sábado, 16 de outubro de 2010

Procissão no Quitexe - 21-01-1969


Em frente do clube foto de José Oliveira



De regresso à igreja foto de José Oliveira

            
Tocam os sinos da torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

publicado por Quimbanze in blog QuitexeHistória
Do mesmo blog :

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Histórias da minha meninice no Quitexe I- António Guerra
 António Guerra continua a brindar-nos com as suas histórias de uma infância feliz passada no Quitexe:

 
À PESCA… sem cana

Das minhas lembranças mais longínquas do Quitexe, recordo-me da época em que havia meia dúzia de casas e da união entre as pessoas. Éramos uma espécie de família alargada, com temperamentos diferentes, mas de uma solidariedade e interacção que só quem passou por Angola pode entender.
Ao fim de semana, duas ou três famílias juntavam-se e rumavam à margem de um rio para o costumeiro pic-nic.
  
pic-nic na zona do Quitexe Foto João Nogueira Garcia
 
Do menu pic-nic, fazia sempre parte a pescaria no rio. À falta das engenhosas canas de pesca, outro engenho surgiu - as bombas feitas pelo sr. Silva Fogueteiro .
O almoço era feito no local e mais para o meio da tarde os homens lançavam uma ou duas bombas para o rio. As mulheres e crianças dirigiam-se para um ponto a jusante onde houvesse pé e com grandes cestos da apanha do café, era só deixar entrar os peixes que vinham a boiar na corrente. O peixe era então distribuído por todos.
 Pescaria no Rio Luquixe - Foto João Nogueira Garcia
 
Só mais tarde começou a aparecer pelo Quitexe um senhor numa carrinha de caixa aberta, com grandes caixas na carroçaria, onde trazia peixe envolto em camadas de gelo partido e que vinha de Luanda.
Eu gostava mais deste peixe do que do rio, pois o do rio tinha muitas espinhas. Mas do que eu mais gostava mesmo era ir comer (sem a minha mãe dar conta) umas funjadas com os criados. Ainda hoje o meu prato favorito é uma boa funjada de peixe seco ou uma moambada de galinha. Como tive o privilégio de partilhar estas iguarias com quem mais entendia delas, até aos meus 19 anos de idade, comi sempre o funge com as mãos. Asseguro-vos que tem outro paladar comer o funge à mão, tal como o frango de churrasco. Quando comecei a namorar e para que não me julgassem algum troglodita, passei a comer mais “civilizadamente”.

António Guerra

....................
Recordar algo sobre Quitexe é responder à mais conhecida inquisição de psicólogos / psicanalistas : relate as primeiras lembranças de sua vida .
Não quero fazer um texto tão descritivo, até porque não tenho o dom dessa arte .
Vou dividir minhas lembranças , em ordem cronológica , em três fases : Antes de 1961, 1961 e pós 1961 até 1973  quando vim para o Brasil e passei pela última vez por minha terra .

Antes de 1961 .
  • O primeiro acontecimento que me bem à mente está relacionado ao dia de nascimento de meu irmão ( 15 de Abril de 1955 ) pois os meus tios para me afastarem de casa e não contarem o que estava acontecendo me pediram para ir à padaria de D. Maria Guerreiro buscar qualquer coisa além do pão .
  • A viagem por uma estrada de terra que levava de Quitexe ao Uige para o batizado de meu irmão. Afinal de contas o grande pároco era o Padre Rosa. Na época uma ponte havia caído ( para variar ) e foi aquela ginástica para os carros passarem por quatro tábuas ( sem os passageiros  . Passageiros à frente a pé .
  • As idas a Camabatela ( pois Quitexe inicialmente pertencia a Camabatela ) e as paradas no Pumbassai. O casal que administrava a fazenda tinha uma excelente plantação de morangos. Visitas ao Dr. Assoreira que me havia salvo de uma perigosa " lombriguite ".
  • Almoços em fazendas vizinhas. Certa vez na fazenda de Celestino Guerra uma das imagens bem fortes foi, junto a uma nascente ou rio perto da sede da fazenda, quando tiraram a pele de umas " seixas " para o churrasco
  • A nossa escola de Quitexe - professora ( esposa do Sr. Pirão ), na sede da administração, com uma única grande sala. Certo dia, após um grande temporal, levei um troféu que havia causado pânico a todos os alunos: uma lâmpada queimada. Dessa época recordo-me de alguns colegas: O Antônio Guerra, a Graça Barreiros, Maria Manuela Jardim Batista, Fátima Pacheco, Graça Morais.
  • Recordo-me de nosso passeio até ao rio na saída para o Uige em busca do musgo e pedras para montar o presépio .
  • Uma das primeiras sessões de cinema. Ao ar livre , atrás da administração, com o filme em preto e vranco " Marcelino, pão e vinho "
  • A caçada ao porco é tradicional . Uma porca nossa ( que havia tido 18 crias ) havia fugido e entrado no mato durante uma queimada . Só que eu havia visto um nativo a empurra-la para o mato. Não adiantou de nada minha afirmação. Levei uma surra por ter entrado no meio da queimada. Minha vingança veio dois dias após, quando descobriram que ela havia sido morta e estava bem salgada na casa do nativo que eu havia denunciado .
  • Festa de S. João. Como o Quitexe ficava animado . Especialmente a avenida ( avenida claro com duas pistas laterais ) de baixo. E para relembrar a data até hoje tenho as marcas ( cicatriz no joelho esquerdo ) de um pulo que dei em uma fogueira em frente à casa do Antônio Guerra . Esqueceram de avisar que a fogueira era mão única e alguém veio do outro lado e nos encontramos em cima da fogueira .
  • Temporais eram de arrasar . Era trovão, água, clarão. Certo dia, duas horas antes do temporal, o céu começou a ficar vermelho. Vermelho de sangue. E todo o mundo na rua comentando. Alguém resolveu dizer que havia lido que o mundo terminaria em 1964. E que aquilo era o principio do fim do mundo. Terrível e põe terrível nisso, até que se passasse o ano de 1964 .
  • Como era boa a funjada. E Francisco, filho do velho Cazenza e que cuidava de mim, tinha sempre um prato escondido junto à fogueira no fundo do quintal onde preparava sua comida. Funge e peixe assado. Aliás, Francisco Cazenza teve três filhos que homenageando meus pais os batizou como Rei Gonçalves, Jaime Gonçalves e Glória . Ao saberem que meu irmão voltara a Angola procuraram-no e pediram o telefone de minha mãe . É gratificante para ela, em datas especiais , receber uma ligação deles .
  • É bom recordar Madame Ruth ( sempre acompanhada por sua filha deficiente visual ) e seu Land Rover parando em casa antes de ir para sua fazenda perto da Ambuila ( fazenda ).
  • Recordar as paradas na fazenda dos Poço e a banana frita que a senhora nos servia .
  • Recordar José Bastos ( havia vindo para o Brasil mas regressou a Angola e mora no Sul de Angola ) e Alfredo ( alfaiate ) e seu sinal na testa . Seu tio Álvaro Bastos .
  • As idas para Uige e paradas no Pumbaloge ( casa da M.ª Manuela Batista ) ou na fazenda Pingano dos Pombo . Aliás ouvi dizer que Rui Manuel está no Algarve , Cid mora perto de Lisboa , Ricardo é tripulante da TAAG e está sempre em Luanda e visitando as fazendas da família no Quitexe. Artur está pelo Quitexe e já toca uma madeireira.
  • O " Pernadas " e suas visitas semanais ao Quitexe com sua potente moto, levando os bilhetes da Loteria Federal .
  • A nova escola . A professora Lucilia Barreiros .
  • O Professor Pires que se preparava para abrir um colégio no Quitexe , numa segunda casa nossa e que mais tarde viria a ser hospital militar .
  • Em principio de Fevereiro de 1961, o Quitexe todo parava junto à estrada / rua de cima. Carros e mais carros - caravanas – com famílias passavam em direção a Luanda , vindos do Congo .

O 15 de Março de 1961
  • Acredito que estávamos em férias da Páscoa pois estávamos em casa.
  • Logo pela manhã ( 6 horas ), bateram a nossa porta . Meu pai avisou que teria de ir com o Chefe do Posto Sr. Nascimento Rodrigues e Sr. Abílio Guerra para os lados da fazenda onde havia acontecido algo.
  • Perto das 8 horas enquanto minha mãe acabava de arrumar os quartos, eu já havia aberto a loja e me sentava na varanda para estudar.
  • Nesse momento os sinos e uma enorme algazarra se ouviam vindos da parte de cima da vila.
  • Perguntei a minha mãe o que seria e pediu-me para fechar as portas pois iríamos ver o que acontecia .
  • Ao fechar a ultima porta , quase deixei minha mãe do lado de fora, e vejo pela vitrine da loja um grupo levantando catanas e dando gritos de guerra. " MATA " e " UPA" . Nisto ouviram-se mais tiros . O grupo seguiu em direção a casa de Guerra e Garcia .
  • Passados momentos com o grupo mais afastado minha mãe saiu e viu que muita gente se encaminhava para a casa do Sr. Morais. Fomos para lá. Os comentários eram entre adultos. Os miúdos ficavam quietos. Cerca das dez horas chegam meu pai e os demais. Contam o que haviam presenciado .
  • Cerca das 10:30 h fomos em grupo até à administração. Apesar dos adultos protegerem as crianças e nós não sabermos o que estava acontecendo, deu para ver uma pessoa deitada perto da padaria do Guerreiro e um a criança deitada no chão no meio do campo que havia atrás do prédio da escola .
  • Ficamos na administração e no inicio da tarde fomos em comboio para o Uige.
  • Ficamos em casa de amigos. Lembro-me que era primeiro andar e que se entulhou a varanda de tijolos e sacos de cimento.
  • Ao outro dia fomos de avião para Luanda e ficamos no Hotel Continental. Passados dias trocamos de hotel. Como aconteceu com a maioria, apanhei sarampo e fui parar no Hospital .
  • No Hospital, o meu apartamento era no térreo. Em 19 ou 20 de Abril , houve um ataque ao hospital e foi um corre / corre. Sei que me jogaram da cama e fiquei deitado no chão entre a cama e a parede . Tiros não acabavam . Nisto chegam meu pai ( que ficara no Quitexe ) .
  • No dia 21 de Abril fomos para Portugal. Meu pai regressa ao Quitexe. Não sei se por falha de um motor ou por parada programada páramos na Ilha do Sal. Nunca esqueço as maravilhosas laranjas que nos ofereceram com uma casca ... vem grossa. Em 22 de Abril estávamos em Portugal . 

De 1961 a 1973
  • Minha mãe regressa a Angola, para tocar a vida junto a meu pai e fiquei internado no Colégio Nun´Álvares Pereira de Tomar e todo o ano passava o mês das férias grandes no Quitexe .
  • Eram sempre época de colheita e compra do café. A visita às sanzalas. A compra do café.
  • Sempre que ía ao Quitexe , sou presenteado com "Marufo" e especiarias pelos mais antigos e sobas . Quando regresso de férias a Portugal levo sempre em minha bagagem um quitute especial : amendoim ( ginguba) torrado com açúcar e pimenta oferecido por D. Maria Pacheco.
  • De férias, alguns rituais junto a aqueles que continuavam no Quitexe. Visita. E uma era obrigatória. Srs. João Garcia e Alfredo Garcia .
  • Quitexe em que o convívio se torna diferente .
  • Quitexe onde o próprio governo desconfia de seus heróis e a PIDE os coloca na cadeia .
  • Quitexe que começa a deixar o senso família para trás .
  • Quitexe das longas e traumatizantes viagens pela estrada até Luanda .
  • As idas à fazenda com pontos de referência : A fazenda dos Garcia , o Ambuila , a fazenda dos Poço , o Quitoque , o Mongage e a fazenda Ambuila . Sem escolta ou pegando a poeira de um carro militar que casualmente vai na mesma direção . Antônio da Ambuila e Faísca
  • O Quitexe paraíso, massacrado e renascido .
  • O Quitexe dos perseverantes  
Um grande abraço a todos os que nasceram , viveram ou passaram pelo Quitexe.


Antônio Rei


publicado por Quimbanze in blog QuitexeHistória
 

O descasque do café na Fazenda Quimbanze - Alfredo Baeta Garcia


Nos anos 50 a produção indígena era ainda descascada segundo o método tradicional no pirão, pois os comerciantes só compravam café limpo, que era ensacado em  sacos de juta de 80 Kg. Em algumas sanzalas foram instalados, mais tarde, descascadores mecânicos accionados por motores de explosão que tornam a tarefa mil vezes mais rápida.

Nas fazendas dos europeus, as maiores áreas de cultivo, aliadas à maior capacidade financeira e empresarial, possibilitaram a introdução rápida dos métodos mecânicos.

Na Fazenda Quimbanze o equipamento para descasque e beneficiação do café começou com um simples descascador que funcionava movido por um tractor Volvo que tinha uma transmissão para esse efeito.

Uns anos depois, por volta de 1956/57, compramos ao  Ferreira Lima uma máquina que trabalhava no Pumbaloge, marca ANDREIA, fabricada em Limeira - Estado de S. Paulo - Brasil, composta, à entrada por uma tarara que fazia a limpeza dos objectos estranhos e mais volumosos e, seguidamente, por meio de elevadores, enviava a Mabuba (café seco por descascar) para o descascador que funcionava como um moinho de martelos e não por aperto num sem-fim, como os descascadores primitivos. Uma potente ventoinha expelia para o exterior toda a casca, sendo o produto do descasque levado para um peneiro que com vários movimentos separava o café completamente descascado dos bagos por descascar e os reconduzia ao descascador.
O café limpo, saído deste peneiro, era distribuído por dois classificadores para tamanhos, cada um com quatro seleccionadores com a sua bica que deitavam, cada um, para sua tulha. Era uma máquina muito interessante, quando em funcionamento, movida por um motor diesel que antes estava na cerâmica.

Um ano depois, como deixou de ter interesse a classificação que se fazia, esta ANDREIA foi substituída por uma máquina idêntica, mas sem classificador e de maior rendimento, fabricada em Angola pela SOTECMA, Sociedade Técnica Cardoso de Matos do Amboím.


No ano de 1970 a colheita foi de tal maneira atacada pela “broca”, que furava os bagos ainda verdes na árvore, que, depois de seco e descascado, rigorosamente classificado, o café não iria além de resíduos. Tentando minorar essa calamidade pela escolha, comprámos em Luanda à pressa, uma máquina brasileira marca MOREIRA que fazia essa selecção. Funcionava por meio de um motor eléctrico, pelo que tínhamos que por a trabalhar durante o dia o gerador da iluminação eléctrica. O resultado foi pouco animador, pois como sabíamos, a maior parte dos bagos estava furada reduzindo a colheita desse ano para um terço.
Depois do primeiro choque, de que os exportadores se aproveitaram para comprar aos produtores pelo preço que entendiam, a situação quase normalizou, deixando o bago furado de ser considerado defeito com a importância que vinha tendo.


Pouco tempo depois comprámos um secador que se destinava a retirar a humidade do café quer já descascado, quer, principalmente, em mabuba, que por qualquer acidente como uma chuvada no terreiro onde esta secava ou por motivos de espaço, de onde era retirada mal seca.
Esta máquina compunha-se de um enorme cilindro metálico que rolava sobre si e tinha umas saliências interiores para misturar o seu conteúdo, onde era injectado ar quente e seco proveniente de uma caldeira tubular. No interior dos tubos circulava ar, em vez de água, a temperaturas convenientes e saía, depois, com a humidade tirada ao café ou mabuba. Este secador foi comprado e construído em Luanda numa firma onde entrava o nome Antão.

Nessa altura começou um novo processo de descasque chamado de “via húmida” que apenas a Companhia do Pumbassai utilizava, não por ser mais caro, mas apenas diferente, que requeria um terreiro pavimentado, de preferência. O café, colhido em cereja e maduro, era facilmente despolpável numa espécie de descascador, parecido com os antigos, onde era prensado com bastante água, pelo que, assim lavado, secava no terreiro mais facilmente. Este processo implicava que a colheita tinha que ser feita com mais cuidado de maneira a não levar bagos verdes que, depois de secos, ficavam negros prejudicando a classificação do café.

Em 1975 a Fazenda Quimbanze era uma das mais bem equipadas não só no sector do descasque e beneficiação, mas também nas restantes estruturas.

A sua produção era a de uma fazenda média, podendo em 1975 e, a partir daí, chegar às 500 toneladas / ano.

Origem

Código de Trabalho dos Indígenas das Colónias Portuguesas da África, 6 de Dezembro de 1928 punia portugueses que...



"Todo o português assim como todo o indivíduo de outra nacionalidade residente no território português que intencionalmente, por discursos pronunciados em reuniões públicas ou por manifestos, brochuras, livros, jornais, ou outras publicações destinadas a ser vendidas ou distribuídas gratuitamente ao público, difundam falsas informações a fim de demonstrar e existência de escravatura ou de tráfico de escravos nas colónias portuguesas, será punido com multa de 2.000$00 a 20.000$ ou com prisão maior até dois anos, e poderá ainda ser expulso do território português."




Fonte: Código de Trabalho dos Indígenas das Colónias Portuguesas da África, 6 de Dezembro de 1928
retirado de Blog de Angola

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A DESCOLONIZAÇÃO PORTUGUESA: visão de Pedro Pezarat Correia


Na publicação Portugal 20 anos de democracia , do Círculo de Leitores, e sob a coordenação de António Reis, Pedro Pezarat Correia (Oficial general do Exército na situação de reserva) apresenta um artigo de referência sobre a descolonização (sobretudo em África). Esse artigo faz-se acompanhar por uma importante cronologia que divulgaremos posteriormente.
Do artigo em questão consideramos em post a sua introdução e conclusão.
A síntese sobre o seu conteúdo é a seguinte:

"O processo de descolonização das colónias portuguesas desenvolveu-se ao longo de cinco fases sequênciais e interdependentes: tomada de consciência; luta de libertação; transferência do Poder; independência; consolidação da identidade nacional. Portugal enquanto potência colonial, só participou como parte da descolonização na fase de transferência do Poder. Nas duas anteriores, contrariou-as, nas duas últimas assume-se como cooperante. O quadro geral da actuação portuguesa na fase da transferência do Poder: condicionamentos; objectivos; estratégia. A violência como factor determinante em todas as fases: repressão, na tomada de consciência; guerra colonial, na da luta de libertação; guerras civis e intervenções estrangeiras, nas da transferência do Poder e independência. Obstáculos à consolidação da identidade nacional. O caso especial das colónias do Extremo Oriente, que não passaram por este faseamento".(p. 40. Sublinhado nosso).

Referência bibliográfica:

CORREIA, Pedro Pezarat- "A descolonização". In: REIS, António (coord.)- Portugal 20 anos de democracia. Lisboa: Círculo de Leitores, 1994, p. 40-73.

O CICLO DESCOLONIZADOR

Portugal acordou tarde para o fenómeno da descolonização. E acordou sobressaltado.
A ditadura salazarista então vigente, impondo aos Portugueses o silêncio e o alheamento sobre o que se passava no mundo e fosse desfavorável á lógica do regime, impediu-os de se aperceberem e prepararem para uma etapa que, inelutavelmente, teriam de percorrer.
Foi só com o início da guerra em Angola, em 1961, que os Portugueses, na sua generalidade, despertaram para o problema, mas sem que logo tivessem alcançado a sua verdadeira dimensão política. Sete anos antes, o problema dos satyagrahas em Goa, Damião e Diu e a anexação pela República da Índia dos enclaves de Dadrá e Nagar Aveli, envolvidos numa encenação emocional conduzida pela propaganda do regime, não chegaram para alertar os Portugueses para o que estava então já em marcha: o processo de descolonização.
A descolonização do império português é o capítulo derradeiro e tardio- e disto sofreria as consequências- do fenómeno global de dissolução dos impérios coloniais europeus, que se seguiu à II Guerra Mundial de 1939-1945 e que configura o ciclo descolonizador do século XX.
Os seus antecedentes situam-se nos anos 20, quando estudantes das colónias fundam em Lisboa a Liga Africana e, na tentativa de organizarem a luta anticolonial, entram em contacto com o movimento pan-africanista que W. du Bois fundara nas Caraibas. Mas só depois de 1945, com o sopro de liberdade que a vitória aliada fez chegar a todo o mundo, a luta pela libertação colonial se impôs com toda a dinâmica. Em 26 de Junho de 1945 fora aprovada a Carta das Nações Unidas (ONU), cujo artigo 73º obrigava as potências coloniais a desenvolver nas colónias "sistemas de autogoverno de acordo com as aspirações políticas das populações. Em Outubro seguinte reunia em Manchester, Grã-Bretanha, o V Congresso Pan-Africano, que lançou um apelo e difundiu directivas a todos os povos de África para a luta pela independência. Em Abril de 1955, em Bandung, forma-se o Movimento dos Não Alinhados, que iria ter papel de relevo na coordenação das lutas de libertação. França, Grã-Bretanha, Espanha, Bélgica, com mais ou menos contradições, e de forma nem sempre pacífica, vão reconhecendo o direito à independência das suas colónias e novos países soberanos vão reforçar o Movimento dos Não Alinhados. Em 1963 é criada, em Adis Abeba, a Organização da Unidade Africana (OUA). (...)
Uma análise sistemática demonstra que os processos de descolonização se encadeiam em cinco fases sequenciais, cada uma com as suas especificidades, conforme o território, o povo colonizado e a opção da metrópole colonial.
A primeira é a fase da tomada de consciência. Por norma, é uma elite politizada que assume a iniciativa e se organiza, visando o direito à independência, ideia que depois procura alargar à generalidade do seu povo.
Depois é a fase da luta de libertação. Exclusivamente política ou também armada, conforme o tipo de resposta da potência colonial às reivindicações independentistas.
Segue-se a fase da transferência do Poder. Se a fase anterior atingiu o grau de luta armada, esta comportará negociações de cessar-fogo, o que constitui uma derrota política, ainda que não militar, para a potência colonial.
A seguir é a fase da independência, correspondente à substituição do aparelho colonial pelas estruturas do novo Estado, por vezes marcada por uma luta interna pelo Poder.
Finalmente, a fase da consolidação da identidade nacional. Frequentemente, o novo Estado não corresponde a uma nação e, quando o seu nascimento envolve lutas internas pelo Poder, é difícil a emergência de factores de coesão. (...)
Só que nenhuma das fases é um compartimento estanque, indiferente à forma como se processou a anterior. Pelo contrário, é profundamente condicionada por ela e vai influenciar decisivamente a que se segue. A natureza assumida por cada uma das fases tem uma lógica que radica na anterior. (...)


CONCLUSÃO

O ciclo descolonizador

Tendo como pano de fundo a recusa do regime colonial ao direito à independência, que retardou duas a três décadas a fase de transferência do Poder e gerou o factor "violência", a descolonização das colónias portuguesas processou-se num quadro definido pelos seguintes condicionamentos:

- Fase da tomada de consciência sujeita a repressão policial, conduzida num clima de clandestinidade,

- Radicalização da fase da luta de libertação, que evoluiu para o patamar da luta armada sob a forma de guerra colonial, em très frentes, durante 13 anos;

- Isolamento de Portugal;

- Frágil posição negocial de Portugal na fase de transferência do Poder, consequência de uma rotura política revolucionária e da instabilidade que se seguiu;

- Crise económica resultante do esforço de guerra e do choque petrolífero de 1973;

- Alheamento das forças políticas e da população portuguesa em geral para com a descolonização;

- Aparelho militar debilitado pelos anos de guerra, que as contradições no seio do MFA acentuaram;

- Envolvimento de países africanos vizinhos, com intenções desestabilizadoras e expansionistas, e das suoerpotências, com o objectivo de reforçarem posições geopolíticas.

Fase da tomada de consciência

Apesar de condições tão desfavoráveis como as que este quadro denuncia, Portugal teve, após o 25 de Abril, uma política de descolonização, que acusou a ausência de um planeamento prévio, que o regime colonial inviabilizou. Mas desenvolveu uma estratégia para a tranasferência do Poder, casuística, mas coerente e fiel a princípios fundamentais, que constituiram os grandes objectivos:

- Respeito pelas resoluções da ONU exigindo o reconhecimento do direito à autodeterminação e independência;

- Recusa do puro abandono ou de modelos neocoloniais;

- Preocupação com a defesa dos interesses nacionais.

Fase de luta de libertação

Essa estratégia materializou-se pelo progressivo cumprimento das seguintes tarefas:

- Definição do enquadramento legal e constitucional;

- Negociações de cessar-fogo nas colónias em guerra;

- Legitimação dos interlocutores para as negociações;

- Negociações das transferências do Poder e das modalidades dos períodos de transição;

- Preparação de relações frutuosas de cooperação para o futuro pós-independências.

Fase da transferência do Poder

Esta a estratégia global. Com base nela definiram-se estratégias particulares, de acordo com as especificidades de cada uma das colónias. Ainda que se verificassem pontos comuns, não havia dois territórios em que coincidissem todas as condicionantes, o que permite afirmar que cada colónia era um caso distinto: na Guiné, em Moçambique e em Angola foi necessário negociar o cassar-fogo, em Angola e Timor teve de se contar com vários interlocutores, que viriam a envolver-se em guerras civis; Guiné e Cabo Verde tiveram um negociador comum; Guiné e Moçambique, com um só interlocutor legitimado por via revolucionária, justificaram a directa transferência do Poder; Moçambique e Angola enfrentaram manobras golpistas de minorias brancas; São Tomé, Cabo Verde, Angola e Timor subscreveram o sufrágio eleitoral para uma assembleia constituinte precedendo a independência; Angola e Timor sofreram intervenções estrangeiras armadas.

Fase da independência

Apesar dos condicionalismos, Portugal respeitou os princípios fundamentais e, atento àquelas especificidades, executou as estratégias definidas. Os únicos casos em que os programas foram violentamente interrompidos, impedindo o cumprimento dos seus objectivos, foram aqueles onde se verificaram intervenções estrangeiras armadas- Angola e Timor. A intervenção estrangeira em Moçambique, com os dramáticos resultados que se conhecem, foi posterior à independência, mas não deixou de afectar a imagem da descolonização. As abusivas interferências externas foram, sem dúvida, o grande factor perturbador, responsável pelos desfechos mais negativos da fase de transferência do Poder da descolonização Portuguesa.
(...)
in: http://historiaeciencia.weblog.com.pt/arquivo/018054.html

Política: O Ultimato Inglês e o 31 de Janeiro de 1891 por Deniz Ramos

Caricatura do Ultimato de 1890  

As viagens à África Central de Livingstone (1852-1873) e de Stanley (1874-1877), amplamente divulgadas, chamaram a atenção para o continente africano. Antes, a expedição de Correia Monteiro e Pedroso Gamito, acompanhados de 420 mercadores e carregadores, tinham explorado em 1831-1832 a rota de Tete a Cazembe. Em 1843 e durante três anos, Rodrigues Graça alcançou as nascentes do rio Sena e o Bié, onde procurou impor a soberania portuguesa, e de 1847 até finais da década, Bemardino Brochado explorou o sul de Angola, de Moçâmedes ao Cunene, recolhendo preciosa informação económica, etnográfica e geográfica. Nas décadas de 1840 e 1850, Angola e Moçambique seriam objecto de novas expedições, sempre com o propósito de afirmar a soberania portuguesa e, cumulativamente, reconhecer as realidades físicas e económicas dos territórios com vista a futura ocupação de colonos. Figura lendária desses exploradores sertanejos foi Silva Porto, colono e comerciante. Único branco no centro de Angola, fixou-se no Bié, e daí empreendeu expedições atrás de expedições numa vasta área até à actual Zâmbia, onde se encontraria com o explorador inglês Livingstone. Silva Porto gozou de grande prestígio entre as autoridades gentílicas, contribuindo para reforçar a presença portuguesa em Angola. Viria a suicidar-se quando algumas tribos locais, aliciadas pelos britânicos, se rebelaram contra Portugal.
Seria, porém, entre 1870 e 1890, já com organização da recém-criada Sociedade de Geografia de Lisboa (1875), que se realizaram as grandes expedições de Hermenegildo Capelo, Roberto Ivens, Serpa Pinto e António Maria Cardoso. Dessas expedições, com fins bem definidos ao nível científico e favorecidas pela melhor preparação dos seus executantes, oficiais da Marinha e do Exército, adveio um conjunto valiosísimo de informações, desde o reconhecimento da natureza dos territórios africanos às suas potencialidades económicas. Os seus relatórios obtiveram larga divulgação: em 1881, Capelo e Ivens publicaram De Benguela às Terras Iacca, Serpa Pinto, que caminhou para sul até à Zâmbia central e ao longo do curso do Zambeze atingiu Pretória e Durban, escreveu em dois volumes, editados em Londres também em 1881, Como eu atravessei a África e em nova viagem, Capelo e Ivens partiram de Moçâmedes e, seguindo o Zambeze até à sua foz, atingiram Quelimane um ano depois. Essa ousada expedição foi relatada em 1986 em De Angola à Contra-Costa.

No país, e Águeda não foi excepção, o êxito dessas viagens de exploração e os seus resultados científicos despertaram viva curiosidade. Em Escola Popular, semanário que em 1870-1871 se envolveu na cruzada da instrução popular, base fecunda da cidadania liberal, José Maria Veloso aproveitou o ensejo para aí publicar diversos textos de divulgação da África Oriental Portuguesa: sobre a Zambézia, Moçambique, Quelimane, Sena, Tete, Zumbo, Manica e Sofala e Bazaruto nos seus números, 33 35, 40 e 52, respectivamente. O propósito era chamar a atenção dos leitores para essa África desconhecida, quase deserta de população branca e sempre negligenciada pelo poder político: “Leiam os nossos trabalhadores, que nós   lhes asseguramos terão vontade de deixar de procurar a escravidão na América para optarem pelo arroteamento e amanho dos campos portugueses de além-mar, capazes, pela sua extensão e feracidade, de fazer a sua fortuna e a dos seus porvindouros; honrando-se, além disso, a si e honrando e engrandecendo a Pátria”.

O Mapa Cor-de-Rosa
e o últimato Inglês de 1890

Na década de 1870 estava na forja o plano britânico de Cecil Rhodes de dominar do Cairo ao Cabo e a resposta de franceses e alemães não tardou. Investido em árbitro das pendências africanas, Leopoldo II da Bélgica convocou em 1876 para Bruxelas as principais nações europeias. Aí foi decidido constituir uma associação internacional africana destinada a promover a África Central e a travar expansionismos perturbadores do equilíbrio na região. Portugal não foi convidado a participar, o que desde logo indiciava os objectivos dessa filantropia em relação às possessões africanas portuguesas. Seria, porém, por ocasião da Conferência de Berlim, da iniciativa de Bismarck (1884-1885), que o golpe decisivo se desferiu contra Portugal. Nesse conclave, apesar da resistência dos representantes portugueses, estabeleceu-se um novo direito público colonial: a posse de colónias africanas deixava de poder legitimar-se apenas por direito histórico e só a ocupação efectiva a justificaria. Ou seja, os direitos históricos sobre um determinado território deveriam ser corroborados pela “existência de uma autoridade suficiente para fazer respeitar os direitos adquiridos e a liberdade do comércio e do trânsito”. A intenção era óbvia. A crise de 1890 abatera-se sobre a Europa e atingira mais duramente a frágil economia portuguesa, agravada ainda pela turbulência político-partidária. Em tão curto prazo de tempo e sem meios financeiros compatíveis seria impossível a Portugal deslocar tropas e funcionários administrativos para todos os territórios a fim de garantir a sua soberania, que ninguém até então havia contestado. Assim, a África portuguesa, onde não existisse um mínimo de ocupação militar e organização administrativa, seria, pois, presa fácil para a espoliação das mais poderosas potências europeias.

Antes da Conferência de Berlim, a presença portuguesa nas colónias oriental e ocidental limitava-se à administração e ocupação de áreas estratégicas ao longo da costa e de pouca profundidade para o interior. Apesar de alguns estadistas liberais terem chamado a atenção para não se descurar os nossos interesses em África, a situação deficitária e política não permitiu dispensar os meios para uma mais larga colonização efectiva, em particular da vasta área entre Angola e Moçambique que havia sido objecto apenas de viagens de exploração. Antes da independência, o Brasil concitara o empenho da burguesia comercial e nem depois da independência se lograra inverter a desatenção colectiva em relação ao ultramar africano. Amputado o império, a burguesia saída da Revolução de 1822 continuou a tirar proveito dos negócios brasileiros e viraram-se as costas a África. Repare-se que no Brasil, à altura do grito independentista, viviam aí cerca de 900 mil brancos e mais de um milhão de mestiços europeizados. Em Angola e Moçambique, por sua vez, a população branca não ultrapassaria 25 mil pessoas. É certo que, entre 1885 e 1890, governos regeneradores e progressistas irão empreender esforços para satisfazer as exigências de Berlim, tímidos, realmente, pois a conjuntura a mais não permitia. Deu-se continuidade a algumas das medidas anteriores, administrativas e de fomento: a Companhia Nacional de Navegação, criada em 1880, passara a ligar Lisboa e Luanda em serviço regular e também nessa década todas as colónias ficaram ligadas a Lisboa por cabo submarino. Cumulativamente, abriram-se estradas para o interior e lançaram-se vias-férreas (o caminho-de-ferro de Lourenço Marques ao Transval, iniciado em 1870, já atingia a fronteira de Ressano Garcia em 1889-1890 e em 1887 iniciou-se a construção da via ferroviária da Beira para a antiga Rodésia e de Luanda para o interior). Por outro lado, intensificaram-se com fins geográficos e de soberania as expedições de Paiva Andrade, Serpa Pinto, António Maria Cardoso, Vítor Gordon e Paiva Couceiro e tentou-se proceder à ocupação, mínima evidentemente, do território entre as duas costas, alvo da cobiça inglesa. Em 1887, Barros Gomes, ministro dos Negócios Estrangeiros progressista, viria a apresentar o projecto da África Meridional Portuguesa. Elaborado no ano anterior, o mapa incluía a região compreendida entre Angola e Moçambique, ou seja, a África Meridional Portuguesa ia da costa atlântica à do Indico. Pela cor com que esse território foi cartografado, o mapa ficaria conhecido como Mapa Cor-de-Rosa.
Barros Gomes, conhecedor da oposição dos ingleses, procurou apoios junto da França e da Alemanha, com quem celebrou convénios em 1886 embora à custa de algumas cedências territoriais.

A inclusão dessa região na África Meridional Portuguesa feria os propósitos expansionistas ingleses e o plano de Cecil Rhodes, lesando os interesses da industrialização inglesa, que necessitava de novos mercados e de matérias-primas e a Conferência de Berlim acabara por fomecer-lhe os meios legais para o conseguir. Por isso, a reacção britânica não se fez esperar. Em Novembro de 1887, aproveitando os incidentes ocorridos no Chire entre as forças de Serpa Pinto e os Macololos e Machonas, que se diziam sob a sua protecção, a Inglaterra fez queixa formal ao governo português. Lisboa apenas respondeu à nota inglesa em Dezembro de 1889 e Lord Salisbury apresentou a 11 de Janeiro de 1890 um ultimatum ao governo português, exigindo a retirada imediata de todas as forças portuguesas do Chire e dos países dos Macololos e Machonas. A ameaça de corte de relações diplomáticas era clara e provável o cenário de guerra: “O Governo de S. M. entende que sem isto as seguranças dadas pelo Governo Português são ilusórias. Mr. Pitrè ver-se-á obrigado, à vista das suas instruções, a deixar imediatamente Lisboa com todos os membros da sua legação, se uma resposta satisfatória à presente intimação não for por ele recebida esta tarde; e o navio de S. M. Enchantress está em Vigo esperando as suas ordens”.
D. Carlos e o governo progressista acabaram por ceder ao ultimatum no prazo que fora imposto: “Na presença duma ruptura iminente de relações com a Grã-Bretanha e de todas as consequências que dela poderiam talvez derivar, o Governo de S. M. resolveu ceder às exigências formuladas nos dois memorandos, a que alude, e, ressalvando por todas as formas os direitos da Coroa de Portugal às regiões africanas de que se trata; e bem assim, pelo direito que lhe confere o artº. 12º. do Acto Geral de Berlim, de ver resolvido o assunto em litígio por uma mediação ou por uma arbitragem, o Governo de S. M. vai expedir para o Govemador-Geral de Moçambique as ordens exigidas pela Grã-Bretanha”.
Apesar das tentativas diplomáticas para que o litígio fosse resolvido por arbitragem
internacional, a Inglaterra sempre se opôs e nem a França, nem a Alemanha se decidiram a intervir. Perante a violenta reacção da opinião pública, que sentiu na pele a humilhação da intimação inglesa, o ministério progressista de José Luciano de Castro caiu, sendo substituído pelo governo regenerador de Serpa Pimentel. Entretanto, ocorreram negociações entre os dois países para clarificar a situação pós-ultimato. O tratado assinado em Agosto, que concedia a Portugal uma estreita faixa a ligar Angola a Moçambique, seria rejeitado e alvo de repúdio na opinião pública, o que levou à demissão dos regeneradores. Em Maio de 1891, já com um novo ministério extra-partidário, foi negociado outro tratado, onde já se não incluía essa faixa entre as duas colónias. Em troca da região a que se convencionou chamar mapa cor-de-rosa, em que, aliás, Portugal nunca teve qualquer ocupação efectiva de colonos ou militares (era uma utopia a África Meridional Portuguesa como a concebia Barros Gomes), foi reconhecida pelos ingleses a soberania portuguesa sobre as colónias de Angola e Moçambique, acrescidas de regiões que Portugal jamais havia reivindicado como pertença histórica. A cedência às exigências britânicas foi embalada pela anglofobia embora o acto intimidatório do ultimatum fosse um escândalo ignóbil. Que Portugal nada terá perdido do que, na verdade, detinha em África é hoje um dado adquirido na recente historiografia.

A reacção ao ultimatum em Soberania do Povo

Vejamos como Soberania do Povo, o único semanário que à época se publicava em Agueda e, por sinal, afecto aos progressistas, reagiu à afronta inglesa perante a qual capituIara um governo do seu próprio partido. O texto é da sua edição de 13 de Fevereiro.
“A ocasião não é propriamente para chorarmos as nossas desventuras, nem para discussões estéreis e inúteis. No momento em que esta gloriosa nação atravessa uma crise assustadora, acerquemo-nos todos da bandeira portuguesa para a defendermos corajosamente das brutalidades do aristocrático marquês de Salisbury, que só pensa em nos roubar, confiado na superioridade das forças britânicas e na indiferença das outras nações do mundo. Esqueçamos por um instante as divergências políticas e unam--se todos os partidos em derredor da mesma bandeira, que é a da Pátria, aquela que outrora tremulou desassombrada nas cinco partes do mundo e que Serpa Pinto ainda hoje empunha briosamente nos pontos mais arriscados do continente africano. O momento não é azado para retaliações, nem para a propaganda revolucionária dos republicanos. Não nos descuidemos porque amanhã pode ser tarde. Abatam-se as bandeiras partidárias para se içar bem alto a bandeira nacional. O governo deve ser o primeiro a ensarilhar as armas. Inspirando confiança aos adversários, eles não recearão seguir-lhe o exemplo. (...) A intimação do governo de S. James melindrou-nos nos nossos sentimentos patrióticos porque não estávamos acostumados a humilhações; e Salisbury atreveu-se a tanto porque dormíamos há 70 anos e não estávamos precavidos. Ouvimos ornear o aristocrático marquês e tivemos a imprudência de adormecer novamente sem nos munirmos de um vergalho.
Suportámos por isso os couces do sendeiro quando outrora não temíamos os rompantes do leão que tantas vezes se rojou humilde a nossos pés. Oxalá que a lição nos aproveite e que o desforço se não faça esperar. A guerra que promovemos às mercadorias da Grã-Bretanha, e que, infelizmente, ainda não é geral, merece o
apoio de todos e é a única que lhe poderíamos fazer com vantagem nas circunstâncias actuais. Portugal, porém, necessita de se desforçar energicamente logo que se lhe ofereça ensejo. (...) Armemo-nos também até que venham melhores dias; e sem perda de tempo, corramos a pontapés os que se embebedam com o nosso vinho e vão depois vomitar no Times as infâmias mais grosseiras. Vamos! Não percamos um momento.
Acerquemo-nos da bandeira nacional e icemo-la bem alto onde não cheguem as afrontas brutais do marquês de Salisbury e da cáfila de bandoleiros que o aplaude nas suas aventuras atrevidas e desonestas (...)”.
Em outras edições posteriores, Soberania do Povo censurou veementemente o acordo anglo-saxónico negociado pelo governo regenerador e Albano de Melo, que dirigia o semanário e ao tempo era deputado, escrevia a bem informada Carta de Lisboa onde comentava, semana a semana, exaustiva e minuciosamente, os conflitos de rua em Lisboa e no Porto e as reacções parlamentares e da imprensa ao ignóbil comportamento inglês em África antes e no decurso das negociações com vista à assinatura do acordo. Ao fim e ao cabo, retomava-se na velha gazeta a revelha rivalidade no seio dos partidos rotatívistas monárquicos.

O 31 de Janeiro de 1891 visto pela progressista Soberania do Povo

Se o país explodiu face à afronta inglesa e à pusilaminidade do rei e do ministério progressista e trouxe para a rua sentimentos anti-britânicos a clamar por represálias, ou se os jornais caíram numa violência inaudita e em verso, no também virulento Finis Patrioe, Guerra Junqueiro vituperou a cínica Inglaterra, a bêbada impudente, todos esses sentimentos ofendidos viriam em proveito dos republicanos, que já no tri-centenário de Camões em 1880 haviam arrecadado um capital de esperança ao simbolizar na evocação do Poeta o despertar da pátria aviltada por um regime anémico. Na opinião de Joel Serrão, embora outros mais recentes historiadores dela discordem, o 31 de Janeiro “se, por um lado, foi o remate da profunda emoção suscitada pelo ultimato inglês de 1890, por outro, assumiu papel de grande relevo na história da conquista do Poder pelo republicanismo, que culminou com a revolução de 5 de Outubro de 1910”. Basflio Teles, um dos vencidos da sublevação, dirá que foi o prólogo e que o epílogo viria logo a seguir.
No Congresso do Partido Republicano realizado em Lisboa no início de Janeiro, os
que apostavam pela acção imediata divergiram dos moderados. A direcção, que veio a ser substituída, no seu relatório assegurava que o ultimato de 11 de Janeiro de 1890 significava que o partido havia terminado a sua propaganda doutrinária e que urgia seguir agora a acção decisiva, que não era outra coisa senão a revolução. E assim aconteceu no Porto, às três horas da madrugada nevoenta de 31 de Janeiro. A revolta, mais que anunciada pois a população e jornalistas concentraram-se nos locais públicos para acompanhar mais de perto, saiu dos quartéis apenas com sargentos e três oficiais. Hasteou na Câmara Municipal a bandeira republicana e da varanda proclamou a República e anunciou os nomes dos que constituiriam o Governo Provisório. Depois, engrossados de multidão e com a Banda a tocar a Portuguesa, as poucas centenas de militares subiram a rua de Santo António. A Guarda Municipal abriu fogo e após nutrido tiroteio os revoltosos retrocederam para a Câmara. A artilharia leal atingiu o edifício e deu-se a debandada, com numerosos civis mortos e feridos. Seguiram-se prisões, julgamentos e deportações dos cabecilhas.

Acompanhemos a reacção de um jornal monárquico progressista ao pronunciamento militar que, no Porto, durante curtas três horas manteve ao alto a bandeira republicana.
Na edição de l de Fevereiro de 1891, Soberania do Povo dedicou a 2ª. página e parte da 3ª. ao relato circunstanciado dos acontecimentos. A descrição, feita em cima da hora, não difere muito da versão oficial posterior.
“Rebentou ontem, às 3 horas da madrugada, na cidade do Porto, uma insurreição militar combinada com alguns elementos populares. A revolta estava preparada há tempo, mas a prisão do sr. João Chagas, condenado por abuso de liberdade de imprensa, apressou talvez o movimento. Às 3 da madrugada saíram para as ruas os regimentos de infantaria 10 e cavalaria 9 e um pelotão de 18 e dirigiram-se à Praça de D. Pedro. Tomaram a casa da Câmara e foi proclamada a república pelo sr. Alves da Veiga, que hasteou a bandeira vermelha do Centro Democrático Federal 15 de Novembro. Foi aclamado um directório composto pelos srs. Carvalho, general reformado, Joaquim Bernardo Soares,juiz da Relação, Rodrigues de Freitas, Licínio Pinto Leite e Alves da Veiga. Aos insurgentos aderiram alguns soldados da guarda fiscal.
Não se associaram à revolução os oficiais superiores da guarnição. O coronel do 18, Cabanellas, pôs-se à frente do seu regimento e marchou para a Praça D. Pedro. A guarda municipal também foi contra os soldados sublevados. A artilharia da Serra do Pilar foi mandada para o largo e fez fogo sobre a casa da câmara, onde as tropas se tinham acolhido, e que foi cercada. Houve um vivo tiroteio. A fusilaria era constante. O combate durou desde as 6 horas da manhã até às 3 da tarde. Houve numerosos mortos e feridos, talvez 150. Os hospitais estão cheios deferidos.
A revolta foi sufocada, fazendo os revoltosos a sua submissão. Muitos fugiram pelas traseiras da casa da câmara. Comandava a insurreição o Capitão Leitão e o alferes Malheiro. De Lisboa e outros pontos foram mandados diferentes regimentos a ocupar o Porto. Alguns navios de guerra devem entrar hoje a barra do Douro. Os revoltosos fizeram todos os esforços para ocupar a praça da Batalha, o telégrafo e o governo civil, mas não o conseguiram. Compreende-se bem o seu plano. Senhores do telégrafo, do governo civil e da casa da câmara, dariam notícias para todos os pontos do país, com quem estavam de inteligência, e a república seria facilmente proclamada em terras importantes. Vê-se que o plano falhou, porque aguarda municipal defendeu a todo o custo a praça da Batalha. Não temos até agora outros pormenores”.
No semanário incluiu-se também informação retirada da imprensa portuense, chegada a Águeda no correio da tarde, que não reproduzimos por não diferir da acima
transcrita. Apenas um parágrafo nos chamou a atenção. Soberania do Povo referiu que corriam já na cidade notícias sobre os tristes factos que cobrem de luto muitas famílias, que não salvaram a liberdade nem deram mais prestígio ao princípio republicano.

O número da semana seguinte dedicou ao 31 de Janeiro, além de um editorial, duas
páginas na íntegra. A quantidade da informação diz bem das preocupações que o movimento revolucionário provocou no seio do regime. Merece, porém, referência a postura do semanário monárquico perante a situação trágica que ocorreu no Porto. Escreveu-se:
“Nesta ocasião nós somos também contra a revolução de 31 de Janeiro. Mas, deplorando os factos, não requeremos vingança, nem aconselhamos o governo a que se meta no caminho das perseguições miguelistas.
Isso não está nos nossos hábitos e demais a experiência diz-nos que a reacção dos oprimidos está na razão directa da violência dos opressores. (...) E assim como os revoltosos estão a estas horas nas mãos da monarquia, podíamos nós todos estar nas da república. Sejamos complacentes e justos, se porventura a justiça se pode combinar com a benevolência. Um criminoso político não é um envenenadar, um bandido. Correu sangue, dizem; é preciso que nos vinguemos: fuzilem-se os sargentos, guilhotinem-se os conspiradores! Sejamos coerentes, meus senhores. (...) Isto não quer dizer que apoiamos a insurreição, Reprovamo-la até e não queremos a impunidade dos insurreicionados. Mas entendemos também que o crime tem grandes atenuantes que devem fazer época nos espíritos liberais e muito principalmente no do poder moderador que nos últimos anos tem sido generoso e magnânimo”.
O editorial vai no mesmo sentido: justiça e benevolência, a par da censura pela inoportunidade do pronunciamento militar republicano: “ É nesta hora cheia de receios e de perigos que um punhado de soldados se insurge e se levanta por uma bandeira, que pode atrair os espíritos juvenis e prender os ideais de muitas almas generosas, mas que neste momento não é a altiva e santa bandeira da Pátria. Não estamos ao lado dos revoltosos. Não chegou ainda o dia solene da implantação da república portuguesa “.

Lemos e pasmamos. Também para a monárquica Soberania ao Povo, como o foi para Basflio Teles, um dos vencidos que teve de se refugiar no Brasil, o 31 de Janeiro de 1891 seria o princípio do fim? Acreditamos. O mais fecundo trabalho de casa preparatório da revolução que em 5 de Outubro pôs termo à Monarquia foi feito realmente dentro da família dos Braganças. Por outras palavras disse-o Eduardo Schwaibach aos seus leitores brasileiros: Ao cabo de longos e porfiados esforços, os monárquicos acabam de implantar a República em Portugal”.

Retirado DAQUI

OS BOERS NO PLANALTO DA HUÍLA




























Os  meus agradecimentos ao meu amigo António Trabulo que me enviou este  texto e também algumas das fotografias da sua colecção particular.

Os  bóeres são descendentes dos colonos holandeses que se fixaram no Sul da  África, nos meados do século XVII, e dos huguenotes franceses fugidos  às guerras religiosas da Europa, que se lhes juntaram, vinte e cinco  anos depois.


Criaram  raízes na terra. Pretendiam ficar. No entanto, quase século e meio  antes da eclosão dos movimentos nacionalistas africanos, já a História  os colhera na sua rede. Em 1815, a Holanda viu-se forçada a ceder a  Colónia do Cabo à Inglaterra.

Fartos dos ingleses, a partir de 1835 os bóeres começaram a emigrar para Norte. Foi a grande marcha, o Trek.  Fundaram sucessivamente o Estado Livre de Orange, o Natal e a República  do Transvaal. Os britânicos não lhes deram sossego e obrigaram-nos a  lutar pela liberdade. Os africânderes, como também eram chamados,  bateram-se bem, mas foram vencidos.

Em 1876 terminou a guerra do Transvaal.

Seiscentas  famílias bóeres penetraram no deserto do Calaari, procurando novo local  para se instalarem, longe da bandeira inglesa. Viajaram em grandes  caravanas que se organizavam, nas paragens, em posições defensivas. Os  carrões bóeres eram parecidos com que se vêem nos filmes de cobóis. A  estrutura dos veículos era simples: uma caixa grande de madeira  assentava em dois eixos. As rodas de trás, maiores, eram fixas. As  dianteiras, um pouco mais pequenas, giravam à vontade do condutor. Um  bom sistema de travagem tornava seguras as descidas íngremes. O tecto,  de lona esticado sobre arcadas de madeira, isolava o interior da chuva  e, até certo ponto, do calor, do pó e dos mosquitos. Havia muitas peças  móveis que se adaptavam às necessidades. As arcas de arrumação serviam  também de assentos. Eram puxados por seis a oito bois, por vezes por  mais.

Ao longo do Trek,  os bóeres passaram fome e sede. Sofreram com a seca e com as febres,  nas estações das chuvas. Perderam gente, gado e haveres e foram  dispersando.

Uns  tantos desistiram e voltaram para trás. Outros prosseguiram até ao Sul  de Angola e percorreram as margens dos grandes rios Cubango e Cunene.  Acabaram por estabelecer contactos com as autoridades portuguesas e  obtiveram do Governo de Lisboa a concessão de três mil hectares de terra  para se instalarem.

Vale  a pena citar uma cláusula do contrato estabelecido entre os  representantes do nosso governo e os líderes da comunidade bóer: Terreno cultivado pelo gentio é propriedade deles e não pode ser dado aos colonos que, portanto, não podem tirar-lhes o mesmo. O documento assinado garantia também, aos que chegavam, total liberdade de culto religioso.

Em  Janeiro de 1881, oitenta famílias bóeres vieram estabelecer-se nas  terras altas da Humpata. Além do gado de tracção traziam rebanhos  soltos. Eram também caçadores. Jacobus Botha chefiava o grupo. Era o  patriarca, à maneira bíblica: chefe religioso, político e militar,  experimentado em guerras e sofrimento. Vira mesmo um dos seus criados  ser devorado por um crocodilo, quando atravessava o rio Cunene, agarrado  à cauda dum cavalo.

Os  bóeres chegaram e construíram um canal de irrigação de seis quilómetros  de comprimento, com uma levada de água para cada casal.

Nessa  época, estavam fixados naquela área apenas dois portugueses. Artur de  Paiva, jovem alferes, serviu como intérprete de língua inglesa e ficou a  comandar o destacamento militar que se estabeleceu no local. Casou com  uma das filhas de Jacobus Botha. Boa parte do sucesso de Artur de Paiva  nas campanhas de ocupação do Sul de Angola ficaria a dever-se à ajuda  prestada pelos cavaleiros bóeres.

Em 1883, foram enviadas para a Humpata seis famílias da falhada colónia Júlio de Vilhena, em Pungo Andongo. No ano seguinte, fixou-se na região um grupo de colonos madeirenses.

Os  africânderes não gostaram da companhia. Acharam os novos vizinhos  atrasados. Multiplicaram-se pequenos conflitos, resultantes da  delimitação das propriedades e da distribuição da água de rega. Muitos  bóeres venderam os seus terrenos e mudaram-se para a Palanca, a sete  quilómetros de distância. Passados poucos anos, mais famílias  abandonaram a Humpata e foram à procura de outras terras nos distritos  do Huambo e do Bié. Uns tantos ficaram.

Existia,  no papel, o Esquadrão Irregular de Cavalaria da Humpata, composto por  praças de Caçadores 4. Em 1891, apenas três soldados sabiam montar.  Quando eram necessários cavaleiros, contratavam-se bóeres. Traziam armas  e montada, eram destemidos e conheciam o terreno. Faziam-se pagar bem.

Os  bóeres ao serviço de Artur de Paiva raramente terão ultrapassado a meia  centena. Foram determinantes na ocupação de Cassinga e na expedição ao  Bié, em 1890, após o suicídio do sertanejo Serpa Pinto. Foi então  aprisionado o soba Dunduma e estabelecido o domínio português na região.  Algum tempo depois, os cavaleiros contratados colaboraram na campanha  do Humbe, após o massacre do pelotão comandado pelo tenente Conde de  Almoster.

A  segunda guerra dos bóeres, travada com a Grã-Bretanha entre 1898 e 1902  não parece ter influenciado a situação dos africânderes residentes na  região.

Em  1927 a África do Sul, pretendendo contrariar a influência eleitoral  alemã na árida Damaralândia, desenvolveu uma campanha destinada  convencer os bóeres fixados no Planalto da Huíla a regressarem à terra  mãe. A iniciativa teve êxito. Em 1928, quase todos os bóeres se mudaram  para o território do Sudoeste Africano. Foi um novo Trek.

Quatro  famílias apenas ficaram na Humpata. As outras, uma a uma, carregaram  novamente os seus carrões. Carrão após carrão rolou terra abaixo pela  bem conhecida carreteira que conduz ao vale do Cunene, perto do Chitado.  Na margem esquerda do rio, ao avistarem a bandeira sul-africana,  reuniram-se todos para cantarem hinos de acção de graças. A pequena  colónia constituída por 270 pessoas de raça branca que tinha viajado  para o Norte até à Humpata em 1880 cresceu muito, contando agora perto  de 2.000 almas.

Referências:

Estermann, Charles, Etnografia de Angola (Sudoeste e Centro). Instituto de Investigação Científica Tropical, Lisboa, 1983.

Gama, António, Uma história de vida. Blogue Memórias e Raízes, 2009.
Trabulo, António, Os Colonos. Esfera do Caos, Lisboa, 2007.


Fotografias: colecção do autor.

Retirado de Africandar

René Pélissier : "Falar de cinco séculos de colonização portuguesa é uma burla!"


O primeiro a estudar a moderna colonização portuguesa


Não sou um adversário da colonização; sou, isso sim, um adversário do mito da colonização, o que é diferente
Não sou um adversário da colonização; sou, isso sim, um adversário do mito da colonização, o que é diferente

Timor foi a última colónia que estudou?
Foi. Quando comecei, fui o primeiro investigador francês a estudar a colonização portuguesa moderna, posterior aos Descobrimentos, à Índia e ao Brasil...
Porque escolheu Portugal?
Porque gosto das descobertas pessoais. Tenho uma alma de descobridor, de explorador. Cheguei um pouco tarde: tudo já fora descoberto geograficamente. Mas descobri um mundo que estava completamente fechado aos não-lusófonos pela propaganda, que exaltava os cinco séculos de colonização portuguesa.
O que está longe de ser verdade.
Justamente. Mas era preciso prová-lo e demonstrar. Tinha que encontrar uma chave para destruir o mito. E a única chave que estava em meu poder era fazer a história militar da conquista. Avancei num terreno completamente ignorado pelos não-lusófonos.
Creio que começou por Angola.
Em 1965. Angola era difícil para mim.
Veio a Lisboa?
Sim. O Arquivo Histórico-Ultramarino não estava aberto para os que queriam estudar a época mais recente. Mas não mo disseram frontalmente. Como eram muito hábeis, o diretor disse-me que podia vir ao Arquivo consultar unicamente os livros! Só que, para isso, podia ir a Sociedade de Geografia... Não pude fazer nada e expliquei na minha tese que não tivera acesso ao Arquivo Histórico Ultramarino. Mas os militares deram-me acesso aos arquivos militares na medida em que iam sendo desclassificados. Aproveitei e encontrei coisas que ninguém tinha encontrado antes de mim, como o fim da conquista dos Dembos.

Os relatórios de Paiva Couceiro e João de Almeida 


Teve que aprender português?
Sim, em Portugal. Nunca aprendi propriamente. Comecei por ler e conversar. E conversando apanhei um pouco da língua. Os militares da época da conquista do Terceiro Império escreviam e publicavam muito. Foi a minha salvação.
Literatura de memórias e das campanhas.
Exatamente. Não apenas Mouzinho de Albuquerque, mas António Enes e muitos outros. A conquista não foi propriamente um caminho que levasse à santidade: não havia apenas rosas nessa história. Em 1904, mesmo em 1907, a Angola realmente portuguesa representava no máximo 1/10 do território atual. E isso não era confidencial. Estava escrito em "Angola Dois anos de Governo", do governador Paiva Couceiro, um documento notável. João de Almeida, que foi o seu braço direito, contou as suas próprias campanhas. Fez o seu trabalho de conquistador, normal na época. Se empreendeu, a partir de 1845, 180 operações militares, isso significava que a colónia não estava pacificada. Esta foi a chave que demonstrou a falsidade do slogan "Cinco séculos de colonização portuguesa em Angola". Antes de meados do sec XIX não havia propriamente dito uma colonização portuguesa, salvo em Luanda, no corredor do Cuanza até Malange, em Benguela, Moçâmedes, Novo Redondo e pouco mais. Todo o resto tinha de ser conquistado.
Visitou Angola?
Não sou um historiador militante ou partidário de uma causa - nenhuma. Nada disso. Obtive licença para visitar Angola em 1966. Já tinha escrito pequenas coisas e viram que não era um adversário da colonização. Realmente não sou. Sou, isso sim, um adversário do mito da colonização, o que é diferente. Visitei praticamente 13 distritos (em 15 que havia na época), vi a situação, que era favorável a Portugal do ponto de vista económico. É incontestável: Angola nunca foi tão próspera e rica como na véspera da morte da colonização portuguesa.

'Não partilho do entusiasmo por Mouzinho de Albuquerque'


Gostaria de fazer uma coisa útil para as gerações futuras: uma bibliografia crítica de tudo quanto foi publicado em livro sobre Angola, Moçambique, etc., a partir de 1840
Gostaria de fazer uma coisa útil para as gerações futuras: uma bibliografia crítica de tudo quanto foi publicado em livro sobre Angola, Moçambique, etc., a partir de 1840

Creio que é uma verdade indiscutível.
Indiscutível. Na minha opinião (que não é a opinião de um propagandista e que expus no livro "História de Angola", com Douglas Wheeler), a situação era instável mas provisoriamente favorável aos portugueses. Fiz a minha tese de doutoramento em dois volumes sobre Angola. O primeiro é sobre a conquista, que foi traduzida para português pela Estampa, "História das Campanhas de Angola". O segundo volume, com 700 páginas, ainda não foi traduzido; chama-se "La colonie du Minotaure". E o Minotauro é a colonização portuguesa que devora as suas vítimas africanas. Como sou um homem que ama a descoberta, com alma de explorador, e não queria ficar a vida toda a estudar Angola, passei a Moçambique. Comecei em 1977. A conquista de Moçambique são essencialmente as 150 campanhas ou operações mais importantes nos séculos XIX ou XX - o que significa que não se pode falar de "cinco séculos de colonização". Seria uma burla!
A mesma tese de Angola...
É preciso ser verdadeiramente cego, ou não querer olhar a verdade de frente. Terminei Moçambique em 1983 e continuei pela Guiné. Mais pequena, mas um país relativamente mais difícil de conquistar, em razão da geografia, do clima e da resistência dos guineenses, gente que não estava disposta a submeter-se sem ser vencida.
O grande herói da colonização de Angola foi Paiva Couceiro?
Não há verdadeiramente um herói. O melhor organizador da conquista durante a Monarquia foi Paiva Couceiro e o seu braço-direito, João de Almeida. A conquista do Sul foi "épica" entre 1885 e 1915.
E em Moçambique?
Não partilho do entusiasmo por Mouzinho de Albuquerque. Em Angola, não havia a premência de Moçambique, a braços com as ambições de Cecil Rhodes, dos britânicos e até dos alemãos, que olhavam, a partir do norte, o que podiam apanhar dos portugueses.

A pressão de Cecil Rhodes sobre Moçambique


Em Angola não havia esse tipo de problemas.
Havia o problema dos alemães e o seu domínio do Sudoeste africano. Mas a pressão alemã era inferior à de Cecil Rhodes, que queria conquistar a Rodésia e aceder ao mar através da Beira. Quem teve a visão mais clara foi António Enes. Enes era um civil: era um autor dramático, foi diretor da Biblioteca Nacional em Lisboa e ministro, e tinha uma conceção relativamente eficaz sobre a organização da conquista. Não tinha poder militar, mas encontrou entre os seus oficiais intermédios gente corajosa e soube ampliar exageradamente a ameaça do Gungunhana. O Gungunhana era um imperialista africano - não há que ter vergonha em dizê-lo. Agora é um herói em Moçambique - cada país encontra os heróis onde pode. Mouzinho de Albuquerque conseguiu o feito apreciável de se apoderar da pessoa de Gungunhana sem resistência, em Manjacaze. Isso deu confiança aos oficiais portugueses, que se batiam com poucos meios e homens e com pouco espírito de organização. Perceberam que, uma vez vencido o Gungunhana, podiam apoderar-se de todo Moçambique - e fizeram-no, lentamente. No início da I Guerra Mundial, o essencial de Moçambique estava conquistado, exceto a parte Norte, os atuais Cabo Delgado e Niassa, que pertenciam a uma sociedade privada comercial, uma pura sociedade de predadores. Os acionistas eram sul-africanos, alemães, franceses, etc. e apenas o presidente era português.
Seguiu-se o estudo da Guiné...
Cheguei à Guiné com muita dificuldade. Porque é muito complicada, ao lado de Angola...
Mais difícil que Angola?
Sim. Quando estudei Angola, tinha uma vantagem: salvo no Sul e no Noroeste, não havia muitas relações (em termos de pesquisa) com os territórios vizinhos. Enquanto a Guiné está completamente rodeada por territórios franceses, pelo que era necessário absorver a história dos povos que também habitam o Senegal e a Guiné Conakry. Fiz, assim, o conjunto das três colónias continentais que nunca tiveram cinco séculos de colonização, que existiu unicamente em Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, e Goa e territórios adjacentes. E mesmo Goa estava dividida, até à véspera da conquista indiana, em duas partes: as velhas conquistas (um território muito pequeno) e as novas conquistas, feitas no fim do Sec. XVIII. Só me faltava a última colónia onde houve grandes combates: Timor, que acabei em 1996. Depois tive problemas de saúde e pessoais, que me obrigaram a trabalhar mais lentamente. Estabeleci, depois, em termos cronológicos, uma síntese das quatro histórias separadas. Associando as várias conquistas, demonstrei que no principio do sec. XX Portugal esteve em guerra permanente e simultânea em vários territórios. O que impressiona, uma vez que o país era pobre - o Portugal do fim da monarquia não se podia comparar à Bélgica do rei Leopoldo. Portugal é, indiscutivelmente, o país que mais se bateu, e mais tardiamente, para obter o seu terceiro Império. O que foi trágico para Portugal é que, à conquista, não se seguiu uma administração estável. Faltou dinheiro, homens e espírito de continuidade. E isso custou muito caro: era preciso reconstruir perpetuamente. Norton de Matos escreveu, num dos seus relatórios, que "não sabemos colonizar..." Exagerava um pouco, mas havia grande parte de verdade nisso. Fez falta uma continuidade do esforço colonial.

'A República liquidou as elites africanas'

E a República?
Coitada! Continuou a mesma política, não tendo sido nem mais gentil nem mais reformadora... Liquidou as elites africanas - não no sentido de as ter morto, mas abafou os primeiros movimentos nacionalistas.
Visitou todas as colónias?
Visitei Angola três vezes - a última, em 1973. Não fiquei apenas em Luanda; fui a Teixeira de Sousa, Cazombo, Gago Coutinho, Cuito Cuanavale, Mavinga, Serpa Pinto...
Vejo que tem uma memória fantástica...
Um pouco... Visitei todos os distritos, menos dois: o Zaire e o Kuanza-Sul.
Quem financiou?
Em 1966, a Junta de Investigações do Ultramar, dirigida por um homem notável: Carlos Cruz Abecassis. Foi honesto comigo e eu com ele. Escrevi um livro que se chama "Explorar. Voyages en Angola et autres lieux incertains", em que descrevo a visita à prisão de S. Paulo, em Luanda, com São José Lopes, o diretor da PIDE em Angola.
Conheceu-o?
Fui até lá. Fez-me visitar de noite a sua prisão que estava vazia.
Vazia?
Não sou ingénuo. Se há historiador ingénuo, não sou eu. Estava quase vazia. Fui depois ao campo de concentração de Missongo; vi os prisioneiros, falei com eles, fiz um pequeno inquérito sobre as origens religiosas e políticas; os portugueses tinham sido astutos e hábeis, tinham misturado os FNLA com os MPLA para ter 'bufos' dos dois lados... Não se deve desprezar a astúcia dos portugueses. Há autores estrangeiros que o fazem. Eu não. É preciso reconhecer qualidades aos portugueses. Ninguém consegue aguentar três guerras durante 14 anos, em dois milhões de quilómetros quadrados insalubres, sem ter uma resistência fora do comum. Os seus adversários, salvo o PAIGC, não estavam tão bem organizados nem eram tão numerosos como a FLN argelina contra a França - mas, apesar disso, é preciso tirar-lhes o chapéu. E eu tiro-o. Mas eles estavam militarmente num beco sem saída.

Reportagem mal-tratada pelo 'Le Monde'


Visitou Moçambique?
Duas vezes. Paguei uma vez, mas não vi muita coisa, fui apenas à Beira, Lourenço Marques e Gaza. A segunda foi em 1973; paguei a viagem até África e na Beira fiquei a cargo das autoridades militares e da administração. Visitei Tete (pouco depois do escândalo do massacre de Wiriamu), Metangula, Vila Cabral, Nangade (no Rovuma). Escrevi um artigo para o "Le Monde" sobre Nangade, que aliás foi mal-tratado por um jornalista da redação, que cortou o que eu dizia de bem dos portugueses, acusando-me de ser um propagandista da causa colonialista...
Visitou a Guiné?
Nunca. O que era normal. Gosto dos jornalistas, porque põem perguntas embaraçosas. E na Guiné sabiam que eu poria questões muito embaraçosas, a que não poderiam responder sem violar completamente a verdade.
Visitou algum destes países depois da independência?
Nunca. Nunca fui à África lusófona depois da independência. Fui a Goa por minha conta em 1979 e verifiquei que estava marginalmente mais desenvolvida que no tempo dos portugueses.
Todos os seus livros estão traduzidos para português?
Não e isso é uma pena. Tenho cinco livros e meio traduzidos para português (ao todo, cerca de 3500 páginas). Sou provavelmente o único historiador estrangeiro a ter cinco livros traduzidos em português: "História das campanhas de Angola", "História de Moçambique", "História da Guiné", "Timor em Guerra" e "As campanhas coloniais de Portugal" (que é a síntese dos quatro). E escrevi, juntamente com Douglas Wheeler, "História de Angola".
Que foi o último a ser traduzido.
Sim. O "Minotauro" nunca foi. Procuro um editor, mas são mais de 700 páginas. Não é apenas a guerra em 1961, é também a administração portuguesa nas véspera das revoltas.

Recensões sobre livros publicados em 52 países


Você é conhecido por ser um máquina de ler...
Sou um explorador do passado.
Quantos livros leu sobre as colónias portuguesas?
Sobre Moçambique, mais ou menos mil livros e artigos; 1100 sobre Angola, pelo menos 400 sobre a Guiné e mais de 300 sobre Timor.
Fez recensões sobre todos esses livros?
Não. Li e utilizei-os para compor os meus próprios livros. Além disso, publico recensões de livros recentes sobre a colonização portuguesa moderna (os cinco PALOP e Timor) e um pouco sobre Goa e Macau. Publiquei mais de três mil recensões desde 1964. É um serviço de informação para o público.
Publicou muitas recensões na "Análise Social". Porque acabou?
Não fui eu que interrompi a minha colaboração. Gostaria bem de a manter. A revista mudou de programa, depois de ter publicado 27 crónicas bibliográficas minhas. E a tradução custava dinheiro!
Em que línguas lê?
Francês, português, espanhol, catalão, italiano, inglês, alemão, holandês (aprendi por causa de Timor) e um pouco de dinamarquês. Quando não leio uma língua, peço ao autor que me envie um resumo, o que já aconteceu com livros escritos, por exemplo, em finlandês, checo e polaco. O mais exótico que recensei foi o primeiro livro em hebraico sobre Angola, da primeira embaixadora de Israel em Luanda.
Escrito em hebraico?
Eu não leio e pedi à autora que me desse um apanhado. Tenho recensões sobre livros publicados em 52 países - na Índia, Nicarágua, Colômbia. Rússia, Roménia, no país basco (sobre missionários em Angola), etc.. É uma cobertura internacional... Publiquei parte dessas recensões num livro enorme (748 páginas) chamado "Angola, Guinées, Mozambique, etc. Una bibliographie internationale critique (1990-2005)". Às vezes muito crítica.

Uma biblioteca com 12 mil títulos 


Está a escrever para revistas portugueses?
Tento, mas é muito difícil. Enquanto crítico, preciso que os meus trabalhos sejam publicados rapidamente. É a mesma atitude que um jornalista: é preciso que saia rápido, atendendo às motivações do editor.
Ouvi-o falar sobre Angola. O que contou foi uma autêntica reportagem jornalística...
Sim. Vocês fazem o mesmo trabalho que eu, mas com uma faca na garganta: o tempo e, por vezes, o chefe-de-redação. Eu tenho bastante mais tempo e menos constrangimentos.
O historiador também é um jornalista?
Não. Eu estou na fronteira. Sou um homem curioso e sistemático. Em França, um grande jornalista é o que trabalha num grande jornal. Eu não trabalho em nenhum jornal e só o faço para pequenas revistas confidenciais, que geralmente não interessam aos editores comerciais. Pelo que sou eu que todos os anos compro uma centena de livros para a minha biblioteca. Além dos livros enviados para a comunicação social, que analiso sempre.
Quantos volumes tem?
Doze mil. Incluindo livros sobre a Índia e Macau e sobre os territórios espanhóis de África, área de que também sou especialista. Unicamente para o período 1840-2010.

'Um bom livro é o que me traz coisas novas'


Tem esses livros todos em sua casa?
Sim, mas não há mais espaço! Gostaria de fazer uma coisa útil para as gerações futuras: uma bibliografia crítica de tudo quanto foi publicado em livro sobre Angola, Moçambique, etc. a partir de 1840. Mas isso custa uma fortuna.
Qual foi o melhor livro que leu sobre as colónias portuguesas?
É uma escolha difícil. Talvez o do americano John Marcum, sobre Angola, em dois volumes e alguns do grande Charles Boxer até 1825.
E de autores portugueses?
Há muitos, visto que também leio romances, na condição que falem da situação e do drama colonial. Enquanto historiador, destaco o livro de António Monteiro Cardoso, "Timor na Segunda Guerra Mundial: O Diário do Tenente Pires". Gosto também de um precursor que escreveu a primeira história séria de Angola, chamado Ralph Delgado; era um autor colonialista, mas com visão de historiador e fez um trabalho de pioneiro. E eu respeito os pioneiros.
O que é, para si, um bom livro?
Se um livro me traz coisas novas, considero-o bom; se me traz muitas coisas novas, é excelente, qualquer que seja a tendência política do autor. Como não tenho nenhuma opção política, se fizer bem o seu trabalho, não tem nenhuma importância que seja de esquerda ou de direita. Desde que faça bem o seu trabalho...

Parte que interessa a Angola da Versão integral da entrevista publicada no Expresso de 31 de Julho de 2010, Caderno Atual, páginas 38 a 40

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O Final do Longo Século XIX: Aspectos gerais do período de 1895-1914

 

«....Em grande medida, a globalização do final do século XIX foi mais natural, livre e tecnológica, baseada principalmente no livre trânsito de mercadorias, capitais e pessoas possibilitado pelos avanços dos transportes e comunicações derivadas da industrialização, e pela expansão do liberalismo. No entanto, o imperialismo e o colonialismo continuaram sendo características fundamentais das relações entre as grandes potências da época e os povos asiáticos e africanos. De fato, o período de 1870-1914 é considerado o apogeu do imperialismo ocidental (seguido pelo japonês) sobre a Ásia e a África, fruto das “novas tecnologias da Revolução Industrial” que “ampliaram enormemente as vantagens comparativas pré-existentes em termos de violência que o Ocidente já possuía, reduzindo o custo e o alcance do império”. As novas tecnologias, além daquelas da revolução dos transportes e das comunicações, foram, contraditoriamente, as de natureza bélica (a capacidade de ferir e matar, com o maior potencial de fogo de uma nova geração de fuzis, das metralhadoras, da artilharia leve de campo, dos navios de guerra couraçados) e medicinal (a capacidade de curar e salvar, com remédios e vacinas), que permitiram superar as distâncias, os problemas de logística, a resistência militar dos Estados e tribos asiáticas e africanas e a natureza hostil de regiões tropicais, sobretudo na África, que até então impediam ou dificultavam a conquista ocidental. O resultado foi a incorporação, por meio da guerra, de novos territórios e povos (entenda-se mercados, fontes de matérias-primas e áreas de investimento) ao capitalismo global – incorporação que dependeu da destruição da soberania das sociedades conquistadas e da ampliação dos impérios coloniais. “No ano de 1800”, afirmou Paul Kennedy, “os europeus ocupavam ou controlavam 35% da superfície terrestre do mundo; em 1878, esse número tinha aumentado para 67% e em 1914, para 84%”  »


Excerto de um artigo que nos dá uma panorâmca geral bastante ampla e interessante sobre o assunto em causa. Para ler o artigo completo:, clicar AQUI

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Política: O Ultimato Inglês e o 31 de Janeiro de 1891 por Deniz Ramos em Fevereiro 05,2010


Mapa Cor de Rosa



Por Deniz Ramos em Fevereiro 05,2010

As viagens à África Central de Livingstone (1852-1873) e de Stanley (1874-1877), amplamente divulgadas, chamaram a atenção para o continente africano. Antes, a expedição de Correia Monteiro e Pedroso Gamito, acompanhados de 420 mercadores e carregadores, tinham explorado em 1831-1832 a rota de Tete a Cazembe. Em 1843 e durante três anos, Rodrigues Graça alcançou as nascentes do rio Sena e o Bié, onde procurou impor a soberania portuguesa, e de 1847 até finais da década, Bemardino Brochado explorou o sul de Angola, de Moçâmedes ao Cunene, recolhendo preciosa informação económica, etnográfica e geográfica. Nas décadas de 1840 e 1850, Angola e Moçambique seriam objecto de novas expedições, sempre com o propósito de afirmar a soberania portuguesa e, cumulativamente, reconhecer as realidades físicas e económicas dos territórios com vista a futura ocupação de colonos. Figura lendária desses exploradores sertanejos foi Silva Porto, colono e comerciante. Único branco no centro de Angola, fixou-se no Bié, e daí empreendeu expedições atrás de expedições numa vasta área até à actual Zâmbia, onde se encontraria com o explorador inglês Livingstone. Silva Porto gozou de grande prestígio entre as autoridades gentílicas, contribuindo para reforçar a presença portuguesa em Angola. Viria a suicidar-se quando algumas tribos locais, aliciadas pelos britânicos, se rebelaram contra Portugal.
Seria, porém, entre 1870 e 1890, já com organização da recém-criada Sociedade de Geografia de Lisboa (1875), que se realizaram as grandes expedições de Hermenegildo Capelo, Roberto Ivens, Serpa Pinto e António Maria Cardoso. Dessas expedições, com fins bem definidos ao nível científico e favorecidas pela melhor preparação dos seus executantes, oficiais da Marinha e do Exército, adveio um conjunto valiosísimo de informações, desde o reconhecimento da natureza dos territórios africanos às suas potencialidades económicas. Os seus relatórios obtiveram larga divulgação: em 1881, Capelo e Ivens publicaram De Benguela às Terras Iacca, Serpa Pinto, que caminhou para sul até à Zâmbia central e ao longo do curso do Zambeze atingiu Pretória e Durban, escreveu em dois volumes, editados em Londres também em 1881, Como eu atravessei a África e em nova viagem, Capelo e Ivens partiram de Moçâmedes e, seguindo o Zambeze até à sua foz, atingiram Quelimane um ano depois. Essa ousada expedição foi relatada em 1986 em De Angola à Contra-Costa.

No país, e Águeda não foi excepção, o êxito dessas viagens de exploração e os seus resultados científicos despertaram viva curiosidade. Em Escola Popular, semanário que em 1870-1871 se envolveu na cruzada da instrução popular, base fecunda da cidadania liberal, José Maria Veloso aproveitou o ensejo para aí publicar diversos textos de divulgação da África Oriental Portuguesa: sobre a Zambézia, Moçambique, Quelimane, Sena, Tete, Zumbo, Manica e Sofala e Bazaruto nos seus números, 33 35, 40 e 52, respectivamente. O propósito era chamar a atenção dos leitores para essa África desconhecida, quase deserta de população branca e sempre negligenciada pelo poder político: “Leiam os nossos trabalhadores, que nós   lhes asseguramos terão vontade de deixar de procurar a escravidão na América para optarem pelo arroteamento e amanho dos campos portugueses de além-mar, capazes, pela sua extensão e feracidade, de fazer a sua fortuna e a dos seus porvindouros; honrando-se, além disso, a si e honrando e engrandecendo a Pátria”.

O Mapa Cor-de-Rosa
e o últimato Inglês de 1890

Na década de 1870 estava na forja o plano britânico de Cecil Rhodes de dominar do Cairo ao Cabo e a resposta de franceses e alemães não tardou. Investido em árbitro das pendências africanas, Leopoldo II da Bélgica convocou em 1876 para Bruxelas as principais nações europeias. Aí foi decidido constituir uma associação internacional africana destinada a promover a África Central e a travar expansionismos perturbadores do equilíbrio na região. Portugal não foi convidado a participar, o que desde logo indiciava os objectivos dessa filantropia em relação às possessões africanas portuguesas. Seria, porém, por ocasião da Conferência de Berlim, da iniciativa de Bismarck (1884-1885), que o golpe decisivo se desferiu contra Portugal. Nesse conclave, apesar da resistência dos representantes portugueses, estabeleceu-se um novo direito público colonial: a posse de colónias africanas deixava de poder legitimar-se apenas por direito histórico e só a ocupação efectiva a justificaria. Ou seja, os direitos históricos sobre um determinado território deveriam ser corroborados pela “existência de uma autoridade suficiente para fazer respeitar os direitos adquiridos e a liberdade do comércio e do trânsito”. A intenção era óbvia. A crise de 1890 abatera-se sobre a Europa e atingira mais duramente a frágil economia portuguesa, agravada ainda pela turbulência político-partidária. Em tão curto prazo de tempo e sem meios financeiros compatíveis seria impossível a Portugal deslocar tropas e funcionários administrativos para todos os territórios a fim de garantir a sua soberania, que ninguém até então havia contestado. Assim, a África portuguesa, onde não existisse um mínimo de ocupação militar e organização administrativa, seria, pois, presa fácil para a espoliação das mais poderosas potências europeias.

Antes da Conferência de Berlim, a presença portuguesa nas colónias oriental e ocidental limitava-se à administração e ocupação de áreas estratégicas ao longo da costa e de pouca profundidade para o interior. Apesar de alguns estadistas liberais terem chamado a atenção para não se descurar os nossos interesses em África, a situação deficitária e política não permitiu dispensar os meios para uma mais larga colonização efectiva, em particular da vasta área entre Angola e Moçambique que havia sido objecto apenas de viagens de exploração. Antes da independência, o Brasil concitara o empenho da burguesia comercial e nem depois da independência se lograra inverter a desatenção colectiva em relação ao ultramar africano. Amputado o império, a burguesia saída da Revolução de 1822 continuou a tirar proveito dos negócios brasileiros e viraram-se as costas a África. Repare-se que no Brasil, à altura do grito independentista, viviam aí cerca de 900 mil brancos e mais de um milhão de mestiços europeizados. Em Angola e Moçambique, por sua vez, a população branca não ultrapassaria 25 mil pessoas. É certo que, entre 1885 e 1890, governos regeneradores e progressistas irão empreender esforços para satisfazer as exigências de Berlim, tímidos, realmente, pois a conjuntura a mais não permitia. Deu-se continuidade a algumas das medidas anteriores, administrativas e de fomento: a Companhia Nacional de Navegação, criada em 1880, passara a ligar Lisboa e Luanda em serviço regular e também nessa década todas as colónias ficaram ligadas a Lisboa por cabo submarino. Cumulativamente, abriram-se estradas para o interior e lançaram-se vias-férreas (o caminho-de-ferro de Lourenço Marques ao Transval, iniciado em 1870, já atingia a fronteira de Ressano Garcia em 1889-1890 e em 1887 iniciou-se a construção da via ferroviária da Beira para a antiga Rodésia e de Luanda para o interior). Por outro lado, intensificaram-se com fins geográficos e de soberania as expedições de Paiva Andrade, Serpa Pinto, António Maria Cardoso, Vítor Gordon e Paiva Couceiro e tentou-se proceder à ocupação, mínima evidentemente, do território entre as duas costas, alvo da cobiça inglesa. Em 1887, Barros Gomes, ministro dos Negócios Estrangeiros progressista, viria a apresentar o projecto da África Meridional Portuguesa. Elaborado no ano anterior, o mapa incluía a região compreendida entre Angola e Moçambique, ou seja, a África Meridional Portuguesa ia da costa atlântica à do Indico. Pela cor com que esse território foi cartografado, o mapa ficaria conhecido como Mapa Cor-de-Rosa.
Barros Gomes, conhecedor da oposição dos ingleses, procurou apoios junto da França e da Alemanha, com quem celebrou convénios em 1886 embora à custa de algumas cedências territoriais.

A inclusão dessa região na África Meridional Portuguesa feria os propósitos expansionistas ingleses e o plano de Cecil Rhodes, lesando os interesses da industrialização inglesa, que necessitava de novos mercados e de matérias-primas e a Conferência de Berlim acabara por fomecer-lhe os meios legais para o conseguir. Por isso, a reacção britânica não se fez esperar. Em Novembro de 1887, aproveitando os incidentes ocorridos no Chire entre as forças de Serpa Pinto e os Macololos e Machonas, que se diziam sob a sua protecção, a Inglaterra fez queixa formal ao governo português. Lisboa apenas respondeu à nota inglesa em Dezembro de 1889 e Lord Salisbury apresentou a 11 de Janeiro de 1890 um ultimatum ao governo português, exigindo a retirada imediata de todas as forças portuguesas do Chire e dos países dos Macololos e Machonas. A ameaça de corte de relações diplomáticas era clara e provável o cenário de guerra: “O Governo de S. M. entende que sem isto as seguranças dadas pelo Governo Português são ilusórias. Mr. Pitrè ver-se-á obrigado, à vista das suas instruções, a deixar imediatamente Lisboa com todos os membros da sua legação, se uma resposta satisfatória à presente intimação não for por ele recebida esta tarde; e o navio de S. M. Enchantress está em Vigo esperando as suas ordens”.
D. Carlos e o governo progressista acabaram por ceder ao ultimatum no prazo que fora imposto: “Na presença duma ruptura iminente de relações com a Grã-Bretanha e de todas as consequências que dela poderiam talvez derivar, o Governo de S. M. resolveu ceder às exigências formuladas nos dois memorandos, a que alude, e, ressalvando por todas as formas os direitos da Coroa de Portugal às regiões africanas de que se trata; e bem assim, pelo direito que lhe confere o artº. 12º. do Acto Geral de Berlim, de ver resolvido o assunto em litígio por uma mediação ou por uma arbitragem, o Governo de S. M. vai expedir para o Govemador-Geral de Moçambique as ordens exigidas pela Grã-Bretanha”.
Apesar das tentativas diplomáticas para que o litígio fosse resolvido por arbitragem
internacional, a Inglaterra sempre se opôs e nem a França, nem a Alemanha se decidiram a intervir. Perante a violenta reacção da opinião pública, que sentiu na pele a humilhação da intimação inglesa, o ministério progressista de José Luciano de Castro caiu, sendo substituído pelo governo regenerador de Serpa Pimentel. Entretanto, ocorreram negociações entre os dois países para clarificar a situação pós-ultimato. O tratado assinado em Agosto, que concedia a Portugal uma estreita faixa a ligar Angola a Moçambique, seria rejeitado e alvo de repúdio na opinião pública, o que levou à demissão dos regeneradores. Em Maio de 1891, já com um novo ministério extra-partidário, foi negociado outro tratado, onde já se não incluía essa faixa entre as duas colónias. Em troca da região a que se convencionou chamar mapa cor-de-rosa, em que, aliás, Portugal nunca teve qualquer ocupação efectiva de colonos ou militares (era uma utopia a África Meridional Portuguesa como a concebia Barros Gomes), foi reconhecida pelos ingleses a soberania portuguesa sobre as colónias de Angola e Moçambique, acrescidas de regiões que Portugal jamais havia reivindicado como pertença histórica. A cedência às exigências britânicas foi embalada pela anglofobia embora o acto intimidatório do ultimatum fosse um escândalo ignóbil. Que Portugal nada terá perdido do que, na verdade, detinha em África é hoje um dado adquirido na recente historiografia.

A reacção ao ultimatum em Soberania do Povo

Vejamos como Soberania do Povo, o único semanário que à época se publicava em Agueda e, por sinal, afecto aos progressistas, reagiu à afronta inglesa perante a qual capituIara um governo do seu próprio partido. O texto é da sua edição de 13 de Fevereiro.
“A ocasião não é propriamente para chorarmos as nossas desventuras, nem para discussões estéreis e inúteis. No momento em que esta gloriosa nação atravessa uma crise assustadora, acerquemo-nos todos da bandeira portuguesa para a defendermos corajosamente das brutalidades do aristocrático marquês de Salisbury, que só pensa em nos roubar, confiado na superioridade das forças britânicas e na indiferença das outras nações do mundo. Esqueçamos por um instante as divergências políticas e unam--se todos os partidos em derredor da mesma bandeira, que é a da Pátria, aquela que outrora tremulou desassombrada nas cinco partes do mundo e que Serpa Pinto ainda hoje empunha briosamente nos pontos mais arriscados do continente africano. O momento não é azado para retaliações, nem para a propaganda revolucionária dos republicanos. Não nos descuidemos porque amanhã pode ser tarde. Abatam-se as bandeiras partidárias para se içar bem alto a bandeira nacional. O governo deve ser o primeiro a ensarilhar as armas. Inspirando confiança aos adversários, eles não recearão seguir-lhe o exemplo. (...) A intimação do governo de S. James melindrou-nos nos nossos sentimentos patrióticos porque não estávamos acostumados a humilhações; e Salisbury atreveu-se a tanto porque dormíamos há 70 anos e não estávamos precavidos. Ouvimos ornear o aristocrático marquês e tivemos a imprudência de adormecer novamente sem nos munirmos de um vergalho.
Suportámos por isso os couces do sendeiro quando outrora não temíamos os rompantes do leão que tantas vezes se rojou humilde a nossos pés. Oxalá que a lição nos aproveite e que o desforço se não faça esperar. A guerra que promovemos às mercadorias da Grã-Bretanha, e que, infelizmente, ainda não é geral, merece o
apoio de todos e é a única que lhe poderíamos fazer com vantagem nas circunstâncias actuais. Portugal, porém, necessita de se desforçar energicamente logo que se lhe ofereça ensejo. (...) Armemo-nos também até que venham melhores dias; e sem perda de tempo, corramos a pontapés os que se embebedam com o nosso vinho e vão depois vomitar no Times as infâmias mais grosseiras. Vamos! Não percamos um momento.
Acerquemo-nos da bandeira nacional e icemo-la bem alto onde não cheguem as afrontas brutais do marquês de Salisbury e da cáfila de bandoleiros que o aplaude nas suas aventuras atrevidas e desonestas (...)”.
Em outras edições posteriores, Soberania do Povo censurou veementemente o acordo anglo-saxónico negociado pelo governo regenerador e Albano de Melo, que dirigia o semanário e ao tempo era deputado, escrevia a bem informada Carta de Lisboa onde comentava, semana a semana, exaustiva e minuciosamente, os conflitos de rua em Lisboa e no Porto e as reacções parlamentares e da imprensa ao ignóbil comportamento inglês em África antes e no decurso das negociações com vista à assinatura do acordo. Ao fim e ao cabo, retomava-se na velha gazeta a revelha rivalidade no seio dos partidos rotatívistas monárquicos.

O 31 de Janeiro de 1891 visto pela progressista Soberania do Povo

Se o país explodiu face à afronta inglesa e à pusilaminidade do rei e do ministério progressista e trouxe para a rua sentimentos anti-britânicos a clamar por represálias, ou se os jornais caíram numa violência inaudita e em verso, no também virulento Finis Patrioe, Guerra Junqueiro vituperou a cínica Inglaterra, a bêbada impudente, todos esses sentimentos ofendidos viriam em proveito dos republicanos, que já no tri-centenário de Camões em 1880 haviam arrecadado um capital de esperança ao simbolizar na evocação do Poeta o despertar da pátria aviltada por um regime anémico. Na opinião de Joel Serrão, embora outros mais recentes historiadores dela discordem, o 31 de Janeiro “se, por um lado, foi o remate da profunda emoção suscitada pelo ultimato inglês de 1890, por outro, assumiu papel de grande relevo na história da conquista do Poder pelo republicanismo, que culminou com a revolução de 5 de Outubro de 1910”. Basflio Teles, um dos vencidos da sublevação, dirá que foi o prólogo e que o epílogo viria logo a seguir.
No Congresso do Partido Republicano realizado em Lisboa no início de Janeiro, os
que apostavam pela acção imediata divergiram dos moderados. A direcção, que veio a ser substituída, no seu relatório assegurava que o ultimato de 11 de Janeiro de 1890 significava que o partido havia terminado a sua propaganda doutrinária e que urgia seguir agora a acção decisiva, que não era outra coisa senão a revolução. E assim aconteceu no Porto, às três horas da madrugada nevoenta de 31 de Janeiro. A revolta, mais que anunciada pois a população e jornalistas concentraram-se nos locais públicos para acompanhar mais de perto, saiu dos quartéis apenas com sargentos e três oficiais. Hasteou na Câmara Municipal a bandeira republicana e da varanda proclamou a República e anunciou os nomes dos que constituiriam o Governo Provisório. Depois, engrossados de multidão e com a Banda a tocar a Portuguesa, as poucas centenas de militares subiram a rua de Santo António. A Guarda Municipal abriu fogo e após nutrido tiroteio os revoltosos retrocederam para a Câmara. A artilharia leal atingiu o edifício e deu-se a debandada, com numerosos civis mortos e feridos. Seguiram-se prisões, julgamentos e deportações dos cabecilhas.

Acompanhemos a reacção de um jornal monárquico progressista ao pronunciamento militar que, no Porto, durante curtas três horas manteve ao alto a bandeira republicana.
Na edição de l de Fevereiro de 1891, Soberania do Povo dedicou a 2ª. página e parte da 3ª. ao relato circunstanciado dos acontecimentos. A descrição, feita em cima da hora, não difere muito da versão oficial posterior.
“Rebentou ontem, às 3 horas da madrugada, na cidade do Porto, uma insurreição militar combinada com alguns elementos populares. A revolta estava preparada há tempo, mas a prisão do sr. João Chagas, condenado por abuso de liberdade de imprensa, apressou talvez o movimento. Às 3 da madrugada saíram para as ruas os regimentos de infantaria 10 e cavalaria 9 e um pelotão de 18 e dirigiram-se à Praça de D. Pedro. Tomaram a casa da Câmara e foi proclamada a república pelo sr. Alves da Veiga, que hasteou a bandeira vermelha do Centro Democrático Federal 15 de Novembro. Foi aclamado um directório composto pelos srs. Carvalho, general reformado, Joaquim Bernardo Soares,juiz da Relação, Rodrigues de Freitas, Licínio Pinto Leite e Alves da Veiga. Aos insurgentos aderiram alguns soldados da guarda fiscal.
Não se associaram à revolução os oficiais superiores da guarnição. O coronel do 18, Cabanellas, pôs-se à frente do seu regimento e marchou para a Praça D. Pedro. A guarda municipal também foi contra os soldados sublevados. A artilharia da Serra do Pilar foi mandada para o largo e fez fogo sobre a casa da câmara, onde as tropas se tinham acolhido, e que foi cercada. Houve um vivo tiroteio. A fusilaria era constante. O combate durou desde as 6 horas da manhã até às 3 da tarde. Houve numerosos mortos e feridos, talvez 150. Os hospitais estão cheios deferidos.
A revolta foi sufocada, fazendo os revoltosos a sua submissão. Muitos fugiram pelas traseiras da casa da câmara. Comandava a insurreição o Capitão Leitão e o alferes Malheiro. De Lisboa e outros pontos foram mandados diferentes regimentos a ocupar o Porto. Alguns navios de guerra devem entrar hoje a barra do Douro. Os revoltosos fizeram todos os esforços para ocupar a praça da Batalha, o telégrafo e o governo civil, mas não o conseguiram. Compreende-se bem o seu plano. Senhores do telégrafo, do governo civil e da casa da câmara, dariam notícias para todos os pontos do país, com quem estavam de inteligência, e a república seria facilmente proclamada em terras importantes. Vê-se que o plano falhou, porque aguarda municipal defendeu a todo o custo a praça da Batalha. Não temos até agora outros pormenores”.
No semanário incluiu-se também informação retirada da imprensa portuense, chegada a Águeda no correio da tarde, que não reproduzimos por não diferir da acima
transcrita. Apenas um parágrafo nos chamou a atenção. Soberania do Povo referiu que corriam já na cidade notícias sobre os tristes factos que cobrem de luto muitas famílias, que não salvaram a liberdade nem deram mais prestígio ao princípio republicano.

O número da semana seguinte dedicou ao 31 de Janeiro, além de um editorial, duas
páginas na íntegra. A quantidade da informação diz bem das preocupações que o movimento revolucionário provocou no seio do regime. Merece, porém, referência a postura do semanário monárquico perante a situação trágica que ocorreu no Porto. Escreveu-se:
“Nesta ocasião nós somos também contra a revolução de 31 de Janeiro. Mas, deplorando os factos, não requeremos vingança, nem aconselhamos o governo a que se meta no caminho das perseguições miguelistas.
Isso não está nos nossos hábitos e demais a experiência diz-nos que a reacção dos oprimidos está na razão directa da violência dos opressores. (...) E assim como os revoltosos estão a estas horas nas mãos da monarquia, podíamos nós todos estar nas da república. Sejamos complacentes e justos, se porventura a justiça se pode combinar com a benevolência. Um criminoso político não é um envenenadar, um bandido. Correu sangue, dizem; é preciso que nos vinguemos: fuzilem-se os sargentos, guilhotinem-se os conspiradores! Sejamos coerentes, meus senhores. (...) Isto não quer dizer que apoiamos a insurreição, Reprovamo-la até e não queremos a impunidade dos insurreicionados. Mas entendemos também que o crime tem grandes atenuantes que devem fazer época nos espíritos liberais e muito principalmente no do poder moderador que nos últimos anos tem sido generoso e magnânimo”.
O editorial vai no mesmo sentido: justiça e benevolência, a par da censura pela inoportunidade do pronunciamento militar republicano: “ É nesta hora cheia de receios e de perigos que um punhado de soldados se insurge e se levanta por uma bandeira, que pode atrair os espíritos juvenis e prender os ideais de muitas almas generosas, mas que neste momento não é a altiva e santa bandeira da Pátria. Não estamos ao lado dos revoltosos. Não chegou ainda o dia solene da implantação da república portuguesa “.

Lemos e pasmamos. Também para a monárquica Soberania ao Povo, como o foi para Basflio Teles, um dos vencidos que teve de se refugiar no Brasil, o 31 de Janeiro de 1891 seria o princípio do fim? Acreditamos. O mais fecundo trabalho de casa preparatório da revolução que em 5 de Outubro pôs termo à Monarquia foi feito realmente dentro da família dos Braganças. Por outras palavras disse-o Eduardo Schwaibach aos seus leitores brasileiros: Ao cabo de longos e porfiados esforços, os monárquicos acabam de implantar a República em Portugal”.

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