domingo, 3 de abril de 2011

ANGOLA: Delimitação territorial, Missionação, Colonização, Infraestruturas básicas, Economia, Problemas sociais, guerrilha e independência

DELIMITAÇÃO TERRITORIAL:

O navegador Diogo Cão aportou, na sua 2ª viagem, o Rio Zaire, no reino do Congo, em 1485,  e reconheceu a costa angolana até ao Cabo Negro, atual Luanda, colocando aí os padrões para testemunhar a presença portuguesa.

Este reino e a parte litoral explorada até Luanda, ficaram subordinados ao Arquipelago de São Tomé e Príncipe, dado a sua proximidade e como centro de transito dos escravos.

As terras litorais a sul do Rio Dande até 35 léguas ao sul do Rio Cuanza foram dadas como capitania ao Paulo Dias Novais em 1559, quando ali chegou com alguns jesuítas. Ele em 1576 fundou a povoação de Luanda  e construiu 3 fortalezas, governou durante 14 anos e morreu em 1589.

 Em 1617 foi fundada a povoação de Benguela na costa litoral e  construídas fortalezas. Em  1641 os holandeses capturaram Luanda, mas os portugueses recuaram-se para o interior,  e ao fim de 7 anos em 1648 com o apoio de Salvador Correia de Sá, vindo do Brasil, expulsaram os holandes. Salvador Correia foi nomeado Governador, 1648-1652.

Nos finais do século XVII o domínio costeiro expandiu-se para o interior e o reino indígena Ndongo ou Andongo tornaram-se protectorados portugueses e no sul fundaram uma feitoria e fortaleza em Caconda.

 Devido ao clima e alimentação, muitos dos expedicionários, jovens metropolitanos, açoreanos e madeirenses, morriam. Eram campanhas de ocupação local, mas, ao mesmo tempo de avançar com a ideia de ligar Angola a Moçambique, de cuja costa também partiam expedições para o interior.

Em  1790 deu-se a primeira ligação terrestre entre Angola e Moçambique, quando os mercadores mulatos, Pedro João Baptista e Amaro Noé, chamados Pombeiros, saindo de Cassenje alcançaram Tete, em Moçambique.

Depois da revolução liberal,1820, os textos constitucionais enumeravam os domínios africanos como territórios espalhados pelas áreas afro-atlântico e índica, constituindo no seu conjunto três governos gerais: o de Cabo Verde e Guiné; o de Angola e o de Moçambique; e um governo particular: o de São Tomé e Príncipe e são João Baptista de Ajudá.Da África Ocidental constavam as parcelas de Bissau e Cacheu, o Forte de São João  Baptista de Ajudá; na Costa da Mina: Angola, Benguela e suas dependências, Cabinda e Molembo e as Ilhas de Cabo Verde e as de São Tomé e Príncipe. Na costa oriental africana indicavam-se Moçambique, Rios de Sena, Sofala, Inhambane, Quelimane e Cabo Delgado.
No interior de  oeste para o leste não havia limites fixos e muito pouco se sabia ainda acerca dos vastos espaços interiores e das populações que os habitavam. Eram vastos espaços onde cruzavam-se as caravanas dos mercadores e traficantes africanos que traziam para a costa, cera, marfim, e outros produtos, e os escravos comprados nas feiras africanas ou nas fortalezas portuguesas disseminadas pelo interior.A ideia de unir a costa ocidental à costa oriental em 1831 é, de novo tentada. O major, José Maria Correia, com 400 mercadores e carregadores com objetivos económicos e geográficos saiu do Tete, Moçambique, seguindo a rota de 30 anos de Lacerda e Almeida,e atingiu Cazembe, entre Zámbia e Congo, regressando a Tete em 1832. Em 1850 o explorador português Silva Porto fixou-se no centro de Angola e fez explorações geográficas e económicas e atingiu a Zâmbia onde se encontrou com Livingstone, voltando a Angola por mar em 1854, e que mais tarde se suicidou quando algumas tribos locais se revoltaram contra Portugal por incitação inglesa. Na mesma época o naturalista Welwisch ao serviço do governo português percorreu Angola e atingiu Cuando, outros partindo de Inhambane, Moçambique, atingiram Kugger National Park.

Em Angola como em Moçambique para reforçar as suas posições  na Foz do Luabo e em Tete, Portugal usou a política de aliança com os boers do Transval, adversários dos ingleses, e procedeu a exploração do Rio Cunene para evitar intromissões estrangeiras nas zonas costeiras do sul de Angola, alargando-se as fronteiras a leste com o Cassenje, a norte no Rio Congo e a sul no Rio Cunene.

A Sociedade de Geografia de Lisboa, criada em 1875, fomentou outras expedições, como as dos  oficiais da marinha, Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, os quais partindo em 1877 de Moçamedes, Angola, atingiram Quelimane, em Moçambique, fazendo a  viagem “De Angola à Contra Costa”. O Capitão Serpa Pinto saindo de Silva Porto, Angola, em 1877 chega a Zâmbia Central e atinge Transval e Durban em 1879, percorrendo parcialmente Moçambique; Henrique de Carvalho viajou de Malanje, Angola,  até ao Rio Cassai, em 1884-86.

Na Conferência de Berlim em 1885-1886, com base nestas explorações, Portugal reivindicou como seu o território desde as costas de Angola, da Foz do Zaire até a Foz do Rio Cunene, até Moçambique. Mas as  potencias europeias nessa conferência decidiram que a reivindicação devia ser apenas através de ocupação efectiva dos territórios  ultramarinos. A Grã-Bretanha fez o ultimato em Janeiro de 1890 e nos seus termos Portugal foi obrigado a renunciar parte do território ligando Angola à Moçambique (Zambézia e Rodésia), através do Tratado Luso-Britâncio de 1891. Com este entendimento com a Inglaterra, Portugal fez as campanhas militares de pacificação e de efectiva ocupação territorial, delimitando os seus limites definitivamente. Desde então, os alemães e ingleses cobiçaram Angola, Moçambique, Goa e Timor como compensação em caso de empréstimo português como divida pública. Os EUA queriam Açores. Em 1904 a Alemanha queria a totalidade das colónias portuguesas, mas o Tratado secreto de Windsor de 1899 entre Portuagl e Grã-Bretanha anulou o de 1898, entre Inglaterra e Alemanha.

MISSIONAÇÃO: A missionação começou logo após a 2ª expedição de Diogo Cão em 1485. Em satisfação do pedido do respetivo rei, em  1490 chegou ao Congo a primeira  missão  constituida de 3 navios com artífices, sacerdotes e ferramentas, e foi construida  a primeira igreja, em S. Salvador do Congo, reino que tornou-se um protetorado português e seu rei com a família e a elite governamental converteram-se ao crisitianismo e adotaram por batismo os nomes católicos. O rei passou a ser Afonso I e surgiram nomes como Pedro, Francisco, Diogo, Afonso, Bernardo, Henrique e Álvaro, etc. A partir de 1512 foram para lá enviadas com regularidade missões com padres, mercadores e conselheiros e um grupo de jovens congoleses vieram a Portugal para formação cultural. Dos quais  Henriques foi ordenado sacerdote  e consagrado como  bispo de Utica e vigário-apostólico do Congo.

Em 1682 foi criada  em Luanda uma Junta de Missões  com missionários capucinhos italianos, mas com fracos resultados devido ao clima e resistência do indígena a conversão.

O século XVIII foi já de profunda decadência, principalmente com a expulsão dos jesuítas ordenada por Marques de Pombal. Depois da revolução liberal em Portugal nova decadência das Ordens Religiosas, paróquias, igrejas e missões interiores, excepto à partir de 1885, quando com as mudanças políticas na monarquia constitucional portuguesa houve aumento do pessoal missionário.

A partir de 1910 de novo a situação piorou com a política anti-religiosa republicana e suprimento dos subsíduos estatais às missões, encerramento dos institutos religiosos, seminários, banimento do ensino religioso nas escolas e nacionalização dos bens eclesiásticos. Em Angola vários religiosos  que trabalhavam em Luanada e Moçamedes foram expulsos.

Com o Estado Novo, a partir de 1926 houve o renascimento  católico. Em Angola foram fundadas 29 novas missões até 1940. Em 1940 o governo assinou com a Santa Sé 3 acordos: A Concordata, Acordo Missionário e o Estatuto Missionário. Salazar referiu:"Não se pode por, entre nós, o problema de qualquer incompatibilidade entre a política da Nação e a liberdade de evangelização, pelo contrário, uma faz parte da outra. O governo condiciona a evangelização à formação patriótica do clero". É dentro deste espírito de cooperação estatal com a igreja que  de 1930 a 1960, mais de 20 Congregações missionárias enviaram pessoal para Angola: Beneditinos, Beneditinas, Doroteias, Irmãs do SS. Salvador, Irmãs de la Salette, Capuchinhos, Franciscanas Missionárias de Maria, Reparadoras, Teresianas, Redentoristas, Ordem Trapista, Irmãozinhos de Jesus, Irmãos Maristas, Irmãs do Amor de Deus, Dominicanas de Se. Catarina, Espiritanas, Missionárias Médicas de Maria, Dominicanas do Rosário, Irmãs da Misericórdia. E  1940 a 1968 o número de Padres angolanos passou de 8 a 71. Foi inaugurada no dia 8 de Dezembro de 1954, nas comemorações marianas, a primeira  Emissora Católica: Rádio Eclésia. Em Luanda de 1960-1975, as paróquias passaram de 5 a 14. Foram criados  novos seminários, e igrejas nas cidades e sedes das Missões.  A evangelização expandiu-se pelo território e em muitos lugares era uma autêntica pré-evangelização, sobretudo nas zonas onde viviam os indígenas, nativos vivendo segundo os usos tradicionais. Portugal Confiou a instrução dos indígenas às Missões Católicas. A partir de 1961 houve grande impulso na missionação e no ensino, mas estava longe de corresponder às necessidades da população indígena. O ensino indígena de duração de três anos começou por se chamar Ensino Rudimentar, mais tarde chamado de Ensino de Adaptação, findo o qual a criança era submetida ao exame oficial. O indígena, que queria aprender mais, tinha de ir para o seminário ou jogar futebol. As Missões eram um meio de difusão do catolicismo e de promoção das populações. A escola, a oficina e o trabalho rural, eram actividades que não faltavam na grande maioria das Missões. A Missão era frequentemente o único centro de ensino intelectual e profissional para a grande maioria das populações rurais.

Em 1961, foi fundado o Instituto de Educação e Serviço Social Pio XII, em Luanda, com orientação católica, tendo formado durante anos, assistentes sociais, educadoras de família e da infância.

Os Serviços de Saúde solicitavam Irmãs para os hospitais, centros de saúde e dispensários. Proliferaram igualmente os Movimentos católicos: Apostolado da Oração, Legião de Maria, Cursos de Cristandande, Conferências Vicentinas, Escuteiros.

Na década de 60, devido a construção civil, as  populações rurais deslocaram-se nos perímetros das cidades, onde motivou especial atenção por parte da Igreja, através do trabalho de evangelização desempenhado pelos catequistas, cuja formação cultural, pedagógica e religiosa, era feita em cursos de dois anos, seguindo as orientações do Vaticano II.

A partir do Acordo Missionário de 1940-1975 foram criadas as Arquidioceses de Luanda e as Dioceses de Nova Lisboa (Huambo), Silva Porto (Kwito-Bié), Sá de Bandeira (Lubango)- sendo seu 1º bispo D. Altino Ribeiro Santana do clero docesano goês -,Luso, Carmona e S. Salvador, Malanje, Henrique de Carvalho( Saurimo), Sumbe (NOvo Redondo),Serpa Pinto( Menongue) e Pereira de Eça ( Onjivae). O serviço religioso era prestado por padres europeus, euroafricanos e assimilados.

À medida que a guerrilha era confinada aos distritos de Cabinda, Zaire, Uije e Moxico foram construidas estradas asfaltadas, as quais facilitaram o contato e  a evangelização indígena. Com a descolonização de novo a igreja entrou em decadência e os padres diocesanos portugueses partiram quase todos para Portugal. Os Organismos Católicos despareceram e os serviços religiosso ficaram desorganizados, os seminarios vazios e o clero reduzido, na altura da independência.

Mas em 1977 o trabalho missionário retomou o seu antigo ritmo., novos missionários chegaram sobretudo da América Latina, A Igreja desenvolveu-se e aumentou o número de crianças da catequese. O número de seminaristas maiores duplicou. Nasceram as Congregações Religiosas Femininas de origem angolana. Os noviciados femininos passaram de 5 para 25. Apesar da guerra, a Igreja cresceu e desenvolveu-se.

NOTAS:
[1] Cfr. e., a. muaca, Breve História da Evangelização de Angola 1491-1991;Biblioteca Evangelização e Culturas, Cucujães, 1991; id., História sobre a Evangelização de Angola 1491-1991, Luanda, Oficinas Gráficas São José-CEAST- 1990; m. n. Gabriel, Angola Cinco séculos de Cristianismo, Braga, LITERAL, 1978.
[2]Cfr. e., a. muaca, Breve História da Evangelização de Angola 1491-1991;Biblioteca Evangelizaçõo e Culturas, Cucujães, 1991; id., História sobre a Evangelização de Angola 1491-1991, Luanda, Oficinas Gráficas São José-CEAST- 1990.
Conferência Episcopal de Angola e São Tomé: CEAST


COLONIZAÇÃO:  O primeiro governador Paulo Dias de Novais recebeu em regime de donataria as terras entre o sul do Rio Dande e o sul do Rio Quanza e em 1575 levou 700 pessoas para colonizar as terras da sua capitania e  estabelecer em 6 anos cem famílias europeias, concedendo-lhes a terra em sesmarias não hereditárias e organizar um exército de 400 homens e construir 3 castelos. Os soldados, marinheiros, mercadores e ciganos para lá enviados nesse período misturaram-se com a população por miscegenação.

 Entre 1849 e 1884 voluntários vindos do Brasil e de Madeira fixaram-se em Moçámedes. Neste período  a emigração portuguesa orientava-se para o Brasil, com a convicção de que a África era hostil ao europeu.

As autoridades desde a monarquia constitucional e depois na República abordaram os problemas de atraso das populações africanas, do trabalho obrigatório e da discriminação racial no acesso aos cargos.

Na década de 1920 foi aberto o primeiro liceu, Liceu Salvador de Correia, em Luanda, donde saíram na década de 1930 os primeiros ideólogos angolanos, Américo Machado,  Viriato Cruz e  António Agostinho Neto. Na área do combate as doenças tropicais, sendo governador, Norton de Matos, deu-se o Primeiro Congresso da Medicina Tropical.

Em 1930 a colonização europeia em Angola atingiu cerca de 58 000 pessoas. Na década de 1950 criaram dois colonatos europeus: Cela, no centro de Angola, e, Matala no sul de Angola. A par da colonização europeia na década de 1950 procurou-se a elevação dos indígenas de Angola, bem como dos territórios de Timor, São Tomé e Príncipe, Guiné, e Moçambique, em regime de cidadãos assimilados, desde que tivessem regras sociais ocidentais da população europeia, mestiça, ou mesmo negra, quando considerados civilizados, e desde que soubessem, ler e escrever português.

Também nesta ltura o acto colonial sofreu alterações e é anexado a Constituição de 1950 e os territóruos ultramarinos são designados de Províncias Ultramarinas. E neste sentido em 1961 o Ministro do Ultramar, Adriano Moreira, introduziu reformas para combater a discriminação derivada das subculturas, no entanto, como as reformas liberais no passado, na prática a sua aplicação  teve obstáculos porque a consciência colectiva, sobretudo das instituições civis, ainda não estava preparada, salvo excepções. A população estava estraficada: os europeus com mais privilégios do que os mestiços e africanos.

Na  década de 1960 criaram outros colonatos: colonatos negros; colonatos dos soldados; e colonatos de cabo-verdianos.  Para administração desses projectos de povoamento rural criaram as Junatas Provinciais de Povoamento. Com esta política na década de 1960 houve um grande afluxo da população europeia nas áreas citadinas.

A Lei Orgânica do Ultramar de 1972  conferiu a Angola e a Moçambique o Estatuto Territorial de Estados Ultramarinos.

A partir da Revolução de 25 de Abril de 1974 e durante a guerra pós independência em 1975 muitos cidadãos portugueses, sobretudo europeus, cerca de 800 000 abandonaram Angola.

Em Angola os maiores grupos etnográficos eram dos Umbundos no planalto de Benguela. Anbundus, no norte de Benguela, Congus ou Quicongos até ao interior do Congo Belga e no sul e ao oriente  os lundo-Quioca; Ganguelles, hereros, naneca-usubus, anebos e os xindongos no sw africano (Namíbia).

INFRAESTRUTURAS BÁSICAS: A primeira povoação fundada foi Luanda em 1576 por Paulo Dias Novais, seguida da povoação litoral de Benguela, em 1617.

Entretanto Luanda por volta de 1665  já tinha edifícios sumptuosos e um activo porto marítimo e as instituições administrativas básicas, de ouvidor-geral, provedor, secretário, juiz-de-fora. Marques De Pombal ali criou o  celeiro público, alfândega e hospital e algumas povoações no interior, Ambaca, Macala, Malanje, povoações que mais tarde, após a Conferência de Berlim de 1884-85, ja tinham uma linha férrea ligando-ás as povoações litorais de Luanda, Lobito, Benguela e Moçamedes. O capital estrangeiro foi o dinamizador dessas obra públicas, como, construção de pontes, caminho-de-ferro, estradas e telégrafos, estudos hidrológicos no Baixo Zaire, em Cabinda e na Foz do Rio Cunene.

 De 1950-1974 foi o período de novos e elevados investimentos, dando-se início a instalação da primeira indústria têxtil, com fomento agrícola, florestal e pecuário, caminhos-de-ferro, portos e transportes marítimos e fluviais, estradas, pontes e aeroportos, urbanização, águas e saneamento, centrais hidroeléctricas e produção de energia eléctrica. Novas escolas oficiais foram abertas, por todo o território.

ECONOMIA: Logo de início, desde 1458,  este reino de Congo e a parte litoral ficaram subordinados ao Arquipelago de S. Tomé e Príncipe, como fonte de escravos para mão-de-obra e mais tarde ao Brasil para exploração de cana-de-açúcar e das minas de ouro no século XVIII. Portugal abastecia os colonos e os reinos indígenas de Angola com têxteis, loiça, tabaco, facas, aguardente, sal, etc em troca de escravos e marfim. Para troca interna, sendo a moeda escassa usavam rectângulos de palha, sal, conchas, etc., mesmo para pagamento do pré-militar.

A decisão de Pombal em 1756 de decretar liberdade de comércio, reservado até aí apenas aos africanos, estimulou o povoamento e na agricultura  foram introduzidas as plantações de urzela e de pastel. Foram criadas uma fundição de ferro e indústria de couros. Apenas o trato dos escravos ficou como monopólio régio e escravos foram levados para as companhias de Pernambuco e Paraíba. Com as consequências da revolução industrial e dos ideias dos direitos do homem da revolução francesa a mão-de-obra escrava é combatida e em princípios do século XIX os barcos negreiros eram perseguidos pela marinha inglesa e portuguesa através da Estação Naval de Angola. Neste  período, além de combate a escravidão, o governo empenhou no ensino e no fomento da agricultura e foi fundada a imprensa oficial em Angola.

Em 1834 venderam terras  para plantação de café na região de Cazengo, interior de Luanda, de cana-de-açúcar, nos oásis costeiros para fabrico de rum, e de algodão nas regiões do sul, com boa produção na primeira metade do década de 60, época de fome de algodão, com a guerra civil americana.
A burguesia colonial era formada de agentes directos dos poderosos mercadores residentes no Brasil e  de negociantes emigrados de Portugal e pelas grandes famílias crioulas implantadas em Angola, mantendo ligações estreitas com Portugal. Com o incemento de comércio externo foram introduzidos os direitos alfandegários  em áreas a que Portugal se achava com direitos, como o estuário do Congo, sobre exportações, e Luanda e Benguela abriram-se a navegação estrangeira, e foi concedida uma maior autonomia administrativa e municipal aos domínios ultramarinos. Foi banido o tráfico ilegal, que apesar do patrulhamento britâncio, reimplantou-se nos pontos de litoral como Ambriz e Moçamedes. Com a abolição da escravatura, acompanhada do conceito de cidadania da Carta Constitucional, e na convicção de que a mão-de-obra livre era mais eficiente que o trabalho escravo, na década de 1850 introduziram carros de bois no transporte de mercadorias e  carregadores no sector público e em 1854 o Conselho Ultramarino criou  um sistema de tutela aos libertos, mas na prática estas  medidas encontraram oposição e eram os próprios governadores os primeiros a contrariar.

Foi fundado o Banco Nacional Ultramarino em Luanda em 1864, com papel importante até a década de 70, na concessão dos empréstimos aos plantadores e mantendo estreita ligação com a rede mercantil de Lisboa, ao mesmo tempo atraindo capital, sobretudo inglês para fomento de navegação, caminhos-de-ferro e na exploração e exportação das minas de cobre de Bembe e na fundação da  Companhia de Navegação do Cuanza. Depois da Conferê ncia de Berlim de 1884-1885 e graças às obras públicas realizadas, as grandes companhias estrangeiras desenvolveram a exploração de matérias-primas e produtos agrícolas, algodão, borracha, açúcar, café, chá, oleaginosas, sisal, cacau e a prospecção e exploração dos recursos minerais, e diamantes. Associadas as Companhias Estrangeiras surgiram  companhias coloniais portuguesas dedicadas a exportação dos produtos e a sua comercialização. Estas companhias também trasportavam para o império os produtos industriais metropolitanos vinhos e tecidos de algodão, produtos alimentares, conservas de carne, azeite, massas alimentícias, calçado, tintas, etc, como um prolongamento do mercado interno, e transportavam para Metrópole produtos africanos para exportação, via Lisboa, açúcar, caju, copra (de Moçambique), café, cera, borracha, açúcar (de Angola) e cacau (de São Tomé). Aos produtos vindos do ultramar em 1882 foi aplicada a pauta proteccionista.

Este desenvolvimento criou deficite nos orçamentos de Angola e de Moçambique, ficando o Estado endividado ao BNU e aos credores externos, causando inflação e desvalorização monetária, paralisando a actividade económica em Angola e em Moçambique, entre 1925-26. E os seus produtos eram inferiores em qualidade e caros, relativamente aos  produtos estrangeiros e, consequentemente, as suas exportações cairam. Esta situação  é agravado com as ideias expansionistas da África do Sul e pela crítica da Sociedade das Nações Unidas sobre o trabalho indígena. Para solucionar este problema  Salazar lançou a sua poltíca de rigor orçamental e de crédito público e as colónias tornam-se uma extensão importante do mercado interno para agricultura e industria transformadora  dos produtos agrícolas, pecuários, matérias-primas e minérios coloniais.

As pretensões revisionistas italo-alemãs  do Tratado de Versalhes de 1919 levaram  Mussolini em 1933 propor à Inglaterra a partilha das colónias portuguesas entre Alemanha e a Itália e entre 1935 e 1937 surgem boatos de entendimento germano-britânico relativamente a partilha de Angola e de Moçambique. Foi este motivo que levou Salazar a decretar o Acto Colonial, em que afirmou que o Estado não alienava nenhuma parcela do território colonial e restrigiu às concessões aos estrangeiros e às entidades particulares. Extinguiu altos-comissários e os substituiu por governadores-gerais, subordinados ao Ministro das Colónias ou ao Governo de Lisboa. Esta medida pôs fim  a autonomia financeira das colónias e o seu orçamento ficou a carecer da aprovação do Ministro das Colónias. Foram medidas de centralização e de equilíbrio das contas e defendeu "uma comunidade e solidariedade natural" entre a metrópole e as colónias. Este acto colonial mudou o rumo da colonização portuguesa na política, ideologia e instituições. Como resultado os mercados metropolitano e colonial sofrem grandes desenvolvimentos quantitativo e qualitativo durante a guerra e no pós-guerra.

Com a  revisão constitucional de 1951, o acto colonial é lhe anexado com alterações e são acrescentados os conceitos de ultramar português e províncias ultramarinas. Ao mesmo tempo para  fomento ultramarino flexibilizou a politica de equilíbrio orçamental e tomou medidas para barateamento dos fretes dos transportes marítimos e modernização da frota mercante e intensificação da migração portuguesa para o ultramar. Também surgem reformas no regime de trabalho indígena tentando por côbro ao recrutamento compulsivo. O Estado e os empresários portugueses iniciaram exportações de capital para os territórios ultramarinos. É assim criado o Espaço Económico Comum português, que criou certa tensão com os adeptos da abertura preferencial à Europa. O EEC tinha a intenção de criar economias fortes em Angola e em Moçambique de modo a poder concorrer com o espaço metropolitano e nos mercados externos, baseando-se na igualdade económica das partes no Portugal pluricontinental e plurirracial. Por iniciativa estatal foram lançados ambiciosos planos de infra-estruturas ferroviárias, portuárias e aeroportos, estradas e pontes, pistas de aviação, desenvolvendo transportes marítimos,  fluviais e ligações aéreas "imperiais", bem como a urbanização, águas e saneamento, barragens, energia eléctrica e fomento das prospecções mineiras em Angola e em Moçambique. Estas obras foram concluidas com a ajuda do Plano Marshall, 1949-1951 e depois através dos Planos de Fomentos, I, II e III até 1974. A CUF fez a exploração das minas de cobre  e de outras matérias-primas e produtos agrícolas, com parcerias dos grupos Espírito Santo ou BNU, associados a interesses de prósperos colonos locais; procedeu-se ao fomento de missões científicas, geológicas, geográficas ou antropológicas; procedeu-se igualmente a abertura  de indústrias complementares e de apoio aos planos anteriores, Champalimaud instalou cimenteiras em Angola e em Moçambique e arrancaram as indústrias, têxteis, alimentares, carnes e bebidas, entre outras, dando grande incremento à produção industrial, fomento agrícola, florestal e pecuário, comércio externo, provocando o crescimento do PIB. Em 1972 surgiu o projecto de Sines a pensar no petróleo angolano.

Este desenvolvimento em Angola foi chamado  de “milagre económico” com um crescimento de 7% entre 1963 e 1973 contra 4% em média dos anos anteriores, e traduziu-se no significativo crescimento dos sectores transformador e extrativo, respetivamente nos produtos agrícolas  de sisal, açúcar e café, e  de diamantes, petróleo e minérios de ferro. virados ao mercado externo e ao consumo interno nas cidades europeizadas e dos contingentes militares e  das populações nativas. Igualmente cresce o sector de vestuário e de calçado. As empresas mais importantes eram:  CADA – Companhia Angola de Agricultura, SARL e a Sociedade Agrícola de Cassequel, Companhia dos Diamantes de Angola, a Companhia Mineira de Lobito, e a Cabinda Gulf Oil Company, dedicavam-se ao mercado externo. Na  produção ao mercado interno: Petrangol e a Cimento Secil, Fabrica de Bicicletas e Motorizadas, Ldª- FABIMOR, a Fáb. Tintas Dyrup de Angola, Lda, a Secil Marítima, SARL, a Angolan African Oxygen (fábrica de eléctrodos para soldaduras a gás) a Angotrónicas – Industria electrónicas do ultramar, a Sadat – sociedade Angola de acumulador Tudor e a Sterling Farmacêutica Portuguesa (Angola), CUCA – companhia união de cervejas de Angola, Companhia de Congo Agrícola, da Quintas & Irmãos, da Confiang, etc.
A guerrilha não teve impacto, apesar de deslocações forçadas das populações devido a guerra e da destruição dos sectores de economias tradicionais africanas, com perda de colheitas, envenenamento dos solos, etc. no processo de desenvolvimento angolano.

PROBLEMAS SOCIAIS, GUERRILHA E INDEPENDÊNCIA: A partir de finais do século XIX à medida que se dá a expansão económica e abuso do poder e uso de força  sobre a mão-de-obra nativa  nas roças de café e de algodão há revoltas dos trabalhadores, por incumprimentos do horário do trabalho, atraso nos vencimentos, alimentação fraca e falta de condições de enfermagem, e que são brutalmente reprimidas:  revolta nos Dembos, no norte de Angola, em 1871-72;
Insatisfeitos com a situação social 20% dos bacongos angolanos emigraram para o Congo, volta de 150 000. Na década de 1940  surgiu o movimento, tocoismo, de Simão Toco, político-religioso,  xenófobo e  inimigo do Estado, dos seus funcionários, dos médicos, dos missionários católicos e protestantes e de todos aqueles que trabalhavam com ele e queriam dominar os brancos e torna-los seus criados e Simão seria o chefe eleito pelo Salvador para salvar os pretos e para libertá-los da escravidão branca. Mas os seus dirigentes foram presos em 1949 e foram encarregados de recuperação da grande parte da populaçãpo do norte e foi concedido aos autóctones não assimilados a construção de novas escolas, alargamento dos programas escolares, reconstrução das aldeias destruídas pelos portugueses e os refugiados no Congo ex-Belga regressaram às suas terras e Toco viveu em liberdade vigiada em Luanda e depois foi deportado para os Açores com a sua mulher demente e dos seus 3 filhos e ali colocado como ajudante do faroleiro a 25 km de Ponta Delgada e com o 25 de Abril de 1974 regressou a Luanda em 31/8/1974.
 Agitação entre trabalhadores contratados do Norte de Angola em 1956; revolta e greve dos trabalhadores das plantações algodoeiras da Baixa do Cassenje, no norte de Angola em 1956. E é neste contexto que surgem, influenciadas pelas ideias socialistas e comunistas, as primeiras organizações independentistas:  1954  Holden Roberto funda em Leopoldville a UPA, união dos povos de Angola - e depois a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) com o apoio norte-americano;  1955 é criado o Partido Comunista de Angola, por inspiração do Partido Comunista Português, com implantação em quadros brancos das cidades, que mais tarde foi designado de Movimento Popular para Libertação de Angola, MPLA. Em 1959 os cabindas, bacongos, criaram a Frente de Libertação do Envlave de Cabinda, FLEC. Entre 15 e 16/3/1961 UPA faz massacres das populações europeias e dos africanos na Baixa do Cassenje, como protesto contra o cultivo obrigatório de algodão e contra o atraso nos pagamentos de salários a trabalhadores nativos e destroem as sementes, pontes, armazéns, missões católicas, e que são duramente reprimidas pelo Exército e Força Aérea.

As entidades oficiais fazem as primeiras ofensivas contra os militantes independentistas  e em 1960 são presos Agostinho Neto, líder do MPLA, e o padre Joaquim Pinto de Andrade; 4/2/1961 dá-se o ataque frustado dos nacionalistas para libertar  em Luanda os independentistas à instalações prisionais, causando diversos mortos e feridos. No funeral das vítimas dá origem a violenta perseguição e matança nos muceques da capital angolana.
Destes  incidentes feito o relatório concluiu-se que a solução dos problemas era politico, económico e social, em ordem a findar os abusos e ilegalidades.
A FNLA implantada no norte de Angola recebia o apoio americano. O MPLA recebia o apoio da OUA, soviético e apoio militar cubano. Savimbi saído de FNLA com treino militar na China surgiu 1966 com a UNITA, união nacional para independencia total de Angola, e ataca o acminho-de-ferro de Benguela, vital para as exportações de Zâmbia, pelo que é expulso da Zâmbia e instala-se na fronteira. O MPLA abriu a nova frente no leste chefiada por Daniel Chipenda. A UNITA negoceou cessar-fogo com as forças portuguesas e tronou-se principal inimigo do MPLA.

Para combater a guerrilha, em 1967 foram fundados os grupos especiais de contra guerrilha: FLECHAS, com bases em Serpa Pinto, Gago Coutinho, Carmona, Luso e Luanda, à volta de Caxito e  a guerrilha, foi confinanda aos distritos de Cabinda, Zaire, Uije e Moxico.

A aplicação das reformas levadas a cabo pelos republicanos e pelo Estado Novo, na prática não conseguiram os resultados esperados, a não ser com a  intervenção militar depois da eclosão da luta armada em 1961. A guerra de defesa do ultramar em Angola iniciada em 1961, durou 13 anos, com 3 455 mortos, até a democratização do Estado Português, pela Revolução de 25 de Abril de 1974. Os principais grupos armados, FNLA, MPLA e UNITA, foram transformados em partidos armados. E o  MFA, movimento das forças armadas portuguesas, iniciou conversações para transferência do poder em Alvor, em 1975, formando um governo provisório, incorporando os elementos dos mesmos. Este governo provisório, formado por partidos armados, com ideologias e interesses diferentes e antagónicos, entrou em conflito, dando origem a luta entre os partidos, que nos primeiros  3 meses, após provocar muitos mortos, culminou em 11/11/1975 pela proclamação unilateral pelo MPLA, em Luanda, da independência como Republica Popular de Angola, enquanto no mesmo dia em Ambriz, FNLA e UNITA proclamaram outro estado independente. O MPLA era apoiado pela União Soviética e pela Cuba militarmente e com participação de 3 000 militares cubanos, FNLA e UNITA eram apoiados pelos EUA, China, incluindo Coreia do Norte, Zaire e África do Sul, mas o Governo de MPLA teve reconhecimento do Governo Português, pelo que FNLA e UNITA passaram a guerrilha, e a  guerra alargou-se a todo o território, de nore a sul, e destruiu as infraestruturas e edifícios, e, causou milhares de mortos, mutilados, traumatizados, e deslocações das populações. Após o desmoronamento da União Soviética em 1989 foi feito acordo de paz entre UNITA e o MPLA em 31/5/1991, em Bicesse, Estoril, por intermédio de Portugal, EUA, Rússia e ONU, mas o conflito armado continuou e só terminou com a morte de Jonas Savimbi, líder da UNITA, em 2002, após mais de 25 anos de luta armada em todo o território angolano.

Em síntese pode-se afirmar que a guerrilha até à altura da democratização de Portugal, seja da Revolução dos Cravos - 25.04.1974, não conseguiu travar o desenvolvimento sócio-económico de Angola, que então já possuia quase todas as estruturas básicas administrativas para o seu pleno desenvolvimento, embora tenha causado durante os 13 anos de luta 3 455 mortos nas tropas da defesa de Angola. Mas, o período posterior à revolução de 25.04.1974, sobretudo depois de independência, até ao ano 2002, durante quase 27 anos, Angola com a guerra urbana generalizada, abrangendo todo o território, entre os partidos, MPLA, FNLA e UNITA, e aliciamento dos jovens e adultos para os exércitos partidários, minagem dos terrenos, etc.,  sofreu o seu maior desastre económico e social, causando a destruição e paralização administrativa, destruição das infraestruturas e edifícios públicos, paralização da agricultura, industrias, milhares de mortos, mutilados e traumatizados da guerra, deslocações das populações, etc. Infelizmente, pode-se daqui deduzir que a política das independências defendida pela ONU foi um verdadeiro falhanço porque não tomou em consideração que os sistemas políticos devem ser mantidos, aperfeiçoados e corrigidos, em vez de serem combatidos e substituidos pelos outros sistemas políticos, a não ser que os mesmos estejam em caos administrativo, social e económico.


ORIGEM

sábado, 2 de abril de 2011

A Educação Colonial de 1930 a 1974

"... O Diploma Legislativo n° 238, de 17 de Maio de 1930, justificava a separa­ção dos objectivos de cada tipo de ensino. O ensino indígena tinha por fim «ele­var gradualmente da vida selvagem à vida civilizada dos povos cultos a popula­ção autóctone das províncias ultramarinas» enquanto o ensino pri­mário elementar para os «não-indígenas» visava a «dar à criança os instrumen­tos fundamentais de todo o saber e as bases de uma cultura geral, preparando-a para a vida social»:

«O ensino indígena tem por fim conduzir gradualmente o indígena da vida selvagem para a vida civilizada, formar-lhe a consciência de cidadão português e prepará-lo para a luta da vida, tornando-se mais útil à sociedade e a si próprio».


«O ensino primário rudimentar destina-se a civilizar e nacio­nalizar os indígenas das colónias, difundindo entre eles a língua e os costu­mes portugueses»

Instado pelos organismos da ONU que haviam denunciado a discriminação no sector do ensino, Dias Belchior negou, em 1965, a existência de qualquer preconceito racial no Ultramar, para, em seguida, afirmar:

«As crianças africanas que vivem integradas em sociedades do tipo pri­mitivo ou pré-industrial ao chegarem à idade escolar não se encontram nas mesmas condições das crianças europeias ou assimiladas da mesma idade e por isso não podem frequentar, o ensino primário elementar. Essas desconhecem não só a língua portuguesa, mas também vários outros elementos da cultura das sociedades evoluídas».


«... Discriminação haveria se o Africano fosse confinado ao ensino de adaptação e estivesse impedido de ascender aos outros graus de instrução. Toda a gente sabe, porém, que isso não acontece nem em proporções ínfimas. O que leva a que muitos africanos se limitem a receber somente o ensi­no de adaptação não é o preconceito racial, mas sim a falta de uma rede de escolas primárias elementares suficientemente densa» (BELCHIOR, 1965: 649. Grifos do Autor).

(...)

Em 1931, «num estudo apresentado à Exposição Colonial Internacional de Paris», o Director da Instrução Pública, Dr. Mário Malheiros, justificava o carác­ter discriminatório da educação colonial:

Tendo em conta que os povos primitivos não podem ser civiliza­dos senão pouco a pouco, que a população das colónias se compõe de ele­mentos, uns civilizados, outros primitivos, foram instituídos (nas colónias portuguesas) dois géneros de ensino primário: um para europeus e assimila­dos, outro para primitivos»

A reforma de 1935, aprovada pelo então Governador-geral, José Cabral, e tornada pública pela Portaria n° 2.456, de 27 de Março, fez algumas alterações ao regulamento do Ensino Primário Rudimentar. Apesar de ela decorrer da Reforma Administrativa Ultramarina, nada mudou em substância, como pode­mos ver no seu artigo 1°:


«Art.l O ensino primário rudimentar destina-se a colocar a criança indígena em condições de aprender a nossa civilização por meio do conheci­mento da língua portuguesa, educação rudimentar das suas faculdades e adopção dos costumes civilizados».

Por sua vez, a Portaria n° 2.457, da mesma data, definia, no seu artigo 1°, os objectivos das escolas distritais de artes e ofícios para indígenas do sexo mascu­lino:

«Artigo 1°:As escotas de artes e ofícios, estabelecimentos de assistência gratuita às populações indígenas, têm fim educar os indígenas preparan­do-os para operários dos diferentes ofícios ou indústrias da Colónia»
(...)

texto integral


 TEXTO INTEGRAL

FUA - FRENTE DE UNIDADE ANGOLANA: OPORTUNIDADE PERDIDA POR PORTUGAL PARTE V





21.- PAPEL RELEVANTE NA IMPLANTAÇÃO DE RELAÇÕES DE IGUALDADE... E "KOVASO"!


É interessante assinalar que esse "novo" (com velhas raízes) movimento, multirracial, de dominância branca, autoclassificava-se como possuidor da característica de poder desempenhar um "papel muito importante na abolição das relações atuais" entre "colonizados e colonizadores" porque se considerava como o único em condições de implantar "novas relações de igualdade indispensáveis à constituição de um país livre." Estamos convictos de que se lhes tivessem dado suporte logo no início, isso poderia ter sido extremamente vantajoso para uma descolonização pacífica e organizada de Angola e de Cabinda.

Propunha-se também, levar a efeito "uma profunda modificação de estruturas" reconhecendo, porém, que esse novo tipo de relações demandaria bastante tempo antes que fosse possível realizá-lo, visto que "o individuo da classe branca está freqüentemente imbuído de conceitos e afectações que a sua comunidade engendrou durante séculos para manter a dominação e os privilégios da sua casta".

Para isso, a FUA entendia que só uma profícua e vasta campanha de informação poderia conduzir todos os angolanos a compreenderem que "o novo homem africano não será e não poderá ser nunca o homem de cor alienado do presente nem o homem branco opressor de hoje"(sic). E esclarecia: "O novo homem africano não será aquele que procurará inverter os dados da situação actual, mas o que os ultrapassará." E a seguir, sublinhava: "É no tipo das relações económicas que estão instaladas nas províncias que reside, fundamentalmente, a causa dos antagonismos actuais."

A solução da FUA para eliminação dos referidos antagonismos consistia em procurar, desde logo e paralelamente à luta que se propunha desenvolver para alcançar a independência, "esclarecer todos os angolanos, quaisquer que sejam as etnias a que pertençam, sobre as realidades do país e o principal objectivo da emancipação de Angola, que não pode conceber-se senão neste quadro de emancipação de toda a África e do Homem."(sic)

Dedicou-se a FUA a uma campanha de informação interna e externa, em termos de ação psicológica táctica (interna) e estratégica (externa) que encontrou acolhimento imediato por parte da Radio Nacional de Brazzaville onde Ernesto Lara apareceu como apresentador e locutor de um programa em língua portuguesa, ao mesmo tempo que publicava suas crónicas políticas, divulgando a FUA, no jornal "Le Progrés".

O importante semanário, editado em Paris pelo ex-ministro da Informação do governo tunisiano de Habib Bourguiba, Béchir Ben-Ahmed, "JEUNE AFRIQUE" publicou em 11 de Novembro de 1962, uma extensa entrevista com um dirigente da FUA .

Em sua 45ª edição, no primeiro trimestre de 1963, "Présence Africaine", como já referimos, inserira uma importante reportagem de 8 páginas e meia sob o título genérico "Connaissance du Front d l´Unité pour Angola (FUA)".

Dessa forma, a FUA estava concretizando já seu objetivo principal e imediato que consistia em efetivar uma campanha internacional nos mídia sobre as intenções dos movimentos nacionalistas angolanos e conscientizar e conquistar o espírito da população européia da colónia, utilizando para isso a mídia e propaganda cinzenta. Para isso, lançou o já citado panfleto "Carta aos Brancos de Angola", e também conforme um Relatório Imediato dos SCCIA, datado de 25 de janeiro de 1963, expediu de Washington, EUA, para o importante Radio Clube do Lobito, um comunicado intitulado "O que é a FUA"... Tratava-se de um manual muito elucidativo a respeito do movimento.

Em Fevereiro de 1963 apareceu em Angola o primeiro número do seu jornal "KOVASO" ( O ÁVANTE). Tanto a denominação como o layout e o conteúdo desse órgão da FUA inspiravam-se no seu similar, do Partido Comunista Português, "O ÁVANTE", que circulava clandestinamente nos quartéis das forças armadas, nas bases aéreas e navais,, nos bairros periféricos urbanos, nos portos, na fábricas, nas faculdades, escolas médias, organizações juvenis e sindicatos de classe, nas casas de espetáculos e nos meios rurais portugueses. Aquele jornal clandestino angolano tinha 10 páginas e pretendia seguir o exemplo tático do seu homólogo "O AVANTE". Foi intencionalmente editado o seu primeiro número em "4 de Fevereiro", aniversário do ataque surpresa feito em 1961, por militantes do MPLA, a uma prisão sita num musseque (favela, no Brasil) de Luanda, onde foram mortos agentes da polícia portuguesa que a guarneciam .Vejamos os títulos dos assuntos tratados nessa edição:

1ª página:
· Editorial:- "Para uma Angola Livre e Independente"
· Artigo: "Frente de Libertação-Problema Nº 1 da nossa luta"
· Artigo: "Não ao Rácismo" (transcrição de uma declaração da CONCP)
2ª e 3ª páginas:
· Artigo: "A População Branca no contexto nacional"
4ª página:
· Artigo: "Denunciámos à ONU o Colonialismo Português"
5ª página:
· Artigo: "Nova Farsa dos Colonialistas - a Reunião do "Conselho Ultramarino""
6ª página;
· Continuação do editorial da 1ª página no qual se explicita O PROGRAMA DA FUA"
7ª página:
· Continuação do artigo da página 1 sobre a "Frente de Lib...."
· Poema de incitamento à rebelião :à "Juventude Angolana
· Continuação do artigo de págs 2 e 3 - "A População Branca..."
8ª página:
· Continuação do artigo "Nova Farsa dos Colonialistas..."
· Secção "Revº Joaquim Pinto de Andrade", descrevendo o Martírio daquele sacerdote e presidente do MPLA, detido na PIDE .
9ª página:
· Artigo: "Desertores do Exército Português" referente a dois Oficiais milicianos naturais de Moçambique, brancos,
· Noticiário: "A Argélia ajuda a nossa luta"; "MPLA- Reforça-se Movimento Nacionalista de Angola- Novo Comité Director." "Condenação ao Regime Fascista Português"(realização em Paris, de 15 a 16 de Dez.º De 1962, da Conferência para amnistia aos prisioneiros e exilados políticos portugueses
10ª página:
· Título da página: " A ÁFRICA NÃO PÁRA".
. Assuntos:
· "Argélia - marco da libertação da África"; "Mandela- con-denado pelo governo racista sul-africano";
· "Novas vitórias" (efemérides sobre progressos políticos em1962 no Uganda, Tanganica, Rodésia do Norte e Niassalândia) com uma saudação aos "povos irmãos"
· Continuação do artigo "Desertores do Exército Português.

23.- POSICIONAMENTO DA FUA FACE ÀS OPOSIÇÕES EM PORTUGAL


A FUA definiu a sua posição classificando de "justas e realistas" as manifestações dos oposicionistas portugueses no sentido de reconhecerem o direito de autodeterminação a Angola. Assim, aquele movimento angolano proclamava o seu propósito de colaborar estreitamente com a Oposição Democrática Portuguesa ( MDP-CDE, PSP e também com o PCP), declarando-se "consciente de que esta colaboração é um factor importante na luta pela independência nacional".
Manifestou ainda a sua firme determinação de neutralizar a propaganda oficial portuguesa, dando a conhecer as realidades e criando no seio do próprio povo Português um clima de confiança.
Estes propósitos davam claramente a perceber que sua ação panfletária iria exercer-se também em Portugal, provavelmente contando para isso com a colaboração do pró-soviético e estalinista Partido Comunista Português - experiente nesse tipo de atividades revolucionárias.
Acreditamos que terá tido contactos com o Doutor Mário Soares, fundador e Secretário-Geral do Partido Socialista Português, que cedo se revelou o mais culto, lúcido, moderado e bem-preparado político Português da época pós-caetanista, que não deu respaldo à demagogia revolucionária dos ineptos e impreparados "capitães dos cravos vermelhos", nem, anteriormente, às aventurescas proezas de Henrique Galvão (aliás um homem de grande valor mas já idoso e que se deixou possuir pela sua ânsia obstinada de revanchismo, tal como o impetuoso general Humberto Delgado que, por isso mesmo, isolado e desesperado, querendo retornar a Portugal pacificamente, caiu numa torpe cilada, a propósito da qual é nossa intenção apresentarmos outro trabalho).

24- A FUA E A PROPOSTA DE LEI DE ALTERAÇÕES À LEI ORGÂNICA DO ULTRAMAR PORTUGUÊS- OS ERROS E DISLATES...


Publicou a FUA um comunicado sobre a proposta de alteração à Lei Orgânica do Ultramar, integrada na Constituição Política e Administrativa da República Portuguesa, de 1933, que estava sendo objeto de discussão no Conselho Ultramarino, em Lisboa, visando à derrogação do Estatuto do Indigenato e a outras reformas promulgadas quando o Prof. Dr. Adriano Alves Moreira, que fora Diretor do ISCSP/UTL (ao tempo ISEU/UTL), nomeado por Salazar assumiu a pasta do Ultramar, inicialmente como Subsecretário de Estado e pouco depois como Ministro. A FUA classificou essas pretendidas alterações como "puramente burocráticas"....

Considerava que a causa imediata dessas reformas eram as pressões, externa e interna, que estavam sendo exercidas sobre o governo português. Desenvolveu aquele movimento a sua objurgatória repudiando toda e qualquer medida do governo português, em relação a Angola, que não fosse baseada no reconhecimento do direito à autodeterminação. Por outro lado, proclamava "não reconhecer, jamais, atitudes unilaterais desse governo, no que respeita ao nosso País."

Frisava nessa proclamação, feita no jornal "KOVASO":
"Apenas aceitaremos a realização de negociações com os representantes de todos os movimentos nacionalistas angolanos e não a tomada de atitudes de conluio com indivíduos que representam, apenas, os interesses duma camarilha privilegiada."

Finalmente, no mesmo órgão do movimento, a FUA apelava "a todos os angolanos, para uma maior unidade na luta contra o colonialismo português e para conquista da independência nacional."

Estávamos no GNP/MU quando essas alterações à matéria da carta magna foram editadas. Realmente não se faziam alterações de fundo; eram medidas paliativas, pouco significativas: Tudo continuaria na mesma... O Negro que transferisse sua residência deixando a sanzala da sua aldeia (dito vizinho de regedoria) para ir viver no centro urbano, pela simples movimentação espacial de um ponto para outro passava no novo domicílio a se reger pela lei comum, enquanto que no meio anterior beneficiava, pelo seu presumível atraso cultural que não lhe permitia entender o alcance e aplicabilidade da lei dos "civilizados", do chamado respeito pelos usos e costumes tradicionais, pelo direito costumeiro ou consuetudinário . Ou seja: Essa simples transferência de vizinho da regedoria para habitante urbano, para o inexperiente ou irrefletido autor da lei era o bastante para o cérebro do sujeito a quem se aplicava o estatuto do indigenato de pronto intuir o direito positivo dos cidadãos, passando a usufruir da condição de assimilado mas também a ser sujeito de obrigações que de fato desconhecia e não compreendia mesmo que lhas declarassem!.... Ao lermos, ainda impresso de fresco, o Diário do Governo com essas novas normas constitucionais, corremos para o gabinete do nosso chefe de repartição levando-lhe uma informação que, às pressas, rabiscáramos e que a nossa eficiente datilógrafa, Maria de Lurdes Guerra Ferreira, prontamente datilografara, colocando em linguagem simples e escorreita, o que era por demais obvio... Aquele jornal oficial foi sustado sem alardes, em sua distribuição; deram-nos razão informalmente e o texto sofreu a recomendável adenda, estabelecendo-se nela um prazo para essa assimilação ser exigida... Pouco tempo depois, legislou-se o fim do indigenato e extinguiu-se a figura jurídica do assimilado, concedendo-se a todos os naturais, autóctones ou nascidos no território, plena igualdade aos cidadãos Portugueses originários...

25. PORTUGUESES DE SEGUNDA...


Mas, muitos erros e dislates já haviam sido cometidos pelo colonizador, suscitando animadversão, mesmo entre os brancos naturais das colônias. Lembramo-nos que, na década de 40, primeira metade, quando Marcelo Caetano era ministro das Colônias ( e o seco, azedo e "fungão" Joaquim Moreira Silva Cunha, seu obscuro secretário, bajulador com quem ele simpatizara e decidira apadrinhar, tal como aconteceu com os também mocitários, alguns dos quais de origem social bem modesta, Baltazar Rebelo de Souza, Fernando Santos e Castro, Jorge Jardim, Luís Filipe de Oliveira e Castro, Rui Patrício e outros menos destacados, quando fora comissário nacional da Mocidade Portuguesa, e com o estranho ex-funcionário dos Caminhos de Ferro de Moçambique Luís Lupi, estranho e ínvio personagem que se metamorfoseou em proprietário e diretor da Agência Noticiosa Lusitânia custeada sobretudo por subsídios vultosos e periódicos da Agência Geral do Ultramar, vogal do Conselho Ultramarino e administrador delegado do governo junto de grandes empresas ou alto funcionário de diversas multinacionais ligadas às colônias, chefe das relações públicas da Cabinda Gulf Oil Company, vencendo Mercedes, motorista e mansão no Estoril), seguindo-se a Francisco Vieira Machado, o todo poderoso super-ministro que, ao jeito do comandante Ernesto VILHENA da majestática DIAMANG do rico judeu sul-africano Openheimer e sua Anglo-American (na Lunda, como veremos noutro trabalho, um estado soberano dentro de outro estado vassalo da vontade daquele...), do BENGUELA RAILWAYS, da PETROFINA e da COTONANG belgas, construiu impérios de rapaces espoliadores como o seu próprio, o do Lagos & Irmão (algodão...), o do Espírito Santo Silva, o do Champalimaud, o do Bulhosa( com seu administrador Jorge Jardim , cuja ascensão e influência vertiginosas vamos abordar em outro trabalho), do Venâncio Guimarães Sobrinho, abrindo as portas para mais tarde outros se apoderarem de áreas e ocorrências minerais imensas, como a madame Bermann, o Joaquim de Carvalho, o Mota Veiga, o Alfredo de Matos, o Sousa Machado (pai e filho) com a sua Companhia Mineira do Lobito, a empreiteira dos Andrades que ainda anda por Cabinda, o poderoso José Cirilo, o analfabeto José Ferreira do Negage, os Quintas e outros...

Com os olhos postos sobretudo em Angola e Moçambique, a ojeriza e desconfiança de Marcelo Caetano em relação aos brancos naturais dessas colônias levaram-no, como ministro das Colônias, que apenas visitara durante breves dias as possessões portuguesas em África, a legislar normas limitativas de direitos civis aos naturais de todas as colônias que não fossem filhos de Portugueses originários de Portugal (reinóis); não podiam, por exemplo, concorrer aos cursos das escolas de oficiais das forças armadas nacionais, desempenhar funções de chefia, a nível superior, na administração pública colonial, etc., etc... Eram os chamados "portugueses de segunda classe"... Situação injusta que perdurou até à década de 60.... Sempre éramos enxergados com suspeição. No Hospital Militar Principal, em Lisboa, o autor destas linhas, antes de ser incorporado no curso de Oficiais Milicianos de Infantaria, em 1949, teve de sujeitar-se a uma junta de revisão para constatação de sua pureza racial "lusitana" uma vez que, sendo natural de Angola, seu pai (coronel-médico) e seu avô paterno (coronel de infantaria do extinto exército ultramarino - EU -) eram naturais de Pangim, Estado Português da Índia. Ao sermos interrogado pelo coronel-médico presidente da junta de revisão (racial), mentimos-lhe afirmando que aqueles nossos ancestrais eram brancos puros, descendentes diretos de reinóis (Portugueses originários de Portugal, leucodérmicos sem... mistura, que afinal quase todos se não todos os portugueses têm). Assim, porque esse médico militar nos deu crédito, pudemos ser admitido ao referido curso de oficiais de complemento...enterrando por algum tempo aquele velho "conselho portuga": quando vires um indiano e uma víbora, mata o indiano e deixa em paz a víbora...Por essa ocasião (segunda metade da década de 40), o melhor aluno cadete do curso de oficiais de artilharia da Escola do Exército (que viria a ser engenheiro fabril e brigadeiro mais tarde...), um natural de Goa, filho de um oficial superior ou general do extinto exército ultramarino mas descendente, isto é, mestiço, embora não-hindú, tendo-se descoberto (algum invejoso o teria delatado) que tinha ascendência indiana foi submetido a junta de revisão e a inquérito; durante algum tempo esteve tremida a sua permanência no curso... Ora, anteriormente a Caetano na pasta das Colônias, jamais alguém levantara esse problema e a prova estava em nosso próprio progenitor (já não falando mais nas várias gerações de avoengos) que, embora natural de Pangim e "descendente", atingira o posto de coronel-médico. Naquele tempo, nem o nosso primo-coirmão Mário Arnaldo de Jesús da Silva, hoje general de divisão do exército português, prémio Defesa Nacional, homem de confiança da JSN e de Costa Gomes em Angola depois da "revolução dos cravos", assessor militar especial do ex-primeiro ministro (de centro-direita que diz ser de centro-esquerda baralhando o escalograma de Guttmann...) Cavaco e Silva, nem o nosso tio e pai dele, também oficial, engenheiro fabril, se tentassem iniciar carreira no oficialato do exército jamais o teriam conseguido!!! Acabaram também, para os "notáveis" dentre nativos das colônias, integrantes das elites tradicionais, os postos honoríficos de oficiais de segunda linha das milícias tradicionais com que outrora (PARA POUPAR DESPESA E CONTAR COM A FIDELIDADE DE MILÍCIAS TRADICIONAIS) eram contemplados príncipes, sobas, sobetas africanos e liurais (reis) timorenses. O que se nos afigura mais estranho é o RUMOR de que Marcelo Caetano, como o denunciava seu tipo étnico e leptorrinia, seria também um descendente, segundo no-lo revelou em Lisboa, certa feita, um INFORMANTE DOS SERVIÇOS ESPECIAIS DA L.P. e soldado da Guarda Fiscal, Pompeu de Andrade (primo do Secretário Provincial de Obras Públicas de Angola, tenente-coronel engº da Força Aérea Carloto de Castro) que conhecia o pai do sucessor de Salazar, um cabo ou sargento da sua corporação que teria (não o estamos afirmando, note-se) servido na Índia onde casara com uma natural, "descendente", mãe de Marcelo Caetano; a ser verdadeira esta versão, Caetano seria também um... "mestiço", "um cu lavado" (na gíria racista portuguesa aplicada à nossa gente de Goa,"descendente", como o é o autor destas linhas embora seja nascido em Angola) e não um "reinol" puro! Estas achegas servem para se entender quanta razão assistia aos Angolanos BRANCOS e MESTIÇOS que quiseram lutar pela independência da terra em que haviam nascido e na qual eram também discriminados, humilhados e olhados com desconfiança por vários Portugueses preconceituosos (conquanto não se deva estereotipar essa pecha) de naturalidade européia. Portugueses esses que, como já fizemos sentir em outros ensaios, não podiam (nem podem) ser considerados.... "brancos" puros mas que, em não poucos casos, tal como se constata também no Brasil, sofrem dum "eugenismo" psicopatológico. Apenas o governador-geral Silvino Silvério Marques acabou com isso, protegendo angolanos e caboverdianos dessas injustas perseguições e do preconceito racial, seguido de Rebocho Vaz e de Santos e Castro. Isso preocupava o MPLA que em suas emissões radiofônicas do exterior, através da Radio Brazzaville, o maltratava denominando-o de "fusível" por ser muito magro...o que não conseguia roubar-lhe o prestígio de que gozava entre as massas africanas ( e não só nessas), mas que era mal visto pelo incompetente ministro das colônias Silva Cunha e sua clique de fofoqueiros e pajens bajuladores como o seu chefe de gabinete Joaquim Fonseca feito por ele "inspetor superior de administração colonial" sem nas colónias (Angola, donde era natural) ter sido mais do que... chefe de posto! Fez sua fulgurante "carreira colonial"... no gabinete equipado com aquecimento central e ar condicionado, alcatifado, do seu patrão, no "palácio" do Restêlo construido por vontade de Adriano Moreira com o ouro trazido de Goa à última hora, numa aeronave dos TAIP, que pertencia a depositantes particulares que jamais tiveram de volta esses valores confiados em Goa ao Banco Nacional Ultramarino antes da invasão armada da União Indiana, tal como os depositantes de dinheiros, de acordo com leis vigentes então, nos cofres da Fazenda da República Portuguesa em Angola, destinados a transferência legal para a Obra Social do Ministério do Ultramar e para o Cofre de Previdência do Ministério das Finanças muito antes da independência de Angola, viram ( até hoje) seus direitos ignorados e denegados arrogantemente pelos sucessivos governos ditos "democráticos" e "progressistas" posteriores ao "25 de Abril de 1974", dizendo-se que essas transferências não são reconhecidas...e portanto, todos ficaram sem os valores em escudos que legalmente haviam confiado ao Tesouro Português. Nós temos documento repugnante ( um ofício digno de ser utilizado apenas na privada do WC!) transmitindo o despacho de um zoilo "clown" dito "Secretário de Estado", tratado aburguesadamente por SUA EXCELÊNCIA, à "boa maneira" fascista, negando a restituição desse dinheiro que teria ficado com o "honesto" regime" de Luanda... "gerido" pelo MPLA. Isso é UMA VERGONHA!!! como diria o grande comentarista brasileiro da TV RECORD Boris Kasoy.

Era manifesto o descontentamento das gentes brancas do Centro e do Sul de Angola. Em Julho/Agosto de 1963 deslocamo-nos ali, integrados num grupo de 20 e poucos finalistas do curso superior de administração ultramarina - e, ao mesmo tempo, por despótica e arbitrária ordem do ministro Silva Cunha ao diretor do GNP, o competente e impecável inspetor superior Dr. Ângelo dos Santos Ferreira, em missão especial de observação e informação, embora estivéssemos oficialmente de licença disciplinar. Em Sá da Bandeira (Lubango) participamos de um jantar oferecido no melhor hotel da cidade pelo governador do distrito da Huíla, inspetor Laranjeira, do Quadro Administrativo. Presentes os nossos professores, Dr. Martins de Carvalho, ex-ministro da Saúde e Assistência, e Padre Abílio Lima de Carvalho, que acompanhavam a viagem dos finalistas do ISCSP/UTL patrocinada por várias empresas privadas. No discurso que proferiu, o governador Laranjeira, casado, com filhos nascidos em Angola, no desempenho daquele alto cargo há vários anos, não ocultou o seu angolanismo "cicronho" (do Sul), criticando a burocracia do governo geral, a mil quilômetros do Lubango e a ignorância do Terreiro do Paço (ministério das Colônias) e frisando que, por isso mesmo, qualquer problema demorava anos para ser resolvido; ele defendia a independência do Sul de Angola (e quem sabe se...até não seria simpatizante ou mesmo militante da FUA!) que teria condições para se tornar um país próspero e viável em todos os aspectos. Pouco tempo depois, essa sua franqueza pública valeu-lhe ter sido demitido do cargo de governador, por despacho ministerial ( de Silva Cunha), passando a ser apenas um simples inspetor administrativo...em Luanda, tendo como "território" somente uma mesa de trabalho na Inspeção Administrativa, em Luanda.

A concluir esta paupérrima contribuição para a Ecmnésia Histórica Colonial, cumpre-nos dizer que, face ao trágico panorama que, há quase cinco lustros, nos vem mostrando a desastrosa independência de Angola, atribuímos tudo isso não só à incapacidade e ignorância dos autores da chamada "descolonização exemplar" mas também à intolerância e à teimosia míope do ex-padre ditador Antônio de Oliveira Salazar (de estreita visão política colonial, mau assessoramento e muita rapacidade em prol da clique "judaico-lusitana") que não lhe permitiu enxergar quanto Portugal teria lucrado se tivesse acolhido, bem aproveitado e acarinhado, em devido tempo, ou seja, em seus primórdios, a FUA - FRENTE PARA A UNIDADE DOS ANGOLANOS. Poderia ter sido, essa, talvez, a mais equilibrada panacéia para a estruturação de uma unidade pacífica a bem do futuro dos povos daquele imenso e potencialmente rico território de 1.246.700 quilômetros quadrados, 14 vezes maior do que Portugal: a grande oportunidade arracial que a estupidez "portuga" perdeu e destruiu... em vez de chamar a si a tempo de evitar desvios.

Não fugiu Portugal, ou melhor, o seu governo, ao mau hábito peninsular (castelhano e lusitano) de impiedosamente, em nome da Fé CRISTÃ, esmagar ou castrar civilizações, nalguns casos até superiores como eram as dos INCAS e AZTECAS e as Orientais duma maneira geral, que conquistava pela força ou, à maneira espanhola, pela vil perfídia...

O historiógrafo tem como "pátria" a verdade dos fatos históricos pesquisados, doa ela a quem doer.

Não se escandalize, prezado leitor internauta, ao ler neste trabalho comentário ditados pela nossa "alma" formatando este texto de forma que para alguns será considerada "apatriótica" ou "anti-patriótica"... Mas, quem estas linhas escreve defende a verdade e só a verdade, doa ela a quem possa doer. Nós hoje, na diáspora voluntária (ninguém nos prendeu ou exilou) a que nos entregamos neste acolhedor e robusto filho de Portugal que é o Brasil, torcemos pelo lema "one planet, one people" bastante globalizante (o que está... em moda).

Há anos Alguém escreveu:"
"Daqui a poucos anos duas coisas se observarão em África: o progresso paralisado em muitas das suas extensões com a total ruína das economias, a degradação das populações, o horror das lutas intestinas, e experiências de colonialismo internacional, irresponsável, diante do qual o Preto, diplomado ou não, será apenas uma unidade estatística."

Esta declaração foi feita a um jornal francês , nos idos anos 60 (!), conforme nos referiu um nosso amigo e internauta que visita assiduamente este portal e a Ecmnésia Histôrica Colonial, por um político português que jamais visitou qualquer território colonial ou outro país além da vizinha Espanha numa rápida deslocação para ali ir assinar, com o Caudilho Francisco Franco, o ineficaz "Pacto Ibérico": o ex-padre ditador Antônio de Oliveira Salazar.

Carlos Mário Alexandrino da Silva
Lorena-SP, BRASIL, 01 de Janeiro de 2001

Esclarecimento: Na redação deste texto procuramos utilizar as regras ortográficas do português em uso no Brasil, nosso lar de eleição voluntária.
  In Comunidade Lusófona

segunda-feira, 28 de março de 2011

Luíz Wittnich Carrisso, o Herbário de Coimbra em Missão Botânica no Deserto do Namibe em Angola

Sobre o KANE-WIA, o mítico morro do Namibe, transcrevo o texto que segue:

«No interior da província do Namibe, em Angola existe, próximo do Virei, um morro conhecido pelo nome de Kane-Wia, termo que, em idioma Tchierero (língua dos Mucubais) significa “quem o subir não volta” ou "quem sobe não volta". Contava-me o meu avô (João Craveiro de Tombwa) que nunca ninguém ousou subir este morro porque as histórias contadas pelos Mucubais referiam que quem subisse este acidente geográfico não mais regressaria. Portanto, O Kane-Wia vivia sossegado e inexplorado, uma espécie de montanha sagrada onde Deus dorme e, por esse motivo, interdita ao comum dos mortais. Em 1937, um eminente biólogo da Universidade de Coimbra, Dr. Luís Wittnich Carrisso, veio até ao Namibe para estudar a flora local e como homem racional e de ciência que era resolveu contrariar a crença subindo o Kane-Wia. Seja por mera coincidência ou por outra estranha razão o grande cientista português, embora socorrido pelo seu companheiro, veio a sucumbir em pleno deserto, a cerca de 80 km da cidade de Moçâmedes (actual Namibe). Nesse mesmo local foi, posteriormente, erguida uma lápide com a seguinte inscrição: “Dr. L. W. Carrisso XIV-VI-MCMXXXVII”. »

Do blog de Namibiano Ferreira



 Monumento no Deserto do Namibe ao Dr. Carrrisso
 Welwitschia Mirabilis
carrmend
Carrisso e o Herbário de Coimbra

Fátima Sales (2007)

(adaptado de Sales, F. 2005. Carrisso: implicações no desenvolvimento da Botânica. In: Freitas, H., Amaral, P., Ramires, A. & Sales, F. Eds. Missão Botânica, Angola (1927-1937). Imprensa da Universidade: Coimbra)

O espólio do Herbário COI tem sido enriquecido com as contribuições científicas de vários botânicos. Um dos seus directores, Luíz Wittnich Carrisso, contribui em muito para a sua larga colecção de plantas africanas, quer pelas expedições que organizou a Angola durante as quais foi colhido grande quantidade de material, quer pelo legado de entusiasmo pela investigação das plantas dessas paragens.

Carrisso nasceu na Figueira da Foz a 14 de Fevereiro de 1886, filho de Ignácio Augusto Carrisso e da holandesa Leopoldina Wittnich. Faleceu repentinamente de síncope cardíaca aos 51 anos a 14 de Junho de 1937 no deserto do Namibe (Mossamedes), em Angola, no final da sua terceira expedição científica a este país. Por esta altura Carrisso tinha uma longa história de homem das ciências e homem público; era há 19 anos Professor Catedrático da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra e Director do Instituto Botânico Júlio Henriques. Estava acompanhado por sua esposa, Ana Maria de Sousa Wittnich Carrisso, Francisco da Assunção Mendonça (naturalista do Instituto Botânico de Coimbra), Jara de Carvalho (assistente do Instituto Botânico de Coimbra), Francisco de Sousa (colector do Instituto Botânico de Coimbra), Arthur Wallis Exell (naturalista do British Museum, Londres) e esposa e o John Gossweiller (botânico suíço ao serviço de Portugal em Angola).



A 1 de Junho de 1927 Carrisso e Mendonça partiram para a primeira Missão Botânica a Angola. A verba era pouca e, portanto, a organização foi modesta contando apenas com material simples para herborizações e equipamento fotográfico. Viajaram em condições difíceis como era, aliás, costume na época em África e está patente em várias memórias fotográficas. Mais de metade do tempo passam-no na zona remota do noroeste de Angola mas também visitaram o deserto do Namibe (Mossamedes). Foram ainda a Cabinda e ao Congo Belga. Chegaram a Lisboa a 13 de Dezembro do mesmo ano com grande quantidade de material vegetal.Totalmente enfeitiçado por África (quantos o não ficam??), Carrisso regressou a Portugal e, de imediato, planeou a segunda expedição, a qual teve lugar em 1929, e teve o título “Missão Académica a Angola”. A expedição foi pensada com um grande sentido pedagógico, como uma grande aula prática de campo. Nela participaram 22 pessoas entre professores universitários de todo o país, alunos universitários dos últimos anos, Mendonça, Carrisso e Ana Maria, sua esposa.

A experiência científica e pessoal constituiu qualquer coisa de único na vida dos aprendizes de expedicionários tendo-se estabelecido uma ligação profunda entre os elementos do grupo. Partiram de Lisboa a 10 de Agosto, percorreram 6.000 km em Angola onde estudaram a flora, a fauna, as potencialidades económicas, as condições de vida social e os problemas locais. A viagem fez-se, primeiro de barco, ao longo da costa, depois utilizando o sistema ferroviário e depois por estrada. De regresso passaram por São Tomé onde admiraram a sua vegetação tropical. Durante estas duas explorações científicas a Angola foi colhido muito material vegetal. Durante 3 anos Carrisso e Mendonça prepararam um Syllogue Florae Angolensis do material colhido [sumário de colecção de exemplares]. Ao trabalhar com esse material, arquivá-lo, determiná-lo e tentar lidar com a sua nomenclatura foi reconhecida a necessidade de, como recomenda a boa metodologia taxonómica, compará-lo com a maior quantidade de material possível e estudar a bibliografia relevante.

Nesse tempo não havia nem grandes colecções de África em Coimbra nem uma biblioteca adequada; como colaborador, Carrisso contava apenas com Mendonça. Dado que as melhores colecções e conhecimentos sobre a flora de Angola estavam em Londres, no British Museum Carrisso estabeleceu, então, uma colaboração oficial entre o Conselho da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra e o British Museum para a elaboração da obra Conspectus Flora Angolensis, obra de âmbito incomparavelmente maior do que o preliminar Syllogue. Em 1934 convidou Exell (naturalista experimentado em trabalho de campo e de herbário) para tomar conhecimento dos trabalhos já iniciados em Coimbra. Convidou Gossweiller com o mesmo objectivo. Organizou a visita de Mendonça aos herbários de Londres e Berlim-Dahlem tornando-o num naturalista cosmopolita. Passaram-se quase 7 anos na elaboração deste primeiro fascículo do volume 1 do Consp. Fl. Angol. Durante este tempo tornou-se óbvio que as expedições florísticas a Angola não se podiam dar por terminadas. Preparou-se, então, a terceira missão. Do ponto de vista científico esta terceira expedição foi a melhor organizada, e foi a mais frutuosa do ponto de vista botânico. Havia mais experiência e melhor conhecimento da área a explorar; os anos de estudo da flora tornaram os objectivos mais precisos; a equipa tinha o número ideal de botânicos experientes. Em Fevereiro de 1937, poucos dias depois de publicado o primeiro fascículo do Conspectus Flora Angolensis, Carrisso e os seus companheiros de Coimbra partiram de Lisboa rumo a Luanda. Lá juntaram-se a Exell, sua esposa e Gossweiller e iniciaram uma viagem em que colheram cerca de 25.000 exemplares de herbário. Esses exemplares têm sido um contributo precioso para a elaboração do Conspectus (ainda hoje inacabado) e outros estudos florísticos na área de Angola. No total, as três viagens somaram cerca de 30.000 km, mais do que os 28.000 km da rede de estradas de Angola à altura.

O material de herbário colhido durante estas expedições foi juntar-se às colecções do alemão Friedrich Welwitsch (1806-1861) e Gossweiller constituindo o todo material de referência de uma parte muito interessante de África. De facto, Angola estende-se dos paralelos 5º (incluindo Cabinda) – 18ºS e dos meridianos 12º –24º E, ou seja, cobre uma variedade enorme de habitats, da floresta tropical ao deserto, da orla marítima, passando pela longa escarpa até ao vasto planalto interior o qual, no seu extremo este, vê passar o rio Zambeze. Espécies novas descritas de Angola têm muitas vezes distribuição ou em todo o sul da África ou na África central — daí a grande importância destas colecções históricas. Carrisso foi mais um homem de acção, um explorador, um condutor de homens e eventos, do que um investigador de laboratório ou de herbário. Não deixou muitos artigos científicos escritos pelo seu próprio punho; mas ficou memória de várias conferências vibrantes e sempre, sempre frontais na apreciação que fazia da sociedade portuguesa. 
 
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Segunda-feira, 14 de Junho de 1937. O deserto de Mossamedes (Namibe) pela terceira vez. Expedição a 102 km a sul da cidade de Mossamedes (Namibe). Acampamento a 2 km do Morro das Paralelas. A expedição subia o morro e colhia plantas. Carrisso sentiu-se mal e foi rodeado por Ana Maria e Jara de Carvalho. A expedição regressou aos veículos, Carrisso pelo seu pé, sem ajuda, já se sentindo melhor. À beira da tenda, um cajado numa mão, um molhe de plantas na outra, enquanto lhe preparavam a cama de campanha acabou por concordar que fosse chamado um médico a Mossamedes (Namibe). Deitou-se e ajeitou-se na cama (Cristão, 1937). Não teve filhos. Publicou artigos científicos. Colheu plantas. Semeou ideias.Texto integral AQUI 
 

------------- "ALGURES NO DESERTO DE MOÇAMEDES" ------------

..." Quem sai de Moçâmedes pela estrada asfaltada em direcção a Porto Alexandre, percorridos cerca de dezassete quilómetros, encontra à esquerda a estrada-picada que, remando ao Pico do Azevedo, alcança o Virei, o Cainde e o Planalto da Chela : era em tempos idos o caminho dos candongueiros do peixe seco que, fugindo à fiscalização, por ali se aventuravam naquela época, em que o Posto Administrativo do Cainde era o único obstáculo a enfrentar, cujo chefe estava quase sempre ausente na Chibia (área do Concelho a que pertencia) e que mais tarde passou a área do Distrito de Moçamedes, que construiu a Sede da Circunscrição do Virei num local desértico em que um afloramento de água matava a sede às gazelas e era o ponto onde os ditos candongueiros descansavam para à noite galgarem os contrafortes da Chela. Eram homens batidos, que agarrados aos seus camions, atravessavam o arenoso rio Cubal (em Moçamedes o Bero), percorrendo caminhos pedregosos, sempre a subir até à Hunguéria, último "treck" que ligava ao Planalto.

É nessa estrada-picada, a cerca de meio caminho entre o Pico do Azevedo e o Virei que, quem fôr com atenção encontram junto à berma da estrada uma abandonada lage alusiva ao ali falecido botânico Luiz Wittnich Carrisso, que fora professor da Universidade de Coimbra, um notável catedrático (1886/1937). Estudou a flora tropical e foi autor dfe "Flores de África", "Agrostologia de Angola" e "O Problema Colonial perante a Nação", etc.

Aquele homem sucumbiu no seu posto, naquele sítio ermo, onde a curiosa Welwitschia não medra e as Suricatas vegetam a par de uma ou outra Tua pernalta e os arbustos, certamente por ele estudados, mais densos à volta daquela modesta laje , perecem querer protegê-lo do sol ardente que ali se faz sentir; qualquer pessoa de formação cristã que ali se apeie, sente a tristeza daquele quadro abandonado e, ao ler o epitáfio naquela laje gravado, nostalgicamente não deixará de ali fazer uma oração em homenagem a tão ilustre botânico.



Desconhecendo a causa que o vitimou, não posso deixar de recordar os velhos pioneiros do deserto e suas zonas limítrofes que, se falassem, poderiam fazer alguma luz sobre aquele caso de uma época remota da tipóia e do Boi Cavalo que, com os carregadores se aventuravam na vida, bebendo águas inquinadas, sujeitos ao paludismo e à Biliosas.
Só mais tarde, com o aparecimento do carro boer, cuja lentidão das longas juntas de bois que o atrelavam, lhes transmitiam mais segurança, começaram a penetrar no sertão, abrindo trilhas aos lugares susceptíveis de água e contacto com o gentio. Muitos por lá ficaram vitimados pela malária e as Biliosas (doença transmitida por um vírus africano), cuja imobilidade era, para esses casos, a mais recomendada, impossibilitando-os de procurarem recursos".

-- (Artigo de ANTÓNIO LUIS CORREIA, ex-residente na CHIBIA e LOBITO)--
in Blog AngolaBrasilPortugal


Missão Académica a Angola
Alguns Aspectos Cinematográficos da Viagem
(reportagem da segunda expedição, realizada em 1929)


Para saber mais, clicar AQUI
e AQUI

domingo, 27 de março de 2011

OS MILITARES E O APOIO SÓCIO-ECONÓMICO ÀS POPULAÇÕES

MAJOR MIGUEL GARCIA

OS MILITARES E O APOIO SÓCIO-ECONÓMICO ÀS POPULAÇÕES
O CASO DE MOÇAMBIQUE (1964-1974)
Pelo interesse de que possa revestir o assunto,  o texto completo pode ser encontrado clicando AQUI

Grandes Homens – 3 Ainda Silva Porto e o seu temp




Não vale a pena repetir que Silva Porto foi um grande sertanejo, homem honesto, trabalhador, que, enquanto sempre português, conseguiu um bom entendimento e amizade com praticamente todos os sobas de Angola. No século XIX.
Muito choram alguns ignorantes, a “desgraça” que foi para o povo das “colônias” portuguesas os “500 anos de colonialismo”!
Até 1890 Portugal tinha alguns lugares fortificados, que talvez não ocupassem um por cento do território! Para circularem e comerciarem pelos outros noventa e nove, tinham os “pombeiros” que pagar tributo aos sobas, por vezes tributos pesados, quando não assaltados e roubados de toda a sua “fazenda”! O próprio Silva Porto sofreu um violento ataque à sua libata em Belmonte, tendo ficado gravemente ferido, mesmo sendo, com o mais velho sertanejo Guilherme José Gonçalves, “homens de reconhecida capacidade, e que os povos têm muita consideração.”
A região do Bié pode considerar-se o centro geográfico de Angola. Planalto, com altitude média de 1.200 metros, daquela região nascem quase todos os rios que banham o país, o que permitia estabelecer ligações fáceis (?) em todos os sentidos.
Já vimos que Livingstone chamava mulatos aos comerciantes portugueses, incluindo o “chefe do bando”! Tinha alguma razão nisso, porque naquele tempo, entre 1843 e 1846 foi possível fazer uma lista dos “moradores-comerciantes” que viviam no Bié. Cerca de cem. Cinquenta e quatro eram negros, quarenta mestiços e somente seis brancos. Todos sabiam ler e escrever e haviam adotado algumas “regras européias”, como por exemplo usarem calças! “Nestas paragens dão o nome de brancos a todas aquelas pessoas que vestem calças, sem exceção de cor e menos de condição, é bastante para isso possuir alguma fazenda.” Bastava esta “indumentária” para serem reconhecidos como comerciantes e brancos! (Alguém imaginaria isto possível em colônias inglesas?)
Coisa curiosa, porque, um século mais tarde, sobretudo em Luanda, passou a usar-se o termo “calcinhas”, aplicado ao indivíduo africano, vaidoso, normalmente ignorante, mas que queria parecer “evoluído”! Será que o termo virá do século XIX ou XVIII?
Boa parte destes comerciantes, brancos ou não, recebiam as primeiras letras ensinadas pelos “professores” ambaquistas! Homens inteligentes, da região de Ambaca, onde foi grande a ação missionária.
Escreve Francisco Castelbranco, na sua História de Angola (Luanda, 1932), que “o ambaquista é ladino e manhoso. Conta-se que “tendo os ambaquistas que dirigir uma representação ao governo contra certa autoridade provincial, ao assiná-la se levantou a dificuldade de quem o faria primeiro, porque nenhum queria figurar à cabeça; resolveram então inscrever as suas assinaturas em circunferência de círculo, que mostra bem a manha de que são dotados!”
Sensacional.
Esta capacidade do português conviver com outros povos mereceu do grande sociólogo Gilberto Freyre o conceito de luso-tropicalismo, de que se aproveitou Salazar para justificar a continuação do tempo colonial. E criou na maioria das cabeças africanas, que Gilberto Freyre teria, quase, incentivado o colonialismo! Ignorantes!
Mas há outro “retrato” dessa convivência. Está escrito num relatório enviado à coroa portuguesa em 1776, pelo então governador do Piaui, João Pereira Caldas, que “encontrou uma região tipicamente brasileira, misturada, miscigenada, sem distinções de raças e cores”. E mais: “Neste sertão, por costume antiqüíssimo, a mesma estimação têm brancos, mulatos e pretos, todos, uns e outros, se tratam com recíproca igualdade, sendo rara a pessoa que se separa deste ridículo sistema.” (Laurentino Gomes, em “1822”).
Voltemos ao Bié. Nos primeiros anos após a abolição da escravatura, que Portugal decretou para todo o império em 1836, o movimento comercial no Bié caiu muito, e entre 1840 e 1846, a situação dos comerciantes era de extrema penúria, “vivendo os descendentes de portugueses ao desamparo, vestidos à moda gentílica, sujeitos a serem vendidos, como têm sido a maior parte deles pelo gentio!” (segundo Joaquim Rodrigues Graça, sócio e talvez amante da famosa D. Ana Joaquina dos Santos Silva, uma das mais poderosas comerciantes e traficantes de Luanda, em “Expedição ao Muatayânvua”, 1848). Só lentamente se recuperou o comércio, com marfim, urzela (1), cera, e a goma copal (2), sendo os dois primeiros os de maiores valores. E um pouco de óleo de palma e couros.
A “fazenda”, que era a “moeda” usada nas trocas comerciais no interior, era quase composta de zuartes, fazenda de lei (esta constando de quatro variedades todas de fraca qualidade: chita ordinária; crumadel ou coromandel, chita indiana); tapulins ou mabala, nomes brasileiros para uma espécie de tecido de algodão; birola, fazenda de algodão importada de Inglaterra para o Brasil e daqui reexportada para Angola e manguina (também inglesa e reexportada), pintados, lenços, riscado, algodão cru, baeta (tecido caro mais utilizado para presentes ou tributos), missangas, coral verdadeiro e falso, campainhas e outras miudezas, armas lazarinas e reúnas (3) e pólvora.
No entanto os tecidos representavam mais de 37% do total.
Ainda voltaremos a Silva Porto e o seu tempo.

(1) – Urzela: uma espécie de líquen tintorial – Rocella tinctorica – que fornece uma bela cor azul-violácea.
(2) – Goma copal: é uma resina vegetal, de alta qualidade, usada para fabricar vernizes, sendo chamada em Angola também de Kausi.
(3) – Lazarina era uma arma de fuzil comprida e de pequeno calibre, primeiro de fabrico português, mais tarde belga e por fim em Inglaterra. Trazia gravada a legenda “Lazaro Lazarino Legitimo de Braga” enquanto fabricada em Portugal e na Bélgica. Por fim chamada de "reúna".

15/03/11

sábado, 26 de março de 2011

Jornal "A Huila" nº 789 , 19 de Maio de 1956: A mão d'obra indígena . A assistência às populações nativas.




Nesse intuito e agora com a nomeação do novo Chefe de Serviços dos Negócios Indígenas, S. Exa. traçou assim os pontos básicos dessa orientação: -- Censo da mão de obra disponível, por áreas administrativas. -- Censo das necessidades reais de mão de obra para trabalhos públicos e particulares. -- Revisão dos sistemas de licenças de angariamento. -- Revisão do angariamento incluindo o establecimento de agências de angariamento e sociedades de engajamento. -- Justa remuneração do trabalhador, incluindo a das mulheres e menores, nos termos da Lei. -- Fiscalização do trabalho, com vista aos deveres dos patrões e trabalhadores. -- Aplicação de sanções a quem não cumpra ou não queira cumprir. Competando essas directrizes deverá existir a mais estreita colaboração e entendimento entre as agências de curadoria, bem como inspecções às autoridades administrativas por parte dos inspectores. ---------- A assistência ao indígena --------- Dentro dos aspectos necessários a cumprir, Sua Exaª, classificou estes três principais : -- A saúde, o amparo na invalidez e a habitação. Para poder satisfazer a esses problemas torna-se necessário uma maior e mais perfeita rede de estabelecimentos de saúde para indígenas, quer nos grandes centros populacionais, como ainda nas solidões do interior. Assim, também deverão ser constituídos em toda a Província albergues para inválidos, para que possam dispor de protecção à sua miséria moral e física. Quanto à habitação do indígena, principalmente nos centros urbanos,merece bastante atenção, pois deve ser encarada a construção dum tipo adequado de habitação, bem assim como localizados os bairros definitivos, sem que os indígenas se vejam na contingência de se irem afastando à medida que crescem as cidades, e para que sintam a responsabilidade pela propriedade, cultivando com amor e com arte, sem mais receios de destruição ou abandono dos seus haveres.Desse modo o indígena se sentirá mais seguro e por certo procurará conseguir melhorias nas suas instalações e terras em vez de gastar as suas economias em coisas de somenos importância, motivadas talvez por essa falta de segurança e pela inconstãncia, em prejuízo até da sua saúde e de sua constituição moral. ----------------- A defesa do Indígena ------------- S.Exa. não deixou de se referir a este melindroso assunto, demonstrando assim a sua sensibilidade e o seu carácter, analisando e compreendendo a vida privada e íntima do indígena. Assim, julgado como ser humano sensível, a reacções perante a sociedade, sentindo como ser vivente, dotado de razão e de inteligência, o indígena precisa de ser melhor compreendido na sua maneira de ser e nos hábitos privados, procurando-se com sabedoria adaptá-lo ao trabalho e dando-se-lhe responsabilidades sociais, sem que se deva exigir demasiado do seu rendimento e permitindo-se-lhe a sua escolha e adaptação às profissões, mas sempre dentro do melhor espírito de justiça e disciplina. A brilhante exposição de S. Exa., visa pois uma magnífica política indígena e a melhor colaboração e entendimento entre os trabalhadores e seus patrões,os angariadores e as autoridades, com o respeito devido à pessoa humana, atendendo aos aspectos morais e sociais dos indígenas, sem que se deturpe o sentido de justiça e disciplina, Os indígenas são huamanos, dotados de inteligência e de qualidades de trabalho, mas, para tal, é preciso que sejam aproveitados convenientemente, sem serem explorados.Eles,como os outros, merecem a vida calma e sadia, na memsma comunhão espiritual, de trabalho e de ideias, com os olhos postos no progresso e economia de Angola, com os olhos postos nos comuns interesses da Nação. É preciso que os compreendamos e por vezes sejamos condescendentes; é preciso que eles tenham fé e confiem nas nossas possibilidades de lhes darmos melhores condições de vida. É preciso até que eles não descurem as suas qualidades artísticas e que respeitemos certos ritos sagrados, o rufar dolente e compassado dos batuques, a sua música misteriosa em noites de luar e poesia.
(de "SOURREIA" - Jornal "a HUila" nº 789 - pg. 3 - 19 de Maio de 1956)

quinta-feira, 24 de março de 2011

A guerra no sul de Angola em 1914 (2)



(...)
A crítica condena, por todas as razões, a dispersão das poucas forças expedicionárias de que se dispunha, por pontos longínquos em relação ao Cunene.
O facto é tanto mais estranho quanto é certo que a decisão de mandar para o Pocolo a divisão de artilharia e para Ediva-Otchinjau-Otchitoto a 11ª companhia do B.I.14, foi tomada já em face da missão que nos propúnhamos realizar — opor-se aos Alemães no Cunene.
E desde que íamos para o Cunene, mandava a lógica que não nos enfraquecêssemos, por este lado, de um quarto de infantaria e metade da artilharia expedicionárias. Ficaria no Pocolo a protecção habitual que já lá estava, isto é, a lª companhia europeia de infantaria de Angola, com um dos seus pelotões em Otchinjau, e mais nada. Que solução milagrosa ia levar ao Pocolo uma divisão de artilharia, à custa da inutilização da única bateria que se tinha digna deste nome?
Porque a dispersão de forças à última hora, sem o mais leve factor novo de decisão que levasse a considerar o avanço de forças alemãs, de importância ou não, pelo lado Otchinjau-Pocolo?
Perante a situação que se lhe apresentava e em face dos diminutos meios de acção de que dispunha, o comandante teria a tomar uma resolução geral definitiva, acto essencial da sua vontade, sobre a forma de conduzir e empregar o pequeno agrupamento expedicionário, sabendo o que queria, como queria e por que queria.
O chefe não tinha que aguardar indefinidamente uma última palavra sobre a situação para traçar a conduta geral de emprego do referido agrupamento. Disse Clausewitz: «A guerra é o campo das incertezas». Esperar, para adoptar uma decisão de ordem geral, que todas se dissipem, é arriscar-se a um fatal e nocivo atardamento.

No sul de Angola, a situação de contacto com a Damaralândia deu lugar a preocupações levando a curiosos voos de imaginação.
Pessoas chegavam a ver colunas de Alemães a invadirem o território, através do Baixo Cunene, em várias direcções, após marcha de centenas de quilómetros por precárias vias de comunicação, em travessia rápida das estepas sem fim do norte da Damara, queimadas pelo sol ardente do deserto Namib e áreas kalaharianas, a caminho do planalto ou caindo sobre Moçâmedes!
Arquitectavam, com uma facilidade admirável, disparatados raids à Jameson ou mesmo golpes da natureza dos que mais tarde Von Lettow Vorbeck levou a efeito na África Oriental, noutras condições totalmente diferentes.
Fez-se realizar por competentes oficiais — o capitão Albano de Melo e tenente António Ribeiro Monteiro — o reconhecimento militar do Baixo Coroca, no litoral atlântico, bem como o estudo do acesso possível de forças, invasoras às regiões do Otchinjau através dos contrafortes, da Chela e, em sentido inverso, da viabilidade de uma corrente desembocada do Swartboy Drift ir despenhar-se pelos desfiladeiros da serra, a caminho de Porto Alexandre e Moçâmedes.
E no seu novo plano (1), em face da situação resultante do incidente de Naulila, prescreve o comandante das F.O.:

«Estabelecimento de uma linha (?) de defesa fixa que compreende o triângulo Moçâmedes-Porto Alexandre-Coroca, no litoral, e Chibia-Pocolo-Gambos ou Ediva, no planalto».
Por outro lado, a oeste da Chela, toma vulto uma certa confusão, em que vemos envolvidos, aquele comandante, o governador de Moçâmedes. e o governo geral.
Porque interessa ao nosso estudo, vamos referir os traços principais de algumas das muitas directivas e comunicações que foram trocadas entre as três entidades e que traduzem o ambiente.
Do comandante das F.O. para o governador de Moçâmedes :

«...O serviço de vigilância convém seja estabelecido sobretudo na direcção da foz do Cunene, na do vale do Coroca e na do vale do Béro» (2).
O governador-geral faz transmitir ao governador de Moçâmedes:

«Referência nota 133, de 19; Geral recomendar defesa especialmente Moçâmedes, caminho de ferro e vias acesso este para planalto. Não concordar estabelecer postos Popochiva e Damba Carneiros evitar dispersão forças. Proximidades Porto Alexandre deve ficar força cavaleiros explorando caminhos Papochiva, Damba Carneiros. Estação telegráfica Porto Alexandre deve ser ocupada militarmente. Caso ataque forças superiores, deve abandonar Porto Alexandre avisando telégrafo Moçâmedes. Auxiliares montados possa obter, duas patrulhas oficial existentes, além um corpo de camelos que deve ser constituído desde já aproveitando os existentes, vigiarão caminhos» (3).
O governador de Moçâmedes encarrega o tenente António Ribeiro Monteiro (4) de, conciliando as directrizes recebidas do comandante das F.O. e do governador-geral, realizar o dispositivo de defesa de aí resultante, que vem a, ser:

Ocupar militarmente a estação telegráfica de Porto Alexandre, a qual deveria ser abandonada e prevenido o governador de Moçâmedes telegràficameute, no caso de ataque por forças superiores (não se lhe diz como, nem por onde se faria a evacuação em tal caso); e bem assim montar a exploração dos caminhos de Popochiva e da Damba dos Carneiros, coordenada com uma vigilância afastada no rio dos Elefantes e na Damba das Víboras (aqui por iniciativa do tenente Monteiro), confluências do Cunene.

O comandante das F.O. não simplifica, dirigindo ao governador de Moçâmedes o seguinte telegrama:

«Julgo indispensável organização posto Coroca no local indicado brigada reconhecimentos, um dos itinerários atribuídos Alemães é: vau Erikson Drift-Foz dos Elefantes-Otchiqueque-Popochiva-Porto Alexandre» (5).
O governador de Mocâmedes encarrega o tenente Francisco Maria Rodrigues, comandante do destacamento da 2ª companhia europeia, da defesa próxima de Mocâmedes contra o avanço de forças inimigas pela estrada Chacuto-Moçâmedes, pelo vale do Béro ou pelo caminho de Porto Alexandre.

«Para qualquer dos casos, não dispondo de forças algumas, só pode V. Ex.ª contar com os auxiliares e voluntários, habitantes de Moçâmedes, que de antemão tenha preparado e combinado para em caso de necessidade se reunirem e marcharem para guarnecer qualquer dos postos avançados.
«Deve para isso V. Ex.ª, com urgência, percorrer o rio Béro para além da fazenda do agricultor Torres e escolher a posição adequada para a construção dum entrincheiramento improvisado, simples, e seguidamente proceder da mesma forma para a defesa do vale do Giraul, para o caso de ataque de forças vindas de Porto Alexandre. Para poder armar o maior número possível de voluntários, fica V. Ex.a autorizado a fazer recolher todas as espingardas aperfeiçoadas dos particulares e distribuí-las a auxiliares que se ofereçam, quando os seus donos não possam prestar serviço. De igual forma procederá V. Ex.ª quanto ao armamento existente na 4ª Companhia de Depósito, contando contudo com o indispensável para as praças impedidas nos diversos serviços» (6).

O mesmo governador encarrega ainda o alferes António Henriques da

«defesa da linha férrea de Moçâmedes a Vila Arriaga e do estabelecimento de comunicações para o sul da mesma linha (?) até aos Cubais. A defesa da linha férrea será feita com dois postos...» (7).
Não fatigamos mais o leitor. Basta o que acabamos de ler para avaliar o lamentável ambiente que a visão exagerada e infundada de forças alemãs chegou a gerar em Moçâmedes.
O governador, em face das directivas, por vezes discordantes, que recebe do comandante da expedição e do governo-geral, patenteia a sua confusão e mesmo inquietação nas ordens dadas e nas comunicações para estas entidades dando conta do que fez e do que vai fazer.
Colocado entre o comandante das F.O. e o governador-geral, preso do receio de uma ofensiva alemã, não dispondo, porém, de tropas para realizar medidas de defesa, o governador de Moçâmedes foi, certamente, das três entidades, a de mais difícil situação.

Quem conhece as terríveis condições que o deserto ditava a um avanço de forças invasoras pela faixa litoral, assim como os riscos que correria o inimigo que deixasse o planalto e, aventurando-se pelos desfiladeiros — ratoeiras da Cheia — fosse enterrar-se nas areias do Namib com o fito de -alcançar Porto Alexandre e Moçâmedes, fica, na verdade, admirado da confusão que se gerou.
E afinal, além de uma cobertura tranquilizadora em Porto Alexandre, a principal providência a tomar reduzia-se a preservar, por guarda e por vigilância directa e indirecta, a linha férrea de Moçâmedes, de sabotagens intentadas mais por elementos internos traidores, da raça do boer Duplessis, do que por destacamentos alemães invasores.
A protecção eficaz da linha férrea contra golpe de mão era uma medida, embora aparentemente simples, difícil na realização, por falta de forças.
Em Moçâmedes fez imensa falta um verdadeiro comandante militar.

Vêm a propósito duas palavras sobre o papel e importância de Moçâmedes na defesa.
Então e sempre, no quadro das operações terrestres realizadas no Sul de Angola, ou seja contra indígenas insubmissos ou contra os Alemães invasores, o porto de Moçâmedes tem desempenhado um importante papel.
Base do caminho de ferro e base litoral única do distrito da Huíla, tem-lhe cabido a função de receber reabastecimentos de toda a espécie e expedi-los pelo caminho de ferro. Porto de desembarque e de evacuação; estação depósito.
Mas o caso em que a sua importância atingiria a mais alta sensibilidade não era aquele de que se tratava em 1914, mas sim o de uma ofensiva alemã sobre o planalto vinda do Sudoeste, conjugada com outra para a posse de Moçâmedes. Ao passo que Sá da Bandeira seria o objectivo final das operações terrestres do invasor para o domínio do planalto, Moçâmedes seria o primeiro objectivo da sua acção sobre a costa.
No quadro das operações terrestres do defensor, Sá da Bandeira e Moçâmedes aparecem-nos então como intimamente ligadas.
De facto a queda de Moçâmedes representa a queda do caminho de ferro, a queda automática da costa, com Porto Alexandre e Baía dos Tigres; representa a impossibilidade de utilizar a linha de comunicações por esse porto; sujeita Sá da Bandeira a uma incursão desse lado; enfim, põe o defensor na delicadíssima situação de, ou face ao Cunene ou face ao oceano, ter o adversário nas costas, obrigando assim à divisão de forças.
Em tais circunstâncias, impor-se-ia ao defensor a instante necessidade de diminuir, quanto possível, a sensibilidade de Sá da Bandeira em relação à sorte de Moçâmedes.
Como? Mudando a sua linha de comunicações.
Nunca, nesta forma das operações, seria prudente contar com utilizar Moçâmedes como base marítima definitiva. Deve estar previamente estudada a outra linha de comunicações e tudo preparado para a sua adopção no momento julgado oportuno, inclusive a devida ocupação de Mulondo e Capelongo desde o início das operações.
Os transportes seriam então à base de camionagem.

Não se deve exagerar o perigo, para o planalto defendido e com o caminho de ferro destruído, de uma agressão empreendida, do lado de Moçâmedes, por um inimigo desembarcado.
É que entre o planalto e este porto há o formidável obstáculo da Chela. Barradas as suas poucas e difíceis passagens com alguma artilharia e armas automáticas, nenhumas forças lá passariam. É a verdadeira chave da defesa contra um ataque partindo do litoral. Moçâmedes tem poucas condições de defesa, a qual, no entanto, deve ser efectivada pela forma e com os meios definidos no dispositivo geral da defesa da costa da província, O plano de defesa de uma província ultramarina como é Angola, com fronteiras terrestres e marítimas, tem sempre duas partes — contra a agressão pelas fronteiras terrestres e contra a agressão vinda do mar. E a parte essencial desta última é a defesa dos portos.

O caso concreto de 1914 era, porém, inteiramente diferente. A situação dos Alemães era crítica, as possibilidades de conquista nenhumas. Não era de encarar uma ofensiva pelo Cunene sobre o planalto, nem um ataque por mar sobre Moçâmedes.
(...)

(1) Comunicado ao Governador de Moçâmedes por sua extensa nota nº 32, de 3-Nov.-1914.
(2) Sua nota nº 32, de 3-Nov.-1914.
(3) Telegrama do C.E.M. de Angola, n° 654, de 24-Nov.-1914.
(4) Suas instruções para o ten. Monteiro, de 10-Dez.-1914.
(5) Seu telegrama n° 136, de 14-Dez.-1914.
(6) Nota n° 416/66, de 16-Dez.-1914.
(7) Suas instruções para o alferes, de 16-Dez.-1914.

Ernesto Machado, No sul de Angola. Lisboa, Agência Geral do Ultramar, 1956 (450 páginas). O fragmento aqui reproduzido é das páginas 312-320.
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Notas:
Recordemos que
«no final de 1914, os alemães invadiram o sul de Angola. A 18 de Dezembro de 1914, em virtude de opções tácticas erradas, Alves Roçadas é derrotado em Naulila pelas tropas alemãs»,
e ainda que
«Em 1914, quando se organizou a primeira expedição a Angola, para defender o sul da colónia, que fazia fronteira com a colónia alemã do Sudoeste Africano, Roçadas foi escolhido para a comandar. O incidente de Naulila, nas margens do Cunene, perto da fronteira entre as duas colónias, incidente entre forças militares portuguesas e alemãs, acontecido em 18 de Outubro, fez com os alemães atacassem o posto isolado de Cuangar, nas margens do Cubango. Alves Roçadas decidiu então, com as poucas forças de que dispunha, atravessar o Cunene e procurar as forças alemãs que tinham entrado no território português. Mas foi derrotado em Naulila, em 18 de Dezembro, e obrigado a atravessar o Cunene e o Caculevar, concentrando-se à volta do Forte Gambos. Devido a esta retirada os povos do Humbe revoltaram-se. Alves Roçadas foi, por isso, chamado a Portugal, embarcando em princípios de Maio de 1915.»

Do blog Aniceto Monteiro