terça-feira, 3 de agosto de 2010

Um pouco de História de Angola

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UM POUCO DE HISTORIA DE ANGOLA





Debruço-me hoje sobre a eventual perspectiva da existência de um bastião branco em África, no século XX, como há dias foi aqui aflorado. É o direito de uma opinião e alguma gente concorda com ela, especialmente alguns que se sentem derrotados pelo Império. Mas mais uma vez, pela premissa de considerar que o outro império, o império da opinião é igual para todos, não estando eu condicionado ou diminuído pelo papel da liberdade que me assiste para apontar o dedo a quem não gosta que se lho aponte, digo que essa perceptiva foi uma verdadeira idiotice. No mínimo!... Pois nem os ultras da direita do regime que apoiavam Salazar defendiam essa tese, pois já esperavam o nosso desastre em África. Eles sabiam que erauma questão de tempo.
Bastaria tão só aos copistas estudarem, mesmo superficialmente, um pouco da História de Angola e da própria África, para se convencerem que não era possível a criação de um bastião branco a Sul do continente africano.
Para aqueles que no passado tiveram alguma pretensão nesse sentido, recordem-se dos exemplos dos rodesianos de Ian Smith ou dos sul-africanos de John Voster ou de Pick Botha. Basta olhar para o estado caótico em que o primeiro país se encontra e no actual charco onde chafurda o segundo. Onde mora o tal bastião branco?
A única verdade existente e que mundo ocidental aceitou desde o século passado, é amplamente redutora: África para os africanos.

Mas vamos incidir o nosso olhar apenas na história de Angola para percebermos onde ela nos conduz e perceber também a posição e o estado do leuconacionalismo angolano o qual vem demonstrar que a tese proposta para a implementação de um bastião branco em África não tinha qualquer viabilidade.

Após 500 anos Diogo Cão ter aportado em território angolano, é um facto indesmentível que deixámos um país de que os angolanos se podiam orgulhar.
No entanto, esses 500 anos não representam de maneira nenhuma uma efectiva colonização. E é esta tese que tenho defendido publicamente e não vi ninguém contrariá-la com bases sustentáveis.
Mas quais cinco séculos de colonização? Esta é outra grande mentira, explorada não só em Portugal pelos partidos e políticos pantrampistas, que desconhecem a verdadeira História de Angola e que a maioria da populaça, ignorante, subserviente, encaixou.
Quando referem os 500 anos de exploração colonialista em Angola, esquecem-se que a verdadeira colonização só teve lugar a partir dos finais do século XIX e apenas nalgumas zonas litorais desse vasto território. Como falar de “cinco séculos” de colonização/exploração em que o colonizador não aparece, senão na viragem do século XIX para o século XX? Antes, existiam apenas algumas feitorias a longo da costa de África, para darem apoio aos descobrimentos, complementados por mais meia dúzia de presídios militares. Todo o interior encontrava-se abandonado. E é preciso não esquecer os anos que entretanto os holandeses governaram Luanda. Para além disso, é uma evidência que para haver colonização tinham que existir colonos e ocupação territorial.
Porque eles não dizem a verdade?
Aao ano de 1914, a administração portuguesa estava apenas instalada em duas cidades do litoral, Luanda e Benguela. Por isso eram considerados apenas dois reinos em Angola: o reino de Luanda e o reino de Benguela, este último estendia-se à Catumbela, que durante dois séculos foi o maior entreposto comercial do reino de Benguela
No interior do território a acção reduzia-se a uma política que dependia das aliaas frágeis, ambíguas, com os chefes locais. E esta cambada de pantrampistas, intelectualmente desonestos, fala de 500 anos de colonização porque são gente ignorante que não conhece o mínimo de História daquele país. Angola nunca foi o Jardim do Éden, mas foi muito pior nas outras colónias europeias. A grande diferea é que as suas metrópoles nunca reivindicaram nem cinco, nem quatro, nem três séculos de colonização, excepto o caso da África do Sul.
Até 1914, o país Ovambo no Sul era totalmente independente. A Leste, na Lunda, as terras Tshokwe, só foram ocupadas em 1920 A Norte, entre os Congo, a oposição durou até 1919, enquanto que os Dembos só foram pacificados em 1918. A verdadeira colonização só começou a partir de 1945 e a partir das terras do Sul, do Cuamato, Huíla, Humpata, etc., o resto, são tretas desses ignorantes. É preciso não esquecer também a utilização, ocupação e exploração do interior do território, pelos ingleses, holandeses, alees durante a nossa administração.

Agora tudo, mas tudo, tem de girar à volta de tudo isso que é o enquadramento da independência. A
menos que se diga de caras, como dizem alguns, que o outro tempo era melhor. Então aí a conversa é outra.

É preciso que se saiba, que os brancos do antigamente, tanto colonos como filhos de colonos, desempenharam um papel de relevo no seio do fenómeno nacionalista angolano. Primeiro foi um protesto autonomista nas primeiras décadas do século XX e depois, promovendo uma corrente nacionalista própria, com os seus movimentos e organizações partidárias, com os seus presos e exilados políticos, vítimas da violência e do autoritarismo do colonialismo português.
Naquele tempo havia três correntes; a progressista, a liberal e a conservadora. A corrente progressista defendia uma independência sob o governo de maioria negra considerando o respeito do princípio deuma cabeça, um voto”. Depois existia a liberal, que propunha uma independência conduzida por uma minoria branca mas integrando politicamente as elites mestiças e negras europeizadas, os tais chamados assimilados e propunha também a abolição das estruturas de exploração colonial, tendo como modelo o Brasil. Por último, tínhamos a corrente conservadora, que apontava para uma independência selectiva sob o domínio, ou pelo menos, a hegemonia da minoria branca e a manutenção das estruturas de exploração económica que recaíam sobre a população negra, a exemplo do que se passava ao lado na África do Sul onde existia um regime de supremacia branca.
No entanto o nacionalismo dos brancos angolanos foi rejeitado pelas elites negras e mestiças dos três movimentos de libertação, tendo assim contribuído fortemente para essa mesma rejeição a instrumentalização da ideia de raça.
Em Angola, a ideia de raça teve um papel importante no duplo processo de exclusão política do branco e de identificação do negro e do mestiço com o africano. Este processo teve as suas raízes no próprio sistema colonial português, pois durante a dominação colonial, a ideia de raça foi utilizada como elemento para se distinguirem os ditos “civilizados” dos “indígenas”. Para isso contribuiu um instrumento jurídico que foi por excelência o mecanismo mais evidente do racismo português, o chamado Estatuto do Indigenato, abolido em 61, que determinava que os brancos, só porque eram brancos, eram automaticamente considerados civilizados, enquanto os negros, e até certo ponto os mestiços, tinham de provar a sua civilização, através de testes estabelecidos pelas autoridades coloniais, e se fossem aprovados, tornar-se-iam “assimilados”. Isto porque os colonialistas portugueses entendiam que os negros, que eram 95% da população, eram à priori incivilizados, sendo por isso remetidos para a categoria de indígenas. Assim, as difereas entre civilizados e indígenas eram enormes: os primeiros eram cidadãos portugueses, os segundos meros sujeitos colonizados, sem direitos cívicos e políticos e compelidos ao trabalho obrigatório.
Mas no movimento nacionalista angolano procedeu-se a uma inversão de posições. O negro era entendido como o homem autenticamente africano, o colonizado, enquanto o branco era considerado um elemento estranho a África, o colonialista europeu. A raça serviu assim, novamente, de elemento de distinção e de exclusão. Distinguiu os brancos dos negros e mestiços e legitimou a africanidade dos dois últimos, da qual os brancos foram quase sempre excluídos. Por outras palavras, o branco não podia ser africano porque era branco, enquanto o negro era africano só porque era negro. Assim, segundo os pensadores da época, cabia ao negro exclusivamente a missão histórica da libertação dos povos africanos. Libertação essa que em Angola foi pensada sem a participação dos brancos, como também à custa da sua expulsão.
Muitos dos que se proclamavam anti-racistas, tinham dificuldade em aceitar os brancos na luta nacionalista, como se temessem a sua concorrência numa futura nação independente.
Resumindo: foi a cristalização duma forma de racismo anti-racista ou do racismo dos anti-racistas. Aliás, isso já tinha sido bastante notório quando em finais dos anos 50, o Cadima, o Manuel Dores, mais um operário português, criaram no Huambo a primeira célula do Partido Comunista Angolano. Eram todos os quatro “branquinhos” da Silva. Um engenheiro, dois doutores e um operário. Claro que não durou muito tempo, porque os mentores europeus dos partidos comunistas não queriam brancos nos PC africanos. Inclusive, o Partido Comunista Português que aera o seu mentor, só reconheceu os direitos dos povos colonizados à independência apenas em 1957. Aaí, os comunistas sempre defenderam a política colonial de Salazar.
Os tipos defendiam o princípio de que os nacionalistas tinham de ser todos negros ou árabes. Mais tarde quando estavam no exílio em Paris, aquele grupo já organizado como FUA, tirando uma jovem mulata, era constituído por brancos, o que causava grande confusão aos comunistas franceses que davam apoio à sua rede, pois tal comoacontecera com os comunistas portugueses, também pensavam que os comunistas angolanos só podiam mesmo ser negros. Por essa razão nos seus apoiantes começavam a criar-se dúvidas o facto desse grupo ser todo constituído por brancos. Mas eles conseguiram demonstrar que não eram um grupo de ignorantes políticos, mas sim pessoas honestas, obstinados, sacrificados e bem organizados, pois já dispunham de uma rede clandestina de ligações muito eficazes com Portugal e Angola, Assim não convinha à rede francesa cortar o seu apoio, pelo menos enquanto não conseguissem
entrar no esquemas destas ligações.
Faziam parte desse grupo, Ernesto Lara Filho, Avidago, Mário Nobre João, Maria do Céu Carmo Reis, Artur Pestana (Pepetela), Adelino Torres, Sócrates Dáskalos, João Mendes, Adolfo Maria, entre outros.

Durante o processo de transição para a independência, as elites brancas, foram as primeiras a ficarem de fora da corrida pelo poder, pois eram a que menos argumentos nacionalistas podiam apresentar no quadro da luta pela independência. Os brancos, após reduzidos ao seu significado étnico, foram publicamente apresentados como os principais agentes e beneficiários da exploração colonial portuguesa, retomando-se argumentos anteriormente avaados durante o genocídio no Norte de Angola em 1961. Convém não esquecer que nós brancos totalizávamos apenas 4% da população angolana e existiam apenas cerca de 1% de mestiços.
No último censo devidamente organizado com pés e cabeça, feito em 1970, a minoria branca angolana totalizava apenas 290.000 pessoas ou seja, 5,1% efectivos numa população total de 5.673.050 habitantes. Mas se verificarmos, antes disso éramos muito, mas mesmo muito menos: em 1930 - 30.000 brancos; em 1940 - 44.083 pessoas brancas; em 1950 - 78.826 e em 1960 - 172.529 brancos, crescendo nesta década fruto do conflito de 61 e da abertura que o mesmo obrigou e gerou.
Politicamente estávamos limitados e quase não se reconhecendo na nossa própria nacionalidade, nós, brancos angolanos, servimos de bode expiatório, quer aos anos de exploração colonial portuguesa, quer às limitações e desinteligências do nacionalismo angolano. Face a isto, tornam-se menos obscuras as causas do êxodo dos brancos angolanos, durante o período de transição para a independência do país. Ou já se esqueceram do velho deitado: quem tem cu tem medo?

O colonialismo português tinha uma originalidade que era ser mais centralizado e arcaico de todos, de tal modo que os próprios brancos angolanos se encontravam totalmente subjugados aos interesses de Lisboa e, em especial, aos interesses da burguesia portuguesa, que além de ser atrasada, vivia parasitariamente do sistema colonial.

Ao contrário do que acontecia noutras colónias europeias, os brancos em Angola nunca dispuseram de influência efectiva sobre a colónia pois a governação estava solidamente nas mãos dos ministros de Lisboa, devendo nós em Angola, obedecer cegamente e integralmente às ordens que vinham do Terreiro do Paço. E essas ordens foram sempre contrárias aos interesses dos angolanos e frequentemente aos dos próprios brancos metropolitanos instalados na colónia. E isso traduzia-se em leis e práticas administrativas e económicas. Por exemplo, o branco natural de Angola não tinha o direito de passar do posto de capitão no exército e não tinha o direito também de desempenhar os mais altos cargos na administração pública e nem sequer tinha direito a licea graciosa como os restantes brancos. Os brancos de Angola eram preteridos nos empregos a favor dos brancos metropolitanos, sendo mesmo relegados para uma posição não muito diferente da compartilhada pelos mestiços. Existia mesmo uma descriminação no trabalho, na escola e na vida social e cultural. Aliás, nós filhos daquela terra, tínhamos plena consciência que tanto o governo português como uma grande parte da malta da metrópole, nos consideravam comobrancos de segunda”.
Oficialmente até éramos considerados como euro-africanos. Por outro lado, temos que considerar que a comunidade branca angolana, socialmente estava bem dividida, geograficamente muito dispersa e além do mais, mais ou menos fracturada. E essa fractura era bem acentuada entre os brancos naturais, já angolanizados, e os indivíduos recém-chegados do continente.
De facto, até 1961, a gula do governo português e de uma meia dúzia de famílias poderosas seus aliados foram insaciáveis. Eles levavam dali pelos preços mais irrisórios que entendiam pagar, tudo o que Angola produzia de bom. Em sentido contrário, os tipos enviavam toda a trampa da sua arcaica produção industrial e agrícola. E isso motivou tensões entre a nossa burguesia e a portuguesa. Habilmente, os tipos submeteram o nosso mercado de exportação a uma escassa meia dúzia de famílias poderosas que a exploraram aao tutano com o alto patrocínio dos próprios governantes, muitos deles com interesses nesses mesmos grupos financeiros. O governo português até 1961 nunca permitiu que Angola progredisse. Proibiu-nos sempre de laarmo-nos livremente no caminho da industrialização. Para além do facto de todo dinheiro gerado pela riqueza ali foi produzida, que seria lógico e legítimo que ali ficasse para beneficiar quem a produzia, esse dinheiro era todo transferido para os cofres dessa meia dúzia de grandes famílias e para o Banco de Portugal.

A vida naquele tempo era de facto uma puta muito explorada que dava muito dinheiro aos seus “chulos”. Disso, não tenho a mínima dúvida!

Por exemplo: eles deviam contar, a nós que somos "ignorantes", como é que o Banco de Portugal em
princípios dos anos 70 possuía a maiores reserva de ouro do mundo, (700 Ton.) só ultrapassado pelos EUA. Onde é que foram buscar todo aquele ouro? Falam muito em transparência, mas essa não contam eles, que esse bagulho todo resultou do aproveitamento de escravos moçambicanos que aos milhares foram trabalhar nas minas sul-africanas. Eagora que falamos em poderosas famílias, são essas quase sempre as mesmas que hoje continuam a ter o poder financeiro, tanto lá, comoe, estão a voltar para Angola, em peso, agora com investimentos de outra ordem. É vê-los!
Angola sempre foi uma árvore das patacas, explorada por esses capitalistas de sempre que só levavam e nada traziam. Hoje lixam-se, começam por entrar com as massas, depois passam a ficar com fifty-fifty ou com a maioria do capital, depois numa segunda fase, passam a minoritários e um dia destes se não seem a pau ficam a olhar para o ar e tornam a levar com um pontano mataco. A verdade é queexistem alguns exemplos desses.

Voltemos então novamente à História do passado. É isso que aqui interessa.

Os nacionalistas brancos sempre tiveram pouco peso dentro do nacionalismo angolano. Por outro lado, a acção desses brancos recebia mais hostilidade e indiferea do que simpatia, da maior parte dos membros da população branca.
Apesar desse pouco peso dos brancos, temos que acabar com esse mito de que o nacionalismo angolano foi apenas resultante da acção da maioria negra. Claro, hoje contrariar essa tese não é conveniente nem é politicamente correcto. Disso estou bem ciente. Mas não podemos esquecer o nacionalismo dos brancos e também dos mestiços, filhos dos colonos. Por isso deixem de continuar a manipular a História para tentarem justificar a legitimidade de uns e a qualidade da acção nacionalista de outros. Os brancos angolanos foram os primeiros a contribuir para a criação de uma identidade nacional angolana. A construção de uma cultura nacional e a consciencialização política de muitos nacionalistas negros e mestiços foi a maior heraa que nós, apenas uma minoria de brancos angolanos, deixámos em Angola. Essa questão do nacionalismo dos angolanos brancos é propositadamente de há muito ignorada pelos historiadores e políticos, tanto angolanos como portugueses. Mas tal não aconteceu por parte de historiadores estrangeiros consagrados, tais como Jonh Marcum, Thomas Okuma, Douglas Wheelen ou do mais conhecido, o francês René Pélissier, que teve a experiência de conhecer a realidade angolana pois andou por lá, no terreno, nos anos 60 e 70.

Existe um velho provérbio que diz tudo: a História é feita pelos vencedores, comprovado com a ideia mais comum de que o nacionalismo angolano se resume à velha história das lutas de negros contra brancos. É do mais falso que existe. Só mesmo de ignorantes, esquecendo-se deliberadamente do fenómeno nacionalista dos africanos brancos.

É um facto histórico, na constituição do nacionalismo angolano, que foram os brancos os primeiros a manifestarem-se contra Portugal, com o objectivo de obterem, primeiro a autonomia e depois a independência. Por exemplo, em Benguela em 1823 foi criada a chamada "Confederação Brasílica", cujo objectivo mais que transparente era conseguir a independência de Angola no quadro de uma relação federal com o Brasil, que tinha ascendido à sua independência em 7 de Setembro de 1922, o que poria termo dos dois lados do Atlântico à dominação da burguesia portuguesa da Europa. O apoio que foi dado aos independentistas brasileiros conheceu em Benguela, com o contributo importante da Maçonaria, a forma de revolta aberta contra o domínio português, a qual só foi debelada com o envio e ocupação da cidade por três companhias militares de infantaria, enviadas propositadamente de Portugal.

Mais tarde, em 1891 foi encenado um golpe de estado militar também em Benguela que terá falhado, sobretudo, devido a uma burguesia demasiado frágil. A constituição de lojas maçónicas, a militância nos ideais republicanos, assim como a promoção de uma imprensa de brancos radicais, foram instrumentos utilizados por uma burguesia angolana principalmente de Benguela, Catumbela, Huila e Moçâmedes. Foi nestas regiões onde despertou o autonomismo e nacionalismo branco e se desenvolveu um conjunto de protestos e reivindicações económicas suportado pelas lojas maçónicas ali existentes. A maçonaria angolana tradicionalmente identificada como uma organização secreta denominada pelo termo ovibundu,
Kuribeka, o que só por si já representou um elemento de diferenciação e de autonomia em relação a Portugal. ( Kuribeka significaapresentar-se”; oferecer-se”; vir sem ser chamado ).

A Kuribeka era um importante grupo de poder como instituição organizada, a maçonaria , e existia em Angola pelo menos desde 1860. Tinha apenas “lojas” em Benguela, Catumbela e Moçâmedes.
Por via disso, em Janeiro de 1906 foi criada na Catumbela a Associação Beneficente dos Empregados do Comércio, cujos membros pertenciam todos à loja maçónica local, assim como todos os membros que nesse mesmo ano fundaram a Associação Comercial de Benguela. Foram instituições económicas das mais importantes em Angola em todo o período colonial, tendo tomado posições muito polémicas, em momentos cruciais da vida política angolana.
Em Dezembro de 1906 foi fundada na Catumbela o Grémio Pró-Pátria, loja maçónica de inspiração republicana e autonomista que perdurou até finais dos anos sessenta. Não esqueçamos que Benguela e, na altura, o concelho da Catumbela, foram dos três municípios angolanos (o outro foi o de Novo Redondo), em que o Partido Republicano ganhou as eleições autárquicas em 1906.

Em 1918/1920 houve um enorme e violento protesto organizado em Benguela, no qual se incluiu o bloqueio de estradas, destruição de pontes e uma greve de trabalhadores que teve forte impacto na economia. A partir de 1923, as manifestações e protestos conheceram uma violência invulgar, inclusive, uma greve de trabalhadores do Caminho-de-Ferro no Lobito teve de ser dominada pelos militares e em 1926 outra greve de trabalhadores brancos paralisou a economia de todo o território. Em resultado disso, nasceu em Benguela e com filial na Catumbela, a
UDA – União dos Defensores de Angola. Fica assim demonstrado a importância da corrente autonomista que segundo o historiador René Pélissier, teassumido laivos de separatismo nos finais da 1ª República, quando a actividade económica está semi-paralisada e quando a crise financeira atinge o ponto mais alto. Foi um grupo de elementos da UDA, que olhos nos olhos, deixaram bem claro ao presidente Carmona aquando da sua vista em 1938, que Angola não pode continuar a ser uma quinta de luxo, gerida à distância, a bel-prazer de quem desconhece as suas ansiedades”.

em 1940 apareceu um movimento em Angola com o fim de promover a emancipação da colónia. Chamou-se
OSA, ou seja, Organização Socialista de Angola. De que foi secretário-geral Sócrates Dáskalos, figura que se vem a destacar na oposição angolana.
Foi esse o maior despertar que levou a juventude angolana a um profundo anseio pela liberdade. A OSA teve uma vida muito breve, pois foi violentamente suprimida através de uma vaga de prisões e de deportações, feita pela Polícia de Seguraa Pública, o que levou toda uma geração de nacionalistas angolanos à primeira fase do protesto dos brancos angolanos. Nessa altura ainda não existia a PIDE em Angola. (nem bufos informadores, nem legionários e seus quejandos. A PIDE só se instala em Angola em 1957). Assim, foi graças a esse sentimento de revolta que resultou a ideia da criação da
FUA - Frente para Unidade dos Angolanos. Apesar disso, a OSA foi uma vitória política dos angolanos brancos face ao despotismo do governo português, tendo sido um movimento percursor do nacionalismo branco angolano no Centro e Sul de Angola
A OSA tinha objectivos bem precisos e o principal era de por qualquer meio, alcaar a independência de Angola. A expansão da OSA foi facilitada pelo descontentamento que começou a alastrar-se entre a juventude, filhos de europeus, nados e criados ali, que sofriam restrições impostas por Lisboa. Por exemplo, antes de 61 nenhum de nós podia ser oficial do exército ou ter a veleidade de ascender a cargos importantes na administração pública. Embora não existissem leis escritas, existia uma enorme barreira invisível a marcar a nossa exclusão. Éramos tratados como portugueses e brancos de 2ª, euro-africanos, colonizados, ainda que não fossemos tão descriminados como a população negra.

Em 1943 quando estudavam em Lisboa foi fundada, por iniciativa do Sócrates Dáskalos e do Fernando Falcão e outros mais, (acima referidos) a CEA – Casa dos Estudantes de Angola, mas só após 1948 surgem os primeiros africanos negros na CEA bem como um número relevante de mestiços. É aí que se vê surgir pela primeira vez um negro, o Agostinho Neto e dois mestiços, o Mário Pinto de Andrade e o Lúcio Lara. Estes dois últimos como não conseguiram dominar a CEA, acabaram por criar organizações paralelas como por exemplo o Centro de Estudos Africanos, que durou pouco tempo após Mário Pinto de Andrade partir para Paris em 1954.

Até que chegamos à década de 60.
Em Maio desse ano, no Lobito e em Sá da Bandeira, o Américo de Carvalho, o Aires de Almeida Santos e o João Mendes presidiram à formação da Frente Unida de Libertação de Angola – FULA que deu em nada. Então em Janeiro de 1961, Sócrates Dáskalos, o Luis Portocarrero, o Fernando Falcão, o Carlos Costa e o Manuel Farinha, meteram-se num carro e segundo eles, tomaram a picada que ligava a estrada de saída para a Catumbela ao aeroporto. (contado por
Sócrates Dáskalos no seu livro “Um Testemunho para a História de Angola do Huambo ao Huambo” / editora Vega / 2000”: «Foi ali, numa tarde que apresentava um lindo pôr de sol que demos à luz a FUA,
Frente de Unidade Angolana, que veio a tornar-se num movimento político bastante importante».
Chegaram a publicar um jornal com o título de Kovaso, que em língua umbundu significava Avante. Em Angola sempre foi diferente a situação a Sul, particularmente em Benguela, onde Sócrates e tipos como o Portocarrero, o Farinha, o Mira Dores e o Falcão, encontraram uma mínima margem de manobra para actuarem.
após os acontecimentos do Norte em 61, a FUA, entrou em contacto com membros da Sociedade Cultural e com alguns elementos da burguesia liberal de Luanda, chegando a realizarem-se reuniões com eles em Abril de 61. A FUA procurava apoios em Luanda, a fim de acabar com a repressão colonial e apresentar uma solução ao Governador-Geral para o problema imediato da guerra.
No Sul, estavam organizados e acalentavam a ideia da independência de Angola que fosse precedida de um período de transição, na qual gozaamos do estatuto de autonomia. Já em Luanda, não existia uma organização da burguesia branca pronta a actuar. Nem em Luanda e muito menos nos outros centros populacionais. Somente nos já citados: Benguela Catumbela, Huíla, Moçamedes e acrescente-se, Nova Lisboa. Para agravar a situação, os liberais luandenses consideravam queuma pequena parte da população angolana é que contava, isto é, os brancos, os mestiços e uma minoria de negros já considerados assimilados. Era no fundo, a continuação da política existente.

No entanto, houve membros da burguesia de Angola que pareciam ter compreendido a mudaa dos tempos. Um deles, o grande industrial Manuel Vinhas, em 1961, fez uma viagem de Lisboa a Luanda passando por Leopoldville. Ali, procurou contactar pessoal nacionalista, nomeadamente o MPLA. Parece que sem êxito, pois nessa altura ainda esse partido era um pouco incipiente. No regresso, quando chegou ao aeroporto de Luanda, o senhor Manuel Vinhas foi preso e interrogado pela PIDE durante várias horas antes de ser posto em liberdade.
Na época, o MPLA era quase emblemático, ou mesmo inexistente. Essa a razão , técnicamente sustentável, porque se pode afirmar que a ligação do MPLA aos acontecimentos do 4 de Fevereiro em Luanda não é verdadeira. Segundo o testemunho do companheiro de Neto no exílio, Adolfo Maria, no livro Angola No Percurso de Um NacionalistaEdições Afrontamento / 2006 ou também como escreve Iko Carreira no seu livro “O Pensamento Estratégico de Agostinho Neto / publicações D. Quixote / 1996, a sua formação como movimento nacionalista tinha acabado de se dar em 1960 durante a 2ª Conferência Pan-Africana de Tunis. O 4 de Fevereiro não foi mais que um golpe de nacionalistas desesperados, comandados por um antigo membro do Conselho Legislativo de Angola, o velho cónego Manuel das Neves. Apenas isso! Tudo o resto foi oportunismo político.

Continuando: após o genocídio de Março e Abril provocado pelos Bacongos da UPA o terror instalou-se nos muceques da capital quando centenas de brancos num acto de vingaa, invadiram os bairros populares, matando indiscriminadamente todos os “suspeitos” que encontravam pela frente. O caos e o medo instalaram-se em todo o Norte e as autoridades portuguesas foram incapazes de parar os tipos da UPA e reporem a ordem pública.
A FUA, em Benguela, na Catumbela e no Lobito, organizaram-se e comandaram milícias compostas por negros, brancos e mestiços com a finalidade de impedir a repetição dos massacres da capital. Foi graças a essa organização paramilitar que conseguiram controlar a situação, pois no distrito as forças policiais da PSP eram bastante exíguas. Foi logo nessa altura, finais de Abril, que resolveram laar o Manifesto Político dirigido à população de Angola, onde apelavam ao seu apoio para a causa da emancipação, para a imediata autonomia de Angola, o direito dessa mesma população dispor do seu próprio destino. Esse Manifesto foi recebido pela população com grande entusiasmo, resultando logo daí num abaixo-assinado subscrito por mais de seis mil e quinhentas pessoas. Este abaixo-assinado foi logo aproveitado para ser dirigido ao Ministro do Ultramar a pedir a autodeterminação.
Mas acontece que as elites brancas de Luanda, recusaram reconhecer o princípio de independência sob o governo da maioria, recusando mesmo colaborar com a FUA. Concluindo: apenas no Centro e o Sul existia um protesto nacionalista branco. Perante esta situação, a dimensão e a força das actividades nacionalistas entre a população branca a Sul, o governo de Lisboa enviou a Benguela o Adriano Moreira, que tinha sido empossado recentemente como Ministro do Ultramar, sendo ele nessa altura um acérrimo defensor do luso-tropicalismo.
Houve uma reunião com o dito ministro em Benguela, que antes foi precedida de uma gigantesca manifestação de trabalhadores negros, brancos e mestiços frente ao palácio do Governador, convocada pela FUA através do Rádio Clube de Benguela. Nessa reunião o ministro Adriano Moreira ouviu atentamente os dirigentes da FUA, concordando várias vezes gestualmente com a cabeça e no final pediu-lhes que elaborassem um documento em pormenor em que se debatessem os objectivos a atingir e os meios que julgassem necessários para esse fim, que o entregaria depois a Salazar. Esse documento foi de imediato preparado e foi-lhe entregue no jantar que o obsequiavam nessa mesma noite na Associação
Comercial de Benguela
Só que a sua simpatia durante a reunião e o constante gesticular da sua cabeça em sinal de concordância com o que ali foi exposto, foi um enorme engodo. Passados poucos dias, chegou a Benguela um contingente militar que ocupou logo os pontos estratégicos necessários ao controlo e domínio da cidade, se necessário fosse. Depois em princípios de Junho de 61 foi a vez da PIDE entrar em acção, laando uma vasta operação que resultou na prisão de quase todos os dirigentes da FUA.
A fúria da repressão salazarista abateu-se como uma bomba sobre toda a FUA, tanto em Benguela, como na Catumbela e no Lobito. Incapazes de se organizarem em tão pouco tempo, politica e militarmente contra as forças colonialistas, adicionado ao facto da existência de traição duma minoria da população de Luanda que preferiu a ilusória seguraa de um regime colonial, reaccionário e antidemocrático, levou a FUA a desmoronar-se rapidamente.

A PIDE continuou a fazer prisões em massa. No Sul foram presos e deportados para Portugal vários membros da FUA: o João Mendes, o Fernando Falcão, o Carlos Morais, o Adolfo Maria, o Luis Portocarrero, o poeta Aires de Almeida Santos entre muitos e muitos outros. Outros fugiram para o exterior e foram-se juntar ao pessoal que já se encontrava em Argel, cidade onde se começaram a levantar problemas de racismo por parte de uns quantos negros, segundo Sócrates.
Logo de seguida a Ditadura fascista, acirrou a legislação racista e a separação entre brancos, negros e mestiços com o objectivo de sempre: dividir para reinar, evitando assim qualquer aliaa política entre as três comunidades. E o genocídio cometido pela UPA em 61, contribuiu ainda mais para afastamento de muitos brancos da causa nacionalista porque chegaram à conclusão, logo naquela altura, que não tinham lugar numa Angola governada por uma maioria negra. E isso ficou provado em 1975 com o êxodo dos brancos antes da data da independência. Foi principalmente esse o motivo: o medo e a incerteza, que nos levou (a maioria) a abandonar o país.

Em 1961, já existiam no seio do MPLA problemas do foro racial chegando ao ponto de Viriato da Cruz, ter proposto que a direcção fosse composta exclusivamente por negros, afim de dar credibilidade internacional ao movimento na sua luta política e diplomática, contra a UPA de Holden Roberto, enquanto os mestiços deveriam permanecer na retaguarda dessa direcção. Isso gerou mesmo um enorme mal-estar entre eles.
O aparecimento em Paris de brancos de Angola, refugiados políticos, exercendo actividades em prol do nacionalismo angolano, causou perturbações em vários meios. Para os sectores políticos e humanitários franceses ligados ao apoio a movimentos anti colonialistas, foi grande a novidade da existência de brancos nacionalistas em Angola. Só conheciam nacionalistas negros e era assim que concebiam África.
De facto, a presea de brancos no nacionalismo angolano era então uma surpresa nos meios intelectuais e políticos europeus. Mas foi uma surpresa positiva, à medida que se aprofundavam os contactos com os brancos no exílio, pois verificaram que eles tinham uma total identificação com o nacionalismo progressista negro. Naquela altura, 1961, o branco ou mesmo o mestiço, não podiam continuar a sua luta política a não ser aderindo à FUA, pois era impossível um branco ou mestiço serem militantes do MPLA.
A FUA nunca foi um entrave para o MPLA, antes pelo contrário, foi um apoio seguro. E isso provou-se durante todo o exílio, pois após a repressão, todos os elementos activos da FUA acabaram por se identificar com o MPLA que, na época, era quaseemblemático. Assim a decisão de ir para Argel foi motivado quer pelos contactos que a FUA mantinha com as organizações nacionalistas e progressistas das colónias portuguesas, quer pelo simbolismo da própria cidade, a qual era considerada a “capital” da Revolução Africana.
Certamente que o governo argelino não os teria acolhido se o MPLA se opusesse à sua ida. Quando chegaram a Argel, era delegado do MPLA o doutor Eduardo dos Santos, não este actual presidente, mas sim um grande intelectual, que logo se mostrou preocupado com a possibilidade da imagem do MPLA ser afectada se existissem relações estreitas com membros da FUA, tendo dado indicação para esses militantes serem discretos.
Mas a FUA durou pouco tempo. A FUA saiu moribunda da reunião de Blida na Argélia em Agosto de 1963, embora a sua dissolução só ocorresse oficialmente em 1964, pela mão de João Mendes, mantendo-se algumas células adormecidas, como o caso do Lobito. Ali no Lobito, voltou a renascer já em 1974, após a revolução em Portugal, mas pareceu-me terem acordado tarde para denunciarem a traição que envolveu o processo de descolonização, que eram confirmadas pelas falsas declarações dos principais responsáveis quanto à participação de outras forças políticas. Só em princípio de Dezembro de 1974, o Fernando Falcão tomou consciência do logro em que tinha caído, com as falsas promessas de Rosa Coutinho, do Pezarat Correia e do Melo Antunes.

Falcão agora reside em Portugal (ainda quarta-feira passei ao lado da sua quinta perto de Setúbal). Falcão
foi o verdadeiro líder da FUA. O verdadeiro motor. Foi um homem flexível, um reformista, mas não um revolucionário. Assegurou as ligações do movimento com as actividades económicas quando pensámos no movimento como plataforma para a independência multirracial de Angola.
De referir Mário Soares que, mesmo antes do enunciado dos princípios que deviam presidir a descolonização de Angola pela Junta de Salvação Nacional, já afirmava que os únicos e legítimos representantes das suas populações eram os movimentos de libertação. Foi essa a razão. Como o cozido à “portuguesa” já estava há muito mais que cozinhado, que em finais de Janeiro de 1975 a FUA emitiu um comunicado a informar que iam suspender toda a sua actividade política, decorrente da marginalização a que tinham sido votados em todas as negociações para a independência de Angola. Todos esses grandes homens que desde 1961 lutaram ao lado do MPLA, no exílio tiveram esse castigo, embora alguns voltassem a Angola e desmpenharam lugares de destraque. Agostinho Neto pelos menos não se esqueceu desses companheiros de exílio.

Depois daquela infâmia, aqueles energúmenos irresponsáveis viraram-nos as costas. De Lisboa, nem Presidente da República, nem Governo, nem Comissão Nacional de Descolonização nem Conselho da Revolução, nem Mário Soares, nem Rosa Coutinho, nem Pezarat Correia, nem toda a sua escumalha de acólitos, tiveram a coragem de se fazerem representar no arrear da Bandeira no dia da Independência de Angola. Ninguém assumiu. Os magnatas, traidores, cobardes, gasoseiros, chulos, parasitas políticos, fugiram todos. Nem um só esteve presente. Após criarem o monstro, foi aquela a solução encontrada pela grande maioria dos seus promotores. Muitas vezes pus-me a magicar com os meus botões o que pensariam eles naquele momento, quais os sentimentos que mantiveram afastados aquela escumalha daquele momento tão grande para Angola e para o seu povo? Era simplesmente o remorso, a vergonha, o medo, a cobardia e o sentimento de traição! Isto tudo e muito mais. São verdades que a História e o Tempo vão dando a conhecer aos dois povos irmãos: angolanos e portugueses. Da parte dos socialistas e dos comunistas, nunca houve qualquer preocupação com os povos ultramarinos, fossem eles, brancos, negros ou mestiços. As lamentações hipócritas desses políticos, não têm outro objectivo do que dissimular o verdadeiro carácter de maquinação mundial cuja cobertura ideológica serviam e asseguravam. E o povo angolano? Ao povo angolano apenas haviam prometido a independência a 11 de Novembro de 1975. A felicidade ou tragédia não faziam parte dos seus compromissos. Essa corja de traidores, ficaram com a “consciência bastante tranquila” podendo assim continuarem a passearem-se pelo mundo, amealhando fortunas de duvidosa origem, sempre com um sorriso imbecil nos lábios, com que marcaram o seu gigantesco crime, que depois resultou num crime ainda maior que foram os vinte cinco anos de guerra e o genocídio do povo angolano. Uma luta feroz entre irmãos do mesmo país. Foi um absurdo incompreensível.
Na minha óptica!... Evidentemente.

Carlos Ganhão

 In Mazungue

 

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

EDUCAÇÃO EM ANGOLA

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EDUCAÇÃO EM ANGOLA

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sábado, 24 de julho de 2010

NA PONTA DO PINDA (ANGOLA) EM 76 atiraram homens ao mar... (poema de Namibiano Ferreira)







Em setenta e seis
da Ponta do Pinda
atiraram homens ao mar.
Ninguem viu...
e os deuses, viram?


Em setenta e seis
atiraram da falésia abaixo
os homens para o mar.
Eram seis horas da tarde
se a hora for importante...


Em setenta e seis
os karkamanos
atiraram homens atados
de mãos e pés
da Ponta do Pinda abaixo
para o mar.


Perguntem as ondas da falésia
onde o mar bate no gres
 é lá que existem cazumbis
procurando ainda em vão
se libertarem das amarras
no fundo da falésia
da Ponta do Pinda.


NAMIBIANO FERREIRA

Kung Sun, o povo primitivo da África Austral






Os !Kung San habitam a África Austral há mais de 20 000 anos.

A sua ancestralidade pode ser atestada pelas inúmeras pinturas rupestres que foram deixando pelos caminhos do tempo. São caçadores-recolectores, autênticas relíquias vivas do nosso passado humano. Usam uma linguagem de estalidos (representada graficamente por !) e o nome que se dão a si próprios pode ser traduzido por “Pessoas”. São geralmente conhecidos pela designação inglesa, “Bushmen” que adaptamos para “Bosquímanos”.


Os !Kung vivem no deserto do Kalahari que não é um deserto de dunas, antes, uma espécie de savana que ocupa uma extensa área partilhada pelos actuais territórios da África do Sul, Namíbia e, sobretudo, Botswana. A Norte, algumas franjas entram por terras angolanas. O Kalahari é atravessado por alguns rios que determinam os caminhos dos !Kung e tem época de chuvas que permite que a vida vegetal e animal sejam abundantes. O modo de vida deste povo do deserto que, inesperadamente, passou a contar com uma garrafa de coca-cola, ficou ternamente registado no filme de Jamie Uys, Os Deuses Devem Estar Loucos.


Há cerca de 25 anos, o Professor Viegas Guerreiro, decano da antropologia em Portugal, apresentou-me aos !Kung, exibindo um filme que ele próprio realizara durante os dois anos em que vivera com este povo. Aprendi, assim, que os San não têm chefes e que as decisões que interessam ao grupo são tomadas em grupo. Esses grupos podem ser extensos – até 100 pessoas – se os alimentos disponíveis forem bastantes, mas normalmente são menores, podendo não ultrapassar os 10 indivíduos.

Os San abrigam-se em cabanas que constroem recorrendo à vegetação alta que fazem assentar sobre uma estrutura de ramos. Os homens dedicam-se à caça e não importa os dias que demore até capturarem uma presa, porque a maior vergonha é regressar ao acampamento sem o suprimento de carne necessário. Caçam usando lanças feitas com as próprias mãos, com pontas de sílex (?) habilmente trabalhadas e que embebem em veneno eficaz. Sobre as mulheres recai a obrigação de serem elas a garantir o sustento diário, recolhendo frutos e raízes. Com que mestria o fazem! Onde nós não vislumbramos nada a não ser areia, elas abrem um buraco fundo com as mãos e encontram raízes enormes que o saber ancestral lhes ensinou a descascar bem com as suas lâminas de pedra e a pisar cuidadosamente para lhes extrair o suco venenoso. Depois resta uma farinha que assam sobre as brasas da fogueira pequena. Quando escasseiam as bagas e os frutos vão-se embora, seguindo os trilhos do rio. Pelo caminho vão deixando registos nas pedras com as suas magníficas pinturas rupestres ao ar livre.

Quando morre alguém metem-no na sua cabana. Os vivos, mesmo que haja alimentos, levantam o acampamento e partem, levando consigo o nada que possuem e quase nada deixando que permita o estudo do seu modo de vida a quem se queira guiar pelos restos materiais. O abandono dos mortos, segundo o professor Viegas Guerreiro, é das poucas manifestações religiosas dos San. A outra é a dança ritual dos curandeiros, para curar os doentes ou para pedir ao tempo que mande a chuva da sobrevivência.

Nem historiadores nem antropólogos são capazes de explicar por que razão alguns povos evoluíram no seu modo de vida enquanto outros se deixaram permanecer imutáveis. Quando, há cerca de 8000 anos o Neolítico chegou a África, os povos que se sedentarizaram e começaram a praticar a agricultura viram a sua população crescer e passaram a exercer grande pressão sobre os territórios percorridos pelos povos nómadas. Assim aconteceu com os Bantos e os !Kung San. Estes foram empurrados para o deserto que nunca foi terra que apetecesse a ninguém. Mas o golpe maior chegaria com os Boers, os puritanos holandeses que, em guerras sucessivas, iriam reduzir este povo a números insignificantes.

Em data que não sei precisar, o governo do Botswana delimitou uma área, a que chamou reserva, e encafuou lá os bosquímanos. Área sem acesso a água e pouco extensa para permitir o modo de vida tradicional, condenando-os à morte lenta. Em 1997, o supremo tribunal desse país, alegando prejuízos para o meio ambiente, decidiu expulsá-los da reserva. O mesmo organismo, há poucos dias, permitiu o seu regresso, mas desobrigando o governo do abastecimento de água e de alimentos.




Falta dizer que, na reserva, tinham sido encontradas importantes jazidas de diamantes. Pobres !Kung San!

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Os Anos da guerra, 1961-1975: os portugueses em Africa : crónica, ficção e ... Por João de Melo




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A utilização abusiva dos termos "colonial" e "guerra colonial"

Os termos e os conceitos têm normalmente um significado preciso. E sendo a língua portuguesa assaz rica, não há razão alguma para que no discurso oficial, nas academias de cultura, nos órgãos de Estado, na comunicação social e nos portugueses em geral, se usar e abusar de termos fora do seu significado e/ou do âmbito em que devem ser aplicados.
    Vem isto a propósito do abuso e despropósito com que se passaram a usar os termos que servem de título ao escrito.     De facto estes termos passaram a ser utilizados a esmo, no pós 25 de Abril de 1974 e foram-no sobretudo por razões ideológicas. Isto é, quem entende que as campanhas de contra-subversão que fomos forçados a conduzir entre 1961 e 1974, em Angola, Guiné e Moçambique eram injustas, utiliza os termos “colonial” e “guerra colonial”. Quem, ao contrário, entende que eram justas as acções desencadeadas pelo governo português de então, utiliza os termos “guerra do ultramar”. E quem não se quer conotar com nenhuma das ”facções” ou entrar em polémicas,  chama-lhe “guerra de África”, assim à moda de “ponte sobre o Tejo”…
    Convém, de uma vez por todas, fazer “doutrina” sobre o assunto e desmistificar ideias feitas (algumas a martelo e… foice).
    O termo “colonial” tem a ver com colonialismo, entendido como a exploração de um povo por outro povo – um conceito negativo, portanto. E por “guerra colonial” terá que se entender o esforço, em termos militares, em impor tal exploração, ou seja, o colonialismo.
    Em contraponto ao colonialismo existe um outro conceito, que é o de “colonização”, isto é, a transferência de cultura, o desenvolvimento económico e a sucessiva integração de populações tidas por “indígenas” por outros povos mais “avançados” com quem contactaram ou que se estabeleceram no seu território.
    Foi isto que se passou, por exemplo, em Portugal continental durante a reconquista cristã, havendo até no século XX, um organismo (extinto em 1966), que dava pelo curioso nome de Junta de Colonização Interna - com a ressalva de que as populações mouras tinham um grau civilizacional idêntico



     Ora o conceito colonizador tem uma carga positiva, em qualquer parte do mundo, e foi isso que os portugueses fizeram durante a sua extraordinária expansão pelas quatro partes do mundo. E fizeram-no de um modo constante, com fins espirituais e não apenas materiais, integrando e não discriminando e oferecendo a sua protecção e até a sua nacionalidade a todos os que se abrigassem debaixo da bandeira das quinas. Ou seja foi um esforço colectivo, orientado de cima e que assumiu, desde o início, o natural prolongamento da mãe-pátria relativamente a territórios e populações.
    Quer isso dizer que não houve latrocínios, erros ou depredações? Houve, mas têm que se ver as coisas à luz da época e da evolução dos conceitos morais dos tempos. E têm que se ver as coisas em termos relativos. Nesse âmbito ninguém se portou melhor do que nós. E as malfeitorias ocorridas, nunca tiveram o beneplácito ou o incitamento das autoridades. Foram combatidos, o pecado não deixou de ter esse nome e o vício nunca foi considerado um bem.
    Houve situações de colonialismo? Houve, nomeadamente por parte de algumas grandes empresas. Sobretudo quando algumas pessoas influentes na sociedade portuguesa se deixaram cativar, no fim do século XIX e princípios do século XX, pelo exemplo do colonialismo inglês e pelos lucros que daí poderiam advir… Esqueceram-se assim dos grandes princípios seculares da colonização portuguesa, causando os danos associados e que eram inevitáveis. Mas tais acções não põem em causa os princípios do Estado Português desde que Afonso de Albuquerque instituiu o “mestiço” e o todo da obra da lusa gente, ao passo que os abusos que ainda havia estavam a ser firmemente combatidos desde o 3º quartel do século XX.
    Ora o que aconteceu no pós 2ª Guerra Mundial, foi ter-se inventado o conceito de autodeterminação dos povos – como do anterior já se tinham inventado alguns, e posteriormente se tentou impor outros.
    Este conceito – caro à Guerra Fria – não visava, objectivamente, dar a povos que estivessem integrados noutras unidades políticas, a capacidade de poderem dispor de si mesmos do modo que entendessem, mas sim a substituição de soberanias e o domínio económico/financeiro/estratégico.

    Os países visados foram os europeus, que dispunham de territórios fora da Europa e apenas esses. Para tal, entre outras “armas”, confundiu-se o conceito de colonização em colonialismo e apenas nesse, diabolizando-o. Tudo isto se transformou num monumental embuste a ser aplicado de forma cega.
    Ora Portugal que vivia em paz e sossego dentro das fronteiras, há muito estabilizadas e sem fazer má vizinhança a ninguém, viu-se, primeiro atacado em termos político-diplomáticos e depois com extrema violência física.
    A resposta que naturalmente foi dada a isto, contemplou várias vertentes e, quando se tornou necessário, a vertente militar.
    Ora, chamar a isto “guerra colonial” é um despautério sem qualificação que só a defesa de uma ideologia vesga pode justificar.
    O termo “guerra do ultramar” aceita-se no sentido em que as operações se desenvolveram em territórios ultramarinos, conceito antigo e sem qualquer carga pejorativa, ou outra.
    Mas, pensem bem, o que as FAs portuguesas e as policiais e de segurança, bem como todas as autoridades civis empenhadas, andaram a fazer durante 13 anos, não terá sido a “condução de operações militares e policiais de contra guerrilha, em larga escala, em defesa da integridade do território e salvaguarda das populações, em reforço dos meios das autoridades provinciais”?
    E tal esforço não foi feito contra infiltrações vindas do exterior e apoiadas por potências estrangeiras? (recorde-se que em qualquer território português que fosse ilha nunca houve qualquer perturbação).
    Será que 36 anos depois e com os ânimos aparentemente serenados esta evidência ainda não entra pelos olhos adentro?

João José Brandão Ferreira
TCor/Pilav(Ref)
31/05/2010
 
Fotos:
1) Estátua de Cristo-Rei em Sá da Bandeira, Angola (Fonte: "Os nossos Kimbos"). A preocupação de evangelizar sempre esteve presente nos objectivos da nossa expansão ultramarina.
2) Coluna de militares portugueses em viaturas "Unimog", no Norte de Angola. O envio de tropas para as Provínicas Ultramarinas nunca foi uma acção de "guerra colonial", mas simplesmente uma resposta necessária e justa aos ataques terroristas instigados pelo comunismo internacional, liderado pela Rússia Soviética.

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domingo, 18 de julho de 2010

Colonização: Entrevista com Adriano Moreira



Entrevista
Adriano Moreira
Primeira parte da entrevista concedida por Adriano Moreira, distinguido com a edição de 2009 do «Prémio de Cultura Árvore da Vida - Padre Manuel Antunes», a Paulo Rocha e Luís Filipe Santos, da Agência Eccesia.
No seu livro «Espuma do Tempo» afirma: "A arte de esquecer a inutilidade em que se traduz a maior parte das inquietações que consomem o nosso tempo, reduz as recordações a tão pouco que, muitas vezes, se contam num gesto, e sem palavra". Que gesto recordaria o seu contributo para a sociedade portuguesa ao longo destes anos?
Não me considero um exemplo dessa capacidade de resumir tudo num gesto. No entanto, tenho a convicção de que - isso corresponde à verdade - aquilo que sempre sublinhou a minha intervenção foi a convicção do papel da Universidade na vida portuguesa. Para que tal acontecesse tive de praticar alguns gestos e, certamente, não foram todos agradáveis. Tivemos dificuldades grandes no percurso, mas acho que está suficientemente recompensado. 
 
Investiu muito dos seus recursos e esforços nesse projecto.
A Universidade é um compromisso de vida. A Escola Superior Colonial - onde comecei a minha vida - estava organizada como escola de quadros. Depois de ter ganho alguma experiência nesta área e no panorama universitário português pareceu-me que tínhamos chegado a um momento em que já não era uma escola de quadros que poderia corresponder às exigências da conjuntura que tínhamos entrado. Era necessário transformá-la, realmente, numa instituição universitária que obedecesse aos princípios, à ética, aos objectivos e à relação da Universidade com a comunidade. Os factos, infelizmente, confirmaram que a conjuntura se agravaria. Naquele tempo, se averiguarmos a relação do Ensino Superior com problema fundamental que era o Ultramar, verificamos que o ensino era muito limitado: as Faculdades de Direito tinham uma cadeira - em geral era de um semestre - sobre administração colonial; a Agronomia tinha também uma cadeira sobre a agricultura tropical e nas escolas de Economia não era muito vasto o leque de matérias sobre esta área.
Essa paixão pela transformação da escola teve consequências negativas aos olhos daquele tempo?
Não digo que foram negativas, mas foram difíceis. Naturalmente que outras pessoas mantinham outra concepção e estavam envolvidas no passado feito com devoção naquele sentido. Aqui tratava-se - com maior ou menor acerto - entender que a conjuntura era completamente diferente e que a alteração tinha que ser feita. A Escola passou por dificuldades muito grandes - designadamente suspensão de cursos -, mas foram vencidas. Hoje, acho que ela desempenha um papel suficiente dentro da Universidade Técnica.
Para além da educação, a questão colonial foi também uma das suas paixões. A sua tese foi sobre as questões prisionais no Ultramar.
Há uma espécie de queda no mundo, que suponho se traduziu em duas quedas. Em primeiro lugar, a minha formação foi na Faculdade de Direito de Lisboa. Era uma ocupação muito relacionada com o Direito Positivo. A certa altura, o Almirante Sarmento Rodrigues - era Ministro do Ultramar - que tinha como subsecretário o Raul Ventura - uma das inteligências mais brilhantes da sua geração - pediu-me para estudar uma reforma do sistema prisional do Ultramar. Algo que não conhecia, ou melhor só conhecia de livros. Fiz uma visita a todos os territórios de África que mudou completamente a minha atitude. Verifiquei que o plano normativo português, incluindo os grandes princípios constitucionais, não tinham uma aplicação muito rigorosa nesses territórios.
Nessa altura África entrou-lhe no sangue.
Comecei a derivar para o estudo das questões sociais e menos para a capacidade da legislação ser o instrumento orientador. Indispensável sim, mas na vigência da época bastante afastado dos factos. Daí resulta todo o trajecto de reforma da Escola, modificação de currículos e o chamamento de jovens para o professorado - muitos deles enviados para o estrangeiro para obterem os títulos académicos - para combater um pouco o sistema arquipelágico em que se vivia.
Depois tenho outra queda no mundo que foi a ida na delegação de Portugal às Nações Unidas. Aí, acentuou-se a ideia que a mudança da Ordem Internacional não podia deixar de afectar o país severamente. Foi preciso acrescentar, às inquietações anteriores, o estudo dos desafios internacionais que não têm deixado de crescer em relação ao estatuto real do país na Ordem Internacional. Neste momento - como todos sabem - está numa crise enorme. Estas duas quedas implicaram uma mudança na minha vida.
Mudanças radicais até ao convite, em 1960, para Subsecretário de Estado do Ultramar e, posteriormente, para Ministro do Ultramar.
Este chamamento foi um pouco surpreendente. Tinha estado nas Nações Unidas e escrito relatórios [para o Ministério do Ultramar] sobre o que lá se passava porque a Escola - durante bastante tempo - dependia, administrativamente, do Ministério do Ultramar por causa dos orçamentos. Fui chamado porque num dos relatórios tinha escrito que Portugal tinha evitado a condenação das Nações Unidas porque tinha conseguido manter o terço de segurança que impede a condenação, mas que entre 1960/61 a questão passaria para o terreno. Tudo indicava que deixaria de ser um debate puramente parlamentar. E isso aconteceu... Fui chamado para me questionarem como tinha previsto isso. Dei uma explicação simples. Não foi uma grande ciência porque vi o programa de entrada de novos países e, nessa data e com a entrada desses países, perderíamos o terço. Portanto, a condenação viria aí. E com esta, a legitimidade da reacção poderia ser armada de acordo com a experiência que já tínhamos do mundo.


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quinta-feira, 27 de maio de 2010

Angola (part 2/8) verdade sobre a guerra civil!!

A guerra de Angola (part 1/8) A verdade sobre a guerra civil!! )

Dia da Independência de Angola ( video versão MPLA)

Polícia africana na Luanda colonial (video)

40 NATIVE POLICEMEN WED IN LUANDA

quarta-feira, 26 de maio de 2010

A segunda humanidade

Estudo genético revela que espécie humana quase se dividiu em duas há cerca de 150 mil anos

CLAUDIO ANGELO
Os bosquímanos da África do Sul sempre foram considerados povos singulares: são fisicamente distintos, preservam uma cultura de caçadores-coletores que remete aos hábitos da humanidade na Idade da Pedra e têm línguas que não se parecem com nenhuma outra (uma de suas consoantes, por exemplo, é um estalo feito com a boca). Agora, um grupo de geneticistas encontrou uma razão para tamanhas diferenças: os ancestrais dos bosquímanos estiveram a ponto de originar uma outra espécie humana.
Durante um tempo que variou de 50 a 100 milênios, os khoisan (nome comum dado a todos esses povos) estiveram evoluindo isoladamente do restante das populações de Homo sapiens, uma espécie relativamente nova e com talento para colonizar novas terras -mas que, no entanto, ainda não havia deixado a África.
Esse isolamento só se rompeu há 40 mil anos. Não fosse essa troca recente de genes, os khoisan possivelmente estariam a caminho da especiação, evento que acontece quando duas populações de organismos evoluem separadamente a ponto de não poderem mais se cruzar entre si.
“Especiação não é um termo adequado”, corrige o geneticista Fabrício Santos, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). “Deve-se falar em diferenciação. Demonstrou-se que realmente eles ficaram separados por um tempo significativo, mas não foi tempo suficiente para haver também isolamento reprodutivo, que é a marca final da especiação. Cinqüenta mil anos são 2.000 gerações, o que é um tempo relativamente curto para a evolução de novas espécies com isolamento reprodutivo.”
Marcas
Seja como for, essa longa separação entre os khoisan e o restante da humanidade deixou marcas profundas nos genes dos bosquímanos. A dimensão dessas marcas foi revelada na semana passada por Santos e colegas de várias instituições de pesquisa ao redor do mundo. Esse grupo de cientistas compõe o Projeto Genográfico, um esforço para mapear a história das populações humanas e de suas migrações ao redor do planeta olhando o DNA.
Em um artigo publicado on-line na revista científica “American Journal of Human Genetics”, o geneticista americano Spencer Wells e colegas de oito países olharam um tipo específico de DNA, contido nas mitocôndrias (as usinas de energia das células). O chamado DNA mitocondrial é um excelente contador de histórias de migração, porque escapa do embaralhamento genético ocorrido entre os cromossomos no núcleo celular durante a fecundação. Além disso, ele só é transmitido de mãe para os filhos e sofre mutações (trocas espontâneas em alguma das letras químicas A, T, C e G que compõem a molécula de DNA) a uma taxa conhecida.
Estudando o DNA mitocondrial (mtDNA, na sigla) de duas pessoas quaisquer, é possível saber em que ponto do passado elas compartilharam um ancestral materno comum.
Wells e seu grupo, no entanto, não estão atrás de um ancestral de duas pessoas, mas sim dos ancestrais maternos de toda a humanidade. Para isso, eles seqüenciaram o DNA mitocondrial completo de 624 pessoas, comparando as mutações que elas têm em comum (haplogrupos) e datando as separações entre cada população de acordo com o relógio molecular oferecido pelo mtDNA (no qual uma mutação ocorre a cada 5.138 anos, em média). Isso permitiu montar a árvore genealógica materna humana.
Dois troncos
O que os cientistas verificaram foi que essa árvore não tem um único tronco e sim dois, ambos enraizados na África -que os cientistas chamam de ramo L0 e ramo L1′5.
Ao tronco L0 pertencem os khoisan. Ao L1′5 pertence basicamente todo o resto da humanidade. As linhagens que deixaram o continente africano a partir de 60 mil anos atrás e geraram desde os índios americanos até os aborígenes da Austrália, passando pelos europeus e os asiáticos, são apenas duas; as outras são todas africanas.
“Simplificando, um bantu (típico africano) é mais relacionado conosco [de ancestrais europeus ou indígenas] do que com os khoisan”, diz Santos.
Para o cientista, o achado foi uma surpresa: “Pouca atenção havia sido dada à diversidade genética na África. Sabia-se que ela era maior, mas o estudo detalhado mostrou que, na maior parte do tempo, nossa espécie esteve lá pela África, diferenciando-se internamente”, antes das migrações para fora.
A análise também indica a formação de pequenas comunidades independentes em vez de um espalhamento uniforme dos humanos modernos. O tamanho pequeno das populações provavelmente facilitou o isolamento dos ancestrais dos khoisan no sul do continente, devido talvez a uma mudança no clima. A barreira só seria rompida milênios mais tarde, quando a tecnologia “moderna” do fim da Idade da Pedra permitiu recolonizar o sul.
“Folha de S. Paulo ciência”
 Clicar AQUI para saber mais sobre este povo

Africa negra (colonização , escravidão e independência)

1. O tráfico de escravos
2. O comércio triangular
3. A luta pela abolição da escravatura
4. A partilha de África
5. O Congresso de Berlim
6. A reacção dos africanos
7. A descolonização
8. Os partidos e movimentos africanos
9. Dificuldades africanas

Posfácio ao Portugal, o Ultramar e o futuro por Manuel José Homem de Mello





Estávamos em 1960.
 (…) O ciclo colonial percorria os derradeiros passos. Portugal encontrava-se numa encruzilhada decisiva: ou procurava resistir a tudo e a todos no intuito de preservar e manter o Império, inclusivé pela força das armas, ou optava pela via das negociações diplomáticas, sigilosas e transparentes. (…). Poucos seriam os que, naquela altura, ousavam defender uma solução negociada designadamente no seio dos comandos militares que, surpreendentemente, encontraram no ministro da Defesa, Júlio Botelho Moniz, o intérprete das mutações políticas que se impunha levar a cabo.(…)
Sondado pelo ministro e pelo genro Manuel Cotta Dias para assumir os Negócios Estrangeiros, devo confessar que senti, aos 30 e poucos anos, um misto de orgulho e receio. (…)
Reconheça-se, ainda, que a opinião pública portuguesa não estava preparada para a «entrega» das colónias por nossa própria iniciativa. Era quase certa a formação de uma organização de extrema-direita, como aconteceu em França com a OAS.
(…) Inviabilizada a tentativa de golpe de Estado, o chefe do executivo português recusou seguir o exemplo do General De Gaulle não aceitando renunciar ao princípio da Argélia Francesa. Também deste lado da fronteira, se gritava “Angola é nossa”. E era. Mas por pouco tempo mais (…).
Em 1954, Portugal perdia os primeiros territórios ultramarinos, Dadrá e Nagar-Aveli. Embora só em 61, antes da invasão de Goa, é que a Índia considerou como concluída a anexação (…).
O malogro do golpe de Botelho Moniz precipitou os acontecimentos embora a agonia do colonialismo português fosse prolongar-se por mais 13 anos. Acabaríamos por regressar ao rectângulo Europeu da pior maneira, sem rei nem roque, como autênticos cavaleiros de triste figura, quando possuíamos todas as condições para continuar - sem sair. (…). Daí à independência seria um ápice. (…) Salazar optou pela guerra para preservar o Império. Perdeu a guerra e Portugal ficou sem as colónias. (…)
Como foi possível que alguém tão inexperiente como eu tivesse visto o que um homem com inteligência, a perspicácia, a ponderação e os acontecimentos do então Presidente do Conselho, se revelou incapaz de prever? Só encontro duas respostas alternativas possíveis:
- Ou o Dr. Salazar, a partir, sobretudo, da perda de Goa, tinha deixado de estar precocemente na plena posse das suas excepcionais qualidades intelectuais e anímicas (…)
- Ou então optou por jogar Portugal na “roleta da sorte”, preferindo continuar no poder, apesar de não ter ilusões quanto ao epílogo da tempestade que se acumulava no horizonte, nem sobre as trágicas consequências dela resultantes (…)
A irreprimível vocação para a independência, pelos territórios por nós descobertos (…), manifestou-se muito antes da febre colonialista que viria apossar-se do Estado Novo três séculos mais tarde para acabar por aderir ao integracionismo que viria a ser oficialmente adoptado pelo regime então vigente, através do célebre grito lançado pelo Presidente Carmona ao chegar a Moçambique: AQUI É PORTUGAL!. E sê-lo-ia, se dependesse apenas da vontade de alguns.
Na verdade, andámos em sentido contrário ao da História: Colonialistas quando não o deveríamos ser; imperialistas quando o colonialismo se definhava rápida e inexoravelmente.
Não se trata de uma simples teimosia ou casmurrice. Continuo a pensar que o nosso caminho não deveria ser o da persistência na colonização mas liderar precisamente o oposto ou seja proporcionar e até mesmo incentivar a descolonização. Se já em 1500 fôramos capazes de proporcionar novos mundos ao mundo no século XX bem poderíamos, e deveríamos, ter seguido idêntico caminho procurando forjar (…) novos “brasis”.
Pois não é verdade que o sucesso de qualquer política se mede pelos resultados alcançados?
O que se afigura extraordinário é encontrar ainda bastante gente -  não muita mas mesmo assim gente de qualidade e em número suficiente para nos perturbar – gente que continua convencida ou dizer-se convencida que a nossa missão era a da defesa da integridade territorial portuguesa do Minho a Timor (…)
Todos sabemos que errar é humano. E humano também é reconhecer que se errou, como aconteceu por exemplo, com Robert Macnamara considerado um dos homens mais inteligentes da sua geração, Ministro da Defesa da administração Kennedy que veio a terreiro confessar que se enganara ao articular e dirigir a invasão norte-americana no Vietname, intervenção essa que acabou por confessar ter sido um erro descomunal.
Quem entre nós teve a coragem de semelhante atitude? Ao que saiba até agora – ninguém (…)
Um erro pode ser pior do que um crime. Ao mandar assassinar o Duque de Enghein, Bonaparte teria cometido um erro que Talleyrand não teve dúvida em considerar mais grave que um crime.
Pois em termos políticos apetece entrar no portal da História à ilharga do príncipe de Perigord,  reconhecendo e catalogando o ocaso do Império, de mãos dadas com a catástrofe de Álcacer-Quibir, como um dos mais trágicos, dolorosos, erráticos e irresponsáveis episódios do historial português.
Dá ideia de que nos consideramos tocados pela varinha mágica da infabilidade (…) mas enquanto os demais reconhecem os erros que cometem, nós nunca erramos, temos sempre razão.
Primeiros a chegar bem poderíamos não ter sido os últimos a partir. E sobretudo a partir como partimos, salpicando de opróbrio a memória daqueles que honraram a nossa Pátria morrendo por ela, glorificando Portugal (…)

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Escritor russo revela plano de decapitação de dirigentes da UNITA e FNLA caso estivessem em Luanda no dia da independência





 
 
Maputo  - Contrariamente ao que se julgava, o Almirante Rosa Coutinho, que após o golpe de 25 de Abril de 1974 em Portugal foi nomeado alto-comissário português em Angola, não foi o único a favorecer o MPLA na tomada do poder pela força em Luanda à revelia do Acordo de Alvor que previa a realização de eleições livres. Leonel Cardoso, que viria a substituir Rosa Coutinho no cargo de alto-comissário português, desempenhou na prática um papel igualmente pernicioso para o futuro do novo Estado independente.


De acordo com Vladimir Shubin, autor do livro, «The Hot Cold War – the USSR in Southern Africa», em Outubro de 1975, cerca de um mês antes da proclamação da independência de Angola, Leonel Cardoso convidou Igor Uvarov, oficial russo que trabalhava sob a capa de correspondente da agência TASS em Luanda, para uma conversa, tendo-lhe confidenciado que “Portugal deparava com um problema: a quem deveria transferir o poder em Angola.” Cardoso disse ainda a Uvarov que “no dia anterior, as autoridades portuguesas em Angola haviam informado o Bureau Político do MPLA de que não poderiam transferir o poder apenas para este movimento, mas que teria de faze-lo para ‘o povo angolano’”.

O autor do livroautor do livro, «The Hot Cold War – the USSR in Southern Africa», revela que Leonel Cardoso em Outubro de 1975, cerca de um mês antes da proclamação da independência de Angola, pediu a Uvarov para que “enviasse uma mensagem a Moscovo no sentido da União Soviética influenciar o MPLA de forma a que a transferência de poderes fosse de ‘natureza conjunta’”, para depois fazer recordar ao correspondente da TASS que “anteriormente as tropas portuguesas haviam ajudado o MPLA a expulsar de Luanda unidades da FNLA e da UNITA”.

Leonel Cardoso chegou mesmo a dizer que “caso os dirigentes da FNLA e da UNITA viessem a Luanda para a cerimónia de transferência de poderes, estas organizações poderiam ser ‘decapitadas’.”

No livro, Vladimir Shubin cita Sérgio Vieira, antigo chefe da polícia política, SNASP, como tendo revelado que o regime da Frelimo também deu o seu aval à violação do Acordo de Alvor, favorecendo a tomada do poder pela força por parte do MPLA, enviando para Luanda uma peça de artilharia, vulgo órgão de Stalin, que, conjuntamente com outras peças idênticas fornecidas por Moscovo, permitiram às tropas de Agostinho Neto impedir que forças fiéis a outros movimentos entrassem na capital angolana para a proclamação da independência.
 

Fonte: Canalmoz      

A Língua Portuguesa como instrumento veiculador de identidade nacional em Angola

Parte de um texto por Mónica Hilário


«.... No momento actual, para o governo angolano, a língua portuguesa serve dois propósitos. Primeiro, continua a servir de instrumento linguístico para a coesão administrativa do país. Segundo, fornece a língua para uma comunicação mais vasta (nacional e internacional). Ganhando um novo poder de base e um novo elitismo. Poderíamos, mesmo, afirmar que o português adquiriu um "status" institucionalizado.
O português tem uma vantagem clara, quer ao nível de atitude, quer ao nível linguístico, adquiriu neutralidade num contexto linguístico onde as linguagens nativas, dialectos, e estilos por vezes adquirem conotações políticas indesejáveis. Em tais contextos o poder de neutralização é associado com o português, o português fornece - com ou sem mistura das línguas bantas - um código adicional sem conotações ou desigualdades étnicas evidentes.
Neste ponto, queria salientar que a língua é um elemento essencial na construção da identidade cultural colectiva (1)de um Estado. A identidade cultural colectiva é constituída de elementos supra-étnicos de forma a preservar e proteger a unidade nacional. Consequentemente, a identidade cultural colectiva é uma garantia de sobrevivência do Estado. Os novos Estados africanos, nos quais se inclui Angola, contém dentro de si vários grupos étnicos - que, geralmente, não tem nada em comum exceptuando o facto de pertencerem ao mesmo Estado -, estes constituem identidades culturais que implicam a possibilidade do surgimento de rivalidades étnicas e, até mesmo, o perigo de uma etnia reivindicar, dentro das fronteiras do Estado, um determinado território como exclusivamente seu. Os riscos que estão subjacentes ao problema de os países africanos se encontrarem fragmentados em etnias diferentes, levam-nos a compreender como a criação de elementos supra-étnicos é indispensável, uma vez que é necessária a afirmação de uma identidade colectiva para a existência e sobrevivência política, económica e social destes territórios. E é, deste modo, que a língua portuguesa - como língua oficial e veicular - surge como um elemento supra-étnico extremamente importante em Angola.
Uma aparente contradicção parece surgir quando o Estado angolano toma a língua portuguesa como a língua oficial e, simultaneamente, revaloriza as línguas nacionais. Se a língua portuguesa é fundamental como elemento supra-étnico, na construção da identidade colectiva da nação, então como explicar a revalorização das línguas nacionais quando estas implicam a fragmentação de Angola por áreas linguísticas e são associadas a diversas identidades étnicas, (que aparecem como potenciais impedimentos à formação da identidade colectiva que se tenta construir)? Uma forma mais directa de pôr a questão é: Como explicar a revalorização das línguas nacionais quando estas estão associadas aos grandes medos do "regionalismo" e do "tribalismo", ou seja ao perigo destes poderem desmembrar o estado angolano? Uma possível resposta pode encontrar-se no estudo de Orvar Löfgren (Löfgren, Orvar. 1989.) sobre a nacionalização da cultura, que passo a transcrever,
"Many forms of regionalism may function not as a potential threat to national break-up but rather as a kind of tension which may keep the national project alive and vital.(...) In some ways the province or region has had the role of providing a micro-level model for patriotism. By learning to love your home region - one part of the national whole - you prepared yourself for national feelings on a higher level"(Löfgren, Orvar. 1989. pp.18-19)
A resposta pode, assim, residir na tentativa de o Estado angolano em transformar os potenciais inimigos da nação em potenciais pilares de suporte da nação. Deste modo, a revalorização e o reconhecimento, que se assiste, das diferenças regionais, culturais, étnicas ou linguísticas tem um interesse subjacente. Ou seja, primeiro tenta-se passar a ideia de que constituem partes importantes do todo nacional. Partes que não se repelem na diferença mas sim que se complementam na diferença, de forma a dar um carácter da nação como um todo integrado. Isto é feito com o interesse de que estas actuem a um nível primário como uma preparação ou formação de um sentimento patriótico. Segundo, pretende-se a extensão a partir deste nível inferior, do sentimento de "amor" à parte, para um nível superior, de "amor" ao todo, ou seja à Nação. No caso das línguas nacionais esta revalorização e reconhecimento é comprovada através da iniciativa da Presidência da República na criação do Instituto Nacional de Línguas, em 1978, por decreto lei nº62/78, de 6 de Abril. Este promoveu um estudo sobre as seis línguas nacionais de maior difusão e a criação de um alfabeto único que possibilitasse a expressão escrita das línguas nativas (Kukanda, Vatomene. 1986). A importância de todo este trabalho realizado em torno das línguas nativas enquadra-se na mesma lógica acima descrita. Em Angola existe uma grande percentagem de indivíduos angolanos em situação de analfabetismo. Estes dominam melhor a sua língua nativa - apresentando grandes dificuldades na fala e na compreensão do português. Dado isto, a transcrição das línguas nativas à expressão escrita, seria o primeiro passo que permitiria a estes indivíduos aprenderem a ler e a escrever mais facilmente (pois estariam a reconhecer a sua língua nativa oral na escrita, ao longo da sua alfabetização), o segundo passo seria então a aprendizagem do português. O bilinguismo português-língua nacional, que se pretende, não quer dizer que as duas línguas se encontram ao mesmo nível de importância prática. O português é sempre a língua preferencial no ensino pós-alfabetização, na informação, nos contactos formais ou exteriores. O que implicitamente significa que mesmo na revalorização das línguas nacionais que se proclama, na prática estas continuam, de longe, a ter um valor muito abaixo do da língua portuguesa.
....."

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