quarta-feira, 5 de maio de 2010

Angola 1820-1890 por Júlio Alves Victor

(continuação)

b) Os Núcleos Coloniais Portugueses

O Território


As «fronteiras... eram, aliás, pouco estáveis...» [mas a “colónia”, como Dias lhe chama, não tinha então fronteiras, pois] «foi só em 1887 que o governo colonial se empenhou na tarefa de fazer um levantamento topográfico dos limites da sua autoridade efectiva.»
(24)


Administração

Em 1825 exercia-se nos reinos de Angola e Benguela, com uma população total entre 250.000 e 300.000,25 mas estimada incertamente, já que os sobas baixavam os números para fugir ao imposto e «a autoridade administrativa» também, para poder desviar valores recebidos.
(26) Os presídios [povoações comerciais providas de forte], com guarnições comandadas por ‘capitães-mores’, eram dez até meados do século XIX: Muxima, Massangano, Cambambe, Ambaca e Calandula (ou ‘Duque de Bragança’, ambos extintos em 1839), Pungo Andongo, S. José do Encoje; Benguela, Caconda e Novo Redondo; a presença militar no Bié, Caconda e Quilengues datava do governo [(1764-1772) de D. Francisco Inocêncio] de Sousa Coutinho; Caconda era para o sul de Angola o que Ambaca era para o norte. (27) Havia em 1820 treze distritos sob a chefia de ‘regentes’: dependentes de Luanda estavam Barra do Bengo, Barra do Dande, Barra do Calumbo, Dande, Icolo e Bengo, Zenza, Quilengues, Dembos e Golungo; de Benguela, eram Dombe Grande, Quilengues, Huambo, Bailundo e Bié. A partir de 1850 tanto os presídios como os distritos foram administrados como concelhos e redelimitados periodicamente, mas já desde 1839 que os capitães-mor e regentes se chamavam ‘comandantes’ e ‘chefes’, respectivamente.

 Nomeavam-se para chefes de concelho, de preferência, oficiais de 1ª linha, porém o pequeno número dos disponíveis obrigava a que para muitos destes postos – mais numerosos a partir de 1830, consequência da redelimitação administrativa – fossem nomeados chefes de entre os moradores nos comandos das companhias móveis de 2ª linha; os cargos, de grande honra e favor «até finais do século», não eram remunerados: os nomeados proviam à manutenção das guarnição dos seus concelhos, cujas chefias obtinham [por ‘comissão’, semelhantemente à prática contemporânea no quadro militar colonial britânico, mas que a Dias parece] por suborno, e eram vistos, segundo comentários contemporâneos, como notoriamente parciais nos seus cargos administrativos, que desempenhavam [legalmente, nesse caso] em seu proveito (28) e remuneração[ou seja, ‘em espécie’]. Enquanto a chefia de alguns concelhos era vitalícia (os das barras dos rios Dande, Calumbo e Bengo), doutros mudava com frequência: Ambaca, por exemplo, teve oito chefes entre 1839 e 1841. (29)

O contingente militar de 1.ª linha era, de resto, diminuto (menos de 2.000 homens, a metade estacionada em Luanda) antes de 1845, e só as características especiais da guarnição provincial [acima criticadas por Dias] e do seu entrosamento com os sobados permitiam semelhante [economia da parte da Coroa graças ao notável] exiguidade de forças convencionais. Dias refere, sem referências específicas, a natureza penal da incorporação de «muitas» das praças da guarnição portuguesa da Província; e de resto, (30) «quase todos... comandantes de presídios, concelhos ou distritos no interior da colónia, complementavam os seus magros salários com lucros do tráfico ou do comércio ilegítimo, apesar de essa actividade lhes ser proibida. Entre os seus negócios incluía-se o fornecimento de víveres e cereais para o mercado de Luanda. Tais bens, muitas vezes extorquidos ilegalmente à população africana sob o seu comando, eram comercializados em estreita colaboração com negociantes e casas comerciais da costa.» Consequentemente a penúria do Governo geral durante a primeira metade do século XIX reflectiu-se não só nas crises fiscais e monetárias das décadas de 1830 e 1840 mas também na vulnerabilidade dos chefes às ofertas da praça: a abastada D. Ana Joaquina chegou a propor ao governador geral o transporte grátis de quinze éguas Montevideo para a guarnição de Luanda. (31)

Os sobados (Dias p. 356): no território sob administração portuguesa pertenciam à Coroa [era crown lands, para usar o termo inglês] por direito de conquista e comprometiam-se pelo undamento «a observar a fé cristã... [a pagar o] dízimo e ao fornecimento de mão-de-obra para o comércio, a guerra... em troca do reconhecimento português da sua legitimidade...» As estruturas internas do poder tradicional haviam-se alterado desde a Conquista pela tomada do poder e legitimação no século XIX [não muito antes?] de famílias dominantes dos sobados e ligadas à «colaboração com os Portugueses». As aldeias eram consideradas livres nas «fontes coloniais», embora [?] sujeitas aos sobas e não se distinguindo naqueles «as diferentes categorias de parentes, clientes e escravos de que se compunham...» 

(continua...)

24. Não se faz qualquer referência à evolução da política europeia de tornou este passo necessário, como se se tratasse de um “desmazelo” das autoridades: perde-se assim o próprio significado histórico do termo ‘colónia’ e justifica-se o uso do termo errado! Vd. referências em Dias: J.C. Feo Cardoso de Castelo Branco e Torres – Memórias contendo a biografia do vice-almirante Luís da Motta Feo e Torres, a História dos governadores e capitães generaes de Angola desde 1575 até 1825, e a descripção geographica e política dos reinos de Angola e de Benguella, Paris 1825.
25. Dias refere Mapas estatísticos dos presídios no ano de 1819, A.H.U., Angola, cx. 138, doc. 17; Mapas de população (re. 820), A.H.U., Angola cx 139; Mapa do reino de Angola, 20.06.1827, Ibid. cx. 156; Mapa estatístico da população de Angola, 1862, ibid. CG; José Acúrcio das Neves – Considerações políticas e comerciais sobre os descobrimentos e possessões dos Portugueses em África e Ásia, Lisboa 1830, p. 202; José Joaquim Lopes de Lima – Ensaios sobre a estatística das possessões portuguesas, Lisboa, Imprensa nacional 1846, vol. III, 4-A; Tito Omboni – Viaggi nell’Africa occidentale, Milão 1845.
26. Opinião a priori, assumindo a desonestidade universal, e geralmente sem recurso a referências.
27. Ralph Delgado – A Famosa e Histórica Benguela: catálogo dos governadores (1779-1940), Lisboa 1940; Ibid – A Sul do Cuanza; A. Albuquerque Felner – Angola: Apontamentos sobre a colonização dos planaltos e litoral do sul de Angola, 3 vols., Lisboa 1940.
28. Relatório do G.G. para o exercício de 01.09.1882 a 01.09.1883 in ‘Angolana’, vol I pp. 650-651.
29. J. Saraiva da Fonseca – Descripção de uma viagem de Luanda a Ambaca, 1843, A.H.U., sala 12, maço 5.
30. Requerimentos<, 1841, A.H.U. (A-J); Junta de Fazenda de Angola – Ofício 597 de 27.10.1848 da ibid. CG Angola, pasta 14; Anne Stamm – La Societé Créole à Loanda (1836-1848) in Revue Française d’Histoire de Outre-Mer, LIX (1972), n.º 217, p. 589.
31. GG – Ofício n.º 116 de 28.10.1339, A.H.U., CG pasta 2-C. 

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Angola 1820-1890 por Júlio Alves Victor


(continuação)

A Sociedade

Havia 1.000 a 2.000 brancos de diversas origens,
(32) quase todos na costa, principalmente em Luanda. «A consciência de raça, presente desde os primeiros contactos portugueses, reflectia-se nos censos, que dividiam a população segundo a cor da pele», (33) sendo «a esmagadora maioria... preta e livre», mas incluindo grande percentagem de mulheres; seguia-se-lhe «cerca de 3.000 mestiços, rotulados, no vocabulário colonial da época, (34) como pardos, mulatos ou filhos do país». A maior parte dos negros e mestiços vivia nos distritos de Ambaca, Pungo Andongo e Caconda. A presença portuguesa na província [antes da delimitação da futura colónia na década de 1880] apoiava-se nas vantagens económicas que os chefes tradicionais viam nela [e portanto na estrutura administrativa que funcionou durante a escravatura] e na cooperação entre os três elementos: a gestão de Luanda, a economia da população afro-portuguesa, os interesses dos chefes tribais.

Luanda: as características comuns dos membros do oficialato do governo do território e das firmas de capital externo da praça da capital eram a) serem brancos e b) constituídos mormente por residentes temporários; formavam duas camadas sociais, uma mais baixa onde estavam os empregados de firmas do Rio e de Lisboa, que se ausentariam por doença ou «logo que as suas fortunas o permitissem»,
(35) mas também degredados [e por isso, segundo Dias] «a comunidade branca da colónia estava marcada pelo estigma da criminalidade», (36) e uma camada mais rica, «elite social da colónia», de comerciantes e oficiais do Exército e da Marinha: estes, quando nas guarnições dos presídios, desempenhavam funções civis administrativas (municipais, judiciais) e técnicas (agrícolas, de engenharia).

Os afro-portugueses: as famílias angolanas mais antigas, que «monopolizaram, até à década de 1880, grande parte dos cargos militares e administrativos do interior da colónia» eram as dos Matoso de Andrade, dos Pinheiro Falcão, dos Velasco Galiano e dos Pereira dos Santos van Dunen, «haviam acumulado e consolidado esse património ao longo de várias gerações, com dotes e legados, através de estratégias e alianças matrimoniais» e da obtenção de «nomeações como capitães-mores dos distritos do interior» por ocasião das «guerras contra as sociedades africanas do hinterland...»
(37) No interior de Angola, estas «oligarquias afro-portuguesas... interligadas... de ascendência já predominantemente negra, tais como os Pereira Bravo, de Golungo Alto, ou os Fragoso dos Santos e os Mendes Machado, de Ambaca, afirmavam o seu poder e a sua identidade, face à população africana “gentia” circundante, através de espessas redes de parentesco e clientela, que ultrapassavam as fronteiras da colónia»: em 1850 Manuel da Conceição Mendes Machado tinha influência sobre «grande parte» das autoridades tradicionais entre Ambaca e Cassanje, e dos concelhos limítrofes de Pungo Andongo e Massangano. (38) As mulheres de origem africana tinham «posição de relevo a todos os níveis económicos e sociais» de Luanda e Benguela, por ex. D. Ana Joaquina dos Santos Silva (39) e D. Ana Francisca Ferreira Ubertaly, esta «nascida no interior de África e trazida como escrava para Luanda» (40) viúva de Carlos Ubertaly, (41) que deixou uma fortuna de 26.000 contos de reis quando faleceu em 1848; as negras teriam ainda a influência [comum a todas as mães] conferida pelo «ensino das crianças em quimbundo», o idioma dominante em Luanda e Benguela em princípios do século XIX, contribuindo assim «para a formação de culturas sincréticas, (42) tendência fortalecida pela escassez de mulheres europeias entre a população da colónia.»

Os sobados (Dias p. 356): no território sob administração portuguesa pertenciam à coroa [era crown lands, para usar o termo inglês] por direito de conquista e comprometiam-se pelo undamento «a observar a fé cristã... [a pagar o] dízimo e ao fornecimento de mão-de-obra para o comércio, a guerra... em troca do reconhecimento português da sua legitimidade...» As estruturas internas do poder tradicional haviam-se alterado desde a Conquista pela tomada do poder e legitimação no século XIX [não muito antes?] de famílias dominantes dos sobados e ligadas à «colaboração com os Portugueses». As aldeias eram consideradas livres nas «fontes coloniais», embora [?] sujeitas aos sobas e não se distinguindo naqueles «as diferentes categorias de parentes, clientes e escravos de que se compunham...»

Moradores: gente criada no ensino da língua portuguesa, formando «núcleos... diferenciados, social e culturalmente, da massa da população rural...» que, segundo Dias, exploravam económica e manipulavam politicamente: especialmente a partir de 1830, quando as reformas administrativas e militares – novas divisões distritais e formação de companhias móveis de 2ª linha – criaram «novas bases legítimas para o exercício desse poder arbitrário.» Negros emancipados, i. é, que não estavam sujeitos a qualquer soba, eram pessoas livres que se vestiam à europeia e viviam nas vilas do litoral, onde a cultura europeia mais se fazia sentir; classificavam-se como moradores, descrição dada também a brancos e mestiços que moravam em povoações essencialmente de cultura banta do interior.

Comerciantes: mesmo depois de 1830 «a esmagadora maioria dos negociantes de Luanda continuava ligada ao tráfico... [mas] o silêncio das fontes dificulta o conhecimento dos capitais envolvidos
(43) ...» Haveria certamente, no entanto, capitais portugueses investidos desde a década de 1820 (44) nos negócios de ambos D. Ana Joaquina, que mantinha linhas marítimas para Montevideo, Lisboa e as principais cidades costeiras brasileiras, e Francisco António Flores, natural do Brasil mas naturalizado português, agente de uma firma do Rio; e a ambos estariam ligados comerciantes locais como o filho do país, Matos de Andrade da Câmara, e o [teatral] madeirense Arsénio Pompílio Pompeu do Carmo.

Mão-de-obra: Os carregadores «não passavam de reserva de mão-de-obra subordinada às exigências comerciais e militares da colónia...» Dias afirma [sem referir que na África de então todo o transporte era feito por carregadores – anteriormente à Conquista era feito pelas mulheres...] que se dava este nome a tod’ [os varões d’] a população negra e que aos chefes de aldeia se chamava ‘patrões’: a condição de «carregador forçado» levava «os habitantes» a emancipar-se das aldeias. Os escravos, marcados a ferrete no braço ou no peito, podiam ser transaccionados como qualquer mercadoria (vendidos, dados ou legados, emprestados, hipotecados e herdados), e eram a base da riqueza das «oligarquias afro-portuguesas do interior e do litoral angolano»; empregavam-se [em maiores números?] na lavoura de que se abasteciam os mercados de Luanda e Benguela e os navios que ali aportavam – o que «constituía, para as mesmas famílias, outra fonte... de pressão e chantagem política sobre o governo colonial» – ou como soldados e pumbeiros, artesãos, domésticos e carregadores; sendo «esmagadoramente mulheres», constituíam 10% da população do litoral no período em apreço, já tendo formado 75% da população de Benguela na década de 1790 [quando a componente branca e a negra livre era muito menor], segundo um mapa de 15.06.1796. [Dias pensa que] a componente escrava decresceu até 1820 em consequência «de fugas» [o que, de resto e desde sempre, seria típico] de «Luanda, aberta ao sertão por todos os lados...», e «dívidas comerciais crescentes»; [e afirma, p. 354] que «... a maior parte dos escravos pertencentes às oligarquias afro-portuguesas locais gozava de elevado grau de liberdade pessoal, em termos de habitação e circulação», o que não era o caso com os dos residentes brancos: estariam entre aqueles os ladinos [‘espertos’], escravos que se distinguiam numa ‘arte’ – carpinteiros, ferreiros, etc. – vivendo nas vilas, presídios e feiras, dependentes do trabalho gerado pelo comércio europeu [seriam, portanto, alforriados?], e aumentando «por vários milhares» o estrato social dos residentes; eram mais de 2.000 no interior do distrito de Luanda em 1820 e pelo menos 3.000 em 1861.25 Com a abolição, não era legal converterem-se os escravos em dinheiro dentro do território, deixando por isso de ter valor pecuniário.

A integração racial: o efeito deletério do clima «obrigou» a Coroa portuguesa «a seguir uma política de integração racial,
(45) não só na administração da colónia como também no exército colonial», razão porque «os filhos do país tinham alcançado uma posição privilegiada (46) nas estruturas do poder colonial em Angola», dando-lhes a vantagem sobre os comerciantes da costa, que se viam obrigados a depender deles e entrar em atrito com as autoridades, que se queixavam da «promoção aberta de interesses particulares e familiares» em postos civis e militares, (47) no contexto da aristocracia local de uma «pequena minoria de famílias afro-portuguesas» descendentes dos antigos conquistadores «ou de elementos da expedição de Salvador Correia de Sá, para além de outros traficantes, militares e funcionários portugueses que residiam na colónia entre os séculos XVII e XVIII.» (48)


O Tráfico

Comerciantes: na década de 1820 [e como consequência da independência do Brasil] agentes comerciais estrangeiros servidos, segundo Dias, por moradores, consolidaram a rede de tráfico contrabandista de Angola para a costa do Ambriz e o rio Zaire, onde havia feitorias estrangeiras, a partir das feiras a sul do Dande (Calandula, Cafuxe, Holo, Cassanje e Bié). A concorrência resultante causou a dispersão pelo interior dos agentes dos comerciantes afro-portugueses da costa, iludindo as disposições da Coroa em contrário e instituindo a sonegação dos impostos de exportação. Ainda antes de 1830 o número de escravos fornecidos de contrabando para norte do r. Dande [mormente através de Ambaca] igualava o que se exportava legalmente de Angola,
(49) e a partir desse ano [a Coroa terá tentado canalizar o contrabando para as alfândegas porque] aparecem feitorias espanholas e brasileiras no interior de Luanda e a norte e sul do r. Cuanza. Mucari tornou-se muito concorrida após o acordo com o mwata Iânvua, e teve director nomeado em 1827: c. 1840 havia ali mais de 1.500 moradores, incluindo alguns brancos, enquanto que em Ambaca se registava mais de metade do gado e uns 75% da escravaria da província, formando esta mais de metade da população; em redor deste presídio «a maioria [dos sobas, mas não dando referências] já não exercia, na prática, qualquer autonomia nos assuntos internos dos seus sobados».




32. Largas margens de variação.
33. A crítica subentendida é inesperada, já que se dirige a um censo – cujo objecto, presume-se, seria precisamente o levantamento das diferentes componentes da população, com interesse administrativo.
34. Na verdade os termos eram correntes no Português em geral, e não só na ‘colónia’ – que ainda nem existia; o segundo corre ainda hoje e é de origem francesa.
35. Segundo o mito tão português da ‘árvore das patacas’ (nas áfricas ficava-se rico!).
36. Afirmação a priori, já que Dias não dá números de ‘degredados’, nem percentagens dos que já haviam cumprido pena e se empregavam legalmente nas actividades disponíveis na província; Dias refere o exaltado Avelino Dias, A.H.U. CG, cx. de 1823. (Os historiadores australianos não sofrem destes pruridos quanto à contribuição dos seus antepassados).
37. Os melhores comandantes militares fazem guerras contra alvos definidos, e quanto mais pequenos melhor – por exemplo um “soba alevantado” – e nunca contra “sociedades” inteiras: outra afirmação emocional. 38. Câmara dos Deputados – Ofício n.º 404 de 03.06.1856, A.H.U., Angola CG, cx. 23; GG - Ofício n.º 97 de 23.07.1863, ibid, cx. 26 e Ofício n.º 38 de 02.10.1863, cx. 32.
38. Este extenso libelo não se apoia em referências a quaisquer investigações sobre o assunto, e deve considerar-se também, portanto, um lugar comum a priori.
39. GG – Ofício n.º 93A de 04.06.1860, A.H.U. Angola cx. 26.
40. In G. Tams – Visita ás possessões portuguesas na Costa Ocidental de África, Porto 1850, vol. I, p. 215.
41. Médico italiano, degredado político em Angola, que exercia as funções de almoxarife provincial na década de 1820; o quarto e último esposo de D. Ana foi o major de 1.ª linha Luís António de Miranda, comandante do batalhão de Luanda.
42. O domínio do quimbundo como causa do sincretismo? 14. Dias, J. R. – A sociedade colonial de Angola e o liberalismo português (c. 1820-1850) in ‘O Liberalismo na Península Ibérica na Primeira Metade do Século XIX’, Centro de Estudos de História Contemporânea Portuguesa, Lisboa 1981, vol II, p. 271.
43. O que enfraquece o argumento de que aquela maioria fosse, com certeza, “esmagadora”.
44. M.A. Fernandes de Oliveira – Alguns Aspectos da Administração de Angola, 1834-1851, Lisboa 1982.
45. A ideia já ocorrera a D. João II no início da colonização do arquipélago de S. Tomé e Príncipe: não se trataria de “política” mas de senso comum.
46. Se os postos tinham sido preenchidos por questão de “política” – i. é, necessidade – não seria “privilégio” ocupá-los.
47. D. Miguel António de Melo – Relatório de 25.08.1802, B.S.G.L. ser. 5, n.º 9, p. 562.
48. Referências? Sobre a opinião dos residentes portugueses relativa à africanização do meio, vide o Relatório do Governador Nicolau de Abreu Castelo Branco de 04.09.1824, A.H.U. Angola cx. 145, doc. 74, e o Relatório do barão de S.ta Comba Dão de 11.10.1830, ibid, cx. 166, doc. 33.
49. Roger Anstey – The Atlantic Slave Trade and British Abolition, 1760-1810, Londres 1975, pp.58-70; P. D. Cunin – The Atlantic Slave Trade, a Census, Madison 1969

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Rosa Cruz e Silva: Tchitundo-hulo para património mundial

No dia em que se abriram as actividades para o Março Mulher, ontem, fomos falar com a ministra da Cultura, Rosa Cruz e Silva.

Falamos sobre a condição da mulher, sobre o seu pelouro e sobre o CAN, um espaço em que sobreveio a sua qualidade de historiadora vincada nas apresentações de abertura e de encerramento do campeonato e que recentrou os angolanos, orgulhosos, no seu espaço de território e de cultura. Mas falamos também de cinema, de carnaval e de gravuras rupestres.
Estou perante a Sra. ministra da Cultura que é mulher, historiadora e governante. Nestas condições, e olhando para o papel histórico da mulher angolana, tivemos uma fase em que o seu papel foi socialmente mais reduzido, depois esteve a par com o homem na luta de libertação nacional, mas agora, numa fase de desenvolvimento e crescimento, temos que a mulher chega aos lugares de poder também pela via da percentagem representativa por quota. Acha que essa ascensão é uma âncora necessária, ou o caminho natural …
Penso que é um caminho natural feito pela mulher. Disse que teriam antes tido um papel restrito, eu não o qualificaria assim, mas circunscrito às condições históricas do início da formação das sociedades, da nossa sociedade, neste território … há um papel da mulher, de facto, não só na família mas também na divisão social do trabalho, a mulher tem um papel importante na agricultura que depois da sedentarização foi a base do sustento das primeiras sociedades que depois foram evoluindo. Mas no caso de Angola temos registos de mulheres que se destacaram não só no âmbito agrícola mas também no fórum político, vou lembrar figuras que desempenharam um papel importante para a transformação das sociedades …

Vai falar-me da Rainha Ginga ….
Ia falar de duas mulheres, Ginga MBandi e Kimpa Vita. Ginga MBandi, política, sim … ela tornou-se numa embaixadora do reino do NDongo, por força das circunstâncias políticas que o reino vivia, o Estado estava a ser invadido pelas tropas portuguesas e o rei recorreu a uma mulher para negociar com as autoridades portuguesas. Ela desempenhou o papel em duas missões consecutivas, em 1622 e 1623, até que se tornou ela própria a soberana, a senhora do reino, como ela se intitulava. E teve um papel político importante. E mais tarde poderia falar-lhe de Kimpa Vita que, por força também das circunstâncias políticas do Estado do Congo, liderou um movimento de contestação religioso …

Temos que enquanto a rainha Ginga se converteu ao cristianismo, fazendo-se baptizar, a Kimpa procurou reformar o cristianismo no seu espaço …
Atenção. Ginga MBandi converteu-se ao cristianismo a dois momentos, o primeiro foi pelas circunstâncias, não por adesão imediata como muitas vezes se diz, foi uma estratégia, dela e do soberano. Ou seja, ela cumpriu instruções do soberano do NDongo. Mas num outro momento da vida dela, já a caminho da morte sim, aí se encontra uma Ginga MBandi convertida ao cristianismo.

Mas Kimpa Vita propôs reformas ao cristianismo …
Sim propôs. Mas para falar de Kimpa Vita vale a pena falar também de outras mulheres anónimas mas que participaram no movimento que transformou o processo de passagem de conhecimento no Congo, que era feito pelas vias tradicionais mas que, depois, com a chegada dos portugueses e com a apropriação do sistema português, criaram-se escolas no Congo, e muitas e … reclamava um missionário que tinha estado no Congo e tinha voltado para a Europa e, numa segunda viagem, ficou espantado porque havia muitas escolas no Congo e elas eram dirigidas por mulheres. Isso significa que da actividade agrícola, da organização da família, elas aderem a um novo sistema de transmissão do conhecimento. As pessoas até se questionavam por o rei do Congo saber ler a bíblia, se ele reportava os ensinamentos da bíblia na correspondência que foi tendo … todos os reis do Congo aderiram e mantiveram a correspondência escrita que se tornou num instrumento não apenas para a administração mas também para as relações internacionais…

Isso faz pensar que haverá um défice no conhecimento do papel da mulher angolana, há poucas heroínas desse tempo, terá havido outras mulheres, outras soberanas de que não se fala …
Não terá havido o registo. Por exemplo, a importância que tiveram essas mulheres que organizaram as escolas no Congo, infelizmente não é tratada na nossa historiografia, e é um dado. Vai sendo abordado e espero que com a profundidade que a temática sugere. Mas há ainda muitas mulheres sobre o papel da mulher ao longo dos vários momentos históricos de Angola. Estávamos nos séc.
XVII e XVIII, mas depois falou-me do papel da mulher na libertação, também aderimos com muita facilidade ao apelo, ao chamamento para a libertação, participamos nas reuniões clandestinas, no movimento literário, nas associações culturais que tinham uma vocação empacotada de política e, naturalmente, ingressamos nas fileiras da luta de libertação, na guerrilha, na direcção política … até a ascensão à independência fomos, paulatinamente, conquistando, daí eu dizer que foi uma trajectória natural e não a tal necessidade apenas de se pôr números. É um direito conquistado, embora não tenha sido fácil, porque algumas limitações conceptuais, do entendimento da organização da sociedade, levaram a que ficássemos muito aquém nessa participação, não é por falta de vontade das mulheres, é porque lhes estava vedado o acesso.
Isso não é exclusivo de Angola, é uma realidade universal, mas que está a ser revista pela dinâmica das sociedades e tendo em conta a força das próprias mulheres.

A figura da zungueira, a mulher que vai aos limites do espaço habitado para ir buscar alimentos, para o sustento … essa é uma figura que não é tão nova em Luanda …
Não, não é tão nova. A venda de produtos no espaço urbano começa no mercado fixo, regular, mas as dificuldades no lar foram-se tornando cada vez mais acentuadas, isso remonta ao século passado, há essa necessidade de deambular. Temos a peixeira, as mulheres que vendiam farinha … isso no século XIX e séc. XX, as que vendiam frutos … depois disso houve a introdução de novos produtos como a roupa e outros artigos da vida doméstica.

Voltando ao século XVII, temos casos de mulheres que também vendiam ou negociavam escravos …
O que digo sobre os séc. XVI e XVII é que a captura de escravos tem um início que passa pelos centros políticos, naquela negociação inicial com os europeus, mas esses centros políticos, tendo em conta as próprias características, rebelam-se … e a captura e venda de escravos passa a ser feita de forma mais coerciva que de mercado natural. As nossas sociedades nos séc. XVI e VXII tinham na base da pirâmide social os escravos mas o escravo era um membro da sociedade a que são retirados alguns direitos, por várias razões, como crimes cometidos, dívidas, enfim … mas esse escravo na nossa sociedade tradicional perde alguns direitos mas tem outros, não fica absolutamente sem direitos nenhuns, de tal forma que na casa do seu senhor, ele pode casar com a filha do seus senhor … é a escravatura que a história chama de doméstica. Mas com a introdução do tráfico essa situação se altera, no espaço do comércio, ou feira, tínhamos o espaço tradicional onde se vendiam os produtos locais e, ao lado, podíamos ter o local onde se vendiam os escravos, as tais pessoas apanhadas na guerra e transformadas em escravos, ou que tinham dívidas, que cometiam crimes, mas na casa do senhor onde ia prestar serviço doméstico, e pode-se comparar o escravo doméstico com o servo da Gleba, o escravo tinha direito a um espaço para poder cultivar para si e para a sua família, é um elemento comparativo, mas ele acabava por ser integrado na família, daí a designação de escravatura doméstica.

Tirando D. Ana Joaquina não há registos de outras mulheres que tivessem participado no tráfico de escravos?
Eu penso que sim. A D. Ana Joaquina, a historiografia deu-lhe um destaque à altura da importância do papel que ela desempenhou na sociedade escravocrata de Luanda, mas há uma lista de outras mulheres que também tinham negócios na altura. É um trabalho ainda a ser feito, porque uma das forma de fugir um pouco a lógica do sistema colonial foi a encontrada pelas chefias africanas que favoreciam o casamento de algumas mulheres das suas famílias com algumas figuras da sociedade portuguesa, nomeadamente militares, etc., e essas mulheres tiveram um papel importante na estrutura económica da sociedade colonial da época. Este estudo ainda não está “muito feito”, existem alguns trabalhos da historiadora Selma Pantoja que estuda as quitandeiras, as mulheres, Luanda e o seu interland, onde encontramos essas mulheres. É preciso continuar a estudar porque eu penso que Ana Joaquina teve efectivamente um papel importante na economia da época, ela fez parte do grupo de empresários da época mas houve outras mulheres cujos nomes não são tão divulgados mas que merecerão, seguramente, o tratamento dos historiadores.

E o trabalho dos historiadores, de pesquisa, investigação, cabe no Fundo de Apoio a Cultura, ou merece outro tratamento orçamental?
Naturalmente que a cultura tem um papel importante junto das instituições que o ministério tutela, as instituições de investigação, os museus, os institutos de pesquisa, seja as línguas, sejam as questões religiosas, nas indústrias culturais, no arquivo nacional, etc., mas eu penso que é necessário estabelecer um vínculo muito forte com as universidade, e temos de reconhecer que há um défice nesse intercâmbio que deve existir. Dá quase a sensação de que a responsabilidade da investigação fica apenas para o ministério da Cultura. Lembremonos que na sociedade colonial existiu um Instituto de Investigação Científica com vários ramos e onde a área das ciências sociais se destacou. A maior parte dos trabalhos sobre antropologia, etnologia e história, embora quase todos na perspectiva colonial, foram feitos dentro desse instituto ou dentro de alguns museus, nomeadamente o Museu do Dundo que foi um laboratório de investigação científica de especialistas vindos de diversas partes do mundo, da Alemanha, Hungria, Portugal …

E agora temos peças do Museu do Dundo em diversas partes do mundo …
Exactamente, não só resultante das nossas debilidades de conservação, preservação, mas do período dessa mesma investigação. Há material resultante dessa investigação que está na Alemanha. Nós temos um acordo, chamemos assim, com uma historiadora alemã que recebeu o legado de um dos grandes investigadores alemães que esteve aqui no Museu do Dundo, a professora Beatriz Heinz, ela foi aluna do professor Mabaun que produziu muitos trabalhos sobre os povos da região leste de Angola e ela tem estado a publicar estes trabalhos.
Tem estado a publicar fontes de exploradores alemães que estiveram em Angola. Mas eu dizia que esse instituto de investigação produziu muito material na perspectiva colonial, mas que serão fontes de pesquisa para os trabalhos actuais, sobretudo para aquilo que tem que ser a revisão da perspectiva.
Há bocado falamos da rainha Ginga e da Kimpa Vita, claro que nesses estudos a perspectiva colonial nem sempre dava o tratamento científico, na verdadeira acepção da palavra, da figura da rainha Ginga. Claro que reconheciam a sua capacidade de dirigente, reconheciam a sua inteligência, as virtudes, mas, numa palavra, essa historiografia tratou-a como uma bárbara que até comia pessoas, era antropofágica, e outros nomes que lhe deram. Isso tinha a ver com o olhar preconceituoso desses especialistas, agora compete-nos a nós revisitar essas fontes e produzir novos estudos, até porque temos novos instrumentos metodológicos mais elaborados, mais eficazes, para reconstituir os momentos, as acções, as realizações dessas figuras importantes da história.

Se tivéssemos partido de um olhar colonial na apresentação feita na abertura do CAN, em vez de pessoas e hábitos humanos teríamos tido coisa como “tipo mumuíla”, para representar as pessoas, uma espécie de apresentação peças não humanas …
Seriam peças mais museológicas do que peças que resultam de acções porque, na perspectiva colonial, essas sociedades eram, muitas vezes, tão arcaicas, tão primitivas, que não se lhes reconhecia a capacidades das realizações que efectivamente tiveram.
Por isso dizia que compete a nós, os especialistas angolanos, os verdadeiros investigadores e cientistas, porque os há, enquanto aqui se publicavam coisas nessa perspectiva, nos laboratórios de ciências sociais de outros países tínhamos outros investigadores a trabalhar seriamente. Por isso é que quando realizamos o Encontro Internacional de História de Angola temos tido a oportunidade de convidar especialistas americanos como o prof.
John Thornton, o prof. Joseph Neel, o prof. Jean Ganzina, alguns professores portugueses como a prof. Maria Emília, Isabel Castro Henrique, o prof.
Alfredo Margarido, que não o tivemos por problemas de saúde, mas Jean Jacques Veneau … que são especialistas que perseguem as realizações dos angolanos desses períodos mais antigos …

Estava à espera que a apresentação no CAN fosse tão bem recebida pelos angolanos?
Não criei muitas expectativas em relação à reacção das pessoas porque a preparação não teve o tempo que nós pretendíamos. Tenho que reconhecer que estávamos um bocado receosos, não pelos conteúdos mas pela capacidade de representação … o problema era sobretudo do ponto de vista estético, não era dos conteúdos que acreditávamos que os angolanos se iriam reconhecer neles.

A reacção não foi como se os angolanos se tivessem esquecido de si próprios e de repente, afinal ….
Não sei, acho que a reacção foi de bastante deslumbre pela luz, pela cor, mas sobretudo porque o que estava ser reflectido naquela luz eram conteúdos que lhes diziam respeito. É a identificação com os actos que aquelas pessoas estavam aí a representar.

Sobre os museus, temo-los pouco atractivos, ou temos cidadãos pouco virados para a história …
ou a própria vida das cidades não dá espaço para a visita ao museu? Penso que eles não deixam de ser atractivos, os conteúdos são atractivos, mas precisam de ser melhorados e, sobretudo, os técnicos dos nossos museus precisam de mais formação especializada. Quem tem as peças num museu tem de ser capaz de transformar essas peças num apelo a qualquer cidadão, seja ele nacional ou estrangeiro. É preciso ter conhecimento, é preciso saber qual é o significado do acervo, o significado das exposições que montamos, como é que levamos a mensagem do museu para o público, para o atrair, para o informar, etc., há efectivamente um défice desta natureza nos nossos museus e na maior parte das nossas instituições culturais que queremos ir resolvendo.
O ministério concebeu um projecto de formação generalizada para todos os nossos órgãos, nos serviços centrais e nas províncias, numa parceria com a UNESCO. No caso dos museus teremos formações dadas por especialistas em cursos de média e longa duração.
Pretendemos trabalhar com o ensino superior de modo a que consigamos abrir cursos da área da cultura nas nossas universidades porque o pessoal das nossas instituições resulta da formação no exterior, alguns não voltam, e as poucas que voltam, até por razões salariais e outras condições não ficam connosco … nós queremos inverter este quadro num programa de formação direccionado para a formação in situ e fazendo recurso às universidades. Se tivéssemos muitos museólogos esses formariam outros e os técnicos dos museus e isso tornaria mais fácil transformar os museus numa atracção duradoira …

Não está já na hora de se fazer um apelo aos empresários …
A primeira responsabilidade é do Estado, temos de trabalhar mais para conseguir isso… as prioridades ainda não estiveram propriamente voltadas para os museus, mas a perspectiva da política do governo vai neste sentido, temos de preservar os acervos valiosíssimos que temos nos nossos museus e dá-lo a conhecer. Gradualmente chegaremos aos recursos para garantir a preservação do acervo e os apoios que vieram das empresas ou outras instituições serão para os projectos de divulgação e tratamento do acervo.
Estamos agora a espera do parecer da Lei do Mecenato pelo ministério das Finanças, por ser uma lei que tem a ver com os impostos, etc., mas penso que a breve trecho lá chegaremos …

Falar do mecenato é falar de dinheiro, mas falar de dinheiro na cultura é também falar do turismo cultural, que pode gerar muito dinheiro. Não há incentivo a isso, quem está no Menongue, sobre Luanda ouve falar das praias, das discotecas, de uma ou outra praça, mas e os espaços de cultura?
Como em várias áreas, tivemos dificuldades no turismo, que praticamente não se fazia sentir, por razões óbvias. Terá havido um turismo interno de pessoas arrojadas que não querendo ficar na capital iam de avião a esta ou aquela província … mas isso nem era turismo, era mais um desfrute para ir observar, conhecer determinadas regiões do país. Mas agora, com Angola em paz, sendo possível andar de carro de província para província, e tendo em conta as grandes potencialidades do nosso país nesse domínio, temos de fazer um grande programa para incentivar o turismo cultural. Estamos a fazer projectos nesta perspectiva e acho que este ano ainda anunciaremos algumas novidades, estamos a trabalhar com o ministério do Comércio, através da a Secretaria de Estado do Turismo, para que possam receber de nós alguns produtos que se anunciarão para os pacotes turísticos.
Existem já algumas empresas que já começaram no ecoturismo, levando as pessoas a observar paisagens e até sítios e monumentos históricos, mas nem sempre há o conhecimento adequado para anunciar e divulgar a importância dos locais.
E se formos ver a Welwitchia … A Welwítchia, antes de ter esta designação tinha numa das populações locais que era Tómbwa, ou Tomba, e assim foi registada cientificamente. O primeiro registo do especialista que a encontrou, o Welwitchie, chamou-lhe Tómbw Angolensis, é assim que está registada, mas depois os cientistas decidiram que tinham de fazer uma homenagem ao homem que descobriu uma coisa tão rara no mundo e então ela passou a chamar-se Welwitchia Mirabilis. Muitas pessoas não sabem porquê que o município do Tómbwa tem essa designação, é porque foi lá onde o Welwitchie encontrou pela primeira vez a planta rara. Isto é um dado que deve ser explicado, e que se chama Tombwa porque a planta deita uma espécie de líquido, ou resina que as populações locais usavam para fazer fogo, uma espécie de combustível, isso também é um conhecimento que não é generalizado. Isto também serve para o pacote turístico, este conjunto de informações relacionadas com a história da própria planta, da descoberta de outro mundo, porque as populações nhaneka que ocupavam aquele território …

Mas indo ao Namibe ver a Tombwa, lá passaremos pelas pinturas rupestres do tchitundo-hulo …
Exactamente, vamos passar pelas gravuras …

Que foram ou não destruídas?
Não. De facto elas não estão bem, e não estão bem há muito tempo

Há forma de as conservar?
Por isso é que as queremos inscrever na lista do património mundial, para partilharmos esta responsabilidade com o mundo, tendo em conta o valor, a excepcionalidade que aqueles registos históricos têm. A problemática das pinturas e gravuras rupestres é mundial, na sua preservação. Estou a lembrar-me da luta que os franceses tiveram para preservar uma grande pintura rupestre que é Làscaux, que também se deteriorou com o tempo e estavam a apagar-se os registos. Os arqueólogos franceses, de facto especialistas muito especiais, propuseram ao governo a transformação daquilo quase num laboratório para preservar um elemento importante da história do país. Esta questão das gravuras é universal, a céu aberto é muito complicado garantir a preservação dos rigores do clima. Quanto a nós, acho que é possível limitar o lugar e evitar que qualquer pessoa que por aí passe faça o que bem lhe apetecer. Mas para já temos de fazer um registo exaustivo do que ainda existe de gravura, e são as gravuras que estão em perigo, por que as pinturas dentro da caverna estão protegidas por si, digamos, mas as gravuras têm de ser filmadas, fotografadas para estudarmos os conteúdos.
Não sabemos interpretar ainda as mensagens que estão aí… houve tentativas de arqueólogos que por lá passaram, nas pesquisas que efectuaram nos anos 60 e até antes, os primeiros registos da existência daquelas pinturas creio que são dos anos 30 do século passado… enfim, é esta ideia que nos levou a considerar a inscrição na lista do património mundial.

Ainda no sul, com todo este património, há um outro, imaterial, importante, embora a responsabilidade se possa partilhar com outros países, que é a língua dos san, uma população e cultura a preservar …
Os san estão em várias partes do nosso país, estão no Cunene, no Moxico, no Kuando Kubango e na Huila … Estamos a falar de uma língua em perigo em Angola? Sim. Não só a língua, o meio de comunicação, mas sobretudo a própria população. Deverão ser desenvolvidas políticas direccionadas àquela população, de modo a que não se violente a sua identidade, porque há uma atracção muito grande para as “bantuizar”, mas que esse processo decorra da sua própria opção. Neste momento existem dificuldades do espaço vital, porque essas comunidades são caçadoras-recolectoras, ora, se o espaço onde eles irão buscar o alimento estiver esgotado que outro recurso terá essa população? É um trabalho a ser feito por especialistas no sentido de lhes garantir um direito que os assiste como angolanos no nosso território.

Conhecemos pouco das suas histórias, das suas mensagens …
Há trabalhos que estudaram aquelas comunidades, tanto no interior de Angola como na Namíbia e na África do Sul, por isso é que quisemos, no CAN, trazer um registo da presença deles como representantes de comunidades que têm como indicativo o de serem os primeiros povoadores da África austral e de Angola. Os registos que temos ditam isso, antes dos bantos existiam os san, com quem os bantos se foram integrando e eles ficaram numa sobrevivência de pequenas bolsas nas províncias que dissemos. Dai que tivéssemos ido buscar um canto san, para que haja essa lembrança de que somos um povo resultante dessa integração e de uma origem que tem essa população como ponto de partida.

Nesta parte do património temos os artistas, os pintores e os escritores …
estamos a escrever pouco quando ainda temos como referências apenas pessoas que o são há 20, 30 anos? Manuel Rui, Pepetela, Luandino Vieira … não estão a despontar com muita força novos nomes. Os músicos vãose multiplicando … É um percurso silencioso, o crescimento literário. Naturalmente que existem nomes com pouca projecção, mas poucos nomes, e isso indica que o nosso ensino precisa de afinar esta parte da capacidade inovadora dos angolanos … CONTINUA... in Grande Entrevista O País Online
http://www.opais.net/pt/opais/?det=10305&id=1647&mid=322

sábado, 1 de maio de 2010

PDF] Limites do ultramar português, possibilidades para Angola: O ...

PDF]

Limites do ultramar português, possibilidades para Angola: O ...O debate politico em torno do problema colonial (1951-1975)  Dissertação de Carolina Barros Tavares Peixoto

Crioulos luandenses e o intensificar do processo colonial: finais do século XIX

A resposta dos «crioulos luandenses» ao intensificar do processo colonial em finais do século XIX(Marcelo Bittencourt)

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Publicado em A frica e a instalao do sistema colonial (c

GUERRA ANGOLA : VIDEO "HERÓICA N'GOLA"

Fronteiras de Angola e a evolução histórica



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Fronteiras de Angola e a evolução histórica
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As primeiras dificuldades surgem em 1846, quando a Inglaterra contestou a soberania de Portugal nos territórios da costa ocidental de África, situados entre os paralelos 5º 12’ e 8º de latitude S., isto é, entre a margem direita do Zaire e o sul do Ambriz. Tal objecção ao direito e ao regular exercício da soberania de Portugal é o que rigorosamente veio a constituir a Questão do Ambriz, e o seu prolongamento, a Questão do Zaire. Para este facto, muito contribuiu o “erro fatal” em que resvalou a diplomacia portuguesa na redacção do texto do tratado de 28 de Julho de 1817 que celebrou com a Inglaterra.
Efectivamente, este tratado, relativo ao regime de excepção no tráfico de escravos (o terceiro após os celebrados a 19 de Fevereiro de 1810 no Rio de Janeiro, e a 22 de Janeiro de 1815 em Viena), propôs-se, ao contrário dos dois primeiros, fixar matematicamente, com uma grande precisão geográfica, os limites fixados àquele regime de excepção, declarando que os territórios em que os súbditos portugueses continuariam a ter liberdade de tráfico, pela única razão (indicada nos tratados de 1810 e 1815), de pertencerem esses territórios à coroa portuguesa, eram:
1º  Todos os efectivamente possuídos por essa coroa entre o paralelo 18º e o 8º lat. S.
2º Aqueles sobre os quais Portugal declarara que reservava os seus direitos, chamados Molembo e Cabinda, na costa oriental de África, desde o paralelo 5º 12’, ao paralelo 8º lat. S.
Esta determinação pretensiosamente definitiva, geográfica, precisa, dos diplomatas de 1817, não podia de facto ter sido mais desastrosa. Em primeiro lugar, porque se lançaram na Costa Oriental os territórios de Molembo e Cabinda. E curiosamente só dois anos depois, esse erro foi corrigido, sob a modesta qualificação de um “erro verbal” - a verbal mistake -, pela convenção adicional de 30 de Abril de 1819. Em segundo lugar, e contrariamente às inofensivas consequências da inexacta localização geográfica de Cabinda, a factura a pagar pela fixação dos paralelos geográficos como limites dos territórios referidos, foi extraordinariamente avultada.
Ao norte, os “domínios de Portugal”, que se estendiam ao Cabo de Lopo Gonçalves, 0º 36’ lat. S., o cabo Lopez da carta Inglesa, que no século XVII a convenção de Madrid de 1786 acabou por acolher no princípio fundamental que lhe deu origem e que teve por fim definir:
“A França não contesta nem pretende diminuir os direitos soberanos de Portugal na costa do norte e no grande rio africano, e nenhum embaraço e nenhuma objecção põe a essa soberania e ao seu exercício”, retraiu-se até ao Chiloango, paralelo 5º 12’. Portugal “perdeu” pois 5º de costa. Assim mesmo, poderia argumentar-se que os tratados anteriores fixavam já a Costa de Molembo como limite extremo. Todavia esses mesmos tratados referiam tão-somente os territórios de Molembo e Cabinda, sendo que este último termina na embocadura do rio Zaire, na ponta do Diabo (a red point das cartas inglesas, em 5º 44’S.), ou quando muito na ponta Banana, em 6º 2’., e a aludida convenção absurdamente situava esse mesmo limite a 8º S. além mesmo do Ambriz, alargando assim a área dos territórios sobre os quais Portugal “reservava direitos” ou, o que é o mesmo, reduzindo aqueles que eram positivamente reconhecidos “domínios efectivos” da coroa portuguesa, cerceando-lhes nem mais nem menos do que toda a região compreendida entre o paralelo 8º e a margem direita do rio, incluindo-o.
Se este erro se não tivesse cometido, nunca se teria levantado a famosa Questão do Ambriz e, possivelmente, tão pouco a que se lhe seguiu, a não menos célebre Questão do Zaire.
Os direitos reservados continuariam a abranger apenas os territórios de Molembo e Cabinda. Para o sul, incluindo o rio, haveria somente o “domínio efectivo”, claramente afirmado e nunca posto em dúvida, de Portugal, à face dos tratados de 1810 e de 1815, e perfeitamente de acordo com a convenção de Madrid de 1786.
Apesar de tudo, só em 1846 se verificaram as consequências do pouco auspicioso tratado de 1817. Nesse ano, e a propósito da apreensão e do julgamento regular de um navio negreiro do Brasil, ao norte do Ambriz, pelas autoridades portuguesas, o representante inglês em Lisboa observava ao Governo português que o seu governo apenas reconhecia a soberania portuguesa, do paralelo 8º para o sul, segundo o texto do tratado de 1817, começando dali para o norte, a região, sobre a qual Portugal reservara direitos, mas que a Inglaterra, na opinião do diplomata inglês, não reconhecia. A nota do representante inglês em Lisboa, data de 24 de Novembro de 1846.
Dias depois, na sequência do julgamento por um Tribunal português, de um navio português apresado pelas autoridades portuguesas, na latitude de 7º 36´sul, outra nota do Governo inglês, desta feita do próprio Lorde Palmerston, ratifica e reproduz a doutrina da primeira, comunicando o receio de alguns membros da comissão mista luso-britânica (criada pelo tratado de 3 de Julho de 1842 entre Portugal e a Grã-Bretanha, para julgar as presas feitas por crime de tráfico) (1), de que Portugal fizesse valer (forced) os seus direitos de soberania entre o 5º 12´ e o 8ºS., prejudicando os traficantes ingleses que negociavam livremente naquela parte da Costa.
Paradoxalmente, porém, Lorde Palmerston afirmava expressamente nesse documento que, por um lado, Molembo era o território extremo setentrional da soberania reservada de Portugal não reconhecida efectivamente (actually) pela Inglaterra, e que o Ambriz era o ponto extremo daquele lado do território sobre o qual a Inglaterra reconhecia essa soberania. O paradoxo resulta precisamente do facto de que, ficando o Ambriz a 7º 52’, isto é, ao norte do paralelo 8º, aquele reconhecimento colidia com tais limitações fixadas pelo tratado de 1817, irrelevando as correspondentes alegações inglesas.
Curiosamente, a 9 de Novembro de 1850, o Embaixador inglês em Lisboa dignou-se explicar ao Governo português que Lorde Palmerston apenas em 1847 soubera realmente, pelos comissários britânicos de Luanda, que o Ambriz ficava ao norte do paralelo 8º. Surpreendente de facto!
A estranheza dessa justificação é tanto maior quanto se sabe que à data abundavam já os mapas ingleses, alguns até oficiais, que determinavam a posição exacta do Ambriz. De qualquer forma, ainda que reconhecendo o equívoco, o Governo inglês não abriu mão da contestação ao direito português de ocupação do Ambriz, arguindo que um erro geográfico não prevaleceria sobre o texto e a interpretação dos tratados.
Acresce a esta sequência de controvérsias a nota de 26 de Novembro de 1853, que, repetindo as declarações anteriores, vem aduzir que é certo que “Portugal adquiriu no século XV” o direito à soberania da região compreendida entre o 5º 12’e o 8ºS., mas que esse direito se acha prejudicado pelo abandono, “suffered to lapse”, porque não ocupara (2).
O governo português, em reacção, e verificando que efectivamente não havia nesse lugar autoridades permanentes que afirmassem a sua soberania e se opusessem ao tráfico (limitando-se a polícia às visitas de cruzadores), resolveu pôr termo à Questão do Ambriz, mediante a sua ocupação efectiva por uma expedição militar chefiada por José Baptista de Andrade, em 6 de Junho de 1855, ocupação projectada de há muito e terminantemente ordenada pelo Governo português em 20 de Janeiro daquele mesmo ano. Resolvida a ocupação, Portugal resolveu ao mesmo tempo mantê-la, fossem quais fossem as consequências. E manteve-a.
O fundamento dos direitos portugueses assentava: 1º na prioridade do descobrimento; 2º na posse conservada durante séculos; 3º na introdução da civilização pelo cristianismo; 4º na conquista pelas armas; 5º no reconhecimento do seu domínio pelos indígenas (3).
Desde que o Governo inglês, pela nota de 26 de Novembro de 1853, insinuou que Portugal “havia deixado cair o direito que pela prioridade da descoberta tinha a essa parte da costa porque a não havia ocupado”, o Governo português resolveu “...fazer uma ocupação efectiva que permitisse acabar com o tráfico da escravatura, proteger e promover o comércio lícito e exercer o seu direito de soberania” (4).
Todavia a Inglaterra não desarmou e opôs-se tenazmente a que Portugal estendesse a ocupação para o norte, como era seu propósito nessa data. Ameaçando o uso da força, dirigiu deste modo em 1860, a nota seguinte ao Embaixador de Portugal em Londres: “Qualquer tentativa para estender a ocupação encontrará a oposição das forças navais inglesas. Neste sentido foram dadas, em tempo, instruções aos comandantes dos cruzadores ingleses da costa ocidental de África. As autoridades portuguesas de Ambriz e Angola foram por mais de uma vez, desde 1855, informadas destas instruções.
Estas instruções continuam em vigor e qualquer interferência dos navios de guerra ou autoridades portuguesas para impedir o comércio de navios ou súbditos britânicos em Quissembo encontrará a oposição das forças navais inglesas”. Perante a ameaça inglesa, Portugal teve de submeter-se e para evitar que o conflito se agravasse, desistiu da ocupação de Cabinda, tentada em 1875 (5), limitando-se a, periodicamente, lembrar o fundamento dos seus direitos e propor uma solução do caso em aberto (6).

Filme sa Guerra em Angola: «Adeus até ao meu regresso»

Documentário de Paulo César Fajardo, baseado em depoimentos de ex-combatentes da Guerra do Ultramar (2007)(2ª Parte). - 2008 - SELECÇÃO OFICIAL: Le Cinema Portugais du 21e Sicle - Centre Culturel Calouste Gulbenkien
Documentário de Paulo César Fajardo, baseado em depoimentos de ex-combatentes da Guerra do Ultramar (2007) (2ª Parte). - 2008 - SELECÇÃO OFICIAL: Le Cinema Portugais du 21e Sicle - Centre Culturel Calouste Gulbenkian

sexta-feira, 30 de abril de 2010

A Partilha de África

Na busca por espaços, ocorreram diversos embates colonialistas entre as grandes potências como forma de se manterem mais competitivas e se auto- projetarem, elas terminaram por estabelecer pactos entre si e
assim se formou a “Tríplice Aliança” (1882). Esta foi uma união militar entre a Alemanha, a Áustria-Hungria e a Itália. Esse acordo realizado no século XIX já era o prenúncio do clima de hostilidade, gerado pela busca e
controle de mercado, que marcaria a I Grande Guerra.Todavia no século anterior ao primeiro grande conflito mundial, ainda havia margens para negociação, pois existiam áreas a serem conquistadas, que poderiam evitar, pelo menos no momento, um embate entre as grandes potências em suas ações por novos mercados. 
O mundo em geral e a África em particular tornaram-se vítimas do imperialismo europeu. Segundo o reverendo Müller:

Por exemplo, as seguintes palavras do reverendo padre Müller, transcritas por um católico defensor do
imperialismo francês. J.Folliet, doutor em filosofia tomista:

 
“A humanidade não deve, nem pode aceitar mais que a incapacidade, a negligência, a preguiça dos povos selvagens deixem indefinidamente sem emprego as riquezas que Deus lhes confiou, com a missão de utilizálas para o bem de todos. Se forem encontrados territórios mal-administrados por seus proprietários, é direito das sociedades – prejudicadas por esta administração defeituosa – tomar o lugar destes administradores incapazes e explorar, em benefício de todos, os bens dos quais eles não sabem tirar partido.”

in  
A partilha da África e a resistência africana
Jorge Euzébio Assumpção
 
 

quinta-feira, 22 de abril de 2010

MULHERES ANGOLANAS HISTÓRICAS (6):Elizabete Jambeca


Elizabete Jambeca
O Cuanhama, como o geral dos territórios para além do Cunene, era absolutamente desconhecido dos europeus antes da segunda metade do século XIX ou, pelo menos, não se conhecem registos dessas paragens austrais, anteriores aquela época. Quando Lopes de Lima publica a sua “Monografia de Angola”, em 1844, os conhecimentos sobre as terras do Sul não passavam além do Humbe.
Só em 1850, os funantes Bernardino J. Brochado e A. F. Nogueira, [Vendedores ambulantes que transportavam a mais variada mercadoria em carros de bois e, por conta própria ou como comissionistas, percorriam os sertões de povoação em povoação, fazendo o seu negócio.] fazem as primeiras visitas documentadas de europeus ao Cuanhama, no tempo do soba Nahmadi, e dão as primeiras notícias sobre os povos Ambós, guerreiros de alguma crueldade – Cuamatos, Evales, Dombondolas, Cafimas e os mais numerosos e temidos a que chamavam Cuanhamas. Segundo o Padre Keiling, em “Quarenta Anos de África”, toda a Ovambolândia fazia parte de um grande lago, do qual nos restou apenas o temporário Etosha, na Namíbia. Depois de seco este grande lago, ficou em seu lugar uma vasta e ligeira depressão de terras salgadas, alagadiças na época das chuvas, para onde convergiram em grande profusão muitas espécies herbívoras, atrás das quais vieram os caçadores que exclamavam: tuende ko nhama – “vamos à carne”, donde, o nome Cuanhama.
A bibliografia internacional costuma atribuir estes primeiros relatos sobre o território e as gentes do sudoeste de Angola a L. Magyar, oficial da marinha austro-húngara, que em finais da década de oitenta passou pela região em viagem de exploração, mas o facto é que o austríaco foi hospede dos dois negociantes portugueses que entretanto, um e outro, tinham fixado residência no Humbe em localizações distintas.
Mas esta apetência pelos largos espaços bordejados de espinheiras e ponteados de acácias e mutiatis, só veio mesmo a colocar-se quanto já decorriam tímidas tentativas de instalação de uma feitoria na Huíla e aportavam a Moçâmedes os primeiros luso-brasileiros vindos da cidade do Recife, Pernambuco. Foi por essa época que, como coisa tenebrosa, surgiu o nome do Cuanhama, o nome de um povo que conseguia colocar mais de vinte mil homens em armas, um exército com quadros e guerreiros altamente treinados e hierarquizados, com que os europeus teriam que se haver se quisessem penetrar aqueles sertões. Povo combativo, com hegemonia sobre os seus vizinhos, exibiam a organização militar mais perfeita de todas as muitas etnias de Angola.
A unidade táctica dos Cuanhamas era a etanga, que agrupava cem homens. Seis etangas juntas constituíam uma guerra , comandada por um lenga, chefe militar e conselheiro do soberano em tempo de paz. Um conjunto de guerras formava uma ohita, que funcionava como que um corpo de exército, viajando sob a protecção do ondiai, homem de virtudes e de magias poderosas. Os seus chefes militares combatiam a cavalo, comandando incursões por todo o Cunene, numa zona tão vasta que abrangia o Humbe, os Gambos, Jau, Chela, Mulongo e Capelongo, chegando mesmo em 1899, durante o reinado de Weyulu, a estender as suas razias até Quipungo e Caconda. Estas hostes regressam aos eumbos, quase sempre, em marchas triunfais e carregando fartos espólios de escravos, gado e mulheres.
(...) A Nahmadi sucedeu Weyulu ya Hedimbi e foi durante o reinado deste grande chefe que nasce, num eumbo perto de Naulila e de uma das famílias da nobreza tradicional, Elizabete Jambeca.
A Weyulu sucedeu Nande, e a este sucedeu Mandune Ndemufayo , senhor dos Cuanhamas, soba dos sobas, hamba de N'Giva, cruel e inteligente, guerreiro bárbaro e corajoso, chefe supremo da Nação Ovambo.
(...) Entretanto, em função das deliberações emanadas da Conferência de Berlim e da indefinição da fronteira Sul que divide Angola do Sudoeste Africano, a Namíbia dos actuais mapas, os Alemães exerciam forte pressão sobre o território dos Ambós, que começavam a fartar-se de serem tratados como intrusos na terra dos seus ancestrais. As posições radicalizaram-se quando os germânicos decidiram instalar as suas hortas em Okahandja, a sudoeste de Omaruru, exactamente onde repousavam, à sombra de frondosas árvores sagradas, os restos mortais dos antigos chefes. Foi então decidida a luta e um ataque cirúrgico aos Alemães, com instruções precisas para que fossem feitas baixas entre os homens, deixando de fora da peleja as mulheres e as crianças, tendo sido colhidos por esta explosão de ódio, cento e vinte e três alemães.
(...) A retaliação não se fez esperar e os germânicos, comandados pelo general Lothar von Trotha, apresentaram-se em força no território, apetrechados de modernas espingardas, metralhadoras e dos terríveis e inovadores canhões Krupp de tiro rápido. Apostados em eliminar qualquer hipótese de futura rebelião, promoveram a razia dos eumbos [povoações de uma família e aparentados], perseguiram fugitivos, mataram e incendiaram tudo à sua passagem e, no fim do pesadelo, von Trotha vangloriava-se de que haviam abatido sessenta e cinco mil “ gentios ”.
Estes incidentes causaram ódios duradouros e indiscriminados contra os invasores europeus, tidos no seu conjunto como uma só etnia antagónica, independentemente de serem eles Portugueses, Alemães, Ingleses ou Bóeres, e foi nesta onda de ânimos incendiados que dois funantes foram assassinados, causando grande consternação e muitos protestos entre a comunidade portuguesa. Logo se levantaram exaltados clamores de vingança contra os Cuanhamas e os seus malditos hábitos de rapina, numa precipitada análise e absoluta falta de conhecimento concreto dos factos ocorridos, pois a responsabilidade daquelas mortes era dos Cuamato.
Contra a corrente de indignação geral dos seus compatriotas, é ainda Gomes da Costa, ainda chefe do conselho do Humbe, que apresenta uma versão muito despachada e pitoresca dos acontecimentos, bem na linha do seu temperamento e capacidade de análise das ocorrências. No que respeita a um dos casos, relata para ao governador de Moçâmedes o seguinte: “ É facto que houve há tempos o assassínio dum branco, mas nem foi no Cuanhama, nem para o roubar; este negociante, não se reputando satisfeito com o gado que os pretos lhe deram em troca das fazendas vendidas, foi-se ao curral do chefe da povoação e tentou tirar de lá o gado que lhe pareceu; os pretos, irritados, saltaram-lhe em cima e mataram-no (...). O que os pretos neste caso fizeram ao branco faria qualquer saloio dos arredores de Lisboa em idênticas circunstâncias, e ainda ninguém por isso se lembrou de declarar guerra ao soba da Porcalhota ou ao lenga de Loures.
Por altura destes acontecimentos, e totalmente alheia a estas indacas [questões, conflitos, “ makas ”]papas de farinha de milho, massango ou massambala (noutras regiões denominada pirão ou, se de farinha de mandioca, pirão)], a vida de Elizabete Jambeca corria simples e plena de felicidade. Cumprindo as obrigações inerentes a uma criança no início da adolescência, depois de comido o matete [matinal, deixava a embala na companhia da sua mãe e tias a caminho do arimo familiar [lavra ou horta de milho, massango ( Pennisetum spicatum ) e/ou massambala ( Andropogos sorghum ), feijão frade ( Vigna unguiculata ), batata doce também conhecida por cará ( Ipomea batatas ), mandioca ( Monihot utilissima ), abóboras, amendoim ( Arachis hypogea ) e outras culturas de auto-subsistência alimentar] Falava o seu dialecto e inglês.
Elizabete Jambeca continuou a viver na sua embala, no Cuanhama. Quando os seus dias chegaram ao fim, os seus parentes cuanhamas pretenderam realizar o seu funeral seguindo os ritos do seu povo.
O ritual funerário dos Cuanhamas tem o envolvimento de seitas secretas na sua gestão: tudo é realizado num secretismo absoluto e participam somente homens: quimbandas (m.q. médicos), feiticeiros e mágicos e ainda elementos da própria corte do defunto. É sacrificado um boi soba, de cor branca, considerado sagrado. Duas crianças eram enterradas vivas, uma de cada lado do soberano. No caso de Elizabete Jambeca, soberana. (Posteriormente, adoptou-se o costume de, em vez das crianças, se sacrificarem dois escravos, elementos de outra tribo, capturados em combate, e escolhidos para esse efeito.)

O soberano é envolto na pele do boi, ainda ensanguentada, na posição sentado, virado para Nascente, como se se mantivesse no seu trono, perpetuando a reinação! (Esta palavra tem duas vertentes: a política e a circense. Dentro dos contornos da própria negritude, tocam-se e completam-se.) As duas crianças ou os dois escravos iluminam o caminho... a promessa de renascer todos os dias!
A sua filha, porém, não concordou que se sacrificassem as crianças e contactou as autoridades portuguesas. Consequentemente, o seu funeral realizou-se segundo os costumes portugueses e teve honras militares. Elizabete Jambeca foi sepultada com a espada e Grande Cruz de Guerra que lhe tinha sido concedida pelo governo português, pelos serviços prestados na campanha do Sul de Angola.
No dia seguinte, porém, as duas crianças apareceram afogadas, num pequeno charco de água... Dizia-se que, afinal, elas não poderiam ter sobrevivido porque o seu destino já tinha sido traçado...
Uma bela história, dirão uns... estranha, pelos seus ritos, dirão outros... não tão estranha se nos recordarmos de costumes idênticos de outros povos, os do Egipto, por exemplo...
Num ponto, todavia, todos concordaremos: Elizabete Jambeca é indubitavelmente uma figura de Angola. Ela lutou e contribuiu para que as fronteiras do seu país se mantivessem intactas.
FONTE:
http://www.carlosduarte.ecn.br/mulheresdeangola.htm

sábado, 10 de abril de 2010

Breve História de Angola . 1900-1960

Breve História de Angola  . 1900-1960


Angola era povoada pelo menos desde o século V a.C., embora existam achados arqueológicos de ocupações muito anteriores.
Os portugueses, sob o comando de Diogo Cão, no reinado de D. João II, chegam ao Zaire em 1484. É a partir daqui que se iniciará a conquista pelos portugueses desta região de Africa, incluindo Angola. O primeiro passo foi estabelecer uma aliança com o reino do Congo, que dominava toda a região. A sul deste reino existiam dois outros, o de Ndongo e o de Matamba, os quais não tardam a fundir-se, para dar origem ao reino de Angola (c.1559) . 
Explorando as rivalidades e conflitos entre estes reinos, na segunda metade do século XVI os portugueses instalam-se na região de Angola. O primeiro governador de Angola, Paulo Novais, procura delimitar este vasto território e explorar os seus recursos naturais, em particular os escravos. A penetração para o interior é muito limitada. Em 1576 fundam São Paulo de Luanda, a actual cidade de Luanda. Angola transforma-se rapidamente no principal mercado abastecedor de escravos das plantações da cana do açúcar do Brasil.
Durante a ocupação filipina de Portugal (1580-1640), os holandeses procuram desapossar os portugueses desta região, ocupando grande parte do litoral (Benguela, Santo António do Zaire as as barras do Bengo e do Cuanza). Em 1648 os portugueses expulsam os holandeses, para contentamento dos colonos do Brasil.   
Até finais do século XVIII, Angola funciona como um reservatório de escravos para as plantações e minas do Brasil. A ocupação dos portugueses confinam-se às fortalezas da costa.
O colonização efectiva do interior só se inicia no século XIX, após a Independência do Brasil (1822) e o fim do tráfico de escravos(1836-42), mas não da escravatura. Esta ocupação trata-se de uma resposta às pretensões de outras potências europeias, como a Inglaterra, a Alemanha e a França que reclamavam na altura o seu quinhão em África. Diversos tratados são firmados estabelecendo os territórios que a cada uma cabem, de acordo com o seu poder e habilidade negocial.
Uma boa parte destes colonos são presos deportados de Portugal, como o célebre José do Telhado. Paralelamente são feitas diversas viagens com objectivos políticos, científicos e esclavagistas para o interior do território angolano, tais como: José Rodrigues Graça (1843-1848)-Malanje e Bié; José Brochado-Humbo, Mulando, Cuanhama; Silva Porto-Bié; Devido à ausência de vias de comunicação terrestes, as campanhas de ocupação do interior são feitas através dos cursos fluviais: Bacia do Cuango (1862), Bacia do Cuanza (1895,1905,1908); Bacia do Cubango (1886-1889, 1902,1906); Bacia do Cunene (1906-1907); Bacia do Alto Zambeze (1895-1896); Entre Zeusa e Dande (1872-1907), etc.   
As fronteiras de Angola só são definidas em finais do século XIX, sendo a sua extensão muitíssimo maior do que o território dos Ambundos, a cuja língua o território de Angola anda associado.
1900-1960A colonização de Angola, após a implantação de um regime repúblicano em Portugal (1910), entra numa nova fase. Os republicanos haviam criticado duramente os governos monárquicos por ter abandonado as colónias. O aspecto mais relevante da sua acção circunscreveu-se à criação de escolas. No plano económico, inicia-se a exploração intensiva de diamantes. A Diamang (Companhia dos Diamantes de Angola) é fundada em 1922, embora opera-se deste 1917 na região de Lunda.
O desenvolvimento económico só se inicia de forma sistemática, em finais do anos trinta, quando se incrementa a produção de café, sisal, cana do açúcar, milho e outros produtos. Tratam-se de produtos destinados à exportação.   
A exportação da cana do açúcar, em 1914, pouco ultrapassava as 6.749 toneladas. Em 1940 atingia já as 39.423 toneladas exportadas. As fazendas e a industria concentra-se à volta da cidade de Luanda e de Benguela.
A exportação de sisal, desenvolve-se durante a segunda guerra mundial (1939-1945). Em 1921 pouco mais foram exportados que 62 toneladas, mas em 1941 atingia-se já as 3.878. Dois anos depois as 12.721 toneladas. Em 1973 situavam-se nas 53.399. Estas plantações situavam-se no planalto do Huambo, do Cubal para Leste, nas margens da linha férrea do Dilolo, Bocoio, Balumbo, Luimbale, Lepi, Sambo, mas também no Cuanza norte e Malange. 
A exportação de café logo a seguir à segunda guerra mundial, abriu um novo ciclo económico em Angola, que se prolonga até 1972, quando a exploração petrolifera em Cabinda começar a dar os seus resultados. A subida da cotação do café no mercado mundial, a partir de 1950, contribuiu decisivamente para o aumento vertiginoso desta produção.Em 1900, as exportações pouco ultrapassaram as 5.800 toneladas. Em 1930 atingiam as 14.841.Em 1943 subiam para 18.828. A partir daqui o crescimento  foi vertiginoso. Em 1969 forma exportadas 182.944 e quatro anos depois, 218.671 toneladas.
Para além destes produtos, desenvolve-se a exploração dos minérios de ferro. Em 1957 funda-se a Companhia Mineira do Lobito, que explorava as minas de Jamba, Cassinga e Txamutete. Exploração de cedeu depois á alemã Krupp.
O desenvolvimento destas explorações, foi acompanhado por vagas de imigrantes incentivados e apoiados muitas vezes pelo próprio Estado. Entre 1941 e 1950, saíram de Portugal cerca de 110 mil imigrantes com destino às colónias, a maioria fixou-se em Angola. O fluxo imigratório prosseguiu nos anos 50 e 60.   
Nos anos quarenta a questão da descolonização emerge no plano internacional e torna-se uma questão incontornável. Em 1956 é publicado o primeiro manifesto do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). 


1961-1974
No princípio dos anos 60, três movimentos de libertação (UPA/FNLA, MPLA e UNITA) desencadeiam uma luta armada contra o colonialismo português. 
O governo de Portugal ( uma ditadura desde 1926),  recusa-se a dialogar e prossegue na defesa até ao limite do último grande império colonial europeu. Para África são mobilizados centenas de milhares de soldados. Enquanto durou o conflito armado, Portugal procurando consolidar a sua presença em Angola, promovendo a realização de importantes obras públicas. A produção industrial e agrícola conhece neste território um desenvolvimento impressionante. A exploração do petróleo de Cabinda inicia-se em 1968, representando em 1973 cerca de 30% das receitas das exportações desta colónia. Entre 1960 e 1973 a taxa de crescimento do PIB (produto Interno Bruto) de Angola foi de 7% ao ano
Independência e Guerra Civil
Na sequência do derrube da ditadura em Portugal (25 de Abril de 1974), abrem-se perspectiva imediatas para a independência de Angola. O Governo português, negoceia com os três principais movimentos de libertação ( MPLA- Movimento Popular de Libertação de Angola , FNLA-Frente Nacional de Libertação de Angola e UNITA-União Nacional para a Independência Total de Angola ), o período de transição e o processo de implantação de um regime democrático em Angola (Acordos de Alvor, Janeiro de 1975).
A independência de Angola não foi o inicio da paz, mas o inicio de uma nova guerra aberta. Muito antes do dia da Independência, a 11 de Novembro de 1975, já os três três grupos nacionalistas que tinham combatido o colonialismo português lutavam entre si pelo controle do país, e em particular da capital, Luanda. Cada um deles era na altura apoiado por potências estrangeiras, dando ao conflito uma dimensão internacional.
A União Soviética e Cuba apoiavam o MPLA, que controlava a cidade de Luanda e pouco mais. Os cubanos não tardaram a desembarcar em Angola (5 de Outubro de 1975).
A África do Sul que apoiava UNITA, por seu lado, invade Angola (9 de Agosto de 1975).
O Zaire que apoiava a  FNLA invade também este país (Julho de 1975). A FNLA conta também com o apoio da China, mercenários portugueses e também com o apoio da África do Sul.
Os EUA que apoiaram inicialmente apenas a FNLA, não tardam a ajudar também a UNITA. Neste caso, o apoio manteve-se até 1993. A sua estratégia foi durante muito tempo dividir Angola.
Em Outubro de 1975, o transporte aéreo de quantidades enormes de armas e soldados cubanos, organizado pelos soviéticos, mudou a situação, favorecendo o MPLA. As tropas sul-africanas e zairenses retiraram-se, e o MPLA conseguiu formar um governo socialista unipartidário. 
Em 1976 as Nações Unidas reconheciam o governo do MPLA como o legitimo representante de Angola, o que não foi seguido nem pelos EUA, nem pela África do Sul .
No meio do caos que Angola se havia tornado, cerca de 300 mil portugueses abandonam este país entre 1974 e 1976, o que agrava de forma dramática a situação económica.
Em Maio de 1977, um grupo do MPLA encabeçado por Nito Alves, desencadeia um golpe de Estado, que é afogado num banho de sangue. No final deste ano, o MPLA realiza o seu 1º Congresso, onde se proclama um partido marxista-leninista e adopta o nome de MPLA-Partido do Trabalho. 
A guerra continuava a alastrar por todo o território. A UNITA e a FNLA juntaram-se então contra o MPLA. A UNITA começou por ser expulsa do seu quartel-general no Huambo, sendo as suas forças dispersas e impelidas para o mato. Mais tarde, porém, o partido reagrupou-se, iniciando uma guerra longa e devastadora contra o governo do MPLA. A UNITA apresentava-se como sendo anti-marxista e pró-ocidental, mas tinha também raízes regionais, principalmente na população Ovimbundu do sul e centro de Angola.
Agostinho Neto, morre em Moscovo a 10 de Setembro de 1979, sucedendo-lhe no cargo o ministro da Planificação, o engenheiro José Eduardo dos Santos.
No inicio dos anos oitenta, o número de mortos e refugiados não pára de aumentar. As infra-estruturas do país são brutalmente destruídas. Os ataques da África do sul não páram. Em Agosto de 1981, lançam a operação "Smokeshell"  utilizando 15.000 soldados, blindados e aviões, avançando mais de 200 km na província do Cunene (sul de Angola). O Governo da África do Sul justifica a sua acção afirmando que na região estavam instaladas bases dos guerrilheiros da SWAPO, o movimento de libertação da Namíbia. Na realidade tratava-se de uma acção de apoio à UNITA, tendo em vista a criação de uma "zona libertada" sob a sua administração. Estes conflitos só terminaram em Dezembro de 1988, quando em Nova Iorque foi firmado um acordo tripartido (Angola, África do Sul e Cuba) que estabelecia a Independência da Namíbia e a retirada dos cubanos de Angola.
A partir de 1989, com a queda do bloco da ex-União Soviética, sucedem-se em Angola os acordos de paz entre a Unita e o MPLA, seguidos recomeço das hostilidades.
Em Junho de 1989, em Gbadolite (Zaire), a UNITA e o MPLA estabelecem uma trégua. A paz apenas durou dois meses.
Em fins de Abril de 1990, o Governo Angola anuncia o reinicio das conversações directas com a UNITA, com vista ao estabelecimento do cessar fogo. No mês seguinte, a UNITA reconhecia oficialmente José Eduardo dos Santos como o chefe de estado angolano. O desmoronar da União Soviética acelera o processo de democratização. No final do ano, o MPLA anunciava a introdução reformas democráticas no país. A 11 de maio de 1991, o governo publica uma lei autorizava a criação de novos partidos, pondo fim ao monopartidarismo. A 22 de Maio os últimos cubanos saem de Angola. 
31 de Maio de 1991, com a mediação de Portugal, EUA, União Soviética e da ONU, celebram-se os acordos de Bicesse (Estoril), terminado com a guerra civil desde 1975, e marcando as eleições para o ano seguinte.
As eleições de Setembro de 1992,dão a vitória ao MPLA (cerca de 50% dos votos). A UNITA (cerca de 40% dos votos não reconhece os resultados eleitorais. Quase de imediato sucede-se um horrendo banho de sangue, reiniciando-se o conflito armado.
Em 1993, o Conselho de Segurança embarga as transferências de armas e petróleo para a UNITA. Tanto o governo como a UNITA acordaram, em parar as novas aquisições de armas, mas tudo não passou de palavras.
Em Novembro de 1994, celebra-se o Protocolo de Lusaka, na Zâmbia entre a UNITA e o Governo de Angola (MPLA). A Paz parece mais do que nunca estar perto de ser alcançada.A UNITA usou o acordo de paz de Lusaka para impedir mais perdas territoriais e para fortalecer as suas forças militares. Em 1996 e 1997 adquiriu grandes quantidades de armamentos e combustível, enquanto ia cumprindo, sem pressa, vários dos compromissos que assumira através do Protocolo de Lusaka.
Em Dezembro de 1998, Angola retorna ao estado de guerra aberta, que só parou em 2002, com a morte de Jonas Savimbi (líder da Unita). 

Petróleo e Diamantes
Quando se fala da guerra de Angola, fala-se dos diamantes e petróleo.
O petróleo suportou o governo de Angola (MPLA). O Ouro Negro provém da zona de Cabinda, onde prossegue a luta armada da FLEC, outro dos movimentos de libertação formado nos anos 60. 
Os diamantes financiaram a UNITA, sobretudo a partir de 1993, quando este partido deixou de contar com o apoio financeiro que recebia dos Estados Unidos e África do Sul. A maior parte dos diamantes foi contrabandeada para a Europa através do Zaire (RDC) e do Congo Brazzaville, embora tenham também saído pela África do Sul, Namíbia, Rwanda e Zâmbia

Judeus sefarditas em Angola - seculos XIX-XX