domingo, 26 de dezembro de 2010

Postais e fotos da Angola colonial

Dande. 
Fazenda "Gratidão". Uma moenda de canna. Trapiche. -- 
Plantation "Gratidão". Sugar-cane mill. -- Plantage 
"Gratidão". Zuckerrohr-Walzwerk.
Dande.Fazenda "Gratidão". Uma moenda de canna.  (1912)

Rio 
Bengo. Uma caçada ao jacaré, a 25 kilometros de Loanda. -- Bengo River. 
Alligator-hunting, near Loanda. -- Bengo-Fluss. Krokodiljagd in der Nähe
 Loanda's.
Rio Bengo (Angola). Uma caçada ao jacaré, a 25 kilometros de Loanda. (1912) 

Interior
 de Loanda. Mercado no Golungo Alto. -- Hinterland of Loanda. Market in 
Golungo Alto. -- Hinterland von Loanda. Markt in Golungo Alto.
Interior de Loanda. Mercado no Golungo Alto. -- Hinterland of Loanda.  (1912) 

Interior
 de Loanda. Costumes gentilicos. (Gingas). -- Hinterland of Loanda. 
Natives. -- Hinterland von Loanda. Eingeborene.
Interior de Loanda. Costumes gentilicos. (Gingas). 
(1912) 

Fonte:   A colonização de Angola / por J. Pereira do Nascimento e A. Alexandre de Mattos.



sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

1825. Memórias contendo a biographia do vice almirante Luiz da Motta Feo e Torres ... Por João Carlos Feo Cardoso de Castello Branco e Torres

Porque essas honras vãs, esse ouro puro ,
Verdadeiro valor não dão á gente :
Melhor he merece-los sem os ter,
Que possui-los sem os merecer.

Camoes, Lut., cant. IX , est. xcm


DISCURSO PRELIMINAR.

 Estas Memorias que dou á luz, tres objectos tenho em vista.

Na Parte primeira, publico a Biographia do meu adorado Pai, o Senhor Luiz da Motta Feo e Torres, provando depois os seos serviços, com documentos authenticos. Perpetuar a memoria dos Pais, he hum dever sagrado dos filhos em geral e muito mais rigorosa se torna esta obrigaçao, quando aquelles á maneira do meu, trabalharão toda a sua vida para lhes adquirir honra e fama. Para satifazer pois taó doce encargo, escolhi o meio que me pareceo mais proprio , qual foi o de patentear pela imprensa, a Biographia, ou hum pequeno esboço da vida e servicos do meu referido Pai, ec. Algum tanto prolixo fui, nos detalhes genealogicos da sua familia, mas para assim o ser, tive motivos particulares.

XII

A Historia das acçoes memoraveis dos Governadores e Capitaes Generaes de Angola, form. a Parte segunda.
Esta Memoria he escrita com imparcialidade e verdade, por pessoa que tev. franqueza para extrahir do Cartorio da Secretaria daquelle Governo, todos os papeis e documentos que necessitava. Com ella fui presenteada e fazendo-a imprimir, julgo render hum serviçíco á minha Patria, em tirar do esquecimento aquelle; dos seus valentes Filhos, que por combater com Negros, com molestias e privaçoes de todas qualidades, e por se distinguirem em Paizes menos conhecidos, nao deixa por isso, de serem dignos de hombrear com seus Irmaos de armas , que taõ celebre fizeraõ o Nome Portuguez, no Orbe inteiro.

Trata a Parte terceira, da Descripçao Geographica e Politica, dos Reinos de Angola e de Benguella e das suas Conquistas, a qual he tirada dos Mappas Estatisticos e de outras peças, que paraõ na minha maõ e cuja veracidade e exactidao eu affianço. Com prazer offereço á vista da minha Naçaõ, o quadro das riquezas presentes e futuras, desta soberba Colonia : oxalá! que os Portuguezes, tirassem della o proveito de que he susceptivel e que por este modo agradecessem á Providencia, o ter-lhes dado em todas as partes do Mundo, o melhor e o mais delicado quinhao.

XIII

O estilo destas Memorias, naõ he do melhores, o que pouco ademirará aquém souber, que eu naõ sou homem de letras : he tambem provável que na Orthographia, hajaõ muitos erros (por ser a obra impressa em Officina estrangeira, aonde naõ entendem Portuguez), porem o Leitor instruido , os corrigirá quando os encontrar.


O REDACTOR

. Por João Carlos Feo Cardoso de Castello Branco e Torres

Angola. Governadores: 1575 a 1975

Captain-governor Donatário
 1 Feb 1575 – Oct 1588     Paulo Dias de Novais               (b. c.1510 - d. 1588)
Governors
Oct 1588 - 1590            Luís Serrão                        (d. 1590)
1590 - Jun 1592            André Ferreira Pereira
Jun 1592 – 08 Dec 1594     Francisco de Almeida
1593 – Aug 1595            Jerônimo de Almeida
Aug 1595 - 1602            João Furtado de Mendonça
1602 - 1603                João Rodrigues Coutinho            (d. 1603)
1603 - 1606                Manuel Cerveira Pereira (1st time) (d. 1626)
1606 - 1607                Paio de Araujo de Azevedo
Sep 1607 - 1611            Manuel Pereira Forjaz              (d. 1611)
1611 - 1615                Bento Banha Cardoso
1615 – 11 Apr 1617         Manuel Cerveira Pereira (2nd time) (s.a.)
11 Apr 1617 – Nov 1617     Antonio Gonçalves Pita 
Nov 1617 - 1621            Luís Mendes de Vasconcelos
1621 - 1623                João Correia de Sousa              (d. 1626)
1623                       Pedro de Sousa Coelho
1623 - 1624                Simão de Mascarenhas
1624 -  4 Sep 1630         Fernão de Sousa                    (b. c.1570 - d. 16..)
 4 Sep 1630 - 1635         Manuel Pereira Coutinho
1635 - 18 Oct 1639         Francisco de Vasconcelos da Cunha
18 Oct 1639 - Oct 1645     Pedro César de Meneses             (d. 1674)
                             (from 1641, in opposition to Dutch rule)

Dutch Directors
1641 - 1642                Pieter Moorthamer (Mortamer)
1642 - 1648                Cornelis Hendrikszoon Ouman
Governors
Oct 1645 - May 1646        Francisco de Souto-Maior
                             (in opposition to Dutch rule)
May 1646 - 24 Aug 1648     Triumvirate Junta
                           - Bartolomeu de Vasconcelos da Cunha
                             (chairman of the Junta)
                           - António Teixeira de Mendonça
                           - João Zuzarte de Andrade

24 Aug 1648 - 1651         Salvador Correia de Sá e           (b. 1602 - d. 1688) 
                             Benavides
Oct 1651 - 1653            Rodrigo de Miranda Henriques       (b. 1600 - d. 1653)
1653 - Oct 1654            Bartolomeu de Vasconcelos 
                             da Cunha (acting)
Oct 1654 - 18 Apr 1658     Luís Mendes de Sousa Chichorro     (d. 1658)
18 Apr 1658 - 1661         João Fernandes Vieira              (b. c.1613 - d. 1681)
1661 - 20 Aug 1666         André Vidal de Negreiros           (b. 1606 - d. 1680)
20 Aug 1666 - Feb 1667     Tristão da Cunha
Feb 1667 - 1668            Junta
                           - António de Araujo de Azevedo
                           - Paulo Rebello da Cunha
                           - Roque Vieira de Lima
                           - Paulo Valente
                           - Diogo Vaz Camello 
1668 - 1669                Junta
                           - Thomaz Borges Madureira
                           - Luiz da Silva de Motta
                           - João de Araujo
                           - João Cardozo
                           - Gaspar Zuzarte de Andrade
                           - António Rodrigues de Andrade
1669 - 26 Aug 1669         Junta
                           - João Marques de Almeida
                           - António de Estrada
                           - João de Gouvea
                           - Thomaz Figueira Bultão
                           - Henrique de Mendonça
                           - João Ferreira da Maia
Aug 1669 - 1676            Francisco de Távora, conde de Alvor 
28 Aug 1676 – 11 Sep 1680  Ayres de Saldanha de Sousa e 
                             Meneses
11 Sep 1680 – 12 Sep 1684  João da Silva de Sousa
12 Sep 1684 –  8 Sep 1688  Luís Lobo da Silva
 8 Sep 1688 –  1 Nov 1691  João de Lencastre
 1 Nov 1691 –  3 Nov 1694  Gonçalo da Costa de Alcáçova
                             Carneiro de Menezes
 3 Nov 1694 –  9 Nov 1697  Henrique Jacques de Magalhães
 9 Nov 1697 –  5 Sep 1701  Luís César de Meneses              (b. 1653 - d. 1720)
 5 Sep 1701 - Dec 1702     Bernardim de Távora e Sousa Tavares(b. c.1630 - d. 1702) 
Dec 1702 – 20 Nov 1705     Chamber Senate
20 Nov 1705 –  4 Oct 1709  Lourenço de Almada                 (b. c.1650 - d. 1729)
 4 Oct 1709 – 22 Feb 1713  António de Saldanha de Albuquerque (b. c.1670 - d. 17..)
                             Castro e Ribafria
22 Feb 1713 – 15 Jun 1717  João Manuel de Noronha
15 Jun 1717 – 22 Mar 1722  Henrique de Figueiredo e Alarcão   (b. c.1660 - d. 17..)
22 Mar 1722 – 25 Apr 1725  António de Albuquerque Coelho de   (b. c.1685 - d. 1725) 
                             Carvalho
25 Apr 1725 –  7 May 1726  José Carvalho da Costa (acting)
 7 May 1726 – Dec 1732     Paulo Caetano de Albuquerque       (d. 1732)
Dec 1732 –  1 Jan 1733     Chamber Senate
 1 Jan 1733 –  1 Apr 1738  Rodrigo César de Menezes           (b. 1673 - d. 1738)
 1 Apr 1738 – 17 Apr 1748  Joaquim Jacques de Magalhães       (d. 1748)
17 Apr 1748 – 12 Jan 1749  Governing Junta 
                           - Frei Manoel de Santa Inês        (b. 1704 - d. 1771)
                           - Victoriano de Faria e Mello
                               Varejão Castello Branco
                           - Fernando José da Cunha Pereira 
12 Jan 1749 – 31 Jul 1753  António de Almeida Soares e        (b. 1699 - d. 1761)
                             Portugal, conde do Lavradio
31 Jul 1753 – 14 Oct 1758  António Álvares da Cunha           (b. 1700 - d. 1791)
14 Oct 1758 –  6 Jun 1764  António de Vasconcelos
 6 Jun 1764 – 21 Nov 1772  Francisco Inocêncio de Sousa       (b. c.1725 - d. ....)
                             Coutinho
21 Nov 1772 –  5 Dec 1779  António de Lencastre               (b. 1721 - d. ....)
 5 Dec 1779 – 19 Dec 1782  José Gonçalo da Câmara Coutinho    (d. 1783)
19 Dec 1782 – Sep 1784     Junta                          
                           - Luiz da Anunciação e Azevedo 
                           - Joaquim Manoel Garcia de Castro  (d. 1783)
                               Barbosa (to ... 1783)
                           - Francisco Xavier de Lobão
                               
Machado Pessanha (from ... 1783)
                           - João Monteiro de Moraes          (d. 1783)
                               (for 51 days)
                           - Pedro Alvares de Andrade da
                               Cunha Azevedo e Vasconcellos
                               (after Moraes)
Sep 1784 - 1790            José de Almeida e Vasconcelos      (b. 1737 - d. 18..)
                             Soveral Carvalho e Albergaria,
                             barão de Mossâmedes
1790 - 1797                Manuel de Almeida e Vasconcelos,
                             visconde da Lapa
1797 - 1802                Miguel António de Melo             (b. 1766 - d. 1836)
1802 - 1806                Fernando António Soares de Noronha (b. 1742 - d. 1814)
1806 – Mar 1807            Governing Junta
                           - Joaquim Maria Mascarenhas Castelo
                               Branco
                           - Duarte Cabreira de Brito e
                               Arvellos
                           - Manoel Pinto Coelho
                           - Eusébio Castela de Lemos  
Mar 1807 –  7 Jul 1810     António de Saldanha da Gama        (b. 1778 - d. 1839)
 7 Jul 1810 –  3 Jul 1816  José de Oliveira Barbosa,
         (b. 1753 - d. 1844) 
                             visconde do Rio Comprido
 3 Jul 1816 –  7 Sep 1819  Luís da Motta Feo e Torres         (b. 1769 - d. 1823)
 7 Sep 1819 - 1821         Manuel Vieira Tovar de Albuquerque (b. 1776 - d. 1833)
1821 –  6 Feb 1822         Joaquim Inácio de Lima
 6 Feb 1822 –  2 Oct 1823  Bishop João Damasceno da Silva
                             Póvoas
                             (President of the Junta)
 2 Oct 1823 - 1824         Cristóvão Avelino Dias
1824 - 1829                Nicolau de Abreu Castelo-Branco    (b. 1781 - d. 18..)
1829 – 25 Jun 1834         José Maria de Sousa Macedo Almeida (b. 1787 - d. 1872)
                             e Vasconcelos, barão de Santa
                             Comba Dão
25 Jun 1834 – 20 Feb 1836  Leonardo José Vilela               (d. 1842)
                             (President of the Junta)
20 Feb 1836 – 21 Aug 1836  Domingos de Saldanha Oliveira e    (b. 1800 - d. 1836)
                             Daun 
21 Aug 1836 – Aug 1837     Governing Junta
                           - Leonardo José Vilela             (s.a.)
                           - Ant
ónio Carlos Coutinho
                           - Fernando da Fonseca Mesquita
                               e Solla, visconde de Francos   (b. 1795 - d. 1857)  
Governors-general
Aug 1837 – 25 Jan 1839     Manuel Bernardo Vidal
25 Jan 1839 – 23 Nov 1839  António Manuel de Noronha          (b. 1772 - d. 18..)
23 Nov 1839 - 1842         Manuel Eleutério Malheiro (acting)
1842 – 10 Jul 1843         José Xavier Bressane Leite         (b. 1780 - d. 1843)
10 Jul 1843 – 1844         Government Council  
                           - Carlos Augusto Franco
                           - Joaquim Ant
ónio de Carvalho e
                               Menezes
                           - Luiz Gomes Ribeiro 
                           - Ant
ónio de Azevedo Galiano   
1844 - 1845                Lourenço Germack Possolo           (b. 1779 - d. 18..)
1845 - 1848                Pedro Alexandrino da Cunha         (b. 1801 - d. 1850)
Apr 1848 - Aug 1851        Adrião Acácio da Silveira Pinto
Aug 1851 - Feb 1853        António Sérgio de Sousa            (b. 1809 - d. 1878)
Feb 1853 - Sep 1853        António Ricardo Graça
Sep 1853 - Mar 1854        Miguel Ximenes Rodrigues Sandoval  (b. 1806 - d. 1884)
                             de Castro e Viegas, visconde de 
                             Pinheiro
Mar 1854 - Oct 1854        Provisonal Junta
                           - Joaquim de São Bento Moreira Reis(b. 1812 - d. 1887)
                           - Antonio Faustino dos Santos Crespo
                           - João Jacinto Tavares

Oct 1854 - Aug 1860        José Rodrigues Coelho do Amaral    (b. 1808 - d. 1873)
                             (1st time) 
Aug 1860 - Feb 1861        Carlos Augusto Franco
Feb 1861 - Sep 1862        Sebastião Lopes de Calheiros       (b. 1816 - d. 1899)
                             e Meneses
Sep 1862 - Sep 1865        José Baptista de Andrade           (b. 1819 - d. 1902)
                             (1st time)
Sep 1865 – Mar 1866        Government Council (incomplete)
                           - José Lino de Oliveira            (b. 1803 - d. 1885)
Mar 1866 - Apr 1869        Francisco Ant
ónio Gonçalves        (b. 1800 - d. 1875)
                             Cardoso
Apr 1869 - Jun 1870        José Rodrigues Coelho do Amaral    (s.a.)
                             (2nd time)
Jun 1870 - Sep 1870        Joaquim José da Graça         
Sep 1870 - Mar 1873        José Maria da Ponte e Horta
Mar 1873 - May 1876        José Baptista de Andrade           (s.a.)
                             (2nd time)
May 1876 - Jun 1876        Government Council
                           - Tomás Gomes de Almeida
                           - Luis Carlos Garcia de Miranda
                           - Miguel Gomes de Almeida (1st time)
                           - Ant
ónio do Nascimento Pereira
                              Sampaio                     
Jun 1876 - Jul 1878        Caetano Alexandre de Almeida       (b. 1824 - d. 1894)
                             e Albuquerque
Jul 1878 - Jul 1880        Vasco Guedes de Carvalho e Meneses (b. 1824 - d. 1905)
Jul 1880 - Jun 1882        António Eleutério Dantas           (d. 1882)
Jun 1882 - Aug 1882        Government Council
                           - José Sebastião de Almeida Neto
                           - Miguel Gomes de Almeida 
(2nd time)
                           - Adelino Antero de Sá (1st time)
                           - Joaquim José Coelho de Carvalho Jr. 
Aug 1882 - Jan 1886        Francisco Joaquim Ferreira do      (b. 1844 - d. 1923)
                             Amaral
Jan 1886 - Apr 1886        Government Council
                           - Ant
ónio Tomás da Silva Leitão e
                               Castro
                           - Adelino Antero de Sá (2nd time)
                           - Onofre de Paiva Andrade  
                           - Guilherme Gomes Coelho                       
Apr 1886 - 25 Aug 1892     Guilherme Auguste de Brito Capêlo   (b. 1839 - d. 1926)
                             (1st time)
25 Aug 1892 - Oct 1893     Jaime Lôbo de Brito Godins (acting)
Oct 1893 - Nov 1894        
Álvaro Antonio da Costa Ferreira
                             (1st time)
Nov 1894 – Apr 1895        Francisco Eugenio Pereira de Miranda
Apr 1895 – Jun 1896        Álvaro Ant
ónio da Costa Ferreira
                             (2nd time)           
Jun 1896 - Feb 1897        Guilherme Auguste de Brito Capêlo   (s.a.)
                             (2nd time)
Feb 1897 – Apr 1897        Government Council
                           - Ant
ónio Dias Ferreira
                           - Ant
ónio Maria Vieira Lisboa
                           - José Maria Pinto da Costa
                           - Lourenço Justiniano Padrel                                     
Apr 1897 - Oct 1900        António Duarte Ramada Curto        (b. 1849 - d. 19..) 
                             (1st time)
Oct 1900 - May 1903        Francisco Xavier Cabral de         (b. 1857 - d. 19..) 
                             Moncada
May 1903 - Mar 1904        Eduardo Augusto Ferreira da Costa  (b. 1865 - d. 1907)
                             (1st time)
Mar 1904 - Dec 1904        Custódio Miguel de Borja           (b. 1849 - d. 19..)
Dec 1904 - Mar 1906        António Duarte Ramada Curto        (s.a.)
                             (2nd time)(acting)
Mar 1906 - May 1906        Ernesto Augusto Gomes de Sousa
                             (1st time)(acting)
Mar 1906 - May 1907        Eduardo Augusto Ferreira da Costa  (s.a.) 
                             (2nd time)
May 1907 – Jun 1907        Ernesto Augusto Gomes de Sousa
                             (2nd time)(acting)      
Jun 1907 - Jun 1909        Henrique Mitchell de Paiva         (b. 1861 - d. 1944)
                             Couceiro 
Jun 1909 - Aug 1909        Álvaro António da Costa Ferreira   (b. 1853 - d. 1933)
                             (3rd time)(acting)
Aug 1909 - Dec 1909        Government Council  
                           - João Evangelista de Lima Vidal   (b. 1874 - d. 1958)
                           - Manuel Pereira Pimenta de Sousa e
                               Castro
                           - Francisco Maria Cabral de França      
16 Dec 1909 - 26 Oct 1910  José Augusto Alves Roçadas         (b. 1865 - d. 1926)
26 Oct 1910 - 18 Jan 1911  Caetano Francisco Cláudio Eugénio  (b. 1868 - d. 1953)
                             Gonçalves (acting)
18 Jan 1911 - 26 Feb 1912  Manuel Maria Coelho                (b. 1857 - d. 1943)
26 Feb 1912 -  7 Mar 1912  Manuel Moreira da Fonseca (acting)
 7 Mar 1912 - 17 Jun 1912  Ant
ónio Eduardo Romeiras de Macedo  
17 Jun 1912 - Mar 1915     José Maria Mendes Ribeiro Norton   (b. 1867 - d. 1955)
                             de Matos
Mar 1915                   Mario Teixeira Malheiros (acting)
Mar 1915 - Oct 1915        António Júlio da Costa Pereira de
  (b. 1852 - d. 1917)
                             Eça                            
Oct 1915                   Government Council
                           - Manuel do Sacramento Monteiro 
                           - Alberto Barbosa de Queirós
                           - Mario Teixeira Malheiros
Oct 1915 - Apr 1916        Francisco Pais Teles de Ultra
                             Machado (acting)
Apr 1916 - 19 Oct 1917     Pedro Francisco Massano do Amorim  (b. 1862 - d. 1929)
19 Oct 1917 - 14 Sep 1918  Jaime Alberto de Castro Morais     (b. 1882 - d. 1973)
14 Sep 1918 - 10 May 1919  Filomeno da Câmara Melo Cabral     (b. 1873 - d. 1934)
10 May 1919 - Jul 1919     Ant
ónio Nogueira Mimoso Guerra     (b. 1867 - d. 1950)
                             (acting)
Jul 1919 – Apr 1920        Francisco Coelho do Amaral Reis,   (b. 1873 - d. 1938)
                             visconde de Pedralva                    
Apr 1920 - Oct 1920        Isidoro Pedro Leger Pereira Leite
                             (acting)
Oct 1920 – Mar 1921        José Inácio da Silva (acting)
Mar 1921 - Apr 1921        José de Abreu Barbosa Bacelar
                             (acting) 

High commissioners and Governors-general
Apr 1921 - Sep 1923        José Maria Mendes Ribeiro Norton   (s.a.)
                             de Matos
Sep 1923 – 14 Aug 1924     Miguel de Almeida Santos (acting)  
14 Aug 1924 - 6 Sep 1924   João Augusto Crispiniano Soares
 6 Sep 1924 - Jun 1925     Antero Tavares de Carvalho
Jun 1925 - 21 Jan 1926     Francisco Cunha Rêgo Chaves        (b. 1881 - d. 1941)
Jan 1926 - 16 Sep 1926     Artur de Sales Henriques (acting)           
16 Sep 1926 - Nov 1928     António Vicente Ferreira
Nov 1928 - Feb 1929        António Damas Mora (acting)
Feb 1929 - Mar 1930        Filomeno da Câmara Melo Cabral     (s.a.)
Mar 1930 – 31 Mar 1930     Genipro da Cunha de Eça Costa
     (b. 1878 - d. 1945)
                             Freitas e Almeida (acting)
31 Mar 1930 –  3 Jul 1930  Bento Esteves Roma                 (b. 1884 - d. 1953)
 3 Jul 1930 - 1931         José Dionísio Carneiro de Sousa
                             e Faro
1931 – 1934                Eduardo Ferreira Viana
Apr 1933 – Nov 1933        Ernesto Gonçalves Amaro
                             (acting for Viana)

1934 - 1935                Júlio Garcês de Lencastre
1935 - 1939                António Lopes Mateus               (b. 1877 - d. 19..)
Aug 1936 – Jan 1937        Vasco Lopes Alves
                             (acting for Matheus)

1939 – 1940                José Diogo Ferreira Martins (acting)
1940 - 1942                Manoel da Cunha e Costa Marques
                             Mano
1942                       Abel de Abreu Souto-Maior
1942 - 1943                Álvaro de Freitas Morna            (b. 1885 - d. 19..)
1943                       José Ferreira Rodrigues de
                            
Figueiredo dos Santos
1943                       Manuel Pereira Figueira
1943 - 1947                Vasco Lopes Alves                  (b. 1898 - d. c.1975)
1947                       Fernando Falcão Pacheco Mena
1948 - 1955                José Agapito de Silva Carvalho
Dec 1950 – Mar 1951        José Antonio Fernandes
                             (acting for Carvalho)
Aug 1951 – Sep 1951        José Antonio Fernandes
                             (acting for Carvalho)
Aug 1955 – Sep 1955        Manuel da Cruz Alvura  
Sep 1955 - Feb 1956        Manuel de Gusmão de Mascarenhas    (b. 1901 - d. ....)
                             Galvão
Feb 1956 - Aug 1959        Horácio José de Sá Viana Rebelo    (b. 1910 - d. 1995)
Aug 1959 – Feb 1960        Francisco Avelar Maia de Loureiro
                             (acting)
Feb 1960 - 1961            Álvaro Rodrigues da Silva Tavares  (b. 1915)
1961 – 14 Jun 1961         Manuel da Cruz Alvura (acting)
14 Jun 1961 – 23 Jun 1961  Carlos Miguel Lopes da Silva       (b. 1907 - d. 1961)
                             Freire (acting)
23 Jun 1961 -  8 Sep 1962  Venâncio Augusto Deslandes         (b. 1909 - d. 1985)
 8 Sep 1962 –  5 Nov 1962  Francisco M. Holbeche Fino (acting)(b. 1898 - d. 1979)
 5 Nov 1962 - 27 Oct 1966  Silvino Silvério Marquês (1st time)(b. 1918)
27 Oct 1966 - Oct 1972     Camilo Augusto de Miranda Rebocho  (b. 1920 - d. 1998)
                             Vaz
Oct 1972 - 26 Apr 1974     Fernando Augusto Santos Castro     (b. 1922 - d. 1983)
26 Apr 1974 - 25 Jun 1974  Joaquím Franco Pinheiro (acting)
25 Jun 1974 - 24 Jul 1974  Silvino Silvério Marquês (2nd time)(s.a.)
24 Jul 1974 - 28 Jan 1975  António Alva Rosa Coutinho         (b. 1926 - d. 2010)
                             (acting to 29 Nov 1974)
28 Jan 1975 -  2 Aug 1975  António Silva Cardoso              (b. 1928)
 2 Aug 1975 - 26 Aug 1975  Ernesto Ferreira de Macedo (acting)
26 Aug 1975 - 10 Nov 1975  Leonel Alexandre Gomes Cardoso     (b. 1919 - d. 1988)


Memórias contendo a biographia do vice almirante Luiz da Motta Feo e Torres ...

 Por João Carlos Feo Cardoso de Castello Branco e Torres

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Construindo A História Angolana: As Fontes e a Sua Interpretação Escrito por Rosa Cruz e Silva

O NACIONALISMO ANGOLANO, UM PROJECTO EM CONSTRUÇÃO NO SEC. XIX? 
 
 
Através de três periódicos da época: O Pharol do Povo, Tomate e o Desastre.
"(...) Dentro de um espírito antropológico proponho, então, a seguinte definição para nação: ela é uma comunidade política imaginada - e imaginada como implicitamente limitada e soberana. Ela é imaginada porque nem mesmo os membros das menores nações jamais conhecerão a maioria de seus compatriotas, nem os encontrarão, nem sequer ouvirão falar deles, embora na mente de cada um esteja viva a imagem de sua comunhão." (ANDERSON, Benedict, 1989 p.14).

I . INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas de Oitocentos, enquanto Portugal se batia de armas na mão para a consolidação da conquista de Angola, paralelamente, uma onda de contestação contra o poder instituído ganhava corpo, precisamente junto de alguns sectores da elite africana que mercê das novas medidas legislativas que impunham os imperativos do Terreiro do Paço em Lisboa, estavam por essa altura bastante penalizados. Em oposição ao esforço de colonização, crescia o gérmen da "consciência nacional" que brotava dos espíritos de um grupo de intelectuais africanos, os filhos do país, assim o provam os textos que compunham o seu discurso político, pontuado na imprensa dita livre da época. O início de tal manifestação como nos indica Jill Dias é muito antiga, foi enunciada na década de 1820, e foi-se fixando nos círculos dos protestatários tanto na capital, como nos concelhos do Hinterland de Luanda, ou ainda em Benguela e na então Mossamedes.

Conf. Jill Dias, 1998, p. 540. Num artigo extenso do Pharol do Povo n.º 36 de 27 de Outubro de 1883, intitulado "A republica a crear raízes em Angola" José Fontes Pereira dá notícia de uma acção política protagonizada pelos moradores de Benguela logo após os acontecimentos da Proclamação da Independência do Brasil. Dizia, " Benguella abraçou com grande entusiasmo aquella ideia, e quando se proclamou a independência do Brazil, o grande povo d'aquella cidade secundou aquelle estado de coisas, tendo hasteado a bandeira do café e tabaco na fortaleza de S. Filipe. Dirigiu este movimento o tenente coronel Francisco Pereira Diniz, homem preto, natural de Benguella que comandava as companhias de linha d'aquela capitania". Passados mais de 60 anos da data do acontecimento, Fontes Pereira dá notícia do exemplo do Brasil, um primeiro grito de independência ecoa em Benguela e entre os seus promotores está um oficial do exército, um " filho do país."

Entre os estudos que abordaram já esta problemática, para citar alguns, e que de alguma forma se ativeram às questões da emancipação política dos africanos no período em referência, quanto a nós, embora reconheçam o evoluir do processo que conduz a enunciação da proposta da independência do país, avançam conclusões em nosso entender um tanto ou quanto redutoras, por se revelar insuficiente a exploração das fontes disponíveis sobre esta problemática, ou dificultado o acesso às mesmas. Provam as nossas fontes que essa evolução culmina com propostas que advogam a ruptura de facto com o regime, o que se explica não só pela perda dos privilégios que no contexto geral da sociedade usufruíam os principais autores da proposta emancipadora, mas sobretudo, porque o próprio fenómeno colonial transporta consigo o gérmen da conflitualidade que opõe colonizadores e colonizados, e esta por todos os exemplos que nos dá a História não se resolveu sem a reacção mais ou menos violenta dos marginalizados do sistema. Enquanto os indígenas letrados que se encontravam nos espaços da colónia, e influenciados por todo o aparato ideológico inerente ao sistema político vigente, onde os paradigmas culturais ocidentais têm efectivamente peso na formação da sua identidade, assumem-se comprometidos com o regime, embora o critiquem nomeadamente pelos variadíssimos exemplos de má governação e sobretudo pelos procedimentos discriminatórios de que foram vítimas aos mais variados níveis, por outro lado, dentre eles destacam-se os intitulados, filhos do país, que se vão tornar nos principais opositores do mesmo regime, colocando-se na barricada contrária, a partir da qual engendram com os meios possíveis ao seu alcance uma campanha política que visava em última instância a conquista da independência Até alcançar a etapa em que se propõem resolver o conflito, já não através das propostas conciliadoras como a formação de uma união luso-africana para a instauração de um regime que se lhes afigurasse mais justo, porque se dão conta que já não é possível a coabitação em seu próprio território com aqueles que impõem leis e não as cumprem, que defendem teoricamente princípios e os violam sistematicamente, a coberto de uma hegemonia que lhes confere o poder instituído pela força das armas, há uma longa caminhada em que inicialmente se confundem os alvos, os adversários, não se identificam convenientemente os aliados. Porém a própria corrente da máquina administrativa e militar do sistema colonial, contribui para que o nível político dos intelectuais africanos, atinja um grau de maturidade tal, em que não se permitem mais titubear nas suas decisões sobre os destinos do país, e deixam escapar o afã libertador, até que se expõe o seu pensamento nítido, audaz e profético. Deste modo foram moldando o sentimento nacionalista que se propunha alcançar o espaço não só restrito à colónia, pois nas suas propostas, juntaram à sua voz reivindicativa e protestatária, os esforços empreendidos pelos povos ainda não subjugados e que se batiam a todo custo para a manutenção dos seus domínios. Anunciaram a vontade e querer, país livre de qualquer domínio. Porém os autores dessa aventura tiveram que percorrer os caminhos da clandestinidade para tentar iludir os postuladores da lei da metrópole e fazer passar a sua mensagem. Tentaremos evidenciar os jogos políticos exercitados pelos filhos do país conducente à libertação do jugo colonial. Tais ideias foram pensadas, forjadas e anunciadas sobretudo nas três últimas décadas do Século XIX, na dita imprensa livre, e a partir da década de 80, nas colunas da imprensa africana, pois nessa altura estão já capazes de expor claramente o sonho independentista,

Veja-se: Douglas L. Wheeler, Na Early Angolan Protest: The Radical Journalism of Joseé de Fontes Pereira (1823-1891), in Protest and Power in Clack Africa, Ed. Por Robert I. Rotberg et al, A Mazuri, Nova Iorque, Oxford University Press, 1970,pp.854-874; Jill Dias, Uma questão de identidade: Respostas intelectuais às transformações económicas no seio da elite crioula da Angola portuguesa entre 1870 e 1930, in Revista Internacional de Estudos Africanos, N.º1 Janeiro/Junho, 1984; O Império Africano 1825-1890, in Nova História da Expansão Portuguesa, Lisboa, 1998, Os Periódicos como Fonte de Pesquisa Histórica. A Imprensa Escrita de Angola do Sec. XIX, pp 17-31; ANDRADE, Mário, Origens do Nacionalismo Africano, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1997;
visualizando inclusivamente um projecto que os conduziria a tal objectivo, tendo-se registado propostas que previam o desencadear de acções mais firmes contra o sistema, exemplificadas entre outras, numa encenação de um golpe de estado militar, em 1891, numa versão muito aparentada aos tempos actuais em se que anunciava a independência de Angola.

CONTINUA...

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

RUY DUARTE DE CARVALHO: pastores kuvale da província do Namibe com um relance sobre as outras sociedades agropastoris do sudoeste de Angola

http://4.bp.blogspot.com/_UbYo9I1p9Kw/TGSK8wIeJMI/AAAAAAAABcE/ACWSG8-NlFE/s1600/Antrop%C3%B3logo+Ruy+Duarte+de+Carvalho+-+1.jpg
RUY DUARTE DE CARVALHO


AVISO À NAVEGAÇÃO
olhar sucinto e preliminar
sobrepastores kuvale
da província do namibe com
um relance sobre as outras
sociedades agropastoris
do sudoeste de angola


INTRODUÇÃO

PARA A APREENÇÃO PRELIMINAR DE UMA SINGULARIDADE KUVALE...

Proponho partir de duas citações. Não porque as aprecie sobremaneira mas porque introduzem, de pronto, no vivo da matéria, na singularidade de um "caso":
"Elsewhere, aridity and sand made farming difficult, except for the valleys of some of the larger streams flowing down from the highlands; there, small, distinctive communities combined stock-keeping with whatever agriculture they could manage to support themselves."
Joseph C. Miller, Worlds Apart: Africa's Encounter with the Atlantic in Angola, ca. 15OO-185O, Seminário Internacional de História de Angola, 1995, 22 p.
"Pourtant, à cheval sur le Sud et le Centre-Angola, subsiste, résiduelle, l'ethnie Herero dont un sous-group, celui des Cuvale, va avoir le triste privilège de subir le poids de la guerre totale à une époque aussi tardive que 194O-41."
René Pélissier, Les Guerres Grises, Resistence et Revoltes en Angola (1845-1941), Orgeval, 1977, 63O p.
Os Kuvale são Herero, portanto, encravados na aridez e na areia, "residuais" e sobreviventes de uma guerra total. São Herero em Angola, tal como o são os Ndombe, a Norte, os Hakahona e os Dimba, a Leste, os Himba, a Sul. Estes estendem-se para além do rio Kunene, pela Namíbia, onde se misturam ou encostam aos Herero que, com os Mbandero entram pelo Botswana. Da maneira como a aridez os "encrava", e eles se encravam nela, direi abundantemente ao longo deste texto. Da sua história recente, que é a de uma recuperação consumada, referirei factos e efeitos.
Os Herero de hoje provêm de populações pastoris de língua banta que terão chegado à costa ocidental da Africa, pelo Leste, a nível do paralelo de Benguela, e que, alcançadas as estepes que precedem o mar, flectiram para Sul, cada vez se internando mais nas bordaduras do Deserto do Namibe e depois para Leste, até ao Kalahari.
A viagem que as trouxe até aí é mais um percurso no tempo do que uma deslocação no espaço. Elas faziam parte de uma expansão bantu de cultura pastoril que quando atingiram o território do que é hoje Angola, talvez no séc. XV, durava provavelmente há mais de 1 5OO anos, desde que os seus antepassados de língua, os Bantu depois chamados de Orientais, se encontraram na costa Leste com os Nilóticos, que lhes transmitiram a cultura pastoril que por sua vez tinham aproveitado dos Cuxitas, 3 OOO anos antes. Os Cuxitas, esses, tê-la-ão recebido do Oeste, das franjas do Sahara, que entretanto secara. As mutilações
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dentárias, o sistema das classes de idade, a recusa de comer peixe, traços culturais que vigoram entre os Kuvale de hoje, remontam, tanto quanto se sabe, aos Cuxitas, por não se saber se estes também os não receberam de outros.
A qualidade dos pastos, sem dúvida, a boa resposta dos animais aos recursos do meio em condições normais, a possibilidade de garantir a vida e a reprodução ou a renovação de um sistema pastoril mesmo tendo que enfrentar oito meses secos cada ano e anos de chuvas muito reduzidas, terão estado na base da fixação a partir das bordaduras do extremo norte do deserto do Namibe de populações que transportavam consigo a memória colectiva e a marca cultural, inscritas nos comportamentos e nas dinâmicas, de paisagens inegavelmente semelhantes, pelo menos à primeira vista, gazelas e zebras, por exemplo, ou capins, Schimitias e Eragrostis, do outro lado do continente. Sendo evidente a excelência dos pastos, também é possivel estabelecer ali uma gestão da água que acaba por ser a dos próprios pastos em função da água ou vice-versa: transumância, portanto, antes e agora. Muita coisa terá mudado entretanto, evidentemente, a presença da fauna selvagem e da sua intervenção no eco-sistema mudou mesmo radicalmente (ela está hoje praticamente extinta), a presença do próprio homem explicará muitas das configurações florísticas do presente, mas os termos globais da produção e da produtividade continuam a fundamentar-se numa interacção ecológica directa.
Os Kuvale não serão hoje mais de 5 OOO, mas ocupam um território vasto: mais de metade da Província do Namibe. São na actualidade um povo próspero, nos termos que eles próprios valorizam: estão cheios de bois. Os seus espaços não foram praticamente, a não ser a Nordeste, teatro de incidências directas da guerra, tem havido chuva nos útimos anos, pelo menos que chega para manter o gado (até tem havido anos bons e há muito tempo que não há verdadeiramente nenhum ano mau) e, no entanto, o processo de Angola todos os anos os coloca em situação de penúria alimentar. Não conseguem trocar bois por milho. Este binómio, tanto boi-tanta fome, é mais um sinal da sua singularidade. Mas não é esta, também, a de Angola? Tanto petróleo...
De qualquer forma constituem um "caso" em Angola. Analisar a sua singularidade é analisar a de Angola e haverá questões e detalhes que embora aqui apareçam referidos a eles, correspondem a problemas, e a problemáticas, que dizem talvez respeito a outros Angolanos, senão a todos.
Sobre os Kuvale de ontem e de hoje não há muito material escrito. Há, evidentemente, uma vasta bibliografia sobre os Herero a partir da Namíbia, mas sobre os Kuvale e os restantes Herero de Angola só há mesmo algum material histórico, e coloco aqui alguns artigos técnicos das primeiras décadas deste século, a etnografia de Carlos Estermann, e um único, que eu saiba, trabalho científico, o de Julio de Morais, uma tese pioneira de análise ecológica, datada de 1974.
O trabalho de terreno que garantiu o que a seguir exponho foi levado a cabo, intermitentemente, de 1992 a 1996, e foi possível graças a apoios oficiais e privados a que irei tentando agradecer, e prestar contrapartida, à medida que puder ir divulgando os resultados. O presente trabalho faz parte desse processo. Nele procurarei condensar o mais possível, sem entrar em grandes detalhes históricos ou etnográficos, a informação que julgo estar em condições de poder disponibilizar no âmbito de uma exposição que se pretende eminentemente pragmática e dirigida sobretudo a decididores de políticas e de acções, a agentes da intervenção e a outros sujeitos eventualmente implicados numa interacção prática com os Kuvale e, por extensão, com as sociedades pastoris e agropastoris de Angola de uma maneira geral.
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... Geográfico-ecológica
Numa paisagem onde se vê o homem actuar sem procurar à partida afeiçoá-la a objectivos económicos que a alterem, onde os seus próprios interesses vitais e palpáveis passam pela utilização da paisagem tal como ela é, será difícil ao observador não se deixar envolver pela temática ecológica. Para ser mais preciso, não é só o facto de não se observarem ( a não ser talvez se se for um agrostólogo perspicaz) alterações produzidas pela presença do homem. É que o homem, aqui, pode parecer uma emanação do meio, e este poderia ser o ponto de partida para uma deriva, para um qualquer acesso de impressionismo, de delírio romântico, via certamente segura e garantida de ficar definitiva e eternamente de fora tanto da problemática que envolve este homem como daquela que envolve este meio. Mas é verdade que tudo aqui se projecta sobre um fundo ecológico e que grandes nomes ligados ao estudo das sociedades pastoris como Gulliver, Deshler, Dyson-Hudson e Jacobs, e outros classificados como neofuncionalistas umas vezes, neoevolucionistas outras, são nomes ligados ao ecologismo cultural.
Aqui, de facto, a cultura não pode ser entendida fora de um quadro de interacções em que tudo quanto é exterior às pessoas, e aos grupos que as pessoas constituem, é, praticamente só, natureza accionada e condicionada por factores em que a tecnologia pouco intervém.
Os terrenos são pastagens naturais, a água é a que provém de chuvas escassas e breves, a agricultura possível está sempre dependente da ocorrência da primeira chuva e da regulariade improvável das que se lhe seguirem, as águas acumuladas não permitem regadios nas zonas que são precisamente as das melhores e mais abundantes pastagens, a produção de cereais é sempre fortemente condicionada e aleatória. Vindo tarde, a chuva, não permitirá já a cultura do milho, talvez só permita ensaiar a do massango. Mas mesmo chegando tarde garantirá ainda assim os pastos, e mesmo escassa poderá assegurar a manutenção dos animais, a preservação dos vitelos que entretanto tenham nascido, haverá leite para eles e para as crianças, transitar-se-á para o ano seguinte sem que se tenha obrigatoriamente registado um saldo de todo negativo. Será necessário, para tanto, ter sabido agir com a ciência adequada à gestão de um equilíbrio muito precário.
É esta portanto a área geográfico-ecológica que os "encrava". Ao incauto não poderá deixar de por-se a interrogação de como é possível extrair vida e razão para viver num meio assim e a evidência de que da relação que garante a sobrevivência ali há-de necessariamente resultar um homem tão diferenciado quanto o próprio meio. Ao técnico, esta mesma relação impõe, na maioria dos casos, respeito. Ao analista social, não obrigatoriamente "perito" e apressado, a impressão que prevalece é a de que para lidar com tal precariedade será preciso investir muita "ciência", ou a ciência de extrair dali o que não é precário, é mesmo melhor que alhures.
... Económica
Equilíbrio é a palavra chave e trata-se de um equilíbrio que vai ter sobretudo em conta a manutenção física dos animais e a produção de leite. A economia em
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presença é, realmente, uma economia do leite. A sociedade não perde, não pode perder isso de vista. Todo o trabalho desenvolvido a partir do gado bovino se desenvolve com base no pressuposto de que do leite depende precisamente a reprodução do rebanho que é não apenas a fonte produtora do leite para um regime alimentar humano que se fundamenta nele, mas também da carne que o complementa e dos excedentes que darão acesso ao aprovisionamento de cereais e outros "apports" do exterior. A criação de outras espécies animais, como a de ovinos e caprinos, dependente dos mesmos factores ecológicos, complementa a dos bois e visa, por sua vez e sobretudo, a produção de "moeda" para transacções com o exterior. É verdade que a produção destes pequenos animais, com destaque para a de caprinos, se tem revelado particularmente adequada ao comércio dos últimos anos, marcadamente episódico e envolvendo pequenos volumes de mercadoria, com comerciantes de passagem e povos vizinhos. Mas também esta circunstãncia confirma toda a importância do gado bovino nas condições de "encapsulização" económica que os últimos anos têm imposto.
De facto, no certo, no verdadeiro, para além da escassa produção agrícola que as chuvas puderem garantir e de um subsidiário recurso a uma igualmente escassa produção vegetal espontânea, só se pode mesmo contar com o leite que as vacas e em casos de extrema crise as ovelhas e as cabras produzirem, com a carne que resultar dos animais doentes e débeis que não resistirem, e com a daqueles que forem abatidos, sempre a coberto de pretextos sociais reguladores, como veremos mais tarde. A pastorícia tal-qual, portanto, a relação animais/água/pastagens tendo em vista a manutenção e a reprodução dos rebanhos, a sua rodução, absorvem e polarizam todas as dinâmicas técnicas, sociais e culturais que hão-de estabelecer os contornos e a especificidade do sistema. Uma questão de equilíbrio, desta forma, que tem em conta já não só as condições ecológicas e as extracções energéticas que elas garantem, mas também a gestão social e a cobertura cultural, ou ideológica, que assistem ao seu aproveitamento. A noção de equilíbrio atravessará todos os sistemas que garantem a subsistência e a reprodução do grupo humano.
Quadros sociais e culturais urdidos à volta da relação com o boi e com o meio, bem como a interação entre tudo isto e o presente virá a ser, logicamente, a matéria principal deste trabalho. Retenhamos por agora que a uma economia tão estritamente pastoril não poderá deixar de corresponder uma cultura igualmente marcada pelos argumentos da pastorícia, e que esses argumentos, ou "valores", comportam expressões tão susceptíveis de entrar em choque com os da cultura e da economia envolventes e dominantes como o desprezo pela agricultura, os agricultores, os "assimilados" às dinâmicas ocidentalizadas, a repulsa pela prestação de força de trabalho a terceiros e a legitimação de entrar na posse de gado dos vizinhos. É pela via desses choques que a história moderna tem sobretudo envolvido os Kuvale. E também ela dá testemunho da sua singularidade.
... e Histórica
Considerada em relação à sua projecção imediata no presente, a história dos Kuvale diz sobretudo respeito àqueles eventos que na memória colectiva ficaram assinalados como "guerras", sucessivas e marcadas pelos sinais da sua colocação no tempo, inevitavelmente ligadas a disputas pela posse do gado: razias, contra-razias, repressões administrativas e militares, espoliações e saques, processos de desapossamento e de recuperação que trazem já em si as dinâmicas que apontam, ou poderão apontar, à renovação de um ciclo que tende a ser vicioso.
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Em termos de tratamento disciplinar esta história continua, naturalmente, por fazer, e não me cabe a mim, evidentemente, ensaiá-la sequer. Existem fontes documentais a explorar e trabalho de terreno a orientar nesse sentido e embora neste último domínio eu tenha recolhido dados que podem vir a revelar-se úteis, no que se refere a fontes escritas apenas utilizei material imediatamente consultável.
Os testemunhos que obtive no terreno referem-se explicitamente à guerra dos Kambarikongolo, às do Nano, à dos Ingleses, e uma sucessão de outras guerras, Mulungu, Kapilongo, Kalute, que acabam por conduzir àquela que veio a colocar os Kuvale em situação de completa derrota e paralisação, à beira da sua extinção não só enquanto grupo sócio-culturalmente distinto e identificável, mas também física, numa grande medida: a guerra chamada Kokombola, a de 194O-41, que quer dizer a guerra geral, total, "mundial", como me foi referida por um informante escolarizado. É essa a guerra que no tempo colonial ficou conhecida como a "guerra dos Mucubais", referência que ainda hoje é utilizada nos meios envolventes.
A primeira, a guerra dos Kambarikongolo, é a que em textos portugueses costuma ser designada como a guerra dos Hotentotes e corresponde à extensão pelo Sul de Angola da expansão de grupos Khoi, os Topnaar e os Swartbooi, que, a partir do que é hoje o Sul da Namíbia, se alargou para Norte, conquistando gado e pastagens aos Herero e aos Himba até à margem do rio Kunene, obrigando muitos destes últimos a migrar para o lado de Angola, e trazendo até às portas do que é hoje a cidade do Namibe, e era então a Vila de Mossâmedes, acções de razia que sobressaltaram durante largos anos todo o nosso Sudoeste. Ela obrigou inclusivamente muitos Kuvale a refuguiarem-se e a fixarem-se, nalguns casos, para além dos contornos e da escarpa da serra, com um subsequente processo de retorno à zona de serra abaixo, lento e prolongado, que parece projectar-se ainda no presente. Tenho encontrado mais-velhos Kuvale que nasceram lá e ainda hoje se vêem implicados em relações de parentesco aí urdidas na decorrência de tal movimentação circunstancial. Ela pode, por outro lado, e essa é uma hipótese a esclarecer, corresponder à citada guerra dos Ingleses. Os grupos de raziadores Khoi eram acompanhados, e por vezes enquadrados, parece, por "mestiços-ingleses" oriundos do Orange e do Cabo. Mas poderão também os "Ingleses" referidos ainda hoje ser os Alemães, 28 famílias, vindos directamente da Alemanha e que aparecem no Sul de Angola, postos aí pelo governo português, acompanhadas por um lote de Portugueses saídos da Casa Pia, de Lisboa. Foram-lhes dados terrenos no Munhino e na Bibala, mas cedo desprezaram as hipóteses agrícolas para se investirem na apropriação de gado de populações vizinhas.
De qualquer forma, simultaneamente a estas guerras vinham decorrendo as "guerras do Nano", acções de razia praticadas por numerosos bandos oriundos do "alto", do Nano, os Munanos, como ainda hoje são designados na região os povos do planalto interior a Norte e os Ovimbundo de uma maneira geral. Elas exerceram uma forte pressão sobretudo sobre as populações do planalto interior sul e estenderam-se até à costa.
Muitas dessas guerras do Nano traziam já a marca da incidência europeia directa. Mossâmedes é sacudida em 15 de Agosto de 1848 por uma dessas guerras, tendo os pastores locais, do vale do Bero, vindo acolher-se à Fortaleza. Cedo se esclarece tratar-se antes de uma "guerra de brancos", composta por gente de Quilengues e escravos dos regentes dessa capitania e do Dombe Grande, e sob a influência de uma figura que acompanha a história da região durante largos anos: o então Major Garcia.
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Isso faz parte de um processo que haveria de estender-se até à guerra de 194O-41 e que envolve desde o início, como era de esperar, as próprias autoridades portuguesas que empregam grupos vizinhos uns contra os outros tanto em operações de razia como em perseguições, quando os povos da região são acusados de fazerem o mesmo por conta própria.
Que os Kuvale "roubam" gado nunca constituiu dúvida para ninguém e são muitas as acusações que neste sentido e ao longo dos tempos vão pesando sobre eles, ao princípio designados como "Mondombes" segundo um equívoco que há-de prevalecer por muito tempo. Já nessa altura são julgados como insubmissos, rebeldes, avessos ao trabalho e sobretudo, sempre, refinados e inveterados ladrões de gado. Ao longo de toda a segunda metade do séc. XIX eles serão alvo de ferozes retaliações por parte da administração e dos colonos, chegando-se a organizar contra eles "guerras gentílicas", constituídas por 3O OOO homens recrutados para o efeito ( Silva 1971:496).
Essa é mais uma marca da história que vem reflectir-se no presente. Este tipo de acções, envolvendo outros Africanos, deu curso a um movimento belicoso de razia recíproca entre populações Kuvale e Tyilengue, a noroeste do território dos primeiros, que se prolonga até hoje e que define alguns dos contornos das suas respectivas implicações nas guerras actuais.
Em 188O, um ex-governador do Distrito de Mossâmedes refere que no ano anterior fora enviado um ofício ao chefe do Concelho de Campangombe, proíbindo-lhe opor-se à passagem de uma guerra que vinha do sertão de Benguela para guerrear os "Cubaes". Ao que o chefe responde logo a seguir para dizer que "a guerra é convocada por brancos com o sentido de guerrearem os mondombes", e que a intenção dos "convocadores da guerra" não podia ser outra senão "terem parte dos roubos que a guerra fizesse". Num outro ofício, cinco meses mais tarde, o mesmo chefe confirma: o soba de Quilengues, que foi quem comandou a tal guerra "cumprindo literalmente a ordem do Exmo Governador do Distrito (...), entregou aos europeus residentes no Concelho do Bumbo todo o gado que havia sido apreendido (...) tendo trazido apenas para as suas terras a gente prisioneira de guerra" (Almeida 188O:52-53). Um outro administrativo refere-se, também longamente, mais tarde mas reportando a mesma época, às relações entre Kuvale e Tyilengue, sendo estes, sob a regência dos então capitães-mores, sistematicamente utilizados contra aqueles ( Frazão 1946 :269). Sobre o inverso, Kuvale utilizados por autoridades ou Brancos privados para atacar outros povos, nada encontrei nas leituras que fiz.
As "guerras" que vão seguir-se às do Nano, na sequência atrás apontada, reportar-se-ão já ao séc.XX e correspondem sobretudo às diligência administrativas de que os Kuvale foram sendo sucessivamente objecto até à catástrofe de 1941. Elas terão de novo e de algum modo aparecido sempre associadas a acções que envolvem grupos vizinhos,usados também, a partir daí, como tropa auxiliar. As menções a estas diligências administrativas, nomeadamente da parte de técnicos veterinários ( Sequeira 1935, p.e.) que operavam na região, é constante.
A guerra de 194O-41, que é a última e a definitiva destas diligências, utilizou cerca de mil soldados a que se juntaram mais mil auxiliares indígenas, mestiços e europeus, dois aviões, um deles da aviação cívil artilhado com uma metralhadora e equipado com bombas, e um pelotão de morteiros para combater, meter na ordem, uma população Kuvale estimada num máximo de 5 OOO pessoas. Durou 5 meses, comportou execuções em massa e atrocidades contra prisioneiros, deu cobertura a saques e a pilhagens, confiscou cerca de 2O OOO cabeças de gado bovino , ou seja, estimou-se, 9O% dos efectivos totais anteriormente na posse do grupo. Fez mais de 3 5OO prisioneiros que depois remeteu às ilhas de S. Tomé
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e do Príncipe, à Lunda, onde trabalharam para a Diamang, à Damba, em Malange, a propriedades agrícolas e à Câmara Municipal de Moçâmedes. Assegurar-se-ia assim, de acordo com o comandante das operações, a sua adaptação a hábitos de trabalho e interesse pela agricultura ( Sotto-Maior 1943 e Pélissier 1977:5O9-515).

continua...

pastores kuvale da província do namibe