quinta-feira, 14 de julho de 2011

Literatura colonial portuguesa: Mário Mota - Angola, Eu Quero Falar Contigo



Mário Mota (1916-1981), Angola, Eu Quero Falar Contigo (1962).

Poeta e ensaísta, Mário Mota começou por publicar o conjunto de canções Traço-de-União e os poemas Retrato e Três Tábuas, de que se desconhecem as datas. Seguiram-se-lhes os volumes de poemas Dom Alentejo (1939), Os Troncos e as Raízes (1954), Gonga: Poemas de Angola (1962), Humanidade (1977), Poemas para Florbela d'Alma (1979) e Verdura:Poemas a Sintra (1979).

O presente volume anuncia a publicação do livro de poemas Dança Negra, da colectânea Vida Poética e do conjunto de contos Estrada de Catete, mas não se encontram registos da publicação dessas obras sob estes títulos. É muito provável, no entanto, que Dança Negra corresponda ao livro Gonga: Poemas de Angola, pois o subtítulo é comum.

Na senda do que já tinha sido feito por outros autores, durante as décadas de 1930 e 1940, na revista O Mundo Português, Mário Mota publicou também como separata da revista Gil Vicente o seu contributo para uma lista da literatura colonial, intitulado Uma Bibliografia de Literatura Ultramarina (1969).

Seguindo embora uma carreira na aeronáutica civil, o autor colaborou na imprensa e na rádio, particularmente em Angola. O seu poema mais conhecido, A Palavra, foi traduzido em várias línguas e incluído nas antologias Phalanstere de la Poesie (Bélgica) e International Anthology (Reino Unido).

Do presente volume transcrevem-se o poema O Menino e um excerto de um poema evocativo do escritor são-tomense Costa Alegre (1864-1890; cf. http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/7316.html):

O MENINO

   A preta lavadeira já é mãe
   e a sua primeira preocupação
   foi mostrar o seu menino preto
   ao patrão
   e à senhora do patrão...

   O seu homem veio também.

   Ela vestiu panos estampados, novos, era mãe,
   Ele trazia o menino ao colo, aconchegado.

   Vinham contentes, ela gesticulando.

   Por fim chegaram.

   E discutiram entre os dois qual o primeiro a falar.

   E sorriram para o seu menino preto.
   Abriu a porta  a senhora do patrão.

   E os dois apenas disseram:

   O menino!

   Estava feita a apresentação.




COSTA ALEGRE

   (...)

   O poeta era negro
   e tinha pena de ser negro
   este poeta negro de São Tomé!

   Mas só a sua pele luzidia
   era negra,
   escura,
   sombria como o negrume da noite.
   Tudo o mais se expandia
   e refulgia no poeta em grandeza
   numa indiferença pela cor

   (...)

   Que tinha que fosse negra a sua cor
   e luzidia  sua pele?

   Não era a sua poesia de frescor
   não era cristalina a sua ansiedade?

   Porque odiaria o poeta a sua cor?

   Que tem que ver a cor
   de cada um
   se é igualmente humano
   o seu amor
   e igual a mesma dor
   seja qual for a cor?

   (...)
In © Blog da Rua Nove

Literatura colonial portuguesa: Gastão Sousa Dias , África Portentosa





Gastão Sousa Dias (1887-1955), África Portentosa (1926).
Ilustração para a capa de Tagarro (José Tagarro, 1902?-1931).

Autor de algumas dezenas de livros sobre África, essencialmente sobre a administração, a história e a política ultramarina, temáticas que Gastão de Sousa Dias legou-nos também algumas crónicas que bem evidenciam a sua capacidade literária, particularmente no relato de viagens e na descrição de territórios africanos.

Neste volume, que foi galardoado com o prémio do primeiro Concurso de Literatura Colonial, promovido pela Agência Geral das Colónias, essa característica é exemplificada nos capítulos intitulados Notas de Viagem, Nos Areais de Mossâmedes e Crónicas Africanas.

Aí se encontram páginas literárias de grande fluência e entusiasmo, descrevendo de forma singular as terras de Huíla e do sul de Angola, da Damaralândia e do Namibe, bem como os hábitos de caçadores, carreiros e agricultores dessas regiões.

Transcreve-se de seguida um pequeno excerto, um parágrafo, de Nos Areais de Mossâmedes:

"Somos ao todo uns vinte caçadores e nem uma palavra se aventura, todos dominados pela impressão estranha da ausência de vida, da escuridão, da planura rasa e negra sôbre que voamos. Nem o vulto duma planta, nem o vulto duma pedra! Marchamos por sobre uma superfície absolutamente plana, onde há a certeza de não encontrar senão areia compacta e firme, numa extensão de que não saberíamos dizer a profundidade. A vida deve ter morrido neste areal desolado e, não obstante irmos todos levados pelo desígnio de caçar, no nosso espírito forma-se a incredulidade de que seja possível encontrar um único ser da criação. Devoramos quilómetros. Uma pressa nervosa se apoderou dos chauffeurs. Dir-se ia que temos receio de perder um espectáculo de passageira duração."

© Blog da Rua Nove

Literatura Colonial Portuguesa: Henrique Galvão - Outras Terras, Outras Gentes

Capa (?) e ilustrações de Fausto Sampaio (datas desconhecidas).

Henrique Galvão (1895-1970), Outras Terras, Outras Gentes, 2.º volume, (1942?).

Embora os dois volumes que constituem esta obra sigam estritamente, na sua organização, o itinerário percorrido pelo autor em terras angolanas, a obra afasta-se do registo seco das meras notas de viagem, assumindo-se como literatura de viagens na sua acepção mais elaborada.

A este facto não será estranha a prática literária do autor, que na década anterior havia sido distinguida já com vários galardões no âmbito da literatura colonial.

Apresentando cinco capítulos – Moxico, berço de rios; Terras do Fim do Mundo, Do Cuangar à Huíla, pelo Bié; Para Aquém e para Além da Chela e Do Lubango a Luanda por terras de Oeste, este segundo volume mantém o modelo desenvolvido no primeiro, apresentando-nos o itinerário por terras de Angola como pretexto para diversas narrativas e descrições literariamente elaboradas.

Do capítulo Para Aquém e para Além da Chela trancrevem-se dois excertos:

"E ficou assente que o Fraga iria ao Cuanhama, aparentemente no exercício do seu míster de funante – mas na verdade, como espião.
O grande aventureiro não cabia em si de contente.
Tinha saüdades do Cuanhama, das viagens aventurosas, das incertezas em terra hóstil, do alerta constante dos sentidos.
Era um jogador especial – mas vicioso como todos os jogadores. Não o tentava arriscar dinheiro nas tavolagens, mas apaixonava-o jogar a vida em pleno naquela grande roleta do Cuanhama.
Desde que tinham sido proíbidas as viagens dos funantes para além do Cunene, metera-se a funar nas terras ocupadas. Ganhava mais e tinha menos canseiras – mas não era a mesma coisa. Tinha perdido o amor ao dinheiro desde que percebera que não era a fortuna que o tentava nas grandes aventuras do Cuanhama. Em compensação sabia-lhe melhor a vida quando tinha que a ganhar todos os dias contra a morte. Deslumbrava-o, saboreada assim, como uma vitória sempre fresca.
Por isso era um jogador – e especial, porque tinha o vício de jogar a vida.
Foi com alegria de criança que preparou os seus carros como dantes.
Encheu-os de fazenda e de presentes para o Mandume. E quando os viu atestados e prontos, montou o "Sultão" e abalou, remoçado e restituído à alegria de viver.
Os funantes eram assim. E se assim não fôssem não seriam funantes."



"À data da minha última viagem pelo Cuanhama, reinava, em termos bem diferentes, é claro, a sobrinha do Mandume – a Kalinaxo.
O Cuanhama era então, como hoje, apenas uma circunscrição de Angola – e a Kalinaxo, apenas uma raínha preta, muito dona dos seus gados e pouco raínha das suas gentes.
Era fina e manhosa.
Bebia champagne como o Mandume, mas preferia trajar à maneira dos seus: a n'ctuba assente sôbre as nádegas, o peito ressequido orgulhosamente nu, a manteiga escorrendo do cabelo e o perfume do leite azêdo a espalhar-se em volta.
Quando conversei com ela, tinha um ar irónico mas triste – um meio sorriso que assentava como um postiço na máscara melancólica.
Tinha razão. Ela conhecera a vida fulgurante do Mandume e comparava-a com a monotonia da sua. Trazia encarcerada na substância aventurosa de cuanhama, a ância das guerras, das razias, da prepotência e do domínio – e esmorecia na paz, sob a quietação bovina das manadas e na sucessão de dias iguais.
Era apenas uma Raínha de pastores, vassala pràticamente de um Chefe de Pôsto – ela, a sobrinha do Mandume, que fôra Chefe altivo e indomável de guerreiros e ladrões!
Compreendo perfeitamente a melancolia da Kalinaxo - muito melhor do que compreendo o orgulho dos civilizados do nosso tempo.
Quando comparo as qualidades e defeitos de homens como o Fraga e o Mandume, com as qualidades e os defeitos dos triunfadores da minha geração, choca-me, antes de mais nada, a antítese entre dois sistemas morais.
Acima dos defeitos dos primeiros – ou como qualidade dos seus defeitos – pairava o respeito pela coragem, a consideração pela valentia e o culto organizado do brio individual e colectivo.
No alto das qualidades dos segundos – ou como um defeito das suas qualidades – vingam o desprêzo pela coragem e pelo carácter e os processos de deformação da coluna vertebral."


 In
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Literatura colonial portuguesa: Engrenagens Malditas, por Reis Ventura



Capa de António Lino (1914-1996).


Reis Ventura (1910-1988), Engrenagens Malditas (1964; o cólofon indica que acabou de se imprimir em Fevereiro de 1965).

Com este romance, Reis Ventura inicia um percurso que se afasta da literatura com espaços narrativos exclusivamente centrados em África e em Angola, característica da sua produção do final da década anterior e do início da década de 1960.

Primeira obra ficcional do autor publicada depois do início da guerra colonial, procura traduzir uma reflexão sobre as engrenagens que levaram ao estabelecimento de uma nova ordem mundial, e a um reequilíbrio de poderes, após a II Guerra Mundial.

O próprio texto introdutório da obra reconhece ser esta uma obra de viragem no percurso do autor, ao afirmar – "Reis Ventura inicia, com este romance, uma nova incidência da sua actividade literária."

É de facto uma nova incidência, que marca uma ruptura com a anterior homogeneidade e qualidade literária da sua obra.

Ao lançar como protagonista do romance um jornalista angolano que relata as suas deslocações pelo mundo e regista as suas reflexões sobre as engrenagens malditas da política e da sociedade, que poderão estar na origem das sublevações em Angola, e no mundo, Reis Ventura perde-se num romance que aspira colocar demasiadas questões.

Do mesmo modo perde também a espontaneidade e harmonia de outras obras anteriores, prefigurando o exemplo do romance de antecipação Um Homem de Outro Mundo, também ele um livro onde o talento anteriormente demonstrado pelo autor se dispersa e perde.

Transcreve-se de seguida um pequeno excerto do romance:

"Nos escritórios da grande cadeia de jornais, instalados num décimo-quinto andar, não muito longe do Palácio de Vidro, o "ovo cósmico", como todos chamávamos ao nosso espertíssimo e calvíssimo administrador-delegado, desceu os pés da borda da secretária, estendeu-me apressadamente a mão bem tratada e convidou-me a entrar para o compartimento imediato, que era a sala das sessões. Na sala das sessões estavam todos os restantes membros do conselho de administração, menos o Presidente, que andava de visita à Alemanha Ocidental.
Era um grupo notável. Incluía o gordo Stevens, que tinha poços de  petróleo no Texas, o magríssimo Harold, considerado o melhor causídico de Nova Iorque, o melífluo Vaganou, de origem francesa, e o tonitroante Vaterplatz, nascido de emigrantes prussianos e agora dono da mais moderna aciaria do Ohio.
– Então a coisa começou em Angola? – disparou Stevens sem mais preâmbulos. – Conte-nos os factos.
– Há pouco para contar – respondi, surpreendido com a seriedade daquela conferência. E em meia dúzia de palavras, relatei-lhes o assalto de 4 de Fevereiro e o motim do Cemitério Novo.
– Muita tropa, em Luanda? – fez Vaganou displicentemente, enquanto acendia um dos seus caros charutos.
– Quase nenhuma. E a pequena guarnição de Luanda é constituída quase só por nativos.
– Hé! hé! hé!... – gargalhou ruidosamente Vaterplatz. – Os seus compatriotas são um pouco inconscientes, não são?...
– Os portugueses não se assustam com pouco – retorquiu [sic] serenamente. – Estão em África há vários séculos...
– Respeito o seu brio nacional – sussurrou Harold, com aquele ar tímido com que gostava de iniciar as suas grandes tiradas forenses. – Mas receio que os portugueses não estejam por muito mais tempo em Angola... Julgo até que muitos deles já o compreenderam. Parece que há pânico em Luanda...
– Não há pânico em Luanda e ninguém pensa em abandonar Angola! – afirmei, vincando bem as palavras. – Os últimos acontecimentos são destituídos de qualquer importância e não afectaram o moral das populações."
In
© Blog da Rua Nove

Literatura colonial portuguesa: "Filha de branco" de Reis Ventura




Reis Ventura (1910-1988), Filha de Branco (1960).
Capa de Neves e Sousa (Albano Neves e Sousa, 1921-1995).

Romance que completa uma trilogia de Reis Ventura – Cenas da Vida de [em; cf. citação abaixo] Luanda, que inclui as obras Quatro Contos por Mês (1955), Cidade Alta (1958?), para além do presente título, e antecede o ciclo das suas narrativas que já traduzem a realidade da luta pela independência, Filha de Branco é um retrato politicamente engajado e datado, mas notável, da mestiçagem, da vida nos bairros limítrofes de Luanda e do crescimento da cidade, entre as décadas de 1920 e 1950.

Tão significativa e expressiva como esse retrato é a introdução que o autor faz ao romance e que por isso se transcreve abaixo, quase na íntegra. Para uma breve apreciação genérica da obra de Reis Ventura ver http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/431.html e para referências particulares a outras obras ver A Grei (1941), http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/5206.html, e Engrenagens Malditas (1964), http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/10891.html.

"Com este romance, fecha-se o tríptico literário de cenas da vida em Luanda. Em 'Quatro contos por mês' esbocei figuras da classe média. Em 'Cidade Alta', tentei dar uma imagem da gente grada, com as suas virtudes e  vícios. Mas a parte mais original da cidade é a vasta área dos muceques. S. Paulo, Vila Clotilde, Muceque Rangel, Casa Branca – um formigueiro humano em que caldeia a Angola do futuro.

Existe um centro nervoso desta zona de contrastes: a Rua de S. Paulo. Ainda não é bem cidade; e já não pode chamar-se muceque. Há por ali lavadeiras pretas aposentadas, com casa arrendada ao branco. Mas quando reclamam a renda atrazada, tratam o inquilino por 'patrão'...

Bairros de transição, cheios de pitoresco e de imprevisto. Enorme lagar onde fermenta o país luso-tropical do porvir. Cubatas de adobe ao lado de vivendas modernas. Lojas do tempo da borracha e altos prédios de cimento armado. O branco fura-vidas, o preto civilizado, o calcinhas presumido, o mestiço e os seus complexos. A ronda dos esfomeados sexuais. A prostituição de várias cores. A luta pela vida. Tudo numa natural fusão das raças. Brancos e pretos na mesma rua, à mesma mesa, na mesma cama. – Uma ponte entre a cidade e o sertão. 

Larga e acolhedora ponte, aberta a todos os matizes de cor, a todos os graus de civilização e a todos os vícios e virtudes do homem. Ganância, coragem, iniciativa, lealdade, luxúria, egoísmo e crime. Um formidável cadinho humano!"




"Filha de branco, esta Luanda dos Muceques é uma estranha mistura de arraial minhoto e de batuque de sanzala, de mercado indígena e de feira algarvia. No seu panorama humano, juntam-se o rufia de Lisboa, o taberneiro da Beira, o preto da Liga Africana e o filho do antigo guerreiro dembo, que veio servir na casa do branco, trazendo uma medalha, que lhe deu o missionário, e uma tatuagem que lhe fez o feiticeiro...

Por entre os adultos, a população infantil acusa o progresso da fusão racial: crianças pretas, quase nuas, com umbigos do tamanho de nozes e garotos brancos, quase nus, de pele tostada pela ardência do sol – todos juntos, brincando com a areia das ruas sem asfalto, baptizados na mesma igreja, frequentando a mesma escola.

Pelas soleiras das portas, nos dois ou três degraus que sobem para as cubatas, velhas quitandeiras, catando os netos; nas ruas, moças bem torneadas, espreitando o homem; funcionários negros aposentados, gastando o tempo. Nos botequins e tabernas, rapazolas olheirudos, rentando a fêmea; 'bimbos' recém-chegados da Metrópole, à cata de emprego; mulatas donairosas, bamboleando os quadris; colonos do interior, discutindo negócios. Por toda a parte, a chusma preta, lidando ou preguiçando: contínuos, lavadeiras, criados, operários, cambuladores...

Balcões enodoados de vinho vendido a copo. Montras com panos garridos e quinquilharias vistosas. O grazinar constante das bicicletas motorizadas, a música alta dos rádios, o barulho insolente das carrinhas sonoras. De longe em longe, um polícia paternal e bonacheirão, com um pistolão que nunca sai do coldre.

E comércio, comércio, comércio! Uma taberna a cada esquina. Lojas a todo o correr das ruas. O branco atento às predilecções do preto. Os descendentes dos decobridores, servindo os netos dos antigo sobas rebeldes. O vinho alegre do Douro, embebedando pescadores da Ilha ou estivadores do porto. Mãos que arremessaram azagaias ou manejam a catana, agarradas a copos fabricados em Leiria. Velhos europeus das colunas de João de Almeida, aviando fregueses que lutaram na tropa fandanga do Caculo Caenda.

Zona de contínua fermentação. Excitante como um vinho mosto! Ambiciosa como rapariga mestiça, que tem no sangue a turbulência dos batuques, mas só quer um branco.

Filha de branco, que ficou só, e de preta que não quis resistir..."


Retirado de:
© Blog da Rua Nove

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Muxima: em homenagem ao Duo "Ouro Negro"

Cultura africana transmitida através de conversas embaixo de uma árvore, olhando o por do sol...



Este fantástico video fala-nos de tradições que são mantidas e passam de uma geração à outra, através de conversas embaixo de uma árvore vendo o por do sol. É a cultura de Africa na pureza do seu estado original...

ANGOLA, 1961

" DELÍRIO", poema de J. Galvão Balsa, in “Oiro e Cinza do Sertão”

 
DELÍRIO
Amanhecer na selva tropical!
- Um delírio de sol e sons e cor,
De verdes ressumantes de frescor,
De aromas vivos, dum olor sensual…

Delírio de asas, num bailado ideal,
De pássaros de exótica plumagem,
De borboletas de invulgar roupagem,
E de reflexos de águas de cristal.

Amanhecer de vozes pelo quimbo,
Fogueiras entre névoas de cacimbo
E corpos semi nus e reluzentes.

Delírio de África a encher sertões,
E a encher de luz, de sonhos e visões,
Meus olhos deslumbrados e contentes!

(Poesia de J. Galvão Balsa, in “Oiro e Cinza do Sertão”)

POEMA P’RA MINHA MÃE ÁFRICA , de H. Nascimento Rodrigues



  POEMA P'RA MINHA MÃE ÁFRICA


Minha Mãe África,
finalmente tu vieste.
Tu vieste como me fizeste:
Sem distância, horizonte sem fim,
O ar calmo, quase parado
Cheio de luar.
Ouço nos teus longes
O silêncio
O silêncio leve e sereno
Do reencontro comigo.
O silêncio que diz mil coisas,
Que são as mil coisas
Que eu digo a mim próprio.
Tu não tens fronteiras, Mãe África:
Mas tu estás aqui,
Aqui ao pé de mim,
Aqui dentro de mim.
És tu, sim,
Mãe África.
És tu como te conheci,
És tu como me fizeste.
Na noite que já caiu,
Noite longa e silenciosa,
Não fala homem,
Não ladra cão,
Não muge vaca,
Não chora cabrito.
Apenas este grilar,
Das centenas de cigarra,
Ou de formiga,
Ou de grilo,
Que me dizem que tu estás a viver.
E a tua vida entra dentro de mim,
E a minha fica maior,
E fico com mais vida para dar aos outros
E para dar a ti, também
Minha Mãe África.
Oh, minha Mãe África:
Eu não vou voltar,
De vez,
Nunca mais.
Mas eu quando volto assim,
Um bocadinho,
Para te ver e encontrar-
É como se fosse
Aquele dia
Em que eu voltasse de vez
É como se fosse aquele dia
Em que eu tinha o mundo dentro de mim,
Porque tu me davas o mundo
-Aos outros e a mim.
Nunca mais
Nunca mais,
Minha Mãe África.
Poderá voltar a ser assim,
Assim quando era ontem, que já não é hoje
E não será amanhã.
Mas deixa este bocadinho
De hoje:
-Como se fosse ontem
-E como se viesse a ser
AMANHÃ
H. Nascimento Rodrigues, S. Tomé e Príncipe, 6 de Dezembro 1984

"KALUNDU", poema por GERALDO DA BESSA VICTOR (POETA ANGOLANO)

KALUNDU


Ouves o vento a gemer,
no meio do mato, à noite,
sentes o vento a correr,
cada vez mais agitado?
zuu… zuu… zuu…
o vento tem kalundu…


ouves a leoa rugindo,
com ciúmes do leão,
com apetites de fera,
ouves a leoa bramindo?
uuu… uuu… uuu…
a leoa tem kalundu…


não vês o mar trovejando,
ameaçador, furibundo,
como se nele existissem,
enraivadas,
todas almas do outro mundo?...
não vês o mar rebramando?
uuuu… uuuu… uuuu…
o mar tem kalundu…


não vês o fogo incendiando
as libatas, as sanzalas,
as lavras, tudo arrasando?
não vês o fogo, o demónio,
que é o próprio belzebu
em forma de labareda?
o fogo tem kalundu…


não vês o sol, ao meio-dia,
quando é mais forte o verão,
quando o calor é mais forte,
o sol escaldando o chão,
dando febre a todas coisas,
- o sol que é fogo do inferno
além da vida e da morte?
o sol tem kalundu…
como tu!


- mas tu és mais do que o vento,
mais que a leoa, que o mar,
mais do que o sol e que o fogo,
quando está a batucar…


não há sol que queime tanto,
fogo que incendeie tanto,
como o teu olhar me queima,
me incendeia, o teu olhar,
que até me deixa em quebranto…


não há vaga, não há mar,
que ondeie tanto e requebre
como o teu corpo selvagem,
que é mais ligeiro que a lebre
e se torce mais que a cobra,
em fantástica manobra,
e mexe-se mais que o vento,
- teu corpo, forma de vento,
que baila e que faz bailar…


e as garras com que me prendes,
e em que me deixo prender,
não as possui a leoa;
porque o teu jugo não mata,
nem magoa,
mas dá vida e dá prazer!


quando tu danças cantando,
cantando e dançando assim,
batucando, batucando,
e a noite se faz mais negra
e o batuque não tem fim,
o teu corpo quase voando,
belo, sensual, ardente,
o teu dorso semi-nú…
… parece que a vida és tu!
e tu, e eu, toda a gente
à roda do teu batuque,
e tudo quanto nos cerca,
- tudo tem kalundu…



GERALDO DA BESSA VICTOR (POETA ANGOLANO)

domingo, 10 de julho de 2011

MANDUME NDEMUFAYO entre as autoridades inglesas, a quem se apresentou, após a fuga de Angola

O soba Mandume

A GUERRA EM ANGOLA


5. Execução das operações e ocupação do território do Baixo-Cunene (cont.)
O soba Mandume entre as autoridades inglesas, a quem se apresentou, após a fuga do território português



Ver também AQUI

e AQUI

segunda-feira, 4 de julho de 2011

FILHOS BRANCOS DE ANGOLA "PORTUGUESES DE SEGUNDA"...

  


"...Carlos Mário Alexandrino da Silva; natural de Luanda onde nasceu a 30 de Julho de 1925, filho de goês e de minhota; pai era coronel-médico onde fez toda a sua carreira desde capitão e onde se acha sepultado, figura muito conhecida, mestre da Maçonaria - Grande Oriente Lusitano Unido - e dilecto colaborador do antigo Alto Comissário General Norton de Mattos, foi sempre da esquerda e grande amigo e companheiro de luta democrática do velho Corrêa de Freitas fundador e director do jornal "A Província de Angola", destacando-se por suas pesquisas científicas e representação de Angola em Congressos Internacionais de Medicina Tropical; com Alberto Marques Mano Lemos de Mesquita e Fernando Santos e Castro foi fundador nos idos da década de 40 da Casa dos Estudantes de Angola, na Avenida Praia da Vitória, em Lisboa, e mais tarde, como evolução daquela que chamou a si estudantes de outras colônias passando a subdividir-se em secções e transferindo sua matriz para um edifício na Avenida Duque D'Avila, frente à recolha da Carris, da famosa casa dos Estudantes do Império que seria desactivada pela PIDE em fins da década de 50. Desde adolescente dedicou-se sempre a actividades desportivas e jornalísticas, foi colaborador directo de Etelvina Lopes de Almeida numa revista infantil por ela dirigida e pertencente à Renascença, do Diário Popular, do Diário do Norte, Notícias de Famalicão, da Revista do Ar (foi campeão nacional de Aeromodelismo com 13 anos de idade, piloto aviador civil do ACP e mais tarde director e instrutor do 1ºcurso de instrutores de Aeromodelismo do Secretariado da Aeronáutica Civil , tendo sido por isso louvado oficialmente em ordem de serviço pelo Director Geral, o então Coronel Tirocinado Piloto Aviador do CEM Humberto Delgado, de quem se tornou amigo), do Jornal do Ar, de O Volante e de outras publicações nacionais e estrangeiras de que viriam a destacar-se mais tarde a cadeia Argus, La Depêche de l'Air, de Lausana, A Província de Angola, Diário de Luanda, Notícias da Huila, Voz do Namibe, revista brasileira MANCHETE, JORNAL DO BRASIL, LUSO-AMERICANO de Newark-USA e o semanário católico A LUTA, da colônia portuguesa de Nova-Iorque, dirigido pelo Cónego Joseph Cacella, Notícias de Macau, O CLARIM da Diocese de Macau, Sunday Times e outros, tornando-se ainda conhecido comentarista político da Emissora Nacional de Radiodifusão, Emissora Oficial de Angola e outras radidifusoras."


Encontrámos na Net este interessante texto de que Carlos Mário Alexandrino da Silva foi autor: "FUA - FRENTE DE UNIDADE ANGOLANA: OPORTUNIDADE PERDIDA POR PORTUGAL PARTE V", 21.- PAPEL RELEVANTE NA IMPLANTAÇÃO DE RELAÇÕES DE IGUALDADE... E "KOVASO"! , do qual passaremos a transcrever algumas passagens, podendo o texto integral ser lido  AQUI  In Comunidade Lusófona

(...)


Com os olhos postos sobretudo em Angola e Moçambique, a ojeriza e desconfiança de Marcelo Caetano em relação aos brancos naturais dessas col
onias levaram-no, como ministro das Colônias, que apenas visitara durante breves dias as possessões portuguesas em África, a legislar normas limitativas de direitos civis aos naturais de todas as colónias que não fossem filhos de Portugueses originários de Portugal (reinóis); não podiam, por exemplo, concorrer aos cursos das escolas de oficiais das forças armadas nacionais, desempenhar funções de chefia, a nível superior, na administração pública colonial, etc., etc... Eram os chamados "portugueses de segunda classe"... Situação injusta que perdurou até à década de 60.... Sempre éramos enxergados com suspeição. No Hospital Militar Principal, em Lisboa, o autor destas linhas, antes de ser incorporado no curso de Oficiais Milicianos de Infantaria, em 1949, teve de sujeitar-se a uma junta de revisão para constatação de sua pureza racial "lusitana" uma vez que, sendo natural de Angola, seu pai (coronel-médico) e seu avô paterno (coronel de infantaria do extinto exército ultramarino - EU -) eram naturais de Pangim, Estado Português da Índia. Ao sermos interrogado pelo coronel-médico presidente da junta de revisão (racial), mentimos-lhe afirmando que aqueles nossos ancestrais eram brancos puros, descendentes diretos de reinóis (Portugueses originários de Portugal, leucodérmicos sem... mistura, que afinal quase todos se não todos os portugueses têm). Assim, porque esse médico militar nos deu crédito, pudemos ser admitido ao referido curso de oficiais de complemento...enterrando por algum tempo aquele velho "conselho portuga": quando vires um indiano e uma víbora, mata o indiano e deixa em paz a víbora...Por essa ocasião (segunda metade da década de 40), o melhor aluno cadete do curso de oficiais de artilharia da Escola do Exército (que viria a ser engenheiro fabril e brigadeiro mais tarde...), um natural de Goa, filho de um oficial superior ou general do extinto exército ultramarino mas descendente, isto é, mestiço, embora não-hindú, tendo-se descoberto (algum invejoso o teria delatado) que tinha ascendência indiana foi submetido a junta de revisão e a inquérito; durante algum tempo esteve tremida a sua permanência no curso... Ora, anteriormente a Caetano na pasta das Colônias, jamais alguém levantara esse problema e a prova estava em nosso próprio progenitor (já não falando mais nas várias gerações de avoengos) que, embora natural de Pangim e "descendente", atingira o posto de coronel-médico. Naquele tempo, nem o nosso primo-coirmão Mário Arnaldo de Jesús da Silva, hoje general de divisão do exército português, prémio Defesa Nacional, homem de confiança da JSN e de Costa Gomes em Angola depois da "revolução dos cravos", assessor militar especial do ex-primeiro ministro (de centro-direita que diz ser de centro-esquerda baralhando o escalograma de Guttmann...) Cavaco e Silva, nem o nosso tio e pai dele, também oficial, engenheiro fabril, se tentassem iniciar carreira no oficialato do exército jamais o teriam conseguido!!! Acabaram também, para os "notáveis" dentre nativos das colônias, integrantes das elites tradicionais, os postos honoríficos de oficiais de segunda linha das milícias tradicionais com que outrora (PARA POUPAR DESPESA E CONTAR COM A FIDELIDADE DE MILÍCIAS TRADICIONAIS) eram contemplados príncipes, sobas, sobetas africanos e liurais (reis) timorenses. O que se nos afigura mais estranho é o RUMOR de que Marcelo Caetano, como o denunciava seu tipo étnico e leptorrinia, seria também um descendente, segundo no-lo revelou em Lisboa, certa feita, um INFORMANTE DOS SERVIÇOS ESPECIAIS DA L.P. e soldado da Guarda Fiscal, Pompeu de Andrade (primo do Secretário Provincial de Obras Públicas de Angola, tenente-coronel engº da Força Aérea Carloto de Castro) que conhecia o pai do sucessor de Salazar, um cabo ou sargento da sua corporação que teria (não o estamos afirmando, note-se) servido na Índia onde casara com uma natural, "descendente", mãe de Marcelo Caetano; a ser verdadeira esta versão, Caetano seria também um... "mestiço", "um cu lavado" (na gíria racista portuguesa aplicada à nossa gente de Goa,"descendente", como o é o autor destas linhas embora seja nascido em Angola) e não um "reinol" puro! Estas achegas servem para se entender quanta razão assistia aos Angolanos BRANCOS e MESTIÇOS que quiseram lutar pela independência da terra em que haviam nascido e na qual eram também discriminados, humilhados e olhados com desconfiança por vários Portugueses preconceituosos (conquanto não se deva estereotipar essa pecha) de naturalidade européia. Portugueses esses que, como já fizemos sentir em outros ensaios, não podiam (nem podem) ser considerados.... "brancos" puros mas que, em não poucos casos, tal como se constata também no Brasil, sofrem dum "eugenismo" psicopatológico. Apenas o governador-geral Silvino Silvério Marques acabou com isso, protegendo angolanos e caboverdianos dessas injustas perseguições e do preconceito racial, seguido de Rebocho Vaz e de Santos e Castro. Isso preocupava o MPLA que em suas emissões radiofônicas do exterior, através da Radio Brazzaville, o maltratava denominando-o de "fusível" por ser muito magro...o que não conseguia roubar-lhe o prestígio de que gozava entre as massas africanas ( e não só nessas), mas que era mal visto pelo incompetente ministro das colônias Silva Cunha e sua clique de fofoqueiros e pajens bajuladores como o seu chefe de gabinete Joaquim Fonseca feito por ele "inspetor superior de administração colonial" sem nas colónias (Angola, donde era natural) ter sido mais do que... chefe de posto! Fez sua fulgurante "carreira colonial"... no gabinete equipado com aquecimento central e ar condicionado, alcatifado, do seu patrão, no "palácio" do Restêlo construido por vontade de Adriano Moreira com o ouro trazido de Goa à última hora, numa aeronave dos TAIP, que pertencia a depositantes particulares que jamais tiveram de volta esses valores confiados em Goa ao Banco Nacional Ultramarino antes da invasão armada da União Indiana, tal como os depositantes de dinheiros, de acordo com leis vigentes então, nos cofres da Fazenda da República Portuguesa em Angola, destinados a transferência legal para a Obra Social do Ministério do Ultramar e para o Cofre de Previdência do Ministério das Finanças muito antes da independência de Angola, viram ( até hoje) seus direitos ignorados e denegados arrogantemente pelos sucessivos governos ditos "democráticos" e "progressistas" posteriores ao "25 de Abril de 1974", dizendo-se que essas transferências não são reconhecidas...e portanto, todos ficaram sem os valores em escudos que legalmente haviam confiado ao Tesouro Português. Nós temos documento repugnante ( um ofício digno de ser utilizado apenas na privada do WC!) transmitindo o despacho de um zoilo "clown" dito "Secretário de Estado", tratado aburguesadamente por SUA EXCELÊNCIA, à "boa maneira" fascista, negando a restituição desse dinheiro que teria ficado com o "honesto" regime" de Luanda... "gerido" pelo MPLA. Isso é UMA VERGONHA!!! como diria o grande comentarista brasileiro da TV RECORD Boris Kasoy.


Era manifesto o descontentamento das gentes brancas do Centro e do Sul de Angola. Em Julho/Agosto de 1963 deslocamo-nos ali, integrados num grupo de 20 e poucos finalistas do curso superior de administração ultramarina - e, ao mesmo tempo, por despótica e arbitrária ordem do ministro Silva Cunha ao diretor do GNP, o competente e impecável inspetor superior Dr. Ângelo dos Santos Ferreira, em missão especial de observação e informação, embora estivéssemos oficialmente de licença disciplinar. Em Sá da Bandeira (Lubango) participamos de um jantar oferecido no melhor hotel da cidade pelo governador do distrito da Huíla, inspetor Laranjeira, do Quadro Administrativo. Presentes os nossos professores, Dr. Martins de Carvalho, ex-ministro da Saúde e Assistência, e Padre Abílio Lima de Carvalho, que acompanhavam a viagem dos finalistas do ISCSP/UTL patrocinada por várias empresas privadas. No discurso que proferiu, o governador Laranjeira, casado, com filhos nascidos em Angola, no desempenho daquele alto cargo há vários anos, não ocultou o seu angolanismo "cicronho" (do Sul), criticando a burocracia do governo geral, a mil quilômetros do Lubango e a ignorância do Terreiro do Paço (ministério das Colônias) e frisando que, por isso mesmo, qualquer problema demorava anos para ser resolvido; ele defendia a independência do Sul de Angola (e quem sabe se...até não seria simpatizante ou mesmo militante da FUA!) que teria condições para se tornar um país próspero e viável em todos os aspectos. Pouco tempo depois, essa sua franqueza pública valeu-lhe ter sido demitido do cargo de governador, por despacho ministerial ( de Silva Cunha), passando a ser apenas um simples inspetor administrativo...em Luanda, tendo como "território" somente uma mesa de trabalho na Inspeção Administrativa, em Luanda.

A concluir esta paupérrima contribuição para a Ecmnésia Histórica Colonial, cumpre-nos dizer que, face ao trágico panorama que, há quase cinco lustros, nos vem mostrando a desastrosa independência de Angola, atribuímos tudo isso não só à incapacidade e ignorância dos autores da chamada "descolonização exemplar" mas também à intolerância e à teimosia míope do ex-padre ditador Antônio de Oliveira Salazar (de estreita visão política colonial, mau assessoramento e muita rapacidade em prol da clique "judaico-lusitana") que não lhe permitiu enxergar quanto Portugal teria lucrado se tivesse acolhido, bem aproveitado e acarinhado, em devido tempo, ou seja, em seus primórdios, a FUA - FRENTE PARA A UNIDADE DOS ANGOLANOS. Poderia ter sido, essa, talvez, a mais equilibrada panacéia para a estruturação de uma unidade pacífica a bem do futuro dos povos daquele imenso e potencialmente rico território de 1.246.700 quilômetros quadrados, 14 vezes maior do que Portugal: a grande oportunidade arracial que a estupidez "portuga" perdeu e destruiu... em vez de chamar a si a tempo de evitar desvios.

Não fugiu Portugal, ou melhor, o seu governo, ao mau hábito peninsular (castelhano e lusitano) de impiedosamente, em nome da Fé CRISTÃ, esmagar ou castrar civilizações, nalguns casos até superiores como eram as dos INCAS e AZTECAS e as Orientais duma maneira geral, que conquistava pela força ou, à maneira espanhola, pela vil perfídia...

O historiógrafo tem como "pátria" a verdade dos fatos históricos pesquisados, doa ela a quem doer.

Não se escandalize, prezado leitor internauta, ao ler neste trabalho comentário ditados pela nossa "alma" formatando este texto de forma que para alguns será considerada "apatriótica" ou "anti-patriótica"... Mas, quem estas linhas escreve defende a verdade e só a verdade, doa ela a quem possa doer. Nós hoje, na diáspora voluntária (ninguém nos prendeu ou exilou) a que nos entregamos neste acolhedor e robusto filho de Portugal que é o Brasil, torcemos pelo lema "one planet, one people" bastante globalizante (o que está... em moda).

Há anos Alguém escreveu:"
"Daqui a poucos anos duas coisas se observarão em África: o progresso paralisado em muitas das suas extensões com a total ruína das economias, a degradação das populações, o horror das lutas intestinas, e experiências de colonialismo internacional, irresponsável, diante do qual o Preto, diplomado ou não, será apenas uma unidade estatística."

Esta declaração foi feita a um jornal francês , nos idos anos 60 (!), conforme nos referiu um nosso amigo e internauta que visita assiduamente este portal e a Ecmnésia Histôrica Colonial, por um político português que jamais visitou qualquer território colonial ou outro país além da vizinha Espanha numa rápida deslocação para ali ir assinar, com o Caudilho Francisco Franco, o ineficaz "Pacto Ibérico": o ex-padre ditador Antônio de Oliveira Salazar.

Carlos Mário Alexandrino da Silva
Lorena-SP, BRASIL, 01 de Janeiro de 2001

Esclarecimento: Na redação deste texto procuramos utilizar as regras ortográficas do português em uso no Brasil, nosso lar de eleição voluntária.

Texto Integral, Clicar a seguir   In Comunidade Lusófona

sexta-feira, 27 de maio de 2011

D. Anna Joaquina dos Santos e Silva e o tráfico ilícito de escravos de Angola no século XIX

“Prespectiva da Cidade de S. Paulo de Loanda no Reino de Angola”, 1825 
“Prespectiva da Cidade de S. Paulo de Loanda no Reino de Angola”, 1825
AHU, Iconografia Impressa

Conferência: D. Anna Joaquina dos Santos e Silva e o tráfico ilícito de escravos de Angola no século XIX
Conferencista: Lynne Duke (Escritora)
Resumo: Anna Joaquina dos Santos era uma grande comerciante, em Luanda, na primeira metade do século XIX. Ela representa uma classe de mulheres mestiças (e também negras) que ganhou riqueza e poder por via das relações estratégicas e românticas com negociantes homens estabelecidos, de Portugal ou do Brasil. Elas eram chamadas as "donas de Luanda," e Anna Joaquina era a mais famosa e, estima-se, também, a mais rica. Era conhecida pela ostentação e gastos generosos, incluindo durante a sua residência no Rio de Janeiro, onde adquiriu muitos imóveis. Durante sua vida (1788-1859) Anna Joaquina possuiu, pelo menos, 11 navios, incluindo muitos para a navegação atlântica. Na pesquisa realizada nos arquivos e bibliotecas de Lisboa, Luanda, Rio de Janeiro e Londres, e também na base de dados "Slavevoyages.com," documentaram-se nove viagens de comércio negreiro, nos seus navios, entre 1827 e 1846. Anna Joaquina estabeleceu, igualmente, feitorias em São Tomé, Cabinda, Ambriz, Cuanza, Novo Redondo, Quicombo, Benguela e Mossamedes. Enquanto os navios britânicos cruzavam o Atlântico para reprimir os negreiros, os navios de Anna Joaquina estavam entre as centenas que se furtavam a essa perseguição, e continuavam aquele "trafego odioso."
Curriculum viate: Lynne Duke é uma autora e jornalista, com uma carreira de vinte anos ao serviço do Washington Post, antes da sua aposentação, em 2008. Entre 1995 e 1999, dirigiu o escritório daquele jornal em Joanesburgo, na África do Sul, acompanhando o fim do "apartheid" e a transição para a democracia sob a direcção do Presidente Nelson Mandela. Tratou, igualmente, a queda de Mobutu Sese Seko, no Zaire, as guerras no Congo (Zaire), e no Rwanda, e o fim da guerra civil em Angola. Antes do Washington Post, trabalhou no Miami Herald, onde desenvolveu trabalho de investigação sobre o tráfico de drogas ilegais em Miami. O trabalho dela, em ambos os órgãos de comunicação social, foi várias vezes nomeado para o Pulitzer Prize, a mais alta distinção do jornalismo nos EUA. Lynne Duke é autora de Mandela, Mobutu and Me: A Newswoman's African Journey, Doubleday/Random House, 2003. Actualmente, está a preparar um livro intitulado The Baroness: A Woman Slaver and the Battle to End the Transatlantic Slave Trade, W.W. Norton, com data de publicação prevista para 2012. É formada em ciência política pela Universidade de Columbia, e mestre em jornalismo na Graduate School of Journalism da mesma universidade.
2011-04-28
ORIGEM

quarta-feira, 27 de abril de 2011

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Livro "Quarenta e cinco dias em Angola. Apontamentos de viagem" 1862

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Do Livro"Quarenta e cinco dias em Angola. Apontamentos de viagem" 1862,  retirei esta passagem onde o autor aponta alguns erros da administração portuguesa na colónia de Angola, e avança algumas "soluções", numa época em que, com o Decreto de Sá da Bandeira Portugal procurava ao tráfico ilegal de escravos e avançar para um outro paradigma, o do povoamento branco e desenvolvimento do território, confrontando-se com dificuldades de toda ordem. Estava-se a duas décadas da Conferência de Berlim (1884-1885).

"...Três metros de fazenda d'algodão estampada, um punhado de farinha de pau e uma pinga d'aguardente de canna (cachaça) são os únicos objectos de que necessita para se vestir e sustentar; uma cubata ou barraca composta de ramos de coqueiro e barro, que elle levanta com summa promptidão, serve-lhe d'abrigo e a suas companheiras: uma simples esteira estendida no chão é para elle um excellente leito em que o braço faz as vezes de travesseiro.

Para occorrer a tão diminuta despeza não necessita cansar-se muito, e não é raro encontrarem-se pretos a quem as pretas sustentam, sem que elles tenham mais alguma cousa a fazer, do que ir levando docemente uma vida patriarchal.

Cabe aqui fazer distincçao de uma certa raça de pretos que, com quanto não pertençam aos nossos estados, se acham em grande numero em Loanda, onde vão procurar trabalho.

Chamam-lhe Cabindas, por pertencerem a essa povoação que fica ao norte do Zaire. Esta gente occupa-se quasi exclusivamente em serviços marítimos: são elles que fornecem para Loanda, juntamente com os Muxi-Congos, a agua do Bengo, e que fazem todo o serviço da pequena cabotagem, e do porto. O escaler da alfandega é tripulado por doze Cabindas, que se tornam insupportaveis com a sua aborrecida cantilena

com que acompanham constantemente o movimento dos remos. Esta raça de pretos é sem duvida a mais activa e a mais útil que se encontra em Angola, onde prestam excellentes serviços ao commercio. Teem um cônsul em Loanda, e são governados na sua terra por um preto educado no Brazil, fallando varias linguas, e que se apresenta mui decentemente. Recebe n'uma soffrivel casa de habitação bem mobilada, e obsequeia todos quantos o procuram, mas para não desmerecer dassympathias dos seus patricios, habita n'uma cubata modestamente construida.

Todos os navios nacionaes e estrangeiros que chegam a Loanda costumam, para poupar as tripulações, tomar para o serviço de bordo uma companha de Cabindas, commandada pelo seu capitão. Muitas d'estas companhas conservam-se a bordo dos navios que teem de percorrer a costa,e alguns d'elles já teem vindo a Lisboa a bordo dos vapores da — União Mercantil — consta-me até que um d'estes para cá trouxe um íilho que tem a educar n'um collegio da capital.

Os Cabindas são summamente económicos, e como a bordo recebem a ração, e uma macuta por dia (cincoenta reis fracos), chegam a juntar dinheiro; julgo-os sóbrios, mas não de delicado paladar, porque a um d'elles vi, na força do verão, comer ao almoço pimentinhas com sal e bolaxa, beber em seguida a sua ração de cachaça, e ficou tão satisfeito como se tivesse tomado um sorvete.

N'uma conversa que tive com um Cabinda foi que vim no conhecimento do verdadeiro sentido que os pretos ligam á palavra — branco — pela qual nos dominam. Perguntei-lhe se quando estavam a bordo dos navios estrangeiros entendiam as linguas que lá lhes fallavam, e elle respondeu-me com certa presumpção: — Me falia flancé, inglês e língua de Manco.

Esta lingua de branco é a portugueza. Só nós somos considerados brancos, porque assim designaram os descobridores e conquistadores d'aquellas possessões, e só a elles é que os negros julgam pertencer esta denominação.

Os Cabindas, á semelhança de todos os mais pretos, são mui supersticiosos: fazem uso de pequenas manilhas de ferro para afugentar o feitiço, e algumas vezes lhes vi pintar com barro certos signaes na testa e nas fontes para combater dores de cabeça, que elles attribuem a effeitos diabólicos. Se todos os pretos da nossa possessão fossem tão industriosos como os da raça Cabinda, o commercio e a agricultura teriam por certo attingido em Angola um elevado grau de prosperidade, mas infelizmente dos outros nada se pôde esperar voluntariamente.

Que meios empregar para obrigal-os ao trabalho? Em vista das tendências dos nossos ministros para a abolição da escravidão, não ha senão um : é fazer-lhes crear necessidades, obrigando-os a andar vestidos e calçados, e a ter um modo de vida qualquer, para que possam ser úteis á sociedade.

Sei que esta é uma das reformas que tenciona introduzir o novo Governador Sebastião Lopes de Calheeiros, e se conseguir fazêl-o, Angola dará um largo passo no caminho do progresso e da civilisação.



É muito mal entendido quererem legislar e governar aquellas nossas possessões, com as nossas leis e códigos liberaes. Aquelle povo não está ainda bastante maduro, para poder ser governado constitucionalmente. Um estado composto na sua maioria de pretos boçaes, de degredados por toda a espécie de crimes, de negociantes em grande parte de má fé, sem educação, nem consciência, de muitos militares ambiciosos e pouco escrupulosos, não pôde civilisar-se, nem ser governado senão por um despotismo illustrado. Os Governadores

geraes que tentarem fazer algumas reformas necessárias, cortando abusos inveterados e que se encontram a cada passo em todos os ramos da administração publica, teem de combater uma opposição terrivel, porque aquelles que se julgarem assim feridos nos seus interesses, não

terão duvida em recorrer aos meios mais infames, para se desfazer de um homem que lhes pôde ser fatal. Se o Governador não poder pelo seu lado recorrer aos meios rigorosos e repressivos, ha de succumbir na lucta irremediavelmente.

É preciso dar força sufficiente a um só homem, para poder luctar com milhares d'elles ignorantes, ou corruptos. Permitta Deus que os nossos governantes se compenetrem de todas estas considerações: a boa escolha nos empregados a quem devem remunerar de forma que compense as privações e sofrimentos que para alli vão supportar, sem que tenham de recorrer a meios illicitos para adquirir fortuna, é a principal base para fundamentar o progresso e engrandecimento d'aquella Provincia, e só assim e por meio da religião poderemos cumprir a nossa missão, que é de civilisar e concorrer para a independência d'aquella terra.

Sei que esta ideia causa espanto a muita gente; mas se todos conhecessem mais de perto as nossas possessões, haviam de convir comigo, que a Africa civilisada e independente nos havia de oíFerecer mil outras vantagens que hoje não oferece pelo estado selvático em que ainda se acha.

Que perdemos nós com a independência do Brazil? Nada, absolutamente nada. Perderam sim os fdhos bastardos da casa real, os filhos segundos das casas titulares, os aventureiros e os protegidos a quem a corte dava os governos e os empregos das provincias como benefícios simples, mas as nossas transacções commerciaes continuaram como d'antes, e o Brazil, apesar da sua independência, não deixa de ser portuguez, e não cessará nunca de o ser em quanto alli se fallar a nossa lingua. Elles mesmos tanto o reconhecem, que já tentaram arranjar uma lingua brazileira, conseguindo apenas a pronuncia de um jocoso dialecto de preto.

Na actualidade as transacções commerciaes com o Brazil parecem de menor importância, porque se acham espalhadas por muito maior numero de negociantes, do que antes da independência; mas quando assim não

fosse, o monopólio dos portos já não é possivel, n'uma época em que nações fortes fabris empregam todos os meios para dar sabida aos seus productos. "


Do Livro “Quarenta e Cinco Dias em Angola”
pg 13

quarta-feira, 20 de abril de 2011

LIVRO "Estados novos, estado novo": ensaios de história política e cultural, Volume 1 Por Luís Reis Torgal



Para Lêr CLICAR AQUI

Outro livro do mesmo autor que, embora nada tenha directamente a ver com a História da Colonização de Angola,  ajuda a compreender  como funcionou o aparelho ideológico do Estado Novo  CLICAR AQUI



segunda-feira, 18 de abril de 2011

Fotos da colecção "Guerra dos Cuamatos" no sul de Angola, do Instituto de Investigação Científica Tropical


Assignatura [assinatura] do auto de entrega da bandeira portuguesa
a novo soba do Cuamata Grande 1915?

 O Governador Geral passando revista às tropas
1915?
 Acampamento 1915?

 Retrato de um grupo de sargentos

Grupo de sargentos 
  Retrato de um grupo de sargentos
Bois dos carros d'um comboio, no Aucongo

.Um comboio de víveros chegando ao Aucungo 17 Setembro
Quadrado nas Minas de Pembe 1915?

                  Grupo de Cuamatas - Entrada Grande
[Soldados junto a construção de madeira] 
Soldados junto a construção de madeira  1915?
Entrada de Mupilo. Lugar onde começou o fogo em 27

Auxiliares na entrada pequena
.Auxiliares na entrada pequena
Na Entrada Grande - 1/4 hora depois da tomada 
Na entrada Grande, 1/4 de hora depois da tomada

 Tropas a cavalo

 
Despojos de 1904
Ossada apanhada no Pembe - desastre de 1904
.Depois do combate de 4 d' Outubro (tomada da entrada do Cuamata Grande) - Uma amputação. O operador é o médico Fonseca, que faleceu no regresso no Forte Roçadas 1915?

Curativos  de doentes 1915?
 O Calipalula, guia da colunna [coluna] fidalgo do Cuaucal que serviu de guia à colunna com o seu sobrinho e criado 

A aceitação da bandeira portuguesa no Cuamato Grande, foi o culminar de uma série de campanhas militares – 1891, 1906, 1907, 1914 e 1915 – que terminaram com a ocupação definitiva, em 1915, efectuada sob comando do General Pereira de Eça. 

 Marino F. Pollatos Angola Collection: Guerra dos Cuamatas   Instituto de Investigação Científica Tropical
 
Sobre este assunto:
[De José Augusto Alves Roçadas em O Portal da História].


Ver AQUI  e também AQUI 

Ver AQUI    PORTAL DA HISTORIA
e também AQUI 
o Boletim Geral das Colónias 

Livro: O Guia do Colono. Africa Portuguesa.Por João Bentes Castel-Branco. 1891

 


                                                        Para abrir, Clicar AQUI

domingo, 17 de abril de 2011

As relações de Portugal com as suas colónias in Eça de Queiroz - "Uma campanha alegre"


As relações de Portugal com as suas colónias, são originais.
Ellas não nos dão rendimento algum:
nós não lhes damos um único melhoramento:
é uma sublime lucta - de abstenção!...
Quando muito, às vezes, a Metrópole remete às colónias, um governador:
Agradecidas, as colónias mandam à mãe pátria - uma banana.
E perante este grande movimento de interesse e de trocas, Lisboa exclama:
Que riqueza das nossas colónias!
Positivamente somos um povo de navegadores!"

Eça de Queiroz, in "Uma campanha alegre" - 1º volume - Lisboa - Pág. 162

segunda-feira, 11 de abril de 2011

A Doutrina do Choque by Muito Aterrorizado

Não tem propriamente a ver com o assunto que versa este blog, mas como directamente ou indirectamente o assunto interessa a todos...


A Doutrina do Choque from Muito Aterrorizado on Vimeo.


"É imperativo difundir este vídeo. Ponham nos vossos blogs, murais, mandem o link por mail, façam download. Primeiro caiu a Grécia, depois caiu a Irlanda, Portugal acabou de cair e a seguir é a Espanha. Para entender qual é o verdadeiro objectivo da consequência da entrada do FMI, é essencial ver este filme."


Tenha, pois a paciência de o ver até ao fim... É uma lição de História que nos ilucida como fomos conduzidos a estes tempos de austeridade, de neo-liberalismo selvagem e globalização que estamos viver.


VOZES CONTRA A GLOBALIZAÇÂO

A Igreja Evangélica Congregacional de Angola

Discurso e Prática Alternativa de Reconciliação Nacional e de Construção da Nação Angolana: O caso da Igreja Evangélica Congregacional de Angola: Dissertação de Cláudio Andrade da Conceição Tomás
Dissertação ver AQUI