domingo, 17 de outubro de 2010

Observações sobre a viagem da costa d'Angola à costa de Moçambique - 1788. Relatório da viagem feita ao Rio dos Elefantes - 1854

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Em 1787, o naturalista José Maria de Lacerda integrou a expedição destinada ao reconhecimento do curso do Rio Cunene, chefiada pelo Capitão António José da Costa, que não teve êxito, pois não chegou ao destino. Ele mesmo o diz neste texto endereçado ao Ministro da Marinha e do Ultramar, Rodrigo de Sousa Coutinho, que a seguir se reproduz e em que salienta mais uma vez a necessidade de empreender a comunicação por terra entre Angola e Moçambique. O Ministro não queria outra coisa, até porque esse fora o sonho de seu pai, Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho, que fora Governador-Geral de Angola, de 1764 a 1772. Por ordem do mesmo Ministro, a expedição foi iniciada a partir de Moçambique em Dezembro de 1797, sob a direcção do Dr. Francisco José de Lacerda e Almeida, Governador em Moçambique dos Rios da Sena, que veio a falecer de paludismo a 17 ou 18 de Outubro de 1798, no Cazembe. O diário dessa viagem está publicado nos Annaes Marítimos e Coloniaes, série n.º 4, pags. 286-300, 303-314, 334-343, 377-381, 397-408,e na Série n.º 5, pags. 29-26, 63-77, 108-120; depois reproduzido em livro editado pela Imprensa Nacional em 1889, com o título “Diário da viagem de Mossambique para os Rios da Sena feita pelo governador dos mesmos rios o D.or Francisco José de Lacerda e Almeida". A expedição prosseguiu e foi nessa parte narrada pelo Capelão P.e Francisco João Pinto, figurando nos mesmos Annaes na Série n.º 5, pags. 149-164, 199-208, 264-278, 321-337, 364-372, 428-437, 468-481.

Ao entregar o texto da Memória de José Maria de Lacerda aos Annaes para publicação, o Visconde de Sá da Bandeira acrescentou-lhe cinco notas a final, datadas de 2 de Junho de 1844, que têm grande interesse.

Entretanto, José Maria de Lacerda faleceu em Malange, em 1797.




Quanto à foz do Cunene, foi objecto de uma expedição organizada em Novembro de 1854 por Fernando da Costa Leal, Governador do distrito de Moçâmedes de 1854 a 1859 e de 1862 a 1866, cujo relato também aqui se reproduz.


Observações sobre a viagem da costa d' Angola à costa de Moçambique, por José Maria de Lacerda
Documento oferecido à Associação Marítima pelo seu ex-Presidente, o Ex.mo Sr. Visconde de Sá da Bandeira.


Ill.mo e Ex.mo Senhor,


A glória de um descobridor, que não se poupa a fadigas em promover a felicidade dos seus semelhantes, leva certamente manifesta primazia sobre a fama de um conquistador, que mais parece, destinado para flagelo da humanidade: uma vista de olhos sobre a moderna e antiga história, nos desengana convincentemente da verdade deste acerto. E na geral estimação mais gloriosa e mais venerável a memória dos Henriques traçando em Silves as primeiras linhas, e lançando as raízes dos apetecidos descobrimentos da Ásia, que lhes mereceram o delicioso timbre de Talent de bien faire, do que a dos Filipes e Alexandres que forjam em Macedónia, e deitam depois a Grécia os pesados grilhões da escravidão, e finalmente por intrigas, e pelo único direito de mais fortes se arrogam o soberbo título de domadores da mesma Ásia. O espírito, Senhor Excelentíssimo, o espírito que anima a um e outro, é quem pode decidir bem claramente a qual dos dois se devem erigir estátuas no templo da memória, e conservar seu nome nos fautos da imortalidade. Ah! Senhor, e quanto é abominável, quanto horrorosa aos olhos de uma sã filosofia a memória de um homem que, arrebatado por uma desmedida ambição de dominar, busca pretextos especiosos para despojar os seus semelhantes dos sagrados direitos com que a Providencia os criou livres, para os fazer servir aos seus ambiciosos desígnios, e gemer constrangidos debaixo do jugo do um injusto cativeiro! Pelo contrário quanto é amável, quanto preciosa a vista do universo e quanto digna das suas aclamações abençoadas, aquela alma generosa que, não satisfeita com as luzes de que se observa enriquecida, procura difundi-las a maneira do sol benigno que, sem avareza, comunica seus raios criadores a um e a outro hemisfério, procura, digo, difundi-las sobre as trevas da ignorância dos outros seus semelhantes, que trabalha por descobrir; promovendo pela comunicação os interesses das nações desconhecidas e mais remotas, as utilidades do comércio pela importação e exportação dos géneros, a cultura dos povos e terrenos incultos, a polícia da barbaridade, os grandes cómodos da vida social e mais que tudo, se as circunstâncias o permitem, o conhecimento da verdadeira religião e da única e suprema Divindade! Oh este sim, este é quem merece com maior justiça, como Tito, ser aclamado por delícias do universo!

Estas reflexões, Senhor Excelentíssimo, que há muito se revolviam no meu acanhado espírito, agora se avivaram com a noticia, para mim agradável e gostosa, de que Vossa Excelência, animado de um verdadeiro patriotismo, projectara o descobrimento do resto do grande sertão e do país desconhecido de Benguela, e a comunicação por terra das duas costas oriental e ocidental dos vastíssimos domínios do reino de Angola [Veja-se no fim a nota —A—]. Exultei pois dentro de mim mesmo ao lembrar-me das grandes vantagens deste descobrimento, que eu conheço praticamente pela dilatada experiência de largos anos em que habitei e corri estes países. Eu sei que esta empresa já tem sido intentada por diferentes Generais e Governadores, sendo o primeiro a formar este plano e projecto interessante o Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor D. Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho, de saudosa memória, cujo governo, pelos seus acertos, prudência, suavidade e inteireza, vive na perpétua lembrança dos Angolistas, que de pais a filhos conservam em gostosa tradição dos perenes monumentos de beneficência com eles tantas vezes praticados, e que servirá sempre de modelo aos que procurarem governar aqueles e outros povos com justiça. E que glória não resulta a Vossa Excelência se executar com felicidade um projecto que mereceu justamente as considerações do seu Ilustríssimo e Excelentíssimo progenitor, e que na verdade se faz digno das sérias atenções de um Ministro que tanto promove e zela o bem da pátria, a glória da nação e os interesses do seu Príncipe? Aqui fala tão somente o coração, nem a vil adulação teve entrada no meu peito, quando a minha pena arrebatada, e movida pela sã verdade, correu ligeira e formou gostosa expressões sinceras que ainda mal indicam os grandes sentimentos da minha alma. Além do que: eu conheço que falo a um Ministro amante da verdade, e que estranhavelmente detesta e abomina os sim agradáveis, mas envenenados perfumes da lisonja.

O bem pois da minha pátria, a glória da minha nação e os interesses do meu Príncipe, eis aqui, Senhor Excelentíssimo, os únicos e poderosos estímulos que também me obrigaram a fazer, e conduzir à presença respeitável de Vossa Excelência algumas reflexões que a experiência e conhecimento do país me tem ministrado, sem mais outro algum intento, ou pretensão que não seja a gostosa complacência de concorrer por este modo, quanto está nas minhas forças, para o feliz e desejado êxito desta empresa. Como verdadeiro patriota dar-me-ei por bem pago e satisfeito se ela chegar a conseguir-se. É por tanto necessário dar uma breve descrição geográfica do sertão, e uma geral noção dos seus habitadores, dos seus costumes, do seu carácter, do seu governo, e dos sentimentos de que se acham animados geralmente a respeito dos brancos, de quem sempre desconfiam; dizer alguma coisa das suas copiosas e excelentes produções, da sua religião, das notáveis consequências e vantagens para o comércio e para a coroa deste descobrimento e ultimamente dos meios práticos e fáceis de ele poder efectuar-se.

Confina o vasto e fértil sertão de Benguela pelo norte com de Angola, e é dividido pelo rio Aço perto do presídio das Pedras de Ponguadongo, e pelo sul limita no país dos Hotentotes muito além do cabo negro. Para leste ele se estende até ao de Moçambique e Rio de Sena, com perto de quinhentas léguas, havendo numa e noutra costa boa porção de terreno conhecido e tratável, de que depois hei-de falar. É imensa a sua povoação, repartida em muitos governos de diferente extensão e autoridade que se vê exercitada por uns certos potentados a que dão o nome de Sovas, e a outros de Sovetas por prestarem aos primeiros uma espécie de vassalagem, e terem deles alguma dependência. São negros fortes e pela maior parte agigantados, o que faz que eles na América sejam mais estimados e de mais valor, que os de Angola. São destros no manejo das armas de fogo, de que fazem na guerra um pronto uso, que nós mesmos lhes temos ensinado: têm delas abundância, e à excepção dos canos, tudo o mais eles consertam e fazem de novo com limpeza e perfeição; e teriam zombado das nossas expedições militares, se não fossem as peças de amiudar, de que têm um grande medo. São aleivosos e muito atraiçoados: a sua amizade para com os brancos é só fundada no interesse pela importação dos géneros, que estes levam, e de que eles já não podem dispensar-se. Nunca perdem ocasião de perpetrarem os mais horrorosos crimes de roubos e homicídio contra os brancos; mas como receiam incorrer nas iras e indignação dos que governam, têm a prevenção de irem cometê-los noutras terras mais distantes, para não serem descobertos; e posto que maquinem enganos e traições, eles contudo se disfarçam muito bem no exterior, e fingem a mais rendida submissão, pronunciando com respeito e humildade a palavra Maneputo, que corresponde à de rei dos brancos. São todos antropófagos, e nas guerras que suscitam continuamente entre si por pretextos os mais frívolos, comem os mortos: barbaridade em que especialmente se distinguem os Ganguelas. Para os comer matam os velhos, que já para eles não têm preço, préstimo, nem valor; e guardam desveladamente os moços para os vender: motivo ordinário das guerras e contendas, por ser o meio de haverem escravos e da sua venda tirarem os interesses desejados.

Todo este vastíssimo país é, como disse, muito povoado destes bárbaros e não se anda mais de uma légua sem se encontrar alguma libata ou povoação maior ou mais pequena. O clima do sertão, dez léguas distantes das praias, é tão benigno e saudável, como o de Portugal; e é tão fértil, que apesar do desprezo e negligência com que o cultivam, chega a dar cento por um. Produz com abundância, e pode também dizer-se com demasia, o milho grosso, milho menor, a que chamam Maçambala, milho-miúdo, a que dão o nome de Luco, e outro quase milho-miúdo, mas compridinho, que é conhecido com o nome de Moçango; e de todos estes milhos fazem eles uma farinha excelente e saborosa. Produz também toda a casta de feijões e em tanta quantidade, que dão doze Guindas (medida que corresponde a dois alqueires nossos) por uma braça de pano zuarte, ervilhas, grãos, lentilhas e excelente trigo, mas somente cultivado por alguns dos sertanejos (são os brancos ou mulatos estabelecidos com casa de negócio no sertão), abóboras de diferentes qualidades e grandeza, melancias, melões, batatas, mandioca, goiabas, laranjas, limões e grandes canas-de-açúcar.

É finalmente o seu terreno susceptível de todas as sementes e capaz de produzir os mais belos frutos se houver agricultura. Sabem extrair o ferro das pedras do país, que todas encerram, e faz pasmar como eles, sem o devido e necessário aparelho de ferramentas proporcionadas, fabricam os ferros das suas zagaias, cadeias e outras obras. Tem igualmente minas de enxofre, que eu mesmo observei, e mais de cobre, de que eles fazem os seus ornatos. Há muitas e diversas madeiras, excelentes para toda a construção, seu comércio consiste principalmente nos escravos, no marfim e na cera imensa, de que abundam, apesar do modo bem destruidor com que os enxames são crestados, porque de ordinário lançam-lhes fogo para extraírem os seus favos.

Estes bárbaros e cegos povos não reconhecem divindade, nem se lhes observam vestígios alguns de religião. Supersticiosos por extremo, apenas se divisa neles um tal ou qual culto, ou veneração, a que pode mal e só dar-se o nome de civil, para com algum dos seus antigos Sovas, que por tradição, ou foram guerreiros eminentes, ou fizeram no seu governo reinar a abundância, o sossego e a justiça, ou se assinalaram em acções extraordinárias. Contudo, alguns são baptizados, mas como se o não foram; porque é inteira a ignorância dos Mistérios e consumado o desprezo dos preceitos. Sim, procuram e fazem diligências pelo Baptismo; porem só a fim de conseguirem a estimação dos brancos, inculcarem-se para com eles como cristãos, e insinuarem-se nos seus ânimos desprevenidos, quando assim fazem a bem dos seus interesses, ficando aliás no mesmo deplorável estado de irreligião, de poligamia, de superstição e de barbaridade.

É tempo de fixarmos as nossas atenções nas grandes vantagens que desta expedição resultam certamente à Coroa, ao comércio e aos mesmos povos. Por este meio estendemos as nossas conquistas e adquirimos novos conhecimentos de povos e terrenos nunca dantes praticados. Abre-se a correspondência de uma e de outra costa, e pode então com facilidade auxiliar-se uma à outra e os habitantes têm assim um refúgio, bem seguro, no caso de alguma delas ser acometida ou debelada. Já os navios da Ásia poderão descarregar em Moçambique e as fazendas serem transportadas a Benguela e outras terras do sertão, sem ser preciso dobrar-se o cabo e haver a grande demora e risco da viagem. Cresce desta sorte a actividade do comércio, produto e rendimento das alfândegas, a indústria dos brancos e dos negros, que para estes transportes, de que tiram grandes lucros, hão-de cuidar na propagação dos camelos [Veja-se no fim a nota — B —], que não têm dificuldade em amansar; os bois-cavalos, de que já fazem bastante uso até para montar e as zebras, que são inumeráveis e que pela semelhança quase inteira com as mulas, à excepção da pinta, são muito acomodadas, ao que parece, para este ministério, se houverem de tentar e procurar a sua mansidão, do mesmo modo que lá fazem aos ditos bois-cavalos. Além de que, enquanto não houver outra providência, milhares de negros se hão-de empregar de boa mente neste serviço por seu lucro, e um negro carrega às costas para levar a muitas léguas um fardo de fazenda importante em cento e vinte mil reis, e o faz por pouco preço. Eis aqui aumentado o comércio da escravatura, do marfim, da cera e de outros géneros até aqui desconhecidos, que vão talvez por este meio a descobrir-se.

Não é para desprezar e parece bem digna das atenções do Ministério a vizinhança dos novos possuidores de Tafelbay [Table-Bay. É junto a esta baía que está a cidade do Cabo, Cape Town, fundada pelos Holandeses em 1650, tomada pelos Ingleses em 1795, a quem se refere o autor; restituída aos Holandeses em 1803 e retomada pelos Ingleses em 1806 que ficaram pela paz geral na posse desta excelente colónia.]. Quem nos pode segurar de que vendo eles o abandono e o desprezo com que tratamos esta importante aquisição, não hajam de alongar as suas conquistas para o norte, com gravíssimo dano de nossos interesses? E quem há-de embaraçar essa conquista e obviar a que pelo tempo adiante se vão vender os escravos do nosso sertão do sul (como vão agora os do norte) aos Ambres e aos outros portos que ficam ao norte de Angola, onde os compram as nações estrangeiras, com diminuição visível do nosso comércio, que ao menos pela terça parte se acha descaído? [Veja-se no fim a nota –C-]

E não é outra a causa deste abatimento: porque os negros não têm dificuldade em andar mais cinquenta léguas para irem vender os seus escravos a quem lhes dá mais e melhor fazenda, o que não podem fazer os nossos negociantes; porque as vendas e os lucros dos escravos em a nossa América não correspondem à quantidade e qualidade da fazenda que os outros dão por eles. Vai portanto este descobrimento opor uma barreira a todas as tentativas que os Ingleses possam idear, para estender a sua nova colónia e aumentar o seu comércio com ruína quase inteira dos nossos interesses, o que certamente lhe não esquece; porque eu sei que eles já têm proposto avultados prémios, a quem descobrir e fizer comunicável este sertão.

Fica também por este meio o Pais todo mais seguro e mais sujeito, vendo-se como entalado: porque conhecendo os povos auxílio, que as armas de Moçambique e do Sena podem prestar às de Angola e de Benguela, e estas àquelas, é muito para esperar que se abstenham dos roubos e maus tratamentos, que fazem muitas vezes aos desamparados Sertanejos, ficando assim o comércio livre e seguras as vidas e as fazendas, que até se podem apoiar ainda melhor com mais alguns presídios, que se hajam de erigir. É inegável que estas fortalezas espalhadas pelo sertão, servem de freio, que reprime os excessos, insultos, e ousadias destes bárbaros, e os fazem conter nos seus deveres.

O ferro, de que eu já disse abundava este sertão, é um artigo não pouco interessante.

A efectuar-se a comunicação das duas costas, será este um ramo de comércio o mais capaz não só de promover as utilidades do Estado e aumento da Fazenda, mas também de fomentar a indústria desses povos, que já o forjam e se servem dele com muita destreza e prontidão. Ele, na bondade e qualidade, não cede ao Sueco e Biscainho, e os negros fabricam várias obras que vendem por preços moderados. Um Libambo, ou corrente que segura e prende doze escravos, se compra por dois panos, que correspondem a mil e duzentos réis; em atenção à sua abundância e qualidade, é que o Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor D. Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho fez judiciosamente construir uma fábrica para o extrair e preparar; mas desgraçadamente não teve o efeito desejado, ou fosse por intriga, ou mais depressa pelo indesculpável capricho, com que quase todos os Generais procuram abater, frustrar e desfazer tudo o que os seus antecessores começaram, por mais útil que pareça, atropelando a verdade, a consciência e os interesses do Estado. Procedimento ordinário, certamente repreensível, e pelo nosso Tito Lívio nas suas Décadas há tanto lamentado! Como o ferro é um dos géneros que os nossos navios carregam para a Ásia, é evidente que extraído e preparado no sertão e conduzido pelo Cunene (a descobrir-se a desembocadura deste rio, e fazer-se navegável, de que logo hei-de tratar) apresenta o ferro, como disse, um ramo de comércio muito atendível e importante: e até os mesmos navios da Ásia, na volta da viagem, bem poderão carregar muitas barras dele, pelos vácuos que não admitem corpos volumosos: e desta sorte vem a sua exportação a ser pronta igualmente para todas as quatro partes do Mundo. Pois se o ferro é tão digno das atenções do Ministério, não menos o deve ser o excelente cobre, de que há minas já descobertas. Os negros o fabricam e fazem dele uso para os seus ornatos e enfeites, como colares, manilhas e as chamadas vergas, com que rodeiam as pernas. Há igualmente enxofre em grande cópia, e eu mesmo vi uma larga mina dele no Dombe da Guinzamba, cinco léguas de Benguela para o Sul e légua e meia da Baía Farta, à beira do mar. As madeiras deste sertão, tem-se visto e experimentado serem as mesmas que as do sertão da Baía, igualmente boas para a construção e demais obras. E haverá ainda quem repute desprezível um manancial tão fecundo de riquezas, que nos pode constituir cada vez mais independentes dos outros povos e Nações, e fazer o nosso comércio muito mais activo?

Devo expor agora aqui a V. Ex.ª uma lembrança que há muito me ocorre, e que a verificar-se, são incalculáveis as vantagens que resultam desta empresa. É bem conhecido o rio Sena pela sua grandeza, pela soberba das suas correntes e pela opulência das suas auríferas areias; mas a sua origem ainda não esta certamente descoberta, e dele apenas sabemos, que descendo do Monomotapa, lá vai desembocar com arrogância na costa de Moçambique onde temos a nossa Quelimane.

É pois agora de saber: que o maior rio e o mais poderoso que se conhece, desde o Zaire até ao Cabo da Boa Esperança, é sem duvida um a que os naturais chamam Cunene, que quer dizer grande na língua do pais. Nasce este rio em Candimbo perto de Caconda Nova, corre para o Sul e, depois de ter engrossado suas correntes com os rios Cobango e Cutado, atravessa os domínios dos Sovas de Lebando e de Luceque, trinta léguas da sua origem; mas já então assaz poderoso, que não dá passagem aos viajantes; e o Sova de Luceque tira bom interesse dos fretes das canoas que aí tem, para os transportes de uma a outra margem; continua a correr, dirigindo-se para Leste e, tendo recebido vários rios, chega ao Humbe ou Monomotapa (cinquenta léguas da sua nascente) já tão arrogante e enriquecido, que tem aí seiscentas toesas de largura; e depois lá prossegue a sua corrente para Leste; e nada mais pode dizer-se com certeza deste famoso e grande rio [A distância de 250 a 300 léguas entre as terras designadas com o nome de Humbe grande e as do Monomotapa, não é favorável à hipótese de que elas são um mesmo país ou estado, como parece que o autor acreditou].

E acaso será ele o mesmo Sena [Veja-se no fim a nota –D-]? Duas razões mo persuadem. Primeiramente, examinados os mapas mais exactos que nos oferecem toda a costa d’África desde o Adamastor para o Norte ate Benguela, e corrido o sertão, como eu fiz para indagar as particularidades deste rio, não se encontra algum outro com foz de tal grandeza, qual promete o rio Cunene que, a cinquenta léguas da sua nascente, se acha com seiscentas toesas de largura. Em segundo lugar, o rio Sena se enobrece com as suas auríferas areias; pois o Cunene certamente lhe não cede nesta áurea prerrogativa: eu mesmo o vi e observei, quando em oitenta e sete fui mandado acompanhar a expedição que ao sertão foi enviada com instruções para se descobrir este mesmo rio até à sua foz, o que infelizmente se não efectuou: uma negra que se apanhou nas terras de Acabona (três léguas distante do Cunene) que limitam com o Monomotapa, trazia na cabeça umas folhetas de oiro do tamanho das lantejoulas ordinárias; estavam furadas; e entrando por elas pequena quantidade de cabelos encrespados, em cima davam nós, que seguravam as tais folhetas. Perguntou-se-lhe, aonde iam tirar aquelas coisas? Respondeu, que a um rio muito grande que estava daí perto; e que disto levava muita quantidade, principalmente quando chovia, mas que ninguém o procurava, porque não tinha estimação.

E qual outro podia ser este rio senão o Cunene? E como ele se encaminha desde o Humbe para a costa de Moçambique, onde se sabe que desemboca o Sena é, quanto a mim, Cunene o mesmo Sena com um nome diferente. E se não falha esta minha conjectura, que riquezas se não devem esperar para Portugal a fazer-se navegável este rio, e a poderem-se conduzir por ele a Benguela todas as fazendas descarregadas em Moçambique pelos navios da Ásia! Ficam certamente Benguela e Moçambique dois Empórios da Ásia, bem capazes de competir e disputar grandezas com as maiores povoações do mundo. Aberta pois que seja a comunicação das duas costas, fica fácil o descobrimento perfeito deste rio; porque se adquirem conhecimentos, que hoje ainda não temos, e amizade do país e do sertão; e deste modo podemos alcançar notícias certas dele, que pela sua grandeza não pode deixar de ter entre aqueles povos boa nomeada. Eles mesmos nos darão guias, e o regresso poderá então fazer-se pelas suas margens sem perigo algum de descaminho. São muitas outras as vantagens que resultam deste descobrimento, e que certamente não escapam à vivacidade e perspicácia de V. Ex.ª. Eu as deixo à sua grave ponderação; e passo, para evitar prolixidade, a tratar do modo e meios de se efectuar tão importante diligência.

Como o fim desta empresa é a comunicação das duas costas, e facilitar por terra o comércio de Benguela e sertão ocidental, com Moçambique e sertão oriental, evitando-se por este meio os perigos e as delongas indispensáveis das marítimas viagens, parecia conveniente e acertado pôr diante dos olhos o terreno conhecido, a fim de se perceber com evidência o que resta para o descobrimento projectado.

Em todo o Nano, que vem a ser todo o país compreendido entre Caconda-Nova para o Norte até ao rio Aço, os Sovas principais são: os de Balundo, de Ambo, de Quiaca, de Quitala e o de Galangue, além de uma infinidade de Sovetas seus subordinados. No sertão inferior e para o Sul, estão os poderosos Sovas de Quilengues, de Quipungo, de Gambos e de Avila, ou o formidável Canina que estende os seus domínios pelo vasto continente dos Cobaes, Mocoanhocas, e Mocorocas, habitantes do Cabo Negro, até aos Hotentotes, que já foram seus vassalos, e que por negligência dos seus Ambas (ou Sovas) sacudiram o jugo do Canina; muitos outros Sovetas e potentados há também neste sertão, sujeitos aos quatro mencionados. De Benguela para o Norte, pelo caminho de Quissangue, atravessando Balundo ate ao rio Aço, contamos oitenta léguas, pouco mais ou menos, de sertão conhecido e vassalo da Coroa Portuguesa. De Benguela para o Sul, pelo caminho de Quilomata, Lombimbe, Quilengues, Bemby, Quipungo e Gambos até ao Humbe, dividido pelo grande Cunene, temos cem léguas seguras, e também Vassalas. De Benguela, atravessando pelo meio destes dois sertões, e andando para Leste pelo caminho de Sápa Janjala, Caconda Nova, Monhembas, Galangue e Obié, país regado todo pelo útil e bem conhecido rio Quanza, temos cem léguas, e deste rio até ao Sova de Levar [Veja-se no fim a nota –E-] há-de haver oitenta léguas de país pacifico e bem trilhado por alguns dos Sertanejos, a quem os habitantes tratam bem e com os quais fazem comércio interessante. É moderna esta descoberta, e devida inteiramente à diligência e ambição dos moradores do sertão, que tiveram talvez adiantado o seu comércio e seu descobrimento, se tivessem sido auxiliados. Temos pois de Benguela para dentro, ou caminhando para Leste, boas cento e oitenta léguas de sertão trilhado e conhecido, e da parte de Moçambique e da costa oriental se acham descobertas cinquenta léguas com pouca diferença; e sendo quinhentas o total, restará apenas duzentas e setenta a descobrir.

É portanto mais fácil, do que talvez se julga, este descobrimento, não só pelo que pertence ao sertão desconhecido, mas também pelo que respeita às despesas e aprestos necessários. Porque alguns instrumentos matemáticos e quem saiba usar deles, para se tomarem as dimensões e alturas da derrota, quatrocentos homens (e talvez menos) resolutos, valentes, sujeitos e bem armados, e duas peças de campanha com as devidas munições de guerra, é quanto basta para se obstar a qualquer intentado insulto. Porque deve ser máxima inalterável destes gloriosos campeões, que o ramo da oliveira é só quem há-de aparecer na sua frente, sem jamais fazerem luzir a espada senão no último extremo e depois de exauridos todos os meios de mansidão, de bom modo, de prudência, de generosidade, de dissimulação e de paciência, em algum encontro menos atencioso ou descortês. A experiência me ensinou, que se lucra mais com estes bárbaros, fazendo-se-lhes alguns presentes, ou mimos diminutos (de que a seu tempo tratarei), sofrendo e disfarçando ao princípio alguns insultos leves, com as mais reiteradas protestações de amizade da parte do Augusto Soberano, que lá os manda a este fim e que bem pudera castigar qualquer atrevimento, do que vindo logo às do cabo, como dizem, rompendo com eles e frustrando assim decerto a empresa começada, e pondo o sertão em desconfiança de conquista e cativeiro; e por conseguinte todo em armas; instruções indispensáveis para quem houver de comandar esta gloriosa expedição.

As mencionadas forças militares com facilidade se podem ajuntar e pôr-se prontas sem dispêndio maior da Real Fazenda e do Estado. É sabido que nos sertões conhecidos de uma e de outra costa há brancos e mulatos com casas de negócio mais ou menos opulentas. E estes, como práticos e endurecidos no país, podem ser convidados para acompanhar a expedição, dando-se-lhes patentes honoríficas e para eles estimáveis de títulos diferentes, como de empacaceiros, atalaias, aventureiros e guerra preta; determinando-se a patente de Capitão de alguns daqueles títulos ao que acompanhar com vinte armas seguras e capazes, e outros tantos homens; a de Sargento-mor ao que aprontar trinta; e assim, à proporção das forças que ajuntarem, se lhes deve dar maior patente. Estes homens, chamados Sertanejos como disse, prezam-se muito destes títulos, e o Estado só despende palavras quando lhos concede. Estes pois com alguns Soldados que se puderem ajuntar e escolher, cheios de honra, e amantes da Pátria e da glória, e que completem o número indicado, e força suficiente.

Deve-se de todo dar de mão aos negros, que em multidão costumam juntar-se às expedições com o sentido só nas presas; e feitas elas desamparam logo o campo e postos. São remissos em atacar e prontíssimos em fugir; ao primeiro tiro viram costas para nunca mais aparecerem; porque o seu único estímulo é o vil interesse das rapinas. Muitas vezes são eles mesmos os que instigam as rebeliões e fomentam as desordens, e quando se procede a procurá-los, apenas se acha o lugar onde estiveram; porque à maneira de relâmpagos desaparecem num instante: além de que diminuiriam grandemente os provimentos necessários para a subsistência da outra gente. São portanto não só inúteis, mas nocivos nesta empresa, à excepção de alguns poucos indispensáveis para a guarda e condução das munições e matalotagem: e eu mesmo na guerra de oitenta e sete no sertão fui testemunha ocular do que assevero; porque dezassete homens, que se tinham adiantado com uma peça de amiudar, derrotaram e puseram em fugida o Sova de Quiaca, que vinha acompanhado de doze mil negros, deixando em nosso poder os escravos, o gado e mais presas, que aos Cobaes haviam ido apreender.

Ainda que porém se devam rejeitar os negros vis, sempre contudo parecia conveniente convidarem-se os Sovas mais vizinhos ao rio Sena, que forem amigos, a fim de que por sua intervenção se possa alcançar conhecimento, amizade e consentimento dos outros Sovas mais remotos, cuidando-se primeiro em presentear a uns e outros; porque os negros imitam nisto os mouros, dos quais para se obter alguma coisa, é preciso antes de tudo brindá-los e atraí-los com alguns mimos. E pode acontecer que, usando-se de meiguice e destreza, algum dos ditos Sovas acompanhe a expedição, ou pelo menos forneça guias, línguas e provimentos que facilitem a mesma diligência.

Para os mimos e presentes, que se houverem de fazer aos Sovas e aos seus macotas ou conselheiros por quem eles se governam, e que são muito interesseiros, basta levar algumas ancoretas de aguardente de cana, alguns fardos pequenos de fazenda própria e da estimação dos negros, e sobretudo coral falso, roncalha, velórios e outras missangas. Levar-se-ão também alguns capotes de pano ordinário agaloados de ouro falso, chapéus grossos, pela mesma forma agaloados, e alguns bastões, ou bengalas com seus castões de cobre dourado: porque um capote destes, um chapéu, uma bengala, duas ancoretas de aguardente e algumas missangas, foi sempre o mimo da maior estimação do Sova mais poderoso destes países.

Para a subsistência desta expedição poder-se-á comprar uma boa porção de gado, de que abundam aquelas terras; e dado que acabe, nunca se pode temer a fome; porque, havendo pólvora, chumbo e bala, há-de haver certamente que comer, por ser o sertão todo muito povoado de imensa e varia caça, como elefantes, rinocerontes, empacaças, zebras, palancas, gamos e veados de diferente grandeza e qualidade. Toda esta carne é excelente; e enquanto a houver, não se padece. Eu me lembro de que na guerra, que desde setenta e quatro até setenta e nove, se fez no rio grande de são Pedro aos Espanhóis e a que eu assisti, em muitos tempos não comeu o Exército outra coisa senão carne, e sempre esteve pronto, nutrido e mui contente.

O tempo próprio para esta expedição é o que vai de Maio até Setembro; tempo em que, podendo ser, ela deve acabar inteiramente, ou pelo menos suspender-se com tal cautela e providência, que os quartéis de inverno, que desde então é muito rigoroso, possam estabelecer-se em sítio tal, onde o exército não fique exposto aos seus rigores, e lhe seja fácil haver as provisões para a sua subsistência. Aquele tempo a que lá chamam o cacimbo, e que corresponde ao nosso verão, é o mais temperado e mais benigno; porque se as chuvas, que naqueles sertões são muito copiosas e muito continuadas, apanham o exército desprevenido, terá ele de invernar aí mesmo onde elas o encontrarem. E que incómodo então, que prejuízo e que destroço não há que recear de semelhante acampamento? É logo da mais séria consideração, importância e consequência, tomarem-se as medidas com tal circunspecção, que esta empresa seja começada e concluída dentro daquele tempo declarado e com as prevenções e cautelas mencionadas.

Parecia também conveniente que esta diligência tivesse o seu princípio antes pelo rio Sena e Moçambique do que por Angola, ou por Benguela. O sertão que vai a descobrir-se está mais chegado à costa oriental, e por conseguinte mais próximo àquele rio e àquela povoação e capital; os negros dessa parte são indubitavelmente mais disciplinados, mais bravos e mais valentes; e havendo algum obstáculo que romper, convém que a gente esteja fresca e vigorosa para resistir e aplanar qualquer dificuldade que da parte deles possa oferecer-se; que não se conseguiria, se a expedição fosse começada pela costa ocidental ou de Benguela. Porque quando chegasse à contra costa, vinha a esse tempo a gente já estropiada, cansada, provavelmente desbastada e bem diminuída, e como tal incapaz de resistir e vencer os embaraços que os negros dessa costa suscitassem.

Passo finalmente a tratar do que me parece mais dificultoso e ao mesmo tempo da maior importância e consequência; de um homem, digo, ou antes de um herói (que por tal deve ser avaliado) no qual concorram as qualidades indispensáveis, que requer o comando e a direcção de uma empresa tão séria e melindrosa, que a não se conseguir a primeira vez que se intentar, ficam certamente impossibilitadas quaisquer outras tentativas que depois se hajam de fazer: porque ficaria o sertão todo prevenido, de má fé e desconfiado; o que junto ao desgosto em que se acha por alguns enganos e violentas usurpações executadas por alguns dos sertanejos e outros brancos, tornaria não só impraticável, mas impossível qualquer outra diligência. Deve pois o comandante ser um homem cheio de probidade, de paciência, de fortaleza e de prudência, saudável e vigoroso, costeado no país e bem instruído nas máximas e costumes destes povos, sóbrio, modesto, sisudo e continente. Porque além da boa fé, da verdade e do pronto pagamento de tudo o que se lhe comprar, é precisa suma vigilância a respeito das mulheres, de que esses bárbaros são zelosos por extremo, e certamente se malograra a expedição se uma só fosse atacada com violência, ou ainda mesmo aliciada; e faz-se muito necessário que o comandante, dando nesta matéria o mais público, notório e constante exemplo, proíba debaixo das penas mais graves e castigue prontamente sem excepção e sem demora, a qualquer que nisto delinquir: para o que se faz preciso que ele seja revestido de grande poder e autoridade para impor e fazer executar as penas graves, que as circunstâncias exigirem. Só assim pode seu lugar fazer-se respeitável como convém, e ele ser prontamente obedecido. E se for circunspecto e prudente, como deve, saberá temperar esta autoridade com os doces atractivos da benevolência, da humanidade e da brandura. Seria bom e conveniente que não tivesse nesta diligência subordinação a governador algum, nem general, e que a estes fossem as mais apertadas e decisivas ordens, para prestarem todo o auxílio que lhes fosse requerido; mas por desgraça, eles sempre encontrarão motivos especiosos para, ou de todo desvanecer, ou pelo menos retardar estas diligências, quando não vão por eles dirigidas.

As primeiras impressões são as que decidem geralmente a respeito do partido que devemos tomar, e os homens de ordinário, se governam e determinam por aqueles objectos que lhes ferem os sentidos exteriores. Pelo que observando aqueles bárbaros povos a boa conduta, a mansidão, a verdade, a candura e moderado comportamento não só do comandante, mas também dos companheiros, inferem logo daqui as boas e pacificas intenções de quem os manda e pela experiência que tenho de tratar com esta gente, posso assegurar por muito fácil, desejado e feliz sucesso desta diligência. Além disto deve ser animado de um verdadeiro patriotismo independente, abastado e que só de glória seja ambicioso. É muito e muito de notar e averiguar esta qualidade: porque é notório e infelizmente experimentado, que o sórdido interesse dos comandantes, é quem de ordinário malogra as melhores expedições d'África. O seu mau exemplo atrai imitadores e tudo se transtorna; porque não é capaz de conter os outros, quem a si mesmo se não pode reprimir. Desta forma, ou por este motivo, se atropelam as instituições mais judiciosas e prudentes, tornam odioso o respeitável nome do Soberano que os envia, conculcam os mais sagrados direitos do decoro, da justiça e da verdade; e por cúmulo da desgraça, sempre acham subterfúgios com que evadir os castigos merecidos.

Como se não trata de ostentação nesta diligência, convém muito, ou antes é preciso diminuir o mais que puder ser, toda a bagagem aparatória e não se admitirem os costumados baús, arcas, mesas, camas, loiças e fardos de fazenda que possam embaraçar uma pronta e seguida marcha. O trem do comandante, se ele for, como deve, soldado verdadeiro, bastará que seja tal que um negro sem estorvo possa conduzi-lo. E se também nisto der exemplo, será imitado e obedecido sem constrangimento, nem violência; porque os súbditos, se observam que o seu maior ou superior se não distingue, nem se forra aos incómodos e contratempos, sofrem também à sua imitação, sujeitam-se calados, não têm ocasião de murmurar e tudo corre como deve, como se deseja e se pretende.

Para prevenir qualquer desastre que possa levar o comandante da presença dos viventes, ou que o impossibilite no exercício do seu emprego, faz-se indispensável a nomeação e companhia de um seu tenente ou vice-comandante, que seja igualmente revestido, e dotado das mesmas qualidades que ele tem de ostentar na falta, ou no impedimento do primeiro.

Estas, Senhor Excelentíssimo, são as reflexões que tenho feito sobre o descobrimento do sertão desconhecido do amplíssimo reino de Angola; e sobre a comunicação por terra das duas costas oriental e ocidental. A experiência e a prática do país as tem suscitado e feito nascer no meu espírito e o zelo do bem da minha pátria, como disse, da glória da minha nação e do interesse do meu príncipe, me obriga a apresentá-las o Vossa Excelência, que, pesando-as na balança fiel da sua perspicaz inteligência e aumentando, diminuindo e mudando o que julgar conveniente, só nos pode dar esperanças de se ver efectuada uma tão importante e gloriosa diligência. Estes os meus votos e os meus únicos desejos, sem mais outro algum intento que não seja a gostosa complacência de haver para ela concorrido, podendo seguramente asseverar como o nosso Horácio na dedicatória dos seus versos:

«Eu desta glória só fico contente

Que a minha terra amei e a minha gente. »

José Maria de Lacerda.


ORIGEM

sábado, 16 de outubro de 2010

APONTAMENTOS PARA A HISTÓRIA DO QUITEXE - INTRODUÇÃO


                            
Coordenação: João Matos Garcia

Colaboração: Arlindo de Sousa
                      João Cabral          

Introdução

A história do Quitexe, como acontece com todos os outros espaços lusófonos, insere-se num amplo processo histórico, com implicações à escala planetária. Tem a ver com a expansão ultramarina portuguesa iniciada em 1415 com a conquista de Ceuta no Norte de África.
É no decorrer da referida expansão que os portugueses nos finais do século XV, averbando já uma invejável lista de terras descobertas, chegam ao actual país designado por Angola.
A empresa da expansão marítima, hoje vista pelos historiadores como os caboucos da globalização, era justificada pelo espírito da missionação e expansão da fé católica, mas dominada pelas preocupações económicas e interesses materiais. Assentava, inicialmente, na fundação de feitorias, com a finalidade de estabelecer o comércio com os povos locais.

Dominado por esta preocupação, em 1482 Diogo Cão e seus companheiros sobem o rio Zaire, entram em contacto com o reino do Congo e no ano seguinte percorrem toda a costa angolana.
As navegações para sul, com vista à descoberta da passagem (depois apelidada de rota do Cabo da Boa Esperança) que em 1498 haveria de levar à Índia, continuaram. Mas entretanto os portugueses, certamente influenciados pelo bom acolhimento que lhes foi dispensado pelo reino do Congo (capital em M’Banza Congo), aportam também na hoje designada ilha de Luanda. Onde, sem tanto sucesso, contactam com “N’gola”, um soba vassalo do rei do Congo, cujo nome veio a denominar todo o território de Cabinda ao Cunene, hoje conhecido por Angola.

Um dos ramos comerciais que maior riqueza trazia à coroa portuguesa era a dos escravos. Até 1560 o comércio de escravos funcionara bem pelo Reino do Congo; mas, por esta altura, povos Jagas vindos do Leste invadiram este reino, obrigando o rei e os portugueses que viviam em M’Banza Congo a exilar-se numa ilha do rio Zaire. Esta reviravolta e a esperança de encontrar minas de prata e cobre, encorajou os portugueses a conquistarem um território onde pudessem ser senhores absolutos. Em 1571, o rei D. Sebastião passa a Paulo Dias de Novais a carta régia de doação da capitania de Angola, primeiro estatuto administrativo, político, económico e judicial de Angola, com poderes para “sujeitar e conquistar o reino de Angola” (Ndongo era, de facto, o nome do reino, sendo N’gola o título do seu rei). Paulo Dias de Novais, neto de Bartolomeu Dias conhecia bem este reino pois ali vivera prisioneiro 6 anos até  ser libertado em 1566.

Facilitadas ou dificultadas por muitos e variadíssimos acontecimentos, desânimos e euforias, muita guerra e pouca paz, em que de um lado e do outro se somam derrotas, ressentimentos, longas situações de marasmo, alianças, vitórias e até cruzamentos étnicos, M’Banza Congo (ex-São Salvador do Congo) e Luanda vêm a definir-se como pontos de partida de duas linhas de penetração colonizadora que só por meados do século XVII (cerca de duzentos anos depois de Diogo Cão chegar pela primeira vez ao Zaire) se vão encontrar em Encoje (São José de Encoje). Onde em 1759 é construída uma fortaleza que objectiva ser um dos nós da rede lusa de ocupação militar, política, económica e religiosa de que já faziam parte Massangano (1533), Muxima (1599), Cambambe (1604) e Ambaca (1614).

Mais tarde São José de Encoje, depois de muitas e variadas vicissitudes e por virtude do Decreto n.º 80 de Norton de Matos datado de 14 de Dezembro de 1921, perde o seu cunho militar e fornece o nome que designará a Circunscrição Civil de Encoje com sede no Quitexe.  

Angola - expansão portuguesa até 1870


Expansão colonial portuguesa em Angola até 1870 (W. G. L. Randles -De la traite à la colonisation : les Portugais en Angola-Annales. Économies, Sociétés, Civilisations, Année 1969, Volume 24, Numéro 2
                


ORIGENS

A ocupação humana no norte de Angola é o resultado de sucessivas migrações, algumas realizadas em épocas recentes. Os povos aqui residentes fizeram parte do grupo Banto que, vindo dos Grandes Lagos, chegou ao Atlântico rodeando o Zaire pela sua margem direita. Outros ramos migratórios vieram juntar-se-lhes, subindo os vales dos afluentes Luabala, Cassai, Cuango, etc. A zona do Quitexe constituiria uma região de cruzamento de migrações e é maioritariamente habitada por povos Bahungos e N’Golas.


 In Nunes, António Lopes Pires – Angola 61 Da Baixa do Cassange a Nambuangongo, Prefácio 2005


MAHUNGOS

Os mahungos (do sub-grupo etnolinguístico quimbundo) estabeleceram-se nesta área empurrados do norte pelos bassorongos e baxicongos (do sub-grupo Quicongo) quando estes atravessaram o rio Zaire e começaram a espalhar-se na margem esquerda do rio, talvez no séc. XIV. Resistindo bem a esta pressão conseguiram manter-se durante muito tempo na parte sul do Bembe descendo, depois mais para sul. Constituindo-se em pequenos sobados, os seus chefes (sobas ou dembos) eram subordinados do Rei do Congo.





Aldeia mahunga na zona do Quitexe 1933/35 fotos – Elmano Cunha e Costa - Instituto de Investigação Científica Tropical


N’GOLAS

Os N´golas, residentes nesta área do Quitexe são apenas uma pequena franja deste grupo quimbundo maioritariamente localizado a sul do Dange onde estavam organizados no reino independente do Ndongo (ou Ngola).
Tendo o rio Cuanza como eixo orientador os N’golas ocupavam uma zona que ía do litoral até às regiões de Pungo Andongo e de Duque de Bragança. Há uma certa identificação dos n’golas aos gingas que, segundo alguns antropólogos, remonta ao tempo em que o sul do Reino do Congo foi invadido pelos gingas. No entanto certos autores (Hélio Felgas – As populações nativas do Norte de Angola, Lisboa 1965) mantêm a distinção considerando-as duas etnias diferenciadas.
O Reino do Ndongo formou-se no século XIV com migrações de povos do centro de África que se instalaram na Matamba. O chefe destes povos, Ngola a Nzinga avançou para o Cuanza e conquistou as terras quase até ao mar. O seu filho Ngola a Mbandi criou o Reino do Ndongo com a capital em Mbanza Kabassa. Este reino, até perto de 1563, pagava tributo ao Reino do Congo. Os portugueses entraram oficialmente em contacto com o reino em 1520, no reinado de Ngola Kiluanje, mas muito antes dessa época já havia relações entre os Ngolas e os comerciantes portugueses que estavam no Congo. Este reino manteve a sua independência até 1671, ano em que os portugueses venceram e mataram o rei Ari II em Mpungo a Ndongo (Pungo Andongo)


  
Carta dos três Reinos de Congo, Angola e Benguela com os países vizinhos (Dongo, Matamba, Kassanji) No fim da Guerra Civil, em 1834, as possessões portuguesas além-mar, eram como segue: Em Angola havia dois reinos, o de Angola que se estendia do rio Ambriz até ao Cuanza; e o reino de Benguela que ia do Cuanza ao Cabo Negro. No sentido leste/oeste não passaria das 100 léguas a influência portuguesa para o interior onde haveria cerca de 370 sobas subordinados à autoridade portuguesa.



Esta diferenciação étnica, entre N’golas e Hungos manteve-se, no Quitexe, até aos nossos dias vivendo as comunidades em povoações separadas, mas sem sinais de agressividade expressiva, também pelo facto de pertencerem, na sua maioria a uma igreja comum, a protestante.
A distribuição destas duas etnias, por sanzalas, era a seguinte (1961):

N’Gola – Ambuíla, Quimbinda, Luege, Taela, Cacuaco, e Dambi N’Gola;

Hungo – Quitoque, Quimassabi, Tala M’Banza, Cuale, Bumbe, Mungage, Catenda, Aldeia, Zenza Camuti, Quimulange, Cahunda, Tabi, Combo, Quimucanda e Catulo.

Refira-se que depois do início da guerra foram poucos os N’Golas que se “apresentaram” às autoridades portuguesas, mantendo-se nas matas ou, a maioria, refugiando-se no Congo.


                        Sanzalas e fazendas na área do posto administrativo do Quitexe - 1961 (João Nogueira Garcia) 



publicado por Quimbanze in QuitexeHistoria

Procissão no Quitexe - 21-01-1969


Em frente do clube foto de José Oliveira



De regresso à igreja foto de José Oliveira

            
Tocam os sinos da torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

publicado por Quimbanze in blog QuitexeHistória
Do mesmo blog :

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Histórias da minha meninice no Quitexe I- António Guerra
 António Guerra continua a brindar-nos com as suas histórias de uma infância feliz passada no Quitexe:

 
À PESCA… sem cana

Das minhas lembranças mais longínquas do Quitexe, recordo-me da época em que havia meia dúzia de casas e da união entre as pessoas. Éramos uma espécie de família alargada, com temperamentos diferentes, mas de uma solidariedade e interacção que só quem passou por Angola pode entender.
Ao fim de semana, duas ou três famílias juntavam-se e rumavam à margem de um rio para o costumeiro pic-nic.
  
pic-nic na zona do Quitexe Foto João Nogueira Garcia
 
Do menu pic-nic, fazia sempre parte a pescaria no rio. À falta das engenhosas canas de pesca, outro engenho surgiu - as bombas feitas pelo sr. Silva Fogueteiro .
O almoço era feito no local e mais para o meio da tarde os homens lançavam uma ou duas bombas para o rio. As mulheres e crianças dirigiam-se para um ponto a jusante onde houvesse pé e com grandes cestos da apanha do café, era só deixar entrar os peixes que vinham a boiar na corrente. O peixe era então distribuído por todos.
 Pescaria no Rio Luquixe - Foto João Nogueira Garcia
 
Só mais tarde começou a aparecer pelo Quitexe um senhor numa carrinha de caixa aberta, com grandes caixas na carroçaria, onde trazia peixe envolto em camadas de gelo partido e que vinha de Luanda.
Eu gostava mais deste peixe do que do rio, pois o do rio tinha muitas espinhas. Mas do que eu mais gostava mesmo era ir comer (sem a minha mãe dar conta) umas funjadas com os criados. Ainda hoje o meu prato favorito é uma boa funjada de peixe seco ou uma moambada de galinha. Como tive o privilégio de partilhar estas iguarias com quem mais entendia delas, até aos meus 19 anos de idade, comi sempre o funge com as mãos. Asseguro-vos que tem outro paladar comer o funge à mão, tal como o frango de churrasco. Quando comecei a namorar e para que não me julgassem algum troglodita, passei a comer mais “civilizadamente”.

António Guerra

....................
Recordar algo sobre Quitexe é responder à mais conhecida inquisição de psicólogos / psicanalistas : relate as primeiras lembranças de sua vida .
Não quero fazer um texto tão descritivo, até porque não tenho o dom dessa arte .
Vou dividir minhas lembranças , em ordem cronológica , em três fases : Antes de 1961, 1961 e pós 1961 até 1973  quando vim para o Brasil e passei pela última vez por minha terra .

Antes de 1961 .
  • O primeiro acontecimento que me bem à mente está relacionado ao dia de nascimento de meu irmão ( 15 de Abril de 1955 ) pois os meus tios para me afastarem de casa e não contarem o que estava acontecendo me pediram para ir à padaria de D. Maria Guerreiro buscar qualquer coisa além do pão .
  • A viagem por uma estrada de terra que levava de Quitexe ao Uige para o batizado de meu irmão. Afinal de contas o grande pároco era o Padre Rosa. Na época uma ponte havia caído ( para variar ) e foi aquela ginástica para os carros passarem por quatro tábuas ( sem os passageiros  . Passageiros à frente a pé .
  • As idas a Camabatela ( pois Quitexe inicialmente pertencia a Camabatela ) e as paradas no Pumbassai. O casal que administrava a fazenda tinha uma excelente plantação de morangos. Visitas ao Dr. Assoreira que me havia salvo de uma perigosa " lombriguite ".
  • Almoços em fazendas vizinhas. Certa vez na fazenda de Celestino Guerra uma das imagens bem fortes foi, junto a uma nascente ou rio perto da sede da fazenda, quando tiraram a pele de umas " seixas " para o churrasco
  • A nossa escola de Quitexe - professora ( esposa do Sr. Pirão ), na sede da administração, com uma única grande sala. Certo dia, após um grande temporal, levei um troféu que havia causado pânico a todos os alunos: uma lâmpada queimada. Dessa época recordo-me de alguns colegas: O Antônio Guerra, a Graça Barreiros, Maria Manuela Jardim Batista, Fátima Pacheco, Graça Morais.
  • Recordo-me de nosso passeio até ao rio na saída para o Uige em busca do musgo e pedras para montar o presépio .
  • Uma das primeiras sessões de cinema. Ao ar livre , atrás da administração, com o filme em preto e vranco " Marcelino, pão e vinho "
  • A caçada ao porco é tradicional . Uma porca nossa ( que havia tido 18 crias ) havia fugido e entrado no mato durante uma queimada . Só que eu havia visto um nativo a empurra-la para o mato. Não adiantou de nada minha afirmação. Levei uma surra por ter entrado no meio da queimada. Minha vingança veio dois dias após, quando descobriram que ela havia sido morta e estava bem salgada na casa do nativo que eu havia denunciado .
  • Festa de S. João. Como o Quitexe ficava animado . Especialmente a avenida ( avenida claro com duas pistas laterais ) de baixo. E para relembrar a data até hoje tenho as marcas ( cicatriz no joelho esquerdo ) de um pulo que dei em uma fogueira em frente à casa do Antônio Guerra . Esqueceram de avisar que a fogueira era mão única e alguém veio do outro lado e nos encontramos em cima da fogueira .
  • Temporais eram de arrasar . Era trovão, água, clarão. Certo dia, duas horas antes do temporal, o céu começou a ficar vermelho. Vermelho de sangue. E todo o mundo na rua comentando. Alguém resolveu dizer que havia lido que o mundo terminaria em 1964. E que aquilo era o principio do fim do mundo. Terrível e põe terrível nisso, até que se passasse o ano de 1964 .
  • Como era boa a funjada. E Francisco, filho do velho Cazenza e que cuidava de mim, tinha sempre um prato escondido junto à fogueira no fundo do quintal onde preparava sua comida. Funge e peixe assado. Aliás, Francisco Cazenza teve três filhos que homenageando meus pais os batizou como Rei Gonçalves, Jaime Gonçalves e Glória . Ao saberem que meu irmão voltara a Angola procuraram-no e pediram o telefone de minha mãe . É gratificante para ela, em datas especiais , receber uma ligação deles .
  • É bom recordar Madame Ruth ( sempre acompanhada por sua filha deficiente visual ) e seu Land Rover parando em casa antes de ir para sua fazenda perto da Ambuila ( fazenda ).
  • Recordar as paradas na fazenda dos Poço e a banana frita que a senhora nos servia .
  • Recordar José Bastos ( havia vindo para o Brasil mas regressou a Angola e mora no Sul de Angola ) e Alfredo ( alfaiate ) e seu sinal na testa . Seu tio Álvaro Bastos .
  • As idas para Uige e paradas no Pumbaloge ( casa da M.ª Manuela Batista ) ou na fazenda Pingano dos Pombo . Aliás ouvi dizer que Rui Manuel está no Algarve , Cid mora perto de Lisboa , Ricardo é tripulante da TAAG e está sempre em Luanda e visitando as fazendas da família no Quitexe. Artur está pelo Quitexe e já toca uma madeireira.
  • O " Pernadas " e suas visitas semanais ao Quitexe com sua potente moto, levando os bilhetes da Loteria Federal .
  • A nova escola . A professora Lucilia Barreiros .
  • O Professor Pires que se preparava para abrir um colégio no Quitexe , numa segunda casa nossa e que mais tarde viria a ser hospital militar .
  • Em principio de Fevereiro de 1961, o Quitexe todo parava junto à estrada / rua de cima. Carros e mais carros - caravanas – com famílias passavam em direção a Luanda , vindos do Congo .

O 15 de Março de 1961
  • Acredito que estávamos em férias da Páscoa pois estávamos em casa.
  • Logo pela manhã ( 6 horas ), bateram a nossa porta . Meu pai avisou que teria de ir com o Chefe do Posto Sr. Nascimento Rodrigues e Sr. Abílio Guerra para os lados da fazenda onde havia acontecido algo.
  • Perto das 8 horas enquanto minha mãe acabava de arrumar os quartos, eu já havia aberto a loja e me sentava na varanda para estudar.
  • Nesse momento os sinos e uma enorme algazarra se ouviam vindos da parte de cima da vila.
  • Perguntei a minha mãe o que seria e pediu-me para fechar as portas pois iríamos ver o que acontecia .
  • Ao fechar a ultima porta , quase deixei minha mãe do lado de fora, e vejo pela vitrine da loja um grupo levantando catanas e dando gritos de guerra. " MATA " e " UPA" . Nisto ouviram-se mais tiros . O grupo seguiu em direção a casa de Guerra e Garcia .
  • Passados momentos com o grupo mais afastado minha mãe saiu e viu que muita gente se encaminhava para a casa do Sr. Morais. Fomos para lá. Os comentários eram entre adultos. Os miúdos ficavam quietos. Cerca das dez horas chegam meu pai e os demais. Contam o que haviam presenciado .
  • Cerca das 10:30 h fomos em grupo até à administração. Apesar dos adultos protegerem as crianças e nós não sabermos o que estava acontecendo, deu para ver uma pessoa deitada perto da padaria do Guerreiro e um a criança deitada no chão no meio do campo que havia atrás do prédio da escola .
  • Ficamos na administração e no inicio da tarde fomos em comboio para o Uige.
  • Ficamos em casa de amigos. Lembro-me que era primeiro andar e que se entulhou a varanda de tijolos e sacos de cimento.
  • Ao outro dia fomos de avião para Luanda e ficamos no Hotel Continental. Passados dias trocamos de hotel. Como aconteceu com a maioria, apanhei sarampo e fui parar no Hospital .
  • No Hospital, o meu apartamento era no térreo. Em 19 ou 20 de Abril , houve um ataque ao hospital e foi um corre / corre. Sei que me jogaram da cama e fiquei deitado no chão entre a cama e a parede . Tiros não acabavam . Nisto chegam meu pai ( que ficara no Quitexe ) .
  • No dia 21 de Abril fomos para Portugal. Meu pai regressa ao Quitexe. Não sei se por falha de um motor ou por parada programada páramos na Ilha do Sal. Nunca esqueço as maravilhosas laranjas que nos ofereceram com uma casca ... vem grossa. Em 22 de Abril estávamos em Portugal . 

De 1961 a 1973
  • Minha mãe regressa a Angola, para tocar a vida junto a meu pai e fiquei internado no Colégio Nun´Álvares Pereira de Tomar e todo o ano passava o mês das férias grandes no Quitexe .
  • Eram sempre época de colheita e compra do café. A visita às sanzalas. A compra do café.
  • Sempre que ía ao Quitexe , sou presenteado com "Marufo" e especiarias pelos mais antigos e sobas . Quando regresso de férias a Portugal levo sempre em minha bagagem um quitute especial : amendoim ( ginguba) torrado com açúcar e pimenta oferecido por D. Maria Pacheco.
  • De férias, alguns rituais junto a aqueles que continuavam no Quitexe. Visita. E uma era obrigatória. Srs. João Garcia e Alfredo Garcia .
  • Quitexe em que o convívio se torna diferente .
  • Quitexe onde o próprio governo desconfia de seus heróis e a PIDE os coloca na cadeia .
  • Quitexe que começa a deixar o senso família para trás .
  • Quitexe das longas e traumatizantes viagens pela estrada até Luanda .
  • As idas à fazenda com pontos de referência : A fazenda dos Garcia , o Ambuila , a fazenda dos Poço , o Quitoque , o Mongage e a fazenda Ambuila . Sem escolta ou pegando a poeira de um carro militar que casualmente vai na mesma direção . Antônio da Ambuila e Faísca
  • O Quitexe paraíso, massacrado e renascido .
  • O Quitexe dos perseverantes  
Um grande abraço a todos os que nasceram , viveram ou passaram pelo Quitexe.


Antônio Rei


publicado por Quimbanze in blog QuitexeHistória
 

O descasque do café na Fazenda Quimbanze - Alfredo Baeta Garcia


Nos anos 50 a produção indígena era ainda descascada segundo o método tradicional no pirão, pois os comerciantes só compravam café limpo, que era ensacado em  sacos de juta de 80 Kg. Em algumas sanzalas foram instalados, mais tarde, descascadores mecânicos accionados por motores de explosão que tornam a tarefa mil vezes mais rápida.

Nas fazendas dos europeus, as maiores áreas de cultivo, aliadas à maior capacidade financeira e empresarial, possibilitaram a introdução rápida dos métodos mecânicos.

Na Fazenda Quimbanze o equipamento para descasque e beneficiação do café começou com um simples descascador que funcionava movido por um tractor Volvo que tinha uma transmissão para esse efeito.

Uns anos depois, por volta de 1956/57, compramos ao  Ferreira Lima uma máquina que trabalhava no Pumbaloge, marca ANDREIA, fabricada em Limeira - Estado de S. Paulo - Brasil, composta, à entrada por uma tarara que fazia a limpeza dos objectos estranhos e mais volumosos e, seguidamente, por meio de elevadores, enviava a Mabuba (café seco por descascar) para o descascador que funcionava como um moinho de martelos e não por aperto num sem-fim, como os descascadores primitivos. Uma potente ventoinha expelia para o exterior toda a casca, sendo o produto do descasque levado para um peneiro que com vários movimentos separava o café completamente descascado dos bagos por descascar e os reconduzia ao descascador.
O café limpo, saído deste peneiro, era distribuído por dois classificadores para tamanhos, cada um com quatro seleccionadores com a sua bica que deitavam, cada um, para sua tulha. Era uma máquina muito interessante, quando em funcionamento, movida por um motor diesel que antes estava na cerâmica.

Um ano depois, como deixou de ter interesse a classificação que se fazia, esta ANDREIA foi substituída por uma máquina idêntica, mas sem classificador e de maior rendimento, fabricada em Angola pela SOTECMA, Sociedade Técnica Cardoso de Matos do Amboím.


No ano de 1970 a colheita foi de tal maneira atacada pela “broca”, que furava os bagos ainda verdes na árvore, que, depois de seco e descascado, rigorosamente classificado, o café não iria além de resíduos. Tentando minorar essa calamidade pela escolha, comprámos em Luanda à pressa, uma máquina brasileira marca MOREIRA que fazia essa selecção. Funcionava por meio de um motor eléctrico, pelo que tínhamos que por a trabalhar durante o dia o gerador da iluminação eléctrica. O resultado foi pouco animador, pois como sabíamos, a maior parte dos bagos estava furada reduzindo a colheita desse ano para um terço.
Depois do primeiro choque, de que os exportadores se aproveitaram para comprar aos produtores pelo preço que entendiam, a situação quase normalizou, deixando o bago furado de ser considerado defeito com a importância que vinha tendo.


Pouco tempo depois comprámos um secador que se destinava a retirar a humidade do café quer já descascado, quer, principalmente, em mabuba, que por qualquer acidente como uma chuvada no terreiro onde esta secava ou por motivos de espaço, de onde era retirada mal seca.
Esta máquina compunha-se de um enorme cilindro metálico que rolava sobre si e tinha umas saliências interiores para misturar o seu conteúdo, onde era injectado ar quente e seco proveniente de uma caldeira tubular. No interior dos tubos circulava ar, em vez de água, a temperaturas convenientes e saía, depois, com a humidade tirada ao café ou mabuba. Este secador foi comprado e construído em Luanda numa firma onde entrava o nome Antão.

Nessa altura começou um novo processo de descasque chamado de “via húmida” que apenas a Companhia do Pumbassai utilizava, não por ser mais caro, mas apenas diferente, que requeria um terreiro pavimentado, de preferência. O café, colhido em cereja e maduro, era facilmente despolpável numa espécie de descascador, parecido com os antigos, onde era prensado com bastante água, pelo que, assim lavado, secava no terreiro mais facilmente. Este processo implicava que a colheita tinha que ser feita com mais cuidado de maneira a não levar bagos verdes que, depois de secos, ficavam negros prejudicando a classificação do café.

Em 1975 a Fazenda Quimbanze era uma das mais bem equipadas não só no sector do descasque e beneficiação, mas também nas restantes estruturas.

A sua produção era a de uma fazenda média, podendo em 1975 e, a partir daí, chegar às 500 toneladas / ano.

Origem

Código de Trabalho dos Indígenas das Colónias Portuguesas da África, 6 de Dezembro de 1928 punia portugueses que...



"Todo o português assim como todo o indivíduo de outra nacionalidade residente no território português que intencionalmente, por discursos pronunciados em reuniões públicas ou por manifestos, brochuras, livros, jornais, ou outras publicações destinadas a ser vendidas ou distribuídas gratuitamente ao público, difundam falsas informações a fim de demonstrar e existência de escravatura ou de tráfico de escravos nas colónias portuguesas, será punido com multa de 2.000$00 a 20.000$ ou com prisão maior até dois anos, e poderá ainda ser expulso do território português."




Fonte: Código de Trabalho dos Indígenas das Colónias Portuguesas da África, 6 de Dezembro de 1928
retirado de Blog de Angola

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A DESCOLONIZAÇÃO PORTUGUESA: visão de Pedro Pezarat Correia


Na publicação Portugal 20 anos de democracia , do Círculo de Leitores, e sob a coordenação de António Reis, Pedro Pezarat Correia (Oficial general do Exército na situação de reserva) apresenta um artigo de referência sobre a descolonização (sobretudo em África). Esse artigo faz-se acompanhar por uma importante cronologia que divulgaremos posteriormente.
Do artigo em questão consideramos em post a sua introdução e conclusão.
A síntese sobre o seu conteúdo é a seguinte:

"O processo de descolonização das colónias portuguesas desenvolveu-se ao longo de cinco fases sequênciais e interdependentes: tomada de consciência; luta de libertação; transferência do Poder; independência; consolidação da identidade nacional. Portugal enquanto potência colonial, só participou como parte da descolonização na fase de transferência do Poder. Nas duas anteriores, contrariou-as, nas duas últimas assume-se como cooperante. O quadro geral da actuação portuguesa na fase da transferência do Poder: condicionamentos; objectivos; estratégia. A violência como factor determinante em todas as fases: repressão, na tomada de consciência; guerra colonial, na da luta de libertação; guerras civis e intervenções estrangeiras, nas da transferência do Poder e independência. Obstáculos à consolidação da identidade nacional. O caso especial das colónias do Extremo Oriente, que não passaram por este faseamento".(p. 40. Sublinhado nosso).

Referência bibliográfica:

CORREIA, Pedro Pezarat- "A descolonização". In: REIS, António (coord.)- Portugal 20 anos de democracia. Lisboa: Círculo de Leitores, 1994, p. 40-73.

O CICLO DESCOLONIZADOR

Portugal acordou tarde para o fenómeno da descolonização. E acordou sobressaltado.
A ditadura salazarista então vigente, impondo aos Portugueses o silêncio e o alheamento sobre o que se passava no mundo e fosse desfavorável á lógica do regime, impediu-os de se aperceberem e prepararem para uma etapa que, inelutavelmente, teriam de percorrer.
Foi só com o início da guerra em Angola, em 1961, que os Portugueses, na sua generalidade, despertaram para o problema, mas sem que logo tivessem alcançado a sua verdadeira dimensão política. Sete anos antes, o problema dos satyagrahas em Goa, Damião e Diu e a anexação pela República da Índia dos enclaves de Dadrá e Nagar Aveli, envolvidos numa encenação emocional conduzida pela propaganda do regime, não chegaram para alertar os Portugueses para o que estava então já em marcha: o processo de descolonização.
A descolonização do império português é o capítulo derradeiro e tardio- e disto sofreria as consequências- do fenómeno global de dissolução dos impérios coloniais europeus, que se seguiu à II Guerra Mundial de 1939-1945 e que configura o ciclo descolonizador do século XX.
Os seus antecedentes situam-se nos anos 20, quando estudantes das colónias fundam em Lisboa a Liga Africana e, na tentativa de organizarem a luta anticolonial, entram em contacto com o movimento pan-africanista que W. du Bois fundara nas Caraibas. Mas só depois de 1945, com o sopro de liberdade que a vitória aliada fez chegar a todo o mundo, a luta pela libertação colonial se impôs com toda a dinâmica. Em 26 de Junho de 1945 fora aprovada a Carta das Nações Unidas (ONU), cujo artigo 73º obrigava as potências coloniais a desenvolver nas colónias "sistemas de autogoverno de acordo com as aspirações políticas das populações. Em Outubro seguinte reunia em Manchester, Grã-Bretanha, o V Congresso Pan-Africano, que lançou um apelo e difundiu directivas a todos os povos de África para a luta pela independência. Em Abril de 1955, em Bandung, forma-se o Movimento dos Não Alinhados, que iria ter papel de relevo na coordenação das lutas de libertação. França, Grã-Bretanha, Espanha, Bélgica, com mais ou menos contradições, e de forma nem sempre pacífica, vão reconhecendo o direito à independência das suas colónias e novos países soberanos vão reforçar o Movimento dos Não Alinhados. Em 1963 é criada, em Adis Abeba, a Organização da Unidade Africana (OUA). (...)
Uma análise sistemática demonstra que os processos de descolonização se encadeiam em cinco fases sequenciais, cada uma com as suas especificidades, conforme o território, o povo colonizado e a opção da metrópole colonial.
A primeira é a fase da tomada de consciência. Por norma, é uma elite politizada que assume a iniciativa e se organiza, visando o direito à independência, ideia que depois procura alargar à generalidade do seu povo.
Depois é a fase da luta de libertação. Exclusivamente política ou também armada, conforme o tipo de resposta da potência colonial às reivindicações independentistas.
Segue-se a fase da transferência do Poder. Se a fase anterior atingiu o grau de luta armada, esta comportará negociações de cessar-fogo, o que constitui uma derrota política, ainda que não militar, para a potência colonial.
A seguir é a fase da independência, correspondente à substituição do aparelho colonial pelas estruturas do novo Estado, por vezes marcada por uma luta interna pelo Poder.
Finalmente, a fase da consolidação da identidade nacional. Frequentemente, o novo Estado não corresponde a uma nação e, quando o seu nascimento envolve lutas internas pelo Poder, é difícil a emergência de factores de coesão. (...)
Só que nenhuma das fases é um compartimento estanque, indiferente à forma como se processou a anterior. Pelo contrário, é profundamente condicionada por ela e vai influenciar decisivamente a que se segue. A natureza assumida por cada uma das fases tem uma lógica que radica na anterior. (...)


CONCLUSÃO

O ciclo descolonizador

Tendo como pano de fundo a recusa do regime colonial ao direito à independência, que retardou duas a três décadas a fase de transferência do Poder e gerou o factor "violência", a descolonização das colónias portuguesas processou-se num quadro definido pelos seguintes condicionamentos:

- Fase da tomada de consciência sujeita a repressão policial, conduzida num clima de clandestinidade,

- Radicalização da fase da luta de libertação, que evoluiu para o patamar da luta armada sob a forma de guerra colonial, em très frentes, durante 13 anos;

- Isolamento de Portugal;

- Frágil posição negocial de Portugal na fase de transferência do Poder, consequência de uma rotura política revolucionária e da instabilidade que se seguiu;

- Crise económica resultante do esforço de guerra e do choque petrolífero de 1973;

- Alheamento das forças políticas e da população portuguesa em geral para com a descolonização;

- Aparelho militar debilitado pelos anos de guerra, que as contradições no seio do MFA acentuaram;

- Envolvimento de países africanos vizinhos, com intenções desestabilizadoras e expansionistas, e das suoerpotências, com o objectivo de reforçarem posições geopolíticas.

Fase da tomada de consciência

Apesar de condições tão desfavoráveis como as que este quadro denuncia, Portugal teve, após o 25 de Abril, uma política de descolonização, que acusou a ausência de um planeamento prévio, que o regime colonial inviabilizou. Mas desenvolveu uma estratégia para a tranasferência do Poder, casuística, mas coerente e fiel a princípios fundamentais, que constituiram os grandes objectivos:

- Respeito pelas resoluções da ONU exigindo o reconhecimento do direito à autodeterminação e independência;

- Recusa do puro abandono ou de modelos neocoloniais;

- Preocupação com a defesa dos interesses nacionais.

Fase de luta de libertação

Essa estratégia materializou-se pelo progressivo cumprimento das seguintes tarefas:

- Definição do enquadramento legal e constitucional;

- Negociações de cessar-fogo nas colónias em guerra;

- Legitimação dos interlocutores para as negociações;

- Negociações das transferências do Poder e das modalidades dos períodos de transição;

- Preparação de relações frutuosas de cooperação para o futuro pós-independências.

Fase da transferência do Poder

Esta a estratégia global. Com base nela definiram-se estratégias particulares, de acordo com as especificidades de cada uma das colónias. Ainda que se verificassem pontos comuns, não havia dois territórios em que coincidissem todas as condicionantes, o que permite afirmar que cada colónia era um caso distinto: na Guiné, em Moçambique e em Angola foi necessário negociar o cassar-fogo, em Angola e Timor teve de se contar com vários interlocutores, que viriam a envolver-se em guerras civis; Guiné e Cabo Verde tiveram um negociador comum; Guiné e Moçambique, com um só interlocutor legitimado por via revolucionária, justificaram a directa transferência do Poder; Moçambique e Angola enfrentaram manobras golpistas de minorias brancas; São Tomé, Cabo Verde, Angola e Timor subscreveram o sufrágio eleitoral para uma assembleia constituinte precedendo a independência; Angola e Timor sofreram intervenções estrangeiras armadas.

Fase da independência

Apesar dos condicionalismos, Portugal respeitou os princípios fundamentais e, atento àquelas especificidades, executou as estratégias definidas. Os únicos casos em que os programas foram violentamente interrompidos, impedindo o cumprimento dos seus objectivos, foram aqueles onde se verificaram intervenções estrangeiras armadas- Angola e Timor. A intervenção estrangeira em Moçambique, com os dramáticos resultados que se conhecem, foi posterior à independência, mas não deixou de afectar a imagem da descolonização. As abusivas interferências externas foram, sem dúvida, o grande factor perturbador, responsável pelos desfechos mais negativos da fase de transferência do Poder da descolonização Portuguesa.
(...)
in: http://historiaeciencia.weblog.com.pt/arquivo/018054.html

Política: O Ultimato Inglês e o 31 de Janeiro de 1891 por Deniz Ramos

Caricatura do Ultimato de 1890  

As viagens à África Central de Livingstone (1852-1873) e de Stanley (1874-1877), amplamente divulgadas, chamaram a atenção para o continente africano. Antes, a expedição de Correia Monteiro e Pedroso Gamito, acompanhados de 420 mercadores e carregadores, tinham explorado em 1831-1832 a rota de Tete a Cazembe. Em 1843 e durante três anos, Rodrigues Graça alcançou as nascentes do rio Sena e o Bié, onde procurou impor a soberania portuguesa, e de 1847 até finais da década, Bemardino Brochado explorou o sul de Angola, de Moçâmedes ao Cunene, recolhendo preciosa informação económica, etnográfica e geográfica. Nas décadas de 1840 e 1850, Angola e Moçambique seriam objecto de novas expedições, sempre com o propósito de afirmar a soberania portuguesa e, cumulativamente, reconhecer as realidades físicas e económicas dos territórios com vista a futura ocupação de colonos. Figura lendária desses exploradores sertanejos foi Silva Porto, colono e comerciante. Único branco no centro de Angola, fixou-se no Bié, e daí empreendeu expedições atrás de expedições numa vasta área até à actual Zâmbia, onde se encontraria com o explorador inglês Livingstone. Silva Porto gozou de grande prestígio entre as autoridades gentílicas, contribuindo para reforçar a presença portuguesa em Angola. Viria a suicidar-se quando algumas tribos locais, aliciadas pelos britânicos, se rebelaram contra Portugal.
Seria, porém, entre 1870 e 1890, já com organização da recém-criada Sociedade de Geografia de Lisboa (1875), que se realizaram as grandes expedições de Hermenegildo Capelo, Roberto Ivens, Serpa Pinto e António Maria Cardoso. Dessas expedições, com fins bem definidos ao nível científico e favorecidas pela melhor preparação dos seus executantes, oficiais da Marinha e do Exército, adveio um conjunto valiosísimo de informações, desde o reconhecimento da natureza dos territórios africanos às suas potencialidades económicas. Os seus relatórios obtiveram larga divulgação: em 1881, Capelo e Ivens publicaram De Benguela às Terras Iacca, Serpa Pinto, que caminhou para sul até à Zâmbia central e ao longo do curso do Zambeze atingiu Pretória e Durban, escreveu em dois volumes, editados em Londres também em 1881, Como eu atravessei a África e em nova viagem, Capelo e Ivens partiram de Moçâmedes e, seguindo o Zambeze até à sua foz, atingiram Quelimane um ano depois. Essa ousada expedição foi relatada em 1986 em De Angola à Contra-Costa.

No país, e Águeda não foi excepção, o êxito dessas viagens de exploração e os seus resultados científicos despertaram viva curiosidade. Em Escola Popular, semanário que em 1870-1871 se envolveu na cruzada da instrução popular, base fecunda da cidadania liberal, José Maria Veloso aproveitou o ensejo para aí publicar diversos textos de divulgação da África Oriental Portuguesa: sobre a Zambézia, Moçambique, Quelimane, Sena, Tete, Zumbo, Manica e Sofala e Bazaruto nos seus números, 33 35, 40 e 52, respectivamente. O propósito era chamar a atenção dos leitores para essa África desconhecida, quase deserta de população branca e sempre negligenciada pelo poder político: “Leiam os nossos trabalhadores, que nós   lhes asseguramos terão vontade de deixar de procurar a escravidão na América para optarem pelo arroteamento e amanho dos campos portugueses de além-mar, capazes, pela sua extensão e feracidade, de fazer a sua fortuna e a dos seus porvindouros; honrando-se, além disso, a si e honrando e engrandecendo a Pátria”.

O Mapa Cor-de-Rosa
e o últimato Inglês de 1890

Na década de 1870 estava na forja o plano britânico de Cecil Rhodes de dominar do Cairo ao Cabo e a resposta de franceses e alemães não tardou. Investido em árbitro das pendências africanas, Leopoldo II da Bélgica convocou em 1876 para Bruxelas as principais nações europeias. Aí foi decidido constituir uma associação internacional africana destinada a promover a África Central e a travar expansionismos perturbadores do equilíbrio na região. Portugal não foi convidado a participar, o que desde logo indiciava os objectivos dessa filantropia em relação às possessões africanas portuguesas. Seria, porém, por ocasião da Conferência de Berlim, da iniciativa de Bismarck (1884-1885), que o golpe decisivo se desferiu contra Portugal. Nesse conclave, apesar da resistência dos representantes portugueses, estabeleceu-se um novo direito público colonial: a posse de colónias africanas deixava de poder legitimar-se apenas por direito histórico e só a ocupação efectiva a justificaria. Ou seja, os direitos históricos sobre um determinado território deveriam ser corroborados pela “existência de uma autoridade suficiente para fazer respeitar os direitos adquiridos e a liberdade do comércio e do trânsito”. A intenção era óbvia. A crise de 1890 abatera-se sobre a Europa e atingira mais duramente a frágil economia portuguesa, agravada ainda pela turbulência político-partidária. Em tão curto prazo de tempo e sem meios financeiros compatíveis seria impossível a Portugal deslocar tropas e funcionários administrativos para todos os territórios a fim de garantir a sua soberania, que ninguém até então havia contestado. Assim, a África portuguesa, onde não existisse um mínimo de ocupação militar e organização administrativa, seria, pois, presa fácil para a espoliação das mais poderosas potências europeias.

Antes da Conferência de Berlim, a presença portuguesa nas colónias oriental e ocidental limitava-se à administração e ocupação de áreas estratégicas ao longo da costa e de pouca profundidade para o interior. Apesar de alguns estadistas liberais terem chamado a atenção para não se descurar os nossos interesses em África, a situação deficitária e política não permitiu dispensar os meios para uma mais larga colonização efectiva, em particular da vasta área entre Angola e Moçambique que havia sido objecto apenas de viagens de exploração. Antes da independência, o Brasil concitara o empenho da burguesia comercial e nem depois da independência se lograra inverter a desatenção colectiva em relação ao ultramar africano. Amputado o império, a burguesia saída da Revolução de 1822 continuou a tirar proveito dos negócios brasileiros e viraram-se as costas a África. Repare-se que no Brasil, à altura do grito independentista, viviam aí cerca de 900 mil brancos e mais de um milhão de mestiços europeizados. Em Angola e Moçambique, por sua vez, a população branca não ultrapassaria 25 mil pessoas. É certo que, entre 1885 e 1890, governos regeneradores e progressistas irão empreender esforços para satisfazer as exigências de Berlim, tímidos, realmente, pois a conjuntura a mais não permitia. Deu-se continuidade a algumas das medidas anteriores, administrativas e de fomento: a Companhia Nacional de Navegação, criada em 1880, passara a ligar Lisboa e Luanda em serviço regular e também nessa década todas as colónias ficaram ligadas a Lisboa por cabo submarino. Cumulativamente, abriram-se estradas para o interior e lançaram-se vias-férreas (o caminho-de-ferro de Lourenço Marques ao Transval, iniciado em 1870, já atingia a fronteira de Ressano Garcia em 1889-1890 e em 1887 iniciou-se a construção da via ferroviária da Beira para a antiga Rodésia e de Luanda para o interior). Por outro lado, intensificaram-se com fins geográficos e de soberania as expedições de Paiva Andrade, Serpa Pinto, António Maria Cardoso, Vítor Gordon e Paiva Couceiro e tentou-se proceder à ocupação, mínima evidentemente, do território entre as duas costas, alvo da cobiça inglesa. Em 1887, Barros Gomes, ministro dos Negócios Estrangeiros progressista, viria a apresentar o projecto da África Meridional Portuguesa. Elaborado no ano anterior, o mapa incluía a região compreendida entre Angola e Moçambique, ou seja, a África Meridional Portuguesa ia da costa atlântica à do Indico. Pela cor com que esse território foi cartografado, o mapa ficaria conhecido como Mapa Cor-de-Rosa.
Barros Gomes, conhecedor da oposição dos ingleses, procurou apoios junto da França e da Alemanha, com quem celebrou convénios em 1886 embora à custa de algumas cedências territoriais.

A inclusão dessa região na África Meridional Portuguesa feria os propósitos expansionistas ingleses e o plano de Cecil Rhodes, lesando os interesses da industrialização inglesa, que necessitava de novos mercados e de matérias-primas e a Conferência de Berlim acabara por fomecer-lhe os meios legais para o conseguir. Por isso, a reacção britânica não se fez esperar. Em Novembro de 1887, aproveitando os incidentes ocorridos no Chire entre as forças de Serpa Pinto e os Macololos e Machonas, que se diziam sob a sua protecção, a Inglaterra fez queixa formal ao governo português. Lisboa apenas respondeu à nota inglesa em Dezembro de 1889 e Lord Salisbury apresentou a 11 de Janeiro de 1890 um ultimatum ao governo português, exigindo a retirada imediata de todas as forças portuguesas do Chire e dos países dos Macololos e Machonas. A ameaça de corte de relações diplomáticas era clara e provável o cenário de guerra: “O Governo de S. M. entende que sem isto as seguranças dadas pelo Governo Português são ilusórias. Mr. Pitrè ver-se-á obrigado, à vista das suas instruções, a deixar imediatamente Lisboa com todos os membros da sua legação, se uma resposta satisfatória à presente intimação não for por ele recebida esta tarde; e o navio de S. M. Enchantress está em Vigo esperando as suas ordens”.
D. Carlos e o governo progressista acabaram por ceder ao ultimatum no prazo que fora imposto: “Na presença duma ruptura iminente de relações com a Grã-Bretanha e de todas as consequências que dela poderiam talvez derivar, o Governo de S. M. resolveu ceder às exigências formuladas nos dois memorandos, a que alude, e, ressalvando por todas as formas os direitos da Coroa de Portugal às regiões africanas de que se trata; e bem assim, pelo direito que lhe confere o artº. 12º. do Acto Geral de Berlim, de ver resolvido o assunto em litígio por uma mediação ou por uma arbitragem, o Governo de S. M. vai expedir para o Govemador-Geral de Moçambique as ordens exigidas pela Grã-Bretanha”.
Apesar das tentativas diplomáticas para que o litígio fosse resolvido por arbitragem
internacional, a Inglaterra sempre se opôs e nem a França, nem a Alemanha se decidiram a intervir. Perante a violenta reacção da opinião pública, que sentiu na pele a humilhação da intimação inglesa, o ministério progressista de José Luciano de Castro caiu, sendo substituído pelo governo regenerador de Serpa Pimentel. Entretanto, ocorreram negociações entre os dois países para clarificar a situação pós-ultimato. O tratado assinado em Agosto, que concedia a Portugal uma estreita faixa a ligar Angola a Moçambique, seria rejeitado e alvo de repúdio na opinião pública, o que levou à demissão dos regeneradores. Em Maio de 1891, já com um novo ministério extra-partidário, foi negociado outro tratado, onde já se não incluía essa faixa entre as duas colónias. Em troca da região a que se convencionou chamar mapa cor-de-rosa, em que, aliás, Portugal nunca teve qualquer ocupação efectiva de colonos ou militares (era uma utopia a África Meridional Portuguesa como a concebia Barros Gomes), foi reconhecida pelos ingleses a soberania portuguesa sobre as colónias de Angola e Moçambique, acrescidas de regiões que Portugal jamais havia reivindicado como pertença histórica. A cedência às exigências britânicas foi embalada pela anglofobia embora o acto intimidatório do ultimatum fosse um escândalo ignóbil. Que Portugal nada terá perdido do que, na verdade, detinha em África é hoje um dado adquirido na recente historiografia.

A reacção ao ultimatum em Soberania do Povo

Vejamos como Soberania do Povo, o único semanário que à época se publicava em Agueda e, por sinal, afecto aos progressistas, reagiu à afronta inglesa perante a qual capituIara um governo do seu próprio partido. O texto é da sua edição de 13 de Fevereiro.
“A ocasião não é propriamente para chorarmos as nossas desventuras, nem para discussões estéreis e inúteis. No momento em que esta gloriosa nação atravessa uma crise assustadora, acerquemo-nos todos da bandeira portuguesa para a defendermos corajosamente das brutalidades do aristocrático marquês de Salisbury, que só pensa em nos roubar, confiado na superioridade das forças britânicas e na indiferença das outras nações do mundo. Esqueçamos por um instante as divergências políticas e unam--se todos os partidos em derredor da mesma bandeira, que é a da Pátria, aquela que outrora tremulou desassombrada nas cinco partes do mundo e que Serpa Pinto ainda hoje empunha briosamente nos pontos mais arriscados do continente africano. O momento não é azado para retaliações, nem para a propaganda revolucionária dos republicanos. Não nos descuidemos porque amanhã pode ser tarde. Abatam-se as bandeiras partidárias para se içar bem alto a bandeira nacional. O governo deve ser o primeiro a ensarilhar as armas. Inspirando confiança aos adversários, eles não recearão seguir-lhe o exemplo. (...) A intimação do governo de S. James melindrou-nos nos nossos sentimentos patrióticos porque não estávamos acostumados a humilhações; e Salisbury atreveu-se a tanto porque dormíamos há 70 anos e não estávamos precavidos. Ouvimos ornear o aristocrático marquês e tivemos a imprudência de adormecer novamente sem nos munirmos de um vergalho.
Suportámos por isso os couces do sendeiro quando outrora não temíamos os rompantes do leão que tantas vezes se rojou humilde a nossos pés. Oxalá que a lição nos aproveite e que o desforço se não faça esperar. A guerra que promovemos às mercadorias da Grã-Bretanha, e que, infelizmente, ainda não é geral, merece o
apoio de todos e é a única que lhe poderíamos fazer com vantagem nas circunstâncias actuais. Portugal, porém, necessita de se desforçar energicamente logo que se lhe ofereça ensejo. (...) Armemo-nos também até que venham melhores dias; e sem perda de tempo, corramos a pontapés os que se embebedam com o nosso vinho e vão depois vomitar no Times as infâmias mais grosseiras. Vamos! Não percamos um momento.
Acerquemo-nos da bandeira nacional e icemo-la bem alto onde não cheguem as afrontas brutais do marquês de Salisbury e da cáfila de bandoleiros que o aplaude nas suas aventuras atrevidas e desonestas (...)”.
Em outras edições posteriores, Soberania do Povo censurou veementemente o acordo anglo-saxónico negociado pelo governo regenerador e Albano de Melo, que dirigia o semanário e ao tempo era deputado, escrevia a bem informada Carta de Lisboa onde comentava, semana a semana, exaustiva e minuciosamente, os conflitos de rua em Lisboa e no Porto e as reacções parlamentares e da imprensa ao ignóbil comportamento inglês em África antes e no decurso das negociações com vista à assinatura do acordo. Ao fim e ao cabo, retomava-se na velha gazeta a revelha rivalidade no seio dos partidos rotatívistas monárquicos.

O 31 de Janeiro de 1891 visto pela progressista Soberania do Povo

Se o país explodiu face à afronta inglesa e à pusilaminidade do rei e do ministério progressista e trouxe para a rua sentimentos anti-britânicos a clamar por represálias, ou se os jornais caíram numa violência inaudita e em verso, no também virulento Finis Patrioe, Guerra Junqueiro vituperou a cínica Inglaterra, a bêbada impudente, todos esses sentimentos ofendidos viriam em proveito dos republicanos, que já no tri-centenário de Camões em 1880 haviam arrecadado um capital de esperança ao simbolizar na evocação do Poeta o despertar da pátria aviltada por um regime anémico. Na opinião de Joel Serrão, embora outros mais recentes historiadores dela discordem, o 31 de Janeiro “se, por um lado, foi o remate da profunda emoção suscitada pelo ultimato inglês de 1890, por outro, assumiu papel de grande relevo na história da conquista do Poder pelo republicanismo, que culminou com a revolução de 5 de Outubro de 1910”. Basflio Teles, um dos vencidos da sublevação, dirá que foi o prólogo e que o epílogo viria logo a seguir.
No Congresso do Partido Republicano realizado em Lisboa no início de Janeiro, os
que apostavam pela acção imediata divergiram dos moderados. A direcção, que veio a ser substituída, no seu relatório assegurava que o ultimato de 11 de Janeiro de 1890 significava que o partido havia terminado a sua propaganda doutrinária e que urgia seguir agora a acção decisiva, que não era outra coisa senão a revolução. E assim aconteceu no Porto, às três horas da madrugada nevoenta de 31 de Janeiro. A revolta, mais que anunciada pois a população e jornalistas concentraram-se nos locais públicos para acompanhar mais de perto, saiu dos quartéis apenas com sargentos e três oficiais. Hasteou na Câmara Municipal a bandeira republicana e da varanda proclamou a República e anunciou os nomes dos que constituiriam o Governo Provisório. Depois, engrossados de multidão e com a Banda a tocar a Portuguesa, as poucas centenas de militares subiram a rua de Santo António. A Guarda Municipal abriu fogo e após nutrido tiroteio os revoltosos retrocederam para a Câmara. A artilharia leal atingiu o edifício e deu-se a debandada, com numerosos civis mortos e feridos. Seguiram-se prisões, julgamentos e deportações dos cabecilhas.

Acompanhemos a reacção de um jornal monárquico progressista ao pronunciamento militar que, no Porto, durante curtas três horas manteve ao alto a bandeira republicana.
Na edição de l de Fevereiro de 1891, Soberania do Povo dedicou a 2ª. página e parte da 3ª. ao relato circunstanciado dos acontecimentos. A descrição, feita em cima da hora, não difere muito da versão oficial posterior.
“Rebentou ontem, às 3 horas da madrugada, na cidade do Porto, uma insurreição militar combinada com alguns elementos populares. A revolta estava preparada há tempo, mas a prisão do sr. João Chagas, condenado por abuso de liberdade de imprensa, apressou talvez o movimento. Às 3 da madrugada saíram para as ruas os regimentos de infantaria 10 e cavalaria 9 e um pelotão de 18 e dirigiram-se à Praça de D. Pedro. Tomaram a casa da Câmara e foi proclamada a república pelo sr. Alves da Veiga, que hasteou a bandeira vermelha do Centro Democrático Federal 15 de Novembro. Foi aclamado um directório composto pelos srs. Carvalho, general reformado, Joaquim Bernardo Soares,juiz da Relação, Rodrigues de Freitas, Licínio Pinto Leite e Alves da Veiga. Aos insurgentos aderiram alguns soldados da guarda fiscal.
Não se associaram à revolução os oficiais superiores da guarnição. O coronel do 18, Cabanellas, pôs-se à frente do seu regimento e marchou para a Praça D. Pedro. A guarda municipal também foi contra os soldados sublevados. A artilharia da Serra do Pilar foi mandada para o largo e fez fogo sobre a casa da câmara, onde as tropas se tinham acolhido, e que foi cercada. Houve um vivo tiroteio. A fusilaria era constante. O combate durou desde as 6 horas da manhã até às 3 da tarde. Houve numerosos mortos e feridos, talvez 150. Os hospitais estão cheios deferidos.
A revolta foi sufocada, fazendo os revoltosos a sua submissão. Muitos fugiram pelas traseiras da casa da câmara. Comandava a insurreição o Capitão Leitão e o alferes Malheiro. De Lisboa e outros pontos foram mandados diferentes regimentos a ocupar o Porto. Alguns navios de guerra devem entrar hoje a barra do Douro. Os revoltosos fizeram todos os esforços para ocupar a praça da Batalha, o telégrafo e o governo civil, mas não o conseguiram. Compreende-se bem o seu plano. Senhores do telégrafo, do governo civil e da casa da câmara, dariam notícias para todos os pontos do país, com quem estavam de inteligência, e a república seria facilmente proclamada em terras importantes. Vê-se que o plano falhou, porque aguarda municipal defendeu a todo o custo a praça da Batalha. Não temos até agora outros pormenores”.
No semanário incluiu-se também informação retirada da imprensa portuense, chegada a Águeda no correio da tarde, que não reproduzimos por não diferir da acima
transcrita. Apenas um parágrafo nos chamou a atenção. Soberania do Povo referiu que corriam já na cidade notícias sobre os tristes factos que cobrem de luto muitas famílias, que não salvaram a liberdade nem deram mais prestígio ao princípio republicano.

O número da semana seguinte dedicou ao 31 de Janeiro, além de um editorial, duas
páginas na íntegra. A quantidade da informação diz bem das preocupações que o movimento revolucionário provocou no seio do regime. Merece, porém, referência a postura do semanário monárquico perante a situação trágica que ocorreu no Porto. Escreveu-se:
“Nesta ocasião nós somos também contra a revolução de 31 de Janeiro. Mas, deplorando os factos, não requeremos vingança, nem aconselhamos o governo a que se meta no caminho das perseguições miguelistas.
Isso não está nos nossos hábitos e demais a experiência diz-nos que a reacção dos oprimidos está na razão directa da violência dos opressores. (...) E assim como os revoltosos estão a estas horas nas mãos da monarquia, podíamos nós todos estar nas da república. Sejamos complacentes e justos, se porventura a justiça se pode combinar com a benevolência. Um criminoso político não é um envenenadar, um bandido. Correu sangue, dizem; é preciso que nos vinguemos: fuzilem-se os sargentos, guilhotinem-se os conspiradores! Sejamos coerentes, meus senhores. (...) Isto não quer dizer que apoiamos a insurreição, Reprovamo-la até e não queremos a impunidade dos insurreicionados. Mas entendemos também que o crime tem grandes atenuantes que devem fazer época nos espíritos liberais e muito principalmente no do poder moderador que nos últimos anos tem sido generoso e magnânimo”.
O editorial vai no mesmo sentido: justiça e benevolência, a par da censura pela inoportunidade do pronunciamento militar republicano: “ É nesta hora cheia de receios e de perigos que um punhado de soldados se insurge e se levanta por uma bandeira, que pode atrair os espíritos juvenis e prender os ideais de muitas almas generosas, mas que neste momento não é a altiva e santa bandeira da Pátria. Não estamos ao lado dos revoltosos. Não chegou ainda o dia solene da implantação da república portuguesa “.

Lemos e pasmamos. Também para a monárquica Soberania ao Povo, como o foi para Basflio Teles, um dos vencidos que teve de se refugiar no Brasil, o 31 de Janeiro de 1891 seria o princípio do fim? Acreditamos. O mais fecundo trabalho de casa preparatório da revolução que em 5 de Outubro pôs termo à Monarquia foi feito realmente dentro da família dos Braganças. Por outras palavras disse-o Eduardo Schwaibach aos seus leitores brasileiros: Ao cabo de longos e porfiados esforços, os monárquicos acabam de implantar a República em Portugal”.

Retirado DAQUI