sexta-feira, 22 de outubro de 2010

ANGOLA, 50 ANOS DE PETRÓLEO

“Só me faltava mais esta!”
Frase atribuida a Salazar em 1966 quando lhe disseram que tinha jorrado petróleo em Cabinda em quantidades mais do que animadoras.
«A produção petrolífera de Angola aumentou mais de 550% desde 1980 e é de esperar que essa tendência se mantenha, na sequência de uma série de grandes descobertas feitas na segunda metade do anos 90 que, nas palavras de um analista, fizeram de Angola «“...indiscutivelmenete, o local mais promissor do Mundo para a exploração petrolífera”».De: Angola Do Afro-Estalinismo ao Capitalismo Selvagem de Tony Hodges, Editora Principia Cascais Junho 2002.
«O sucesso é o pior inimigo de si próprio, um convite à cupidez e à extravagância.» David S.Landes em A Riqueza e a Pobreza das Nações, Gradiva 2001.

1 - História
O interesse pelo petróleo angolano começou logo que o automóvel fez a sua entrada em Angola em 1912. Imediatamente no imaginário angolano começaram as histórias e as lendas sobre petróleo.
Mas antes, em 1910, uma firma comercial antecipou-se e conseguiu, em Lisboa, uma concessão para perfuração de petróleo entre Santo António do Zaire (Soyo) e Novo Redondo (Sumbe). Foi outorgada uma concessão de100 000 km2 à PEMA, tendo esta iniciado os trabalhos em 1915. Perfuraram mais de 500 m sem qualquer exito. Desistiram.
Era vulgar ouvir dizer que em tal parte o petróleo jorrava do solo como se fosse água. Nas anharas humidas em Angola a vegetação rasteira sofre putrefacções, após chuvas persistentes, formando pastas densas e negras, com laivos de gordura, dando a ilusão de que é petróleo. Existir petróleo em Angola era uma frase que os colonialistas não gostavam de ouvir, não fosse ela ouvida pelas multinacionais e, pior, não fosse ela verdadeira. Para susto bastou a PEMA.
Eles intuiam que o petróleo iria inviabilizar a presença portuguesa nas colónias. O raciocínio estava correcto porque logo que o petróleo em Cabinda começou a jorrar abundantemente, imediatamente irrompeu a independência.
A existência de asfaltos, um indiciador de petróleo, no norte de Angola, mais convencia os angolanos de que a descoberta de petróleo era apenas uma questão de tempo. Os asfaltos são um parente pobre dos petróleos mas que fornecem uma pista.
Em 1938, inquieto com a inépcia dos transportes em Angola, o capitão Joaquim Félix, radicado em Angola, empreendeu experimentos, do seu bolso, com os asfaltos dos Libongos. A imprensa apoiou-o, mas as entidades oficiais achincalharam-no. Decorreriam mais 24 anos para que a colónia começasse a pavimentar as estradas, com os seus próprios asfaltos betuminosos, dando razão ao visionário capitão Félix. As autoridades argumentavam que o asfalto dos Libongos não era apropriado para estradas, mas os belgas compravam-no e usavam-no em pavimentações no Congo Belga já na década de 40.
Em 1952 o governador-geral Silva Carvalho pugnou, com veemência, em Lisboa acabando por convencer Salazar a autorizar a prospecção de petróleo. Desta vez ao sul de Luanda, no Parque Natural da Quiçama. Mas tudo em pequeno, a área escolhida não era muito farta em petróleo.
Em 1954 jorrou petróleo, pela primeira vez em Angola, pelo poço Benfica situado nos arredores de Luanda. Um ano depois começou a sua extracção comercial, desta vez reforçada com um novo poço batizado de Tobias mais a sul. Em 1955 a concessionáia-Carbonang- foi autorizada a montar uma refinaria em Luanda para processamento do promissor petróleo angolano. Os produtos desta refinaria destinavam-se, inicialmente, ao mercado de Angola.
Em Maio de 1957 a refinaria, construída em tempo recorde, entrou em funcionamento com processamento de 100 mil toneladas anuais. Angola ficou auto-suficiente em combustíveis. Em 1960 já se processavam 179 mil toneladas de petróleo bruto das quais 65 mil foram absorvidas pelo mercado angolano, o resto destinou-se à exportação.
O petróleo próximo de Luanda nunca atingiu as grandes expectativas geradas entre a população. Poços rasos de pouco rendimento eram suficientes para o abastecimento interno a para alguma exportação. Apesar de modesta em termos mundiais, esta produção teve o seu merito porque formou quadros medios e inferiores na difícil tecnologia do petróleo. Era já uma incipiente tecnologia de petróleo.

2 - O petróleo de Cabinda
Mas em 1966 houve um sobressalto: jorrou petróleo em Cabinda em volumes mais do que promissores. Este facto originou a célebre frase, atribuida a Salazar e transcrita acima. Nesse ano já Portugal estava atenazado, por todos os lados, para tomar uma resolução que resolvesse o anacronismo colonial em que estava envolvido. O petróleo de Cabinda foi um catalisador da independência de Angola.
A produção de Cabinda foi aumentando de ano para ano. Em 1973 as receitas do petróleo sobrepujaram as do café. Em números: petróleo com 147 068 barris diários totalizando 230 milhões de dólares (em 2005 corresponderia a 2,30 mil milhões de dólares); café com 213 407 toneladas totalizando 203 milhões de dólares (em 2005 corresponderia a 2,04 mil milhões de dólares).
A cifra mil milhões (em matemática 109) corresponde ao bilião no Brasil e nos Estados Unidos. Como esclarecimento adiantamos que a terminologia mil milhões está consentânea com o SI (Sistema Internacional de medições) aceite por todas as nações mundiais com excepção dos E.U.A. No sistema SI (agora também adotado pela Inglaterra) o peso é referido em N (newton) e seus multiplos e a massa é referida em gramas (g) e seus multiplos

Fig 1 Plataforma petrolífera no on-shore (águas rasas) em Cabinda, nos anos 70 do século passado. Em primeiro plano uma “tocha” queimando gás natural uma “obscena” maneira de se verem livres do gás que acompanha, normalmente, a produção de petróleo. Naqueles anos o petróleo era abundante mas o consumo mundial era pequeno. Queimar o gás era a maneira mais cómoda e barata de se obter o petróleo.Ainda hoje o gás natural embaraça a extracção petrolífera em Angola, embora já se faça o seu aproveitamento.
 
3 - O petróleo em offshore de Angola


Em relação às jazidas em terra ou em água rasas (até 500 m) os geólogos Richard C.Duncan & Walter Youngquist escreveram um sugestivo artigo na Net (The World Petroleum Life-Cycle 1998) sobre as jazidas de petróleo em todo o mundo (43 países) explicitando-as com curvas de produção ao longo dos anos. Estas levam em consideração o petróleo já extraído e o que pode ser extraído. As curvas abaixo referem-se aos calculos daqueles eminentes geólogos. No caso de Angola não foram incluidas as reservas off-shore descobertas em 1998, após a elaboração das curvas. A nova curva reforça as expectativas angolanas pois augura uma maior “esperança de vida” para o petróleo de Angola.


Fig 2 Curva elaborada por Duncan & Youngquist (1998). A escala vertical refere-se à produção anual e à unidade mil milhões (biliões no Brasil e Estados Unidos). Pormenorizando: 0,35 corresponde a 350 milhões de barris anuais ou sejam 958 904 barris diários. A seguir, em baixo, a mesma curva, adaptada por nós, para barris diários.Não é considerada a existência do petróleo offshore, descoberto após a eleboração deste gráfico. O ramo da curva até 2005 está de acordo com a realidade.

Muitas vezes temos pensado no facto de a independência de Angola ter sido desencadeada atabalhoadamente (com total desconhecimento das realidades e, principalmente, das consequências), a partir de 1974, dando origem a uma descolonização desmiolada (unica na história mundial pelo ineditismo e irresponsabilidade dos “estadistas” que a conduziram). Foi precisamente em 1973, um ano antes, que as multinacionais do petróleo começaram a ver que Angola estava a transformar-se em um promissor campo petrolífero. É uma interessante coincidência, mas mais do que previsível especialmente para aqueles que, naquela época, tinham o privilégio de estudar geo-estratégia mundial.


Fig 3 A curva elaborada pelos geólogos Richard Duncan e Walter Youngquist em 1998 acima referida.A escala vertical à esquerda refere-se a mil milhões (biliões nos E.U.A e Brasil)e a escala à direita refere-se a milhares de barris diários A escala à direita refere-se a barris diários. Observa-se o grande salto em 1970, a quebra em 1976 (independência) com recuperação em 1980, e o grande salto de 1985 até 1995. Em 1992/1993 registou-se uma ligeira perturbação devida à segunda guerra civil.

Em 2005 nesta curva, é visível o declínio da produção, que se vai acentuando ao longo dos anos. Esta curva não leva em conta a produção off-shore descoberta mais tarde. Com a nova estimativa, a partir de 2003 a curva sofrerá uma inflexão para cima, melhorando substancialmente as expectativas dos angolanos.

Fig 4 A parte verde (à esquerda) diz respeito ao petróleo já extraído (até 2003) em um total de 5 mil milhões de barris. A parte azul (à direita) diz respeito ao petróleo por extrair, mas não incluindo aquele que foi descoberto recentemente em águas profundas.A nova curva, neste caso, sofrerá uma inflexão para cima a partir de 2003.Segundo Tony Hodges (Angola-Do Afro-Estalinismo ao Capitalismo Selvagem) as reservas petrolíferas angolanas ascendem a mais de 13 mil milhões de barris. O Departamento de Estatística dos E.U.A. refere-se a 9 mil milhões.
Fig 5 As concessões de petróleo em Angola. Toda a orla marítima, de Cabinda ao Cunene, está tomada por elas. A maior parte está a mais de 100 km da costa (off-shore). Esta exploração é toda em FPSO (Floating Production Storage Offloading) ou seja a produção o armazenamento e a transferência para petroleiros são efectuadas em uma plataforma; dali é transferida para os navios de transporte a longas distâncias. Os angolanos não se apercebem como decorrem estas operações.

É, de certo modo, confortável a possança petrolífera de Angola. Fazendo fé nos números de Tony Hodges (13 mil milhões), devidos às novas jazidas off-shore descobertas depois de 2000, o país tem petróleo para mais 17 anos (2027) admitindo uma produção diária de 2 milhões de barris ou 730 milhões de barris anuais. Se adoptarmos o otimismo petrolífero angolano, que tem coincidido com novas descobertas, podemos imaginar um aumento de produção nas concessões mais a sul de Luanda.
Fig 6 Os blocos mais rentáveis no off-shore angolano. Girassol e Dália são do Bloco 17. Está assinalado o poço Tobias que catalisou o entusiasmo dos angolanos sobre o futuro da então colónia.
Fig 7 Esquema das produções petrolíferas actuais em redor da foz (em estuário) do rio Congo ou Zaire.
 
4 - As FPSO (Floating Production Storage Offloading)


As FPSO começaram a ser ensaiadas em 1970 mas só se tornaram exequíveis nos anos 90. Elas dispensam os pilares de apoio no fundo do mar e o uso de longos e dispendiosos pipelines. Armazenam o crude “sugado”dos fundos oceânicos e depois passam-no para os navios tanques. Quando “secam” os poços, a FPSO levanta as âncoras e vai para outro local. Quase todas provêm de antigos petroleiros que são reforçados e convertidos em sofisticadas estruturas de extração e armazenamento. Quando são construídas de raiz são as FSU (Floating Storage Unit).

Numa FPSO (Produção, estocagem e transbordo em um único barco) faz-se a extração com armazenamento temporário até 2 milhões de barris; posteriormente virá um navio, a cada 4 dias, para receber o transbordo e fazer o transporte para qualquer parte do mundo.

A maior FPSO até hoje construida foi a actual Seawise Giant, um antigo petroleiro que usou os nomes de Knock Nevis, Happy Giant e Jahre Viking. O petroleiro tinha 458 m de comprimento, 69 m de largura e 32 m de altura fora da água. O calado (parte dentro da água) por ser muito profundo não podia passar no canal do Suez e no canal do Panamá. Este petroleiro foi danificado quando atravessava o estreito de Ormuz durante a guerra Irão-Iraque nos anos oitenta. A carcaça foi reconvertida em FPSO e opera no Qatar.

Fig 8 FPSO Knock Nevis,ex- maior petroleiro do mundo: comprimento de 458 m largura de 69 m calado de 30 m. Não podia passar nos canais de Suez ou Panamá. Ficou semi-destruído na guerra Irão-Iraque quando atravessava o estreito de Ormuz. Foi convertido em FPSO e está em ação no Qatar. Na gravura (a vermelho) uma comparação do seu comprimento com diversos emblemas mundiais.
Fig 9 Os blocos em exploração em 2009 situam-se entre Cabinda e Luanda, O Bloco 17 alberga 4 FPSO muito produtivas: Girassol, Dália, Rosa e Jasmim.Estão “em frente”de N´Zeto (ex-Ambrizete).

O Bloco 17 do off-shore de Angola tem uma reserva de 1000 milhões de barris. A plataforma FPSO Girassol extrai por dia 200 mil barris de crude. Esta plataforma está a 135 km da costa de Angola e opera a uma profundidade de 1350 m. Perto, a 10 km, está a plataforma Dália, com as mesmas características e igual rendimento.

A plataforma Girassol saiu da Coreia, puxada por 2 rebocadores, com destino a Angola, à velocidade de 2 nós (3,7 km) por hora. Atravessou os estreitos de Singapura e Malaca antes de entrar no Oceano Indico. Passou pelo Canal de Moçambique (Pemba) e chegou a Angola após mais de 100 dias de viagem ou 27 mil km.

A FPSO Dália tem 300 m de comprimento, 60 m de largura e 32 m de altura. Era um antigo petroleiro que foi transformado na Coreia do Sul.

A maior FPSO em Angola é a Kizomba: produz 240 mil barris diários e armazena 2,2 milhões de barris. Está ao norte de Dália, no Bloco 15 a 320 km da costa, tem 285 m de comprimento, 63 m de largura e 32 m de altura. Extrai o crude de 1 200 m de profundidade.
Fig 10 Esquema geral de uma FPSO.

Fig11 e 12 Esquema e pormenor de uma FPSO


Fig 13 FPSO Girassol no Bloco 17 do off-shore a 135 km da costa angolana; extrai petróleo de profundidades em torno de 1350 m. A Sonangol detem 60 % e a Total os restantes 40%. O bloco 17 tem 3 mil milhões de barris de reserva. Estão em operação 71 dispositivos de extração do crude que é armazenado durante 8 dias na própria FPSO e depois transferido para petroleiros que seguem para diversos pontos do mundo. Esta FPSO extrai 240 mil barris diários que são armazenados até perfazerem 2 milhões; a seguir virá um petroleiro carregar este petróleo.
Fig 14 A complexidade de uma FPSO. Inquestionável: é uma tecnologia de ponta que abrange todas as engenharias. Estarão os angolanos absorvendo todas estas tecnologias como sucede com o Brasil, onde tudo é feito por brasileiros com as suas universidades desenvolvendo programas de pesquisas? Vale ressaltar que o Brasil é o pioneiro da produção de petróleo em alto-mar. É uma tecnologia de ponta que orgulha os brasileiros: eles não aprendem, ensinam; eles não esperam por outros, empreendem rapidamente.
Fig15 Um FPSO: autónoma, é abastecida diariamente com helicopteros e pequenos barcos.É uma mini-cidade. Nesta gravura ela está em viagem: quando o “poço seca” levanta as âncoras e vai para outros mares. Um verdadeiro maná pois não colide com donos de terras, não deixa marcas ambientais, ninguém se apercebe da sua presença.A extracção de petróleo em alto-mar tranquiliza, sobremaneira, as empresas petrolíferas pois não têm de encarar a má vontade dos nacionais. Mas oferece muitos riscos que são expostos por Sonia Shah no livro “A História do Petróleo” ediçãos L&PM Editores, Porto Alegre, Brasil 2006:« As redes de oleodutos submarinos, apesar de muito caras e trabalhosas para a indústria petrolífera, são muito mais seguras do que transportar enormes quantidades de óleo pela superficie do mar em petroleiros e outras embarcações, como exigem os FPSOs. É por isso, ao menos em parte, que os reguladores norte-americanos baniram os FPSOs do Golfo do Méxicoaté 2002». «Os FPSOs podem se movimentar alguns metros para cima e para baixo e se inclinar cerca de quinze graus». Os FPSOs são viáveis no Atlântico Sul onde as ondas raramente atingem uma altura de 5m.
Fig 16 Off-shore de Angola e respectivos blocos. Por enquanto o Bloco 17 é o mais produtivo.

Há indícios de que existe, mundialmente, mais petróleo no mar do que em terra, tudo depende dos avanços da ciência e da tecnologia.Podemos estar tranquilos, mas sob uma certa reserva, pois asseveram-nos, fazendo fé nos relatórios das multinacionais, que “o petróleo não acaba”. A tranquilidade tem um elevado preço e esse é o evidente aquecimento global, descontando os grandes exageros pseudo-científicos gerados à volta dele.
Fig 17 Esquema de uma FPSO. A plataforma “suga”, do fundo do mar, e transfere o crude para um petroleiro que conduzirá a preciosa carga para qualquer parte do mundo.
 
5 - As grandes produçõe petrolíferas no mundo


Desde tempos bíblicos que se conhece o petróleo. Era usado na iluminação e nas cozinhas domésticas. Um derivado, o alcatrão, era usado na calafetagem dos barcos. O Caucaso era a região no mundo onde o petróleo brotava à superficie. O carvão era, então, a grande fonte de energia devido ao seu fácil transporte. A primeira perfuração industrial realizou-se em Baku (Caucaso) em 1848. Em 1850 já era utilizada na iluminação; o célebre candeeiro Petromax (queima petróleo difuso) apareceu em 1857.Até 1850 a base da iluminação era o óleo de baleia. Foi a primeira salvação dos cetáceos, mas não a ultima; ansiamos que os japoneses percam o terrível costume de matar baleias!

O primeiro poço no continente americano entrou em produção em 1858 em Ontário no Canadá. O coronel norte-americano Edwin Drake em Titusville (Pensilvânia) em 1859 foi o iniciador da indústria petrolífera americana ao perfurar um poço com 20 m de profundidadee produção de 30 barris por dia (1 barril de petróleo tem 159 litros). Mas não eram necessárias grandes produções porque o petróleo era utilizado, apenas, para a iluminação.

Mas as grandes possanças americanas estavam mais para oeste: Texas e Oklahoma. Os americanos da costa leste, onde se situa o estado da Pensilvania, desdenhavam dos aventureiros que se esfalfavam na procura de petróleo no Texas. Os pioneiros, quando se aventuram, quase sempre são motivo de chacota.

Com o aparecimento do automóvel tudo mudou. Em 1886 apareceu o primeiro motor de explosão, em 1920 já Henri Ford produzia mais de 1 milhão de carros. Avassalador, o petróleo impôs-se como a primeira fonte de energia.


6 - O primeiro poço gigante da história: Spindletop no Texas

Foi o maior poço de petróleo nos E.U.A. Situa-se ao sul de Beaumont no Texas, a l0 km de Houston.

Em 27 de outubro de 1900 o engenheiro austríaco Anthony Lucas começou a perfurar um poço em cima de um domo de sal, sob fortes e mordazes críticas de colegas e da imprensa. A incipiente produção de petróleo estava concentrada nos estados da Pensilvânia (onde Drake perfurou o primeiro poço petrolífero da história) e Ohio. As teorias da época condenavam esta perfuração, especialmente a imprensa destes dois estados. Outro arrojo dos “aventureiros” do Texas era a perfuração com brocas rotativas em contraste com a percussão os chamados “pica-paus” (derricks).

Em 10 de janeiro de 1901, quando a perfuração atingiu os 300 m, (um contraste com a profundidade de 20 m na Pensilvânia) o furo começou a “a roncar e a vomitar lodo negro com pedriscos” , que caiu sobre as pessoas, sobre toda a aparelhagem e sobre uma apreciável área de serviço circundante. Todos se puseram rapidamente a salvo, a uma conveniente distância. E esperaram ansiosos. O fluxo parou mas continuou ameaçador, “roncando”. Todos voltaram, recomeçando as limpezas, mas desconfiados. Parece que foi de propósito, o poço eclodiu com uma fúria que deixou todos estupefactos, mas explodindo de alegria. Irrompeu um autentico geyser de petróleo atingindo os 60 m de altura-mais 18m do que o seu derrick (torre) encharcando tudo e todos com petróleo. Esta cena inspirou cenas semelhantes nos filmes “O Gigante”, “Cimarron” (em Oklahoma) e modernamente no filme “ Haverá Sangue”.

Spindletop batizado de Lucas, produzia 12 000 m3 (80 000 barris) de crude por dia. Antes deste fenómeno o poço de maior produção no mundo produzia 50 barris diários (8 m3). Havia teorias de que não era possível passar desta marca. O Lucas desmentiu as teorias: fornecia um volume 1 600 vezes maior, um valor inimaginável até então. Spindletop provou que aquecendo as camadas de rocha podem-se obter volumes consideráveis de crude. Provou também a superioridade dos furos rotativos em relação à percussão. Foi o início da moderna tecnologia do petróleo que, desde então, tem sempre desafiado o “status quo”. Quando se julga que “nâo há mais nada para descobrir” aparece uma nova e desafiante tecnologia. O caso mais actual é o das FPSO descritas atrás. Os pioneiros que tentam adoptar novas e ousadas tecnicas são sempre crismados de malucos. Felizmente “eles” persistem nas suas loucuras.

Em 1903, 2 anos depois, o primeiro furo (Lucas) já estava atabafado com milhares de derricks.
Fig 18 O célebre poço gigante de Spindletop e os felizes operadores.
Fig 19 O campo gigante de Spindletop no Texas, 2 anos depois da erupção do Lucas.
Fig 20 Sondagem à percussão (pica-pau). Aplica-se quando a profundidade não vai além de 30 m, em rocha mole. Na Pensilvânia o petróleo, em alguns locais, jorrava à superficie; tinha-se como definitiva a ideia de que o petróleo estava sempre muito à superficie. Em Oklahoma, em Spindletop, aplicou-se a perfuração rotativa que atingiu grandes profundidades.


7 - O campo petrolífero super-gigante em Ghawar na Arábia Saudita

O maior campo petrolífero, até hoje descoberto, situa-se na Arábia Saudita; é Ghawar abrangendo uma área de 7300 km2 (280 km por 26 km), a 250 km e leste da cidade de Riad e a 150 km a Oeste de Qatar. Foi descoberto em 1948 com início da exploração em 1951. Perde eficiência à taxa de 8% ao ano. Produz 5 milhões de barris por dia e 8 mil milhões (8 biliões no Brasil e E.U.A) de m3 de gás natural.

Recebe a designação de gigante um campo petrolífero que produz mais de 500 mil barris por dia. O campo gigante de Ghawar com 5 milhões de barris por dia é o maior no mundo.
Fig 21 Berço da atual civilização o Médio Oriente é hoje a região mais problemática de todo o mundo
Fig 22 O Medio Oriente detém mais de 60% de todo o petróleo mundial. O eixo desta área nevrálgica é o Golfo Pérsico. É um petróleo “em terra”, de fácil extração e com custos pequenos, que serve para moderar os altos custos do petróleo obtido “no mar”. Os impactos ambientais nunca tomam a gravidade dos que sucedem nos offshores. Os incendios “em terra” debelam-se com relativa facilidade.
Fig 23 Campo gigante de Ghawar na Arábia Saudita próximo do Golfo Pérsico ou Arábico. Com a evidente depleção do petróleo fácil esta área já é um ponto vermelho de conflitos, no mapa mundial.


8 - Nigéria

A Nigéria foi o segundo produtor africano de petróleo durante os ultimos anos (o primeiro é a Líbia). Quase toda a extração petrolífera nigeriana situa-se no delta do rio Níger. Este rio tem uma área de bacia hidrográfica de 2 117 700 km2 e um estirão de 4 180 km; nasce na Guiné, passa pelo Mali, Niger, e fronteira do Benim antes de atingir o delta. É o terceiro rio mais longo de África, depois de Nilo e Congo.

O delta é pujante de petróleo embora a produção tenha vindo a cair nestes ultimos anos, não só devido às próprias jazidas, que vão perdendo rendimento ao longo do tempo (ver abaixo a curva de Duncan e Youngquist), como também a circunstâncias sociais que se vão agravando de dia para dia. Os conflitos com as populações locais começaram em 1990 e têm-se agravado desde então.

Ocupação de terras agrícolas de grande fertilidade com estruturas petrolíferas, com fracos critérios de indemnizações, agravada com terríveis poluições do solo, da água e do ar proporcionaram uma situação de pré-guerra civil. São constantes os ataques às infrastruturas e especialmente aos “pipe lines” (tubagem de transporte) provocando incêndios devastadores com muitas mortes. Esclarecemos aqui que o delta do Níger (como é intrínseco de todos os deltas) é eco-agricolamente muito rico, não é de admirar a sua enorme densidade demográfica.

A produção Nigeriana tem vindo a cair de tal maneira que já foi sobrepujada por Angola. Além de petróleo o delta do rio Níger é abundante em gás natural, existindo uma refinaria para transformação do gás natural em LNG (gás natural liquefeito).

Fig 24 Delta do rio Níger. Rico em petróleo coloca a Nigéria em 10ª reserva mundial com 36,2 mil milhões de barris (36,2×109 ). É a 2ª em África com a Líbia (41,5 mil milhões) liderando.O petróleo da Nigéria é todo in-shore (em terra) o que tem trazido grande turbulência culminada com a pré-guerra civil. Os povos que habitam no delta não se conformam com os tremendos impactos ambientais provocados pela produção e pelas consequentes injustiças sociais. Na verdade o petróleo emprega pouca gente, quase toda com alta qualificação o que significa estrangeiros, denominados, agora, de expatriados. (ex-cooperantes). O petróleo inutilizou vastas áreas agrícolas de elevada fertilidade.

Na figura notam-se, a castanho (marron) os imensos e longos pipelines que saem de todos os poços. Isto tem originado pavorosos incêndios, com centenas de perdas de vida, devidos aos furos clandestinos para “re-extração” de crude.

Esta pequena guerra civil tem desencorajado as empresas petrolíferas que se “estão virando” mais para sul ou seja para Angola. Aqui o petróleo está quase todo em off-shore a mais de 100 km da costa angolana.É uma extração muito longe de qualquer bisbilhotice, os angolanos nunca se aperceberão de tal riqueza e como é extraída.Em termos sociais é, também, uma extração offshore dos olhares curiosos.
Fig 25 Curva da produção de petróleo da Nigéria, segundo Richard C.Duncan & Walter Youngquist (1998). A escala vertical diz respeito à produção de barris de petróleo por ano, multiplicada por 109. Assim 0,8 significam 800 milhões anuais ou 2,2 milhões de barris por dia. Um barril tem 159 litros. Verifica-se que o declínio começou em 2005. Além desta previsão há que acrescentar as intensas perturbações provocadas pela exploração petrolífera no delta do rio Níger: os povos revoltaram-se devido aos choques ambientais e sociais trazidos por ela.Em África a Nigéria perdeu o cetro da exploração petrolífera a favor de Angola. Mas em Angola o petróleo é extraído do mar, a mais de 100 km da costa, longe de todos os olhares.Os angolanos nem se apercebem, no terreno, que são detentores de uma imensa riqueza petrolífera. Mas apercebem-se, e como, que dela nada beneficiam!
 
9 - O petróleo no Mundo


Principais países produtores de petróleo
Valores de produção em 2008 em milhões de barris diários
Fonte: Departamento de Estatística dos Estados Unidos da América
Angola deverá atingir, muito brevemente, os 2 milhões de barris por dia.

Fig 26 Países produtores de petróleo.


Maiores exportadores de petróleo
Valores de 2008 em milhões de barris diários
Fonte Departamento de Estatística dos Estados Unidos da América


Maiores consumidores de petróleo
Valores de 2006 em milhões de barris diários
Fonte: Departamento de Estatística dos Estados Unidos da América

O consumo mundial diário de petróleo cifra-se em torno de 85 milhões de barris (13,5 milhões de m3 ) ou seja é um “ rio” de petróleo com um caudal de 156 m3/s. À velocidade normal da água (1 m/s, inadmissível para petróleo pois, para este na prática, seria muito menor) o crude seria transportado por uma adutora (tubo circular) com 14 m de diâmetro, dia e noite, durante um ano. Para um transporte teórico de petróleo a velocidade no tubo teria que ser muito menor do que 1 m/s o que aumentaria, substancialmente, o respectivo diâmetro.

Fig 27 Consumo diário mundial de todos os países do Mundo. Total: 85 milhões de barris por dia.


10 - As 20 maiores reservas petrolíferas do Mundo em 2007
Valores em mil milhões (biliões no Brasil e E.U.A)
Fonte: Departamento de Estatistica dos E.U.A

Fig 28 Segundo Tony Hodges em” Angola Do Afro-Estalinismo ao Capitalismo Selvagem”: «...as reservas totais estimadas do país, incluindo quer as comprovadas, quer as prováveis, ascendiam já, nessa data, a 12 300 milhões de barris, ou seja ao equivalente a 38 anos de produção aos mesmos níveis (MINPET, 2001)».A gravura inclui 9 mil milhões valores admitido pelo Departamento de Estatística dos Estados Unidos da América. Fonte deste gráfico: Internet.

Unidades: Billion significa 109 ou no sistema SI (oficializado na União Europeia) mil milhões.
Fig 29 Países africanos produtores de petróleo. As maiores reservas estão na Líbia (43,7 mil milhões) e Nigéria (36 mil milhões). Seguem-se a Argélia (12,2 mil milhões) e Angola (9 mil milhões) Todas as reservas estão em onshore (em terra) excepto Angola que estão em offshore (no fundo do mar). Em Ghana e no Uganda as reservas foram descobertas muito recentemente. Estes países estão sob forte confusão de sentimentos levantada pela seguinte pergunta: “Será que se vão repetir aqui as mesmas desgraças que grassam por todo o continente africano?”Os produtores africanos estão integrados no segundo time; no primeiro time, até 80 mil milhões de barris incluem-se a Arábia Saudita, Irão, Iraque, Kuwait, Emirados Árabes Venezuela e Rússia.


11 - Os maiores emissores de CO2
Valores referidos ao período 1990-2002

Fig A China é o maior emissor de CO2 mas é também o mais populoso país do mundo

12 - As descobertas de jazidas

Fig 30 O século do petróleo. O período entre 1940 e 2000 foi a época dourada das descobertas de novas jazidas. Isto criou no homem comum uma sensação de eternidade energética, mas a partir de meados dos anos 90 a curva dos consumos passou para cima da curva das descobertas o que prenuncia uma depleção a longo prazo, Mas há reservas colossais de gás natural, basta fazerem-se rápidas reconversões, embora o transporte de gás seja mais problemático e dispendioso.
12 - Petróleo não convencional


Os mais otimistas argumentam que o petróleo nunca faltará, até se descobrir uma outra fonte de energia. Este otimismo é alimentado com a esperança de que se descobrirão mais jazidas no mar, à medida que se vão aperfeiçoando ou aparecendo tecnicas mais evoluídas de prospecção e exploração.

No Canadá, em Alberta na bacia do rio polar Atabasca, existem milhões de toneladas de areias betuminosas que depois de processadas fornecem petróleo. A possança destas areias, convertíveis em petróleo, é simplesmente colossal, da ordem de 3 vezes as reservas da Arábia Saudita. A extração das areias é feita por processos de terraplenagem com gigantescas máquinas. As areias são aquecidas e depois processadas. O processamento é violento em termos ambientais, pois para se obter um barril de petróleo (159 litros) movimentam-se 2 toneladas de areia e é libertado para a atmosfera um volume de CO2 de 3 a 5 vezes maior do que o usual na obtenção do petróleo convencional. Escusado será dizer que os danos ambientais são inimagináveis. Podemos afirmar que, com estas areias a humanidade não sucumbirá com a depleção do petróleo, mas morrerá com a “sufocação” provocada pelo excesso de CO2.

O Canadá já extrai, por este processo, cerca de 1 milhão de barris diários. Em Alberta a Greenpeace está atenta e atingem muitas dezenas os seus constatantes e acerados protestos.

Na bacia do rio Orenoco, na Venezuela, existem iguais jazidas de areias betuminosas na mira das grandes multinacionais de petróleo, em uma área de 12 000 km2.

Fig 31 Uma pá-escavadora (shovel) carregando um camião fora de estrada em Alberta. Cada balde tem 20 m3 ; o camião transporta, em uma unica viagem, 200 t (100 m3) de material betuminoso.Pode ver-se ao fundo a profundidade da possança das jazidas.

Fi 32 Areia betuminosa de Alberta no Canadá. A possança é colossal, pode-se obter um numero de barris de petróleo 3 vezes superior ao da Arábia Saudita mas só após processamentos muito energívoros e poluentes. Na bacia do Orenoco (Venezuela) existe uma possança da mesma ordem de grandeza. Deus nos valha!
Fig 33 Xisto betuminoso: diferente das areias betuminosas, é mais compacto mas dele se podem, também, obter mihões de barris de petróleo através de processamentos cinco vezes mais danosos para o ambiente do que os utilizados na obtenção do petróleo convencional. Será que vale a pena obter-se uma tal vitória pírrica?

Fig 34 Uma escavadora gigante em operação nas areias betuminosas do Canadá. Ao fundo podem ver-se carrinhas vulgares umas anãs em comparação com as escavadoras. Dá para se aquilatar os colossais depósitos existentes na área. É uma Arábia Saudita de petróleo, mas em estado sólido.Há já umas teorias estapafurdias preconizando injectar o CO2, proveniente da produção e queima de petróleo no mundo, no solo, ou seja adoptando a velhíssima ação de despachar o lixo para debaixo do tapete. Uma outra ação, ainda mais anedótica, é a descoberta pelos bancos: os países não desenvolvidos, com quotas de CO2 abaixo dos limites, podem vendê-las aos países infractores (créditos de CO2) ou seja pode sempre continuar o “regabofe” da queima indiscriminada de combustíveis fósseis. Trata-se de duas incríveis operações: proteger os países que não têm competência para reduzir a taxa de gases de estufa e abrir mais uma frente de especulações bancárias oferecendo serviços virtuais, desta vez um gás.Já não bastaram as casas e os créditos malparados!

Fig 35 Camião gigante, fora de estrada, que faz os transportes de areia betuminosa em Alberta no Canadá.O petróleo não convencional é inicialmente processado como solo, através de terraplenagens. Posteriormente será aquecido com vapor de água, Obtém-se um óleo viscoso que será processado em refinarias. Muita energia gasta e muitos danos ambientais em cima de um rio polar, o Atabasca.


13 - Conclusões

1) A pertinácia do governador-geral Silva Carvalho em 1952 conseguiu que Lisboa autorizasse as primeiras sondagens de petróleo em Angola, nos arredores de Luanda. A concessão foi entregue a uma firma de capitais maioritários belgas.

2) O petróleo em Angola jorrou pela primeira vez em 1954. Foi, de imediato, construída uma refinaria que lançou os primeiros produtos em 1957. Angola passou a ser auto-suficiente para o seu pequeno consumo. As prospecções viraram-se para Cabinda, dada a fraca possança das jazidas proximas de Luanda.

3) Em 1966 jorrou petróleo em Cabinda em volumes que provocaram entusiasmos, preocupações e acenderam luzes amarelas de aviso (optimistas) dentro das multinacionais, e vermelhas (pessimistas) para o governo de Lisboa. Em 1973 o volume de divisas do petróleo sobrepujou o do café, até então o maior suporte económico de Angola. Não citamos os diamantes porque a sua extracção e comercialização passavam ao arrepio da balança comercial angolana. Abordaremos os diamantes em posterior ensaio.

4) Sintomaticamente em 1974, um ano depois, iniciou-se o processo de descolonização: Portugal foi obrigado a proclamar a independência de Angola, ou seja a “largar” rapidamente as riquezas petrolíferas.

5) Foram dificeis e confusos os primeiros anos da independencia. Nós, naquela santa ignorância que caracteriza os bem-intencionados (e mal informados especialmente) julgávamos qua as multinacionais do imperialismo norte-americano tinham os dias contados em Angola. Elas eram sempre um alvo dos movimentos independentistas.Mas o impossível, visto pela nossa otica, aconteceu: as multinacionais continuaram e a sua segurança acabou por ser feita por tropas, pasme-se, ... cubanas com o auxílio secreto da ...KGB. ´

6) Duas guerras civis, uma a seguir à independência e outra depois de 1991 atrasaram a exploração petrolífera. Em 1973 a produção era de 158 900 barris diários mas decresceu até 1976 com 46 530 barris; a partir deste ano foi um crescendo até à atualidade, quase a atingir os 2 milhões de barris diários, ultrapassando a Nigéria que está sob perturbações inerentes a guerrilhas internas.

7) Dependendo da produção anual o petróleo de Angola durará mais de 15 anos.

8) Quais foram as consequências para Angola de tanto petróleo? Como se lidou no país com tanto dinheiro? Será o tema de um nosso próximo ensaio “As fases da economia de Angola”.
Luiz Chinguar
 

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Pescas em Portugal Ultramar - um apontamento histórico ( António Martins Mendes - Faculdade de Medicina Veterinária - Lisboa)

Resumo: A extensa fronteira oceânica e a localização geográfica de Portugal fizeram dos Portugueses grandes consumidores de pescado, mesmo não sendo a costa muito rica em pescado. Em 1939 os reis de Portugal e Inglaterra assinaram um tratado para que os pescadores portugueses pescassem nas costas de Inglaterra, pagando os mesmos direitos que os habitantes locais. Desde a expansão e descobertas que seguiam pescadores no rasto das caravelas os quais se estabeleciam em baías desertas desde que a pesca aí se tornasse rentável.
A colonização das costas de Angola ao sul de Benguela iniciaram–se apenas em meados do Século XIX, em Moçâmedes, Porto Alexandre, Baía dos Tigres, etc.
A vida era difícil uma vez que não existia água doce disponível a sul de Moçâmedes, mas era compensada pela abundância de peixe que era capturado, salgado e seco.
Apesar da má qualidade do produto final os pescadores conseguiam exportar este pescado seco e salgado para algumas colónias africanas mas muitas toneladas de produto foram destruídas em Angola.
Apenas com técnicas primitivas os pescadores conseguiam também preparar óleo e farinha de peixe. A indústria pesqueira foi-se desenvolvendo e transformou-se numa indústria próspera. Os Serviços Veterinários intervinham para garantir a qualidade e a higiene do pescado e produtos derivados. Foram instaladas fábricas de enlatados em Benguela, Luanda e outros portos. Mercados do interior abasteciam–se de peixe refrigerado e congelado que lhes chegava por caminho-de-ferro. Para reforçar a sua actividade, os Serviços Veterinários criaram laboratórios nos portos pesqueiros e um serviço especial de bacteriologia para o controlo de Salmonella nas farinhas de peixe.
Como consequência do aumento das actividades pesqueiras e da importância económica da sua indústria foi criado em 1970 o “Instituto das Indústrias da Pesca de Angola”. Em 1973 a soma envolvida nas pescas e indústria pesqueira chegou aos 1.550.804.000$00.
Em Moçambique, apesar da longa costa marítima de 2.975 km, a situação era completamente diferente. As actividades piscatórias limitavam–se à pesca tradicional praticada na maior parte das vezes junto a estuários, com especial incidência na Baía de Lourenço Marques (actualmente Maputo).
Alguns cientistas Sul-africanos trabalharam em águas Moçambicanas na identificação de espécies de pescado locais e o camarão transformou–se no ex-libris local.
Em 1966 um instituto especializado em estudos científicos de pescado foi instalado em Angola e em Moçambique, mas estes aspectos serão referidos em outra nota histórica sobre as actividades dos médicos veterinários portugueses.

Continua...
Texto completo, clicar AQUI

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A fundação de Moçâmedes (Namibe-Angola). Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, 04 de Agosto de 1849


Busto de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, sobre coluna com dedicatória, que existiu no tempo colonial na Avenida de Moçâmedes

                                                                      
Do livro “Memórias de Angra-do-Negro, Moçâmedes - Namibe - Angola- desde a sua ocupação efectiva” da autoria de António Augusto Martins Cristão, passarei a transcrever o seguinte texto:

"...Em 1848, o nosso Império no Brasil vivia horas de indizível agitação: Na cidade de Pernambuco estalara a revolução política. O ódio e a perseguição manifestaram-se de imediato, fazendo sofrer as mais indignas crueldades e degradantes humilhações a compatriotas nossos que ali procuravam ocupação. É, então que, oprimidos cada vez mais, concebem o projecto de fundar em África uma colónia agrícola que possa valorizar o património nacional. Assim Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, que mais tarde seria o chefe do primeiro colonato, fica incumbido de apresentar ao Governo Português o arrojado empreendimento que se propõem levar a efeito. Pedem informações detalhadas de relatórios, de memórias e de mais documentos para que pudessem avaliar da região mais apropriada para se instalarem. Pedem, igualmente, auxílio financeiro ao Governo para custear a sua deslocação e aquisição de engenhos para fabrico de açúcar.

Com o empenhamento de Simão José da Luz Soriano, chefe da repartição de Angola no então Ministério do Ultramar, junto do Ministro - O Visconde de Castro - , é então garantido todo o auxílio e facilidades necessárias àquele arrojado empreendimento.

A verdadeira ocupação desta parcela e, por conseguinte, do que nela se ergueu, deve-se assim e indubitavelmente, à impulsiva decisão, inteligência e heroicidade patriótica daquele que jamais será esquecido saudosamente pelos moçamedenses, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro que, em 13 de Julho de 1848, enaltecido do espírito de demandar terras de África e animado por uma conta de sem recuo endereçou uma carta ao ministro e secretário de estado dos Negócios da Marinha e Ultramar da Nação Portuguesa, escrita em Recife de Pernambuco, onde se pode ler:

...Eu, que livre de orgulho, afirmo poder seguir para onde me conviesse, sacrifiquei-me a esperar, a ir compartilhar dos trabalhos e reveses que acompanham o estabelecimento de uma colónia, só porque vejo que coligo acarreto algum número, mormente dos mais úteis, que são os que entendem do fabrico dos açucares e plantação de canas e mesmo do tabaco e café pois que vivo em relação a muitos engenhos, tendo neles arranjado vários, e hei-de dedicar-me a conhecer com fundamento o modo mais profícuo de fazer açúcar, de agricultar a cana com vantagem, segundo a natureza do terreno e a tirar da matéria prima toda a possível utilidade, mormente com as destilações que, bem dirigidas, são de sumo interesse. Vª Exª desculpará na certeza de que não o faço porque não esteja persuadido do seu profundo saber, mas porque muitas vezes a lembrança de um homem medíocre faz produzir medidas acertadas.


Modéstia! Bernardino não era um homem medíocre. Era um homem de extraordinária visão. Um grande português da estirpe dos "barões assinalados", cujo nome a história registaria com orgulho. Um portugues, que, já nessa altura defendia a tese de que a emigração do País deveria ser canalizada para as suas possessões ultramarinas.

Felizmente que a petição de Bernardino foi atendida. A Portaria nº 2063 de 26 de Outubro de 1848 dizia:
...Tenho um grande número de cidadãos portugueses residentes na Província de Pernambuco, no Império do Brasil, feito constar a sua Majestade a Rainha, que desejavam passar para algum ponto das possessões portuguesas, houve por bem em Portaria desta data, mandar expedir providências necessárias para a passagem dos mencionados portugueses para o lugar das possessões portuguesas em África que por eles for escolhida.

Em 29 de Março de 1849, o Governador Geral de Angola -Adrião Acácio da Silveira Pinto- informava o Ministro da Marinha e Ultramar de ter sido escolhida a província de Angola e o estabelecimento de Mossãmedes para a formação da colónia.

Em 23 de Maio do mesmo ano, cento e oitenta colonos (116 homens, 39 mulheres e 25 crianças), com Bernardino a chefiar, deixam Pernambuco, rumo a Mossãmedes, embarcando na barca brasileira «Tentativa Feliz» e no brigue de guerra «Douro». Foi de facto uma tentativa feliz.

Bernardino faz assim a descrição dessa viagem aventurosa:

...Foram os brasileiros quem fez lembrar aos portugueses que escusavam de melhorar terras alheias, quando tinham ainda muitas suas onde podiam procurar fortuna sem sofrerem insultos. E não pareça que é exagero, não, que lá está o dia 23 de Maio deste ano - dia em que o brigue de guerra «Douro», comboiando a barca «Tentativa Feliz» que a seus bordos conduziram 180 colonos, saiu do porto do Recife, à vista de numerosíssimo povo, para falar tão alto, atento o número de testemunhas, que bem se pode aplicar a este respeito o que sobre outrora disse o nosso sempre admirável Camões:
«Estão pelos telhados e janelas
Velhos e moços, donas e donzelas...

 
Levando consigo máquinas, instrumentos rurais e seus haveres, e até para nada lhes faltar, víveres para os primeiros tempos, era de pasmar ver aquela gente sair de uma bela cidade, divisando-se no rosto de todos a maior alegria, mesmo sabendo que trocavam uma habitação cómoda e divertida, para irem desembarcar num areal, onde o seu primeiro cuidado seria o de edificar uma cabana para se abrigarem das injúrias do tempo. A todos se ouvia dizer, ao desaparecimento da terra, o que Castilho disse nos seus «Ciúmes de bordo»:
...Sumam-se à vista
Os últimos oiteiros
Dessa terra falaz...

E se sofrimentos houveram na viagem, nem por isso se ouviram queixas. Algum génio mau quis apurar-lhes a paciência: ventos contrários e bonançosos, com repetidas calmarias, tornaram a viagem longa; todos os colonos iam mal alojados e a epidemia das bexigas desenvolveu-se a bordo, chegando a haver, simultaneamente, 56 doentes, entre colonos e a tripulação. Três adultos e cinco menores pereceram. Não havia facultativo: para os atender tanto exerciam tais funções o encarregado de governar a colónia como o capitão da barca, coadjuvados por um barbeiro e dirigidos por um cirurgião do «Douro» - Francisco António Chagas Franco - o qual logo que da barca se fazia sinal de que era necessária a sua visita, vinha a bordo. Veio quatro vezes com tal prontidão e tão boa vontade que ão sei qual possa elogiar-se mais , se ele em vir, se o comandante em o mandar.

No dia 1 de Agosto entrou em Moçâmedes o Brigue «Douro» e, no dia 4 do mesmo mês, a barca "Tentativa Feliz". com 74 dias de viagem. Os colonos vêem outra vez realizado o que o nosso poeta disse outrora aos seus heróis ascendentes:

..Já sois chegados, já tendes diante
A terra de riquezas abundante...


Enquanto os colonos e os majores Horta e Garcia se instalavam e examinavam os terrenos aptos para a agricultura, Bernardino seguiu, no dia 16 do mesmo mês, a bordo do brigue «Douro», para Luanda, a fim de se avistar com o Governador Geral. Chegado no dia 22, ali se demoraria cerca de dois meses. O Governador recebeu-o «com as mais decididas provas de contentamento, que igualmente foram manifestadas por todas as autoridades e habitantes da cidade. E Bernardino termina o seu relato:
.
..Esta empresa bem se pode chamar das incredulidades desfeitas, portanto:
1º) Parecia inacreditável que houvesse quem representasse o Governo de S. M. , porque muitas vezes haviam acontecido no Brasil casos iguais aos dos dias 26 e 27, e nunca houve o menor movimento: mas alguém representou.
2º) Parecia inacreditável que o Governo pudesse mandar navios para proteger os seus súbditos: mas mandou.
3º) Parecia inacreditável que ele pudesse fazer despesas para coadjuvar e transportar para as possessões africanas os que para elas quisessem seguir: mas pôde.
4º) Parecia inacreditável que houvessem colonos que se arriscassem a vir para África, depois do que havia acontecido a outros: mas houve.
5º) Parecia inacreditável que em Mossãmedes houvessem providências tomadas para a recepção do colonos, atentos ao pouco tempo e ao estado financeiro da província: mas houve.
6º) Parecia inacreditável que houvessem bons terrenos n local escolhido: mas houve.
Resta ainda uma incredulidade a vencer, a qual afecta a todos e vem a ser: se com efeito desta vez se montará a agricultura nesta velha parte do mundo antigo de forma a que se lhe façam trajar as galas de uma bela jovem; eis o que a breve espaço de um ano há-de resolver, no fim do qual se poderá dizer como Camões:
«Que verá tanto obrar tão pouca gente...»


Pelos seus incontestáveis méritos Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro é leito, por maioria de votos, em 14 de Outubro de 1849, para o Conselho Colonial de Moçâmedes. Esta qualidade reforça o prestígio do ousado português. Todos lhe obedeceram. Todos o reconhecem como chefe. Todos acatam, esperançadas as suas ordens. pelos colonos são distribuidos os terrenos incultos do rio Bero. Escolhe-se o Vale dos Cavaleiros para instalação de engenhos agrícolas. Começa o «fervet opus», como diz o próprio Bernardino:

...É um bulício. Todos edificam casas na povoação que escolheram para habitar: outros nas faldas da serra dos Cavaleiros (de basalto laminado) no sítio chamado dos Namorados e que dista uma légua; outros roteiam terras nas hortas, outros no sítio da Olaria, onde se vai fazer tijolos e telhas; outros na Várzea da união, duas léguas longe dali; outro no fim co vale dos Cavaleiros, que dista três léguas e que é onde se vão levantar os primeiros laboratórios sacarinos: lá se vê um carro carregado de caibros (barrotes de madeira), ali pretos conduzindo junco e tábua, acolá as autoridades, montadas em bois, percorrendo e medindo os terrenos: noutra parte se quebra a pedra que se vai carregando juntamente com o barro; as paredes para as casas crescem visivelmente; a capela de Santo Adrião antes de um mês ficará ponta de paredes; enfim, ou antes de pouco tempo teremos de ver Mossãmedes uma sofrível povoação, e seus arrabaldes bem agricultados, ou se ficará o «mons parturiens» do velho Fedro.

A sua objectividade sensata e clássica de escrever é própria de um grande português, de um grande Chefe. Embora tudo pareça estar a correr de feição, a ele e aos colonos, para ele não era bom sinal que assim estivesse. Sempre os reveses estão na génese dos grandes cometimentos. Graves dificuldades surgiram. primeiro a inadaptação dos colonos. Depois a estiagem de longos meses. As sementes não seriam das melhores, nem haviam sido lançadas á terra na altura mais propícia. a terra, habituada á preguiça da infecundidade, negava-se a produzir. O desalento instala-se na alma dos colonos.

É então que Bernardino houve como Moisés relativamente ao seu povo

...Antes fossemos mortos em terras de Pernambuco, quando estávamos sentados junto às panelas das carnes e comíamos pão com fartura. Porque nos trouxeste a este deserto , para matar á fome esta multidão?.

 É neste transe difícil que se revela a indomável força de vontade de Bernardino, e sua certeza de vitória. No meio do seu povo exclama:  

...Só será salvo o que preservar até ao fim!

Por esta altura, uma colónia composta de 145 emigrantes portugueses, sob a direcção de José Joaquim da Costa, deixa o Brasil a 13 de Outubro de 1850 e chega a Moçâmedes a 26 de Novembro do mesmo ano. A esta gente se fica a dever parte do êxito agrícola que a partir daí se obteve, pelo grande ânimo que deu aos primeiros colonos, unindo-se-lhe com vivacidade.

Não tardou que outros se viessem juntar, provenientes, especialmente da ilha da Madeira (220 a bordo do vapôr Índia, chefiados por D. José Augusto da Câmara Leme), já que desta mesma origem era avultado o número dos que se achavam nas terras do planalto do Lubango, dada a conhecida fertilidade do seu solo a par do seu óptimo clima, em nada diferente ao da sua ilha.

Mais tarde sucederam-se-lhes outros vindos da Metrópole. O fluxo mais importante , sob o ponto de vista piscícola, foi o dos povos do Algarve, por lhes ter chegado ao conhecimento, quanto de rico em peixe era o seu mar e até, quanto mesmo era de bonançoso e nada de temer. Sabiam-se conhecedores das artes de pescar e das que pensavam em vir a instalar ali. Levaram consigo os aviamentos de pescar com linhas de certa robustês, anzóis de vários tipos para a pesca de pequenos e grandes peixes, não só da superfície como do fundo, chumbadas, roletes de cortiça, cabos de variadíssimas espessuras e até modelos de covos para aprisionar polvos, chocos, caranguejos do fundo (tipo santola), lagosta, etc. etc.

Mas o tempo impiedoso corria célere. A pesca restringida a uma simples rede que não ia além de cem braças de comprimento e alada de terra a pulso estava só a dar o bastante para o consumo do povo do colonato. Havia que aumentar a quantidade de pescado para que também viesse a dar para abastecer o interior e até os povos dissiminados pela vizinha província da Huíla.

A ânsia de progredir estava no ânimo de todos. Os pequenos barcos que ali existiam não satisfaziam. Havia que aliciar construtores navais que para ali viessem instalar os seus estaleiros, de maneira que ali construissem barcos idênticos aos que no Algarve eram utilizados na várias redes e pescar.

A convicção do entusiasmo convence outros conterrâneos. Prestaram-lhes as informações precisas das madeiras necessárias para as estruturas a construir (esqueletos, braços, quilhas, etc.) que ali teriam em abundância e que a mulemba (Ficus psilopoga) lhes poderia fornecer a contento. Somente teriam de trazer tábuas de pinho, das medidas que achassem indicadas, para barcos de 10 a 15 toneladas. Como complemento teriam de trazer estopa, breu, cavilhame, sebo, tintas e em suma, tudo quanto achassem de trazer, sem esquecer lonas para as velas, fios de cozer, agulhas para palomar, cabos para guarnecer as mesmas e para as adriças, ostagas, amuras, cabeleiras para as prôas, etc. etc.

E foi ssim que, cheios de entusiasmo, esperança e fé, se trasferiram, do Algarve para Mossãmedes, os conterrâneos construtores navais, por sinal de grande prestígio. De distinguir o primeiro - Manuel Simão Gomes - a quem os petizes chamavam de avô Leandro e que instalou um estaleiro junto da praia, perto de uma escola primária, pertencente D. Maria Peiroteu, dentro da baía, a uns escassos passos da Fortaleza S. Fernando. O segundo, José de Sousa - conhecido por José de Deus - (como atrás referido) - acompanhado pelo calafate João de Pêra, estabeleceu-se numa das praias junto do morro da Torre do Tombo.

Em 1856, com a existência de 36 casas de pedra e 8 de adobe, que albergavam parte da população, nasce o Município de Moçâmedes.

Terá de reconhecer-se que foi às primeiras colónias de emigrantes de Pernambuco que se ficou a dever o verdadeiro incremento do local conhecido por "Mossâmedes". A glória de não só haverem erguido um Distrito que se notabilizou, como também pel facto de terem iniciado, a preceito, a agricultura da região: horticultura, fruticultura, cultura de algodão, cana sacarina para produção de açucar e à industrialização de pescado. também é de reconhecer que foi aqui que nasceu a primeira tecelagem da Província, embora só com um fuso, para o fabrico de tecido grosseiro dada a qualidade das fibras ao seu alcance.

Segundo Duarte Pacheco à medida que se progredia para sul da costa africana, esta ia-se tornando cada vez mais escassa em arvoredo e em moradores. Nas alturas de entre Porto Alexandre e a Baía dos Tigres a "terra eh baixa e maa de conheser" e mais adiante a navegação costeira torna-se difícil. Nestas paragens Pacheco refere a existência de "gente pobre que se nom mantem nem uiuem senom pescaria" e que esses negros faziam "cazas com costas de baleas cobertas com seba do mar" lançando-les por cima areia " e aly passam sua triste uida».
In “Memórias de Angra-do-Negro, Moçâmedes – Namibe – (Angola) desde a sua ocupação efectiva” de António Augusto Martins Cristão

A fundação de Moçâmedes (Namibe- Angola). Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro


 



Do livro “Memórias de Angra-do-Negro, Moçamedes – Namibe – (Angola) desde a sua ocupação efectiva” de António Augusto Martins Cristão:

«...Em 1848, o nosso Império no Brasil vivia horas de indizível agitação: Na cidade de Pernambuco estalara a revolução política. O ódio e a perseguição manifestaram-se de imediato, fazendo sofrer as mais indignas crueldades e degradantes humilhações a compatriotas nossos que ali procuravam ocupação. É, então que, oprimidos cada vez mais, concebem o projecto de fundar em África uma colónia agrícola que possa valorizar o património nacional. Assim Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, que mais tarde seria o chefe do primeiro colonato, fica incumbido de apresentar ao Governo Português o arrojado empreendimento que se propõem levar a efeito. Pedem informações detalhadas de relatórios, de memórias e de mais documentos para que pudessem avaliar da região mais apropriada para se instalarem. Pedem, igualmente, auxílio financeiro ao Governo para custear a sua deslocação e aquisição de engenhos para fabrico de açúcar.

Com o empenhamento de Simão José da Luz Soriano, chefe da repartição de Angola no então Ministério do Ultramar, junto do Ministro - O Visconde de Castro - , é então garantido todo o auxílio e facilidades necessárias àquele arrojado empreendimento.

A verdadeira ocupação desta parcela e, por conseguinte, do que nela se ergueu, deve-se assim e indubitavelmente, à impulsiva decisão, inteligência e heroicidade patriótica daquele que jamais será esquecido saudosamente pelos moçamedenses, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro que, em 13 de Julho de 1848, enaltecido do espírito de demandar terras de África e animado por uma conta de sem recuo endereçou uma carta ao ministro e secretário de estado dos Negócios da Marinha e Ultramar da Nação Portuguesa, escrita em Recife de Pernambuco, onde se pode ler:

«...Eu, que livre de orgulho, afirmo poder seguir para onde me conviesse, sacrifiquei-me a esperar, a ir compartilhar dos trabalhos e reveses que acompanham o estabelecimento de uma colónia, só porque vejo que coligo acarreto algum número, mormente dos mais úteis, que são os que entendem do fabrico dos açucares e plantação de canas e mesmo do tabaco e café pois que vivo em relação a muitos engenhos, tendo neles arranjado vários, e hei-de dedicar-me a conhecer com fundamento o modo mais profícuo de fazer açúcar, de agricultar a cana com vantagem, segundo a natureza do terreno e a tirar da matéria prima toda a possível utilidade, mormente com as destilações que, bem dirigidas, são de sumo interesse. Vª Exª desculpará na certeza de que não o faço porque não esteja persuadido do seu profundo saber, mas porque muitas vezes a lembrança de um homem medíocre faz produzir medidas acertadas».

Modéstia! Bernardino não era um homem medíocre. Era um homem de extraordinária visão. Um grande português da estirpe dos «barões assinalados», cujo nome a história registaria com orgulho. Um portugues, que, já nessa altura defendia a tese de que a emigração do País deveria ser canalizada para as suas possessões ultramarinas.

Felizmente que a petição de Bernardino foi atendida. A Portaria nº 2063 de 26 de Outubro de 1848 dizia: «Tenho um grande número de cidadãos portugueses residentes na Província de Pernambuco, no Império do Brasil, feito constar a sua Majestade a Rainha, que desejavam passar para algum ponto das possessões portuguesas, houve por bem em Portaria desta data, mandar expedir providências necessárias para a passagem dos mencioinados portugueses para o lugar das possessões portuguesas em África que por eles for escolhida.»

Em 29 de Março de 1849, o Governador Geral de Angola -Adrião Acácio da Silveira Pinto- informava o Ministro da Marinha e Ultramar de ter sido escolhida a província de Angola e o estabelecimento de Mossãmedes para a formação da colónia.

Em 23 de Maio do mesmo ano, cento e oitenta colonos (116 homens, 39 mulheres e 25 crianças), com Bernardino a chefiar, deixam Pernambuco, rumo a Mossãmedes, embarcando na barca brasileira «Tentativa Feliz» e no brigue de guerra «Douro». Foi de facto uma tentativa feliz.

Bernardino faz assim a descrição dessa viagem aventurosa:
«...Foram os brasileiros quem fez lembrar aos portugueses que escusavam de melhorar terras alheias, quando tinham ainda muitas suas onde podiam procurar fortuna sem sofrerem insultos. E não pareça que é exagero, não, que lá está o dia 23 de Maio deste ano - dia em que o brigue de guerra «Douro», comboiando a barca «Tentativa Feliz» que a seus bordos conduziram 180 colonos, saiu do porto do Recife, à vista de numerosíssimo povo, para falar tão alto, atento o número de testemunhas, que bem se pode aplicar a este respeito o que sobre outrora disse o nosso sempre admirável Camões:
«Estão pelos telhados e janelas
Velhos e moços, donas e donzelas...»

Levando consigo máquinas, instrumentos rurais e seus haveres, e até para nada lhes faltar, víveres para os primeiros tempos, era de pasmar ver aquela gente sair de uma bela cidade, divisando-se no rosto de todos a maior alegria, mesmo sabendo que trocavam uma habitação cómoda e divertida, para irem desembarcar num areal, onde o seu primeiro cuidado seria o de edificar uma cabana para se abrigarem das injúrias do tempo. A todos se ouvia dizer, ao desaparecimento da terra, o que Castilho disse nos seus «Ciúmes de bordo»:
«Sumam-se à vista
Os últimos oiteiros
Dessa terra falaz...»

E se sofrimentos houveram na viagem, nem por isso se ouviram queixas. Algum génio mau quis apurar-lhes a paciência: ventos contrários e bonançosos, com repetidas calmarias, tornaram a viagem longa; todos os colonos iam mal alojados e a epidemia das bexigas desenvolveu-se a bordo, chegando a haver, simultaneamente, 56 doentes, entre colonos e a tripulação. Três adultos e cinco menores pereceram. Não havia facultativo: para os atender tanto exerciam tais funções o encarregado de governar a colónia como o capitão da barca, coadjuvados por um barbeiro e dirigidos por um cirurgião do «Douro» - Francisco António Chagas Franco - o qual logo que da barca se fazia sinal de que era necessária a sua visita, vinha a bordo. Veio quatro vezes com tal prontidão e tão boa vontade que ão sei qual possa elogiar-se mais , se ele em vir, se o comandante em o mandar.

No dia 1 de Agosto entrou em Mossãmedes o Brigue «Douro» e, no dia 4 do mesmo mês, a barca «tentativa Feliz». com 74 dias de viagem. Os colonos vêem outra vez realizado o que o nosso poeta disse outrora aos seus heróis ascendentes:
«Já sois chegados, já tendes diante
A terra de riquezas abundante...»

Enquanto os colonos e os majores Horta e Garcia se instalavam e examinavam os terrenos aptos para a agricultura, Bernardino seguiu, no dia 16 do mesmo mês, a bordo do brigue «Douro», para Luanda, a fim de se avistar com o Governador Geral. Chegado no dia 22, ali se demoraria cerca de dois meses. O Governador recebeu-o «com as mais decididas provas de contentamento, que igualmente foram manifestadas por todas as autoridades e habitantes da cidade.»
E Bernardino termina o seu relato:

«Esta empresa bem se pode chamar das incredulidades desfeitas, portanto:
1º) Parecia inacreditável que houvesse quem representasse o Governo de S. M. , porque muitas vezes haviam acontecido no Brasil casos iguais aos dos dias 26 e 27, e nunca houve o menor movimento: mas alguém representou.
2º) Parecia inacreditável que o Governo  pudesse mandar navios para proteger os seus súbditos: mas mandou.
3º) Parecia inacreditável que ele pudesse fazer despesas para coadjuvar e transportar para as possessões africanas os que para elas quisessem seguir: mas pôde.
4º) Parecia inacreditável que houvessem colonos que se arriscassem a vir para África, depois do que havia acontecido a outros: mas houve.
5º) Parecia inacreditável que em Mossãmedes houvessem providências tomadas para a recepção do colonos, atentos ao pouco tempo e ao estado financeiro da província: mas houve.
6º) Parecia inacreditável que houvessem bons terrenos n local escolhido: mas houve.
Resta ainda uma incredulidade a vencer, a qual afecta a todos e vem a ser: se com efeito desta vez se montará a agricultura nesta velha parte do mundo antigo de forma a que se lhe façam trajar as galas de uma bela jovem; eis o que a breve espaço de um ano há-de resolver, no fim do qual se poderá dizer como Camões:
«Que verá tanto obrar tão pouca gente...»

Pelos seus incontestáveis méritos Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro é leito, por maioria de votos, em 14 de Outubro de 1849, para o Conselho Colonial de Mossãmedes. Esta qualidade reforça o prestígio do ousado português. Todos lhe obedeceram. Todos o reconhecem como chefe. Todos acatam, esperançadas as suas ordens. pelos colonos são distribuidos os terrenos incultos do rio Bero. Escolhe-se o Vale dos Cavaleiros para instalação de engenhos agrícolas. Começa o «fervet opus», como diz o próprio Bernardino:
«É um bulício. Todos edificam casas na povoação que escolheram para habitar: outros nas faldas da serra dos Cavaleiros (de basalto laminado) no sítio chamado dos Namorados e que dista uma légua; outros roteiam terras nas hortas, outros no sítio da Olaria, onde se vai fazer tijolos e telhas; outros na Várzea da união, duas léguas longe dali; outro no fim co vale dos Cavaleiros, que dista três léguas e que é onde se vão levantar os primeiros laboratórios sacarinos: lá se vê um carro carregado de caibros (barrotes de madeira), ali pretos conduzindo junco e tábua, acolá as autoridades, montadas em bois, percorrendo e medindo os terrenos: noutra parte se quebra a pedra que se vai carregando juntamente com o barro; as paredes para as casas crescem visivelmente; a capela de Santo Adrião antes de um mês ficará ponta de paredes; enfim, ou antes de pouco tempo teremos de ver Mossãmedes uma sofrível povoação, e seus arrabaldes bem agricultados, ou se ficará o «mons parturiens» do velho Fedro».

A sua objectividade sensata e clássica de escrever é própria de um Grande português, de um Grande Chefe. Embora tudo pareça estar a correr de feição, a ele e aos colonos, para ele não era bom sinal que assim estivesse. Sempre os reveses estão na génese dos grandes cometimentos. Graves dificuldades surgiram. primeiro a inadaptação dos colonos. Depois a estiagem de longos meses. As sementes não seriam das melhores, nem haviam sido lançadas á terra na altura mais propícia. a terra, habituada á preguiça da infecundidade, negava-se a produzir. O desalento instala-se na alma dos colonos.

É então que Bernardino houve como Moisés relativamente ao seu povo «Antes fossemos mortos em terras de Pernambuco, quando estávamos sentados junto às panelas das carnes e comíamos pão com fartura. Porque nos trouxeste a este deserto , para matar á fome esta multidão?». É neste transe difícil que se revela a indomável força de vontade de Bernardino, e sua certeza de vitória. No meio do seu povo exclama: «Só será salvo o que preservar até ao fim!»

Por esta altura, uma colónia composta de 145 emigrantes portugueses, sob a direcção de José Joaquim da Costa, deixa o Brasil a 13 de Outubro de 1850 e chega a Mossãmedes a 26 de Novembro do mesmo ano. A esta gente se fica a dever parte do êxito agrícola que a partir daí se obteve, pelo grande ânimo que deu aos primeiros colonos, unindo-se-lhe com vivacidade.

Não tardou que outros se viessem juntar, provenientes, especialmente da ilha da Madeira (220 a bordo do vapôr Índia, chefiados por D. José Augusto da Câmara Leme), já que desta mesma origem era avultado o número dos que se achavam nas terras do planalto do Lubango, dada a conhecida fertilidade do seu solo a par do seu óptimo clima, em nada diferente ao da sua ilha.

Mais tarde sucederam-se-lhes outros vindos da Metrópole. O fluxo mais importante , sob o ponto de vista piscícola, foi o dos povos do Algarve, por lhes ter chegado ao conhecimento, quanto de rico em peixe era o seu mar e até, quanto mesmo era de bonançoso e nada de temer. Sabiam-se conhecedores das artes de pescar e das que pensavam em vir a instalar ali. Levaram consigo os aviamentos de pescar com linhas de certa robustês, anzóis de vários tipos para a pesca de pequenos e grandes peixes, não só da superfície como do fundo, chumbadas, roletes de cortiça, cabos de variadíssimas espessuras e até modelos de covos para aprisionar polvos, chocos, caranguejos do fundo (tipo santola), lagosta, etc. etc.

Mas o tempo impiedoso corria célere. A pesca restringida a uma simples rede que não ia além de cem braças de comprimento e alada de terra a pulso estava só a dar o bastante para o consumo do povo do colonato. Havia que aumentar a quantidade de pescado para que também viesse a dar para abastecer o interior e até os povos dissiminados pela vizinha província da Huíla.

A ânsia de progredir estava no ânimo de todos. Os pequenos barcos que ali existiam não satisfaziam. Havia que aliciar construtores navais que para ali viessem instalar os seus estaleiros, de maneira que ali construissem barcos idênticos aos que no Algarve eram utilizados na várias redes e pescar.

A convicção do entusiasmo convence outros conterrâneos. Prestaram-lhes as informações precisas das madeiras necessárias para as estruturas a construir (esqueletos, braços, quilhas, etc.) que ali teriam em abundância e que a mulemba (Ficus psilopoga) lhes poderia fornecer a contento. Somente teriam de trazer tábuas de pinho, das medidas que achassem indicadas, para barcos de 10 a 15 toneladas. Como complemento teriam de trazer estopa, breu, cavilhame, sebo, tintas e em suma, tudo quanto achassem de trazer, sem esquecer lonas para as velas, fios de cozer, agulhas para palomar, cabos para guarnecer as mesmas e para as adriças, ostagas, amuras, cabeleiras para as prôas, etc. etc.

E foi ssim que, cheios de entusiasmo, esperança e fé, se trasferiram, do Algarve para Mossãmedes, os conterrâneos construtores navais, por sinal de grande prestígio. De distinguir o primeiro - Manuel Simão Gomes - a quem os petizes chamavam de avô Leandro e que instalou um estaleiro junto da praia, perto de uma escola primária, pertencente D. Maria Peiroteu, dentro da baía, a uns escassos passos da Fortaleza S. Fernando. O segundo, José de Sousa - conhecido por José de Deus - (como atrás referido) - acompanhado pelo calafate João de Pêra, estabeleceu-se numa das praias junto do morro da Torre do Tombo.

Em 1856, com a existência de 36 casas de pedra e 8 de adobe, que albergavam parte da população, nasce o Município de Mossãmedes.
Terá de reconhecer-se que foi às primeiras colónias de emigrantes de Pernambuco que se ficou a dever o verdadeiro incremento do local conhecido por Mossãmedes. A glória de não só haverem erguido um Distrito que se notabilizou, como também pel facto de terem iniciado, a preceito, a agricultura da região: horticultura, fruticultura, cultura de algodão, cana sacarina para produção de açucar e à industrialização de pescado. também é de reconhecer que foi aqui que nasceu a primeira tecelagem da Província, embora só com um fuso, para o fabrico de tecido grosseiro dada a qualidade das fibras ao seu alcance.

Segundo Duarte Pacheco. à medida que se progredia para sul da costa africana, esta ia-se tornando cada ve mais escassa em arvoredo e em moradores. Nas alturas de entre Porto Alexandre e a Baía dos Tigres a «terra eh baixa & maa de conheser» e mais adiante a navegação costeira torna-se difícil.  Nestas paragens pacheco refere a existência de «gente pobre que se nom mantem nrm uiuem senom pescaria» e que esses negros faziam «cazas com costas de baleas cobertas com seba do mar» lançando-les por cima areia «& aly passam sua triste uida».
In “Memórias de Angra-do-Negro, Moçamedes – Namibe – (Angola) desde a sua ocupação efectiva”  de António Augusto Martins Cristão.

domingo, 17 de outubro de 2010

Livro: A Raça Negra: Sob o Ponto De Vista Da Civilização Da Africa Por Antonio Francisco Nogueira

 
António Francisco Nogueira

António Francisco Nogueira, o autor  deste livro, foi componente da 2ª colónia vinda de Pernambuco (Brasil) para Mossãmedes em 1850, no início da colonização daquele distrito, autor do livro «A raça negra».

 

Naqueles tempos em que se exaltavam os povos europeus e rebaixavam os povos de raça negra, estes civilizados, diligentes e progressivos, aqueles em estado primitivo, bárbaro, sem motivação que os fizesse  sair do seu atraso ancestral  por falta de contacto com gente civilizada, ou até mesmo  considerados menos inteligentes, preguiçosos,  e incapazes e progressão,  Antonio Francisco Nogueira, um dos componentes da 2ª colónia vinda de Pernambuco (Brasil) para Mossãmedes (Angola) em 1850, no início da colonização daquele distrito, indivíduo negro,  culto e civilizado, escreveu e publicou este livro na defesa da sua «raça». 

No século XIX as diferenças entre os grupos humanos tendiam a ser explicadas pelas teorias raciais que se apresentavam com um discurso científico (positivista), ainda que por muito tempo ligado a dogmas religiosos. Serviam para legitimar o Imperialismo europeu, a possibilidade de hierarquização do homem de forma a que os europeus ocupassem o topo da evolução da espécie, símbolo maior do progresso e da civilização. Estas doutrinas raciais que ganharam força no século XIX e que já no século XX levaram a Alemanha de Hitler ao holocausto dos judeus, tiveram por detrás autores como Darwin (1809/1882), Spencer (1820/1903), Gabineau (1818-1822) e tantos outros que buscavam explicações para os problemas nacionais e suas soluções através do factor raça. O racismo científico introduzido através dos discursos de uma elite intelectual, ajudou a forjar representações sociais diante dos negros, mestiços, índios, imigrantes, etc., e influenciou fortemente os debates a respeito da mão de obra, sobretudo a partir do último quartel do século XIX, visando a resolução da carência dessa mesma mão de obra, através do trabalho escravo.  A partir da Conferência de Berlim (1884/1885) passaram a justificar tal posição através da noção da excelência dos imigrantes europeus sobre os demais tipos de trabalhadores à disposição. Os emigrantes europeus, seriam, portanto os portadores do progresso e da civilização, incutindo no negro o gosto pelo trabalho e a motivação de que a África e  ele próprio  beneficiariam.

Antonio Francisco Nogueira defende brilhantemente a sua tese, procurando explicar o atraso sem que fosse necessário considerar o assunto do ponto de vista radical como estava acontecendo por influência de tais teorias: 

«O negro passa presentemente por um estado pelo qual também passou o branco. Como este pode progredir, aperfeiçoar-se. Esta é a opinião que seguimos , esta a verdade que aqui procuramos demonstrar, baseando-nos tanto nas indicações da ciência, como na atenta observação dos factos. A objecção mais séria que se apresenta contra o possível aperfeiçoamento do negro, consiste no seu pretendido estacionamento de que se julga provar pelo seu estado de atraso, afirmando-se ao mesmo tempo que é o representante de uma raça anterior à do branco. São estes, pois os pontos de que principalmente nos ocuparemos na discussão que vamos encetar.»

 

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 MariaNJardim


História de Angola e História de África: De Angola à Contra-Costa por Hermenegildo Capello e Roberto Ivens e Africa Medieval por Roland Anthony Oliver,Anthony Atmore

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 De Angola à Contra-Costa 

Por Hermenegildo Capello e Roberto Ivens

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Medieval Africa, 1250-1800

 Por Roland Anthony Oliver,Anthony Atmore

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Observações sobre a viagem da costa d'Angola à costa de Moçambique - 1788. Relatório da viagem feita ao Rio dos Elefantes - 1854

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Em 1787, o naturalista José Maria de Lacerda integrou a expedição destinada ao reconhecimento do curso do Rio Cunene, chefiada pelo Capitão António José da Costa, que não teve êxito, pois não chegou ao destino. Ele mesmo o diz neste texto endereçado ao Ministro da Marinha e do Ultramar, Rodrigo de Sousa Coutinho, que a seguir se reproduz e em que salienta mais uma vez a necessidade de empreender a comunicação por terra entre Angola e Moçambique. O Ministro não queria outra coisa, até porque esse fora o sonho de seu pai, Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho, que fora Governador-Geral de Angola, de 1764 a 1772. Por ordem do mesmo Ministro, a expedição foi iniciada a partir de Moçambique em Dezembro de 1797, sob a direcção do Dr. Francisco José de Lacerda e Almeida, Governador em Moçambique dos Rios da Sena, que veio a falecer de paludismo a 17 ou 18 de Outubro de 1798, no Cazembe. O diário dessa viagem está publicado nos Annaes Marítimos e Coloniaes, série n.º 4, pags. 286-300, 303-314, 334-343, 377-381, 397-408,e na Série n.º 5, pags. 29-26, 63-77, 108-120; depois reproduzido em livro editado pela Imprensa Nacional em 1889, com o título “Diário da viagem de Mossambique para os Rios da Sena feita pelo governador dos mesmos rios o D.or Francisco José de Lacerda e Almeida". A expedição prosseguiu e foi nessa parte narrada pelo Capelão P.e Francisco João Pinto, figurando nos mesmos Annaes na Série n.º 5, pags. 149-164, 199-208, 264-278, 321-337, 364-372, 428-437, 468-481.

Ao entregar o texto da Memória de José Maria de Lacerda aos Annaes para publicação, o Visconde de Sá da Bandeira acrescentou-lhe cinco notas a final, datadas de 2 de Junho de 1844, que têm grande interesse.

Entretanto, José Maria de Lacerda faleceu em Malange, em 1797.




Quanto à foz do Cunene, foi objecto de uma expedição organizada em Novembro de 1854 por Fernando da Costa Leal, Governador do distrito de Moçâmedes de 1854 a 1859 e de 1862 a 1866, cujo relato também aqui se reproduz.


Observações sobre a viagem da costa d' Angola à costa de Moçambique, por José Maria de Lacerda
Documento oferecido à Associação Marítima pelo seu ex-Presidente, o Ex.mo Sr. Visconde de Sá da Bandeira.


Ill.mo e Ex.mo Senhor,


A glória de um descobridor, que não se poupa a fadigas em promover a felicidade dos seus semelhantes, leva certamente manifesta primazia sobre a fama de um conquistador, que mais parece, destinado para flagelo da humanidade: uma vista de olhos sobre a moderna e antiga história, nos desengana convincentemente da verdade deste acerto. E na geral estimação mais gloriosa e mais venerável a memória dos Henriques traçando em Silves as primeiras linhas, e lançando as raízes dos apetecidos descobrimentos da Ásia, que lhes mereceram o delicioso timbre de Talent de bien faire, do que a dos Filipes e Alexandres que forjam em Macedónia, e deitam depois a Grécia os pesados grilhões da escravidão, e finalmente por intrigas, e pelo único direito de mais fortes se arrogam o soberbo título de domadores da mesma Ásia. O espírito, Senhor Excelentíssimo, o espírito que anima a um e outro, é quem pode decidir bem claramente a qual dos dois se devem erigir estátuas no templo da memória, e conservar seu nome nos fautos da imortalidade. Ah! Senhor, e quanto é abominável, quanto horrorosa aos olhos de uma sã filosofia a memória de um homem que, arrebatado por uma desmedida ambição de dominar, busca pretextos especiosos para despojar os seus semelhantes dos sagrados direitos com que a Providencia os criou livres, para os fazer servir aos seus ambiciosos desígnios, e gemer constrangidos debaixo do jugo do um injusto cativeiro! Pelo contrário quanto é amável, quanto preciosa a vista do universo e quanto digna das suas aclamações abençoadas, aquela alma generosa que, não satisfeita com as luzes de que se observa enriquecida, procura difundi-las a maneira do sol benigno que, sem avareza, comunica seus raios criadores a um e a outro hemisfério, procura, digo, difundi-las sobre as trevas da ignorância dos outros seus semelhantes, que trabalha por descobrir; promovendo pela comunicação os interesses das nações desconhecidas e mais remotas, as utilidades do comércio pela importação e exportação dos géneros, a cultura dos povos e terrenos incultos, a polícia da barbaridade, os grandes cómodos da vida social e mais que tudo, se as circunstâncias o permitem, o conhecimento da verdadeira religião e da única e suprema Divindade! Oh este sim, este é quem merece com maior justiça, como Tito, ser aclamado por delícias do universo!

Estas reflexões, Senhor Excelentíssimo, que há muito se revolviam no meu acanhado espírito, agora se avivaram com a noticia, para mim agradável e gostosa, de que Vossa Excelência, animado de um verdadeiro patriotismo, projectara o descobrimento do resto do grande sertão e do país desconhecido de Benguela, e a comunicação por terra das duas costas oriental e ocidental dos vastíssimos domínios do reino de Angola [Veja-se no fim a nota —A—]. Exultei pois dentro de mim mesmo ao lembrar-me das grandes vantagens deste descobrimento, que eu conheço praticamente pela dilatada experiência de largos anos em que habitei e corri estes países. Eu sei que esta empresa já tem sido intentada por diferentes Generais e Governadores, sendo o primeiro a formar este plano e projecto interessante o Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor D. Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho, de saudosa memória, cujo governo, pelos seus acertos, prudência, suavidade e inteireza, vive na perpétua lembrança dos Angolistas, que de pais a filhos conservam em gostosa tradição dos perenes monumentos de beneficência com eles tantas vezes praticados, e que servirá sempre de modelo aos que procurarem governar aqueles e outros povos com justiça. E que glória não resulta a Vossa Excelência se executar com felicidade um projecto que mereceu justamente as considerações do seu Ilustríssimo e Excelentíssimo progenitor, e que na verdade se faz digno das sérias atenções de um Ministro que tanto promove e zela o bem da pátria, a glória da nação e os interesses do seu Príncipe? Aqui fala tão somente o coração, nem a vil adulação teve entrada no meu peito, quando a minha pena arrebatada, e movida pela sã verdade, correu ligeira e formou gostosa expressões sinceras que ainda mal indicam os grandes sentimentos da minha alma. Além do que: eu conheço que falo a um Ministro amante da verdade, e que estranhavelmente detesta e abomina os sim agradáveis, mas envenenados perfumes da lisonja.

O bem pois da minha pátria, a glória da minha nação e os interesses do meu Príncipe, eis aqui, Senhor Excelentíssimo, os únicos e poderosos estímulos que também me obrigaram a fazer, e conduzir à presença respeitável de Vossa Excelência algumas reflexões que a experiência e conhecimento do país me tem ministrado, sem mais outro algum intento, ou pretensão que não seja a gostosa complacência de concorrer por este modo, quanto está nas minhas forças, para o feliz e desejado êxito desta empresa. Como verdadeiro patriota dar-me-ei por bem pago e satisfeito se ela chegar a conseguir-se. É por tanto necessário dar uma breve descrição geográfica do sertão, e uma geral noção dos seus habitadores, dos seus costumes, do seu carácter, do seu governo, e dos sentimentos de que se acham animados geralmente a respeito dos brancos, de quem sempre desconfiam; dizer alguma coisa das suas copiosas e excelentes produções, da sua religião, das notáveis consequências e vantagens para o comércio e para a coroa deste descobrimento e ultimamente dos meios práticos e fáceis de ele poder efectuar-se.

Confina o vasto e fértil sertão de Benguela pelo norte com de Angola, e é dividido pelo rio Aço perto do presídio das Pedras de Ponguadongo, e pelo sul limita no país dos Hotentotes muito além do cabo negro. Para leste ele se estende até ao de Moçambique e Rio de Sena, com perto de quinhentas léguas, havendo numa e noutra costa boa porção de terreno conhecido e tratável, de que depois hei-de falar. É imensa a sua povoação, repartida em muitos governos de diferente extensão e autoridade que se vê exercitada por uns certos potentados a que dão o nome de Sovas, e a outros de Sovetas por prestarem aos primeiros uma espécie de vassalagem, e terem deles alguma dependência. São negros fortes e pela maior parte agigantados, o que faz que eles na América sejam mais estimados e de mais valor, que os de Angola. São destros no manejo das armas de fogo, de que fazem na guerra um pronto uso, que nós mesmos lhes temos ensinado: têm delas abundância, e à excepção dos canos, tudo o mais eles consertam e fazem de novo com limpeza e perfeição; e teriam zombado das nossas expedições militares, se não fossem as peças de amiudar, de que têm um grande medo. São aleivosos e muito atraiçoados: a sua amizade para com os brancos é só fundada no interesse pela importação dos géneros, que estes levam, e de que eles já não podem dispensar-se. Nunca perdem ocasião de perpetrarem os mais horrorosos crimes de roubos e homicídio contra os brancos; mas como receiam incorrer nas iras e indignação dos que governam, têm a prevenção de irem cometê-los noutras terras mais distantes, para não serem descobertos; e posto que maquinem enganos e traições, eles contudo se disfarçam muito bem no exterior, e fingem a mais rendida submissão, pronunciando com respeito e humildade a palavra Maneputo, que corresponde à de rei dos brancos. São todos antropófagos, e nas guerras que suscitam continuamente entre si por pretextos os mais frívolos, comem os mortos: barbaridade em que especialmente se distinguem os Ganguelas. Para os comer matam os velhos, que já para eles não têm preço, préstimo, nem valor; e guardam desveladamente os moços para os vender: motivo ordinário das guerras e contendas, por ser o meio de haverem escravos e da sua venda tirarem os interesses desejados.

Todo este vastíssimo país é, como disse, muito povoado destes bárbaros e não se anda mais de uma légua sem se encontrar alguma libata ou povoação maior ou mais pequena. O clima do sertão, dez léguas distantes das praias, é tão benigno e saudável, como o de Portugal; e é tão fértil, que apesar do desprezo e negligência com que o cultivam, chega a dar cento por um. Produz com abundância, e pode também dizer-se com demasia, o milho grosso, milho menor, a que chamam Maçambala, milho-miúdo, a que dão o nome de Luco, e outro quase milho-miúdo, mas compridinho, que é conhecido com o nome de Moçango; e de todos estes milhos fazem eles uma farinha excelente e saborosa. Produz também toda a casta de feijões e em tanta quantidade, que dão doze Guindas (medida que corresponde a dois alqueires nossos) por uma braça de pano zuarte, ervilhas, grãos, lentilhas e excelente trigo, mas somente cultivado por alguns dos sertanejos (são os brancos ou mulatos estabelecidos com casa de negócio no sertão), abóboras de diferentes qualidades e grandeza, melancias, melões, batatas, mandioca, goiabas, laranjas, limões e grandes canas-de-açúcar.

É finalmente o seu terreno susceptível de todas as sementes e capaz de produzir os mais belos frutos se houver agricultura. Sabem extrair o ferro das pedras do país, que todas encerram, e faz pasmar como eles, sem o devido e necessário aparelho de ferramentas proporcionadas, fabricam os ferros das suas zagaias, cadeias e outras obras. Tem igualmente minas de enxofre, que eu mesmo observei, e mais de cobre, de que eles fazem os seus ornatos. Há muitas e diversas madeiras, excelentes para toda a construção, seu comércio consiste principalmente nos escravos, no marfim e na cera imensa, de que abundam, apesar do modo bem destruidor com que os enxames são crestados, porque de ordinário lançam-lhes fogo para extraírem os seus favos.

Estes bárbaros e cegos povos não reconhecem divindade, nem se lhes observam vestígios alguns de religião. Supersticiosos por extremo, apenas se divisa neles um tal ou qual culto, ou veneração, a que pode mal e só dar-se o nome de civil, para com algum dos seus antigos Sovas, que por tradição, ou foram guerreiros eminentes, ou fizeram no seu governo reinar a abundância, o sossego e a justiça, ou se assinalaram em acções extraordinárias. Contudo, alguns são baptizados, mas como se o não foram; porque é inteira a ignorância dos Mistérios e consumado o desprezo dos preceitos. Sim, procuram e fazem diligências pelo Baptismo; porem só a fim de conseguirem a estimação dos brancos, inculcarem-se para com eles como cristãos, e insinuarem-se nos seus ânimos desprevenidos, quando assim fazem a bem dos seus interesses, ficando aliás no mesmo deplorável estado de irreligião, de poligamia, de superstição e de barbaridade.

É tempo de fixarmos as nossas atenções nas grandes vantagens que desta expedição resultam certamente à Coroa, ao comércio e aos mesmos povos. Por este meio estendemos as nossas conquistas e adquirimos novos conhecimentos de povos e terrenos nunca dantes praticados. Abre-se a correspondência de uma e de outra costa, e pode então com facilidade auxiliar-se uma à outra e os habitantes têm assim um refúgio, bem seguro, no caso de alguma delas ser acometida ou debelada. Já os navios da Ásia poderão descarregar em Moçambique e as fazendas serem transportadas a Benguela e outras terras do sertão, sem ser preciso dobrar-se o cabo e haver a grande demora e risco da viagem. Cresce desta sorte a actividade do comércio, produto e rendimento das alfândegas, a indústria dos brancos e dos negros, que para estes transportes, de que tiram grandes lucros, hão-de cuidar na propagação dos camelos [Veja-se no fim a nota — B —], que não têm dificuldade em amansar; os bois-cavalos, de que já fazem bastante uso até para montar e as zebras, que são inumeráveis e que pela semelhança quase inteira com as mulas, à excepção da pinta, são muito acomodadas, ao que parece, para este ministério, se houverem de tentar e procurar a sua mansidão, do mesmo modo que lá fazem aos ditos bois-cavalos. Além de que, enquanto não houver outra providência, milhares de negros se hão-de empregar de boa mente neste serviço por seu lucro, e um negro carrega às costas para levar a muitas léguas um fardo de fazenda importante em cento e vinte mil reis, e o faz por pouco preço. Eis aqui aumentado o comércio da escravatura, do marfim, da cera e de outros géneros até aqui desconhecidos, que vão talvez por este meio a descobrir-se.

Não é para desprezar e parece bem digna das atenções do Ministério a vizinhança dos novos possuidores de Tafelbay [Table-Bay. É junto a esta baía que está a cidade do Cabo, Cape Town, fundada pelos Holandeses em 1650, tomada pelos Ingleses em 1795, a quem se refere o autor; restituída aos Holandeses em 1803 e retomada pelos Ingleses em 1806 que ficaram pela paz geral na posse desta excelente colónia.]. Quem nos pode segurar de que vendo eles o abandono e o desprezo com que tratamos esta importante aquisição, não hajam de alongar as suas conquistas para o norte, com gravíssimo dano de nossos interesses? E quem há-de embaraçar essa conquista e obviar a que pelo tempo adiante se vão vender os escravos do nosso sertão do sul (como vão agora os do norte) aos Ambres e aos outros portos que ficam ao norte de Angola, onde os compram as nações estrangeiras, com diminuição visível do nosso comércio, que ao menos pela terça parte se acha descaído? [Veja-se no fim a nota –C-]

E não é outra a causa deste abatimento: porque os negros não têm dificuldade em andar mais cinquenta léguas para irem vender os seus escravos a quem lhes dá mais e melhor fazenda, o que não podem fazer os nossos negociantes; porque as vendas e os lucros dos escravos em a nossa América não correspondem à quantidade e qualidade da fazenda que os outros dão por eles. Vai portanto este descobrimento opor uma barreira a todas as tentativas que os Ingleses possam idear, para estender a sua nova colónia e aumentar o seu comércio com ruína quase inteira dos nossos interesses, o que certamente lhe não esquece; porque eu sei que eles já têm proposto avultados prémios, a quem descobrir e fizer comunicável este sertão.

Fica também por este meio o Pais todo mais seguro e mais sujeito, vendo-se como entalado: porque conhecendo os povos auxílio, que as armas de Moçambique e do Sena podem prestar às de Angola e de Benguela, e estas àquelas, é muito para esperar que se abstenham dos roubos e maus tratamentos, que fazem muitas vezes aos desamparados Sertanejos, ficando assim o comércio livre e seguras as vidas e as fazendas, que até se podem apoiar ainda melhor com mais alguns presídios, que se hajam de erigir. É inegável que estas fortalezas espalhadas pelo sertão, servem de freio, que reprime os excessos, insultos, e ousadias destes bárbaros, e os fazem conter nos seus deveres.

O ferro, de que eu já disse abundava este sertão, é um artigo não pouco interessante.

A efectuar-se a comunicação das duas costas, será este um ramo de comércio o mais capaz não só de promover as utilidades do Estado e aumento da Fazenda, mas também de fomentar a indústria desses povos, que já o forjam e se servem dele com muita destreza e prontidão. Ele, na bondade e qualidade, não cede ao Sueco e Biscainho, e os negros fabricam várias obras que vendem por preços moderados. Um Libambo, ou corrente que segura e prende doze escravos, se compra por dois panos, que correspondem a mil e duzentos réis; em atenção à sua abundância e qualidade, é que o Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor D. Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho fez judiciosamente construir uma fábrica para o extrair e preparar; mas desgraçadamente não teve o efeito desejado, ou fosse por intriga, ou mais depressa pelo indesculpável capricho, com que quase todos os Generais procuram abater, frustrar e desfazer tudo o que os seus antecessores começaram, por mais útil que pareça, atropelando a verdade, a consciência e os interesses do Estado. Procedimento ordinário, certamente repreensível, e pelo nosso Tito Lívio nas suas Décadas há tanto lamentado! Como o ferro é um dos géneros que os nossos navios carregam para a Ásia, é evidente que extraído e preparado no sertão e conduzido pelo Cunene (a descobrir-se a desembocadura deste rio, e fazer-se navegável, de que logo hei-de tratar) apresenta o ferro, como disse, um ramo de comércio muito atendível e importante: e até os mesmos navios da Ásia, na volta da viagem, bem poderão carregar muitas barras dele, pelos vácuos que não admitem corpos volumosos: e desta sorte vem a sua exportação a ser pronta igualmente para todas as quatro partes do Mundo. Pois se o ferro é tão digno das atenções do Ministério, não menos o deve ser o excelente cobre, de que há minas já descobertas. Os negros o fabricam e fazem dele uso para os seus ornatos e enfeites, como colares, manilhas e as chamadas vergas, com que rodeiam as pernas. Há igualmente enxofre em grande cópia, e eu mesmo vi uma larga mina dele no Dombe da Guinzamba, cinco léguas de Benguela para o Sul e légua e meia da Baía Farta, à beira do mar. As madeiras deste sertão, tem-se visto e experimentado serem as mesmas que as do sertão da Baía, igualmente boas para a construção e demais obras. E haverá ainda quem repute desprezível um manancial tão fecundo de riquezas, que nos pode constituir cada vez mais independentes dos outros povos e Nações, e fazer o nosso comércio muito mais activo?

Devo expor agora aqui a V. Ex.ª uma lembrança que há muito me ocorre, e que a verificar-se, são incalculáveis as vantagens que resultam desta empresa. É bem conhecido o rio Sena pela sua grandeza, pela soberba das suas correntes e pela opulência das suas auríferas areias; mas a sua origem ainda não esta certamente descoberta, e dele apenas sabemos, que descendo do Monomotapa, lá vai desembocar com arrogância na costa de Moçambique onde temos a nossa Quelimane.

É pois agora de saber: que o maior rio e o mais poderoso que se conhece, desde o Zaire até ao Cabo da Boa Esperança, é sem duvida um a que os naturais chamam Cunene, que quer dizer grande na língua do pais. Nasce este rio em Candimbo perto de Caconda Nova, corre para o Sul e, depois de ter engrossado suas correntes com os rios Cobango e Cutado, atravessa os domínios dos Sovas de Lebando e de Luceque, trinta léguas da sua origem; mas já então assaz poderoso, que não dá passagem aos viajantes; e o Sova de Luceque tira bom interesse dos fretes das canoas que aí tem, para os transportes de uma a outra margem; continua a correr, dirigindo-se para Leste e, tendo recebido vários rios, chega ao Humbe ou Monomotapa (cinquenta léguas da sua nascente) já tão arrogante e enriquecido, que tem aí seiscentas toesas de largura; e depois lá prossegue a sua corrente para Leste; e nada mais pode dizer-se com certeza deste famoso e grande rio [A distância de 250 a 300 léguas entre as terras designadas com o nome de Humbe grande e as do Monomotapa, não é favorável à hipótese de que elas são um mesmo país ou estado, como parece que o autor acreditou].

E acaso será ele o mesmo Sena [Veja-se no fim a nota –D-]? Duas razões mo persuadem. Primeiramente, examinados os mapas mais exactos que nos oferecem toda a costa d’África desde o Adamastor para o Norte ate Benguela, e corrido o sertão, como eu fiz para indagar as particularidades deste rio, não se encontra algum outro com foz de tal grandeza, qual promete o rio Cunene que, a cinquenta léguas da sua nascente, se acha com seiscentas toesas de largura. Em segundo lugar, o rio Sena se enobrece com as suas auríferas areias; pois o Cunene certamente lhe não cede nesta áurea prerrogativa: eu mesmo o vi e observei, quando em oitenta e sete fui mandado acompanhar a expedição que ao sertão foi enviada com instruções para se descobrir este mesmo rio até à sua foz, o que infelizmente se não efectuou: uma negra que se apanhou nas terras de Acabona (três léguas distante do Cunene) que limitam com o Monomotapa, trazia na cabeça umas folhetas de oiro do tamanho das lantejoulas ordinárias; estavam furadas; e entrando por elas pequena quantidade de cabelos encrespados, em cima davam nós, que seguravam as tais folhetas. Perguntou-se-lhe, aonde iam tirar aquelas coisas? Respondeu, que a um rio muito grande que estava daí perto; e que disto levava muita quantidade, principalmente quando chovia, mas que ninguém o procurava, porque não tinha estimação.

E qual outro podia ser este rio senão o Cunene? E como ele se encaminha desde o Humbe para a costa de Moçambique, onde se sabe que desemboca o Sena é, quanto a mim, Cunene o mesmo Sena com um nome diferente. E se não falha esta minha conjectura, que riquezas se não devem esperar para Portugal a fazer-se navegável este rio, e a poderem-se conduzir por ele a Benguela todas as fazendas descarregadas em Moçambique pelos navios da Ásia! Ficam certamente Benguela e Moçambique dois Empórios da Ásia, bem capazes de competir e disputar grandezas com as maiores povoações do mundo. Aberta pois que seja a comunicação das duas costas, fica fácil o descobrimento perfeito deste rio; porque se adquirem conhecimentos, que hoje ainda não temos, e amizade do país e do sertão; e deste modo podemos alcançar notícias certas dele, que pela sua grandeza não pode deixar de ter entre aqueles povos boa nomeada. Eles mesmos nos darão guias, e o regresso poderá então fazer-se pelas suas margens sem perigo algum de descaminho. São muitas outras as vantagens que resultam deste descobrimento, e que certamente não escapam à vivacidade e perspicácia de V. Ex.ª. Eu as deixo à sua grave ponderação; e passo, para evitar prolixidade, a tratar do modo e meios de se efectuar tão importante diligência.

Como o fim desta empresa é a comunicação das duas costas, e facilitar por terra o comércio de Benguela e sertão ocidental, com Moçambique e sertão oriental, evitando-se por este meio os perigos e as delongas indispensáveis das marítimas viagens, parecia conveniente e acertado pôr diante dos olhos o terreno conhecido, a fim de se perceber com evidência o que resta para o descobrimento projectado.

Em todo o Nano, que vem a ser todo o país compreendido entre Caconda-Nova para o Norte até ao rio Aço, os Sovas principais são: os de Balundo, de Ambo, de Quiaca, de Quitala e o de Galangue, além de uma infinidade de Sovetas seus subordinados. No sertão inferior e para o Sul, estão os poderosos Sovas de Quilengues, de Quipungo, de Gambos e de Avila, ou o formidável Canina que estende os seus domínios pelo vasto continente dos Cobaes, Mocoanhocas, e Mocorocas, habitantes do Cabo Negro, até aos Hotentotes, que já foram seus vassalos, e que por negligência dos seus Ambas (ou Sovas) sacudiram o jugo do Canina; muitos outros Sovetas e potentados há também neste sertão, sujeitos aos quatro mencionados. De Benguela para o Norte, pelo caminho de Quissangue, atravessando Balundo ate ao rio Aço, contamos oitenta léguas, pouco mais ou menos, de sertão conhecido e vassalo da Coroa Portuguesa. De Benguela para o Sul, pelo caminho de Quilomata, Lombimbe, Quilengues, Bemby, Quipungo e Gambos até ao Humbe, dividido pelo grande Cunene, temos cem léguas seguras, e também Vassalas. De Benguela, atravessando pelo meio destes dois sertões, e andando para Leste pelo caminho de Sápa Janjala, Caconda Nova, Monhembas, Galangue e Obié, país regado todo pelo útil e bem conhecido rio Quanza, temos cem léguas, e deste rio até ao Sova de Levar [Veja-se no fim a nota –E-] há-de haver oitenta léguas de país pacifico e bem trilhado por alguns dos Sertanejos, a quem os habitantes tratam bem e com os quais fazem comércio interessante. É moderna esta descoberta, e devida inteiramente à diligência e ambição dos moradores do sertão, que tiveram talvez adiantado o seu comércio e seu descobrimento, se tivessem sido auxiliados. Temos pois de Benguela para dentro, ou caminhando para Leste, boas cento e oitenta léguas de sertão trilhado e conhecido, e da parte de Moçambique e da costa oriental se acham descobertas cinquenta léguas com pouca diferença; e sendo quinhentas o total, restará apenas duzentas e setenta a descobrir.

É portanto mais fácil, do que talvez se julga, este descobrimento, não só pelo que pertence ao sertão desconhecido, mas também pelo que respeita às despesas e aprestos necessários. Porque alguns instrumentos matemáticos e quem saiba usar deles, para se tomarem as dimensões e alturas da derrota, quatrocentos homens (e talvez menos) resolutos, valentes, sujeitos e bem armados, e duas peças de campanha com as devidas munições de guerra, é quanto basta para se obstar a qualquer intentado insulto. Porque deve ser máxima inalterável destes gloriosos campeões, que o ramo da oliveira é só quem há-de aparecer na sua frente, sem jamais fazerem luzir a espada senão no último extremo e depois de exauridos todos os meios de mansidão, de bom modo, de prudência, de generosidade, de dissimulação e de paciência, em algum encontro menos atencioso ou descortês. A experiência me ensinou, que se lucra mais com estes bárbaros, fazendo-se-lhes alguns presentes, ou mimos diminutos (de que a seu tempo tratarei), sofrendo e disfarçando ao princípio alguns insultos leves, com as mais reiteradas protestações de amizade da parte do Augusto Soberano, que lá os manda a este fim e que bem pudera castigar qualquer atrevimento, do que vindo logo às do cabo, como dizem, rompendo com eles e frustrando assim decerto a empresa começada, e pondo o sertão em desconfiança de conquista e cativeiro; e por conseguinte todo em armas; instruções indispensáveis para quem houver de comandar esta gloriosa expedição.

As mencionadas forças militares com facilidade se podem ajuntar e pôr-se prontas sem dispêndio maior da Real Fazenda e do Estado. É sabido que nos sertões conhecidos de uma e de outra costa há brancos e mulatos com casas de negócio mais ou menos opulentas. E estes, como práticos e endurecidos no país, podem ser convidados para acompanhar a expedição, dando-se-lhes patentes honoríficas e para eles estimáveis de títulos diferentes, como de empacaceiros, atalaias, aventureiros e guerra preta; determinando-se a patente de Capitão de alguns daqueles títulos ao que acompanhar com vinte armas seguras e capazes, e outros tantos homens; a de Sargento-mor ao que aprontar trinta; e assim, à proporção das forças que ajuntarem, se lhes deve dar maior patente. Estes homens, chamados Sertanejos como disse, prezam-se muito destes títulos, e o Estado só despende palavras quando lhos concede. Estes pois com alguns Soldados que se puderem ajuntar e escolher, cheios de honra, e amantes da Pátria e da glória, e que completem o número indicado, e força suficiente.

Deve-se de todo dar de mão aos negros, que em multidão costumam juntar-se às expedições com o sentido só nas presas; e feitas elas desamparam logo o campo e postos. São remissos em atacar e prontíssimos em fugir; ao primeiro tiro viram costas para nunca mais aparecerem; porque o seu único estímulo é o vil interesse das rapinas. Muitas vezes são eles mesmos os que instigam as rebeliões e fomentam as desordens, e quando se procede a procurá-los, apenas se acha o lugar onde estiveram; porque à maneira de relâmpagos desaparecem num instante: além de que diminuiriam grandemente os provimentos necessários para a subsistência da outra gente. São portanto não só inúteis, mas nocivos nesta empresa, à excepção de alguns poucos indispensáveis para a guarda e condução das munições e matalotagem: e eu mesmo na guerra de oitenta e sete no sertão fui testemunha ocular do que assevero; porque dezassete homens, que se tinham adiantado com uma peça de amiudar, derrotaram e puseram em fugida o Sova de Quiaca, que vinha acompanhado de doze mil negros, deixando em nosso poder os escravos, o gado e mais presas, que aos Cobaes haviam ido apreender.

Ainda que porém se devam rejeitar os negros vis, sempre contudo parecia conveniente convidarem-se os Sovas mais vizinhos ao rio Sena, que forem amigos, a fim de que por sua intervenção se possa alcançar conhecimento, amizade e consentimento dos outros Sovas mais remotos, cuidando-se primeiro em presentear a uns e outros; porque os negros imitam nisto os mouros, dos quais para se obter alguma coisa, é preciso antes de tudo brindá-los e atraí-los com alguns mimos. E pode acontecer que, usando-se de meiguice e destreza, algum dos ditos Sovas acompanhe a expedição, ou pelo menos forneça guias, línguas e provimentos que facilitem a mesma diligência.

Para os mimos e presentes, que se houverem de fazer aos Sovas e aos seus macotas ou conselheiros por quem eles se governam, e que são muito interesseiros, basta levar algumas ancoretas de aguardente de cana, alguns fardos pequenos de fazenda própria e da estimação dos negros, e sobretudo coral falso, roncalha, velórios e outras missangas. Levar-se-ão também alguns capotes de pano ordinário agaloados de ouro falso, chapéus grossos, pela mesma forma agaloados, e alguns bastões, ou bengalas com seus castões de cobre dourado: porque um capote destes, um chapéu, uma bengala, duas ancoretas de aguardente e algumas missangas, foi sempre o mimo da maior estimação do Sova mais poderoso destes países.

Para a subsistência desta expedição poder-se-á comprar uma boa porção de gado, de que abundam aquelas terras; e dado que acabe, nunca se pode temer a fome; porque, havendo pólvora, chumbo e bala, há-de haver certamente que comer, por ser o sertão todo muito povoado de imensa e varia caça, como elefantes, rinocerontes, empacaças, zebras, palancas, gamos e veados de diferente grandeza e qualidade. Toda esta carne é excelente; e enquanto a houver, não se padece. Eu me lembro de que na guerra, que desde setenta e quatro até setenta e nove, se fez no rio grande de são Pedro aos Espanhóis e a que eu assisti, em muitos tempos não comeu o Exército outra coisa senão carne, e sempre esteve pronto, nutrido e mui contente.

O tempo próprio para esta expedição é o que vai de Maio até Setembro; tempo em que, podendo ser, ela deve acabar inteiramente, ou pelo menos suspender-se com tal cautela e providência, que os quartéis de inverno, que desde então é muito rigoroso, possam estabelecer-se em sítio tal, onde o exército não fique exposto aos seus rigores, e lhe seja fácil haver as provisões para a sua subsistência. Aquele tempo a que lá chamam o cacimbo, e que corresponde ao nosso verão, é o mais temperado e mais benigno; porque se as chuvas, que naqueles sertões são muito copiosas e muito continuadas, apanham o exército desprevenido, terá ele de invernar aí mesmo onde elas o encontrarem. E que incómodo então, que prejuízo e que destroço não há que recear de semelhante acampamento? É logo da mais séria consideração, importância e consequência, tomarem-se as medidas com tal circunspecção, que esta empresa seja começada e concluída dentro daquele tempo declarado e com as prevenções e cautelas mencionadas.

Parecia também conveniente que esta diligência tivesse o seu princípio antes pelo rio Sena e Moçambique do que por Angola, ou por Benguela. O sertão que vai a descobrir-se está mais chegado à costa oriental, e por conseguinte mais próximo àquele rio e àquela povoação e capital; os negros dessa parte são indubitavelmente mais disciplinados, mais bravos e mais valentes; e havendo algum obstáculo que romper, convém que a gente esteja fresca e vigorosa para resistir e aplanar qualquer dificuldade que da parte deles possa oferecer-se; que não se conseguiria, se a expedição fosse começada pela costa ocidental ou de Benguela. Porque quando chegasse à contra costa, vinha a esse tempo a gente já estropiada, cansada, provavelmente desbastada e bem diminuída, e como tal incapaz de resistir e vencer os embaraços que os negros dessa costa suscitassem.

Passo finalmente a tratar do que me parece mais dificultoso e ao mesmo tempo da maior importância e consequência; de um homem, digo, ou antes de um herói (que por tal deve ser avaliado) no qual concorram as qualidades indispensáveis, que requer o comando e a direcção de uma empresa tão séria e melindrosa, que a não se conseguir a primeira vez que se intentar, ficam certamente impossibilitadas quaisquer outras tentativas que depois se hajam de fazer: porque ficaria o sertão todo prevenido, de má fé e desconfiado; o que junto ao desgosto em que se acha por alguns enganos e violentas usurpações executadas por alguns dos sertanejos e outros brancos, tornaria não só impraticável, mas impossível qualquer outra diligência. Deve pois o comandante ser um homem cheio de probidade, de paciência, de fortaleza e de prudência, saudável e vigoroso, costeado no país e bem instruído nas máximas e costumes destes povos, sóbrio, modesto, sisudo e continente. Porque além da boa fé, da verdade e do pronto pagamento de tudo o que se lhe comprar, é precisa suma vigilância a respeito das mulheres, de que esses bárbaros são zelosos por extremo, e certamente se malograra a expedição se uma só fosse atacada com violência, ou ainda mesmo aliciada; e faz-se muito necessário que o comandante, dando nesta matéria o mais público, notório e constante exemplo, proíba debaixo das penas mais graves e castigue prontamente sem excepção e sem demora, a qualquer que nisto delinquir: para o que se faz preciso que ele seja revestido de grande poder e autoridade para impor e fazer executar as penas graves, que as circunstâncias exigirem. Só assim pode seu lugar fazer-se respeitável como convém, e ele ser prontamente obedecido. E se for circunspecto e prudente, como deve, saberá temperar esta autoridade com os doces atractivos da benevolência, da humanidade e da brandura. Seria bom e conveniente que não tivesse nesta diligência subordinação a governador algum, nem general, e que a estes fossem as mais apertadas e decisivas ordens, para prestarem todo o auxílio que lhes fosse requerido; mas por desgraça, eles sempre encontrarão motivos especiosos para, ou de todo desvanecer, ou pelo menos retardar estas diligências, quando não vão por eles dirigidas.

As primeiras impressões são as que decidem geralmente a respeito do partido que devemos tomar, e os homens de ordinário, se governam e determinam por aqueles objectos que lhes ferem os sentidos exteriores. Pelo que observando aqueles bárbaros povos a boa conduta, a mansidão, a verdade, a candura e moderado comportamento não só do comandante, mas também dos companheiros, inferem logo daqui as boas e pacificas intenções de quem os manda e pela experiência que tenho de tratar com esta gente, posso assegurar por muito fácil, desejado e feliz sucesso desta diligência. Além disto deve ser animado de um verdadeiro patriotismo independente, abastado e que só de glória seja ambicioso. É muito e muito de notar e averiguar esta qualidade: porque é notório e infelizmente experimentado, que o sórdido interesse dos comandantes, é quem de ordinário malogra as melhores expedições d'África. O seu mau exemplo atrai imitadores e tudo se transtorna; porque não é capaz de conter os outros, quem a si mesmo se não pode reprimir. Desta forma, ou por este motivo, se atropelam as instituições mais judiciosas e prudentes, tornam odioso o respeitável nome do Soberano que os envia, conculcam os mais sagrados direitos do decoro, da justiça e da verdade; e por cúmulo da desgraça, sempre acham subterfúgios com que evadir os castigos merecidos.

Como se não trata de ostentação nesta diligência, convém muito, ou antes é preciso diminuir o mais que puder ser, toda a bagagem aparatória e não se admitirem os costumados baús, arcas, mesas, camas, loiças e fardos de fazenda que possam embaraçar uma pronta e seguida marcha. O trem do comandante, se ele for, como deve, soldado verdadeiro, bastará que seja tal que um negro sem estorvo possa conduzi-lo. E se também nisto der exemplo, será imitado e obedecido sem constrangimento, nem violência; porque os súbditos, se observam que o seu maior ou superior se não distingue, nem se forra aos incómodos e contratempos, sofrem também à sua imitação, sujeitam-se calados, não têm ocasião de murmurar e tudo corre como deve, como se deseja e se pretende.

Para prevenir qualquer desastre que possa levar o comandante da presença dos viventes, ou que o impossibilite no exercício do seu emprego, faz-se indispensável a nomeação e companhia de um seu tenente ou vice-comandante, que seja igualmente revestido, e dotado das mesmas qualidades que ele tem de ostentar na falta, ou no impedimento do primeiro.

Estas, Senhor Excelentíssimo, são as reflexões que tenho feito sobre o descobrimento do sertão desconhecido do amplíssimo reino de Angola; e sobre a comunicação por terra das duas costas oriental e ocidental. A experiência e a prática do país as tem suscitado e feito nascer no meu espírito e o zelo do bem da minha pátria, como disse, da glória da minha nação e do interesse do meu príncipe, me obriga a apresentá-las o Vossa Excelência, que, pesando-as na balança fiel da sua perspicaz inteligência e aumentando, diminuindo e mudando o que julgar conveniente, só nos pode dar esperanças de se ver efectuada uma tão importante e gloriosa diligência. Estes os meus votos e os meus únicos desejos, sem mais outro algum intento que não seja a gostosa complacência de haver para ela concorrido, podendo seguramente asseverar como o nosso Horácio na dedicatória dos seus versos:

«Eu desta glória só fico contente

Que a minha terra amei e a minha gente. »

José Maria de Lacerda.


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