terça-feira, 31 de agosto de 2010

Povos indígenas: Angola colonial, em finais do século XIX, princípios do século XX



Mulher Caconda

 Planaldo de Mossâmedes: colecção de penteados

Planalto de Mossâmedes: gentios pilando o milho


Planalto de Mossâmedes. Tipos de penteados. Humbe
 Cuamato

Mulheres da Bunha. Cuangar

 Planalto de Mossâmedes: Soba



Libata no Cuangar
 Huuila: Soba e séquito



 Cuanhama cerimonias iniciação

Mossâmedes: Soba e sua gente

Mossâmedes: Mondombe

Benguela: costumes

Mossâmedes: familia mondombe
Gentio do Lubango

Benguela . Mondombes

Rapariga Cuangar
Huila: mulheres casadas

Tipos Bailundo
Costume de Benguela
...


...

A fidalga dos Gambos

 Cuanhamas

Jovens Muhuilas

Mulher Boshimane

Povo Boshimane

Mulher Hotentote

Rapariga do Humbe

Rainha do Humbe

Mondombes

Mondomba - Mossãmedes

Mondombas - Mossãmedes

Mondombas - Mossãmedes

Mondombas - Mossãmedes





Mondombas - Mossãmedes

Mulher de Luanda

Tipos do Humbe - Planalto de Mossãmedes

Huila - Mulheres casadas

Huila - Adolescentes do Quipungo
 



Humbe: Mulheres casadas

Huila: o soba com seu séquito

Mulher Cuanhama

Mondombes




Grupo de raparigas Muhuilas

Carregadores



Benguela: quitandeiras Tipo de mulher "Tyilengue

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Crianças Muhuila

Angola - Jovem esposa muganda


Chimbas, Dimbas ou Himbas no Deserto do Namibe. 
Foto de Elmano Cunha e Costa ICCT (1935-1939)




Chimbas, Dimbas ou Himbas no Deserto do Namibe. 
Foto de Elmano Cunha e Costa ICCT (1935-1939)

Chimbas, Dimbas ou Himbas no Deserto do Namibe. 
Foto de Elmano Cunha e Costa ICCT(1935-1939)





IMPACTOS DA OCUPAÇÃO COLONIAL
NAS SOCIEDADES RURAIS DO SUL DE ANGOLA


Elisete Marques da Silva
De acordo com a tradição etnológica predominante12, distinguem-se comummente, alguns grandes grupos etno-linguísticos. No universo agro-pastoril são numericamente mais importantes os Nyaneka-Nkhumbi, que constituem, na verdade, um conjunto relativamente heterogéneo13, os Ambó que continuam a representar uma “nação”14 e povos de uma feição agro-pastoril mais ou menos marcada, mas culturalmente assimilados aos Ovimbundu15.

Igualmente instalados no universo desde épocas recuadas há os grupos mais pequenos dos Herero, dos Ngangela e dos Mbukushu, bem como grupos residuais de origem não banta.  Já no século XX, penetraram em partes do universo grupos de Cokwe16. Enquanto não se dispõe de dados permitindo estabelecer a importância numérica relativa destes grupos, no total da população africana do universo17, pode estimar-se as suas proporções na população integrada na economia agro-pastoril tradicional: 46% para os Nyaneka-Nkhumbi, 32% para os Ovimbundu, 13% para os Ambó, 3% para os Cokwe, 3% para os Ngangela , 2,5% para os Herero e 5% para os demais grupos18.

A análise das populações agro-pastoris aqui ensaiada está sujeita a severas limitações pela impossibilidade de se realizarem, no momento, as investigações extensas que um tratamento mais diferenciado da temática exigiria. No entanto, uma primeira achega, embora de carácter provisório e um tanto esquemática, parece possível graças à existência de um certo número de fontes hoje disponíveis19. Além disto usam-se os dados de dois inquéritos socio1ógicos realizados em 1970, um chamado “sócio-educacional” que cobriu o universo agro-pastoril por meio de uma amostragem
representativa, outro chamado “rural”, dirigido à totalidade dos agregados familiares de dois núcleos populacionais do universo20. Com base neste material, tentar-se-á esboçar um quadro global da situação prevalecente no universo e dos principais processos de transformação ocorridos na fase da ocupação colonial, na expectativa de que, futuramente, estudos diferenciados das condições específicas em que se encontraram as diferentes sociedades, tornem possível uma análise mais aprofundada da região....medida em que neste ensaio a situação nas diferentes zonas geo-económicas servirá de referência permanente, parece oportuno proceder inicialmente a uma caracterização
sumária de cada zona.

A Zona 22/29 ocupa a faixa litoral do universo, compreendendo a parte angolana do deserto do Namibe e predominantemente caracterizada por diferentes formações estépicas com arbustos (ou arbusto e árvores). Para além das cidades do Lobito, Benguela, Moçâmedes e Porto Alexandre, destacava-se a Bibala como centro populacional urbano de alguma importância. A população europeia concentrava-se nestes centros urbanos. Em termos do ocupação de terreno, destacam-se os nómadas Herero que, no entanto, constituíam apenas 15% da população rural africana da zona21.
65% eram Nyaneka-Nkhumbi, pertencentes a diversos subgrupos, com grande concentração na área da Bibala. Os Ambó, os Ovimbundu, etnias de origem não banta (Kwisi, Kwepe) e os Ovimbali (descendentes “aportuguesados” de escravos na região de Moçâmedes) representam minorias com um peso de cerca de 5% cada uma. 0 número de explorações familiares africanas recenseadas foi de apenas 4.23622. A densidade demográfica rural é inferior a 1 habitante/km2 no sul e de 3 habitantes/km 2 a norte23.

A Zona 23 situa-se na área de transição do litoral de Benguela para o Planalto Central e, caracterizava-se tradicionalmente por uma floresta do tipo “mata de panda” que, no entanto, foi em grande parte destruída para dar lugar à agricultura europeia. A fraca presença europeia estava ligada a pequenos centros urbanos como o Cubal, a Ganda e o Bocóio assim como às plantações de sisal concentradas na zona. A população africana é constituída na sua maior parte por agro-pastores “umbundizados” (Hanya, Nganda), mas também por Ovimbundu “propriamente ditos” (especialmente Ciyaka). O número das explorações africanas recenseadas foi de 53.53824, o que faz desta zona a mais populosa do universo em africanos habitando o meio rural. A densidade populacional rural é de10 habitantes/km2.

A Zona 27, na planície entre a zona 23 e o Planalto da Huíla, caracteriza-se, predominantemente, por uma mata densa seca, com uma larga faixa de formações de ”mutiati” a oeste e outra de floresta aberta a leste. Os poucos europeus encontravam-se nalgumas vilas, principalmente Quilengues e em plantações de tabaco. A população rural africana pertence exclusivamente ao grupo dos Nyaneka-Nkhumbi (especialmente os Cilengi-Humbi e os Cilengi-Musho). Com 14.917 explorações recenseadas25, acusa uma densidade de 3 habitantes/km 2.

A Zona 30 ocupa o planalto da Huíla, na sua maior parte coberta por floresta aberta tipo “mata de panda” e no sul por mato cerrado (balcedo). A população europeia era bastante densa, não apenas nas aglomerações urbanas, como Lubango, Humpata, Huíla, Chibia e Hoque, mas também nas áreas rurais, como pequenos agricultores. A população rural africana pertence ao grupo Nyaneka-Nkhumbi (cerca de 80% Mwila). Com 13.937 explorações recenseadas26, a zona acusa uma densidade rural de 15 habitantes/km2.

A Zona 31 é uma vasta zona de transição do Planalto Central para o Planalto da Huíla e para as regiões do Baixo Cunene e Baixo Cubango. Prevalecem formações florestais semelhantes às da zona 30. As localidades mais importantes são Gambos,  Matala, Folgares e Cassinga e Cassinga onde se concentrava uma população europeia bastante reduzida. Os africanos que vivem no meio rural acusam uma densidade de 4 habitantes/km 2, com 27.614 explorações recenseadas27. Pertencem a diferentes grupos: cerca de metade são Nyaneka-Nkhumbi (Handa, Cipungu, Nkhumbi), havendo ainda pouco mais de 20% de Ovimbundu (na sua maior parte Kalukembe/Ngola/Pembe), mais de 10% de Ngangela e cerca de 10% de Cokwe.

A Zona 33 situa-se ao sul do Planalto da Huíla e a leste do Namibe é caracterizada, essencialmente, por formações “mutiati” e matos brenhosos. A reduzida população europeia concentrava-se principalmente nas localidades de Chianje e Otchinjau. A população africana é em quase 90% Nyaneka-Nkhumbi (Ngambwe, Nkhumbi), sendo os restantes Herero (Himba). O número de explorações recenseadas é de 9.82928e a densidade rural de 3 habitantes/km 2.

A Zona 34 corresponde à região do Baixo Cunene com formações “mutiati” e matos brenhosos, assim como pastos húmidos junto ao rio. A presença europeia era muito baixa, sendo a única localidade relevante Roçadas. A população rural africana compõe-se em 60% de Nyaneka-Nkhumbi (Nkhumbi, Ndongwena), cerca de 20% de Ambó (vários grupos) e de Herero (Ndimba). A população rural africana comportava 4.03629, explorações recenseadas e uma densidade de 5 habitantes/km2.

A Zona 35 constitui a ponta norte do deserto do Calahari caracterizada, essencialmente, por matas secas e formações “mutiati”, entre os rios Cubango e Cunene e a fronteira com a Namíbia. A presença europeia era insignificante, sendo a única localidade de alguma importância Ngiva. A população é quase exclusivamente Ambó, principalmente Kwanyama, com cerca de 15% de Kwamatwi (Mbadja), Evale, Kafima e Ndombondola. Existem também pequenos grupos de Khoi (!Kung). O número das explorações recenseadas foi de 13.40930e a densidade rural de 3 habitantes/km2.

A Zona 36 situa-se no Baixo Cubango/Cuito e é constituída por uma savana bosque esavana arborizada, ainda bastante influenciadas pelo Calahari. Praticamente não tinha presença europeia. A população africana é composta por etnias aparentadas aos Ambó (Kwangali, Shambiu, Ndiliku) e por Ngangela, Mbukushu e Khoi (!Kung). O número das explorações recenseadas foi de 7.47031, sendo a densidade rural inferior a 1 habitante/km2.


12 Veja IICA 1970, Redinha 1975, Estermann 1959-61.

13 Dentro deste grupo pode distinguir-se com bastante nitidez o subgrupo Nkhumbi que compreende, além dos Nkhumbi “propriamente ditos” (inclusive os “Cilengi”), os Ndogwena, os Nkhawnkhwa e os Hinga. Designa-se por Nyaneka o pequeno grupo dos Nyaneka “propriamente ditos”, os Mwila, Ngambwe, Cipungu e Musho, agregando-se-lhes geralmente também os Handa.

14 Veja o título de Lima 1977.

15 Os Hanya, Nganda e Ndombe, mas também os Ngola (oriundos do Ndongo,segundo a sua tradição oral) foram “assimilados”, no decorrer da expansão/homogeneização dos Ovimbundu, embora em épocas históricas distintas e com efeitos diferentes. A sua delimitação em relação aos grupos setentrionais dos Nyaneka-Nkhumbi é particularmente problemática. Veja Baumann 1967, 1975 e, sobre os Hanya,
Hauenstein 1967.

16 Entrevistas com Elias Ribeiro Candeias e Duarte Ribeiro Candeias (antigos chefes de brigada da MIAA no universo agro-pastoril), realizadas em Lisboa de Fevereiro a Junho de 1978.

17 Segundo o censo de 1960, havia então 253.023 Nyaneka-Nkhumbi, 115.442 Ovambo, 18.719 Herero, 9.307 “não-bantos” e 3.598 Ovimbali. A população do extremo sudeste, classificada como “Xindonga” (termo etnográfico baseado num equívoco), era avaliada em 11.673, residindo cerca de metade no universo agro-pastoril. Veja Província de Angola 1960.

18 Esta estimativa baseia-se no inquérito apresentado mais adiante e que não incluiu a zona 36. Veja Heimer 1972. A autora procedeu a alguns reagrupamentos menores em relação às classificações étnicas. Pode estimar-se os números absolutos correspondentes, dividindo o total das explorações recenseadas (veja MIAA 1972) em fracções por etnia, de acordo com as percentagens citadas e, multiplicando cada fracção pela média de pessoas por exploração, na respectiva etnia (dados de Heimer 1972). Por esta aproximação, chega-se a uma estimativa dos Nyaneka-Nkhumbi rurais do universo (à excepção da zona 36) de um valor ligeiramente superior à 320.000, os Ovimbundu em cerca de 210.000, os Ambó em maisde 170.000, os Herero e os Ngangela em cerca 24.000 cada um, os Cokwe em cerca de 15.000 e os demais em 6.000.19 Trata-se por uma lado, dos relatórios já citados da MIAA sobre os Recenseamentos Agrícolas efectuados por ela nos anos 60 e alguns estudos de ecologia humana baseados nestes trabalhos (Carvalho & Silva 1973, Carvalho 1974, Morais 1974). Por outro lado, trata-se de trabalhos de natureza histórica (Clarence-Smith 1975, 1976, 1979, Clarence-Smith & Moorsom 1977, Moorsom 1977, Pélissier 1969, 1978a), geográfica e económica (Amaral 1962 Urquhart 1963, Borchert 1967, Pössinger 1968, 1969, Kuder 1971, Medeiros 1976, 1977) e etno1ógica (Bastos 1911, Childs 1949, Estermann 1959-61, Bettencourt & Cotta 1962, Hauenstein 1967, Guerreiro 1968, Lima 1977).
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Texto completo:
Elisete Marques da Silva
IMPACTOS DA OCUPAÇÃO COLONIAL
NAS SOCIEDADES RURAIS DO SUL DE ANGOLA
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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O olhar europeu: o negro na iconografia brasileira do século XIX

O olhar europeu: o negro na iconografia brasileira do século XIX
Por Boris Kossoy, Maria Luiza Tucci Carneiro
0 Críticas
EdUSP, 1994 - 235 páginas
As imagens produzidas pelos europeus que visitaram o Brasil no século XIX mostram-se ideologicamente em consonância com os relatos dos cronistas e cientistas viajantes, que abordaram o cotidiano da escravidão. Trata-se de um olhar europeu, moldado por valores etnocêntricos. Em 'O Olhar Europeu', a partir da iconografia, os autores recuperam o sentido dessa visão de mundo e reconstituem, em termos de um itinerário de imagens, o papel desempenhado pelo negro. O livro contém imagens usadas como fontes históricas e como meios de conhecimento, além de contribuírem para o trabalho de reconstrução histórica, trazem elementos para o estudo das mentalidades.
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Burguesia europeizada angolense de finais do século XIX princípios do século XX

Fotos dizem mais que palavras...

Benguela: família burguesa.
   Benguela: D. Jacobina, sua filha e sua velha mãe
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                                                                  Tipos de Luanda em Catumbela
 
                                                                            Familia africana

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                                                       Benguela: grupo de damas de casa


                                                          Benguela: grupo de benguelenses
                                                                    

Tipos de Cabinda


                                                                Costumes citadinos


Mulher de Pungo-Andongo


Benguela: grupo familiar


Benguela: grupo familiar

Costume de Benguela
Familia africana de Luanda




Casais de Ambaca

Tipos Diversos. Colecção Cunha Moraes Albumna 3

 Mulheres de Malange
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É necessário sublinhar que, contrariamente a um preconceito tenaz, a "burguesia colonial" não inclui unicamente indivíduos de origem europeia. Em Angola a "burguesia colonial" era um grupo heterogéneo constituído por brancos, negros e mestiços (ainda que com poderes e capacidades de intervenção política diversos, é certo). Todavia a influência dos últimos, como já foi demonstrado por R. Pélissier, entre outros autores, foi muito importante no século XIX e no início do século XX.

"...Esta particularidade da colonização portuguesa tem duas razões principais: a fraqueza numérica dos colonos portugueses em África até à 2ª guerra mundial, uma vez que as tradicionais correntes de emigração dirigiram-se essencialmente para o Brasil); a extrema pobreza e baixo nível de instrução da maioria dos colonos portugueses que se instalavam nas colónias africanas. Essas duas características favoreceram misturas sociais (e raciais) talvez mais acentuadas do que na generalidade das outras colónias, francesas ou inglesas"... a "burguesia metropolitana" (cujos bens de raiz ou ligações profundas, estão em Portugal, seja qual for o seu comprometimento em África) e uma "burguesia colonial" propriamente dita, cujo poder, interesses e ambições têm como ponto de partida os territórios africanos. Por outras palavras, a clivagem não se faz do ponto de vista racial ou étnico, mas sim em relação ao enquadramento económico e social dos intervenientes.

 Há africanos, sobretudo no século XIX, que obtêm altas patentes no exército português (dentro dos chamados "oficiais de 2ª linha") e desse lado combatem. Há igualmente outros africanos que assumem desde muito cedo uma atitude que Pélissier chamaria mais tarde de "proto-nacionalismo".  Sobretudo no século XIX ("o século dos mestiços em Angola" segundo Pélissier), muitos deles usufruem de estatutos económicos (comércio) e sociais (jornalismo, Administração Pública) relativamente elevados11.

"...Também se tem conhecimento de indivíduos de origem portuguesa que, longe de se conformarem a estereótipos habituais, são absorvidos pelas culturas africanas (a chamada "cafrealização" que tantas preocupações suscitou às autoridades portuguesas), aparecendo mesmo nos séculos XVI-XVII a combater nos exércitos africanos. Outros ainda manifestam precoces aspirações autonomistas, por vezes em ligação com o Brasil, que se vão perpetuar de maneira mais ou menos pronunciada até uma época mais recente do período colonial.

Posteriormente a situação alterou-se profundamente. O estatuto social dos africanos e também a sua capacidade de intervenção política nos meios urbanos, sofreu um rude golpe a partir do primeiro quartel do século XX, devido à chegada de milhares de novos colonos e à repressão política das autoridades coloniais. "


Retirado daqui:
http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:SblhHYEwQOIJ:www.adelinotorres.com/trabalhos/angola-conflitospoliticosesistemasocial_1928-1930.pdf+&cd=20&hl=pt-PT&ct=clnk&gl=pt&client=firefox-a

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Em Luanda e Benguela existiu, pelo menos no século XIX e no início do século XX, um importante grupo de mestiços e negros europeizados, cujos estratos superiores formavam uma burguesia local engajada no tráfico de escravos e noutras actividades comerciais, porém desligadas do cultivo e exploração da terra. O comércio era na sua maior parte feito com o Brasil, sendo numerosos os navios que nessa altura aportavam nas baías de Luanda e de Benguela.

O tráfico de escravos para o Brasil e Américas não era, pois, exclusivo de comerciantes brancos europeus, portugueses e brasileiros, mas era uma actividade em que os pumbeiros, que eram mestiços, negros livres e também ex-escravos, não só se dedicavam ao tráfico de escravos como participavam do comércio costeiro, no caso de Angola, também em parte do comércio interior, para além de fazerem o papel de mediadores culturais no comércio de escravos da África Atlântica.
Os comerciantes europeus, portugueses e brasileiros com o crescer da procura por mão-de-obra escrava, associaram-se militarmente e financeiramente com sobas e régulos africanos, que viviam nas costas marítimas e no interior, dando-lhes armas, pólvora e cavalos para que afirmassem sua autoridade numa extensão a maior possível. Os prisioneiros das guerras tribais eram encarcerados em “barracões”, em armazéns costeiros, onde ficavam a espera da chegada dos navios tumbeiros ou negreiros que os levariam como carga humana pelas rotas transatlânticas.

A abolição do tráfico de escravos foi decretada em 1836, por Sá da Bandeira, do Partido Progressista, após a queda do absolutismo em Portugal (1820), a independência do Brasil (1822), e o triunfo do liberalismo (1834), porém foi nas décadas de 1880 e 1890 que teve lugar a abolição definitiva do mesmo tráfico, uma vez que os embarques de escravos para o Brasil e Anéricas passou a ser feito, clandestinamente, a partir de enseadas deserticas mais a norte de Luanda, região do Ambriz, e mais a sul de Benguela. Desde a Conferência de Berlim (1884-5) que determinou a "partilha de África" pelas potências europeias, Angola entra numa nova era, no quadro de um novo paradigma colonial de desenvolvimento e progresso, e nesse contexto uma "burguesia" angolana centrada nas cidades de Luanda e Benguela, que emergira na base do tráfico de escravos para o Brasil e das Américas, entra em decadência e acaba por perder o estatuto que os tempos áureos do tráfico lhes proporcionava. Mas houve uma importante recuperação por parte da mesma burguesia, com base no comércio de produtos recolhidos ou cultivados pela população do interior: cêra, marfim, café, tabaco, borracha, etc. , porém com os novos impostos e a concorrência dos europeus que, com a nova política de ocupação territorial no quadro daquela Conferência,ainda que paulatinamente começaram a emigrar para Angola. Ainda em 1881 várias populações do interior reclamavam contra o poder dessa «oligarquia», sobretudo mestiça, na máquina produção das duas cidades, Luanda e Benguela.

Segundo WIKIPÉDIA «o comércio de escravos estava solidamente implantado no continente Africano e existiu durante milhares de anos. Nações Africanas como os Ashanti do Gana e os Yoruba da Nigéria tinham as suas economias assentes no comércio de escravos. O tráfico e comércio de escravos era intercontinental, registando-se um grande comércio de escravos europeus nos mercados Africanos já durante o Império Romano. Mais tarde com o tráfico de eslavos, os saqaliba, que eram levados para o Al-Andaluz o comércio passou da Europa para África, e continuou com os raids dos Piratas da Barbária que duraram até ao fim do século XIX.»


Angola nas Vésperas da Abolição (1820-1845)

O tráfico em geral: os africanos obtinham pelo tráfico têxteis e armas de fogo, estas e a pólvora em 3º lugar de preferência, (9) ou seja 10% do valor exportado, seg. Miller (1980). O número de pessoas exportadas legalmente para a América, de que há registos, entre meados do século XVI e 1850, totalizou aproximadamente 2 milhões. A partir de 1780 o tráfico de Luanda e Benguela escalou-se seg. Miller (1980) de 168.000 na década de 1791-1800, 188.400 (1801-1810), 246.000 (1811-1820) a 248.900 (1821-1830), (10) com um impacto demográfico incerto (11) mas que geralmente se considera coberto pela fertilidade natural das mulheres, já que, maioritariamente, eram homens o que se exportava
Tirado DAQUI.

* * *
Do sentimento nativista ao protonacionalismo

05 de Julho, 2009
Luanda e Benguela tornaram-se centros de tertúlia e através da actividade jornalística e literária eram defendidos, em finais do século XIX, os ideais da Revolução Francesa e manifestava-se o desejo de obtenção de uma autonomia política. 

Segundo Mário de Andrade, foi “a génese do escrito protestatário” com correntes de formação de uma consciência nativista – a dos “filhos do País”. Os escritores “angolenses” consideravam que a portugalização significava uma ameaça à sua identidade e ao seu desenvolvimento económico e sócio-cultural. O nativismo exprimia o sentimento colectivo de ser portador de valores próprios, como um referente de identificação e confluência das suas aspirações em prol de uma autonomia e futura independência.
Haviam passado 60 anos após a data da independência do Brasil, a 7 de Setembro de 1822, quando José de Fontes Pereira, um dos mais esclarecidos jornalistas angolenses, noticiou, num artigo intitulado “A república a crear raízes em Angola”, publicado no nº 36 do jornal Pharol do Povo, de 27 de Outubro de 1883, o primeiro grito de independência dado em Benguela por um oficial do exército, que era um nativo “Filho do País”. José de Fontes Pereira relatou do seguinte modo esta acção política: “Benguela abraçou com grande entusiasmo aquella ideia, e quando se proclamou a independência do Brazil, o grande povo d’aquella cidade secundou aquele estado de coisas, tendo hasteado a bandeira do café e tabaco na fortaleza de S. Filipe. Dirigiu esse movimento o tenente-coronel Francisco Pereira Diniz, homem preto, natural de Benguela que comandava as companhias de linha d’aquela capitania”.

Também, “A Voz de Angola Clamando no Deserto”, uma colectânea de vários autores publicada em Lisboa, em 1901, passava a constituir a afirmação de uma consciência “nativista”, que criticava a chamada Acção Civilizadora de Portugal em África e que, no princípio do século XX, reclamava por uma participação na condução do poder político nas colónias. De acordo com o sociólogo e escritor Pepetela, é, no fundo, esta elite, surgida da camada social urbana de finais de século XIX, que passou a ser considerada como estando na génese do moderno nacionalismo angolano. Contudo, a mesma tinha uma posição algo equívoca, que, por vezes, deixava transparecer nos seus escritos: denunciava com veemência as discriminações e o racismo coloniais e defendia as mesmas oportunidades para todas as “raças”; acusava a administração colonial de pouco fazer pelo desenvolvimento da colónia e pela educação das populações; batia-se pela “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”; censurava violentamente a corrupção existente nas altas esferas do poder e colocava-se em posição de quase advogar a independência da colónia... Porém, essa mesma elite chegava a aplaudir as campanhas do exército colonial contra os chefes tradicionais, que se iam revoltando; encorajava a ocupação militar dos reinos do interior, que, Portugal, no quadro da Conferência de Berlim para a partilha de África, deveria submeter pela força para legitimar a sua posse…
Para a elite urbana dos finais do século XIX, as populações do interior eram consideradas bárbaras e ignorantes. Assim sendo, aquela elite não sentia qualquer repugnância pela submissão e integração das populações do interior através da força das armas, já que tal era entendido como uma forma das mesmas poderem “receber as luzes da civilização e da Fé católica”.
Como republicanos e democratas virados para si próprios, não tinham ainda conseguido estender os valores republicanos e democráticos para benefício de todos os angolanos. Na essência, estas grandes famílias guardavam na memória os sinais de esplendor da sua origem, provenientes, essencialmente, do tráfico de escravos, que era feito em detrimento das populações do interior e que envolvia brancos, negros e mestiços pertencentes àquela camada social urbana ou classe média africana.
Após a abolição do tráfico de escravos e com a vaga de novos colonos inseridos na chamada política de povoamento, surgiram novos impostos. Estes, para além de muito pesados e injustos, recaíam, sobretudo, sobre a população local. A classe média urbana africana passou então a enfrentar um violento processo de concorrência, chegando a haver, em 1881, uma Petição de 70 chefes de família de Luanda à Fazenda Pública, protestando contra o aumento dos impostos. Consequentemente, as populações do interior passaram a reclamar contra o poder despótico das oligarquias biológica e culturalmente mestiças mais poderosas de Luanda e Benguela. Talvez, este facto possa ser um indicador de estudo para a explicação das posteriores divisões no seio do moderno nacionalismo angolano.
Enquanto beneficiaram de uma política de liberdade cambial e de crédito, os comerciantes tinham sucesso nos seus negócios, conseguindo levar as caravanas ao interior através da utilização dos antigos circuitos de captura e transporte de escravos para o litoral. Mas, a rentabilidade desse comércio dependia da importação de bens industriais (tecidos, armas, etc.), que seriam posteriormente trocados por outros produtos, tais como a borracha, o café, ou a ginguba. Porém, os interesses da indústria metropolitana forçaram uma revisão pautal em sentido contrário. Nesta conformidade, o ministro Oliveira Martins promulgou, em Janeiro de 1892, uma pauta aduaneira, que, para proteger a indústria têxtil algodoeira, agravava fortemente os impostos sobre os têxteis ingleses. Os comerciantes estabelecidos em Luanda e Benguela sentiram-se fortemente lesados porque os têxteis, em muitas regiões, constituíam uma moeda de troca por produtos locais.
A partir de 1900, os conflitos com a administração colonial agudizaram-se devido à crise do comércio da borracha, que fez diminuir grande parte da procura de têxteis metropolitanos em Angola. Os conflitos comerciais e o bloqueio metropolitano aos capitais industriais em Angola começaram por opor facções da burguesia da metrópole às burguesias do litoral e do sertão angolano. Com o estabelecimento de grandes investimentos estrangeiros que criaram refinarias, conservas de peixe e outros estabelecimentos industriais em Angola – como foram os casos da CUF e da DIAMANG – os conflitos agudizaram-se.
Ligado a esses investimentos estava o Ministério das Colónias, criado em 1911. O princípio da descentralização na administração das províncias ultramarinas foi consagrado no artigo 67º da Constituição de 1911. Mas só em 1914 foi submetido ao Congresso um projecto-lei, que estabeleceu as regras básicas de um novo paradigma de política ultramarina, estabelecendo que a estrutura financeira das colónias deveria passar a assentar nas suas próprias receitas fiscais. Apesar da suspensão do Código de Trabalho Indígena de 1911 e malogradas as tentativas para limitar estas formas de trabalho por parte de Norton de Matos – quer enquanto governador-geral (entre 1912 e 1914), ou alto-comissário (entre 1921 e 1924) – o general acabou por promover a colonização branca à custa das terras e trabalho dos chamados “indígenas”. Luísa de Almeida informa-nos, através de um texto por si apresentado na III Reunião Internacional de História de África, o seguinte: “Se numa primeira fase Norton de Matos procurou estabelecer uma aliança com os assimilados ou ditos ‘civilizados’ através de manifestações de tolerância ou de apoio às suas associações, em breve passou do paternalismo ao controlo e à repressão”.
Em resposta, surgiram manifestações contra o trabalho forçado (o chamado “contrato”), com destaque para a Insurreição dos Bakongo (1913-1915), a Revolta de Catete (1922) e diversas outras no corredor Luanda-Malange (1922-1925). Ao final da I República em Portugal, são ainda de considerar as rebeliões em Amboim, Seles e Libolo provocadas pelo aumento do “Imposto de Palhota” e que levaram à proibição da venda de pólvora e armas aos chamados “indígenas”. Para que este imposto fosse pago regularmente, foram criadas circunscrições civis. Tais medidas conduziam a difíceis situações de sobrevivência das populações, a um recrudescimento da agitação nativista e ao encarceramento de algumas figuras da intelectualidade angolana.
No primeiro quartel do século XX, assiste-se à incapacidade colonial para administrar eficazmente o vasto território angolano, à subjugação das identidades culturais às leis do mercado colonial e à profunda alteração do paradigma tradicional de divisão social do trabalho. O investimento económico colonial, ao não se ajustar às estruturas socioeconómicas tradicionais, acabou por provocar rupturas com consequências nefastas para as populações rurais. A expropriação das melhores terras para o cultivo do café e a perda progressiva da sua posição na administração e no comércio a favor dos metropolitanos, fez com que as famílias cultural e biologicamente mestiças da cidade de Luanda tivessem que enfrentar um empobrecimento forçado e fossem marginalizadas para as zonas suburbanas, enquanto o novo grupo de colonos passava a ocupar o centro da cidade.
O investigador brasileiro Fernando Augusto Albuquerque Mourão fala-nos, na sua obra “Continuidades e descontinuidades de um processo colonial através da leitura de Luanda”, num crescimento de uma população branca desta cidade, que, em 1934, passou de 48,1 porcento (correspondente a um total de 18.229 pessoas), para 76,3 por cento, em 1970 (correspondente a 165.488 pessoas). Num mesmo período e num quadro de relação “entre grupos somáticos mestiços e brancos”, os mestiços decresceram de 51,9 por cento para 23,7 por cento. A apelidada “cidade mestiça” do século XIX voltava assim à categoria de “cidade colonial”. Começa, então, a ruptura ideológica daquela camada social urbana com o sistema colonial, apesar da mesma, ter constituído, numa primeira fase, um factor determinante para o próprio sistema administrativo da colónia. Estavam, assim, criadas as condições para a formação de diferentes modalidades de protonacionalismo.
* Ph.D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

Artigos
Filipe Zau in Jornal de Angola

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«... No século passado, e mesmo antes, foram permanentes os conflitos, de natureza militar, entre o litoral e o que se convencionou chamar "os povos do sertão". A Coroa portuguesa em vão tentou, até a Conferência de Berlim, em 1885, subjugar e avassalar todos esses povos e só alguns,próximos da raia litorânea, se submeteram. Nessas acções militares contra o interior, houve um produto da sociedade híbrida que se plasmou no litoral, resultante do contacto de europeus e indígenas e cujas peculiaridades, do ponto de vista etnocultural, se podem observar ainda hoje em muitos comportamentos, hábitos e atitudes mentais. Esse segmento, constituído por filhos do país, angolanos, em suma- brancos, negros e mulatos -, desde sempre se polarizou no papel de classe intermédia no contacto dos portugueses com o sertão. Foram eles que, em regime de monopólio exploraram os caminhos de entrada e saída do sertão; e concentraram nas suas mãos, pelo menos até meados do século XIX, uma parcela significativa do comércio atlântico com o interior, sendo famosas algumas empresas suas cujo tráfico se fazia privilegiadamente com o Brasil, Montevidéu, Argentina e América Setentrional. Mas esses crioulos não controlavam unicamente as redes de comércio. A sua influência e poder nos escalões superiores da administração pública era indiscutível; como o era também nas forças militares de 1ª e 1ª linhas, onde o seu ascendente numérico foi uma constante até ao 4 º decênio de oitocentos. Eram eles que, maioritariamente, governavam os presídios do interior. Porém, os abusos de autoridade e extorsões praticados contra as populações foram tantos, que um ou outro governador mais consciencioso não deixou de os denunciar para Lisboa.À falta, portanto, de tropa européia, foram esses crioulos -no comando sobretudo dos corpos de infantaria - que levaram a guerra ao interior contra os "gentios", com vista a pacificá-los. Há uma expressão muito curiosa de um governador geral de Angola - Pedro Alexandrino da Cunha (1845-1848) - que, numa informação para Portugal, disse mais ou menos isto: "se alguma vez os gentios nos cortarem as fontes de abastecimento, morremos à fome; se avançarem para o litoral, seremos jogados ao mar.". Deste modo, Luanda, Benguela, Novo Redondo e Moçâmedes até ao 2 º decênio deste século passaram por ser núcleos centrais de controlo e irradiação de toda a dinãmica colonial. Foi lá, nesse pedaço litorâneo, razoavelmente habitado por gente cosmopolita, que a influência da colonização se tornou decisiva e duradoura até 1974; de lá se guerrearam os povos do interior e contra esse universo costeiro em expansão se criaram nas profundezas do sertão, feridas e antagonismos que perduram até aos tempos actuais." Texto completo AQUI

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Ver também:

A evolução económica de Angola durante o segundo período colonial ..





sexta-feira, 27 de agosto de 2010

ANGOLA: CONFLITOS POLÍTICOS E SISTEMA SOCIAL (1928-30)1

Em 1930 teve lugar em Angola, então a mais importante colónia portuguesa em África, o que alguns
qualificaram como "tentativa de golpe de Estado" e outros, mais eufemisticamente, chamaram movimento
"de indignação popular" contra os abusos do Alto Comissário Filomeno da Câmara3.  Esta questão, que poderia ter desencadeado na época uma guerra civil em Angola, foi objecto de violenta polémica, especialmente na imprensa da colónia. Sessenta e seis anos depois ela mergulha no esquecimento, e, que se saiba, nenhum historiador a tratou até hoje.


Continua...


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