domingo, 5 de dezembro de 2010

Angola e António Aniceto Monteiro








Livros imprescindíveis para conhecer a História de África são os de René Pélissier!

Intervenção no "Colloquium António Aniceto Monteiro", 4 de Junho de 2007

Angola e António Aniceto Monteiro
Jorge Rezende (*)

O pai de António Aniceto Monteiro chamava-se António Ribeiro Monteiro e era alferes de infantaria quando, em 4 de Julho de 1905, foi requisitado para desempenhar uma comisão de serviço dependente do Ministério da Marinha e Ultramar na construção do caminho de ferro de Mossâmedes. Dois dias depois, na Paróquia dos Anjos, casou com Maria Joana Lino Figueiredo da Silva, “tendo sido dispensados dos proclamas por provisão de Exmo. Prelado” [AAM-CM] datada da véspera. No dia seguinte ao casamento, António Ribeiro Monteiro embarcou para Angola. Dez anos depois, dia por dia, a 7 de Julho de 1915, na sua casa de Mossâmedes, na rua dos Pescadores, morreu de doença, contraída durante operações militares resultantes da guerra no sul de Angola. Era então tenente de infantaria e deixou Maria Joana viúva e órfãos os dois filhos, Maria Petronila e António Aniceto, de nove e oito anos, respectivamente.
Para compreendermos as circunstâncias históricas que determinaram este início dramático da vida e do percurso angolano de António Aniceto Monteiro, temos que recuar até 1884.
Em 15 de Novembro de 1884, iniciou-se a Conferência de Berlim que se prolongaria até 26 de Fevereiro de 1885, em que participaram vários países europeus, incluindo o Império Otomano e ainda os Estados Unidos da América, tendo em vista a definição das regras para a partilha de África. Este continente tinha um solo e, sobretudo, um subsolo riquíssimos, que despertavam a cobiça das grandes potências de então. A grande burguesia industrial e financeira precisava dos recursos naturais africanos, nem que fosse em detrimento das populações de origem europeia que já estavam instaladas no litoral e, acima de tudo, das populações indígenas que, ao longo de gerações e gerações, ali sempre tinham vivido.
Claro que já havia conflitos em África resultantes das pretensões das potências europeias e, justamente, a Conferência de Berlim visava definir as regras daquilo que veio a chamar-se o “scramble for Africa”, a corrida desenfreada para a ocupação de África. Isso implicou o envio maciço de tropas e a consequente escalada dos conflitos principalmente com as tribos africanas. Aquele inverno de Berlim acabou por atear fogo a todo o continente.
Interessa especialmente o que se passou então na região de Mossâmedes, actualmente chamada Namibe. A província de Namibe fica no extremo sul e litoral de Angola e, vendo o mapa no sentido dos ponteiros do relógio, é banhada a oeste pelo Atlântico e faz fronteira, a norte, com Benguela, a leste, com Huíla (cuja capital é Lubango, antiga Sá da Bandeira) e Cunene (cuja capital é Ondjiva, antiga Pereira de Eça) e, a sul, com a Namíbia.
Ao longo de 1900 km, paralelamente à linha costeira, a província de Namibe e a Namíbia são atravessadas por um deserto que se estende para o interior cerca de 80 a 150 km. É considerado o mais antigo deserto do mundo, com mais de 80 milhões de anos, e a sua aridez é causada pelo ar frio e seco provocado pelas águas geladas da corrente de Benguela que corre de sul para nor-noroeste e das profundezas do oceano para a superfície, sobretudo devido à rotação da Terra.
Portugal enviou tropas para todas as regiões de África que reivindicava na altura. Em toda a parte havia conflitos, nomeadamente em Angola e Moçambique, mas a situação era particularmente grave no sul de Angola. Segundo René Pélissier “de 1885 a 1915, o sul de Angola foi a guerra”(1).
As populações do sul de Angola eram um mosaico de pequenos núcleos de origem europeia, que coexistiam com a esmagadora maioria de populações negras de diferentes etnias. Entre os primeiros, estavam os boers, instalados durante um período de tempo num território próprio na Huíla(2) e havia, ainda, colonos idos da ilha da Madeira, do Brasil, etc(3). As mais diversas correntes religiosas procuravam exercer a sua influência: católicos, protestantes, espiritanos franceses, luteranos, e outras(4).
Havia o tráfico de armas, como as Martini-Henry e as Westley Richards(5), algumas provindas da guerra civil americana, outras da África do Sul. As tribos africanas não só estavam organizadas – possuindo meios rudimentares de comunicação militar, por exemplo – como estavam armadas com armas de fogo das mais diversas origens(6).
A vida dos soldados portugueses não era, portanto, nada fácil. Além das dificuldades do terreno desértico ou semi-desértico, tinham que contar com uma resistência armada forte e quando, a partir de Outubro de 1914(7), tiveram que combater os alemães, por estes terem invadido o sul de Angola, continuavam a ser os negros os piores adversários. Os soldados que morriam, quando não morriam nos combates, morriam de sede e de doenças provenientes, muitas vezes, de beberem água inquinada. As marchas eram forçadas e os itinerários eram escolhidos de acordo com a necessidade de serem mais velozes do que a transmissão das mensagens através dos tantãs africanos. Os animais eram muito utilizados e, para o transporte de militares, os cavalos eram o meio preferido e, até, imprescindível.
Dos momentos mais altos da guerra, antes da chegada do alferes Monteiro, destacam-se as revoltas do Humbe: a primeira, de 1885-1886, a segunda, de 1891, e a terceira de 1897-1898(8). Um momento de viragem registou-se em 25 de Setembro de 1904(9), com a vitória dos Cuamatos (uma tribo Ovambo), sobre os portugueses, na batalha do Vau de Pembe. As baixas portuguesas foram centenas, entre mortos e desaparecidos. Diz René Pélissier: “É preciso que se meça bem a amplidão desta derrota, que equivalia a eliminar num único dia perto de um décimo das forças totais existentes em Angola”(10). Em Lisboa soou o alarme e fizeram-se planos pormenorizados de envio de homens e material para uma campanha de seis meses cuja despesa prevista era de 1 884 contos, “isto é, aproximadamente o mesmo que em 1892 tinha custado à França a conquista do Daomé”(11). Para dirigir todas as operações, foi chamado o capitão do Estado-Maior Alves Roçadas(12) que, segundo René Pélissier, “estava longe de ser um génio como se provaria com os acontecimentos de 1914”(13). Foi, provavelmente, dentro deste plano geral de ofensiva no sul de Angola que o alferes Monteiro foi requisitado para partir para África num tão curto espaço de tempo.
O alferes Monteiro, pai de António Aniceto Monteiro, tinha nascido em 1880 e assentado praça como voluntário em 1898, com dezoito anos incompletos. Finalizou o curso de infantaria da Escola do Exército em 1902 e foi promovido a alferes em 15 de Novembro de 1903.
Mal chegou a Luanda, em 1905, já casado com Maria Joana, foi enviado para o sul para participar na construção do caminho de ferro de Mossâmedes, que foi iniciada nesse ano, embora a autorização do Governo remontasse a carta de lei de 1890. Em 1907, estavam prontos os primeiros 67 quilómetros. O engenheiro encarregado das obras era Artur Torres, futuro sogro de António Aniceto Monteiro. O projecto previa que a linha fosse até Lubango, antiga Sá da Bandeira, mas as obras pararam em 1910, provavelmente devido à guerra, quando estavam prontos 186 quilómetros. As obras só retomariam em 1917 e ficaram concluídas em 1923.
O casal António e Maria Joana teve dois filhos: Maria Petronila, que nasceu em 5 de Abril de 1906, e António Aniceto, que nasceu em 31 de Maio de 1907, ambos na freguesia de Santo Adrião de Mossâmedes.
Em 8 de Fevereiro de 1908, António Ribeiro Monteiro foi nomeado para provisoriamente exercer o cargo de chefe de dia e obras do caminho de ferro de Mossâmedes e, em 9 de Julho de 1909, foi nomeado condutor de 1ª classe.
No fim desse ano, dá-se uma viragem na vida de António Ribeiro Monteiro e nunca mais regressou à construção dos caminhos de ferro. Em 27 de Dezembro de 1909, por opinião da junta de saúde, veio para Portugal. Desconheço se a família o acompanhou.
Em 5 de Outubro de 1909, chegou ainda a ser nomeado para condutor de 1ª classe do caminho de ferro de Luanda, lugar que nunca ocupou. Em 17 de Abril de 1911 foi colocado na direcção fiscal do caminho de ferro de Benguela mas, não é certo que aí tivesse efectivamente trabalhado.
Nos três primeiros meses de 1910 António Ribeiro Monteiro esteve doente em Lisboa.
No dia 1 de Abril de 1910, foi colocado no Regimento de Infantaria nº 11, em Setúbal e, no dia 1 de Dezembro desse ano, é promovido a tenente. É através de um relatório manuscrito [ARM1], datado de 5 de Novembro, extremamente elogioso, acerca dos serviços prestados por António Ribeiro Monteiro nesse regimento (e que pode ter servido para a sua promoção), que ficamos a conhecer um pouco da sua personalidade singular.
Esse relatório, assinado por José Narciso d’Andrade(14), Coronel Comandante do D.R.R. 5, ao referir-se ao alferes Monteiro, diz “não ser fácil encarecer à altura do seu valor as qualidades de tão illustrado oficial, honestíssimo caracter e homem de sciencia”. Fala ainda nas suas qualidades como “constructor e engenheiro”, nos seus “conhecimentos especiaes ou scientificos”, na sua capacidade de ministrar a instrução aos soldados “subordinado a um plano pratico e compreensivel” e nas “referencias altamente elogiosas” que lhe foram feitas pelo comandante da brigada “motivadas pela execução rapida, perfeito acabamento e rigorosa disciplina em todos os trabalhos feitos”.
Mais adiante o relatório acrescenta:
“Querendo tornar extensivos aos officiaes do meu regimento a pratica dos levantamentos topographicos à vista, convidei o Snr. Alferes Monteiro a expor à corporação o que de mais util houvesse sobre esta especie de trabalhos.
Com tal profundeza de conhecimentos, clareza e feição desenvolveu o thema escolhido que não pude furtar-me a intimá-lo a apresentar por escripto a conferencia oral desenvolvida, com o fim de ser remettida para o Ministério da Guerra e ser devidamente apreciada”.
Entretanto, tinha ocorrido a revolução republicana de 5 de Outubro e, a esse propósito, o relatório do coronel Narciso d’Andrade refere:
“Por ocasião da Revolução que proclamou a Republica em Portugal, Setúbal foi, como se sabe, theatro de desorientação popular que se traduziu por incendios a repartições publicas, egrejas, etc.
Necessario se tornava mandar para a rua a força publica com o fim de evitar, sendo possivel a continuação de similhantes desvairamentos. Um capitão e um subalterno, levando sob o seu comando as praças disponiveis, saíram a coadjuvar a autoridade. Porem a população desrespeitou a força e feriu gravemente o seu comandante, bastante conhecido pelas suas ideias liberaes. Teve a força de retirar, à vista de similhante attitude.
Foi então que chamei o Alferes Monteiro e com uma diminuta força o encarreguei de se dirigir ao povo e obstar à continuação dos vandalismos até então praticados e em ameaça de continuarem.
De tal forma se houve e tal diplomacia desenvolveu que toda a gente acolheu com palmas as palavras do Alferes Monteiro e debandou sem que houvesse a mais leve resistencia ou continuassem na pratica dos actos pelos mesmos praticados. Attenta a attitude do povo, expôs-se n’esta difficil missão, aquelle illustre official, não só a ser desrespeitado como a ser esmagado pelo povo.
A pacificação e tranquillidade dos animos foi obtida pelo habil official da seguinte forma: Mandou fazer alto à sua força a uma distancia consideravel dos ajuntamentos, mas de forma que por todos fosse presenciado. Embainha depois a sua espada e dirigindo-se ao povo, falla-lhe tão patrioticamente que começando a ser ouvido com apupos terminou por ser obedecido com vivas e palmas.
Dias depois a população de Setubal, reconhecedora, combinava-se para lhe preparar uma manifestação de simphatia. Ignoro se se chegou a realizar; mas realizasse ou não, certo é que o Senhor Alferes Monteiro, é hoje, em Setubal, a pessoa de mais consideração que a sua cidade encerra”.
Mais adiante o relatório conta que tendo ele sido nomeado “defensor officioso” de um desertor, foi “por todos considerado um orador eximio, mais parecendo um distincto profissional na advocacia do que um homem que fez a sua estreia como amador”.
O relatório diz ainda que “como chefe de família e caracter está superior a todo o elogio”, o que parece significar que, nesse ano, a família vivia com ele em Setúbal.
É de assinalar que esta estadia do alferes Monteiro em 1910 em Setúbal explica a razão pela qual António Aniceto está registado no “livro de registos de nascimento da Administração deste concelho do ano de – 1910-1911”.
O relatório finaliza com o parágrafo seguinte:
“Tamanha é a gratidão dos habitantes de Mossamedes e tão profundas simpathias alli deixou que a pedido d’aquella cidade vae o alferes Monteiro, muito brevemente, desempenhar alli uma nova comissão de serviço publico”.
Ao ler estas quatro páginas manuscritas que elogiam o alferes Monteiro, é difícil não ver nos traços de carácter descritos, aqueles que viriam a ser os do seu filho, António Aniceto: a grande inteligência, a versatilidade e a amplidão das suas aptidões intelectuais, o sentido prático aliado à competência teórica, a capacidade de comunicação e transmissão dos seus conhecimentos, a simpatia e a coragem.
Em Dezembro de 1910, o recém promovido tenente Monteiro regressou a Angola, tendo embarcado no dia 2 e chegado a Luanda no dia 16.
Não se percebe muito bem onde esteve e o que fez, exactamente, o tenente Monteiro, em 1911. Até ao fim da vida viveu sempre, muito provavelmente, em Mossâmedes e, em 1911, pode ter estado parcialmente ao serviço do caminho de ferro, embora não na sua construção, que estava parada(15).
Entretanto, no ano de 1912, deu-se outro momento de viragem na vida do tenente Monteiro. Em Mossâmedes, no dia 9 de Abril, dirige o seguinte requerimento ao Presidente da República:
“António Ribeiro Monteiro, tenente de infantaria do exército da Metrópole, nomeado em Novembro de 1910, em comissão extraordinária, condutor de 1ª classe do Caminho de Ferro de Mossâmedes – onde já serviu desde Agosto de 1905 até Dezembro de 1909 – encontrando-se actualmente, por exoneração daquele cargo, apresentado na Secretaria Militar do Governo deste Distrito, necessita por motivos de força maior e para tratar de assuntos imperiosos de carácter particular, passar à situação de licença ilimitada; e assim, na sujeição de todas as disposições legais que lhe possam ser aplicáveis,
Pede a V. Ex.ª haja por bem conceder-lhe a referida licença”. [ARM1]
O que este documento significa exactamente, não sei. Apenas podemos imaginar o que sentiria um militar com família, que incluia dois filhos menores, em idade escolar, numa zona de guerra intensa que só tinha tendência a agravar-se. A licença foi concedida, a partir de 1 de Agosto, e o que ele fez depois, com essa licença, ignoro(16).
Sabe-se que, desde 1 de Setembro de 1913, “continuou na situação de adido mas em comissão extraordinária de serviço no Ministério das Colónias” [ARM1], e que foi colocado na “Secretaria Militar de Mossâmedes, por haver desistido da Licença ilimitada, no referido dia 1 de Setembro” [ARM1], tendo sido “nomeado chefe da Secção Militar da Fazenda de Mossâmedes na mesma data” [ARM1]. Foi exonerado deste cargo em 30 de Novembro de 1914.
Sabe-se, também, que até ao fim de 1913 não teve nenhum posto de comando, isto é, nunca participou, directamente, na guerra. A partir do início de 1913, o tempo de serviço em Angola deixou de ser acrescido de 50%, como até aí. Em 20 de Abril desse ano, um documento, assinado pelo tenente Monteiro em Mossâmedes, confirma que a situação tinha mudado radicalmente. Trata-se de um compromisso formal, obrigatório(17), que contém o seguinte texto premonitório:
“Eu, António Ribeiro Monteiro, tenente d’infantaria, juro pela minha honra, como cidadão, como oficial, que, enquanto pertencer à oficialidade do exército portuguez, defenderei a Patria e as leis da Republica, e servirei com zêlo e valor, cumprindo as ordens legais dos meus superiores, fazendo-me obedecer e respeitar dos meus subordinados, segundo a mais severa disciplina, observando e fazendo observar os direitos e deveres de cada um, e procurando por todos os meios ao meu alcance acrescentar a glória da Pátria e do exercito portuguez, para o que, se tanto fôr necessario, sacrificarei a propria vida. E, para firmeza de tudo, assim o declaro”. [ARM1]
Desde o desastre de Vau de Pembe, de 1904, que a guerra não teve um momento de pausa, mas seria despropositado contar aqui tudo o que sucedeu. Seriam necessárias muitas dezenas de páginas. Como já se disse, no final de 1914, os alemães invadiram o sul de Angola. A 18 de Dezembro de 1914, em virtude de opções tácticas erradas, Alves Roçadas é derrotado em Naulila pelas tropas alemãs(18). Mais uma vez, o número de baixas portuguesas é impressionante. No seguimento, Alves Roçadas acaba por vir embora de Angola, sem honra nem glória, embarcando no início de Maio de 1915 [ARM3].
Porém, não partiu para Lisboa sem antes ter colocado o tenente Monteiro na 27ª Companhia Indígena de Infantaria, em 6 de Março de 1915, não se sabendo se este, que tinha mais um perfil de intelectual e nunca tinha ocupado um posto dessa natureza, chegou a combater.
Entretanto, em 21 de Março o general Pereira de Eça(19,20) é nomeado comandante em chefe das tropas e governador geral de Angola. O seu principal objectivo era resolver o problema do sul, e para aí se dirigiu imediatamente para, pessoalmente, dirigir as operações contra os alemães e, sobretudo, contra a população negra.
Mostrando ser mais inteligente que Roçadas, Pereira de Eça nomeou o tenente Monteiro chefe da Secretaria Militar do Distrito de Mossâmedes, no dia 24 de Maio.
O principal documento que relata os últimos dias de vida do tenente Monteiro é de um tenente coronel de infantaria, João Ortigão Peres(21), ex-chefe do estado maior do corpo expedicionário no sul de Angola, e diz o seguinte:
(...)“o tenente de infantaria António Ribeiro Monteiro, encontrando-se em comissão extraordinária no sul de Angola (...). (...) havendo necessidade de proceder a um reconhecimento na região dos Cubáes (serra da Chella) este oficial, apezar de estar ainda bastante atacado pelas febres, pediu insistentemente que lhe fosse confiado esse serviço, que conseguiu levar a bom termo, regressando porem a Mossâmedes num tal estado que faleceu dias depois da sua chegada”.(...) [AAM-CM, AAM-RUL]
A ser verdade que, quando partiu, o tenente Monteiro já se encontrava doente e sendo conhecidas as dificuldades que uma tal missão, de vários dias, comportava, só é de admirar que ainda tivesse regressado com vida.
Anos mais tarde, António Aniceto Monteiro contava, assim, este episódio, provavelmente por lhe ter sido relatado pela mãe: “Tratava-se de averiguar se os alemães tinham invadido o sul de Angola. O meu pai voltou com uma perniciosa. Ao chegar a Mossâmedes, foi saudar a minha mãe e ao sair para o Estado Maior para informar do resultado da expedição caíu desmaiado mas mesmo assim foi ao Estado Maior. Nessa noite jantou em casa o General Roçadas. Meu pai teve que assistir ao jantar deitado numa cadeira de viagem. Faleceu nessa mesma noite”.
Apesar de algumas imprecisões devidas ao esfumar da memória que a passagem do tempo induz, como a referência a Alves Roçadas que, como sabemos, nessa altura, já não estava em Angola, este relato tem o mérito de informar que, na noite da morte do tenente Monteiro, uma alta patente, provavelmente o próprio Pereira de Eça, esteve em sua casa. O episódio mostra até que ponto o estado maior, sediado em Mossâmedes, estava ávido de informações sensíveis da parte de um homem que, por ter trabalhado precisamente nessa zona como topógrafo militar durante vários anos na construção do caminho de ferro, conhecia o terreno como ninguém.
Para que fique completo o relato da guerra com os alemães em Angola, basta dizer que, dois dias depois, tudo tinha acabado com eles, por se terem rendido aos sul-africanos do general Botha, no Sudoeste Africano, hoje Namíbia.
Esta primeira guerra colonial em Angola que começou com o “scramble” que se seguiu à Conferência de Berlim, durou cerca de quarenta anos, desde 1885 até 1925(22,23), serviu para destruir quase completamente a estrutura social que existia, definir as fronteiras daquele que é hoje um país independente e desenvolver a estrutura colonial que durou até 1974-1975. E a guerra acabou, porque as tropas europeias foram substituindo as mulas, os cavalos e os bois, por veículos motorizados(24), e, sobretudo, foram substituindo as carabinas e as espingardas por uma arma temível que, essa, os negros não possuiam – a metralhadora(25). Duvido que haja uma contablização absolutamente credível mas, ao todo, foram, muito provavelmente, centenas de milhares de mortos, a esmagadora maioria deles entre a população negra(26).
Ontem como hoje, todas as guerras têm consequências dramáticas. Em primeiro lugar, para as populações que nelas são forçadamente envolvidas ou delas têm que se defender. Em segundo lugar, para os soldados que para elas são conduzidos, a maior parte das vezes, enganados por uma propaganda ilusória. Em terceiro lugar, sofrem com as guerras as famílias destes soldados. Tal foi, seguramente, o caso da família do tenente Monteiro, que em Angola ficou sepultado, e, em particular, para a sua filha que tão cedo perdeu o pai.
Como afirmou um militar relativamente a outro camarada [JSP], talvez António Ribeiro Monteiro tenha “sido enterrado na cerca de arame farpado junto à muralha”, e lá tenha ficado “esquecido, e hoje ignorado, como tantos outros que por aqueles sertões morreram, faltando saber se com melhor sorte que aqueles que viveram”. De facto, muitos desses soldados sobreviventes continuaram a combater os negros em África ou vieram combater para a Europa, na guerra mundial de 14-18.
Seria necessário esperar cerca de 30 anos, após o fim da primeira guerra colonial em Angola, para se assistir ao início da derrocada do império e das ilusões coloniais. A União Indiana, que tinha conquistado a independência em 1947 (o que só por si devia ter feito meditar Salazar), começou nos anos 50 a reivindicar os territórios que Portugal ocupava – os enclaves de Goa, Damão Diu, Dadrá e Nagar-Avely.
Em fins de Julho de 1954, forças da União Indiana assaltaram e ocuparam definitivamente os dois pequenos enclaves de Dadrá e Nagar-Avely. A crise política desencadeada então entre os dois países durou cerca de um ano, mas os portugueses foram expulsos definitivamente de Goa, Damão e Diu em 19 de Dezembro de 1961, nas circunstâncias bem conhecidas. A tensão entre Portugal e a União Indiana só terminou em 31 de Dezembro de 1974.
Nesse ano de 1954, a 11 de Agosto, em Portugal, o Movimento Nacional Democrático, cujo presidente era o matemático Ruy Luís Gomes, enviou aos jornais uma “nota oficiosa”(27), um extenso documento, que vale a pena ler, sobre a situação política em Portugal e sobre o que se estava a passar na Índia, condenando a política colonial do governo. Foi o suficiente para que Ruy Luís Gomes, Virgínia Moura, Lobão Vital, José Morgado e Albertino Macedo fossem presos e acusados de traição à pátria(28), ameaçados com cinquenta anos de prisão mais medidas de segurança, e passassem por vários julgamentos até serem finalmente libertados em 1957.
O próprio Ruy Luís Gomes, no seu Curriculum Vitae político [RLG], refere que foi “preso pela PIDE em 19 de Agosto de 1954 por ter, juntamente com os restantes elementos da Comissão Central do MND, elaborado um documento condenando a política colonial do Estado Novo e defendendo a autodeterminação dos Povos, por ocasião de incidentes ocorridos em Goa, Damão e Diu. Foi então acusado de traição à Pátria e julgado em Junho de 1955 no Tribunal plenário do Porto. Foi condenado em 18 meses de prisão. Recorreram da sentença, aguardando em liberdade o resultado do recurso. Anulado o julgamento, recolheu de novo à cadeia em meados de 1956. Novamente julgado em meados de 1957 foi condenado em dois anos de prisão. Mais de metade deste tempo foi passado na Colónia Penal de Santa Cruz do Bispo, em Matosinhos, prisão especialmente destinada a presos comuns de difícil correcção; muitos destes presos eram dementes”.
Na sequência destes acontecimentos, Ruy Luís Gomes, expulso da Universidade desde 1947 e com a vida muito dificultada em Portugal, vai, em Setembro de 1958, exilado, para Bahía Blanca, na Argentina, a convite do seu amigo António Aniceto Monteiro que já lá se encontrava.
A influência mútua destes dois homens é conhecida, tanto no plano político, como no plano científico. António Aniceto Monteiro foi o principal dínamo das iniciativas do Movimento Matemático no que respeita à investigação e contagiou Ruy Luís Gomes. Por sua vez, Ruy Luís Gomes, vindo de uma família com tradições, era aquele que, dos dois, estava mais informado e era mais activo politicamente. Em ambos, o traço comum de um vida inteira de coerência cívica e científica, indestrinçáveis uma da outra.
Em 4 de Fevereiro de 1961, um grupo de angolanos ataca prisões de Luanda, tentando libertar presos políticos dando início, assim, à segunda guerra colonial em Angola – a guerra que conduziu à independência. Um dos muitos objectivos dessa acção, que envolveu cerca de 200 pessoas armadas de catanas e outras armas artesanais, era a libertação da maioria dos presos políticos do processo dos 50 que estavam na Casa de Reclusão Militar e que se suspeitava que iriam ser transferidos em breve para o Campo de Concentração do Tarrafal.
No Brasil, vivia um grande grupo de exilados portugueses, a maioria dos que estavam na América Latina. Entre eles, interessa-me destacar, nesta intervenção, Manuel Sertório e Henrique Galvão. Este último tinha liderado o desvio do navio Santa Maria em 22 de Janeiro de 1961, que muita gente pensava ir aportar a Luanda, mas que acabou por ir para o Recife, no Brasil. Muitos jornalistas de vários países acorreram então à capital de Angola, na expectativa de relatarem a chegada do Santa Maria, tendo sido a possiblidade de uma grande cobertura internacional mais um factor que incentivou o 4 de Fevereiro de 1961. Os resistentes angolanos desejavam chamar a atenção para a grave situação que se vivia naquela colónia, com destaque para o massacre dos camponeses da Baixa de Cassange que estavam a ser bombardeados e mortos, aos milhares, com napalm.
Nenhuma das acções do 4 de Fevereiro teve êxito, mas, pelo menos, conseguiram chamar a atenção do mundo inteiro para o que se passava em Angola. As autoridades coloniais designavam os resistentes africanos de “terroristas” ou, ainda mais depreciativamente, de “turras”. Para os mais racistas, todos os negros eram “terroristas”. No seguimento do 4 de Fevereiro, foi desencadeada a caça generalizada ao “turra” e mais massacres foram perpetrados.
O grupo de exilados no Brasil era politicamente muito heterogéneo. O capitão Henrique Galvão tinha sido um adepto entusiasta de Salazar, mas começou a divergir deste, sem nunca romper com a ideologia que sempre tinha apoiado, nomeadamente na sua componente colonialista.
Na organização da oposição na América Latina, Manuel Sertório, que vivia em São Paulo, era o elemento que fazia a ligação com os dois portugueses de Bahía Blanca, Ruy Luís Gomes e António Aniceto Monteiro.
Assumindo sempre as suas raízes angolanas, como “tendo nascido em Angola”, António Aniceto Monteiro troca com Manuel Sertório, em 1961, algumas cartas [AAM-MS] que visavam a elaboração de uma declaração conjunta de oposicionistas sobre a situação que se vivia na colónia portuguesa.
As quatro cartas que António Monteiro escreveu então a Manuel Sertório, estão marcadas com um sotaque argentino e, aqui e ali, com alguma fina ironia.
Na carta de 23 de Março de 1961, afirma o seguinte
“Creio que não é suficiente condenar o envio de forças armadas para os territórios coloniais e que se deveria também reclamar que se retirem todas as tropas de repressão enviadas nos últimos tempos. Ao mesmo tempo convém aclarar que a responsabilidade de todos os sucessos que ocorram nas colónias recai inteiramente sobre o governo de Portugal e serão uma simples consequência da sua política de repressão, que se pode contrapor à atitude dos diversos movimentos para a independência das colónias que reclamam insistentemente negociações pacíficas”. Termina citando a frase “nenhum povo pode ser livre se oprime outro povo”.
A carta seguinte, de 24 de Abril de 1961, exprime o desapontamento por alterações entretanto introduzidas ao documento, no Brasil, por Henrique Galvão e outros:
“(...) tenho aqui à mão uma declaração sobre o problema colonial, que a Comissão de Inter-Ligação enviou ao Prof. Ruy Gomes em 30 de Março. Trata-se de um documento com uma orientação essencialmente distinta da declaração impressa à qual enviei a minha adesão na carta que lhe escrevi em 23 de Março.
Devo dizer-lhe que não assinarei a declaração de 30 de Março anteriormente indicada, porque o problema da autodeterminação dos povos coloniais está posto em termos ambíguos.
Em primeiro lugar se reconhece o direito à irrestrita autodeterminação, mas logo a seguir se agrega «sob as necessárias garantias de exercício desse direito em condições humanamente progressivas, etc.» o que pode significar, por exemplo, que os povos coloniais terão de esperar mais alguns séculos para que se lhes reconheça esse direito”.
E, mais adiante, António Aniceto Monteiro diz que “o artigo 6º (...) usa o tom dum patrão a falar para um escravo”, para, depois, concluir do seguinte modo:
“sobre o problema da autodeterminação dos povos coloniais não pode haver nenhuma espécie de reticências. Depois de uma política de opressão, escravidão e extermínio que durou séculos o governo iniciou actualmente uma guerra de extermínio em Angola e outras colónias, que é necessário condenar nos termos mais enérgicos apoiando os povos coloniais na sua luta pela independência nacional.”
A terceira carta, de 29 de Maio de 1961, mostra que a redacção final da referida declaração acaba por ser de acordo com a opinião de António Aniceto Monteiro, porque diz a Manuel Sertório: “pode pôr o meu nome entre o das pessoas que assinam a declaração em questão que consta de três pontos”. A parte final da carta revela que ele, em Bahía Blanca, a milhares de quilómetros dos centros de decisão, via mais longe do que Salazar e os seus acólitos:
“A situação em Angola agrava-se cada vez mais. Os jornais já falam de 25 000 mortos (negros); mobilizaram em Portugal, segundo me informa Ruy, a classe de 58. Estamos frente a uma guerra colonial que só terminará com a derrocada do fascismo e a instauração dum governo provisório revolucionário; a menos que se consiga interromper a guerra pela intervenção da ONU”.
A quarta e última carta, de 6 de Junho de 1961, é, como as outras, muito interessante sob o ponto de vista histórico. Destaco a seguinte passagem:
“Há 11 anos que estou completamente isolado das coisas portuguêsas e só agora, desde que está aqui o Ruy, é que tenho mais algumas notícias, além das que leio em Portugal Democrático. De um modo geral penso que no exterior o que é fundamental é apoiar as directivas da frente interna de resistência.
O Galvão acabou por revelar-se completamente como um autêntico colonialista nos 3 artigos que escreveu num diário de São Paulo. Para mim as reticências que ele punha à primeira redacção da declaração tinham um significado perfeitamente claro e por isso mesmo não quiz assinar a segunda redacção”.
Como se vê, estas quatro cartas de António Aniceto Monteiro não podiam ser mais claras.
E, para terminar, direi que o objectivo principal desta minha intervenção foi o de revelar situações e factos históricos pouco conhecidos relacionados com a vida de António Aniceto Monteiro, prestando homenagem a um homem que, apesar de todas as dificuldades, realizou um trabalho científico notável em vários países, sempre ambicionando viver pacificamente, mas nunca virando a cara à luta.
Vêm-me à memória as palavras que António Aniceto Monteiro escreveu a Guido Beck, do Rio de Janeiro, numa carta enviada em 1948: “Também conheço mal a situação na Argentina. Mas seria possível viver em paz, sem ser perseguido pelas minhas opiniões? Deve responder com precisão a esta pergunta, dizendo o que pensa” [AF-AV]. Soube-se, depois, qual foi a resposta que a realidade lhe deu.
Tal como o fez António Aniceto Monteiro há que lutar contra todos os fatalismos e conformismos. Temos que confiar que a luta pelo direito a viver e a trabalhar em paz tem que ser bem sucedida, porque a conquista desse direito é absolutamente necessária.
Por ocasião do seu centenário aqui fica, pois, nesta intervenção, a minha homenagem ao homem bom que, como poeta, assinava com o pseudónimo de “Adrião de Mossâmedes”.

Agradecimentos: António Brotas, Arquivo Histórico Militar, Colégio Militar, Manuela Cruzeiro (Centro de Documentação 25 de Abril), Universidade de Lisboa.

(*) Departamento de Matemática da FCUL e Grupo de Física-Matemática da Universidade de Lisboa (GFMUL), Complexo Interdisciplinar da Universidade de Lisboa, Av. Prof. Gama Pinto, 2, 1649-003 Lisboa, Portugal. O GFMUL é financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia.
(1) [RP1], pág. 141.
(2) [RP1], págs. 145 e 146.
(3) [RP1], pág. 153.
(4) [RP1], págs. 143, 144, 148, 149,151,153,161,197.
(5) [RP1], pág. 151.
(6) “É um sueco quem tem a fama de ter levado as primeiras espingardas aos Cuanhamas. Karl Johan Andersson, Notes os Travels in South Africa, Londres, 1875” [RP1], pág. 143. Ver também a pág. 151.
(7) [RP1], pág. 233.
(8) [RP1], págs. 155, 162, 172.
(9) [RP1], pág. 190.
(10) [RP1], pág. 192.
(11) [RP1], pág. 197. De facto, a campanha, que era previsto durar seis meses, durou dez anos. Só no ano em que acabou, houve “819 mortes” entre as tropas portuguesas e “teve algo como 18 500 contos de despesas (...), ou seja, dez vezes mais que o orçamento previsto por Eduardo da Costa em 1904 para a ocupação do Cuanhama!” (pág. 251).
(12) José Augusto Alves Roçadas, nasceu em Vila Real, em 6 de Abril de 1865 e morreu em 28 de Junho de 1926.
(13) [RP1], pág. 197.
(14) José Narciso Antunes d’Andrade Júnior, nasceu em 27 de Dezembro de 1854 no Crato, distrito de Portalegre. Foi promovido a “Coronel para o Estado Maior de Infantaria em 12 de Agosto de 1909, colocado no Regimento de Infantaria nº 11, em Setúbal, em 4 de Setembro do mesmo ano, e no D.R.R. nº 5, em Lisboa, como comandante, em 26 de Outubro de 1910. Faleceu em 4 de Novembro de 1926. [ARM2]
(15) É possível ter uma ideia bastante precisa das datas em que o militar esteve em Angola, em serviço, até 9 de Abril de 1912, porque sempre que isso acontecia o seu tempo de serviço de oficial era aumentado de 50%. A ser assim, esteve em Angola: desde 31 de Julho de 1905 a 27 de Dezembro de 1909; de 16 de Dezembro de 1910 até 31 de Julho de 1911; de 28 de Janeiro até 9 de Abril de 1912. Consequentemente, não esteve, em serviço, em Angola: de 28 de Dezembro de 1909 a 15 de Dezembro de 1910 e de 1 de Agosto de 1911 a 27 de Janeiro de 1912. Não se percebe bem qual era a situação do tenente Monteiro no período que vai de 10 de Abril a 31 de Julho de 1912. Até ao final de 1912, o seu tempo de licença registada foi de 270 dias e o seu tempo de licença por motivo de moléstia e de tratamento nos hospitais foi de 458 dias.
(16) Em 1904 António Ribeiro Monteiro pediu autorização para se candidatar a um concurso para “professores do magistério secundário”. Tinha habilitação para ser “instrutor de ginástica” e é possível que, em 1912 pudesse ensinar, também, outras matérias. Assim, não é de excluir que tivesse sido professor, em Mossâmedes, no ano escolar de 1912-1913.
(17) No caso do tenente Monteiro está todo escrito pelo seu punho, mas havia um formulário impresso que, noutros casos, os militares só tinham que assinar. Foi o caso do coronel José Narciso d’Andrade em 1912 [ARM2].
(18) [RP1], págs. 234-237.
(19) António Júlio da Costa Pereira de Eça, nasceu em 1852 e faleceu em 1917. Em 1914 foi Ministro do Exército.
(20) [RP1], pág. 240.
(21) João Ortigão Peres nasceu em 13 de Março de 1872 em Alcantarilha, Algarve. Foi promovido a Major em 30 de Março de 1912. Em 5 de Março de 1815 partiu para Luanda como Chefe do Estado Maior do General Pereira de Eça. Foi promovido a Tenente-Coronel em 24 de Julho de 1915. Em 9 de Janeiro de 1917, foi nomeado adido militar junto da Legação Militar de Portugal em França, e foi nessa qualidade que escreveu o atestado sobre a morte do tenente Monteiro. Faleceu em 15 de Março de 1918. [ML]
(22) [RP1], págs. 256-259.
(23) “Quanto aos nómadas Cuvales (do grupo dos Hereros), movendo-se entre o Sul e o Centro de Angola, embora em rigor se não possa falar de resistência por parte de povos errantes como eles, teriam em 1940-1941, quinze anos depois dos últimos tiros da pacificação na Lunda, o privilégio de servir de caça numa batida mais que duvidosa” [RP1], pág. 143.
(24) [RP1], pág. 241.
(25) [RP2], contracapa e [RP1], pág. 241.
(26) [RP1], pág. 264.
(27) Ver [PM] ou [MND].
(28) A acusação de “traição à pátria” nunca foi provada em tribunal e não foram condenados por esse motivo. Ver [PM].




Referências
[AAM-CM] Processo individual de António Aniceto Monteiro, Colégio Militar, Lisboa.
[AAM-RUL] Processo individual de António Aniceto Monteiro, Reitoria da Universidade de Lisboa.
[AAM-MS] Cartas entre António Aniceto Monteiro e Manuel Sertório. Espólio de Manuel Sertório, Centro de Documentação 25 de Abril, Coimbra.
[AF-AV] Augusto J. S. Fitas e António A. P. Videira: Cartas entre Guido Beck e cientistas portugueses. Lisboa, Instituto Piaget (2004).
[ARM1] Processo individual de António Ribeiro Monteiro, Arquivo Histórico Militar, Lisboa.
[ARM2] Processo individual de José Narciso Antunes d’Andrade Júnior, Arquivo Histórico Militar, Lisboa.
[ARM3] Processo individual de José Augusto Alves Roçadas, Arquivo Histórico Militar, Lisboa.
[JSP] João Sarmento Pimentel, Memórias do Capitão. Editorial Inova, Porto, 1974.
[ML] Miguel Lomelino, Biografia do meu Bisavô Paterno, Coronel João Ortigão Peres.
http://miguel.lomelino.googlepages.com/biografiajop.pdf
[MND] Nota oficiosa do MND, “Jornal de Notícias” de 1 de Agosto de 1974.
[PM] Paulo Morgado, “A Poesia está na Rua” com o Professor Ruy Luís Gomes e os seus Companheiros. Campo das Letras, Porto, 2007 (em edição).
[RLG] Ruy Luís Gomes, Curriculum Vitae político. Espólio arquivado na FCUP.
[RP1] René Pélissier, História das Campanhas de Angola – Resistência e Revoltas 1845-1941, 2º vol. Editorial Estampa, Lisboa, 1997.
[RP2] René Pélissier, As Campanhas Coloniais de Portugal – 1844-1941. Editorial Estampa, Lisboa, 2006.

A guerra em Angola "perdeu-se na cabeça" . René Pélissier : "Falar de cinco séculos de colonização portuguesa é uma burla! "René Pélissier

É um dos mais importantes historiadores estrangeiros da moderna colonização portuguesa. Estudou a conquista militar de Angola, Moçambique, Guiné e Timor. A viver perto de Paris, tem uma biblioteca de 12 mil volumes e gostaria de escrever uma bibliografia crítica de tudo quanto foi publicado.

José Pedro Castanheira (texto) e Tiago Miranda (fotos)
René Pélissier é um dos raros 
historiadores não lusófonos com cinco livros sobre Portugal traduzidos 
em português
René Pélissier é um dos raros historiadores não lusófonos com cinco livros sobre Portugal traduzidos em português
Convidado a participar num colóquio no ISCTE, em Lisboa, o historiador francês René Pélissier deu uma longa entrevista ao Expresso.
O seu último livro 'a solo' chama-se 'Timor em Guerra. A Conquista Portuguesa?
Os portugueses têm uma história romanceada da colonização portuguesa em Timor. Teriam sido, no essencial, a igreja e os missionários os únicos a contribuir para a implantação da colonização portuguesa.
O que não é verdade!
Pois não. Foi uma conquista brutal, efetuada pela maior parte dos governadores e sobretudo pelo célebre José Celestino da Silva, que foi um homem excecional na história colonial portuguesa.
Foi uma exceção em todo o império?
Creio que sim. Não tenho a nomenclatura de todos os governadores de todas as colónias, mas foi o homem que esteve no poder em Díli durante mais tempo (14 anos). Tinha a proteção do rei D. Carlos (até ao seu assassínio), mas quando foi da sucessão foi afastado do poder por D. Manuel. Tinha demasiados inimigos. Era um homem ativo, que tinha como principal objetivo na vida entrar na História como o primeiro governador de Timor a ser dono de todo o território. Conseguiu-o por meios extraordinariamente brutais.

'Cortar as cabeças contra os maus espíritos'


Sanguinários?
Sim. Tinha poucos soldados moçambicanos mas reuniu em 24 campanhas 60 mil timorenses e mandou cortar muitas...
... cabeças?
Exato. Não foi mais sanguinário que outros governadores, mas para conseguir a adesão dos "arraiais" - as tropas supletivas timorenses -, tinha de lhes dar qualquer coisa. Como não tinha dinheiro, havia que dar uma compensação material - o direito de se apoderar dos cavalos, porcos, vacas, etc. -, mas também mística, digamos. Isto é: cabeças cortadas, que para os guerrilheiros constituíam uma espécie de defesa sobrenatural da sua própria aldeia. Cortavam as cabeças e encastravam-nas nas tranqueiras - uma defesa mágica contra os maus espíritos e contra os inimigos que, por sua vez, também queriam cortar as cabeças dos habitantes da aldeia. Era uma espécie de salvaguarda. José Celestino da Silva era um que também ambicionava enriquecer.
Conseguiu-o?
Sim. Quando havia uma vitória num reino com muito terreno para o café, ele requisitava os ditos terrenos para lançar uma ou várias companhias agrícolas, de que era sócio. Com os vencidos não decapitados, utilizava o trabalho forçado. Transformava-os praticamente em escravos, que cultivavam café para si, a troco de uma pequena 'gorjeta'.
Onde descobriu essas histórias?
Não foi uma verdadeira descoberta. Os raros especialistas de Timor já a conheciam. Encontrei isso nos testemunhos publicados pelos próprios governadores. Em 1896, o primeiro relatório sobre uma campanha em Timor, conta como mataram cerca de 700 pessoas em 1895 - cortando as cabeças. É um livro trágico, que não esconde a verdade, publicado para contrabalançar o prestígio mediático de Mouzinho de Albuquerque, que era o grande herói de Moçambique. Julgo que aceitaram publicar os relatórios dos oficiais de José Celestino da Silva, que era o novo e longínquo herói de Timor, para mostrar que nos confins do Império também havia um homem que tinha a situação militar bem controlada. A conquista continuou ainda em 1900, contra o maior regulado que era o Manufai, onde estava a alma ou o coração da resistência à colonização. Foi uma conquista muito dura, primeiro contra o liurai D. Duarte, e depois contra o seu filho D. Boaventura, que se tornou o pior inimigo dos portugueses durante a I República. Foi uma guerra atroz. Oficialmente houve 3424 mortos. Não é verdade - calculo que tenham sido 15 a 25 mil timorenses mortos, seja em combate, seja à sede, seja sobretudo pela cólera. A conquista acabou em 1913 pelo esmagamento de todas as chefias. A colonização de Timor não tem nada a ver com a mitologia do Estado Novo, nem com a de agora. É preciso olhar a história colonial com os olhos bem abertos.

O primeiro a estudar a moderna colonização portuguesa


Não sou um adversário da 
colonização; sou, isso sim, um adversário do mito da colonização, o que é
 diferente
Não sou um adversário da colonização; sou, isso sim, um adversário do mito da colonização, o que é diferente

Timor foi a última colónia que estudou?
Foi. Quando comecei, fui o primeiro investigador francês a estudar a colonização portuguesa moderna, posterior aos Descobrimentos, à Índia e ao Brasil...
Porque escolheu Portugal?
Porque gosto das descobertas pessoais. Tenho uma alma de descobridor, de explorador. Cheguei um pouco tarde: tudo já fora descoberto geograficamente. Mas descobri um mundo que estava completamente fechado aos não-lusófonos pela propaganda, que exaltava os cinco séculos de colonização portuguesa.
O que está longe de ser verdade.
Justamente. Mas era preciso prová-lo e demonstrar. Tinha que encontrar uma chave para destruir o mito. E a única chave que estava em meu poder era fazer a história militar da conquista. Avancei num terreno completamente ignorado pelos não-lusófonos.
Creio que começou por Angola.
Em 1965. Angola era difícil para mim.
Veio a Lisboa?
Sim. O Arquivo Histórico-Ultramarino não estava aberto para os que queriam estudar a época mais recente. Mas não mo disseram frontalmente. Como eram muito hábeis, o diretor disse-me que podia vir ao Arquivo consultar unicamente os livros! Só que, para isso, podia ir a Sociedade de Geografia... Não pude fazer nada e expliquei na minha tese que não tivera acesso ao Arquivo Histórico Ultramarino. Mas os militares deram-me acesso aos arquivos militares na medida em que iam sendo desclassificados. Aproveitei e encontrei coisas que ninguém tinha encontrado antes de mim, como o fim da conquista dos Dembos.

Os relatórios de Paiva Couceiro e João de Almeida 


Teve que aprender português?
Sim, em Portugal. Nunca aprendi propriamente. Comecei por ler e conversar. E conversando apanhei um pouco da língua. Os militares da época da conquista do Terceiro Império escreviam e publicavam muito. Foi a minha salvação.
Literatura de memórias e das campanhas.
Exatamente. Não apenas Mouzinho de Albuquerque, mas António Enes e muitos outros. A conquista não foi propriamente um caminho que levasse à santidade: não havia apenas rosas nessa história. Em 1904, mesmo em 1907, a Angola realmente portuguesa representava no máximo 1/10 do território atual. E isso não era confidencial. Estava escrito em "Angola Dois anos de Governo", do governador Paiva Couceiro, um documento notável. João de Almeida, que foi o seu braço direito, contou as suas próprias campanhas. Fez o seu trabalho de conquistador, normal na época. Se empreendeu, a partir de 1845, 180 operações militares, isso significava que a colónia não estava pacificada. Esta foi a chave que demonstrou a falsidade do slogan "Cinco séculos de colonização portuguesa em Angola". Antes de meados do sec XIX não havia propriamente dito uma colonização portuguesa, salvo em Luanda, no corredor do Cuanza até Malange, em Benguela, Moçâmedes, Novo Redondo e pouco mais. Todo o resto tinha de ser conquistado.
Visitou Angola?
Não sou um historiador militante ou partidário de uma causa - nenhuma. Nada disso. Obtive licença para visitar Angola em 1966. Já tinha escrito pequenas coisas e viram que não era um adversário da colonização. Realmente não sou. Sou, isso sim, um adversário do mito da colonização, o que é diferente. Visitei praticamente 13 distritos (em 15 que havia na época), vi a situação, que era favorável a Portugal do ponto de vista económico. É incontestável: Angola nunca foi tão próspera e rica como na véspera da morte da colonização portuguesa.

'Não partilho do entusiasmo por Mouzinho de Albuquerque'


Gostaria de fazer uma coisa 
útil para as gerações futuras: uma bibliografia crítica de tudo quanto 
foi publicado em livro sobre Angola, Moçambique, etc., a partir de 1840
Gostaria de fazer uma coisa útil para as gerações futuras: uma bibliografia crítica de tudo quanto foi publicado em livro sobre Angola, Moçambique, etc., a partir de 1840

Creio que é uma verdade indiscutível.
Indiscutível. Na minha opinião (que não é a opinião de um propagandista e que expus no livro "História de Angola", com Douglas Wheeler), a situação era instável mas provisoriamente favorável aos portugueses. Fiz a minha tese de doutoramento em dois volumes sobre Angola. O primeiro é sobre a conquista, que foi traduzida para português pela Estampa, "História das Campanhas de Angola". O segundo volume, com 700 páginas, ainda não foi traduzido; chama-se "La colonie du Minotaure". E o Minotauro é a colonização portuguesa que devora as suas vítimas africanas. Como sou um homem que ama a descoberta, com alma de explorador, e não queria ficar a vida toda a estudar Angola, passei a Moçambique. Comecei em 1977. A conquista de Moçambique são essencialmente as 150 campanhas ou operações mais importantes nos séculos XIX ou XX - o que significa que não se pode falar de "cinco séculos de colonização". Seria uma burla!
A mesma tese de Angola...
É preciso ser verdadeiramente cego, ou não querer olhar a verdade de frente. Terminei Moçambique em 1983 e continuei pela Guiné. Mais pequena, mas um país relativamente mais difícil de conquistar, em razão da geografia, do clima e da resistência dos guineenses, gente que não estava disposta a submeter-se sem ser vencida.
O grande herói da colonização de Angola foi Paiva Couceiro?
Não há verdadeiramente um herói. O melhor organizador da conquista durante a Monarquia foi Paiva Couceiro e o seu braço-direito, João de Almeida. A conquista do Sul foi "épica" entre 1885 e 1915.
E em Moçambique?
Não partilho do entusiasmo por Mouzinho de Albuquerque. Em Angola, não havia a premência de Moçambique, a braços com as ambições de Cecil Rhodes, dos britânicos e até dos alemãos, que olhavam, a partir do norte, o que podiam apanhar dos portugueses.

A pressão de Cecil Rhodes sobre Moçambique


Em Angola não havia esse tipo de problemas.
Havia o problema dos alemães e o seu domínio do Sudoeste africano. Mas a pressão alemã era inferior à de Cecil Rhodes, que queria conquistar a Rodésia e aceder ao mar através da Beira. Quem teve a visão mais clara foi António Enes. Enes era um civil: era um autor dramático, foi diretor da Biblioteca Nacional em Lisboa e ministro, e tinha uma conceção relativamente eficaz sobre a organização da conquista. Não tinha poder militar, mas encontrou entre os seus oficiais intermédios gente corajosa e soube ampliar exageradamente a ameaça do Gungunhana. O Gungunhana era um imperialista africano - não há que ter vergonha em dizê-lo. Agora é um herói em Moçambique - cada país encontra os heróis onde pode. Mouzinho de Albuquerque conseguiu o feito apreciável de se apoderar da pessoa de Gungunhana sem resistência, em Manjacaze. Isso deu confiança aos oficiais portugueses, que se batiam com poucos meios e homens e com pouco espírito de organização. Perceberam que, uma vez vencido o Gungunhana, podiam apoderar-se de todo Moçambique - e fizeram-no, lentamente. No início da I Guerra Mundial, o essencial de Moçambique estava conquistado, exceto a parte Norte, os atuais Cabo Delgado e Niassa, que pertenciam a uma sociedade privada comercial, uma pura sociedade de predadores. Os acionistas eram sul-africanos, alemães, franceses, etc. e apenas o presidente era português.
Seguiu-se o estudo da Guiné...
Cheguei à Guiné com muita dificuldade. Porque é muito complicada, ao lado de Angola...
Mais difícil que Angola?
Sim. Quando estudei Angola, tinha uma vantagem: salvo no Sul e no Noroeste, não havia muitas relações (em termos de pesquisa) com os territórios vizinhos. Enquanto a Guiné está completamente rodeada por territórios franceses, pelo que era necessário absorver a história dos povos que também habitam o Senegal e a Guiné Conakry. Fiz, assim, o conjunto das três colónias continentais que nunca tiveram cinco séculos de colonização, que existiu unicamente em Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, e Goa e territórios adjacentes. E mesmo Goa estava dividida, até à véspera da conquista indiana, em duas partes: as velhas conquistas (um território muito pequeno) e as novas conquistas, feitas no fim do Sec. XVIII. Só me faltava a última colónia onde houve grandes combates: Timor, que acabei em 1996. Depois tive problemas de saúde e pessoais, que me obrigaram a trabalhar mais lentamente. Estabeleci, depois, em termos cronológicos, uma síntese das quatro histórias separadas. Associando as várias conquistas, demonstrei que no principio do sec. XX Portugal esteve em guerra permanente e simultânea em vários territórios. O que impressiona, uma vez que o país era pobre - o Portugal do fim da monarquia não se podia comparar à Bélgica do rei Leopoldo. Portugal é, indiscutivelmente, o país que mais se bateu, e mais tardiamente, para obter o seu terceiro Império. O que foi trágico para Portugal é que, à conquista, não se seguiu uma administração estável. Faltou dinheiro, homens e espírito de continuidade. E isso custou muito caro: era preciso reconstruir perpetuamente. Norton de Matos escreveu, num dos seus relatórios, que "não sabemos colonizar..." Exagerava um pouco, mas havia grande parte de verdade nisso. Fez falta uma continuidade do esforço colonial.

'A República liquidou as elites africanas'


E a República?
Coitada! Continuou a mesma política, não tendo sido nem mais gentil nem mais reformadora... Liquidou as elites africanas - não no sentido de as ter morto, mas abafou os primeiros movimentos nacionalistas.
Visitou todas as colónias?
Visitei Angola três vezes - a última, em 1973. Não fiquei apenas em Luanda; fui a Teixeira de Sousa, Cazombo, Gago Coutinho, Cuito Cuanavale, Mavinga, Serpa Pinto...
Vejo que tem uma memória fantástica...
Um pouco... Visitei todos os distritos, menos dois: o Zaire e o Kuanza-Sul.
Quem financiou?
Em 1966, a Junta de Investigações do Ultramar, dirigida por um homem notável: Carlos Cruz Abecassis. Foi honesto comigo e eu com ele. Escrevi um livro que se chama "Explorar. Voyages en Angola et autres lieux incertains", em que descrevo a visita à prisão de S. Paulo, em Luanda, com São José Lopes, o diretor da PIDE em Angola.
Conheceu-o?
Fui até lá. Fez-me visitar de noite a sua prisão que estava vazia.
Vazia?
Não sou ingénuo. Se há historiador ingénuo, não sou eu. Estava quase vazia. Fui depois ao campo de concentração de Missongo; vi os prisioneiros, falei com eles, fiz um pequeno inquérito sobre as origens religiosas e políticas; os portugueses tinham sido astutos e hábeis, tinham misturado os FNLA com os MPLA para ter 'bufos' dos dois lados... Não se deve desprezar a astúcia dos portugueses. Há autores estrangeiros que o fazem. Eu não. É preciso reconhecer qualidades aos portugueses. Ninguém consegue aguentar três guerras durante 14 anos, em dois milhões de quilómetros quadrados insalubres, sem ter uma resistência fora do comum. Os seus adversários, salvo o PAIGC, não estavam tão bem organizados nem eram tão numerosos como a FLN argelina contra a França - mas, apesar disso, é preciso tirar-lhes o chapéu. E eu tiro-o. Mas eles estavam militarmente num beco sem saída.

Reportagem mal-tratada pelo 'Le Monde'


Visitou Moçambique?
Duas vezes. Paguei uma vez, mas não vi muita coisa, fui apenas à Beira, Lourenço Marques e Gaza. A segunda foi em 1973; paguei a viagem até África e na Beira fiquei a cargo das autoridades militares e da administração. Visitei Tete (pouco depois do escândalo do massacre de Wiriamu), Metangula, Vila Cabral, Nangade (no Rovuma). Escrevi um artigo para o "Le Monde" sobre Nangade, que aliás foi mal-tratado por um jornalista da redação, que cortou o que eu dizia de bem dos portugueses, acusando-me de ser um propagandista da causa colonialista...
Visitou a Guiné?
Nunca. O que era normal. Gosto dos jornalistas, porque põem perguntas embaraçosas. E na Guiné sabiam que eu poria questões muito embaraçosas, a que não poderiam responder sem violar completamente a verdade.
Visitou algum destes países depois da independência?
Nunca. Nunca fui à África lusófona depois da independência. Fui a Goa por minha conta em 1979 e verifiquei que estava marginalmente mais desenvolvida que no tempo dos portugueses.
Todos os seus livros estão traduzidos para português?
Não e isso é uma pena. Tenho cinco livros e meio traduzidos para português (ao todo, cerca de 3500 páginas). Sou provavelmente o único historiador estrangeiro a ter cinco livros traduzidos em português: "História das campanhas de Angola", "História de Moçambique", "História da Guiné", "Timor em Guerra" e "As campanhas coloniais de Portugal" (que é a síntese dos quatro). E escrevi, juntamente com Douglas Wheeler, "História de Angola".
Que foi o último a ser traduzido.
Sim. O "Minotauro" nunca foi. Procuro um editor, mas são mais de 700 páginas. Não é apenas a guerra em 1961, é também a administração portuguesa nas véspera das revoltas.

Recensões sobre livros publicados em 52 países


Você é conhecido por ser um máquina de ler...
Sou um explorador do passado.
Quantos livros leu sobre as colónias portuguesas?
Sobre Moçambique, mais ou menos mil livros e artigos; 1100 sobre Angola, pelo menos 400 sobre a Guiné e mais de 300 sobre Timor.
Fez recensões sobre todos esses livros?
Não. Li e utilizei-os para compor os meus próprios livros. Além disso, publico recensões de livros recentes sobre a colonização portuguesa moderna (os cinco PALOP e Timor) e um pouco sobre Goa e Macau. Publiquei mais de três mil recensões desde 1964. É um serviço de informação para o público.
Publicou muitas recensões na "Análise Social". Porque acabou?
Não fui eu que interrompi a minha colaboração. Gostaria bem de a manter. A revista mudou de programa, depois de ter publicado 27 crónicas bibliográficas minhas. E a tradução custava dinheiro!
Em que línguas lê?
Francês, português, espanhol, catalão, italiano, inglês, alemão, holandês (aprendi por causa de Timor) e um pouco de dinamarquês. Quando não leio uma língua, peço ao autor que me envie um resumo, o que já aconteceu com livros escritos, por exemplo, em finlandês, checo e polaco. O mais exótico que recensei foi o primeiro livro em hebraico sobre Angola, da primeira embaixadora de Israel em Luanda.
Escrito em hebraico?
Eu não leio e pedi à autora que me desse um apanhado. Tenho recensões sobre livros publicados em 52 países - na Índia, Nicarágua, Colômbia. Rússia, Roménia, no país basco (sobre missionários em Angola), etc.. É uma cobertura internacional... Publiquei parte dessas recensões num livro enorme (748 páginas) chamado "Angola, Guinées, Mozambique, etc. Una bibliographie internationale critique (1990-2005)". Às vezes muito crítica.

Uma biblioteca com 12 mil títulos 


Está a escrever para revistas portugueses?
Tento, mas é muito difícil. Enquanto crítico, preciso que os meus trabalhos sejam publicados rapidamente. É a mesma atitude que um jornalista: é preciso que saia rápido, atendendo às motivações do editor.
Ouvi-o falar sobre Angola. O que contou foi uma autêntica reportagem jornalística...
Sim. Vocês fazem o mesmo trabalho que eu, mas com uma faca na garganta: o tempo e, por vezes, o chefe-de-redação. Eu tenho bastante mais tempo e menos constrangimentos.
O historiador também é um jornalista?
Não. Eu estou na fronteira. Sou um homem curioso e sistemático. Em França, um grande jornalista é o que trabalha num grande jornal. Eu não trabalho em nenhum jornal e só o faço para pequenas revistas confidenciais, que geralmente não interessam aos editores comerciais. Pelo que sou eu que todos os anos compro uma centena de livros para a minha biblioteca. Além dos livros enviados para a comunicação social, que analiso sempre.
Quantos volumes tem?
Doze mil. Incluindo livros sobre a Índia e Macau e sobre os territórios espanhóis de África, área de que também sou especialista. Unicamente para o período 1840-2010.

'Um bom livro é o que me traz coisas novas'


Tem esses livros todos em sua casa?
Sim, mas não há mais espaço! Gostaria de fazer uma coisa útil para as gerações futuras: uma bibliografia crítica de tudo quanto foi publicado em livro sobre Angola, Moçambique, etc. a partir de 1840. Mas isso custa uma fortuna.
Qual foi o melhor livro que leu sobre as colónias portuguesas?
É uma escolha difícil. Talvez o do americano John Marcum, sobre Angola, em dois volumes e alguns do grande Charles Boxer até 1825.
E de autores portugueses?
Há muitos, visto que também leio romances, na condição que falem da situação e do drama colonial. Enquanto historiador, destaco o livro de António Monteiro Cardoso, "Timor na Segunda Guerra Mundial: O Diário do Tenente Pires". Gosto também de um precursor que escreveu a primeira história séria de Angola, chamado Ralph Delgado; era um autor colonialista, mas com visão de historiador e fez um trabalho de pioneiro. E eu respeito os pioneiros.
O que é, para si, um bom livro?
Se um livro me traz coisas novas, considero-o bom; se me traz muitas coisas novas, é excelente, qualquer que seja a tendência política do autor. Como não tenho nenhuma opção política, se fizer bem o seu trabalho, não tem nenhuma importância que seja de esquerda ou de direita. Desde que faça bem o seu trabalho...
Versão integral da entrevista publicada no Expresso de 31 de Julho de 2010, Caderno Atual, páginas 38 a 40



..........


Publicado a 5 de Jan de 2010 08:08 por Humberto Silva ‎(Associação Apoiar)‎
A guerra colonial em Angola "perdeu-se na cabeça" do Exército português, afirmou o historiador francês René Pélissier à Agência Lusa.
"Os soldados eram bons. Foram os oficiais que falharam",
resumiu o historiador, entrevistado pela Lusa perto da sua residência, em Villennes-sur-Seine, a oeste de Paris.
René Pélissier, com Douglas Wheeler, é co-autor de "História de Angola", uma obra publicada originalmente em 1971 e que chega agora às livrarias portuguesas pela editora Tinta da China, em tradução revista e actualizada.
"O descalabro militar não chegou por uma derrota, que sabemos hoje que não aconteceu. Chegou pela fadiga e pelo sentimento de inutilidade" do Exército, constituído, na maioria, por efectivos metropolitanos", sublinha o historiador francês.
"Portugal tinha um exército fatigado na cabeça e que se sentia desligado das preocupações dos colonos, que lucravam com a situação para prolongar o florescimento económico", explica René Pélissier.
No ocaso imperial português em Angola, realça o historiador, vão encontrar-se duas linhas divergentes, a de "uma descolagem económica falaciosa e a do apoio reticente do Exército aos colonos".
"Portugal protagonizou um episódio sem paralelo na história das potências coloniais europeias, em que é o Exército a descolonizar, apesar dos colonos", acrescentou Pélissier.
"Angola não era a Argélia. Foi aliás o contrário", explica o historiador. "A catástrofe iminente era na Guiné", contrapôs.
"O PAIGC era militarmente sério. Sabia bater-se e era, às vezes, melhor do que o Exército português, nomeadamente em artilharia, em abastecimento e em logística", afirma o historiador.
"Nos últimos anos - e apesar de António de Spínola -, a guerra estava perdida para Portugal, que só ganhava quando recorria às tropas especiais com fuzileiros e comandos", recorda.
Pelo contrário, em Angola "só o MPLA tinha uma visão global e era o inimigo essencial da situação colonial", analisa René Pélissier.
Para o especialista francês, a "tragédia" e o "paradoxo" português de 1975 em Angola, que abriu espaço para uma guerra civil violenta e longa, começou em 1961, com "um erro magistral" de Salazar.
"Quando a guerra rebentou, o regime respondeu com 'rapidamente e em força para Angola'", lembra René Pélissier.


"Salazar não decretou o recrutamento geral na colónia, pela razão simples de que o império não confiava nos colonizados", diz o historiador.
"Se o tivesse feito, pagando bem aos soldados africanos, não duvido de que teria esvaziado, à partida, uma base enorme de recrutamento dos três movimentos nacionalistas angolanos", acrescenta.
O historiador sublinha que, até 1960, Portugal tinha um contingente total de cerca de oito mil soldados em Angola, "oitenta por cento deles africanos".
"Ao trazer portugueses da Metrópole para combater, a partir de 1961, o regime europeizou as perdas e desmoralizou as tropas", sublinha o historiador francês.
Pélissier nota, a propósito, que o império não soube tirar lições da sua própria História.
"No final do século XIX, em Timor, havia só entre 200 a 300 soldados africanos, mas o governador Celestino da Silva conseguiu mobilizar sessenta mil timorenses, em 25 campanhas, para 'pacificar' a colónia", recorda.
"O segredo do 'grande vencedor Celestino' foi a mobilização dos 'arraiais', as chamadas tropas de segunda linha, algo que não se fez em África", conclui René Pélissier.


Colonos os bodes expiatorios da colonização?


René 
Pélissier, historiador francês, destaca papel de Amílcar Cabral e dos 
cabo-verdianos na Guiné
René Pélissier



"Primeiro há que destruir o mito dos cinco séculos de colonização portuguesa..."

"Salvo nos corredores angolanos que vão de Luanda a Malange e em Moçambique, ao longo do Vale do Zambeze, e nas ilhas, que foram as únicas terras onde houve uma impregnação contínua durante séculos, não havia [colonização]. Uma colonização precisa de colonos. Havia nove mil portugueses em toda a Angola no início do século XX e a maioria estava em Luanda, em Moçâmedes, Huíla e em alguns portos como Novo Redondo e Ambriz. E mais nada."


"A colonização ainda deve ser a explicação para o que se passa nesses países ou isso já não faz sentido?

Não vou incriminar a colonização para explicar a situação actual. Podia ser um bode expiatório durante, talvez, 20 anos, mas houve tantas evoluções negativas... Há um aspecto que deve ser encarado, e não apenas na colonização portuguesa, que foi a falta de preparação das elites. Mas isso já não pode ser um bode expiatório. 

"


Passagens de uma entrevista
João Manuel Rocha/Público


Ver tambem aqui:



http://www.dn.sapo.pt/2007/04/02/artes/o_frances_uma_paixao_pela_africa_por.html

sábado, 4 de dezembro de 2010

FRANCISCO FELIX DE SOUZA - O BAIANO QUE FEZ FORTUNA COMO MERCADOR DE ESCRAVOS



Resenha de: SILVA, Alberto da Costa e. Francisco Félix de Souza, mercador de escravos. 


-->

Francisco Félix de Souza, o Chachá

Chachá - O baiano que fez fortuna na África vendendo escravos


Em sua mais recente obra, o africanista Alberto da Costa e Silva realiza, segundo ele mesmo, um sonho dos tempos de adolescência: escrever a biografia daquele que é tido como um dos maiores – senão o maior – mercadores de escravos do século XIX – Francisco Félix de Souza, o Chachá. Quase desistiu, devido a um artigo recente de Robin Law – que, segundo Costa e Silva, é “quem mais sabe... da história da Costa dos Escravos” (p. 06) – e que também tratava do Chachá. Prevaleceu, no entanto, o desejo de ver seu sonho realizado. Melhor para os estudiosos e todos aqueles que nutrem interesse pela história da África, pois fomos todos agraciados com um livro profundo, mas de leitura aprazível.

Não busca Costa e Silva fornecer-nos um retrato definitivo de Francisco Félix de Souza. Este é, segundo ele, o seu retrato do Chachá. Para tanto, o autor valeu-se de documentos escritos por pessoas que tiveram contato com Francisco Félix, mas também de depoimentos orais dos inúmeros descendentes do Chachá. Não nos esqueçamos que Costa e Silva é, além de historiador, diplomata, e sua profissão levou-o a conhecer de perto o cenário onde Francisco Félix deixou de ser um anônimo para se tornar um riquíssimo mercador de escravos. Assim, é com propriedade que o autor descreve a geografia da antiga Costa dos Escravos e, mais especificamente, do antigo reino do Daomé. De como esta geografia facilitava ou dificultava as guerras entre os reinos africanos, o transporte dos escravos e o seu embarque nos portos de Ajudá, Badagry ou Lagos. E, se nos fala de Singbomey, a casa-grande que o Chachá mandou erguer em Ajudá, é de dentro do casarão que o faz.
 Tumba do Chachá, no interior de sua casa, Singbomey, no atual Benin

E é exatamente com esta descrição que Costa e Silva começa o primeiro dos 16 capítulos que compõem seu livro de 208 páginas. Somos convidados a compartilhar da intimidade do biografado, pois nos encontramos no quarto do Chachá, onde a mobília portuguesa se confunde com costumes africanos e brasileiros. É neste quarto que Francisco Félix se encontra sepultado, “dentro de casa, à daomeana” (p. 12). Sobre sua vida, segundo o autor, as dúvidas são muitas. Se há certeza quanto à data de sua morte – 08 de maio de 1849, em Ajudá – a maior parte de sua vida é cercada de incertezas. Sabe-se que nasceu em Salvador, segundo depoimento de próprio punho do Chachá, mas o ano é incerto (1754 ou 1768?). Sabe-se ainda que foi guarda-livros do almoxarife e escrivão do forte luso de São João Batista de Ajudá, mas não exatamente quando começou a prestar seus serviços. Sobre os motivos que o levaram à costa africana os documentos mais confundem que informam. Para Costa e Silva, Francisco Félix provavelmente era um degredado, cujos serviços foram aproveitados pela Coroa portuguesa. Segundo a tradição oral em Ajudá, em algum momento do final do XVIII Francisco Félix teria desistido do forte português e partido em direção a Badagry, atraído pelo lucro do comércio de escravos.

O capítulo seguinte narra a transformação de Badagry, de mero vilarejo a centro comercial de escravos no século XVIII. Foi no movimentado porto de Badagry, como vimos acima, que Francisco Félix teria buscado oportunidades como mercador de escravos, em fins do Setecentos. Depois de três anos em Badagry, Francisco Félix teria voltado à Bahia e, em 1800, retornado novamente à África, em Popô Pequeno (também chamada de Anexô). Lá, após se casar com a filha de Comalangã, rei da ilha de Gliji, teria recebido terras para fundar seu entreposto comercial, Adjido. Segundo outra versão, esta talvez teria sido a primeira vez que Francisco Félix pisava em solo africano, e ele só seria empregado no forte português de Ajudá algum tempo depois. De qualquer maneira, segundo Alberto da Costa e Silva, Francisco Félix já estava na Costa dos Escravos no começo do Oitocentos, fosse em Badagry ou Popô Pequeno, a comerciar gente.

No capítulo 3 o autor tenta explicar como Francisco Félix, um homem que chegara pobre, conseguiu se tornar um riquíssimo mercador de escravos. Conforme relato do próprio baiano, ele sobrevivera furtando a moeda local, os cauris, ou búzios, ofertados nos santuários dos voduns, divindades fons. É possível. O autor nos informa que os alimentos eram muito baratos naquela região do litoral africano, e mesmo com poucos cauris ninguém morreria de fome. Mas daí a tornar-se comerciante de escravos? Os escravos eram mercadoria cara, que não podia ser adquirida sem ouro, cauris, tecidos de luxo, tabaco baiano, aguardentes, armas de fogo, pólvora, contas, facas, cobre e latão, “produtos que, na maioria dos casos, não custavam barato em sua origem e viam o preço aumentado pelos riscos e as distâncias do transporte até o golfo do Benin” (p. 32). Neste momento a erudição de Costa e Silva orienta as hipóteses que ele levanta para explicar o sucesso de Francisco Félix de Souza: como os navios negreiros nem sempre encontravam sua mercadoria quando chegavam à Costa dos Escravos, às vezes era necessário comprar cativos a crédito, com pagamento adiantado. Ao que parece o baiano deve ter se beneficiado desse sistema de crédito após ter granjeado a confiança de algum mercador. Além disso – conjectura Costa e Silva – Francisco Félix provavelmente tinha facilidade em aprender idiomas, e deve ter trabalhado também como intérprete nas transações comerciais. O certo é que já tinha prestígio por ter se casado com a filha de um rei local. Amizades com pessoas influentes junto ao dadá (rei do Daomé) Agonglo também foram importantes para a ascensão econômica de Francisco Félix. Por tudo isso se tornara um influente mediador no comércio, entre europeus e brasileiros, de um lado, e os chefes africanos, de outro. Com seus ganhos teria Francisco Félix comprado seus primeiros escravos, sempre aguardando o melhor momento para vendê-los.

O capítulo 4 trata dos motivos que levaram Ajudá a se tornar o principal centro exportador de escravos do Golfo do Benin no início do século XVIII. Apesar de não ser bem localizada geograficamente para o embarque de escravos, Ajudá situava-se numa região densamente povoada, com muitos estados em conflito, o que garantia o fornecimento de cativos. Os comandantes dos navios negreiros preferiam os riscos oferecidos pelas ondas enormes, bancos de areia e tubarões de Ajudá, do que se demorarem em outros portos africanos à espera da mercadoria. Ademais, somos informados que a neutralidade de Ajudá nos conflitos entre estados próximos tornava seu comércio seguro. Vemos ainda que em Ajudá, no Setecentos, predominaram os negreiros oriundos do Brasil, pois detinham a moeda mais apreciada naquele parte da África: o tabaco baiano e o ouro das Minas Gerais.

O reino do Daomé, em suas guerras, produzia muitos escravos que eram vendidos ao reino de Aladá, que por sua vez revendia-os aos comerciantes de escravos de Ajudá; estes negociavam com os traficantes europeus e baianos. Conforme Costa e Silva nos mostra no capítulo 5, o dadá queria vender seus escravos diretamente aos traficantes, sem intermédios. Por isso – mas também porque tinha uma “ideologia da expansão militar permanente” (p. 51) – invadiu os reinos de Aladá (1724) e Huedá, ou Ajudá (1727). Estavam os daomeanos interessados em trocar seus escravos principalmente por armas de fogo, a fim de ampliarem sua superioridade bélica para levarem adiante sua expansão e obterem mais escravos, num círculo infindável. O porto de Ajudá, agora sob o monopólio comercial do dadá, perdeu sua neutralidade e a insegurança se espalhou. Como o dadá só vendia em Ajudá os escravos que obtinha nas guerras, o fornecimento de escravos passou a depender do bom sucesso do Daomé nas suas investidas, o que gerava períodos de escassez de cativos. Além disso, o dadá preferia os traficantes brasileiros, que pagavam em ouro. Tudo isto acabou afugentando os traficantes europeus e, posteriormente, até mesmo os brasileiros do até então movimentadíssimo porto de Ajudá.

No capítulo 6 vemos como sucessivos dadás (Agaja, Tegbesu, Kpengla, Agonglo e Adandozan) tentam devolver o vigor comercial ao Porto de Ajudá durante o Setecentos. Mas os constrangimentos que o dadá impunha aos comerciantes estabelecidos em Ajudá, como se apossar das propriedades (inclusive esposas) daquele que morria ou regressava a seu país, afastou-os de Ajudá. Estes passaram a preferir outros portos, especialmente os aparelhados por libertos brasileiros que retornaram à África, como os de Porto Novo e Lagos.

No capítulo 7, a propósito do primeiro encontro entre Francisco Félix de Souza e o então dadá Adandozan, Alberto da Costa e Silva relata como teria sido a viagem que Francisco Félix teria feito entre Ajudá e a capital daomeana, Abomé. É quando conhecemos um pouco do cotidiano do povo fon no começo do século XIX. De Ajudá, Costa e Silva fala das residências, do forte, dos mercados e das vestimentas dos diversos grupos sociais. A caminho de Abomé, ficamos sabendo da excelente qualidade da Estrada Real do Daomé, elogiada por europeus devido à sua largura e à boa manutenção. Na chegada a Abomé, Francisco Félix deve ter se deparado com uma cidade protegida por um fosso e abastecida com as águas de um riacho próximo. O autor retrata ainda as profissões e os palácios de Abomé, além da intimidade do dadá, suas esposas e seu quarto. Por fim, imagina, com base na cultura daomeana, como teria sido o encontro entre Francisco Félix de Souza e Adandozan: as reverências e os ritos da audiência.
Palácio dos dadás, ou reis, do Daomé

No capítulo oitavo encontramos Francisco Félix já comerciante de gente, exercendo seu ofício na fortaleza lusa de Ajudá, e a fornecer mercadorias em créditos ao dadá para obter seus escravos. Quando Adandozan deixa de efetuar um pagamento, Francisco Félix queixa-se e é preso. Seu infortúnio, entretanto, acabaria por favorecê-lo. Isto porque o rei Adandozan já não agradava mais nem à elite daomeana nem aos comerciantes com quem tinha tratos, e um golpe pelo trono parecia iminente. O príncipe Gapê, meio-irmão de Adandozan, procura Francisco Félix na prisão e faz com ele um pacto de sangue, à maneira dos fons. Gapê providencia a fuga de Francisco Félix, e este em troca consegue para Gapê armas e outros bens. Ajudado também por nobres, Gapê é bem sucedido no seu golpe, e se torna dadá por volta de 1818 com o nome de Guezo. O novo dadá convida Francisco Félix, que morava em Anexô, a se mudar para Ajudá. Segundo seus descendentes é nomeado chefe dos brancos e vice-rei de Ajudá, com o título de chachá. Francisco Félix conseguiu tornar-se então um importante agente comercial, com o direito de primazia na venda de seus escravos, o que lhe permitia escolher as melhores mercadorias de troca. Obteve o Chachá muito poder em Ajudá e grande influência sobre Guezo, de quem era “primeiro amigo”, conforme a tradição fon.

No capítulo 9 vemos o auge do prestígio do Chachá. Prestígio como amigo do dadá e responsável pelo forte português de Ajudá. Mesmo o tratado feito entre Portugal e Inglaterra em 1815, que proibia o tráfico de escravos ao norte do Equador (o que incluía o golfo do Benin), não foi empecilho ao sucesso comercial de Francisco Félix, que soube driblar a marinha inglesa. É certo que o Chachá teve de se adaptar ao tráfico clandestino, e seu negócio se tornou ainda mais arriscado. Mas ele contava com o privilégio da primeira escolha, e podia vender seus escravos rapidamente. Ademais, deixou de depender de terceiros para alimentar sua escravaria e passou a utilizar os cativos para produzir seu próprio alimento enquanto aguardavam o embarque. Fez alianças com portos fora dos domínios do Daomé para garantir o suprimento de mercadoria humana. Quando as disputas políticas ameaçavam seus negócios, o Chachá interferia. Por tudo isso, Francisco Félix tornou-se o maior mercador de escravos do Golfo do Benin, admirado na Europa e na América. Tanto era assim que o dadá Guezo tentou se valer do prestígio do Chachá para encontrar sua rainha-mãe, Nã Agontimé, que havia sido vendida como escrava quando Adandozan subira ao poder.

O décimo capítulo trata das conseqüências da Independência do Brasil na Costa dos Escravos. Para o Chachá era mais conveniente permanecer português, embora o grosso de seus negócios se dessem com a Bahia. Mas Costa e Silva afirma que Francisco Félix manteve as duas nacionalidades, a portuguesa e a brasileira, que eram usadas conforme suas conveniências. Entre os comerciantes brasileiros e portugueses que viviam na Costa dos Escravos não houve divisões, pois os interesses de ambos continuavam os mesmos: comerciar escravos. O Levante dos Malês, ocorrido em 1835, na Bahia, levou o governo baiano a expulsar os revoltosos libertos, e muitos foram recebidos pelo Chachá. Esses passaram a ser conhecidos na África como agudás. Embora viessem também de outras partes do Brasil, provinham, em sua maioria, da Bahia. Ao chegarem à África, não se sentiam mais ijexás, huedás, hauçás, ou jejes, ou não eram mais vistos assim pelos que imaginavam ser seu povo. Sentindo-se estrangeiros, o Brasil era um ponto em comum, e passaram a morar juntos. Os que se fixaram em Ajudá ergueram suas casas ao redor da casa do Chachá, a quem viam como protetor e líder. Isto era bom para Francisco Félix, pois ao aumentar o número de dependentes e agregados, reforçava sua riqueza e seu poder. O capítulo 11 traz alguns casos de agudás que enriqueceram como mercadores de escravos.

O capítulo 12 trata das conseqüências do Equipment Act, de 1839, através do qual a Inglaterra reservava-se o direito de prender qualquer navio que transportasse escravos. Este capítulo mostra ainda as estratégias de sobrevivência do maior mercador de escravos do golfo do Benim diante da vigilância britânica.

No capítulo 13 aproximamo-nos um pouco mais do cotidiano do Chachá. Ficamos sabendo de sua numerosa prole com as suas esposas africanas. Criados segundo a cultura de suas mães (que podiam ser fons, guns, hulas, minas, nagôs ou mahis), seus filhos eram instados a se comportarem como europeus a partir da adolescência. Alguns foram estudar na Bahia. “E a quase todos, transmitiu o que pôde de seus saberes de traficante” (p. 136). Vestia-se como europeu, morava e comia como brasileiro, e agia como chefe daomeano. Católico “à baiana”, cultuava os voduns fons. O Chachá era um excelente anfitrião, pois tratava bem até mesmo os visitantes que se opunham ao tráfico, e era por eles muitíssimo elogiado. Chegou a receber, entre os fons, louvações, à maneira dos orikis iorubás.

O ocaso do Chachá nos é apresentado nos capítulos 14 e 15 do livro. Em seus últimos anos, Francisco Félix de Souza passou a ter prejuízos devido à intensificação da repressão inglesa. Com isso, deixou de honrar os créditos que recebera antecipadamente de Salvador e de Havana. Já não podia contar muito com o dadá Guezo, que passara a enviar escravos para outros portos menos vigiados que o de Ajudá. O Chachá acabou perdendo sua condição de único agente comercial de Guezo, ainda que continuasse com alguns privilégios. Se diminuía a demanda de escravos, crescia a de azeite-de-dendê, utilizado na Europa para produzir velas e sabão. Muitos traficantes tornaram-se então senhores de dendezais, sem deixar o comércio de escravos. Quando este finda, os personagens continuam os mesmos, mudando apenas a mercadoria: de gente a azeite-de-dendê, ainda que com lucros menores. Ao contrário dos traficantes britânicos, que garantiram sua sobrevivência financeira através da diversificação de investimentos, Francisco Félix, de mentalidade luso-brasileira, preferia “investir” seu dinheiro em doações à Igreja, no luxo, na ostentação e no desperdício.  Certamente – pensa Costa e Silva – , o Chachá já antevira o declínio do tráfico, mas não sabia fazer outra coisa que não vender gente. E gostava de sua vida. “Encontrara a sua Pasárgada, e não tinha por que afastar-se dela” (p. 169).

O último capítulo narra brevemente a festa de “posse” do novo Chachá, o VIII, Honoré Feliciano Julião de Souza, em 1995, acompanhada pelos Souza e muitos agudás de Ajudá. Os atuais descendentes de Francisco Félix esquecem, de acordo com o relato de Costa e Silva, o que consideram condenável na vida de seu antepassado: o ofício de mercador de escravos. Preferem lembrar dele como patriarca e protetor dos ex-escravos regressados do Brasil. É o que o historiador inglês Peter Burke chama de “uso da amnésia social”: indivíduos ou grupos buscam tirar da memória “um passado que as pessoas por um ou outro motivo não desejam conhecer, embora talvez fosse melhor para elas se o fizessem”[1]. Mas como o esquecimento nunca é completo, ou pelo menos nem todos preferem esquecer, no meio da festa um beninense chama Costa e Silva à parte e cochicha em seu ouvido “que Francisco Félix de Souza não foi aquele grande homem a quem cantam loas, mas a principal personagem de um medonho pesadelo” (p. 175).
O Rei do Daomé (sentado, sem camisa) saúda Mitô Honoré Feliciano de Souza, o Chachá VIII, vice-rei de Uidá.
 Chachá VIII demonstra orgulho por sua ascendência brasileira

Desta maneira, percebemos que a ambigüidade prevalece deliberadamente no retrato do Chachá que Alberto da Costa e Silva busca nos apresentar em seu mais recente livro. Um retrato que às vezes aparenta estar embaçado, indefinido. E nem poderia ser diferente, já que, com sua honestidade característica, em diversos momentos Costa e Silva reconhece que apenas especula, em vez de afirmar. E lamenta que não haja, “semelhante ao de exclamação, um ponto de dúvida” para encerrar os períodos onde as incertezas abundam (p. 14).

Em outros momentos, porém, conseguimos visualizar mais nitidamente o Chachá retratado por Alberto da Costa e Silva. Onde os documentos escritos ou a memória coletiva silenciam, o autor enriquece a biografia de Francisco Félix com sua erudição acerca da geografia, dos costumes, do cotidiano, das culturas e da história dos habitantes do golfo do Benin. É inegável que ter convivido de perto com a realidade da África confere-lhe um conhecimento de causa que se torna um diferencial em relação a obras de outros historiadores que tratam do continente africano.

Francisco Félix simplesmente escapole de qualquer tentativa de um parecer definitivo sobre sua pessoa. Sendo ele um homem de mentalidade luso-brasileira colonial, que teve de se adaptar às cosmovisões dos povos que habitavam a Costa dos Escravos, especialmente dos jejes, podemos afirmar que Francisco Félix se integra, juntamente com os lançados portugueses na Senegâmbia dos fins do século XV[2], a um grupo que Costa e Silva chama de “centauros culturais: africanos entre africanos, europeus ou europeizados quando em contato com europeus” (p. 35). Tal maleabilidade cultural foi imprescindível para que Francisco Félix sobrevivesse em terra estranha e se tornasse o maior negociante de almas que o tráfico já produzira até então.

O diplomata, poeta, ensaísta, memorialista e africanista brasileiro Alberto da Costa e Silva, autor do livro resenhado


Resenha de: SILVA, Alberto da Costa e. Francisco Félix de Souza, mercador de escravos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira: EdUERJ, 2004.


[1] BURKE, Peter.  Variedades de história cultural. Trad. Alda Porto. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, p. 88.
[2] O autor discorre sobre os lançados em SILVA, Alberto da Costa e. A manilha e o libambo – a África e a escravidão, de 1500 a 1700. Rio de Janeiro: Nova Fronteira: Fundação Biblioteca Nacional, 2002. Capítulo 7, páginas 229-279.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

RIO CUANZA, O ELO ENTRE O SUL E O NORTE, ENTRE O PASSADO E O FUTURO.RIO QUEVE O PEQUENO GIGANTE : LUIZ CHINGUAR

12
                                           Barragem de Cambambe
     
                                                                  
22
                                                  O rio Queve
                                                                
24
                                              Cachoeiras do Binga.
 

LUÍS XINGUAR



.RIO CUANZA, O ELO ENTRE O SUL E O NORTE, ENTRE O PASSADO E O FUTURO

. RIO QUEVE O PEQUENO GIGANTE

 CLICAR AQUI

RIO QUEVE O PEQUENO GIGANTE