sexta-feira, 15 de outubro de 2010

OS BOERS NO PLANALTO DA HUÍLA




























Os  meus agradecimentos ao meu amigo António Trabulo que me enviou este  texto e também algumas das fotografias da sua colecção particular.

Os  bóeres são descendentes dos colonos holandeses que se fixaram no Sul da  África, nos meados do século XVII, e dos huguenotes franceses fugidos  às guerras religiosas da Europa, que se lhes juntaram, vinte e cinco  anos depois.


Criaram  raízes na terra. Pretendiam ficar. No entanto, quase século e meio  antes da eclosão dos movimentos nacionalistas africanos, já a História  os colhera na sua rede. Em 1815, a Holanda viu-se forçada a ceder a  Colónia do Cabo à Inglaterra.

Fartos dos ingleses, a partir de 1835 os bóeres começaram a emigrar para Norte. Foi a grande marcha, o Trek.  Fundaram sucessivamente o Estado Livre de Orange, o Natal e a República  do Transvaal. Os britânicos não lhes deram sossego e obrigaram-nos a  lutar pela liberdade. Os africânderes, como também eram chamados,  bateram-se bem, mas foram vencidos.

Em 1876 terminou a guerra do Transvaal.

Seiscentas  famílias bóeres penetraram no deserto do Calaari, procurando novo local  para se instalarem, longe da bandeira inglesa. Viajaram em grandes  caravanas que se organizavam, nas paragens, em posições defensivas. Os  carrões bóeres eram parecidos com que se vêem nos filmes de cobóis. A  estrutura dos veículos era simples: uma caixa grande de madeira  assentava em dois eixos. As rodas de trás, maiores, eram fixas. As  dianteiras, um pouco mais pequenas, giravam à vontade do condutor. Um  bom sistema de travagem tornava seguras as descidas íngremes. O tecto,  de lona esticado sobre arcadas de madeira, isolava o interior da chuva  e, até certo ponto, do calor, do pó e dos mosquitos. Havia muitas peças  móveis que se adaptavam às necessidades. As arcas de arrumação serviam  também de assentos. Eram puxados por seis a oito bois, por vezes por  mais.

Ao longo do Trek,  os bóeres passaram fome e sede. Sofreram com a seca e com as febres,  nas estações das chuvas. Perderam gente, gado e haveres e foram  dispersando.

Uns  tantos desistiram e voltaram para trás. Outros prosseguiram até ao Sul  de Angola e percorreram as margens dos grandes rios Cubango e Cunene.  Acabaram por estabelecer contactos com as autoridades portuguesas e  obtiveram do Governo de Lisboa a concessão de três mil hectares de terra  para se instalarem.

Vale  a pena citar uma cláusula do contrato estabelecido entre os  representantes do nosso governo e os líderes da comunidade bóer: Terreno cultivado pelo gentio é propriedade deles e não pode ser dado aos colonos que, portanto, não podem tirar-lhes o mesmo. O documento assinado garantia também, aos que chegavam, total liberdade de culto religioso.

Em  Janeiro de 1881, oitenta famílias bóeres vieram estabelecer-se nas  terras altas da Humpata. Além do gado de tracção traziam rebanhos  soltos. Eram também caçadores. Jacobus Botha chefiava o grupo. Era o  patriarca, à maneira bíblica: chefe religioso, político e militar,  experimentado em guerras e sofrimento. Vira mesmo um dos seus criados  ser devorado por um crocodilo, quando atravessava o rio Cunene, agarrado  à cauda dum cavalo.

Os  bóeres chegaram e construíram um canal de irrigação de seis quilómetros  de comprimento, com uma levada de água para cada casal.

Nessa  época, estavam fixados naquela área apenas dois portugueses. Artur de  Paiva, jovem alferes, serviu como intérprete de língua inglesa e ficou a  comandar o destacamento militar que se estabeleceu no local. Casou com  uma das filhas de Jacobus Botha. Boa parte do sucesso de Artur de Paiva  nas campanhas de ocupação do Sul de Angola ficaria a dever-se à ajuda  prestada pelos cavaleiros bóeres.

Em 1883, foram enviadas para a Humpata seis famílias da falhada colónia Júlio de Vilhena, em Pungo Andongo. No ano seguinte, fixou-se na região um grupo de colonos madeirenses.

Os  africânderes não gostaram da companhia. Acharam os novos vizinhos  atrasados. Multiplicaram-se pequenos conflitos, resultantes da  delimitação das propriedades e da distribuição da água de rega. Muitos  bóeres venderam os seus terrenos e mudaram-se para a Palanca, a sete  quilómetros de distância. Passados poucos anos, mais famílias  abandonaram a Humpata e foram à procura de outras terras nos distritos  do Huambo e do Bié. Uns tantos ficaram.

Existia,  no papel, o Esquadrão Irregular de Cavalaria da Humpata, composto por  praças de Caçadores 4. Em 1891, apenas três soldados sabiam montar.  Quando eram necessários cavaleiros, contratavam-se bóeres. Traziam armas  e montada, eram destemidos e conheciam o terreno. Faziam-se pagar bem.

Os  bóeres ao serviço de Artur de Paiva raramente terão ultrapassado a meia  centena. Foram determinantes na ocupação de Cassinga e na expedição ao  Bié, em 1890, após o suicídio do sertanejo Serpa Pinto. Foi então  aprisionado o soba Dunduma e estabelecido o domínio português na região.  Algum tempo depois, os cavaleiros contratados colaboraram na campanha  do Humbe, após o massacre do pelotão comandado pelo tenente Conde de  Almoster.

A  segunda guerra dos bóeres, travada com a Grã-Bretanha entre 1898 e 1902  não parece ter influenciado a situação dos africânderes residentes na  região.

Em  1927 a África do Sul, pretendendo contrariar a influência eleitoral  alemã na árida Damaralândia, desenvolveu uma campanha destinada  convencer os bóeres fixados no Planalto da Huíla a regressarem à terra  mãe. A iniciativa teve êxito. Em 1928, quase todos os bóeres se mudaram  para o território do Sudoeste Africano. Foi um novo Trek.

Quatro  famílias apenas ficaram na Humpata. As outras, uma a uma, carregaram  novamente os seus carrões. Carrão após carrão rolou terra abaixo pela  bem conhecida carreteira que conduz ao vale do Cunene, perto do Chitado.  Na margem esquerda do rio, ao avistarem a bandeira sul-africana,  reuniram-se todos para cantarem hinos de acção de graças. A pequena  colónia constituída por 270 pessoas de raça branca que tinha viajado  para o Norte até à Humpata em 1880 cresceu muito, contando agora perto  de 2.000 almas.

Referências:

Estermann, Charles, Etnografia de Angola (Sudoeste e Centro). Instituto de Investigação Científica Tropical, Lisboa, 1983.

Gama, António, Uma história de vida. Blogue Memórias e Raízes, 2009.
Trabulo, António, Os Colonos. Esfera do Caos, Lisboa, 2007.


Fotografias: colecção do autor.

Retirado de Africandar

René Pélissier : "Falar de cinco séculos de colonização portuguesa é uma burla!"


O primeiro a estudar a moderna colonização portuguesa


Não sou um adversário da colonização; sou, isso sim, um adversário do mito da colonização, o que é diferente
Não sou um adversário da colonização; sou, isso sim, um adversário do mito da colonização, o que é diferente

Timor foi a última colónia que estudou?
Foi. Quando comecei, fui o primeiro investigador francês a estudar a colonização portuguesa moderna, posterior aos Descobrimentos, à Índia e ao Brasil...
Porque escolheu Portugal?
Porque gosto das descobertas pessoais. Tenho uma alma de descobridor, de explorador. Cheguei um pouco tarde: tudo já fora descoberto geograficamente. Mas descobri um mundo que estava completamente fechado aos não-lusófonos pela propaganda, que exaltava os cinco séculos de colonização portuguesa.
O que está longe de ser verdade.
Justamente. Mas era preciso prová-lo e demonstrar. Tinha que encontrar uma chave para destruir o mito. E a única chave que estava em meu poder era fazer a história militar da conquista. Avancei num terreno completamente ignorado pelos não-lusófonos.
Creio que começou por Angola.
Em 1965. Angola era difícil para mim.
Veio a Lisboa?
Sim. O Arquivo Histórico-Ultramarino não estava aberto para os que queriam estudar a época mais recente. Mas não mo disseram frontalmente. Como eram muito hábeis, o diretor disse-me que podia vir ao Arquivo consultar unicamente os livros! Só que, para isso, podia ir a Sociedade de Geografia... Não pude fazer nada e expliquei na minha tese que não tivera acesso ao Arquivo Histórico Ultramarino. Mas os militares deram-me acesso aos arquivos militares na medida em que iam sendo desclassificados. Aproveitei e encontrei coisas que ninguém tinha encontrado antes de mim, como o fim da conquista dos Dembos.

Os relatórios de Paiva Couceiro e João de Almeida 


Teve que aprender português?
Sim, em Portugal. Nunca aprendi propriamente. Comecei por ler e conversar. E conversando apanhei um pouco da língua. Os militares da época da conquista do Terceiro Império escreviam e publicavam muito. Foi a minha salvação.
Literatura de memórias e das campanhas.
Exatamente. Não apenas Mouzinho de Albuquerque, mas António Enes e muitos outros. A conquista não foi propriamente um caminho que levasse à santidade: não havia apenas rosas nessa história. Em 1904, mesmo em 1907, a Angola realmente portuguesa representava no máximo 1/10 do território atual. E isso não era confidencial. Estava escrito em "Angola Dois anos de Governo", do governador Paiva Couceiro, um documento notável. João de Almeida, que foi o seu braço direito, contou as suas próprias campanhas. Fez o seu trabalho de conquistador, normal na época. Se empreendeu, a partir de 1845, 180 operações militares, isso significava que a colónia não estava pacificada. Esta foi a chave que demonstrou a falsidade do slogan "Cinco séculos de colonização portuguesa em Angola". Antes de meados do sec XIX não havia propriamente dito uma colonização portuguesa, salvo em Luanda, no corredor do Cuanza até Malange, em Benguela, Moçâmedes, Novo Redondo e pouco mais. Todo o resto tinha de ser conquistado.
Visitou Angola?
Não sou um historiador militante ou partidário de uma causa - nenhuma. Nada disso. Obtive licença para visitar Angola em 1966. Já tinha escrito pequenas coisas e viram que não era um adversário da colonização. Realmente não sou. Sou, isso sim, um adversário do mito da colonização, o que é diferente. Visitei praticamente 13 distritos (em 15 que havia na época), vi a situação, que era favorável a Portugal do ponto de vista económico. É incontestável: Angola nunca foi tão próspera e rica como na véspera da morte da colonização portuguesa.

'Não partilho do entusiasmo por Mouzinho de Albuquerque'


Gostaria de fazer uma coisa útil para as gerações futuras: uma bibliografia crítica de tudo quanto foi publicado em livro sobre Angola, Moçambique, etc., a partir de 1840
Gostaria de fazer uma coisa útil para as gerações futuras: uma bibliografia crítica de tudo quanto foi publicado em livro sobre Angola, Moçambique, etc., a partir de 1840

Creio que é uma verdade indiscutível.
Indiscutível. Na minha opinião (que não é a opinião de um propagandista e que expus no livro "História de Angola", com Douglas Wheeler), a situação era instável mas provisoriamente favorável aos portugueses. Fiz a minha tese de doutoramento em dois volumes sobre Angola. O primeiro é sobre a conquista, que foi traduzida para português pela Estampa, "História das Campanhas de Angola". O segundo volume, com 700 páginas, ainda não foi traduzido; chama-se "La colonie du Minotaure". E o Minotauro é a colonização portuguesa que devora as suas vítimas africanas. Como sou um homem que ama a descoberta, com alma de explorador, e não queria ficar a vida toda a estudar Angola, passei a Moçambique. Comecei em 1977. A conquista de Moçambique são essencialmente as 150 campanhas ou operações mais importantes nos séculos XIX ou XX - o que significa que não se pode falar de "cinco séculos de colonização". Seria uma burla!
A mesma tese de Angola...
É preciso ser verdadeiramente cego, ou não querer olhar a verdade de frente. Terminei Moçambique em 1983 e continuei pela Guiné. Mais pequena, mas um país relativamente mais difícil de conquistar, em razão da geografia, do clima e da resistência dos guineenses, gente que não estava disposta a submeter-se sem ser vencida.
O grande herói da colonização de Angola foi Paiva Couceiro?
Não há verdadeiramente um herói. O melhor organizador da conquista durante a Monarquia foi Paiva Couceiro e o seu braço-direito, João de Almeida. A conquista do Sul foi "épica" entre 1885 e 1915.
E em Moçambique?
Não partilho do entusiasmo por Mouzinho de Albuquerque. Em Angola, não havia a premência de Moçambique, a braços com as ambições de Cecil Rhodes, dos britânicos e até dos alemãos, que olhavam, a partir do norte, o que podiam apanhar dos portugueses.

A pressão de Cecil Rhodes sobre Moçambique


Em Angola não havia esse tipo de problemas.
Havia o problema dos alemães e o seu domínio do Sudoeste africano. Mas a pressão alemã era inferior à de Cecil Rhodes, que queria conquistar a Rodésia e aceder ao mar através da Beira. Quem teve a visão mais clara foi António Enes. Enes era um civil: era um autor dramático, foi diretor da Biblioteca Nacional em Lisboa e ministro, e tinha uma conceção relativamente eficaz sobre a organização da conquista. Não tinha poder militar, mas encontrou entre os seus oficiais intermédios gente corajosa e soube ampliar exageradamente a ameaça do Gungunhana. O Gungunhana era um imperialista africano - não há que ter vergonha em dizê-lo. Agora é um herói em Moçambique - cada país encontra os heróis onde pode. Mouzinho de Albuquerque conseguiu o feito apreciável de se apoderar da pessoa de Gungunhana sem resistência, em Manjacaze. Isso deu confiança aos oficiais portugueses, que se batiam com poucos meios e homens e com pouco espírito de organização. Perceberam que, uma vez vencido o Gungunhana, podiam apoderar-se de todo Moçambique - e fizeram-no, lentamente. No início da I Guerra Mundial, o essencial de Moçambique estava conquistado, exceto a parte Norte, os atuais Cabo Delgado e Niassa, que pertenciam a uma sociedade privada comercial, uma pura sociedade de predadores. Os acionistas eram sul-africanos, alemães, franceses, etc. e apenas o presidente era português.
Seguiu-se o estudo da Guiné...
Cheguei à Guiné com muita dificuldade. Porque é muito complicada, ao lado de Angola...
Mais difícil que Angola?
Sim. Quando estudei Angola, tinha uma vantagem: salvo no Sul e no Noroeste, não havia muitas relações (em termos de pesquisa) com os territórios vizinhos. Enquanto a Guiné está completamente rodeada por territórios franceses, pelo que era necessário absorver a história dos povos que também habitam o Senegal e a Guiné Conakry. Fiz, assim, o conjunto das três colónias continentais que nunca tiveram cinco séculos de colonização, que existiu unicamente em Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, e Goa e territórios adjacentes. E mesmo Goa estava dividida, até à véspera da conquista indiana, em duas partes: as velhas conquistas (um território muito pequeno) e as novas conquistas, feitas no fim do Sec. XVIII. Só me faltava a última colónia onde houve grandes combates: Timor, que acabei em 1996. Depois tive problemas de saúde e pessoais, que me obrigaram a trabalhar mais lentamente. Estabeleci, depois, em termos cronológicos, uma síntese das quatro histórias separadas. Associando as várias conquistas, demonstrei que no principio do sec. XX Portugal esteve em guerra permanente e simultânea em vários territórios. O que impressiona, uma vez que o país era pobre - o Portugal do fim da monarquia não se podia comparar à Bélgica do rei Leopoldo. Portugal é, indiscutivelmente, o país que mais se bateu, e mais tardiamente, para obter o seu terceiro Império. O que foi trágico para Portugal é que, à conquista, não se seguiu uma administração estável. Faltou dinheiro, homens e espírito de continuidade. E isso custou muito caro: era preciso reconstruir perpetuamente. Norton de Matos escreveu, num dos seus relatórios, que "não sabemos colonizar..." Exagerava um pouco, mas havia grande parte de verdade nisso. Fez falta uma continuidade do esforço colonial.

'A República liquidou as elites africanas'

E a República?
Coitada! Continuou a mesma política, não tendo sido nem mais gentil nem mais reformadora... Liquidou as elites africanas - não no sentido de as ter morto, mas abafou os primeiros movimentos nacionalistas.
Visitou todas as colónias?
Visitei Angola três vezes - a última, em 1973. Não fiquei apenas em Luanda; fui a Teixeira de Sousa, Cazombo, Gago Coutinho, Cuito Cuanavale, Mavinga, Serpa Pinto...
Vejo que tem uma memória fantástica...
Um pouco... Visitei todos os distritos, menos dois: o Zaire e o Kuanza-Sul.
Quem financiou?
Em 1966, a Junta de Investigações do Ultramar, dirigida por um homem notável: Carlos Cruz Abecassis. Foi honesto comigo e eu com ele. Escrevi um livro que se chama "Explorar. Voyages en Angola et autres lieux incertains", em que descrevo a visita à prisão de S. Paulo, em Luanda, com São José Lopes, o diretor da PIDE em Angola.
Conheceu-o?
Fui até lá. Fez-me visitar de noite a sua prisão que estava vazia.
Vazia?
Não sou ingénuo. Se há historiador ingénuo, não sou eu. Estava quase vazia. Fui depois ao campo de concentração de Missongo; vi os prisioneiros, falei com eles, fiz um pequeno inquérito sobre as origens religiosas e políticas; os portugueses tinham sido astutos e hábeis, tinham misturado os FNLA com os MPLA para ter 'bufos' dos dois lados... Não se deve desprezar a astúcia dos portugueses. Há autores estrangeiros que o fazem. Eu não. É preciso reconhecer qualidades aos portugueses. Ninguém consegue aguentar três guerras durante 14 anos, em dois milhões de quilómetros quadrados insalubres, sem ter uma resistência fora do comum. Os seus adversários, salvo o PAIGC, não estavam tão bem organizados nem eram tão numerosos como a FLN argelina contra a França - mas, apesar disso, é preciso tirar-lhes o chapéu. E eu tiro-o. Mas eles estavam militarmente num beco sem saída.

Reportagem mal-tratada pelo 'Le Monde'


Visitou Moçambique?
Duas vezes. Paguei uma vez, mas não vi muita coisa, fui apenas à Beira, Lourenço Marques e Gaza. A segunda foi em 1973; paguei a viagem até África e na Beira fiquei a cargo das autoridades militares e da administração. Visitei Tete (pouco depois do escândalo do massacre de Wiriamu), Metangula, Vila Cabral, Nangade (no Rovuma). Escrevi um artigo para o "Le Monde" sobre Nangade, que aliás foi mal-tratado por um jornalista da redação, que cortou o que eu dizia de bem dos portugueses, acusando-me de ser um propagandista da causa colonialista...
Visitou a Guiné?
Nunca. O que era normal. Gosto dos jornalistas, porque põem perguntas embaraçosas. E na Guiné sabiam que eu poria questões muito embaraçosas, a que não poderiam responder sem violar completamente a verdade.
Visitou algum destes países depois da independência?
Nunca. Nunca fui à África lusófona depois da independência. Fui a Goa por minha conta em 1979 e verifiquei que estava marginalmente mais desenvolvida que no tempo dos portugueses.
Todos os seus livros estão traduzidos para português?
Não e isso é uma pena. Tenho cinco livros e meio traduzidos para português (ao todo, cerca de 3500 páginas). Sou provavelmente o único historiador estrangeiro a ter cinco livros traduzidos em português: "História das campanhas de Angola", "História de Moçambique", "História da Guiné", "Timor em Guerra" e "As campanhas coloniais de Portugal" (que é a síntese dos quatro). E escrevi, juntamente com Douglas Wheeler, "História de Angola".
Que foi o último a ser traduzido.
Sim. O "Minotauro" nunca foi. Procuro um editor, mas são mais de 700 páginas. Não é apenas a guerra em 1961, é também a administração portuguesa nas véspera das revoltas.

Recensões sobre livros publicados em 52 países


Você é conhecido por ser um máquina de ler...
Sou um explorador do passado.
Quantos livros leu sobre as colónias portuguesas?
Sobre Moçambique, mais ou menos mil livros e artigos; 1100 sobre Angola, pelo menos 400 sobre a Guiné e mais de 300 sobre Timor.
Fez recensões sobre todos esses livros?
Não. Li e utilizei-os para compor os meus próprios livros. Além disso, publico recensões de livros recentes sobre a colonização portuguesa moderna (os cinco PALOP e Timor) e um pouco sobre Goa e Macau. Publiquei mais de três mil recensões desde 1964. É um serviço de informação para o público.
Publicou muitas recensões na "Análise Social". Porque acabou?
Não fui eu que interrompi a minha colaboração. Gostaria bem de a manter. A revista mudou de programa, depois de ter publicado 27 crónicas bibliográficas minhas. E a tradução custava dinheiro!
Em que línguas lê?
Francês, português, espanhol, catalão, italiano, inglês, alemão, holandês (aprendi por causa de Timor) e um pouco de dinamarquês. Quando não leio uma língua, peço ao autor que me envie um resumo, o que já aconteceu com livros escritos, por exemplo, em finlandês, checo e polaco. O mais exótico que recensei foi o primeiro livro em hebraico sobre Angola, da primeira embaixadora de Israel em Luanda.
Escrito em hebraico?
Eu não leio e pedi à autora que me desse um apanhado. Tenho recensões sobre livros publicados em 52 países - na Índia, Nicarágua, Colômbia. Rússia, Roménia, no país basco (sobre missionários em Angola), etc.. É uma cobertura internacional... Publiquei parte dessas recensões num livro enorme (748 páginas) chamado "Angola, Guinées, Mozambique, etc. Una bibliographie internationale critique (1990-2005)". Às vezes muito crítica.

Uma biblioteca com 12 mil títulos 


Está a escrever para revistas portugueses?
Tento, mas é muito difícil. Enquanto crítico, preciso que os meus trabalhos sejam publicados rapidamente. É a mesma atitude que um jornalista: é preciso que saia rápido, atendendo às motivações do editor.
Ouvi-o falar sobre Angola. O que contou foi uma autêntica reportagem jornalística...
Sim. Vocês fazem o mesmo trabalho que eu, mas com uma faca na garganta: o tempo e, por vezes, o chefe-de-redação. Eu tenho bastante mais tempo e menos constrangimentos.
O historiador também é um jornalista?
Não. Eu estou na fronteira. Sou um homem curioso e sistemático. Em França, um grande jornalista é o que trabalha num grande jornal. Eu não trabalho em nenhum jornal e só o faço para pequenas revistas confidenciais, que geralmente não interessam aos editores comerciais. Pelo que sou eu que todos os anos compro uma centena de livros para a minha biblioteca. Além dos livros enviados para a comunicação social, que analiso sempre.
Quantos volumes tem?
Doze mil. Incluindo livros sobre a Índia e Macau e sobre os territórios espanhóis de África, área de que também sou especialista. Unicamente para o período 1840-2010.

'Um bom livro é o que me traz coisas novas'


Tem esses livros todos em sua casa?
Sim, mas não há mais espaço! Gostaria de fazer uma coisa útil para as gerações futuras: uma bibliografia crítica de tudo quanto foi publicado em livro sobre Angola, Moçambique, etc. a partir de 1840. Mas isso custa uma fortuna.
Qual foi o melhor livro que leu sobre as colónias portuguesas?
É uma escolha difícil. Talvez o do americano John Marcum, sobre Angola, em dois volumes e alguns do grande Charles Boxer até 1825.
E de autores portugueses?
Há muitos, visto que também leio romances, na condição que falem da situação e do drama colonial. Enquanto historiador, destaco o livro de António Monteiro Cardoso, "Timor na Segunda Guerra Mundial: O Diário do Tenente Pires". Gosto também de um precursor que escreveu a primeira história séria de Angola, chamado Ralph Delgado; era um autor colonialista, mas com visão de historiador e fez um trabalho de pioneiro. E eu respeito os pioneiros.
O que é, para si, um bom livro?
Se um livro me traz coisas novas, considero-o bom; se me traz muitas coisas novas, é excelente, qualquer que seja a tendência política do autor. Como não tenho nenhuma opção política, se fizer bem o seu trabalho, não tem nenhuma importância que seja de esquerda ou de direita. Desde que faça bem o seu trabalho...

Parte que interessa a Angola da Versão integral da entrevista publicada no Expresso de 31 de Julho de 2010, Caderno Atual, páginas 38 a 40

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O Final do Longo Século XIX: Aspectos gerais do período de 1895-1914

 

«....Em grande medida, a globalização do final do século XIX foi mais natural, livre e tecnológica, baseada principalmente no livre trânsito de mercadorias, capitais e pessoas possibilitado pelos avanços dos transportes e comunicações derivadas da industrialização, e pela expansão do liberalismo. No entanto, o imperialismo e o colonialismo continuaram sendo características fundamentais das relações entre as grandes potências da época e os povos asiáticos e africanos. De fato, o período de 1870-1914 é considerado o apogeu do imperialismo ocidental (seguido pelo japonês) sobre a Ásia e a África, fruto das “novas tecnologias da Revolução Industrial” que “ampliaram enormemente as vantagens comparativas pré-existentes em termos de violência que o Ocidente já possuía, reduzindo o custo e o alcance do império”. As novas tecnologias, além daquelas da revolução dos transportes e das comunicações, foram, contraditoriamente, as de natureza bélica (a capacidade de ferir e matar, com o maior potencial de fogo de uma nova geração de fuzis, das metralhadoras, da artilharia leve de campo, dos navios de guerra couraçados) e medicinal (a capacidade de curar e salvar, com remédios e vacinas), que permitiram superar as distâncias, os problemas de logística, a resistência militar dos Estados e tribos asiáticas e africanas e a natureza hostil de regiões tropicais, sobretudo na África, que até então impediam ou dificultavam a conquista ocidental. O resultado foi a incorporação, por meio da guerra, de novos territórios e povos (entenda-se mercados, fontes de matérias-primas e áreas de investimento) ao capitalismo global – incorporação que dependeu da destruição da soberania das sociedades conquistadas e da ampliação dos impérios coloniais. “No ano de 1800”, afirmou Paul Kennedy, “os europeus ocupavam ou controlavam 35% da superfície terrestre do mundo; em 1878, esse número tinha aumentado para 67% e em 1914, para 84%”  »


Excerto de um artigo que nos dá uma panorâmca geral bastante ampla e interessante sobre o assunto em causa. Para ler o artigo completo:, clicar AQUI

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Política: O Ultimato Inglês e o 31 de Janeiro de 1891 por Deniz Ramos em Fevereiro 05,2010


Mapa Cor de Rosa



Por Deniz Ramos em Fevereiro 05,2010

As viagens à África Central de Livingstone (1852-1873) e de Stanley (1874-1877), amplamente divulgadas, chamaram a atenção para o continente africano. Antes, a expedição de Correia Monteiro e Pedroso Gamito, acompanhados de 420 mercadores e carregadores, tinham explorado em 1831-1832 a rota de Tete a Cazembe. Em 1843 e durante três anos, Rodrigues Graça alcançou as nascentes do rio Sena e o Bié, onde procurou impor a soberania portuguesa, e de 1847 até finais da década, Bemardino Brochado explorou o sul de Angola, de Moçâmedes ao Cunene, recolhendo preciosa informação económica, etnográfica e geográfica. Nas décadas de 1840 e 1850, Angola e Moçambique seriam objecto de novas expedições, sempre com o propósito de afirmar a soberania portuguesa e, cumulativamente, reconhecer as realidades físicas e económicas dos territórios com vista a futura ocupação de colonos. Figura lendária desses exploradores sertanejos foi Silva Porto, colono e comerciante. Único branco no centro de Angola, fixou-se no Bié, e daí empreendeu expedições atrás de expedições numa vasta área até à actual Zâmbia, onde se encontraria com o explorador inglês Livingstone. Silva Porto gozou de grande prestígio entre as autoridades gentílicas, contribuindo para reforçar a presença portuguesa em Angola. Viria a suicidar-se quando algumas tribos locais, aliciadas pelos britânicos, se rebelaram contra Portugal.
Seria, porém, entre 1870 e 1890, já com organização da recém-criada Sociedade de Geografia de Lisboa (1875), que se realizaram as grandes expedições de Hermenegildo Capelo, Roberto Ivens, Serpa Pinto e António Maria Cardoso. Dessas expedições, com fins bem definidos ao nível científico e favorecidas pela melhor preparação dos seus executantes, oficiais da Marinha e do Exército, adveio um conjunto valiosísimo de informações, desde o reconhecimento da natureza dos territórios africanos às suas potencialidades económicas. Os seus relatórios obtiveram larga divulgação: em 1881, Capelo e Ivens publicaram De Benguela às Terras Iacca, Serpa Pinto, que caminhou para sul até à Zâmbia central e ao longo do curso do Zambeze atingiu Pretória e Durban, escreveu em dois volumes, editados em Londres também em 1881, Como eu atravessei a África e em nova viagem, Capelo e Ivens partiram de Moçâmedes e, seguindo o Zambeze até à sua foz, atingiram Quelimane um ano depois. Essa ousada expedição foi relatada em 1986 em De Angola à Contra-Costa.

No país, e Águeda não foi excepção, o êxito dessas viagens de exploração e os seus resultados científicos despertaram viva curiosidade. Em Escola Popular, semanário que em 1870-1871 se envolveu na cruzada da instrução popular, base fecunda da cidadania liberal, José Maria Veloso aproveitou o ensejo para aí publicar diversos textos de divulgação da África Oriental Portuguesa: sobre a Zambézia, Moçambique, Quelimane, Sena, Tete, Zumbo, Manica e Sofala e Bazaruto nos seus números, 33 35, 40 e 52, respectivamente. O propósito era chamar a atenção dos leitores para essa África desconhecida, quase deserta de população branca e sempre negligenciada pelo poder político: “Leiam os nossos trabalhadores, que nós   lhes asseguramos terão vontade de deixar de procurar a escravidão na América para optarem pelo arroteamento e amanho dos campos portugueses de além-mar, capazes, pela sua extensão e feracidade, de fazer a sua fortuna e a dos seus porvindouros; honrando-se, além disso, a si e honrando e engrandecendo a Pátria”.

O Mapa Cor-de-Rosa
e o últimato Inglês de 1890

Na década de 1870 estava na forja o plano britânico de Cecil Rhodes de dominar do Cairo ao Cabo e a resposta de franceses e alemães não tardou. Investido em árbitro das pendências africanas, Leopoldo II da Bélgica convocou em 1876 para Bruxelas as principais nações europeias. Aí foi decidido constituir uma associação internacional africana destinada a promover a África Central e a travar expansionismos perturbadores do equilíbrio na região. Portugal não foi convidado a participar, o que desde logo indiciava os objectivos dessa filantropia em relação às possessões africanas portuguesas. Seria, porém, por ocasião da Conferência de Berlim, da iniciativa de Bismarck (1884-1885), que o golpe decisivo se desferiu contra Portugal. Nesse conclave, apesar da resistência dos representantes portugueses, estabeleceu-se um novo direito público colonial: a posse de colónias africanas deixava de poder legitimar-se apenas por direito histórico e só a ocupação efectiva a justificaria. Ou seja, os direitos históricos sobre um determinado território deveriam ser corroborados pela “existência de uma autoridade suficiente para fazer respeitar os direitos adquiridos e a liberdade do comércio e do trânsito”. A intenção era óbvia. A crise de 1890 abatera-se sobre a Europa e atingira mais duramente a frágil economia portuguesa, agravada ainda pela turbulência político-partidária. Em tão curto prazo de tempo e sem meios financeiros compatíveis seria impossível a Portugal deslocar tropas e funcionários administrativos para todos os territórios a fim de garantir a sua soberania, que ninguém até então havia contestado. Assim, a África portuguesa, onde não existisse um mínimo de ocupação militar e organização administrativa, seria, pois, presa fácil para a espoliação das mais poderosas potências europeias.

Antes da Conferência de Berlim, a presença portuguesa nas colónias oriental e ocidental limitava-se à administração e ocupação de áreas estratégicas ao longo da costa e de pouca profundidade para o interior. Apesar de alguns estadistas liberais terem chamado a atenção para não se descurar os nossos interesses em África, a situação deficitária e política não permitiu dispensar os meios para uma mais larga colonização efectiva, em particular da vasta área entre Angola e Moçambique que havia sido objecto apenas de viagens de exploração. Antes da independência, o Brasil concitara o empenho da burguesia comercial e nem depois da independência se lograra inverter a desatenção colectiva em relação ao ultramar africano. Amputado o império, a burguesia saída da Revolução de 1822 continuou a tirar proveito dos negócios brasileiros e viraram-se as costas a África. Repare-se que no Brasil, à altura do grito independentista, viviam aí cerca de 900 mil brancos e mais de um milhão de mestiços europeizados. Em Angola e Moçambique, por sua vez, a população branca não ultrapassaria 25 mil pessoas. É certo que, entre 1885 e 1890, governos regeneradores e progressistas irão empreender esforços para satisfazer as exigências de Berlim, tímidos, realmente, pois a conjuntura a mais não permitia. Deu-se continuidade a algumas das medidas anteriores, administrativas e de fomento: a Companhia Nacional de Navegação, criada em 1880, passara a ligar Lisboa e Luanda em serviço regular e também nessa década todas as colónias ficaram ligadas a Lisboa por cabo submarino. Cumulativamente, abriram-se estradas para o interior e lançaram-se vias-férreas (o caminho-de-ferro de Lourenço Marques ao Transval, iniciado em 1870, já atingia a fronteira de Ressano Garcia em 1889-1890 e em 1887 iniciou-se a construção da via ferroviária da Beira para a antiga Rodésia e de Luanda para o interior). Por outro lado, intensificaram-se com fins geográficos e de soberania as expedições de Paiva Andrade, Serpa Pinto, António Maria Cardoso, Vítor Gordon e Paiva Couceiro e tentou-se proceder à ocupação, mínima evidentemente, do território entre as duas costas, alvo da cobiça inglesa. Em 1887, Barros Gomes, ministro dos Negócios Estrangeiros progressista, viria a apresentar o projecto da África Meridional Portuguesa. Elaborado no ano anterior, o mapa incluía a região compreendida entre Angola e Moçambique, ou seja, a África Meridional Portuguesa ia da costa atlântica à do Indico. Pela cor com que esse território foi cartografado, o mapa ficaria conhecido como Mapa Cor-de-Rosa.
Barros Gomes, conhecedor da oposição dos ingleses, procurou apoios junto da França e da Alemanha, com quem celebrou convénios em 1886 embora à custa de algumas cedências territoriais.

A inclusão dessa região na África Meridional Portuguesa feria os propósitos expansionistas ingleses e o plano de Cecil Rhodes, lesando os interesses da industrialização inglesa, que necessitava de novos mercados e de matérias-primas e a Conferência de Berlim acabara por fomecer-lhe os meios legais para o conseguir. Por isso, a reacção britânica não se fez esperar. Em Novembro de 1887, aproveitando os incidentes ocorridos no Chire entre as forças de Serpa Pinto e os Macololos e Machonas, que se diziam sob a sua protecção, a Inglaterra fez queixa formal ao governo português. Lisboa apenas respondeu à nota inglesa em Dezembro de 1889 e Lord Salisbury apresentou a 11 de Janeiro de 1890 um ultimatum ao governo português, exigindo a retirada imediata de todas as forças portuguesas do Chire e dos países dos Macololos e Machonas. A ameaça de corte de relações diplomáticas era clara e provável o cenário de guerra: “O Governo de S. M. entende que sem isto as seguranças dadas pelo Governo Português são ilusórias. Mr. Pitrè ver-se-á obrigado, à vista das suas instruções, a deixar imediatamente Lisboa com todos os membros da sua legação, se uma resposta satisfatória à presente intimação não for por ele recebida esta tarde; e o navio de S. M. Enchantress está em Vigo esperando as suas ordens”.
D. Carlos e o governo progressista acabaram por ceder ao ultimatum no prazo que fora imposto: “Na presença duma ruptura iminente de relações com a Grã-Bretanha e de todas as consequências que dela poderiam talvez derivar, o Governo de S. M. resolveu ceder às exigências formuladas nos dois memorandos, a que alude, e, ressalvando por todas as formas os direitos da Coroa de Portugal às regiões africanas de que se trata; e bem assim, pelo direito que lhe confere o artº. 12º. do Acto Geral de Berlim, de ver resolvido o assunto em litígio por uma mediação ou por uma arbitragem, o Governo de S. M. vai expedir para o Govemador-Geral de Moçambique as ordens exigidas pela Grã-Bretanha”.
Apesar das tentativas diplomáticas para que o litígio fosse resolvido por arbitragem
internacional, a Inglaterra sempre se opôs e nem a França, nem a Alemanha se decidiram a intervir. Perante a violenta reacção da opinião pública, que sentiu na pele a humilhação da intimação inglesa, o ministério progressista de José Luciano de Castro caiu, sendo substituído pelo governo regenerador de Serpa Pimentel. Entretanto, ocorreram negociações entre os dois países para clarificar a situação pós-ultimato. O tratado assinado em Agosto, que concedia a Portugal uma estreita faixa a ligar Angola a Moçambique, seria rejeitado e alvo de repúdio na opinião pública, o que levou à demissão dos regeneradores. Em Maio de 1891, já com um novo ministério extra-partidário, foi negociado outro tratado, onde já se não incluía essa faixa entre as duas colónias. Em troca da região a que se convencionou chamar mapa cor-de-rosa, em que, aliás, Portugal nunca teve qualquer ocupação efectiva de colonos ou militares (era uma utopia a África Meridional Portuguesa como a concebia Barros Gomes), foi reconhecida pelos ingleses a soberania portuguesa sobre as colónias de Angola e Moçambique, acrescidas de regiões que Portugal jamais havia reivindicado como pertença histórica. A cedência às exigências britânicas foi embalada pela anglofobia embora o acto intimidatório do ultimatum fosse um escândalo ignóbil. Que Portugal nada terá perdido do que, na verdade, detinha em África é hoje um dado adquirido na recente historiografia.

A reacção ao ultimatum em Soberania do Povo

Vejamos como Soberania do Povo, o único semanário que à época se publicava em Agueda e, por sinal, afecto aos progressistas, reagiu à afronta inglesa perante a qual capituIara um governo do seu próprio partido. O texto é da sua edição de 13 de Fevereiro.
“A ocasião não é propriamente para chorarmos as nossas desventuras, nem para discussões estéreis e inúteis. No momento em que esta gloriosa nação atravessa uma crise assustadora, acerquemo-nos todos da bandeira portuguesa para a defendermos corajosamente das brutalidades do aristocrático marquês de Salisbury, que só pensa em nos roubar, confiado na superioridade das forças britânicas e na indiferença das outras nações do mundo. Esqueçamos por um instante as divergências políticas e unam--se todos os partidos em derredor da mesma bandeira, que é a da Pátria, aquela que outrora tremulou desassombrada nas cinco partes do mundo e que Serpa Pinto ainda hoje empunha briosamente nos pontos mais arriscados do continente africano. O momento não é azado para retaliações, nem para a propaganda revolucionária dos republicanos. Não nos descuidemos porque amanhã pode ser tarde. Abatam-se as bandeiras partidárias para se içar bem alto a bandeira nacional. O governo deve ser o primeiro a ensarilhar as armas. Inspirando confiança aos adversários, eles não recearão seguir-lhe o exemplo. (...) A intimação do governo de S. James melindrou-nos nos nossos sentimentos patrióticos porque não estávamos acostumados a humilhações; e Salisbury atreveu-se a tanto porque dormíamos há 70 anos e não estávamos precavidos. Ouvimos ornear o aristocrático marquês e tivemos a imprudência de adormecer novamente sem nos munirmos de um vergalho.
Suportámos por isso os couces do sendeiro quando outrora não temíamos os rompantes do leão que tantas vezes se rojou humilde a nossos pés. Oxalá que a lição nos aproveite e que o desforço se não faça esperar. A guerra que promovemos às mercadorias da Grã-Bretanha, e que, infelizmente, ainda não é geral, merece o
apoio de todos e é a única que lhe poderíamos fazer com vantagem nas circunstâncias actuais. Portugal, porém, necessita de se desforçar energicamente logo que se lhe ofereça ensejo. (...) Armemo-nos também até que venham melhores dias; e sem perda de tempo, corramos a pontapés os que se embebedam com o nosso vinho e vão depois vomitar no Times as infâmias mais grosseiras. Vamos! Não percamos um momento.
Acerquemo-nos da bandeira nacional e icemo-la bem alto onde não cheguem as afrontas brutais do marquês de Salisbury e da cáfila de bandoleiros que o aplaude nas suas aventuras atrevidas e desonestas (...)”.
Em outras edições posteriores, Soberania do Povo censurou veementemente o acordo anglo-saxónico negociado pelo governo regenerador e Albano de Melo, que dirigia o semanário e ao tempo era deputado, escrevia a bem informada Carta de Lisboa onde comentava, semana a semana, exaustiva e minuciosamente, os conflitos de rua em Lisboa e no Porto e as reacções parlamentares e da imprensa ao ignóbil comportamento inglês em África antes e no decurso das negociações com vista à assinatura do acordo. Ao fim e ao cabo, retomava-se na velha gazeta a revelha rivalidade no seio dos partidos rotatívistas monárquicos.

O 31 de Janeiro de 1891 visto pela progressista Soberania do Povo

Se o país explodiu face à afronta inglesa e à pusilaminidade do rei e do ministério progressista e trouxe para a rua sentimentos anti-britânicos a clamar por represálias, ou se os jornais caíram numa violência inaudita e em verso, no também virulento Finis Patrioe, Guerra Junqueiro vituperou a cínica Inglaterra, a bêbada impudente, todos esses sentimentos ofendidos viriam em proveito dos republicanos, que já no tri-centenário de Camões em 1880 haviam arrecadado um capital de esperança ao simbolizar na evocação do Poeta o despertar da pátria aviltada por um regime anémico. Na opinião de Joel Serrão, embora outros mais recentes historiadores dela discordem, o 31 de Janeiro “se, por um lado, foi o remate da profunda emoção suscitada pelo ultimato inglês de 1890, por outro, assumiu papel de grande relevo na história da conquista do Poder pelo republicanismo, que culminou com a revolução de 5 de Outubro de 1910”. Basflio Teles, um dos vencidos da sublevação, dirá que foi o prólogo e que o epílogo viria logo a seguir.
No Congresso do Partido Republicano realizado em Lisboa no início de Janeiro, os
que apostavam pela acção imediata divergiram dos moderados. A direcção, que veio a ser substituída, no seu relatório assegurava que o ultimato de 11 de Janeiro de 1890 significava que o partido havia terminado a sua propaganda doutrinária e que urgia seguir agora a acção decisiva, que não era outra coisa senão a revolução. E assim aconteceu no Porto, às três horas da madrugada nevoenta de 31 de Janeiro. A revolta, mais que anunciada pois a população e jornalistas concentraram-se nos locais públicos para acompanhar mais de perto, saiu dos quartéis apenas com sargentos e três oficiais. Hasteou na Câmara Municipal a bandeira republicana e da varanda proclamou a República e anunciou os nomes dos que constituiriam o Governo Provisório. Depois, engrossados de multidão e com a Banda a tocar a Portuguesa, as poucas centenas de militares subiram a rua de Santo António. A Guarda Municipal abriu fogo e após nutrido tiroteio os revoltosos retrocederam para a Câmara. A artilharia leal atingiu o edifício e deu-se a debandada, com numerosos civis mortos e feridos. Seguiram-se prisões, julgamentos e deportações dos cabecilhas.

Acompanhemos a reacção de um jornal monárquico progressista ao pronunciamento militar que, no Porto, durante curtas três horas manteve ao alto a bandeira republicana.
Na edição de l de Fevereiro de 1891, Soberania do Povo dedicou a 2ª. página e parte da 3ª. ao relato circunstanciado dos acontecimentos. A descrição, feita em cima da hora, não difere muito da versão oficial posterior.
“Rebentou ontem, às 3 horas da madrugada, na cidade do Porto, uma insurreição militar combinada com alguns elementos populares. A revolta estava preparada há tempo, mas a prisão do sr. João Chagas, condenado por abuso de liberdade de imprensa, apressou talvez o movimento. Às 3 da madrugada saíram para as ruas os regimentos de infantaria 10 e cavalaria 9 e um pelotão de 18 e dirigiram-se à Praça de D. Pedro. Tomaram a casa da Câmara e foi proclamada a república pelo sr. Alves da Veiga, que hasteou a bandeira vermelha do Centro Democrático Federal 15 de Novembro. Foi aclamado um directório composto pelos srs. Carvalho, general reformado, Joaquim Bernardo Soares,juiz da Relação, Rodrigues de Freitas, Licínio Pinto Leite e Alves da Veiga. Aos insurgentos aderiram alguns soldados da guarda fiscal.
Não se associaram à revolução os oficiais superiores da guarnição. O coronel do 18, Cabanellas, pôs-se à frente do seu regimento e marchou para a Praça D. Pedro. A guarda municipal também foi contra os soldados sublevados. A artilharia da Serra do Pilar foi mandada para o largo e fez fogo sobre a casa da câmara, onde as tropas se tinham acolhido, e que foi cercada. Houve um vivo tiroteio. A fusilaria era constante. O combate durou desde as 6 horas da manhã até às 3 da tarde. Houve numerosos mortos e feridos, talvez 150. Os hospitais estão cheios deferidos.
A revolta foi sufocada, fazendo os revoltosos a sua submissão. Muitos fugiram pelas traseiras da casa da câmara. Comandava a insurreição o Capitão Leitão e o alferes Malheiro. De Lisboa e outros pontos foram mandados diferentes regimentos a ocupar o Porto. Alguns navios de guerra devem entrar hoje a barra do Douro. Os revoltosos fizeram todos os esforços para ocupar a praça da Batalha, o telégrafo e o governo civil, mas não o conseguiram. Compreende-se bem o seu plano. Senhores do telégrafo, do governo civil e da casa da câmara, dariam notícias para todos os pontos do país, com quem estavam de inteligência, e a república seria facilmente proclamada em terras importantes. Vê-se que o plano falhou, porque aguarda municipal defendeu a todo o custo a praça da Batalha. Não temos até agora outros pormenores”.
No semanário incluiu-se também informação retirada da imprensa portuense, chegada a Águeda no correio da tarde, que não reproduzimos por não diferir da acima
transcrita. Apenas um parágrafo nos chamou a atenção. Soberania do Povo referiu que corriam já na cidade notícias sobre os tristes factos que cobrem de luto muitas famílias, que não salvaram a liberdade nem deram mais prestígio ao princípio republicano.

O número da semana seguinte dedicou ao 31 de Janeiro, além de um editorial, duas
páginas na íntegra. A quantidade da informação diz bem das preocupações que o movimento revolucionário provocou no seio do regime. Merece, porém, referência a postura do semanário monárquico perante a situação trágica que ocorreu no Porto. Escreveu-se:
“Nesta ocasião nós somos também contra a revolução de 31 de Janeiro. Mas, deplorando os factos, não requeremos vingança, nem aconselhamos o governo a que se meta no caminho das perseguições miguelistas.
Isso não está nos nossos hábitos e demais a experiência diz-nos que a reacção dos oprimidos está na razão directa da violência dos opressores. (...) E assim como os revoltosos estão a estas horas nas mãos da monarquia, podíamos nós todos estar nas da república. Sejamos complacentes e justos, se porventura a justiça se pode combinar com a benevolência. Um criminoso político não é um envenenadar, um bandido. Correu sangue, dizem; é preciso que nos vinguemos: fuzilem-se os sargentos, guilhotinem-se os conspiradores! Sejamos coerentes, meus senhores. (...) Isto não quer dizer que apoiamos a insurreição, Reprovamo-la até e não queremos a impunidade dos insurreicionados. Mas entendemos também que o crime tem grandes atenuantes que devem fazer época nos espíritos liberais e muito principalmente no do poder moderador que nos últimos anos tem sido generoso e magnânimo”.
O editorial vai no mesmo sentido: justiça e benevolência, a par da censura pela inoportunidade do pronunciamento militar republicano: “ É nesta hora cheia de receios e de perigos que um punhado de soldados se insurge e se levanta por uma bandeira, que pode atrair os espíritos juvenis e prender os ideais de muitas almas generosas, mas que neste momento não é a altiva e santa bandeira da Pátria. Não estamos ao lado dos revoltosos. Não chegou ainda o dia solene da implantação da república portuguesa “.

Lemos e pasmamos. Também para a monárquica Soberania ao Povo, como o foi para Basflio Teles, um dos vencidos que teve de se refugiar no Brasil, o 31 de Janeiro de 1891 seria o princípio do fim? Acreditamos. O mais fecundo trabalho de casa preparatório da revolução que em 5 de Outubro pôs termo à Monarquia foi feito realmente dentro da família dos Braganças. Por outras palavras disse-o Eduardo Schwaibach aos seus leitores brasileiros: Ao cabo de longos e porfiados esforços, os monárquicos acabam de implantar a República em Portugal”.

Origem

terça-feira, 12 de outubro de 2010

África Negra (colonização, escravidão e independência)



Introdução

O Continente africano limita-se ao Norte pelo Mar Mediterrâneo, ao Oeste pelo Oceano Atlântico e ao Leste pelo Oceano Índico. De uma maneira simplificada podemos dividi-lo em duas zonas absolutamente distintas: o centro-norte é dominado pelo imenso deserto do Saara (8.600.000 de km2), enquanto que o centro-sul, depois de percorrer-se as savanas, é ocupado pela floresta tropical africana.

Esta separação geográfica também refletiu-se numa separação racial. No Norte do continente habitam os árabes, os egípcios, os berberes e os tuaregues (sendo que esse dois últimos são os que praticam o comércio transaarino). No centro-sul, ao contrário, habitam mais de 800 etnias negras africanas. Atribui-se ao atraso da África meridional ao isolamento geográfico que a população negra encontrou-se através dos séculos. Afastada do Mediterrâneo - grande centro cultural da Antigüidade - pelo deserto do Saara, e longe dos demais continentes pela dimensão colossal dos dois oceanos, o Atlântico e o Índico. Apartados do resto do mundo, os africanos se viram vítimas de expedições forâneas que lhes devoravam os filhos ao longo da história.

Mesmo antes da chegada dos traficantes de escravos europeus, os árabes já praticavam o comércio negreiro, transportando escravos para a Arábia e para os mercados do Mediterrâneo oriental, para satisfazer as exigências dos sultões e dos xeques. As guerras tribais africanas, por sua vez, favoreciam esse tipo de comércio, visto que a tribo derrotada era vendida aos mercadores.


O tráfico de escravos

Durante os primeiros quatro séculos - do século 15 a metade do 19 - de contato dos navegantes europeus com o Continente Negro, a África foi vista apenas como uma grande reserva de mão-de-obra escrava, a “madeira de ébano” a ser extraída e exportada pelos comerciantes. Traficantes de quase todas as nacionalidades montaram feitorias nas costas da África. As simples incursões piratas que visavam inicialmente atacar de surpresa do litoral e apresar o maior número possível de gente, foi dando lugar a um processo mais elaborado.

Os mercadores europeus, com o crescer da procura por mão-de-obra escrava, motivada pela instalação de colônias agrícolas na América, associaram-se militarmente e financeiramente com sobas e régulos africanos, que viviam nas costas marítimas, dando-lhes armas, pólvora e cavalos para que afirmassem sua autoridade numa extensão a maior possível. Os prisioneiros das guerras tribais eram encarcerados em “barracões”, em armazéns costeiros, onde ficavam a espera da chegada dos navios tumbeiros ou negreiros que os levariam como carga humana pelas rotas transatlânticas.

Os principais pontos de abastecimento de escravos, pelos menos entre os séculos 17 e

18 eram o Senegal, Gâmbia a Costa do Ouro e a Costa dos Escravos. O delta do Níger, o Congo e Angola serão grandes exportadores nos séculos 18 e 19. Quantos escravos foram afinal transportados pelo Atlântico? Há muita divergência entre os historiadores, alguns chegaram a projetar 50 milhões, mas R. Curtin (in The Atlantic slave trade: A census, 1969) estima entre 9 a 10 milhões, a metade deles da África Ocidental, sendo que o apogeu do tráfico ocorreu entre 1750 a 1820, quando os traficantes carregaram em média uns 60 mil por ano. O tráfico foi o principal responsável pelo vazio demográfico que acometeu a África no século 19.
O comércio triangular

Desta forma inseriram a África Negra no comércio triangular basicamente como fornecedora de mão-de-obra escrava para as colônias americanas e antilhanas. O destino dos barcos negreiros eram os portos da Jamaica, Baamas, Haiti, Saint- Eustatius, Saba, Saint-Martin, Barbuda e Antigua, Guadalupe, Granada, Trinidad & Tobago, Bonaire, Curaçao e Aruba. Das Antilhas partiam outras levas em direção às Carolinas e à Virgínia nos Estados Unidos. Outras dirigiam-se ao Norte e Nordeste do Brasil, à Bahia e ao Rio de Janeiro. Os escravos eram empregados como “carvão humano” nas grandes plantações de açúcar e tabaco que se espalhavam do Leste brasileiro até as colônias do Sul dos Estados Unidos: do Rio de Janeiro até a Virgínia.

Enquanto a Europa importava produtos coloniais, trocava suas manufaturas (armas, pólvora, tecidos, ferros e rum) por mão-de-obra vinda da África. Os escravos eram a moeda com que os europeus pagavam os produtos vindos da América e das Antilhas para não precisar despender os metais preciosos, fundamento de toda a política mercantilista. Tinham pois, sob ponto de vista economico uma dupla função: eram valor de troca (dinheiro) e valor de uso (força de trabalho).

A luta pela abolição da escravatura

Um dos capítulos mais apaixonantes, polêmicos e gloriosos, da história moderna foi o que conduziu à abolição do trafico negreiro e a total supressão da escravidão no transcorrer do século 19. A primeira reação contra a escravidão ocorreu no século 18, partindo de uma seita protestante radical, os Quakers. Eles consideravam-na um pecado e não podiam admitir que um cristão tirasse proveito dela. Enviaram, em 1768, ao parlamento de Londres uma solicitação pedindo o fim do tráfico de escravos. Pouco depois, John Wesley, o fundador do movimento metodista, pregou contra a escravidão (Thoughts upon Slavery, 1774) afirmando que preferia ver a Índias Ocidentais (como eram denominadas as colônias antilhanas inglesas) naufragarem do que manter um sistema que “violava a justiça, a misericórdia, a verdade”.

Economistas ilustrados também entraram na luta. Tanto os Fisiocratas franceses como Adam Smith, o pai do capitalismo moderno, (in Wealth os the Nations, 1776) afirmaram que a escravidão era deficitária na medida que empregava uma enorme quantidade de capital humano que produzia muito aquém daquele gerado por homens livres. Viam-na como parte de um sistema de monopólio e privilégio especial, onde um
homem desprovido de liberdade não tinha nenhuma oportunidade de garantir a propriedade do que quer que fosse e que seu interesse em trabalhar era o mínimo possível. Assim a escravidão só podia sobreviver pela violência sistemática do amo sobre o cativo. Anterior a ele, nas colônias americanas, Benjamin Franklin foi o primeiro homem moderno a submeter a instituição da escravidão a uma analise contábil, concluindo também que um escravo era muito mais caro do que um trabalhador livre (The Papers of B.Franklin, 1751). Alexis de Tocqueville, o grande pensador liberal francês, que visitou os Estados Unidos, deixou páginas memoráveis no seu A Democracia na América, de 1835, ao fazer a comparação entre os estados escravistas (povoados por brancos indolentes e negros paupérrimos) e aqueles que mantinham o trabalho livre, ativos e industriosos.

No plano filosófico ela foi repudiada na obra de Montesquieu (L’esprit de les Lois, livro. XV,1748), onde afirmou que “a escravidão, por sua natureza, não é boa: não é útil nem ao senhor nem ao escravo: a este porque nada pode fazer de forma virtuosa; aquele porque contrai dos seus escravos toda a sorte de maus hábitos... porque se torna orgulhos, irritável, duro, colérico, voluptuoso e cruel. (...) os escravos são contra o espirito da constituição, só servem para dar aos cidadãos um poder e um luxo que não devem ter.”

Mais radical do que ele foi o pensamento de J.J. Rousseau (in Le Contrat Social, 1762) para quem “os homens haviam nascido livres e iguais” e que a renuncia da liberdade eqüivalia a renúncia da vida. Como a escravidão repousava sempre a força bruta “...os escravos não tinham nenhuma obrigação ou dever para com os seus amos”.

Apesar de Condorcet lamentar que só uns poucos filósofos “atreveram-se de vez enquanto a soltar um grito a favor da humanidade”, a soma das pressões religiosas, econômicas, filosóficas e morais começaram a surtir efeito. O Século das Luzes, como o século 18 foi chamado, terminou por condenar a escravidão como atentatória à dignidade do homem, A Revolução Francesa de 1789 aboliu com a escravidão nas colônias francesas por acreditá-la incompatível com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Napoleão, porém, mais tarde, restaurou-a. Mas em 1848 ela foi finalmente reafirmada.

Na Inglaterra o abolicionismo encontrou respaldo num grupo militante chamado de “Os Santos” (The Saints), que organizaram, em 1787, sob liderança de William Wilberforce, a Sociedade anti-escravista (Anti-slavery Society). Graças as suas batalhas parlamentares contra os interesses escravistas das cidades portuárias de Liverpool e Bristol, Wilberforce conseguiu fazer aprovar a lei de 1807 que proibia o tráfico negreiro.

Depois de uma série de leis intermediárias, a abolição completa da escravidão nas colônias ingleses ocorreu em agosto de 1834 (Slavery Abolition Act) que libertou 776 mil homens, mulheres e crianças. Nesse ínterim a Inglaterra havia declarado guerra
aberta ao tráfico. Nenhum barco negreiro poderia mais singrar os oceanos sem ser vistoriado (Aberdeen Act). Se fosse capturado os escravos deveriam ser devolvidos. Por pressão inglesa, o Brasil finalmente concordou em abolir com o tráfico pela Lei Eusébio de Queirós, em 1850. Mesmo assim continuou recebendo, em desembarques clandestinos, braços contrabandeados, o que gerou sérios atritos com a marinha inglesa.

Na verdade, a razão material primeira da abolição foi a emergência da sociedade industrial, surgida pelos efeitos sócio-econômicos provocados pela introdução da máquina a vapor no processo produtivo.. Essa sociedade, que se expanda a partir do século 18, produzia mercadorias em série para consumo em massa. Uma comunidade de escravos não consome pois não ganha salários. Houve então um conflito estrutural e ideológico entre a crescente e poderosa sociedade industrial, que requeria mercados livres e trabalho assalariado, com a política mercantilista de mercados cativos e mão-de-obra escrava.(*)

(*) Esta abordagem, que afirma ser a escravidão anti-econômica sob prisma moderno, continua gerando polêmica. Historiadores econômicos conservadores norte-americanos, como R.W.Fogel, insistem em afirmar que a escravidão não era incompatível com a industrialização. Apresentando uma série de abordagens pontuais demonstrando a prosperidade de certos setores industrias sulistas.

A partilha da África

A partir do momento que o continente africano não podia mais fornecer escravos, o interesse das potências colônias inclinou-se para a sua ocupação territorial. E isso deu-se por dois motivos, O primeiro deles é que ambicionavam explorar as riquezas africanas, minerais e agrícolas, existentes no hinterland, até então só parcialmente conhecidas. O segundo deveu-se à competição imperialista cada vez maior entre elas, especialmente após a celebração da unificação da Alemanha, ocorrida em 1871. Por vezes chegou-se a ocupar extensas regiões desérticas, como a França o fez no Saara (chamando-a de França equatorial), apenas para não deixa-las para o adversário.

Antes da África ser dominada por funcionários metropolitanos, a região toda havia sido dividida entre várias companhias privadas que tinham concessões de exploração. Assim a Guiné estava entregue a uma companhia escravista francesa. O Congo, por sua vez, era privativo da Companhia para o Comércio e Industria, fundada em 1889, que dividia-o com a companhia Anversoise, de 1892 .O Alto Níger era controlado pela Companhia Real do Níger, dos britânicos. A África Oriental estava dividida entre uma companhia alemã, dirigida por Karl Peters, e uma inglesa, comandada pelo escocês W.Mackinnon. Cecil Rhodes era o chefe da companhia sul-africana que explorou a atual Zâmbia e Zimbawe, enquanto o rei Leopoldo II da Bélgica autorizava a companhia de Katanga a explorar o cobre do Congo belga.
O Congresso de Berlim

Atendendo ao convite do chanceler do II Reich alemão, Otto von Bismarck, 12 países com interesse na África encontraram-se em Berlim - entre novembro de 1884 a fevereiro de 1885 -, para a realização de um congresso. O objetivo de Bismarck é que os demais reconhecessem a Alemanha como uma potência com interesses em manter certas regiões africanas como protetorados. Além disso acertou-se que o Congo seria propriedade do rei Leopoldo II da Bélgica (responsável indireto por um dos mais terríveis genocídios de africanos), convertido porém em zona franca comercial. Tanto a Alemanha, como a França e a Inglaterra combinaram reconhecimentos mútuos e acertaram os limites das suas respectivas áreas. O congresso de Berlim deu enorme impulso à expansão colonial, sendo complementado posteriormente por acordos bilaterais entre as partes envolvidas, tais como Convênio franco-britânico de 1889-90, e o Tratado anglo-germânico de Heligoland, de 1890. Até 1914 a África encontrou-se inteiramente divida entre os principais países europeus (Inglaterra, França, Espanha, Itália, Bélgica, Portugal e Alemanha). Com a derrota alemã de 1918, e obedecendo ao Tratado de Versalhes de 1919, as antigas colônias alemãs passaram à tutela da Inglaterra e da França. Também, a partir desse tratado, as potências comprometeram-se a administrar seus protetorados de acordo com os interesses dos nativos africanos e não mais com os das companhias metropolitanas. Naturalmente que isso ficou apenas como uma afirmação retórica

A reação dos africanos

A conquista da África foi entremeada de tenaz resistência nativa. A mais célebre delas foram as Guerras Zulus, travadas no século 19 pelo rei Chaka (que reinou de 1818 a 1828) na África do Sul, contra os ingleses e os colonos brancos boers. Entrementes, os colonizadores começaram a combater as endemias e doenças tropicais que dificultavam a vida dos europeus através do saneamento e da difusão da higiene. A África era temida pelas doenças tropicais: a febre amarela, a malária e a doença do sono, bem como da lepra. O continente, igualmente, ocupado por missões religiosas, tanto católicas como protestantes. Junto com o funcionário colonial, o aventureiro, o fazendeiro, e o garimpeiro branco, afirmou-se lá, em caráter permanente, o padre ou o pastor pregando o evangelho.

Essa ocupação escancarada provocava amargura entre os africanos que se sentiam inferiorizados e impotentes perante a capacidade administrativa, militar e tecnológica, do colonialista europeu. Já na metade do século 19, o afro-americano Edward W. Blyden, que emigrara para a Libéria em 1850, descontente com a perda da auto-estima dos negros, proclamava a existência de uma “personalidade africana” com méritos e 

valores próprios, contraposta a dos brancos. E, imitando James Monroe, lançou o slogan “África para os africanos!”.

Em 1919 reuniu-se em Paris, o 1º Congresso Pan-africano, organizado pelo intelectual afro-americano W.E.B. Du Bois. Reivindicou ele um Código Internacional que garantisse, na África tropical, o direito dos nativos, bem como um plano gradual que conduzisse à emancipação final das colônias. Conquanto que, para os negros americanos, era solicitado a aplicação dos direitos civis (que só foram finalmente aprovados pelo congresso dos E.U.A. em 1964!).

O último congresso Pan-africano, o 5º, reuniu-se em Manchester, na Inglaterra, em 15-18 de outubro de 1945, tendo a presença de Du Bois, Kwane Nkurmah, futuro emancipador da Ghana, e Jomo Kenyatta, o líder da Quênia. Trataram de aclamar a necessidade da formação de movimentos nacionalistas de massas para obterem a independência da África o mais rápido possível.



A descolonização

 A descolonização tornou-se possível no após-1945 devido a exaustão em que as antigas potências coloniais se encontraram ao terem-se dilacerado em seis anos de guerra mundial, de 1939 a 1945. Algumas delas, como a Holanda, a Bélgica e a França, foram ocupados pelos nazistas, o que acelerou ainda mais a decomposição dos seus impérios no Terceiro Mundo. A guerra também as fragilizou ideologicamente: como podiam elas manter que a guerra contra Hitler era uma luta universal pela liberdade contra a opressão se mantinham em estatuto colonial milhões de asiáticos e africanos?

A Segunda Guerra Mundial se debilitou a mão do opressor colonial, excitou o nacionalismo dos nativos do Terceiro Mundo. Os povos asiáticos e africanos foram assaltados pela impaciência com sua situação jurídica de inferioridade, considerando cada vez mais intolerável o domínio estrangeiro. Os europeus, por outro lado, foram tomados por sentimentos contraditórios de culpa por manterem-nos explorados e sob sua tutela, resultado da influencia das idéias filantrópicas, liberais e socialistas, que remontavam ao século 18. Haviam perdido, depois de terem provocado duas guerras mundiais, toda a superioridade moral que, segundo eles, justificava seu domínio.

Quem por primeiro conseguiu a independência foram os povos da Ásia (começando pela Índia e Paquistão, em 1946). A maré da independência atingiu a África somente em 1956. O primeiro pais do Continente Negro a conseguí-la foi Ghana, em 1957. Em geral podemos separar o processo de descolonização africano em dois tipos. Aquelas regiões que não tinham nenhum produto estratégico (cobre, ouro, diamantes ou petróleo) conseguiram facilmente sua autonomia, obtendo-a por meio da negociação pacífica. E, ao contrário, as que tinham um daqueles produtos, considerados estratégicos pela metrópole, explorados por grandes corporações, a situação foi diferente (caso do

petróleo na Argélia e do cobre no Congo belga). Neles os colonialistas resistiram aos movimentos autonomistas, ocorrendo movimentos de guerrilhas para expulsá-los.

Os partidos e movimentos africanos

Apesar da existência de 800 etnias e mais de mil idiomas falados na África, podemos encontrar alguns denominadores comuns entre os partidos e movimentos que lutaram pela descolonização. O primeiro deles é de que todos eles ambicionavam a independência, conquistada tanto pela vertente de radicalismo revolucionário ou através do reformismo moderado, que tanto podia implantar uma republica federativa como uma unitária.

Em geral, os partidos optaram pelo centralismo devido a dificuldade em obter consenso entre tribos rivais. Esse centralismo é geralmente assumido pelo próprio líder da emancipação, (como Nkrumah em Ghana) pelo partido único (ou “partido dominante” como definiu-o Leopold Senghor, do Senegal) ou ainda, por um ditador militar (como Idi Amin Dada em Uganda, ou Sese Seko Mobuto no Zaire). A negritude (movimento encabeçado por Aimé Césaire, um poeta martinicano, e pelo presidente senegalês Leopold Senghor) foi também um ponto em comum, marcadamente entre os países afro-francofônicos, que exaltavam as qualidades metafísicas dos africanos. Finalmente todos manifestavam-se a favor do pan-africanismo como uma aspiração de formar governos “por africanos e para africanos, respeitando as minorias raciais e religiosas”.

Dificuldades africanas

Na medida em que em toda a história da África anterior ao domínio europeu, desconhecia-se a existência de estados-nacionais, segundo a concepção clássica (unidade, homogeneidade e delimitação de território), entende-se a enorme dificuldade encontrada pelas elites africanas em constituí-los em seus países. Existiam anteriormente na África, impérios, dinastias governantes, milhares de pequenos chefes e régulos tribais, mas em nenhuma parte encontrou-se estados-nacionais. O que havia era uma intensa atomização política e social, um facciosismo crônico, resultado da existência de uma infinidade de etnias, de tribos, quase todas inimigas entre si, de grupos lingüísticos diferentes (só no Zaire existem mais de 40), e de incontáveis castas profissionais. O fim da Pax Colonialis, seguida da independência, provocou, em muitos casos, o afloramento de antigos ódios tribais, de velha rivalidades despertadas pela proclamação da independência, provocando violentas guerras civis (como as da Nigéria, do Congo e, mais recentemente, as da Angola, Moçambique, Ruanda, Burundi, Serra Leoa e da Libéria).

Essas lutas geraram uma crônica instabilidade em grande parte do Continente que contribuiu para afastar os investimentos necessários ao seu progresso. Hoje a África,
com exceção da África do Sul, Nigéria e o Quênia, encontra-se praticamente abandonada pelos interesse internacionais. Os demais parecem ter mergulhado numa interminável guerra tribal, provocando milhões de foragidos (na África estão 50 % dos refugiados do globo) e um número incalculado de mortos e feridos. É certamente a parte do mundo onde mais guerras são travadas. Como um incêndio na floresta, encerra-se a luta numa região para logo em seguida arder uma mais trágica ainda logo adiante.

De certa forma todos os povos pagam pelos seus defeitos culturais. Neste sentido o arraigado tribalismo africano é o grande impedimento para concretizar a formação de um estado-nacional estável. Enquanto as massas negras não conseguirem superar as rivalidades internas dificilmente poderão formar regimes sólidos, íntegros, que superem a dicotomia entre ditadura ou anarquia tribal. A grande geração que conseguiu a independência, homens como K.Nkrumah, Jomo Kenyatta, Agostinho Neto, Samora Machel, Kenneth Kaunda, Julius Nyerere, Leopold Senghor ou Nelson Mandela estão mortos ou envelheceram. Nenhum dos sucessores desses grandes homens, têm conseguido o respeito da população e o carisma necessário para manter seus respectivos países unidos. Em muitos casos eles foram substituídos por chefes dominados por interesses localistas e familiares, de visão estreita, sem terem o sentido de abrangerem o restante dos seus cidadãos. É hora pois dos líderes africanos pararem de jogar pedras sobre o passado colonial e assumirem a responsabilidade pelo destino dos povos que ajudaram a emancipar.

Principais países, líderes, movimentos
e partidos africanos (*)

País
Líder
Movimento/Partido
Data da Independência
Angola
Agostinho Neto
Movimento p/libertação de Angola (MPLA)
1975
África do Sul
Nelson Mandela
African National Congress (ANC)
1994
Costa do Marfim
Pelix Houphouet-Boigny
Reunião democratica africana
1957
Ghana
Kwame Nkrumah
Convention Peopel’s Party
1957
Guiné
Sekú Turé
Partido Democrático da Guiné (PDG)
1958
Madagascar
Tsiarana
Movimento democrático da renovação malgache
1960
Malawi
Hastings Kamuzu Banda
Malawi Congress Party
1961




Moçambique
Samora Machel
Frente de libertação de Moçambique(FRELIMO)
1975
Nigéria
Benjamin N. Azikiwé
National Concil of Nigeria and Camerun
1960
Quênia
Jomo Kenyatta
Mau-mau/ Kenya central association
1963
Senegal
Leopold Senghor
Bloque democratique senegalien
1948
Tanzânia
Julius Nyerere
Tanganica African National Union/Zanzibar
1964
Zaire
Joseph Kasavubu/Patrice Lumumba
Movimento “Abako”
1960
Zimbawe
Robert Mugabe
Zimbawe African NationalUnion (ZANU)
1980


(*) A África independente compõem-se de 48 países

Bibliografia


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Hochschild, Adam - King Leopold’s Ghost - Houghton Mifflin co. Boston,1998