domingo, 12 de dezembro de 2010

Entrevista a Mário Soares, Ministro dos Negócios Estrangeiros sobre descolonização de Angola

Entrevista inédita de Mario Soares -1974
O então Ministro dos Negócios Estrangeiros português Mário Soares sobre a descolonização em África 
 
 
SP – Sr. Ministro, o Governo Provisório está em vias de conceder a independência às colónias da Guiné-Bissau, Angola e Moçambique. Há portugueses que se interrogam se este Governo de Transição, que não foi eleito pelo povo, mas empossado por um golpe militar, tem legitimidade para tomar uma decisão tão histórica. 
 
MS – Isso nos perguntámos logo a seguir à revolução de 25 de Abril. Ponderamos se a descolonização se deveria fazer apenas após eleições regulares. Mas verificou-se que o problema era candente, que dificuldades e demoras surgiam no processo. E assim convencemo-nos que precisávamos de nos apressar. 
 
SP – Há portugueses que julgam que o Sr. se tenha apressado demais – como em tempos os belgas ao se retirarem do Congo. 
 
MS – Estamos há 3 meses no governo, e entretanto fizemos contactos e progressos, mas não creio que tenhamos sido demasiado apressados.
Pelo contrário. A situação em Angola, que nos últimos tempos se tornou explosiva, prova que talvez não tivéssemos andado suficientemente depressa. 
 
SP – Sobre as condições de independência o Sr. negoceia exclusivamente com os movimentos de libertação africanos. Na sua opinião eles são os únicos legítimos representantes das populações nas colónias?  
 
MS – Bem, se quisermos fazer a paz – e nós queremos sem demora a paz – temos que falar com os que nos combatem. Isto não implica uma avaliação política ou ética dos movimentos de libertação, mas resulta da apreciação pragmática de determinada situação. E quem nos combate na Guiné? O PAIGC. Assim temos de falar com o PAIGC. Quem nos combate em Moçambique? A Frelimo. Assim temos de falar com a Frelimo. 
 
SP – E com quem pode o Sr. negociar em Angola onde existem vários movimentos rivais? 
 
MS – Em Angola há dois movimentos de libertação reconhecidos pela OUA – o MPLA e a FNLA. Assim temos de negociar com ambos. Para avaliar qual dos dois é o mais representativo do povo é um problema que os Angolanos e as coligações que no futuro formarão governo terão de resolver mais tarde. 
 
SP – Acredita que esses movimentos e em particular os ainda discutíveis têm suficiente autoridade de impor a solução que vai ser negociada? 
 
MS – Esperamos que sim. Mas o processo de descolonização em Portugal, no formato, não deverá decorrer de modo muito deferente do da Inglaterra e França. 
 
SP – Na Argélia havia um movimento de libertação muito forte, como no Kénia e sem dúvida também na Guiné-Bissau e Moçambique. Mas e em Angola? 
 
MS – Sim, na verdade em Angola a situação é difícil devido às divisões dentro dos movimentos. E nós não podemos alterar aí quase nada. Estamos prontos a falar com cada uma das facções e, dentro das nossas possibilidades, procurar que se unam. Mas não temos muitas ilusões, as nossas possibilidades de intervir aqui são muito limitadas. 
 
SP – Se o processo de descolonização português correr como o inglês ou o francês, na sua opinião qual será a tendência a seguir - como no Kénia que seguiu a via capitalista, ou como a Zâmbia que tenta uma espécie de socialismo africano? 
 
MS – Eu julgo que é sempre perigosa a transposição de modelos estranhos. Mas, de momento, parece-me que a evolução em Moçambique será semelhante à da Zâmbia. Noutras regiões poderá haver outras soluções. Quando falei da semelhança do nosso processo de descolonização com o inglês ou o francês, pensei mais nas linhas gerais – que nós, como potência colonial, como os ingleses e os franceses, devíamos negociar com os movimentos fortes a operar nas colónias. 
 
SP – E o que virá depois das negociações? 
 
MS – Parece-nos importante que as populações sejam consultadas e que, depois do domínio português, não lhes seja imposto outro domínio que poderá não ter a maioria. Gostaríamos que a liberdade da população fosse garantida e assegurada. Mas temos nós, como antiga potência colonial, autoridade bastante para discutir isso? A nós parece-nos isso muito problemático. Por outro lado, o PAIGC e a Frelimo são movimentos de libertação que em anos de luta renhida pela independência ganharam indiscutível autoridade. Eles têm chefes muito qualificados e conscientes das responsabilidades. Com quem mais, a não ser com eles, deveremos negociar?
 
SP – Sente-se o novo governo português também responsável por aqueles milhares de africanos que, por motivos diversos, colaboraram com o anterior regime?  
 
MS – Certamente que nos sentimos responsáveis por essa parte da população e sobre o seu destino já se falou por diversas vezes nas conversações. No caso concreto da Guiné, onde o processo está mais avançado, tencionamos, por exemplo, repatriar para Portugal os ex-combatentes africanos que o queiram por não se conseguirem integrar na nova República independente. 
 
SP – Quantas pessoas são essas? 
 
MS – Sabemos de cerca de 30 antigos comandos que aos olhos do PAIGC representam um certo perigo. Para estas pessoas temos de encontrar uma solução qualquer – talvez integrá-los nas forças armadas portuguesas ou coisa semelhante. 

SP – Acredita que do lado dos movimentos de libertação exista a boa vontade de não exercer represálias contra os colaboradores africanos do antigo regime? 
 
MS – Sim, isso foi-me espontaneamente assegurado, mesmo antes de nós termos levantado o problema. Também nos deram certas garantias, os movimentos de libertação não são racistas. Eles estão conscientes dos imensos problemas que terão de enfrentar e não querem comprometer já a sua vida política com crueldades e actos de vingança. 
 
SP – No entanto, a “Voz da Frelimo” emissora do movimento para Moçambique tem, nas passadas semanas, por diversas vezes apelado aos soldados negros para desertarem das tropas portuguesas, sob pena de ajuste de contas após a independência. 
 
MS – Uma guerra, infelizmente não é um jogo de cavalheiros nem um concurso hípico com regras éticas fixas. Tais excessos verbais e ameaças são lamentáveis, mas também muito naturais. Na verdade, não sei se essas ameaças foram feitas, mas considero-as possíveis. Mas até agora tivemos na Guiné e em Moçambique – em Angola ainda não – uma impressionante onda de confraternização e tudo tem corrido muito melhor do que seria de esperar depois de 13 anos de guerra. 
 
SP – Muitos brancos nas colónias portuguesas sentem-se traídos por Lisboa. Com razão? 
 
MS – Se acreditou nos slogans do antigo regime – que Angola é nossa e sê-lo-á para sempre, e que não são colónias mas simplesmente províncias ultramarinas – então terá razão em sentir-se traído. Mas, na realidade, a traição é do regime de Salazar e Caetano que quiseram fazer esta gente acreditar que seria possível oferecer resistência ao mundo inteiro e à justiça. 
 
SP – Qual será o futuro destes brancos desiludidos, se, apesar de tudo, quiserem permanecer em África? 
 
MS – Se forem leais para com os novos Estados independentes na cooperação e respeitarem as suas leis, não têm nada a temer. Na Guiné, por exemplo, o próprio movimento de libertação exortou-nos a deixar os nossos técnicos, médicos, engenheiros e agrónomos, porque precisavam deles. É cómico: a extrema esquerda portuguesa exigia a nossa saída imediata, total e sem condições, mas os próprios movimentos de libertação não exigiram nada disso. 
 
SP – O que será dos brancos que não querem ficar em África? Em Moçambique já se iniciou entre os brancos um grande movimento de fuga. 
 
MS – É verdade. Mas estou certo que dois anos após a independência e quando as instituições do País funcionarem razoavelmente, haverá mais portugueses, em Moçambique, que hoje. Isto é, aliás, um fenómeno geral. O Presidente Kaunda da Zâmbia disse-me, quando estive em Lusaka: “ Saiba que temos aqui na Zâmbia o dobro dos ingleses que tínhamos antes da independência”. 
 
SP – E o Sr. acredita que isso também acontecerá em Moçambique? 
  
MS – Sim. Primeiro virão muitos para Portugal, porque têm medo, mas depois regressarão. 
 
SP – E em Angola?  
 
MS – Ali ainda não há muitos que abandonaram o País. Ali generaliza-se entre os brancos uma atitude perigosa. Precisamos de convencer os brancos, no seu próprio interesse, que fiquem, mas já não como patrões, como até agora. 
 
SP – Apesar disso Portugal tem de contar com o regresso de muitos. Como irão resolver o caso?  
 
MS – Isto é para nós um problema económico muito sério, pois não é apenas o regresso dos colonos brancos mas também os soldados – cerca de 150.000 a 200.000 homens que regressam duma assentada. Acrescem ainda os imigrantes que querem regressar desde que Portugal é livre. O assunto está a ser estudado pelo Ministério da Economia e Finanças. Temos de criar novos postos de trabalho, mas isso significa igualmente a reestruturação da totalidade da economia portuguesa, que vai precisar de se adaptar às sociedades industriais modernas.
 
SP – Não existem portanto planos concretos para absorver os retornados?  
 
MS – Há investigações adiantadas.
 
SP – Entre os brancos que não querem regressar a Portugal, tenta-se criar um exército de mercenários para se opor aos movimentos de libertação. Em Angola, nos últimos tempos, radicais brancos de direita provocaram confrontos raciais sangrentos. Pode Lisboa impedir que tais brancos, especialmente em Angola, tomem o poder?  
 
MS – Eu penso que sim. 
 
SP – Como? 
  
MS – O exército em Moçambique e em Angola é completamente leal para com os que fizeram a Revolução de 25 de Abril. E o exército não permitirá que mercenários brancos ou grupos semelhantes se levantem contra o exército. Tentativas haverá. Em Moçambique já as houve. 
 
SP – E em Angola onde vivem mais do dobro dos brancos e um terço menos de negros que em Moçambique? 
 
MS – Em Angola haverá certamente uma série de situações mais ou menos desesperadas e tensões perigosas entre as raças. Apesar disso, julgo que por ora o exército pode e fará manter a ordem – a ordem democrática. 
 
SP – Portanto, se necessário, o exército português fará fogo sobre portugueses brancos?  
 
MS – Ele não hesitará e não pode hesitar. O exército já mostrou que tem mão forte e quer manter a ordem a todo o custo. 
 
SP – Apesar do exército, não se pode excluir a hipótese de os brancos se declararem independentes, como na Rodésia. Pelo menos Angola podia tentar mesmo economicamente uma tal solução.  
 
MS – De princípio, nos primeiros momentos da Revolução tive muito receio que tal pudesse acontecer. Mas quanto mais o tempo passa, mais difícil se tornará uma tal tentativa. 
 
SP – Suponhamos, no entanto, que tal venha a acontecer – reagiria Lisboa como Londres, na altura, tentando impor um bloqueio económico?  
 
MS – Não creio que em Angola exista uma solução rodesiana, mas se tal acontecesse combatê-la-íamos com todas as nossas forças, pois uma tal solução seria para África e para o Mundo uma aventura inaceitável. 
 
SP – Também se pensou isso no caso da Rodésia e, no entanto, não se pôde evitar.  
 
MS – Para nós tal solução é improvável a não ser que tivéssemos um golpe de direita aqui em Portugal. Nós – este governo democrático – não permitirá que tal solução rodesiana aconteça em Angola ou Moçambique. Eu repito! Nós combatê-la-emos com todos os meios ao nosso dispor. 
 
SP - Porquê?  
 
MS – Porque isso poria em causa todo o nosso processo de descolonização, a nossa credibilidade, e a nossa boa vontade. E porque com uma tal solução até o regresso do fascismo poderia ser encaminhado em Portugal. 
 
SP – Do ponto de vista económico a perda da Guiné e de Moçambique são um alívio para Portugal. Angola, no entanto, com os seus diamantes, petróleo, café trouxe para Portugal as tão necessárias divisas. Pode Portugal dar-se ao luxo de perder essa fonte de divisas?  
 
MS – Todas estas receitas não compensavam os custos de guerra. Nós gastávamos cerca de 2 biliões de marcos por ano com a guerra. O que pouparmos com o fim da guerra compensa plenamente a perda dessas divisas, que de qualquer modo, acabavam na maior parte nos bolsos dos americanos, alemães e ingleses. 
 
SP – Lisboa irá ajudar no futuro as suas antigas colónias? Concretamente: -Se Moçambique independente resolvesse impedir o trânsito de mercadorias da Rodésia para Lourenço Marques ou Beira para exercer pressão política sobre o regime branco de Salisbury, estaria Portugal disposto a compensar Moçambique pela perda de divisas que tal operação acarretaria? 
 
MS – Os nossos meios são escassos, temos de ter em atenção a nossa muito tensa situação económica. Mas, dentro das nossas possibilidades, ajudaríamos, numa tal situação. 
 
SP – No seu livro “Portugal e o Futuro”, o general Spínola propunha uma espécie de comunidade portuguesa como forma de cooperação futura entre Lisboa e África. Os movimentos de libertação não deram qualquer importância à ideia. Como serão as futuras relações entre Lisboa e África?  
 
MS – O discurso pragmático proferido pelo general Spínola em 27 de Julho sobre o futuro das colónias está muito distante da concepção do seu livro. Se, algum dia, uma espécie de comunidade dos países lusófonos se verificar, só na condição de todos os países serem realmente independentes. E seriam então os países africanos a dizer até que ponto tal associação poderia ir. 
 
SP – Sr. Ministro, muito obrigado pela entrevista. 
 
Fonte: DER SPIEGEL Nº 34/1974 


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Entrevista inédita de Jonas Savimbi.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Subsídios para o breve reinado de Mandumbe

Mandume ya Ndemufayo
Fotografia: Jornal de Angola



Mandume ya Ndemufayo foi o último rei kuanyama e morreu a 6 de Fevereiro de 1917. Chegou ao poder em 1911 e o seu reinado durou apenas até 1917. O padre Keiling, que com ele conviveu, relata desta forma a sua morte: “E virando-se para os sobrinhos (primos) os filhos do falecido soba Weyulu, lhes perguntou se queriam ser muleques de brancos. Como eles dissessem que antes queriam morrer, o soba, levando a espingarda à cara, prostrou-os com dois tiros, e virando em seguida a arma contra si mesmo, fez saltar os miolos”.
À volta da figura de Mandume circulam lendas e estórias mais ou menos fantasiosas. A tradição oral costuma acrescentar sempre “um ponto” a cada conto. Os alemães, com quem Mandume conviveu e de quem foi fiel aliado, pouco ou nada relatam sobre a sua figura. Os militares portugueses, sim, têm muitas referências ao rei do Cuanhama. Mas curiosamente não descrevem uma única batalha travada contra ele. Quase todos os oficiais que combateram no Sul, Sudoeste e Sudeste de Angola publicaram as suas memórias da guerra. E nenhum, salvo o major Artur de Moraes, que trocou correspondência com Mandume, descreve sequer contactos com o rei.
A pesquisa que fizemos sobre a época através de relatórios militares e livros de memórias permitiu-nos obter importantes subsídios para melhor compreendermos o breve reinado de Mandume.
Em primeiro lugar interessa reter que ele chega ao poder em 1911, alguns meses depois do triunfo da revolução republicana em Portugal, que pôs fim à monarquia. O distrito da Huíla, que abrangia o território das actuais províncias do Kuando-Kubango, Namibe e Huíla, estava em guerra permanente. Depois do triunfo da República, os oficiais portugueses no terreno tentam resolver a guerra através de negociações de paz com os sobas da vasta região. Mas os oficiais monárquicos sabotam de todas as formas essas iniciativas. Eles apenas têm um objectivo: a ocupação pela força. Querem medalhas, condecorações, promoções por distinção, lugares bem pagos no regresso a Lisboa como “heróis”. Os militares do Quadro do Ultramar, tratados depreciativamente por “oficiais mandioca”, querem a paz a todo o custo porque já têm poucos laços com a “metrópole” e em Angola casaram e lhes nasceram os filhos.
A situação dos colonos é dramática. O major Artur de Moraes escreve no seu livro de memórias que estão “dispersos pelo interior de Angola e por falta de recursos e de auxílio do Estado se acham na maior miséria”. As guerras no Sul consomem largas somas de dinheiro e centenas de vidas humanas. “Angola está desguarnecida e é sobretudo a fronteira do Sul que está mais ameaçada”, diz ainda aquele oficial que viveu os últimos anos da sua vida, já como civil, na cidade do Kuito, onde faleceu.
Estudos dos alemães
Nesta época a fronteira de Angola era praticamente o rio Cunene e o último posto português estava situado no Humbe, então sede de concelho que foi chefiado, entre outros, pelo capitão Gomes da Costa, que mais tarde foi o líder do golpe fascista em Portugal do 28 de Maio de 1926. Morreu no posto de marechal. Outro administrador foi o capitão Artur de Moraes, republicano militante e que após o 5 de Outubro de 1910 ganhou algum protagonismo na região. Foi ele que assinou um tratado de paz e amizade com o rei do Cuanhama, Nande, em 22 de Fevereiro de 1909. Na realidade era um “auto de vassalagem”. Mas as condições no Cuanhama eram péssimas devido a uma estiagem prolongada à qual se seguiram dois anos seguidos de inundações. Artur Moraes fretou três carros bóeres puxados por dez juntas de bois, carregou-os de mantimentos, atravessou o Cunene e foi até a cidadela real de Nande a quem entregou os mantimentos. Na sequência deste gesto de boa vontade, o rei assinou o tratado.
Artur Moraes refere nas suas memórias que ficou provada a abertura de espírito dos cuanhamas e que era possível ocupar todo o território sem sacrifícios de vidas humanas. Ele escreveu que “é inadiável fazer-se a delimitação da fronteira Sul o que servirá de barreira à cobiça de estranhos”. Ele sabia do que estava a falar. Umas das testemunhas da assinatura do tratado foi o missionário alemão, Aray Woolfhorst, que imediatamente informou o alto comando germânico no Sudoeste Africano (Namíbia). Os alemães iniciaram de imediato acções que pusessem em causa o tratado. Eles tinham um plano ambicioso de ocupação do Sul de Angola cujo núcleo principal ficava no triângulo entre o Cuanhama, Humbe e Cassinga.
O governo alemão queria um porto de mar no Sul de Angola e colocou três hipóteses: Baía dos Tigres, a apenas 50 quilómetros da fronteira com o Sudoeste Africano, então território sob ocupação alemã, Namibe e Tombwa. Fez estudos sobre a viabilidade da construção de um caminho-de-ferro que ligasse esse porto de mar à Namíbia, Rodésia (Zimbabwe) e África do Sul. Os engenheiros alemães decidiram que a via-férrea devia ser feita ao longo do Paralelo 17º Sul entre o porto de mar escolhido e atravessando a Namíbia, o Zimbabwe e mergulhando no centro da África do Sul.
Conhecemos hoje pormenores do traçado da linha que acabou por não ser feita, dado que os alemães foram derrotados em 1915. A via-férrea passava ao longo do rio Cunene até aos rápidos de Sacavala, contornava o Morro de Capupito, seguia para Ediva, passava ao longo do rio dos Elefantes, atravessava o território dos mucubais seguindo a margem esquerda do rio Curoca e terminava na Baía dos Tigres (Namibe ou Tombwa).
Rendição dos alemães
Norton de Matos, que foi governador-geral de Angola entre 1912 e 1914, conhecedor dos planos dos alemães cria postos militares apetrechados com estações radiotelegráficas em toda a região, desde a Foz do Cunene até ao Tombwa.
Os alemães viram o seu sonho esfumar-se quando em Julho de 1915 foram obrigados a assinar a rendição ao general Botha. A I Grande Guerra começara um ano antes e as tropas da Alemanha na África Austral pouco aguentaram. Mandume ficou privado dos seus aliados e ainda viu apertar-se a vigilância na fronteira, o que dificultou as suas acções de guerrilha, que ele lançava desde o Sudoeste Africano, onde se refugiara quando o general Pereira de Eça (o Pêra de Aço) ocupou Ngiva (Ondjiva).
Só nesta altura foi definida a fronteira Sul de Angola, praticamente com o traçado que hoje tem. Portugueses e ingleses criaram uma zona neutra compreendida entre o Paralelo Ruacaná-Kubango, proposto pelos portugueses para fronteira e o Paralelo Cazambue-Kubango que havia sido proposto pelos alemães. A zona atravessava a região de Otchimporo, para onde os cuanhamas levavam o gado no tempo da estiagem, já que era abundante em água e pastos . Só no dia 1 de Julho de 1926 foi ultimado o acordo assinado na Conferência do Cabo entre delegados portugueses e sul-africanos sobre a fronteira que ficou fixada em linha artificial da catarata do Ruacaná ao encontro do rio Kubango.
Mandumbe ficou com os movimentos limitados e perdeu os fornecedores de armas e munições. Um ano antes da derrota do “Kaiser”, o último rei dos Cuanhamas pôs fim à vida. Mas ao contrário das lendas que ainda hoje circulam, ele nunca teve um grande combate com os portugueses. Essa glória cabe inteira ao rei do Cuamato Grande que infringiu às tropas portuguesas a sua maior derrota de sempre. Há quem atribua a Mandume a batalha de Pembe, mas é uma falsidade histórica. Quando aconteceu esse combate, Mandume era um menino e ainda nem sequer sonhava ser rei.
A batalha de Pembe
Os portugueses tentavam desesperadamente ocupar os vastos territórios a Sul do rio Cunene mas sucessivas colunas militares foram derrotadas e tiveram de recuar para o Humbe, a praça-forte das tropas de ocupação. O jovem conde de Almoster partiu para Angola à frente de uma unidade militar que depois de desembarcar em Luanda seguiu directamente para o teatro de operações. O rei do Cuamato Grande destroça a sua coluna e o jovem conde morre em combate. As autoridades coloniais ficam em estado de choque e em Lisboa chovem as críticas à administração colonial.
O governador da Huíla, capitão de engenharia João Aguiar, preparou nova coluna que ele próprio comandou. Mal passou o rio Cunene foi submetida a intenso fogo das forças do rei do Cuamato Grande. As forças da vanguarda, comandadas por Gomes da Costa, prepararam tudo para a tropa retirar “em boa ordem” para o Humbe mas as baixas foram muitas. Nada que se parecesse com o que aconteceu a seguir. Foi organizada nova coluna com a incumbência de submeter o Cuamato Grande e marchar para sul até Ondjiva. Esta coluna estava equipada com uma metralhadora pesada Hotchkiss que só atrapalhou. Também levava peças de artilharia 7 EBM (Bronze-Estriado-Montanha) que na hora do desastre matou muita gente com “fogo amigo”. O comandante era Pinto de Almeida, capitão de artilharia.
O vau do Pembe fica situado na margem esquerda do Cunene a dois quilómetros da confluência com o rio Caculovar. E dista do Humbe escassos oito quilómetros. Gomes da Costa e Artur de Moraes contam a batalha com grandes pormenores. Mais recentemente, Bento Duarte, que fez uma aturada investigação sobre as guerras do Sul de Angola, escreve que a batalha é “o quadro horrendo da formidável derrota dos portugueses, a maior e mais trágica que alguma vez lhe foi imposta na África Negra”.
A lista oficial das baixas é impressionante. Oficiais mortos: capitão médico Manuel João da Silveira, segundo tenente João Faria Roby Pereira (Armada); capitão Pinto de Almeida (comandante da coluna), alferes Joaquim Pinto Rodrigues (Artilharia); tenente Adolfo Ferreira, tenente Francisco Resende, tenente Freire Temudo, alferes Santos Nunes (Cavalaria); tenente Luz Rodrigues (Companhia Europeia); tenente José Maria Ferreira, alferes Manuel de Oliveira (Batalhão Disciplinar); alferes Albino Chalot, alferes Correia da Silva (VI Companhia Indígena); tenente Matias Nunes (XVI Companhia Indígena); tenente António Trindade (Administração Militar); alferes Pacheco de Leão, comandante dos “auxiliares indígenas”.
Na batalha do vau de Pembe morreram ainda 13 sargentos e 255 soldados. Ficaram todos insepultos e só dois anos mais tarde Artur de Paiva conseguiu resgatar as ossadas.
A guerra dos Bóeres
Lord Kitchner, em 1902, ao serviço da Grã-Bretanha, põe fim às repúblicas holandesas independentes do Transval e do Estado Livre de Orange, na África do Sul. Muitos bóeres refugiam-se em Angola e fixam-se no distrito da Huíla. Mas enquanto durou “A Grande Jornada” eles tiveram retumbantes vitórias sobre os ingleses e já sonhavam com um grande país que abrangia toda a Namíbia e o Sul de Angola até ao rio Cunene.
A vitória inglesa ajudou os portugueses a fazer a ocupação do sul de Angola. Foi neste quadro que o rei Iulo, do Cuanhama, assinou um tratado de amizade com os portugueses. Mas tudo muda quando Mandume sobe ao poder, sucedendo ao seu tio. Os portugueses classificaram-no como “um jovem irrequieto e sanguinário”.
O Cuanhama ficou dividido em relação ao novo soberano. Os poderoso lengas  Nekongo e Eválua abandonam o Cuanhama e fixam-se no Humbe, levando milhares de pessoas e os seus rebanhos de gado. Os lengas Kalola e Chiconhengue, fiéis a Mandume, fazem razias nas mucundas dos nobres cuanhamas “exilados”. O lenga Kalola é preso pelas tropas portuguesas quando atacava a mucunda de Kabongo, já depois de assinada a paz com o pequeno e grande Cuamato. Mais tarde foi preso Chiconhengue.
Nos primeiros meses do seu reinado, Mandume escreve uma carta ao major Artur de Moraes, comandante militar e administrador do Humbe, onde diz que quer viver em paz e harmonia com todos os vizinhos e reprovando as acções de Chiconhengue e Kalola no Cuamato e no Humbe. O major Moraes aceita a amizade oferecida por Mandumbe e através de um ofício oficial dá-lhe uma garantia: “pode estar descansado que o Chiconhengue e os outros cuanhamas presos no Cuamato não serão mortos, porque o Governo da República Portuguesa, não consentiria em tão grande barbaridade. Em Portugal não há pena de morte e fique certo que serão bem tratados”. Os republicanos querem marcar a diferença com os monárquicos, que passavam “o gentio a fio de espada”.
Mandume não respondeu ao ofício de Artur Moraes e as suas acções de guerrilha prosseguiram, agora com forte apoio dos alemães que lhe levam a Namacunde 19 carros bóeres carregados de armas e munições. Alves Roçadas fundou um forte na margem esquerda do Cunene e Pereira de Eça avança sobre N’giva. Milhares de cuanhamas fogem para o Evale e para Cuambi, já no Sudoeste Africano. Mandumbe faz o mesmo trajecto.
A sua guerrilha é letal mas as tropas inimigas aos poucos ocupam os seus domínios. Nem bóeres nem alemães, derrotados, lhe podem valer. O rei sabe que está perdido. Um ano antes do armistício que pôs fim à I Grande Guerra, assinado na floresta de Compiégne, em França, Mandumbe decide pôr fim à vida na cidadela real de Namacunde. 


Artur Queiroz | - 18 de Maio, 2010
 in Jornal e Angola

domingo, 5 de dezembro de 2010

Angola e António Aniceto Monteiro








Livros imprescindíveis para conhecer a História de África são os de René Pélissier!

Intervenção no "Colloquium António Aniceto Monteiro", 4 de Junho de 2007

Angola e António Aniceto Monteiro
Jorge Rezende (*)

O pai de António Aniceto Monteiro chamava-se António Ribeiro Monteiro e era alferes de infantaria quando, em 4 de Julho de 1905, foi requisitado para desempenhar uma comisão de serviço dependente do Ministério da Marinha e Ultramar na construção do caminho de ferro de Mossâmedes. Dois dias depois, na Paróquia dos Anjos, casou com Maria Joana Lino Figueiredo da Silva, “tendo sido dispensados dos proclamas por provisão de Exmo. Prelado” [AAM-CM] datada da véspera. No dia seguinte ao casamento, António Ribeiro Monteiro embarcou para Angola. Dez anos depois, dia por dia, a 7 de Julho de 1915, na sua casa de Mossâmedes, na rua dos Pescadores, morreu de doença, contraída durante operações militares resultantes da guerra no sul de Angola. Era então tenente de infantaria e deixou Maria Joana viúva e órfãos os dois filhos, Maria Petronila e António Aniceto, de nove e oito anos, respectivamente.
Para compreendermos as circunstâncias históricas que determinaram este início dramático da vida e do percurso angolano de António Aniceto Monteiro, temos que recuar até 1884.
Em 15 de Novembro de 1884, iniciou-se a Conferência de Berlim que se prolongaria até 26 de Fevereiro de 1885, em que participaram vários países europeus, incluindo o Império Otomano e ainda os Estados Unidos da América, tendo em vista a definição das regras para a partilha de África. Este continente tinha um solo e, sobretudo, um subsolo riquíssimos, que despertavam a cobiça das grandes potências de então. A grande burguesia industrial e financeira precisava dos recursos naturais africanos, nem que fosse em detrimento das populações de origem europeia que já estavam instaladas no litoral e, acima de tudo, das populações indígenas que, ao longo de gerações e gerações, ali sempre tinham vivido.
Claro que já havia conflitos em África resultantes das pretensões das potências europeias e, justamente, a Conferência de Berlim visava definir as regras daquilo que veio a chamar-se o “scramble for Africa”, a corrida desenfreada para a ocupação de África. Isso implicou o envio maciço de tropas e a consequente escalada dos conflitos principalmente com as tribos africanas. Aquele inverno de Berlim acabou por atear fogo a todo o continente.
Interessa especialmente o que se passou então na região de Mossâmedes, actualmente chamada Namibe. A província de Namibe fica no extremo sul e litoral de Angola e, vendo o mapa no sentido dos ponteiros do relógio, é banhada a oeste pelo Atlântico e faz fronteira, a norte, com Benguela, a leste, com Huíla (cuja capital é Lubango, antiga Sá da Bandeira) e Cunene (cuja capital é Ondjiva, antiga Pereira de Eça) e, a sul, com a Namíbia.
Ao longo de 1900 km, paralelamente à linha costeira, a província de Namibe e a Namíbia são atravessadas por um deserto que se estende para o interior cerca de 80 a 150 km. É considerado o mais antigo deserto do mundo, com mais de 80 milhões de anos, e a sua aridez é causada pelo ar frio e seco provocado pelas águas geladas da corrente de Benguela que corre de sul para nor-noroeste e das profundezas do oceano para a superfície, sobretudo devido à rotação da Terra.
Portugal enviou tropas para todas as regiões de África que reivindicava na altura. Em toda a parte havia conflitos, nomeadamente em Angola e Moçambique, mas a situação era particularmente grave no sul de Angola. Segundo René Pélissier “de 1885 a 1915, o sul de Angola foi a guerra”(1).
As populações do sul de Angola eram um mosaico de pequenos núcleos de origem europeia, que coexistiam com a esmagadora maioria de populações negras de diferentes etnias. Entre os primeiros, estavam os boers, instalados durante um período de tempo num território próprio na Huíla(2) e havia, ainda, colonos idos da ilha da Madeira, do Brasil, etc(3). As mais diversas correntes religiosas procuravam exercer a sua influência: católicos, protestantes, espiritanos franceses, luteranos, e outras(4).
Havia o tráfico de armas, como as Martini-Henry e as Westley Richards(5), algumas provindas da guerra civil americana, outras da África do Sul. As tribos africanas não só estavam organizadas – possuindo meios rudimentares de comunicação militar, por exemplo – como estavam armadas com armas de fogo das mais diversas origens(6).
A vida dos soldados portugueses não era, portanto, nada fácil. Além das dificuldades do terreno desértico ou semi-desértico, tinham que contar com uma resistência armada forte e quando, a partir de Outubro de 1914(7), tiveram que combater os alemães, por estes terem invadido o sul de Angola, continuavam a ser os negros os piores adversários. Os soldados que morriam, quando não morriam nos combates, morriam de sede e de doenças provenientes, muitas vezes, de beberem água inquinada. As marchas eram forçadas e os itinerários eram escolhidos de acordo com a necessidade de serem mais velozes do que a transmissão das mensagens através dos tantãs africanos. Os animais eram muito utilizados e, para o transporte de militares, os cavalos eram o meio preferido e, até, imprescindível.
Dos momentos mais altos da guerra, antes da chegada do alferes Monteiro, destacam-se as revoltas do Humbe: a primeira, de 1885-1886, a segunda, de 1891, e a terceira de 1897-1898(8). Um momento de viragem registou-se em 25 de Setembro de 1904(9), com a vitória dos Cuamatos (uma tribo Ovambo), sobre os portugueses, na batalha do Vau de Pembe. As baixas portuguesas foram centenas, entre mortos e desaparecidos. Diz René Pélissier: “É preciso que se meça bem a amplidão desta derrota, que equivalia a eliminar num único dia perto de um décimo das forças totais existentes em Angola”(10). Em Lisboa soou o alarme e fizeram-se planos pormenorizados de envio de homens e material para uma campanha de seis meses cuja despesa prevista era de 1 884 contos, “isto é, aproximadamente o mesmo que em 1892 tinha custado à França a conquista do Daomé”(11). Para dirigir todas as operações, foi chamado o capitão do Estado-Maior Alves Roçadas(12) que, segundo René Pélissier, “estava longe de ser um génio como se provaria com os acontecimentos de 1914”(13). Foi, provavelmente, dentro deste plano geral de ofensiva no sul de Angola que o alferes Monteiro foi requisitado para partir para África num tão curto espaço de tempo.
O alferes Monteiro, pai de António Aniceto Monteiro, tinha nascido em 1880 e assentado praça como voluntário em 1898, com dezoito anos incompletos. Finalizou o curso de infantaria da Escola do Exército em 1902 e foi promovido a alferes em 15 de Novembro de 1903.
Mal chegou a Luanda, em 1905, já casado com Maria Joana, foi enviado para o sul para participar na construção do caminho de ferro de Mossâmedes, que foi iniciada nesse ano, embora a autorização do Governo remontasse a carta de lei de 1890. Em 1907, estavam prontos os primeiros 67 quilómetros. O engenheiro encarregado das obras era Artur Torres, futuro sogro de António Aniceto Monteiro. O projecto previa que a linha fosse até Lubango, antiga Sá da Bandeira, mas as obras pararam em 1910, provavelmente devido à guerra, quando estavam prontos 186 quilómetros. As obras só retomariam em 1917 e ficaram concluídas em 1923.
O casal António e Maria Joana teve dois filhos: Maria Petronila, que nasceu em 5 de Abril de 1906, e António Aniceto, que nasceu em 31 de Maio de 1907, ambos na freguesia de Santo Adrião de Mossâmedes.
Em 8 de Fevereiro de 1908, António Ribeiro Monteiro foi nomeado para provisoriamente exercer o cargo de chefe de dia e obras do caminho de ferro de Mossâmedes e, em 9 de Julho de 1909, foi nomeado condutor de 1ª classe.
No fim desse ano, dá-se uma viragem na vida de António Ribeiro Monteiro e nunca mais regressou à construção dos caminhos de ferro. Em 27 de Dezembro de 1909, por opinião da junta de saúde, veio para Portugal. Desconheço se a família o acompanhou.
Em 5 de Outubro de 1909, chegou ainda a ser nomeado para condutor de 1ª classe do caminho de ferro de Luanda, lugar que nunca ocupou. Em 17 de Abril de 1911 foi colocado na direcção fiscal do caminho de ferro de Benguela mas, não é certo que aí tivesse efectivamente trabalhado.
Nos três primeiros meses de 1910 António Ribeiro Monteiro esteve doente em Lisboa.
No dia 1 de Abril de 1910, foi colocado no Regimento de Infantaria nº 11, em Setúbal e, no dia 1 de Dezembro desse ano, é promovido a tenente. É através de um relatório manuscrito [ARM1], datado de 5 de Novembro, extremamente elogioso, acerca dos serviços prestados por António Ribeiro Monteiro nesse regimento (e que pode ter servido para a sua promoção), que ficamos a conhecer um pouco da sua personalidade singular.
Esse relatório, assinado por José Narciso d’Andrade(14), Coronel Comandante do D.R.R. 5, ao referir-se ao alferes Monteiro, diz “não ser fácil encarecer à altura do seu valor as qualidades de tão illustrado oficial, honestíssimo caracter e homem de sciencia”. Fala ainda nas suas qualidades como “constructor e engenheiro”, nos seus “conhecimentos especiaes ou scientificos”, na sua capacidade de ministrar a instrução aos soldados “subordinado a um plano pratico e compreensivel” e nas “referencias altamente elogiosas” que lhe foram feitas pelo comandante da brigada “motivadas pela execução rapida, perfeito acabamento e rigorosa disciplina em todos os trabalhos feitos”.
Mais adiante o relatório acrescenta:
“Querendo tornar extensivos aos officiaes do meu regimento a pratica dos levantamentos topographicos à vista, convidei o Snr. Alferes Monteiro a expor à corporação o que de mais util houvesse sobre esta especie de trabalhos.
Com tal profundeza de conhecimentos, clareza e feição desenvolveu o thema escolhido que não pude furtar-me a intimá-lo a apresentar por escripto a conferencia oral desenvolvida, com o fim de ser remettida para o Ministério da Guerra e ser devidamente apreciada”.
Entretanto, tinha ocorrido a revolução republicana de 5 de Outubro e, a esse propósito, o relatório do coronel Narciso d’Andrade refere:
“Por ocasião da Revolução que proclamou a Republica em Portugal, Setúbal foi, como se sabe, theatro de desorientação popular que se traduziu por incendios a repartições publicas, egrejas, etc.
Necessario se tornava mandar para a rua a força publica com o fim de evitar, sendo possivel a continuação de similhantes desvairamentos. Um capitão e um subalterno, levando sob o seu comando as praças disponiveis, saíram a coadjuvar a autoridade. Porem a população desrespeitou a força e feriu gravemente o seu comandante, bastante conhecido pelas suas ideias liberaes. Teve a força de retirar, à vista de similhante attitude.
Foi então que chamei o Alferes Monteiro e com uma diminuta força o encarreguei de se dirigir ao povo e obstar à continuação dos vandalismos até então praticados e em ameaça de continuarem.
De tal forma se houve e tal diplomacia desenvolveu que toda a gente acolheu com palmas as palavras do Alferes Monteiro e debandou sem que houvesse a mais leve resistencia ou continuassem na pratica dos actos pelos mesmos praticados. Attenta a attitude do povo, expôs-se n’esta difficil missão, aquelle illustre official, não só a ser desrespeitado como a ser esmagado pelo povo.
A pacificação e tranquillidade dos animos foi obtida pelo habil official da seguinte forma: Mandou fazer alto à sua força a uma distancia consideravel dos ajuntamentos, mas de forma que por todos fosse presenciado. Embainha depois a sua espada e dirigindo-se ao povo, falla-lhe tão patrioticamente que começando a ser ouvido com apupos terminou por ser obedecido com vivas e palmas.
Dias depois a população de Setubal, reconhecedora, combinava-se para lhe preparar uma manifestação de simphatia. Ignoro se se chegou a realizar; mas realizasse ou não, certo é que o Senhor Alferes Monteiro, é hoje, em Setubal, a pessoa de mais consideração que a sua cidade encerra”.
Mais adiante o relatório conta que tendo ele sido nomeado “defensor officioso” de um desertor, foi “por todos considerado um orador eximio, mais parecendo um distincto profissional na advocacia do que um homem que fez a sua estreia como amador”.
O relatório diz ainda que “como chefe de família e caracter está superior a todo o elogio”, o que parece significar que, nesse ano, a família vivia com ele em Setúbal.
É de assinalar que esta estadia do alferes Monteiro em 1910 em Setúbal explica a razão pela qual António Aniceto está registado no “livro de registos de nascimento da Administração deste concelho do ano de – 1910-1911”.
O relatório finaliza com o parágrafo seguinte:
“Tamanha é a gratidão dos habitantes de Mossamedes e tão profundas simpathias alli deixou que a pedido d’aquella cidade vae o alferes Monteiro, muito brevemente, desempenhar alli uma nova comissão de serviço publico”.
Ao ler estas quatro páginas manuscritas que elogiam o alferes Monteiro, é difícil não ver nos traços de carácter descritos, aqueles que viriam a ser os do seu filho, António Aniceto: a grande inteligência, a versatilidade e a amplidão das suas aptidões intelectuais, o sentido prático aliado à competência teórica, a capacidade de comunicação e transmissão dos seus conhecimentos, a simpatia e a coragem.
Em Dezembro de 1910, o recém promovido tenente Monteiro regressou a Angola, tendo embarcado no dia 2 e chegado a Luanda no dia 16.
Não se percebe muito bem onde esteve e o que fez, exactamente, o tenente Monteiro, em 1911. Até ao fim da vida viveu sempre, muito provavelmente, em Mossâmedes e, em 1911, pode ter estado parcialmente ao serviço do caminho de ferro, embora não na sua construção, que estava parada(15).
Entretanto, no ano de 1912, deu-se outro momento de viragem na vida do tenente Monteiro. Em Mossâmedes, no dia 9 de Abril, dirige o seguinte requerimento ao Presidente da República:
“António Ribeiro Monteiro, tenente de infantaria do exército da Metrópole, nomeado em Novembro de 1910, em comissão extraordinária, condutor de 1ª classe do Caminho de Ferro de Mossâmedes – onde já serviu desde Agosto de 1905 até Dezembro de 1909 – encontrando-se actualmente, por exoneração daquele cargo, apresentado na Secretaria Militar do Governo deste Distrito, necessita por motivos de força maior e para tratar de assuntos imperiosos de carácter particular, passar à situação de licença ilimitada; e assim, na sujeição de todas as disposições legais que lhe possam ser aplicáveis,
Pede a V. Ex.ª haja por bem conceder-lhe a referida licença”. [ARM1]
O que este documento significa exactamente, não sei. Apenas podemos imaginar o que sentiria um militar com família, que incluia dois filhos menores, em idade escolar, numa zona de guerra intensa que só tinha tendência a agravar-se. A licença foi concedida, a partir de 1 de Agosto, e o que ele fez depois, com essa licença, ignoro(16).
Sabe-se que, desde 1 de Setembro de 1913, “continuou na situação de adido mas em comissão extraordinária de serviço no Ministério das Colónias” [ARM1], e que foi colocado na “Secretaria Militar de Mossâmedes, por haver desistido da Licença ilimitada, no referido dia 1 de Setembro” [ARM1], tendo sido “nomeado chefe da Secção Militar da Fazenda de Mossâmedes na mesma data” [ARM1]. Foi exonerado deste cargo em 30 de Novembro de 1914.
Sabe-se, também, que até ao fim de 1913 não teve nenhum posto de comando, isto é, nunca participou, directamente, na guerra. A partir do início de 1913, o tempo de serviço em Angola deixou de ser acrescido de 50%, como até aí. Em 20 de Abril desse ano, um documento, assinado pelo tenente Monteiro em Mossâmedes, confirma que a situação tinha mudado radicalmente. Trata-se de um compromisso formal, obrigatório(17), que contém o seguinte texto premonitório:
“Eu, António Ribeiro Monteiro, tenente d’infantaria, juro pela minha honra, como cidadão, como oficial, que, enquanto pertencer à oficialidade do exército portuguez, defenderei a Patria e as leis da Republica, e servirei com zêlo e valor, cumprindo as ordens legais dos meus superiores, fazendo-me obedecer e respeitar dos meus subordinados, segundo a mais severa disciplina, observando e fazendo observar os direitos e deveres de cada um, e procurando por todos os meios ao meu alcance acrescentar a glória da Pátria e do exercito portuguez, para o que, se tanto fôr necessario, sacrificarei a propria vida. E, para firmeza de tudo, assim o declaro”. [ARM1]
Desde o desastre de Vau de Pembe, de 1904, que a guerra não teve um momento de pausa, mas seria despropositado contar aqui tudo o que sucedeu. Seriam necessárias muitas dezenas de páginas. Como já se disse, no final de 1914, os alemães invadiram o sul de Angola. A 18 de Dezembro de 1914, em virtude de opções tácticas erradas, Alves Roçadas é derrotado em Naulila pelas tropas alemãs(18). Mais uma vez, o número de baixas portuguesas é impressionante. No seguimento, Alves Roçadas acaba por vir embora de Angola, sem honra nem glória, embarcando no início de Maio de 1915 [ARM3].
Porém, não partiu para Lisboa sem antes ter colocado o tenente Monteiro na 27ª Companhia Indígena de Infantaria, em 6 de Março de 1915, não se sabendo se este, que tinha mais um perfil de intelectual e nunca tinha ocupado um posto dessa natureza, chegou a combater.
Entretanto, em 21 de Março o general Pereira de Eça(19,20) é nomeado comandante em chefe das tropas e governador geral de Angola. O seu principal objectivo era resolver o problema do sul, e para aí se dirigiu imediatamente para, pessoalmente, dirigir as operações contra os alemães e, sobretudo, contra a população negra.
Mostrando ser mais inteligente que Roçadas, Pereira de Eça nomeou o tenente Monteiro chefe da Secretaria Militar do Distrito de Mossâmedes, no dia 24 de Maio.
O principal documento que relata os últimos dias de vida do tenente Monteiro é de um tenente coronel de infantaria, João Ortigão Peres(21), ex-chefe do estado maior do corpo expedicionário no sul de Angola, e diz o seguinte:
(...)“o tenente de infantaria António Ribeiro Monteiro, encontrando-se em comissão extraordinária no sul de Angola (...). (...) havendo necessidade de proceder a um reconhecimento na região dos Cubáes (serra da Chella) este oficial, apezar de estar ainda bastante atacado pelas febres, pediu insistentemente que lhe fosse confiado esse serviço, que conseguiu levar a bom termo, regressando porem a Mossâmedes num tal estado que faleceu dias depois da sua chegada”.(...) [AAM-CM, AAM-RUL]
A ser verdade que, quando partiu, o tenente Monteiro já se encontrava doente e sendo conhecidas as dificuldades que uma tal missão, de vários dias, comportava, só é de admirar que ainda tivesse regressado com vida.
Anos mais tarde, António Aniceto Monteiro contava, assim, este episódio, provavelmente por lhe ter sido relatado pela mãe: “Tratava-se de averiguar se os alemães tinham invadido o sul de Angola. O meu pai voltou com uma perniciosa. Ao chegar a Mossâmedes, foi saudar a minha mãe e ao sair para o Estado Maior para informar do resultado da expedição caíu desmaiado mas mesmo assim foi ao Estado Maior. Nessa noite jantou em casa o General Roçadas. Meu pai teve que assistir ao jantar deitado numa cadeira de viagem. Faleceu nessa mesma noite”.
Apesar de algumas imprecisões devidas ao esfumar da memória que a passagem do tempo induz, como a referência a Alves Roçadas que, como sabemos, nessa altura, já não estava em Angola, este relato tem o mérito de informar que, na noite da morte do tenente Monteiro, uma alta patente, provavelmente o próprio Pereira de Eça, esteve em sua casa. O episódio mostra até que ponto o estado maior, sediado em Mossâmedes, estava ávido de informações sensíveis da parte de um homem que, por ter trabalhado precisamente nessa zona como topógrafo militar durante vários anos na construção do caminho de ferro, conhecia o terreno como ninguém.
Para que fique completo o relato da guerra com os alemães em Angola, basta dizer que, dois dias depois, tudo tinha acabado com eles, por se terem rendido aos sul-africanos do general Botha, no Sudoeste Africano, hoje Namíbia.
Esta primeira guerra colonial em Angola que começou com o “scramble” que se seguiu à Conferência de Berlim, durou cerca de quarenta anos, desde 1885 até 1925(22,23), serviu para destruir quase completamente a estrutura social que existia, definir as fronteiras daquele que é hoje um país independente e desenvolver a estrutura colonial que durou até 1974-1975. E a guerra acabou, porque as tropas europeias foram substituindo as mulas, os cavalos e os bois, por veículos motorizados(24), e, sobretudo, foram substituindo as carabinas e as espingardas por uma arma temível que, essa, os negros não possuiam – a metralhadora(25). Duvido que haja uma contablização absolutamente credível mas, ao todo, foram, muito provavelmente, centenas de milhares de mortos, a esmagadora maioria deles entre a população negra(26).
Ontem como hoje, todas as guerras têm consequências dramáticas. Em primeiro lugar, para as populações que nelas são forçadamente envolvidas ou delas têm que se defender. Em segundo lugar, para os soldados que para elas são conduzidos, a maior parte das vezes, enganados por uma propaganda ilusória. Em terceiro lugar, sofrem com as guerras as famílias destes soldados. Tal foi, seguramente, o caso da família do tenente Monteiro, que em Angola ficou sepultado, e, em particular, para a sua filha que tão cedo perdeu o pai.
Como afirmou um militar relativamente a outro camarada [JSP], talvez António Ribeiro Monteiro tenha “sido enterrado na cerca de arame farpado junto à muralha”, e lá tenha ficado “esquecido, e hoje ignorado, como tantos outros que por aqueles sertões morreram, faltando saber se com melhor sorte que aqueles que viveram”. De facto, muitos desses soldados sobreviventes continuaram a combater os negros em África ou vieram combater para a Europa, na guerra mundial de 14-18.
Seria necessário esperar cerca de 30 anos, após o fim da primeira guerra colonial em Angola, para se assistir ao início da derrocada do império e das ilusões coloniais. A União Indiana, que tinha conquistado a independência em 1947 (o que só por si devia ter feito meditar Salazar), começou nos anos 50 a reivindicar os territórios que Portugal ocupava – os enclaves de Goa, Damão Diu, Dadrá e Nagar-Avely.
Em fins de Julho de 1954, forças da União Indiana assaltaram e ocuparam definitivamente os dois pequenos enclaves de Dadrá e Nagar-Avely. A crise política desencadeada então entre os dois países durou cerca de um ano, mas os portugueses foram expulsos definitivamente de Goa, Damão e Diu em 19 de Dezembro de 1961, nas circunstâncias bem conhecidas. A tensão entre Portugal e a União Indiana só terminou em 31 de Dezembro de 1974.
Nesse ano de 1954, a 11 de Agosto, em Portugal, o Movimento Nacional Democrático, cujo presidente era o matemático Ruy Luís Gomes, enviou aos jornais uma “nota oficiosa”(27), um extenso documento, que vale a pena ler, sobre a situação política em Portugal e sobre o que se estava a passar na Índia, condenando a política colonial do governo. Foi o suficiente para que Ruy Luís Gomes, Virgínia Moura, Lobão Vital, José Morgado e Albertino Macedo fossem presos e acusados de traição à pátria(28), ameaçados com cinquenta anos de prisão mais medidas de segurança, e passassem por vários julgamentos até serem finalmente libertados em 1957.
O próprio Ruy Luís Gomes, no seu Curriculum Vitae político [RLG], refere que foi “preso pela PIDE em 19 de Agosto de 1954 por ter, juntamente com os restantes elementos da Comissão Central do MND, elaborado um documento condenando a política colonial do Estado Novo e defendendo a autodeterminação dos Povos, por ocasião de incidentes ocorridos em Goa, Damão e Diu. Foi então acusado de traição à Pátria e julgado em Junho de 1955 no Tribunal plenário do Porto. Foi condenado em 18 meses de prisão. Recorreram da sentença, aguardando em liberdade o resultado do recurso. Anulado o julgamento, recolheu de novo à cadeia em meados de 1956. Novamente julgado em meados de 1957 foi condenado em dois anos de prisão. Mais de metade deste tempo foi passado na Colónia Penal de Santa Cruz do Bispo, em Matosinhos, prisão especialmente destinada a presos comuns de difícil correcção; muitos destes presos eram dementes”.
Na sequência destes acontecimentos, Ruy Luís Gomes, expulso da Universidade desde 1947 e com a vida muito dificultada em Portugal, vai, em Setembro de 1958, exilado, para Bahía Blanca, na Argentina, a convite do seu amigo António Aniceto Monteiro que já lá se encontrava.
A influência mútua destes dois homens é conhecida, tanto no plano político, como no plano científico. António Aniceto Monteiro foi o principal dínamo das iniciativas do Movimento Matemático no que respeita à investigação e contagiou Ruy Luís Gomes. Por sua vez, Ruy Luís Gomes, vindo de uma família com tradições, era aquele que, dos dois, estava mais informado e era mais activo politicamente. Em ambos, o traço comum de um vida inteira de coerência cívica e científica, indestrinçáveis uma da outra.
Em 4 de Fevereiro de 1961, um grupo de angolanos ataca prisões de Luanda, tentando libertar presos políticos dando início, assim, à segunda guerra colonial em Angola – a guerra que conduziu à independência. Um dos muitos objectivos dessa acção, que envolveu cerca de 200 pessoas armadas de catanas e outras armas artesanais, era a libertação da maioria dos presos políticos do processo dos 50 que estavam na Casa de Reclusão Militar e que se suspeitava que iriam ser transferidos em breve para o Campo de Concentração do Tarrafal.
No Brasil, vivia um grande grupo de exilados portugueses, a maioria dos que estavam na América Latina. Entre eles, interessa-me destacar, nesta intervenção, Manuel Sertório e Henrique Galvão. Este último tinha liderado o desvio do navio Santa Maria em 22 de Janeiro de 1961, que muita gente pensava ir aportar a Luanda, mas que acabou por ir para o Recife, no Brasil. Muitos jornalistas de vários países acorreram então à capital de Angola, na expectativa de relatarem a chegada do Santa Maria, tendo sido a possiblidade de uma grande cobertura internacional mais um factor que incentivou o 4 de Fevereiro de 1961. Os resistentes angolanos desejavam chamar a atenção para a grave situação que se vivia naquela colónia, com destaque para o massacre dos camponeses da Baixa de Cassange que estavam a ser bombardeados e mortos, aos milhares, com napalm.
Nenhuma das acções do 4 de Fevereiro teve êxito, mas, pelo menos, conseguiram chamar a atenção do mundo inteiro para o que se passava em Angola. As autoridades coloniais designavam os resistentes africanos de “terroristas” ou, ainda mais depreciativamente, de “turras”. Para os mais racistas, todos os negros eram “terroristas”. No seguimento do 4 de Fevereiro, foi desencadeada a caça generalizada ao “turra” e mais massacres foram perpetrados.
O grupo de exilados no Brasil era politicamente muito heterogéneo. O capitão Henrique Galvão tinha sido um adepto entusiasta de Salazar, mas começou a divergir deste, sem nunca romper com a ideologia que sempre tinha apoiado, nomeadamente na sua componente colonialista.
Na organização da oposição na América Latina, Manuel Sertório, que vivia em São Paulo, era o elemento que fazia a ligação com os dois portugueses de Bahía Blanca, Ruy Luís Gomes e António Aniceto Monteiro.
Assumindo sempre as suas raízes angolanas, como “tendo nascido em Angola”, António Aniceto Monteiro troca com Manuel Sertório, em 1961, algumas cartas [AAM-MS] que visavam a elaboração de uma declaração conjunta de oposicionistas sobre a situação que se vivia na colónia portuguesa.
As quatro cartas que António Monteiro escreveu então a Manuel Sertório, estão marcadas com um sotaque argentino e, aqui e ali, com alguma fina ironia.
Na carta de 23 de Março de 1961, afirma o seguinte
“Creio que não é suficiente condenar o envio de forças armadas para os territórios coloniais e que se deveria também reclamar que se retirem todas as tropas de repressão enviadas nos últimos tempos. Ao mesmo tempo convém aclarar que a responsabilidade de todos os sucessos que ocorram nas colónias recai inteiramente sobre o governo de Portugal e serão uma simples consequência da sua política de repressão, que se pode contrapor à atitude dos diversos movimentos para a independência das colónias que reclamam insistentemente negociações pacíficas”. Termina citando a frase “nenhum povo pode ser livre se oprime outro povo”.
A carta seguinte, de 24 de Abril de 1961, exprime o desapontamento por alterações entretanto introduzidas ao documento, no Brasil, por Henrique Galvão e outros:
“(...) tenho aqui à mão uma declaração sobre o problema colonial, que a Comissão de Inter-Ligação enviou ao Prof. Ruy Gomes em 30 de Março. Trata-se de um documento com uma orientação essencialmente distinta da declaração impressa à qual enviei a minha adesão na carta que lhe escrevi em 23 de Março.
Devo dizer-lhe que não assinarei a declaração de 30 de Março anteriormente indicada, porque o problema da autodeterminação dos povos coloniais está posto em termos ambíguos.
Em primeiro lugar se reconhece o direito à irrestrita autodeterminação, mas logo a seguir se agrega «sob as necessárias garantias de exercício desse direito em condições humanamente progressivas, etc.» o que pode significar, por exemplo, que os povos coloniais terão de esperar mais alguns séculos para que se lhes reconheça esse direito”.
E, mais adiante, António Aniceto Monteiro diz que “o artigo 6º (...) usa o tom dum patrão a falar para um escravo”, para, depois, concluir do seguinte modo:
“sobre o problema da autodeterminação dos povos coloniais não pode haver nenhuma espécie de reticências. Depois de uma política de opressão, escravidão e extermínio que durou séculos o governo iniciou actualmente uma guerra de extermínio em Angola e outras colónias, que é necessário condenar nos termos mais enérgicos apoiando os povos coloniais na sua luta pela independência nacional.”
A terceira carta, de 29 de Maio de 1961, mostra que a redacção final da referida declaração acaba por ser de acordo com a opinião de António Aniceto Monteiro, porque diz a Manuel Sertório: “pode pôr o meu nome entre o das pessoas que assinam a declaração em questão que consta de três pontos”. A parte final da carta revela que ele, em Bahía Blanca, a milhares de quilómetros dos centros de decisão, via mais longe do que Salazar e os seus acólitos:
“A situação em Angola agrava-se cada vez mais. Os jornais já falam de 25 000 mortos (negros); mobilizaram em Portugal, segundo me informa Ruy, a classe de 58. Estamos frente a uma guerra colonial que só terminará com a derrocada do fascismo e a instauração dum governo provisório revolucionário; a menos que se consiga interromper a guerra pela intervenção da ONU”.
A quarta e última carta, de 6 de Junho de 1961, é, como as outras, muito interessante sob o ponto de vista histórico. Destaco a seguinte passagem:
“Há 11 anos que estou completamente isolado das coisas portuguêsas e só agora, desde que está aqui o Ruy, é que tenho mais algumas notícias, além das que leio em Portugal Democrático. De um modo geral penso que no exterior o que é fundamental é apoiar as directivas da frente interna de resistência.
O Galvão acabou por revelar-se completamente como um autêntico colonialista nos 3 artigos que escreveu num diário de São Paulo. Para mim as reticências que ele punha à primeira redacção da declaração tinham um significado perfeitamente claro e por isso mesmo não quiz assinar a segunda redacção”.
Como se vê, estas quatro cartas de António Aniceto Monteiro não podiam ser mais claras.
E, para terminar, direi que o objectivo principal desta minha intervenção foi o de revelar situações e factos históricos pouco conhecidos relacionados com a vida de António Aniceto Monteiro, prestando homenagem a um homem que, apesar de todas as dificuldades, realizou um trabalho científico notável em vários países, sempre ambicionando viver pacificamente, mas nunca virando a cara à luta.
Vêm-me à memória as palavras que António Aniceto Monteiro escreveu a Guido Beck, do Rio de Janeiro, numa carta enviada em 1948: “Também conheço mal a situação na Argentina. Mas seria possível viver em paz, sem ser perseguido pelas minhas opiniões? Deve responder com precisão a esta pergunta, dizendo o que pensa” [AF-AV]. Soube-se, depois, qual foi a resposta que a realidade lhe deu.
Tal como o fez António Aniceto Monteiro há que lutar contra todos os fatalismos e conformismos. Temos que confiar que a luta pelo direito a viver e a trabalhar em paz tem que ser bem sucedida, porque a conquista desse direito é absolutamente necessária.
Por ocasião do seu centenário aqui fica, pois, nesta intervenção, a minha homenagem ao homem bom que, como poeta, assinava com o pseudónimo de “Adrião de Mossâmedes”.

Agradecimentos: António Brotas, Arquivo Histórico Militar, Colégio Militar, Manuela Cruzeiro (Centro de Documentação 25 de Abril), Universidade de Lisboa.

(*) Departamento de Matemática da FCUL e Grupo de Física-Matemática da Universidade de Lisboa (GFMUL), Complexo Interdisciplinar da Universidade de Lisboa, Av. Prof. Gama Pinto, 2, 1649-003 Lisboa, Portugal. O GFMUL é financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia.
(1) [RP1], pág. 141.
(2) [RP1], págs. 145 e 146.
(3) [RP1], pág. 153.
(4) [RP1], págs. 143, 144, 148, 149,151,153,161,197.
(5) [RP1], pág. 151.
(6) “É um sueco quem tem a fama de ter levado as primeiras espingardas aos Cuanhamas. Karl Johan Andersson, Notes os Travels in South Africa, Londres, 1875” [RP1], pág. 143. Ver também a pág. 151.
(7) [RP1], pág. 233.
(8) [RP1], págs. 155, 162, 172.
(9) [RP1], pág. 190.
(10) [RP1], pág. 192.
(11) [RP1], pág. 197. De facto, a campanha, que era previsto durar seis meses, durou dez anos. Só no ano em que acabou, houve “819 mortes” entre as tropas portuguesas e “teve algo como 18 500 contos de despesas (...), ou seja, dez vezes mais que o orçamento previsto por Eduardo da Costa em 1904 para a ocupação do Cuanhama!” (pág. 251).
(12) José Augusto Alves Roçadas, nasceu em Vila Real, em 6 de Abril de 1865 e morreu em 28 de Junho de 1926.
(13) [RP1], pág. 197.
(14) José Narciso Antunes d’Andrade Júnior, nasceu em 27 de Dezembro de 1854 no Crato, distrito de Portalegre. Foi promovido a “Coronel para o Estado Maior de Infantaria em 12 de Agosto de 1909, colocado no Regimento de Infantaria nº 11, em Setúbal, em 4 de Setembro do mesmo ano, e no D.R.R. nº 5, em Lisboa, como comandante, em 26 de Outubro de 1910. Faleceu em 4 de Novembro de 1926. [ARM2]
(15) É possível ter uma ideia bastante precisa das datas em que o militar esteve em Angola, em serviço, até 9 de Abril de 1912, porque sempre que isso acontecia o seu tempo de serviço de oficial era aumentado de 50%. A ser assim, esteve em Angola: desde 31 de Julho de 1905 a 27 de Dezembro de 1909; de 16 de Dezembro de 1910 até 31 de Julho de 1911; de 28 de Janeiro até 9 de Abril de 1912. Consequentemente, não esteve, em serviço, em Angola: de 28 de Dezembro de 1909 a 15 de Dezembro de 1910 e de 1 de Agosto de 1911 a 27 de Janeiro de 1912. Não se percebe bem qual era a situação do tenente Monteiro no período que vai de 10 de Abril a 31 de Julho de 1912. Até ao final de 1912, o seu tempo de licença registada foi de 270 dias e o seu tempo de licença por motivo de moléstia e de tratamento nos hospitais foi de 458 dias.
(16) Em 1904 António Ribeiro Monteiro pediu autorização para se candidatar a um concurso para “professores do magistério secundário”. Tinha habilitação para ser “instrutor de ginástica” e é possível que, em 1912 pudesse ensinar, também, outras matérias. Assim, não é de excluir que tivesse sido professor, em Mossâmedes, no ano escolar de 1912-1913.
(17) No caso do tenente Monteiro está todo escrito pelo seu punho, mas havia um formulário impresso que, noutros casos, os militares só tinham que assinar. Foi o caso do coronel José Narciso d’Andrade em 1912 [ARM2].
(18) [RP1], págs. 234-237.
(19) António Júlio da Costa Pereira de Eça, nasceu em 1852 e faleceu em 1917. Em 1914 foi Ministro do Exército.
(20) [RP1], pág. 240.
(21) João Ortigão Peres nasceu em 13 de Março de 1872 em Alcantarilha, Algarve. Foi promovido a Major em 30 de Março de 1912. Em 5 de Março de 1815 partiu para Luanda como Chefe do Estado Maior do General Pereira de Eça. Foi promovido a Tenente-Coronel em 24 de Julho de 1915. Em 9 de Janeiro de 1917, foi nomeado adido militar junto da Legação Militar de Portugal em França, e foi nessa qualidade que escreveu o atestado sobre a morte do tenente Monteiro. Faleceu em 15 de Março de 1918. [ML]
(22) [RP1], págs. 256-259.
(23) “Quanto aos nómadas Cuvales (do grupo dos Hereros), movendo-se entre o Sul e o Centro de Angola, embora em rigor se não possa falar de resistência por parte de povos errantes como eles, teriam em 1940-1941, quinze anos depois dos últimos tiros da pacificação na Lunda, o privilégio de servir de caça numa batida mais que duvidosa” [RP1], pág. 143.
(24) [RP1], pág. 241.
(25) [RP2], contracapa e [RP1], pág. 241.
(26) [RP1], pág. 264.
(27) Ver [PM] ou [MND].
(28) A acusação de “traição à pátria” nunca foi provada em tribunal e não foram condenados por esse motivo. Ver [PM].




Referências
[AAM-CM] Processo individual de António Aniceto Monteiro, Colégio Militar, Lisboa.
[AAM-RUL] Processo individual de António Aniceto Monteiro, Reitoria da Universidade de Lisboa.
[AAM-MS] Cartas entre António Aniceto Monteiro e Manuel Sertório. Espólio de Manuel Sertório, Centro de Documentação 25 de Abril, Coimbra.
[AF-AV] Augusto J. S. Fitas e António A. P. Videira: Cartas entre Guido Beck e cientistas portugueses. Lisboa, Instituto Piaget (2004).
[ARM1] Processo individual de António Ribeiro Monteiro, Arquivo Histórico Militar, Lisboa.
[ARM2] Processo individual de José Narciso Antunes d’Andrade Júnior, Arquivo Histórico Militar, Lisboa.
[ARM3] Processo individual de José Augusto Alves Roçadas, Arquivo Histórico Militar, Lisboa.
[JSP] João Sarmento Pimentel, Memórias do Capitão. Editorial Inova, Porto, 1974.
[ML] Miguel Lomelino, Biografia do meu Bisavô Paterno, Coronel João Ortigão Peres.
http://miguel.lomelino.googlepages.com/biografiajop.pdf
[MND] Nota oficiosa do MND, “Jornal de Notícias” de 1 de Agosto de 1974.
[PM] Paulo Morgado, “A Poesia está na Rua” com o Professor Ruy Luís Gomes e os seus Companheiros. Campo das Letras, Porto, 2007 (em edição).
[RLG] Ruy Luís Gomes, Curriculum Vitae político. Espólio arquivado na FCUP.
[RP1] René Pélissier, História das Campanhas de Angola – Resistência e Revoltas 1845-1941, 2º vol. Editorial Estampa, Lisboa, 1997.
[RP2] René Pélissier, As Campanhas Coloniais de Portugal – 1844-1941. Editorial Estampa, Lisboa, 2006.

A guerra em Angola "perdeu-se na cabeça" . René Pélissier : "Falar de cinco séculos de colonização portuguesa é uma burla! "René Pélissier

É um dos mais importantes historiadores estrangeiros da moderna colonização portuguesa. Estudou a conquista militar de Angola, Moçambique, Guiné e Timor. A viver perto de Paris, tem uma biblioteca de 12 mil volumes e gostaria de escrever uma bibliografia crítica de tudo quanto foi publicado.

José Pedro Castanheira (texto) e Tiago Miranda (fotos)
René Pélissier é um dos raros 
historiadores não lusófonos com cinco livros sobre Portugal traduzidos 
em português
René Pélissier é um dos raros historiadores não lusófonos com cinco livros sobre Portugal traduzidos em português
Convidado a participar num colóquio no ISCTE, em Lisboa, o historiador francês René Pélissier deu uma longa entrevista ao Expresso.
O seu último livro 'a solo' chama-se 'Timor em Guerra. A Conquista Portuguesa?
Os portugueses têm uma história romanceada da colonização portuguesa em Timor. Teriam sido, no essencial, a igreja e os missionários os únicos a contribuir para a implantação da colonização portuguesa.
O que não é verdade!
Pois não. Foi uma conquista brutal, efetuada pela maior parte dos governadores e sobretudo pelo célebre José Celestino da Silva, que foi um homem excecional na história colonial portuguesa.
Foi uma exceção em todo o império?
Creio que sim. Não tenho a nomenclatura de todos os governadores de todas as colónias, mas foi o homem que esteve no poder em Díli durante mais tempo (14 anos). Tinha a proteção do rei D. Carlos (até ao seu assassínio), mas quando foi da sucessão foi afastado do poder por D. Manuel. Tinha demasiados inimigos. Era um homem ativo, que tinha como principal objetivo na vida entrar na História como o primeiro governador de Timor a ser dono de todo o território. Conseguiu-o por meios extraordinariamente brutais.

'Cortar as cabeças contra os maus espíritos'


Sanguinários?
Sim. Tinha poucos soldados moçambicanos mas reuniu em 24 campanhas 60 mil timorenses e mandou cortar muitas...
... cabeças?
Exato. Não foi mais sanguinário que outros governadores, mas para conseguir a adesão dos "arraiais" - as tropas supletivas timorenses -, tinha de lhes dar qualquer coisa. Como não tinha dinheiro, havia que dar uma compensação material - o direito de se apoderar dos cavalos, porcos, vacas, etc. -, mas também mística, digamos. Isto é: cabeças cortadas, que para os guerrilheiros constituíam uma espécie de defesa sobrenatural da sua própria aldeia. Cortavam as cabeças e encastravam-nas nas tranqueiras - uma defesa mágica contra os maus espíritos e contra os inimigos que, por sua vez, também queriam cortar as cabeças dos habitantes da aldeia. Era uma espécie de salvaguarda. José Celestino da Silva era um que também ambicionava enriquecer.
Conseguiu-o?
Sim. Quando havia uma vitória num reino com muito terreno para o café, ele requisitava os ditos terrenos para lançar uma ou várias companhias agrícolas, de que era sócio. Com os vencidos não decapitados, utilizava o trabalho forçado. Transformava-os praticamente em escravos, que cultivavam café para si, a troco de uma pequena 'gorjeta'.
Onde descobriu essas histórias?
Não foi uma verdadeira descoberta. Os raros especialistas de Timor já a conheciam. Encontrei isso nos testemunhos publicados pelos próprios governadores. Em 1896, o primeiro relatório sobre uma campanha em Timor, conta como mataram cerca de 700 pessoas em 1895 - cortando as cabeças. É um livro trágico, que não esconde a verdade, publicado para contrabalançar o prestígio mediático de Mouzinho de Albuquerque, que era o grande herói de Moçambique. Julgo que aceitaram publicar os relatórios dos oficiais de José Celestino da Silva, que era o novo e longínquo herói de Timor, para mostrar que nos confins do Império também havia um homem que tinha a situação militar bem controlada. A conquista continuou ainda em 1900, contra o maior regulado que era o Manufai, onde estava a alma ou o coração da resistência à colonização. Foi uma conquista muito dura, primeiro contra o liurai D. Duarte, e depois contra o seu filho D. Boaventura, que se tornou o pior inimigo dos portugueses durante a I República. Foi uma guerra atroz. Oficialmente houve 3424 mortos. Não é verdade - calculo que tenham sido 15 a 25 mil timorenses mortos, seja em combate, seja à sede, seja sobretudo pela cólera. A conquista acabou em 1913 pelo esmagamento de todas as chefias. A colonização de Timor não tem nada a ver com a mitologia do Estado Novo, nem com a de agora. É preciso olhar a história colonial com os olhos bem abertos.

O primeiro a estudar a moderna colonização portuguesa


Não sou um adversário da 
colonização; sou, isso sim, um adversário do mito da colonização, o que é
 diferente
Não sou um adversário da colonização; sou, isso sim, um adversário do mito da colonização, o que é diferente

Timor foi a última colónia que estudou?
Foi. Quando comecei, fui o primeiro investigador francês a estudar a colonização portuguesa moderna, posterior aos Descobrimentos, à Índia e ao Brasil...
Porque escolheu Portugal?
Porque gosto das descobertas pessoais. Tenho uma alma de descobridor, de explorador. Cheguei um pouco tarde: tudo já fora descoberto geograficamente. Mas descobri um mundo que estava completamente fechado aos não-lusófonos pela propaganda, que exaltava os cinco séculos de colonização portuguesa.
O que está longe de ser verdade.
Justamente. Mas era preciso prová-lo e demonstrar. Tinha que encontrar uma chave para destruir o mito. E a única chave que estava em meu poder era fazer a história militar da conquista. Avancei num terreno completamente ignorado pelos não-lusófonos.
Creio que começou por Angola.
Em 1965. Angola era difícil para mim.
Veio a Lisboa?
Sim. O Arquivo Histórico-Ultramarino não estava aberto para os que queriam estudar a época mais recente. Mas não mo disseram frontalmente. Como eram muito hábeis, o diretor disse-me que podia vir ao Arquivo consultar unicamente os livros! Só que, para isso, podia ir a Sociedade de Geografia... Não pude fazer nada e expliquei na minha tese que não tivera acesso ao Arquivo Histórico Ultramarino. Mas os militares deram-me acesso aos arquivos militares na medida em que iam sendo desclassificados. Aproveitei e encontrei coisas que ninguém tinha encontrado antes de mim, como o fim da conquista dos Dembos.

Os relatórios de Paiva Couceiro e João de Almeida 


Teve que aprender português?
Sim, em Portugal. Nunca aprendi propriamente. Comecei por ler e conversar. E conversando apanhei um pouco da língua. Os militares da época da conquista do Terceiro Império escreviam e publicavam muito. Foi a minha salvação.
Literatura de memórias e das campanhas.
Exatamente. Não apenas Mouzinho de Albuquerque, mas António Enes e muitos outros. A conquista não foi propriamente um caminho que levasse à santidade: não havia apenas rosas nessa história. Em 1904, mesmo em 1907, a Angola realmente portuguesa representava no máximo 1/10 do território atual. E isso não era confidencial. Estava escrito em "Angola Dois anos de Governo", do governador Paiva Couceiro, um documento notável. João de Almeida, que foi o seu braço direito, contou as suas próprias campanhas. Fez o seu trabalho de conquistador, normal na época. Se empreendeu, a partir de 1845, 180 operações militares, isso significava que a colónia não estava pacificada. Esta foi a chave que demonstrou a falsidade do slogan "Cinco séculos de colonização portuguesa em Angola". Antes de meados do sec XIX não havia propriamente dito uma colonização portuguesa, salvo em Luanda, no corredor do Cuanza até Malange, em Benguela, Moçâmedes, Novo Redondo e pouco mais. Todo o resto tinha de ser conquistado.
Visitou Angola?
Não sou um historiador militante ou partidário de uma causa - nenhuma. Nada disso. Obtive licença para visitar Angola em 1966. Já tinha escrito pequenas coisas e viram que não era um adversário da colonização. Realmente não sou. Sou, isso sim, um adversário do mito da colonização, o que é diferente. Visitei praticamente 13 distritos (em 15 que havia na época), vi a situação, que era favorável a Portugal do ponto de vista económico. É incontestável: Angola nunca foi tão próspera e rica como na véspera da morte da colonização portuguesa.

'Não partilho do entusiasmo por Mouzinho de Albuquerque'


Gostaria de fazer uma coisa 
útil para as gerações futuras: uma bibliografia crítica de tudo quanto 
foi publicado em livro sobre Angola, Moçambique, etc., a partir de 1840
Gostaria de fazer uma coisa útil para as gerações futuras: uma bibliografia crítica de tudo quanto foi publicado em livro sobre Angola, Moçambique, etc., a partir de 1840

Creio que é uma verdade indiscutível.
Indiscutível. Na minha opinião (que não é a opinião de um propagandista e que expus no livro "História de Angola", com Douglas Wheeler), a situação era instável mas provisoriamente favorável aos portugueses. Fiz a minha tese de doutoramento em dois volumes sobre Angola. O primeiro é sobre a conquista, que foi traduzida para português pela Estampa, "História das Campanhas de Angola". O segundo volume, com 700 páginas, ainda não foi traduzido; chama-se "La colonie du Minotaure". E o Minotauro é a colonização portuguesa que devora as suas vítimas africanas. Como sou um homem que ama a descoberta, com alma de explorador, e não queria ficar a vida toda a estudar Angola, passei a Moçambique. Comecei em 1977. A conquista de Moçambique são essencialmente as 150 campanhas ou operações mais importantes nos séculos XIX ou XX - o que significa que não se pode falar de "cinco séculos de colonização". Seria uma burla!
A mesma tese de Angola...
É preciso ser verdadeiramente cego, ou não querer olhar a verdade de frente. Terminei Moçambique em 1983 e continuei pela Guiné. Mais pequena, mas um país relativamente mais difícil de conquistar, em razão da geografia, do clima e da resistência dos guineenses, gente que não estava disposta a submeter-se sem ser vencida.
O grande herói da colonização de Angola foi Paiva Couceiro?
Não há verdadeiramente um herói. O melhor organizador da conquista durante a Monarquia foi Paiva Couceiro e o seu braço-direito, João de Almeida. A conquista do Sul foi "épica" entre 1885 e 1915.
E em Moçambique?
Não partilho do entusiasmo por Mouzinho de Albuquerque. Em Angola, não havia a premência de Moçambique, a braços com as ambições de Cecil Rhodes, dos britânicos e até dos alemãos, que olhavam, a partir do norte, o que podiam apanhar dos portugueses.

A pressão de Cecil Rhodes sobre Moçambique


Em Angola não havia esse tipo de problemas.
Havia o problema dos alemães e o seu domínio do Sudoeste africano. Mas a pressão alemã era inferior à de Cecil Rhodes, que queria conquistar a Rodésia e aceder ao mar através da Beira. Quem teve a visão mais clara foi António Enes. Enes era um civil: era um autor dramático, foi diretor da Biblioteca Nacional em Lisboa e ministro, e tinha uma conceção relativamente eficaz sobre a organização da conquista. Não tinha poder militar, mas encontrou entre os seus oficiais intermédios gente corajosa e soube ampliar exageradamente a ameaça do Gungunhana. O Gungunhana era um imperialista africano - não há que ter vergonha em dizê-lo. Agora é um herói em Moçambique - cada país encontra os heróis onde pode. Mouzinho de Albuquerque conseguiu o feito apreciável de se apoderar da pessoa de Gungunhana sem resistência, em Manjacaze. Isso deu confiança aos oficiais portugueses, que se batiam com poucos meios e homens e com pouco espírito de organização. Perceberam que, uma vez vencido o Gungunhana, podiam apoderar-se de todo Moçambique - e fizeram-no, lentamente. No início da I Guerra Mundial, o essencial de Moçambique estava conquistado, exceto a parte Norte, os atuais Cabo Delgado e Niassa, que pertenciam a uma sociedade privada comercial, uma pura sociedade de predadores. Os acionistas eram sul-africanos, alemães, franceses, etc. e apenas o presidente era português.
Seguiu-se o estudo da Guiné...
Cheguei à Guiné com muita dificuldade. Porque é muito complicada, ao lado de Angola...
Mais difícil que Angola?
Sim. Quando estudei Angola, tinha uma vantagem: salvo no Sul e no Noroeste, não havia muitas relações (em termos de pesquisa) com os territórios vizinhos. Enquanto a Guiné está completamente rodeada por territórios franceses, pelo que era necessário absorver a história dos povos que também habitam o Senegal e a Guiné Conakry. Fiz, assim, o conjunto das três colónias continentais que nunca tiveram cinco séculos de colonização, que existiu unicamente em Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, e Goa e territórios adjacentes. E mesmo Goa estava dividida, até à véspera da conquista indiana, em duas partes: as velhas conquistas (um território muito pequeno) e as novas conquistas, feitas no fim do Sec. XVIII. Só me faltava a última colónia onde houve grandes combates: Timor, que acabei em 1996. Depois tive problemas de saúde e pessoais, que me obrigaram a trabalhar mais lentamente. Estabeleci, depois, em termos cronológicos, uma síntese das quatro histórias separadas. Associando as várias conquistas, demonstrei que no principio do sec. XX Portugal esteve em guerra permanente e simultânea em vários territórios. O que impressiona, uma vez que o país era pobre - o Portugal do fim da monarquia não se podia comparar à Bélgica do rei Leopoldo. Portugal é, indiscutivelmente, o país que mais se bateu, e mais tardiamente, para obter o seu terceiro Império. O que foi trágico para Portugal é que, à conquista, não se seguiu uma administração estável. Faltou dinheiro, homens e espírito de continuidade. E isso custou muito caro: era preciso reconstruir perpetuamente. Norton de Matos escreveu, num dos seus relatórios, que "não sabemos colonizar..." Exagerava um pouco, mas havia grande parte de verdade nisso. Fez falta uma continuidade do esforço colonial.

'A República liquidou as elites africanas'


E a República?
Coitada! Continuou a mesma política, não tendo sido nem mais gentil nem mais reformadora... Liquidou as elites africanas - não no sentido de as ter morto, mas abafou os primeiros movimentos nacionalistas.
Visitou todas as colónias?
Visitei Angola três vezes - a última, em 1973. Não fiquei apenas em Luanda; fui a Teixeira de Sousa, Cazombo, Gago Coutinho, Cuito Cuanavale, Mavinga, Serpa Pinto...
Vejo que tem uma memória fantástica...
Um pouco... Visitei todos os distritos, menos dois: o Zaire e o Kuanza-Sul.
Quem financiou?
Em 1966, a Junta de Investigações do Ultramar, dirigida por um homem notável: Carlos Cruz Abecassis. Foi honesto comigo e eu com ele. Escrevi um livro que se chama "Explorar. Voyages en Angola et autres lieux incertains", em que descrevo a visita à prisão de S. Paulo, em Luanda, com São José Lopes, o diretor da PIDE em Angola.
Conheceu-o?
Fui até lá. Fez-me visitar de noite a sua prisão que estava vazia.
Vazia?
Não sou ingénuo. Se há historiador ingénuo, não sou eu. Estava quase vazia. Fui depois ao campo de concentração de Missongo; vi os prisioneiros, falei com eles, fiz um pequeno inquérito sobre as origens religiosas e políticas; os portugueses tinham sido astutos e hábeis, tinham misturado os FNLA com os MPLA para ter 'bufos' dos dois lados... Não se deve desprezar a astúcia dos portugueses. Há autores estrangeiros que o fazem. Eu não. É preciso reconhecer qualidades aos portugueses. Ninguém consegue aguentar três guerras durante 14 anos, em dois milhões de quilómetros quadrados insalubres, sem ter uma resistência fora do comum. Os seus adversários, salvo o PAIGC, não estavam tão bem organizados nem eram tão numerosos como a FLN argelina contra a França - mas, apesar disso, é preciso tirar-lhes o chapéu. E eu tiro-o. Mas eles estavam militarmente num beco sem saída.

Reportagem mal-tratada pelo 'Le Monde'


Visitou Moçambique?
Duas vezes. Paguei uma vez, mas não vi muita coisa, fui apenas à Beira, Lourenço Marques e Gaza. A segunda foi em 1973; paguei a viagem até África e na Beira fiquei a cargo das autoridades militares e da administração. Visitei Tete (pouco depois do escândalo do massacre de Wiriamu), Metangula, Vila Cabral, Nangade (no Rovuma). Escrevi um artigo para o "Le Monde" sobre Nangade, que aliás foi mal-tratado por um jornalista da redação, que cortou o que eu dizia de bem dos portugueses, acusando-me de ser um propagandista da causa colonialista...
Visitou a Guiné?
Nunca. O que era normal. Gosto dos jornalistas, porque põem perguntas embaraçosas. E na Guiné sabiam que eu poria questões muito embaraçosas, a que não poderiam responder sem violar completamente a verdade.
Visitou algum destes países depois da independência?
Nunca. Nunca fui à África lusófona depois da independência. Fui a Goa por minha conta em 1979 e verifiquei que estava marginalmente mais desenvolvida que no tempo dos portugueses.
Todos os seus livros estão traduzidos para português?
Não e isso é uma pena. Tenho cinco livros e meio traduzidos para português (ao todo, cerca de 3500 páginas). Sou provavelmente o único historiador estrangeiro a ter cinco livros traduzidos em português: "História das campanhas de Angola", "História de Moçambique", "História da Guiné", "Timor em Guerra" e "As campanhas coloniais de Portugal" (que é a síntese dos quatro). E escrevi, juntamente com Douglas Wheeler, "História de Angola".
Que foi o último a ser traduzido.
Sim. O "Minotauro" nunca foi. Procuro um editor, mas são mais de 700 páginas. Não é apenas a guerra em 1961, é também a administração portuguesa nas véspera das revoltas.

Recensões sobre livros publicados em 52 países


Você é conhecido por ser um máquina de ler...
Sou um explorador do passado.
Quantos livros leu sobre as colónias portuguesas?
Sobre Moçambique, mais ou menos mil livros e artigos; 1100 sobre Angola, pelo menos 400 sobre a Guiné e mais de 300 sobre Timor.
Fez recensões sobre todos esses livros?
Não. Li e utilizei-os para compor os meus próprios livros. Além disso, publico recensões de livros recentes sobre a colonização portuguesa moderna (os cinco PALOP e Timor) e um pouco sobre Goa e Macau. Publiquei mais de três mil recensões desde 1964. É um serviço de informação para o público.
Publicou muitas recensões na "Análise Social". Porque acabou?
Não fui eu que interrompi a minha colaboração. Gostaria bem de a manter. A revista mudou de programa, depois de ter publicado 27 crónicas bibliográficas minhas. E a tradução custava dinheiro!
Em que línguas lê?
Francês, português, espanhol, catalão, italiano, inglês, alemão, holandês (aprendi por causa de Timor) e um pouco de dinamarquês. Quando não leio uma língua, peço ao autor que me envie um resumo, o que já aconteceu com livros escritos, por exemplo, em finlandês, checo e polaco. O mais exótico que recensei foi o primeiro livro em hebraico sobre Angola, da primeira embaixadora de Israel em Luanda.
Escrito em hebraico?
Eu não leio e pedi à autora que me desse um apanhado. Tenho recensões sobre livros publicados em 52 países - na Índia, Nicarágua, Colômbia. Rússia, Roménia, no país basco (sobre missionários em Angola), etc.. É uma cobertura internacional... Publiquei parte dessas recensões num livro enorme (748 páginas) chamado "Angola, Guinées, Mozambique, etc. Una bibliographie internationale critique (1990-2005)". Às vezes muito crítica.

Uma biblioteca com 12 mil títulos 


Está a escrever para revistas portugueses?
Tento, mas é muito difícil. Enquanto crítico, preciso que os meus trabalhos sejam publicados rapidamente. É a mesma atitude que um jornalista: é preciso que saia rápido, atendendo às motivações do editor.
Ouvi-o falar sobre Angola. O que contou foi uma autêntica reportagem jornalística...
Sim. Vocês fazem o mesmo trabalho que eu, mas com uma faca na garganta: o tempo e, por vezes, o chefe-de-redação. Eu tenho bastante mais tempo e menos constrangimentos.
O historiador também é um jornalista?
Não. Eu estou na fronteira. Sou um homem curioso e sistemático. Em França, um grande jornalista é o que trabalha num grande jornal. Eu não trabalho em nenhum jornal e só o faço para pequenas revistas confidenciais, que geralmente não interessam aos editores comerciais. Pelo que sou eu que todos os anos compro uma centena de livros para a minha biblioteca. Além dos livros enviados para a comunicação social, que analiso sempre.
Quantos volumes tem?
Doze mil. Incluindo livros sobre a Índia e Macau e sobre os territórios espanhóis de África, área de que também sou especialista. Unicamente para o período 1840-2010.

'Um bom livro é o que me traz coisas novas'


Tem esses livros todos em sua casa?
Sim, mas não há mais espaço! Gostaria de fazer uma coisa útil para as gerações futuras: uma bibliografia crítica de tudo quanto foi publicado em livro sobre Angola, Moçambique, etc. a partir de 1840. Mas isso custa uma fortuna.
Qual foi o melhor livro que leu sobre as colónias portuguesas?
É uma escolha difícil. Talvez o do americano John Marcum, sobre Angola, em dois volumes e alguns do grande Charles Boxer até 1825.
E de autores portugueses?
Há muitos, visto que também leio romances, na condição que falem da situação e do drama colonial. Enquanto historiador, destaco o livro de António Monteiro Cardoso, "Timor na Segunda Guerra Mundial: O Diário do Tenente Pires". Gosto também de um precursor que escreveu a primeira história séria de Angola, chamado Ralph Delgado; era um autor colonialista, mas com visão de historiador e fez um trabalho de pioneiro. E eu respeito os pioneiros.
O que é, para si, um bom livro?
Se um livro me traz coisas novas, considero-o bom; se me traz muitas coisas novas, é excelente, qualquer que seja a tendência política do autor. Como não tenho nenhuma opção política, se fizer bem o seu trabalho, não tem nenhuma importância que seja de esquerda ou de direita. Desde que faça bem o seu trabalho...
Versão integral da entrevista publicada no Expresso de 31 de Julho de 2010, Caderno Atual, páginas 38 a 40



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Publicado a 5 de Jan de 2010 08:08 por Humberto Silva ‎(Associação Apoiar)‎
A guerra colonial em Angola "perdeu-se na cabeça" do Exército português, afirmou o historiador francês René Pélissier à Agência Lusa.
"Os soldados eram bons. Foram os oficiais que falharam",
resumiu o historiador, entrevistado pela Lusa perto da sua residência, em Villennes-sur-Seine, a oeste de Paris.
René Pélissier, com Douglas Wheeler, é co-autor de "História de Angola", uma obra publicada originalmente em 1971 e que chega agora às livrarias portuguesas pela editora Tinta da China, em tradução revista e actualizada.
"O descalabro militar não chegou por uma derrota, que sabemos hoje que não aconteceu. Chegou pela fadiga e pelo sentimento de inutilidade" do Exército, constituído, na maioria, por efectivos metropolitanos", sublinha o historiador francês.
"Portugal tinha um exército fatigado na cabeça e que se sentia desligado das preocupações dos colonos, que lucravam com a situação para prolongar o florescimento económico", explica René Pélissier.
No ocaso imperial português em Angola, realça o historiador, vão encontrar-se duas linhas divergentes, a de "uma descolagem económica falaciosa e a do apoio reticente do Exército aos colonos".
"Portugal protagonizou um episódio sem paralelo na história das potências coloniais europeias, em que é o Exército a descolonizar, apesar dos colonos", acrescentou Pélissier.
"Angola não era a Argélia. Foi aliás o contrário", explica o historiador. "A catástrofe iminente era na Guiné", contrapôs.
"O PAIGC era militarmente sério. Sabia bater-se e era, às vezes, melhor do que o Exército português, nomeadamente em artilharia, em abastecimento e em logística", afirma o historiador.
"Nos últimos anos - e apesar de António de Spínola -, a guerra estava perdida para Portugal, que só ganhava quando recorria às tropas especiais com fuzileiros e comandos", recorda.
Pelo contrário, em Angola "só o MPLA tinha uma visão global e era o inimigo essencial da situação colonial", analisa René Pélissier.
Para o especialista francês, a "tragédia" e o "paradoxo" português de 1975 em Angola, que abriu espaço para uma guerra civil violenta e longa, começou em 1961, com "um erro magistral" de Salazar.
"Quando a guerra rebentou, o regime respondeu com 'rapidamente e em força para Angola'", lembra René Pélissier.


"Salazar não decretou o recrutamento geral na colónia, pela razão simples de que o império não confiava nos colonizados", diz o historiador.
"Se o tivesse feito, pagando bem aos soldados africanos, não duvido de que teria esvaziado, à partida, uma base enorme de recrutamento dos três movimentos nacionalistas angolanos", acrescenta.
O historiador sublinha que, até 1960, Portugal tinha um contingente total de cerca de oito mil soldados em Angola, "oitenta por cento deles africanos".
"Ao trazer portugueses da Metrópole para combater, a partir de 1961, o regime europeizou as perdas e desmoralizou as tropas", sublinha o historiador francês.
Pélissier nota, a propósito, que o império não soube tirar lições da sua própria História.
"No final do século XIX, em Timor, havia só entre 200 a 300 soldados africanos, mas o governador Celestino da Silva conseguiu mobilizar sessenta mil timorenses, em 25 campanhas, para 'pacificar' a colónia", recorda.
"O segredo do 'grande vencedor Celestino' foi a mobilização dos 'arraiais', as chamadas tropas de segunda linha, algo que não se fez em África", conclui René Pélissier.


Colonos os bodes expiatorios da colonização?


René 
Pélissier, historiador francês, destaca papel de Amílcar Cabral e dos 
cabo-verdianos na Guiné
René Pélissier



"Primeiro há que destruir o mito dos cinco séculos de colonização portuguesa..."

"Salvo nos corredores angolanos que vão de Luanda a Malange e em Moçambique, ao longo do Vale do Zambeze, e nas ilhas, que foram as únicas terras onde houve uma impregnação contínua durante séculos, não havia [colonização]. Uma colonização precisa de colonos. Havia nove mil portugueses em toda a Angola no início do século XX e a maioria estava em Luanda, em Moçâmedes, Huíla e em alguns portos como Novo Redondo e Ambriz. E mais nada."


"A colonização ainda deve ser a explicação para o que se passa nesses países ou isso já não faz sentido?

Não vou incriminar a colonização para explicar a situação actual. Podia ser um bode expiatório durante, talvez, 20 anos, mas houve tantas evoluções negativas... Há um aspecto que deve ser encarado, e não apenas na colonização portuguesa, que foi a falta de preparação das elites. Mas isso já não pode ser um bode expiatório. 

"


Passagens de uma entrevista
João Manuel Rocha/Público


Ver tambem aqui:



http://www.dn.sapo.pt/2007/04/02/artes/o_frances_uma_paixao_pela_africa_por.html