quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Construindo A História Angolana: As Fontes e a Sua Interpretação Escrito por Rosa Cruz e Silva

O NACIONALISMO ANGOLANO, UM PROJECTO EM CONSTRUÇÃO NO SEC. XIX? 
 
 
Através de três periódicos da época: O Pharol do Povo, Tomate e o Desastre.
"(...) Dentro de um espírito antropológico proponho, então, a seguinte definição para nação: ela é uma comunidade política imaginada - e imaginada como implicitamente limitada e soberana. Ela é imaginada porque nem mesmo os membros das menores nações jamais conhecerão a maioria de seus compatriotas, nem os encontrarão, nem sequer ouvirão falar deles, embora na mente de cada um esteja viva a imagem de sua comunhão." (ANDERSON, Benedict, 1989 p.14).

I . INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas de Oitocentos, enquanto Portugal se batia de armas na mão para a consolidação da conquista de Angola, paralelamente, uma onda de contestação contra o poder instituído ganhava corpo, precisamente junto de alguns sectores da elite africana que mercê das novas medidas legislativas que impunham os imperativos do Terreiro do Paço em Lisboa, estavam por essa altura bastante penalizados. Em oposição ao esforço de colonização, crescia o gérmen da "consciência nacional" que brotava dos espíritos de um grupo de intelectuais africanos, os filhos do país, assim o provam os textos que compunham o seu discurso político, pontuado na imprensa dita livre da época. O início de tal manifestação como nos indica Jill Dias é muito antiga, foi enunciada na década de 1820, e foi-se fixando nos círculos dos protestatários tanto na capital, como nos concelhos do Hinterland de Luanda, ou ainda em Benguela e na então Mossamedes.

Conf. Jill Dias, 1998, p. 540. Num artigo extenso do Pharol do Povo n.º 36 de 27 de Outubro de 1883, intitulado "A republica a crear raízes em Angola" José Fontes Pereira dá notícia de uma acção política protagonizada pelos moradores de Benguela logo após os acontecimentos da Proclamação da Independência do Brasil. Dizia, " Benguella abraçou com grande entusiasmo aquella ideia, e quando se proclamou a independência do Brazil, o grande povo d'aquella cidade secundou aquelle estado de coisas, tendo hasteado a bandeira do café e tabaco na fortaleza de S. Filipe. Dirigiu este movimento o tenente coronel Francisco Pereira Diniz, homem preto, natural de Benguella que comandava as companhias de linha d'aquela capitania". Passados mais de 60 anos da data do acontecimento, Fontes Pereira dá notícia do exemplo do Brasil, um primeiro grito de independência ecoa em Benguela e entre os seus promotores está um oficial do exército, um " filho do país."

Entre os estudos que abordaram já esta problemática, para citar alguns, e que de alguma forma se ativeram às questões da emancipação política dos africanos no período em referência, quanto a nós, embora reconheçam o evoluir do processo que conduz a enunciação da proposta da independência do país, avançam conclusões em nosso entender um tanto ou quanto redutoras, por se revelar insuficiente a exploração das fontes disponíveis sobre esta problemática, ou dificultado o acesso às mesmas. Provam as nossas fontes que essa evolução culmina com propostas que advogam a ruptura de facto com o regime, o que se explica não só pela perda dos privilégios que no contexto geral da sociedade usufruíam os principais autores da proposta emancipadora, mas sobretudo, porque o próprio fenómeno colonial transporta consigo o gérmen da conflitualidade que opõe colonizadores e colonizados, e esta por todos os exemplos que nos dá a História não se resolveu sem a reacção mais ou menos violenta dos marginalizados do sistema. Enquanto os indígenas letrados que se encontravam nos espaços da colónia, e influenciados por todo o aparato ideológico inerente ao sistema político vigente, onde os paradigmas culturais ocidentais têm efectivamente peso na formação da sua identidade, assumem-se comprometidos com o regime, embora o critiquem nomeadamente pelos variadíssimos exemplos de má governação e sobretudo pelos procedimentos discriminatórios de que foram vítimas aos mais variados níveis, por outro lado, dentre eles destacam-se os intitulados, filhos do país, que se vão tornar nos principais opositores do mesmo regime, colocando-se na barricada contrária, a partir da qual engendram com os meios possíveis ao seu alcance uma campanha política que visava em última instância a conquista da independência Até alcançar a etapa em que se propõem resolver o conflito, já não através das propostas conciliadoras como a formação de uma união luso-africana para a instauração de um regime que se lhes afigurasse mais justo, porque se dão conta que já não é possível a coabitação em seu próprio território com aqueles que impõem leis e não as cumprem, que defendem teoricamente princípios e os violam sistematicamente, a coberto de uma hegemonia que lhes confere o poder instituído pela força das armas, há uma longa caminhada em que inicialmente se confundem os alvos, os adversários, não se identificam convenientemente os aliados. Porém a própria corrente da máquina administrativa e militar do sistema colonial, contribui para que o nível político dos intelectuais africanos, atinja um grau de maturidade tal, em que não se permitem mais titubear nas suas decisões sobre os destinos do país, e deixam escapar o afã libertador, até que se expõe o seu pensamento nítido, audaz e profético. Deste modo foram moldando o sentimento nacionalista que se propunha alcançar o espaço não só restrito à colónia, pois nas suas propostas, juntaram à sua voz reivindicativa e protestatária, os esforços empreendidos pelos povos ainda não subjugados e que se batiam a todo custo para a manutenção dos seus domínios. Anunciaram a vontade e querer, país livre de qualquer domínio. Porém os autores dessa aventura tiveram que percorrer os caminhos da clandestinidade para tentar iludir os postuladores da lei da metrópole e fazer passar a sua mensagem. Tentaremos evidenciar os jogos políticos exercitados pelos filhos do país conducente à libertação do jugo colonial. Tais ideias foram pensadas, forjadas e anunciadas sobretudo nas três últimas décadas do Século XIX, na dita imprensa livre, e a partir da década de 80, nas colunas da imprensa africana, pois nessa altura estão já capazes de expor claramente o sonho independentista,

Veja-se: Douglas L. Wheeler, Na Early Angolan Protest: The Radical Journalism of Joseé de Fontes Pereira (1823-1891), in Protest and Power in Clack Africa, Ed. Por Robert I. Rotberg et al, A Mazuri, Nova Iorque, Oxford University Press, 1970,pp.854-874; Jill Dias, Uma questão de identidade: Respostas intelectuais às transformações económicas no seio da elite crioula da Angola portuguesa entre 1870 e 1930, in Revista Internacional de Estudos Africanos, N.º1 Janeiro/Junho, 1984; O Império Africano 1825-1890, in Nova História da Expansão Portuguesa, Lisboa, 1998, Os Periódicos como Fonte de Pesquisa Histórica. A Imprensa Escrita de Angola do Sec. XIX, pp 17-31; ANDRADE, Mário, Origens do Nacionalismo Africano, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1997;
visualizando inclusivamente um projecto que os conduziria a tal objectivo, tendo-se registado propostas que previam o desencadear de acções mais firmes contra o sistema, exemplificadas entre outras, numa encenação de um golpe de estado militar, em 1891, numa versão muito aparentada aos tempos actuais em se que anunciava a independência de Angola.

CONTINUA...

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

RUY DUARTE DE CARVALHO: pastores kuvale da província do Namibe com um relance sobre as outras sociedades agropastoris do sudoeste de Angola

http://4.bp.blogspot.com/_UbYo9I1p9Kw/TGSK8wIeJMI/AAAAAAAABcE/ACWSG8-NlFE/s1600/Antrop%C3%B3logo+Ruy+Duarte+de+Carvalho+-+1.jpg
RUY DUARTE DE CARVALHO


AVISO À NAVEGAÇÃO
olhar sucinto e preliminar
sobrepastores kuvale
da província do namibe com
um relance sobre as outras
sociedades agropastoris
do sudoeste de angola


INTRODUÇÃO

PARA A APREENÇÃO PRELIMINAR DE UMA SINGULARIDADE KUVALE...

Proponho partir de duas citações. Não porque as aprecie sobremaneira mas porque introduzem, de pronto, no vivo da matéria, na singularidade de um "caso":
"Elsewhere, aridity and sand made farming difficult, except for the valleys of some of the larger streams flowing down from the highlands; there, small, distinctive communities combined stock-keeping with whatever agriculture they could manage to support themselves."
Joseph C. Miller, Worlds Apart: Africa's Encounter with the Atlantic in Angola, ca. 15OO-185O, Seminário Internacional de História de Angola, 1995, 22 p.
"Pourtant, à cheval sur le Sud et le Centre-Angola, subsiste, résiduelle, l'ethnie Herero dont un sous-group, celui des Cuvale, va avoir le triste privilège de subir le poids de la guerre totale à une époque aussi tardive que 194O-41."
René Pélissier, Les Guerres Grises, Resistence et Revoltes en Angola (1845-1941), Orgeval, 1977, 63O p.
Os Kuvale são Herero, portanto, encravados na aridez e na areia, "residuais" e sobreviventes de uma guerra total. São Herero em Angola, tal como o são os Ndombe, a Norte, os Hakahona e os Dimba, a Leste, os Himba, a Sul. Estes estendem-se para além do rio Kunene, pela Namíbia, onde se misturam ou encostam aos Herero que, com os Mbandero entram pelo Botswana. Da maneira como a aridez os "encrava", e eles se encravam nela, direi abundantemente ao longo deste texto. Da sua história recente, que é a de uma recuperação consumada, referirei factos e efeitos.
Os Herero de hoje provêm de populações pastoris de língua banta que terão chegado à costa ocidental da Africa, pelo Leste, a nível do paralelo de Benguela, e que, alcançadas as estepes que precedem o mar, flectiram para Sul, cada vez se internando mais nas bordaduras do Deserto do Namibe e depois para Leste, até ao Kalahari.
A viagem que as trouxe até aí é mais um percurso no tempo do que uma deslocação no espaço. Elas faziam parte de uma expansão bantu de cultura pastoril que quando atingiram o território do que é hoje Angola, talvez no séc. XV, durava provavelmente há mais de 1 5OO anos, desde que os seus antepassados de língua, os Bantu depois chamados de Orientais, se encontraram na costa Leste com os Nilóticos, que lhes transmitiram a cultura pastoril que por sua vez tinham aproveitado dos Cuxitas, 3 OOO anos antes. Os Cuxitas, esses, tê-la-ão recebido do Oeste, das franjas do Sahara, que entretanto secara. As mutilações
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dentárias, o sistema das classes de idade, a recusa de comer peixe, traços culturais que vigoram entre os Kuvale de hoje, remontam, tanto quanto se sabe, aos Cuxitas, por não se saber se estes também os não receberam de outros.
A qualidade dos pastos, sem dúvida, a boa resposta dos animais aos recursos do meio em condições normais, a possibilidade de garantir a vida e a reprodução ou a renovação de um sistema pastoril mesmo tendo que enfrentar oito meses secos cada ano e anos de chuvas muito reduzidas, terão estado na base da fixação a partir das bordaduras do extremo norte do deserto do Namibe de populações que transportavam consigo a memória colectiva e a marca cultural, inscritas nos comportamentos e nas dinâmicas, de paisagens inegavelmente semelhantes, pelo menos à primeira vista, gazelas e zebras, por exemplo, ou capins, Schimitias e Eragrostis, do outro lado do continente. Sendo evidente a excelência dos pastos, também é possivel estabelecer ali uma gestão da água que acaba por ser a dos próprios pastos em função da água ou vice-versa: transumância, portanto, antes e agora. Muita coisa terá mudado entretanto, evidentemente, a presença da fauna selvagem e da sua intervenção no eco-sistema mudou mesmo radicalmente (ela está hoje praticamente extinta), a presença do próprio homem explicará muitas das configurações florísticas do presente, mas os termos globais da produção e da produtividade continuam a fundamentar-se numa interacção ecológica directa.
Os Kuvale não serão hoje mais de 5 OOO, mas ocupam um território vasto: mais de metade da Província do Namibe. São na actualidade um povo próspero, nos termos que eles próprios valorizam: estão cheios de bois. Os seus espaços não foram praticamente, a não ser a Nordeste, teatro de incidências directas da guerra, tem havido chuva nos útimos anos, pelo menos que chega para manter o gado (até tem havido anos bons e há muito tempo que não há verdadeiramente nenhum ano mau) e, no entanto, o processo de Angola todos os anos os coloca em situação de penúria alimentar. Não conseguem trocar bois por milho. Este binómio, tanto boi-tanta fome, é mais um sinal da sua singularidade. Mas não é esta, também, a de Angola? Tanto petróleo...
De qualquer forma constituem um "caso" em Angola. Analisar a sua singularidade é analisar a de Angola e haverá questões e detalhes que embora aqui apareçam referidos a eles, correspondem a problemas, e a problemáticas, que dizem talvez respeito a outros Angolanos, senão a todos.
Sobre os Kuvale de ontem e de hoje não há muito material escrito. Há, evidentemente, uma vasta bibliografia sobre os Herero a partir da Namíbia, mas sobre os Kuvale e os restantes Herero de Angola só há mesmo algum material histórico, e coloco aqui alguns artigos técnicos das primeiras décadas deste século, a etnografia de Carlos Estermann, e um único, que eu saiba, trabalho científico, o de Julio de Morais, uma tese pioneira de análise ecológica, datada de 1974.
O trabalho de terreno que garantiu o que a seguir exponho foi levado a cabo, intermitentemente, de 1992 a 1996, e foi possível graças a apoios oficiais e privados a que irei tentando agradecer, e prestar contrapartida, à medida que puder ir divulgando os resultados. O presente trabalho faz parte desse processo. Nele procurarei condensar o mais possível, sem entrar em grandes detalhes históricos ou etnográficos, a informação que julgo estar em condições de poder disponibilizar no âmbito de uma exposição que se pretende eminentemente pragmática e dirigida sobretudo a decididores de políticas e de acções, a agentes da intervenção e a outros sujeitos eventualmente implicados numa interacção prática com os Kuvale e, por extensão, com as sociedades pastoris e agropastoris de Angola de uma maneira geral.
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... Geográfico-ecológica
Numa paisagem onde se vê o homem actuar sem procurar à partida afeiçoá-la a objectivos económicos que a alterem, onde os seus próprios interesses vitais e palpáveis passam pela utilização da paisagem tal como ela é, será difícil ao observador não se deixar envolver pela temática ecológica. Para ser mais preciso, não é só o facto de não se observarem ( a não ser talvez se se for um agrostólogo perspicaz) alterações produzidas pela presença do homem. É que o homem, aqui, pode parecer uma emanação do meio, e este poderia ser o ponto de partida para uma deriva, para um qualquer acesso de impressionismo, de delírio romântico, via certamente segura e garantida de ficar definitiva e eternamente de fora tanto da problemática que envolve este homem como daquela que envolve este meio. Mas é verdade que tudo aqui se projecta sobre um fundo ecológico e que grandes nomes ligados ao estudo das sociedades pastoris como Gulliver, Deshler, Dyson-Hudson e Jacobs, e outros classificados como neofuncionalistas umas vezes, neoevolucionistas outras, são nomes ligados ao ecologismo cultural.
Aqui, de facto, a cultura não pode ser entendida fora de um quadro de interacções em que tudo quanto é exterior às pessoas, e aos grupos que as pessoas constituem, é, praticamente só, natureza accionada e condicionada por factores em que a tecnologia pouco intervém.
Os terrenos são pastagens naturais, a água é a que provém de chuvas escassas e breves, a agricultura possível está sempre dependente da ocorrência da primeira chuva e da regulariade improvável das que se lhe seguirem, as águas acumuladas não permitem regadios nas zonas que são precisamente as das melhores e mais abundantes pastagens, a produção de cereais é sempre fortemente condicionada e aleatória. Vindo tarde, a chuva, não permitirá já a cultura do milho, talvez só permita ensaiar a do massango. Mas mesmo chegando tarde garantirá ainda assim os pastos, e mesmo escassa poderá assegurar a manutenção dos animais, a preservação dos vitelos que entretanto tenham nascido, haverá leite para eles e para as crianças, transitar-se-á para o ano seguinte sem que se tenha obrigatoriamente registado um saldo de todo negativo. Será necessário, para tanto, ter sabido agir com a ciência adequada à gestão de um equilíbrio muito precário.
É esta portanto a área geográfico-ecológica que os "encrava". Ao incauto não poderá deixar de por-se a interrogação de como é possível extrair vida e razão para viver num meio assim e a evidência de que da relação que garante a sobrevivência ali há-de necessariamente resultar um homem tão diferenciado quanto o próprio meio. Ao técnico, esta mesma relação impõe, na maioria dos casos, respeito. Ao analista social, não obrigatoriamente "perito" e apressado, a impressão que prevalece é a de que para lidar com tal precariedade será preciso investir muita "ciência", ou a ciência de extrair dali o que não é precário, é mesmo melhor que alhures.
... Económica
Equilíbrio é a palavra chave e trata-se de um equilíbrio que vai ter sobretudo em conta a manutenção física dos animais e a produção de leite. A economia em
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presença é, realmente, uma economia do leite. A sociedade não perde, não pode perder isso de vista. Todo o trabalho desenvolvido a partir do gado bovino se desenvolve com base no pressuposto de que do leite depende precisamente a reprodução do rebanho que é não apenas a fonte produtora do leite para um regime alimentar humano que se fundamenta nele, mas também da carne que o complementa e dos excedentes que darão acesso ao aprovisionamento de cereais e outros "apports" do exterior. A criação de outras espécies animais, como a de ovinos e caprinos, dependente dos mesmos factores ecológicos, complementa a dos bois e visa, por sua vez e sobretudo, a produção de "moeda" para transacções com o exterior. É verdade que a produção destes pequenos animais, com destaque para a de caprinos, se tem revelado particularmente adequada ao comércio dos últimos anos, marcadamente episódico e envolvendo pequenos volumes de mercadoria, com comerciantes de passagem e povos vizinhos. Mas também esta circunstãncia confirma toda a importância do gado bovino nas condições de "encapsulização" económica que os últimos anos têm imposto.
De facto, no certo, no verdadeiro, para além da escassa produção agrícola que as chuvas puderem garantir e de um subsidiário recurso a uma igualmente escassa produção vegetal espontânea, só se pode mesmo contar com o leite que as vacas e em casos de extrema crise as ovelhas e as cabras produzirem, com a carne que resultar dos animais doentes e débeis que não resistirem, e com a daqueles que forem abatidos, sempre a coberto de pretextos sociais reguladores, como veremos mais tarde. A pastorícia tal-qual, portanto, a relação animais/água/pastagens tendo em vista a manutenção e a reprodução dos rebanhos, a sua rodução, absorvem e polarizam todas as dinâmicas técnicas, sociais e culturais que hão-de estabelecer os contornos e a especificidade do sistema. Uma questão de equilíbrio, desta forma, que tem em conta já não só as condições ecológicas e as extracções energéticas que elas garantem, mas também a gestão social e a cobertura cultural, ou ideológica, que assistem ao seu aproveitamento. A noção de equilíbrio atravessará todos os sistemas que garantem a subsistência e a reprodução do grupo humano.
Quadros sociais e culturais urdidos à volta da relação com o boi e com o meio, bem como a interação entre tudo isto e o presente virá a ser, logicamente, a matéria principal deste trabalho. Retenhamos por agora que a uma economia tão estritamente pastoril não poderá deixar de corresponder uma cultura igualmente marcada pelos argumentos da pastorícia, e que esses argumentos, ou "valores", comportam expressões tão susceptíveis de entrar em choque com os da cultura e da economia envolventes e dominantes como o desprezo pela agricultura, os agricultores, os "assimilados" às dinâmicas ocidentalizadas, a repulsa pela prestação de força de trabalho a terceiros e a legitimação de entrar na posse de gado dos vizinhos. É pela via desses choques que a história moderna tem sobretudo envolvido os Kuvale. E também ela dá testemunho da sua singularidade.
... e Histórica
Considerada em relação à sua projecção imediata no presente, a história dos Kuvale diz sobretudo respeito àqueles eventos que na memória colectiva ficaram assinalados como "guerras", sucessivas e marcadas pelos sinais da sua colocação no tempo, inevitavelmente ligadas a disputas pela posse do gado: razias, contra-razias, repressões administrativas e militares, espoliações e saques, processos de desapossamento e de recuperação que trazem já em si as dinâmicas que apontam, ou poderão apontar, à renovação de um ciclo que tende a ser vicioso.
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Em termos de tratamento disciplinar esta história continua, naturalmente, por fazer, e não me cabe a mim, evidentemente, ensaiá-la sequer. Existem fontes documentais a explorar e trabalho de terreno a orientar nesse sentido e embora neste último domínio eu tenha recolhido dados que podem vir a revelar-se úteis, no que se refere a fontes escritas apenas utilizei material imediatamente consultável.
Os testemunhos que obtive no terreno referem-se explicitamente à guerra dos Kambarikongolo, às do Nano, à dos Ingleses, e uma sucessão de outras guerras, Mulungu, Kapilongo, Kalute, que acabam por conduzir àquela que veio a colocar os Kuvale em situação de completa derrota e paralisação, à beira da sua extinção não só enquanto grupo sócio-culturalmente distinto e identificável, mas também física, numa grande medida: a guerra chamada Kokombola, a de 194O-41, que quer dizer a guerra geral, total, "mundial", como me foi referida por um informante escolarizado. É essa a guerra que no tempo colonial ficou conhecida como a "guerra dos Mucubais", referência que ainda hoje é utilizada nos meios envolventes.
A primeira, a guerra dos Kambarikongolo, é a que em textos portugueses costuma ser designada como a guerra dos Hotentotes e corresponde à extensão pelo Sul de Angola da expansão de grupos Khoi, os Topnaar e os Swartbooi, que, a partir do que é hoje o Sul da Namíbia, se alargou para Norte, conquistando gado e pastagens aos Herero e aos Himba até à margem do rio Kunene, obrigando muitos destes últimos a migrar para o lado de Angola, e trazendo até às portas do que é hoje a cidade do Namibe, e era então a Vila de Mossâmedes, acções de razia que sobressaltaram durante largos anos todo o nosso Sudoeste. Ela obrigou inclusivamente muitos Kuvale a refuguiarem-se e a fixarem-se, nalguns casos, para além dos contornos e da escarpa da serra, com um subsequente processo de retorno à zona de serra abaixo, lento e prolongado, que parece projectar-se ainda no presente. Tenho encontrado mais-velhos Kuvale que nasceram lá e ainda hoje se vêem implicados em relações de parentesco aí urdidas na decorrência de tal movimentação circunstancial. Ela pode, por outro lado, e essa é uma hipótese a esclarecer, corresponder à citada guerra dos Ingleses. Os grupos de raziadores Khoi eram acompanhados, e por vezes enquadrados, parece, por "mestiços-ingleses" oriundos do Orange e do Cabo. Mas poderão também os "Ingleses" referidos ainda hoje ser os Alemães, 28 famílias, vindos directamente da Alemanha e que aparecem no Sul de Angola, postos aí pelo governo português, acompanhadas por um lote de Portugueses saídos da Casa Pia, de Lisboa. Foram-lhes dados terrenos no Munhino e na Bibala, mas cedo desprezaram as hipóteses agrícolas para se investirem na apropriação de gado de populações vizinhas.
De qualquer forma, simultaneamente a estas guerras vinham decorrendo as "guerras do Nano", acções de razia praticadas por numerosos bandos oriundos do "alto", do Nano, os Munanos, como ainda hoje são designados na região os povos do planalto interior a Norte e os Ovimbundo de uma maneira geral. Elas exerceram uma forte pressão sobretudo sobre as populações do planalto interior sul e estenderam-se até à costa.
Muitas dessas guerras do Nano traziam já a marca da incidência europeia directa. Mossâmedes é sacudida em 15 de Agosto de 1848 por uma dessas guerras, tendo os pastores locais, do vale do Bero, vindo acolher-se à Fortaleza. Cedo se esclarece tratar-se antes de uma "guerra de brancos", composta por gente de Quilengues e escravos dos regentes dessa capitania e do Dombe Grande, e sob a influência de uma figura que acompanha a história da região durante largos anos: o então Major Garcia.
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Isso faz parte de um processo que haveria de estender-se até à guerra de 194O-41 e que envolve desde o início, como era de esperar, as próprias autoridades portuguesas que empregam grupos vizinhos uns contra os outros tanto em operações de razia como em perseguições, quando os povos da região são acusados de fazerem o mesmo por conta própria.
Que os Kuvale "roubam" gado nunca constituiu dúvida para ninguém e são muitas as acusações que neste sentido e ao longo dos tempos vão pesando sobre eles, ao princípio designados como "Mondombes" segundo um equívoco que há-de prevalecer por muito tempo. Já nessa altura são julgados como insubmissos, rebeldes, avessos ao trabalho e sobretudo, sempre, refinados e inveterados ladrões de gado. Ao longo de toda a segunda metade do séc. XIX eles serão alvo de ferozes retaliações por parte da administração e dos colonos, chegando-se a organizar contra eles "guerras gentílicas", constituídas por 3O OOO homens recrutados para o efeito ( Silva 1971:496).
Essa é mais uma marca da história que vem reflectir-se no presente. Este tipo de acções, envolvendo outros Africanos, deu curso a um movimento belicoso de razia recíproca entre populações Kuvale e Tyilengue, a noroeste do território dos primeiros, que se prolonga até hoje e que define alguns dos contornos das suas respectivas implicações nas guerras actuais.
Em 188O, um ex-governador do Distrito de Mossâmedes refere que no ano anterior fora enviado um ofício ao chefe do Concelho de Campangombe, proíbindo-lhe opor-se à passagem de uma guerra que vinha do sertão de Benguela para guerrear os "Cubaes". Ao que o chefe responde logo a seguir para dizer que "a guerra é convocada por brancos com o sentido de guerrearem os mondombes", e que a intenção dos "convocadores da guerra" não podia ser outra senão "terem parte dos roubos que a guerra fizesse". Num outro ofício, cinco meses mais tarde, o mesmo chefe confirma: o soba de Quilengues, que foi quem comandou a tal guerra "cumprindo literalmente a ordem do Exmo Governador do Distrito (...), entregou aos europeus residentes no Concelho do Bumbo todo o gado que havia sido apreendido (...) tendo trazido apenas para as suas terras a gente prisioneira de guerra" (Almeida 188O:52-53). Um outro administrativo refere-se, também longamente, mais tarde mas reportando a mesma época, às relações entre Kuvale e Tyilengue, sendo estes, sob a regência dos então capitães-mores, sistematicamente utilizados contra aqueles ( Frazão 1946 :269). Sobre o inverso, Kuvale utilizados por autoridades ou Brancos privados para atacar outros povos, nada encontrei nas leituras que fiz.
As "guerras" que vão seguir-se às do Nano, na sequência atrás apontada, reportar-se-ão já ao séc.XX e correspondem sobretudo às diligência administrativas de que os Kuvale foram sendo sucessivamente objecto até à catástrofe de 1941. Elas terão de novo e de algum modo aparecido sempre associadas a acções que envolvem grupos vizinhos,usados também, a partir daí, como tropa auxiliar. As menções a estas diligências administrativas, nomeadamente da parte de técnicos veterinários ( Sequeira 1935, p.e.) que operavam na região, é constante.
A guerra de 194O-41, que é a última e a definitiva destas diligências, utilizou cerca de mil soldados a que se juntaram mais mil auxiliares indígenas, mestiços e europeus, dois aviões, um deles da aviação cívil artilhado com uma metralhadora e equipado com bombas, e um pelotão de morteiros para combater, meter na ordem, uma população Kuvale estimada num máximo de 5 OOO pessoas. Durou 5 meses, comportou execuções em massa e atrocidades contra prisioneiros, deu cobertura a saques e a pilhagens, confiscou cerca de 2O OOO cabeças de gado bovino , ou seja, estimou-se, 9O% dos efectivos totais anteriormente na posse do grupo. Fez mais de 3 5OO prisioneiros que depois remeteu às ilhas de S. Tomé
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e do Príncipe, à Lunda, onde trabalharam para a Diamang, à Damba, em Malange, a propriedades agrícolas e à Câmara Municipal de Moçâmedes. Assegurar-se-ia assim, de acordo com o comandante das operações, a sua adaptação a hábitos de trabalho e interesse pela agricultura ( Sotto-Maior 1943 e Pélissier 1977:5O9-515).

continua...

pastores kuvale da província do namibe

domingo, 19 de dezembro de 2010

Independencia de Angola: ajuda militar cubana (1975)














 














AJUDA MILITAR CUBANA A ANGOLA: 1975








ANGOLA: A DERRADEIRA BATALHA

            

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O autor
        
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Editorial Inquérito, Ldª
Distribuição: Publicações Europa América
http://www.europa-america.pt/
Gerenal Gonçalves Ribeiro
                                                                                                                                            CAPÍTULO 37
A DERRADEIRA BATALHA
Neste excelente livro o autor relata minuciosamente o que se passou com a descolonização de Angola. Sugerimos vivamente a sua leitura a todos aqueles que estão interessados em saber a verdade sobre a descolonização e guerra em Angola. Como o livro tem copyright e não será fácil de adquirir àqueles que vivem em Angola, solicitamos a complacência da Editora e do Autor. Obrigado.
Pag. 279-384. Embora escassas as notícias, raras as informações e difusos os ecos que chegavam a Luanda sobre o que se passava na vastidão do território angolano, após se haver acentuado a retracção do dispositivo das nossas unidades e, bem assim, o regresso da esmagadora maioria das autoridades administrativas a Portugal, era ainda possível acompanhar e perceber as grandes movimentações militares das forças dos três Movimentos que antecipavam a derradeira batalha pelo domínio da capital no dia 11 de Novembro.
Coisa diferente foi a posterior, paulatina e sistemática recolha de informações ou a investigação de documentos diversos que permitiu, a quantos se debruçaram sobre este período dramático da descolonização de Angola, entretecer análises e defender teses, procurando explicar ou fundamentar o que então aconteceu.
Aos que então nos encontrávamos em Angola, os dias que antecederam a independência demoraram séculos. De princípios de Outubro a 10 de Novembro, acelerava-se a Ponte Aérea e o seu complemento, a Ponte Marítima, multiplicavam-se os esforços de Portugal na tentativa desesperada de uma qualquer plataforma de entendimento entre, no mínimo, dois Movimentos que propiciasse a transferência do poder, e sabíamos, no meio de tudo isto, que algo de muito sério estava para acontecer em termos de confrontos militares.
Era com efeito cada vez mais perceptível que para o MPLA e a FNLA o grande objectivo político e estratégico a preservar ou a atingir no dia da independência era a cidade de Luanda. A par deste objectivo essencial, o Dr. Agostinho Neto orientava o esforço militar das FAPLA no sentido de assegurar ou reforçar o domínio do seu Movimento no eixo Luanda - Salazar/Dalatando - Malange - Henrique de Carvalho/Saurimo - Luso / Luena e ao longo da faixa litoral para sul até Moçâmedes.
Holden Roberto, arrogante, com as suas forças agrupadas a escassos quilómetros da capital e ameaçando, a partir da linha Caxito - Úcua – Bula Atumba - Samba Caju, o eixo Luanda - Malange, não se contentava em chegar ao dia da independência numa posição politicamente confortável que lhe permitiria, talvez, negociar, em condições difíceis para o MPLA, a sua participação no futuro do novo Estado.
Aparentemente eufórico, supunha-se detentor de capacidade militar que lhe permitiria varrer o MPLA de Luanda. A UNITA, com Savimbi, tirava partido do afrontamento directo entre ambos os contendores e, apesar de incapaz de se estender até ao Luso / Luena, a oriente, ou assegurar o domínio da região Benguela - Lobito, a ocidente, consolidava as suas posições, em conjunto com a FNLA (Chipenda), no planalto central, Nova Lisboa / Huambo - Silva Porto / Cuito e tentava instalar-se na parte sul do território.
No terreno, visíveis, as forças da FNLA, do MPLA e da UNITA nas localidades e nas regiões já conhecidas, mantendo-se o Alto Comissariado mais ao corrente dos desenvolvimentos na frente norte, frequentemente patrulhada por aviões "Fiat" G-91, da Força Aérea, em situação de risco, de que foi exemplo uma destas aeronaves, atingida quando efectuava, em 14 de Outubro, um Reconhecimento à Vista (REVIS) sobre a região de Quifangondo.
A grande ameaça da FNLA sobre Luanda era apoiada, à retaguarda, pelas bases logísticas e de comando e controlo localizadas em Carmona / Uíge e no Ambriz, sendo o esforço principal exercido na área de Quifangondo, próximo da foz do rio Bengo, onde as forças do ELNA já ocupavam posições a sul de Porto Quipiri, uma povoação a escassos 40 kms de Luanda.
Armada pela República Popular da China e pela Roménia, a FNLA era apoiada por forças zairenses e um número indeterminado de mercenários (algumas dezenas? talvez centenas?). Na estrutura militar da FNLA ocupava lugar de destaque o Tenente-Coronel Gilberto Santos e Castro. Contava ainda com o apoio evidente, se bem que encoberto, da Administração norte-americana, de parte significativa dos países da OUA e também da África do Sul.
A intervenção da África do Sul cedo se revelou na área do complexo hidroeléctrico de Ruacaná, um projecto desenvolvido e construído em cooperação com Portugal, localizado no rio Cunene, na fronteira sul de Angola. A principal barragem havia sido construída 50 kms. a montante das famosas "quedas de Ruacaná", em Calueque, uma povoação distante 20 kms da fronteira, em linha recta. Esta barragem não só regulava o caudal do rio, como também fornecia água para largas extensões do Sudoeste Africano, através de um sistema de canais que se estendiam por algumas centenas de quilómetros.

Barragem de Calueque (foto Net)
As turbinas haviam sido implantadas próximo de Ruacaná, na margem do rio pertencente ao território vizinho. Em princípios de Agosto de 1975, foi notada, pela primeira vez, a presença de forças sul-africanas no complexo Ruacaná-Calueque. Nos termos do convénio estabelecido entre as duas partes, Portugal assumira a responsabilidade de garantir a segurança da barragem, função que passou a ficar cometida a um destacamento militar ali aquartelado em permanência.
No entanto, o plano de retracção do dispositivo territorial e a decorrente e sistemática concentração de unidades, implicaram a recolha definitiva da pequena força ali destacada à sede militar de que dependia. Consequência imediata desta decisão foi o abandono do pessoal técnico responsável pela operação e manutenção da barragem de Calueque, e não só os de origem portuguesa.
O que sobreveio foi mais um exemplo da situação corrente, naqueles tempos, em Angola. O Movimento dominante na área, neste caso a UNITA conjugada com a FNLA (Chipenda), substituiu-se ao destacamento militar português, ameaçada de perto pelo MPLA que, em fins de Agosto, expulsava as forças de ambos os Movimentos da cidade de Moçâmedes (a cerca de 500kms ao longo da estrada secundária Virei - Oncócua - Chitado -Ruacaná), após haver assegurado, previamente, o controlo de Sá da Bandeira/Huíla (420 kms a noroeste de Calueque, distância servida por estrada da rede viária principal a partir do Humbe).
Portugal encontrava-se em situação particularmente delicada; não podendo deixar de protestar, através do nosso embaixador em Pretória, contra a presença das forças militares sul-africanas em território angolano, era-lhe difícil justificar o abandono da segurança a que se comprometera na barragem de Calueque e, simultaneamente, via-se forçado a solicitar ajuda para os milhares de portugueses refugiados quer no Sudeste Africano, quer no território da África do Sul.
A partir daqui, tudo se precipitou, infirmando ou apoiando as escassas análises em que participei no Alto Comissariado sobre as hipóteses de envolvimento ou não da África do Sul no conflito angolano. O completo isolamento a que este país se encontrava votado na cena internacional e a presença dia a dia mais activa da SWAPO eram os argumentos entendidos como mais relevantes para circunscrever a presença militar sul-africana à área de Calueque; por outro lado o receio de ver surgir em Angola um santuário para a SWAPO, a eventual constatação de que muitos países da OUA não veriam com bons olhos uma presença russo-cubana em Angola e os pedidos de apoio muito possivelmente emitidos pela FNLA e UNITA poderiam levar os seus dirigentes a avançar, mas, nesta última hipótese, tão só para desviar forças do MPLA e de cubanos da defesa de Luanda e nunca para se envolver directamente na batalha pelo domínio da capital.
Em fins de Agosto, o Encarregado do Governo do Cunene informava que uma força constituída por algumas centenas de combatentes, mercenários portugueses e sul-africanos, teriam atacado Pereira d'Eça/Ondjiva com o apoio de blindados e helicópteros. Em consequência, a guarnição militar portuguesa de Sá da Bandeira/ Huíla, 400kms a noroeste, pedia instruções quanto à atitude a tomar no caso daquela força avançar até à cidade.
Aviões da Força Aérea foram deslocados, temporariamente, para a área e, em princípios de Setembro, um dos pilotos relatava que nenhum movimento de forças hostis havia sido detectado ao sobrevoar a povoação de Roçadas (100 kms a noroeste de Pereira d'Eça/Ondjiva e cerca de 500kms a sudeste de Sá da Bandeira/Huíla.
Em meados do mês, recebia-se em Luanda cópia da correspondência trocada entre o Ministério dos Negócios Estrangeiros e as autoridades de Pretória relativamente à situação vivida no distrito do Cunene.
Em fins de Setembro, o MPLA informava o Alto Comissário de que um dos seus comandantes, de etnia cuanhama, havia presenciado a ocupação de Pereira d'Eça / Ondjiva por forças combinadas da UNITA, FNLA (Chipenda) e também SWAPO; alguns dias depois, nova informação, com a mesma origem, denunciava a presença de forças sul-africanas em Virei, 130 kms a sudeste de Moçâmedes.
Estas informações, não recortadas, pecavam por manifesta ausência de rigor; logo nos primeiros dias de Outubro, recebia-se a indicação de que o MPLA reocupara Pereira d'Eça/Ondjiva. Todavia, em 24 de Outubro, chegavam informações fidedignas de que forças sul-africanas se haviam apoderado de Sá da Bandeira / Huíla. Quatro dias depois, a fragata Hermenegildo Capelo, atracada no porto de Moçâmedes, anunciava que, na madrugada do dia 28, a cidade havia sido tomada por uma força militar envergando uniformes do ELNA (muito possivelmente para dissimular ou camuflar a verdadeira origem dos elementos que a integravam).
O capitão Taliscas, ainda presente naquela cidade com a sua companhia de "Paras", informava, no mesmo dia, que a força ocupante era constituída por várias unidades, num total de 600 a 800 homens, dos quais cerca de 30% de raça branca, dispondo do apoio de 26 a 28 blindados.
Na véspera da independência, o avanço imparável desta coluna militar sul-africana havia atingido Novo Redondo, depois de ultrapassar a resistência combinada de forças do MPLA e de cubanos, em especial na região de Benguela - Lobito.
O MPLA foi, dos três Movimentos, o que recebeu de forma explícita, aberta e directa o maior apoio internacional se bem que oriundo, na esmagadora maioria e em termos políticos, do bloco comunista e, na área militar, de dois dos seus países mais representativos, a ex-URSS, fornecedora de largas quantidades de armas e respectivas munições acompanhadas de algum pessoal técnico, e Cuba, donde chegou um importante corpo expedicionário que, em fins de Outubro, se estimava rondar os 2 000 elementos.
As FAPLA passavam assim, pouco a pouco, de uma força de guerrilha a um exército convencional fortemente armado se comparado com o ELNA ou as FALA, dispondo de armas extremamente eficazes para "segurar" uma posição defensiva, como a que estavam organizando, com o apoio dos cubanos, na região de Quifangondo, desde os célebres "órgãos de Estaline", ou sejam os lançadores múltiplos de foguetes BM-21,122mm., os carros de combate T-54 e T-55, para além de armas antiaéreas, viaturas blindadas de reconhecimento e outro armamento convencional.
Recordo que, na madrugada de 28 de Agosto, numerosos blindados do MPLA atravessaram Luanda vindos da Barra do Cuanza; no dia l de Outubro, fora avistada uma extensa coluna na estrada de Catete (saída para o Dondo e Salazar/Dalatando) constituída por cerca de 200 viaturas e 1000 homens para além de material diverso, apoiada por 6 blindados, supondo-se que iria reforçar a 1a Região, a norte daquela estrada e na altura confrontada com as posições ocupadas pela FNLA na linha Caxito - Samba Caju; uma semana depois confirmava-se a presença de navios cubanos em Porto Amboim (cerca de 300 kms. a sul de Luanda pela estrada litoral) desembarcando homens e descarregando material de guerra; a 13 de Outubro, o MPLA começava a montar um sistema de defesa antiaérea na ponta da ilha de Luanda e, finalmente, no dia seguinte, eram referenciados, pela primeira vez, cubanos na cidade de Luanda.
O cenário estava montado. As armas preparadas. As posições ocupadas. O dia D foi marcado, confiadamente, por Holden Roberto para a véspera da data da independência de Angola. Fizera constar que se propunha fazer uma entrada triunfal em Luanda no dia 11 de Novembro.
Os cálculos saíram-lhe complemente errados. O ataque frontal por que ele terá optado, à revelia de alguns dos seus conselheiros militares, contra a bem organizada posição defensiva de Quifangondo, ocupada por forças do MPLA e cubanas, redundou num desastre completo. (Ver "A Batalha de Luanda", uma história mal contada: http://petrinus.com.sapo.pt/batalha.htm )
Luanda não mudou de mãos e a FNLA depois daquele tremendo desaire extinguiu-se, na prática, como organização do mapa político angolano.

http://petrinus.com.sapo.pt/derradeira.htm        

sábado, 18 de dezembro de 2010

Colonialismo: entre rupturas e retomadas by Marina Mezzacappa


O colonialismo na África acabou formalmente, mas ainda perduram práticas consideradas coloniais. Internamente, o continente perpetua, principalmente através de suas elites, alguns modelos e padrões implementados por ocasião da colonização européia. Já os países desenvolvidos, muitos dos quais ex-metrópoles, mantêm políticas exploratórias e assistencialistas em suas relações com os países africanos. Oscilando entre a continuidade e a ruptura com seu passado recente, a África procura um novo caminho para seu desenvolvimento e afirmação.

Ainda que a presença européia na África tenha se iniciado na época dos descobrimentos (século XV), apenas após a independência das colônias americanas (primeira metade do século XIX) registrou-se a “corrida” pela conquista e subseqüente partilha do continente. O historiador Wolfgang Adolf Karl Döpcke, da Universidade de Brasília, conta que, por volta de 1876, somente 10% do território africano tinha estado sob domínio colonial. Duas décadas mais tarde, esse percentual alcançava 90%. E já no início da década de 1950 o curto período colonial começou sua decadência. “Mesmo assim, o colonialismo deixou um legado significante e profundo, que ainda representa os vetores básicos das realidades atuais das sociedades do continente”, afirma Döpcke. Francisco César Almeida, professor de sociologia geral na Universidade Agostinho Neto, em Angola, ressalta ainda que “a colonização produziu novas entidades geográficas, culturais e políticas, híbridas, mestiças, sem passado além do colonial. São essas as nações africanas que temos hoje, vivendo uma vida caricata”.

Rumos da colonização

O fenômeno da colonização africana não pode ser analisado como uma unidade homogênea. A diversidade de colonizadores (portugueses, franceses, espanhóis, ingleses, holandeses, belgas, italianos e alemães) e de povos colonizados demanda uma avaliação do processo em sua multiplicidade, levando-se em conta não apenas as semelhanças, mas também as diferenças de cada colonização.

Para João Milando, sociólogo angolano e pesquisador do Centro de Estudos Africanos do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), de Lisboa, Portugal, é necessário levar em consideração o período histórico, o contexto social e os aspectos concretos na hora de definir diferenças e semelhanças entre as colonizações européias na África. Em relação à legitimação do Estado colonial, por exemplo, não houve diferença. “Todos eram Estados não apenas ilegítimos, mas sobretudo alegítimos, porquanto a questão da sua legitimação nem sequer foi posta”, avalia. Já quando se focaliza a miscigenação, as diferenças sobressaem, com a colonização portuguesa destacando-se das demais. “Seja qual for o aspecto analisado, a colonização marcou indelevelmente os percursos históricos das sociedades que dela foram alvo”, frisa o sociólogo.

Segundo Döpcke, inicialmente, os diversos colonialismos partiram de filosofias de dominação bastante diferentes. “O africano ‘ideal' dos portugueses era, inicialmente, um africano vestido de terno e gravata, evangelizado e letrado, recitando as poesias de Camões. Para os ingleses, teria sido um chefe tradicional, governando com legitimidade tradicional sua 'tribo' orgânica, mantendo ordem e paz (colonial) entre os seus membros e suprimindo liberdades individuais, fornecendo mão-de-obra migrante e recolhendo impostos”, exemplifica.

Mas, em seguida, as diversas práticas de dominação colonial se aproximaram. A influência cultural e a miscigenação, que marcaram a colonização portuguesa, atingiam minorias e não as sociedades subjugadas. Já os ingleses, depois da Segunda Guerra Mundial, abandonam seu ideal romântico da África “tradicional”, cortam os laços estratégicos com as elites tradicionais e coroam o africano individualista, inovador e pragmaticamente ocidentalizado como seu novo herói cultural. “A partir daí, a mais recente historiografia enfatiza mais as semelhanças entre os diversos colonialismos em vez das diferenças, apesar das ressalvas sobre generalizações grosseiras”, explica Döpcke.

Independência

O processo de descolonização na África começou na década de 1950. Assim como a colonização, foi relativamente curto e trilhado de maneira diversa por cada ex-colônia. Depois da Segunda Guerra Mundial, inicia-se um novo ciclo. O modelo colonial se deslegitima rapidamente, devido a vários fatores.

Cada potência tinha o seu modelo favorito de transferência de poder. André Luiz Reis da Silva, pesquisador em relações internacionais e história contemporânea, ressalta que na África inglesa a descolonização foi menos conflituosa do que na francesa. A França retardou o processo através de infrutíferas mudanças e tentativas de integração das antigas colônias. “Como a Conferência de Brazzaville, da qual nenhum africano participou, mostrando o caráter unilateral da negociação francesa”, exemplifica no artigo África contemporânea: os novos desafios da segurança, desenvolvimento e autonomia (1960-2005). As colônias portuguesas, por sua vez, tiveram independências mais tardias, entre 1974 e 1975, após um longo processo de luta armada.

As resistências mais ferozes à independência, em alguns casos, eram articuladas por colonos brancos. Döpcke lembra de dois exemplos: do Zimbábue, onde apenas uma guerra de libertação (1966-1979) gerou condições para a descolonização; e da África do Sul, em que a posição dos brancos contra a democracia e igualdade racial incitou uma reação do nacionalismo africano e levou o país à beira de uma guerra civil. Já no caso das colônias portuguesas, os colonos brancos não representaram a principal força contra a independência. “Parece que neste caso a determinação da metrópole de permanecer na África foi mais relevante. O regime salazarista sentiu um forte vínculo de identidade, ideológico e econômico, entre a permanência do império português na África e a sua própria sobrevivência no poder, resistindo com guerras coloniais até 1974”, avalia.

Os colonizadores participaram dos processos de descolonização procurando garantir seus interesses. Desta forma, entram “em um processo que influirá de maneira decisiva no seu próprio futuro político, econômico e geo-estratégico”, aponta Almeida. “No centro das preocupações européias não estão o futuro desenvolvimento da África ou as elucubrações modernosas sobre civilização. Tratou-se de encontrar novas fórmulas, novos moldes, novas estratégias, novos condicionamentos que garantissem a satisfação das necessidades dos europeus”.

Continuidade e ruptura

Apesar da ruptura formal com as metrópoles, na avaliação dos estudiosos, a África não conseguiu superar o legado colonial e trilhar caminhos independentes. Milando destaca que, como relação política, o colonialismo pode ter sido erradicado, mas como relação social, manteve-se, alimentado pelas elites que ocuparam os espaços de poder numa relação considerada exploradora e parasitária. “Continuaram ou agravaram-se, em certos casos, a negação das diversidades, a monocultura dos saberes, a violação dos direitos humanos, a opressão, as ditaduras, as repressões e as discriminações. É por esta razão que em alguns grupos sociais africanos se fala da necessidade de uma ‘segunda libertação', isto é, da libertação das sociedades em relação à uma ‘colonização interna' a que estão atualmente sujeitas”, conta Milando.

A relação com as ex-metrópoles também assegura a dependência e exploração dos países subdesenvolvidos pelos desenvolvidos, numa relação de troca desigual. “A proclamação da independência nacional apenas pôs fim a um tipo de relações, mas não anulou a relação, a inter-relação, a intimidade. O que aconteceu naquele momento foi que nasceu um novo tipo de relação, em função de novas necessidades de uns e de outros”, resume o sociólogo angolano Almeida.

Rainha Njinga mandava matar quem lhe representasse ameaça, revela pesquisadora


       


Terça, 14 Dezembro 2010 00:00
Luanda - A Doutora Beatrix  Heintze, investigadora da História e Etnologia de Angola e da África Centro-Ocidental, que, ao longo de quarenta anos, desenvolveu o seu trabalho no Instituto Frobenius em Frankfurt am Main (Alemanha), tendo sido também editora de todas as publicações do Instituto durante trinta e cinco anos, esteve em Luanda a participar do IV Encontro sobre a História de Angola,  numa profícua iniciativa do Ministério angolano da Cultura, que decorreu no final do mês Agosto do corrente, foi a margem deste evento que o Semanário Angolense aproveitou a grata oportunidade para ouvir, os argumentos de razão à volta da sua obra intitulada « Angola nos séculos XVI e XVII» cuja edição em português já está disposição dos leitores de língua portuguesa Angola, estes e outros motivos, presidiram à conversa que o Semanário Angolense manteve com uma das mais respeitadas investigadoras da nossa história, no velho continente, eis a conversa.
             
  
Fonte: SA
Ela adoptou ritos e leis sanguinárias
SA- Dr.ª B. Heintze, que influência as identidades africanas podem ter nos processos de coesão nacional de Angola?
BH- Acho que podem ser muito importantes, porque Angola é uma nação muito jovem e, depois de muitas décadas de guerra, deve haver um sentido de unidade e de identidade nacional. As identidades africanas podem ajudar a consolidar essa unidade, mas espero que os angolanos tenham uma solidariedade não somente étnica. Porque, depois de muitos séculos de escravidão e de opressão, existe agora uma oportunidade para terem um futuro mais positivo e estarem mais unidos; as rigorosas distinções entre as etnias foram muitas vezes criadas só pelos colonialistas. Por exemplo, quando se lêem atentamente as obras de Henrique Dias de Carvalho vê-se que naquela altura as distinções entre os Lunda, os Chokwe e os Mbangala ainda eram bastante fluidas. As distinções étnicas não são muito importantes para uma nação, o que importa é que um grande Estado como Angola preserve também, neste mundo moderno, o essencial da sua diversidade cultural sem menosprezar as diferenças que vem da sua História. Mas para se formar uma “angolanidade” é preciso conhecer a sua própria história e cultura e não esquecer as suas riquezas culturais, incluindo as línguas angolanas, em que ainda faltam muitos dicionários e gramáticas. Quanto à cultura, a divisa talvez pudesse ser: unidade e solidariedade baseadas na diversidade histórica.

SA- Dr.ª B. Heintze, ao longo da sua comunicação fez várias vezes referência aos Mbangala. Parece-nos que eles tinham a característica de serem um povo guerreiro e combativo. O que nos pode dizer em função das suas pesquisas?  

BH- Há muito tempo, isto é nos séculos XVI e XVII, no princípio de sua formação, os Mbangala eram guerreiros, também estimulados pelo comércio dos escravos na costa atlântica. Tinham nessa altura uma ideologia guerreira com leis e ritos muito sanguinários; depois, por volta de 1630, fundaram o seu Estado e reino na baixa de Cassange, e depois não foram tão diferentes dos outros povos vizinhos. Tornaram-se agricultores e comerciantes afamados, misturaram-se com os outros povos, e tiveram uma posição estratégica perto do Kwango, entre os povos do Oeste e os do Leste deste rio. No século XVIII, ou mais tarde formava-se pouco a pouco, a Leste do Kwango, o grande Reino dos Lunda, denominado pelo grande historiador belga-americano Jan Vansina o “commonwealth lunda” (porque não foi um reino no sentido habitual). Então passou a haver de um lado do Kwango as regiões dominadas pelos Lunda, e do outro as regiões conquistadas ou fortemente influenciadas pelos portugueses. Por consequência, coube ao reino dos Mbangala no Kwango uma posição central entre o Oeste e o Leste deste rio. Os Mbangala conseguiam controlar todo o comércio que passava pelo seu país e impedir qualquer comunicação directa entre os Lunda e os portugueses até ao menos metade do século XIX.

SA- Qual era a semelhança que existia entre os Mbangala e os Lunda?
BH- São povos diferentes, têm uma língua e cultura diferente; os Mbangala falavam naquela altura um kimbundu um pouco diferente dos Mbundu à Oeste, no Ndongo; os Lunda falavam a língua lunda; embora ambas as línguas sejam línguas bantu, são bastante diferentes uma da outra. Mas havia também semelhanças entre estes povos. Por exemplo, em relação ao seu sistema de parentesco político, havia aquilo que os académicos chamam de “parentesco posicional” e “parentesco perpétuo”, que criaram uma rede ficcional de “parentesco” político no tempo e no espaço, um sistema que existe em toda esta região da África Central, e também entre os Mbangala, Chokwe e Lunda. O comércio de grande distância em que participaram primeiro os Mbangala e depois os luso-africanos (os chamados “Ambaquistas”), Chokwe e outros povos, criava também novas relações e conflitos entre os povos do interior do continente. No foco deste comércio distante, cada vez maior entre a costa atlântico e o interior, estava primeiro a exportação de escravos de um lado e a importação de têxteis e armas do outro; com o fim oficial do tráfico de escravos em 1836, procurou-se na costa cada vez mais o marfim, e mais tarde a borracha. Mas no interior da África Central os escravos continuaram de ser procurados ainda entre os africanos durante quase todo o século XIX. Os Mbangala compravam os escravos a leste do Kwango vendendo os homens aos portugueses e integrando as mulheres na sua própria sociedade. Estas relações intensas foram muito importantes. Penso que eles criaram a ideia de uma origem comum, e ajudavam, ao menos de vez em quando, a tornar as relações comerciais mais seguras.

SA- Dr.ª B. Heintze, o que é abordado neste seu livro sobre Angola nos séculos XVI e XVII?
BH- Este livro é o resultado de estudos feitos já há muito tempo e estou muito satisfeita por ter sido agora publicado aqui em Angola em português, porque sempre defendi a tese de que não valia a pena escrever sobre estes assuntos só em alemão; para mim o mais importante é dar a conhecer os meus trabalhos aqui em Angola. Quando eu comecei a estudar a História de Angola, fui a Portugal no fim do regime Salazarista. Naquela altura, era um grande tabu falar do tráfico português de escravos. Questionava: “Então não havia comércio de escravos em Angola?” Não era um assunto a discutir. Para mim que estudei na universidade dos anos sessenta uma Etnografia muito estática e sem historiografia documental crítica foi uma grande revelação poder encontrar no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa centenas de caixas cheias de documentos tratando do tráfico de escravos em Angola desde o século XVI. Por esta razão cresceu em mim a convicção de que não me seria possível continuar com a Etnografia de então. Eu deveria primeiro conhecer e estudar a História de Angola mais recuada através dos documentos existentes. Consegui receber bolsas para poder trabalhar nos arquivos de Lisboa e outros arquivos de Portugal, e conclui que não era possível escrever sobre as culturas actuais de Angola sem conhecer aquela História longínqua. Também aprendi que naquela altura quase todos os livros foram escritos do ponto de vista colonial; David Birmingham, Joseph Miller, eu e muito poucos outros investigadores fomos dos primeiros académicos na Europa e nos Estados Unidos, que tentamos escrever a História de Angola com base nas mesmas fontes, mas o mais possível do ponto de vista dos Africanos. Porque até então, as coisas só eram vistas na perspectiva dos colonizadores; foi por isso que tentei escrever sobre a escravatura e sobre a influência da Administração portuguesa em Angola, sobre a cultura material. Foi também muito importante terem sido publicadas, alguns anos mais tarde, aquelas imagens de pinturas feitas por Cardonega e Cavazzi, que foram as primeiras pinturas conhecidas do século XVII e que nos fornecem um conhecimento visualizado do mito do primeiro rei do Ndongo. Estas pinturas contêm também estes ornamentos muito interessantes e muito importantes que se encontram pintados sobre o trono e nos têxteis da corte do Ndongo, ornamentos que foram também encontrados no século XX, a Leste de Angola, nos desenhos ou ideogramas de areia (os sona) dos Chokwe, Luchazi e Ngangela, e que representam com as suas explicações toda uma filosofia, os valores centrais e uma grande parte do saber histórico destas sociedades, sendo contadas aos jovens aquando dos ritos de iniciação.

SA- As fontes em África, orais e até mesmo as escritas, têm sido um grande problema para os investigadores europeus na interpretação da História de África, pela falta de fontes escritas. Como é que conseguiu fazer a recolha de material para desenvolver este seu projecto de investigação?
BH- No tempo em que fui estudante ninguém trabalhava nos arquivos portugueses e o meu professor dizia-me que teríamos ir consultar os arquivos em Lisboa, ver o que existe sobre Angola e sobre a África Central em geral. Naquela altura, eu não sabia o que havia de encontrar. Na Alemanha por exemplo, ainda havia livros sobre a História do Reino do Congo escritos apenas com informações em alemão tiradas dos livros de exploradores em África, faltando toda a investigação e pesquisa dos documentos existentes nos arquivos. Havia ainda historiadores europeus que diziam que África era um continente sem História. Quando pude estudar esta grande quantidade de documentação em Lisboa, tive a certeza: Temos que escrever a história de Angola do ponto de vista dos africanos com estes documentos. Como naquela altura em Angola houve primeiro a guerra de independência e depois a guerra civil e como não sou uma pessoa muito prática e nunca tive uma saúde muito estável, uma pesquisa de campo não me foi possível. Mas em Portugal consegui descobrir muitas coisas novas, sobretudo um grande código em dois volumes do governador de Angola Fernão de Sousa (1624-1630). A partir daí escrevi uma reinterpretação da história do reino do Ndongo na primeira metade do século XVII. Para fazer aquele trabalho foi preciso fazer toda a transcrição difícil deste volumoso corpo de documentos. Depois de acabar com a minha investigação, pensei que seria pena de não publicar também essa fonte importantíssima para a História de Angola do século XVII, facilitando assim aos próprios angolanos e outros investigadores o seu uso. Não tive muitas esperanças de conseguir, mas finalmente encontrei uma casa editora mesmo na Alemanha que publicou essa fonte em dois volumes, em português (1985 e 1988)! Como essa publicação foi um grande sucesso, agora já está esgotada. Talvez seja possível um dia fazer uma reprodução facsimile (porque nesse tempo ainda não havia manuscrito digitalizado). Geralmente, na Alemanha de então, não havia muito interesse por Angola. Mas fui ter com a nossa casa editora que propôs dar vinte cópias dessa obra a Angola e a Embaixada de Angola em Berlim predispôs-se a garantir o seu transporte para Angola sem qualquer custo. Assim foi possível terem aqui esta fonte sobre os séculos XVI e XVII.

SA- Nesta sua obra, a senhora fala em Estado do Ndongo e não Reino do Ndongo porquê?
BH- O Reino foi um Estado e vice-versa. Pode-se utilizar os dois conceitos. Os relatos do governador Fernão de Sousa são muito importantes para a História do Ndongo – eu mesmo diria que é uma das mais importantes fontes da primeira metade do século XVII. Por isso acho que hoje não se pode escrever a história sem fazer uso desta fonte. As suas informações estão ligadas sobretudo ao começo da década de 1620, ou até mesmo antes. Porque ele relata também em pormenor a grande guerra contra o Ndongo começada por um dos governadores anteriores com a ajuda dos Jaga/Mbangala. O rei do Ndongo de então era o irmão da famosa rainha Njinga a Mbande, que sendo combatida pelos Portugueses teve de refugiar-se numa ilha do Kwanza; depois houve algumas tentativas de reconciliação, mas todos os governadores portugueses, incluindo o próprio Fernão de Sousa, não ousavam concluir o tratado discutido. Neste período a Njinga terá vindo duas vezes para Luanda como diplomata, para tratar desta paz e terá sido baptizada aí, em 1622, com o nome de Ana de Sousa. Penso que já naquela altura ela era uma personagem excepcional. Depois da morte do seu irmão, ela teria recebido as insígnias para as guardar, enquanto o filho do seu irmão era ainda pequeno demais para governar. Foi este o primeiro passo para ela ascender ao poder, visto que até então nunca houvera uma mulher a governar este reino. Mas Njinga foi muito ambiciosa e era possuidora de um grande talento diplomático na luta pela sua sobrevivência política. Sem escrúpulos, com dureza e crueldade conseguiu contrariar todos os condicionamentos de género e impor o seu direito ao cargo de governante. Juntou-se aos Jaga (mais tarde conhecidos como Mbangala), cujos ritos e leis sanguinários ela adoptou. Njinga não ficou com grande poder de armas, mas tinha influência bastante para se sempre impor de novo, não hesitando na escolha de seus meios. Todas as pessoas ao seu redor que eventualmente pudessem representar algum perigo, ela mandava matar. Tal como o seu irmão, também Njinga tentou fazer a paz com os portugueses, mas sem ter de se tornar vassalo deles. Naquela época, havia mudanças frequentes dos governadores portugueses, cada um deles prometendo um tratado de paz, que no entanto nunca foi realizado.

O problema da rainha Njinga foi que os portugueses tinham avançado um dos seus presídios mais a Leste, à Ambaca, que era muito próximo do centro de poder do Ndongo. Um dos pontos mais importantes do tratado previsto era que este presídio de Ambaca deveria ser retirado. Todos os governadores sucessivos concordaram que deveria ser assim, mas ninguém teve a coragem de o fazer. Porque para os portugueses, retroceder significava mostrar fraqueza, e por isso não aconteceu. Quando chegou Fernão de Sousa, ele também queria fazer paz para promover o comércio dos escravos. Ele foi um dos poucos governadores de Angola que teve um carácter integro; antes do seu mandato, havia muita corrupção no governo português em Angola e a escolha de Fernão de Sousa pela Coroa foi feita porque se estava à procura de uma pessoa integra. Mas este governador não ousava tomar decisões por si mesmo, sem consulta e parecer prévios da Coroa. Foi por isso que chamei a Fernão de Sousa o “cunctator” (hesitador). Como se sabe, o correio entre Angola e Portugal/Espanha levava nesta época muito tempo. Finalmente Fernão de Sousa convenceu-se de que não tinha alternativa senão instalar outro rei no Ndongo e fazê-lo vassalo português. Com a resistência de Njinga contra esse rei que ela e os seus julgavam ilegítimo, e com a paragem do comércio de escravos, Fernão de Sousa julgou poder começar “uma guerra justa” contra a Njinga. A rainha juntou-se com os Jaga/Mbangala para se salvar, primeiro com Casa Angola, depois com João Cassanje. Fernão de Sousa recebeu a notícia de que este último disse à Njinga: se ela queria juntar-se a ele havia de ser sem a sua lunga (que era um gongue grande e insígnia da guerra), que ele havia de governar e não haverá dois senhores no seu quilombo, e que ela havia de ser a sua mulher. – Após Njinga ter sido definitivamente expulsa pelos portugueses do seu reino ancestral do Ndongo, ela conquistou o Reino de Matamba junto ao Kwango e criou aí uma nova base para o seu domínio. Aliada aos Jaga/Mbangala ou aos holandeses constituiu depois, durante décadas, uma séria ameaça para os portugueses. Mas tal como para estes, o comércio de escravos serviu também para ela como base material e política do exercício do seu poder. Morreu em Matamba no ano de 1663, em paz com os portugueses e reconciliada com a fé católica. A rainha Njinga foi certamente a maior política da história de Angola e para os angolanos modernos, esta figura invulgar tornou-se um símbolo da resistência angolana contra o domínio colonial português. E assim parece que já faz parte da sua memória cultural.

SA- Temos a impressão que nesta sua obra, terá faltado uma fonte fundamental para um estudo sobre a história de África no geral e de Angola em particular, que é a fonte oral; até que ponto é que acha que seria importante incluí-la neste seu valioso estudo?
BH- Bem! Os dois grupos de fontes são igualmente importantes, mas têm qualidades diferentes e podem ser utilizadas de modos diferentes. Respondem a diferentes questões. Quando nós temos notícias escritas de fontes antigas, sabemos que são sempre feitas de uma perspectiva europeia e muitas vezes colonialista. Mas sem elas faltar-nos-iam muitos conhecimentos essenciais da História desta parte de África. Por outro lado, existem algumas informações nos documentos dos séculos XVI e XVII tiradas de tradições orais que são muito valiosas para nós. Mas muitas vezes trata-se de compilações sem informação sobre quem, quando e onde essas tradições foram relatadas. Como as tradições orais são adaptadas, com o decorrer do tempo, às necessidades e pontos de vista actuais, causam-nos grandes dificuldades de interpretação quando queremos saber alguma coisa exacta dos séculos passados, como tentei de mostrar no exemplo da História antiga dos Jaga/Mbangala (em 2007 na revista americana History in Africa). Mas apesar disso, é uma grande pena que as décadas de guerra em Angola tenham impedido a recolha profissional de tradições orais. No entanto sei que há agora tentativas de documentar tudo o que ainda existe.

Quero dar um pequeno exemplo. Em meados do século XIX foi registada uma tradição oral postulando entre outras coisas que o Jaga Cassanje teria encontrado Njinga em Luanda e que foi o Jaga que foi o protagonista de toda esta história envolvendo os três interveniêntes. No entanto, pelos documentos sabe-se que nenhum Jaga encontrou a rainha Njinga em Luanda. Esta informação oral não se deve tomar literalmente, mas ela pode exprimir simbolicamente uma vista africana desejada do passado e das relações entre os Jaga/Mbangala, Njinga e os Portugueses. Portanto tal interpretação não se pode generalizar, será sempre preciso de analisar todos os dados que temos. Por exemplo, é muito difícil para nós escrever a História dos séculos anteriores da Lunda, porque aí faltam os documentos antigos. Como já disse, creio que todos elementos de cada sociedade e cultura estão sujeitos a um processo permanente de mudança. Mudam como todos os elementos da nossa cultura e de nosso ambiente orgânico e inorgânico. Também mudam os sistemas de parentesco e as tradições orais. Só a escrita fixa e divulga, imprimindo-a, essa versão escolhida e muito especial para sempre. A minha convicção é muito contrária ao que se ensinava antigamente na universidade: Lembro-me que enquanto fui estudante, falava-se do “presente estático”, que dizia que a cultura dos chamados “naturais”, “indígenas” ou “primitivos” nunca mudava desde há meio milhão de anos, e que seria preciso esperar ainda inúmeros anos até que eles se tornarem “civilizados”.

Felizmente, já há algumas décadas que não mais se diz isto. Hoje sabe-se, por exemplo, que houve sociedades que mudaram em pouco tempo o seu sistema de parentesco patrilineal para um sistema matrilineal. Da mesma maneira entendemos hoje o universo (ao menos os académicos das ciências naturais), sabemos que este não foi sempre o que conhecemos agora. O nosso universo foi resultado do big bang, que ocorreu há milhões de anos antes de nós: depois houve sempre muitas transformações, houve mesmo mundos que desapareceram e outros que nasceram; as plantas que se desenvolveram e os animais, e nós, os homens, também; acho que é uma lei geral do nosso universo. Mas para mais uma vez responder à sua pergunta: Tal como os textos documentais, também as tradições orais constituem parte da nossa cultura e são importantíssimas para a investigação histórica e todas devem ser recolhidas onde ainda existem. Mas sem omitir as informações sobre o contexto especial de cada um. Podem ensinar-nos muitas coisas valiosas, entre elas, como um grupo de um certo tempo e lugar viu a sua História e as suas relações com os seus vizinhos. Por isso utilizei recentemente com grande ênfase as tradições orais dos Lunda, Chokwe e Mbangala, documentadas por Henrique Dias de Carvalho na Lunda, na década de 1880. O importante e excepcional do seu testemunho é que no seu tempo estas tradições não só faziam parte de entrevistas de investigação, mas eram ainda utilizadas na grande política interétnica para evitar conflitos armados.

SA- Nos últimos tempos quais têm sido os seus objectos de pesquisa?
BH- Agora, já estou reformada, já não tenho o apoio financeiro do meu Instituto, já não posso viajar tanto, mas acho que existem hoje muitos jovens com muito paciência, com possibilidade de fazerem pesquisas de campo e de arquivos. Espero que muitos deles venham a realizar projectos de M.A. e doutoramento nos arquivos de Angola que ainda esconde muitos tesouros a descobrir. Quanto a mim gostaria publicar uma versão portuguesa de dois manuscritos e vários artigos, num livro sobre a História da África-Centro Ocidental no século XIX, isto é, principalmente sobre a região a Leste do Kwango. Um outro projecto seria a edição dum grande manuscrito que foi oferta ao Instituto Frobenius: Trata-se do longo diário do militar e geógrafo alemão Alexander von Mechow acerca da sua expedição ao Kwango (1879-1881); ele foi aplaudido pelo seu mapa muito pormenorizado deste rio. Ficou entusiasmado com paisagem, mas infelizmente não se interessou muito pelos homens e suas culturas. Como já publiquei (em alemão) os escritos de dois outros exploradores alemães, de Max Buchner na Lunda (1878-1882) e de Alfred Schachtzabel na região dos Ngangela e Chokwe no Sudeste de Angola (1913-1914) – publiquei este último texto com notícias pessoais do espólio do autor e com as imagens dos objectos recolhidos por ele durante a sua expedição – talvez fosse também um projecto útil para os angolanos preparar uma versão portuguesa destes livros para uma futura publicação. Como as fontes sobre a História e Etnografia de Angola estão escritas em mais de oito línguas seria irrealista pensar que os investigadores angolanos devem e podem aprender todas estas línguas para conhecer estas fontes, mesmo quando parecem ser indispensáveis.

SA- Qual é o conselho que gostaria de dar aos novos investigadores angolanos?
BH- Há! Que façam o melhor que puderem, espero que possa haver bons professores e que mantenham o seu idealismo, porque acho que um dos grandes tesouros que tem este país são os jovens que se interessam pela História de Angola; estive alguns anos atrás em Luanda para dar umas palestras. Realizaram-se no período da tarde e eu perguntei aos estudantes como é que eles fazem a sua vida estudantil. Responderam-me que durante o dia trabalham para ganhar a vida e poder pagar a universidade e no final da tarde têm os cursos da Universidade, e a Universidade permite-lhes com estes cursos pós-laborais estudar: Isto impressionou-me muito, é fantástico, para quem conhece o trânsito em Luanda, em que é preciso perder-se muitas horas para chegar de um lado ao outro. Espero que este entusiasmo e interesse pela a História e cultura do seu país não se percam e que nunca faltem os meios para a investigação científica e a publicação das fontes e análises importantes!

* Cláudio Fortuna
 

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Mamma Angola: sociedade e economia de um país nascente by Solival Menezes

Mamma Angola: sociedade e economia de um país nascente by
Submetida a um cruel colonialismo, por mais de 500 anos, Angola teve sua população escravizada e trazida para o Brasil até o fim do século XIX, influenciando profundamente nossos hábitos e costumes e toda nossa estrutura cultural.

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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O 25 de Abril: Adriano Moreira depois do exílio

Adriano Moreira depois do exílio
Maria João Avillez

Ministro de Salazar hoje dirigente do CDS, Adriano Moreira faz o ponto de um percurso acidentado dentro e fora do regime, antes e depois do 25 de Abril

«Além, ao fundo, está a Política Internacional e o Direito Internacional… Aqui em baixo, o Direito, muita coisa de História, de Filosofia, algumas memórias de chefes políticos. E aqui, encadernadas a vermelho, as obras do Instituto e as dissertações de licenciatura de todos os alunos, até eu ser demitido.» Encostado a uma das estantes do seu escritório-biblioteca, o olhar aviva-se quando pronuncia a palavra Instituto e percebo como gostaria de se deixar ir atrás do que a memória lhe evoca. Mas, antes disso, antes do professor, do político, do ensaísta, do escritor, está o homem de quem se volta a falar hoje após alguns anos de exílio voluntário e de silêncio.
«Sou muito severo na protecção do direito à minha intimidade…». Apesar disso, alguns momentos depois, diante de uma chávena de café, Adriano José Alves Moreira, 58 anos, abre-me o livro (de leitura densa e compacta e por vezes difícil) da sua vida. Nasceu em Grijó, de Macedo de Cavaleiros. O seu avô materno era um pequeno comerciante e o outro era moleiro. Passou todas as férias com o avô materno (das pessoas «mais inteligentes» que conheceu - e de quem ainda hoje «guarda a influência»). Entre várias recordações de infância surge a figura da tia Maria de Grijó (hoje com 90 anos) que o ensinou a ler pela Cartilha de João de Deus e a quem deve ter feito o curso completo de Artes Domésticas:
«Ela tinha vivido em França e no Brasil como emigrada… E então, deu-lhe para considerar que um rapaz devia saber cozinhar, coser, etc. Para melhor enfrentar os tempos que aí vinham… dizia ela». Entre um pai «sereno, pontual no cumprimento do dever» e que veio para Lisboa para assumir as funções de subchefe da PSP do Porto de Lisboa e uma mãe «penetrante e viva» (e de quem ele fala com uma imperceptível ternura), teve uma infância «modesta e simples, no seio de uma família unida e feliz, e toda vivida ali no Beco de Estevão Pinto».
Fez o liceu no Passos Manuel, jogou «à bola e ao berlinde», mas o desporto mais «refinado» que praticou foi o basquete onde confessa que «era bom marcador». Da sua passagem pela Faculdade de Direito, retém o nome de dois homens: Rocha Saraiva, professor de Direito Internacional, «o melhor professor» que conheceu; Agostinho da Silva, homem de «assombrosa estatura intelectual e grande envergadura humana».
«Nunca pertenci ao MUD»
Formou-se em 44 com 21 anos, data em que assinou umas listas patrocinadas pelo MUD (Movimento de Unidade Democrática) pedindo eleições livres. Mas, conforme diz, «nunca pertenci ao MUD, nem a nenhuma organização política, parapolítica ou sequer desportiva… Sou terrivelmente individualista e preservo a minha privacidade», repete-me.
Privacidade e prática política não podem coabitar? «Nunca houve em mim a necessidade de pertencer a nada… Talvez porque sempre pensasse que isso coarctava a liberdade de decisão. Mas assinei aquelas listas sem hesitar. Tratava-se de um movimento cívico que estava de acordo com o meu feitio.»
É assim, sem particular interesse pela política, e sem outra curiosidade por ela senão a «intelectual», que aos 21 anos entra pela primeira vez num tribunal. «Advoguei muito… Até aos 30. Mas entretanto, com 26, 27, entrara já, como professor contratado, para o Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina».
Deixa o tom de reserva polida com que até aqui me vinha conduzindo pelo seu próprio percurso e entra escancarando as portas de par em par, pelo ISCSPU. Noto que poderia (ou deveria escrever gostaria?) estar horas perdidas a falar-me dele a tal ponto que a pergunta se me torna inevitável: O Instituto foi, é, a sua paixão e obra? «A Escola foi e é a minha vida. A maior parte dos meus aborrecimentos, conflitos e alegrias foi de lá que veio.» Pausa. «Posso dizer que levei dois anos a ter ideias próprias, a perceber a mecânica de uma Escola já antiquada, com uma estrutura descompassada do tempo em que vivíamos… E depois, com vicissitudes pelo caminho, lá fiquei até hoje.»
Volta de novo ao princípio da memória: «Mas foi muito difícil transformar uma escola colonial num Instituto de Ciências Sociais e Política Ultramarina, dependente só da Universidade Técnica. Quando por fim, em 60, entrámos na Universidade, ganhara-se a mais renhida das batalhas ao professor Caetano, que ali queria ver funcionar uma escola de quadros.»
Como um dos seus mais fortes complementos, a Sociedade de Geografia, da qual Adriano Moreira foi eleito presidente em 65, cargo que desempenhou até 75, sendo a partir daí seu presidente honorário. «Depois da Academia das Ciências, não hesito em dizer que a SG é a instituição cultural mais importante do país: possui o melhor museu etnográfico português, a melhor biblioteca sobre regiões tropicais, uma cartografia sem equivalente. Aliás, considero que a SG pode ter, a nível cultural, é óbvio, um papel activo de aproximação com os povos de expressão portuguesa.»
A propósito, peço-lhe que me fale das Comunidades Portuguesas. «Foi outra paixão que seguiu a par com o Instituto», responde.
E outra história para contar. Sentado no cadeirão de couro, conta-me em voz pausada, continuando a fumar. Atarda-se com gosto nos seus mais pequenos pormenores, fala-me de como nasceu a ideia das Comunidades (a partir de um discurso que em 64 pronunciou em Aveiro), da Academia Internacional da Cultura Portuguesa, criada a pedido de 14 professores universitários estrangeiros que ensinavam Português nos respectivos países e que se tinham deslocado a Portugal no âmbito do I Congresso das Comunidades, realizado logo no ano da sua fundação, em Dezembro de 64, em Lisboa e Guimarães…
Hoje? Ele lamenta que «o conflito institucional conhecido - e que leva a que se tenha ao mesmo tempo a comemoração do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades celebrada pelo Conselho da Revolução e o Congresso das Comunidades promovido pelo Governo - se transmita como conflito interno para o seio das Comunidades…»
Ao repetir-me que é o homem do Instituto de Ciências Sociais e Política Ultramarina e do que ele considera «a obra ali feita» (a este respeito dir-me-ia, por exemplo, que «toda a doutrina reformista que se foi fazendo em relação a problemas do Ultramar nasceu lá na Escola»), ele coloca tudo o resto (excepção feita para as Comunidades) num recatado segundo plano.
Mas a verdade é que Adriano Moreira ficará na História por ter sido, em 61, o ministro do Ultramar de Salazar, no início da guerra em África. Fala pouco desses tempos. E sinto-o, mais do que nunca, medindo cada palavra, usando de uma prudência calculada, quase jogando à defesa. Ou… ter-me-ei enganado?
Ministro de Salazar: «o convite surpreendeu-me»
«O convite surpreendeu-me, mas ainda mais me surpreendeu a razão desse convite», explica-me Adriano Moreira. «O dr. Salazar, quando um dia subitamente me convocou para S. Bento, disse-me que tinha lido um relatório que eu escrevera, em 57, como resultado da minha ida às Nações Unidas, integrado na delegação portuguesa, e na minha qualidade de director do Instituto. Disse-me ele assim: ‘O senhor escreveu, em 1957, no relatório que fez, que em 61 íamos ter a guerra em África. Como adivinhou?’ Expus-lhe o meu raciocínio. Segundo o que eu escrevera o calendário de admissão de países na ONU mostrava que em 61 perderíamos a maioria e que portanto os Movimentos de Libertação passariam a ser considerados legítimos pelas resoluções da Assembleia Geral. Por isso tinha escrito que 61 me parecia um limite geral. E então, ele virou-se para mim e perguntou-me se eu era capaz de ir para África executar as reformas que deveriam ser feitas…»
Qual era nessa época, o seu olhar sobre a África Portuguesa? «Era o da Escola: queríamos uma doutrina reformista, posta em prática com a preocupação de uma maior justiça social; pôr em vigor as convenções do B.I.T.; substituir a ideia de assimilação das populações pela de integração; terminar com o estatuto do indigenato; estabelecer a igualdade de direitos políticos». Interrompo-o: e Portugal Continental? E a política interna de Salazar? E a falta de liberdades e direitos? E…e…e…
Com uma serenidade desarmante: «A minha posição em relação ao regime era a de considerar que havia uma grande falta de autenticidade, as leis eram uma coisa e a prática outra». Só? «Por exemplo, no que toca aos direitos humanos… nomeadamente em África…». África outra vez. África sempre? «Era o que me interessava. Nunca segui muito a intrigalhada aqui. Estava fixado lá…». Partiu para Angola com fé e, pouco tempo depois, juntou a essa fé «uma grande humildade»: «Pode não acreditar mas… fui tomado de uma incrível, imensa humildade… perante a obra dos colonos! É falso que Angola tivesse sido feita em cinco séculos, foi em cinquenta anos! Isso deu-me a sensação de que o tempo era curto, demasiado curto, de que era preciso queimar etapas… o que talvez explique o carácter desordenado da minha legislação. Era preciso lutar contra o tempo e todos os dias eu sentia que ele me consumia um pouco mais…»
E não era consumido pela impossibilidade dessa aventura? Pelo seu carácter irreversível? «Não. Em 61, o que era impossível era manter a estrutura. Mas não era impossível reconstruir outra maneira de viver… Aliás, foi nessa convicção que fui amigo do Eduardo Mondlane e que mandei pôr em liberdade o Agostinho Neto. Não acredita?»
Vai, mais uma vez, buscar um livro a uma estante enquanto me confessa que «deve ter para cima de dez mil». Depois senta-se de novo, acende outro cigarro, retoma a palavra onde a deixara: «Sintetizei essa necessidade de mudança num discurso que fiz em Moçambique.»
Abre o livro: «Quer ouvir?: ‘É necessário deitar fora os anéis que fazem sombra aos dedos?». Pousa o livro, olha para mim, insiste no tema: «Não se podia continuar com os sistemas de exploração que assentavam numa concepção já muito antiquada e contra a qual lutavam os próprios administradores em relatórios que um dia hão-de espantar os historiadores.»
Foi-lhe difícil ser ministro de Salazar… até à altura de isso se lhe ter tornado impossível? «Nunca tive um decreto recusado… Salazar era uma pessoa que admitia a discussão dos seus pontos de vista. Era até capaz de os corrigir. Não, não era a regra geral… mas, por vezes, corrigia-os.»
A figura de Salazar está subitamente entre nós. Noto que Adriano Moreira me fala dele com uma moderação que me espanta e sem nunca utilizar palavras como «fascínio», «devoção», por exemplo, ou qualquer daquelas usadas pelos seus pares perante e durante Salazar. Usa de uma admiração limitada e quando lhe pergunto o que pensava de Salazar, diz-me apenas que «quando ele resolvia discorrer sobre algum problema, renascia então o professor de Coimbra. E aí, quer se concordasse, quer não, inspirava respeito…»
Histórias de Salazar
Conta-me pequenas histórias do velho ditador. Como de uma vez em que, chamado ao forte de S. António do Estoril, Adriano Moreira, estando ali perto, resolveu ir a pé, não se fazendo portanto anunciar pela estridente campainha das visitas. Ao fundo da alameda reparou que a porta da capela estava aberta e, de repente, deu com a figura de Salazar, sozinho lá dentro, compondo o altar. Adriano Moreira, perante a inesperada visão do presidente do Conselho arranjando, a sós, as rendas e as figuras do altar, deu meia volta, saiu à rua, e tornou a entrar, desta feita fazendo-se anunciar pelo porteiro e pela campainha: «Não podia desabar assim naquela intimidade…»
Qual era a noção que Salazar lhe dizia ter do país, nessa data? «Suponho que a sua filosofia se resumia neste conceito: a decisão deve pertencer a um homem aconselhado».
Perante a minha incredulidade, acrescenta: «Ele ouvia, ouvia muita gente e olhe que muitas vezes era gente que não era necessariamente do Governo.»
Talvez por isso, Salazar, um belo dia, e na sequência de um processo que começara uns meses antes (e que Adriano Moreira resume como «a sua tentativa de correcção de um sistema, sobretudo económico e financeiro, com as inerentes medidas que se lhe seguiram») chama a Lisboa o seu ministro do Ultramar. O diálogo é conhecido: «Peço-lhe que seja mais suave e que abrande o seu reformismo, mudando a sua política…», diz-lhe o presidente do Conselho.
«Será então talvez melhor mudar de ministro», respondeu-lhe o titular da pasta do Ultramar. Tempos depois, o ex-ministro é sondado no sentido de vir a assumir a pasta da Educação (sorriso). «Seria talvez para abafar ou minimizar o efeito de uma saída como a minha…». E que efeito teve ela sobre si? «Nenhuma amargura. Não cultivo o ressentimento. Pelo contrário, parto para outra, como dizem os brasileiros… Hoje penso que se tratou fundamentalmente de um serviço e que… foi a época de uma obra que ficou no princípio. Quando cheguei voltei para donde saíra: o Instituto.»
Pousa agora um olhar (que sinto que lhe é completamente exterior) na década que antecedeu o 25 de Abril. Quase com secura, resume assim o que viveu, já no continente, entre 64 e 74: «Sentia que todos os dias caminhávamos para uma catástrofe…». E conta-me que num discurso que proferiu em 73, na Sociedade de Geografia, depois de expor o seu ponto de vista sobre a situação política, resumiu assim o seu pensamento: «A salvação da cidade já só poderá ser obra de cidadãos.»
Não, não gostou da escolha de Marcello Caetano. «Ele não era o homem. Chegou lá já tarde demais, como ser anímico… Já não lhe era possível. E a prova foi que o aparelho político já não dava conta dos destinos do país. Mas não direi mais porque não digo do prof. Marcello Caetano depois de morto nada que não tenha dito em sua vida.»
O delfim
Adriano Moreira, o delfim. Quem não se lembra? «Nunca me ocorreu pessoalmente vir eu a ser o ‘eleito’». E para melhor (me) convencer: «Eu não cultivava nem sequer tinha relações pessoais com quem influiu ou interveio nessa escolha».
Se aquilo que ele define como «uma total marginalização» começara com Salazar, mais tarde, com Marcello Caetano, ela torna-se quase obsessiva: «Nunca mais me convidaram para nada, nem para um banquete. Proibiram-me de escrever. Mas o que me foi quase impossível, e que provocou um dos grandes desgostos da minha vida, senão o maior desgosto, foi o ter sido afastado, em Junho de 69, da Escola».
Mais uma vez se levanta, vai buscar outro livro: «Fui demitido de todos os cargos inerentes à direcção do Instituto e ao Centro de Estudos, incluindo a Cruz Vermelha! Eu declarara que ’se as autoridades académicas eram da confiança do Governo - como hoje continuam a sê-lo - essa confiança deveria ser recíproca e o Governo não a merecia’. Fui demitido mas continuei a leccionar até 74.»
E a política? «Encarava-a como um mero cidadão e intervinha apenas ao nível do pensamento e da escrita.»
O pensamento e a escrita. Adriano Moreira escritor ou ensaísta? «Talvez seja uma mistura… mas a veia de escritor só apareceu no ‘Tempo de Vésperas?’ … O resto é tudo a história do presente. A tentativa de interpretação para os factos dispersos…». O resto são vinte e um títulos, repartidos em Política e Direito e Conjuntura Portuguesa.
Que homem está por detrás do ensaísta, do professor, do político? Abre um livro seu, e mostra-me a dedicatória dizendo: «Melhor que as palavras que eu possa dizer, leia o que aqui escrevi…». Ei-las: «À memória de Sócrates, Thomas Moore e Ghandi que morreram de morte violenta e de Erasmo que morreu angustiado». «Penso que você pode dizer de mim que a minha preocupação fundamental é entender… E aprendi muitas vezes que a gente só entende na acção. Isto é, esclarecem-se as dúvidas na acção.»
E agir, para si, foi voltar? Voltar à ribalta mesmo que a porta se chamasse Bragança e o destino CDS?
CDS: das dúvidas à acção
Sorriso onde se instala de novo uma certa prudência. Começa a falar-me mais devagar: «É também um processo de dissolução das dúvidas pela acção». Uma «acção» que ele dá a entender que é quase só confinada à tarefa da Revisão Constitucional, mas da qual há muito quem diga que pretende ser devoradora e ambiciosa: «Lastimo que a vida portuguesa esteja reduzida a um modelo de competição e conflitos individuais de tal modo que parecem raras as interpretações feitas em função do interesse público».
Viu, pode dizer-se, o 25 de Abril como uma coisa esperada, ou melhor, inevitável. E é mais uma vez com um total domínio e clareza de raciocínio que me explica porquê: «O 25 de Abril estava na Revisão Constitucional de 71… Ele tem a sua acta de nascimento na revisão Constitucional clandestina de 71! Porque essa revisão eliminou todos os objectivos coloniais que constavam do título VII e isto sem que o Governo o tivesse dito ou discutido, agindo como de uma maneira clandestina? Eu próprio escrevi sobre isto um artigo para uma revista angolana, ‘Prisma?, o que teve como consequência a expulsão do seu director… do território angolano.»
O 25 de Abril não exerce contra si «uma acção personalizada» como professor do Instituto. Mas quando em Fevereiro de 75 se desloca ao Brasil como advogado, já de lá não regressa senão em fins de 77. Motivo: uma ordem de prisão que alguém lhe comunica para o outro lado do Atlântico. «Convidaram-me para professor da Universidade Católica como coordenador do curso de mestrado de Direito. E foi lá que fundei também o Instituto de Relações Internacionais.»
Desde 75 que Diogo Freitas do Amaral «’me pede que integre o CDS’: «A verdade é que eu sempre pensei que, a intervir, teria que o fazer com legitimidade. Isso quer dizer pelo voto. Foi o que aconteceu. E também o facto de pessoas de uma outra geração - e o 25 de Abril foi um acto de geração - terem considerado, como foi o caso no CDS, com todos os seus fundadores muito mais novos que eu, que a minha presença lhes poderia ser útil».
O que é o CDS? «Que diabo de pergunta… Bom, é talvez o partido com a doutrina mais definida e mais próxima da personalidade básica do povo português, o único, afinal de contas, que poderia corresponder àquilo em que acredito… Mas, em qualquer caso, não tenho vocação para a vida partidária, como lhe disse quando começámos a conversar.»
E a AD? «É um estado de espírito. Que precisa de líderes que o encarnem. E tenho verificado com satisfação que os seus responsáveis constantemente proclamam o seu devotamento a este estado de espírito.»
Eanes? «Tenho o maior respeito pela figura do senhor general Ramalho Eanes. Não tenho o hábito de confundir nem misturar a vida pública com a privada.»
E à despedida: «Tenho a convicção de que uma acção política sadia tem que pôr a experiência dos mais velhos ao serviço da criatividade dos mais novos». O caso de Adriano Moreira?