O olhar europeu: o negro na iconografia brasileira do século XIX
Por Boris Kossoy, Maria Luiza Tucci Carneiro
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EdUSP, 1994 - 235 páginas
As imagens produzidas pelos europeus que visitaram o Brasil no século XIX mostram-se ideologicamente em consonância com os relatos dos cronistas e cientistas viajantes, que abordaram o cotidiano da escravidão. Trata-se de um olhar europeu, moldado por valores etnocêntricos. Em 'O Olhar Europeu', a partir da iconografia, os autores recuperam o sentido dessa visão de mundo e reconstituem, em termos de um itinerário de imagens, o papel desempenhado pelo negro. O livro contém imagens usadas como fontes históricas e como meios de conhecimento, além de contribuírem para o trabalho de reconstrução histórica, trazem elementos para o estudo das mentalidades.
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Este blog visa apenas dar visibilidade a textos de autores considerados de interesse para a compreensão da História Colonial de Angola. Por abarcar os mais diversas abordagens, é um blog dedicado aos de espirito aberto, que gostam de avaliar assuntos, levantar questões e tirar por si próprios suas conclusões. É natural que alguns assuntos venham a causar desagrado, e até reacções da parte daqueles cujas perspectivas estejam firmemente cristalizadas.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Burguesia europeizada angolense de finais do século XIX princípios do século XX
Fotos dizem mais que palavras...
Tipos de Luanda em Catumbela
Familia africana
Benguela: grupo de damas de casa
"...Também se tem conhecimento de indivíduos de origem portuguesa que, longe de se conformarem a estereótipos habituais, são absorvidos pelas culturas africanas (a chamada "cafrealização" que tantas preocupações suscitou às autoridades portuguesas), aparecendo mesmo nos séculos XVI-XVII a combater nos exércitos africanos. Outros ainda manifestam precoces aspirações autonomistas, por vezes em ligação com o Brasil, que se vão perpetuar de maneira mais ou menos pronunciada até uma época mais recente do período colonial.
Posteriormente a situação alterou-se profundamente. O estatuto social dos africanos e também a sua capacidade de intervenção política nos meios urbanos, sofreu um rude golpe a partir do primeiro quartel do século XX, devido à chegada de milhares de novos colonos e à repressão política das autoridades coloniais. "
Retirado daqui:
http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:SblhHYEwQOIJ:www.adelinotorres.com/trabalhos/angola-conflitospoliticosesistemasocial_1928-1930.pdf+&cd=20&hl=pt-PT&ct=clnk&gl=pt&client=firefox-a
...............
Em Luanda e Benguela existiu, pelo menos no século XIX e no início do século XX, um importante grupo de mestiços e negros europeizados, cujos estratos superiores formavam uma burguesia local engajada no tráfico de escravos e noutras actividades comerciais, porém desligadas do cultivo e exploração da terra. O comércio era na sua maior parte feito com o Brasil, sendo numerosos os navios que nessa altura aportavam nas baías de Luanda e de Benguela.
* * *
Também, “A Voz de Angola Clamando no Deserto”, uma colectânea de vários autores publicada em Lisboa, em 1901, passava a constituir a afirmação de uma consciência “nativista”, que criticava a chamada Acção Civilizadora de Portugal em África e que, no princípio do século XX, reclamava por uma participação na condução do poder político nas colónias. De acordo com o sociólogo e escritor Pepetela, é, no fundo, esta elite, surgida da camada social urbana de finais de século XIX, que passou a ser considerada como estando na génese do moderno nacionalismo angolano. Contudo, a mesma tinha uma posição algo equívoca, que, por vezes, deixava transparecer nos seus escritos: denunciava com veemência as discriminações e o racismo coloniais e defendia as mesmas oportunidades para todas as “raças”; acusava a administração colonial de pouco fazer pelo desenvolvimento da colónia e pela educação das populações; batia-se pela “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”; censurava violentamente a corrupção existente nas altas esferas do poder e colocava-se em posição de quase advogar a independência da colónia... Porém, essa mesma elite chegava a aplaudir as campanhas do exército colonial contra os chefes tradicionais, que se iam revoltando; encorajava a ocupação militar dos reinos do interior, que, Portugal, no quadro da Conferência de Berlim para a partilha de África, deveria submeter pela força para legitimar a sua posse…
Para a elite urbana dos finais do século XIX, as populações do interior eram consideradas bárbaras e ignorantes. Assim sendo, aquela elite não sentia qualquer repugnância pela submissão e integração das populações do interior através da força das armas, já que tal era entendido como uma forma das mesmas poderem “receber as luzes da civilização e da Fé católica”.
Como republicanos e democratas virados para si próprios, não tinham ainda conseguido estender os valores republicanos e democráticos para benefício de todos os angolanos. Na essência, estas grandes famílias guardavam na memória os sinais de esplendor da sua origem, provenientes, essencialmente, do tráfico de escravos, que era feito em detrimento das populações do interior e que envolvia brancos, negros e mestiços pertencentes àquela camada social urbana ou classe média africana.
Após a abolição do tráfico de escravos e com a vaga de novos colonos inseridos na chamada política de povoamento, surgiram novos impostos. Estes, para além de muito pesados e injustos, recaíam, sobretudo, sobre a população local. A classe média urbana africana passou então a enfrentar um violento processo de concorrência, chegando a haver, em 1881, uma Petição de 70 chefes de família de Luanda à Fazenda Pública, protestando contra o aumento dos impostos. Consequentemente, as populações do interior passaram a reclamar contra o poder despótico das oligarquias biológica e culturalmente mestiças mais poderosas de Luanda e Benguela. Talvez, este facto possa ser um indicador de estudo para a explicação das posteriores divisões no seio do moderno nacionalismo angolano.
Enquanto beneficiaram de uma política de liberdade cambial e de crédito, os comerciantes tinham sucesso nos seus negócios, conseguindo levar as caravanas ao interior através da utilização dos antigos circuitos de captura e transporte de escravos para o litoral. Mas, a rentabilidade desse comércio dependia da importação de bens industriais (tecidos, armas, etc.), que seriam posteriormente trocados por outros produtos, tais como a borracha, o café, ou a ginguba. Porém, os interesses da indústria metropolitana forçaram uma revisão pautal em sentido contrário. Nesta conformidade, o ministro Oliveira Martins promulgou, em Janeiro de 1892, uma pauta aduaneira, que, para proteger a indústria têxtil algodoeira, agravava fortemente os impostos sobre os têxteis ingleses. Os comerciantes estabelecidos em Luanda e Benguela sentiram-se fortemente lesados porque os têxteis, em muitas regiões, constituíam uma moeda de troca por produtos locais.
A partir de 1900, os conflitos com a administração colonial agudizaram-se devido à crise do comércio da borracha, que fez diminuir grande parte da procura de têxteis metropolitanos em Angola. Os conflitos comerciais e o bloqueio metropolitano aos capitais industriais em Angola começaram por opor facções da burguesia da metrópole às burguesias do litoral e do sertão angolano. Com o estabelecimento de grandes investimentos estrangeiros que criaram refinarias, conservas de peixe e outros estabelecimentos industriais em Angola – como foram os casos da CUF e da DIAMANG – os conflitos agudizaram-se.
Ligado a esses investimentos estava o Ministério das Colónias, criado em 1911. O princípio da descentralização na administração das províncias ultramarinas foi consagrado no artigo 67º da Constituição de 1911. Mas só em 1914 foi submetido ao Congresso um projecto-lei, que estabeleceu as regras básicas de um novo paradigma de política ultramarina, estabelecendo que a estrutura financeira das colónias deveria passar a assentar nas suas próprias receitas fiscais. Apesar da suspensão do Código de Trabalho Indígena de 1911 e malogradas as tentativas para limitar estas formas de trabalho por parte de Norton de Matos – quer enquanto governador-geral (entre 1912 e 1914), ou alto-comissário (entre 1921 e 1924) – o general acabou por promover a colonização branca à custa das terras e trabalho dos chamados “indígenas”. Luísa de Almeida informa-nos, através de um texto por si apresentado na III Reunião Internacional de História de África, o seguinte: “Se numa primeira fase Norton de Matos procurou estabelecer uma aliança com os assimilados ou ditos ‘civilizados’ através de manifestações de tolerância ou de apoio às suas associações, em breve passou do paternalismo ao controlo e à repressão”.
Em resposta, surgiram manifestações contra o trabalho forçado (o chamado “contrato”), com destaque para a Insurreição dos Bakongo (1913-1915), a Revolta de Catete (1922) e diversas outras no corredor Luanda-Malange (1922-1925). Ao final da I República em Portugal, são ainda de considerar as rebeliões em Amboim, Seles e Libolo provocadas pelo aumento do “Imposto de Palhota” e que levaram à proibição da venda de pólvora e armas aos chamados “indígenas”. Para que este imposto fosse pago regularmente, foram criadas circunscrições civis. Tais medidas conduziam a difíceis situações de sobrevivência das populações, a um recrudescimento da agitação nativista e ao encarceramento de algumas figuras da intelectualidade angolana.
No primeiro quartel do século XX, assiste-se à incapacidade colonial para administrar eficazmente o vasto território angolano, à subjugação das identidades culturais às leis do mercado colonial e à profunda alteração do paradigma tradicional de divisão social do trabalho. O investimento económico colonial, ao não se ajustar às estruturas socioeconómicas tradicionais, acabou por provocar rupturas com consequências nefastas para as populações rurais. A expropriação das melhores terras para o cultivo do café e a perda progressiva da sua posição na administração e no comércio a favor dos metropolitanos, fez com que as famílias cultural e biologicamente mestiças da cidade de Luanda tivessem que enfrentar um empobrecimento forçado e fossem marginalizadas para as zonas suburbanas, enquanto o novo grupo de colonos passava a ocupar o centro da cidade.
O investigador brasileiro Fernando Augusto Albuquerque Mourão fala-nos, na sua obra “Continuidades e descontinuidades de um processo colonial através da leitura de Luanda”, num crescimento de uma população branca desta cidade, que, em 1934, passou de 48,1 porcento (correspondente a um total de 18.229 pessoas), para 76,3 por cento, em 1970 (correspondente a 165.488 pessoas). Num mesmo período e num quadro de relação “entre grupos somáticos mestiços e brancos”, os mestiços decresceram de 51,9 por cento para 23,7 por cento. A apelidada “cidade mestiça” do século XIX voltava assim à categoria de “cidade colonial”. Começa, então, a ruptura ideológica daquela camada social urbana com o sistema colonial, apesar da mesma, ter constituído, numa primeira fase, um factor determinante para o próprio sistema administrativo da colónia. Estavam, assim, criadas as condições para a formação de diferentes modalidades de protonacionalismo.
* Ph.D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais
Artigos
Benguela: família burguesa.
Benguela: D. Jacobina, sua filha e sua velha mãe
Tipos de LuandaTipos de Luanda em Catumbela
Familia africana
Rapaz e rapariga de Cabinda
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Benguela: grupo de benguelenses
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Benguela: grupo familiar
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Casais de Ambaca
Tipos Diversos. Colecção Cunha Moraes Albumna 3
Mulheres de Malange
...
Familia africana de Luanda
Casais de Ambaca
Tipos Diversos. Colecção Cunha Moraes Albumna 3
Mulheres de Malange
...
É necessário sublinhar que, contrariamente a um preconceito tenaz, a "burguesia colonial" não inclui unicamente indivíduos de origem europeia. Em Angola a "burguesia colonial" era um grupo heterogéneo constituído por brancos, negros e mestiços (ainda que com poderes e capacidades de intervenção política diversos, é certo). Todavia a influência dos últimos, como já foi demonstrado por R. Pélissier, entre outros autores, foi muito importante no século XIX e no início do século XX.
"...Esta particularidade da colonização portuguesa tem duas razões principais: a fraqueza numérica dos colonos portugueses em África até à 2ª guerra mundial, uma vez que as tradicionais correntes de emigração dirigiram-se essencialmente para o Brasil); a extrema pobreza e baixo nível de instrução da maioria dos colonos portugueses que se instalavam nas colónias africanas. Essas duas características favoreceram misturas sociais (e raciais) talvez mais acentuadas do que na generalidade das outras colónias, francesas ou inglesas"... a "burguesia metropolitana" (cujos bens de raiz ou ligações profundas, estão em Portugal, seja qual for o seu comprometimento em África) e uma "burguesia colonial" propriamente dita, cujo poder, interesses e ambições têm como ponto de partida os territórios africanos. Por outras palavras, a clivagem não se faz do ponto de vista racial ou étnico, mas sim em relação ao enquadramento económico e social dos intervenientes.
Há africanos, sobretudo no século XIX, que obtêm altas patentes no exército português (dentro dos chamados "oficiais de 2ª linha") e desse lado combatem. Há igualmente outros africanos que assumem desde muito cedo uma atitude que Pélissier chamaria mais tarde de "proto-nacionalismo". Sobretudo no século XIX ("o século dos mestiços em Angola" segundo Pélissier), muitos deles usufruem de estatutos económicos (comércio) e sociais (jornalismo, Administração Pública) relativamente elevados11.
"...Esta particularidade da colonização portuguesa tem duas razões principais: a fraqueza numérica dos colonos portugueses em África até à 2ª guerra mundial, uma vez que as tradicionais correntes de emigração dirigiram-se essencialmente para o Brasil); a extrema pobreza e baixo nível de instrução da maioria dos colonos portugueses que se instalavam nas colónias africanas. Essas duas características favoreceram misturas sociais (e raciais) talvez mais acentuadas do que na generalidade das outras colónias, francesas ou inglesas"... a "burguesia metropolitana" (cujos bens de raiz ou ligações profundas, estão em Portugal, seja qual for o seu comprometimento em África) e uma "burguesia colonial" propriamente dita, cujo poder, interesses e ambições têm como ponto de partida os territórios africanos. Por outras palavras, a clivagem não se faz do ponto de vista racial ou étnico, mas sim em relação ao enquadramento económico e social dos intervenientes.
Há africanos, sobretudo no século XIX, que obtêm altas patentes no exército português (dentro dos chamados "oficiais de 2ª linha") e desse lado combatem. Há igualmente outros africanos que assumem desde muito cedo uma atitude que Pélissier chamaria mais tarde de "proto-nacionalismo". Sobretudo no século XIX ("o século dos mestiços em Angola" segundo Pélissier), muitos deles usufruem de estatutos económicos (comércio) e sociais (jornalismo, Administração Pública) relativamente elevados11.
"...Também se tem conhecimento de indivíduos de origem portuguesa que, longe de se conformarem a estereótipos habituais, são absorvidos pelas culturas africanas (a chamada "cafrealização" que tantas preocupações suscitou às autoridades portuguesas), aparecendo mesmo nos séculos XVI-XVII a combater nos exércitos africanos. Outros ainda manifestam precoces aspirações autonomistas, por vezes em ligação com o Brasil, que se vão perpetuar de maneira mais ou menos pronunciada até uma época mais recente do período colonial.
Posteriormente a situação alterou-se profundamente. O estatuto social dos africanos e também a sua capacidade de intervenção política nos meios urbanos, sofreu um rude golpe a partir do primeiro quartel do século XX, devido à chegada de milhares de novos colonos e à repressão política das autoridades coloniais. "
Retirado daqui:
http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:SblhHYEwQOIJ:www.adelinotorres.com/trabalhos/angola-conflitospoliticosesistemasocial_1928-1930.pdf+&cd=20&hl=pt-PT&ct=clnk&gl=pt&client=firefox-a
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Em Luanda e Benguela existiu, pelo menos no século XIX e no início do século XX, um importante grupo de mestiços e negros europeizados, cujos estratos superiores formavam uma burguesia local engajada no tráfico de escravos e noutras actividades comerciais, porém desligadas do cultivo e exploração da terra. O comércio era na sua maior parte feito com o Brasil, sendo numerosos os navios que nessa altura aportavam nas baías de Luanda e de Benguela.
O tráfico de escravos para o Brasil e Américas não era, pois, exclusivo de comerciantes brancos europeus, portugueses e brasileiros, mas era uma actividade em que os pumbeiros, que eram mestiços, negros livres e também ex-escravos, não só se dedicavam ao tráfico de escravos como participavam do comércio costeiro, no caso de Angola, também em parte do comércio interior, para além de fazerem o papel de mediadores culturais no comércio de escravos da África Atlântica.
Os comerciantes europeus,
portugueses e brasileiros com o crescer da procura por mão-de-obra
escrava, associaram-se militarmente e financeiramente com sobas e
régulos africanos, que viviam nas costas marítimas e no interior,
dando-lhes armas, pólvora e cavalos para que afirmassem sua autoridade
numa extensão a maior possível. Os prisioneiros das guerras tribais eram
encarcerados em “barracões”, em armazéns costeiros, onde ficavam a
espera da chegada dos navios tumbeiros ou negreiros que os levariam como
carga humana pelas rotas transatlânticas.
A abolição do tráfico de escravos foi decretada em 1836, por Sá da Bandeira, do Partido Progressista, após a queda do absolutismo em Portugal (1820), a independência do Brasil (1822), e o triunfo do liberalismo (1834), porém foi nas décadas de 1880 e 1890 que teve lugar a abolição definitiva do mesmo tráfico, uma vez que os embarques de escravos para o Brasil e Anéricas passou a ser feito, clandestinamente, a partir de enseadas deserticas mais a norte de Luanda, região do Ambriz, e mais a sul de Benguela. Desde a Conferência de Berlim (1884-5) que determinou a "partilha de África" pelas potências europeias, Angola entra numa nova era, no quadro de um novo paradigma colonial de desenvolvimento e progresso, e nesse contexto uma "burguesia" angolana centrada nas cidades de Luanda e Benguela, que emergira na base do tráfico de escravos para o Brasil e das Américas, entra em decadência e acaba por perder o estatuto que os tempos áureos do tráfico lhes proporcionava. Mas houve uma importante recuperação por parte da mesma burguesia, com base no comércio de produtos recolhidos ou cultivados pela população do interior: cêra, marfim, café, tabaco, borracha, etc. , porém com os novos impostos e a concorrência dos europeus que, com a nova política de ocupação territorial no quadro daquela Conferência,ainda que paulatinamente começaram a emigrar para Angola. Ainda em 1881 várias populações do interior reclamavam contra o poder dessa «oligarquia», sobretudo mestiça, na máquina produção das duas cidades, Luanda e Benguela.
Segundo WIKIPÉDIA «o comércio de escravos estava solidamente implantado no continente Africano e existiu durante milhares de anos. Nações Africanas como os Ashanti do Gana e os Yoruba da Nigéria tinham as suas economias assentes no comércio de escravos. O tráfico e comércio de escravos era intercontinental, registando-se um grande comércio de escravos europeus nos mercados Africanos já durante o Império Romano. Mais tarde com o tráfico de eslavos, os saqaliba, que eram levados para o Al-Andaluz o comércio passou da Europa para África, e continuou com os raids dos Piratas da Barbária que duraram até ao fim do século XIX.»
Angola nas Vésperas da Abolição (1820-1845)
O tráfico em geral: os africanos obtinham pelo tráfico têxteis e armas de fogo, estas e a pólvora em 3º lugar de preferência, (9) ou seja 10% do valor exportado, seg. Miller (1980). O número de pessoas exportadas legalmente para a América, de que há registos, entre meados do século XVI e 1850, totalizou aproximadamente 2 milhões. A partir de 1780 o tráfico de Luanda e Benguela escalou-se seg. Miller (1980) de 168.000 na década de 1791-1800, 188.400 (1801-1810), 246.000 (1811-1820) a 248.900 (1821-1830), (10) com um impacto demográfico incerto (11) mas que geralmente se considera coberto pela fertilidade natural das mulheres, já que, maioritariamente, eram homens o que se exportava
Tirado DAQUI.
* * *
Do sentimento nativista ao protonacionalismo
05 de Julho, 2009
Luanda e Benguela tornaram-se centros de tertúlia e através da actividade jornalística e literária eram defendidos, em finais do século XIX, os ideais da Revolução Francesa e manifestava-se o desejo de obtenção de uma autonomia política.
Luanda e Benguela tornaram-se centros de tertúlia e através da actividade jornalística e literária eram defendidos, em finais do século XIX, os ideais da Revolução Francesa e manifestava-se o desejo de obtenção de uma autonomia política.
Segundo Mário de Andrade, foi “a génese do escrito protestatário” com correntes de formação de uma consciência nativista – a dos “filhos do País”. Os escritores “angolenses” consideravam que a portugalização significava uma ameaça à sua identidade e ao seu desenvolvimento económico e sócio-cultural. O nativismo exprimia o sentimento colectivo de ser portador de valores próprios, como um referente de identificação e confluência das suas aspirações em prol de uma autonomia e futura independência.
Haviam passado 60 anos após a data da independência do Brasil, a 7 de Setembro de 1822, quando José de Fontes Pereira, um dos mais esclarecidos jornalistas angolenses, noticiou, num artigo intitulado “A república a crear raízes em Angola”, publicado no nº 36 do jornal Pharol do Povo, de 27 de Outubro de 1883, o primeiro grito de independência dado em Benguela por um oficial do exército, que era um nativo “Filho do País”. José de Fontes Pereira relatou do seguinte modo esta acção política: “Benguela abraçou com grande entusiasmo aquella ideia, e quando se proclamou a independência do Brazil, o grande povo d’aquella cidade secundou aquele estado de coisas, tendo hasteado a bandeira do café e tabaco na fortaleza de S. Filipe. Dirigiu esse movimento o tenente-coronel Francisco Pereira Diniz, homem preto, natural de Benguela que comandava as companhias de linha d’aquela capitania”.
Haviam passado 60 anos após a data da independência do Brasil, a 7 de Setembro de 1822, quando José de Fontes Pereira, um dos mais esclarecidos jornalistas angolenses, noticiou, num artigo intitulado “A república a crear raízes em Angola”, publicado no nº 36 do jornal Pharol do Povo, de 27 de Outubro de 1883, o primeiro grito de independência dado em Benguela por um oficial do exército, que era um nativo “Filho do País”. José de Fontes Pereira relatou do seguinte modo esta acção política: “Benguela abraçou com grande entusiasmo aquella ideia, e quando se proclamou a independência do Brazil, o grande povo d’aquella cidade secundou aquele estado de coisas, tendo hasteado a bandeira do café e tabaco na fortaleza de S. Filipe. Dirigiu esse movimento o tenente-coronel Francisco Pereira Diniz, homem preto, natural de Benguela que comandava as companhias de linha d’aquela capitania”.
Também, “A Voz de Angola Clamando no Deserto”, uma colectânea de vários autores publicada em Lisboa, em 1901, passava a constituir a afirmação de uma consciência “nativista”, que criticava a chamada Acção Civilizadora de Portugal em África e que, no princípio do século XX, reclamava por uma participação na condução do poder político nas colónias. De acordo com o sociólogo e escritor Pepetela, é, no fundo, esta elite, surgida da camada social urbana de finais de século XIX, que passou a ser considerada como estando na génese do moderno nacionalismo angolano. Contudo, a mesma tinha uma posição algo equívoca, que, por vezes, deixava transparecer nos seus escritos: denunciava com veemência as discriminações e o racismo coloniais e defendia as mesmas oportunidades para todas as “raças”; acusava a administração colonial de pouco fazer pelo desenvolvimento da colónia e pela educação das populações; batia-se pela “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”; censurava violentamente a corrupção existente nas altas esferas do poder e colocava-se em posição de quase advogar a independência da colónia... Porém, essa mesma elite chegava a aplaudir as campanhas do exército colonial contra os chefes tradicionais, que se iam revoltando; encorajava a ocupação militar dos reinos do interior, que, Portugal, no quadro da Conferência de Berlim para a partilha de África, deveria submeter pela força para legitimar a sua posse…
Para a elite urbana dos finais do século XIX, as populações do interior eram consideradas bárbaras e ignorantes. Assim sendo, aquela elite não sentia qualquer repugnância pela submissão e integração das populações do interior através da força das armas, já que tal era entendido como uma forma das mesmas poderem “receber as luzes da civilização e da Fé católica”.
Como republicanos e democratas virados para si próprios, não tinham ainda conseguido estender os valores republicanos e democráticos para benefício de todos os angolanos. Na essência, estas grandes famílias guardavam na memória os sinais de esplendor da sua origem, provenientes, essencialmente, do tráfico de escravos, que era feito em detrimento das populações do interior e que envolvia brancos, negros e mestiços pertencentes àquela camada social urbana ou classe média africana.
Após a abolição do tráfico de escravos e com a vaga de novos colonos inseridos na chamada política de povoamento, surgiram novos impostos. Estes, para além de muito pesados e injustos, recaíam, sobretudo, sobre a população local. A classe média urbana africana passou então a enfrentar um violento processo de concorrência, chegando a haver, em 1881, uma Petição de 70 chefes de família de Luanda à Fazenda Pública, protestando contra o aumento dos impostos. Consequentemente, as populações do interior passaram a reclamar contra o poder despótico das oligarquias biológica e culturalmente mestiças mais poderosas de Luanda e Benguela. Talvez, este facto possa ser um indicador de estudo para a explicação das posteriores divisões no seio do moderno nacionalismo angolano.
Enquanto beneficiaram de uma política de liberdade cambial e de crédito, os comerciantes tinham sucesso nos seus negócios, conseguindo levar as caravanas ao interior através da utilização dos antigos circuitos de captura e transporte de escravos para o litoral. Mas, a rentabilidade desse comércio dependia da importação de bens industriais (tecidos, armas, etc.), que seriam posteriormente trocados por outros produtos, tais como a borracha, o café, ou a ginguba. Porém, os interesses da indústria metropolitana forçaram uma revisão pautal em sentido contrário. Nesta conformidade, o ministro Oliveira Martins promulgou, em Janeiro de 1892, uma pauta aduaneira, que, para proteger a indústria têxtil algodoeira, agravava fortemente os impostos sobre os têxteis ingleses. Os comerciantes estabelecidos em Luanda e Benguela sentiram-se fortemente lesados porque os têxteis, em muitas regiões, constituíam uma moeda de troca por produtos locais.
A partir de 1900, os conflitos com a administração colonial agudizaram-se devido à crise do comércio da borracha, que fez diminuir grande parte da procura de têxteis metropolitanos em Angola. Os conflitos comerciais e o bloqueio metropolitano aos capitais industriais em Angola começaram por opor facções da burguesia da metrópole às burguesias do litoral e do sertão angolano. Com o estabelecimento de grandes investimentos estrangeiros que criaram refinarias, conservas de peixe e outros estabelecimentos industriais em Angola – como foram os casos da CUF e da DIAMANG – os conflitos agudizaram-se.
Ligado a esses investimentos estava o Ministério das Colónias, criado em 1911. O princípio da descentralização na administração das províncias ultramarinas foi consagrado no artigo 67º da Constituição de 1911. Mas só em 1914 foi submetido ao Congresso um projecto-lei, que estabeleceu as regras básicas de um novo paradigma de política ultramarina, estabelecendo que a estrutura financeira das colónias deveria passar a assentar nas suas próprias receitas fiscais. Apesar da suspensão do Código de Trabalho Indígena de 1911 e malogradas as tentativas para limitar estas formas de trabalho por parte de Norton de Matos – quer enquanto governador-geral (entre 1912 e 1914), ou alto-comissário (entre 1921 e 1924) – o general acabou por promover a colonização branca à custa das terras e trabalho dos chamados “indígenas”. Luísa de Almeida informa-nos, através de um texto por si apresentado na III Reunião Internacional de História de África, o seguinte: “Se numa primeira fase Norton de Matos procurou estabelecer uma aliança com os assimilados ou ditos ‘civilizados’ através de manifestações de tolerância ou de apoio às suas associações, em breve passou do paternalismo ao controlo e à repressão”.
Em resposta, surgiram manifestações contra o trabalho forçado (o chamado “contrato”), com destaque para a Insurreição dos Bakongo (1913-1915), a Revolta de Catete (1922) e diversas outras no corredor Luanda-Malange (1922-1925). Ao final da I República em Portugal, são ainda de considerar as rebeliões em Amboim, Seles e Libolo provocadas pelo aumento do “Imposto de Palhota” e que levaram à proibição da venda de pólvora e armas aos chamados “indígenas”. Para que este imposto fosse pago regularmente, foram criadas circunscrições civis. Tais medidas conduziam a difíceis situações de sobrevivência das populações, a um recrudescimento da agitação nativista e ao encarceramento de algumas figuras da intelectualidade angolana.
No primeiro quartel do século XX, assiste-se à incapacidade colonial para administrar eficazmente o vasto território angolano, à subjugação das identidades culturais às leis do mercado colonial e à profunda alteração do paradigma tradicional de divisão social do trabalho. O investimento económico colonial, ao não se ajustar às estruturas socioeconómicas tradicionais, acabou por provocar rupturas com consequências nefastas para as populações rurais. A expropriação das melhores terras para o cultivo do café e a perda progressiva da sua posição na administração e no comércio a favor dos metropolitanos, fez com que as famílias cultural e biologicamente mestiças da cidade de Luanda tivessem que enfrentar um empobrecimento forçado e fossem marginalizadas para as zonas suburbanas, enquanto o novo grupo de colonos passava a ocupar o centro da cidade.
O investigador brasileiro Fernando Augusto Albuquerque Mourão fala-nos, na sua obra “Continuidades e descontinuidades de um processo colonial através da leitura de Luanda”, num crescimento de uma população branca desta cidade, que, em 1934, passou de 48,1 porcento (correspondente a um total de 18.229 pessoas), para 76,3 por cento, em 1970 (correspondente a 165.488 pessoas). Num mesmo período e num quadro de relação “entre grupos somáticos mestiços e brancos”, os mestiços decresceram de 51,9 por cento para 23,7 por cento. A apelidada “cidade mestiça” do século XIX voltava assim à categoria de “cidade colonial”. Começa, então, a ruptura ideológica daquela camada social urbana com o sistema colonial, apesar da mesma, ter constituído, numa primeira fase, um factor determinante para o próprio sistema administrativo da colónia. Estavam, assim, criadas as condições para a formação de diferentes modalidades de protonacionalismo.
* Ph.D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

Artigos
Filipe Zau in Jornal de Angola
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«... No século passado, e mesmo antes, foram permanentes os conflitos, de natureza militar, entre o litoral e o que se convencionou chamar "os povos do sertão". A Coroa portuguesa em vão tentou, até a Conferência de Berlim, em 1885, subjugar e avassalar todos esses povos e só alguns,próximos da raia litorânea, se submeteram. Nessas acções militares contra o interior, houve um produto da sociedade híbrida que se plasmou no litoral, resultante do contacto de europeus e indígenas e cujas peculiaridades, do ponto de vista etnocultural, se podem observar ainda hoje em muitos comportamentos, hábitos e atitudes mentais. Esse segmento, constituído por filhos do país, angolanos, em suma- brancos, negros e mulatos -, desde sempre se polarizou no papel de classe intermédia no contacto dos portugueses com o sertão. Foram eles que, em regime de monopólio exploraram os caminhos de entrada e saída do sertão; e concentraram nas suas mãos, pelo menos até meados do século XIX, uma parcela significativa do comércio atlântico com o interior, sendo famosas algumas empresas suas cujo tráfico se fazia privilegiadamente com o Brasil, Montevidéu, Argentina e América Setentrional. Mas esses crioulos não controlavam unicamente as redes de comércio. A sua influência e poder nos escalões superiores da administração pública era indiscutível; como o era também nas forças militares de 1ª e 1ª linhas, onde o seu ascendente numérico foi uma constante até ao 4 º decênio de oitocentos. Eram eles que, maioritariamente, governavam os presídios do interior. Porém, os abusos de autoridade e extorsões praticados contra as populações foram tantos, que um ou outro governador mais consciencioso não deixou de os denunciar para Lisboa.À falta, portanto, de tropa européia, foram esses crioulos -no comando sobretudo dos corpos de infantaria - que levaram a guerra ao interior contra os "gentios", com vista a pacificá-los. Há uma expressão muito curiosa de um governador geral de Angola - Pedro Alexandrino da Cunha (1845-1848) - que, numa informação para Portugal, disse mais ou menos isto: "se alguma vez os gentios nos cortarem as fontes de abastecimento, morremos à fome; se avançarem para o litoral, seremos jogados ao mar.". Deste modo, Luanda, Benguela, Novo Redondo e Moçâmedes até ao 2 º decênio deste século passaram por ser núcleos centrais de controlo e irradiação de toda a dinãmica colonial. Foi lá, nesse pedaço litorâneo, razoavelmente habitado por gente cosmopolita, que a influência da colonização se tornou decisiva e duradoura até 1974; de lá se guerrearam os povos do interior e contra esse universo costeiro em expansão se criaram nas profundezas do sertão, feridas e antagonismos que perduram até aos tempos actuais." Texto completo AQUI
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Ver também:
A evolução económica de Angola durante o segundo período colonial ..
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
ANGOLA: CONFLITOS POLÍTICOS E SISTEMA SOCIAL (1928-30)1
Em 1930 teve lugar em Angola, então a mais importante colónia portuguesa em África, o que alguns
qualificaram como "tentativa de golpe de Estado" e outros, mais eufemisticamente, chamaram movimento
"de indignação popular" contra os abusos do Alto Comissário Filomeno da Câmara3. Esta questão, que poderia ter desencadeado na época uma guerra civil em Angola, foi objecto de violenta polémica, especialmente na imprensa da colónia. Sessenta e seis anos depois ela mergulha no esquecimento, e, que se saiba, nenhum historiador a tratou até hoje.
Continua...
qualificaram como "tentativa de golpe de Estado" e outros, mais eufemisticamente, chamaram movimento
"de indignação popular" contra os abusos do Alto Comissário Filomeno da Câmara3. Esta questão, que poderia ter desencadeado na época uma guerra civil em Angola, foi objecto de violenta polémica, especialmente na imprensa da colónia. Sessenta e seis anos depois ela mergulha no esquecimento, e, que se saiba, nenhum historiador a tratou até hoje.
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quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Reis e Sobas: símbolos de Angola, de seu passado, de sua história e de sua cultura
D. Pedro VII, quadragésimo oitavo monarca do Reino e D. Isabel
(foto Era Uma Vez...Angola, Paulo Salvador)

O Rei Loango finais do sec. XVII

(foto Era Uma Vez...Angola, Paulo Salvador)

O Rei Loango finais do sec. XVII

Principe Nicolau do Congo
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Autoridades tradicionais na época colonial
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Figura emblemática de Soba
Soba da Lunda
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Autoridades tradicionais na época colonial
Soba da Libata da Jamba- 1925
Soba da Lunda
Soba do Huambo e seu Ministro
Soba e colaboradores
O peso das autoridades tradicionais (os sobas e reis verdadeiramente reconhecidos como tal) são uma herança tribal muito valorizada em Angola. Centenas de sobas encontram-se espalhados por todo o território, em «sobados» ou «quimbos», que compreendem certos territórios delimitados, sob domínio desses chefes tribais, também chamados régulos ou regedores. O soba, em certas regiões, é escolhido pelo conselho de sobas; noutras a sucessão é matrilinear, sucedendo-lhe um sobrinho, filho de uma irmã, geralmente escolhido pelas suas qualidades de carácter, sentido de justiça, capacidade de liderar, dirimir conflitos, apaziguar. Mas se a autoridade deles pesa principalmente sobre os aspectos morais da conduta, as autoridades tradicionais investindo-se nos papéis de juizes sem tribunal, ou de polícias sem esquadra, podem, por outro lado, inclusive, repreender, aplicar punições, etc.
Os integrantes dessas tribos e seus descendentes tratam-se entre si como parentes e adotam nomes e apelidos ligados às suas origens. Todos devem respeito e obediência aos sobas e sua linhagem. As autoridades tradicionais são reconhecidas como tal pelo Estado, possuem status institucional e o governo destina-lhe subsídios regularmente para a manutenção do sobado. Em alguns lugares são chamados de reis.
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Poderes locais angolanos: Ngolas, sobas, tandalas e macotas na dinâmica dos governos
ilustrados portugueses da segunda metade do século XVIII
Flávia Maria de Carvalho
Resumo: A proposta central de nosso trabalho é a discussão sobre a participação dos governos locais angolanos e de toda a hierarquia de poder que os cercava, no contexto da administração
portuguesa em Angola durante a segunda metade do século XVIII. Analisamos as relações
das elites africanas e seu entrosamento com os representantes da Coroa Portuguesa que, nesse período, passaram por momentos de redefinição de suas estratégias em suas possessões coloniais, de acordo com as tendências do Reformismo Ilustrado.
As primeiras imagens das etapas africanas do tráfico de escravos fazem parte de um cenário agressivo, comum a toda realidade do cativeiro. Indivíduos destituídos de sua liberdade, isolados de suas terras e obrigados a migrar para lugares distantes. Mudanças radicais justificadas por interesses múltiplos, dificilmente assimilados pelos próprios escravos, mas que definiram os contornos da configuração das regiões da África Centro Ocidental ocupada por europeus que se dedicaram à atividade de comercializar corpos.
Os primeiros momentos da colonização portuguesa no continente africano tiveram como intenção uma ocupação territorial. Seguindo o mesmo esquema de outras colônias ultramarinas o primeiro estágio de contato com as novas terras deveria possibilitar a avaliação das condições de estabelecimento e de relacionamento com o poder local. A primeira intervenção de Portugal na África foi o planejamento de atividades que deveriam atender ao objetivo maior dos investimentos das empresas colonizadoras: a exploração dos recursos minerais.
Como em outras margens dos oceanos, a meta seria a descoberta de zonas ricas em metais preciosos, preocupação recorrente na política dos Descobrimentos do século XVI. Nesse cenário o ouro da Costa da Mina despontou como um importante foco para os investimentos da Coroa, mas gradativamente foi perdendo seu destaque com o fracasso dos planos de efetivar na região uma exploração mineral de larga escala. Além das atividades não apresentarem os rendimentos desejados pela Fazenda Real, os colonizadores encontraram obstáculos junto aos grupos locais que dificultaram seu deslocamento para áreas com potenciais minerais mais vantajosos.
A resistência desses grupos africanos fez com que os portugueses centralizassem seus investimentos nas zonas costeiras, se deslocando para o interior somente em expedições realizadas com a cooperação da população dessas regiões. A definição dos quadros econômicos implicou no reposicionamento dos colonizadores na África, fazendo com que cada vez mais os portugueses centrassem seus interesses nas regiões centro ocidentais do continente africano; os “funcionários régios que deixavam a Alta Guiné e migram para a África Central em busca das melhores oportunidades no tráfico”. (ALENCASTRO, 1999,
Nos momentos iniciais da colonização africana, o tráfico de escravos era um dos ramos dos negócios negreiros, passando gradativamente a despontar como o principal setor do comércio atlântico. A partir do século XVII os corpos escravos passavam a ser o recurso mais valioso, condição que influenciou os traços e os contornos da ocupação metropolitana. Essa nova avaliação estava relacionada à política dos asientos2 espanhóis que conferia vantagens aos homens envolvidos no fornecimento de africanos para a América Espanhola, e ao crescimento dos investimentos nas unidades produtivas da América Portuguesa carentes de mão-de-obra.
Já nos seiscentos, a captação, o transporte e a venda de africanos para servirem de mão-de obra compulsória ocupavam o lugar de principal atividade econômica das colônias africanas ocupadas pelos portugueses. Nesse contexto a mercantilização de escravos passava a assumir a categoria de comércio internacional, ocupando em uma escala crescente a prioridade dos investimentos. Em função do destaque e da projeção do tráfico de escravos a região de Angola e o porto de Luanda despontaram como regiões de destaque nas redes de comércio do império ultramarino português.
A ocupação das terras africanas acompanhava as tendências das diretrizes políticas da coroa portuguesa: instaurar um grande império ultramarino, movimentado por redes de comércio que deveriam ser funcionais e lucrativas para as finanças metropolitanas. Esse sentido3 deveria ser preservado para que os interesses portugueses fossem garantidos, mas nem sempre foi possível efetivar dispositivos de controle eficazes o suficiente para evitar os negócios paralelos e os contrabandos, que contribuíram significativamente para o aumento da grande soma de escravos enviados para as colônias americanas.
A região de Angola e de seus sertões, incluindo o reino de Benguela, foram áreas que se destacaram como exportadores de escravos na segunda metade do século XVIII, merecendo um destaque nas preocupações dos burocratas e administradores portugueses encarregados de conduzir o negócio negreiro.
A instauração dos recursos necessários para tornar o tráfico uma atividade possível e rentável acompanhou o estabelecimento dos interesses dos colonizadores no continente negro. Os primeiros passos para agilizar as transações foram o estabelecimento dos barracões e das feitorias, que foram seguidos pelas várias tentativas de articulações políticas vantajosas junto aos poderes locais. Lá foram encontradas brechas e novas possibilidades, junto aos grupos africanos, para acelerar a aquisição dos escravos, e para obter conhecimento sobre as negociações necessárias para a sua obtenção.
Os primeiros portugueses que chegaram à África foram mercadores que deixaram a Europa na busca por melhores opções de negócios. Estabeleceram-se na ilha de São Tomé, que posteriormente se tornou uma capitania hereditária de posse da Coroa portuguesa, passando a ter contato com os grupos locais estabelecidos nessas proximidades. Esses pioneiros passaram a denominar os africanos que ocupavam essa região de “gentio da Guiné”, termo genérico que não especificava com exatidão a origem dos negros4. Essa definição abrangente indica a dificuldade inicial dos portugueses em distinguir as etnias dos africanos. Contudo em função da necessidade de denominar a população local, essa expressão acabaria por ter seu uso difundido. Na avaliação desses primeiros mercadores toda a costa ocidental da África era chamada de Guiné, o que aponta para a indefinição do enunciado.
A presença oficial dos portugueses na região de Angola foi registrada no ano de 1571, sendo estabelecida como uma capitania hereditária concedida a Paulo Dias Novais. Com o passar do tempo os colonizadores constataram a inexistência de prata, até então visto como o principal gênero que poderia ser explorado na região. Em função dessa necessidade de se reorientar os planejamentos, que deveriam tornar Angola uma região lucrativa para a metrópole portuguesa, o sistema de capitania hereditária foi extinto em 1592, voltando para as mãos da Coroa a responsabilidade de governar Angola.
Esse fato não agradou a população local, e nem aos jesuítas estabelecidos na região que acabaram se rebelando contra o administrador enviado pela metrópole. Mesmo com a presença de constantes atritos entre os colonos e os agentes portugueses, a Coroa não abriu mais mão de controlar diretamente os negócios angolanos.
De acordo com estratégias políticas variadas, sendo em alguns momentos mais rigorosas e em outros mais flexíveis a acordos com comerciantes autônomos, a região de Angola e de suas adjacências despontava já no século XVII como um importante entreposto comercial das rotas ultramarinas promovidas e fiscalizadas por Portugal.
Conhecer essas sociedades passava a ser algo importante para a definição das estratégias de intervenção nas regiões marcadas pela presença dos portugueses. A organização política dessas áreas deveria ser percebida para que os estrangeiros pudessem se aproximar e negociar, pacificamente ou não, com os representantes dos poderes locais. A sociedade africana do antigo reino do Ndongo era governada por um soberano intitulado Ngola, termo que deu origem a denominação portuguesa para a região de Angola – terras do Ngola. O poder do Ngola era subdividido entre os sobas, chefes locais que prestavam obediência, pagavam tributos e juravam fidelidade ao seu soberano, mas que por sua vez gozavam de uma considerável autonomia.
Os sobas eram os responsáveis por fornecer para os estrangeiros a permissão de obter escravos nas áreas adjacentes aos seus domínios. Sem esse consentimento a captação dos escravos só poderia ser feita através de guerras, o que nem sempre era visto como a melhor opção, já que a contestação do poder local poderia acarretar desentendimentos maiores, prejudiciais ao andamento das atividades da Fazenda real portuguesa.
5 Para Maria do Rosário Pimentel a diferença entre os termos pombeiros, tangomaos e lançados é uma questão
originada nas variações lingüísticas de determinadas regiões africanas. Segundo a autora: “Eram mercadores
sertanejos, os “camboeiros”, designados em certas regiões por “funidores”, noutras por “tumberos”, ou, ainda
“pombeiros” na região de Angola e “tangomaos” ou lançados na Guiné”. Maria do Rosário Pimentel. Aspectos
do quotidiano no transporte de escravos no século XVII: do sertão africano à costa africana. In: Estudos Ibero-
Americanos. Revista do Dep. de Hist. da PUC-RS, vol. XXV, nº 2, 1999, p. 8. Segundo Manolo Florentino os
termos lançados e tangomãos significavam, na área que atualmente compreende Serra Leoa, Guiné Bissau e
Guiné-Conaky, “mestiços de negros com portugueses, ou ainda portugueses totalmente africanizados” que
“dividiam com os mercadores negros islamizados, designados por juula, diula, ou wangara, o grosso da
comercialização dos cativos que vinham do interior, ambos, naturalmente, associados a autoridades locais”. Em
Costas Negras. Uma história do tráfico atlântico de escravos entre a África e o Rio de Janeiro (XVIII e XIX).
RJ: AN, 1993, p. 94. Para nós as diferenças entre os termos pombeiros e tangomaos ultrapassam as alterações
geradas pelas terminologias regionais.
Muitos chefes aliaram-se aos portugueses e aceitaram as condições de parceria, que incluíam, da parte africana, pagamentos de tributos na forma de escravos e concessão de privilégios comerciais e de trânsito; da parte lusitana, a proteção militar que garantia acesso às armas de fogo, e o apoio político, que ajudava a manter no poder a facção aliada. (SOUZA, 2002, p. 107)
Para chegar até os sobas, era preciso por sua vez, entrar em acordo com os funcionários intermediários que tinham recursos para viabilizar os encontros, que poderiam gerar negócios e espaços para os agentes da colonização portuguesa nas sociedades africanas. Além dessepapel, eram eles que garantiam o fornecimento de escravos para os traficantes e mercadores
que permaneciam na costa, ou nos sobados esperando os “carregamentos”.
Esses personagens eram os pumbeiros e os tangomaos, também chamados de lançados. Eram de origens diferentes, podendo ser portugueses, cristãos novos de várias regiões, castelhanos, holandeses e até mesmo africanos. Robert Conrad também sinaliza para a discussão sobre a participação de africanos na tarefa de fornecer os escravos para os mercadores e traficantes envolvidos no tráfico oceânico:
Mercadores e escravos da costa, chamados tangomaos, adquiriam escravos em ataques e expedições a lugares remotos, recolhendo tantas “peças” quanto possível através de fraude, violência e emboscada. Com a chegada dos navios, os próprios africanos iam às vezes à caça de escravos. (CONRAD, 1982, p. 51)
As diferenças entre pumbeiros e tangomaos, muitas vezes passam despercebidas na História do tráfico de africanos, por serem sutis suas distinções5. Os pumbeiros representavam os interesses portugueses nos negócios do tráfico, sendo os agentes “legais” da operação, enquanto os tangomaos eram os atravessadores que negociavam escravos sem a permissão da Coroa portuguesa, que desde o século XVII já havia instaurado regulamento para o controle das atividades de resgate, venda e transporte dos africanos. Outra diferença entre os dois grupos era a forma com que eles se inseriam nos grupos locais. Os pumbeiros seaproximavam das populações africanas com o interesse definido voltado para obtenção de informações sobre quais seriam as melhores possibilidades de trocas para a aquisição dos cativos. Os tangomaos em contrapartida eram mais integrados às comunidades com que mantinham relações, passando a ter um vínculo maior com hábitos e as formas de viver dos africanos.
Essa aproximação dos tangomaos com a cultura africana foi comentada por um jesuíta que vivia em Angola, mostrando como a dinâmica do tráfico transformou comportamentos de personagens variados:
Vestindo-se como nativos, entalhando no rosto as marcas das etnias locais, os lançados foram os primeiros europeus a se adaptarem aos trópicos. Andam nus e para mais se acomodarem, e com o natural usarem o gentio da terra onde tratam, riscam o corpo todo com um ferro [...] e fazendo nele muitos lavores [...] que ficam parecendo em várias figuras, como de lagostas, serpentes [..] andam por todo aquele Guiné tratando e comprando escravos por qualquer título que os pode haver. (MACEDO, 1867, 313-315).
As marcas tatuadas pelos tangomaos eram práticas relacionadas ao uso corpo como um veículo de comunicação. Os registros corporais tinham como propósito identificar esses indivíduos como membros das sociedades locais, expressando visualmente que eles compreendiam suas linguagens e seus códigos.
Aventureiros, cristãos-novos, ou degredados, os tangomaos viam no negócio negreiro uma possibilidade rentável de negócio, passando a adotar as colônias africanas como moradia, onde poderiam deixar de lado seus estigmas e se integrar de uma forma ativa na economia e na vida social local.
Os intermediários do tráfico recebiam vários nomes relacionados à própria hierarquia social dos reinos africanos. Um documento datado dos primeiros anos do século XVIII comenta com mais detalhes essas funções. O relato intitulado Diário anônimo de uma viagem às costas d’África e às Índias Espanholas6 foi publicado pela Revista do IHGB e editado junto a um comentário de Gilberto Ferrez que analisou esta preciosa fonte. Na descrição encontramos registros sobre a participação efetiva dos africanos e suas relações de trocas com os estrangeiros. Um dos personagens, que aparece destacado, é o mafougne, chefe do comércio, e o responsável por encaminhar os traficantes até o rei. Já nessa primeira etapa as trocas se iniciavam com todas as transações que envolviam gêneros, principalmente a cachaça. Nas palavras do anônimo “nunca se despede sem antes beber. Por isso é preciso trazer algumas garrafas de cachaça, que é a alma da conversa e sem o que seria bem difícil chegar a algum acordo com os negros”. (FERREZ, 1965, 8).
Nas páginas do Diário surgem outros cargos dos africanos que compunham esse cenário detrocas variadas. O rei tinha secretários e conselheiros, sendo que alguns falavam até o português. Entre eles os destacados pelo autor foram o mambuc, que era o primeiro ministro e sucessor do rei; o maure, que era o segundo ministro e chefe do Conselho, e o macinge, que era o capitão da Costa, que além de outras funções abastecia os navios negreiros.
6 Diário anônimo de uma viagem às Costas d’África e às Índias Espanholas. Organizado e comentado por
Gilberto Ferrez. In: RIHGB, vol. 267, 1965. Título original: Journal d’um vouyage sur lês costes d’afrique et
aux Indes d’Espagne avec une description particuliére de la rivière de la Plate, de Buenosayres, e autres lieux;
commencé em 1702 et fini em 1706.
Redes complexas exigiram dos colonizadores estratégias cuidadosas, onde o embate direto,conflitos físicos e as guerras, não fizeram parte dos primeiros recursos para a solução dos desentendimentos. Essa questão ganha maior destaque durante a segunda metade do século XVIII, durante o período do Reformismo Ilustrado Português. Nesse contexto o pragmatismo político da ação colonizadora da Coroa buscou e necessitou conciliar novas formas e métodos idealizados para o governo das colônias com a prática da escravidão. Idéias ilustradas e cativeiro africano sinalizam um dos principais embates entre novas formas de pensar e manutenção de um alinhamento econômico entre África e América Portuguesa responsável por uma unidade singular entre diferentes possessões ultramarinas do Império Português.
Tirado DAQUI
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