição de "saberes coloniais" e de uma série de estudos sobre a "cultura portuguesa" no interior dos quais a antropologia passaria a desempenhar um papel central e onde, na grande maioria das vezes, não havia uma clara separação entre o "nacional", o "colonial" e o "imperial".
Tomemos como referência encontros e congressos dos quais tomavam parte, além de indivíduos que se denominavam "antropólogos" (nas suas mais variadas versões) ou "etnógrafos" 4, historiadores, geógrafos, médicos, administradores coloniais, juristas, missionários etc. No Congresso de Antropologia Colonial de 1934 e no Congresso Colonial de 1940, os participantes enfatizaram sistematicamente o aspecto "nacional" dos grupos e dos territórios que se propunham a analisar e que compunham o elemento humano do "império colonial". Seu caráter nacional era muitas vezes interpretado como uma "potencialidade". Dessa perspectiva, creio que uma classificação rígida da antropologia em Portugal como sendo uma nation building anthropology, e não uma empire building anthropology, tal como propõe João Leal, usando os termos de George Stocking, não traduz com exatidão a natureza do debate: discutir a "nação" era discutir também o "império" (cf. Leal 1999a:213; 2000). Aqueles encontros que tinham como objeto de debate as colônias, suas gentes e suas terras mobilizaram parte da intelligentsia portuguesa nas primeiras décadas do salazarismo. Parte desses eventos acompanhava as grandes exposições realizadas em Portugal, como o Congresso de Antropologia Colonial Portuguesa, realizado por ocasião da Exposição Colonial do Porto, em 1934, e o Congresso Colonial, organizado no quadro das festividades de 19405. A organização desses grandes eventos só foi possível graças ao esforço do Estado, de setores da sociedade, de personagens centrais da cena política e cultural portuguesa6 e, evidentemente, a um determinado quadro institucional voltado para a produção de "saberes coloniais" e marcado por uma presença significativa da antropologia ou, pelo menos, de indivíduos que se definiam como antropólogos.
Sabe-se que em Portugal há uma longa tradição de estudos voltada para o "folclore" ou para a "cultura popular" que terá profundo impacto na antropologia produzida no país ao longo do século XX (Pina Cabral 1991; Leal 2000) e que, arrisco dizer, alimentará boa parte das discussões sobre a "natureza do povo português" e sobre a "identidade nacional" e chegará a alimentar uma determinada ideologia de Estado. Dada a crescente sobreposição das noções de "nação" e "império", qual seria a concepção de "povo português" hegemônica ao longo do Estado Novo? Em que medida uma estrutura política - o império - pode comportar grupos culturais tão diferenciados a partir da concepção homogeneizadora de "nação" 7? De que forma os estudos sobre os "usos e costumes" das populações indígenas acabavam por informar uma prática política e uma visão de "cultura portuguesa"? Qual a relação entre a antropologia e o indigenato - quadro legal construído para dar conta das populações indígenas - e seu possível paralelo com o corporativismo8? De que forma, enfim, os "saberes coloniais" se apropriavam de concepções inicialmente pensadas para dar conta da "autenticidade" dos povos da península e arquipélagos adjacentes?
Estas questões se fazem centrais na medida em que observamos que um dos grandes traumas da história contemporânea em Portugal diz respeito, justamente, à sobreposição do "império" à "nação", ilusão só desfeita pela violência da guerra. Como nos ensina Hannah Arendt (1990), o império transcontinental e reconhecidamente multicultural é incompatível com instituições nacionais: a "nacionalização" do império acaba, forçosamente, por constituir uma crise no espaço próprio da nação. No caso português o processo foi mais grave, pois se deu no contexto de um regime autoritário que calava um possível debate público em torno do império ou da nação.
Em um primeiro momento, procurarei retraçar o marco institucional português responsável pela constituição de "saberes coloniais". Não realizarei um balanço exaustivo: sua centralidade crescente nas primeiras décadas do regime autoritário revela, contudo, o interesse em delinear um panorama complexo da produção de idéias em Portugal. Deter-me-ei, em seguida, em parte da produção de Mendes Corrêa que, apesar de esquecido pela contemporaneidade, foi considerado um dos grandes antropólogos portugueses entre as décadas de 30 e 40. À guisa de conclusão, e tendo como fio condutor parte da obra de Jorge Dias, tecerei algumas considerações em torno da idéia de "bom povo português", decisiva no sentido de reafirmar o caráter paternalista e autoritário do regime e de definir políticas nas colônias e na metrópole. Antes, contudo, farei uma breve incursão no universo político português, pois estou convicto de que a particularidade atribuída aos processos em Portugal se deve, sobretudo, ao regime autoritário ali instalado durante boa parte do século XX.

Saberes controlados: as estruturas da repressão e o Ato Colonial
A década de 30, a concentração do poder nas mãos de Oliveira Salazar e a institucionalização do Estado Novo com a Constituição de 1933 assistiriam ao fortalecimento de um regime autoritário que, em vários aspectos, se aproximava dos demais fascismos europeus9. Levar a cabo um debate público ou pesquisas científicas sobre as populações e os espaços coloniais ou sobre as condições de vida em Portugal encontrava entraves e limites na própria estrutura do regime, na censura de imprensa, no controle das instituições e na criação e fortalecimento da polícia política. Tal sistema repressor estendeu-se às colônias, manteve-se até a Revolução dos Cravos de 1974 e tinha como alvo questões políticas e militares, mas não só: penetrou o universo moral e religioso, a produção cultural, a conduta individual e o comportamento quotidiano (Marques 1986:426).
Dada a sobreposição das idéias de pátria e nação ao espaço ultramarino, afirmada no Ato Colonial (1930) e na Carta Orgânica do Império Colonial Português (1933), pode-se imaginar o cerceamento do debate relativo às colônias. Propostas como a da venda das colônias ou mesmo o seu simples abandono, com a contrapartida de uma volta ao Portugal peninsular - pronunciadas por intelectuais de renome no século XIX, tais como Oliveira Martins e Eça de Queiroz -, seriam impensáveis no Estado Novo10. Dessa forma, ao contrário do que ocorre nas demais potências imperiais em períodos de normalização democrática, não assistimos, em Portugal, a um verdadeiro debate público que opusesse colonialistas e anticolonialistas11. Opor-se ao projeto colonial era opor-se à nação; a censura impedirá e limitará o acesso à esfera pública dos possíveis anticolonialistas que começam a surgir, sobretudo, a partir do pós-guerra. A extensão da polícia política (PIDE) aos territórios coloniais sobrepôs à violência quotidiana do colonialismo outras formas de violência e repressão institucionais que tinham como propósito impedir qualquer tipo de manifestação nacionalista ou emancipatória por parte das populações nativas. A estrutura do regime e a importância da Igreja Católica na constituição da ideologia de Estado e mesmo a presença de seus quadros em diferentes instituições tiveram um profundo efeito nos rumos da antropologia (e dos antropólogos) em Portugal12.
Uma análise de qualquer campo de saber em Portugal sobre as colônias exige, assim, uma discussão em torno do marco legal que o controla, no caso, o Ato Colonial de 1930, redigido no curto período em que Salazar acumulou o Ministério das Colônias com outras funções no Conselho de Ministros. A legislação será aqui considerada uma "representação por excelência", a partir da qual uma sociedade ou um grupo concreto projeta uma imagem de si que, guardando uma relação dinâmica com a realidade que pretende traduzir, disciplinar ou mesmo obscurecer, não deixa de constituir um espelho de como gostaria de se ver e representar. Nos termos de Manuela Carneiro da Cunha (1992:2), se a lei não pode ser confundida com uma descrição da realidade, a realidade não pode ignorar a sua existência, que a transforma. Ela é, em si mesma, uma realidade, na medida em que diz respeito à maneira como grupos da classe dominante representam a ordem social. Assim, pretendo inserir o Ato Colonial de 1930 e cartas legais a ele correlatas na dinâmica da "cultura do império": produto de uma determinada ideologia e de uma tradição do poder colonial português, procurava traduzir o que o império deveria ser e de que forma deveria atuar nas suas terras, interferir na vida dos nativos ou condicionar a mentalidade e as ações do colono português.
O historiador Fernando Rosas chama a atenção para a centralidade do Ato Colonial de 1930, tendo em vista o próprio lugar que o império passou a ocupar no contexto do Estado Novo português, e afirma que o
"Ato Colonial define o quadro jurídico-institucional geral de uma nova política para os territórios sob dominação portuguesa. Dentro da opção colonial global do Estado português, abre-se uma fase imperial, nacionalista e centralizadora, fruto de uma nova conjuntura externa e interna e traduzida numa diferente orientação geral para o aproveitamento das colônias" (1994:285).
Promove-se um conjunto de dispositivos legais que, se por um lado afirma a opção política centralizadora, por outro leva às últimas conseqüências a noção da "diferença de estado civilizatório" entre as "populações indígenas" das colônias continentais africanas - e, a partir de 1946, de São Tomé e Príncipe e do Timor - e os cidadãos metropolitanos e os habitantes de Cabo Verde, Estado da Índia e Macau13. Tudo isto ao mesmo tempo que se pregava a "nacionalização" dos territórios coloniais, que deveria dar-se nos âmbitos econômico e político e também "cultural": os "indígenas" e os habitantes de todas as colônias portuguesas fariam parte do corpo da "nação portuguesa", espalhada pelos quatro cantos do mundo. Criava-se, assim, uma estrutura legal para o império na qual se passava a associá-lo à idéia de "nação" ou até mesmo a traduzi-lo por esta14.
Essa fórmula legal espantava (à primeira vista) as ameaças estrangeiras dos territórios ultramarinos15, sugerindo, ainda, a extensão das instituições metropolitanas aos domínios coloniais. No entanto, no parágrafo 8º do decreto nº 16.473 - Estatuto Político, Civil e Criminal dos Indígenas - afirma-se a inconsistência de tal propósito por "falta de significado prático", dado o "estado de suas faculdades" e da "sua mentalidade de primitivos", referindo-se aos "indígenas". Institui-se, assim, o indigenato, transferindo-se para o corpo legal as diferenças de estatuto entre os habitantes das distintas colônias definidas a partir dos seus "usos e costumes", o que representaria uma ruptura com o "assimilacionismo", tradição cara a determinados círculos metropolitanos16.
O "reencontro" com a "tradição assimilacionista" foi possível em função do "gradualismo" que viria a marcar a incorporação dos "indígenas" no corpo político e espiritual da nação, pregada pelo novo código legal. Essa incorporação "gradual" acabou por imprimir um caráter messiânico e temporal ao projeto colonial português. Confirma-se legalmente o estatuto de "assimilado", indivíduo que logra um "alvará de cidadania" a partir da assunção dos hábitos, da cultura e da língua portugueses. O objetivo final do indigenato seria incorporar os africanos e timorenses à civilização européia e, integralmente, à nação portuguesa. Cabia ao poder português codificar os "usos e costumes" dos distintos grupos étnicos do império, sem interferir de forma contundente na organização social existente e no direito consuetudinário17. Poder-se-ia, assim, melhor administrá-los, respeitando as especificidades culturais dos indígenas, sem, contudo, abrir mão da sua incorporação progressiva, que se faria por meio de uma convivência "pacífica" com os colonos (que deveriam ser, em todos os aspectos, um elevado exemplo moral) e por meio da ação das missões religiosas.
Uma primeira leitura do Depoimento de Marcelo Caetano18 e mesmo de alguns dos itens do Estatuto Indígena ou do Ato Colonial sugere o Estado Novo como uma institucionalidade respeitosa das tradições nativas e mesmo protetora da especificidade cultural dos distintos grupos e sociedades que se encontravam sob o seu domínio. No entanto, a leitura de outros itens, seja do Ato Colonial, seja, sobretudo, do Código do Trabalho dos Indígenas das Colônias Portuguesas de África, de dezembro de 1929, confere outra dimensão a uma legislação aparentemente protetora e zelosa dos indígenas: o controle eficaz dos recursos humanos dos territórios coloniais, sobretudo das colônias continentais africanas.
A construção de um moderno império colonial exigia um efetivo aproveitamento dos recursos físicos das colônias, o que implicava a sua transformação em exportadora de matérias-primas e produtos tropicais e importadora de produtos manufaturados da metrópole. Tratava-se, evidentemente, de um processo mais geral do imperialismo contemporâneo. No entanto, deparamo-nos, no caso de Portugal, com uma indústria pouco competitiva; a nacionalização dos territórios coloniais, tal como expressa no Ato Colonial, trazia como contrapartida a obrigatoriedade do consumo de produtos das colônias africanas portuguesas muitas vezes a um preço superior àquele do mercado. O corolário deste processo era o engajamento do trabalhador africano, transformado em mão-de-obra barata ou mesmo não remunerada. O Código do Trabalho Indígena manifesta um duplo movimento: de um lado, a proteção do africano dos múltiplos mecanismos de trabalho forçado (escravo) que invadem o século XX - e, com isto, um trunfo diante das constantes denúncias que atingem Portugal por parte das demais potências que ambicionavam os seus territórios; de outro, a garantia necessária do trabalho (compulsório) africano.
O Código do Trabalho do Estado Novo procurará, efetivamente, proteger os indígenas do trabalho compulsório, como podemos observar nas suas "Disposições Gerais" ou no artigo 18º do Ato Colonial. No entanto, outros itens colocam em questão a disposição do Estado de realmente proteger os nativos das arbitrariedades que vinham caracterizando o seu recrutamento: artigos referentes ao "trabalho obrigatório" do Ato Colonial ou do Código permitirão distintas leituras que farão com que, de fato, o trabalho compulsório persista nas colônias até pelo menos a década de 60.
O historiador Gerald Bender (1980), entre outros, assim como todos os pensadores africanos e líderes dos movimentos de libertação nacional, tais como Amílcar Cabral (1978), chamaram a atenção para a ambigüidade do poder português diante da noção de "bem público" - inscrita em uma cláusula pela qual o indígena poderia ver-se forçado ao trabalho não desejado. Vários artigos do Código de Trabalho acabavam por lançar os nativos - crianças, adultos e idosos - nas mãos das autoridades públicas locais - na maior parte das vezes coniventes com os projetos particulares dos colonos metropolitanos ou das empresas de exploração colonial.
Enfim, o Ato Colonial e as Cartas a ele correlatas - que permanecerão em vigor até o início da década de 60 - acabavam por fixar uma noção de "usos e costumes" bastante semelhante àquela utilizada pelos antropólogos portugueses de então: a diversidade cultural, conjugada com a idéia de "estágios de desenvolvimento", consagrava legalmente a desigualdade estrutural do império e atribuía ao Estado o papel tutelar e de administração da progressiva assimilação da população nativa ao corpo político e espiritual da nação. E mais: transferia para a essência da nação o fato de possuir e agir nos territórios coloniais, administrar e colonizar. Evidentemente, tal esforço deveria ser acompanhado por uma reflexão em torno da própria realidade desses territórios rigidamente vigiada pelas estruturas do Estado Novo.

Saberes coloniais: instituições, alta cultura e burocracia
Ao longo das primeiras décadas do século XX, houve um grande esforço por parte de setores da intelectualidade portuguesa - nomeadamente aqueles vinculados à Sociedade de Geografia de Lisboa e ao Instituto de Medicina Tropical - no sentido de dotar o país de instituições responsáveis pela produção de um "saber colonial" que respondesse, ao mesmo tempo, à necessidade de uma "alta cultura colonial" (que ataria o período contemporâneo aos anos gloriosos das grandes navegações) e de formação de um corpo burocrático competente que desse conta das terras e das gentes do império. Em uma primeira aproximação à produção intelectual portuguesa em torno dos espaços e das gentes coloniais percebemos que aprisioná-la no interior de instituições solidamente estabelecidas oferece o risco de uma avaliação pouco precisa. Artigos de jornais e revistas e mesmo as conferências apresentadas em congressos nos primeiros anos do Estado Novo sugerem que fazia parte da demanda dos intelectuais a constituição de um campo institucional voltado para os imensos problemas postos pelo império; indicam também que muito da reflexão se fazia fora de limites institucionais precisos: tal é o caso da produção literária que, por sua natureza, não se consolida em instituições. No entanto, estas existiram, malgrado a avaliação negativa que alguns estudiosos apresentam de sua produção (cf., entre outros, Péllissier 1979; Margarido 1975; Gallo 1988).
O historiador René Péllissier (1979) faz referência às seguintes instituições existentes na metrópole: o Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina - reformulação da Escola Superior Colonial -, o Museu de Etnologia do Ultramar de Lisboa - que, em conjunto com o pequeno museu de etnologia do Porto, um museu em Coimbra e suas seções em Lisboa, possuiria verdadeiros "tesouros" etnológicos, entretanto mal catalogados e de difícil acesso ao público -, a Missão de Pesquisas Agrônomas (Tapada da Ajuda) e o Laboratório Nacional de Engenharia Civil. Estas duas últimas instituições seriam de caráter técnico e voltadas especificamente para uma melhor exploração dos recursos naturais das colônias africanas. Em Angola, Péllissier lista o Instituto Angolano de Pesquisa Científica e o Museu de Angola - ambos em Luanda - e os Museus do Congo, na antiga Carmona, de Uíla, na antiga Sá da Bandeira, e do Dundo19.
Pode-se citar outras instituições vinculadas à produção de um saber colonial: a pioneira Sociedade de Geografia de Lisboa - responsável por uma respeitável tradição de estudos que tinham como objeto, sobretudo, as colônias africanas -, a Junta de Investigações Científicas do Ultramar, fundada em 1883, o Instituto de Medicina Tropical e as próprias faculdades de medicina e ciências de Lisboa e do Porto, em particular esta última20. No ultramar, sobressaem a Escola Médica de Nova Goa, responsável por uma significativa reflexão em torno dos indígenas, dos mestiços e mesmo dos europeus de diferentes colônias e, de especial importância, o Centro de Estudos da Guiné. O caso dos estudos guineenses coloca um conjunto de questões interessantes: considerado por muitos como o lugar onde pesquisas de caráter histórico, etnográfico e antropológico ganharam mais sistematicidade e qualidade (são fundamentais até hoje), foram realizados no território mais "marginal" do império africano. Alfredo Margarido (1975:342) sugere que os trabalhos do Centro de Estudos da Guiné Portuguesa ganharam em qualidade justamente em virtude da quase ausência de colonos brancos nessa pequena colônia da África Ocidental. Caberia relativizar, então, a associação entre produção antropológica e instrumentos concretos de domínio colonial: no caso da Guiné Portuguesa, grande parte das estruturas nativas foi mantida, a exploração se fazia de forma indireta, nunca houve uma afluência significativa de colonos brancos e, de fato, trata-se de um dos territórios menos interessantes do ponto de vista da moderna empresa colonial capitalista, sobretudo se comparamos com os casos de Angola e Moçambique. É na Guiné que a antropologia e a etnografia, para não falar dos estudos clássicos sobre o direito consuetudinário de fulas, felupes e mandingas, alcançarão uma maior qualidade.
Pode-se considerar a fundação da Sociedade de Geografia de Lisboa, em dezembro de 1875, que teve à sua frente o publicista, político e escritor Luciano Cordeiro, como um marco na produção de um "saber colonial" em Portugal. Grosso modo, a sua criação representou uma corrente do pensamento colonialista português moderno que procurou fazer com que Portugal retomasse o lugar que lhe competiria no panorama internacional, não apenas participando de debates sobre o conhecimento dos territórios tropicais, mas também fornecendo subsídios ao Estado para que pudesse participar da "corrida à África". Para poder garantir uma demarcação de fronteiras favorável aos interesses portugueses, um discurso que lançasse mão apenas de "direitos históricos" não era suficiente: fazia-se necessário comprovar um real conhecimento e domínio do ultramar. Nesse sentido, os membros da Sociedade de Geografia pressionaram o Estado para angariar fundos e assim financiar viagens à África, publicações etc.21.
Desde os seus primórdios a Sociedade de Geografia previu a criação de uma Escola Superior Colonial, projeto que se concretizou no início do século XX22. Sua capacidade de formar adequadamente quadros burocráticos e intelectuais em alta cultura colonial tem sido avaliada negativamente. No entanto, é inegável a existência de um projeto colonial tanto no plano da Escola quanto nos resultados dos trabalhos dos alunos e professores - projeto este marcado pela corrente colonialista promotora da Sociedade de Geografia de Lisboa, pelo trauma que sucedeu o ultimato britânico (quando, em 1891, o Reino Unido exigiu que Portugal abrisse mão dos seus supostos interesses nos territórios que ligavam Angola a Moçambique) e fortemente influenciado pela "geração de 1895" - grupo de colonialistas responsável por uma reflexão em torno da melhor forma de ocupar e explorar as colônias africanas23.
Concebida como um centro com a dupla função de formar os quadros do império e de produzir um alto saber colonial, a Escola passou por um conjunto de reformas, as mais profundas levadas a cabo entre o início da década de 50 e 1961 - conseqüência direta da mudança de estatuto legal dos espaços ultramarinos e do próprio estatuto das populações nativas24. Seus objetivos, consignados na ata de fundação, eram: dar "a instrução mais universalmente reputada indispensável aos funcionários ultramarinos", uma cultura geral colonial (sistematizada e superior), e garantir aos diplomados a preferência no provimento dos cargos administrativos coloniais25.
É importante salientar que a demanda pela fundação de uma Escola Superior Colonial se fazia no interior de um movimento intelectual - presente nas demais potências colonizadoras - que preconizava uma "ocupação científica" dos territórios ultramarinos. Tal idéia de "ocupação" pressupunha não apenas a noção de que seria necessário "conhecer" para melhor "dominar", mas, sobretudo, a de que o processo colonizador deveria ser orientado por pressupostos verdadeiramente científicos, sob a égide de uma "ciência colonial". "Saber", "dominação" e "exploração" colonial estariam, nos termos dos próprios intelectuais colonialistas26, absolutamente imbricados: o controle dos nativos (da sua força de trabalho) e dos territórios coloniais (a exploração adequada dos seus recursos físicos) seria eficaz quando orientado por pressupostos científicos; o seu fim seria a incorporação plena dos indígenas ao corpo político e espiritual da nação.
Embora os problemas de verbas fossem crônicos, nas primeiras décadas do Estado Novo a Escola Superior Colonial encontrou condições para desenvolver-se: o Ato Colonial e a Constituição criariam tal organicidade entre as colônias e a metrópole que a formação de quadros para o império se converteria em uma necessidade de Estado. E mais, a "questão colonial" alcançaria grande efervescência não apenas em Portugal, mas também em outras metrópoles coloniais. Em todas as exposições universais realizadas no entreguerras, os pavilhões coloniais e etnográficos ganharam inusitado destaque, e em 1931 realizou-se em Paris a mais espetacular exposição colonial de todos os tempos, à qual muitos alunos da Escola Superior Colonial compareceram. A nova geração de colonialistas portugueses poderia ter, assim, um quadro mais preciso de processos que diziam respeito à incorporação (ou não) dos indígenas ou dos progressos logrados pelas demais potências colonizadoras.
Podemos observar a partir dos Anuários que, ao longo das décadas de 30 e 40, a presença de professores da Escola foi constante não apenas em congressos coloniais nacionais, como também em inúmeros encontros internacionais. O Ministério das Colônias e a Escola promoveriam, ainda, grandes eventos, como Semanas de Arte Negra27 ou mesmo reuniões internacionais, como a II Conferência Internacional de Africanistas Ocidentais, organizada por Mendes Corrêa, em Bissau, em 194828, que contaria com o apoio de personalidades como Darryl Forde, Theodore Monod e Paul Rivet29, ou a reunião do Instituto Internacional Africano, em 195230. Procurava-se, assim, fortalecer a inserção dos intelectuais portugueses no debate internacional e garantir a expressão das suas investigações e dos próprios rumos da colonização lusitana31.



Mendes Corrêa e os "usos e costumes" d aquém e dalém-mar
A reforma de 1946, impulsionada pelo então ministro das Colônias, Marcelo Caetano, foi realizada quando das celebrações dos quarenta anos da Escola e em um contexto internacional cambiante, no qual o futuro das colônias se mostrava novamente incerto. É nesse momento que, sob indicação do ministro, a sua diretoria é assumida por um intelectual de renome, o antropólogo portuense Antônio Augusto Esteves Mendes Corrêa, que há muito se dedicava ao estudo dos "indígenas" dos espaços coloniais portugueses32.
Considerado o "primeiro antropólogo português"33, doutor em medicina pela Universidade do Porto, Mendes Corrêa destacou-se por desenvolver estudos que, partindo da antropologia física e da antropologia criminal, passam cada vez mais por um enfoque ora "etnopsicológico", ora histórico e cultural, sem, contudo, abandonar jamais determinados postulados da biologia34. Sobressaiu-se ainda como promotor do I Congresso de Antropologia Colonial Nacional, que teve lugar no Porto em 1934, por ocasião da I Exposição Colonial Portuguesa. Na Exposição Colonial de 1934, professores e alunos, sob a coordenação de Mendes Corrêa, realizaram estudos antropométricos e inquéritos junto aos indígenas vindos das colônias africanas, da Índia, de Macau e do Timor35. Os estudos realizados no Porto se mostrariam fundamentais para uma apreensão totalizadora dos povos que compunham o império colonial português, e foram sistematicamente recuperados na sua obra de maturidade Raças do Império, publicada em 1945.
Em Raças do Império, Mendes Corrêa sintetiza um conjunto de informações que vai da composição "racial" aos costumes "exóticos" ou "pitorescos" de cada um dos grupos sociais e étnicos da metrópole e das colônias. Trata-se de uma obra, ao mesmo tempo, "científica" e de divulgação, ricamente ilustrada com fotografias e desenhos; da sua leitura saímos com a nítida sensação de apreender o império na totalidade dos tipos humanos que o compõem: o império não se traduz apenas em uma entidade política, mas em um todo orgânico e solidário, que a diversidade racial e cultural revela e ilumina. Nos termos de Mendes Corrêa,
"Vinte milhões de portugueses compõem essa multidão em que tamanha diversidade não impede uma unidade essencial de aspirações e interesses, uma solidariedade fraterna, a existência duma ampla e perfeita comunidade nacional, baseada simultaneamente na história, na política, num sentimento profundo de simpatia e compreensão universalista" (1945:604).
Logo no início de Raças do Império, Mendes Corrêa salienta a necessidade de não desprezarmos o conceito de "raça" em favor do de "cultura": ambos estariam profundamente relacionados. Dessa forma, o antropólogo português não apenas recupera sua trajetória como se contrapõe às correntes da moderna antropologia de então que questionavam a importância excessiva que escolas antropológicas oitocentistas conferiam à noção de "raça", afirmando assim o objeto privilegiado da antropologia, a "cultura". Mendes Corrêa deixava clara sua opção por um estudo que considerasse os aspectos biológicos e hereditários de cada grupo humano, bem como seus comportamentos psicossociais, sua aptidão maior ou menor ao trabalho e sua produção cultural. Sua opção teórica e metodológica ganha maior sentido quando atentamos para a sua proposta de trabalho: dar conta da totalidade das "raças" que convivem no interior de uma estrutura política, o império, que, na verdade, traduz uma nação extremamente heterogênea na multiplicidade dos povos que a habitam, mas nem por isto carente de uma unidade de espírito.
Da "cabeça" do império e ilhas adjacentes (a quem dedica mais da metade de sua obra), Mendes Corrêa dirige-se às colônias ultramarinas: Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, São João Batista de Ajudá, Angola, Moçambique, Índia, Macau e Timor. Os arquipélagos atlânticos e o forte de São João Batista de Ajudá são frutos exclusivos da obra de Portugal; já os demais territórios, teriam a sua própria pré-história, mas é a presença portuguesa que os situa em uma mesma corrente evolutiva. Para chegar a estas conclusões, o autor combina dados arqueológicos e fontes históricas portuguesas com informações etnográficas obtidas no campo ou junto aos indígenas na Exposição Colonial do Porto de 1934. Da extrema diversidade étnica e cultural dos nativos desses territórios, passa a informações genéricas sobre as atuais tendências sociodemográficas, "usos e costumes", feitiçaria, crenças e religião e, ainda, aptidão maior ou menor para o trabalho braçal ou intelectual36. Chega, por fim, às modernas condições de colonização, à situação dos colonos brancos e aos problemas relativos à mestiçagem.
Diante deste último aspecto, Mendes Corrêa manifesta uma postura curiosa: realidade de algumas colônias portuguesas - como Cabo Verde -, e tendo oferecido à nação vigorosos frutos, a mestiçagem não é, contudo, aconselhável de forma intensa e em toda a extensão do império, sob pena de o povo português diluir suas particularidades entre terras e gentes estranhas e distantes da matriz37. Quando trata de "A política de população do Império", o antropólogo conclui que, se na ausência da mulher branca a mestiçagem é quase "inevitável e fatal", ela não deve ser uma regra na totalidade do império, sob pena de "quebra da continuidade histórica" do povo português. O mestiço seria uma questão a mais de "política indígena", devendo ser dado a ele um tratamento justo e humano e, quando este manifestasse "perfeita identificação" com o "sentir, as tendências e aspirações do povo português", poderia ser, inclusive, incorporado no campo da política e administração geral do país (Mendes Corrêa 1945:620). O antropólogo atenua, assim, o juízo manifestado por ocasião do Congresso de 1934, quando afirmou imensa preocupação diante da mestiçagem:
"Os problemas biológicos e sociais do mestiçamento, em toda a sua intensidade angustiosa e dramática, não preocuparam, por exemplo, ainda suficientemente os nossos investigadores. Vão ser, não podiam deixar de ser, debatidos neste Congresso, esquecidos por assim dizer desde esses tempos dourados em que o grande Afonso de Albuquerque favorecia o cruzamento de portugueses com mulheres indígenas, esforçando-se por legalizar jurídica e religiosamente as uniões contraídas com tamanho desembaraço que até, segundo rezam as crônicas, um banquete em que se festejavam simultaneamente vários matrimônios, acabou pela confusão dos casais uns com os outros, numa tremenda orgia pagã"38.
Mendes Corrêa faz jus aos princípios inscritos no Ato Colonial e no indigenato: reconhecimento da "diversidade natural" dos povos do império e o não abandono da tradicional fraternidade cristã que teria caracterizado, desde sempre, a expansão lusitana (1945:621), manutenção da hierarquia a partir da administração rigorosa das relações entre os diferentes grupos culturais que habitavam as colônias (basicamente colonos e indígenas) e do controle dos processos de assimilação. A partir da disciplina antropológica, afirma a superioridade do elemento metropolitano, o imperativo da assimilação - sempre que esta preserve (eugenicamente) a continuidade histórica e antropológica do povo português - e uma política de inclusão que tenha em conta a diversidade (e a desigualdade) característica dos indígenas das distintas colônias. Política e antropologia juntam-se, então, na preservação da tradição colonial portuguesa e dos "usos e costumes" dos povos indígenas: é na garantia política da preservação da diferença e no seu estudo a partir dos meios antropológicos que teríamos a reprodução hierárquica da desigualdade, e com isto a perpetuação do império.
Sua postura não é, assim, muita distinta daquela apresentada no Congresso Colonial de 1940, quando discorre, entre outros temas, acerca de uma "antropologia da mestiçagem". A disciplina era vista, naquele momento, como pertencente ao campo das ciências naturais, e os estudos na área atentavam para as características "biológicas" e "psíquicas" dos indivíduos ou grupos; o objetivo era analisar uma determinada "realidade" (o mestiço) para definir sua possibilidade de aproveitamento (ou não) para o projeto colonial português do Estado Novo. As questões que se colocavam eram: como se combinam as heranças de pais de raças distintas na prole mestiça? Seria esta mais ou menos fértil que os seus progenitores (questão descartada rapidamente por Mendes Corrêa)? Como se dá a hereditariedade de caracteres inferiores e superiores? Se era evidente para Mendes Corrêa que a colonização e a formação do Brasil só tinham sido possíveis graças à mestiçagem, também o era a hegemonia política, mental e econômica do elemento branco, apesar da alta proporção de mestiços, negros e índios na população brasileira39.
Em todo o caso, se o Brasil era "bom para pensar", ainda não se constituía como um "exemplo" a ser seguido nas novas coletividades lusitanas em formação, sobretudo nas colônias africanas40. Tratava-se, para Mendes Corrêa, de uma questão de "política colonial" - que seria retomada por muitos dos congressistas -, em que a atitude portuguesa seria confrontada com as políticas promovidas pelas demais metrópoles imperiais. Mendes Corrêa lembrava, ainda, uma interessante discussão que teria tido lugar em Roma, em uma sessão do Instituto Colonial Internacional, quando o representante português expôs a "tendência" dos portugueses em promover igualdade jurídica entre as "raças", bem como sua "interpenetração", tudo movido por um verdadeiro "espírito cristão". Exemplo: o Brasil. Ao que parece, tal afirmação não foi bem recebida pelas delegações estrangeiras, e o general Teruzzi - representante da Itália - apressou-se em esclarecer os pressupostos do indigenato presentes no Ato Colonial de Salazar, que concedia igualdade jurídica aos indígenas assimilados, ao mesmo tempo que respeitava os "usos e costumes" dos nativos sempre que não ofendessem a moral do colonizador. O general italiano lembrou que a Itália fascista era hostil a qualquer tipo de mestiçagem nas suas colônias e citou um ditado árabe: "Deus criou os brancos, uma deusa os negros e o diabo os mestiços". E concluía:
"Nós queremos elevar os indígenas ao mais alto grau de civilização, criamos para eles escolas, algumas das quais distribuem um ensino muito avançado, mas queremos que o indígena guarde o seu espírito indígena, e que não seja uma cópia má do espírito europeu... Nada de misturas entre indígenas e europeus"41.
Sem proibir o casamento entre italianos e nativos, o fascismo tomou providências para impedir tais "uniões ilegítimas". A lembrança da mestiçagem brasileira provocou, ainda, vivas manifestações de repúdio por parte dos representantes belgas, que salientaram as disposições do governo do Congo diante dos mulatos: obrigação de que um pai belga assumisse o filho ilegítimo com um "natural"; penas severas para os europeus que desrespeitassem uma mulata ou com ela tivessem mantido relações extraconjugais; adoção de uma política de assimilação dos mulatos, impedindo que se formassem associações desta ou para esta coletividade, ao mesmo tempo que se limitava a atuação dos mulatos em organismos belgas42. Ao que tudo indica, no Congo o mulato seria um "sem-lugar": supostamente se promovia sua assimilação e, concomitantemente, lhe era vetada a possibilidade de associação ou de participação em associações belgas.
Mas, o que pensa o antropólogo português? Em nome da "ciência", ele ainda não pode tomar uma posição precisa diante da mestiçagem: as combinações seriam tantas que os mestiços poderiam ser "maus" ou "bons", seja em função das características dos seus progenitores, seja em função da ação do tempo ou do meio. Em nome da pátria, Mendes Corrêa acaba por desaconselhar a mestiçagem: o vigor da raça poder-se-ia perder e seria inevitável "a dissolução do Portugal multissecular, o fim de uma cadeia vital ininterrupta e gloriosa"43 - questão que, como já vimos, ele retomaria em Raças do Império.
Concordo, assim, com Mário Moutinho, em trabalho recentemente publicado: a mestiçagem foi, ao longo de boa parte do Estado Novo, política e antropologicamente desaconselhável. Nesse sentido, Mendes Corrêa está em absoluta consonância com políticos colonialistas do porte de Marcelo Caetano que, em um texto de nome "Moçambique", publicado no número 2 da Revista do Ultramar afirma:
"Num ponto deveremos ser rigorosos quanto à separação racial: no respeitante aos cruzamentos familiares ou ocasionais entre pretos e brancos, fonte de perturbações graves na vida social de europeus e indígenas, e origem do grave problema do mestiçamento; grave, digo, senão sob o aspecto biológico, tão controvertido e sobre o qual me não cabe tomar posição, ao menos sob o aspecto sociológico. Mas se convém evitar ou reprimir esses cruzamentos raciais, o que não justifica é qualquer hostilidade contra os mestiços, só por o serem, pois não lhes cabe a culpa de terem nascido, e se erro paterno houve não é justo que o paguem como vítimas inocentes. Há que responsabilizar os pais que abandonem os filhos mestiços a um destino incerto; e não pode a sociedade desinteressar-se da sorte desses elementos que poderão ser, quando educados, elementos úteis na obra colonizadora, assim como, abandonados e miseráveis, se poderiam tornar em perigosos agentes perturbadores" (apud Moutinho 2000:75).
Pode-se afirmar que o antropólogo Mendes Corrêa foi um dos arautos do "saber colonial" português entre os anos 30 e 40, e que a sua produção intelectual era absolutamente coerente com os princípios do Ato Colonial e com a própria política colonial portuguesa, coerência que acabou por explicitar as próprias contradições e paradoxos do sistema: o imperativo da assimilação com o rígido sistema do indigenato (que fazia com que os "assimilados" acabassem por representar uma parcela mínima da população das colônias africanas); a afirmação da diversidade cultural do império como resultado da força tutelar do Estado, ao mesmo tempo que se garantia a supremacia do elemento branco; uma postura ambígua no que diz respeito aos mestiços (demograficamente insignificantes nas sociedades coloniais), vistos simultaneamente como representantes do "humanismo cristão" que tradicionalmente acompanharia o colonizador lusitano, e como imagem do perigo da sua própria degeneração em terras tropicais. Pretendia-se, por fim, uma assimilação rigorosamente controlada que garantisse a hierarquia do próprio império e a continuidade da nação nas colônias: grande contradição se não tivermos em conta que a viabilidade da metrópole era vista, ao longo do Estado Novo, como a reprodução da hierarquia e da força tutelar do Estado sobre o povo. Império e nação se imbricam na obra do antropólogo. Sua visão dos povos do império estava rigorosamente de acordo com a política promovida pelo Estado Novo: corporativismo na metrópole, indigenato nas colônias. O corporativismo paternalista encaixava-se perfeitamente com a visão que se construía do "povo português" e que encontraria sua materialização plena no Secretariado de Propaganda Nacional (SPN), coordenado por Antônio Ferro44. O seu estudo Raças do Império acabava, assim, por satisfazer uma das maiores pretensões do Estado Novo: conseguir integrar, em um todo nacional, a estrutura hierárquica do império.

"O bom povo português"
Reflexões sobre o "povo português", sua "psicologia étnica" e "identidade nacional" têm uma importante tradição em Portugal. João Leal (1999b; 2000) aponta os intelectuais do último terço do século XIX como os responsáveis pelos prolegômenos de um debate em torno da "psicologia étnica do povo português" e reconstrói uma tradição intelectual que, cruzando boa parte do século XX, acabaria por desembocar nos estudos de "caráter nacional", cujo principal expoente em Portugal seria o antropólogo Jorge Dias (ver, p. ex., Dias 1953)45. Quais seriam as conseqüências, no que tange às populações dos territórios coloniais, da reflexão sistemática sobre "identidade portuguesa"? E ainda: qual a sua relevância para o funcionamento do Estado autoritário?
A partir das obras de Mendes Corrêa e Jorge Dias podemos atar as reflexões sobre a metrópole e sobre as colônias. Mendes Corrêa expressa um império que se quer nação e suas populações, racial e culturalmente tão diferentes, o são somente em aparência: o imperativo da assimilação e a estrutura hierárquica da nação fariam de todos portugueses. E se o império se reproduz na manutenção da hierarquia e da diferença, também a nação se reproduziria da mesma forma. Tal processo só seria possível a partir da noção de "bom povo português" presente no ideário salazarista, nas canções de Amália Rodrigues, nos grandes rituais públicos (a Exposição do Mundo Português de 1940) e, certamente, na obra de antropólogos portugueses vinculados às instituições salazaristas. Chegamos, aqui, em uma parte da obra de Jorge Dias voltada para a definição de uma "personalidade-base" do "povo português" em termos da qual os indígenas das diferentes colônias se fariam sentir enquanto uma necessidade inalienável do próprio "ser português".
Jorge Dias configura um caso único da antropologia em Portugal46: vinculado desde os anos 50 à Escola Superior Colonial (que ganha, nos anos 60, o nome de Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina), estava evidentemente a par, desde os anos 40, das modernas correntes antropológicas, em particular aquelas desenvolvidas pela escola norte-americana Cultura e Personalidade (Leal 1999b:15). João de Pina Cabral (1991) salienta que apesar de Jorge Dias citar antropólogos contemporâneos nas suas obras sobre comunidades camponesas da península e na sua monografia sobre os Maconde de Moçambique, a falta de sofisticação teórica de seus trabalhos é bastante reveladora da situação da disciplina no país. Sem entrar no debate sobre a história da antropologia em Portugal, procurarei traçar alguns paralelos entre os trabalhos de Mendes Corrêa e os de Jorge Dias, que parecem convergir na concepção da existência de um "bom povo português" aquém e além-mar - noção tão cara ao regime e que se desfará em mil pedaços diante da violência da guerra.
Considerado como um dos renovadores da antropologia em Portugal (Pina Cabral 1991:28), Jorge Dias defende sua tese de doutorado sobre a aldeia comunitária de Vilarinho da Furna na Universidade de Munique, nos duros anos da Segunda Guerra Mundial, para em 1944 deslocar-se para Santiago de Compostela, onde permanece até 1947. Embora seus comentadores o distanciem de qualquer ideário totalitário, sua passagem pela Alemanha no período nazista e pela Espanha franquista denota uma trajetória, no mínimo, ambígua.
É pelas mãos de Mendes Corrêa - de quem procurará se distanciar posteriormente - que Jorge Dias retorna a Portugal para trabalhar inicialmente no Centro de Estudos de Etnografia Peninsular, associado ao Instituto de Antropologia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Já nos anos 50, com clara influência norte-americana, Jorge Dias e seus discípulos fazem uma série de "estudos de comunidade" e, em 1957, é convidado pelo Ministério do Ultramar para dirigir as Missões de Estudo das Minorias Étnicas do Ultramar Português, quando realiza, com uma equipe, estudos sobre os chopes do sul de Moçambique, sobre os bôeres e bosquímanos do sul de Angola e, sobretudo, sobre as populações maconde do norte de Moçambique47.
Sua situação confortável em contextos autoritários não deve ser negligenciada: do ponto de vista conceitual, a visão "culturalista" que ganha corpo ao longo de sua obra não deixa de alimentar a própria ideologia salazarista; e seu posterior compromisso com o colonialismo salazarista fica evidente nos relatórios que se predispõe a enviar ao Ministério do Ultramar, detalhando as condições sociais e políticas dos povos visitados48. Se é claro, como chama a atenção João de Pina Cabral, que seus relatórios são honestos e nada laudatórios para com o regime colonial português, o fato é que seu propósito era colaborar para a "correção" de um "acidente de percurso", sem colocar em causa o colonialismo - e o autoritarismo -, pois Dias jamais deixou de ser um homem do regime e de louvar as "qualidades inerentes" ao colonialismo português (ver, p. ex., Dias 1961a; 1961b). Sua admiração pelos Estados Unidos e pela Academia americana - citada por João de Pina Cabral - não revela necessariamente qualquer tipo de apego a sistemas democráticos: aquilo que servia para os Estados Unidos não era apropriado para Portugal e para o ultramar, em função da própria "cultura" do povo português.
Não tenho a intenção aqui de discutir de forma sistemática o lugar da obra de Jorge Dias no debate sobre a "identidade portuguesa". Interessa-me enfatizar a concepção fixada por este intelectual em torno de dois aspectos fundamentais: o "caráter" do povo português e sua importância na definição de sua trajetória expansionista e imperial. Dialogando com o culturalismo, Dias não chega a conclusões muito diferentes daquelas de Mendes Corrêa, absolutamente de acordo, saliento, com a ideologia oficial promovida pelo regime: se para Mendes Corrêa a raça definiria uma série de constantes que seriam reveladoras de um espírito português, para Jorge Dias essas constantes estariam expressas na cultura, que definiria uma identidade portuguesa distinta da dos outros povos latinos.
É evidente que passar do conceito de "raça" para o conceito de "cultura" revela um passo crucial na história da antropologia em Portugal. No entanto, do ponto de vista político, as leituras a que essa noção de "cultura" se prestou foram absolutamente conservadoras: a "cultura portuguesa" definiria um "padrão" que tenderia a se reproduzir ao longo do tempo (da história) e do espaço (a geografia do império). A estrutura política do Estado Novo e do império colonial português deveria se aproximar dessa realidade do espírito e qualquer tipo de distanciamento dessa "personalidade-base" do "bom povo português", como a violência expressa pelo sistema colonial, o trabalho forçado promovido pela administração portuguesa e pelos colonos etc. - observado e descrito por Jorge Dias nos relatórios elaborados sobre as regiões visitadas -, deveria prontamente ser corrigido: tratava-se de algo estranho ao ser português, naturalmente afável no trato com os povos exóticos.
Encontrar um padrão cultural que recorte o "povo português" na sua heterogeneidade, tal seria seu primeiro objetivo em um ensaio publicado em 1953 - em continuação a um esboço de 1942 - de nome "Os Elementos Fundamentais da Cultura Portuguesa", a partir do qual se alcançaria a "personalidade-base" da nação. E "o português" seria profundamente contraditório: intrinsecamente "bom", pode ser profundamente violento quando atingido em seu orgulho; alternaria períodos de apogeu com outros de profunda decadência; seria, ao mesmo tempo, introvertido (em contraposição aos outros povos latinos) e solidário; por fim, teria uma atitude tolerante, o que o singularizaria enquanto povo colonizador, pois basearia a "assimilação" na "adaptação". "Assimilação" das populações indígenas; "adaptação" ao meio: processos que só seriam possíveis graças à mesma concepção universalista propugnada por Mendes Corrêa e à plasticidade defendida, já nos anos 40, por Gilberto Freyre (1940).
João Leal (1999b:20) afirma que, para Jorge Dias, "o caráter nacional português é sempre visto como uma coisa e o seu contrário": doce e violento, solitário e solidário... tudo convergindo para uma interpretação do "ser português" a partir de um conjunto de sentimentos que, evidentemente, desembocaria na idéia de saudade49. E se "as qualidades contraditórias sobre as quais se apoiaria o caráter nacional português seriam qualidades situadas no universo das emoções e dos sentimentos" (Leal 1999b:17), o país necessitava, evidentemente, de um Estado forte, autoritário, para controlar os seus excessos emotivos ao mesmo tempo que lhe dá voz. Um ser profundamente emotivo necessitaria - tal como indígenas primitivos das diferentes colônias sob administração portuguesa - de uma estrutura política forte: nas colônias, o indigenato; na metrópole, o corporativismo, institucionalidades criadas no sentido de controlar os excessos próprios do "espírito lusitano". Percebe-se assim que, embora a "política do espírito" propugnada por Antônio Ferro já apresentasse sinais de morbidez nos anos 50, a própria idéia de um "espírito português", expressão de uma raça ou de uma cultura, é retomada e só é passível de definição a partir da apropriação da imagem do indígena, transformado em agente passivo do processo - amoroso e amável - de assimilação (de antemão, trata-se de um português).
Mário Moutinho (1982), ao analisar as relações entre a produção etnológica e o colonialismo, aponta para o papel da antropologia na legitimação do Estado Novo tanto na metrópole como nas colônias. Esta se daria, talvez, mais de uma perspectiva ideológica do que propriamente pelo fornecimento de subsídios para a ação do Estado. Seu trabalho é surpreendente no sentido de atrelar a fins políticos o pensamento de intelectuais reconhecidos e bastante sofisticados que, como Jorge Dias, davam uma visão "messiânica" da missão cultural portuguesa no mundo, o que a particularizaria em face das demais ações colonizadoras50.
Absolutamente comprometidos com a ideologia imperial da época - que pouco tempo depois se transformará no luso-tropicalismo51 -, Mendes Corrêa, Jorge Dias e outros profissionais vinculados à Escola buscaram produzir um saber colonial em geral (e uma antropologia em particular) à altura das demais potências colonizadoras da época, salvaguardando sempre as particularidades da colonização portuguesa. Tal processo será evidenciado no rumo dos estudos de alunos e professores da Escola a partir, sobretudo, da década de 50. A organização de grupos que dariam origem aos movimentos de libertação nacional, a proliferação de surtos messiânicos, sobretudo em Angola e Moçambique, o massacre de Batepá (São Tomé e Príncipe, em fevereiro de 1953), as pressões da União Indiana e a ocupação de Dadra e Nagar-Aveli (agosto de 1954) e o massacre do Pinjiguiti em Bissau (agosto de 1959), entre outros acontecimentos, anunciavam mudanças profundas no ultramar português, de forma que os estudos a partir de então desenvolvidos sob os auspícios da Escola procurarão dar conta da dinâmica nativa, ao mesmo tempo que buscarão provar ao mundo um conhecimento preciso dos povos e das manifestações culturais dos "portugueses" dos quatro cantos do mundo.
É significativo o fato de que foi o levante dos povos das colônias que colocou em xeque uma visão de "bom povo português". Aquém e além-mar, a fixação dos "usos e costumes" de diferentes povos acabara por cristalizar uma relação entre nação e império de natureza escatológica no interior da qual origem e destino seriam inseparáveis. Contra os "usos e costumes", restou a guerra em um esforço emancipatório que acabou por revelar a falácia da idéia de um "bom povo português" e de identidades culturais substantivas que a hierarquia do império devia preservar. Dos dois lados das trincheiras o que se observava estava longe do ideal idílico que muitos acreditavam existir em Portugal e nas suas "províncias ultramarinas". E se Jorge Dias afirmava, poucos anos antes do início da guerra, a "bondade intrínseca" do português que orientaria suas ações a partir das emoções e do coração, será na poesia irônica do moçambicano Rui Guerra que teremos a revelação da violência dinamizadora do sistema colonial português: "mesmo quando as minhas mãos estão a triturar, trucidar, matar, meu coração fecha os olhos e, sinceramente, chora."

Recebido em 10 de setembro de 2000
Aprovado em 14 de fevereiro de 2001


Omar Ribeiro Thomaz é doutor em antropologia pela Universidade de São Paulo, professor do Departamento de Antropologia da Universidade de Campinas e pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP). Entre outras publicações, é autor de Ecos do Atlântico Sul: Representações sobre o Terceiro Império Português (no prelo).

" UM NOVO BRASIL DE UM NOVO PORTUGAL"



The arms from 1935 (without the text Colonia Portuguesa de Angola

The arms from 1951

" UM NOVO BRASIL DE UM NOVO PORTUGAL" A história do Brasil ea ideia

ul.pt [PDF]

quarta-feira, 17 de março de 2010

As colónias portuguezas do século XIX (1811 a 1890)



Autor Manuel Pinheiro Chagas
1890

Protest and resistance in Angola and Brazil: comparative studies

Protest and resistance in Angola and Brazil: comparative studies

domingo, 14 de março de 2010

COLONOS de Antonio Trabulo



[Antonio-Trabulo_Os-Colonos.JPG]

Para saber mais, clicar aqui: Os Colonos  

Autor António Trabulo

sábado, 13 de março de 2010

ASPECTOS DO TRAFICO DE ESCRAVOS DE ANGOLA PARA O BRASIL NO SÉCULO XVI


http://www.educacional.com.br/upload/blogSite/1943/1943062/8662/Tr%C3%A1fico_escravos_p.JPG1. PROLEGÓMENOS DO INFERNO
Filipe Nunes de CARVALHO '
 

Herança da Antiguidade, a escravidão perdurou na Península Ibérica medieval. Com o início da expansão ultramarina portuguesa, no século XV, os mouros, que até então forneceram os efectivos, ao tempo já reduzidos, para o trabalho escravo vão sendo substituídos pêlos negros africanos. Em meados do século XVI cerca de dez por cento da população de Lisboa era já constituída por escravos1 e no Alentejo quinhentista o número de pessoas escravizadas correspondia a uns seis porcento do total de habitantes2.

Com o descobrimento do Brasil e a progressiva fixação dos portugueses nas suas terras, o recurso à escravização dos autóctones apresentou-se aos colonos carecidos de mão-de-obra como uma solução natural. A população ameríndia não era tão escassa como em tempos se supôs ou quis fazer crer. A dificuldade residia em submetê-la a um tipo de trabalho oposto aos seus hábitos ancestrais e à sua psicologia3. Beneficiando do acolhimento proporcionado pêlos sertões, onde o domínio português demorou a fazer-se sentir, os índios do Brasil ofereceram uma resistência que não deve ser negligenciada. A difusão
pêlos colonos de um discurso que enfatizava a bestialidade dos índios nem sempre se terá traduzido pêlos resultados pretendidos4. Os interesses dos missionários e as iniciativas legislativas da Coroa constituíram obstáculos suplementares, e nem sempre despiciendos, à redução dos autóctones ao cativeiro. Associados ao surto da economia sacarina, uns e outras conjugaram-se para favorecer o recurso sistemático à importação de negros africanos5. Além de pertencerem a civilizações tecnologicamente mais evoluídas que as
características dos naturais do Brasil, possuíam condições físicas e psicológicas para o trabalho duro e continuado nos engenhos e na mineração, a qual no século XVIII se tornaria a principal fonte de rendimento da América portuguesa. Por outro lado, os mesmos eclesiásticos católicos que se opunham à escravização dos índios mostravam-se coniventes com o cativeiro dos africanos e incentivavam a sua prática6.
Ainda no século XVI e durante toda a centúria seguinte desenvolve-se, em torno da produção sacarina, a estruturação da economia e da sociedade do Brasil. É, pois, o açúcar que constitui o principal estímulo para a importação de angolanos durante o período de que este trabalho se ocupa7. Dado que o território angolano não foi a única fonte de abastecimento de africanos ao Brasil, convém salientar que parece situar-se no século
XV11 a época de maior peso relativo da sua exportação humana8. Quando os portugueses chegaram a Angola a existência de indivíduos reduzidos à condição de escravos já era ali uma realidade, como sucedia em muitas regiões de África. O conhecimento das suas características suscitou especial interesse na fase assinalada  pela tentativa de ocupação das, afinal inexistentes, minas de prata, um mito utilizado
para mobilizar homens e recursos que permitissem a colonização9. Os que mais contribuíram para o difundir, com destaque para os Jesuítas, tinham consciência da necessidade de se encontrarem alternativas reais para a exploração económica do território Continua....



http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/3180.pdf.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Biografia, mobilidade e cultura atlântica: a micro-escala do tráfico de escravos em Benguela, séculos XVIII-XIX



Roquinaldo Ferreira
Doutor em História da África pela Universidade da Califórnia (Los Angeles) e Professor na Universidade da Virginia, EUA.


RESUMO
A construção das redes de comércio em Benguela se assentavam tanto em laços comerciais quanto familiares, culturais e religiosos. O artigo usa técnicas de prosopografia para reconstruir trajetórias de negociantes e analisar a micro-escala do comércio de Benguela. O artigo mapeia o início dos embarques diretos de escravos em Benguela no século XVIII e privilegia as relações entre Benguela e Rio de Janeiro, mostrando o alto padrão de mobilidade de negociantes no Atlântico Sul.
Palavras-chaves: Benguela – tráfico Atlântico – biografias



Introdução
Este artigo reconstrói trajetórias de negociantes para analisar redes mercantis em Angola, nos séculos XVIII e XIX. Ao enfocar as interconexões do comércio no Atlântico Sul, oferece um contraponto ao ainda dominante viés norte-atlântico nos estudos de História Atlântica1. Além disto, propõe que o aparato conceitual usado para analisar as redes de comércio na costa ocidental da África – sobretudo a relação entre comércio e cultura – é também útil para entender o comércio atlântico angolano2. Ao enfatizar mobilidade pessoal e biografia, a reflexão deliberadamente se afasta de análises macroestruturais e tenta acentuar a microdinâmica das redes de comércio3.
Assim como em outras regiões africanas, em Angola há uma relação direta entre comércio e dinâmica sociocultural. O padrão de mobilidade dos negociantes de Luanda e Benguela, assim como laços familiares, religiosos e culturais tiveram papel central não só no comércio interno como na sua dimensão atlântica. Embora também tivessem relações comerciais com Portugal, os negociantes que dominavam o tráfico em Benguela dependiam visceralmente dos capitais e das mercadorias enviadas por seus sócios do Brasil – principalmente do Rio de Janeiro. A partir de Benguela, as redes do tráfico se espraiavam por várias regiões do planalto central angolano, geridas por seguidas gerações de negociantes vindos do Brasil e de Portugal. Usando como fio condutor a biografia de um dos maiores negociantes do comércio baiano com a costa da "Mina", José dos Santos Torres, analisa-se a abertura do tráfico de escravos em Benguela.

Comércio e Cultura
Tendo como inspiração o trabalho pioneiro de Verger, Law e Mann recentemente cunharam a expressão "comunidade atlântica" para se referir aos intensos contatos comerciais e culturais da África Ocidental com a Bahia4. Ao considerarem a agência dos africanos e atribuírem papel significativo à África na diáspora africana, Law e Mann diferem da análise de Gilroy, centrada no norte-Atlântico5. Destacam que, embora os africanos escravizados tenham sido os atores principais da diáspora afro-ocidental, esta foi também marcada por hibridez cultural entre negociantes. Incluindo não só brancos europeus e brasileiros como também mestiços, negros livres e às vezes até ex-escravos, estes grupos não só controlavam o comércio costeiro – no caso de Angola, também parte do comércio interior – mas cumpriam, concomitantemente, o papel de mediadores culturais nas trocas comerciais na África Atlântica6.
A interface entre comércio e dinâmica sociocultural aconteceu em várias partes da África ocidental. Segundo Mark e Hawthorne, boa parte do comércio atlântico na Senegâmbia estava nas mãos de grupos mercantis locais (lançados), que definiam sua identidade usando como marcas de distinção uma cultura altamente mesclada, que se refletia no estilo arquitetônico das suas casas, além de elementos lingüísticos e religiosos7. Segundo Brooks, os lançados "usavam todos os meios à sua disposição para impedir que seus rivais europeus os superassem no papel de intermediários" do comércio costeiro8. Mesmo em regiões que não tinham sido influenciadas pelos portugueses, processos de hibridez cultural são também visíveis. Como exemplo, Paul Lovejoy e David Richardson têm destacado os elaborados códigos culturais – altamente mestiçados – que permeavam as negociações entre europeus e africanos na Baía de Biafra9.
Nesta região, como bem demonstrou Randy Sparks, a hibridez cultural de negociantes europeus e africanos tinha dimensão atlântica, permitindo, por exemplo, que dois traficantes efke, ilegalmente escravizados e levados para as Américas, lutassem tenazmente pela liberdade no Caribe, na Virginia e na Inglaterra10. Já na Baía de Benim, tais conexões permitiam que traficantes que tinham sido escravos no Brasil continuassem mantendo relações comerciais com seus senhores baianos11. Em Angola, era resultado dos estreitos laços comerciais, familiares, culturais e religiosos que os negociantes entretinham com o Brasil. No final do século XVIII, por exemplo, um negociante vindo do Rio de Janeiro e com curta passagem por Benguela, José António de Carvalho, teve pelo menos dois filhos com súditas de autoridades africanas, após se radicar em Galangue (sul de Angola), para fazer o comércio de escravos12.
No caso angolano, Law e Mann destacam que o "status colonial de Angola deu a esta comunidade um caráter diferente de outros lugares na costa [ocidental da África]"13. De fato, a capacidade do governo de Luanda em exercer controle sobre territórios fora do de Luanda – e, por conseguinte, a validade do uso do conceito de colônia em Angola – é ainda objeto de controvérsia. Thornton sustenta que as forças defensoras dos interesses de Luanda (elas próprias, é preciso dizer, nem sempre representativas dos interesses lusitanos) tinham papel secundário fora de Luanda e Benguela14. Eltis, por outro lado, chega a afirmar que o poder português em Luanda e Benguela foi tal que permitia um certo nível de controle sobre o tráfico interno de escravos em Angola15. É verdade que a fundação de Luanda se deu num processo que visava reforçar os interesses estatais portugueses no tráfico da África Central, principalmente depois que, em meados do século XVI, grupos euro-africanos se tornaram os atores principais no tráfico costeiro da costa do Congo.16 Todavia, depois da notável expansão para o interior, ao longo da primeira metade do século XVII, a já minguada presença administrativa e militar portuguesa se tornou cada vez mais rarefeita no século XVIII17.
Desta forma, a influência, fosse ela pequena ou mais efetiva, que o governo de Luanda conseguia exercer resultava em muito de alianças com autoridades africanas18. Esta dinâmica se consolidou já em meados do século XVII, quando a integridade militar e institucional dos poucos territórios sob influência portuguesa passou a depender do apoio de reinos e potentados africanos. Como recentemente reiterado por Jan Vansina, mesmo o vitorioso esforço de guerra da primeira metade do século XVII resultou muito mais em alianças militares com grupos guerreiros imbangalas do que em forças militares do governo de Luanda19. Mais adiante, a consolidação do poder imbangala no reino de Kassanje criou um contraponto na geopolítica da África central que reduziu dramaticamente a capacidade militar do governo de Luanda20.
Assim, em lugar de um rígido controle "colonial", a dinâmica sociocultural de Luanda e Benguela, assim como dos presídios (centros administrativos e comerciais) interioranos, era altamente fluida21. Em meados do século XVIII, por exemplo, reagindo ao fato de que o capitão-mor do presídio de Mbaka era aparentado da rainha da Matamba, o governo de Luanda fez seguidos e infrutíferos esforços para nomear administradores lusitanos para cargos no interior de Angola. Não surpreende, portanto, que instituições ditas "européias" – incluindo elementos do aparelho jurídico local – acabassem tendo um verniz africano22. De outro lado, era comum que africanos e euroafricanos se valessem de elementos de cultura "européia" para se diferenciarem socialmente de seus pares23. Como demonstrado por estudo recente de Vansina, esta dinâmica tinha como base as redes mercantis do comércio interno de escravos, afetando profundamente as estruturas tradicionais das sociedades africanas24.
Na administração "colonial", além de muitos quadros civis e militares serem africanos, o trabalho de Selma Pantoja demonstra que vários tinham sido deportados do Brasil e Portugal por crimes e motivos religiosos25. No século XVIII, a trajetória de três indivíduos oferece detalhes sobre os perfis dos administradores e dos soldados. Em 1749, por provisão do Governador de Angola, Fernando Martins do Amaral Gurgel, nascido no Rio de Janeiro e baseado no reino de Kassanje, foi incumbido de fiscalizar relações comerciais e diplomáticas com Luanda26. No final do século XVIII, como demonstrado pelas constantes reclamações dos administradores de Luanda, o fluxo de degredados do Brasil para Angola era ainda significativo27. Em 1799, servia em Mbaka um soldado de nome Daniel Corrêa da Silva, que tinha sido recrutado no Rio de Janeiro, em 178528. Alexandre dos Reis Pereira Barboza, nascido na Bahia, se alistou voluntariamente como soldado em Salvador, em 1761, tendo servido por 37 anos como militar no Brasil, em Ajudá (Daomé, na África Ocidental) e em Encoje e Kakonda (Angola)29.
Ao lado da vertente interiorana, é importante destacar a dimensão Atlântica da dinâmica sociocultural em Angola. Em boa medida engendrada pelo tráfico atlântico – como na Senegâmbia, no Benim e na Baía de Biafra – era contudo ainda mais intensa e enraizada devido às características particulares do tráfico angolano. Primeiro, mais de três séculos de comércio atlântico fizeram de Angola a região que mais perdeu africanos para as Américas30. Segundo, como no Benim, o tráfico angolano tinha poucos vínculos com Portugal, sendo quase que inteiramente controlado por negociantes do Brasil, Luanda e Benguela31. Daí o porquê de elementos da cultura crioula, tidos como "europeus", virem principalmente do Brasil, e não de Portugal. Na base deste processo, estavam não só o constante deslocamento dos negociantes, mas também seus laços familiares, educacionais e religiosos. A partir destes elementos, entendem-se a criação e o reforço de códigos culturais que funcionavam não só no Rio de Janeiro, na Bahia e em Pernambuco, mas também em Luanda, Benguela, Mbaka e Kakonda.

Relações Comerciais
Em Angola, licenças de viagens emitidas pela administração local ilustram o alto grau de mobilidade dos negociantes, assim como seus estreitos laços comerciais com o Brasil. Tais licenças revelam desde negociantes retornando ao Brasil após longas estadas devotadas ao trato de escravos até freqüentes viagens ao Brasil para as tratativas do comércio. Em 1779, por exemplo, António José da Silva solicitou licença para se retirar para o Rio de Janeiro após vinte anos em Luanda. Silva fora enviado para Angola, em 1759, como representante de uma casa comercial "brasileira", cujos negócios eram estimados em cem mil cruzados, em 179932. Em 1796, o sargento-mor António José da Costa, cujos negócios se estendiam de Benguela ao Mbailundo, retornou ao Brasil com sua esposa depois de 22 anos em Angola33. No final do século XVIII, o deslocamento de negociantes para o Brasil se tornou tão intenso que a emissão de licenças para viagens foi, inutilmente, suspensa34.
Na maior parte das vezes, as viagens tinham relação com pendengas financeiras com parceiros ou patrões. Em 1811, António Francisco dos Santos, um negociante então radicado em Luanda, argumentou que viajaria ao Brasil para liquidar contas com seus correspondentes35. Já o tenente-de-milícias Francisco Paula de Graça recebeu, em 1826, uma licença de dois anos para ir também ao Brasil "liquidar suas contas com os seus correspondentes (...)"36. Investidores de médio porte, por sua vez, tinham que viajar ao Brasil porque, diferentemente dos negociantes de grosso trato, não tinham as conexões necessárias para vender seus escravos. Assim, dois negociantes de Luanda, Francisco José Vieira e Joaquim Martins Mourão, solicitaram licença para viajar ao Brasil "não só por ser este o ordinário costume mas porque muito interessa ao suplicante ali vender a sua escravatura que em grande número tem para esse fim"37.
As relações comerciais eram tão estreitas que o esperado fim dos embarques de escravos, no final da década de 1820, afetou diretamente as viagens dos negociantes38. Em virtude das restrições da administração, que tinha interesse em usar os capitais do tráfico para redirecionar a economia para atividades lícitas, muitos dos pedidos de viagem passaram a incluir justificativas de ordem médica. Em 1827, por exemplo, pelo menos dois negociantes de Luanda, Francisco Luís Gonçalves Ferreira e José Joaquim Ferreira Torres, alegaram que precisavam ir ao Brasil para tratamento médico39. No ano seguinte, dois outros negociantes, António Francisco Ribeiro e José Polilo, pediram licenças para viajar para o Rio de Janeiro para tratar da saúde40. Também em 1828, Francisco José Gomes requisitou "um ano de licença para se ir tratar da saúde na cidade do Rio de Janeiro"41. No mesmo ano, um soldado então lotado no Dombe Grande, perto de Benguela, se valeu do mesmo argumento para solicitar licença para viajar para o Brasil42.
Luanda era notoriamente desprovida de instalações médicas satisfatórias43. Contudo, é quase certo que os pedidos fossem burlas para fugir da crise que se enunciava com o esperado fim dos embarques de escravos. Reforçando a hipótese de fraude, muitos pedidos incluíam filhos, parentes e afilhados. Foi o caso de Estevão da Cruz, que, em 1828, "por motivo de enfermidade quer que se lhe faça preciso um ano de licença para ir se tratar no Rio de Janeiro, levando em sua companhia dois filhos e uma menina"44. Outro exemplo aparece no requerimento de João Pedro de Andrade, que solicitou "poder levar em sua companhia para o Rio de Janeiro dois afilhados, Alexandrina e Martinho, órfãos de Manoel Francisco de Paula"45. Em 1829, foi a vez de Manoel José da Costa, que "vindo próximo do Sertão requer licença para seguir viagem no patacho Leopardo para a cidade do Rio de Janeiro, levando em sua companhia seus filhos menores José e Rosa"46.

Familia, Educação e Religião
Laços familiares e educação eram outros motivos das viagens de negociantes. No primeiro caso, o exemplo do negociante carioca Joaquim Teixeira de Macedo é bastante ilustrativo. Em 1818, Macedo, o proprietário do navio Mariana Daphne, declarou que "vai agora no dito navio para Angola, a casar com a filha do brigadeiro António João de Menezes (...) e terminar certas negociações"47. Do Brasil, negociantes se comunicavam freqüentemente com seus correspondentes e sócios em Angola, não só enviando mercadorias, mas também ajudando no trato com a administração de Luanda. Isto é patente no caso de Joaquim Vieira de Souza, um negociante baseado no Rio de Janeiro, que requisitou que seu filho – antes enviado do Rio para Angola para ser o representante local do pai – não fosse recrutado nas forças militares de Luanda. Segundo Souza, o filho era menor de idade e o serviço militar prejudicaria seus negócios48.
Muitos dos negociantes deixavam esposas e filhos no Brasil, seja pelo clima inóspito de Angola, seja porque iam para a África como degredados. Por exemplo, José de Souza – o contratador do direito do sal em Benguela e representante local da Companhia do Grão-Pará e Maranhão – tinha sua filha no Rio na década de 178049. No censo feito em Benguela, em 1797, o filho do negociante mulato José Rodrigues de Magalhães foi descrito como morador e estudante no Rio50. Em 1799, Joaquim António da Roza, um médico em Benguela com investimentos no tráfico de escravos, declarou que sua esposa e filho viviam no Rio de Janeiro51. No ano seguinte, outro negociante de Benguela, José Francisco, declarou ser casado no Rio, onde tinha deixado duas filhas52.
A hibridez cultural podia também ter características demográficas, já que vários negociantes (alguns deles negros e mestiços) tinham filhos de relações estáveis ou episódicas com africanas livres e escravas. Em 1789, Francisco Xavier dos Reis, então morando em Benguela, declarou que tivera uma filha com a escrava Mariana. A filha nascera na Bahia, onde ainda morava, e a distância não impediu Reis de nomeá-la herdeira principal de seus bens53. No caso de António José de Barros, talvez o maior negociante de Benguela, encontramos vários elementos que mostram que laços parentais resistiam à distância e que não apenas negociantes se beneficiavam de mobilidade no Atlântico. Em seu testamento, declarou:
(...) tendo eu estado há tempos no Rio de Janeiro, tive comunicação pecaminosa com uma parda de nome Ana, escrava da casa do defunto Domingos Rebelo Pereira. Passado pouco tempo alegou-me a mesma que estava peijada de mim, ao que duvidei (já tinha parido mais vezes antes de se ter comunicado comigo), mais instando ela para que eu a forrasse por amor do filho que ainda trazia na barriga, fundada na promessa que eu lhe fiz de a forrar se pejasse de mim. Me vi obrigado a curar-me disto ao confessor, que expondo-lhe a circunstância de ela já ter parido mais vezes e a minha incerteza me absolveu deste escrúpulo. Isto não obstante, passados muitos anos soube nesta cidade que se intitulada por meu filho e dela um rapaz, Feliciano, que (por escrúpulo e não por maior certeza) mandei forrar, e há pouco tempo veio a esta cidade e tornou a voltar para o mesmo Rio54.
Em 1798, o governador de Benguela declarou que era relativamente comum o envio de filhos e filhas de negociantes para estudar no Rio de Janeiro55. Várias evidências demonstram que não havia exagero em tal afirmativa. Em 1799, por exemplo, dois filhos do já mencionado António José de Barros estavam vivendo no Rio de Janeiro, na casa de Frutuoso José Rodrigues, um negociante que tinha vivido por quinze anos em Benguela56. Em 1827, "Sebastião Rodrigues da Silva [declarou que] quer mandar educar no Rio de Janeiro sua filha Augusta Rodrigues da Silva, levando em sua companhia uma escrava de nome Maria, que já foi aquela cidade [Rio]"57. No ano seguinte, José Joaquim Ferreira "solicitou licença para mandar educar para o Rio de Janeiro uma sua filha e um filho"58. Em 1829, Justiniano José dos Reis requereu licença para "mandar seu afilhado menor de 10 anos de nome Justiniano da Costa Covello para se educar no rio de janeiro"59. Assim também o fez Francisco Ferreira Gomes, "tutor do orfão Luiz, filho do finado António Lopes Anjo, [declarou] que ele pretende mandar o dito orfão para o Rio de Janeiro a educar-se"60.
É bem provável que estas crianças e jovens – alguns deles ainda na condição de escravos de seus próprios pais – fossem mulatos nascidos de uniões estáveis ou episódicas com africanas livres e escravas. O mesmo António José de Barros, que tivera um filho com uma escrava no Rio de Janeiro, declarou ter enviado três filhos tidos com suas escravas de Benguela para o Rio – provavelmente para que fossem educados em escolas cariocas61. Em 1826, José Pedro Cotta requereu licença para "mandar para o Rio de Janeiro no bergantim Flor do Mar uma sua escrava por nome Felícia e uma filha para ali se educar por nome Mariana"62. Em 1827, Justiniano José dos Reis, um negociante nascido no Brasil que prosperou no tráfico em Benguela, solicitou "mandar para o Rio de Janeiro um pequeno liberto menor de 12 anos para se educar de nome Vicente da Silva"63. No mesmo ano, "Francisco Pereira da Rocha [declarou que] quer mandar educar para o Rio de Janeiro a parda livre de nome Rita"64.
Tão importante quanto o envio de filhos livres e escravos para escolas cariocas era a filiação a irmandades religiosas católicas no Rio de Janeiro. O nosso conhecido António José de Barros foi membro de quatro irmandades cariocas: Santíssimo Sacramento e das Almas, da Freguesia de Nossa Senhora da Candelária; Nossa Senhora da Glória; Santa Luzia de Nossa Senhora do Rosário, da Freguesia de São José; e Jerusalém65. Nas instruções aos testamenteiros, muitos negociantes deixavam outra marcante evidência simbólica dos estreitos laços com o Brasil. Instruíam-nos a realizar suas cerimônias fúnebres em cidades brasileiras – em geral, no Rio de Janeiro66. Segundo José António da Costa, por exemplo, "na primeira ocasião que eu falecer, mande dizer missas no Rio de Janeiro por espaço de dois dias em todos os conventos e freguesias e capelas que houverem naquela cidade, todas quantas missas se poderem dizer nos ditos dois dias"67. Já José de Souza escreveu que
(...) meu testamenteiro mandará dizer duzentas missas por minha alma; cem missas pela alma de meus pais; cem missas pelas almas de meus irmãos e irmães; cem pelas almas do purgatório; e como nesta terra algumas vezes há falta de padres meu testamenteiro as poderá mandar dizer ao Brasil, para não haver muita demora68.
Num último exemplo, José António de Carvalho registrou: "declaro que meu testamenteiro mandará dizer 20 missas por minha alma no Rio de Janeiro, de esmola de trezentos e vinte réis cada uma; declaro que se mandarão mais dizer dez missas pela alma de minha mãe, com a mesma esmola, no Rio de Janeiro"69.

Desbravando Benguela: José dos Santos Torres
Além de marinheiros, soldados e burocratas, aqueles que formavam o grosso dos indivíduos livres atravessando o Atlântico eram negociantes. O caso de José dos Santos Torres é exemplar. Na primeira metade do século XVIII, Torres foi talvez o mais proeminente negociante "bahiano" operando na África Ocidental. Em 1721, por exemplo, obteve autorização real para exportar 150 caixas de açúcar brasileiro para a Costa da Mina70. Usando capitais ingleses, planejou comprar açúcar brasileiro para transacionar com os holandeses na própria Costa da Mina, o que levantou imediatas e exageradas suspeitas das autoridades portuguesas de que o centro de gravidade do comércio entre Europa e Brasil se estivesse deslocando para a costa da África71.
Além de indicar a justaposição das redes do tráfico em Angola e na Costa da Mina, sua trajetória serve para ilustrar uma importante transformação do tráfico angolano: a abertura do comércio direto de escravos entre Benguela e Brasil. Ainda na década de 1720, Torres tirou vantagem dos temores gerados pelos ataques holandeses aos navios negreiros idos da Bahia para fazer o comércio direto para conseguir autorização régia para construir fortes na costa da África72. No caso, para fazer o comércio sem serem atacados pelos holandeses, estes navios tinham que lhes pagar uma taxa equivalente a dez por cento da carga73. Apenas entre 1715 e 1756, pelo menos quinhentos navios baianos pagaram tal taxa74. Para dar mais proteção aos navios dos negociantes da Bahia, Torres financiou a construção de um forte na Costa da Mina em 172175.
Somente entre 1717 e 1718, o número de escravos que os holandeses tomaram de navios navegando de volta para a Bahia alcançou 3.00076. No início da década de 1730, enquanto os holandeses (15) e os britânicos (9) controlavam 24 fortes, não havia nenhum forte para proteger o tráfico baiano77. Não é nada surpreendente, portanto, que só os holandeses tomaram mais de doze mil escravos de navios baianos entre 1715 e 175678. A trajetória de Torres parece sugerir que as dificuldades o teriam motivado a começar a investir em Benguela. Lá, o tráfico se desenvolveu primeiro como uma atividade subsidiária de Luanda, para onde escravos eram inicialmente enviados antes de serem embarcados para o Brasil79. Apesar de cerca de trinta por cento dos escravos embarcados em Luanda terem sido enviados de Benguela em fins do século XVII, o fluxo de cativos foi relativamente reduzido, até a década de 173080.
Entre 1726 e 1728, Torres enviou quatro navios para Benguela, que navegaram para o Brasil, sem passar antes por Luanda81. No início da década de 1730, com a destruição do forte "português" de Jakim por tropas do reino do Daomé, Torres passou a operar a partir de Pernambuco82. Em 1731, ainda despachava navios para a Costa da Mina. Em 1735, radicou-se em Luanda, trazendo quatro navios e começou a fazer o tráfico com Santos83. Sem passar antes por Luanda, entre 1735 e 1739, seus navios navegaram entre Rio de Janeiro e Benguela pelo menos quatro vezes84. Torres continuou atuando no tráfico angolano até sua morte, em Luanda, em 177485. Seu exemplo parece ter inspirado outros investidores, como um antigo contratador dos direitos de escravos de Luanda, que também começou a investir pesadamente em Benguela no final da década de 173086.

Benguela: A Comunidade Mercantil
Em 1798, o número de pumbeiros (agentes comerciais no tráfico interno) fornecendo escravos para Benguela foi estimado em 90087. Na cidade propriamente dita, no entanto, o número de negociantes era bem menor, girando em torno de 33 e 50, entre 1778 e 179688. Na condição de proprietários ou co-proprietários, os negociantes locais chegaram a controlar metade da frota de negreiros embarcando cativos em Benguela89. Com indivíduos continuamente se ausentando ou simplesmente tendo suas vidas ceifadas por doenças, a rotatividade na comunidade mercantil era alta90. Em 1796, por exemplo, a morte de José Pedro Barrocas, um dos negociantes mais ricos, levou o governador de Benguela a afirmar que "a falta dos moradores opulentos antigos, que davam nome a Benguela, se faz sensível"91.
Como é revelado por dois processos-crime, vários negociantes tinham nascido no Brasil92. Um deles, por exemplo, foi descrito como um soldado negro do Batalhão de Henriques, de Benguela, "que veio a esta cidade [Benguela] a seu negócio de resgate de cativos, de idade que disse ser de 37 anos"93. Mesmo quando eram "reinóis", acabavam por se tornarem "brasileiros" por conta de "longas estadias no Brasil antes de fixarem em Benguela"94. Um exemplo serve para tipificar a trajetória destes indivíduos. Em 1796, o pai de um negociante, que tinha morrido num navio negreiro a caminho entre Benguela e Bahia, declarou que seu filho "se ausentou para os estados da América [Brasil], onde viveu, e vindo de Benguela para a cidade da Bahia faleceu no mar"95.
Além de motivos religiosos, muitos destes negociantes eram degredados por crimes comuns e políticos. Provavelmente nascido no Brasil, José Rodrigues Maia, por exemplo, chegou a Benguela como um empobrecido degredado em meados da década de 176096. Nos anos subseqüentes, Maia se tornaria o representante local da companhia de comércio criada para o tráfico de escravos para o Grão-Pará e o Maranhão. Entre 1772 e 1786, operando como funcionário da companhia, tratou do embarque de 16.586 escravos para o Brasil97. Em meados da década de 1780, tinha-se tornado tão poderoso que teria influenciado a decisão do governo de Luanda de enviar uma expedição ao Cabo Negro, no sul de Angola. Segundo um dos comandantes da expedição, Maia prometeu dar apoio financeiro e logístico à expedição, em troca de direitos exclusivos de embarcar escravos de Cabo Negro98.
Julgando por sua carreira militar, é possível que Maia fosse mestiço ou negro. Por exemplo, antes de se tornar o comandante do forte de Benguela e capitão-de-artilharia, em 1775, ocupou o cargo de capitão da guerra-preta99. Viajou para o Rio de Janeiro em 1786, provavelmente ao término do seu degredo, mas voltou a Benguela quatro anos mais tarde. Tornou-se então sócio de dois outros importantes negociantes, o já mencionado Frutuoso José Cruz e António José da Costa100. Era poderoso o suficiente para financiar encomendas dos negociantes de Benguela na praça do Rio de Janeiro. Em 1790, passou uma letra de risco que permitiu a Francisco Dias de Oliveira tomar emprestado 5,073.512 réis dos negociantes cariocas Manoel José Mesquita, José Gonçalves Marques e António José Cunha101.
Outro exemplo de degredado enriquecido no tráfico parece ter sido o de Joaquim José de Andrade e Souza Menezes. Nascido no Brasil, foi preso em Benguela sob acusação de tentar desafiar a autoridade do governador de Benguela, ao pedir diretamente a Luanda um cargo na burocracia local. Na década de 1790, tornou-se um dos mais proeminentes negociantes na cidade102. Na altura, com cerca de 35 anos, Souza Menezes era capitão de milícias e controlava redes mercantis que se espraiavam por Kakonda, Huambo e Novo Redondo103. Em 1799, esteve por trás da campanha para angariar recursos para construir uma igreja em Benguela104. Proprietário de um navio negreiro em parceria com outro negociante de Benguela, Souza Menezes tinha também conexões mercantis no Rio de Janeiro e em Lisboa105.
Além dos degredados, vários negociantes chegavam a Benguela como agentes de casas comerciais cariocas. A trajetória ascendente deles é ilustrada por Frutuoso José Cruz. Nascido no Rio de Janeiro, Cruz chegou a Benguela aos 29 anos, na década da 1780. No decorrer de uma estada de quinze anos, teria não só sucesso no tráfico como acabaria ocupando vários cargos na administração local106. Mesmo depois de retornar ao Rio, permaneceu como correspondente de vários negociantes de Benguela, vendendo seus escravos e cuidando do envio de mercadorias para lá. Na década de 1790, por exemplo, era o contato carioca do negociante José António de Carvalho107. No ano seguinte, tornou-se o representante comercial que Joaquim António da Roza nomeou para a venda de seus escravos no Rio e tratar de débitos que Roza tinha com negociantes lisboetas108.
Em Benguela, os negociantes não se restringiam ao comércio costeiro. Alguns tentaram a sorte em Novo Redondo – o presídio costeiro com o qual Luanda infrutiferamente tentou barrar o contrabando na costa sul de Angola109. Vários foram bem mais ousados, indo fazer o comércio interno de escravos em regiões como Kakonda, Kilengues, Galangue e Huambo. Em 1789, por exemplo, Manoel José da Cruz declarou que era um negociante em Benguela e tinha vivido vários anos em Cumbira [Huambo], "para onde despacha os seus pumbeiros e de onde recebe a maior parte das remessas dos escravos"110. Em 1796, José de Assunção Mello, natural da Bahia e considerado o melhor conhecedor do comércio e dos povos do interior, penetrou tão profundamente no interior que chegou à região do Luvale111. Em 1800, Henrique Pedro de Almeida, um soldado nascido no Brasil e depois destacado para Benguela, recebeu permissão para negociar no planalto central com bens emprestados por Joaquim Vieira de Andrade, um dos magnatas do comércio costeiro em Benguela112.

Benguela e Brasil
Além dos contatos com o Brasil, vários negociantes de Benguela também mantinham relações comerciais com Portugal. Em 1793, António Pinto de Almeida escreveu no seu testamento que os pagamentos dos seus créditos deveriam ser feitos não só no Rio de Janeiro e na Bahia, mas também em Lisboa113. Em 1805, Aurélio Veríssimo Vieira, que era o proprietário do navio Nossa Senhora da Piedade, juntamente com o negociante de Benguela António Francisco dos Santos, declarou que tinha contas não só com as praças mercantis da Bahia e de Pernambuco, mas também com Rio e Luanda114. Em 1798, além dos cariocas Narcizo Alves Pereira e Frutuoso José da Cruz, António Lourenço de Carvalho, um negociante que tinha vivido vários anos no Galangue, declarou que tinha negócios com os lisboetas Tamagnini e Domingos Gomes Loureiro115.
Contudo, o atrelamento do comércio atlântico de Benguela em relação ao Brasil era patente, estendendo-se não só aos capitais do tráfico como também aos suprimentos usados nos navios negreiros. Em 1799, por exemplo, segundo ofício do Governador, os negociantes de Benguela dependiam dos navios vindos do Brasil "para a importação das fazendas e mais gêneros com que aqui se negoceia, e até farinha e mais víveres, tanto para a manutenção deles mesmos como para suas famílias, armações de escravos novos e mais povo"116. No Brasil, os laços principais eram claramente com o Rio de Janeiro. Entre 1795 e 1811, Benguela respondeu por aproximadamente metade dos navios negreiros que atracaram no Rio117. Segundo Joseph Miller, pelo menos 80 por cento dos navios que saíram de Benguela tinham como destino o Rio de Janeiro, entre 1796 e 1828118.
No caso do financiamento do tráfico, um episódio serve para ilustrar o quão Benguela estava atrelada ao Rio. Em 1794, Lourenço Pereira Tavares, um rico negociante nascido em Luanda, membro do Senado da Câmara de Benguela e capitão de milícia, deu ordens para o capitão do seu navio embarcar 200 escravos da sua conta e reservar o restante do espaço para outros negociantes de Benguela119. A ordem foi solenemente ignorada pelo capitão, sob argumento de que o navio já tinha saído do Rio com ordens precisas dos sócios cariocas de Tavares. Segundo as ordens vindas do Rio, Tavares poderia embarcar apenas 82 escravos e o espaço restante no navio seria dividido por outros negociantes de Benguela120.
A capacidade de intervenção dos cariocas é ainda mais evidenciada pelo caso de três negociantes, Lourenço Joaquim, Francisco Alvares e José da Silva Teixeira121. Provavelmente referindo-se aos três, o governador de Benguela declarou que formavam "uma roda de principiantes bem acreditados e de bons princípios"122. Recentemente chegados a Benguela, os cariocas Lourenço Joaquim e Francisco Alvares eram donos de navios. Já o terceiro, José da Silva Teixeira, um ex-capitão de navio negreiro que amealhara fortuna pessoal, montara uma sociedade comercial com outros dois negociantes cariocas, José Pereira Guimarães e Manoel Gomes. A sociedade era destinada ao tráfico em Benguela. Com fortuna estimada em 25,000 réis, Teixeira foi enviado para Benguela, onde chegou com bens estimados em 200,000 cruzados, para gerir os negócios da sociedade. Além disto, era o co-proprietário de um navio que seus sócios estavam então adquirindo em Lisboa123. Sua robustez financeira era tal que levou o governador de Benguela a lhe oferecer uma alta posição nas forças armadas locais124.
Testamentos de negociantes de Benguela também ilustram as conexões com o Rio de Janeiro. Por exemplo, José de Souza, importante negociante da década de 1790, tinha relações comerciais com um negociante lisboeta, José Ferreira da Fonseca, mas seus laços principais eram com os cariocas Jerônimo Pereira e irmãos125. Já Luiz Antonio Gomes, outro negociante radicado em Benguela, foi o co-proprietário da corveta Nossa Senhora do Rosário Santo António e Almas, juntamente com Francisco José, um negociante baseado no Rio de Janeiro126. Em 1795, José António da Costa, que era o proprietário da sumaca São Lourenço, tinha relações comerciais com os negociantes cariocas Bernardo Lourenço Vianna, António Teixeira Passos, Manoel Ferreira da Cruz e Manoel de Souza Guimarães128. Em 1800, José Francisco mantinha negócios em Lisboa com José Pereira de Souza, mas também tinha como parceiro o carioca Bernardo Lourenço Vianna129.
No caso de António José de Barros, o maior negociante de Benguela no final da década de 1790, a parceria era com os cariocas Narcizo Luis Alves Pereira e Francisco António de Araújo Pereira, aos quais ele devia 79,294 réis. Além disto, devia 1,767,408 réis em dinheiro a seu cunhado, Manoel Ferreira da Silva Guimarães, que tinha sido degredado para Luanda em 1788130. No Rio de Janeiro, seu principal associado foi Manoel Gonçalves Moledo, com quem amargamente terminou uma parceria comercial em 1796, após receber uma carta com insultos de Moledo. Barros declarou:
Tendo eu tido outra sociedade com o capitão Manoel Gonçalves Moledo, morador no mesmo Rio, e sendo-me (por ajuste dela) o mesmo Moledo devedor de avultada quantia tem sobre isto movido dúvidas tão grandes e tem me desacreditado tanto que me obrigam a dar agora uma chegada ao dito Rio na minha corveta Pensamento Feliz, só afim de ajustar as contas da tal sociedade131.
Embora tenha nomeado testamenteiros na Bahia e Pernambuco, privilegiou o Rio: "[Eu] declaro que tenho contas com o Narciso Luis Alves Pereira, Frutuoso José da Cruz, Capitão José Maria Arsénio de Lacerda e António José da Costa (ido há pouco desta cidade)"132.
* * *
Do ponto de vista macroestrutural, as linhas gerais do desenvolvimento do comércio atlântico de Benguela são bem nítidas. Na primeira metade do século XVIII, Benguela era vista como contraponto à percebida diminuição da influência portuguesa na Costa da Mina – onde ataques de navios holandeses e a concorrência de ingleses e franceses pareciam afetar o comércio da Bahia com a costa do Benim133. A demanda crescente por mão-de-obra no Brasil, devido à mineração de ouro nas Minas Gerais, tornava a situação ainda mais crítica. Nesta conjuntura, Benguela oferecia vantagens óbvias porque era situada numa região de domínio português inconteste e porque o tráfico – embora subsidiário de Luanda, para onde os escravos eram enviados antes da década de 1730 – já era uma realidade. Já claros neste período inicial, os laços estreitos com o Rio de Janeiro, principal porto de entrada de africanos para as Minas Gerais, se tornariam marca registrada do comércio atlântico benguelense
É na micro-escala, no entanto, que outras dimensões centrais do comércio atlântico de Benguela se tornam também patentes. A reconstrução de trajetórias individuais demonstra que este dependia de redes sociais tecidas através de laços familiares, ensino e participação em irmandades religiosas. Na base das redes mercantis, estavam freqüentes deslocamentos de negociantes, motivados não só pelo comércio, mas pelas relações pessoais que muitos tinham com o Brasil – principalmente o Rio de Janeiro. Estes contatos contribuíram para a formação de uma cultura atlântica – não só língua, mas também religião e educação – entre negociantes que oferecia as condições fundamentais para a execução do comércio.


Artigo recebido em outubro de 2005 e aprovado para publicação em dezembro de 2005.

Ernesto Lara Filho (De o Canto de Martrindinde e Outros Poemas Feitos no Puto)

      
                                     Ernesto Lara Filho: Benguela, 1932; Huambo, 1977



Infância perdida
(para o Miau)

Nesse tempo, Edelfride,
Com quatro macutas
A gente comprava
Dois pacotes de ginguba
Na loja do Guimarães.

Nesse tempo, Edelfride,
com meio angolar
a gente comprava
cinco mangas madurinhas
no Mercado de Benguela.

Nesse tempo, Edelfride,
montados em bicicletas
a gente fugia da cidade
e ia prás pescarias
ver as traineiras chegar
ou então
à horta do Lima Gordo
no Cavaco
comer amoras fresquinhas.

Nesse tempo, Miau,
(alcunha que mantiveste no futebol)
nós fazíamos gazeta
da escola coribeca
e íamos os quatro
jogar sueca
debaixo da mandioqueira.

Era no tempo
em que o Saraiva Cambuta batia na mulher
e a gente gostava de ver a negra levar porrada.

Era no tempo
dos dongos da ponte
dos barcos de bimba
dos carrinhos de papelão

Como tudo era bonito nesse tempo, Miau!

Era no tempo do visgo
que a gente punha na figueira brava
para apanhar bicos-de-lacre e seripipis
os passarinhos que bicavam as papaias do Ferreira Pires
que tinha aquele quintalão grande e gostava dos meninos.

Era no tempo dos doces de ginguba com açúcar.

Mais tarde
vieram os passeios noturnos
à Massangarala
e ao Bairro Benfica.
E o Bairro Benfica ao luar
O poeta Aires a cantar
(meu amor da rua onze e seu colar de missangas...)
Tudo era bonito nesse tempo
até o Salão Azul dos Cubanos
e o Lanterna Vermelha - o dancing do Quioche.

Foi então que a vida me levou para longe de ti:
parti para estudar na Europa
mas nunca mais lhe esqueci, Edelfride,
meu companheiro mulato dos bancos de escola
porque tu me ensinaste a fazer bola de meia
cheia de chipipa da mafumeira.
Tu me ensinaste a compreender e a amar
os negros velhos do bairro Benfica
e as negras prostitutas da Massangarala
(lembras-te da Esperança? Oh, como era bonita
[essa mulata...)
Tu me ensinaste onde havia a melhor quissângua
de Benguela:
era no Bairro por detrás do Caminho de Ferro
quando a gente vai na Escola da Liga.
Tu me ensinaste tudo quanto relembro agora
Infância Perdida
sonhos dos tempos de menino.

Tudo isso te devo
companheiro dos bancos de escola
isso
e o aprender a subir
aos tamarineiros
a caçar bituítes com fisga
aprender a cantar num kombaritòkué
o varre das cinzas
do velho Camalundo.
Tudo isso perpassa
me enche de sofrimento.

Diz a tua Mãe
que o menino branco
um dia há-de voltar
cheio de pobreza e de saudade
cheio de sofrimento
quase destruído pela Europa.

Ele há-de voltar
para se sentar à tua mesa
e voltar a comer contigo e com teus irmãos
e meus irmãos
aquela moambada de domingo
com quiabos e gengibre
aquela moambada que nunca mais esqueci
nos longos domingos tristes e invernais da Europa
ou então
aquele calulu
de dona Ema.

Diz a tua Mãe, Edelfride,
que ela ainda me há-de beijar como fazia
quando eu era menino
branco
bem tratado
quando fugia da casa de meus Pais
para ir repartir a minha riqueza
com a vossa pobreza.
Diz tudo isso a toda a gente
que ainda se lembra de mim.
Diz-lhes. Diz-lhes
grita-lhes
aos ouvidos
ao vento que passa
e sopra nas casuarinas da Praia Morena.
Diz aos mulatos e brancos e negros
que foram nossos companheiros de escola
que te escrevo este poema
chorando de saudade
as veias latejando
o coração batendo
de Esperança, de Esperança
porque ela
a Esperança
(como dizia aquele nosso poeta
que anda perdido nos longes da Europa)
está na Esperança, Amigo.

Edelfride, você não chore
saudades do Castimbala
nem lhe escreva
cartas como essa
que são de partir
meu pobre coração.

Nesse tempo, Edelfride,
Infância Perdida
era no tempo dos tamarineiros em flor...


Ernesto Lara Filho
(O Canto de Martrindinde e Outros Poemas Feitos no Puto)
1964, Lisboa