sábado, 19 de março de 2011

BRANCOS E PRETOS EM ANGOLA Waldir Freitas Oliveira do Sector de Estudos Geográficos do C. E. A. 0.

Angola, a mais extensa "província ultramarina" portuguêsa, possui um território de 1.246.700 km2 e uma população de quase 5 milhões de habitantes. Luanda., sua Capital, terceira cidade do mundo português, ultrapassada apenas por Lisboa e Pôrto, possui cêrca de 200.000 pesso,as. Outras cidades importantes ali existentes são Lobito, Benguela, Nova Lisboa e Sá da Bandeira. Em julho do ano último, durante cêrca de uma semana, a convite do govêrno português, visitei as cidades de Luanda, Lobito, Benguela, Nova Lisboa e o Colonato da Cela. Estive, pois,em contacto com as principais cidades de Angola e com a maior parte dos homens brancos de lá. Porque a população brmca da colônia portuguêsa, calculada em cêrca de 120.000 pessoas, ou seja aproximadamente, 2% da população total do país, encontrase concentrada nos principais centros urbanos locais (1).

Assim, em Luanda encontram-se de 37 a 38 mil brancos, no Lobito, cêrca de 7.000, em Benguela, pouco mais de 5.000, em Nova Lisboa:, pouco mais de 6.000 e em Sá da Bandeira, aproximadamente 9.000, perfazendo estas cifras um total de cêrca de 65.000 brancos, apenas nas quatro mais importantes cidades de Angola. O que equivale a mais de 50% da população branca ali existente. Se acrescentarmos, porém, ao total referido os números relativos às populações brancas de Malanje, Silva Pôrto e Moçâmedes, respectivamente, de 2.300, 2.000 e 4.800 pessoas, o resultado apresentado ultrapassará a cifra da 74.000, represemtando agora mais de 60% da população branca de Angola. Acrescentando, ainda, população branca a população mestiça das oito cidades referidas, cêrca de 16.000 pessoas, teremos então 90.000 pessoas, entre brancos e mestiços, em contraposição ao total de 230.000 negros delas habitantes.

Apenas 230.000 negros, pois, dentre 4.850.000 existentes em Angola, habitam os centros urbamos mais importantes, ou seja, menos de 5% da popu1.ação nativa local. E baseados na desproporção entre as populações brancas e negras nas cidades angolanas, poderemos afirmar que ali as cidades constituem o mundo branco e o Interior, o mundo do nativo. E' verdade que em todas as principais cidades de Angola a população negra é maior que a população branca. Assim em Luanda existem cêrca de 150.000 negros contra 37.500 brancos, em Nova Lisboa, cêrca de 33.000 negros contra 6.300 brancos, em Benguela,, cêrca de 10.500 negros contra 5.300 brancos, no Lobito, cêrca de 27.000 negros contra 7.000 brancos; apenas em Sá da Bandeira a quantidade de brancos sendo superior a de negros, existindo ali cêrca de 9.000 brancos contra 5.500 negros. Mas percorrendo as ruas de Luanda, Lobito, Benguela e Nova Lisboa, pude verificar a completa distinção existente cmtre
os elementos das duas raças. Os negros são invariàvelmente os ocupantes dos mais insignificantes postos e oficios, e mesmo as suas habitações estão agrupa-las em bairros específicos, situados
na periferia das cidades. Não há negros angolanos ricos nem ocupando posições importantes quer na administração quer no comércio local. Se bem que haja% mestiços, geralmente não originais de Angola, ocupando uma posição bem melhor que a dos negros. Mas é preciso notar que a proporção de mestiços na população de Ango1a é insignificante, representando apenas 6% da população de Luanda e cêrca de 5% do total da população das oito principais cidades da colônia, pràticamente não existindo mestiços no meio rural.

Volto a insistir no fato de ser a civilização urbana em Angola um privilégio dos brancos, representando os negros habitantes das cidades apenas a mão-de-obra necessária para os serviços domésticos das famílias brancas e para as indústrias ali existentes. Dêste modo o próprio crescimento das populações
negras urbanas passa a ser uma simples decorrência do aumento da população branca das mesmas, a criar para si novas e mais variadas necessidades. Mas será preciso fazer notar mais um fato - é de que vindo a popu1ação branca aumentando por uma crescente imigração originária da Metrópole, a situação dos nativos tende a piorar já que não possuem êles capacidade, por falta de preparo técnico
ou profissional, para competir com os brancos recém-chegados que passam a substitui-los nas ocupações disponíveis, deixando-lhes apenas as mais inferiores e lògicamente as menos rendosas.

Tal fato já fora notado por Ilídio do Amaral, em livro publicado em 1962 (2), ao afirmar que os nativos dirigem-se para as cidades pelos mais variados motivos, na maior parte das vêzes na esperança de encontrarem melhores salários, mas acabam por engrossar a massa dos desempregados pondo em risco as certezas de trabalho que poderiam existir para os já fixados nas cidades,. E qumdo afirmara, em trabalho anterior, publicado em 1960 (3), que aapenas uma percentagem mínima da população
rural saída de Portugal para Angola emtra no mesmo meio, nas novas terras; procur,ando antes ficar nas cidades, em especial em Luanda,, competindo com os naturais em profissões que antigamente
lhes pertenciam: criadas de mesa em cafés e restaurantes, vendedores de loterias e jornais, carregadores nos armazens do pôrto, porteiros, criados e lavadeiras, etc,. Pude comprovar tal fato durante a minha visita. Nos hotéis onde estive, o número de empregados brancos é muitaas vêzes
superior ao de empregados negros e no comércio local também os empregados brancos preponderam sôbre os negros na função de simples caixeiros. Nos própirios bairros negros de Luanda, Lobito e Nova Lisboa que percorri, demoradamente, vi casas de pequeno comércio pertencentes, invariàvelmente, a elementos brancos; não havendo emcontrado uma só cujo proprietário
fôsse um negro. Evidentemente os brancos em Angola comandam e os negros obedecem. No pôrto de Lobito, entre dezenas e dezenas de trabalhadores não tive a oportunidade de ver um único branco a
carregar fardos, havendo encontrado porém elementos brancos a trabalharem nos escritórios ou na fiscalização dos trabalhos dos negros sôbre o cais. E em Benguela, ao indagar sôbre a composição
das tripulações dos barcos de pesca, recebi a resposta de que cada tripul.ação se compunha de vinte e quatro negros apara os trabalhos pesados, e quatro brancos.

Não há, pois, como negar-se que o elemento negro em Angola vive terrivelmente inferiorizado em relação ao branco este constitui a classe privilegiada, possui a riqueza e o comando da vida econômica, política e administrativa da colônia. E' terrivelmente chocante, por exemplo, compararmos os bairros residenciais dos brancos com os habitados pelos nativos em qualquer das suas grandes cidades. Habitam os primeiros em majestosas residências, construidas dentro dos mais modermos moldes arquitetônicos, em ruas asfaltadas e amplamente iluminadas. Habitam os negros em miseráveis choupanas de paredes de terra e cobertas de palha, onde não existe luz nem água encanada, em ruas
sem calçamento e sem iluminação. Isto eu vi em Luanda, no Lobito e em Nova Lisboa. E assim pude verificar que o autor português aniteriormente citado não exagerara quando definira os bairros negros como averdadeiras estrumeiras sem esgotos, água ou iluminação e sem ru,as pavimentadas, e as habitações ali existentes, as miseráveis cubatas, desprovidas dos mais pequenos confortos higiênicos. Não poderei esquecer que vi bairros inteiros sendo construidos pelas administrações locais para substituírem tais bairros citados, tanto em Luanda como no Lobito.

O govêrno português faz evidentemente um grande esforço no sentido de solucionar, um tanto tardiamente embora, os problemas gerados pela sua falta de interêsse pela sorte da população nativ.a e pela certeza, já não existente, de que jamais seria por isso responsabilizado.

Na minha opinião, porém, medidas como esta, se darão à população nativa d,as cidades melhores condições de vida, não lhe permitirá a ascensão social e a competição livre com os elementos
brancos. E' que constatei a presença de elementos brancos nos próprios bairros negros, já a construirem ali residências distintas das habitações dos negros. Parece pois que à medida que a
«cidade branca» cresça, a «cidade negra, irá sendo impelida para cada vez mais distante da zona periférica dos centros urbanos.

E diante de tal fato,, difícil será conjecturar sôbre se os bairros populares que agora estão sendo construídos, chegarão a ser realmente utilizados pelos negros angolanos . Nos liceus locais pude perceber não existir qualquer discriminação racial, mas pude verificar também que a proporção de
alunos brancos é bem superior à de alunos negros. E' que os liceus foram construidos visando proporcionar aos filhos dos brancos educação similar ao que teriam na Metrópole. São tais
liceus da melhor qualidade, tanto no que diz respeito à construção como no que se refere à aparelhagem didática. As crianças negras têm acesso aos mesmos mas não foi evidentemente com
os olhos voltados para as necessidades dos nativos que tais liceus foram construídos.

Confesso ter tido dificuldade, em Luanda, de sentir-me em Africa, ao sul do Saara, tal a quantidade de brancos que vi por toda a parte. No Lobito, encontrei a maior parte dos negros a trabalharem nos serviços do pôrto, mas não nas ruas da cidade. Em Benguela, onde o contraste entre as habitações de brancos e de negros é excepcionalmente chocante, foi onde vi maior quantidade de negros circulando nas ruas e praças locais. E ainda no Lobito, visitando as livrarias e tendo a agradável surprêsa de
encontrar grande número de livros brasileiros Li. venda, não tive a oportunidade de ver fregueses negros sendo atendidos. O fato é que apesar de ser a população negra das cidades angolanas
maior do que a população branca os brancos são sempre mais visíveis nas ruas principais das mesmas.
Atentemos agora no fato de ser a população negra de Angola na sua maior parte analfabeta. Examinando os dados estatísticos relativos ao ano de 1950, iremos encontrar entre cêrca de 70.000 brancos com mais de 6 anos de idade, apenas 8.000 analfabetos, o que equivale a cêrca de 90% de alfabetizados nessa população. De relação à população negra, porém, a proporção se inverte e então iremos encontrar uma percentagem superior a 90% de iletrados entre os negros angolanos. Em 1950
existiam em Angola apenas 30.000 negros alfabetizados numa população nativa superior a quatro e meio milhões.

Se a discriminação racial não existe e não pude encontrar dela sinais que a evidenciassem como ostensiva, ela aparece acobertada pelas diferenças sociais e culturais que opõem entre os brancos e negros naquele pais africano.Tentam os portuguêses de Angola «domesticar, é o têrmo, os negros angolanos visando transformá-los em indivíduos convertidos ao pensamento e aos costumes europeus. Deverão êles possuir elementos da cultura branca suficientes para serem disciplinados e dóceis, mas não bastantes para virem a tomar iniciativas e competir com os elementos brancos. Pude notar isto
em duas ocasiões diversas: - a primeira, quando certo funcionário, em Luanda, homem de um espírito excepcional de combate, mostrou-me, exultante de entusiasmo, uma fotografia onde apareciam nativas africanas, vestidas à moda do Minho, com pandeiros nas mãos, em passos de uma dança tipicamente peninsular; e ao tentar-me convencer da grande obra do colonizador português que havia conseguido de ,aquelas pobres moças o abandono dos seus costumes tradicionais em troca dos costumes portugueses. E a outra vez, em Nova Lisboa, quando determinado professor primário, após haver elogiado durante muito tempo os elementos nativos, exaltando-lhes as qualidades, confessou-me
que às vêzes, ao tomar conhecimento do mau procedimento de alguns dos seus ex-alunos nativos, tornados homens feitos, chamava-os ao seu gabinete, aplicava-lhes uma surra e que tal espírito
de justiça possuíam êles que após o castigo não saíam sem lhe agradecer o benefícioo das lições. E não foi poucas vêzes que ouvi em Angola que os brancos não poderiam descer ao nível dos negros, evidenciando tal observação o desprêzo por parte da maioria dos brancos de Angola pelos valores culturais das populações nativas.

Fora das cidades pude notar no Colonato da Cela a presença de elementos brancos. Mas por uma ironia toda singular, o Colonato da Cela é destinado exclusivamente a colonos brancos. Os negros que ali existem são empregados dos brancos, muito embora tal situação seja proibida legalmente. Não sei se mo outro grande colonato de Angola, o de Matala, as cousas se passam da mesma maneira. Mas anotemos alguns fatos para melhor analisar a importância da presença de agricultores brancos em Angola. Nas fazendas de café, principal produto agrícola de Angola, trabalham mais de 30.000 indígenas; na cultura do algodão, cêrca de 60.000, não existindo fora dos colonatos da Cela e de
Matala, senão cêrca de 3.000 agricultores brancos. E' principalmente pois nos trabalhos agrícolas que se encontram ocupados os negros de Angola. Fora das cidades, em condições de vida as mais precárias, é que a maior parte dêles existe. Mas quando se pensou em modernizar .a agricultura local, em têrmos de assistência técnica aos agricultores, através da instituição dos colonatos, foi com o pensamento nos elementos brancos que foram êles construidos. Os negros que continuassem a trabalhar para os brancos nos algodoais e nos cafèzais dos brancos. E' difícil, pois, prever-se o futuro de Angola. Não conseguiram os portuguêses ali realizar, ou não o desejaram, a grandiosa obra de colonização que realizaram no Brasil. O primeiro fato que mos denuncia tal cousa é a ausência da miscigenação racial. Em proporção cada vez menor verifica-se o cruzamento entre brancos e negros, e um dos administradores da Companhia de Diamantes de Angola, o Comte. Ernesto de Vilhena, chega mesmo a colocar-se frontalmente contra a necessidade de tal miscigenação, considerando-a nociva, ao responder às críticas feitas à Companhia que dirige, por Gilberto Freyre, no seu Avem
e Rotina (4). E em segundo lugar. pela dificuldade que tiveram os negros de Angola, até o momento atual, de ascender na escala social, de modo a virem ocupar postos importantes na
vida do país.

A impressão que me deixou Angola, pois, é a de um imenso território em reserva para os excedentes da população metropolitana e de sustentáculo, através dos seus produtos de exportação, da economia portuguêsa. Incapaz de sustentar todos os seus filhos sobre o seu território, nação subdesenvolvida e falta de recursos que é, Portugal prende-se a Angola, como a Moçambique ou a Guiné, por uma razão de sobrevivência. Cheguei a ouvir opiniões em Angola de que a sede do Govêrno português deveria para ali ser transferida. A terra é rica e vasta, a mãode- obra numerosa e barata, os brancos ocupam os postos de mando - Angola representa pois a salvação de Portugal. Não pensam, porém, do mesmo modo os nativos que conseguiram escapar ao cêrco cultural que lhes foi impôsto pelo colonizador.
Desejam êles uma Angola onde negros e brancos possam juntos gozar das vantagens hoje apenas reservadas aos brancos. Querem justiça e reivindicam a posse da terra tomada aos seus antepassados. O choque, ao meu ver, será bem difícil de evitar. E a desproporção entre as forças em luta prenuncia, sem dúvida a vitória dos negros uma vez revoltados.

A análise sumária que fizemos das populações urbanas de Angola bem demonstra que mão conseguiu Portugal ali realizar uma obra estável. Vivem as cidades de Angola dissociadas do resto do território, existindo entre o mundo rural e o mundo urbano um abismo profundo, a separar o branco colonizador do negro coloniizado . Nenhuma má vontade possuo para com o povo português, ao qual me acho fortemente ligado. Lamento, porém, que em Angola tenha o colonizador português fracassado; por não haver conseguido construir a sociedade multi-racial existente hoje no Brasil.

Preocupa-me, porém, o futuro de Portugal em Africa. Creio ainda na possibilidade de vir a ser evitado o choque racial que se evidenciou possível desde a eclosão dos movimentos armados e que se prenuncia capaz de.um ressurgimento pelo apoio franco dos novos países independentes da África às facções revoltadas. Brancos e negros têm, na minha opinião, igual direito ao pais, uma vez que aos dois grupos sejam concedidos direitos e oportunidades iguais. Não sei se Portugal realmente deseja favorecer a ascensão das populações nativas de Angola ao nível social dos brancos. A orientação que vem dando o govêrno português ao problema não me permite acreditar neste propósito. Mas se o deseja não sei se conseguirá realizar num prazo que dia a dia se tornará mais curto, o que não soube ou não quis realizar, por mais de quatro séculos de presença sobre as terras da Africa.

NOTAS
(1) - Não foram incluidos no total da população branca de Angola,
os números relativos Irs tropas enviadas pela Metrópole para o
combate aos terroristas do Norte, em vista do carhter transitório
da sua presença na colbnia.
(2) - Ensaio de um estudo .geográfico da &de urbana de Angola -
Junta de Investigação do Ultramar - Lisboa - 1962.
(3) - Aspectos do povoamento branco de Angola - Junta de Investigação
do Ultramar - Lisboa - 1960.
(4) - Aventura e Rotina - Crítica de uma crítica - Luanda - 1954.

RELATO DA TRAVESSIA DE ÁFRICA FEITA PELOS POMBEIROS, de 1802 a 1811



O Negro
Desde meados do século XVIII que Portugal tentou descobrir a ligação terrestre entre Angola e Moçambique. O objectivo era conseguir encontrar produtos que pudessem interessar os mercados asiáticos - sobretudo o da Índia e da China - que eram, na altura e até finais do séc. XIX, deficitários para todas as potências europeias. A primeira tentativa séria de realizar a travessia foi feita  por Francisco José Lacerda de Almeida, em 1798, mas este oficial de marinha morreu ao chegar ao Cazembe - a Noroeste do Niassa.
A nova tentativa, proposta logo em 1799 por D. Rodrigo de Sousa Coutinho, ministro da Marinha e dos Domínios Ultramarinos, começará em 1802. A travessia terminou com êxito mas somente em 1811, nove longos anos depois, realizada pelos pombeiros Pedro João Baptista e Amaro José, escravos mercadores de Francisco Honorato da Costa, director da feira de Cassengue - posto fortificado a leste de Luanda onde se centralizava o comércio com o interior de Angola - mas não teve continuação devido aos problemas políticos que sacudiam o império português, mas permitiu conhecer melhor o território - «abrir o caminho» - entre Angola e Moçambique.
Este relato, traduzido para inglês no ano seguinte à sua publicação, serviu para Livingstone, o missionário escocês que explorou o território entre Angola e Moçambique, preparar as suas viagens.
Parte 1/3

domingo, 13 de março de 2011

O encurtado ciclo de vida de Patrice Lumumba, Agostinho Neto, Amilcar Cabral e Samora Machel

PATRICE LUMUMBA - Herói Africano

PATRICE LUMUMBA - Herói Africano

«(...) Não estamos sós. A África, a Ásia e os povos livres e libertados de todos os cantos do mundo estarão sempre ao lado dos milhões de congoleses que não abandonarão a luta senão no dia em que não houver mais colonizadores e seus mercenários no nosso país. Aos meus filhos, a quem talvez não verei mais, quero dizer-lhes que o futuro do Congo é belo e que o país espera deles, como eu espero de cada congolês, que cumpram o objectivo sagrado da reconstrução da nossa independência e da nossa soberania, porque sem justiça não há dignidade e sem independência não há homens livres «Nem as brutalidades, nem as sevícias, nem as torturas me obrigaram alguma vez a pedir clemência, porque prefiro morrer de cabeça erguida, com fé inquebrantável e confiança profunda no destino do meu país, do que viver na submissão e no desprezo pelos princípios sagrados. A História dirá um dia a sua palavra; não a história que é ensinada nas Nações Unidas, em Washington, Paris http://www.expressodasilhas.sapo.cv/pt/noticias/detail/id/22504 ou Bruxelas, mas a que será ensinada nos países libertados do colonialismo e dos seus fantoches. A África escreverá a sua própria história e ela será, no «Norte e no Sul do Sahara, uma história de glória e dignidade.«Viva o Congo! Viva a África!»...
Passadas apenas dez semanas da sua eleição, foi deposto juntamente com o seu governo num golpe de estado, aprisionado e assassinado em Janeiro de 1961 em circunstâncias que indicaram cumplicidade e apoio dos governos da Bélgica e dos Estados Unidos. (*)

PRESIDENTE AGOSTINHO NETO- Herói Africano

PRESIDENTE AGOSTINHO NETO- Herói Africano

"Não basta que seja pura e justa a nossa causa. É necessário que a pureza e a justiça existam dentro de nós. Dos que vieram e conosco se aliaram muitos traziam sombras no olhar, intenções estranhas. Para alguns deles a razão da luta era só ódio: um ódio antigo centrado e surdo como uma lança. Para alguns outros era uma bolsa vazia (queriam enchê-la), queriam enchê-la com coisas sujas inconfessáveis. Outros viemos. Lutar para nós é ver aquilo que o povo quer realizado. É ter a terra onde nascemos. É sermos livres para trabalhar. É ter para nós o que criamos. Lutar para nós é um destino, é uma ponte entre a descrença e a certeza de um mundo novo. Na mesma barca nos encontramos. Todos concordam, vamos lutar. Lutar para quê? Para dar vazão ao ódio antigo? ou para ganharmos a liberdade e ter para nós o que criamos? Na mesma barca nos encontramos, quem há de ser o timoneiro? Ah, as tramas que eles teceram! Ah, as lutas que aí travamos! Mantivemo-nos firmes: no povo buscamos a força e a razão. Inexoravelmente como uma onda que ninguém trava, vencemos. O povo tomou a direção da barca. Mas a lição foi aprendida: Não basta que seja pura e justa a nossa causa. É necessário que a pureza e a justiça existam dentro de nós." Agostinho Neto

A morte prematura e, sobretudo, inesperada de Agostinho Neto, aconteceu a 10 de Setembro de 1979, aos 56 anos de idade, após uma operação no Hospital das Clínicas de Moscovo que revelara a existência de um câncer no pâncreas. Por terra cairam todos os esforços diplomáticos que estavam a ser desenvolvidos em prol de uma reconciliação entre Angola e os Estados Unidos. A revelação é feita por Maria Eugénia Neto, viúva do primeiro presidente de Angola, numa entrevista ao escritor e poeta Artur Queirós, que integra o livro Agostinho Neto - Uma Vida Sem Tréguas. Garante Maria Eugénia Neto, que o marido sempre tentou afirmar a sua independência ao longo da Guerra Fria que se estabeleceu entre os EUA e a URSS e  afirmar-se, ele próprio, como um não alinhado.

AMILCAR CABRAL- Líder do PAIGC - HERÓI AFRICANO

AMILCAR CABRAL- Líder do PAIGC - HERÓI AFRICANO

«Desde o tempo das chamadas descobertas ou achamentos até ao tempo do comércio de escravos e crimes da escravatura; desde as guerras de conquista colonial até à época de ouro do colonialismo; das primeiras “reformas” ultramarinas até às guerras coloniais de genocídio dos nossos dias, os colonialistas portugueses deram sempre provas de uma mentalidade supersticiosa e dum racismo primitivo em relação ao homem africano, que consideravam e consideram como naturalmente inferior, incapaz de organizar a sua vida e defender os seus interesses, fácil de enganar, sem cultura e sem civilização». AMILCAR CABRAL/ 1971. Amílcar Cabral é assassinado em Conacri em 20.Jan.1973.

PRESIDENTE SAMORA MACHEL - HERÓI AFRICANO

PRESIDENTE SAMORA MACHEL - HERÓI AFRICANO

"...Fizemos dez anos de guerra, sabemos o que ela significa e exige de nós. Queremos a paz, mas estamos prontos a aceitar os sacrifícios que o nosso dever internacionalista exige...
" Samora Machel
PR 1975-1986. Morreu com 53 anos de idade, quando o avião em que regressava ao Maputo se despenhou em território sul-africano.

 http://delagoabayword.wordpress.com/category/africa-austral/

O modo de viver dos moradores de Loanda na Angola colonial , no século XIX, às vésperas da abolição do tráfico de escravos

 


Em "Ensaios sobre a statistica das possessões portuguezas na Africa occidental e oriental; na... ", (Google eBook), PG 203 -207 , por José Joaquim Lopes de Lima, Francisco Maria Bordalo, encontrei um relato sobre o modus vivendi de brancos e negros em Luanda às vésperas da abolição do comércio de escravos, que passo a trancrever:
 LIV. III. — PART. I. DH


"...Resta-me dizer alguma cousa do modo de viver dos moradores de Loanda. Esta bella cidade contém no seu recinto — funccionarios públicos de todas as jerarchias; — negociantes, mercadores, corretores, e mais gente de commercio; — soldados da guarnição; — marinheiros da armada, e dos navios mercantes; — a gente miúda da terra; — a gente baixa do mar (muxi-loandos, muxi-congos, e cabindos); — e a escravaria dos moradores: começarei pelo fim: os escravos andam vestidos de calça e camisa, e entulham as casas dos senhores como objecto de luxo; pois não é raro encontrar dez,— doze, — ou vinte escravos na casa de um celibatário, que mal teria em que empregar dous ou três criados: dahi nascem muitos vícios, filhos da ociosidade, nesses entes inúteis (e até perigosos) em uma cidade, quando tão úteis poderiam ser na lavoura das terras, ficando os indespensaveis para o serviço domestico, carretos etc.: a gente forra indígena vive em casas palhoças, a que chamam cubatas, apinhadas em um vasto lubyrinto ao sopé do morro de S. Miguel por detraz das casas de pedra que bordam por esse lado a frente da cidade baixa; e também por detraz das casarias nobres da praia do Bungo até á Nazareth; esta gente meia — christà— meia idolatra assiste á missa, e dahi vae folgar e embriagar-se em um lembamento: traz contas ao pescoço, e milongos no seio; quasi toda ella  se emprega em oficios mecânicos, ou do serviço dos moradores, e nas vendas a retalho nos mercados etc.:—os muxi-loandos moram na ilha de Loanda fronteira á cidade, e empregam-se ordinariamente na pescaria, abastecendo de peixe a população da capital: em outro tempo as mulheres daquella ilha se occupavam em apanhar o zimbo nas suas praias, aonde hoje apenas vão mariscar, porque o zimbo já agora pouco consumo tem; o viver desta gente é similhanle em tudo ao dos outros indígenas: — os muxi-congos e cabindas são marinheiros das lanchas, e embarcações de cabotagem, e pouca residência fazem em terra, aonde todavia, apesar de estrangeiros, muito bem se entendem com os naturaes da sua classe: toda esta gente traja á europea — calça, e camisa, e chapéu de palha os homens, — saia e camisa as mulheres, — e os que tem mais meios vestem e calçam inteiramente a portugueza. A classe dos marujos portuguezes, e estrangeiros, é aquella que pela sua grande mortalidade tem dado mais má fama áquelle clima, como muito bem pondera Fortunato de Mello na sua Memória, que já por muitas vezes hei citado: darei aqui as suas próprias palavras indicando as causas de tal calamidades:

1.° — o muito que se expunhao ao  mais forte ardor do Sol os marinheiros dos navios mercantes, das embarcações (la diz charruas) do Estado e  nas cargas e descargas das suas embarcações, molhando-se muitas vezes, e enxugando a roupa no corpo. Todo o mundo sabe, que e sol faz mal mesmo na  Europa, e que muito mais acção deve ter dentro dos Trópicos,  onde os seus raios sao abrazadores, accrescendo a isto, que o local  de área adquire e reflecte um calor extremamente intenso: o resultado era adoecerem de moléstias graves
2. — o nao fazerem cazo dessas mesmas doenças; andarem emquanto podiao (como tantas vezes vi) a titulo de que lhes era muito precizo; andarem ao sol, mesmo com febre; e por tanto quando lhes queriao acudir já naò era tempo: o remédio era a «morte»...
3. o prejuizo, ou prestigio de que, para escapar a ter febres, era necessário andar sempre bem enfrascado em bebidas espirituosas: isto os fazia abuzar delas particularmente  da aguardente; o estômago e os intestinos conservavam-se em um estado de irritação a cada passo renovada: o rezultado erao hepatitis, dysenterias de péssima qualidade, e mesmo perniciosas apopleticas, que os conduziao á sepultura!!!
4.—Estarem de«noute, horas e horas, expostos nos Cáes, ou nos escaleres, á cacimba (orvalho), á espera dos seus officiaes, que deviaô ir para « bordo, e que se estavam divertindo na cidade até quazi á madrugada. À cacimba faz tanto mal como o Sol »... 
5. « Muitos  excessos de outra natureza, que saò tanto ou mais nocivos.»
Estes fataes inconvenientes que existiam no tempo a que se refere F. de Mello, existem ainda em grande parte, com quanto as guarnições dos navios de guerra estejam hoje sujeitas a uma rigorosa disciplina sanitária, e haja em Loanda um hospital fluctuante, com o que muito se tem diminuído a mortalidade, aliás excitada sempre pelo uso imoderado das bebidas irritantes, pela indispensável exposição a um sol ardente, e pela extrema devassidão das negras da terra, cujo contacto é em toda a África perniciosíssimo às compleições europeas: estes malles suo communs aos soldados brancos dos corpos do exercito, que apesar da disciplina dos quartéis, tem sempre sobeja occasiao para se entregarem a prazeres tao nocivos.
Também as classes mais elevadas padecem muito pelos seus deportes, que o mesmo F. de Mello nao deixa de mencionar nos seguintes termos— 6. — Para os Officiaes, e gente polida que alli ia negociar, alem de algumas destas mesmas cauzas, haviaõ ainda as céas  immoderadas, que eraõ banquetes, e duravaõ uma grande parte da noite,  ceas que deraõ a morte a muita gente: o abuso de passarem noites inteiras a jogar, tendo extremamente esquentando o  physico, e o moral & ª»
Eu assisti ha vinte annos por mais de uma vez a essas orgias, em que só figuravam homens (pois que ainda então se observava em Loanda o antigo costume portuguez — de conservar as senhoras em perpetua separação das sociedades do sexo masculino; e pude alli ver, não sem horror, depois de céas opiparas passarem os convidados escandecidos por frequentes libações a destroçar em uma mesa de jogo de azar violentíssimo as suas fortunas, ou as alheias: dalli nasciam a um tempo as hepatytis, e as banca-rotos, e por ultimo a immoralidíide. É certo que a civilisação do século vae já modificando aquellas rudes usanças: consta-me que já em Loanda vae tomando o seu logar na sociedade dos homens o sexo amável destinado  melhorar-lhes as inclinações; e também me consta haver alli um theatro particular, a que deu impulso o governador Noronha, e os que se lhe tem seguido; e por certo que em parte alguma pôde dar-se uma maior necessidade de espectáculos lícitos e innocentes, para desviar as classes abastadas do furor do jogo, que todavia predomina ainda.
Quanto ao mais, o viver da gente grave de Loanda é o de uma cidade do Brasil. . . Brazileira é a sua cosinha bem farta de estimulantes; — brazileiro é o dialecto alli usado no trato domestico;— brazileiras parecem as damas na molle indolência em que vegetam, cercadas de um grande séquito d'escravas, ostentando era publico grande luxo no seu vestir, e na pompa que as rodéa; mas andando usualmente meias vestidas e com as pernas nuas quando estão dentro em sua casa; — e tambem os homens pelos seus hábitos e propensões niio vao fora do typo brazileiro. Os transportes de conducção mais usados são as chamadas tipoyas — que vem a ser — uma rede de dormir (das que se usam em toda a America) prosa pelos extremos a uma vara, ou bambu, que assenta sobre a cabeça dos negros conductores, e sobre a qual se forma um docel, donde pendem cortinas de seda, ou de chita ele. — que encobrem a pessoa que vae dentro, e a preservam dos raios do sol: ha ahi também algumas carruagens de rodas, bem como cadeirinhas de condicçao, e por ventura não tardarão a introduzir-se os palanquins á indiana.
Os moradores de Benguella forcejam por seguir quanto podem os usos — bons e maus — dos seus compatriotas de Loanda; mas o viver naquelle paiz é uma lucta continua com a doença, e com a morto: os homens brancos tem contraindo o habito constante de andarem pela rua sempre com a mão no pulso para observar as pulsações, e quando se encontram, a pergunta usual é — se já faltou a febre.. . Mulheres brancas não as ha, nem as pôde haver sob pena de morte certa, maiormente se estiverem elas ainda em idade de poder ter filhos; porque ainda não ha exemplo até hoje de parto de mulher branca, que não custasse a vida á mãe e ao filho: isto diz tudo: todavia nos intervallos da moléstia — boa mesa — e jogo — são os passa-lempos de Benguella; e ahi ha luxo, não só nas casas dos ricos negociantes, mas ainda mesmo nas choupanas dos negros porque a terra regorgita em riqueza pelo seu muito commercio, que por ventura lhe virá a fugir em parte para Mossamedes, se o bom clima daquelle porto -convidar para elle, como é de esperar,  casas de commercio de Benguella.
Anres de concluir este capitulo devo apresentar pelas próprias palavras as sensatas observações de um escriptor recommendavel. J. C. Féo Cardoso, na sua Memória impressa em Paris em 1825 — Em geral diz elle fallando do complexo dos Domínios Portuguezes de Angola e Benguella podem assignar-se trez cauzas principaes á decadência da povoação, que alli se observo: primeiro, os «poucos cazamentos nas classes elevadas da sociedade; segunda, a miséria e pobreza no povo; terceira, a immoralidade, a incontinencia e a devassidao dos costumes, em ambas. A primeira provem do uzo, ou abuso introduzido de dar grandes prezentes e jóias  ás noivas, o que sendo impossível, a maior parte preferem o celibato ao que chamam descrédito. À segunda he o resultado do sistema já exposto, de ser o povo obrigado a uma vida errante, «trabalhosa, miserável, e pouco lucrativa (alludia ao systema dos carregadores hoje proscripto); a ultima he a consequência necessária das duas: talvez que alguma lei sumptuária empregada com  prudência, e mais que tudo o exemplo dos Capitães generaes, e das authoridades superiores, contribuíssem para facilitar os cazamentos dos nobres, diminuindo-lhes os encargos, que por serem de «opinião ensino ainda mais a desarraigar.Em quanto ao povo, dada nova direcção aos capitães, e applicando-se estes com preferencia á agricultura, industria, e commercio de seus productos, necessariamente ha-de haver emprego  para muitos braços, e apparecerá a abundância e riqueza, que saò as bases da prosperidade publica e individual, origem sempre de uma povoação robusta, e do seu augmento progressivo.  Depois do que atraz deixo escripto fora ocioso o afirmar, que nesta ultima parte sou inteiramente da opinião deste auctor.
Quanto porém a leis sumptuárias, parece-me remedio inefficaz contra preconceitos sociaes, que só por meios indirectos podem vir a desarreigar-se: um delles é certamente o do exemplo; mas nem sempre, — ou antes poucas vezes — os governadores, e altos funccionarios estão no caso de o poder dar, sobre tudo em negócios matrimoniaes. Consignei com tudo este trecho para completar com elle o quadro dos costumes de Angola e Benguella.
Fim da l Parte.

quarta-feira, 9 de março de 2011

GRANDE GUERRA - 1914 A 1918 (I)

Por Miguel Machado • 1 Mar , 2011 05. PORTUGAL EM GUERRA - SÉCULO XX

O “Operacional” inicia hoje com a publicação de uma série de artigos alusivos à Grande Guerra 1914-1918, mais uma parceria. Com a colaboração desinteressada de Manuel Ribeiro Rodrigues, vamos dar a conhecer acontecimentos de épocas que marcaram a História Militar de Portugal. O seu acervo particular abrange uma infinidade de temas que em boa hora se lembrou de divulgar pela internet e muitas serão as imagens, factos e opiniões que só anos e anos de pesquisa aturada e muito investimento permitiram recolher. O “Operacional“orgulha-se de ajudar a divulgar este material de consulta e certos estamos que, juntamente com Ribeiro Rodrigues, prestamos mais um serviço à comunidade interessada nestas temáticas, em Portugal e no Estrangeiro.

Manuel António Ribeiro Rodrigues, 62 anos de idade, dedica-se à investigação e divulgação da história militar em geral e principalmente sobre o estudo dos uniformes militares, equipamento, organização, há cerca de 47 anos. Foi militar, cumpriu uma comissão de serviço de 27 meses na totalidade passados no Norte de Moçambique (Mocímboa da Praia/Mueda/Palma), entre 1970 e 1972.
É autor de diversos livros sobre estas temáticas, entre os quais: “300 Anos de Uniformes Militares do Exército”; “Modern Africam Wars (Angola, Guiné e Moçambique)” da editora inglesa Osprey; “400 Anos de Uniformes e Organização militar de Macau”, do Instituto Cultural de Macau (edição trilingue em português, inglês e mandarim); “Mocidade Portuguesa Masculina”; “Mocidade Portuguesa Feminina”. Tem publicado muitos artigos em revista nacionais e estrangeiras e presentemente dedica-se à divulgação do seu enorme acervo particular através da internet, tendo três blogues: um dedicado exclusivamente à Guerra Peninsular outro à Grande Guerra e um outro à História Militar Portuguesa no geral.  Bem-vindo ao “Operacional” Ribeiro Rodrigues!
Esta série de artigos sobre a Grande Guerra, 1914-1918 está ser divulgada no blog http://grandeguerra-marr.blogspot.com/ e vamos iniciar a publicação, num formato ligeiramente diferente do original mas como mesmíssimo conteúdo.

GRANDE GUERRA - 1914 A 1918 (I)
Aos alemães, até determinada data não lhes interessava a África, mas Bismarck, depois de grande resistência, consentiu que a Alemanha tentasse estabelecer-se nesse continente; neste sentido, no ano de 1884, o Togo e o Camarões foram ocupados e declarados Protectorados Alemães assim como umas parcelas de território do Sudoeste Africano, onde residiam muitos naturais desse País.
Em 1897 a Alemanha conseguiu que Portugal lhe cedesse os seus direitos sobre o território entre Cabo Frio e o Baixo Cunene, assim o território alemão aproximou-se muito da fronteira de Angola, e desse modo constituiu a Damaralândia, na costa ocidental ao sul desse nosso território.
                              (Colecção particular)
Na África Oriental, a norte de Moçambique, havia uma companhia de negociantes alemães, que em sintonia com os sucessos obtidos na África Ocidental, declararam que: aquela região passaria a ser de futuro a África Oriental Alemã!
Em 1898 o governo inglês e o alemão decidiram entre si partilhar a influência mercantil em Angola, aparecendo na imprensa estrangeira uma série de artigos de opinião. O jornal alemão “Post” em Dezembro de 1911 publicava: (…) Lembremo-nos, de que nos arquivos de Londres e Berlim, existe um tratado que assinámos em 1898, com a Inglaterra, e pelo qual as possessões de Portugal, na África, nos são garantidas. Seriam compensações, que deviam dar-se-nos, em troca das vantagens da partilha da Pérsia (…)
Precisamente pela mesma ocasião o jornal inglês “Daily Mail” publicava num artigo assinado pelo alemão Hans Delbruck, o seguinte: (…) É inevitável, uma diminuição do poder português em África, e uma partilha das possessões da República, ali, entre a Inglaterra e a Alemanha, partilha feita há muito tempo, se não fosse a repugnância da Inglaterra, a ter intervido desvantajosamente na ideia da expansão alemã (…)
Programa de viagem do navio alemão "Ussukuma" (Colecção particular)
Programa de viagem do navio alemão "Ussukuma" (Colecção particular)
Não restam dúvidas de que Angola e Moçambique estavam nos projectos expansionistas da Alemanha. Devido a diversas e sucessivas campanhas na imprensa germânica, começaram-se a infiltrar em Angola, muitos alemães, alegando motivos de estudos tropicais, safaris, missões, etc.
A 28 de Julho de 1914, a Áustria declara guerra à Sérvia; a 31, a Alemanha manda um “ultimatum” à Rússia e à França; a 1 de Agosto declara guerra à Rússia, a 2 do mesmo mês invade o Luxemburgo, a 3 declara guerra à França e a 4 invade a Bélgica!
Assim ficaram definidas as posições dos beligerantes: a Alemanha e a Áustria Hungria contra a Inglaterra, a França, a Rússia, a Bélgica e a Sérvia. Depois a Itália juntou-se aos aliados e a Turquia aos impérios centrais. Todos os outros países declararam a neutralidade, com excepção de Portugal que nada disse, esperando uma definição da aliada Inglaterra em relação às nossas possessões de África.
ÁFRICA
Postal ilustrado de propaganda (Colecção particular)
Postal ilustrado de propaganda (Colecção particular)
A 25 de Agosto de 1914 os alemães atacaram o nosso posto de Maziua, na África Oriental Portuguesa, matando-nos gente, saqueando e destruindo o posto; a 11 de Setembro embarcam as nossas tropas para Moçambique ali chegando a 16 de Outubro; a 12 de Setembro, partem as nossas tropas com destino a Angola, onde desembarcam em Moçâmedes a 1 de Outubro, começando assim as nossas campanhas defensivas de África contra o invasor alemão; a 18 de Outubro de 1914 dá-se o incidente de Naulila e a 31, do mesmo mês, o de Cuangar, matando o comandante, oficiais e incendiando o posto; a Alemanha declara guerra contra Portugal a 9 de Março de 1916 e Portugal só a declarou, oficialmente no dia 19 de Maio.
Primeiro da esquerda: General Ferreira Gil, comandante da 3.ª Expedição a Moçambique com o seu Estado-Maior.Junho de 1916
Primeiro da esquerda: General Ferreira Gil, comandante da 3.ª Expedição a Moçambique com o seu Estado-Maior.Junho de 1916
Infelizmente as nossas acções em África contra os alemães e os nossos heróis, que combateram nas nossas antigas possessões de África, são sempre olvidados, até nas comemorações oficiais e nos monumentos que existem espalhados pelo nosso País; nenhum tem a estátua em bronze ou pedra referente a um combatente de Angola ou Moçambique, apenas legendas…terá sido por vergonha de terem enviado militares combaterem para África sem as mínimas condições e votados a um total abandono? Terá sido pela incompetência por parte dos principais dirigentes e políticos dessa época?
Embarque de tropas para África In:Ilustração Portuguesa
Embarque de tropas para África In:Ilustração Portuguesa
MOÇAMBIQUE - TESTEMUNHOS
O Dr. Américo Pires de Lima legou-nos um impressionante e real testemunho no seu livro intitulado “Na Costa d’África - Memória de um Médico Expedicionário a Moçambique”, publicado em 1933, onde o seu autor nos começa por afirmar que: (…) A história faz-se sobre factos autênticos e não sobre convenções por mais agradáveis que estas sejam. De contrário, não passa de romance(…)
(…) É estrito dever de cada um dizer o que sabe e o que viu. É o que agora aqui faço. É possível que alguns vejam nisto manifestações de derrotismo ou de antimilitarismo. Esses serão dos que antepõem as convenções à verdade, na ingénua esperança de que - verdade escondida é verdade inexistente. Supondo, é claro, que são sinceros, o que nem sempre acontecerá(…)
(…) Que não se repita a situação absurda reminiscência e contra natura de os nossos militares sofrerem mais pela acção dos amigos do que pela dos inimigos. Que não se repitam os males de imprevidência e de indiferença pelo destino dos nossos pobres soldados de África, que certamente seriam mais felizes se combatessem como mercenários, à sombra duma bandeira estranha (…)
Dr. Américo Pires de Lima em Mocímboa da Praia Desenho do Dr. Abel Salazar
Dr. Américo Pires de Lima em Mocímboa da Praia Desenho do Dr. Abel Salazar
(…) Que não se repitam, em suma, factos que, ao menos pela sua absurda falta de lógica, só são possíveis em um País em que os analfabetos são a maioria, em que por isso a opinião pública é, muitas vezes, uma torpe ficção, estereotipada e distribuída por meio de não sei que misteriosos e recônditos canais, para ser absorvida tal qual, sem espírito crítico nem prévia digestão. A verdade convencional fica assim distante da verdade autêntica, que dir-se-ia não haver entre elas o menor grau de parentesco(…) (…) Esta ausência de diferenciação moral conta por muito na desorientação da vida portuguesa, que tem andado à matroca, sem finalidade, sem leme e sem rumo, ora carpindo as misérias do presente, ora exaltando as glórias do passado, mas nunca preparando singelamente o plano futuro(…)
(…) Só assim se explica que fossemos tão mal precavidos para uma campanha de altíssima responsabilidade como a de Moçambique, guerra colonial, não contra indígenas, mas contra o bem preparado e equipado exército alemão! Deixámos tudo à mercê do acaso e do nosso duvidoso talento de improvisadores(…)
Atravessando o rio Rovuma numa jangada In: Ilustração Portuguesa
Atravessando o rio Rovuma numa jangada In: Ilustração Portuguesa
(…) Assim se mandaram para a guerra cavalos que nunca tinham sido montados, muares que nunca tinham sentido os arreios, soldados que nunca tinham disparado um tiro. Assim se expuseram os soldados aos mosquitos e à cacimba, à espera que fossem construídos os seus aquartelamentos. Assim se instalaram hospitais, meses depois de desembarcada a tropa; de modo que centenas de soldados adoeceram e morreram sem que pudessem receber uma razoável assistência médica, por não poderem ser hospitalizados (…)
(…) Chegou-se ao cúmulo de, contra o parecer dos médicos, dar alta a doentes, obrigando-os a partir na expedição, quando pela natureza da doença, tudo aconselhava o contrário, pondo assim em grave risco o nosso prestígio de nação civilizadora e colonizadora!(…)
Dr. Américo Pires de Lima
ÁFRICA - TESTEMUNHO
General Gomes da Costa Colecção particular
General Gomes da Costa Colecção particular
O General Gomes da Costa no seu livro “A Guerra nas Colónias”, escreve: (…) A maior e principal causa dos nossos desastres vem sempre dos governos, por se não preocuparem com a preparação do exército (…)
(…) Numa república onde os homens que se sucedem no poder, mal tendo tempo para tomar posse, e logo se vão embora, é indispensável que as instituições prevejam e remedeiem os inconvenientes resultantes, em tempo de guerra, dessa instabilidade, e que ponham à disposição dos membros do governo, desde a declaração de guerra, um organismo com experiência, autoridade e bem preparado para os ajudar no desempenho da sua missão de salvar o País (…)
(…) Numa república moderna, não são só os generais incompetentes que a lei tem de punir e afastar dos comandos: são também, os Ministros que lutaram pelo poder e aceitam responsabilidades do governo, sem se terem previamente tornado capazes de o exercer (…)
Posto de observação (Colecção particular)
Posto de observação (Colecção particular)
(…) Estes deveres consistem, principalmente, na nomeação dos comandos superiores, e em lhes dar, - não conselhos, nem, opiniões, mas ordens precisas e concisas sobre o objectivo das operações (…)
(…) Se os nossos governos tivessem sabido assim proceder, não teríamos visto as operações em África a arrastarem-se sem objectivo, sem plano, sem nexo até à derrota (…)
General Gomes da Costa
MOÇAMBIQUE - OS ALEMÃES
Estampa da época (Colecção particular)
Estampa da época (Colecção particular)
General von Lettow Worbeck
General von Lettow Worbeck
O General von Lettow Worbeck escreveu, nas suas “Memórias da África Oriental”, acerca das campanhas contra Portugal que:
(…) O inimigo maior em Moçambique, foi o próprio português com a sua leviandade, irreflexão, desmazelo e bizarria, a sua vara na mão, o seu cego posso, quero e mando, que não velou pela alimentação, saúde e pela assistência das tropas; prevenir e atacar os flagelos que sobre elas incidem letalmente, ouvir e respeitar as vozes da higiene e da medicina. A ordem era não adoecer e quem o fizesse que rebentasse, não tinham camas, nem assistência, nem remédios (…)
Postal ilustrado da época (Colecção particular)
Postal ilustrado da época (Colecção particular)
O FIM
E de volta à Pátria, como terá sido a recepção que estes heróis tiveram no cais de desembarque? Para melhor descrever esse regresso à Metrópole, após a missão cumprida, explica-nos o Dr. Pires de Lima que (…) a esperar-nos, ninguém, nem a Cruz Vermelha, na hipótese, infelizmente verdadeira, de trazermos doentes, que careciam de ser transportados em maca…recordei então as notícias, que tinha lido, da maneira como eram recebidos, com mimos e carinhos femininos,os feridos e doentes, que regressavam de França (…)
Tropa de África! Foto de 1918
Tropa de África! Foto de 1918
(…) Profundamente chocado, mandei para o Quartel-General um telefonema seco: “estava ali o Quelimane com duzentos soldados doentes; alguns, que só poderiam desembarcar de maca, outros que vinham em trajes menores e, por isso, não poderiam desembarcar de dia” (…) Tempos depois, apareceu no cais, muito enfadado, um senhor alferes, que o Q.G. mandara, para tomar conta dos meus doentes. E nisto se resumiu a recepção oficial feita aos Expedicionários, que parece não terem cumprido integralmente o seu dever, pois, com teimosia inexplicável e digna de muita censura, se tinham obstinado em não morre, longe da Pátria, para lhe poupar um espectáculo deselegante e perturbador de digestões felizes (…).
Dr. Pires de Lima
Felizmente ainda conheci pessoalmente um desses heróicos combatentes (resistentes), que com a idade de 18 anos foi como voluntário para Angola combater os alemães, infelizmente já nos deixou, faz uns bons pares de anos, e numa idade já centenária, refiro-me ao Coronel e Engenheiro Químico Manuel Aboim Ascensão de Sande Lemos que durante muitas horas me narrou alguns dos acontecimentos por ele vividos em África, testemunhos esses que me entusiasmaram a levar em frente o trabalho que aqui inicio.
Dedicando este modesto trabalho não só à sua memória, mas à de todos esses heróis esquecidos que tanto deram pela Pátria sem nada em troca pedirem…
O Autor
M. A. Ribeiro Rodrigues
Veja aqui a Parte II e III deste trabalho no “Operacional”:
GRANDE GUERRA - 1914 A 1918 (III) UNIFORMES

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Os colonos da África portuguesa sob o regime colonial e seu deslocamento para o Brasil no pós-independência Zeila de Brito Fabri DemartiniI; Daniel de Oliveira CunhaI




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RESUMO

Milhares  foram    os colonos portugueses que passaram pela África e vieram viver  no Brasil    após a derrocada do império português, em 1975. Também     vieram viver neste país os brancos nascidos no continente africano,  chamados    de "velhos colonos", associados pelos anti-colonialistas aos  portugueses, embora    em grande parte se considerassem africanos.  Muitos deles de fato se articularam    com os interesses da metrópole,  apesar de muitos outros se associassem    aos nacionalistas negros e  mestiços, definindo-se também com a    categoria africana de "filhos da  terra", orientados para a causa das independências    das colônias. Este  artigo aborda as tensões político-ideológicas    e identitárias  individuais e coletivas fundamentais que se processaram    entre os  "velhos colonos" e os "recém-chegados" desde sua vivência    no âmbito  da situação colonial até a sua chegada    a este país de acolhimento, o  Brasil.
Palavras-chave:    Colonos africanos no Brasil. Pós-colonialismo. Tensões político-ideológicas.

Texto integral AQUI

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Mapa de Cristoforo Soligo 1485/86 - cartógrafo veneziano



1ª expedição do navegador português Diogo Caão [ Agosto de 1482 a Abril de 1484], à costa costa ocidental africana a Sul do Equador, à latitude 15º 8' Sul.
                                          


Actuais países da Nigéria, Camarões, Guiné Equatorial, as ilhas de Fernão Pó (formosa) e S. Tomé e Príncipe, Gabão, Congo Brazaville, enclave de Cabinda, Congo Zaire.

Estuário do rio Zaire e percurso superior.
A costa de Angola, inclui as ilhas de Luanda e Mussulo.
O extremo Sul do mapa, o Pontal Norte do Saco do Giraul, entrada Norte na Baía de Moçâmedes – Namibe- Angola.

Sinalização de duas cruzes:

-Na margem esquerda junto à foz do rio Zaire. Assinala o padrão de S. Jorge
-No cabo de Stª Maria. Assinala o padrão de Stº. Agostinho.

A toponímia dos padrões configuram as datas da sua implantação (23 de Abril e 28 de Agosto de 1483).

Lugares assinalados em Angola, após a 1ª expedição de Diogo Caão [mapa cristoforo Soligo]:


“aponta blancha” - Lândana - enclave de Cabinda – 5º 13’ lat. Sul
“aponta da barreira vermelha” , [Cacongo – enclave de Cabinda] 5º 14’ lat. Sul
"capo do paul" - praia da Muanda, [República Popular do Zaire Kinshasa] 5º 56’ lat. Sul
"rio poderoso" - rio Zaire - 06º 02' lat. Sul
"capo do padrom" - Ponta do Padrão, 6º 4’ lat. Sul
"capo redondo" - em N'Zeto, Ambrizete 7º 14’ latitude Sul
"rio da madalena" - rio Loge e baía adjacente à vila do Ambriz, lat. 7º 48’ 40’’ Sul.
"rio de Fernam Vaz"- monte de barro - foz rio Dande, 8º 28’ lat. Sul
"angra grandim" - baía da foz rio Bengo, 8º 44´52’’ lat. Sul
"morro alto" - "montes da lua" margem direita rio Quanza, lat. 9º 19’ Sul
"terra de duas pontas" - praia do Sangano, 9º 33’ lat. Sul
"rio do paul" - rio Catumbela, 12º 26’ 42” lat. Sul
"angra de Santa Maria" - praia morena de Benguela, 12º 35’ 24” lat. Sul
"canel dalter poderoso" - rio Caporolo, lat. 12º 53’ Sul
"capo do Lobo" - cabo de Santa Maria, latitude 13º 25’ Sul
"14º" - baía de Lucira Grande, 13º 52' lat. Sul
"pontalvo" - ponta da baía das Salinas , 14º 11’ lat. Sul
Mapa Mundi de Henricus Martellus Germanus - 1489
Lugares assinalados em Angola após a 2ª expedição de Diogo Caão [mapa mundi Henricus Martellus Germanus]:


"rio poderoso" - Rio Zaire
"pota de padron" - Ponta do Padrão
"capo retundo" - em N'Zeto, Ambrizete
"rio de fernã Vaz" - rio Loge
"ponta alta" - monte da Lua - margem direita rio Quanza
"C. S. Laureci" -cabo S. Lourenço - Benguela à Velha, Porto Amboim, Angola , 10º 45’ lat. Sul
"golfo de S Maria" - angra de Stª Maria - Praia morena de Benguela
"C. S. Augustini" - cabo Santa Maria
"C. Zorto" - pontal Norte Saco Giraul na baía do Namibe, Moçâmedes

"terra fragosa" - costa marítima de Moçâmedes a Porto Alexandre
"monte negro" - cabo Negro
"terra alta" - costa marítima de Porto Alexandre à Baía dos Tigres
"enseada" - baía dos Tigres
"arena braca" - dunas

Lugares assinalados por Duarte Pacheco Pereira em "Esmeraldo de situ orbis":

"rio do padrão" - rio Zaire
"rio de Mondego" - rio Bengo
”ilha das Cabras” - ilha de Luanda
“ponta das Camboas”- cabo de S. Brás, lat. 9º 58’ 30” Sul.
"ponta de São Lourenço" - Benguela à Velha, Porto Amboim.
"angra de Santa Maria" - baía da praia morena de Benguela
"ponta preta" - cabo de StªMaria
"monte negro" - cabo Negro
"angra das aldeias" - Tombua, Porto Alexandre
"manga das areias" - enseada baía dos Tigres
"ponta das pedras" -
“mendoos" -dunas

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A ESCRAVIDÃO E AS RELIGIÕES


«.....Os muçulmanos do Norte da África fizeram muito mais do que só se envolver no aprisionamento e escravização de negros: Eles atacavam os litorais da Europa para capturar brancos e vendê-los nos grandes mercados de escravos da África.

De acordo com o Professor Robert Davis, da Universidade de Ohio, os muçulmanos africanos não se limitavam a transformar em escravos apenas os europeus capturados em guerra. No período entre 1530 e 1780, eles atacavam e aterrorizavam sistematicamente os litorais da Europa no mar Mediterrâneo em busca de pessoas para vender como escravas nas cidades africanas de Argel, Tunis e Trípoli. O Professor Davis escreveu que mais de um milhão de europeus foram levados à força para a África. O Mediterrâneo veio a se tornar um “mar de medo” para os europeus que viviam perto dos litorais, principalmente camponeses, trabalhadores de fazendas e pescadores. Até mesmo grandes cidades como Barcelona, Genova e Nápoles não estavam a salvo de invasões e ataques de corsários muçulmanos. Esses piratas caçadores de escravos chegaram até mesmo a atingir regiões litorâneas do oceano Atlântico: Em 1627, quatrocentos habitantes da Islândia (país europeu com população evangélica branca de cabelo loiro e olhos azuis) foram aprisionados e transportados como escravos para a África, para nunca mais voltarem. Em 1631, os habitantes de uma vila inteira na Irlanda foram atacados de surpresa e capturados pelos africanos. De acordo com o jornal inglês Guardian Unlimited: “Milhares de cristãos brancos eram seqüestrados anualmente para trabalhar como escravos remadores de galeras, trabalhadores braçais e amantes dos senhores muçulmanos no que é hoje o Marrocos, Tunísia, Argélia e Líbia”.

A vida dos escravos brancos na África não era melhor do que a vida dos negros africanos no continente americano: eles eram obrigados a trabalhar em casas, fazendas, pedreiras, minas de sal e construção de estradas, ficando reservado às jovens brancas o “trabalho” de servir sexualmente os africanos. Todos sofriam torturas para se converter ao islamismo e estima-se que metade deles morriam no cativeiro devido a rações de péssima qualidade, trabalhos pesados, surras e pragas. No século XVIII algumas nações européias começaram a pagar resgate para libertar alguns europeus escravizados na África.

Os países europeus que não queriam ser alvo de ataques de piratas muçulmanos africanos eram obrigados a pagar uma pesada taxa anual. Até mesmo o Império Britânico, com sua grande marinha, não se aventurava a enfrentá-los militarmente, talvez também por causa de suas amargas experiências do passado. Só entre 1609 e 1616, 466 navios ingleses foram capturados. Entre 1677 e 1680, outros 160 navios ingleses foram aprisionados pelos muçulmanos africanos. Nas décadas seguintes, os ingleses continuaram sofrendo perda de ainda outros navios, cujas tripulações e passageiros foram igualmente escravizados, até que, humilhado, o poderoso Império Britânico reconheceu a necessidade de pagar as taxas anuais exigidas pelos piratas africanos.

A captura, venda e compra de escravos europeus nos mercados da África sofreram um duro golpe quando os EUA, no começo de 1800, corajosamente agiram de um modo que nenhuma grande nação da Europa ousara tentar. Em resposta às ações de corsários africanos que capturaram um navio americano no mar Mediterrâneo e escravizaram a tripulação, os EUA — que na época nem tinham uma marinha — encomendaram a construção de três navios. Com essa pequena marinha recém-formada, eles travaram guerra contra os poderosos países muçulmanos do Norte da África. Na primeira grande ação militar internacional dos EUA, um pequeno número de soldados americanos invadiu esses países, prevaleceu sobre seus inimigos e exigiu a emancipação de todos os escravos europeus cristãos.

A pirataria e a escravidão dos africanos muçulmanos contra os europeus só terminaram definitivamente quando os franceses, os espanhóis e os italianos colonizaram os países do Norte da África e exterminaram as bases de operações dos mercadores de escravos. No entanto, com o fim da colonização algumas nações africanas — como o Sudão — voltaram aos velhos hábitos, escravizando homens, mulheres e crianças de seus próprios povos. No Sudão moderno, centenas de milhares de cristãos negros têm sido estuprados, escravizados ou mortos por sudaneses muçulmanos, que controlam o governo.

A Escravidão Sempre Existiu, em Todos os Povos. A escravidão não teve origem na Bíblia, que apenas a regulou e humanizou. Essa prática está ligada a todas as raças desde os tempos mais antigos. Sobre essa questão, comenta Thomas Sowell, um americano negro e professor universitário: “Os europeus escravizaram outros europeus durante séculos antes que o esgotamento de escravos brancos os levasse a recorrer à África como fonte de escravos para o Hemisfério Ocidental. O imperador romano Júlio César marchou em Roma numa procissão que incluía escravos britânicos capturados. Duas décadas depois que os negros foram emancipados nos Estados Unidos, ainda havia escravos brancos sendo vendidos no Egito. A mesma história se repete na Ásia, África, entre os polinésios e entre os povos indígenas do Hemisfério Ocidental. Nenhuma raça, país ou civilização está isento de culpa”. Sowell também diz: “A escravidão era um negócio feio e sujo, mas indivíduos de praticamente todas as raças, cores e credos estavam envolvidos nela em todos os continentes habitados. E as pessoas que eles escravizavam também eram de praticamente todas as raças, cores e credos”.

O Professor Robert Davis explica essa questão: “Umas das coisas que o público e os estudiosos têm a tendência de fazer é ver como fato garantido que a escravidão sempre teve natureza racial — que só os negros eram escravos. Mas isso não é verdade. Não podemos pensar na escravidão como algo que só os brancos fizeram para os negros”. A maioria das sociedades de 1, 2, 3 ou 4 mil anos atrás aceitava de uma forma ou outra a escravidão. E é bom lembrar que na Europa brancos escravizavam brancos, na Ásia asiáticos escravizavam asiáticos, nas Américas índios escravizavam índios e na África negros escravizavam negros, tornando a maior parte da população mundial de hoje (independente de origem racial) descendente de escravos, pois o sistema social de trabalho forçado era comum a todos os povos. Não havia os que aceitavam e os que não aceitavam a escravidão. Havia só dois grupos:

A maioria: os pagãos, ateus e anticristãos que eram de modo geral cruéis com os escravos.

A minoria: os que, obedecendo ao que Deus diz na Bíblia, eram de modo geral bondosos com eles.

Onde a escravidão era praticada por muçulmanos e outras culturas não cristãs, dificilmente havia esperança de misericórdia para os oprimidos. Ainda que hoje os muçulmanos não mais empreendam o aprisionamento e venda de negros e brancos como escravos, sua falta de compaixão pouco diminuiu, como se pode comprovar nos cruéis atos terroristas e seqüestros e assassinatos sádicos de reféns inocentes, praticados por indivíduos que se consideram adeptos de uma “religião de paz”, mas que desde os tempos da escravidão vem trazendo, através de seguidores fanáticos, opressão e terror para a humanidade.

No continente americano, antes da vinda de Cristóvão Colombo, a situação não era melhor. Pessoas capturadas, mesmo crianças, nas guerras entre as tribos indígenas muitas vezes acabavam escravizadas, ou engordadas para servirem de alimento para seus captores canibais ou simplesmente utilizadas em sacrifícios humanos. Tanto homens como mulheres aprisionados eram estuprados, pois o homossexualismo era comum nas tribos. O tratamento desses índios nas mãos de outros índios era tão cruel que as vítimas viram Colombo como herói, quando ele venceu as tribos canibais e libertou os índios que estavam sendo mantidos presos para serem devorados. Os índios libertos receberam o “invasor” com muita alegria.TEXTO COMPLETO AQUI

domingo, 13 de fevereiro de 2011

AGOSTINHO NETO FOI ASSASSINADO PELOS RUSSOS

Luanda - Uma declaração pública sobrelevou-se a todas as outras durante as celebrações deste ano do Dia do Herói Nacional, instituído com a data do nascimento de Agostinho Neto:

a filha do velho presidente, a médica Irene Neto (que ocupa um dos vice-ministérios das Relações Exteriores), admitiu, ao falar a uma estação de rádio de Luanda, a possibilidade do líder angolano ter falecido em resultado de envenenamento.

Irene Neto falou em «abundantes indícios» sugerindo que o pai, Agostinho Neto, não morreu de causas naturais. Estratagemas artificiais teriam encurtado o seu ciclo de vida. Pela primeira vez, desde o desaparecimento de Agostinho Neto, há 28 anos, uma declaração pública evoca a possibilidade do líder revolucionário angolano ter sucumbido a uma conspiração destinada a eliminá-lo da cena política angolana, numa afirmação, além do mais, valorizada por ter partido de uma fonte simultaneamente ligada ao círculo familiar do velho presidente e aos meios institucionais angolanos.

A admissão dessa funesta possibilidade no Café da Manhã da Luanda Antena Comercial (Lac) de terça-feira não teve, entretanto, o cunho de uma declaração oficial, embora seja isso o que hoje se afigura mais necessário para a compreensão da política angolana dos últimos 30 anos: declarações oficiais do actual Governo e do partido que naquele Setembro fatídico de 1979 personificava o Estado, o Mpla, que façam luz sobre o que se passou, como uma vez perguntou Severino Carlos neste jornal, «naquela mesa de operações em Moscovo».

Agostinho Neto morreu ao submeter-se a um operação exigida por alegadas complicações no fígado detectadas em Moscovo por médicos inscritos da Academia de Ciências da antiga Urss. Efectivamente, as autoridades instituídas com o apoio do partido de que Neto era o presidente não só evitaram o rigor nas suas «démarches» para esclarecer a morte do seu «líder incontestável», como não foram a reboque das suspeitas públicas que se levantaram e, também, não aproveitaram o alento dado ao assunto pelos escritos publicados por um velho general da espionagem soviética, Kgb. Com o seu incompreensível silêncio e sua inaceitável apatia, as autoridades angolanas transformaram a questão em mais um dos muitos tabus do Governo e das instituições estatais angolanas. Estamos, então, num processo, porque contínuo, de escamoteamento da verdade. E não de uma verdade qualquer, mas da verdade histórica, porque é ela que nos haverá de permitir ligar os pontos históricos que possibilitarão aos angolanos a obtenção das explicações para a sua existência.

Há indicações de que Agostinho Neto tentou, dez anos antes de José Eduardo dos Santos, uma aproximação com a Unita. São Vicente, prestigiado economista e escritor de temas económicos e sociais angolanos, di-lo num dos seus vários livros, dando, ainda, o subsídio necessário de que para essa negociação haver sido indigitado um dos mais carismáticos dirigentes do Mpla da época, o agora deputado Mendes de Carvalho. E Sao Vicente não deve estar longe da verdade: Gerald Bender, professor universitário nos Estados Unidos há muitos anos dedicado aos assuntos angolanos, fez num dos jornais ligado à equipa que agora edita o Semanário Angolense (teria sido no Angolense?), uma revelação diferente, mas que conduz à mesma percepção de que Agostinho Neto pretendia uma aproximação com a Unita destinada a parar com a guerrilha ainda embrionária do antigo movimento rebelde. Escrevendo pelo próprio punho, Gerald Bender declarou ter sido abordado por Lúcio Lara, que tinha recebido incumbências directas de Neto, para estabelecer uma aproximação entre o Governo angolano e a administração norte-americana logo após à suposta intentona golpista de 1977.

Ao que se diz, a tentativa de golpe de Estado de 1977 teria sido engendrada por sectores radicais de esquerda no seio do Mpla, sendo apoiada, pelo menos, pelo embaixador soviético naquela altura acreditado em Luanda.

Seja lá o que for, a verdade é que os esforços da liderança de Agostinho Neto para abandonar a sombrinha de Moscovo e direccionar o processo político angolano para o seu próprio caminho foram tantos, que podem ser narrados sob factos diferentes e sob uma relativa abundância de dados. Tanto é assim, que isso deu nas vistas em Moscovo, a capital do chamado Bloco Socialista que na «guerra fria» dividia o Mundo do Bloco Capitalista, onde se procurava manter países e regiões inteiras sob a «esfera de influência» de um socialismo beligerante e insaciável na sua procura por recursos económicos e financeiros.

E em Moscovo havia, para casos de defecção ou revisionismo ideológico, uma bitola que a literatura ocidental da «guerra fria» chamava a «mão de Moscovo», que consistia tanto no financiamento de guerras no estrangeiro para alargar a «esfera de influência» da defunta União Soviética, quanto na eliminação de lideres dissidentes em face dos dogmas ideológicos do leste.

A relação da morte de Agostinho Neto com a «mão de Moscovo» pode ter acabado infelizmente abonada, mais tarde, com o assassinato de Samora Machel, de Moçambique, tempos depois de ter declarado publicamente que «o socialismo não se constrói apenas com a ajuda do bloco socialista», aludindo à necessidade de uma aproximação com o ocidente. Quer dizer que as suspeitas dos angolanos mais lúcidos levam a apontar os dirigentes do velho regime soviético como responsáveis pela eliminação física de Agostinho Neto, quando ele tentou mudar o rumo dos acontecimentos que estabeleceram a guerra civil que perdurou por mais de duas décadas no nosso país. E tudo isso significa, também, que as coisas, toda a história de tragédia do povo angolano, teriam sido diferentes, se Neto não tivesse sido tão prematura e inesperadamente roubado da liderança do Estado e do processo político angolano.

O que se seguiu à efémera liderança de Agostinho Neto à frente dos destinos do Estado angolano foram anos da afirmação política do Presidente José Eduardo dos Santos, que não tinha nem a autoridade militante, nem o carisma, para convencer os sectores mais radicais do partido, nas costas de quem Neto ensaiava a aproximação à Unita, da necessidade da ruptura com o leste e de um entendimento com a guerrilha «savimbista». No seu processo de afirmação, José Eduardo dos Santos teria sido mesmo compelido a reprimir atitudes «netistas» exacerbadas, como as de Paiva Domingos da Silva, que teria iniciado a travessia pelo deserto em que se encontrava na altura da sua morte, depois da declaração proferida diante do novo Presidente da República, advertindo que ninguém deveria «tirar um só vírgula, naquilo que disse o mulaúla, camarada presidente doutor António Agostinho Neto».

No congresso de 1985, o afastamento da cúpula do partido de incondicionais de Agostinho Neto como Mendes de Carvalho e Lourenço José Ferreira «Diandengue», ou mais tarde, o «desterro» de Roberto de Almeida no Lubango, ou, ainda, de Bernardo de Sousa na China, tal como o confinamento de Lúcio Lara depois de arredado da direcção (para apenas citar alguns exemplos), podem ser considerados ataques directos contra o «netismo», no quadro da assumpção plena do poder e da afirmação da liderança de José Eduardo dos Santos.

Isso explica que para afirmar a sua liderança, José Eduardo dos Santos não poderia fazê-lo sob a sombra do «netismo» e isso pode explicar, também, porquê que foram tão displicentes as tentativas para esclarecer com os soviéticos primeiro, e agora com os russos, a morte do primeiro presidente angolano.

Levantar o fantasma de Neto denunciava, no passado, que a beligerância do Estado não era um dos desígnios que Neto aceitasse para o desenvolvimento do processo político angolano. Já mais recentemente, a figura de Neto passou a ser temido por poder desviar a política dos objectivos da nova liderança, por conduzir a comparações que a subalternizam sob o ponto de vista do carisma e da intelectualidade, por destapar os actuais défices de popularidade dos líderes do nosso processo político e por desqualificar os novos métodos de governação.

Pelo que, tudo o que se diz sobre Agostinho Neto nas jornadas anuais que celebram o Dia do Herói Nacional, quando se lhe chama «guia imortal» ou «líder incontestável» e se promete «seguir os seus ensinamentos» ou «preservar a sua memória», não passará de mero cinismo, até que se decida abordar a sua morte na mesma amplitude da sua dimensão política, que não foi atingida por nenhum outro líder político angolano até aos dias de hoje.


Fonte: SA