terça-feira, 9 de novembro de 2010

“UM NOVO BRASIL DE UM NOVO PORTUGAL" A historia do Brasil e a ideia de colonização em Portugal nos séculos XIX e XX

Rui Ramos

Este estudo tem como objecto as linguagens utilizadas em Portugal para conceber o fenomeno da ocupação de territorios ultramarinos nos séculos XIX e XX. O seu ponto de partida esta na frequência com que os entusiastas do dominio português em Africa citaram 0 caso do Brasil para afiangar os seus projectos africanos. Segun-
do um deles, em 1877, o objectivo era "fazer do nosso vasto império africano um novo Brasil de urn novo Portugal” 1 Porque é que nunca se utilizou a ideia de uma “nova India” para recomendar o ”império africano”? Simplesmente porque o Estado da India andava entao reduzido a um negocio modesto, enquanto o Brasil era grande e próspero? De facto, a concepção do "império africano” como um ”novo Brasil", em vez de uma ”nova India, pressupunha uma certa noção do que os portugueses haviam feito no Brasil e na India e do que precisavam fazer em Africa. Isso mesmo se deduz do modo como, em 1980, um dos mais categorizados estudiosos do ultramar portugués, Orlando Ribeiro, explicou o ”fracasso da colonizagao de Angola" através das diferengas entra essa colonizagéo e a colonizagao do Brasil?

No presente estudo, procuro explicar esta invocagao do Brasil no seguimento do que escrevi sobre a critica as ”descobertas e conquistas” em Mousinho da Silveira, Alexandre Herculano, Oliveira Martins e Antero de Quental. Nesse outro estudo, defendi que a condenação do passado ultramarino por essas personalidades fazia sentido no contexto da cultura do patriotismo civico, um dos ingredientes principais da monarquia constitucional portuguesa no século XIX. Na base desta cultura, estava a tradigção do republicanismo classico europeu, que via a solugao para o problema do governo no estabelecimento de uma comunidade igualitaria, unida pelo civismo, fixa num territorio, e com um modo de vida estavel, preferencialmente agrario. Como argumentei no referido estudo, os autores atras mencionados partilhavam destes principios e por isso deram prioridade a ”colonização interna”,o povoamento e ocupação do Portugal europeuu‘ Neste estudo, vou argumentar que, no quadro desta cultura civica, 0 Brasil, por contraste corn a India, pode ser repensado como um prolongamento ultramarino desta ”colonizag5o interna”. A oposição entre a India e o Brasil sustentou a distinção entre dois tipos de expansao ultramarina — uma expansao militar e aristocratica, e outra expansao pacifica e democratica. Esta dicotomia serviu de fundamento aos juizos de valor sobre 0 passado ultramarino e afectou o modo como foi pensado o destino dos dominios africanos.

A ”causa perdida" da India e a "nova patria portuguesa" do Brasil Nos meados do século XIX, a defesa do padroado portugués do Oriente contra asintromissoes papais, supostamente apoiadas pela companhia inglesa das Indias,suscitou um novo interesse pela historia do Estado da India. Alexandre Herculano,que sempre condenara o império oriental como uma das causas da decadéncia nacional, declarava-se agora disposto a combater "pe1os vestigios do sangue de nossos avos esparzido no Oriente”, incluindo as ”prerrogativas temporais do Padroado”. 5 Foi entao que Iosé Heliodoro da Cunha Rivara, secretario do governador do Estado da India em 1855, se lancou a criar, com 0 seu Arquivo Portugués-Oriental(1857-1876), 0 equivalente asiatico dos Portugaliae Monumenta Historica (1856). Rivara acabaria, em 1858, por ser oficialmente incurnbido de continuar a cronica oficial da India, negligenciada desde o século XVIII. Em Lisboa, entretanto, a Academia Real das Ciéncias inaugurara a Colecgfio de Monumentos Inéditos para a Histéria das Conquistas dos Portugueses (1855), em que predominou a matéria oriental. 6

No entanto, esta publicação de documentos, que prosseguiu animada pelo centenario de 1898, nunca contrariou a costumeira apreciagao fundamentalmente negativa sobre os efeitos da "conquista da India”.7 O modo como o tema é tratado no Diciomirio Popular dirigido por Manuel Pinheiro Chagas em 1876 é revelador.8 O que se admirava na India eram as proezas militares, a mernoria do ”vastissimo império" imaginado por Afonso de Albuquerque, ”o vulto mais brilhante dos nossos anais", comparado a Alexandre e a Napoleao num ”simile justissimo”. Albuquerque fora ”bom e justo” para os indianos e recomendara aos seus subordinados ”o respeito pelas crencas religiosas dos naturais”. Os seus sucessores, porém, "não souberam como ele conciliar a estima e a simpatia dos indios”. O dominio portugués consistiu, por isso, num puro exercicio de violéncia. so se "sustentava a força de continuas e ininterruptas vitorias”. Mal a ”corrupcao” fez vacilar o poder militar, ”foi tudo a pior". Depois, ingleses e holandeses ”cornecararn a juntar—se aos indigenas para demolir o novo império”. O Estado da India chegou assirn ao século XIX reduzido a "uma lingua de terra de pouco valor comercial e agricola, conservado como reliquia das nossas velhas glorias, e que a tolerancia inglesa nos deixa". Ocontraste com a India inglesa, ”do tarnanho de toda a Europa ocidental", era por demais deprimente. A razao da diferente fortuna era tarnbém claraz os ingleses tinham seguido uma politica "liberal", procurando "conquistar a afeicao dos indigenas em vez de os assustar”.

A sorte do Estado da India foi abordada por Antero de Quental num comentario ao livro de Frederico Diniz Ayala, Goa Antiga e Moderna (1888). Da sua leitura, Antero concluia que ”desde que nao quisemos nem podemos assimilar o elemento indigena na India, pela forga das coisas, ele, que era a maioria, tinha de acabar por nos expu1sar”.9 O sentido desta ”assimilagao” é indirectamente esclarecido por Antero quando lamenta, na mesma ocasiéo, que os governos liberais nunca tivessem cornpreendido ”o movimento politico naturalista chamado das nacionalidades,que é umas feicoes notaveis do nosso século". (sublinhados meus) Assimilar signi-
ficava, portanto, integrar numa nacao, nacionalizar. Ora, essa tarefa tinha sido comprometida pelo aspecto militar e intolerante da acgao portuguesa na Asia, aspecto sublinhado por Antero na sua célebre conferéncia de 1871 sobre as "Causas da Decadéncia dos Povos Peninsulares”.

Por tudo isto, a lndia era, segundo Antero, ”uma causa perdida e que o tinha
de ser”.1° O contraste com o Brasil nao podia ser maior. N0 fim do século XIX, espe-
rava-se que, seguindo a logica da ”transferéncia do império”, a inevitavel decaden-
cia da Europa fosse seguida pela hegemonia mundial das Américas, com o Brasil a
assumir o papel de grande poténcia civilizadora no século XX.“ As razoes da dife-
renga entre a decadéncia do Estado da lndia e o sucesso do Brasil foram explicadas
na primeira grande obra colectiva de historiografia dos descobrimentos, precisa-
mente a Histéria da Colonizagfio Portuguesa no Brasil (1921-1926), dirigida por Carlos
Malheiro Dias e financiada pela poderosa comunidade de capitalistas portugueses
do Brasil.” Achave da fortuna brasileira aparecia logo no titulo da obra: "coloniza-
géio”. O mote da obra era dado pela oposigao entre ”os processos inglés e portu-
gués” de colonizagao na América. A primeira diferenga respeitava a natureza dos
colonos. Os ingleses e escoceses que haviam desembarcado na América do Norte
eram ”aventureiros”, que “nae sabiam e nao queriam dedicar-se ao cultivo das ter-
ras". Pelo contrario, os portugueses chegados antes da descoberta dos diamantes e
do ouro eram auténticos colonos, lavradores, preparados para se converterem em
”fundadores da patria”: "Heroicidade e amor, néio uma cobiga sordida, criaram 0
Brasi1”. Em segundo lugar, os ingleses adoptaram "um processo colonizador que
recusava a encorporagao do aborigene e preferia extermina-lo a civiliza-lo”. Ora os
portugueses, nao so néo ”dispunham de recursos para executar o exterminio”,
como ”nem o premeditaram”. A0 contrario, seguiram uma ”politica de concilia-
gao”. Por isso, a nova nagao brasileira pode fundar-se ”nas trés ragas ja unidas e
mescladas: a portuguesa, a aborigene e a africana”. Carlos Malheiro Dias sublinha-
va que nao tinha havido aqui mera pieguice filantropica: "A politica altruista de
Portugal correspondia a uma verdadeira razao de estado, derivava das condigoes
em que o empreedimento colonizar se realizava, com o parco material de uma po-
pulagao exigua”. De facto, "so uma politica colonizadora que encorporasse o au-
toctone e dele fizesse, melhorado pela mestigagem, urn colaborador, poderia haver
conservado a integridade de dominio tao colossal”.13
Assim, 0 estabelecimento portugués no Brasil estivera isento, segundo Carlos
Malheiro Dias, da ”politica imperialista” adoptada na Asia e em Marrocos, onde se
haviam seguido os ”processos sanguinarios do oriente". Enquanto na india houve—
ra ”conquista", no Brasil houvera ”colonização”. ”Colonização” conservava, aqui,
o seu significado antigo, ou "romano", como dizia Malheiro Dias: por um lado,
"povoamento”, estabelecimento de "colonos" numa terra nova; por outro lado,
aculturagao dos indigenas. Apartir daqui, os autores da H istéria da Colonização Por-
tuguesa do Brasil desenvolvem uma curiosa analogia entre a ocupagao do Brasil no
século XVI e o povoamento de Portugal na Idade Média. Os dois primeiros volu-
mes da obra ainda estavam dedicados sobretudo a questao do descobrimento e das
navegagoes ao longo do litoral. Mas o terceiro volume tinha um titulo que era um
programa: ”Colonizag5o: A Idade Média Brasileira (1521-1580)”. De facto, o que
Malheiro Dias e os seus colaboradores fizeram, sob semelhante titulo, foi projectar
na América o mundo ideal imaginado por Alexandre Herculano para 0 Portugaleuropeu a partir da historia medieval: uma sociedade rural de lavradores livres, a
caminho da autonomia politica. Na Europa, esse ”Portugal rural e municipalista da
idade média, 0 das energias populares, o da fé candida e bérbara”, havia sido arrui-
nado pela conquista do oriente. Mas enquanto o Portugal europeu se afundava na
India, surgia no Brasil ”um novo e imperecivel império, que sobreviveria aos sécu-
los, e para onde os desterrados haviam transportado, com os arados e as lancas,
aquela robusta concepcao de patria batalhadora e rural”. Em suma, o Brasil era a re-
encarnagao, nos tropicos, do Portugal medieval. A preservação brasileira das anti-
gas virtudes portuguesas era um dos topicos de outro colaborador da Histéria da
Colonização Portuguesa, o medievalista Paulo Meréa. Meréa sublinhava que, embo-
ra em Portugal ja então se sentisse os efeitos da centralizagao monarquica classica-
mente denunciada por Alexandre Herculano, D. I050 III ainda adoptara para o Bra-
sil, tal como nas ilhas do Atlantico, a ”politica tradicional” das donatorias.“

Esta versao tropical do ruralismo liberal de Alexandre Herculano nao ficou
circunscrita a Histéria dirigida por Carlos Malheiro Dias. Na década de 1940, Gil-
berto Freyre, o mais célebre dos cientistas sociais brasileiros, sublinhava, na mesma
linha de interpretacao, que, felizmente, ”o elemento humano basico da colonização
agraria do Brasil” haviam sido os ”portugueses cle boa e antiga linhagem rural”, os
”chamados portugueses velhos”, acompanhados pelos "camponeses analfabe-
tos”, que mantinham o ”tradicional amor da agricultura”, o ”amor das arvores e da
vida rural". Os outros portugueses, os "inimigos da agricultura”, os ”judeus urba-
nos”, tinham desempenhado um papel meramente complementar, ajudando, com
o seu jeito para o comércio, a circulacao dos produtos da agricultura. Do estabeleci-
mento no Brasil de uma populagao rural, proviera uma nova ”patria", isto é, cria-
ra-se aquela relacao intima, emocional, completa, entre os habitantes e a terra. Essa
relagao preparara a ”autonomia”, de modo que 0 Brasil passou naturalmente de
”colonia”, ainda submetida a metropole, a uma ”patria” independente.“

Em suma, a India e o Brasil ofereciam o contraste entre, respectivamente, uma
expansao guerreira, assente nacoacgao dos indigenas, e uma expansao baseada no
povoamento rural e na assimilacao. De um lado, fundara-se um dominio militar, sempre ressentido pelos povos a ele sujeitos, e que por isso so durara enquanto houvera forga. Do outro lado, haviam-se lancado as bases de uma comunidade autonoma, uma réplica da comunidade de origem dos colonizadores, onde os povos indigenas se haviam também integrado. O divorcio entre Portugal e a India, apesar da manutencao do Estado da India, era fatal. Pelo contrario, entre Portugal e o Brasil havia, apesar da independéncia brasileira, uma continuidade organica. Alias, na Historia de Malheiro Dias, o historiador brasileiro Oliveira Lima explicava que a nação portuguesa do Brasil se comecara a encarninhar para a independéncia, não contra Portugal, mas durante o dominio espanhol (1580-1640), isto é, contra Espanha. Assim, a origem da autonomia brasileira estava, paradoxalmente, no patriotismo portugués.“ Na portada da obra, declarara-se, significativamente, que ”o Brasil nao chegou a ser uma colonia. Foi logo nação, foi logo patria: a nova patria portuguesa”. Dai o ”sentimento nacionalista da colonizacao” de que falava Malheiro Dias. Nãp era um ponto de vista novo. Alberto de Oliveira, o principal teórico do "nacionalismo" literario em 1894, ja tinha visto no Brasil 0 ”testamenteiro da nossa riqueza espiritual”, nao apenas um novo Portugal, mas um Portugal-maior."

A prioridade da ”colonização interna” na cultura do patriotismo civico do século XIX, e a ideia das duas expansoes. A oposiçaoo entre a India e oBrasil, pressuposta pela História da Colonização Portuguesa do Brasil, expressava a sabedoria corrente entre os literatos e eruditos portugueses da segunda metade do século XIX. A historia da India era uma historia de guerras no mar e cercos a cidades costeiras, a de um ”império maritime”. Em 1877, o historiador Costa Lobo notava que ”a intenção dos portugueses nunca foi povoar a India”. Em 1885, o Conde de’Ficalho,resumia assim a saga do império oriental: "Os portugueses saquearam a India: a India corrompeu-os". Pelo contrario, a historia do Brasil era a historia da emergéncia de uma nagao em "terras fertilissimas”, proprias para a ”colonização”. Por isso, a conquista da India era mesmo deplorada, na medida em que, no século XVI, distraira os portugueses da sua mais gloriosa obra, a colonizagao do Brasil.“

Qual o sentido deste profundo contraste entre o dominio militar da India e o povoamento rural do Brasil? Não era uma oposigao inédita. Ia em 1608, nos Did10-
gos do Sitio de Lisboa, Luis Mendes de Vasconcelos estabelecera a antitese muito cla-
ramente. Alndia era uma ”milicia" que consumia gente ”continuamente”. O Brasil
e as ilhas do Atlantico, pelo contrario, tinham-se "povoad0" e abasteciam 0 reino
de agucar e pao: “e assim destas terras recebemos o beneficio que a conquista da
India nos nega”. De facto, a ”conquista da India cai no género deleitoso”, uma glo-
ria unicamente militar, de tal modo que "fora mais util nao se intentar a conquista
da India”.19 Por outro lado, a dicotomia entre ”conquista" e ”coloniza<;ao” nao era
um tema especificamente portugués. Hegel, por exemplo, utilizou—a para explicar
a aparente diferenga de fortuna entre a América do norte e a do sul. Depois de citar
a divergéncia religiosa (a América do norte era protestante, e a do sul era catolica),
Hegel acrescentava que ”outra diferença é que a América do sul foi conquistada, en-
quanto a do nortefoi colonizada. Os espanhois apoderaram-se da América do sul para
dominar e fazer—se ricos, quer por meio de cargos publicos, quer por meio de exac-
g6es".2° (sublinhado meu) Assim, o Brasil era reduzido a uma ”conquista" por con-
traste com a ”coloniza<;ao” norte-americana — era o contrario da tese de Carlos
Malheiro Dias, mas obedecia a mesma logica.

Para compreendermos o contexto ideologico em que, nos fins do século XIX e
principios do século XX, a ”conquista” e a ”colonização" foram diversamente valo-
rizadas, teremos de regressar a uma das outras referéncias da fantasia medieval da
História da Colonização Portuguesa no Brasil: Oliveira Martins.“ Martins não foi a ins-
piragao directa dessa Historia, mas usou as mesmas classificagoes historicas. Nos
seus escritos sobre a expansao portuguesa, Oliveira Martins distinguira trés tipos
de estabelecimentos ultramarinos: as ”feitorias" do Oriente, as ”fazendas” de

Africa e do Brasil e as ”povoacoes" das ilhas atlanticas. Como se , Martins, tal
como Carlos Malheiro Dias, usava também a distincao entre povoamento e outras
formas de dominio para perceber a expansao ultramarina. Ao contrario dos cola-
boradores da Historia da Colonização, porém, Martins considerava que o Brasil, em
pleno século XIX, ainda nao arrancara da fase de ”fazenda” ou ”plantagao”, para se
tornar uma nacao completa. O Brasil sofria de uma populacao demasiado hetero-
génea (por causa da emigração africana, alema e chinesa) e da monocultura do
café. Ou seja, a equipa de Carlos Malheiro Dias dava como adquirido aquilo que
Oliveira Martins ainda considerava um objectivo a alcancar. Os conselhos de Mar-
tins aos brasileiros partiam do principio de que ”so uma populacao homogénea
fixa, mais ou menos produtora de tudo o que é essencial a vida, pode constituir ver-
dadeiramente uma nagao”. Ora, estas recomendacoes eram semelhantes as que fez
aos portugueses no seu projecto de Fomento Rural de 1887.22
Já indicamos, noutro estudo sobre este mesmo tema, como o programa de Fo-
mento Rural expressava um projecto politico, o de criar em Portugal uma comuni-
dade democratica fundada numa massa de lavradores proprietarios. O ponto de
partida de Oliveira Martins era a ideia de que a liberdade politica so era possivel
entre iguais. Em Portugal, esta comunidade igualitaria so poderia ser realizada se a
populacao fosse transformada numa massa de lavradores prosperos. Em Politica e
Economia Nacional, Martins citou Aristoteles, Maquiavel e Montesquieu,” as prin-
cipais referéncias da tradicao europeia do republicanismo classico, para provar
que o ideal do cidadao de um estado livre correspondia ao ”lavrador soldado", ao
chefe de familia na posse dos meios necessarios para levar uma vida independen-
te.“ Sem este tipo de populacao, a democracia era impossivel. Ganhoes analfabetos
e operarios miseraveis nao podiam constituir a base de uma cidadania. O ”pilar da
liberdade” estava numa classe de produtores livres, que Oliveira Martins desejava
proteger da concorréncia e incertezas da economia internacional.”

Martins ecoava aqui as preocupacoes civicas dos politicos liberais do século
XIX. Como se apercebeu Iohn Stuart Mill, os liberais acarinharam sempre os peque-
nos proprietarios e lavradores, em que reconhecerarn a base da estabilidade
social.“ Alexandre Herculano imaginou Portugal como um pais de pequenas alde-
ias, povoadas por lavradores patrioticos e padres de espirito aberto. Era essa a filo-
sofia da novela O Pdroco de Aldeia, publicada pela primeira vez em O Panorama em
1843, e que permeou as novelas de Julio Diniz, de grande voga em 1868-1871. Tam-
bém Antonio Feliciano de Castilho, em 1850, elegera os campos como 0 sitio em que
os bandos politicos e as classes se podiam desfazer numa vida mediana e na comu-
nhao com a natureza, como os ”Romanos da Republica, essa gente exemplar". Por
isso, concluia Castilho: ”para Portugal nao ha ja hoje outra ocupacao possivel. A
conquista? Nao. Os descobrimentos? N50. As minas? N50. A Industria? Nao. As
nossas conquistas, os nossos descobrimentos, as nossas minas, a nossa industria, é
0 solo da Patria. E o unico mister para que ainda nos restam bracos, instrumentos,
forcas, e liberdade. E 0 unico lavor, em que nenhumas invejas estrangeiras perige-
sas hao-de vir perturbar-nos. O ceptro de D. Afonso Henriques e o de D. Manuel,
perderam-se; 0 de D. Iosé quebrou-se. Ceptro, e nao escarneo, so pode ser hoje no
Trono Portugués, o de D. Sancho I e o de D. Diniz".27

Os reis "povoadores” da primeira dinastia haviam também de servir de pa-
tronos ao célebre projecto de fomento rural apresentado por Oliveira Martins ao
parlamento em 1887. Depois de referir o crescimento demografico entre os séculos
XII e XV, Martins esclarecia: ”Como se aumentou assim a populagao? Colonizando.
Os nossos reis da primeira dinastia foram os construtores das bases do nosso edifi-
cio étnico”. (sublinhado meu) Segundo Martins, Portugal desenvolvera-se através
de um processo de ”coloniza<;ao”, com a descida da populagao crista desde o norte
até as terras meridionais conquistadas aos Mouros. No século XVI, porém, 0 impé-
rio ultramarino desviara essa corrente de emigragao para a India e 0 Brasil. O sul do
reino ficou abandonado, nas maos de grandes latifundiarios que, por negligéncia
mas sobretudo por falta de mao de obra, deixaram sobreviver as charnecas. Entre-
tanto, 0 império ultramarino acabara, mas a distorgao permanecia: a populagao do
norte continuava air para o Brasil, enquanto os imensos desertos do sul aguarda-
vam cultivadores. Assim, um dos objectivos que Martins atribuiu a um sistema de
”protec<;ao do trabalho nacional" foi a ”colonizagao” do sul do reino. Obras hidrau-
licas regariam as planicies aridas. Famflias de cultivadores do norte, de "colonos",
seriam atraidas para o sul. Os latifundiarios alentejanos seriam encorajados a ar-
rendar pequenos casais. Entretanto, a crescente produgao de cereais e outros ali-
mentos tornariam o pais auto-suficiente. A nova populagao rural abriria um novo
mercado para a industria. Tudo isto se faria debaixo da asa carinhosa do estado. O
estado defenderia os cerealicultores e indutriais com uma pauta alfandegaria in-
transponivel, investiria em infraestruturas, dispensaria crédito para os colonos e
regularia a transmissao de propriedade enfitéutica, de modo a salvaguardar os di-
reitos dos cultivadores. O sul era a nova fronteira, o horizonte de uma verdadeira
”colonizag5o naciona1": ”a colonizagao interna”. O objectivo de Martins era tornar
Portugal numa ”nagao-colmeia”, ”uma nagao vivendo dos seus proprios recursos
naturais”, um modelo que Martins contrastava com 0 tipo de nagoes "coloniais ou
comerciais" como a Gra-Bretanha e a Holanda. Tal como Castilho em 1850, Martins
convencera-se de que Portugal nunca seria outra vez uma poténcia colonial. Em
1873, em Portugal e 0 Social ismo, Martins apontara o destino dos portugueses: torna-
rem-se ”uma nagao de proprietarios rurais": "(. . .) com Proudhon entendo que a
justa distribuição da propriedade coalharia um territorio de pequenas casas, cada
qual com a sua famflia semi-camponesa, semi-cidada, em volta uma courela e um
jardim, e por toda a parte 0 bem estar que provem da liberdade, da igualdade e do
trabalho”.28

Martins articulava assim as velhas e novas aspiragoes da élite liberal portuguesa.
A esquerda liberal desejara sempre encher as aridas planicies do Alentejo com "cida-
daos honestos”, tornar a liberdade "real" através de reforma agréria, obras pfiblicas e
acesso ao crédito.” Adireita liberal, por sua vez, descobria, no fim do século XD(, que a
”forga conservadora do ruralismo” constituia 0 ”agente ponderador que equilibra a
vida historica dos povos e lhe mantem a continuidade através das metamorfoses im-
postas pela misteriosa energia evolutiva”.3° Por isso, em 1898, em plena quadra da co-
memoragao da viagem de Vasco da Gama, a grande imprensa de Lisboa lembrava que
0 ”comércio da india foi a nossa ruina" e recordava o Velho do Restelof“ Quando se fa-
lava de ”co1onizagao”, era do Alentejo que se tratava.”

Este projecto de "colonizacao interna” nao correspondia apenas as tendén
cias dominantes na cultura politica portuguesa da segunda metade do século XIX.
Os radicais ingleses ligados ao lider liberal Ioseph Chamberlain, por exemplo, ti-
nham desenvolvido uma visao politica muito semelhante a de Oliveira Martins.
Também eles defendiam 0 estabelecimento em Inglaterra de uma sociedade demo-
cratica de pequenos lavradores independentes, que esperavam ressuscitar contra
as devastacoes do industrialismo. Dadas as diferencas entre Portugal e a Inglater-
ra, a analogia entre os projectos de Chamberlain e Martins reforca a hipotese de o
"ruralismo" dos planos de Martins nao derivar de uma mera consagracao das con-
dicoes existentes em Portugal, mas de um projecto politico fundado numa comum
cultura europeia de patriotismo civico. De facto, o projecto de estabelecer uma de-
mocracia de pequenos produtores independentes uniu varios movimentos politi-
cos na Europa e na America do Norte na viragem do século XIX para o século XX.
Por detras destes programas de reforma social fundada no regresso a terra e na dis-
seminacao da sua propriedade estava a ideia de que todos os conflitos regionais,
sociais e culturais podiam ser ultrapassados se a maior parte da populacao se inte-
grasse numa comunidade de pequenos produtores, preferencialmente lavradores
proprietarios. Nunca, até ao século XX, foi claro para todos que o destino da Europa
estivesse nas fabricas, lojas e escritorios das grandes cidades. No fim do século XIX,
a propriedade camponesa e a sua relacao com a vida colectiva converteram num to-
pico favorito dos novos cientistas sociais, nao apenas por curiosidade arqueologica
mas com um sentido normativo. Era o caso dos discipulos de Frederic Le Play, que
em 1909-1910 entraram em Portugal com o patrocinio de D. Manuel para descobrir
o modelo de familia ideal entre os camponeses do noroeste do pais.”

A utopia da ”colonizacao interna” continha em si a repulsa da ideia de expan-
sao ultramarina, tal como é claro em Antonio Sérgio, um dos herdeiros de Oliveira
Martins no principio do século XX. Em 1924, Sergio opos ”dois pensamentos politi-
cos nacionais”: um correspondia a ”escola da precedéncia da colonizacao metropo-
litana (em 1957, Sérgio emendou para "do trabalho agricola ou manufactureiro")";
o outro, a "escola da precedéncia da actividade do transporte, do trafico, da explo-
ragao comercial dos produtos do ultramar”.3“ Sérgio aproveitava aqui uma ideia de
Oliveira Martins, que, nos Filhos de D. I050 I, opusera a politica representada pelo
infante D. Pedro a politica do infante D. Henrique: a primeira era a do ”bom senso",
da concentragao de esforcos no proprio pais; a segunda era a da ”aventura ultrama-
rina”.35 Na politica de ”transporte", Sérgio distinguia a heranca nefasta de uma
aristocracia guerreira, desviada do trabalho produtivo pela reconquista na Penin-
sula Ibérica. Anobreza portuguesa, ao contrario da aristocracia provincial inglesa,
habituara—se a viver a custa da depredacao contra os mouros e asiaticos, da inquisi-
cao contra os judeus, da exploracao dos escravos negros. Os descobrimentos nao ti-
nham sido mais do que a extensao da rapinagem ao ultramar. Os portugueses nun-
ca haviam desenvolvido uma "Vida norma1”, isto é, a vida baseada no trabalho, na
industria.“ Por detras desta visao, levantava-se também a inspiracao positivista.
Herbert Spencer estabelecera que as sociedades evoluiam ”normalmente" de uma
fase guerreira-predadora para uma fase industrial-pacifica.” A decadéncia dos ibé—
ricos explicava-se pela sua fixacao na fase guerreira-predadora, que os deixara
desadaptados em relagao ao meio ambiente moderno. Os descobrimentos, segun-do Sérgio, eram precisamente o sintoma dessa fixagao portuguesa numa fase ultra-
passada da evolucao humana. Nem 0 aspecto comercial os poderia redimir, visto
que Sérgio considerava a ”traficancia” como uma outra maneira habilidosa de vi-
ver sem trabalhar, semelhante a "cavalaria". O ideal de Sérgio, igual ao de Oliveira
Martins, estava nos “povos de equilibrada fundagao agraria".33
O objectivo de Sérgio era apoiar os projectos do seu amigo Ezequiel de Cam-
pos, colaborador da Seam Nova, ministro da Agricultura, e (segundo Sérgio) testa-
menteiro da proposta de fomento rural de Oliveira Martins. Mas havia de ser com 0
proprio Ezequiel de Campos que Sérgio aprenderia que a preferéncia pela “fixa-
gao” nao excluia a expansao ultramarina. Campos, tal como Oliveira Martins, que-
ria ocupar o territorio metropolitano, através de ”obras de rega e enxugo". Preten-
dia mesmo "reduzir o urbanismo”, proibindo novas construcoes nas cidades e vi-
las. Os portugueses deviam ser incentivados a retirar-se para os campos, para 0 que
seria conveniente ”facultar terra e meios de cultivo a todos os portugueses que de-
sejem ser cultivadores". Quanto ao ultramar, Campos nao considerava "prudente
sonhar planos larguissimos de fomento colonial que nao somos capazes de reali-
zar". Mas, segundo ele, também a expansao ultramarina podia ser concebida den-
tro do espirito ruralista que devia presidir a ocupagao da metrople. Colonizar, para
Ezequiel de Campos, devia consistir em povoar os planaltos angolanos com "culti-
vadores". Outro ”seareiro”, Quirino de Iesus, resumiria o projecto ao escrever que
se tratava de ”colonizar” tanto Portugal, como Angola. A ocupagao do ultramar, se-
gundo os colegas de Antonio Sérgio na Seam Nova, deveria consistir numa “coloni-
zacao agricola”, a unica maneira de ”nacionalizar" as colonias, quer ”enraizando”
a “raga branca” nas ”regioes habitaveis”, isto é, nos planaltos angolanos, quer dan-
do “estimulo aos indigenas para a cultura”. 3° Sérgio acabou por absorver esta ligao
e convenceu-se finalmente de que o dominio do ultramar podia ser também "fixa-
gao”, um prolongamento da "coloniza<;ao interna”, com o estabelecirnento de po-
pulagao em actividades agricolas que lhe permitissem uma vida desafogada e esta-
vel dentro de uma comunidade democratica.

Tinha sido este tipo de expansao ultramarina que Carlos Malheiro Dias e os
seus colaboradores haviam identificado no Brasil. Malheiro Dias caracterizara este
método de colonizagao de duas maneiras: por um lado, como proprio dos povos
pequenos e sem muitos capitais, que so através da fixagao de uma populacao rural
poderiam aspirar a ocupar territorios; por outro lado, como o método ”romano”,
por oposicao a ”concepção fenicia”, favoravel as meras feitorias comerciais.“ O
que, portanto, estivera sempre errado na expansao ultramarina fora o ”espirito
guerreiro” que impedira a ”colonizagao"—— algo que Antero de Quental jé sugerira
em 1871.42 Assim, a redencao do ultramar estava, simplesmente, na aplicagao ai do
modelo da ”colonizac€1ointerna". Este recurso, de resto, ja havia sido sugerido em
1905 pelo goés Francisco Fernandes para salvar a lndia. Fernandes atribuia a erni—
gracao dos rapazes educados de Goa para a lndia inglesa a dissolucao das familias
e a expansao dos latiffindios. Para fixar populagao, congeminou uma adaptagao in-
diana do projecto de Fomento Rural apresentado por Oliveira Martins em 1887.
Através da enfiteuse e da instituigao dos casais defamilia, criar-se-ia uma classe de
pequenos proprietarios em Goa. Um pouco mais de autonomia municipal desper-tar-lhes-ia o civismo. Estariam assim criadas as condigoes para a emergéncia de
uma nacao portuguesa na lndia segundo o "rnétodo romano".‘*3

Foi, portanto, no quadro da cultura de patriotismo civico, com a sua preferen-
cia pela colonizacao interna, que o contraste entre as ”feitorias-fortalezas” da costa
de Africa e da lndia, por um lado, e 0 ”povoamento" das ilhas atlanticas e do Brasil,
por outro, se popularizou e converteu no factor explicativo mais favorecido pelos
historiadores da expanséo que se formaram na primeira metade do século XX, a
volta dos grandes empreendimentos colectivos desta época, como a Historia da Co-
lonizagao Portaguesa do Brasil (1922), a H istoria de Portugal (1928) ou a Historia da
Expansao Portaguesa no Mundo (1937). Assim, Manuel Murias, um dos coordenado-
res da Historia da Expansao Portugaesa no Mundo, concebeu a existéncia de duas ”es-
colas" de expansao, logo estabelecidas no século XV: uma desenvolvida nas ”pra-
gas da Africa e feitorias africanas”, e outra apurada durante "a povoacao das ilhas
do Atlantico”. A partir daqui, a expansao portuguesa produzira ”dois irnpérios”:
um, no Oriente, ”de base militar e comercia1”, e 0 outro, no Brasil, ”de base agraria
como nas terras conquistadas na Peninsula aos mouros e nas ilhas de novo achadas
e povoadas”.4‘* Na Historia de Portugal dirigida por Damiao Peres, Iaime Cortesao,
que alias tarnbém colaborara com Carlos Malheiro Dias no projecto brasileiro, usa-
ra ja esta dicotomia para explicar os diferentes destinos das possessoes portugue-
sas no século XVII. A tendéncia geral tinha sido, nesse século, para a decadéncia,
mas decadéncia sobretudo ”naquelas sociedades coloniais, onde, em vez de procu-
rarem estabelecer pela agricultura e a industria uma solida e sa economia, os Portu-
gueses se deram quase exclusivamente a exploracao do trabalho alheio pela violen-
cia e ao corrosivo comércio da escravatura". Era esse o caso da lndia e da Africa.
Nao era, porém, o caso do Brasil. Ai, num ”ambiente de luta e de trabalho”, "depa-
rasse-nos o mesrno portugués do fim da Idade Média”. ‘*5

Também o mais importante e reputado historiador da expansao portuguesa
da segunda metade do século XX, Vitorino Magalhées Godinho, fez desta oposigao
um dos fundarnentos dos seus juizos sobre a expansao. Desde 1945, Godinho sepa-
rou duas politicas da expansao: a pilhagem nobiliarquica, tal como ela teria sido
praticada em Marrocos e na lndia, e ”uma politica de descobertas geograficas, po-
voamento e contactos pacificos”. O apogeu desta ultima ter-se—ia dado entre 1440 a
1448, sob a regéncia do infante D. Pedro, a quem se deveria ”o incremento da colo-
nizacao e exploracao dos Agores, bem como o avanco mais consideravel nos deso-
brimentos geogréficos e o estabelecimeno de relacoes comerciais nas costas do
Saara e da Guiné”. A ”colonizacao”, no sentido definido pelos apologistas da ”co-
lonizacao interna”, permeava as preferéncias de Godinho. Com efeito, Godinho
sublinhava que o estabelecimento portugués em Marrocos falhara no século XV,
nao porque o ”lugar nao se prestava a lavoura", mas sobretudo porque ”os nobres
que iarn a Ceuta pretendiam enriquecer rapidamente e regressar ao reino, de modo
que, em vez de protegerem a colonizagao portuguesa e as aldeias dos mouros, preferiam em frequentes cavalgadas, roubar gado, saquear povoacoes e apresar cativos que
pagavam bons resgates”. Assim, segundo Vitorino Magalhães Godinho, as duas
primeiras ”causas da decadéncia marroquina na segunda metade do século XV e
pequenos proprietarios em Goa. Um pouco mais de autonomia municipal desper-tar-lhes-ia 0 civismo. Estariam assim criadas as condicoes para a emergéncia de
uma nacao portuguesa na lndia segundo o ”método romano”.“3
Foi, portanto, no quadro da cultura de patriotismo civico, com a sua preferen-
cia pela colonizagao interna, que o contraste entre as ”feitorias—fortalezas" da costa
de Africa e da lndia, por um lado, e 0 ”povoamento” das ilhas atlanticas e do Brasil,
por outro, se popularizou e converteu no factor explicativo mais favorecido pelos
historiadores da expansao que se formaram na primeira metade do século XX, a
volta dos grandes empreendimentos colectivos desta época, como a H istéria da C0-
lonizagao Portuguesa do Brasil (1922), a Histéria de Portugal (1928) ou a Histéria da
Expansdo Portuguesa no Mundo (1937). Assim, Manuel Murias, um dos coordenado-
res da H istéria da Expansao Portuguesa no Mundo, concebeu a existéncia de duas "es-
colas" de expansao, logo estabelecidas no século XV: uma desenvolvida nas ”pra—
gas da Africa e feitorias africanas”, e outra apurada durante "a povoacao das ilhas
do Atlantico”. A partir daqui, a expansao portuguesa produzira ”dois impérios”:
urn, no Oriente, ”de base militar e comercial”, e o outro, no Brasil, ”de base agraria
como nas terras conquistadas na Peninsula aos mouros e nas ilhas de novo achadas
e povoadas”.“4

Na História de Portugal dirigida por Damiao Peres, Iaime Cortesao,
que alias também colaborara com Carlos Malheiro Dias no projecto brasileiro, usa-
ra ja esta dicotomia para explicar os diferentes destinos das possessoes portugue—
sas no século XVII. A tendéncia geral tinha sido, nesse século, para a decadéncia,
mas decadência sobretudo ”naquelas sociedades coloniais, onde, em vez de procu-
rarem estabelecer pela agricultura e a industria uma solida e sa economia, os Portu-
gueses se deram quase exclusivamente a exploracao do trabalho alheio pela violén—
cia e ao corrosivo comércio da escravatura”. Era esse 0 caso da lndia e da Africa.
Nao era, porém, o caso do Brasil. Ai, num ”ambiente de luta e de trabalho", ”depa-
rasse-nos 0 mesmo portugués do fim da ldade Média”. 45

Também o mais importante e reputado historiador da expansao portuguesa
da segunda metade do século XX, Vitorino Magalhaes Godinho, fez desta oposigao
um dos fundamentos dos seus juizos sobre a expansao. Desde 1945, Godinho sepa-
rou duas politicas da expansao: a pilhagem nobiliarquica, tal como ela teria sido
praticada em Marrocos e na lndia, e ”uma politica de descobertas geograficas, po-
voamento e contactos pacificos O apogeu desta ultima ter-se-ia dado entre 1440 a
1448, sob a regéncia do infante D. Pedro, a quem se deveria "0 incremento da colo-
nizagao e exploragao dos Acores, bem como o avanco mais consideravel nos deso-
brimentos geograficos e o estabelecimeno de relagoes comerciais nas costas do
Saara e da Guiné”. A ”colonização”, no sentido definido pelos apologistas da ”co—
lonizacao interna”, permeava as preferéncias de Godinho. Com efeito, Godinho
sublinhava que o estabelecimento portugués em Marrocos falhara no século XV,
nao porque o ”lugar nao se prestava :1 lavoura", mas sobretudo porque ”os nobres
que iam a Ceuta pretendiam enriquecer rapidamente e regressar ao reino, de modo
que, em vez de protegerem a colonizagfio portuguesa e as aldeias dos mouros, preferiam, em frequentes cavalgadas, roubar gado, saquear povoacoes e apresar cativos que pagavam bons resgates”. Assim, segundo Vitorino Magalhaes Godinho, as duas
primeiras "causas da decadéncia marroquina na segunda metade do século XV e
“UM NOVO BRASIL DE UM NOVO PORTUGAL” no século XVI” teriam sido: em primeiro lugar, "a auséncia de politica de colonização e de fomento agricola e industrial”; em segundo lugar, ”depredações e consequente despovoamento provocado pela cobica desenfreada dos cavaleiros" — e Godinho acrescentava: ”mesmo fenómeno que no Império oriental” (sublinhados meus).“Ou seja, a expansao portuguesa teria falhado sempre que descambou em razia de cavaleiros irresponsaveis, em simples militarismo, sem a preocupacao de fixar populacao portuguesa e integrar pacificamente as populacoes locais. Esta visaoda expansao era fundamentalmente democratica, em dois sentidos: quer pela sua preferéncia por movimentos populacionais, de massas, quer por uma declarada repugnancia pelos ”fidalgos”.

O historiador brasileiro Oliveira Lima, no iiltimo estudo da Histéria da Colonizagao Portuguesa do Brasil, notava que os fidalgos portugueses estabelecidos no Brasil haviam sido ”dem0cratizad0s pelo ambiente social e naiguns casos pelos cruzamentos (sublinhado meu).‘” De resto, porém, a predominancia da fidalguia em qualquer empresa foi sempre entendido como a causa principal de eventuais desastres. Era assim que Iaime Cortesao explicava o descalabro do Estado da india, onde ”a nobreza militar fora sempre a classe dominante": ”a sua indisciplina, que por vezes degenerou em lutas civis, apressou a queda do império". A ”intolerancia feroz” que o ”fanatismo" inspirava as ”ordens religiosas” sabotara o padroado. Segundo Cortesao, no entanto, havia na Asia uma ”excepçãao”: Macau. Ora Macau teria escapado a decadéncia portuguesa no Oriente, precisamente porque era uma comunidade burguesa, civil. Em Macau desenvolvera-se, segundo Cortesao, ”uma burguesia comercial riquissima, a qual, a maneira das repablicas urbanas da Idade Média, logo se organizou democraticamente”. (sublinhados meus) Era portanto uma pequena repfiblica, onde o sentimento da patria se desenvolvera, ajudado pelo trabalho honesto e pela igualdade. A sobrevivéncia e prosperidade de Macau no século XVII confirmava a regra geral da expansao portuguesa: tudo tinha corrido bem, sempre que ”(as comunidades portuguesas) se desenvolveram em bases de trabalho normal e fora da tutela asfixiante e do exemplo dissolvente da nobreza militar”.48

Assim, na primeira metade do século XX, a separacao entre Marrocos, India, e
Brasil na historia da expansao, mais do que geografica e cronologica, adquiriu uma
dimensao tematica. Marrocos e a India forneciam temas militares, enquanto 0 Bra-
sil era pretexto de estudos sobre ”colonizacao” e ”integraçãao territorial”.4° Ora, esta
compartimentagao nao era um mero produto dos ”dados”. Era o resultado da apli-
cacao de uma dicotomia ideologica a plasticidade das fontes. Tal é visivel no facto
de ser perfeitamente praticavel contar a historia dos varios "impérios" portugue—
ses de uma maneira igual, independentemente das paragens. Podia-se reduzir as
expansoes ao mesmo batalhar de exploradores, cavaleiros e missionaries. No caso
do Brasil, por exemplo, bastava dar mais énfase as guerras contra os holandeses no
século XVII para reduzir a ”colonizacao” a uma campanha militar.5° Mas podia—se
também promover as expansoes a mesma nobre fixacao de portugueses e aportu-
guesamento de indigenas. Foi o que fez para o caso da India o goés Guilherme Mo-
niz Barreto, a partir do livro do seu conterraneo Frederico Diniz Ayala. Em Goa, se-
gundo Moniz Barreto, tinha existido uma ”colonia portuguesa”, constituida pelas
familias chamadas ”descendentes”, que tradicionalmente forneciam os oficiais ao
exército portugués do Estado da lndia. Barreto descreveu essa ”colonia" em termosmuito parecidos com os utilizados por Jaime Cortesão para Macau, como ”seme-
lhante ao das pequenas republicas da antiguidade ou da renascenga italiana, Ate-
nas ou Veneza”. Solidaria entre si, a nobreza militar de Goa identificara-se total-
mente com o ”dever civico”. Em pleno século XIX, constituiam o ultimo grupo por-
tugués em que sobreviviam ”os instintos, as tradigoes e 0 génio mesmo do velho
Portugal do século XVI".51 As fontes nao determinavam as visoes historiograficas.
Em suma, na primeira metade do século XX, a historiografia portuguesa co-
megara a trabalhar com dois ideais-tipos de expansao ultramarina. Uma, a expan-
sao militar, aristocratica; outra, a expansao pacifica, sobretudo rural, democratica.
A lndia representava a primeira; o Brasil, a segunda. 

A historia dos impérios de Marrocos e da lndia era uma saga de famosos cavaleiros e de alguns santos missionarios. O império do Brasil tinha, pelo contrario, uma feigao anonima e planeada. A separar um e outro estava a oposição entre dois tipos sociais: de um lado, a socieda- de aristocratica, guerreira, fundada na conquista e na pilhagem; do outro lado, a so ciedade civil, igualitaria, fundada na produgao e na troca, mas sobretudo numa forma de vida estavel representada pelas comunidades de pequenos lavradores abastados. Por detras desta visao dicotomica, estava um projecto de transformagao da sociedade portuguesa, concebido no quadro da cultura do patriotismo civico do estado liberal, fortemente marcado pela tradição europeia do republicanismo classico. Esse projecto apontava para a democratizagao da vida portuguesa através da
constituigao de uma populagao de lavradores independentes, suficientemente
abastados para poderem desempenhar os seus deveres civicos no quadro do esta-
do liberal. Foi este modelo que, num primeiro momento, serviu para condenar a ex-
panséo ultramarina, mas que, num segundo momento, se projectou no ultrarnar. O
modelo da expanséo favorecido pelos adeptos da ”colonizaçao interna" viria as-
sim a corresponder : a criação, no ultramar, de uma naçao, tal como aquela que se es-
perava criar no Portugal europeu. A História da Colonizado Portuguesa no Brasil era
uma simples ilustração deste desejo, a de que a dominagao ultramarina pudesse as-
sentar no ”método romano”, através do povoamento com migrantes metropolita-
nos e da aculturagao dos indigenas, e portanto ser entendida como a réplica daque—
la comunidade igualitaria e auténoma que se desejava construir no Portugal
europeu.

O terceiro Portugal: a projecão em Africa do modelo da colonização
interna Podemos seguir a consolidaçao deste pensamento através das congeminagoes dos principais entusiastas do esforço de ocupagao entre 1870 e 1940.

Repare—se que o nosso objectivo nao é esgotar as razoes de determinadas medidas e orientaçoes, mas apenas explorar as linguagens em que essas medidas e orientaçoes foram formuladas.

A dicotomia entre conquista e colonização, traduzida na oposicao entre uma era passada, em que a expansão ultramarina se fundara na forga militar, e uma nova era, em que devia predominar 0 trabalho, sobretudo 0 trabalho agricola, foi o ponto de partida do que I050 de Andrade Corvo e Julio de Vilhena escreveram sobre o ultramar. Corvo foi o ministro da marinha e ultramar dos governos de Fontes Pereira de Melo na década de 1870, e Vilhena teve a mesma pasta duas vezes, em 1881 e 1890. Corvo e Vilhena néo foram apenas responsaveis pela politica ultramarina em momentos cruciais do ultimo quartel do século XIX, mas quiseram também, em estudos e relatorios oficiais, elaborar a doutrina correspondente a essa politica. 

Em 1883, João de Andrade Corvo esclarecia que a ocupacao de Africa nunca poderia ser o prolongamento da antiga historia colonial, da época da India, onde os portugueses se tinham ocupado sobretudo com o ”monopolio do comércio das especiarias, guardado e mantido pela forga”. Esse ”século das conquistas e monopolios” tinha sido uma época de corrupcao de costumes e de fanatismo, causa da ”de-
cadência” que se seguiu. O novo periodo da historia colonial, que Corvo esperava
ver inaugurar-se no fim do século XIX, seria 0 ”periodo do trabalho livre, da explo-
ragao das riquezas naturais: 0 periodo do verdadeiro desenvolvimento agricola,
industrial e comercial, em condições normais e em conformidade com os principios
economicos” (sublinhado meu). Em relagao a Africa, Corvo, acima de tudo, conde-
nava a tradigao do trafico de escravos. A escravatura impedira a ”coloniza<;50” da
Africa, a0 despovoar a terra e desviar os portugueses da ”agricultura".52 Vilhena,
na mesma linha, recomendava uma época de ”capital e trabalho" para ultrapassar
o ”periodo da conquista, da espada e da cruz, da aventura cavalheiresca e fidalga,
do feito audacioso, nem sempre digno do poema épico, porque nao raras vezes en-
cobria a crueldade, a extorsao e a rapina".53 Ou seja, a colonizacao portuguesa de
Africa, como disse um dos admiradores da politica de Corvo, devia iniciar—se como
um capitulo distinto, fechando 0 ”periodo homérico, politico, militar e religioso
das colonias”.54 Para isso, como ja aconselhara um outro ministro do ultramar, Luis
Augusto Rebelo da Silva (1869), era preciso renunciar a atitude de ”fidalgos” con-
quistadores. Era, sobretudo, necessário renegar a memoria do "imenso emporio
criado na india”, ao qual se havia, durante décadas, sacrificado a América e a Afri-
ca.55

A concepcao da colonizagao africana como uma empresa radicalmente dife-
rente da conquista militar e fidalga, que era suposto ter comprometido 0 império
do Qriente no século XVI, foi um passo essencial para possibilitar que a ocupagao
de Africa viesse a ser assimilada ao tipo de ”colonizacao interna” favorecido pela
cultura do patriotismo civico. Esta assimilação, bem como as suas razoes mais pro-
fundas, transparece no livro que o major Henrique de Carvalho, antigo director das
obras pfiblicas em Angola, publicou em 1892, sob o patrocinio da revista Coldnias
Portuguesas, uma das mais importantes fontes de propaganda africanista. Como to-
dos os africanistas, Carvalho ressentia a ”forte descrenga a respeito das nossas ac-
tuais colonias” que dominava em Portugal. Segundo Carvalho, os cépticos haviam
concluido apressadamente que Portugal, nao dispondo dos recursos militares e fi-
nanceiros das poténcias europeias interessadas na ocupacao e exploração de Afri-
ca, estava condenado a ser espoliado mais tarde ou mais cedo. Havia ainda a
convicção, confirmada por Oliveira Martins, de que a grande prioridade nacional
era explorar a propria metropole, sobretudo "arrotear os terrenos que se acham in-
cultos”. Contra este quadro cle cepticismo colonial e prioridades domésticas, Hen-
rique de Carvalho esforgava-se por provar duas coisasr em primeiro lugar, que os
portugueses, ao contrario do que parecia, tinham vantagens sobre os outros euro-
peus no que dizia respeito a Africa; em segundo lugar, que a ocupacao de Africa in-
teressava ao pais da mesma maneira que o povoamento dos incultos no Alentejo.
Os outros estados europeus preocupavam-se apenas em "manter o seu prestigio
nacional e abrir novos mercados ao seu comércio e as suas industrias”. Os Portu-
gueses, porém, tinham motivos mais nobres: colonizar as "terras da Africa central”
e ”adogar e transformar a natureza dos seus indigenas e o seu modo de ser social”.
A razao desta diferenca era racial. Os Portugueses eram, com espanhois, italianos e
judeus, os unicos europeus capazes de se adaptar "as terras e aos climas intertropi-
cais". Em relacao a estes, porém, os portugueses tinham ainda a vantagem de ser
um povo rural. Enquanto os outros europeus tratavam de explorar Africa, so os
Portugueses estavam em condicoes de la se instalar e conviver corn as populacoes
nativas, porque ”os indigenas adaptam-se com facilidade aos usos e costumes dos
portugueses, que”, de todos os europeus, “sac os mais brandos para com eles”. Os
indigenas eram essenciais nesta politica de ocupacao, porque o africano era ”um
colono precioso e um trabalhador por exceléncia”. Carvalho condenava o sistema
de plantagoes com trabalho servil, na medida em que ”retardavam" os progressos
da agricultura. O que interessava era fazer dos indigenas ”pequenos proprietarios
agricolas” e artesaos. Era fundamental desfazer a sombra da escravatura, que fize-
ra os indigenas desconfiados. Apolitica a seguir era “progressive: e assimiladora”.
As fazendas abertas pelos portugueses seriam ”escolas praticas” para os indige-
nas. Alias, os primeiros colonos deveriam ser os proprios indigenas. Eles prepara-
riam 0 terreno para o influxo de portugueses. Os ”cruzamentos” entre os emigran-
tes e os indigenas (depois de estes ja estarem civilizados), como em Cabo Verde,
criariam "verdadeiras colonias portuguesas”. O objectivo final era fundar novas
”nag6es” que, um dia, viriam a emancipar-se, com vantagem para a metrépole,
pois as ”relag6es que essa nacao depois mantem com os povos transformados em
nacao livre, nao serao menos Liteis nem menos vantajosas do que nos tempos em
que se conservaram sob 0 seu regime colonial". E Carvalho concluia: ”Assim se ro-
bustecem as nacionalidades” no mundo. 56
' Desta forma, Henrique de Carvalho, na década de 1890, redimia a ocupacao
de Africa, contra os cépticos e os puritanos da ”colonizacao interna”, através da sua
inscricao no projecto, alimentado pelo patriotismo civico, de desenvolvimento da
comunidade nacional. O dominio de Africa passava, assim, a ser parte do mesmo
projecto de "colonização interna”. Ora, nao era bem assim que se pensavam os im-
périos mundiais na Europa do fim do século XIX. A rebelião das colonias europeias
na America no fim do século XVIII, principio do século XIX, parecia provar que
qualquer politica de integracao imperial estava’ condenada ao fracasso. Muitos
passaram a preferir 0 tipo de dominio inglés na India: um império indirecto, sem
despesas para a metropole ("mantid0 por tropas indianas e page com dinheiro in-
diano"), e meramente vocacionado para a exploracao econémica. John-Robert
“UM NOVO BRASIL DE UM NOVO PORTUGAL” 143 Seeley recomendara a redugao dos impérios as grandes armadas policiando rotas e portos. Paul Leroy-Beaulieu advogara os investimentos privados, "emigração de
capitais", mas sem ”emigração de gente".57 Mas a concepcao da ocupacao de Africa
como prolongamento da colonizacéio interna servia varios objectivos no caso por-
tugués. Em primeiro lugar, permitia contornar a prioridade dada, no quadro da
cultura do patriotismo civico, a construgao da nacao na Europa. Em segundo lugar,
possibilitava imaginar um futuro colonial para um pais pequeno e fraco, sem
meios para manter grandes esquadras ou exportar capitais, numa época em que os
impérios pareciam uma prerrogativa das poténcias militares e financeiras. Em ter-
ceiro lugar, satisfazia a xenofobia vigente na élite portuguesa do fim do século XIX.
Os pequenos aforamentos a lavradores nacionais, sobre os quais tanto se legislou,
eram a alternativa para 0 sistema das concessoes a companhias estrangeiras, que
todos temiam viesse a ”desnacionalizar” o ultramar.58

Poi neste contexto que, em 1890, o médico Francisco Silva Telles argumentou
ser a fixacao de populagoes o unico meio que restava aos portugueses para salva-
rem os territorios tropicais das cobicas de ingleses e alemaes. Telles, goés descen-
dente, foi um dos grandes animadores da Sociedade de Geografia de Lisboa e 0
principal organizador do I Congresso Colonial Nacional de 1901, que a sua geracéo
viu como o ”c0mplemento do tri—centenério de Camoes e a desforra do Ultimatum
de 1890".” Segundo Telles, a hegemonia em Africa iria ser decidida pela raca euro-
peia que conseguisse proceder a uma "emigra<;ao consciente, calculada e sisternati—
ca". Os ingleses e 0s demais povos do norte da Europa nunca sobreviveriam em
Africa. Mas os portugueses, sobretudo os do sul, tinham, devido aos seu fundo
étnico, ja formado pela miscegenacao, capacidades ingénitas para se adaptarem
aos climas tropicais. A sua fixacéo em Angola seria possivel desde que se erradicas—
se o paludismo. Por outro lado, havia ainda a considerar o que Silva Telles chamava
a ”colonizac5o mista”, isto é, a miscegenagao, que os ingleses e alemées jamais pra-
ticavam. Tinha sido essa a via pela qual a "raga portuguesa se tem fixado nos tropi-
cos". Teles descreve-a assim: ”a raga invasora funde-se com a indigena a diversos
graus, mas conserva grupos de famflias na maior pureza de sangue”. Tratava—se,
assim, de aproveitar a multiplicacao proporcionada pela mesticagem ao mesmo
tempo que se salvaguardava a hegemonia portuguesa.

A preferéncia pela fixacéo de populacao era acompanhada, em Teles, pela re-
cusa da exploracao comercial das colénias, a inglesa. Telles considerava-a contra-
producente. A Europa ja sofria de sobreprodugao industrial, desemprego, e baixa
de salarios. N50 havia qualquer vantagem em criar ainda mais concorréncia em
Africa: ”Feitorias opulentas e colonias agricolas com trabalhadores indigenas enri-
quecem grandes companhias, aumentam os capitais da metropole”, mas também
”aumentam ainda mais, pelo excesso de industrialismo e de riqueza, a crise social
que atravessa as grandes massas de proletarios”. A colonizacao de Africa so p0de-
ria ser benéfica se redundasse na ”fixa<;ao da raca”.61 Como insinuava um deputa-
do em 1896, a expanséo em Africa interessava na medida em que se pudesse lé esta-
belecer, como pequenos proprietarios, os proletarios que sofriam na metropolez "E
nas nossas colonias que o espirito revolucionario do trabalhador se acalrnara”.‘2

Assim, segundo Henrique de Carvalho ou Silva Telles, ”colonizar" em Africa,
deveria, forgosamente, significar ”colonizar e povoar" como se fizera nas ilhas do
Atlantico e no Brasil: ”colonizar com portugueses", isto é, ”nacionalizar”. De facto,
na década de 1890, a ocupagao de Africa, mais especificamente dos planaltos de
Mogamedes e Benguela, seria equiparada a ocupagao das charnecas do Alentejo:
tratava~se, em ambos os casos, de fixar uma populagao de produtores de cereais, de
fundar um ”celeiro". Entre 1884 e 1892, foram para la enviados dois mil colonos
madeirenses.“ Esta obsessao é também notoria nos dois mais famosos governado-
res-gerais de Angola no século XX: Henrique de Paiva Couceiro (1907-1909) e Nor-
ton de Matos (1912-1915, 1921-1924). Tanto uns como outro se transformaram, du-
rante a primeira metade do século XX, nas principals referéncias oraculares do pen-
samento colonial para a direita monarquica (Paiva Couceiro) e para a esquerda re-
publicana (Norton de Matos). Nas suas publicagoes sobre assuntos africanos, Pai-
va Couceiro tornou claro que ”a ideia, a politica, os objectivos a prosseguir em
Angola visariam — segundo nos -- a tornar a possessao ultramarina numa grande
provincia portuguesa, falando a nossa lingua, seguindo os nossos usos, mantendo
as nossas tradiçoes — prolongando, enfim, através das ilhas atlanticas, a propria
Patria-Mae".“ O mesmo, alias, diria um dos seus colaboradores, 0 coronel Ioao de
Almeida, ministro das colonias em 1926: a unica politica viavel para Angola era ”a
colonizagao, tomada a palavra no seu verdadeiro significado — constituigao dum
fragmento da patria num novo territorio, pela transmigragao da sua populagao,
com os habitos, tradigoes e costumes pecualiares”."5 (sublinhado meu) Do outro
lado da barricada, o general Norton de Matos nem por isso deixava de partilhar das
mesmas convicgoes colonizadoras. Para ele, a colonizagao que importava era a da
criagao de novas ”nações”. A todos os que gabavam as vantagens do dominio colo-
nial a inglesa ou a holandesa, Norton de Matos respondia, invocando precisamente
o caso do Brasil: ”A minha opiniao, de ha muito formada, é que os holandeses
teriam feito do Brasil, se o seu dominio se tivesse mantido, uma colonia mais pros-
pera e mais produtiva do que a que os portugueses conseguiram, mas de modo al-
gum teriam criado uma nação (. . .) A Holanda foi sempre um grande valorizador
das terras de além-mar, um grande organizador do trabalho indigena; nunca foi,
porém, um pais colonizador em sentido portugués”. No Brasil, os protugueses ha-
viam realizado uma colonizagao rural, propria do ”pais de lavradores" que, segun-
do o historiador Lucio de Azevedo (citado por Norton de Matos), Portugal tinha
sido na Idade Média. Ou seja, 0 Brasil, como ja 0 imaginara Malheiro Dias, era o
Portugal medieval, era a ”transplantagao” de uma sociedade rural europeia para
os tropicos. E Norton de Matos insinuava: "Nã0 é esta a obra de Angola ?”"°
A ”transplantação" ruralista tinha que ver, alias, com uma outra angfistia que
obcecou tanto Paiva Couceiro como Norton de Matos: 0 risco da ”desnacionaliza-
gao” de Angola, através das intrusoes alemas e sul-africanas. Nada melhor, para im-
pedir uma infiltragao estrangeira, do que importar familias metropolitanas e formar
com elas um nucleo irredutivel de portugueses. Por isso, Norton de Matos, a quem
nao repugnavam a assimilagao e mesmo a miscegenagao, nao estava disposto, ao
contrario de Henrique de Carvalho e de Silva Telles, a recorrer a mestigagem imedia-
tamente. Nos primeiros tempos, seria necessario manter os dois grupos afastados.
Por um lado, os africanos estavam demasiado atrasados. Precisavam de protecção
para se desenvolverem gradualmente. Por outro lado, era necessario, acima de
tudo, preservar os colonos portugueses em estado puro, para melhor resistirem
a influxos estrangeiros. Os raciocinios de Norton de Matos estiveram sempre
determinados por consideracoes de estratégia internacional. Norton desejava
manter duas correntes de emigraca/0 de ”familias rurais portuguesas” para 0
Brasil e Angola: "A colonizacao da Africa Portuguesa e emigracao para o Brasil
tém de fazer—se simultaneamente”. Em,1937, apelava a participacao brasileira
na expansao da cultura portuguesa na Africa austral, e a formagao de um "blo-
co” no Atlantico sul, para barrar o caminho a outros imperialismos.“

Tal inspiraçao nunca desapareceu das instancias oficiais. Em 1928, 0 Alto Co-
missario em Angola, Antonio Vicente Ferreira, propunha-se instalar na provincia
”alguns milhoes de habitantes”, para a criacao de ”uma verdadeira nacao, consti-
tuida por populacao branca, de preferéncia portuguesa: um segundo Brasil, ou me-
lhor, um terceiro Portugal". O favorecimento de Angola é sintomético do que se
pretendia fazer: é que Angola, nao so tinha melhor clima, mas era considerada terra
de pequenas empresas, enquanto Mocarnbique parecia definitivamente entregue a
"grandes empresas, publicas ou capitalistas”.°8 Em 1939, este tipo de pensamento
havia de florescer exuberantemente nos projectos para a colonizaçao dos planaltos
do sul de Angola, apresentados por Francisco Iosé Vieira Machado, o mais dura-
douro Ministro da Colonias de Oliveira Salazar (1936-1944).“ Machado declarava
Portugal ”um pais colonizador por exceléncia”, vocacao provada logo pela ocupa-
gao das ilhas do Atlantico, que teria servido de modelo a colonizacao do Brasil.
Afonso de Albuquerque, na india, também tratara de colonizacao, quando, em
1509, sugeriu ”os casamentos de portugueses com mulheres indias”, uma ”medida
(que) nao tinha so propositos colonizadores”, mas também ”tendia a desfazer de-
sinteligéncias entre as duas ragas em presenga”. Machado queria preparar os futu-
ros colonos num Instituto de Colonizaçao, uma espécie de Casa Pia colonial, onde,
sob a direccao de "missionaries catélicos portugueses”, se iriam formar os "lavra-
dores africanos portugueses” e as suas esposas. Para erradicar do espirito dos colo-
nos ”a ideia de regresso”, estes seriam escolhidos de preferéncia entre érfaos. A "fi-
xagao da raga branca” iria ser directamente dirigida por uma Iunta de Colonização
sediada em Luanda. O objectivo nao era criar ”grandes produtores de géneros co-
loniais, mas fixar (gente) a terra de Africa", visto que os colonos sao "o melhor pa-
drao da nossa soberania". Por isso, previa—se que os ”géneros cultivados devem
destinar-se sobretudo ao consumo” dos proprios. O comércio estaria assegurado
pela prépria Iunta, que abriria uma loja onde se trocassem os géneros a venda por
produtos das colheitas locais. Assim, esperava-se instalar em Angola um mundo
rural de pequenos proprietarios vivendo em comunidades homogéneas e auto-su-
ficientes, com os seus artificies, uma réplica mais do que perfeita das comunidades
camponesas da metropole. Os povoadores deveriam viver em aldeias de 50 casas,
”de tipo rural portugués, mobiladas com simplicidade e com suas dependéncias de
caracter agricola, plantando no quintal arvores de fruto e um pequeno hortejo”.
Cada aldeia teria, pelo menos, ”um moleiro, um padeiro, um sapateiro, um serra-
lheiro, um carpinteiro e um ferrador". As zonas de colonizacao nao deveriam ter
mais de 15.000 hectares (sendo mais pequenas em regime de regadio) e os lotes
individuais nunca poderiam ser superiores a 150 hectares, sendo indivisiveis e ina-
lienaveis, como os casais de familia sobre que se pretendia edificar a ”colonizacao
interna”. Por outro lado, Machado preocupava-se, tal como recomendara Norton
de Matos, em isolar os novos povoadores. As "z0nas de colonizacao” nao deveriam
estar em contacto corn ”reservas indigenas”. O recurso a mao de obra indigena néo
era aconselhado e so poderia dar—se por decisao das autoridades.7° Alias, esta se-
gregacao nao afectava apenas os negros. Também os angolanos brancos estavam
impedidos de frequentar as novas povoacoes de brancos da metropole, para nao
corromperem a sua pureza provincial.
Nos projectos de colonizacao Francisco Vieira Machado reflectem-se todos
os temas da colonizacao interna. Ora, a inspiracao nao so era nitida, como até
abertamente reivindicada pelo proprio autor dos projectos. Em 1940, durante a
”semana das colénias”, 0 medievalista Torcato de Sousa Soares, professor da
Universidade de Coimbra, fez uma conferéncia na Sociedade de Geografia de
Lisboa sobre a "A Colonizacao na Fundacao”. Francisco Vieira Machado era um
dos presentes. No fim, saudou a conferéncia como uma ”licao” para a nova tare-
fa de colonizar Africa." O método a adoptar na colonizacao de Africa devia ser,
portanto, 0 da ”transferéncia de uma civilizacao rural”. Na década de 1930, pro-
pagandistas coloniais, como Henrique Galvao, ja haviam sugerido que seria em
Africa que os citadinos cansados da luta pela vida encontrariam a harmonia do
trabalho na terra.” Mais tarde, na década de 1950, arrancou em forca ideia de re-
solver o problema do excesso demografico da metrépole — calculado num mi-
lhao de pessoas — através da réplica dos campos portugueses em Africa. Em
Angola, foram fundados colonatos de transmontanos com base no pequeno ca-
sal familiar, com carros de bois e culturas de sequeiro. Tal como em 1884-1892,
quis-se que as propriedades fossem pequenas, 0 equivalente do norte de Portu-
gal. Proibiu-se o recurso a mao de obra negra e nao se pos agua canalizada nas
casas para que, ao frequentarem 0 chafariz, os colonos fossem obrigados a re-
constituir a convivéncia aldea. Era, como notou Orlando Ribeiro, a tentativa de
realizar em Africa o que nao se pudera fazer no Alentejo.”

A historia da expansao na década de 1930 ficou marcada pelos esforcos para
impor 0 tema da ”colonizacao”. Em 1937, no Primeiro Congresso de Historia da
Expansao Portuguesa no Mundo (Lisboa), o general Iosé Iustino Teixeira Botelho,
da comissao orientadora do congresso, distinguiu trés ”modalidades diferentes"
na expansao ultramarina portuguesa, correspondentes a trés histérias diferentes: a
Historia das Navegacoes, sobretudo interessada com os estudos de nautica e de
geografia e focando no século XV; a Histéria da Expansao no Mundo, cobrindo as
viagens, missionacao e comércio do século XVI; e a Histéria da Colonização, devo-
tada a obra de povoamento e administracao nas ilhas do Atlantico, no Brasil e mais
recentemente em Africa. Ora, segundo Teixeira Botelho, era a esta que os historia-
dores portugueses deviam dar prioridade, pela sua ”importancia politica interna-
cional de actualidade”.74

A reducao da historia da expansao a histéria da ”co1onizacao” foi sempre aca-
rinhada pelos organismos interessados no ultramar. Assim, em 1934, o cronista do
Boletim Geral das Colónias congratulava—se por a Exposicao Colonial do Porto ter
ultrapassado a fixacao nos ”feitos dos homens das Descobertas e Conquistas”, para
privilegiar 0 ”Esfoção Colonizador Portugués”.75 Em Iunho de 1937, finalmente,
levantava-se em Lisboa, no palacio das exposigoes do Parque Eduardo VII, a
Exposicao Historica da Ocupacao, destinada, segundo o decreto—lei n°. 27.269,
de 24 de Novembro de 1936, a ”mostrar os trabalhos e accao dos portugueses
para assimilacao dos indigenas e para defesa do ultramar portugués, durante o
século XIX até as campanhas da Grande Guerra". De facto, a Exposicao combi-
nava varias visoes da expansao. A sala dos brasoes era uma celebracéo nobiliér-
quica, exibindo os escudos dos homens de armas do passado. A sala militar reu-
nia estandartes, espadas e condecoragoes. Um Parque de Material de Guerra
dava o cheiro da polvora. Mas tinha-se o cuidado de chamar a atengao para que
a guerra so importara para abrir caminho ao povoamento e a ” elevagao das tri-
bos selvagens ao nivel moral duma crenca e duma cultura mais generosa”.76 A
”ocupacao militar colonia1" contemporanea ficou confinada a mais pequena
sala. Até de Mousinho de Albuquerque se publicitavam agora directivas para
uma politica pacifica e compreensiva em relacao aos indigenas. Ahistoria tinha
de ser reescrita: ”Mocambique nunca esteve a ferro e fogo. Nas campanhas que
se travaram exerceu-se a maior economia de vidas, brancas e negras. E so se fez
guerra em ultimo extremo”.77

No catalogo, Marcello Caetano explicava a hierarquia dos valores: "Pene-
tragao, povoamento. .. —— mas é toda a colonizaçao! " Instrucao, politica médica e
sanitaria, actividades cientificas, administracao, a ”luta contra os negreiros”, a
”protecgao e civilizacao dos indigenas” (através do trabalho), eram os grandes
temas da Exposicao. Também havia salas de Marrocos (organizada por David
Lopes), do Brasil (Serafim Leite), do Oriente, da Marinharia e da Fé. Na sala do
Oriente, privilegiava—se o tema do ”contacto com novas formas de vida e de civi-
lizacao” e o papel de Portugal como ”agente do conteudo espiritual da civiliza-
cao moderna”. A sala do Brasil vincava 0 prolongamento de Portugal na Améri—
ca: ”Ao iniciar-se a colonizacéo positiva, aparecem logo, no solo brasileiro, os
simbolos concelhios da metropole, com os seus pelourinhos e regalias”. Ora o
caso brasileiro importava porque ”opera-se lwoje, em Africa, processo idéntico
ao da colonizacao do Brasil". A ocupacao de Africa nao consistia numa conquis—
ta como a de Ceuta ou Malaca. Era a construcao de uma nação, como no Brasil.
Finalmente, a sala da Fé ilustrava o modo como Portugal emendara ”o conceito
colonial antigo”: "Antes dele, a colonização era de interesse imediato: explora-
cao e comércio. Portugal, mantendo embora este conceito material, revestiu—o
de um elemento novo e preponderante": a evangelizacéo, que, tal como a conce-
bia Serafim Leite, parecia uma verséo clerical da ”civilização” do liberalismo,
consistindo praticamente em instrucéo, assistência, ciencia e defesa do ”direito
das gentes”. Por isso, no Brasil, os portugueses nunca haviam praticado “o pro-
cesso a que Novicow chama eliminação biologica, a liquidação pura e simples
do aborigene, para se instalar o colono em seu lugar”.78


CARTA DE JONAS SAVIMBI A FRANCISCO SÁ CARNEIRO (DAKAR, 21 DE JULHO DE 1978) » Copy of Document (214)

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sábado, 6 de novembro de 2010

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A LUSOFONIA E OS FLUXOS COLONIAIS: Leonel Cosme -Universidade do Porto - Portugal




Resumo: Quem, falante de língua portuguesa, tomar um táxi em Portugal, no Brasil, em Angola ou Moçambique,ou em qualquer outra antiga colónia de Portugal, não só não se sentirá como um qualquer “estrangeiro” viajando em terra estranha, como poderá verificar (por exemplo no Brasil) que o seu sotaque não basta para revelar o local da naturalidade; e se acontecer com um africano em Portugal, o taxista não distinguirá se ele é oriundo de Cabo Verde, de São Tomé ou se nasceu em Portugal. De igual modo, um taxista do Minho dificilmente distinguirá se a fala do cliente que lhe fala em português identifica um compatriota do Algarve, da Madeira ou dos Açores. Palavras-chave: Lusofonia, refluxos, colonial, falante, língua, sotaque.

Quem, falante de língua portuguesa, tomar um táxi em Portugal, no Brasil, em Angola ou
Moçambique, ou em qualquer outra antiga colónia de Portugal, não só não se sentirá como um qualquer “estrangeiro” viajando em terra estranha, como poderá verificar (por exemplo no Brasil) que o seu sotaque não basta para revelar o local da naturalidade; e se acontecer com um africano em Portugal, o taxista não distinguirá se ele é oriundo de Cabo Verde, de São Tomé ou se nasceu em Portugal. De igual modo, um taxista do
Minho dificilmente distinguirá se a fala do cliente que lhe fala em português identifica um compatriota do Algarve, da Madeira ou dos Açores.

Como a variedade da pronúncia e eventualmente da gramática só poderá exigir a adequação do ouvido do receptor à prosódia do emissor, fica desde logo removida qualquer barreira de comunicação, antes se estabelecendo uma relação que alguns observadores consideram de reserva ou mesmo de desconfiança, e outros, de
proximidade ou mesmo de afecto. A esta relação linguística eu chamo naturalmente lusofonia, sem me parecer que o designativo, por si só, implique sub-repções e que, ao ser envolvida com “o manto diáfano dafantasia” afectiva, está a esconder perversidades... Donde, pela reserva, uns pensam que a lusofonia é uma “questão” teórico-política em aberto, centrada em algumas academias e tertúlias; e eu, pela proximidade, que é apenas uma “borbulha” ideológica por rebentar, remanescente de
afecções coloniais não resolvidas. Curiosamente, venho seguindo os debates que, há mais de vinte anos, dezenas de linguístas, escritores e políticos promovem sobre o tema, no imenso espaço dos países que consideram a língua portuguesa, em exclusivo ou a par de outras, a sua ou uma das suas línguas nacionais. E que depois de inúmeros congressos, colóquios, seminários, institutos, inspirando centenas de artigos e comunicações a respeito do mesmo, - a Lusofonia - e apesar de a montanha, no que
concerne a Portugal, já ter parido um ambicioso dicionário com 70.000 entradas e a singularidade de complementar o vernáculo com a gíria de vários países, ainda nem todos ratificaram a versão definitiva do Acordo Ortográfico assinado
em 1990. Todavia, nem por isso (e pese embora a reserva de Inocência Mata de que o termo Lusofonia “é de cunho e causa portuguesa, e, enquanto os africanos oscilam entre a sua aceitação e a sua recusa, o termo nem sequer história tem entre os brasileiros”), os diversos povos envolvidos deixaram de falar e escrever em língua
portuguesa como sabem e lhes apraz, - alguns até a incrementaram - em correspondência com a utilidade que lhe é reconhecida, como instrumento de comunicação, interna e externa, necessário às suas vidas. Será interessante lembrar o que, há cerca de quarenta anos, preleccionava o líder do PAIGC, Amílcar Cabral, junto dos seus guerrilheiros, nas matas da Guiné-Bissau, o país africano onde a língua do colonizador era proporcionalmente a menos falada: Temos que ter um sentido real da nossa cultura. O Português é uma das melhores coisas que os tugas nos deixaram, porque a língua não é prova de nada mais senão um instrumento para os homens se relacionarem uns com os outros, é um instrumento, um meio para falar, para exprimir
as realidades da vida e do mundo.

Óbvio e pragmático, Cabral não precisava de ler sequer Saussure para reconhecer a função, mas também a utilidade, da língua da conquista,enquanto meio de unificação social e administrativa, face à heterogeneidade dos povos coexistentes no
mesmo espaço, sabendo bem, e podendo dizer como Saussure, que “os costumes de uma nação têm uma incidência sobre a sua língua e, por outrolado, é a língua que faz a  nação.” É claro que se diz nação pensando num todo lingüisticamente unitário, como é, por exemplo, Portugal, ou a “nação” quimbunda em Angola e
a maconde em Moçambique. Simplesmente Cabral, pensando a Guiné como um futuro Estado aglutinador de povos ou “nações étnicas”, nunca esperaria que um guineense dissesse, mesmo poeticamente, como Fernando Pessoa, que a língua portuguesa era a sua pátria (mas só o sendo por sinédoque de um Estado-Nação). Mas poderia, isso sim, contribuir para dar à pátria  uma dimensão multipolar, reconhecida, como uma Suíça multilingüe e multicultural, nacional e internacionalmente.

O mesmo entendimento tinha Agostinho Neto, quando, já chefe do estado angolano, sem precisar de evocar conspícuos cientistas, afirmava aos compatriotas mais “fundamentalistas” que já não existiam culturas em estado virgem, que a história dos povos era cumulativa e dialéctica e que o progresso de um povo não dispensava as
contribuições de outros povos, incluindo os colonizadores. E que nesta evidência se incluía a língua portuguesa, por ele próprio tornadainstrumento de unificação nacional ao empregá-la sempre nas suas comunicações, alijando intencionalmente até a língua do povo quimbundo a qual pertencia. É que havendo em Angola quase uma dezena de línguas nacionais e uma centena de dialectos - e aqui língua quer dizer mátria, enquanto produto das relações entretecidas de uma história, raça, etnia ou cultura -, a língua
pecaminosa do colonizador, tendo servido para aproximar as partes entre si e a periferia do centro hegemónico, seria o meio inocente, por insuspeitoe neutral, mais adequado para conseguir a adesão das várias etnias a um Estado unificador.

Na mesma coordenada, dizia o moçambicano Fernando Ganhão, Reitor das Universidade Monddlane, no I Seminário Nacional sobre a Língua Portuguesa, realizado em 1979, no Maputo: Teria sido impossível que em 25 de Junho de 1975 (data da independência de Moçambique) se tivesse escolhido uma das várias línguas
moçambicanas para língua nacional, porque as querelas que isso traria fariam de certo perigar a existência de um Estado uno [...]

Mas Agostinho Neto não esquecia que a língua do conquistador, para a maioria esmagadora do povo, era um agente desviante da sua matriz cultural a actuar como um gene subversivo introduzido no organismo, já que uma língua implica uma
categorização particular da significação. Aliás, este seu entendimento já vinha desde 1960, quando, ainda em Lisboa, escrevia na revista Mensagem da Casa dos Estudantes do Império: Quando as nossas línguas, aquelas que serviram e servem de veículo à cultura angolana, não são faladas nas escolas, não são usadas nos jornais, na rádio, etc. (...) quando as nossas formas literárias não podem socorrer-se dos
modernos processos de veiculação, é evidente que a nossa cultura não se pode desenvolver. Estaciona; degrada-se, mas, felizmente, não morre. É mais triste que espantoso que uma grande parte de nós, os chamados “assimilados”, não sabe falar ou entender qualquer das nossas línguas! E isto é tanto mais dramático quanto é certo que pais há que proibem os filhos de falar a língua dos avós.

No ano seguinte, numa conferência da UNESCO, era proposto que a alfabetização das
crianças fosse feita na sua língua materna. Mais tarde, em 1977, sendo Angola já
independente, Agostinho Neto regressava ao temaactualizando-o, em discurso proferido na assembleia da União dos Escritores Angolanos: O uso exclusivo da língua portuguesa, como língua oficial, veicular e utilizável actualmente na nossa literatura, não resolve os nossos problemas.E tanto no ensino primário como provavelmente no médio será preciso utilizar as nossas línguas. E dada a diversidade no país, mais tarde ou mais cedo, deveremos tender para a aglutinação de alguns dialectos, a fim de facilitar
o contacto. Sobre esta aglutinação, Agostinho Neto pensava, porventura, na possibilidade de criar uma “língua-geral” com um desempenho semelhante ao do “tupi-guarani”, nos primeiros tempos do Brasil colonial, ou do “swahilli”, ainda hoje, na África Oriental. Mas não se iludia quanto aos condicionalismos, dizendo logo a seguir:
Todo o desenvolvimento do problema linguístico, naturalmente, dependerá também da
extinção das barreiras regionais, da consolidação da unidade nacional, da extinção dos complexos e taras herdadas do colonialismo, e do desenvolvimento económico. Quem o escutava poderia nada saber do fracasso das línguas compósitas, como o
Esperanto, na Europa, ou o Afrihil, no Gana, e dos perversos resultados de línguas selectivas, como o Chewa, no Malawi, pertencente ao grupo étnico do presidente vitalício Hastings Kamuzu Banda. Mas os ouvintes sabiam que a primeira barreira era constituída pela existência das forças políticas que se opunham à direcção centralizadora do partido de Agostinho Neto, respaldadas, ainda que não o assumissem frontalmente, nas identidades étnicas, que estavam a ser transformadas em verdadeiros “quilombos” (como era a Jamba, bastião de Jonas Savimbi). Só que, agora, o “inimigo” tinha a mesma cor e a mesma história de colonizado...

Esta nova realidade político-militar, póscolonial, explica que a Lei Constitucional angolana de 1975 não fosse tão lata quanto ao direito de “cada etnia utilizar a sua língua, criar uma escrita própria e conservar ou renovar o seu património cultural”, como postulava, em 1974, o Programa Maior do MPLA, apenas declarando que “será
promovida e intensificada a solidariedad económica, social e cultural entre todas as regiões, no sentido do desenvolvimento de toda a NaçãoAngolana e da liquidação das sequelas do regionalismo e do tribalismo.” Agostinho Neto morreria quatro anos depois,
sem ver sequer encaminhada a sua aspiração, que, por mais insólito que pareça, já era defendida, em 1880, por um colono autodidacta, A.F.Nogueira, num livro intitulado A Raça Negra, em que defendia a urgência de levar o ensino à população nativa utilizando a sua língua. E faziao assim: Mas para que esse ensino seja mais pronto nos seus efeitos deve ser ministrado na língua indígena, estudando-a nós previamente para esse fim. (...) Ninguém imagina quanto é diferente o comunicar com um Negro por meio de um intérprete, avaliando-o por o que este diz, ou ouvindo- o na sua própria língua, singela e inculta, mas expressiva e pitoresca, sem a elevação, mas também sem os grosseirismos da nossa.

E contra a corrente das elites portuguesas (com honrosas excepções), para quem a língua lusa era, de facto, a não confessada “ponta de lança do imperialismo cultural”, ousava mais: E não nos impressiona a objecção de que civilizar os indígenas das nossas possessões deÁfrica é o mesmo que emancipar essas colónias. Se ao mesmo tempo que educando o Negro tratarmos de aclimar o Branco onde isso for possível este será ainda por muito tempo um apoio seguro para nós. Mas dado que afinal a colónia se venha a emancipar, - e esse é o destino de todas as colónias, - que devemos preferir:
conservá-la estéril e improdutiva como até agora, ou convertê-la em uma nação amiga, e
mesmo irmã ao menos sob o ponto de vista da civilização e dos costumes?

Hoje diríamos que, partindo de um colonoetnógrafo, fugido de Pernambuco durante a
Revolta Praieira para o distrito de Moçâmedes, onde exerceu o comércio no mato sem ligações com o Governo, a sua visão “progressista” pode equiparar-se, de certo modo, à do jesuíta José de Anchieta, que, no Brasil, elaborou, em 1560, a primeira gramática rudimentar da língua tupi, ou à do padre Pedro Dias, que em 1697 elaborou, em Angola, uma gramática da língua do Congo.

Ao imperativo reconhecido por A.F.Nogueira daria seguimento, em 1892, o angolense
J.D.Cordeiro da Matta, que, na continuidade dos artigos que vinha publicando nos jornais de Leonel CosmeLuanda sobre o estudo da língua quimbunda,  apresentou, em 1892, uma Cartilha Racional - “para se aprender a ler o kimbundu escripta
segundo a Cartilha Maternal de João de Deus.” O seu trabalho de diccionarista seria prosseguido e desenvolvido na metade do século seguinte pelo também angolense A. de Assis Pacheco, autor do mais importante dicionário de kimbundu-português até hoje elaborado (“Linguístico, Botânico, Histórico e Corográfico, seguido de um índice alfabético dos nomes próprios”), como nele se diz.

Há alguns meses, no discurso de abertura do II Encontro sobre Línguas Nacionais, realizado em Luanda, o tema do ensino nas línguas nativas voltava a ser aflorado pelo Primeiro-Ministro angolano, que postulou a necessidade de ir ainda mais longe: “O ensino e o domínio de línguas nacionais devem ser incentivados em todos os níveis de ensino, tornando obrigatório o estudo das mesmas, como parte do currículo do sistema
de ensino no país”. Tarefa ingente quanto adiada, por muitos motivos em que avulta o da guerra civil, e que não acompanhou logo o enorme desenvolvimernto escolar verificado nos primeiros quatro anos a seguir à independência (80% relativamente à frequência em 1973 - mais de l milhão de alunos só no ensino primário). Hoje, depois da guerra, o português é a primeira língua nacional das populações urbanas, quer em Angola, quer em Moçambique, onde a hipótese da utilização do inglês (falado nos países limítrofes) não teve consequências. A maior penetração nas regiões interiores, sobretudo no caso de Angola, dá-se ao ritmo em que as populações concentradas nas
cidades, foragidas da guerra, regressam às terras de origem. Entretanto, tornado o português na “língua geral” do relacionamento necessário, o desenraizamento linguístico das crianças que em casa ou no seu bairro falam a língua dos pais e na escola pública aprendem o Português é fatal.

Diferente é o fenómeno em Cabo Verde ou em São Tomé e Príncipe, onde muito cedo a língua portuguesa e os crioulos resultantes da fusão das culturas dos primeiros povoadores-escravos, originários de vários territórios africanos, se constituiram, naturalmente, nas duas línguas nacionais. Aqui, nenhum cidadão destes dois países se sentirá inibido pelos traumas oucomplexos de que falava Agostinho Neto, pelasimples razão de que, a dada altura, se “libertou”com a assunção plena do “espírito da terra” (feliz designação do historiador Basil Davidson), autorefundindo-se, cultural e biologicamente, num corpo com duas valências não conflituantes. Aplicada ao seu país, o cabo-verdiano Gabriel Mariano faz tese: “A verdeira assimilação cultural é sempre um processo espiritual, livremente operado, tendente a subjectivar o objectivo, a
interiorizar o exterior”. Neste particular, não se poderá avocar a já citada frase de Miguel Faria de Bastos, proferida no Congresso “A Lusofonia a Haver”, realizado, em Lisboa, em 1999, segundo o qual “a cultura é a guarda avançada do imperialismo mental e a
língua, a ponta de lança dessa guarda avançada.” Na verdade, nestas Ilhas Atlânticas, os senhores da Casa-Grande, sempre minoritários e flutuantes, apenas deixaram o fermento: o pão, foram os servos da Sanzala e do Mocambo que o amassaram e lhe deram a forma adequada ao seu paladar. Mas Gilberto Freyre não entendeu, na sua fugaz visita a Cabo Verde, que ali poderia estar a face mais impressionante do celebrado
“luso-tropicalismo”, não levando em conta a surpresa e admiração com que o Padre António Vieira, ao escalar a Ilha de Santiago, em 1652, a caminho do Brasil, deparou com a composição do cabido: “... clérigos e cónegos tão negros como azeviche; mas tão compostos, tão autorizados, tão doutos, tão grandes músicos, tão discretos e bem morigerados, que podem fazer inveja aos que lá vemos nas nossas catedrais.”

É imaginável que, já nessa altura, a língua do colonizador, por ser mediadora no
relacionamento das diversas populações arrebanhadas na Costa dos Escravos, já caminhasse no sentido de outra língua, diga-se agora luso-tropical, porque reconstrutora da matriz primigénia. Refiro-me ao crioulo (nas suas variantes), com o qual se esbateriam gradualmente a prática e a memória das línguas ou dialectos originais, que Chomsky afirmou estarem inscritos no património genético. Seja como for, à medida
em que os servos ascendiam ao escalão de alforriados e, no grau subseqüente, ainda que em número reduzido, ao estatuto superior de forros proprietários, a língua do dominador - antes imposta, então sim, como uma “ponta de lança do imperialismo cultural” - foi pelos antigos servos ou seus descendentes adoptada como um
distintivo de classe social.

A ensaísta são-tomense Inocência Mata, no seu recente livro A Suave Pátria, lembra aospatrícios desmemoriados como nas duas Ilhas do Equador se deu a apropriação reactiva - qual Caliban perante a língua ensinada ao escravo peloseu senhor, para melhor ser servido - do processoda “desimperialização” mental:No tempo colonial, o crioulo era consideradoum dialecto - aqui com a carga pejorativa que amentalidade colonial lhe injectava, nem língua sendo! - que só servia para “estragar” o português.Famílias havia que proibiam os seus filhos de se expressarem em crioulo, tentando, deste modo tosco e alienante, prevenir a ascensão dos seus filhos na sociedade colonial. Não admira que muitos da elite são-tomense não soubessem - e não saibam! - falar a língua do país, o mais emblemático marcador da identidade são-tomense - embora não seja única língua, e é bom também que muitos sãotomenses disso tenham consciência. Observação análoga poderia ser feita a respeito de outras ex-colónias africanas de Portugal.

Em 1979, portanto quatro anos após a proclamação da independência de Angola, o
escritor angolano, Óscar Ribas, notável quimbundista, ainda averbava no seu livro Misoso (qual Agostinho Neto em 1960):
[...] as actuais gerações, numa deplorável vergonha pelas coisas da sua terra, só querem o que é europeu! E ai daquele que ousa perguntar a alguém já meio liberto do ambiente ancestral, qualquer prática do seu tradicionalismo! Já pela imposição do Progresso, já pelo resultante constrangimentode se não passar por atrasado, a cultura negra vai-se definhando, mormente nos centros de predominância europeia. Deste modo, o quimbundo, língua de incontestável beleza harmónica, mas lamentavelmente tida por muitos detractores como língua de cão, está sepultando, com o seu menosprezo, uma parcela do relicário das tradições africanas.

Entretanto, o português ia servindo a dois níveis: mantendo a norma da antiga Metrópole e abrindo-se às injunções prosódicas africanas, sem que fosse alterado o “sentido de pertença” e ofendido o “espírito da terra”. Como sublinharam Eduardo Lourenço e Alfredo Margarido, em dois substanciosos ensaios sobre a “imagem e a miragem da Lusofonia”, a língua é de quem a fala - e a portuguesa já foi “nacionalizada” de tal
modo por todos os países lusófonos, que Portugal, dela, só no seu próprio território pode reivindicar direitos de propriedade...

Hoje, o seu apego ao “legado” que as caravelas de Pedro Álvares Cabral transportaram
para o Brasil, Vasco da Gama, para a Índia e Diogo Cão, para África, só deve ser entendido como o desejo que o legador, observando saudosamente do além o destino reservado ao que foi seu património, teria de ver o legatário conservar, tanto quanto possível, o essencial da herança que, querendo ou não, foi obrigado a legar...

O que havia para descobrir, ou para “desvendar”, como prefere Fernando Pessoa, está descoberto; as caravelas apodreceram, sem mais missões, nos ancoradouros; os últimos fachos do Império apagaram-se, em 25 de Abril de 1974, no funeral da ditadura; os argonautas de quinhentos regressaram definitivamente aos cais de embarque, para voltarem a ser o que realmente sempre foram: marinheiros-de-terra à procura de um espaço onde, sem pagar tributo ao rei ou renda ao senhorio, pudessem construir uma casa de família, plantar uma árvore, semear uma leira e ter filhos livres de cabresto.

Contrapor ao “apego saudoso” dos portugueses ao destino do único elemento - a
língua - que ficou da Longa Viagem por mares nunca dantes navegados, rumando ao porto, por achar que:
- no dizer do escritor e sociólogo português, Alfredo Margarido, no seu ensaio A Lusofonia e os Lusófonos: novos mitos portugueses, a criação da Lusofonia, quer se trate da língua, quer do espaço, não pode separar-se de uma certa carga messiânica [e que] a maior parte dos missionários da lusofonia agem como se não tivéssemos atrás de nós uma longa história de relações polémicas com aqueles que escolheram falar português.
- ou no dizer do investigador angolano de origem portuguesa, Carlos Pacheco, num artigo publicado no jornal Público, em Fevereiro de 2000, quanto ao Brasil:
... basta ouvir a elite académica deste país, os seus estudantes, jornalistas e outras classes sócio-profissionais esclarecidas, que se riem, achando isso da lusofonia um quixotismo lusitano, um convencionalismo em que apenas alguns políticos e escritores acreditam, nada para ser levado a sério”; e quanto a África: “...os dirigentes africanos são os primeiros a não terilusões: eles sabem que a lusofonia não passa de um projecto historicamente adulterado, sem nenhuma simbiose com o imaginário dos angolanos
e moçambicanos. Quando muito, um mito para Portugal e as suas elites, reflexo talvez
de um saudosismo pela perda do Império, é como que revalidar a contundente diatribe
que o polemista brasileiro, Antônio Torres, nos idos de 1925, desferiu contra a colonização portuguesa, num livro que deu brado, As Razões da Inconfidência, em que exortava à “deslusitanização gradual e definitiva do Brasil”, transmissora de “um dialeto obscuro e atamancado”. O livro foi prefaciado por Agrippino Grieco, o qual, porém sem tanto acinte, justificou o justo revide à história da colonização portuguesa no Brasil [que] literariamente apenas nos prejudicou, por nos afastar da simplicidade francesa,
compelindo-nos à ênfase dos árcades e dos frades (felizmente, hoje quase não lemos
mais os autores portugueses). Com um sorriso nos lábios, porque nos recorda aquele artigo de Eça de Queirós em que verberava os portugueses por aceitarem ser uma “má cópia do francesismo”, apetecia perguntar se Antônio Torres não estaria nostálgico das fugazes incursões dos franceses na baía de Guanabara ou dos holandeses em Pernambuco, e, se sim, lembrar-lhe o comentário irónico de Darcy Ribeiro a respeirto dos batavos:
“Bem se vê que não conhece o Suriname...” Sílvio Romero e Euclydes da Cunha, se fossem vivos na época, ou João do Rio e Gilberto Freyre, seus coetâneos, diriam da língua “atamancada”, e não só da língua, coisa muito diferente: que à língua que possibilitou escrever Os Lusíadas e Os Sertões não faltou nenhum recurso estilístico...
Freyre, lusófilo assumido, acrescentaria porventura: que a diatribe de Torres se explicava pelos ressaibos dos compatriotas inconformados com o lastro colonial, movidos por um “sentimento parricida” (a expressão é dele) típico do colonizado
contra o colonizador que não escolheu...

Mas não são aquelas vozes, com certeza, que exprimem a atitude definitiva de brasileiros e africanos para com a Lusofonia, por mais diversos que sejam os seus pressupostos, todos, duma maneira ou doutra, reflectindo as expectativas
políticas, económicas e culturais de cada país. Ouçamos a voz de outro distinto brasileiro, Alberto da Costa e Silva, conhecedor profundo de Portugal e África:A volta do português à condição de idioma de trânsito internacional - como foi no passado, do
século XVI à metade do século XVIII, quando não se comerciava na África Ocidental e em muitos portos do Índico sem saber-se português ou sem ajuda de quem o soubesse -, dependerá do que forem capazes de ser e produzir, com relevância para os outros povos, Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe. Do que neles criarem a inteligência, a imaginação e a sensibilidade. Do que se inventar nos seus laboratórios e se pensar nas suas universidades. Mas, sobretudo, da riqueza que gerarem, do tamanho de seus mercados e da importância política que vierem a ter em seus sistemas regionais e no concerto internacional, juntos e isolados.

Facto é que a língua portuguesa, vernácula ou “pitorescada”, na expressão de Mário de Andrade, em 1925, na vanguarda do Movimento Modernista, continua viva e recomenda-se: seja para “temperar” o Português com as injunções das línguas africanas (o que aliás já fazia Gil Vicente no Pranto de Maria Parda, em 1552), seja para convocar os calundus e orixás ou para honrar a Kianda, em Angola, e a Iemanjá, no Brasil, seja para fazer catarse dos ressaibos “parricidas” ou do “complexo sociológico”, como
também lhes chamou, brincando, Gilberto Freyre, próprios de quem teria preferirido ser descendente de colonizadores não portugueses. Ou para, no quadro dos revides históricos, re-entronizar Caliban apostrofando o senhor na língua que este o forçara a aprender...

Valha também este excerto da comunicação que o embaixador João Augusto de Médicis, então secretário-executivo da CPLP, se não tivesse falecido dias antes, iria apresentar pessoalmente no I Congresso Bienal da CPLP para a Língua Portuguesa, realizado em Viseu, na segunda quinzena de Abril de 2004:

Promover a língua portuguesa é uma acção de cunho estratégico, uma razão de Estado. A Língua é comércio e fluxo de riqueza. A Língua é conhecimento, ciência, saber. A Língua é poder, mas é também o principal instrumento de afirmação do indivíduo e da sua liberdade. A Língua Portuguesa protege-nos e abre-nos espaços. Sem ela, estaríamos ainda mais expostos a uma globalização selvagem, em que nos tocaria apenas um papel subordinado, periférico. Cabe à CPLP e aos seus Estados membros atentar para a questão e sair em defesa do seu património comum.Se fosse um diplomata português a proferir este discurso, não faltaria quem lesse nele o secreto
sentimento que Eduardo Lourenço vê subjacente: Não sejamos hipócritas, nem sobretudo voluntariamente cegos: o sonho de uma Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa, bem ou mal sonhado, é por natureza - que é sobretudo história e mitologia - um sonho de raiz, de estrutura, de intenção e amplitude lusíada.

Não entendo assim: nenhum português que não seja “cego” ou “mitómano” pode deixar de ver que Portugal jamais sonhará com uma Lusáfrica como a França mantém a sua Françáfrica nas ex-colónias, onde continua a dominar as esferas políticas, militares e económicas, como na Costa do Marfim, donde repatria 75 por cento da riqueza produzida no país, controlando um terço dos investimentos e representando 30 por cento do produto interno bruto (PIB).

O escritor-diplomata Antônio Olinto, que em 1962 serviu na embaixada do Brasil na Nigéria, escrevia por essa altura:
Os grandes povos têm uma vocação imperialista indisfarçável e às vezes irreversível, mas que pode ser transformada em vocação universalista, sem carácter de jugo ou
prepotência. Ao Brasil cabe esta vocação, por sinal essencialmente cristã: a de uma presença ecuménica no mundo, onde todas as raças poderão encontrar o seu viver comum. Não seria tão ecumenista o então presidente do Brasil, Castelo Branco, quando punha algumas reservas no apoio do seu país ao Portugal colonialista, para defender a “formação gradual de uma comunidade afro-luso-brasileira, em que a presença do Brasil fortificasse economicamente o sistema” e Afonso Arinos, no “Jornal do Brasil”, era ainda mais explícito: “Nossa amizade com Portugal não deve interferir com nossos interesses e responsabilidades. Leiamos Camões, mas pratiquemos António Vieira, que escreveu uma História do Futuro.”

Claramente, não sendo Portugal um “grande povo” (se não na história das descobertas e
conquistas de antanho), nem podendo recuperar uma “vocação imperialista” (que fora igual à de outras potências marítimas europeias, como a Inglaterra, Espanha ou Holanda), alguns estudiosos ainda o não julgam inocente quando eventualmente se comporta como “guardião” ou“vestal”, no dizer de Eduardo Lourenço, da Língua
que foi de conquista e hoje é património de mais de 200 milhões de falantes. Assim continua a pagar os seus “pecados históricos”, na expressão de Antero de Quental...
Mas fiquemo-nos, realisticamente, com a ideia de que a língua portuguesa, enquanto instrumento de comunicação, é de interesse comum para todos os países que a utilizam. E daqui deriva que quanto mais concertados forem os seus desempenhos, mais fácil e eficaz se tornará o relacionamento, sem que isso ponha em causa as diversas identidades nacionais. Até porque, na análise do universitário moçambicano Lourenço do Rosário, diferentemente de muitos países do continente, a situação da língua portuguesa não é a de uma herança incómoda com carácter provisório enquanto
se não encontrar uma língua “genuinamente africana”. Por outro lado, estamos certos
de que a sua adopção como língua oficial não obedeceu a quaisquer fundamentos de natureza sentimental, bem pelo contrário, ela representa uma dura conquista, porque representa na realidade um instrumento muito eficaz para pôr em prática um projecto longo, ambicioso, o único realista e possível numa África geograficamente
retalhada à mesa de convenções, por potências que estavam preocupadas com os
seus interesses.

Enfim, aceitemos de boa mente que cada um dos povos envolvidos realizará a Lusofonia conforme os seus interesses e com a originalidade e o tempero adequado ao seu paladar. Todo o resto, como diria Agostinho da Silva, será como falar cada vez mais do menos, ou como diria António José Saraiva, referindo-se aos críticos literários, fazer literatura sobre a literatura...

Aceito em 20/06/2006.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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portuguesa. Jornal de Letras, Lisboa, 28 de abril
de 2004.
MATA, Inocência. A investigação do espaço
lusofono: a lógica da razão africana. Lisboa:
Edições Colibri, 2004.
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Universitárias Lusófonas, 2000.LOURENÇO, Eduardo. A nau de ícaro seguido
de imagem e miragem da lusofonia. Lisboa:
Gradiva, 1999.
NOGUEIRA, A.F. A raça negra. Lisboa, 1880.
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ed. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1957.
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OLIVEIRA, M.A.F. de. Reler África. Instituto
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FERREIRA, Manuel. Que futuro para a língua
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Edição nº 004 - Maio 2007

domingo, 24 de outubro de 2010

Moçâmedes e a abolição


1838 – A ‘colonização’ a que Sá Nogueira se referira tinha tudo a ver com a aclimatização de comunidades portuguesas em África como unidades produtivas auto-suficientes – na tradição portuguesa do Brasil e inglesa na América do norte – e pouco com o conceito de grandes territórios ultramarinos anexados a uma potência europeia, ao jeito popularizado cinquenta anos mais tarde pelo rei Leopoldo dos Belgas; não devia, por isso, dar-se como o início daquilo que mais tarde se convencionou chamar ‘colonialismo’. Porém, toda a autoridade era então pouca para manter em Luanda o respeito pelo governo Liberal em Lisboa: o ministro Sá Nogueira, agora na pasta da Marinha e Ultramar, nomeia por isso António de Noronha Governador geral, em cujo posto o almirante se mantém aproximadamente um ano, governando Angola segundo o novo figurino, e não já como um capitão-general da antiga tradição ultramarina: é um governador geral com grande autoridade civil em representação da Coroa, à maneira britânica. Noronha dá o primeiro passo da nova política ultramarina portuguesa ordenando a restauração do antigo presídio de Caconda, em parte para demonstrar que existia já uma soberania europeia a sul de 13º latitude sul – desde a seca de 1829 que os hotentotes Orlam entravam a cavalo pela Huíla em busca de gado – e em parte para iniciar o projecto anti-esclavagista imaginado pelo ex-primeiro ministro.

1839 – O almirante Noronha escolhe para chefe da estação naval de Luanda o tenente da Armada Pedro Alexandrino da Cunha: já servia em Angola havia alguns anos, competindo-lhe vigiar os ‘negreiros’ entre Molembo e Luanda, e por isso conhecia bem o envolvimento da praça da capital no contrabando de escravos. Sá Nogueira autoriza uma expedição do tenente ao sul de Benguela, nos moldes da de Furtado e Mendes em 1785: na costa sul de Angola os contrabandistas não tinham ancoradouros, portanto o governador geral terá pensando em radicar ali uma agricultura local, que ocupasse a população escrava e servisse de exemplo ao norte, visto ser impossível ao tesouro do Reino indemnizar os senhores. Por terra, de Benguela a Quilengues – a antiga Caconda – e de aqui à Huila e ao Jau, marcha o comandante daquele presídio, o tenente de artilharia José Francisco Garcia. Pedro Alexandrino comanda, já como capitão-tenente, a corveta Isabel Maria, acompanhando-o o comerciante António Joaquim Guimarães, encarregado de escolher um ponto para estabelecer indústrias de charqueação e curtumes no porto de Moçâmedes, com promessa de ajuda do governo. De caminho, Cunha dá o nome do governador geral à ponta sul da baía de Moçâmedes.

1840 – O tenente Garcia, escolhido para chefiar o novo estabelecimento, vem a bordo do brigue Raimundo I, aprisionado a 19.02 por um navio da Armada britânica que o confunde com um negreiro; quando chega à baía, na corveta Isabel Maria do comando do capitão-tenente Cunha, já ali se encontravam, não só Guimarães, mas também os empresários de Benguela, Jácome Filipe Torres, Manuel Joaquim Teixeira e João Gonçalves Pinto. Finalmente, no dia 13.08 há uma tenda de campanha na praia da baía de Moçâmedes, em que estão presentes os comerciantes, os dois oficiais, e os sobas de Mussungo, Giraúl, Quietena e Jáu: vão estes assinar um acordo com os portugueses, que vêm ali instalar-se para abrir comércio com eles e construir uma fortaleza “que a todos protegesse das frequentes correrias do gentio...” do ‘nano’ 1 , segundo a acta respectiva, 2 assinada por todos os presentes. Fundava-se o presídio de Moçâmedes e, acto contínuo, delimitam-se feitorias nas margens do rio das Mortes, o Mbwelo (‘o de baixo’) dos nativos.

1841 – A portaria de 31.08. determina a construção de um forte na extremidade norte da falésia da baía do porto de Moçâmedes, a que o tenente Garcia, seu construtor inicial, dá por patrono S. Fernado, o santo homónimo do príncipe que D. Maria II desposara cinco anos antes, Fernando de Saxe-Coburgo Gotha.
 1842 – As obras da fortaleza estão suficientemente avançadas para que o estabelecimento agrário do porto de moçâmedes se classifique como presídio, visitado então pelo governador geral José Xavier Bressane Leite (1842-1843).

1844 – O governo Liberal concede distinções aos colonos do norte de Angola que se sobressaiam na agricultura, como o cafeicultor do Cazengo agraciado nesse ano com o Hábito de Nossa Senhora de Vila Viçosa; seria, porém, evidente em Lisboa que fundir grilhetas em enxadas tão perto do reino do Congo seria obra demorada.

1845 – No ano em que o ministro da Marinha, o persistente coronel Sá Nogueira, agora barão de Sá da Bandeira, decide nomear dois governadores para África, especialmente escolhidos para executarem o decreto de 1836, em Angola não há ninguém mais credenciado para o cargo que o chefe da Estação Naval: Pedro Alexandrino é promovido a capitão-de-fragata e simultaneamente empossado em 31.05, e envia imediatamente o antigo companheiro de exploração, o tenente Garcia, para o planalto de Moçâmedes – hoje ‘da Huíla’ – para iniciar outra colónia, substituido-o interinamente na costa António Joaquim de Freitas. O novo governador geral (1845-1848) dá, assim, o primeiro passo do projecto do capitão-general pombalino, D. Francisco Inocêncio da Sousa Coutinho, de construir uma linha de presídios entre a costa e o rio Zambeze.

1846 – O tenente da Armada, Francisco António Correia, é nomeado chefe do presídio de Moçâmedes. A 06.10, a rainha D. Maria II chama ao paço o Primeiro ministro, Duque de Palmela e, zangada, demite-o: ostensivamente, porque Sá Nogueira, novo ministro da Guerra, também demitira e transferira numerosos oficiais de tendências conservadoras. É menos claro, mas plausível, que se tenham movido influências de Luanda, já que dos implicados no contrabando de escravos pelas rusgas navais ordenadas pelo governador geral Pedro Alexandrino, um é o director das alfândegas de Angola, irmão do juiz presidente de Luanda, que 18 meses antes se perfilara no cais da Alfândega do irmão para saudar o novo Governador geral.

1847 – Quase exactamente doze meses depois da queda do governo de Palmela, e depois de perder duas batalhas, Sá Nogueira tem que aceitar um armistício proposto por um oficial inglês enviado pelo lado ‘conservador’. No porto de Moçâmedes o conde de Bonfim, ali desterrado por actividades a favor dos Cartistas em Portugal, tenta um levantamento e é deportado, tentando contudo evadir-se da escuna Conselho. No Brasil explode em Dezembro a revolução Praieira: o ‘Nativismo’ 1 que, desde a vitória do movimento Liberal brasileiro em 1844, alimentara a “extrema esquerda” brasileira, reacende o antigo antagonismo entre as duas comunidades, “nativa” e portuguesa, do Nordeste. Sob o caudilho conservador português Costa Cabral – o primeiro Ministro favorecido na corte de D. Maria II – assiste-se ao espectáculo, em Angola e Lisboa, de um governador-geral de Angola ser levado a juízo por impor leis incómodas a alguns homens influentes de Luanda.
1848 – Em Fevereiro a influência conservadora da monarquia francesa está inteiramente defunta: quando mais uma revolução Liberal inicia em Paris a 2ª República Francesa, em Lisboa é rapidamente nomeada uma comissão parlamentar e elaborado um decreto de abolição que se aplica a todo o Ultramar entre Maio e Agosto. Neste ano em que o Governador geral Pedro Alexandrino da Cunha é exonerado – o processo que lhe fora movido pelo comerciante de Luanda não chegara a tribunal – a compra de escravos de Molembo e Ambriz era, finalmente, criminalizada. Paradoxalmente, é então que, no Brasil, a meados do ano, o terrorismo contra a comunidade portuguesa no Nordeste é tal – gritava-se “mata que é ‘marinheiro’” – que um obscuro professor português de liceu, tão apegado à causa absolutista de D. Miguel que se exilara voluntariamente em Pernambuco, decide-se a escrever ao maior Liberal de Portugal pedindo-lhe asilo para si e outros Portugueses “nas Áfricas ou na Índia”: a petição de Bernardino Freire de Abreu e Castro vem directamente ao encontro dos planos do chefe da Repartição de Angola do Conselho Ultramarino, o extraordinário combatente Liberal, tipógrafo, médico da Armada e historiador, Simão José da Luz Soriano: sacode a poeira ao relatório de Pinheiro Furtado, escrito 63 anos antes, e apresenta ao ministro da Marinha, o indestrutível Sá Nogueira – por agora visconde de Sá da Bandeira – a ideia de colocar o professor Absolutista e os seus seguidores numa das “Áfricas”, a do porto de Moçâmedes. O financiamento do transporte de cento e setenta emigrantes, e dois engenhos de açúcar, é prontamente arranjado, mas entretanto os agricultores do vale do rio das Mortes sofrem o primeiro ataque do gentio do Nano, cujos chefes linhageiros eram antigos beneficiários do tráfico: é uma acção que vai repetir-se, somando-se os seus efeitos psicoógicos aos dos outro grande problema administrativo ainda por resolver: o destino a dar à escravaria de Angola.


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2.6. As colónias de Moçâmedes


1849 – A última etapa da Abolição passa a decorrer da acção colonial desenvolvida a partir do presídio de Moçâmedes pelo Ministério da Marinha e Ultramar, habilmente aconselhado pelo autodidacta Luz Soriano. O major do Exército Ferreira da Horta é nomeado por portaria de 30.03 para planificar o estabelecimento da colónia que se prepara em Pernambuco, e o decreto de 19.04 nomeia o tenente da Armada António Sérgio de Sousa primeiro governador do novo distrito, talhado do de Benguela e que inclui parte da actual Huila. Os colonos sob a chefia do austero e conservador Abreu e Castro tomam o seu lugar na barca Tentativa Feliz que, escoltada pelo brigue Douro, vai fazer um travessia extraordinariamente lenta, de mais de dois meses, nas calmarias do Atlântico sul: são pessoas de ambos os sexos e todas as idades, empregados do comércio, operários, algumas com as suas famílias – todas “marinheiros” das cidades do Nordeste – por quem o governador geral Adrião da Silveira Pinto espera em vão na baía do Namib, regressando a Luanda por necessidade de serviço. A colónia aporta afinal a 04.08.


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 1850 – Aporta a Moçâmedes na barca Bracharense mais um grupo de refugiados do Nordeste brasileiro: o Governo português não financiara esta ‘segunda colónia’ mas o desejo de vir para as Áfricas ou as Índias, na expressão de Abreu e Castro, era tal que o fizera ela própria por colecta em Pernambuco; nesse ano a seca e a inexperiência conjugam-se para reduzir muitos membros das duas ‘colónias’ do Namib à indigência; de Luanda vem o generoso auxílio que permite a uns sobreviverem durante o ano e a outros emigrarem para Benguela e a Huíla; os dois engenhos da ‘primeira colónia’ e o da ‘segunda’ são montados e a seu tempo funcionam, empregando a mão-de-obra que abunda ainda em Benguela. Pedro Alexandrino da Cunha toma posse em 29.05 como governador de Macau.

1851 – Com a fundação da alfândega de Moçâmdes, exporta-se o primeiro açucar. O governador de Macau é encontrado morto em 06.07: assassinado, aparentemente.

1852 – Estabelece-se o julgado municipal de Moçâmedes.

1853 – Apenas três anos após a Conferência de Berlim, o Capitão de mar-e-guerra António Ricardo Graça manda ocupar o porto de Mpinda como forma derradeira de impedir o contrabando em seres humanos no território de Angola, que agora inclui o ‘Congo português’. A mão-de-obra escrava não pode, contudo, deixar de ser utilizada na produção de açúcar do vale do rio Bero; o ministro Sá Nogueira, agora marquês de Sá da Bandeira, insiste para que se fomente uma indústria da pesca no distrito de Moçâmedes.


1854 – José Rodrigues Coelho do Amaral chega a Luanda como Governador geral (1854-1860); acompanha-o Fernando da Costa Leal, um capitão do Exército de 28 anos escolhido pelo Geral e que vem nomeado como governador de Moçâmedes, onde toma posse a 26.02. Das primeiras iniciativas que toma, uma é localizar a foz do rio Cunene, o que faz por terra, já que por mar a foz é encoberta por uma barra de areia a maior parte do ano; baptiza o rio mas o nome de “Elefantes” nunca é popular; tem melhor sucesso noutra área: “Obras paralisadas havia muito tempo, como a Igreja, que não andava desde 1849, são rapidamente concluídas. Outras, como a Fortaleza de São Fernando, iniciam-se ainda nesse ano e sem delongas se aprontam.” 1 Mas a mais importante é a concessão das primeiras licenças de pesca comercial, na Baía das Pipas. Em 14.12 é decretada com efeito imediato a libertação dos escravos do Estado: calcula-se que em toda a Angola houvesse então ainda cerca de 60.000 escravos nas mãos de senhores particulares.

1855 – A povoação do porto de Moçâmedes é elevada à categoria de vila: consistia então de dois alinhamentos de habitações, as melhores frente à praia, com uma rua de permeio, de 400 metros de comprimento. Neste ano de eleição da primeira vereação da Câmara Municipal, tendo com seu primeiro presidente Bernardino de Abreu e Castro, chefe da primeira colónia, é ocupada a Praia do Baba e a rainha D. Maria II envia 1000 anzóis ao governador do distrito.

1856 – No ano em que o hospício de Moçâmedes é inaugurado, o decreto de 15.06 decreta a Abolição em todo o território então sob a soberania portuguesa. Os primeiros armadores portugueses estabelecem-se nas Luciras.

1857 – Segundo o governador Leal, estão agora instaladas em Moçâmedes 16 pescarias, com 40 escaleres e 280 escravos, e mais 4 nas praias do Norte: Baía das Pipas, Baba, Lucira e Catara. Mas por outra preocupação, o governante desloca-se aos Gambos acompanhado pelo presidente da Câmara municipal de Moçâmedes: Bernardino Abreu e Castro mais tarde descreve ao Govenador geral o patria potestas banto, verdadeiro motor da escravatura africana. 2 A visita relacionava-se com a resolução de um litígio com o novo soba dos Gambos, ‘Xipalanga’, 3 que o governador dava por usurpador, e foi o prelúdio de pequenas operações militares lançadas da colónia do Lubango pelo governador, contra o parecer da Câmara e a opinião do experiente e educado viajante e comerciante entre os Cuanhamas, Bernardino José Brochado, estabelecido em Moçâmedes. Como o clima de guerra na Huíla convencesse alguns dos colonos do Lubango a deslocarem-se para a costa, a 25.11 o governador Leal assentou praça a dois deles: seguiu-se o protesto da Câmara, a dissolução desta pelo governador, a sublevação dos colonos e o embarque do governador para Luanda. O incidente – reflexo da antiga tradição de independência municipal ibérica, vestígio da colonização Romana e travão perene contra os desmandos dos barões feudais – tem sido, contudo, mal visto por habitantes mais recentes do Namib angolano, onde, por esse ponto de vista mais obediente, naquele tempo “uma indisciplina latente constituía permanente ameaça.” 4
 1858 – O Governador geral vem a Moçâmedes acompanhado do governador Leal, manda deter os cabecilhas da revolta, dissolve a Câmara – Brochado é nomeado presidente da Vereação (1858-1860) – e reconduz Leal. Resta pouca dúvida, porém, que a iniciativa militar do jovem governador de trinta e dois anos, inexperiente das “Áfricas” mas assoberbado pelo apoio que teria em Luanda, terá ajudado a acender um fogo entre os povos aguerridos do sul de Angola que só veio a apagar-se meio século mais tarde, depois de outro incidente, o de Naulila. Sai o decreto de 29.04 que estabelece aos senhores particulares um prazo improrrogável de 20 anos para a libertação final dos seus escravos, metade do qual na condição de servitude livre.

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1859 – O Governador Fernando da Costa Leal deixa o distrito de Moçâmedes para ir trabalhar com o marquês de Sá da Bandeira na compilação da primeira carta geográfica de Angola
1860 – Dez anos depois da chegada dos portugueses vindos do Brasil começa a colonização dos algarvios que para aqui se deslocam nos seus próprios barcos, em viagens de autênticos aventureiros honrando bem os seus antepassados navegadores: o primeiro é José Guerreiro de Mendonça, de Olhão.

1861 – No Governo geral de Sebastião Lopes Calheiros de Menezes (1861-1862) o levantamento dos povos do baixo Cunene – herança do governo do capitão Leal – obriga à constituição do Batalhão de Caçadores 3 com seis companhias, das quais a 1.ª e 2.ª se vão estacionar na Huíla, a 3.ª nos Gambos, a 4.ª no Humbe; a 5.ª C. caç. é colocada em Capangombe e constroem-se os fortes dos Cavaleiros e Boa Esperança, no vale do rio Bero: a guerra do Nano descia à cidade. Famílias de pescadores de Moçâmedes estabelecem quatro feitorias na ponta do Pinda, adjacente à antiga angra das Aldeias, o porto Alexander das cartas náuticas do almirantado britânico.

1862-5 – A reacção dos chefes tribais do sul de Angola ao aparecimento dos destacamentos militares não se fazem esperar, inaugurando um longo período de instabilidade para os colonos do planalto. Em Luanda o Governador geral é o militar que pacificara os Dembos e subtraíra finalmente o Ambriz às atenções britânicas; é, no entanto, durante este período conturbado da primeira vigência do notável Governador geral José Baptista de Andrade (1862-1865) que, na costa do distrito de Moçâmedes, se radicam pescadores algarvios não só em Moçâmedes, mas também na Baía das Pipas, Baba e Baía das Salinas: os do Baba mudam-se para o porto Alexandre, onde em 1863 já há seis feitorias de gente de Moçâmedes; iniciam-se as obras do hospital de Moçâmedes (1863), a construção do troço Bruco-Chela da estrada Moçâmedes-Huila e a fundação de uma indústria de tecelagem em Moçâmedes (1864), e se inaugura a estrada de Moçâmedes à pousada da Pedra Grande (1865); neste ano, os algarvios atingem na enseada do Leão, na enorme Great Fish-bay da marinha inglesa: o jogo de sombras às listas nas dunas da costa sugerem-lhe o nome moderno, ‘baía dos Tigres’, e a falta de água obriga-os a fazer um plano. 

1870 – No ano em que o marquês de Sá da Bandeira deixa definitivamente a política, as estradas para a Huila estão acabadas, não só na antiga passagem por Capangombe à Huíla, pelo Bruco, mas também para a Bibala, pelo Munhino; e há um numeroso grupo de pescadores algarivos na baía dos Tigres, que para ali transportam a água potável nas suas frotas. Governa Angola novamente, por um breve período, o enérgico Coelho do Amaral (1869-70).

1876 – Morre Bernardo de Sá Nogueira de Figueiredo, o marquês de Sá da Bandeira, e em sua memória é decretada para o dia 29.04 – dois anos antes do previsto em 1859 – a libertação dos poucos escravos que ainda existem em território português.

1884 – Os oficiais da Armada Hermenegildo Brito Capelo e Roberto Ivens partem de Moçâmedes para Tete, no rio Zambeze, na sua travessia de África até Moçambique: é que as potências internacionais interessam-se por partilhar o sempre difícil continente e o Governo português toma precauções, uma delas o convite de muitas famílias da populosa e pobre ilha da Madeira a estabelecerem-se nas ‘Áfricas’. São pescadores e agricultores, aqueles com destino a Moçâmedes – a maioria ao Baba, outros a Porto Alexandre – estes em rota para a colónia de Lubango, na Huíla. De resto, a imigração portuguesa para Angola encontra-se agora facilitada, 1 e pela primeira vez se pensa em Angola como uma ‘província’ aberta a todos os Portugueses particulares, como as do continente europeu.

1885 – Por decreto do Ministro da Marinha e Ultramar, a vila do Lubango passa a conhecer-se pelo título do marquês cuja iniciativa humanitária e denodo político lhe dera origem: Sá da Bandeira.





Tozé




ORIGEM: Kamussel Foruns