sábado, 6 de agosto de 2011

ANGOLA E OS PORTUGUESES I : “COLONIALISMO” ? OU “COLONIZAÇÃO” ?



A minha fotografia


                                                                         ( MEMÓRIA 1989 )

É costume dizer-se que os portugueses estiveram em África  5 séculos. ...É verdade, mas durante 4 desses séculos só estiveram nas costas de África. ...De inicio tudo o que lá tínhamos eram pequenas feitorias, que apoiavam caravelas e naus em demanda das Indias. A riqueza, em potencial, de Angola não nos interessava:  ...Ao tempo não se falava em petróleo! ...E muito menos em urânio. ...E já em pleno século XIX construíamos casas na baixa de Luanda, ou em Benguela, empregando madeira ... levada do Brasil.   ...Para além de Massangano, conheciamos tão pouco o interior, que nem a madeira aproveitávamos.
...A verdadeira colonização de Angola só começou depois da Conferência de Berlin (1885). ...Podemos portanto dizer que Angola só foi colonizada pelos portugueses durante 90 anos, até à sua independência em 1975. É facto que ao tempo das feitorias já se fazia um pequeno comercio, de permuta, com os nativos: Um pouco de ouro e algum marfim, contra missangas, facas de aço e tecidos, tudo em muito reduzida escala. ...Fazia-se entretanto um outro comércio, esse de infeliz memória, mas que era uma prática natural e costumeira daquelas épocas: a “escravatura”. ...E está agora em grande moda vilipendiar a expansão europeia pelas Áfricas, com ataques perversamente dirigidos ao“colonialismo” e à “escravatura”. Claro que esses são aspectos que nunca poderemos tentar embelezar. ...Mas podemos é passar a olhá-los com uma atitude diferente, ...sem vergonha, nem remorso.            A escravatura era, desde os tempos mais remotos, uma prática instituída entre todos os povos  africanos.                                            
As tribos maiores e mais poderosas apressavam e escravizavam as outras ( Quando ás vezes não acontecia pior ).  No comércio esclavagista para “fóra”, para as Américas, era sempre um negreiro africano que fazia a venda a um europeu.  …E podemos dizer que tiveram muita sorte os escravos que atravessavam o Atlântico porque, passado o martírio da viagem, tudo nas Américas era incontestávelmente melhor do que o destino que lhes estava reservado em África.        …Para eles, e sobretudo para as gerações deles descendentes.       A maioria das pessoas não tem a menor noção do que era a vida em África antes da chegada dos europeus.  ( Tudo o que lá me foi possível estudar, durante quarenta anos, me leva a concluir que a vida era “um completo horror”:    O nomadismo da eterna corrida atrás da caça, porque a caça corria atrás da chuva.   …e quando não a apanhavam, as grandes fomes cíclicas que tinham que levar à antropofagia.  Eram caçadores- recolectores.  Nunca fizeram um mínimo em agricultura.  A mandioca,  o milho e a batata só para lá foram levadas, pelos portugueses, já em pleno século XVIII.  Antes disso tudo o que comiam eram algumas raízes,  e raros frutos, de que nem gostavam.   Não sabiam pescar, nem de rede, nem de anzol, e os seus arpões não tinham barbela.                            A par disso, os constantes sacrifícios humanos, de feitiçaria ou religião, muitas vezes de crianças e raparigas, eram de um horror indescritível.  Ou as execuções por supostas razões criminais.         
E ainda as terríveis “cirurgias” praticadas a quando da puberdade das raparigas, que muitas vezes as vinha a matar com infecções.
Não, não nos venham falar do Mito duma “vida cor de rosa em África” antes da chegada dos europeus.                     
                                                    ____________
“Colonialismo” seria obrigar o colonizado a trabalhar para o colonizador sem que este ultimo tivesse que o fazer. Mas isso era o que faziam alguns portugueses daqui da Metrópole, ao beneficiarem das “divisas” obtidas por Angola, sem precisarem de trabalhar em África. ...O que se fazia lá era outra coisa: Era “colonização”. Era o branco a trabalhar ao lado do africano, e em muitos casos mais 2 ou 3 horas por dia do que aquele. ...E a colonização não continha só aspectos negativos. E nem sequer era propriamente degradante ou aviltante, como agora se quer fazer crer. Os antepassados dos portugueses tambem foram colonizados. ...Seiscentos anos só pelos romanos, que até nos ensinaram a ler e a escrever, que até nos civilizaram! ...E mais tarde, uns 4 séculos pelos árabes, com quem também muito aprendemos.
...Afinal como é que toda a Europa foi civilizada? Exactamente pelos mesmos romanos, com séculos e séculos de colonização. ...E mais tarde, pelo menos os Paises do Sul, pelos muçulmanos, árabes e moiros, que lhe trouxeram o conhecimento da agricultura (P. além do trigo), da arquitectura (d’arcos e ogivas), da medicina e da farmácia, da filosofia (Pela tradução dos clássicos gregos) e até da música (Alaúde, que deu origem à guitarra).    E também da matemática, incluindo os "Al-garismos" e o conceito de “Zero”, que originou a “Álgebra”, seja a  diferenciação positiva-negativa,  expressa por algarismos  e letras.     …E por fim, o “Sistema Decimal”.
A colonização da África ( A Sul do Sahra ), essa foi feita pelos europeus, ...mas só a partir da Conferência de Berlim, que, por proposta portuguesa, teve lugar em 1885. ...Tendo portanto tido muito curta duração: Cerca de 60 anos no caso do Congo Belga, ou da Guiné Francêsa. ...85 anos em Angola, a mais longa, ...não falando da África do Sul, ...que teve uma descolonização “por dentro”, pois que a potência colonizadora era Pretória.
...E, embora de certo modo intensiva e dinâmica, foi afinal branda e benigna, e de  curtíssima duração,  se a  compararmos com os mil anos de colonização romana na Europa.
Pela colonização os europeus conseguiram, em menos de 100 anos, arrancar milhões de africanos da Idade da Pedra e guindá-    los para o Século XX. Doutro modo esses africanos teriam sido obrigados a percorrer milénios para fazer o mesmo percurso!
....Também se fala agora muito de “escravatura”. Em realidade foi muito triste a escravatura! ...Mas não teremos nós memória?  Na verdade os africanos (alguns) foram escravos dos portugueses, por cerca de 200 anos. Mas os avós dos portugueses, como todos os europeus ( Como todos os povos do mundo) foram escravos por milhares e milhares de anos. Já não nos lembramos que os nossos antepassados remaram nas galés e morreram nos circos de Roma? ...Custa a compreender porque é que nunca houve pressões sobre os árabes do norte de África, que também são estrangeiros naquelas terras, e esses sim, ainda hoje são esclavagistas, ...e foram escorraçar-nos, a nós portugueses, que tão dolorosa falta fazemos lá em baixo,...e que estávamos de tal modo interligados com os africanos que poderíamos ter passado juntos à independência, sem atrito de maior. Angola, pela sua cultura Luso-Africana,  neo-crioula,  que a tornava diferente de qualquer outro país do Continente Negro,  parecia pouco vulnerável aos ataques das grandes potências. ...Afinal as super-potências conseguiram subverter Angola ...E nós fugimos de lá, deixando-a com 4 facções em guerra, e os angolanos em grave risco dum regresso à sua desgraça milenar:   Doença do Sono, Paludismo, Cólera, Lutas Tribais.    ...E por fim ao Retorno da            Escravatura”, pois que, antes da chegada dos europeus à África,  os povos  negros eram todos escravos uns dos outros.                      E  agora bem pior, porque eles já não sabem sobreviver na selva, como “quando corriam atrás da caça, quando a caça corria atrás da chuva”,   mas também ainda não tinham aprendido a viver nesta nossa perigosa e traiçoeira  “civilização”.                                     O outro risco é cairem em poder de uma das tais super-potências, a quem só interessa o petróleo e determinados  minérios, sem perderem um minuto com a promoção da agricultura e, de um modo geral, sem o menor interesse pela promoção civilizacional dos angolanos.
                                                                                                               
ANGOLA E OS PORTUGUESES - II
Portugal sempre viveu dos seus sucessivos  Ultramares.              Mal tínhamos empurrado os moiros das praias algarvias e já corríamos para Ceuta.    E depois pelas Áfricas  todas, pelas Indias, ...pelos Brasis. Parece que sempre soubemos que isto aqui não chegava para nos sustentar! ...E éramos poucos mais do que um milhão naqueles tempos. ...E assim foi a epopeia nacional! Mas depois fomos perdendo as Indias ( Seja: o seu comércio) ...os Brasis, ...e por fim só nos restavam as Áfricas. ...E das Áfricas conseguimos viver grande parte dos séculos XIX e XX.
...Mas, sobretudo a partir da ultima Guerra Mundial, foi Angola que nos manteve.
(Angola, que já nos anos 30, através do contrato entre a Diamang e a Anglo-American, tinha págo metade da escandalosa divida da 1ª República ao estrangeiro.   …A outra metade foi pága por Moçambique, pelo prémio-ouro dos mineiros,  contratados pela África do Sul).                                                                                                      
E que, sobretudo após 1942, passando a exportar, em grande escala, o sisal, para os USA, para material de guerra, e depois os diamantes, o café, as madeiras, o algodão, etc, para toda a parte, se converteu num potencial “gerador de divisas”, que foi sustentando a Metrópole, até que começou a exploração do petróleo.
...E daí para a frente a Metrópole deixou de ser sustentada,  para passar a ser enriquecida por Angola. ...É dificil compreender como neste País a maioria das pessoas não tem a minima noção de que Portugal viveu o meio século, até 1975, quase que exclusivamente à custa de Angola, ...dos angolanos... e dos portugueses que lá estavam.
(Claro que à época isso não se podia confessar, porque era... “colonialismo” !)    Poderemos mesmo afirmar que as “divisas” ( dólares, libras, marcos ...e o ouro ) obtidas por Angola ainda nos sustentaram até recebermos as primeiras “ajudas” da Comunidade Económica Europeia.
Vejamos: Em 1973 Portugal foi internacionalmente reconhecido como “O milagre Económico Europeu”.   Esta afirmação é muito fácil de confirmar nos jornais da época. Ora nesse ano a maior receita em “divisas”obtida pelo Portugal metropolitano foi a dos magros 20 milhões de contos das pensões dos emigrantes. Seguida de 10 milhões do turismo (Record). As exportações ( Vinho, cortiça, pasta de tomate, tecidos, sapatos, etc.) não chegavam a ter expressão. Ainda por cima mais de metade dessas exportações destinavam-se exactamente a Angola e às outras colónias, que eram obrigadas a comprá-las, pelo que vinha tudo a dar na mesma.
Os portugueses de raça europeia de Angola eram só 600.000 ( 50% crioulos,  50% metropolitanos ) e, mesmo com a importante colaboração dos angolanos, não conseguiam explorar mais de 10% da riqueza em potencial da colónia, dizia-se. ...Porem esses 10% da riqueza angolana seriam o décuplo de tudo aquilo que a metrópole conseguia produzir.    Difícil de confirmar. Talvez um pouco menos, ...ou até muito mais. As contas eram secretas. Só o valor do petróleo já ultrapassava em muito tudo o que cá se produzia. Mas depois era o ferro para o Japão, o ouro, o urânio, o cobre e o manganês, outros metais, e os diamantes e outras pedras. O café, o algodão, o sisal, o açúcar, a soja, o girassol, o peixe e a sua farinha, o marisco. etc, etc, etc.
...E foi com tudo isso que conseguimos ser “O Milagre Económico Europeu de 1973”
...Angola pagava as 3 guerras africanas e ainda sustentava a Metrópole!
Angola era a “Usina” que sustentava Portugal! Era a portentosa e frutuosa “Usina” que mandava para cá os dollares, os marcos e as libras de que os portugueses viviam, ...sem saber!
...Mas quem fazia funcionar uma tal “Usina”? ...Eram os portugueses que lá estavam, evidentemente! ...E seus colaboradores angolanos. ...Que, trabalhando em climas doentios com temperaturas de 40 graus, muitas vezes em regiões infestadas pela mosca do sono e a malária, arriscando-se, depois de 1961, ao perigo constante ( 60% dos europeus vivia no interior ou diariamente o atravessava ), pois que, enquanto a tropa se deslocava em companhias ou pelotões, eles viajavam sozinhos e praticamente desarmados.
Os Portugueses de Angola, esses sim, é que eram colonizados e escravizados por Portugal!
ANGOLA E OS PORTUGUESES - III
Os Portugueses de Angola...que Portugal escravizava, ...porque embora fossem eles a ganhar os dólares, os marcos e as libras, pelas suas exportações, ...Portugal não lhos entregava!
O Fundo Cambial sugava a Moeda Forte e dava aos colonos “angolares”, que eram uma espécie de “vale” do escudo, mas com o cambio mais baixo e que só tinham valor lá na colónia.
Mais tarde inventou-se o escudo de Angola, com um valor ainda mais baixo que o antigo angolar. E era pagando nessa moeda que Portugal escravizava os seus colonos. Anos e anos a trabalhar e, no fim, o dinheiro não valia nada, pois que, para o trocarem, chegavam a descontar às vezes 50% ...e, mais tarde ainda pior....E por fim o seu valor era ZERO!
E desse modo, mesmo aqueles que, com muitos anos de África, queriam voltar, iam sempre ficando. E isso até à morte. ( Note-se que a média de vida em Angola era de uns bons 10 anos mais curta do que aqui na Metrópole ).
...É tambem verdade que 80 a 90% dos colonos de Angola não chegavam a ter esse problema, pois o que ganhavam só daria à recta para o seu dia-a-dia.
Mas, a pesar de tudo, os portugueses gostavam de lá viver. Modestamente, é verdade. Em Luanda não havia sequer uma residência de prestigio, como aqui em Portugal. As melhores casas, na Rua do Miramar, eram pertença de estrangeiros. Não existiam talvez nem 6 piscinas. Os automóveis eram conservados por 8 ou 10 anos,  e usavam-se pneus recauchutados. ...Mas os portugueses iam suportando tudo e mais alguma coisa   ( Até mesmo os massacres de 1961, quando 2 milhares  foram mortos, em 3 dias e a soldo estrangeiro, cortados em postas à catanada. No Kénia  o  mao-mao  tinha assassinado 85 ingleses em 5 anos e foi um escândalo mundial, mas 2.000 portugueses. em Angola, foi coisa sem importância nenhuma.)
...E, quando vinham de férias à Pátria ( Há uns tempos atrás a licença graciosa era de 5 em 5 anos), sentiam a maior satisfação ao ver as estradas, as pontes, as barragens, os hospitais e as escolas que aqui se iam construindo com os dolares e os marcos que eles lá iam ganhando.            ...E foi a esses portugueses, tão generosos e sacrificados, que, a troco dos tais angolares ou, muitas vezes, a troco de nada, sustentaram Portugal praticamente durante meio século, que a Pátria, sob o desvario dum momento até hoje inexplicável, ...traiu. ...Traiu quando lhes prometeu defender as suas vidas; ...traiu quando lhes garantiu salvaguardar os seus bens ...E traiu, por fim, quando o exército português lhes arrancou as armas ( de caça ou de defesa ) de que alguns dispunham, para as entregar ao tal “poder popular”, que os próprios partidos africanos diziam nem conhecer, e que era afinal formado por uma corja de bandidos e assassinos!
...E foi assim que se arquitectou a “trágica debandada”!
Recorde-se que em 1961, quando dos grandes massacres, a tropa branca reduzida aos 85 dragões do agora coronel José Maria Mendonça Junior, que salvou Luanda e ainda foi libertar os fazendeiros sitiados em Nambuangongo, e com a população completamente desarmada, ...ninguém arredou pé. E assim se mantiveram até ganhar a guerra em 1968 e a entregar Angola em 1975.        ...E o mais triste é que (14 anos depois) todo aquele descalabro se veio a desencadear, uns meses antes da independência, e ainda ao tempo da Soberania Portuguesa!
Foi a esses portugueses que, quando aqui chegaram, muitos deles feridos por espancamentos, com as roupas em farrapos e a angustia nos corações, até porque, em muitos casos, se haviam perdido das próprias famílias, que nem sabiam se mortas se vivas, ...que os seus gratos, reconhecidos irmãos da Metrópole olharam com desconfiança e baptizaram de “Retornados”.
...E ainda foi a esses que, mais tarde, quando se percebeu que todas as garantias que a Pátria lhes havia dado eram “pura conversa fiada” e que estavam reduzidos, de almas, corpos e haveres, a completos frangalhos, os seus compreensivos compatriotas de Aquém-Mar crismaram, espirituosamente, de “Espoliados”.
ANGOLA E OS PORTUGUESES - IV
Esta nossa democracia tem vantagens e desvantagens. ...O Voto, por exemplo, não será propriamente uma vantagem. O Voto é vulnerável, porque é influenciável ...e até manipulável. ...Pelo Voto ganha sempre a “Quantidade”. ...Nunca ganha a “Qualidade”.
Mas o “Deputado”, esse é uma vantagem, com certeza. É uma maravilha termos um Deputado que vai à Assembleia da República defender os nossos interesses, o Nada que ainda é nosso.
...Mas quando se pergunta a um português “Quem é o teu Deputado?” ...A resposta é infalível: “Sei lá! ...Não faço a menor ideia”.
Os tais “Espoliados” esperaram 25 anos para que um Deputado tivesse a coragem e a generosidade de ir à Assembleia da República explicar e defender a sua causa, que muita gente, “desonestamente”, quer esquecer. ...E quando, por milagre, apareceu esse Deputado, ( Um Homem, que afinal ainda havia ), com honestidade, inteligência e coragem para tentar a tal “missão ingrata”, e os Espoliados, depois de horas à chuva, se dispunham a entrar na “Casa de Todos Nós”, para assistir à defesa duma causa que só a eles dizia respeito, ...a Policia, ou quem mandava nela, ...impediu-lhes a entrada! ( Esse deputado foi o dr. Paulo Portas.)
...Isto deve, realmente, ser caso único na história das democracias! ...Mas foi verdade!.
...É tão vergonhoso que nem se suporta falar mais sobre o assunto! ...Adiante!
Para não nos espraiarmos muito mais, parece-nos que, pela série de razões atrás expostas, os portugueses de Angola, como de resto os de Moçambique, Guiné ou qualquer outra das “saudosas Provincias Ultramarinas”, têm que ser merecedores de todo o nosso respeito e consideração. ...E até mesmo da nossa gratidão, por tudo aquilo que sempre foram proporcionando a Portugal, enquanto lhes foi possivel.
...Em vez disso, só têm recebido incompreensão, antipatia e até troças.
Como foi possivel levar à televisão uma palhaçada em que se escarnecia dos espoliados? (Dela fez parte o jornalista Miguel Sousa Tavares, o que lamento). Até se chegou à conclusão de que eram os novos países ( Independentes ) que deviam pagar as indemnizações aos espoliados.  ...Então os grandes países europeus foram todos uns tansos quando indemnizaram os seus colonos?  Portugal assinou o Tratado de Versailles.  Esse tratado foi firmado após a 1ª Grande Guerra, claro, mas das suas cláusulas emanaram Leis que continuam, em muitos exemplos, a ser respeitadas e seguidas. ...E naturalmente até a vigorarem. É favor ler com atenção o seu Artigo nº 297, que define exactamente a responsabilidade nos casos de descolonização por guerra.  E o mal não foi a descolonização.  Não é dela que os retornados se queixam.   …Inconcebível e estúpido é o modo como foi feita, e a desastrosa espoliação que consentiu ou que, até mesmo, encorajou. ...De resto não reconheceu o Estado Português essa responsabilidade ( E essa divida ) quando foi criado o “Gabinete dos Espoliados” ? ...Possivelmente já dissiparam as verbas com que esta sagrada e escandalosa divida deveria ter sido paga.     Mas o problema é de tal modo grave que, agora sim, se justifica recorrer à Banca Estrangeira! ...Ou, em ultimo caso, que se pague em Titulos do Tesouro do Estado, ou em quaisquer outros Valores Nacionais. Desse modo não teriam que ser desembolsa-dos a pronto os montantes da divida. Iriam pagando os juros respectivos e resgatando parceladamente esses Titulos....Seriam assim repostas a justiça e a legalidade, ao mesmo tempo que decerto se garantiria, pela mão competente dos retornados, uma aplicação honesta e inteligente desses capitais, ...em vez do costumeiro desperdício!
J. SÁ-CARNEIRO                  

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Angola 61 / Novo Jornal / Luanda / 4-2-2011





Quando comemoramos os cinquenta anos dos acontecimentos do 4 de Fevereiro de 1961, chega-nos à mão um livro de dois autores portugueses que tentam fazer um trabalho sério sobre as circunstancias que levaram à eclosão do quatro de Fevereiro e as razões próximas da mobilização dos participantes e organizadores do movimento que muitos já apelidaram de “princípio do fim do colonialismo português”.
Tenho que confessar que li o livro a correr, pois só no início desta semana me chegou às mãos, e urgia que este trabalho surgisse na edição comemorativa do 4 de Fevereiro de 1961 neste Novo Jornal de 4 /2/2011. Ficam antecipadamente algumas desculpas por alguma “ligeireza” na abordagem à obra da professora Dr.ª Dalila Cabrita Mateus e de seu marido Dr. Álvaro Mateus, sobre alguns comentários ao “Angola 61”.
Quero fazer também uma prévia declaração de interesses, e que assenta sobretudo no facto de conhecer e divulgar a obra da Dra. Dalila Cabrita Mateus, de enorme interesse para aumentar o acervo documental da história colonial. Os seus livros são importantes, podendo eventualmente eu ou outros acharmos que há incorrecções a exigirem ser reparadas, mas a realidade é que nos confrontamos com trabalhos académicos sérios, coerentes e fruto de muito trabalho de investigação e pesquisa.
Posso por vezes não gostar que a história fosse como ela é descrita, posso colocar dúvidas em relação a alguns relatos e posicionamentos marcados pela ainda proximidade dos acontecimentos, mas o que não devo é questionar com afirmações avulsas um trabalho científico.
Por tudo isso acho assertiva a citação de Alexandre Herculano (1810-1877) na introdução do livro “Angola 61” da Texto Editora acabado de sair para as livrarias: “O patriotismo pode inspirar a poesia; pode aviventar o estilo; mas é péssimo conselheiro para o historiador. Quantas vezes, levado de tão mau guia, ele vê os factos através do prisma das preocupações nacionais, e nem sequer suspeita que o mundo se rirá, não só dele, o que pouco importara, mas também da credulidade e ignorância do seu país, o qual desonrou, crendo exaltá-lo! […] Caluniadores involuntários do seu país são aqueles que imaginam estar vinculada a reputação dos antepassados a sucessos ou vãos, ou engrandecidos com particularidades não provadas nem prováveis”.

A fase inicial do ” Angola 61” começa por ser um livro de temas recorrentes na história contemporânea do Portugal colonial e convenhamos não é supletiva a um conjunto de trabalhos de outros historiadores e aqui posso colocar Pedro Ramos de Almeida, Armando de Castro, Sousa Ferreira, Gerald Bender, e mais recentemente alguns jovens doutorados como por exemplo Fernando Tavares Pimenta, Cláudia Castelo e Julião Soares de Sousa.
Apesar do contexto do 4 de Fevereiro de 1961, o livro ignora os desmandos da primeira Republica e da sua figura marcante, Norton de Matos, idolatrado por uma franja significativa de colonos da média burguesia com interesses instalados na colónia. O salazarismo aumentou a repressão, privilegiou as relações com a igreja através da adenda à Concordata entre Portugal e a Santa Sé, através do Acordo Missionário.
Pode parecer despiciendo abordar isto, mas julgo que a influência das missões protestantes na mobilização dos guerrilheiros na eclosão dos acontecimentos de 1961 era capaz de merecer maior detalhe.
À data de 4 de Fevereiro de 1961, o governador-geral era Silva Tavares um juiz de carreira politicamente cinzento como convinha a Salazar é substituído por Venâncio Deslandes, provavelmente o mais prestigiado militar das forças armadas portuguesas. Do que leio no livro partilho a opinião dos autores em relação à figura camaleónica de Adriano Moreira, que substitui Lopes Alves no ministério das colónias, e que entra em rota de colisão com Deslandes. Este general da força aérea, figura prestigiada do regime, não se coíbe de dar as opiniões a Salazar, que “manholas” como sempre foi , vai-se aquecendo na fogueira ateada pelas faíscas das opções e dos egos dos dois governantes. As vicissitudes de muito do que aconteceu nesse longínquo 61, acabaram por permitir que Salazar numa atitude de feitor de quintal se visse livrem dos dois quando as circunstâncias militares começaram a ter outro rumo. Deslandes, quando disse que tinha sobre a sua “direcção o maior efectivo de sempre das forças armadas portuguesas na sua história”, e que “essa teoria do Portugal de Minho a Timor era uma figura de retórica”, para além de pedir uma Universidade para Angola, e dizer que Angola e o Minho não tinham nada a ver uma coisa com outra foi cavando a sua sepultura política, perante o olhar embevecido de Adriano Moreira que acabou por ser pontapeado também por Salazar, quase na mesma oportunidade; De delfim do “Botas” cova foi um ápice!
O livro tem muita documentação e fundamenta de com verosimilhança um conjunto de relatos sustentando alguma opinião que apesar de tudo contraria algo oficial em Angola sobre o 4 de Fevereiro de 1961. Percebo a coerência política das autoridades angolanas em relação ao que foi o 4 de Fevereiro de 1961, mas também é de enorme utilidade que comecem a aparecer trabalhos como este que possam de certa forma incentivar ao estudo dos acontecimentos determinantes na história do nosso País.
O livro, que me pareceu interessante parece-me apesar de tudo limitado, o que também me prevalecer em Dalila e Álvaro Mateus cingirem-se a muita documentação que existe em Portugal, mas que deveria ser complementada com relatórios que provavelmente estão no “Hotel Miradouro”, como era conhecida a sede da PIDE em Luanda na rua do Balão.
Acho que os historiadores angolanos devem ser estimulados a fazerem trabalhos destes, para depois não ficarmos na situação algo embaraçante de termos que dizer “nós é que cá estivemos” ou “nós é que sabemos”.Este livro embora com omissões é mais um desafio aos licenciados angolanos, e quiçá mesmo a empresas e fundações para criarem condições para a execução de trabalhos científicos de qualidade que possam ombrear com o que tenho à minha frente, e que prometo voltar em ulteriores oportunidades.
Não sou historiador e por conseguinte posso estar a especular sobre alguns detalhes que não terão relevância histórica nenhuma, mas na leitura que fiz do livro Angola 61 e recordado algumas conversas que tive com Rebocho Vaz, vizinho e amigo de meus pais em Coimbra e baseando-me no que escreveu num livro publicado em 1993 –“ Norte de Angola/1961 A Verdade e os Mitos”, há algo que como se diz em bom português não bate a “bota com a perdigota”, no que concerne à Baixa de Cassange. Penso que devia ter sido dado um maior enfoque ao trabalho de Eduardo dos Santos, nomeadamente o seu livro “Maza”, editado pela AGU.
Há todo um conjunto de artigos e alguns livros saídos agora sobre o desvio da Santa Maria” que provavelmente mereceriam que se fizesse alguma ligação, de forma a acabar de vez com mitos construídos e desconstruídos conforme a oportunidade do seu aproveitamento para circunstâncias diferentes.
Aqui há dois anos tive oportunidade de ler o livro de Frederico Delgado Rosa sobre o seu avô, o general Humberto Delgado e que tem revelações que teriam sido úteis, numa visão aportuguesada do livro Angola 61, que é objectivamente mais importante para Portugal que para Angola. Ainda sobre isto e não querendo andar com os panegíricos do regime tipo Amândio Cesar, Horácio Caio, Falcato, Alves Pinheiro, Amadeu Ferreira, Barão da Cunha, Diamantino Faria, João Simões, Artur Maciel, Pedro Pires, Hélio Felgas, Carlos Alves, Borja Santos, e quejandos, acho que se deveria aprofundar o factor insurreccional iniciado em 1961 com a leitura de muito depoimento de gente que foi para Angola por perseguição política, e aqui lembro entre muitos os exemplos de Antero Gonçalves, com um livro de 1965 “O Norte de Angola” e de João Garcia sobre o “ Quitexe” de 2000, que deixaram depoimentos interessantíssimos sobre o que politicamente se passava nas suas bualas e à volta, fora do contexto urbano da cidade capital.
Acho que a professora Dra. Dalila Cabrita Mateus tem cumprido cabalmente o seu propósito de investigar e simultaneamente oferecer trabalhos de grande qualidade científica, mesmo quando pontualmente estou em desacordo. O que não devemos, e aqui repito-o, é vilipendiar a autora porque tem opiniões cientificamente alicerçadas em documentos e depoimentos que contrariam convicções suportadas por opções ideológicas fabricadas em tempos que era necessário fazer-se força com base em verdades, que nalguns casos se revelaram falácias.
Acho o Angola 61 um livro interessante, a que voltarei quando o puder ler com calma, e só me cumpre agradecer aos autores, pelo menos a possibilidade de discordar com algumas opiniões que por lá andam, mas isso já justifica eu ter que ler e documentar-me bem para ripostar.
Pelo que ouvi dos autores era possível que este livro fosse polémico em Angola, mas julgo que não o será porque infelizmente quem se interessaria por levantar essa polémica está no seu cantinho a tratar da vidinha. Se o contrário acontecer, é muito bom, porque só se desenvolvem ideias com polémica assente em pressupostos de seriedade, respeito e tolerância pela diversidade.
Já agora, talvez a despropósito, há um outro Angola 61, já com uns aninhos de Rocha de Sousa, da Contexto que é um quase romance excelente, sobre a guerra colonial.

Fernando Pereira
2/2/2011

Entrevista para o Novo Jornal de 27-05-2011 a Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus

(...)

O “27 de Maio de 1977” deixou a então Republica Popular de Angola decapitada de muitos quadros que foram mortos, presos e nalguns casos que se refugiaram no exterior para nunca mais regressar. Sente nas pessoas com quem falou que isso foi determinante para que a Angola não conseguisse substituir essa gente e tivesse permitido a ascensão rápida da mediocridade baseado na confiança política, tribal, racial ou familiar em detrimento da competência?

 Angola tinha, de facto, uma enorme falta de quadros. Compreende-se porquê. Em 1974, pronunciando-se sobre a presença branca em Angola, Agostinho Neto declarava ter «dúvidas sobre se, neste momento, os mesmos indivíduos que têm sido privilegiados durante o regime colonial terão o direito de continuar no país». E em vésperas da independência, aparentemente esquecido de que a maioria dos portugueses eram simples trabalhadores, afirmava na rádio que tinham de sair de Angola antes do 11 de Novembro.

O coronel Melo Antunes, um dos homens do 25 de Abril, afirmou que a principal responsabilidade pela saída dos portugueses dos novos países foi dos movimentos de libertação porque, «contrariamente à letra e ao espírito dos acordos», se gerara «um clima de total repúdio da permanência de portugueses, um clima muitas vezes de perseguição, de insegurança de tal modo intolerável, que culminou num pânico generalizado».

Em Angola, engenheiros e quadros técnicos, médicos e professores, gestores e trabalhadores qualificados eram, na esmagadora maioria, brancos. Sem eles, a economia e as empresas, as escolas e os hospitais ou funcionariam mal ou deixariam mesmo de funcionar. Ora, depois da expulsão dos brancos, mataram-se, prenderam-se e afastaram-se dezenas de quadros angolanos, a pretexto de que estavam metidos na conjura nitista.

De modo que, muitos dos poucos quadros de que Angola dispunha foram liquidados ou afastados, sendo substituídos por gente sem qualificação. Quem acabou por pagar por tudo isso? A resposta é simples: o país e os angolanos.

Em Portugal, alguns antigos colonos aparecem a dizer que a expulsão foi inspirada pelos comunistas, pelos russos. Acusação totalmente falsa. Os teóricos da revolução davam indicações no sentido de cuidar, «como das meninas dos olhos, de cada especialista que trabalhe conscientemente, com conhecimento do seu trabalho e amor por ele». Por isso o general russo Valentim Varennikov, que cumpriu duas missões de serviço em Angola, sublinhou os enormes problemas criados pelo facto de terem sido «expulsos impensadamente todos os portugueses, que constituíam a principal força na economia, na direcção dos serviços municipais e na organização da gestão do país…».


Fernando Pereira ( Entrevista que fiz para sair no Novo Jornal de 27-5-2011
TEXTO COMPLETO AQUI


Entrevista para o Novo Jornal de 24-6-2011 ao Engenheiro Fernando Falcão




Fernando Falcão, 87 anos, angolano, engenheiro civil. Nasceu no Namibe, neto dos primeiros colonos que aportaram no deserto no fim do século XIX vindos do Brasil. Estudou no Liceu Diogo Cão e formou-se em Engenharia no Porto no distante ano de1947 . Fixou-se no Lobito, onde desenvolveu marcada actividade política, empresarial e associativa durante muitas décadas, acabando por ser uma das figuras de referência da cidade e de todo o Sul de Angola.
NJ- Enquanto estudante a sua participação no combate à ditadura e à sociedade colonial prevalecente em Angola foi marcada pela fundação da Casa de Estudantes de Angola, depois Casa dos Estudantes do Império, no MUD juvenil, onde partilhou cumplicidades políticas, companheiros de percurso e também a marcação cerrada de uma PIDE que nunca o esqueceu até 25 de Abril de 1974. Fale-nos do Falcão da “juventude”.FF – Pouco tenho a acrescentar ao que é conhecido. Direi que fiz a instrução primária em Moçâmedes (hoje Namibe), fiz o 7º ano do Liceu em Sá da Bandeira (hoje Lubango) e a Faculdade em Coimbra na parte dos Preparatórios e Porto na Faculdade de Engenharia.Fui da Mocidade Portuguesa, onde atingi o posto de comandante de castelo, e evolui sempre para a oposição ao regime de Salazar.
NJ- Pode parecer algo impertinente, mas de tudo que se vai lendo e sabendo fica-se com a sensação que no início havia “divergências” entre os estudantes que tinham saído do Liceu Diogo Cão ( “Os sulistas”) e os que saiam do Salvador Correia (Luanda e Norte) para estudar no exterior. Se isso de facto aconteceu contextualize tendo em consideração as origens dos estudantes dos dois estabelecimentos de ensino?FF – As divergências entre os estudantes saídos do Liceu Diogo Cão, em Sá da Bandeira, e os do Liceu Salvador Correia, em Luanda, eram fruto de um bairrismo salutar que nunca destruiu a amizade entre jovens de idade aproximada.
NJ- Quais as razões ponderaveis na sua decisão de se radicar no Lobito, há mais de cinquenta anos?FF – Eu não quis radicar-me no Lobito, mas quando cheguei a Luanda, vindo de Lisboa, onde fui contratado como engenheiro praticante para o Serviço de Portos, Caminhos de Ferro e Transportes, o então subdirector destes serviços – Engº Melo Vieira – que tinha sido meu professor no Liceu, obrigou-me a ir para o Lobito para a Direcção do Porto do Lobito.
NJ-A cidade cresceu consigo e não se pode ignorar que o seu desenvolvimento urbano, a expansão do seu tecido empresarial tem uma marca sua. À distância de umas décadas quer-nos falar um pouco desse percurso e também um pouco do vivificar do Lobito.FF – Rapidamente me tornei “Lobitanga”, tornando-me vereador do Municipio, presidente de um clube de futebol – O Lusitano – fundador e primeiro presidente dos Bombeiros, presidente da direcção da Associação Comercial e Industrial, durante vários anos e de um modo geral participei em todas as realizações que valorizassem a cidade do Lobito e da vila da Catumbela,
NJ- O Eng. Falcão teve ao longo do seu percurso de cidadão uma participação política activa que nalguns momentos lhe terá criado situações embaraçosas. Foi delegado no distrito de Benguela da candidatura do general oposicionista a Salazar, Humberto Delgado; Foi um dos poucos sítios onde o general Delgado ganhou, numas eleições que se revelaram fraudulentas, onde o declarado vencedor foi Américo Tomás, o candidato de Salazar. Fale-nos um pouco desse período e do que aconteceu nesse longínquo 1958.FF – Não fui delegado no distrito de Benguela do general Humbero Delgado, mas sim do Dr. Arlindo Vicente, Por desistência deste a favor daquele, acatei a deliberação superior de colaborar com a comissão distrital do general Humberto Delgado.
Foi intenso o meu trabalho nesta comissão e suportei algumas intriguices que puseram em risco o meu lugar de engenheiro adjunto do director do Porto do Lobito. Valeu-me a compreensão do então Governador Geral de Angola, capitão Agapito da Silva Carvalho, que foi sempre muito compreensivo a meu respeito.
NJ- Quando começou a sentir que poderia organizar alguma coisa que pudesse ter alguma consistência na luta pela autodeterminação e independência do País?FF – Após os incidentes no norte de Angola provocados pela UPA e mais tarde a FNLA, traduzidos por barbaros assassinatos, senti a necessidade de contrariar tais atitudes. Daqui resultou a criação da FUA (Frente de Unidade Angolana), da qual fui o primeiro e único presidente.
NJ- Ainda que lhe peça de forma sucinta, com quem partilhou esses primeiros tempos que foram, ou poderão ter sido o embrião de uma organização em que o Engenheiro Falcão é a maior referencia, a FUA (Frente de Unidade Angolana)?FF – Nesta tarefa tive a colaboração de muitos, destacando o eng. Manuel Brazão Farinha, o Luís Portocarrero, o Carlos Morais, o Socrates Daskalos, etc.
NJ- Num tempo em que as ideologias estão a ser constantemente relegadas para segundo plano, peço-lhe que enquadre a FUA num contexto ideológico de uma Angola colonial.FF – A FUA era uma amalgama de vários partidos notando-se nos seus dirigentes uma tendência pro-MPLA. No entanto, a FUA nunca esteve subordinada a qualquer partido político. Foram na altura publicados os seus princípios básicos que não ofendem qualquer ideologia política.
NJ- Sem qualquer sinal de provocação pergunto-lhe se a FUA não era um movimento progressista de colonos e circunscrito ao Sul do território?FF - A FUA não era um movimento progressista de colonos e circunscrito ao sul do território, pois foi estendida a todo e território angolano e bem implantado no seio de todas as etnias.
NJ- Sem constrangimento de qualquer ordem peço-lhe que me diga qual a posição da FUA em relação ao MPLA e à UPA, no dealbar dos anos 60 e num contexto de forte repressão das autoridades coloniais portuguesas.FF – A FUA teve sempre as melhores relações com o MPLA o que não sucedeu com a UPA que consideramos responsáveis pelos massacres no norte de Angola.
NJ- Em 1961 reuniu-se com o novel Ministro do Ultramar de Salazar, Adriano Moreira, que lhe terá deixado muto boa impressão, e que depois de acolher algumas das suas propostas o mandou prender. Gostava de ouvir esse episódio, mas não gostava de deixar de dizer que o percurso dessa figura, um misto de seráfico e sórdido, continua a ser motivo de divergência nas questões coloniais de matizes diferentes.FF - Em Maio de 1961 veio a Angola como ministro do ultramar de Salazar. A FUA , encapotadamente, pediu a audiência que foi concedida a vários dirigentes exceptuando o eng. Manuel Braxão Farinha que se tinha refugiado a bordo de um barco que se encontrava acostado ao porto do Lobito.
Adriano Moreira ouviu as considerações e prometeu corrigir algumas contradições coloniais. Em vez disso pucos dias depois começou a prisão de dirigentes sendo a maioria desterrada para Portugal.
NJ- O Senhor Engenheiro Falcão era um homem de sucesso em termos empresariais, mas nunca deixou de defender as suas posições, que lhe valeram bastantes dissabores e até algumas calúnias, de sinais bem contrários, quando por exemplo numa atitude de cortesia e amizade foi ao paquete “Infante D. Henrique” despedir-se do deposto governador colonial Santos e Castro. Porque foi uma atitude muito contestada por alguns jornais de Luanda, ainda na esteira de um 25 de Abril de 1974, e permitiu especulações diversas sobre os reais propósitos do encontro, gostava de poder ter a S. versão de uma situação que julgo ter sido pouco mais que nada, embora julgo ter tido o eco do que se passou.FF - O episódio da minha ida a bordo do paquete “Infante D. Henrique” cumprimentar o então governador geral de Angola (Santos e Castro) não passsou senão de uma atitude de cortesia para com o governante que sempre atendeu da melhor maneira os nossos dirigentes, contrariando o comportamento daqueles que o deveriam ter feito.
NJ- Que FUA pretendeu fazer renascer no período que se seguiu ao 25 de Abril de 1974? FF – Pretendi fazer renascer a FUA de 1974 nos mesmos moldes da FUA de 1961, tentando assim promover a unidade das forças em presença evitando o derramamento de sangue que mais tarde aconteceu.
NJ- O Senhor Engenheiro permaneceu no Lobito , como administrador do CFB nomeado pelo governo de Angola e simultaneamente desempenhou funções de Director do Porto do Lobito, onde teve alguns atritos com os sindicatos. Não sei se é verdade a história que se conta que terá despedido um determinado número de trabalhadores com elevado absentismo, e contratado o mesmo número para os substituir. Perante a contestação do Sindicato, o Engº Falcão apenas terá respondido que o número de desempregados se mantinha exactamente igual. É ficção ou aconteceu alguma coisa parecida?FF - Desde que assumi a direcção do porto do Lobito tive a preocupação de sanear hábitos pouco correctos dos seus recursos humanos. Os trabalhadores tinham direito a um cartão de abastecimento e por esse motivo o porto estava cheio de gente que se limitava a ir levantar o vencimento e a fazer o abastecimento que vendia na kandonga. Foi assim que realmente demiti cerca de 200 pseudo trabalhadores mas não os substitui, o que provocou protestos da UNTA, tendo contudo tido o apoio das entidades superiores.
NJ- Como encara o desenvolvimento de Angola nunca esquecendo que o Senhor foi sempre contundente na sua análise em diversas ocasiões de Angola enquanto País.FF – O desenvolvimento de Angola não deve ser circunscrito a meia dúzia de dirigentes em Luanda mas deve estender-se a todas as províncias e suas populações.
NJ- Para finalizar, agradecendo a sua disponibilidade por nos dar esta entrevista, aliás necessária, pergunto-lhe se a sua luta valeu a pena?FF – Como diz o poeta “tudo vale a pena se a alma não é pequena”.

Fernando Pereira
15/6/2011 

OS TEMAS PROIBIDOS NA HISTÓRIA RECENTE DE ANGOLA



Um tema tabu na história dos movimentos de libertação de Angola é a questão racial. Trata-se de uma questão desconfortável para a generalidade dos angolanos, porque acaba por mexer com preconceitos, com discriminações e desigualdades sociais aí baseadas. Por outro lado, trata-se de uma questão complexa do ponto de vista analítico ou científico. Não há como a tratar senão a partir dos factos históricos. A verdade é que na origem da constituição das diversas forças políticas que se opuseram ao colonialismo português e lutaram pela independência de Angola, surgem claras diferenças, no que concerne à questão racial. Tanto a UNITA como a FNLA, são fundados, na sua quase totalidade, por angolanos negros. Angolanos que na sua formação não têm praticamente nenhuma relação com outras culturas que não as daquela zona de África. Angolanos, na sua esmagadora maioria, sem formação universitária. Inversamente, o MPLA é fundado fundamentalmente por um grupo de angolanos que se encontraram em Portugal a estudar nas diversas universidades portuguesas e tem uma matriz fundadora multiracial. Esta diferença haveria de marcar de modo nem sempre assumido, nomeadamente em termos formais, os conflitos entre os movimentos de libertação e mesmo no interior do próprio MPLA. Acresce a este factor a existência de uma quarta força política, constituída fundamentalmente por angolanos brancos e mestiços, a FUA (Frente de Unidade Angolana) que jamais haveria de optar, ao contrário das restantes, pela luta armada e a qual acabaria por ter uma relação paradoxalmente distante e próxima do MPLA. Distante porque a FUA não partilhava da ideologia marxista, e muito menos da ideia de "internacionalismo" da URSS e, sobretudo, do modelo cubano, que serviam de guia ao MPLA. Próxima porque da FUA haveriam de partir, rumo ao MPLA, vários militantes, conservando-se entre as duas forças uma relação de cumplicidade de "companheiros de estrada", que em vários casos partilharam as mesmas celas das prisões da PIDE. O poder constituído em Angola após a independência, em 1975, bem como os conflitos políticos entre movimentos e intra MPLA, desde 1974, haveriam de estar marcados por esta questão tabu. O primeiro presidente da República Popular de Angola será Agostinho Neto (médico e poeta negro formado nas universidades portuguesas e casado com uma portuguesa). Mas, além de Neto seriam vários os angolanos, não negros, que haveriam de ocupar lugares chave no poder em Angola, em 1975. A começar pelo número dois do MPLA, desde a fundação do movimento, Lúcio Lara. Homem que nunca viria a pertencer a nenhum governo, ou exercer cargo de grande visibilidade pública, embora fosse portador de grande poder ao nível da magistratura de influência que exercia, nomeadamente através da cumplicidade com Neto, proveniente de uma amizade sedimentada nas lutas a partir da universidade em Portugal. Depois, temos o Ministro da Defesa, Henrique Carreira, o Ministro da Justiça, Diógenes Boavida, o Ministro da Educação, António Jacinto do Amaral Martins, o Ministro das Relações Exteriores, Paulo Teixeira Jorge. Jonas Savimbi costumava referir-se ao MPLA - nunca nos seus discursos e entrevistas no estrangeiro, ou para os órgãos de informação internacionais - mas nos seus comícios, como um “movimento de mestiços”, em tom que evidenciava claramente um ódio de natureza racial. Mas esse ódio racial vinha também a lume, subtil ou frontalmente, por parte de alguns desses “mestiços” que militavam nos vários níveis da hierarquia no poder em 1975 e 1976. Tanto em relação a Savimbi e seus correligionários, como em relação aos seus próprios ascendentes “de raça branca”. O interior do MPLA era, também, atravessado pela questão racial. Nem todos os angolanos negros que militavam naquele movimento partilhavam do percurso político, e de vida, de Agostinho Neto e outros fundadores do movimento. A escolha de Fernando Falcão (angolano branco e um dos fundadores da FUA) por Agostinho Neto, para Procurador-Geral da República em 1976, viria a tornar-se no acto que fez transbordar o copo, já cheio, para a “paciência” daqueles que defendiam uma visão mais restritiva do exercício do poder em Angola, após a independência. Dir-nos-ão esses que a questão não era racial mas política. Da memória que temos das intervenções, discussões e opiniões que à “boca pequena” se tinham nesses tempos, e que testemunhámos presencialmente, não temos grandes dúvidas que a questão era, para alguns, também uma questão racial. Falo, em particular, de um grupo dentro do MPLA, constituído fundamentalmente por jovens, que desde cedo começaram a citar e referenciar elogiosamente, as intervenções do então Ministro do Interior (Administração Interna), Nito Alves, também ele mais jovem do que a maioria dos seus colegas de governo e com um percurso de vida que não havia passado por Portugal, mas sim directamente do Liceu Salvador Correia em Luanda, para a 1ª Região Político-Militar do MPLA, para a mata, em 1966, com 21 anos.


continua...

Angola 20 Anos Depois (4): ALVOR FOI "PERFEITAMENTE SURREALISTA"

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Uma grande ironia do acordo do Alvor foi Portugal, quando já estava a ver que o próprio processo democrático era complicado, ter tentado impor em Angola uma solução "perfeitamente surrealista", a de um Governo de transição com os três movimentos lá representados, disse ao JN Vasco Vieira de Almeida, que foi durante cinco meses o ministro da Economia desse Executivo.
Jornal de Notícias - O que recorda dos tempos que esteve no Governo de Transição em Angola?
Vasco Vieira de Almeida - Estive em Angola numa época particularmente difícil. Cheguei pouco antes de ter rebentado a chamada Guerra de Luanda, um período extremamente complicado porque tinha de preparar-se a saída dos militares portugueses de Angola e a passagem da Administração portuguesa para as novas autoridades saídas dos acordos de Alvor. Foi também o período em que rebentou a guerra, e todas estruturas, por se saber que a administração portuguesa ia cessar, foram completamente desestabilizadas. O que recordo é, principalmente, o esforço de alguns, entre os quais eu me contava, para tentar dar um mínimo de normalidade ao funcionamento da sociedade angolana, numa situação de conflito que tornava isso praticamente impossível.
JN - Era uma batalha perdida...
VVA - Foi um período de enorme agitação, de situações de enorme violência. Para quem, como eu, que toda a minha vida fora anticolonialista, foi uma enorme pena ver destruir inevitavelmente um país. É isso que me leva a escrever uma carta aos três movimentos de libertação, dizendo qual era a minha opinião sobre o que se estava a passar e o que ia acontecer a Angola. Infelizmente, essa carta revelou-se profética.
JN - Teria havido maneira de mudar isso?
VVA - Não, não tenho qualquer dúvida. Havia dois tipos de problemas fundamentais. O primeiro é que, quando se faz o 25 de Abril, os movimentos de libertação dizem que não aceitam nenhuma forma de negociação, só aceitam conversar desde que seja assente o princípio da independência...
JN - Mas, no terreno, a situação não era assim tão má...
VVA - Sim, mas tínhamos uma situação que levou praticamente à desmobilização da tropa portuguesa, apesar da situação militar estar longe de ser dominada pelos movimentos de libertação. Mas havia esse princípio capital, o da independência, sem o qual não seria sequer possível conversar-se com os movimentos de libertação, e a falta de disposição das tropas portuguesas para se baterem a partir do momento em que sabiam que a independência era inevitável. E havia depois outra coisa óbvia: a enorme agitação, aqui, em Portugal, que tornava impossível estabelecer uma política coerente. Não havia instruções por parte do Governo português, havia apenas algum consenso entre as forças políticas em Portugal - desde as que defendiam a independência imediata às que ainda pensavam que era possível fazer uma espécie de Comunidade Portuguesa. Perante um leque de posições destas, havia uma paralisação total do Governo.
JN - E lá?
VVA - Lá, era a total insegurança de um Governo assente na estrutura que tinha sido definida no Alvor. Havia, no mesmo Governo, três tipos de movimentos de libertação, três primeiros-ministros... Se juntar a tudo isto o clima de Guerra Fria em que a coisa se passava, com os Estados Unidos e a União Soviética interessados numa solução do problema angolano, é evidente que era uma tarefa impossível.
JN - As autoridades de Lisboa terão até dito, apesar dos avisos de Luanda, que as coisas eram o que eram, e não adiantaria tentar mudá-las...?
VVA - Devo dizer que não sou muito favorável a esse tipo de argumento, que as coisas teriam sempre de passar-se como se passaram. É uma espécie de desculpa automática para todos os erros que se fazem. E fizeram-se erros enormes do nosso lado! Mas uma coisa é terem-se feito erros, outra é supor que em Portugal havia condições objectivas para impor uma solução unificada. O Melo Antunes, naquela altura, tentou uma solução de equilíbrio, e falou com os movimentos de libertação todos. Mas o MPLA estava então numa posição extremamente dura, porque tinha uma força militar importante, e sabia que tinha o apoio da União Soviética. Essa tentativa do Melo Antunes gorou-se por causa da atitude dos movimentos de libertação, em especial do MPLA, porque era de longe o movimento mais estruturado, o que estava mais próximo de nós, os dirigentes tinham estudado nas nossas universidades, tinha uma visão dos acontecimentos históricos e uma perspectiva política que não andaria muito longe das posições políticas de Portugal. Aliás, houve vários erros nessa altura: lembro-me, por exemplo, de um discurso de Agostinho Neto - de quem era amigo pessoal e por quem tinha muita admiração - em que praticamente dava a entender que os funcionários administrativos portugueses tinham que vir-se embora. Lembro-me que me meti no carro e fui a casa dele dizer-lhe que me parecia um disparate monumental. É importante também não esquecer que o MPLA não era uma força única, e a linha que tinha mais força na altura era uma linha dura, legitimada pelas pessoas que tinham estado na luta contra Portugal, e não compreenderam que uma certa flexibilidade abria a possibilidade de uma colaboração mais estreita com as forças que, do nosso lado, também representavam alguma moderação.
JN - No Alvor, os movimentos de libertação afirmaram que apenas estavam de acordo quanto à independência, e além disso não havia qualquer tipo de acordo ou cooperação. Mesmo assim...
VVA - Acho que uma grande ironia do acordo do Alvor é nós, quando em Portugal já estávamos a ver que o processo democrático era complicado, irmos tentar impor uma situação perfeitamente surrealista, a de criar um Governo de transição com os três movimentos lá representados, como se isso fosse suficiente para acreditar na sua acção.
JN - No processo angolano houve uma originalidade: creio que em nenhum outro processo de descolonização cidadãos do país colonizador se increveram em partidos do do país colonizado. Havia portugueses inscritos no MPLA, na UNITA...
VVA - Havia. A questão aí foi que Angola teve uma colonização muito especial. Não tinha nada a ver com Moçambique, em Angola a colonização foi feita por gente muito pobre. Aliás, é isso que explica, em parte, a nossa pseudocapacidade de lidar com povos africanos...Muita gente que saía daqui vivia em condições praticamente iguais às que viviam as populações em África. Lembro-me de ter encontrado brancos a viver nos musseques, o que era uma coisa inacreditável, como engraxadores nas ruas. Quer dizer, gente do país colonizador, que exerce o poder, ser engraxador em Luanda da mesma maneira que era engraxador no Rossio, é uma coisa inacreditável. O que se verifica, de repente, quando aparecem os três movimentos, e esses movimentos são legitimados pelo acordo de Alvor, é que as pessoas tentaram obter protecção a qualquer preço. O que se passou aqui também - a seguir ao 25 de Abril, eram raras as pessoas que não se inscreveram num partido, porque achavam que isso lhes dava alguma forma de protecção. E as clivagens foram feitas um bocado de acordo com o que era a posição social das pessoas - as que tinham interesses económicos achavam que o MPLA era marxista e portanto procuravam aproximar-se da UNITA, e muita gente que achava que era preciso uma mudança, que se reconhecia nas ideias difusas da época do MPLA. Outra gente aproximou-se da UNITA. Simplesmente, não tinha qualquer espécie de voz, porque se filiaram nos partidos mas não queriam ver-se envolvidos naquele vendaval. E havia muita gente, mesmo muita gente, com menos preparação, menos acesso a informação, que ficava varada porque descobria que aquilo, afinal, não era Portugal. Fizeram-nos descobrir que não eram angolanos, e o próprio MPLA, que a princípio tinha uma grande abertura, começou a fechar-se por força das pressões daqueles que tinham estado na guerrilha e que queriam ter acesso às posições que eram ocupadas por portugueses.
JN - A questão da cidadania dos angolanos por nacionalidade ou por opção - não ficou resolvida no Alvor, ficou para depois...
VVA - No fundo, o que veio ao de cima é que tinha havido um processo de colonização menos elitista, mas há uma coisa que é preciso não esquecer: é que havia uma sobreposição clara - havia dois povos, duas culturas, tipos de interesses diferentes, um domínio completo pelos portugueses da população angolana. Embora houvesse - e isto é um fenómeno diferente em Angola -, uma burguesia negra, escritores, poetas... Essa burguesia negra, que inicialmente tinha estado de alguma forma culturalmente próxima de nós, até em termos políticos - alguns tinham-se batido aqui o salazarismo - acaba por ser submergida, quer por aqueles que conduziram a guerra, quer por camadas novas que vão aparecendo e que cada vez têm menos que ver connosco. Aliás, não tenho ilusões que, à medida que o tempo for passando, o que vai haver é afastamento afectivo e emocional.
JN - Sai do Governo por iniciativa sua ou por pressões? Foi, como se disse, intimado a sair?
VVA - Não, não fui nada intimado. Eu tinha tomado várias posições sobre a maneira como tudo se estava a passar em Angola, e tinha falado, inclusivamente, com os presidentes dos movimentos de libertação. Eu tinha um plano económico para a recuperação de Angola, foi exposto publicamente, tinha o acordo de princípio dos três movimentos - é claro que isso para eles não tinha qualquer espécie de importância, mas era minha obrigação -, e ainda vim aqui a uma reunião duma coisa que se chamava o Conselho dos 20. Essa reunião foi absolutamente inconclusiva, porque não era possível aqui obter um consenso mínimo entre as forças políticas. Voltei para Angola e escrevi uma carta aos três movimentos de libertação. Lembro-me que nessa altura tive uma conversa com o Agostinho Neto, e ele disse-me: "És muito duro também connosco", e eu respondi-lhe: "Não sou mais duro convosco do que com os outros, a vocês o que eu exigia era mais, e nessa medida vocês têm mais responsabilidades". Como não obtive resposta à carta, nem daqui, nem de lá, vim a Lisboa e disse ao Presidente da República que não continuava. Devo dizer que houve um momento em que a mim me parecia que a posição de Portugal devia ter sido a de claramente apoiar um movimento, e esse movimento só poderia ter sido o MPLA, quanto a mim. Ao fazê-lo, talvez tornasse possível um entendimento, talvez tornasse desnecessário o recurso do MPLA aos cubanos, que foram um elemento de perturbação, e teria permitido a Portugal ter moderado de alguma maneira muitas das coisas. Porque, como disse, havia várias alas dentro do MPLA. O Agostinho Neto foi uma espécie de bissectriz entre todas as tendências. Havia nessa altura um grupo de pessoas lúcidas, como as que integravam a Revolta Activa, que eram vistas na altura pelo MPLA como um grupo terrível. A Revolta Activa era constituída por homens muito inteligentes, com uma capacidade de perspectiva interessante. Mas aquele grupo de pessoas válidas a certa altura foi marginalizado pela ala mais radical e mais ignorante do MPLA.
JN - Quanto à ponte aérea. Pensa que as coisas podiam ter sido mais bem organizadas?
VVA - Inicialmente, as pessoas aqui não se aperceberam da gravidade da situação em Angola. Lá, havia uma comissão militar que estava consciente disso, e, no momento em que se estabelece o pânico, o então tenente-coronel Gonçalves Ribeiro, que era o homem que dirigia o que restava da Administração portuguesa, fez o que era possível, e penso que, apesar de tudo, a ponte aérea e a vinda das pessoas é um feito fora do vulgar.

ORIGEM

Portugal suspendeu Alvor para juntar MPLA e UNITA

Por Armando Rafael 22 Agosto 2005

Em plenoVerãoQuentede 1975, Portugal suspendeu a aplicação dos Acordos de Alvor em Angola, assumindo, assim, a sua impotência para travar a escalada do conflito que opunha MPLA, FNLA e UNITA. E que levara já o movimento de Agostinho Neto a expulsar de Lu-anda as restantes formações.
Estava-se a 22 de Agosto. Em Lisboa, Vasco Gonçalves vivia os últimos dias como primeiro-ministro e Carlos Fabião (que chefiava o Estado-Maior do Exército) tentava, com o apoio de Costa Gomes, formar um executivo que lhe sucedesse, evitando o braço-de-ferro que já se anunciava entre a Esquerda Militar e o Grupo dos Nove, tendo Otelo Saraiva de Carvalho pelo meio.
Excessivamente absorvido pelas suas próprias contradições, Portugal ainda tentou, in extremis, impulsionar um acordo que juntasse MPLA e UNITA, alargando a base de apoio de Agostinho Neto e enfraquecendo a aliança que já se desenhava entre a FNLA, Zaire e África do Sul e que contava com o beneplácito dos EUA.
Inicialmente, tal acordo ainda chegou a parecer possível, como Melo Antunes [em O Sonhador Pragmático] e Pezarat Correia [em A Descolonização de Angola] admitiram, retomando o projecto que Rosa Coutinho tanto acalentara. Uma ilusão que duraria apenas alguns dias. O tempo suficiente para que os EUA percebessem o que estava a ser a negociado, pondo termo às veleidades de Jonas Savimbi, como John Stockwell, o operacional que Washington destacara para Angola, revelou em Search of Enemies - A CIA Story.
"Savimbi causou um pequeno embaraço aos EUA, quando (...) enviou elementos para sondarem o MPLA para uma solução negociada. A CIA soube disso (...), e Savimbi foi, de imediato, interrogado por um elemento da "estação" de Kinshasa. Não queríamos aliados que fossem "moles" na nossa guerra contra o MPLA."
Na tese de doutoramento que dedica aos anos do processo revolucionário [A Revolução Portuguesa e a sua influência na transição espanhola], o historiador catalão Josep Sánchez Cervelló avança com outra explicação.
Segundo Cervelló, MPLA e UNITA chegaram a firmar um acordo entre si, que seria depois posto em causa pelos apoiantes de Neto, que consideraram excessivas algumas das concessões feitas a Savimbi.
Seja como for, o facto é que, nessa altura, Savimbi já era um reincidente na matéria, tendo beneficiado da ajuda que as estruturas do MFA em Angola lhe tinham dado durante o "consulado" de Rosa Coutinho. Sempre com a ideia de o catapultar para uma dimensão que a UNITA não tinha no quadro da luta de libertação, esperando que eles viessem a alinhar pelo diapasão de Neto, que então se deparava com a forte oposição da Revolta Activa e, em especial, da Revolta de Leste, que reunia grande parte da força militar do MPLA. Recursos que Daniel Chipenda ameaçava colocar à disposição de Holden Roberto e da FNLA, deixando Neto totalmente dependente dos guerrilheiros da região dos Dembos, que Nito Alves já mandara avançar para os musseques de Luanda.
Savimbi já tinha, contudo, ensaiado outras aproximações. Uma delas, ocorrida ainda em 1974, só não teve maiores repercussões porque o líder da UNITA recuou no último momento, deixando de apoiar o projecto que o general António de Spínola e o líder zairense Mobutu tinham negociado na Ilha do Sal, visando barrar os caminhos do poder a Neto, contrapondo-lhe uma plataforma alternativa liderada por Holden Roberto e pela FNLA.
recusas. Quando Portugal suspendeu os Acordos de Alvor já o general Silva Cardoso - que sucedera a Rosa Coutinho em Janeiro de 1975 - tinha deixado Luanda, criando um certo vazio de poder que se prolongaria por várias semanas.
Este impasse só viria a ser desbloqueado no final de Agosto, quando o Presidente da República conseguiu, finalmente, convencer o almirante Leonel Cardoso - que integrava a equipa de Silva Cardoso e trabalhara já com Rosa Coutinho - a aceitar uma incumbência que seis pessoas já tinham recusado levar o território até à independência (11 de Novembro), custasse o que custasse.
Na origem da suspensão dos Acordos de Alvor, que fixavam os termos e o calendário pelo qual tanto Portugal, como o MPLA, a FNLA e a UNITA deviam reger-se durante o período de transição, estava o conflito armado entre os três movimentos, que se espalhara a todo o território, tornando evidente toda a desagregação do dispositivo militar português em Angola.
Numa altura em que Portugal assistia igualmente às sucessivas contradições no seio do MFA, onde gonçalvistas (Esquerda Militar), moderados (Grupo dos Nove) e revolucionários (Otelo) se combatiam entre si. Com o apoio e a cumplicidade mais ou menos activa dos diferentes partidos políticos e o crescente envolvimento de países como os EUA e a URSS, que em plena Guerra Fria não tinham deixado de acompanhar com particular interesse tudo o que dizia respeito ao processo de descolonização que Lisboa estava a efectuar. Designadamente o de Angola, que tinha dado origem a uma das primeiras fracturas do MFA, levando o general Spínola a renunciar ao cargo de Presidente da República no final de Setembro de 1974, ao não conseguir impor a sua tese federalista a quem tinha derrubado uma ditadura em nome da descolonização.
Violações. Sinais contraditórios que Portugal reflectia, quando as tropas sul-africanas já tinham entrado em Angola, e as forças regulares do Zaire, apoiadas pelos comandos do coronel Santos e Castro, assumiam o grosso das colunas da FNLA.
O MPLA, que vencera a batalha de Luanda no início de Agosto, expulsando os seus adversários, contava, por sua vez, com a ajuda que lhe fora proporcionada pelos instrutores cubanos que tinham chegado a Angola com a conivência de certos sectores do MFA. O que lhes permitiu garantir o controlo da capital até à data da independência.
Beneficiando sempre da "neutralidade activa" de Portugal, um eufemismo para quem já não dispunha ali das forças necessárias para fazer valer os seus pontos de vista e, muito menos, para impor os compromissos alcançados na Cimeira do Algarve.
Desenlace. Com uma parte substancial do jogo aberto em cima da mesa, as forças militares portuguesas que ainda se encontravam em Angola aguardavam apenas pelo seu regresso, enquanto garantiam a segurança da ponte aérea que transportaria os retornados.
Algumas dessas forças, como os pára-quedistas que estavam sob o comando de Heitor Almendra, e que escapavam às influências do processo revolucionário, acabariam por ser decisivas para o desfecho do 25 de Novembro.
Mas, nessa altura, já Angola se tornara num Estado independente e já Vasco Gonçalves tinha saído de cena com a queda do V Governo Provisório.
Um Executivo que só viria a durar escassas cinco semanas, levando Josep Sánchez Cervelló a contemplar a hipótese de esse Governo só ter sido empossado - quando a sua fragilidade já era por demais evidente - para garantir que Angola seria "entregue" ao MPLA e a Agostinho Neto, e não à FNLA e a Holden Roberto, nem à UNITA e a Jonas Savimbi.
in DN

URSS apoiou Acordo Alvor até vésperas independência Angola - ex-agente secreto soviético

Escrito por Administração   
Quinta, 11 Novembro 2010 09:09
URSS apoiou Acordo Alvor até vésperas independência Angola - ex-agente secreto soviético
A União Soviética apoiou a realização dos acordos de Alvor até às vésperas da independência de Angola, defendendo a criação de um Governo com representantes do MPLA, FNLA e UNITA, escreve Oleg Najestkin nas suas memórias.
Este ex-agente secreto soviético recorda que foi enviado, no início de novembro de 1975, por Moscovo a Luanda para se encontrar com Agostinho Neto e convencê-lo a aceitar uma coligação tripartidária.
“Estive no Ministério dos Negócios Estrangeiros e na Secção Internacional do Comité Central do Partido Comunista da URSS antes de partir para Brazzaville. Fiquei surpreendido com o facto de dirigentes responsáveis desses órgãos, através dos quais passava uma enorme torrente de informação, olharem de forma limitada, míope, para os acontecimentos em Angola”, escreve no livro nas memórias “No círculo de fogo do bloqueio”.
“Em Angola”, continua o agente secreto da altura, “tinha lugar uma guerra, a CIA realizava a sua operação, ocorria uma intervenção estrangeira, mas a mim diziam-me que a atitude da URSS para com o MPLA só podia orientar-se pelas decisões das respetivas conferências internacionais sobre a criação de uma coligação trilateral”.
Segundo Oleg Najestkin, era-lhe recomendado que exercesse “influência sobre (Agostinho) Neto para levá-lo a reconciliar-se com (Holden) Roberto e (Jonas) Savimbi, bem como restabelecer a coligação trilateral”.
Porém, quando chega a Brazzaville, o espião soviético recebeu instruções “mais suaves”: “eu já não devia exercer influência sobre Neto, mas sondar junto dele a possibilidade dessa coligação e a atitude do MPLA face a ela”.
Alguns horas depois, Najestkin recebe instruções ainda mais favoráveis a Neto e com uma assinatura de “alto nível”: “eu devia, em nome do Governo soviético, dizer a Neto que a URSS estava disposta a reconhecer Angola como Estado soberano logo após a proclamação da independência sob a direção do MPLA”.
Depois de numerosas peripécias, o agente soviético chega a Luanda e consegue um encontro com o dirigente do MPLA.
“Depois de saudações mútuas, Neto olhou para mim com um ar duro e interrogativo. Que veio aqui fazer? Tentar novamente convencer a unir-se com os inimigos da revolução de Angola e com os dissidentes do seu movimento, que traíram a causa pela qual tinha sido derramado tanto sangue?”, recorda o agente.
Najestkin explicou a Agostinho Neto que na direção soviética havia os que defendiam a coligação com a UNITA e a FNLA, mas havia os que tinham outra posição e, por isso, ele tinha vindo a Luanda para comunicar a posição oficial do Kremlin, ou seja, o reconhecimento do poder do MPLA.
“Pedimos-vos que nos enviem urgentemente armas de infantaria para armar os cubanos que chegaram a Angola para defender a sua independência. As autoridades portuguesas em Angola compreendem a situação”, pediu então o futuro primeiro Presidente angolano.
O Acordo de Alvor foi assinado em Janeiro de 1975 entre o Governo português e os três principais movimentos angolanos, MPLA, UNITA e FNLA, para a partilha de poder após a independência, mas não foi respeitado pelas partes, que deram depois início à guerra civil que haveria de durar cerca de três décadas.

o tripartidária.
Lusa
ORIGEM

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Acordo de Alvor foi apenas um pedaço de papel : Almeida Santos (Angonotícias)

 
Acordo de Alvor foi apenas um pedaço de papel  
Lusa. Vera Magarreiro

O 25 de Abril e a política internacional Carlos Gaspar .


Carlos Gaspar
 

In Jornal Sol, 18 | Abril | 2009
As consequências internacionais do golpe de Estado militar de 25 de Abril de 1974 são um tema relativamente pouco tratado.
As análises correntes sobre a queda do regime autoritário português sublinham, frequentemente, a incapacidade da diplomacia norte-americana para antecipar o golpe militar. Aparentemente, as grandes potências foram apanhadas de surpresa, ou desvalorizaram a importância da viragem política em Portugal. Mas é perfeitamente natural que não tenham dado uma excessiva importância à deposição de um regime arcaico num pequeno Estado da Europa Ocidental, membro da Aliança Atlântica, cuja evolução política e económica apontava no sentido da transição democrática e da adesão à Comunidade Europeia, uma vez resolvida a questão colonial. Porém, as circunstâncias fizeram com que cada um desses passos normais – a democratização e a descolonização – tivesse consequências imprevisíveis e desproporcionadas na política internacional.
Com efeito, o golpe de Estado deu origem a uma revolução, cujo resultado democrático foi comemorado por André Malraux com uma frase célebre: pela primeira vez, os menchéviks tinham ganho aos bolchéviks. Samuel Huntington explicou que a improvável vitória da democracia liberal na transição portuguesa marcava o inicio de uma “terceira vaga” de democratização, que só parou com a queda dos regimes comunistas da Europa de Leste e da União Soviética, que assegurou a vitória ocidental na Guerra Fria. E, no entanto, visto de Angola, o resultado da descolonização portuguesa apontava no sentido oposto: a improvável vitória do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) na guerra da independência, apoiada pela intervenção soviética e cubana, anunciava o início de uma ofensiva geral em que a vantagem da União Soviética parecia óbvia.
A descolonização angolana começou no pior momento possível para o MPLA, cujas divisões internas não só o diminuíam perante os outros dois partidos armados – a FNLA e a UNITA – como prejudicavam os seus apoios externos. No entanto, até aos acordos do Alvor, em Janeiro de 1975, o Presidente Agostinho Neto teve o tempo necessário para impor a sua linha no MPLA, garantir o reconhecimento do único partido angolano que tinha um projecto nacional e restaurar as alianças internacionais.
Esse momento coincide com uma crise da détente, à qual a direcção soviética vai responder com uma estratégia em que procura, paralelamente, consolidar a estabilidade bipolar e tirar partido das vulnerabilidades dos Estados Unidos, paralisado desde a demissão do Presidente Richard Nixon. Tanto no Vietnam, como em Angola, a União Soviética vai apoiar os seus aliados locais até à vitória. O caso angolano é o mais interessante, na medida em que essa decisão vai obrigar a inventar uma fórmula inédita, em que os soviéticos não só fazem o enquadramento estratégico, como asseguram o essencial da logística operacional da intervenção militar cubana, indispensável para apoiar o MPLA contra a pressão conjugada da FNLA e do Zaire e da UNITA e da África do Sul, preparados para conquistar Luanda nas vésperas da declaração de independência. Em Quifadongo e em Ebo, as vitórias das forças cubanas e do MPLA impõem o reconhecimento geral da República Popular de Angola. Os aliados locais dos Estados Unidos (e da China) foram derrotados pelos aliados da União Soviética, que quer demonstrar como a détente não é incompatível com a projecção internacional do seu poder nas paragens mais remotas.
Esse sucesso extraordinário vai garantir a repetição da fórmula e marcar o inicio de um terceiro ciclo de expansão da União Soviética, centrado nas periferias, incluindo a Etiópia, a Nicarágua e o Afeganistão, onde, pela primeira vez, são as próprias forças soviéticas a intervir directamente para tentar assegurar a sobrevivência dos seus aliados em Kabul. Naturalmente, a détente bipolar não resistiu às sucessivas ofensivas soviéticas, e Raymond Aron, na sequência da invasão do Afeganistão, chegou mesmo a anunciar o “ano I” da era soviética.
Retrospectivamente, todos reconhecem que o ciclo de expansão periférica excedeu as capacidades da União Soviética e forçou o início do recuo estratégico decidido por Mikhail Gorbachev, primeiro para retirar as forças soviéticas do vespeiro afegão, depois para definir os termos da saída cubana de Angola. A retirada prevista, limitada e controlada, acabou por se transformar na rápida desagregação do império soviético, quando as eleições polacas mostraram a ausência de legitimidade democrática do regime comunista e o centro soviético obrigou os seus aliados a abandonar o poder.
No fim, a ilusão de uma vitória brilhante, mas sem relevância efectiva para a balança do poder central, acelerou o declínio final da União Soviética, que terminou quando as consequências da “terceira vaga” de democratização convergiram com as consequências do terceiro ciclo da sua expansão imperial.

Terra dos Condenados, por Luciano Amaral

De Caetano ao 25 de Abril, e do 25 de Abril ao PREC  às independências.
Os novos países.

 Para lêr o texto, clicar AQUI

sábado, 30 de julho de 2011

Angola Descolonização: Pontos Essenciais dos Acordos de Bicesse




O Governo da República Popular de Angola (GRPA) e a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), com a mediação do Governo de Portugal e a participação de observadores dos governos dos Estados Unidos da América (EUA) e da União das Repúblicas Soviéticas Socialistas (URSS).
Aceitam como vinculativos os seguintes documentos, que constituem os Acordos de Paz para Angola: a) Acordo de Cessar-Fogo (incluindo os anexos I e II);
b) Princípios fundamentais para o estabelecimento da paz em Angola (incluindo o anexo relativo à Comissão Militar Mista);
c) Conceitos para a resolução de questões pendentes entre o Governo da República Popular de Angola e a UNITA; 

Sobre oANGOLA no Livro "A VERTIGEM DA DESCOLONIZAÇÃO" do General Gonçalves Ribeiro



 
O ESVAZIAMENTO DO ACORDO DO ALVOR

Neste excelente livro o autor relata minuciosamente o que se passou com a descolonização de Angola. Sugerimos vivamente a sua leitura a todos aqueles que estão interessados em saber a verdade sobre a descolonização e guerra em Angola. Como o livro tem copyright e não será fácil de adquirir àqueles que vivem em Angola, solicitamos a complacência da Editora e do Autor. Obrigado.
Pg.251/260. Os representantes de Portugal na Cormissão Nacional de Defesa sentiam-se dia a dia mais frustrados por constatarem que todas as deliberações ali tomadas não passavam de meros exercícios, de retórica a extinguirem-se nas actas das reuniões.
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O Alto-Comissário com os ministros e secretários de Estado do Governo de Transição.
(Foto Jornal A Província de Angola, 1-02-1975)
 
General Gonçalves Ribeiro
Editorial Inquérito,Ldª
Distribuição: Publicações Europa América
http://www.europa-america.pt/

TEXTO INTEGRAL

TEXTO DO ACORDO ENTRE O GOVERNO PORTUGUÊS E OS MOVIMENTOS DE LIBERTAÇÃO



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O Estado Português e a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), Movimento, Popular de Libertação de Angola (MPLA) e a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), reunidos em Alvor, no Algarve, de 10 a 15 de Janeiro de 1975, para discutir e firmar o acesso de Angola à independência, acordam no seguinte:


CAPITULO I - DA INDEPENDÊNCIA DE ANGOLA

TEXTO INTEGRAL AQUI


Jornal A Província de Angola, Quinta feira, 16 de Janeiro de 1975.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

A festa da Independência e o "Corte do Bolo": entrevista com Entrevista com Ovídio de Almeida Melo

  


Entrevista com Ovídio de Almeida Melo

 O corte do bolo


JA - Que momentos eufóricos ainda guarda do povo angolano na festa da independência?

OM - A festa foi linda, com toda a pobreza do momento, e atropelada pela proximidade da guerra ao norte e ao sul de Luanda, uma cidade assediada e que estava desprovida de comida, de água, de tudo. O banho que eu tomei no dia da independência foi com uma garrafinha de água mineral, porque não havia água no hotel Trópico. A água tinha sido cortada pelas lutas havidas em Caxito. Quando eu declarei que o Brasil havia reconhecido Angola, na primeira hora, no primeiro segundo da independência, a multidão silenciou pasma, pois não podia estar à espera que o Brasil, que era na época uma ditadura de extrema-direita, reconhecesse um país socialista. Esse foi um dos episódios. O outro foi o do bolo, na festa que houvera no palácio. Era um bolo enorme, de quase um metro de diâmetro, com o mapa de Angola feito em açúcar. Deram a faca a Agostinho Neto e ele disse: ‘como é que eu vou cortar Angola se eu passei a vida inteira lutando pela unidade de Angola? Eu não posso cortar Angola’. Todos ficamos à espera que ele encontrasse uma solução de como cortar o bolo. Mas quando ele ia meter a faca no bolo, um jornalista jugoslavo, que estava ao meu lado, perguntou num português muito bom: "Presidente, se você cortar Angola quero a província de Cabinda, que é rica em petróleo". Mas Agostinho Neto encontrou uma solução melhor. Não deu a província de Cabinda para o jugoslavo. Ele cortou o bolo na horizontal, sem tocar no mapa de Angola que cobria o bolo. A parada da independência também foi uma coisa interessantíssima. A Polícia e as FAPLA estavam uniformizadas com uniforme novo que tinha chegado do Brasil. As armas todas que tinham servido a luta naquele ano inteiro, bazucas e tanques velhos, parecia que iam ao ferro velho. Embora o mundo dissesse que o MPLA estava a ser apoiado por forças comunistas, como a União Soviética, na verdade, a maior parte do tempo, até à intervenção cubana, a luta se fez com armas antiquadas, velhas. E isso foi ainda mais heróico da parte de Angola.

texto integral AQUI

FUA - FRENTE DE UNIDADE ANGOLANA: OPORTUNIDADE PERDIDA POR PORTUGAL 5.- SAÍNDO DAS TREVAS...




("Não acreditamos realmente na verdade, e
isso é uma das pobrezas de nosso tempo.."

Jorge Luís Borges, grande escritor argentino,
descendente de portugueses)

EM 1940 GERMINOU A SEMENTE EMANCIPALISTA EM ANGOLA... E MOÇAMBIQUE...
FUA - FRENTE DE UNIDADE ANGOLANA: OPORTUNIDADE PERDIDA POR PORTUGAL



5.- SAÍNDO DAS TREVAS...
 

No dia 17 de Abril de 1961, numa estrada de Lubango (Sá da Bandeira, ao tempo), hoje província da Huíla, Sul de Angola, foram encontrados, envoltos num papel de embrulho, várias dezenas de manifestos clandestinos. Eram dum movimento que usava o acrônimo FUA, até então desconhecido das autoridades administrativas...

O encarregado do governo do distrito da HUÍLA constatou que esses impressos haviam sido embrulhados em papel timbrado da firma "Lelo", pelo que mandou comprar folhas para estêncil na dita papelaria, sendo-lhe fornecido papel idêntico ao utilizado na impressão dos manifestos já referidos.

Armando da Costa Ferreira, gerente da firma, era conhecido pelas suas idéias confessadamente opostas às do regime político português. Foi detido para averiguações.

Teve então lugar, sem alarde, um inquérito administrativo; o fato foi comunicado prontamente ao governador geral da colônia.


 By Carlos Mário Alexandrino da Silva
FUA - FRENTE DE UNIDADE ANGOLANA: OPORTUNIDADE PERDIDA POR PORTUGAL
Ecmnmesia História Colonial. Artigos de Opinião