sábado, 19 de março de 2011

RELATO DA TRAVESSIA DE ÁFRICA FEITA PELOS POMBEIROS, de 1802 a 1811



O Negro
Desde meados do século XVIII que Portugal tentou descobrir a ligação terrestre entre Angola e Moçambique. O objectivo era conseguir encontrar produtos que pudessem interessar os mercados asiáticos - sobretudo o da Índia e da China - que eram, na altura e até finais do séc. XIX, deficitários para todas as potências europeias. A primeira tentativa séria de realizar a travessia foi feita  por Francisco José Lacerda de Almeida, em 1798, mas este oficial de marinha morreu ao chegar ao Cazembe - a Noroeste do Niassa.
A nova tentativa, proposta logo em 1799 por D. Rodrigo de Sousa Coutinho, ministro da Marinha e dos Domínios Ultramarinos, começará em 1802. A travessia terminou com êxito mas somente em 1811, nove longos anos depois, realizada pelos pombeiros Pedro João Baptista e Amaro José, escravos mercadores de Francisco Honorato da Costa, director da feira de Cassengue - posto fortificado a leste de Luanda onde se centralizava o comércio com o interior de Angola - mas não teve continuação devido aos problemas políticos que sacudiam o império português, mas permitiu conhecer melhor o território - «abrir o caminho» - entre Angola e Moçambique.
Este relato, traduzido para inglês no ano seguinte à sua publicação, serviu para Livingstone, o missionário escocês que explorou o território entre Angola e Moçambique, preparar as suas viagens.
Parte 1/3

domingo, 13 de março de 2011

O encurtado ciclo de vida de Patrice Lumumba, Agostinho Neto, Amilcar Cabral e Samora Machel

PATRICE LUMUMBA - Herói Africano

PATRICE LUMUMBA - Herói Africano

«(...) Não estamos sós. A África, a Ásia e os povos livres e libertados de todos os cantos do mundo estarão sempre ao lado dos milhões de congoleses que não abandonarão a luta senão no dia em que não houver mais colonizadores e seus mercenários no nosso país. Aos meus filhos, a quem talvez não verei mais, quero dizer-lhes que o futuro do Congo é belo e que o país espera deles, como eu espero de cada congolês, que cumpram o objectivo sagrado da reconstrução da nossa independência e da nossa soberania, porque sem justiça não há dignidade e sem independência não há homens livres «Nem as brutalidades, nem as sevícias, nem as torturas me obrigaram alguma vez a pedir clemência, porque prefiro morrer de cabeça erguida, com fé inquebrantável e confiança profunda no destino do meu país, do que viver na submissão e no desprezo pelos princípios sagrados. A História dirá um dia a sua palavra; não a história que é ensinada nas Nações Unidas, em Washington, Paris http://www.expressodasilhas.sapo.cv/pt/noticias/detail/id/22504 ou Bruxelas, mas a que será ensinada nos países libertados do colonialismo e dos seus fantoches. A África escreverá a sua própria história e ela será, no «Norte e no Sul do Sahara, uma história de glória e dignidade.«Viva o Congo! Viva a África!»...
Passadas apenas dez semanas da sua eleição, foi deposto juntamente com o seu governo num golpe de estado, aprisionado e assassinado em Janeiro de 1961 em circunstâncias que indicaram cumplicidade e apoio dos governos da Bélgica e dos Estados Unidos. (*)

PRESIDENTE AGOSTINHO NETO- Herói Africano

PRESIDENTE AGOSTINHO NETO- Herói Africano

"Não basta que seja pura e justa a nossa causa. É necessário que a pureza e a justiça existam dentro de nós. Dos que vieram e conosco se aliaram muitos traziam sombras no olhar, intenções estranhas. Para alguns deles a razão da luta era só ódio: um ódio antigo centrado e surdo como uma lança. Para alguns outros era uma bolsa vazia (queriam enchê-la), queriam enchê-la com coisas sujas inconfessáveis. Outros viemos. Lutar para nós é ver aquilo que o povo quer realizado. É ter a terra onde nascemos. É sermos livres para trabalhar. É ter para nós o que criamos. Lutar para nós é um destino, é uma ponte entre a descrença e a certeza de um mundo novo. Na mesma barca nos encontramos. Todos concordam, vamos lutar. Lutar para quê? Para dar vazão ao ódio antigo? ou para ganharmos a liberdade e ter para nós o que criamos? Na mesma barca nos encontramos, quem há de ser o timoneiro? Ah, as tramas que eles teceram! Ah, as lutas que aí travamos! Mantivemo-nos firmes: no povo buscamos a força e a razão. Inexoravelmente como uma onda que ninguém trava, vencemos. O povo tomou a direção da barca. Mas a lição foi aprendida: Não basta que seja pura e justa a nossa causa. É necessário que a pureza e a justiça existam dentro de nós." Agostinho Neto

A morte prematura e, sobretudo, inesperada de Agostinho Neto, aconteceu a 10 de Setembro de 1979, aos 56 anos de idade, após uma operação no Hospital das Clínicas de Moscovo que revelara a existência de um câncer no pâncreas. Por terra cairam todos os esforços diplomáticos que estavam a ser desenvolvidos em prol de uma reconciliação entre Angola e os Estados Unidos. A revelação é feita por Maria Eugénia Neto, viúva do primeiro presidente de Angola, numa entrevista ao escritor e poeta Artur Queirós, que integra o livro Agostinho Neto - Uma Vida Sem Tréguas. Garante Maria Eugénia Neto, que o marido sempre tentou afirmar a sua independência ao longo da Guerra Fria que se estabeleceu entre os EUA e a URSS e  afirmar-se, ele próprio, como um não alinhado.

AMILCAR CABRAL- Líder do PAIGC - HERÓI AFRICANO

AMILCAR CABRAL- Líder do PAIGC - HERÓI AFRICANO

«Desde o tempo das chamadas descobertas ou achamentos até ao tempo do comércio de escravos e crimes da escravatura; desde as guerras de conquista colonial até à época de ouro do colonialismo; das primeiras “reformas” ultramarinas até às guerras coloniais de genocídio dos nossos dias, os colonialistas portugueses deram sempre provas de uma mentalidade supersticiosa e dum racismo primitivo em relação ao homem africano, que consideravam e consideram como naturalmente inferior, incapaz de organizar a sua vida e defender os seus interesses, fácil de enganar, sem cultura e sem civilização». AMILCAR CABRAL/ 1971. Amílcar Cabral é assassinado em Conacri em 20.Jan.1973.

PRESIDENTE SAMORA MACHEL - HERÓI AFRICANO

PRESIDENTE SAMORA MACHEL - HERÓI AFRICANO

"...Fizemos dez anos de guerra, sabemos o que ela significa e exige de nós. Queremos a paz, mas estamos prontos a aceitar os sacrifícios que o nosso dever internacionalista exige...
" Samora Machel
PR 1975-1986. Morreu com 53 anos de idade, quando o avião em que regressava ao Maputo se despenhou em território sul-africano.

 http://delagoabayword.wordpress.com/category/africa-austral/

O modo de viver dos moradores de Loanda na Angola colonial , no século XIX, às vésperas da abolição do tráfico de escravos

 


Em "Ensaios sobre a statistica das possessões portuguezas na Africa occidental e oriental; na... ", (Google eBook), PG 203 -207 , por José Joaquim Lopes de Lima, Francisco Maria Bordalo, encontrei um relato sobre o modus vivendi de brancos e negros em Luanda às vésperas da abolição do comércio de escravos, que passo a trancrever:
 LIV. III. — PART. I. DH


"...Resta-me dizer alguma cousa do modo de viver dos moradores de Loanda. Esta bella cidade contém no seu recinto — funccionarios públicos de todas as jerarchias; — negociantes, mercadores, corretores, e mais gente de commercio; — soldados da guarnição; — marinheiros da armada, e dos navios mercantes; — a gente miúda da terra; — a gente baixa do mar (muxi-loandos, muxi-congos, e cabindos); — e a escravaria dos moradores: começarei pelo fim: os escravos andam vestidos de calça e camisa, e entulham as casas dos senhores como objecto de luxo; pois não é raro encontrar dez,— doze, — ou vinte escravos na casa de um celibatário, que mal teria em que empregar dous ou três criados: dahi nascem muitos vícios, filhos da ociosidade, nesses entes inúteis (e até perigosos) em uma cidade, quando tão úteis poderiam ser na lavoura das terras, ficando os indespensaveis para o serviço domestico, carretos etc.: a gente forra indígena vive em casas palhoças, a que chamam cubatas, apinhadas em um vasto lubyrinto ao sopé do morro de S. Miguel por detraz das casas de pedra que bordam por esse lado a frente da cidade baixa; e também por detraz das casarias nobres da praia do Bungo até á Nazareth; esta gente meia — christà— meia idolatra assiste á missa, e dahi vae folgar e embriagar-se em um lembamento: traz contas ao pescoço, e milongos no seio; quasi toda ella  se emprega em oficios mecânicos, ou do serviço dos moradores, e nas vendas a retalho nos mercados etc.:—os muxi-loandos moram na ilha de Loanda fronteira á cidade, e empregam-se ordinariamente na pescaria, abastecendo de peixe a população da capital: em outro tempo as mulheres daquella ilha se occupavam em apanhar o zimbo nas suas praias, aonde hoje apenas vão mariscar, porque o zimbo já agora pouco consumo tem; o viver desta gente é similhanle em tudo ao dos outros indígenas: — os muxi-congos e cabindas são marinheiros das lanchas, e embarcações de cabotagem, e pouca residência fazem em terra, aonde todavia, apesar de estrangeiros, muito bem se entendem com os naturaes da sua classe: toda esta gente traja á europea — calça, e camisa, e chapéu de palha os homens, — saia e camisa as mulheres, — e os que tem mais meios vestem e calçam inteiramente a portugueza. A classe dos marujos portuguezes, e estrangeiros, é aquella que pela sua grande mortalidade tem dado mais má fama áquelle clima, como muito bem pondera Fortunato de Mello na sua Memória, que já por muitas vezes hei citado: darei aqui as suas próprias palavras indicando as causas de tal calamidades:

1.° — o muito que se expunhao ao  mais forte ardor do Sol os marinheiros dos navios mercantes, das embarcações (la diz charruas) do Estado e  nas cargas e descargas das suas embarcações, molhando-se muitas vezes, e enxugando a roupa no corpo. Todo o mundo sabe, que e sol faz mal mesmo na  Europa, e que muito mais acção deve ter dentro dos Trópicos,  onde os seus raios sao abrazadores, accrescendo a isto, que o local  de área adquire e reflecte um calor extremamente intenso: o resultado era adoecerem de moléstias graves
2. — o nao fazerem cazo dessas mesmas doenças; andarem emquanto podiao (como tantas vezes vi) a titulo de que lhes era muito precizo; andarem ao sol, mesmo com febre; e por tanto quando lhes queriao acudir já naò era tempo: o remédio era a «morte»...
3. o prejuizo, ou prestigio de que, para escapar a ter febres, era necessário andar sempre bem enfrascado em bebidas espirituosas: isto os fazia abuzar delas particularmente  da aguardente; o estômago e os intestinos conservavam-se em um estado de irritação a cada passo renovada: o rezultado erao hepatitis, dysenterias de péssima qualidade, e mesmo perniciosas apopleticas, que os conduziao á sepultura!!!
4.—Estarem de«noute, horas e horas, expostos nos Cáes, ou nos escaleres, á cacimba (orvalho), á espera dos seus officiaes, que deviaô ir para « bordo, e que se estavam divertindo na cidade até quazi á madrugada. À cacimba faz tanto mal como o Sol »... 
5. « Muitos  excessos de outra natureza, que saò tanto ou mais nocivos.»
Estes fataes inconvenientes que existiam no tempo a que se refere F. de Mello, existem ainda em grande parte, com quanto as guarnições dos navios de guerra estejam hoje sujeitas a uma rigorosa disciplina sanitária, e haja em Loanda um hospital fluctuante, com o que muito se tem diminuído a mortalidade, aliás excitada sempre pelo uso imoderado das bebidas irritantes, pela indispensável exposição a um sol ardente, e pela extrema devassidão das negras da terra, cujo contacto é em toda a África perniciosíssimo às compleições europeas: estes malles suo communs aos soldados brancos dos corpos do exercito, que apesar da disciplina dos quartéis, tem sempre sobeja occasiao para se entregarem a prazeres tao nocivos.
Também as classes mais elevadas padecem muito pelos seus deportes, que o mesmo F. de Mello nao deixa de mencionar nos seguintes termos— 6. — Para os Officiaes, e gente polida que alli ia negociar, alem de algumas destas mesmas cauzas, haviaõ ainda as céas  immoderadas, que eraõ banquetes, e duravaõ uma grande parte da noite,  ceas que deraõ a morte a muita gente: o abuso de passarem noites inteiras a jogar, tendo extremamente esquentando o  physico, e o moral & ª»
Eu assisti ha vinte annos por mais de uma vez a essas orgias, em que só figuravam homens (pois que ainda então se observava em Loanda o antigo costume portuguez — de conservar as senhoras em perpetua separação das sociedades do sexo masculino; e pude alli ver, não sem horror, depois de céas opiparas passarem os convidados escandecidos por frequentes libações a destroçar em uma mesa de jogo de azar violentíssimo as suas fortunas, ou as alheias: dalli nasciam a um tempo as hepatytis, e as banca-rotos, e por ultimo a immoralidíide. É certo que a civilisação do século vae já modificando aquellas rudes usanças: consta-me que já em Loanda vae tomando o seu logar na sociedade dos homens o sexo amável destinado  melhorar-lhes as inclinações; e também me consta haver alli um theatro particular, a que deu impulso o governador Noronha, e os que se lhe tem seguido; e por certo que em parte alguma pôde dar-se uma maior necessidade de espectáculos lícitos e innocentes, para desviar as classes abastadas do furor do jogo, que todavia predomina ainda.
Quanto ao mais, o viver da gente grave de Loanda é o de uma cidade do Brasil. . . Brazileira é a sua cosinha bem farta de estimulantes; — brazileiro é o dialecto alli usado no trato domestico;— brazileiras parecem as damas na molle indolência em que vegetam, cercadas de um grande séquito d'escravas, ostentando era publico grande luxo no seu vestir, e na pompa que as rodéa; mas andando usualmente meias vestidas e com as pernas nuas quando estão dentro em sua casa; — e tambem os homens pelos seus hábitos e propensões niio vao fora do typo brazileiro. Os transportes de conducção mais usados são as chamadas tipoyas — que vem a ser — uma rede de dormir (das que se usam em toda a America) prosa pelos extremos a uma vara, ou bambu, que assenta sobre a cabeça dos negros conductores, e sobre a qual se forma um docel, donde pendem cortinas de seda, ou de chita ele. — que encobrem a pessoa que vae dentro, e a preservam dos raios do sol: ha ahi também algumas carruagens de rodas, bem como cadeirinhas de condicçao, e por ventura não tardarão a introduzir-se os palanquins á indiana.
Os moradores de Benguella forcejam por seguir quanto podem os usos — bons e maus — dos seus compatriotas de Loanda; mas o viver naquelle paiz é uma lucta continua com a doença, e com a morto: os homens brancos tem contraindo o habito constante de andarem pela rua sempre com a mão no pulso para observar as pulsações, e quando se encontram, a pergunta usual é — se já faltou a febre.. . Mulheres brancas não as ha, nem as pôde haver sob pena de morte certa, maiormente se estiverem elas ainda em idade de poder ter filhos; porque ainda não ha exemplo até hoje de parto de mulher branca, que não custasse a vida á mãe e ao filho: isto diz tudo: todavia nos intervallos da moléstia — boa mesa — e jogo — são os passa-lempos de Benguella; e ahi ha luxo, não só nas casas dos ricos negociantes, mas ainda mesmo nas choupanas dos negros porque a terra regorgita em riqueza pelo seu muito commercio, que por ventura lhe virá a fugir em parte para Mossamedes, se o bom clima daquelle porto -convidar para elle, como é de esperar,  casas de commercio de Benguella.
Anres de concluir este capitulo devo apresentar pelas próprias palavras as sensatas observações de um escriptor recommendavel. J. C. Féo Cardoso, na sua Memória impressa em Paris em 1825 — Em geral diz elle fallando do complexo dos Domínios Portuguezes de Angola e Benguella podem assignar-se trez cauzas principaes á decadência da povoação, que alli se observo: primeiro, os «poucos cazamentos nas classes elevadas da sociedade; segunda, a miséria e pobreza no povo; terceira, a immoralidade, a incontinencia e a devassidao dos costumes, em ambas. A primeira provem do uzo, ou abuso introduzido de dar grandes prezentes e jóias  ás noivas, o que sendo impossível, a maior parte preferem o celibato ao que chamam descrédito. À segunda he o resultado do sistema já exposto, de ser o povo obrigado a uma vida errante, «trabalhosa, miserável, e pouco lucrativa (alludia ao systema dos carregadores hoje proscripto); a ultima he a consequência necessária das duas: talvez que alguma lei sumptuária empregada com  prudência, e mais que tudo o exemplo dos Capitães generaes, e das authoridades superiores, contribuíssem para facilitar os cazamentos dos nobres, diminuindo-lhes os encargos, que por serem de «opinião ensino ainda mais a desarraigar.Em quanto ao povo, dada nova direcção aos capitães, e applicando-se estes com preferencia á agricultura, industria, e commercio de seus productos, necessariamente ha-de haver emprego  para muitos braços, e apparecerá a abundância e riqueza, que saò as bases da prosperidade publica e individual, origem sempre de uma povoação robusta, e do seu augmento progressivo.  Depois do que atraz deixo escripto fora ocioso o afirmar, que nesta ultima parte sou inteiramente da opinião deste auctor.
Quanto porém a leis sumptuárias, parece-me remedio inefficaz contra preconceitos sociaes, que só por meios indirectos podem vir a desarreigar-se: um delles é certamente o do exemplo; mas nem sempre, — ou antes poucas vezes — os governadores, e altos funccionarios estão no caso de o poder dar, sobre tudo em negócios matrimoniaes. Consignei com tudo este trecho para completar com elle o quadro dos costumes de Angola e Benguella.
Fim da l Parte.

quarta-feira, 9 de março de 2011

GRANDE GUERRA - 1914 A 1918 (I)

Por Miguel Machado • 1 Mar , 2011 05. PORTUGAL EM GUERRA - SÉCULO XX

O “Operacional” inicia hoje com a publicação de uma série de artigos alusivos à Grande Guerra 1914-1918, mais uma parceria. Com a colaboração desinteressada de Manuel Ribeiro Rodrigues, vamos dar a conhecer acontecimentos de épocas que marcaram a História Militar de Portugal. O seu acervo particular abrange uma infinidade de temas que em boa hora se lembrou de divulgar pela internet e muitas serão as imagens, factos e opiniões que só anos e anos de pesquisa aturada e muito investimento permitiram recolher. O “Operacional“orgulha-se de ajudar a divulgar este material de consulta e certos estamos que, juntamente com Ribeiro Rodrigues, prestamos mais um serviço à comunidade interessada nestas temáticas, em Portugal e no Estrangeiro.

Manuel António Ribeiro Rodrigues, 62 anos de idade, dedica-se à investigação e divulgação da história militar em geral e principalmente sobre o estudo dos uniformes militares, equipamento, organização, há cerca de 47 anos. Foi militar, cumpriu uma comissão de serviço de 27 meses na totalidade passados no Norte de Moçambique (Mocímboa da Praia/Mueda/Palma), entre 1970 e 1972.
É autor de diversos livros sobre estas temáticas, entre os quais: “300 Anos de Uniformes Militares do Exército”; “Modern Africam Wars (Angola, Guiné e Moçambique)” da editora inglesa Osprey; “400 Anos de Uniformes e Organização militar de Macau”, do Instituto Cultural de Macau (edição trilingue em português, inglês e mandarim); “Mocidade Portuguesa Masculina”; “Mocidade Portuguesa Feminina”. Tem publicado muitos artigos em revista nacionais e estrangeiras e presentemente dedica-se à divulgação do seu enorme acervo particular através da internet, tendo três blogues: um dedicado exclusivamente à Guerra Peninsular outro à Grande Guerra e um outro à História Militar Portuguesa no geral.  Bem-vindo ao “Operacional” Ribeiro Rodrigues!
Esta série de artigos sobre a Grande Guerra, 1914-1918 está ser divulgada no blog http://grandeguerra-marr.blogspot.com/ e vamos iniciar a publicação, num formato ligeiramente diferente do original mas como mesmíssimo conteúdo.

GRANDE GUERRA - 1914 A 1918 (I)
Aos alemães, até determinada data não lhes interessava a África, mas Bismarck, depois de grande resistência, consentiu que a Alemanha tentasse estabelecer-se nesse continente; neste sentido, no ano de 1884, o Togo e o Camarões foram ocupados e declarados Protectorados Alemães assim como umas parcelas de território do Sudoeste Africano, onde residiam muitos naturais desse País.
Em 1897 a Alemanha conseguiu que Portugal lhe cedesse os seus direitos sobre o território entre Cabo Frio e o Baixo Cunene, assim o território alemão aproximou-se muito da fronteira de Angola, e desse modo constituiu a Damaralândia, na costa ocidental ao sul desse nosso território.
                              (Colecção particular)
Na África Oriental, a norte de Moçambique, havia uma companhia de negociantes alemães, que em sintonia com os sucessos obtidos na África Ocidental, declararam que: aquela região passaria a ser de futuro a África Oriental Alemã!
Em 1898 o governo inglês e o alemão decidiram entre si partilhar a influência mercantil em Angola, aparecendo na imprensa estrangeira uma série de artigos de opinião. O jornal alemão “Post” em Dezembro de 1911 publicava: (…) Lembremo-nos, de que nos arquivos de Londres e Berlim, existe um tratado que assinámos em 1898, com a Inglaterra, e pelo qual as possessões de Portugal, na África, nos são garantidas. Seriam compensações, que deviam dar-se-nos, em troca das vantagens da partilha da Pérsia (…)
Precisamente pela mesma ocasião o jornal inglês “Daily Mail” publicava num artigo assinado pelo alemão Hans Delbruck, o seguinte: (…) É inevitável, uma diminuição do poder português em África, e uma partilha das possessões da República, ali, entre a Inglaterra e a Alemanha, partilha feita há muito tempo, se não fosse a repugnância da Inglaterra, a ter intervido desvantajosamente na ideia da expansão alemã (…)
Programa de viagem do navio alemão "Ussukuma" (Colecção particular)
Programa de viagem do navio alemão "Ussukuma" (Colecção particular)
Não restam dúvidas de que Angola e Moçambique estavam nos projectos expansionistas da Alemanha. Devido a diversas e sucessivas campanhas na imprensa germânica, começaram-se a infiltrar em Angola, muitos alemães, alegando motivos de estudos tropicais, safaris, missões, etc.
A 28 de Julho de 1914, a Áustria declara guerra à Sérvia; a 31, a Alemanha manda um “ultimatum” à Rússia e à França; a 1 de Agosto declara guerra à Rússia, a 2 do mesmo mês invade o Luxemburgo, a 3 declara guerra à França e a 4 invade a Bélgica!
Assim ficaram definidas as posições dos beligerantes: a Alemanha e a Áustria Hungria contra a Inglaterra, a França, a Rússia, a Bélgica e a Sérvia. Depois a Itália juntou-se aos aliados e a Turquia aos impérios centrais. Todos os outros países declararam a neutralidade, com excepção de Portugal que nada disse, esperando uma definição da aliada Inglaterra em relação às nossas possessões de África.
ÁFRICA
Postal ilustrado de propaganda (Colecção particular)
Postal ilustrado de propaganda (Colecção particular)
A 25 de Agosto de 1914 os alemães atacaram o nosso posto de Maziua, na África Oriental Portuguesa, matando-nos gente, saqueando e destruindo o posto; a 11 de Setembro embarcam as nossas tropas para Moçambique ali chegando a 16 de Outubro; a 12 de Setembro, partem as nossas tropas com destino a Angola, onde desembarcam em Moçâmedes a 1 de Outubro, começando assim as nossas campanhas defensivas de África contra o invasor alemão; a 18 de Outubro de 1914 dá-se o incidente de Naulila e a 31, do mesmo mês, o de Cuangar, matando o comandante, oficiais e incendiando o posto; a Alemanha declara guerra contra Portugal a 9 de Março de 1916 e Portugal só a declarou, oficialmente no dia 19 de Maio.
Primeiro da esquerda: General Ferreira Gil, comandante da 3.ª Expedição a Moçambique com o seu Estado-Maior.Junho de 1916
Primeiro da esquerda: General Ferreira Gil, comandante da 3.ª Expedição a Moçambique com o seu Estado-Maior.Junho de 1916
Infelizmente as nossas acções em África contra os alemães e os nossos heróis, que combateram nas nossas antigas possessões de África, são sempre olvidados, até nas comemorações oficiais e nos monumentos que existem espalhados pelo nosso País; nenhum tem a estátua em bronze ou pedra referente a um combatente de Angola ou Moçambique, apenas legendas…terá sido por vergonha de terem enviado militares combaterem para África sem as mínimas condições e votados a um total abandono? Terá sido pela incompetência por parte dos principais dirigentes e políticos dessa época?
Embarque de tropas para África In:Ilustração Portuguesa
Embarque de tropas para África In:Ilustração Portuguesa
MOÇAMBIQUE - TESTEMUNHOS
O Dr. Américo Pires de Lima legou-nos um impressionante e real testemunho no seu livro intitulado “Na Costa d’África - Memória de um Médico Expedicionário a Moçambique”, publicado em 1933, onde o seu autor nos começa por afirmar que: (…) A história faz-se sobre factos autênticos e não sobre convenções por mais agradáveis que estas sejam. De contrário, não passa de romance(…)
(…) É estrito dever de cada um dizer o que sabe e o que viu. É o que agora aqui faço. É possível que alguns vejam nisto manifestações de derrotismo ou de antimilitarismo. Esses serão dos que antepõem as convenções à verdade, na ingénua esperança de que - verdade escondida é verdade inexistente. Supondo, é claro, que são sinceros, o que nem sempre acontecerá(…)
(…) Que não se repita a situação absurda reminiscência e contra natura de os nossos militares sofrerem mais pela acção dos amigos do que pela dos inimigos. Que não se repitam os males de imprevidência e de indiferença pelo destino dos nossos pobres soldados de África, que certamente seriam mais felizes se combatessem como mercenários, à sombra duma bandeira estranha (…)
Dr. Américo Pires de Lima em Mocímboa da Praia Desenho do Dr. Abel Salazar
Dr. Américo Pires de Lima em Mocímboa da Praia Desenho do Dr. Abel Salazar
(…) Que não se repitam, em suma, factos que, ao menos pela sua absurda falta de lógica, só são possíveis em um País em que os analfabetos são a maioria, em que por isso a opinião pública é, muitas vezes, uma torpe ficção, estereotipada e distribuída por meio de não sei que misteriosos e recônditos canais, para ser absorvida tal qual, sem espírito crítico nem prévia digestão. A verdade convencional fica assim distante da verdade autêntica, que dir-se-ia não haver entre elas o menor grau de parentesco(…) (…) Esta ausência de diferenciação moral conta por muito na desorientação da vida portuguesa, que tem andado à matroca, sem finalidade, sem leme e sem rumo, ora carpindo as misérias do presente, ora exaltando as glórias do passado, mas nunca preparando singelamente o plano futuro(…)
(…) Só assim se explica que fossemos tão mal precavidos para uma campanha de altíssima responsabilidade como a de Moçambique, guerra colonial, não contra indígenas, mas contra o bem preparado e equipado exército alemão! Deixámos tudo à mercê do acaso e do nosso duvidoso talento de improvisadores(…)
Atravessando o rio Rovuma numa jangada In: Ilustração Portuguesa
Atravessando o rio Rovuma numa jangada In: Ilustração Portuguesa
(…) Assim se mandaram para a guerra cavalos que nunca tinham sido montados, muares que nunca tinham sentido os arreios, soldados que nunca tinham disparado um tiro. Assim se expuseram os soldados aos mosquitos e à cacimba, à espera que fossem construídos os seus aquartelamentos. Assim se instalaram hospitais, meses depois de desembarcada a tropa; de modo que centenas de soldados adoeceram e morreram sem que pudessem receber uma razoável assistência médica, por não poderem ser hospitalizados (…)
(…) Chegou-se ao cúmulo de, contra o parecer dos médicos, dar alta a doentes, obrigando-os a partir na expedição, quando pela natureza da doença, tudo aconselhava o contrário, pondo assim em grave risco o nosso prestígio de nação civilizadora e colonizadora!(…)
Dr. Américo Pires de Lima
ÁFRICA - TESTEMUNHO
General Gomes da Costa Colecção particular
General Gomes da Costa Colecção particular
O General Gomes da Costa no seu livro “A Guerra nas Colónias”, escreve: (…) A maior e principal causa dos nossos desastres vem sempre dos governos, por se não preocuparem com a preparação do exército (…)
(…) Numa república onde os homens que se sucedem no poder, mal tendo tempo para tomar posse, e logo se vão embora, é indispensável que as instituições prevejam e remedeiem os inconvenientes resultantes, em tempo de guerra, dessa instabilidade, e que ponham à disposição dos membros do governo, desde a declaração de guerra, um organismo com experiência, autoridade e bem preparado para os ajudar no desempenho da sua missão de salvar o País (…)
(…) Numa república moderna, não são só os generais incompetentes que a lei tem de punir e afastar dos comandos: são também, os Ministros que lutaram pelo poder e aceitam responsabilidades do governo, sem se terem previamente tornado capazes de o exercer (…)
Posto de observação (Colecção particular)
Posto de observação (Colecção particular)
(…) Estes deveres consistem, principalmente, na nomeação dos comandos superiores, e em lhes dar, - não conselhos, nem, opiniões, mas ordens precisas e concisas sobre o objectivo das operações (…)
(…) Se os nossos governos tivessem sabido assim proceder, não teríamos visto as operações em África a arrastarem-se sem objectivo, sem plano, sem nexo até à derrota (…)
General Gomes da Costa
MOÇAMBIQUE - OS ALEMÃES
Estampa da época (Colecção particular)
Estampa da época (Colecção particular)
General von Lettow Worbeck
General von Lettow Worbeck
O General von Lettow Worbeck escreveu, nas suas “Memórias da África Oriental”, acerca das campanhas contra Portugal que:
(…) O inimigo maior em Moçambique, foi o próprio português com a sua leviandade, irreflexão, desmazelo e bizarria, a sua vara na mão, o seu cego posso, quero e mando, que não velou pela alimentação, saúde e pela assistência das tropas; prevenir e atacar os flagelos que sobre elas incidem letalmente, ouvir e respeitar as vozes da higiene e da medicina. A ordem era não adoecer e quem o fizesse que rebentasse, não tinham camas, nem assistência, nem remédios (…)
Postal ilustrado da época (Colecção particular)
Postal ilustrado da época (Colecção particular)
O FIM
E de volta à Pátria, como terá sido a recepção que estes heróis tiveram no cais de desembarque? Para melhor descrever esse regresso à Metrópole, após a missão cumprida, explica-nos o Dr. Pires de Lima que (…) a esperar-nos, ninguém, nem a Cruz Vermelha, na hipótese, infelizmente verdadeira, de trazermos doentes, que careciam de ser transportados em maca…recordei então as notícias, que tinha lido, da maneira como eram recebidos, com mimos e carinhos femininos,os feridos e doentes, que regressavam de França (…)
Tropa de África! Foto de 1918
Tropa de África! Foto de 1918
(…) Profundamente chocado, mandei para o Quartel-General um telefonema seco: “estava ali o Quelimane com duzentos soldados doentes; alguns, que só poderiam desembarcar de maca, outros que vinham em trajes menores e, por isso, não poderiam desembarcar de dia” (…) Tempos depois, apareceu no cais, muito enfadado, um senhor alferes, que o Q.G. mandara, para tomar conta dos meus doentes. E nisto se resumiu a recepção oficial feita aos Expedicionários, que parece não terem cumprido integralmente o seu dever, pois, com teimosia inexplicável e digna de muita censura, se tinham obstinado em não morre, longe da Pátria, para lhe poupar um espectáculo deselegante e perturbador de digestões felizes (…).
Dr. Pires de Lima
Felizmente ainda conheci pessoalmente um desses heróicos combatentes (resistentes), que com a idade de 18 anos foi como voluntário para Angola combater os alemães, infelizmente já nos deixou, faz uns bons pares de anos, e numa idade já centenária, refiro-me ao Coronel e Engenheiro Químico Manuel Aboim Ascensão de Sande Lemos que durante muitas horas me narrou alguns dos acontecimentos por ele vividos em África, testemunhos esses que me entusiasmaram a levar em frente o trabalho que aqui inicio.
Dedicando este modesto trabalho não só à sua memória, mas à de todos esses heróis esquecidos que tanto deram pela Pátria sem nada em troca pedirem…
O Autor
M. A. Ribeiro Rodrigues
Veja aqui a Parte II e III deste trabalho no “Operacional”:
GRANDE GUERRA - 1914 A 1918 (III) UNIFORMES

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Os colonos da África portuguesa sob o regime colonial e seu deslocamento para o Brasil no pós-independência Zeila de Brito Fabri DemartiniI; Daniel de Oliveira CunhaI




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RESUMO

Milhares  foram    os colonos portugueses que passaram pela África e vieram viver  no Brasil    após a derrocada do império português, em 1975. Também     vieram viver neste país os brancos nascidos no continente africano,  chamados    de "velhos colonos", associados pelos anti-colonialistas aos  portugueses, embora    em grande parte se considerassem africanos.  Muitos deles de fato se articularam    com os interesses da metrópole,  apesar de muitos outros se associassem    aos nacionalistas negros e  mestiços, definindo-se também com a    categoria africana de "filhos da  terra", orientados para a causa das independências    das colônias. Este  artigo aborda as tensões político-ideológicas    e identitárias  individuais e coletivas fundamentais que se processaram    entre os  "velhos colonos" e os "recém-chegados" desde sua vivência    no âmbito  da situação colonial até a sua chegada    a este país de acolhimento, o  Brasil.
Palavras-chave:    Colonos africanos no Brasil. Pós-colonialismo. Tensões político-ideológicas.

Texto integral AQUI

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Mapa de Cristoforo Soligo 1485/86 - cartógrafo veneziano



1ª expedição do navegador português Diogo Caão [ Agosto de 1482 a Abril de 1484], à costa costa ocidental africana a Sul do Equador, à latitude 15º 8' Sul.
                                          


Actuais países da Nigéria, Camarões, Guiné Equatorial, as ilhas de Fernão Pó (formosa) e S. Tomé e Príncipe, Gabão, Congo Brazaville, enclave de Cabinda, Congo Zaire.

Estuário do rio Zaire e percurso superior.
A costa de Angola, inclui as ilhas de Luanda e Mussulo.
O extremo Sul do mapa, o Pontal Norte do Saco do Giraul, entrada Norte na Baía de Moçâmedes – Namibe- Angola.

Sinalização de duas cruzes:

-Na margem esquerda junto à foz do rio Zaire. Assinala o padrão de S. Jorge
-No cabo de Stª Maria. Assinala o padrão de Stº. Agostinho.

A toponímia dos padrões configuram as datas da sua implantação (23 de Abril e 28 de Agosto de 1483).

Lugares assinalados em Angola, após a 1ª expedição de Diogo Caão [mapa cristoforo Soligo]:


“aponta blancha” - Lândana - enclave de Cabinda – 5º 13’ lat. Sul
“aponta da barreira vermelha” , [Cacongo – enclave de Cabinda] 5º 14’ lat. Sul
"capo do paul" - praia da Muanda, [República Popular do Zaire Kinshasa] 5º 56’ lat. Sul
"rio poderoso" - rio Zaire - 06º 02' lat. Sul
"capo do padrom" - Ponta do Padrão, 6º 4’ lat. Sul
"capo redondo" - em N'Zeto, Ambrizete 7º 14’ latitude Sul
"rio da madalena" - rio Loge e baía adjacente à vila do Ambriz, lat. 7º 48’ 40’’ Sul.
"rio de Fernam Vaz"- monte de barro - foz rio Dande, 8º 28’ lat. Sul
"angra grandim" - baía da foz rio Bengo, 8º 44´52’’ lat. Sul
"morro alto" - "montes da lua" margem direita rio Quanza, lat. 9º 19’ Sul
"terra de duas pontas" - praia do Sangano, 9º 33’ lat. Sul
"rio do paul" - rio Catumbela, 12º 26’ 42” lat. Sul
"angra de Santa Maria" - praia morena de Benguela, 12º 35’ 24” lat. Sul
"canel dalter poderoso" - rio Caporolo, lat. 12º 53’ Sul
"capo do Lobo" - cabo de Santa Maria, latitude 13º 25’ Sul
"14º" - baía de Lucira Grande, 13º 52' lat. Sul
"pontalvo" - ponta da baía das Salinas , 14º 11’ lat. Sul
Mapa Mundi de Henricus Martellus Germanus - 1489
Lugares assinalados em Angola após a 2ª expedição de Diogo Caão [mapa mundi Henricus Martellus Germanus]:


"rio poderoso" - Rio Zaire
"pota de padron" - Ponta do Padrão
"capo retundo" - em N'Zeto, Ambrizete
"rio de fernã Vaz" - rio Loge
"ponta alta" - monte da Lua - margem direita rio Quanza
"C. S. Laureci" -cabo S. Lourenço - Benguela à Velha, Porto Amboim, Angola , 10º 45’ lat. Sul
"golfo de S Maria" - angra de Stª Maria - Praia morena de Benguela
"C. S. Augustini" - cabo Santa Maria
"C. Zorto" - pontal Norte Saco Giraul na baía do Namibe, Moçâmedes

"terra fragosa" - costa marítima de Moçâmedes a Porto Alexandre
"monte negro" - cabo Negro
"terra alta" - costa marítima de Porto Alexandre à Baía dos Tigres
"enseada" - baía dos Tigres
"arena braca" - dunas

Lugares assinalados por Duarte Pacheco Pereira em "Esmeraldo de situ orbis":

"rio do padrão" - rio Zaire
"rio de Mondego" - rio Bengo
”ilha das Cabras” - ilha de Luanda
“ponta das Camboas”- cabo de S. Brás, lat. 9º 58’ 30” Sul.
"ponta de São Lourenço" - Benguela à Velha, Porto Amboim.
"angra de Santa Maria" - baía da praia morena de Benguela
"ponta preta" - cabo de StªMaria
"monte negro" - cabo Negro
"angra das aldeias" - Tombua, Porto Alexandre
"manga das areias" - enseada baía dos Tigres
"ponta das pedras" -
“mendoos" -dunas

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A ESCRAVIDÃO E AS RELIGIÕES


«.....Os muçulmanos do Norte da África fizeram muito mais do que só se envolver no aprisionamento e escravização de negros: Eles atacavam os litorais da Europa para capturar brancos e vendê-los nos grandes mercados de escravos da África.

De acordo com o Professor Robert Davis, da Universidade de Ohio, os muçulmanos africanos não se limitavam a transformar em escravos apenas os europeus capturados em guerra. No período entre 1530 e 1780, eles atacavam e aterrorizavam sistematicamente os litorais da Europa no mar Mediterrâneo em busca de pessoas para vender como escravas nas cidades africanas de Argel, Tunis e Trípoli. O Professor Davis escreveu que mais de um milhão de europeus foram levados à força para a África. O Mediterrâneo veio a se tornar um “mar de medo” para os europeus que viviam perto dos litorais, principalmente camponeses, trabalhadores de fazendas e pescadores. Até mesmo grandes cidades como Barcelona, Genova e Nápoles não estavam a salvo de invasões e ataques de corsários muçulmanos. Esses piratas caçadores de escravos chegaram até mesmo a atingir regiões litorâneas do oceano Atlântico: Em 1627, quatrocentos habitantes da Islândia (país europeu com população evangélica branca de cabelo loiro e olhos azuis) foram aprisionados e transportados como escravos para a África, para nunca mais voltarem. Em 1631, os habitantes de uma vila inteira na Irlanda foram atacados de surpresa e capturados pelos africanos. De acordo com o jornal inglês Guardian Unlimited: “Milhares de cristãos brancos eram seqüestrados anualmente para trabalhar como escravos remadores de galeras, trabalhadores braçais e amantes dos senhores muçulmanos no que é hoje o Marrocos, Tunísia, Argélia e Líbia”.

A vida dos escravos brancos na África não era melhor do que a vida dos negros africanos no continente americano: eles eram obrigados a trabalhar em casas, fazendas, pedreiras, minas de sal e construção de estradas, ficando reservado às jovens brancas o “trabalho” de servir sexualmente os africanos. Todos sofriam torturas para se converter ao islamismo e estima-se que metade deles morriam no cativeiro devido a rações de péssima qualidade, trabalhos pesados, surras e pragas. No século XVIII algumas nações européias começaram a pagar resgate para libertar alguns europeus escravizados na África.

Os países europeus que não queriam ser alvo de ataques de piratas muçulmanos africanos eram obrigados a pagar uma pesada taxa anual. Até mesmo o Império Britânico, com sua grande marinha, não se aventurava a enfrentá-los militarmente, talvez também por causa de suas amargas experiências do passado. Só entre 1609 e 1616, 466 navios ingleses foram capturados. Entre 1677 e 1680, outros 160 navios ingleses foram aprisionados pelos muçulmanos africanos. Nas décadas seguintes, os ingleses continuaram sofrendo perda de ainda outros navios, cujas tripulações e passageiros foram igualmente escravizados, até que, humilhado, o poderoso Império Britânico reconheceu a necessidade de pagar as taxas anuais exigidas pelos piratas africanos.

A captura, venda e compra de escravos europeus nos mercados da África sofreram um duro golpe quando os EUA, no começo de 1800, corajosamente agiram de um modo que nenhuma grande nação da Europa ousara tentar. Em resposta às ações de corsários africanos que capturaram um navio americano no mar Mediterrâneo e escravizaram a tripulação, os EUA — que na época nem tinham uma marinha — encomendaram a construção de três navios. Com essa pequena marinha recém-formada, eles travaram guerra contra os poderosos países muçulmanos do Norte da África. Na primeira grande ação militar internacional dos EUA, um pequeno número de soldados americanos invadiu esses países, prevaleceu sobre seus inimigos e exigiu a emancipação de todos os escravos europeus cristãos.

A pirataria e a escravidão dos africanos muçulmanos contra os europeus só terminaram definitivamente quando os franceses, os espanhóis e os italianos colonizaram os países do Norte da África e exterminaram as bases de operações dos mercadores de escravos. No entanto, com o fim da colonização algumas nações africanas — como o Sudão — voltaram aos velhos hábitos, escravizando homens, mulheres e crianças de seus próprios povos. No Sudão moderno, centenas de milhares de cristãos negros têm sido estuprados, escravizados ou mortos por sudaneses muçulmanos, que controlam o governo.

A Escravidão Sempre Existiu, em Todos os Povos. A escravidão não teve origem na Bíblia, que apenas a regulou e humanizou. Essa prática está ligada a todas as raças desde os tempos mais antigos. Sobre essa questão, comenta Thomas Sowell, um americano negro e professor universitário: “Os europeus escravizaram outros europeus durante séculos antes que o esgotamento de escravos brancos os levasse a recorrer à África como fonte de escravos para o Hemisfério Ocidental. O imperador romano Júlio César marchou em Roma numa procissão que incluía escravos britânicos capturados. Duas décadas depois que os negros foram emancipados nos Estados Unidos, ainda havia escravos brancos sendo vendidos no Egito. A mesma história se repete na Ásia, África, entre os polinésios e entre os povos indígenas do Hemisfério Ocidental. Nenhuma raça, país ou civilização está isento de culpa”. Sowell também diz: “A escravidão era um negócio feio e sujo, mas indivíduos de praticamente todas as raças, cores e credos estavam envolvidos nela em todos os continentes habitados. E as pessoas que eles escravizavam também eram de praticamente todas as raças, cores e credos”.

O Professor Robert Davis explica essa questão: “Umas das coisas que o público e os estudiosos têm a tendência de fazer é ver como fato garantido que a escravidão sempre teve natureza racial — que só os negros eram escravos. Mas isso não é verdade. Não podemos pensar na escravidão como algo que só os brancos fizeram para os negros”. A maioria das sociedades de 1, 2, 3 ou 4 mil anos atrás aceitava de uma forma ou outra a escravidão. E é bom lembrar que na Europa brancos escravizavam brancos, na Ásia asiáticos escravizavam asiáticos, nas Américas índios escravizavam índios e na África negros escravizavam negros, tornando a maior parte da população mundial de hoje (independente de origem racial) descendente de escravos, pois o sistema social de trabalho forçado era comum a todos os povos. Não havia os que aceitavam e os que não aceitavam a escravidão. Havia só dois grupos:

A maioria: os pagãos, ateus e anticristãos que eram de modo geral cruéis com os escravos.

A minoria: os que, obedecendo ao que Deus diz na Bíblia, eram de modo geral bondosos com eles.

Onde a escravidão era praticada por muçulmanos e outras culturas não cristãs, dificilmente havia esperança de misericórdia para os oprimidos. Ainda que hoje os muçulmanos não mais empreendam o aprisionamento e venda de negros e brancos como escravos, sua falta de compaixão pouco diminuiu, como se pode comprovar nos cruéis atos terroristas e seqüestros e assassinatos sádicos de reféns inocentes, praticados por indivíduos que se consideram adeptos de uma “religião de paz”, mas que desde os tempos da escravidão vem trazendo, através de seguidores fanáticos, opressão e terror para a humanidade.

No continente americano, antes da vinda de Cristóvão Colombo, a situação não era melhor. Pessoas capturadas, mesmo crianças, nas guerras entre as tribos indígenas muitas vezes acabavam escravizadas, ou engordadas para servirem de alimento para seus captores canibais ou simplesmente utilizadas em sacrifícios humanos. Tanto homens como mulheres aprisionados eram estuprados, pois o homossexualismo era comum nas tribos. O tratamento desses índios nas mãos de outros índios era tão cruel que as vítimas viram Colombo como herói, quando ele venceu as tribos canibais e libertou os índios que estavam sendo mantidos presos para serem devorados. Os índios libertos receberam o “invasor” com muita alegria.TEXTO COMPLETO AQUI

domingo, 13 de fevereiro de 2011

AGOSTINHO NETO FOI ASSASSINADO PELOS RUSSOS

Luanda - Uma declaração pública sobrelevou-se a todas as outras durante as celebrações deste ano do Dia do Herói Nacional, instituído com a data do nascimento de Agostinho Neto:

a filha do velho presidente, a médica Irene Neto (que ocupa um dos vice-ministérios das Relações Exteriores), admitiu, ao falar a uma estação de rádio de Luanda, a possibilidade do líder angolano ter falecido em resultado de envenenamento.

Irene Neto falou em «abundantes indícios» sugerindo que o pai, Agostinho Neto, não morreu de causas naturais. Estratagemas artificiais teriam encurtado o seu ciclo de vida. Pela primeira vez, desde o desaparecimento de Agostinho Neto, há 28 anos, uma declaração pública evoca a possibilidade do líder revolucionário angolano ter sucumbido a uma conspiração destinada a eliminá-lo da cena política angolana, numa afirmação, além do mais, valorizada por ter partido de uma fonte simultaneamente ligada ao círculo familiar do velho presidente e aos meios institucionais angolanos.

A admissão dessa funesta possibilidade no Café da Manhã da Luanda Antena Comercial (Lac) de terça-feira não teve, entretanto, o cunho de uma declaração oficial, embora seja isso o que hoje se afigura mais necessário para a compreensão da política angolana dos últimos 30 anos: declarações oficiais do actual Governo e do partido que naquele Setembro fatídico de 1979 personificava o Estado, o Mpla, que façam luz sobre o que se passou, como uma vez perguntou Severino Carlos neste jornal, «naquela mesa de operações em Moscovo».

Agostinho Neto morreu ao submeter-se a um operação exigida por alegadas complicações no fígado detectadas em Moscovo por médicos inscritos da Academia de Ciências da antiga Urss. Efectivamente, as autoridades instituídas com o apoio do partido de que Neto era o presidente não só evitaram o rigor nas suas «démarches» para esclarecer a morte do seu «líder incontestável», como não foram a reboque das suspeitas públicas que se levantaram e, também, não aproveitaram o alento dado ao assunto pelos escritos publicados por um velho general da espionagem soviética, Kgb. Com o seu incompreensível silêncio e sua inaceitável apatia, as autoridades angolanas transformaram a questão em mais um dos muitos tabus do Governo e das instituições estatais angolanas. Estamos, então, num processo, porque contínuo, de escamoteamento da verdade. E não de uma verdade qualquer, mas da verdade histórica, porque é ela que nos haverá de permitir ligar os pontos históricos que possibilitarão aos angolanos a obtenção das explicações para a sua existência.

Há indicações de que Agostinho Neto tentou, dez anos antes de José Eduardo dos Santos, uma aproximação com a Unita. São Vicente, prestigiado economista e escritor de temas económicos e sociais angolanos, di-lo num dos seus vários livros, dando, ainda, o subsídio necessário de que para essa negociação haver sido indigitado um dos mais carismáticos dirigentes do Mpla da época, o agora deputado Mendes de Carvalho. E Sao Vicente não deve estar longe da verdade: Gerald Bender, professor universitário nos Estados Unidos há muitos anos dedicado aos assuntos angolanos, fez num dos jornais ligado à equipa que agora edita o Semanário Angolense (teria sido no Angolense?), uma revelação diferente, mas que conduz à mesma percepção de que Agostinho Neto pretendia uma aproximação com a Unita destinada a parar com a guerrilha ainda embrionária do antigo movimento rebelde. Escrevendo pelo próprio punho, Gerald Bender declarou ter sido abordado por Lúcio Lara, que tinha recebido incumbências directas de Neto, para estabelecer uma aproximação entre o Governo angolano e a administração norte-americana logo após à suposta intentona golpista de 1977.

Ao que se diz, a tentativa de golpe de Estado de 1977 teria sido engendrada por sectores radicais de esquerda no seio do Mpla, sendo apoiada, pelo menos, pelo embaixador soviético naquela altura acreditado em Luanda.

Seja lá o que for, a verdade é que os esforços da liderança de Agostinho Neto para abandonar a sombrinha de Moscovo e direccionar o processo político angolano para o seu próprio caminho foram tantos, que podem ser narrados sob factos diferentes e sob uma relativa abundância de dados. Tanto é assim, que isso deu nas vistas em Moscovo, a capital do chamado Bloco Socialista que na «guerra fria» dividia o Mundo do Bloco Capitalista, onde se procurava manter países e regiões inteiras sob a «esfera de influência» de um socialismo beligerante e insaciável na sua procura por recursos económicos e financeiros.

E em Moscovo havia, para casos de defecção ou revisionismo ideológico, uma bitola que a literatura ocidental da «guerra fria» chamava a «mão de Moscovo», que consistia tanto no financiamento de guerras no estrangeiro para alargar a «esfera de influência» da defunta União Soviética, quanto na eliminação de lideres dissidentes em face dos dogmas ideológicos do leste.

A relação da morte de Agostinho Neto com a «mão de Moscovo» pode ter acabado infelizmente abonada, mais tarde, com o assassinato de Samora Machel, de Moçambique, tempos depois de ter declarado publicamente que «o socialismo não se constrói apenas com a ajuda do bloco socialista», aludindo à necessidade de uma aproximação com o ocidente. Quer dizer que as suspeitas dos angolanos mais lúcidos levam a apontar os dirigentes do velho regime soviético como responsáveis pela eliminação física de Agostinho Neto, quando ele tentou mudar o rumo dos acontecimentos que estabeleceram a guerra civil que perdurou por mais de duas décadas no nosso país. E tudo isso significa, também, que as coisas, toda a história de tragédia do povo angolano, teriam sido diferentes, se Neto não tivesse sido tão prematura e inesperadamente roubado da liderança do Estado e do processo político angolano.

O que se seguiu à efémera liderança de Agostinho Neto à frente dos destinos do Estado angolano foram anos da afirmação política do Presidente José Eduardo dos Santos, que não tinha nem a autoridade militante, nem o carisma, para convencer os sectores mais radicais do partido, nas costas de quem Neto ensaiava a aproximação à Unita, da necessidade da ruptura com o leste e de um entendimento com a guerrilha «savimbista». No seu processo de afirmação, José Eduardo dos Santos teria sido mesmo compelido a reprimir atitudes «netistas» exacerbadas, como as de Paiva Domingos da Silva, que teria iniciado a travessia pelo deserto em que se encontrava na altura da sua morte, depois da declaração proferida diante do novo Presidente da República, advertindo que ninguém deveria «tirar um só vírgula, naquilo que disse o mulaúla, camarada presidente doutor António Agostinho Neto».

No congresso de 1985, o afastamento da cúpula do partido de incondicionais de Agostinho Neto como Mendes de Carvalho e Lourenço José Ferreira «Diandengue», ou mais tarde, o «desterro» de Roberto de Almeida no Lubango, ou, ainda, de Bernardo de Sousa na China, tal como o confinamento de Lúcio Lara depois de arredado da direcção (para apenas citar alguns exemplos), podem ser considerados ataques directos contra o «netismo», no quadro da assumpção plena do poder e da afirmação da liderança de José Eduardo dos Santos.

Isso explica que para afirmar a sua liderança, José Eduardo dos Santos não poderia fazê-lo sob a sombra do «netismo» e isso pode explicar, também, porquê que foram tão displicentes as tentativas para esclarecer com os soviéticos primeiro, e agora com os russos, a morte do primeiro presidente angolano.

Levantar o fantasma de Neto denunciava, no passado, que a beligerância do Estado não era um dos desígnios que Neto aceitasse para o desenvolvimento do processo político angolano. Já mais recentemente, a figura de Neto passou a ser temido por poder desviar a política dos objectivos da nova liderança, por conduzir a comparações que a subalternizam sob o ponto de vista do carisma e da intelectualidade, por destapar os actuais défices de popularidade dos líderes do nosso processo político e por desqualificar os novos métodos de governação.

Pelo que, tudo o que se diz sobre Agostinho Neto nas jornadas anuais que celebram o Dia do Herói Nacional, quando se lhe chama «guia imortal» ou «líder incontestável» e se promete «seguir os seus ensinamentos» ou «preservar a sua memória», não passará de mero cinismo, até que se decida abordar a sua morte na mesma amplitude da sua dimensão política, que não foi atingida por nenhum outro líder político angolano até aos dias de hoje.


Fonte: SA

AGOSTINHO NETO "ESCONDIA" EM LISBOA UM "CORREDOR-SOMBRA" PARA WASHINGTON

Pouco antes da morte de Neto, em 1979, a Casa Branca pedia a Luanda que "esquecesse" a ajuda norte-americana ao Zaire e à FNLA; Walker, Bzerzinski, McHenry e Moose previam "para breve" a normalização das relações diplomáticas com o regime de Agostinho Neto

Agostinho Neto e José Eduardo dos Santos lançaram na aventura dos corredores da Casa Branca alguns dos seus mais astutos negociadores. Por fim, em 1994, os Estados Unidos da América do Norte abriram, em Luanda, oficialmente, a sua representação diplomática, de facto. Quem foram os "homens de Neto" para os contactos com a Casa Branca? O nome de Paulo Teixeira Jorge, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de Angola, é indissociável dos esforços de Agostinho Neto para convencer os americanos. O JN descobre, entretanto, que o "velho" presidente tinha, "escondido", em Lisboa, na década dos anos 70, um "emissário especial". Uma "arma secreta" para "raids" à Casa Branca estratégica e tacticamente concertados, em linha síncrona, com o MNE angolano: o dr. Arménio Ferreira. Médico radicado em Lisboa. Antigo companheiro de Agostinho Neto nos bancos escolares e na Casa dos Estudantes do Império. Arménio Ferreira sentou-se, em Washington, credenciado por Neto, de frente para Richard Moose, Donald McHenry, James Overly, Zibgnew Bzerzinski, Walker, Funk, Alan Hardy, entre outros pesos pesados, médios e leves da política dos "States" para a África.
Arménio Ferreira, cardiologista, não é diplomata de carreira, nem sequer "político encartado". O seu estatuto confunde-se com afectos, coerências fecundas, sentido imperdível de constância na lealdade e na solidariedade. Não fosse o dr. Arménio tão modesto, tão avesso à pimponice mediática, e nós, os repórteres, dele tiraríamos, seguramente, revelações interessantíssimas sobre os "labirintos" e os muitos protagonistas da história de Angola e do MPLA. O que mais contraria Arménio Ferreira é o facto de ele não ter conseguido, ainda, em foro desapaixonado, divulgar o seu pensamento sobre o papel e a obra de Agostinho Neto. Quando o saudoso presidente angolano considerou útil e conveniente a colaboração de Arménio nas árduas conversações com os americanos, o médico não hesitou. Independentemente das circunstâncias, Arménio Ferreira respondia "presente!".
As incursões mais "trepidantes" deste emissário especial do presidente Neto, junto da Casa Branca, tiveram lugar em 1979. Isto é, pouco antes da morte de Agostinho Neto. Foi quando o dr. Arménio Ferreira, nos dias 29 de Julho e 9 e 16 de Agosto, andou numa verdadeira farândola entre reuniões e mais reuniões na Casa Branca e com os homens do Departamento norte-americano de Estado. Os altos funcionários encarregados, principalmente, dos Assuntos Africanos: Richard Moose, Donald McHenry, Walker, Alan Hardy, e outros. A sessão que mais terá marcado Arménio Ferreira foi, provavelmente, aquela segunda parte das conversações de 9 de Agosto (1979), por volta das 18 horas. Quando Arménio Ferreira, em representação da parte angolana, discutiu com uma delegação norte-americana da Casa Branca encabeçada por N. Walker. Este, investido das duplas funções de expert em Assuntos Africanos e representante governamental norte-americano para o "dossier Angola", estava acompanhado, também, por Funk, secretário para a Segurança da Casa Branca.

MEMORÁVEL

Dessa reunião, a 9 de Agosto, no Departamento norte-americano de Estado, guarda o dr. Arménio Ferreira uma impressão certamente memorável. No período da manhã, ele trabalhara com um "pesado" da Casa Branca, Zibgnew Bzerzinski (National Security). O americano quis saber, de Arménio Ferreira, se o presidente Agostinho Neto "poderia governar sem os cubanos". O enviado angolano sorriu-se e aproveitou para lembrar aquilo que, de facto, mais embaraçava a Casa Branca: "Os cubanos só estão em Angola para combater e repelir a invasão sul-africana". Dir-se-ia que os norte-americanos, prestes a aceitarem como irreversível a "normalização" das relações com Angola (1979), não perdiam ensejo de agitar, mais uma vez, o fantasma do "comunismo". Bzerzinski disse mesmo ao dr. Arménio Ferreira, enviado de Agostinho Neto, que a URSS era o "suporte", em "todo o mundo", de vários "estados-marionetas". Entrementes, o norte-americano Funk, da "National Security", tem uma explanação no mínimo premonitória: "Actualmente, os Estados Unidos não auxiliam quaisquer organizações anti-angolanas". E justificou: "Se o fizemos no passado era, somente, porque essas organizações apresentavam-se com uma máscara anti-comunista, dizendo-se com forte implantação junto das populações angolanas".

"NORMALIZAR!"

Finalmente, o próprio Bzerzinski foi categórico diante da expectativa crescente de Arménio Ferreira naquela reunião em Washington: "Desejamos e vamos normalizar as nossas relações diplomáticas com Angola. Julgo que Angola também o deseja". Mais tarde, num breve esboço elaborativo dos seus registos, o dr. Arménio Ferreira tomou nota. "Quanto às palavras de Bzerzinski, interpreto-as essencialmente como um recado ao presidente Neto. No sentido de que as relações USA/Angola são provavelmente desejadas, neste momento, pela Casa Branca". E, do seu próprio punho, acrescentava Arménio Ferreira: "Bzerzinski, nesse aspecto, foi claro, na qualidade de único dirigente norte-americano que falava como quem tem autoridade para o fazer".
E, aqui chegado, o dr. Arménio particularizava, da mesma entrevista com aquele alto funcionário da administração americana: "Quando o intérprete (F. de Rivera) me falou em "more normal relations between the two states", eu interrompi-o. E disse-lhe que o conselheiro político do presidente Carter havia falado, sim, em "normal relations". Bzerzinski concordou e confirmou, inteiramente, a minha versão, em inglês".
Arménio Ferreira rematava, assim, as suas apreciações ao perfil de Bzerzinski: "Elemento considerado como da linha dura da Casa Branca, ele foi de uma correcção comedida mas, ao mesmo tempo, simpático e frio no raciocínio. Como quer que seja, foi o único que disse claramente que os Estados Unidos da América do Norte iriam estabelecer relações diplomáticas com Angola. Não mencionou, todavia, qualquer data presumível".

"ACABEM JÁ COM A PARANÓIA!"

Paulo Jorge, antigo ministro angolano dos Negócios Estrangeiros,
"encostou" Chester Croker e ouviu "promessas" de Cyrus Vince...

Paulo Teixeira Jorge foi o carismático ministro angolano dos Negócios Estrangeiros durante a presidência do não menos carismático António Agostinho Neto. Ele tem, dos revoluteios da política externa dos Estados Unidos, um conhecimento quase visceral. Quanto ao "dossier" das relações entre Luanda e Washington, Paulo Jorge conhece todas as sofistarias da "máquina" da Casa Branca.
Em Luanda, Paulo Jorge recebe, pela segunda vez no espaço de 48 horas, o enviado do JN. Especialmente para revisitarmos algumas "páginas" do grande livro negocial: Luanda versus Washington.
JORNAL DE NOTÍCIAS - Quais foram os negociadores norte-americanos que revelaram maior apego à linha dura da Casa Branca?
PAULO JORGE - Para começar: a posição da Casa Branca, se bem que eventualmente matizada, é uniforme. Eu dialoguei, por exemplo, variadíssimas vezes, com o então subsecretário de Estado, Chester Crocker. Claro que a posição dele era a posição do Governo norte-americano! Foi precisamente ao Chester Crocker que eu disse, num dos encontros, que os Estados Unidos deveriam reconsiderar sobre a "paranóia" anti-Angola e anti-Cuba. Em dado momento, o Chester Crocker faz avançar o tão falado "linkage": interligar as questões referentes a Angola, presença cubana e Namíbia. E, em 1982, num comunicado conjunto Luanda-Havana, expressa-se a total rejeição de semelhante "linkage"! Este era um tema obrigatório nas minhas deslocações às Nações Unidas, na época. Já com Ronald Reagan na presidência dos Estados Unidos.
JN - O Paulo Jorge utilizou o termo "paranóia" somente nas conversações com Chester?
PJ - Utilizei-o também num discurso que proferi na Assembleia Geral das Nações Unidas.
JN - Nunca conversou com o "moderado" Walker?
PJ - Conversei com ele, uma vez, no âmbito das consultas bilaterais. Tive também encontros com o Cyrus Vance no período em que se encontrava Jimmy Carter na presidência dos Estados Unidos. Conversei, também, com o Alexander Haig. Com o Shultz, etc, etc, etc.
JN - Na altura do falecimento do presidente Agostinho Neto estariam, já, a desenhar-se perspectivas fortes de entendimento com os Estados Unidos?
PJ - Recordo que em 1978...1979, numa das minhas deslocações a Nova Iorque para participar na Assembleia Geral das Nações Unidas, eu tive um encontro com o Cyrus Vance, secretário de Estado norte-americano. E, então, abordámos sim a problemática do reconhecimento da República Popular de Angola pela Administração dos Estados Unidos. Estavam os democratas na Casa Branca, portanto. E o Cyrus Vance deu a entender que estaria em curso um processo tendente ao reconhecimento e, naturalmente, à normalização de relações diplomáticas com Angola. Só que, entretanto, em 1980, foi eleito o republicano Ronald Reagan...! E tudo se desmoronou. Foi tudo por água abaixo. Um dos primeiros passos de Ronald Reagan, em 1981, na Administração norte-americana, consistia na revogação da chamada "Emenda Clark". Que impedia o Governo dos Estados Unidos de ajudar os "movimentos" de "oposição" aos regimes africanos. Já durante a campanha eleitoral dos republicanos se perfilava, e preconizava, uma ajuda à UNITA!

DIGA AO DR. NETO QUE É UM "INFERNO" SER-SE AMIGO DE ANGOLA EM WASHINGTON

Walker, encarregado norte-americano do "dossier Angola", queixava-se da sabotagem articulada por "comissões,
senadores, deputados e uma certa Imprensa ávida de deixar mal vistos os amigos da causa angolana"...

No interior da Casa Branca, durante a presidência angolana de Agostinho Neto, o poder democrata todos os dias traçava "fronteiras" entre os políticos hesitantes, às vezes mesmo contraditórios, e os políticos decididos. Um dos quais, Walker, não hesitou
em mandar dizer ao presidente Neto: "Olhe que não é fácil, aqui em Washington, a vida de quem se mostra favorável a Angola!". O enviado especial de Agostinho Neto (o médico Arménio Ferreira) percebeu, por outro lado, que os americanos já tinham como irreversível a opção de normalizar as relações diplomáticas com o regime de Neto. O líder angolano morreu, pouco depois, em Moscovo, vítima de cancro no pâncreas.

O Governo dos Estados Unidos da América do Norte e Agostinho Neto (Arménio Ferreira)

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O norte-americano Zibgnew Bzerzinski, alto funcionário da Casa Branca (conselheiro para a Segurança do Estado), chegou a ter este desabafo diante do dr. Arménio Ferreira, enviado de Agostinho Neto: "Considero que, realmente, Angola e o seu presidente têm conduzido uma política independente, e não desejamos que Angola seja base de um novo conflito entre Leste e Oeste". Arménio ficou, por momentos, a contemplá-lo, e Bzerzinski prosseguiu nestes termos: "Queremos uma Angola livre e independente. E os Estados Unidos nunca intervirão, nós nunca interferiremos com o regime angolano. Seja qual for esse regime, como é timbre da nossa política na África Austral. Queremos a estabilidade na zona". E, por último, Bzerzinski proferiu a célebre assertiva: "Desejamos e vamos normalizar as nossas relações diplomáticas com Angola. Julgo que Angola também o deseja". Corria o Verão de 1979.
O ambiente, rememora o dr. Arménio Ferreira durante a conversa com o JN, era de manifesta cordialidade. Tanto assim que Bzerzinski tivera, até, um gesto particularmente simpático: manifestou a Arménio a sua preocupação pelo estado de saúde da esposa do médico angolano, na altura melindroso. Estava-se a 9 de Agosto de 1979.
Arménio Ferreira sentia-se, de facto, agradavelmente impressionado com as "performances" dos seus interlocutores.
Ele gostou, especialmente, das posturas dialogais de Walker e de Richard Moose. "Os mais liberais do Departamento de Estado e da margem esquerda do Partido Democrático", reitera Arménio Ferreira. Também McHenry, Donald McHenry, do "dossier" da Namíbia e embaixador na ONU, impressionou fortemente o emissário especial do presidente António Agostinho Neto.

DONALD McHENRY - A "SINCERIDADE"

No entender de Arménio Ferreira, o poder democrata norte-americano "tropeçava" nos remanescentes da mentalidade conservadora adjutória das políticas republicanas - o "inferno" para as aspirações dos países do Terceiro Mundo. Donald McHenry, que lidava fluentemente com o "dossier" da Namíbia (a SWAPO, na altura, sofria a "bom" sofrer às mãos da Infantaria do "apartheid"), tratou Arménio Ferreira com excepcional afectividade. Arménio matutava para os seus botões: "Este americano é, talvez, mais "formalista" que Walker, ou mesmo Richard Moose, mas é certamente o mais afectuoso de todos". Mc Henry sem dúvida que convenceu Arménio da sua "muita sinceridade". Arménio considerava-o "anti-sul-africano", logo, "anti-apartheid". Além disso, o enviado de Agostinho Neto estava convencido de que Donald McHenry iria suceder a Andrew Young como embaixador norte-americano nas Nações Unidas.
Nesse mesmo dia (9 de Agosto de 1979), ao cair da tarde, em Washington, o emissário especial do presidente Neto ouviu do norte-americano Walker (subsecretário de Estado para os Assuntos Africanos) os mais rasgados elogios. Walker destacou, vivamente, "a eficiência do trabalho" de Arménio Ferreira em prol da aproximação Washington-Luanda. Walker teria dito, entrementes: "Eu não vou repetir aqui as afirmações há pouco proferidas pelos senhores Bzerzinski e McHenry. Quero, isso sim, afirmar que devemos esquecer, Angola deve esquecer a ajuda que os Estados Unidos prestaram, em tempos, à República do Zaire e à FNLA".
Walter, que sabia ser insinuante, aproveitou para lembrar que ele próprio fora o arquitecto, no Departamento norte-americano de Estado, da aproximação Angola-Zaire.
Em Luanda, o enviado do JN ouviu, a propósito, Lopo do Nascimento, actualmente secretário-geral do MPLA, outrora primeiro-ministro durante a presidência do dr. Agostinho Neto. De facto, Lopo deixou bem claro que Donald Mc Henry foi pedra fulcral nas diligências que levaram à "normalização" das relações entre Luanda e Kinshasa. Lopo não falou de Walker. Nessa altura (1977-1979), foram realmente frequentes os encontros de McHenry, inclusivamente em Luanda, não só com Lopo do Nascimento mas, igualmente, com o próprio presidente Agostinho Neto. Falta saber, contudo, se, naquele tempo, a "normalização" teria sido pensável e realizável sem a activa disponibilidade do então presidente do Congo-Brazaville, Marien Nguabi. Com Walker ou sem Walker.
Como quer que seja, ninguém duvida, hoje, da importância que as diligências de Mc Henry, na África Austral, chegaram a conhecer no tocante ao arrefecimento das fricções entre Luanda e Kinshasa. A conclusão a extrair é a de que McHenry foi decisivo no terreno e que Walker tê-lo-á sido no interior mais profundo do Departamento norte-americano de Estado.

A MÁQUINA DOS "STATES"!!!

A verdade é que Arménio Ferreira, o emissário especial que Agostinho Neto, discretamente, accionava a partir de Lisboa, ficou detentor de uma experiência absolutamente singular. Sem ser político, ou diplomata, de carreira. Arménio Ferreira sentiu, por dentro, o pulsar das "dúvidas" e das "certezas" norte-americanas. Em dado momento das conversações nesse 9 de Agosto de 1979, Walker disse ao enviado de Neto: "Peço-lhe que diga ao presidente Neto que não é fácil, em Washington, a vida de quem é favorável a Angola!".
Uma declaração, no mínimo, electrizante. Historicamente significativa de quanto, nos Estados Unidos da América do Norte, Angola (a Angola dos tempos de Agostinho Neto), "perturbava" a terrível máquina dos "States". Walker (da Secretaria de Estado para os Assuntos Africanos) pediu, de facto, a Arménio Ferreira, que fizesse o dr. Neto compreender esse drama: "Diga ao presidente Agostinho Neto que custa muito trabalho, em Washington, sustentar posições pró-Angola. Porque é preciso lutar contra burocracias internas. Contra a má vontade das várias comissões, de vários senadores e deputados. Contra uma Imprensa sempre ávida de assuntos e situações que possam colocar mal os amigos de Angola!".

NETO ELOGIADO PELA CASA BRANCA!

Desabafo insinuante de Donald McHenry: "Eu tenho um fraco por Angola,
sou o americano que mais vezes foi a Angola depois da independência..."

Quando o dr. Agostinho Neto se evadiu da prisão, em Portugal, lembra Arménio Ferreira, "eu mesmo fui buscá-lo à Praia das Maçãs". Para dar continuidade à operação que levaria Neto para o exterior, até à sua fixação em Kinshasa, República do Zaire. Aconteceu em 1961. Dezoito anos mais tarde, Agostinho Neto foi "buscar" Arménio Ferreira a Lisboa para seu emissário-estratega nas conversações com os americanos. Desconfiados do "comunismo" de Neto (e do MPLA).
O que o dr. Arménio constatou, face às declarações dos seus interlocutores, só poderia ser gratificante para António Agostinho Neto, chefe do Estado angolano. Donald McHenry, que sobraçava, na Administração norte-americana, o "dossier" da Namíbia, disse a Arménio ter gostado "imenso" do acolhimento que lhe havia sido dispensado, em Luanda, à sua chegada. "Instalaram-me numa casa maravilhosa", lembrou o alto funcionário de Washington. "Encantou-me aquela vista de sonho da baía de Luanda", disse ainda McHenry com manifesto enlevo.
Uma particularidade, que Arménio Ferreira sublinha: "As conversações, curiosamente, realizaram-se, no Departamento norte-americano de Estado, nos gabinetes de Andrew Young, precisamente um dia antes de este ter apresentado a sua demissão ao presidente Jimmy Carter".
Era a tarde de 16 de Agosto de 1979. Conversou-se muito sobre a tormentosa questão da Namíbia. E, em dado momento, Donald McHenry teve este desabafo: "É justo salientar a actividade construtiva do presidente Agostinho Neto em relação ao problema da Namíbia! Conheço o resultado das negociações com o senhor Kurt Waldheim, secretário-geral das Nações Unidas. E sei também que o senhor Kurt Waldheim ficou com uma excelente impressão do presidente Agostinho Neto!"

ENCANTADOS!

Donald Mc Henry foi mais longe, ainda, no reconhecimento da acção do presidente angolano: "O Governo dos Estados Unidos da América do Norte considera muito a acção construtiva do dr. Neto, relativamente à resolução do problema da Namíbia. Sem essa ajuda angolana a resolução seria, certamente, impossível!". E o alto funcionário da Casa Branca não se dispensou sequer de vaticinar: "Desejo que, entretanto, Angola ultrapasse os seus problemas internos, para que o seu presidente possa, enfim, dedicar-se profundamente à reconstrução económica e social do país". McHenry quis reconhecer, também, por outro lado, que o presidente Neto "falara grosso" para a SWAPO ter mais cuidado com as suas "movimentações no território namibiano".
No final das conversações, era ainda McHenry a dizer para Arménio Ferreira: "O presidente Carter e o secretário de Estado, Cyrus Vance, estão ao corrente de todas estas conversações e apreciam muito a colaboração que o dr. Arménio Ferreira tem prestado nesse sentido". E, depois, de regresso à "intimidade", McHenry deixou escapar: "Eu tenho um fraco por Angola. Provavelmente, eu sou o americano que mais vezes foi a Angola depois da independência. Já causa inveja a minha resistência de "globetrotter" aéreo... mas, do que eu realmente gostaria, se entretanto não morrer, era de ver normalizadas as relações entre o meu país e Angola"!
Num gesto fagueiro e cortês, Donald McHenry e Richard Moose enviaram telegramas e ramos de flores à esposa de Arménio Ferreira, entretanto internada numa clínica norte-americana.

(Dossier do JORNAL DE NOTÍCIAS)