sexta-feira, 15 de julho de 2011

Angola - DELIMITAÇÃO TERRITORIAL, MISSIONAÇÃO, COLONIZAÇÃO, INFRAESTRUTURAS BÁSICAS, ECONOMIA, PROBLEMAS SOCIAIS, GUERRILHA E INDEPENDÊNCIA

DELIMITAÇÃO TERRITORIAL

O navegador Diogo Cão aportou, na sua 2ª viagem, o Rio Zaire, no reino do Congo, em 1485,  e reconheceu a costa angolana até ao Cabo Negro, atual Luanda, colocando aí os padrões para testemunhar a presença portuguesa. Este reino e a parte litoral explorada até Luanda, ficaram subordinados ao Arquipelago de São Tomé e Príncipe, dado a sua proximidade e como centro de transito dos escravos. As terras litorais a sul do Rio Dande até 35 léguas ao sul do Rio Cuanza foram dadas como capitania ao Paulo Dias Novais em 1559, quando ali chegou com alguns jesuítas. Ele em 1576 fundou a povoação de Luanda  e construiu 3 fortalezas, governou durante 14 anos e morreu em 1589.

Em 1617 foi fundada a povoação de Benguela na costa litoral e  construídas fortalezas. Em  1641 os holandeses capturaram Luanda, mas os portugueses recuaram-se para o interior,  e ao fim de 7 anos em 1648 com o apoio de Salvador Correia de Sá, vindo do Brasil, expulsaram os holandes. Salvador Correia foi nomeado Governador, 1648-1652. Nos finais do século XVII o domínio costeiro expandiu-se para o interior e o reino indígena Ndongo ou Andongo tornaram-se protectorados portugueses e no sul fundaram uma feitoria e fortaleza em Caconda. Devido ao clima e alimentação, muitos dos expedicionários, jovens metropolitanos, açoreanos e madeirenses, morriam. Eram campanhas de ocupação local, mas, ao mesmo tempo de avançar com a ideia de ligar Angola a Moçambique, de cuja costa também partiam expedições para o interior.

Em  1790 deu-se a primeira ligação terrestre entre Angola e Moçambique, quando os mercadores mulatos, Pedro João Baptista e Amaro Noé, chamados Pombeiros, saindo de Cassenje alcançaram Tete, em Moçambique. Depois da revolução liberal,1820, os textos constitucionais enumeravam os domínios africanos como territórios espalhados pelas áreas afro-atlântico e índica, constituindo no seu conjunto três governos gerais: o de Cabo Verde e Guiné; o de Angola e o de Moçambique; e um governo particular: o de São Tomé e Príncipe e são João Baptista de Ajudá. Da África Ocidental constavam as parcelas de Bissau e Cacheu, o Forte de São João  Baptista de Ajudá; na Costa da Mina: Angola, Benguela e suas dependências, Cabinda e Molembo e as Ilhas de Cabo Verde e as de São Tomé e Príncipe. Na costa oriental africana indicavam-se Moçambique, Rios de Sena, Sofala, Inhambane, Quelimane e Cabo Delgado. No interior de  oeste para o leste não havia limites fixos e muito pouco se sabia ainda acerca dos vastos espaços interiores e das populações que os habitavam. Eram vastos espaços onde cruzavam-se as caravanas dos mercadores e traficantes africanos que traziam para a costa, cera, marfim, e outros produtos, e os escravos comprados nas feiras africanas ou nas fortalezas portuguesas disseminadas pelo interior. A ideia de unir a costa ocidental à costa oriental em 1831 é, de novo tentada. O major, José Maria Correia, com 400 mercadores e carregadores com objetivos económicos e geográficos saiu do Tete, Moçambique, seguindo a rota de 30 anos de Lacerda e Almeida,e atingiu Cazembe, entre Zámbia e Congo, regressando a Tete em 1832. Em 1850 o explorador português Silva Porto fixou-se no centro de Angola e fez explorações geográficas e económicas e atingiu a Zâmbia onde se encontrou com Livingstone, voltando a Angola por mar em 1854, e que mais tarde se suicidou quando algumas tribos locais se revoltaram contra Portugal por incitação inglesa. Na mesma época o naturalista Welwish ao serviço do governo português percorreu Angola e atingiu Cuando, outros partindo de Inhambane, Moçambique, atingiram Kugger National Park.

Em Angola como em Moçambique para reforçar as suas posições  na Foz do Luabo e em Tete, Portugal usou a política de aliança com os boers do Transval, adversários dos ingleses, e procedeu a exploração do Rio Cunene para evitar intromissões estrangeiras nas zonas costeiras do sul de Angola, alargando-se as fronteiras a leste com o Cassenje, a norte no Rio Congo e a sul no Rio Cunene.

A Sociedade de Geografia de Lisboa, criada em 1875, fomentou outras expedições, como as dos  oficiais da marinha, Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, os quais partindo em 1877 de Moçamedes, Angola, atingiram Quelimane, em Moçambique, fazendo a  viagem “De Angola à Contra Costa”. O Capitão Serpa Pinto saindo de Silva Porto, Angola, em 1877 chega a Zâmbia Central e atinge Transval e Durban em 1879, percorrendo parcialmente Moçambique; Henrique de Carvalho viajou de Malanje, Angola,  até ao Rio Cassai, em 1884-86.

Na Conferência de Berlim em 1885-1886, com base nestas explorações, Portugal reivindicou como seu o território desde as costas de Angola, da Foz do Zaire até a Foz do Rio Cunene, até Moçambique. Mas as  potencias europeias nessa conferência decidiram que a reivindicação devia ser apenas através de ocupação efectiva dos territórios  ultramarinos. A Grã-Bretanha fez o ultimato em Janeiro de 1890 e nos seus termos Portugal foi obrigado a renunciar parte do território ligando Angola à Moçambique (Zambézia e Rodésia), através do Tratado Luso-Britâncio de 1891. Com este entendimento com a Inglaterra, Portugal fez as campanhas militares de pacificação e de efectiva ocupação territorial, delimitando os seus limites definitivamente. Desde então, os alemães e ingleses cobiçaram Angola, Moçambique, Goa e Timor como compensação em caso de empréstimo português como divida pública. Os EUA queriam Açores. Em 1904 a Alemanha queria a totalidade das colónias portuguesas, mas o Tratado secreto de Windsor de 1899 entre Portuagl e Grã-Bretanha anulou o de 1898, entre Inglaterra e Alemanha.

MISSIONAÇÃO:

A missionação começou logo após a 2ª expedição de Diogo Cão em 1485. Em satisfação do pedido do respetivo rei, em  1490 chegou ao Congo a primeira  missão  constituida de 3 navios com artífices, sacerdotes e ferramentas, e foi construida  a primeira igreja, em S. Salvador do Congo, reino que tornou-se um protetorado português e seu rei com a família e a elite governamental converteram-se ao crisitianismo e adotaram por batismo os nomes católicos. O rei passou a ser Afonso I e surgiram nomes como Pedro, Francisco, Diogo, Afonso, Bernardo, Henrique e Álvaro, etc. A partir de 1512 foram para lá enviadas com regularidade missões com padres, mercadores e conselheiros e um grupo de jovens congoleses vieram a Portugal para formação cultural. Dos quais  Henriques foi ordenado sacerdote  e consagrado como  bispo de Utica e vigário-apostólico do Congo. Em 1682 foi criada  em Luanda uma Junta de Missões  com missionários capucinhos italianos, mas com fracos resultados devido ao clima e resistência do indígena a conversão. O século XVIII foi já de profunda decadência, principalmente com a expulsão dos jesuítas ordenada por Marques de Pombal. Depois da revolução liberal em Portugal nova decadência das Ordens Religiosas, paróquias, igrejas e missões interiores, excepto à partir de 1885, quando com as mudanças políticas na monarquia constitucional portuguesa houve aumento do pessoal missionário. À partir de 1910 de novo a situação piorou com a política anti-religiosa republicana e suprimento dos subsíduos estatais às missões, encerramento dos institutos religiosos, seminários, banimento do ensino religioso nas escolas e nacionalização dos bens eclesiásticos. Em Angola vários religiosos  que trabalhavam em Luanada e Moçamedes foram expulsos.

Com o Estado Novo, a partir de 1926 houve o renascimento  católico. Em Angola foram fundadas 29 novas missões até 1940. Em 1940 o governo assinou com a Santa Sé 3 acordos: A Concordata, Acordo Missionário e o Estatuto Missionário. Salazar referiu:"Não se pode por, entre nós, o problema de qualquer incompatibilidade entre a política da Nação e a liberdade de evangelização, pelo contrário, uma faz parte da outra. O governo condiciona a evangelização à formação patriótica do clero". É dentro deste espírito de cooperação estatal com a igreja que  de 1930 a 1960, mais de 20 Congregações missionárias enviaram pessoal para Angola: Beneditinos, Beneditinas, Doroteias, Irmãs do SS. Salvador, Irmãs de la Salette, Capuchinhos, Franciscanas Missionárias de Maria, Reparadoras, Teresianas, Redentoristas, Ordem Trapista, Irmãozinhos de Jesus, Irmãos Maristas, Irmãs do Amor de Deus, Dominicanas de Se. Catarina, Espiritanas, Missionárias Médicas de Maria, Dominicanas do Rosário, Irmãs da Misericórdia. E  1940 a 1968 o número de Padres angolanos passou de 8 a 71. Foi inaugurada no dia 8 de Dezembro de 1954, nas comemorações marianas, a primeira  Emissora Católica: Rádio Eclésia. Em Luanda de 1960-1975, as paróquias passaram de 5 a 14. Foram criados  novos seminários, e igrejas nas cidades e sedes das Missões.  A evangelização expandiu-se pelo território e em muitos lugares era uma autêntica pré-evangelização, sobretudo nas zonas onde viviam os indígenas, nativos vivendo segundo os usos tradicionais. Portugal Confiou a instrução dos indígenas às Missões Católicas. A partir de 1961 houve grande impulso na missionação e no ensino, mas estava longe de corresponder às necessidades da população indígena. O ensino indígena de duração de três anos começou por se chamar Ensino Rudimentar, mais tarde chamado de Ensino de Adaptação, findo o qual a criança era submetida ao exame oficial. O indígena, que queria aprender mais, tinha de ir para o seminário ou jogar futebol. As Missões eram um meio de difusão do catolicismo e de promoção das populações. A escola, a oficina e o trabalho rural, eram actividades que não faltavam na grande maioria das Missões. A Missão era frequentemente o único centro de ensino intelectual e profissional para a grande maioria das populações rurais.

Em 1961, foi fundado o Instituto de Educação e Serviço Social Pio XII, em Luanda, com orientação católica, tendo formado durante anos, assistentes sociais, educadoras de família e da infância. Os Serviços de Saúde solicitavam Irmãs para os hospitais, centros de saúde e dispensários. Proliferaram igualmente os Movimentos católicos: Apostolado da Oração, Legião de Maria, Cursos de Cristandande, Conferências Vicentinas, Escuteiros. Na década de 60, devido a construção civil, as  populações rurais deslocaram-se nos perímetros das cidades, onde motivou especial atenção por parte da Igreja, através do trabalho de evangelização desempenhado pelos catequistas, cuja formação cultural, pedagógica e religiosa, era feita em cursos de dois anos, seguindo as orientações do Vaticano II.

A partir do Acordo Missionário de 1940-1975 foram criadas as Arquidioceses de Luanda e as Dioceses de Nova Lisboa (Huambo), Silva Porto (Kwito-Bié), Sá de Bandeira (Lubango)- sendo seu 1º bispo D. Altino Ribeiro Santana do clero docesano goês -,Luso, Carmona e S. Salvador, Malanje, Henrique de Carvalho( Saurimo), Sumbe (NOvo Redondo),Serpa Pinto( Menongue) e Pereira de Eça ( Onjivae). O serviço religioso era prestado por padres europeus, euroafricanos e assimilados.

À medida que a guerrilha era confinada aos distritos de Cabinda, Zaire, Uije e Moxico foram construidas estradas asfaltadas, as quais facilitaram o contato e  a evangelização indígena. Com a descolonização de novo a igreja entrou em decadência e os padres diocesanos portugueses partiram quase todos para Portugal. Os Organismos Católicos despareceram e os serviços religiosso ficaram desorganizados, os seminarios vazios e o clero reduzido, na altura da independência.

Mas em 1977 o trabalho missionário retomou o seu antigo ritmo., novos missionários chegaram sobretudo da América Latina, A Igreja desenvolveu-se e aumentou o número de crianças da catequese. O número de seminaristas maiores duplicou. Nasceram as Congregações Religiosas Femininas de origem angolana. Os noviciados femininos passaram de 5 para 25. Apesar da guerra, a Igreja cresceu e desenvolveu-se.

NOTAS:
[1] Cfr. e., a. muaca, Breve História da Evangelização de Angola 1491-1991;Biblioteca Evangelização e Culturas, Cucujães, 1991; id., História sobre a Evangelização de Angola 1491-1991, Luanda, Oficinas Gráficas São José-CEAST- 1990; m. n. Gabriel, Angola Cinco séculos de Cristianismo, Braga, LITERAL, 1978.
[2]Cfr. e., a. muaca, Breve História da Evangelização de Angola 1491-1991;Biblioteca Evangelizaçõo e Culturas, Cucujães, 1991; id., História sobre a Evangelização de Angola 1491-1991, Luanda, Oficinas Gráficas São José-CEAST- 1990.
Conferência Episcopal de Angola e São Tomé: CEAST


COLONIZAÇÃO:  

O primeiro governador Paulo Dias de Novais recebeu em regime de donataria as terras entre o sul do Rio Dande e o sul do Rio Quanza e em 1575 levou 700 pessoas para colonizar as terras da sua capitania e  estabelecer em 6 anos cem famílias europeias, concedendo-lhes a terra em sesmarias não hereditárias e organizar um exército de 400 homens e construir 3 castelos. Os soldados, marinheiros, mercadores e ciganos para lá enviados nesse período misturaram-se com a população por miscegenação. Entre 1849 e 1884 voluntários vindos do Brasil e de Madeira fixaram-se em Moçámedes. Neste período  a emigração portuguesa orientava-se para o Brasil, com a convicção de que a África era hostil ao europeu.

As autoridades desde a monarquia constitucional e depois na República abordaram os problemas de atraso das populações africanas, do trabalho obrigatório e da discriminação racial no acesso aos cargos. Na década de 1920 foi aberto o primeiro liceu, Liceu Salvador de Correia, em Luanda, donde saíram na década de 1930 os primeiros ideólogos angolanos, Américo Machado,  Viriato Cruz e  António Agostinho Neto. Na área do combate as doenças tropicais, sendo governador, Norton de Matos, deu-se o Primeiro Congresso da Medicina Tropical.

Em 1930 a colonização europeia em Angola atingiu cerca de 58 000 pessoas. Na década de 1950 criaram dois colonatos europeus: Cela, no centro de Angola, e, Matala no sul de Angola. A par da colonização europeia na década de 1950 procurou-se a elevação dos indígenas de Angola, bem como dos territórios de Timor, São Tomé e Príncipe, Guiné, e Moçambique, em regime de cidadãos assimilados, desde que tivessem regras sociais ocidentais da população europeia, mestiça, ou mesmo negra, quando considerados civilizados, e desde que soubessem, ler e escrever português. Também nesta altura o acto colonial sofreu alterações e é anexado a Constituição de 1950 e os territóruos ultramarinos são designados de Províncias Ultramarinas. E neste sentido em 1961 o Ministro do Ultramar, Adriano Moreira, introduziu reformas para combater a discriminação derivada das subculturas, no entanto, como as reformas liberais no passado, na prática a sua aplicação  teve obstáculos porque a consciência colectiva, sobretudo das instituições civis, ainda não estava preparada, salvo excepções. A população estava estraficada: os europeus com mais privilégios do que os mestiços e africanos.

Na  década de 1960 criaram outros colonatos: colonatos negros; colonatos dos soldados; e colonatos de cabo-verdianos.  Para administração desses projectos de povoamento rural criaram as Junatas Provinciais de Povoamento. Com esta política na década de 1960 houve um grande afluxo da população europeia nas áreas citadinas.  A Lei Orgânica do Ultramar de 1972  conferiu a Angola e a Moçambique o Estatuto Territorial de Estados Ultramarinos.

A partir da Revolução de 25 de Abril de 1974 e durante a guerra pós independência em 1975 muitos cidadãos portugueses, sobretudo europeus, cerca de 800 000 abandonaram Angola.

Em Angola os maiores grupos etnográficos eram dos Umbundos no planalto de Benguela. Anbundus, no norte de Benguela, Congus ou Quicongos até ao interior do Congo Belga e no sul e ao oriente  os lundo-Quioca; Ganguelles, hereros, naneca-usubus, anebos e os xindongos no sw africano (Namíbia).

INFRAESTRUTURAS BÁSICAS:

A primeira povoação fundada foi Luanda em 1576 por Paulo Dias Novais, seguida da povoação litoral de Benguela, em 1617. Entretanto Luanda por volta de 1665  já tinha edifícios sumptuosos e um activo porto marítimo e as instituições administrativas básicas, de ouvidor-geral, provedor, secretário, juiz-de-fora. Marques De pombal ali criou o  celeiro público, alfândega e hospital e algumas povoações no interior, Ambaca, Macala, Malanje, povoações que mais tarde, após a Conferência de Berlim de 1884-85, ja tinham uma linha férrea ligando-ás as povoações litorais de Luanda, Lobito, Benguela e Moçamedes. O capital estrangeiro foi o dinamizador dessas obra públicas, como, construção de pontes, caminho-de-ferro, estradas e telégrafos, estudos hidrológicos no Baixo Zaire, em Cabinda e na Foz do Rio Cunene. De 1950-1974 foi o período de novos e elevados investimentos, dando-se início a instalação da primeira indústria têxtil, com fomento agrícola, florestal e pecuário, caminhos-de-ferro, portos e transportes marítimos e fluviais, estradas, pontes e aeroportos, urbanização, águas e saneamento, centrais hidroeléctricas e produção de energia eléctrica. Novas escolas oficiais foram abertas, por todo o território.

ECONOMIA:

Logo de início, desde 1458,  este reino de Congo e a parte litoral ficaram subordinados ao Arquipelago de S. Tomé e Príncipe, como fonte de escravos para mão-de-obra e mais tarde ao Brasil para exploração de cana-de-açúcar e das minas de ouro no século XVIII. Portugal abastecia os colonos e os reinos indígenas de Angola com têxteis, loiça, tabaco, facas, aguardente, sal, etc em troca de escravos e marfim. Para troca interna, sendo a moeda escassa usavam rectângulos de palha, sal, conchas, etc., mesmo para pagamento do pré-militar.

A decisão de Pombal em 1756 de decretar liberdade de comércio, reservado até aí apenas aos africanos, estimulou o povoamento e na agricultura  foram introduzidas as plantações de urzela e de pastel. Foram criadas uma fundição de ferro e indústria de couros. Apenas o trato dos escravos ficou como monopólio régio e escravos foram levados para as companhias de Pernambuco e Paraíba. Com as consequências da revolução industrial e dos ideias dos direitos do homem da revolução francesa a mão-de-obra escrava é combatida e em princípios do século XIX os barcos negreiros eram perseguidos pela marinha inglesa e portuguesa através da Estação Naval de Angola. Neste  período, além de combate a escravidão, o governo empenhou no ensino e no fomento da agricultura e foi fundada a imprensa oficial em Angola. Em 1834 venderam terras  para plantação de café na região de Cazengo, interior de Luanda, de cana-de-açúcar, nos oásis costeiros para fabrico de rum, e de algodão nas regiões do sul, com boa produção na primeira metade do década de 60, época de fome de algodão, com a guerra civil americana.

A burguesia colonial era formada de agentes directos dos poderosos mercadores residentes no Brasil e  de negociantes emigrados de Portugal e pelas grandes famílias crioulas implantadas em Angola, mantendo ligações estreitas com Portugal. Com o incemento de comércio externo foram introduzidos os direitos alfandegários  em áreas a que Portugal se achava com direitos, como o estuário do Congo, sobre exportações, e Luanda e Benguela abriram-se a navegação estrangeira, e foi concedida uma maior autonomia administrativa e municipal aos domínios ultramarinos. Foi banido o tráfico ilegal, que apesar do patrulhamento britâncio, reimplantou-se nos pontos de litoral como Ambriz e Moçamedes. Com a abolição da escravatura, acompanhada do conceito de cidadania da Carta Constitucional, e na convicção de que a mão-de-obra livre era mais eficiente que o trabalho escravo, na década de 1850 introduziram carros de bois no transporte de mercadorias e  carregadores no sector público e em 1854 o Conselho Ultramarino criou  um sistema de tutela aos libertos, mas na prática estas  medidas encontraram oposição e eram os próprios governadores os primeiros a contrariar.

Foi fundado o Banco Nacional Ultramarino em Luanda em 1864, com papel importante até a década de 70, na concessão dos empréstimos aos plantadores e mantendo estreita ligação com a rede mercantil de Lisboa, ao mesmo tempo atraindo capital, sobretudo inglês para fomento de navegação, caminhos-de-ferro e na exploração e exportação das minas de cobre de Bembe e na fundação da  Companhia de Navegação do Cuanza. Depois da Conferência de Berlim de 1884-1885 e graças às obras públicas realizadas, as grandes companhias estrangeiras desenvolveram a exploração de matérias-primas e produtos agrícolas, algodão, borracha, açúcar, café, chá, oleaginosas, sisal, cacau e a prospecção e exploração dos recursos minerais, e diamantes. Associadas as Companhias Estrangeiras surgiram  companhias coloniais portuguesas dedicadas a exportação dos produtos e a sua comercialização. Estas companhias também trasportavam para o império os produtos industriais metropolitanos vinhos e tecidos de algodão, produtos alimentares, conservas de carne, azeite, massas alimentícias, calçado, tintas, etc, como um prolongamento do mercado interno, e transportavam para Metrópole produtos africanos para exportação, via Lisboa, açúcar, caju, copra (de Moçambique), café, cera, borracha, açúcar (de Angola) e cacau (de São Tomé). Aos produtos vindos do ultramar em 1882 foi aplicada a pauta proteccionista.

Este desenvolvimento criou deficite nos orçamentos de Angola e de Moçambique, ficando o Estado endividado ao BNU e aos credores externos, causando inflação e desvalorização monetária, paralisando a actividade económica em Angola e em Moçambique, entre 1925-26. E os seus produtos eram inferiores em qualidade e caros, relativamente aos  produtos estrangeiros e, consequentemente, as suas exportações cairam. Esta situação  é agravado com as ideias expansionistas da África do Sul e pela crítica da Sociedade das Nações Unidas sobre o trabalho indígena. Para solucionar este problema  Salazar lançou a sua poltíca de rigor orçamental e de crédito público e as colónias tornam-se uma extensão importante do mercado interno para agricultura e industria transformadora  dos produtos agrícolas, pecuários, matérias-primas e minérios coloniais.

As pretensões revisionistas italo-alemãs  do Tratado de Versalhes de 1919 levaram  Mussolini em 1933 propor à Inglaterra a partilha das colónias portuguesas entre Alemanha e a Itália e entre 1935 e 1937 surgem boatos de entendimento germano-britânico relativamente a partilha de Angola e de Moçambique. Foi este motivo que levou Salazar a decretar o Acto Colonial, em que afirmou que o Estado não alienava nenhuma parcela do território colonial e restrigiu às concessões aos estrangeiros e às entidades particulares. Extinguiu altos-comissários e os substituiu por governadores-gerais, subordinados ao Ministro das Colónias ou ao Governo de Lisboa. Esta medida pôs fim  a autonomia financeira das colónias e o seu orçamento ficou a carecer da aprovação do Ministro das Colónias. Foram medidas de centralização e de equilíbrio das contas e defendeu "uma comunidade e solidariedade natural" entre a metrópole e as colónias. Este acto colonial mudou o rumo da colonização portuguesa na política, ideologia e instituições. Como resultado os mercados metropolitano e colonial sofrem grandes desenvolvimentos quantitativo e qualitativo durante a guerra e no pós-guerra. Com a  revisão constitucional de 1951, o acto colonial é lhe anexado com alterações e são acrescentados os conceitos de ultramar português e províncias ultramarinas. Ao mesmo tempo para  fomento ultramarino flexibilizou a politica de equilíbrio orçamental e tomou medidas para barateamento dos fretes dos transportes marítimos e modernização da frota mercante e intensificação da migração portuguesa para o ultramar. Também surgem reformas no regime de trabalho indígena tentando por côbro ao recrutamento compulsivo. O Estado e os empresários portugueses iniciaram exportações de capital para os territórios ultramarinos. É assim criado o Espaço Económico Comum português, que criou certa tensão com os adeptos da abertura preferencial à Europa. O EEC tinha a intenção de criar economias fortes em Angola e em Moçambique de modo a poder concorrer com o espaço metropolitano e nos mercados externos, baseando-se na igualdade económica das partes no Portugal pluricontinental e plurirracial. Por iniciativa estatal foram lançados ambiciosos planos de infra-estruturas ferroviárias, portuárias e aeroportos, estradas e pontes, pistas de aviação, desenvolvendo transportes marítimos,  fluviais e ligações aéreas "imperiais", bem como a urbanização, águas e saneamento, barragens, energia eléctrica e fomento das prospecções mineiras em Angola e em Moçambique. Estas obras foram concluidas com a ajuda do Plano Marshall, 1949-1951 e depois através dos Planos de Fomentos, I, II e III até 1974. A CUF fez a exploração das minas de cobre  e de outras matérias-primas e produtos agrícolas, com parcerias dos grupos Espírito Santo ou BNU, associados a interesses de prósperos colonos locais; procedeu-se ao fomento de missões científicas, geológicas, geográficas ou antropológicas; procedeu-se igualmente a abertura  de indústrias complementares e de apoio aos planos anteriores, Champalimaud instalou cimenteiras em Angola e em Moçambique e arrancaram as indústrias, têxteis, alimentares, carnes e bebidas, entre outras, dando grande incremento à produção industrial, fomento agrícola, florestal e pecuário, comércio externo, provocando o crescimento do PIB. Em 1972 surgiu o projecto de Sines a pensar no petróleo angolano.

Este desenvolvimento em Angola foi chamado  de “milagre económico” com um crescimento de 7% entre 1963 e 1973 contra 4% em média dos anos anteriores, e traduziu-se no significativo crescimento dos sectores transformador e extrativo, respetivamente nos produtos agrícolas  de sisal, açúcar e café, e  de diamantes, petróleo e minérios de ferro. virados ao mercado externo e ao consumo interno nas cidades europeizadas e dos contingentes militares e  das populações nativas. Igualmente cresce o sector de vestuário e de calçado. As empresas mais importantes eram:  CADA – Companhia Angola de Agricultura, SARL e a Sociedade Agrícola de Cassequel, Companhia dos Diamantes de Angola, a Companhia Mineira de Lobito, e a Cabinda Gulf Oil Company, dedicavam-se ao mercado externo. Na  produção ao mercado interno: Petrangol e a Cimento Secil, Fabrica de Bicicletas e Motorizadas, Ldª- FABIMOR, a Fáb. Tintas Dyrup de Angola, Lda, a Secil Marítima, SARL, a Angolan African Oxygen (fábrica de eléctrodos para soldaduras a gás) a Angotrónicas – Industria electrónicas do ultramar, a Sadat – sociedade Angola de acumulador Tudor e a Sterling Farmacêutica Portuguesa (Angola), CUCA – companhia união de cervejas de Angola, Companhia de Congo Agrícola, da Quintas & Irmãos, da Confiang, etc.

A guerrilha não teve impacto, apesar de deslocações forçadas das populações devido a guerra e da destruição dos sectores de economias tradicionais africanas, com perda de colheitas, envenenamento dos solos, etc. no processo de desenvolvimento angolano.

PROBLEMAS SOCIAIS, GUERRILHA E INDEPENDÊNCIA:

A partir de finais do século XIX à medida que se dá a expansão económica e abuso do poder e uso de força  sobre a mão-de-obra nativa  nas roças de café e de algodão há revoltas dos trabalhadores, por incumprimentos do horário do trabalho, atraso nos vencimentos, alimentação fraca e falta de condições de enfermagem, e que são brutalmente reprimidas:  revolta nos Dembos, no norte de Angola, em 1871-72; Insatisfeitos com a situação social 20% dos bacongos angolanos emigraram para o Congo, volta de 150 000. Na década de 1940  surgiu o movimento, tocoismo, de Simão Toco, político-religioso,  xenófobo e  inimigo do Estado, dos seus funcionários, dos médicos, dos missionários católicos e protestantes e de todos aqueles que trabalhavam com ele e queriam dominar os brancos e torna-los seus criados e Simão seria o chefe eleito pelo Salvador para salvar os pretos e para libertá-los da escravidão branca. Mas os seus dirigentes foram presos em 1949 e foram encarregados de recuperação da grande parte da populaçãpo do norte e foi concedido aos autóctones não assimilados a construção de novas escolas, alargamento dos programas escolares, reconstrução das aldeias destruídas pelos portugueses e os refugiados no Congo ex-Belga regressaram às suas terras e Toco viveu em liberdade vigiada em Luanda e depois foi deportado para os Açores com a sua mulher demente e dos seus 3 filhos e ali colocado como ajudante do faroleiro a 25 km de Ponta Delgada e com o 25 de Abril de 1974 regressou a Luanda em 31/8/1974.

Agitação entre trabalhadores contratados do Norte de Angola em 1956; revolta e greve dos trabalhadores das plantações algodoeiras da Baixa do Cassenje, no norte de Angola em 1956. E é neste contexto que surgem, influenciadas pelas ideias socialistas e comunistas, as primeiras organizações independentistas:  1954  Holden Roberto funda em Leopoldville a UPA, união dos povos de Angola - e depois a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) com o apoio norte-americano;  1955 é criado o Partido Comunista de Angola, por inspiração do Partido Comunista Português, com implantação em quadros brancos das cidades, que mais tarde foi designado de Movimento Popular para Libertação de Angola, MPLA. Em 1959 os cabindas, bacongos, criaram a Frente de Libertação do Envlave de Cabinda, FLEC. Entre 15 e 16/3/1961 UPA faz massacres das populações europeias e dos africanos na Baixa do Cassenje, como protesto contra o cultivo obrigatório de algodão e contra o atraso nos pagamentos de salários a trabalhadores nativos e destroem as sementes, pontes, armazéns, missões católicas, e que são duramente reprimidas pelo Exército e Força Aérea. As entidades oficiais fazem as primeiras ofensivas contra os militantes independentistas  e em 1960 são presos Agostinho Neto, líder do MPLA, e o padre Joaquim Pinto de Andrade; 4/2/1961 dá-se o ataque frustado dos nacionalistas para libertar  em Luanda os independentistas à instalações prisionais, causando diversos mortos e feridos. No funeral das vítimas dá origem a violenta perseguição e matança nos muceques da capital angolana.Destes  incidentes feito o relatório concluiu-se que a solução dos problemas era politico, económico e social, em ordem a findar os abusos e ilegalidades.

A FNLA implantada no norte de Angola recebia o apoio americano. O MPLA recebia o apoio da OUA, soviético e apoio militar cubano. Savimbi saído de FNLA com treino militar na China surgiu 1966 com a UNITA, união nacional para independencia total de Angola, e ataca o acminho-de-ferro de Benguela, vital para as exportações de Zâmbia, pelo que é expulso da Zâmbia e instala-se na fronteira. O MPLA abriu a nova frente no leste chefiada por Daniel Chipenda. A UNITA negoceou cessar-fogo com as forças portuguesas e tronou-se principal inimigo do MPLA.Para combater a guerrilha, em 1967 foram fundados os grupos especiais de contra guerrilha: FLECHAS, com bases em Serpa Pinto, Gago Coutinho, Carmona, Luso e Luanda, à volta de Caxito e  a guerrilha, foi confinanda aos distritos de Cabinda, Zaire, Uije e Moxico.

A aplicação das reformas levadas a cabo pelos republicanos e pelo Estado Novo, na prática não conseguiram os resultados esperados, a não ser com a  intervenção militar depois da eclosão da luta armada em 1961. A guerra de defesa do ultramar em Angola iniciada em 1961, durou 13 anos, com 3 455 mortos, até a democratização do Estado Português, pela Revolução de 25 de Abril de 1974. Os principais grupos armados, FNLA, MPLA e UNITA, foram transformados em partidos armados. E o  MFA, movimento das forças armadas portuguesas, iniciou conversações para transferência do poder em Alvor, em 1975, formando um governo provisório, incorporando os elementos dos mesmos. Este governo provisório, formado por partidos armados, com ideologias e interesses diferentes e antagónicos, entrou em conflito, dando origem a luta entre os partidos, que nos primeiros  3 meses, após provocar muitos mortos, culminou em 11/11/1975 pela proclamação unilateral pelo MPLA, em Luanda, da independência como Republica Popular de Angola, enquanto no mesmo dia em Ambriz, FNLA e UNITA proclamaram outro estado independente. O MPLA era apoiado pela União Soviética e pela Cuba militarmente e com participação de 3 000 militares cubanos, FNLA e UNITA eram apoiados pelos EUA, China, incluindo Coreia do Norte, Zaire e África do Sul, mas o Governo de MPLA teve reconhecimento do Governo Português, pelo que FNLA e UNITA passaram a guerrilha, e a  guerra alargou-se a todo o território, de nore a sul, e destruiu as infraestruturas e edifícios, e, causou milhares de mortos, mutilados, traumatizados, e deslocações das populações. Após o desmoronamento da União Soviética em 1989 foi feito acordo de paz entre UNITA e o MPLA em 31/5/1991, em Bicesse, Estoril, por intermédio de Portugal, EUA, Rússia e ONU, mas o conflito armado continuou e só terminou com a morte de Jonas Savimbi, líder da UNITA, em 2002, após mais de 25 anos de luta armada em todo o território angolano.

Em síntese pode-se afirmar que a guerrilha até à altura da democratização de Portugal, seja da Revolução dos Cravos - 25.04.1974, não conseguiu travar o desenvolvimento sócio-económico de Angola, que então já possuia quase todas as estruturas básicas administrativas para o seu pleno desenvolvimento, embora tenha causado durante os 13 anos de luta 3 455 mortos nas tropas da defesa de Angola. Mas, o período posterior à revolução de 25.04.1974, sobretudo depois de independência, até ao ano 2002, durante quase 27 anos, Angola com a guerra urbana generalizada, abrangendo todo o território, entre os partidos, MPLA, FNLA e UNITA, e aliciamento dos jovens e adultos para os exércitos partidários, minagem dos terrenos, etc.,  sofreu o seu maior desastre económico e social, causando a destruição e paralização administrativa, destruição das infraestruturas e edifícios públicos, paralização da agricultura, industrias, milhares de mortos, mutilados e traumatizados da guerra, deslocações das populações, etc. Infelizmente, pode-se daqui deduzir que a política das independências defendida pela ONU foi um verdadeiro falhanço porque não tomou em consideração que os sistemas políticos devem ser mantidos, aperfeiçoados e corrigidos, em vez de serem combatidos e substituidos pelos outros sistemas políticos, a não ser que os mesmos estejam em caos administrativo, social e económico.

Do site REFLEXÃO - CPLP - Comunidade dos Países da Língua Portuguesa

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Literatura colonial portuguesa: Augusto Casimiro - Nova Largada





Augusto Casimiro (1889-1967), Nova Largada (1929).
Capa de José Tagarro (1902?-1931).


Augusto Casimiro desde cedo evidenciou nos seus textos preocupação com os territórios africanos sob administração portuguesa, não deixando de equacionar a questão sob termos políticos e militares. Com efeito, os títulos de alguns dos seus primeiros livros deixam clara essa abordagem e a relação entre África e a participação portuguesa na I Grande Guerra – Nas Trincheiras da Flandres (1918), Sidónio Pais (1919), Portugal e o Mundo : Um Sentido Português (1921), Naulila: 1914 (1922).

A partir do final da década de 1920, mas sobretudo nas décadas de 1930 e 1940, este sentimento africanista de Augusto Casimiro acentua-se e, a par de obras de carácter eminentementemente político, como Cartilha Colonial (1936), passamos a encontrar obras de ficção que traduzem a sua preocupação em idealizar ficcionalmente uma presença portuguesa em África, talvez por oposição à sempre difícil implementação na prática de alguns conceitos eventualmente demasiado utópicos.

Surgem, então, obras como Alma Africana (193-?), Portugal Crioulo (1940) e Paisagens de África (194-?). Augusto Casimiro, no entanto, desenvolveu durante décadas um percurso poético que se revelou em diversos livros e acabou por ser compilado postumamente no volume Obra Poética, editado em 2001 pela Imprensa Nacional–Casa da Moeda.

Nova Largada surge-nos como uma narrativa a várias vozes, que se desenvolve quer através de excertos de diários quer através de excertos epistolares que são intercalados ao longo do desfiar da(s) história(s). Traduzindo  aspectos da vida em África após o final da I Grande Guerra, este romance insere-se claramente na problemática que se colocou à administração portuguesa dos territórios africanos no pós-guerra, como podemos constatar em algumas passagens da introdução do autor – "No desbrave de terras afastadas – colonos, soldados, funcionários, – homens do meu país servem as mais diversas actividades, ao sabor de objectivos nem sempre acordes e na obediência a nem sempre justas normas. Entre êles, sôbre o naufrágio dos incapazes, sempre, – no ambiente mais rude, no esfôrço mais fiel ao instinto, quando não à alma, sobresai [sic], impõe-se o temperamento, a fôrça que só nas terras novas é possível aos homens das velhas metrópoles."

A crítica implícita em algumas das afirmações anteriores torna-se posteriormente mais clara, quando o autor afirma – "Vi-os [aos homens do meu país], inimigos ou ignorantes das populações nativas, perturbar-lhes a disciplina orgânica, os sentimentos tradicionais, as possibilidades de devenir. Mas conheci-os também fieis a intenções magníficas de humanidade, verdadeiros construtores, não de impérios mas de humanidade, entre povos ainda desconfiados e hesitantes, marcados pelas hesitações ou violências do passado domínio."

Assim se deveria entender, então, a proposta contida no título – Nova Largada, uma largada, uma nova largada, para a construção de um império humanista, um império de humanidade.

In © Blog da Rua Nove

Literatura Colonial Portuguesa: Artur Augusto, A Grande Aventura




Artur Augusto [da Silva] (1912-1983), A Grande Aventura (1941).
Capa de Luís Dourdil (1914-1989).

Tendo nascido em Cabo Verde, Artur Augusto da Silva veio a passar a sua infância e adolescência entre Portugal e a Guiné. Alguns anos depois de concluir o curso de Direito, em Lisboa, partiu para Angola. Aí permaneceu durante o final dos anos trinta e início dos anos quarenta, radicando-se na Guiné no final dessa mesma década.

O percurso literário do autor iniciou-se em 1931 com o volume de poesia Mais Além e ficou marcado pela censura ao seu segundo livro, Sensuais / Helena Maria (1933), assinado com o pseudónimo Júlia Correia da Silva, um livro apreendido e destruído pela polícia.

Para além de outras obras de ficção e ensaio, Artur Augusto publicara já antes deste romance duas monografias sobre artistas portugueses – António Soares (1937) e Jorge Barradas (1938), a que se seguiu em 1944 novo volume – João Carlos: um artista do livro, uma monografia sobre o escritor e ilustrador João Carlos Celestino Gomes (1899-1960) [ver alguma da sua arte gráfica em http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/150192.html]. O interesse do autor pela pintura e ilustração não seria estranho ao facto de ser irmão de João Augusto da Silva (n. 1910), que havia escrito e ilustrado o volume Grandes Chasses [cf. http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/323322.html] para a exposição de Paris de 1937. Já depois de radicado na Guiné, Artur Augusto da Silva dedicou particular atenção às tradições e leis dos seus povos, tendo publicado, entre outros estudos, Usos e Costumes Jurídicos dos Fulas da Guiné Portuguesa  (1958) e Usos e Costumes Jurídicos dos Felupes da Guiné (1960).

Enquanto poeta, o autor colaborou com a revista Claridade, de Cabo Verde, e com as revistas Seara Nova e Vértice, entre outras.

O romance A Grande Aventura relata a viagem de um jovem para Angola, onde vai exercer um cargo administrativo, e a sua descoberta da vida em Luanda e no interior. Conclui-se com a decisão do jovem de permanecer no território, mesmo depois de a sua colocação ter sido cancelada. Aí, no final da narrativa, começa a sua grande aventura.

Pela obra perpassa a evocação directa da obra de João Augusto da Silva, no episódio da caçada, e a emoção da descoberta da grande África por um jovem. A tudo isto se sobrepõe o sentimento de dever colonial, bem expresso na dedicatória do romance – "Aos colonos d'África a quem devo a maior lição que um homem pode tomar: a de que não há merecimento na vida quando não sabemos conquista-la, hora a hora, com o nosso próprio sangue. A êsses homens obscuros que para ali vão, e morrem sem terem regressado a suas casas, como se cumprissem um destino."

In © Blog da Rua Nove

Literatura colonial portuguesa: Mário Mota - Angola, Eu Quero Falar Contigo



Mário Mota (1916-1981), Angola, Eu Quero Falar Contigo (1962).

Poeta e ensaísta, Mário Mota começou por publicar o conjunto de canções Traço-de-União e os poemas Retrato e Três Tábuas, de que se desconhecem as datas. Seguiram-se-lhes os volumes de poemas Dom Alentejo (1939), Os Troncos e as Raízes (1954), Gonga: Poemas de Angola (1962), Humanidade (1977), Poemas para Florbela d'Alma (1979) e Verdura:Poemas a Sintra (1979).

O presente volume anuncia a publicação do livro de poemas Dança Negra, da colectânea Vida Poética e do conjunto de contos Estrada de Catete, mas não se encontram registos da publicação dessas obras sob estes títulos. É muito provável, no entanto, que Dança Negra corresponda ao livro Gonga: Poemas de Angola, pois o subtítulo é comum.

Na senda do que já tinha sido feito por outros autores, durante as décadas de 1930 e 1940, na revista O Mundo Português, Mário Mota publicou também como separata da revista Gil Vicente o seu contributo para uma lista da literatura colonial, intitulado Uma Bibliografia de Literatura Ultramarina (1969).

Seguindo embora uma carreira na aeronáutica civil, o autor colaborou na imprensa e na rádio, particularmente em Angola. O seu poema mais conhecido, A Palavra, foi traduzido em várias línguas e incluído nas antologias Phalanstere de la Poesie (Bélgica) e International Anthology (Reino Unido).

Do presente volume transcrevem-se o poema O Menino e um excerto de um poema evocativo do escritor são-tomense Costa Alegre (1864-1890; cf. http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/7316.html):

O MENINO

   A preta lavadeira já é mãe
   e a sua primeira preocupação
   foi mostrar o seu menino preto
   ao patrão
   e à senhora do patrão...

   O seu homem veio também.

   Ela vestiu panos estampados, novos, era mãe,
   Ele trazia o menino ao colo, aconchegado.

   Vinham contentes, ela gesticulando.

   Por fim chegaram.

   E discutiram entre os dois qual o primeiro a falar.

   E sorriram para o seu menino preto.
   Abriu a porta  a senhora do patrão.

   E os dois apenas disseram:

   O menino!

   Estava feita a apresentação.




COSTA ALEGRE

   (...)

   O poeta era negro
   e tinha pena de ser negro
   este poeta negro de São Tomé!

   Mas só a sua pele luzidia
   era negra,
   escura,
   sombria como o negrume da noite.
   Tudo o mais se expandia
   e refulgia no poeta em grandeza
   numa indiferença pela cor

   (...)

   Que tinha que fosse negra a sua cor
   e luzidia  sua pele?

   Não era a sua poesia de frescor
   não era cristalina a sua ansiedade?

   Porque odiaria o poeta a sua cor?

   Que tem que ver a cor
   de cada um
   se é igualmente humano
   o seu amor
   e igual a mesma dor
   seja qual for a cor?

   (...)
In © Blog da Rua Nove

Literatura colonial portuguesa: Gastão Sousa Dias , África Portentosa





Gastão Sousa Dias (1887-1955), África Portentosa (1926).
Ilustração para a capa de Tagarro (José Tagarro, 1902?-1931).

Autor de algumas dezenas de livros sobre África, essencialmente sobre a administração, a história e a política ultramarina, temáticas que Gastão de Sousa Dias legou-nos também algumas crónicas que bem evidenciam a sua capacidade literária, particularmente no relato de viagens e na descrição de territórios africanos.

Neste volume, que foi galardoado com o prémio do primeiro Concurso de Literatura Colonial, promovido pela Agência Geral das Colónias, essa característica é exemplificada nos capítulos intitulados Notas de Viagem, Nos Areais de Mossâmedes e Crónicas Africanas.

Aí se encontram páginas literárias de grande fluência e entusiasmo, descrevendo de forma singular as terras de Huíla e do sul de Angola, da Damaralândia e do Namibe, bem como os hábitos de caçadores, carreiros e agricultores dessas regiões.

Transcreve-se de seguida um pequeno excerto, um parágrafo, de Nos Areais de Mossâmedes:

"Somos ao todo uns vinte caçadores e nem uma palavra se aventura, todos dominados pela impressão estranha da ausência de vida, da escuridão, da planura rasa e negra sôbre que voamos. Nem o vulto duma planta, nem o vulto duma pedra! Marchamos por sobre uma superfície absolutamente plana, onde há a certeza de não encontrar senão areia compacta e firme, numa extensão de que não saberíamos dizer a profundidade. A vida deve ter morrido neste areal desolado e, não obstante irmos todos levados pelo desígnio de caçar, no nosso espírito forma-se a incredulidade de que seja possível encontrar um único ser da criação. Devoramos quilómetros. Uma pressa nervosa se apoderou dos chauffeurs. Dir-se ia que temos receio de perder um espectáculo de passageira duração."

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Literatura Colonial Portuguesa: Henrique Galvão - Outras Terras, Outras Gentes

Capa (?) e ilustrações de Fausto Sampaio (datas desconhecidas).

Henrique Galvão (1895-1970), Outras Terras, Outras Gentes, 2.º volume, (1942?).

Embora os dois volumes que constituem esta obra sigam estritamente, na sua organização, o itinerário percorrido pelo autor em terras angolanas, a obra afasta-se do registo seco das meras notas de viagem, assumindo-se como literatura de viagens na sua acepção mais elaborada.

A este facto não será estranha a prática literária do autor, que na década anterior havia sido distinguida já com vários galardões no âmbito da literatura colonial.

Apresentando cinco capítulos – Moxico, berço de rios; Terras do Fim do Mundo, Do Cuangar à Huíla, pelo Bié; Para Aquém e para Além da Chela e Do Lubango a Luanda por terras de Oeste, este segundo volume mantém o modelo desenvolvido no primeiro, apresentando-nos o itinerário por terras de Angola como pretexto para diversas narrativas e descrições literariamente elaboradas.

Do capítulo Para Aquém e para Além da Chela trancrevem-se dois excertos:

"E ficou assente que o Fraga iria ao Cuanhama, aparentemente no exercício do seu míster de funante – mas na verdade, como espião.
O grande aventureiro não cabia em si de contente.
Tinha saüdades do Cuanhama, das viagens aventurosas, das incertezas em terra hóstil, do alerta constante dos sentidos.
Era um jogador especial – mas vicioso como todos os jogadores. Não o tentava arriscar dinheiro nas tavolagens, mas apaixonava-o jogar a vida em pleno naquela grande roleta do Cuanhama.
Desde que tinham sido proíbidas as viagens dos funantes para além do Cunene, metera-se a funar nas terras ocupadas. Ganhava mais e tinha menos canseiras – mas não era a mesma coisa. Tinha perdido o amor ao dinheiro desde que percebera que não era a fortuna que o tentava nas grandes aventuras do Cuanhama. Em compensação sabia-lhe melhor a vida quando tinha que a ganhar todos os dias contra a morte. Deslumbrava-o, saboreada assim, como uma vitória sempre fresca.
Por isso era um jogador – e especial, porque tinha o vício de jogar a vida.
Foi com alegria de criança que preparou os seus carros como dantes.
Encheu-os de fazenda e de presentes para o Mandume. E quando os viu atestados e prontos, montou o "Sultão" e abalou, remoçado e restituído à alegria de viver.
Os funantes eram assim. E se assim não fôssem não seriam funantes."



"À data da minha última viagem pelo Cuanhama, reinava, em termos bem diferentes, é claro, a sobrinha do Mandume – a Kalinaxo.
O Cuanhama era então, como hoje, apenas uma circunscrição de Angola – e a Kalinaxo, apenas uma raínha preta, muito dona dos seus gados e pouco raínha das suas gentes.
Era fina e manhosa.
Bebia champagne como o Mandume, mas preferia trajar à maneira dos seus: a n'ctuba assente sôbre as nádegas, o peito ressequido orgulhosamente nu, a manteiga escorrendo do cabelo e o perfume do leite azêdo a espalhar-se em volta.
Quando conversei com ela, tinha um ar irónico mas triste – um meio sorriso que assentava como um postiço na máscara melancólica.
Tinha razão. Ela conhecera a vida fulgurante do Mandume e comparava-a com a monotonia da sua. Trazia encarcerada na substância aventurosa de cuanhama, a ância das guerras, das razias, da prepotência e do domínio – e esmorecia na paz, sob a quietação bovina das manadas e na sucessão de dias iguais.
Era apenas uma Raínha de pastores, vassala pràticamente de um Chefe de Pôsto – ela, a sobrinha do Mandume, que fôra Chefe altivo e indomável de guerreiros e ladrões!
Compreendo perfeitamente a melancolia da Kalinaxo - muito melhor do que compreendo o orgulho dos civilizados do nosso tempo.
Quando comparo as qualidades e defeitos de homens como o Fraga e o Mandume, com as qualidades e os defeitos dos triunfadores da minha geração, choca-me, antes de mais nada, a antítese entre dois sistemas morais.
Acima dos defeitos dos primeiros – ou como qualidade dos seus defeitos – pairava o respeito pela coragem, a consideração pela valentia e o culto organizado do brio individual e colectivo.
No alto das qualidades dos segundos – ou como um defeito das suas qualidades – vingam o desprêzo pela coragem e pelo carácter e os processos de deformação da coluna vertebral."


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Literatura colonial portuguesa: Engrenagens Malditas, por Reis Ventura



Capa de António Lino (1914-1996).


Reis Ventura (1910-1988), Engrenagens Malditas (1964; o cólofon indica que acabou de se imprimir em Fevereiro de 1965).

Com este romance, Reis Ventura inicia um percurso que se afasta da literatura com espaços narrativos exclusivamente centrados em África e em Angola, característica da sua produção do final da década anterior e do início da década de 1960.

Primeira obra ficcional do autor publicada depois do início da guerra colonial, procura traduzir uma reflexão sobre as engrenagens que levaram ao estabelecimento de uma nova ordem mundial, e a um reequilíbrio de poderes, após a II Guerra Mundial.

O próprio texto introdutório da obra reconhece ser esta uma obra de viragem no percurso do autor, ao afirmar – "Reis Ventura inicia, com este romance, uma nova incidência da sua actividade literária."

É de facto uma nova incidência, que marca uma ruptura com a anterior homogeneidade e qualidade literária da sua obra.

Ao lançar como protagonista do romance um jornalista angolano que relata as suas deslocações pelo mundo e regista as suas reflexões sobre as engrenagens malditas da política e da sociedade, que poderão estar na origem das sublevações em Angola, e no mundo, Reis Ventura perde-se num romance que aspira colocar demasiadas questões.

Do mesmo modo perde também a espontaneidade e harmonia de outras obras anteriores, prefigurando o exemplo do romance de antecipação Um Homem de Outro Mundo, também ele um livro onde o talento anteriormente demonstrado pelo autor se dispersa e perde.

Transcreve-se de seguida um pequeno excerto do romance:

"Nos escritórios da grande cadeia de jornais, instalados num décimo-quinto andar, não muito longe do Palácio de Vidro, o "ovo cósmico", como todos chamávamos ao nosso espertíssimo e calvíssimo administrador-delegado, desceu os pés da borda da secretária, estendeu-me apressadamente a mão bem tratada e convidou-me a entrar para o compartimento imediato, que era a sala das sessões. Na sala das sessões estavam todos os restantes membros do conselho de administração, menos o Presidente, que andava de visita à Alemanha Ocidental.
Era um grupo notável. Incluía o gordo Stevens, que tinha poços de  petróleo no Texas, o magríssimo Harold, considerado o melhor causídico de Nova Iorque, o melífluo Vaganou, de origem francesa, e o tonitroante Vaterplatz, nascido de emigrantes prussianos e agora dono da mais moderna aciaria do Ohio.
– Então a coisa começou em Angola? – disparou Stevens sem mais preâmbulos. – Conte-nos os factos.
– Há pouco para contar – respondi, surpreendido com a seriedade daquela conferência. E em meia dúzia de palavras, relatei-lhes o assalto de 4 de Fevereiro e o motim do Cemitério Novo.
– Muita tropa, em Luanda? – fez Vaganou displicentemente, enquanto acendia um dos seus caros charutos.
– Quase nenhuma. E a pequena guarnição de Luanda é constituída quase só por nativos.
– Hé! hé! hé!... – gargalhou ruidosamente Vaterplatz. – Os seus compatriotas são um pouco inconscientes, não são?...
– Os portugueses não se assustam com pouco – retorquiu [sic] serenamente. – Estão em África há vários séculos...
– Respeito o seu brio nacional – sussurrou Harold, com aquele ar tímido com que gostava de iniciar as suas grandes tiradas forenses. – Mas receio que os portugueses não estejam por muito mais tempo em Angola... Julgo até que muitos deles já o compreenderam. Parece que há pânico em Luanda...
– Não há pânico em Luanda e ninguém pensa em abandonar Angola! – afirmei, vincando bem as palavras. – Os últimos acontecimentos são destituídos de qualquer importância e não afectaram o moral das populações."
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Literatura colonial portuguesa: "Filha de branco" de Reis Ventura




Reis Ventura (1910-1988), Filha de Branco (1960).
Capa de Neves e Sousa (Albano Neves e Sousa, 1921-1995).

Romance que completa uma trilogia de Reis Ventura – Cenas da Vida de [em; cf. citação abaixo] Luanda, que inclui as obras Quatro Contos por Mês (1955), Cidade Alta (1958?), para além do presente título, e antecede o ciclo das suas narrativas que já traduzem a realidade da luta pela independência, Filha de Branco é um retrato politicamente engajado e datado, mas notável, da mestiçagem, da vida nos bairros limítrofes de Luanda e do crescimento da cidade, entre as décadas de 1920 e 1950.

Tão significativa e expressiva como esse retrato é a introdução que o autor faz ao romance e que por isso se transcreve abaixo, quase na íntegra. Para uma breve apreciação genérica da obra de Reis Ventura ver http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/431.html e para referências particulares a outras obras ver A Grei (1941), http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/5206.html, e Engrenagens Malditas (1964), http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/10891.html.

"Com este romance, fecha-se o tríptico literário de cenas da vida em Luanda. Em 'Quatro contos por mês' esbocei figuras da classe média. Em 'Cidade Alta', tentei dar uma imagem da gente grada, com as suas virtudes e  vícios. Mas a parte mais original da cidade é a vasta área dos muceques. S. Paulo, Vila Clotilde, Muceque Rangel, Casa Branca – um formigueiro humano em que caldeia a Angola do futuro.

Existe um centro nervoso desta zona de contrastes: a Rua de S. Paulo. Ainda não é bem cidade; e já não pode chamar-se muceque. Há por ali lavadeiras pretas aposentadas, com casa arrendada ao branco. Mas quando reclamam a renda atrazada, tratam o inquilino por 'patrão'...

Bairros de transição, cheios de pitoresco e de imprevisto. Enorme lagar onde fermenta o país luso-tropical do porvir. Cubatas de adobe ao lado de vivendas modernas. Lojas do tempo da borracha e altos prédios de cimento armado. O branco fura-vidas, o preto civilizado, o calcinhas presumido, o mestiço e os seus complexos. A ronda dos esfomeados sexuais. A prostituição de várias cores. A luta pela vida. Tudo numa natural fusão das raças. Brancos e pretos na mesma rua, à mesma mesa, na mesma cama. – Uma ponte entre a cidade e o sertão. 

Larga e acolhedora ponte, aberta a todos os matizes de cor, a todos os graus de civilização e a todos os vícios e virtudes do homem. Ganância, coragem, iniciativa, lealdade, luxúria, egoísmo e crime. Um formidável cadinho humano!"




"Filha de branco, esta Luanda dos Muceques é uma estranha mistura de arraial minhoto e de batuque de sanzala, de mercado indígena e de feira algarvia. No seu panorama humano, juntam-se o rufia de Lisboa, o taberneiro da Beira, o preto da Liga Africana e o filho do antigo guerreiro dembo, que veio servir na casa do branco, trazendo uma medalha, que lhe deu o missionário, e uma tatuagem que lhe fez o feiticeiro...

Por entre os adultos, a população infantil acusa o progresso da fusão racial: crianças pretas, quase nuas, com umbigos do tamanho de nozes e garotos brancos, quase nus, de pele tostada pela ardência do sol – todos juntos, brincando com a areia das ruas sem asfalto, baptizados na mesma igreja, frequentando a mesma escola.

Pelas soleiras das portas, nos dois ou três degraus que sobem para as cubatas, velhas quitandeiras, catando os netos; nas ruas, moças bem torneadas, espreitando o homem; funcionários negros aposentados, gastando o tempo. Nos botequins e tabernas, rapazolas olheirudos, rentando a fêmea; 'bimbos' recém-chegados da Metrópole, à cata de emprego; mulatas donairosas, bamboleando os quadris; colonos do interior, discutindo negócios. Por toda a parte, a chusma preta, lidando ou preguiçando: contínuos, lavadeiras, criados, operários, cambuladores...

Balcões enodoados de vinho vendido a copo. Montras com panos garridos e quinquilharias vistosas. O grazinar constante das bicicletas motorizadas, a música alta dos rádios, o barulho insolente das carrinhas sonoras. De longe em longe, um polícia paternal e bonacheirão, com um pistolão que nunca sai do coldre.

E comércio, comércio, comércio! Uma taberna a cada esquina. Lojas a todo o correr das ruas. O branco atento às predilecções do preto. Os descendentes dos decobridores, servindo os netos dos antigo sobas rebeldes. O vinho alegre do Douro, embebedando pescadores da Ilha ou estivadores do porto. Mãos que arremessaram azagaias ou manejam a catana, agarradas a copos fabricados em Leiria. Velhos europeus das colunas de João de Almeida, aviando fregueses que lutaram na tropa fandanga do Caculo Caenda.

Zona de contínua fermentação. Excitante como um vinho mosto! Ambiciosa como rapariga mestiça, que tem no sangue a turbulência dos batuques, mas só quer um branco.

Filha de branco, que ficou só, e de preta que não quis resistir..."


Retirado de:
© Blog da Rua Nove

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Muxima: em homenagem ao Duo "Ouro Negro"

Cultura africana transmitida através de conversas embaixo de uma árvore, olhando o por do sol...



Este fantástico video fala-nos de tradições que são mantidas e passam de uma geração à outra, através de conversas embaixo de uma árvore vendo o por do sol. É a cultura de Africa na pureza do seu estado original...

ANGOLA, 1961

" DELÍRIO", poema de J. Galvão Balsa, in “Oiro e Cinza do Sertão”

 
DELÍRIO
Amanhecer na selva tropical!
- Um delírio de sol e sons e cor,
De verdes ressumantes de frescor,
De aromas vivos, dum olor sensual…

Delírio de asas, num bailado ideal,
De pássaros de exótica plumagem,
De borboletas de invulgar roupagem,
E de reflexos de águas de cristal.

Amanhecer de vozes pelo quimbo,
Fogueiras entre névoas de cacimbo
E corpos semi nus e reluzentes.

Delírio de África a encher sertões,
E a encher de luz, de sonhos e visões,
Meus olhos deslumbrados e contentes!

(Poesia de J. Galvão Balsa, in “Oiro e Cinza do Sertão”)

POEMA P’RA MINHA MÃE ÁFRICA , de H. Nascimento Rodrigues



  POEMA P'RA MINHA MÃE ÁFRICA


Minha Mãe África,
finalmente tu vieste.
Tu vieste como me fizeste:
Sem distância, horizonte sem fim,
O ar calmo, quase parado
Cheio de luar.
Ouço nos teus longes
O silêncio
O silêncio leve e sereno
Do reencontro comigo.
O silêncio que diz mil coisas,
Que são as mil coisas
Que eu digo a mim próprio.
Tu não tens fronteiras, Mãe África:
Mas tu estás aqui,
Aqui ao pé de mim,
Aqui dentro de mim.
És tu, sim,
Mãe África.
És tu como te conheci,
És tu como me fizeste.
Na noite que já caiu,
Noite longa e silenciosa,
Não fala homem,
Não ladra cão,
Não muge vaca,
Não chora cabrito.
Apenas este grilar,
Das centenas de cigarra,
Ou de formiga,
Ou de grilo,
Que me dizem que tu estás a viver.
E a tua vida entra dentro de mim,
E a minha fica maior,
E fico com mais vida para dar aos outros
E para dar a ti, também
Minha Mãe África.
Oh, minha Mãe África:
Eu não vou voltar,
De vez,
Nunca mais.
Mas eu quando volto assim,
Um bocadinho,
Para te ver e encontrar-
É como se fosse
Aquele dia
Em que eu voltasse de vez
É como se fosse aquele dia
Em que eu tinha o mundo dentro de mim,
Porque tu me davas o mundo
-Aos outros e a mim.
Nunca mais
Nunca mais,
Minha Mãe África.
Poderá voltar a ser assim,
Assim quando era ontem, que já não é hoje
E não será amanhã.
Mas deixa este bocadinho
De hoje:
-Como se fosse ontem
-E como se viesse a ser
AMANHÃ
H. Nascimento Rodrigues, S. Tomé e Príncipe, 6 de Dezembro 1984

"KALUNDU", poema por GERALDO DA BESSA VICTOR (POETA ANGOLANO)

KALUNDU


Ouves o vento a gemer,
no meio do mato, à noite,
sentes o vento a correr,
cada vez mais agitado?
zuu… zuu… zuu…
o vento tem kalundu…


ouves a leoa rugindo,
com ciúmes do leão,
com apetites de fera,
ouves a leoa bramindo?
uuu… uuu… uuu…
a leoa tem kalundu…


não vês o mar trovejando,
ameaçador, furibundo,
como se nele existissem,
enraivadas,
todas almas do outro mundo?...
não vês o mar rebramando?
uuuu… uuuu… uuuu…
o mar tem kalundu…


não vês o fogo incendiando
as libatas, as sanzalas,
as lavras, tudo arrasando?
não vês o fogo, o demónio,
que é o próprio belzebu
em forma de labareda?
o fogo tem kalundu…


não vês o sol, ao meio-dia,
quando é mais forte o verão,
quando o calor é mais forte,
o sol escaldando o chão,
dando febre a todas coisas,
- o sol que é fogo do inferno
além da vida e da morte?
o sol tem kalundu…
como tu!


- mas tu és mais do que o vento,
mais que a leoa, que o mar,
mais do que o sol e que o fogo,
quando está a batucar…


não há sol que queime tanto,
fogo que incendeie tanto,
como o teu olhar me queima,
me incendeia, o teu olhar,
que até me deixa em quebranto…


não há vaga, não há mar,
que ondeie tanto e requebre
como o teu corpo selvagem,
que é mais ligeiro que a lebre
e se torce mais que a cobra,
em fantástica manobra,
e mexe-se mais que o vento,
- teu corpo, forma de vento,
que baila e que faz bailar…


e as garras com que me prendes,
e em que me deixo prender,
não as possui a leoa;
porque o teu jugo não mata,
nem magoa,
mas dá vida e dá prazer!


quando tu danças cantando,
cantando e dançando assim,
batucando, batucando,
e a noite se faz mais negra
e o batuque não tem fim,
o teu corpo quase voando,
belo, sensual, ardente,
o teu dorso semi-nú…
… parece que a vida és tu!
e tu, e eu, toda a gente
à roda do teu batuque,
e tudo quanto nos cerca,
- tudo tem kalundu…



GERALDO DA BESSA VICTOR (POETA ANGOLANO)

domingo, 10 de julho de 2011

MANDUME NDEMUFAYO entre as autoridades inglesas, a quem se apresentou, após a fuga de Angola

O soba Mandume

A GUERRA EM ANGOLA


5. Execução das operações e ocupação do território do Baixo-Cunene (cont.)
O soba Mandume entre as autoridades inglesas, a quem se apresentou, após a fuga do território português



Ver também AQUI

e AQUI

segunda-feira, 4 de julho de 2011

FILHOS BRANCOS DE ANGOLA "PORTUGUESES DE SEGUNDA"...

  


"...Carlos Mário Alexandrino da Silva; natural de Luanda onde nasceu a 30 de Julho de 1925, filho de goês e de minhota; pai era coronel-médico onde fez toda a sua carreira desde capitão e onde se acha sepultado, figura muito conhecida, mestre da Maçonaria - Grande Oriente Lusitano Unido - e dilecto colaborador do antigo Alto Comissário General Norton de Mattos, foi sempre da esquerda e grande amigo e companheiro de luta democrática do velho Corrêa de Freitas fundador e director do jornal "A Província de Angola", destacando-se por suas pesquisas científicas e representação de Angola em Congressos Internacionais de Medicina Tropical; com Alberto Marques Mano Lemos de Mesquita e Fernando Santos e Castro foi fundador nos idos da década de 40 da Casa dos Estudantes de Angola, na Avenida Praia da Vitória, em Lisboa, e mais tarde, como evolução daquela que chamou a si estudantes de outras colônias passando a subdividir-se em secções e transferindo sua matriz para um edifício na Avenida Duque D'Avila, frente à recolha da Carris, da famosa casa dos Estudantes do Império que seria desactivada pela PIDE em fins da década de 50. Desde adolescente dedicou-se sempre a actividades desportivas e jornalísticas, foi colaborador directo de Etelvina Lopes de Almeida numa revista infantil por ela dirigida e pertencente à Renascença, do Diário Popular, do Diário do Norte, Notícias de Famalicão, da Revista do Ar (foi campeão nacional de Aeromodelismo com 13 anos de idade, piloto aviador civil do ACP e mais tarde director e instrutor do 1ºcurso de instrutores de Aeromodelismo do Secretariado da Aeronáutica Civil , tendo sido por isso louvado oficialmente em ordem de serviço pelo Director Geral, o então Coronel Tirocinado Piloto Aviador do CEM Humberto Delgado, de quem se tornou amigo), do Jornal do Ar, de O Volante e de outras publicações nacionais e estrangeiras de que viriam a destacar-se mais tarde a cadeia Argus, La Depêche de l'Air, de Lausana, A Província de Angola, Diário de Luanda, Notícias da Huila, Voz do Namibe, revista brasileira MANCHETE, JORNAL DO BRASIL, LUSO-AMERICANO de Newark-USA e o semanário católico A LUTA, da colônia portuguesa de Nova-Iorque, dirigido pelo Cónego Joseph Cacella, Notícias de Macau, O CLARIM da Diocese de Macau, Sunday Times e outros, tornando-se ainda conhecido comentarista político da Emissora Nacional de Radiodifusão, Emissora Oficial de Angola e outras radidifusoras."


Encontrámos na Net este interessante texto de que Carlos Mário Alexandrino da Silva foi autor: "FUA - FRENTE DE UNIDADE ANGOLANA: OPORTUNIDADE PERDIDA POR PORTUGAL PARTE V", 21.- PAPEL RELEVANTE NA IMPLANTAÇÃO DE RELAÇÕES DE IGUALDADE... E "KOVASO"! , do qual passaremos a transcrever algumas passagens, podendo o texto integral ser lido  AQUI  In Comunidade Lusófona

(...)


Com os olhos postos sobretudo em Angola e Moçambique, a ojeriza e desconfiança de Marcelo Caetano em relação aos brancos naturais dessas col
onias levaram-no, como ministro das Colônias, que apenas visitara durante breves dias as possessões portuguesas em África, a legislar normas limitativas de direitos civis aos naturais de todas as colónias que não fossem filhos de Portugueses originários de Portugal (reinóis); não podiam, por exemplo, concorrer aos cursos das escolas de oficiais das forças armadas nacionais, desempenhar funções de chefia, a nível superior, na administração pública colonial, etc., etc... Eram os chamados "portugueses de segunda classe"... Situação injusta que perdurou até à década de 60.... Sempre éramos enxergados com suspeição. No Hospital Militar Principal, em Lisboa, o autor destas linhas, antes de ser incorporado no curso de Oficiais Milicianos de Infantaria, em 1949, teve de sujeitar-se a uma junta de revisão para constatação de sua pureza racial "lusitana" uma vez que, sendo natural de Angola, seu pai (coronel-médico) e seu avô paterno (coronel de infantaria do extinto exército ultramarino - EU -) eram naturais de Pangim, Estado Português da Índia. Ao sermos interrogado pelo coronel-médico presidente da junta de revisão (racial), mentimos-lhe afirmando que aqueles nossos ancestrais eram brancos puros, descendentes diretos de reinóis (Portugueses originários de Portugal, leucodérmicos sem... mistura, que afinal quase todos se não todos os portugueses têm). Assim, porque esse médico militar nos deu crédito, pudemos ser admitido ao referido curso de oficiais de complemento...enterrando por algum tempo aquele velho "conselho portuga": quando vires um indiano e uma víbora, mata o indiano e deixa em paz a víbora...Por essa ocasião (segunda metade da década de 40), o melhor aluno cadete do curso de oficiais de artilharia da Escola do Exército (que viria a ser engenheiro fabril e brigadeiro mais tarde...), um natural de Goa, filho de um oficial superior ou general do extinto exército ultramarino mas descendente, isto é, mestiço, embora não-hindú, tendo-se descoberto (algum invejoso o teria delatado) que tinha ascendência indiana foi submetido a junta de revisão e a inquérito; durante algum tempo esteve tremida a sua permanência no curso... Ora, anteriormente a Caetano na pasta das Colônias, jamais alguém levantara esse problema e a prova estava em nosso próprio progenitor (já não falando mais nas várias gerações de avoengos) que, embora natural de Pangim e "descendente", atingira o posto de coronel-médico. Naquele tempo, nem o nosso primo-coirmão Mário Arnaldo de Jesús da Silva, hoje general de divisão do exército português, prémio Defesa Nacional, homem de confiança da JSN e de Costa Gomes em Angola depois da "revolução dos cravos", assessor militar especial do ex-primeiro ministro (de centro-direita que diz ser de centro-esquerda baralhando o escalograma de Guttmann...) Cavaco e Silva, nem o nosso tio e pai dele, também oficial, engenheiro fabril, se tentassem iniciar carreira no oficialato do exército jamais o teriam conseguido!!! Acabaram também, para os "notáveis" dentre nativos das colônias, integrantes das elites tradicionais, os postos honoríficos de oficiais de segunda linha das milícias tradicionais com que outrora (PARA POUPAR DESPESA E CONTAR COM A FIDELIDADE DE MILÍCIAS TRADICIONAIS) eram contemplados príncipes, sobas, sobetas africanos e liurais (reis) timorenses. O que se nos afigura mais estranho é o RUMOR de que Marcelo Caetano, como o denunciava seu tipo étnico e leptorrinia, seria também um descendente, segundo no-lo revelou em Lisboa, certa feita, um INFORMANTE DOS SERVIÇOS ESPECIAIS DA L.P. e soldado da Guarda Fiscal, Pompeu de Andrade (primo do Secretário Provincial de Obras Públicas de Angola, tenente-coronel engº da Força Aérea Carloto de Castro) que conhecia o pai do sucessor de Salazar, um cabo ou sargento da sua corporação que teria (não o estamos afirmando, note-se) servido na Índia onde casara com uma natural, "descendente", mãe de Marcelo Caetano; a ser verdadeira esta versão, Caetano seria também um... "mestiço", "um cu lavado" (na gíria racista portuguesa aplicada à nossa gente de Goa,"descendente", como o é o autor destas linhas embora seja nascido em Angola) e não um "reinol" puro! Estas achegas servem para se entender quanta razão assistia aos Angolanos BRANCOS e MESTIÇOS que quiseram lutar pela independência da terra em que haviam nascido e na qual eram também discriminados, humilhados e olhados com desconfiança por vários Portugueses preconceituosos (conquanto não se deva estereotipar essa pecha) de naturalidade européia. Portugueses esses que, como já fizemos sentir em outros ensaios, não podiam (nem podem) ser considerados.... "brancos" puros mas que, em não poucos casos, tal como se constata também no Brasil, sofrem dum "eugenismo" psicopatológico. Apenas o governador-geral Silvino Silvério Marques acabou com isso, protegendo angolanos e caboverdianos dessas injustas perseguições e do preconceito racial, seguido de Rebocho Vaz e de Santos e Castro. Isso preocupava o MPLA que em suas emissões radiofônicas do exterior, através da Radio Brazzaville, o maltratava denominando-o de "fusível" por ser muito magro...o que não conseguia roubar-lhe o prestígio de que gozava entre as massas africanas ( e não só nessas), mas que era mal visto pelo incompetente ministro das colônias Silva Cunha e sua clique de fofoqueiros e pajens bajuladores como o seu chefe de gabinete Joaquim Fonseca feito por ele "inspetor superior de administração colonial" sem nas colónias (Angola, donde era natural) ter sido mais do que... chefe de posto! Fez sua fulgurante "carreira colonial"... no gabinete equipado com aquecimento central e ar condicionado, alcatifado, do seu patrão, no "palácio" do Restêlo construido por vontade de Adriano Moreira com o ouro trazido de Goa à última hora, numa aeronave dos TAIP, que pertencia a depositantes particulares que jamais tiveram de volta esses valores confiados em Goa ao Banco Nacional Ultramarino antes da invasão armada da União Indiana, tal como os depositantes de dinheiros, de acordo com leis vigentes então, nos cofres da Fazenda da República Portuguesa em Angola, destinados a transferência legal para a Obra Social do Ministério do Ultramar e para o Cofre de Previdência do Ministério das Finanças muito antes da independência de Angola, viram ( até hoje) seus direitos ignorados e denegados arrogantemente pelos sucessivos governos ditos "democráticos" e "progressistas" posteriores ao "25 de Abril de 1974", dizendo-se que essas transferências não são reconhecidas...e portanto, todos ficaram sem os valores em escudos que legalmente haviam confiado ao Tesouro Português. Nós temos documento repugnante ( um ofício digno de ser utilizado apenas na privada do WC!) transmitindo o despacho de um zoilo "clown" dito "Secretário de Estado", tratado aburguesadamente por SUA EXCELÊNCIA, à "boa maneira" fascista, negando a restituição desse dinheiro que teria ficado com o "honesto" regime" de Luanda... "gerido" pelo MPLA. Isso é UMA VERGONHA!!! como diria o grande comentarista brasileiro da TV RECORD Boris Kasoy.


Era manifesto o descontentamento das gentes brancas do Centro e do Sul de Angola. Em Julho/Agosto de 1963 deslocamo-nos ali, integrados num grupo de 20 e poucos finalistas do curso superior de administração ultramarina - e, ao mesmo tempo, por despótica e arbitrária ordem do ministro Silva Cunha ao diretor do GNP, o competente e impecável inspetor superior Dr. Ângelo dos Santos Ferreira, em missão especial de observação e informação, embora estivéssemos oficialmente de licença disciplinar. Em Sá da Bandeira (Lubango) participamos de um jantar oferecido no melhor hotel da cidade pelo governador do distrito da Huíla, inspetor Laranjeira, do Quadro Administrativo. Presentes os nossos professores, Dr. Martins de Carvalho, ex-ministro da Saúde e Assistência, e Padre Abílio Lima de Carvalho, que acompanhavam a viagem dos finalistas do ISCSP/UTL patrocinada por várias empresas privadas. No discurso que proferiu, o governador Laranjeira, casado, com filhos nascidos em Angola, no desempenho daquele alto cargo há vários anos, não ocultou o seu angolanismo "cicronho" (do Sul), criticando a burocracia do governo geral, a mil quilômetros do Lubango e a ignorância do Terreiro do Paço (ministério das Colônias) e frisando que, por isso mesmo, qualquer problema demorava anos para ser resolvido; ele defendia a independência do Sul de Angola (e quem sabe se...até não seria simpatizante ou mesmo militante da FUA!) que teria condições para se tornar um país próspero e viável em todos os aspectos. Pouco tempo depois, essa sua franqueza pública valeu-lhe ter sido demitido do cargo de governador, por despacho ministerial ( de Silva Cunha), passando a ser apenas um simples inspetor administrativo...em Luanda, tendo como "território" somente uma mesa de trabalho na Inspeção Administrativa, em Luanda.

A concluir esta paupérrima contribuição para a Ecmnésia Histórica Colonial, cumpre-nos dizer que, face ao trágico panorama que, há quase cinco lustros, nos vem mostrando a desastrosa independência de Angola, atribuímos tudo isso não só à incapacidade e ignorância dos autores da chamada "descolonização exemplar" mas também à intolerância e à teimosia míope do ex-padre ditador Antônio de Oliveira Salazar (de estreita visão política colonial, mau assessoramento e muita rapacidade em prol da clique "judaico-lusitana") que não lhe permitiu enxergar quanto Portugal teria lucrado se tivesse acolhido, bem aproveitado e acarinhado, em devido tempo, ou seja, em seus primórdios, a FUA - FRENTE PARA A UNIDADE DOS ANGOLANOS. Poderia ter sido, essa, talvez, a mais equilibrada panacéia para a estruturação de uma unidade pacífica a bem do futuro dos povos daquele imenso e potencialmente rico território de 1.246.700 quilômetros quadrados, 14 vezes maior do que Portugal: a grande oportunidade arracial que a estupidez "portuga" perdeu e destruiu... em vez de chamar a si a tempo de evitar desvios.

Não fugiu Portugal, ou melhor, o seu governo, ao mau hábito peninsular (castelhano e lusitano) de impiedosamente, em nome da Fé CRISTÃ, esmagar ou castrar civilizações, nalguns casos até superiores como eram as dos INCAS e AZTECAS e as Orientais duma maneira geral, que conquistava pela força ou, à maneira espanhola, pela vil perfídia...

O historiógrafo tem como "pátria" a verdade dos fatos históricos pesquisados, doa ela a quem doer.

Não se escandalize, prezado leitor internauta, ao ler neste trabalho comentário ditados pela nossa "alma" formatando este texto de forma que para alguns será considerada "apatriótica" ou "anti-patriótica"... Mas, quem estas linhas escreve defende a verdade e só a verdade, doa ela a quem possa doer. Nós hoje, na diáspora voluntária (ninguém nos prendeu ou exilou) a que nos entregamos neste acolhedor e robusto filho de Portugal que é o Brasil, torcemos pelo lema "one planet, one people" bastante globalizante (o que está... em moda).

Há anos Alguém escreveu:"
"Daqui a poucos anos duas coisas se observarão em África: o progresso paralisado em muitas das suas extensões com a total ruína das economias, a degradação das populações, o horror das lutas intestinas, e experiências de colonialismo internacional, irresponsável, diante do qual o Preto, diplomado ou não, será apenas uma unidade estatística."

Esta declaração foi feita a um jornal francês , nos idos anos 60 (!), conforme nos referiu um nosso amigo e internauta que visita assiduamente este portal e a Ecmnésia Histôrica Colonial, por um político português que jamais visitou qualquer território colonial ou outro país além da vizinha Espanha numa rápida deslocação para ali ir assinar, com o Caudilho Francisco Franco, o ineficaz "Pacto Ibérico": o ex-padre ditador Antônio de Oliveira Salazar.

Carlos Mário Alexandrino da Silva
Lorena-SP, BRASIL, 01 de Janeiro de 2001

Esclarecimento: Na redação deste texto procuramos utilizar as regras ortográficas do português em uso no Brasil, nosso lar de eleição voluntária.

Texto Integral, Clicar a seguir   In Comunidade Lusófona

sexta-feira, 27 de maio de 2011

D. Anna Joaquina dos Santos e Silva e o tráfico ilícito de escravos de Angola no século XIX

“Prespectiva da Cidade de S. Paulo de Loanda no Reino de Angola”, 1825 
“Prespectiva da Cidade de S. Paulo de Loanda no Reino de Angola”, 1825
AHU, Iconografia Impressa

Conferência: D. Anna Joaquina dos Santos e Silva e o tráfico ilícito de escravos de Angola no século XIX
Conferencista: Lynne Duke (Escritora)
Resumo: Anna Joaquina dos Santos era uma grande comerciante, em Luanda, na primeira metade do século XIX. Ela representa uma classe de mulheres mestiças (e também negras) que ganhou riqueza e poder por via das relações estratégicas e românticas com negociantes homens estabelecidos, de Portugal ou do Brasil. Elas eram chamadas as "donas de Luanda," e Anna Joaquina era a mais famosa e, estima-se, também, a mais rica. Era conhecida pela ostentação e gastos generosos, incluindo durante a sua residência no Rio de Janeiro, onde adquiriu muitos imóveis. Durante sua vida (1788-1859) Anna Joaquina possuiu, pelo menos, 11 navios, incluindo muitos para a navegação atlântica. Na pesquisa realizada nos arquivos e bibliotecas de Lisboa, Luanda, Rio de Janeiro e Londres, e também na base de dados "Slavevoyages.com," documentaram-se nove viagens de comércio negreiro, nos seus navios, entre 1827 e 1846. Anna Joaquina estabeleceu, igualmente, feitorias em São Tomé, Cabinda, Ambriz, Cuanza, Novo Redondo, Quicombo, Benguela e Mossamedes. Enquanto os navios britânicos cruzavam o Atlântico para reprimir os negreiros, os navios de Anna Joaquina estavam entre as centenas que se furtavam a essa perseguição, e continuavam aquele "trafego odioso."
Curriculum viate: Lynne Duke é uma autora e jornalista, com uma carreira de vinte anos ao serviço do Washington Post, antes da sua aposentação, em 2008. Entre 1995 e 1999, dirigiu o escritório daquele jornal em Joanesburgo, na África do Sul, acompanhando o fim do "apartheid" e a transição para a democracia sob a direcção do Presidente Nelson Mandela. Tratou, igualmente, a queda de Mobutu Sese Seko, no Zaire, as guerras no Congo (Zaire), e no Rwanda, e o fim da guerra civil em Angola. Antes do Washington Post, trabalhou no Miami Herald, onde desenvolveu trabalho de investigação sobre o tráfico de drogas ilegais em Miami. O trabalho dela, em ambos os órgãos de comunicação social, foi várias vezes nomeado para o Pulitzer Prize, a mais alta distinção do jornalismo nos EUA. Lynne Duke é autora de Mandela, Mobutu and Me: A Newswoman's African Journey, Doubleday/Random House, 2003. Actualmente, está a preparar um livro intitulado The Baroness: A Woman Slaver and the Battle to End the Transatlantic Slave Trade, W.W. Norton, com data de publicação prevista para 2012. É formada em ciência política pela Universidade de Columbia, e mestre em jornalismo na Graduate School of Journalism da mesma universidade.
2011-04-28
ORIGEM