domingo, 4 de setembro de 2011

A «grande dívida histórica»


Texto extraído do extinto portal Imigport


Estúpido, masoquista e paranóico! Só com estes três epítetos consigo definir a tua personalidade! É preciso ser de uma menoridade mongolóide para escrever o que tu escreves e esquecer-te do passado do teu país! Nós que colonizámos, roubamos, torturamos, violamos e escravizámos estes povos africanos! Não sentes sequer vestígios de culpa nessa tua consciência microscópica? Como podes agora considerá-los como uma espécie de peso morto, a eles que durante séculos nos carregaram a nós? Nós temos uma dívida histórica! Temos o dever de os receber, de os educar e de tratar bem deles.
Eu não aceito a existência desta dívida. E você também não o deve fazer.


A actual tecnologia não permite a transmissão de mensagens para o passado. Deste modo como posso eu tentar convencer os meus antepassados a não fazerem o que fizeram? É evidente que nem nós nem qualquer outro povo da terra pode ser responsabilizado pelo que os seus antepassados fizeram.
Se assim fosse teríamos todos de estar a pagar a dívida de quando a nossa espécie levou o “homo erectus” à extinção, que por sua vez levou o “homo habilis” à extinção e assim sucessivamente. Tem de haver um limite à transmissibilidade hereditária das dívidas históricas porque senão a culpa acumulada era tão grande que a humanidade já tinha morrido de insónia.

De qualquer maneira a esmagadora maioria da população portuguesa actual nunca viveu nas ex-colónias, nunca tratou mal nenhum africano. Nunca explorou ninguém, aliás o contrário é que sucedia. Porque têm eles de andar a pagar dívidas morais?

É claro que houve portugueses que exploraram e “bem” as ex-colónias e os seus povos. Indivíduos com interesses na exploração agrícola, comunicação social, construção e obras públicas, etc. Curiosamente muitos mantêm agora no nosso país as mesmas actividades. Algumas dessas pessoas são agora altas figuras da nossa classe política. Estes sim, devem ter muitos motivos para sentir um peso na consciência. Mas são eles sozinhos que têm de lidar com ela. Se acharem que o suicídio é a única solução, pois façam-no sozinhos. Não arrastem Portugal.

Se realmente temos essa dívida, será que a única forma de a pagar é receber no nosso país o excesso de mão-de-obra dos PALOP? Será que não conseguiam negociar outra forma de pagar a dívida? Pagar em dinheiro ou em géneros por exemplo? Aumentar a cooperação? Porque é que essa dívida tem de ser paga pela manutenção das portas escancaradas?

Mas se insistem que essa dívida existe, então comecemos por verificar se as nossas supostas vítimas são realmente assim tão inocentes e têm o “cadastro” realmente limpo.

O senhor Basil Davidson, grande inimigo dos portugueses e grande demagogo ao serviço dos movimentos de “libertação”, no seu livro «À descoberta do passado de África» refere que a África era originalmente habitada por um grande número de povos diferentes entre os quais os negros propriamente ditos, os árabes, os berberes, os pigmeus, os bosquímanos, etc. Ele também disse que os negros acabaram por se tornar no grupo racial mais numeroso de África. Mas não é muito claro ao explicar a forma como isso aconteceu.

Pois bem, eu vou passar a explicar:

Ao contrário do que aconteceu com os exércitos romanos que transportavam os seus historiadores, nunca ninguém em África se lembrou de escrever a história deste continente e dos seus povos. Reconstruí-la é um trabalho de detective. Mas existem duas pistas valiosas. As línguas e os vestígios arqueológicos.

Quando os exploradores europeus acabaram o reconhecimento de África, observaram que, com excepção do extremo norte, o continente era quase totalmente ocupado pelos negros. As únicas excepções eram pequenas bolsas de pigmeus e do que restava dos povos khoisan.

Os pigmeus são um grupo racial que partilha com os negros a cor da pele mas a semelhança acaba aí. São de estatura mais pequena, têm o cabelo mais encaracolado e um crânio de formas distintas. Hoje existem apenas 200.000 pigmeus para 200 milhões de negros. Todos os indícios apontam para que os caçadores pigmeus tenham ocupado outrora todas as florestas tropicais até serem expulsos e condenados a viver isolados em pequenas “ilhas” pelo avanço dos agricultores negros. Dos antigos pigmeus já se descobriram artefactos em zonas actualmente ocupadas por agricultores negros embora ainda não se tenham descoberto esqueletos.

Os khoisan pelo seu lado dividiam-se em dois grupos. Os de estatura elevada, mais tarde designados desdenhosamente por Hotentotes que eram pastores e os San, também chamados pejorativamente de bosquímanos, de estatura pequena que eram caçadores recolectores. Estes povos formam também um grupo racial distinto e têm um tom de pele de um castanho muito mais claro que os negros, que há quem designe por “amarelado”. Foi um grupo deste povo que foi a estrela principal do filme “Os deuses devem estar loucos”. Foram também estes povos que se tornaram aliados naturais das tropas portuguesas no sul de Angola, durante a guerra colonial, quando eram designados por “setas” e muito apreciados pelas suas qualidades. As línguas khoisan só existem actualmente na África do Sul com excepção da língua Hadza e Sandawe que são faladas na Tanzânia a uma distância de mais de 1.500 milhas dos seus parentes linguísticos mais próximos. Adicionalmente as famosas consoantes “clicádas” da linguagem khoisan e algumas das suas palavras aparecem em linguagens faladas por negros do Quénia. Tudo isto sugere que as línguas e o povo khoisan outrora se estendiam bastante para norte até serem obliterados pelos negros deixando para trás apenas algumas palavras como testemunho da sua antiga presença. Arqueólogos na Zâmbia descobriram crânios e ferramentas de pedra típicas do povo khoisan.

E afinal de onde vieram os negros propriamente ditos?

As 1400 línguas africanas provêem de apenas 4 grupos originais como provaram os trabalhos do linguista Joseph Greenberd de Stanford. Os povos bantos formam hoje o grupo populacional mais numeroso do sul de África. As linguagens banto representam quase metade das 1032 línguas do grupo Níger-Congo. Só os povos que falam línguas da família Banto representam perto de 100 milhões de pessoas. Todas as 464 línguas Banto são tão aparentadas que têm sido consideradas 464 dialectos da mesma língua.

Utilizando várias técnicas e tendo em conta a actual distribuição geográfica desses dialectos e o grau de afastamento linguístico entre si foi possível reconstruir o puzzle da origem desta língua e presumivelmente do seu povo. Eles tiveram origem na zona dos Camarões e Nigéria. É esta a terra que podem genuinamente reivindicar como sendo a terra dos seus antepassados. Todos os outros territórios foram conquistados e os seus habitantes originais expulsos ou condenados à extinção.
A expansão banto começou cerca de 3000 A.C. Em 1000 A.C. já tinham chegado à zona dos grandes lagos. A costa este de África foi atingida nos primeiros anos da nossa era. Pouco depois adquiriram a tecnologia do ferro que já tinha começado a ser trabalhado na zona do Sael e finalmente num dos avanços colonizadores mais rápidos da pré-história recente deslocaram o que restava dos povos khoisan das suas terras e ocuparam-nas em poucos séculos.

O registo fóssil não gravou o que passou, mas sabemos qual foi o resultado; no fim, dos khoisan não restavam mais do que poucas centenas de famílias a viver uma vida precária no deserto escaldante do Kalahari, entre o norte da Namíbia e o sul de Angola.

Como se deu essa substituição?

De modo pacífico, simplesmente pelo acumular das inúmeras pequenas vantagens competitivas que uma cultura superior proporciona, ou violentamente? O registo fóssil é silencioso sobre isto. Mas tendo em conta o comportamento actual desses povos será que alguém é capaz de apostar o braço direito em como essa substituição não se deu também por via violenta? Algum povo na história cedeu o terreno que ocupava sem dar luta? A ausência de prova não é prova da ausência.

Uma coisa é certa: um povo não só se apoderou do território antes ocupado por outro, como o substituiu quase completamente, atirando o povo nativo para a beira de extinção! Agora existe um nome para isso.
Chama-se genocídio!

As potências coloniais europeias nunca chegaram a este extremo!
Quando é que os povos banto chegaram às nossas ex-colónias? Não se sabe com precisão. Mas sabemos que quando os Holandeses chegaram à zona do cabo ainda lá viviam grupos de khoisan e os negros Xhosa ainda lá não tinham chegado. É muito possível que quando os nossos navegadores chegaram a Angola, o povo que lá encontraram tenha colonizado e ocupado esses territórios há poucas centenas de anos atrás, quanto muito. Eles não eram nenhuns anjinhos que lá viviam pacatamente desde a noite dos tempos!

Espero que o leitor se esteja a aperceber de todas as consequências disto. É que as nossas supostas vítimas TAMBÉM são descendentes de COLONIZADORES! Precisamente da ÚLTIMA vaga de colonização a atingir o sul de África antes da chegada dos europeus. E eles foram bem mais longe! O que é pior? A escravatura ou o genocídio?

Deixemo-nos de complexos! Os negros jogaram o jogo da história como todos os outros povos. Umas vezes jogaram bem, outras jogaram mal. Umas vezes ganharam, outras perderam. Tal como todos os outros povos. Eles não são nenhuns coitadinhos fadados para o papel de vítimas!

Se nós temos uma dívida moral a pagar pelo que fizeram os nossos antepassados, então os negros não têm também uma dívida moral a pagar pelo que os seus antepassados fizeram aos khoisan e aos pigmeus? Já a começaram a pagar? Porque é que só se fala na nossa dívida e não na deles?
Nós já entregamos os territórios que ocupamos, através desse processo que ficou conhecido como a “descolonização exemplar”. E eles? De que esperam para devolver os territórios ocupados aos khoisan e aos pigmeus?

Mas existe mais um pormenor que eu considero simplesmente delicioso: Um grupo de cientistas tentou determinar o grau de parentesco genético entre grupos negros seus vizinhos e os khoisan e chegou a uma interessante conclusão: Eles estão bastante separados! Tudo indica que houve muito pouca mistura de sangue! Como explicar isto? Como explicar que duas raças vivam nas proximidades uma da outra durante provavelmente centenas de anos sem que tenha havido mistura de sangue? Será que os negros não achavam os khoisan suficientemente atraentes? Ou será que os negros consideravam os bosquímanos uma raça INFERIOR? Parece que Hitler não foi original nas suas teses de higiene racial!

Os SOéSes tinham um cartaz de propaganda que mostrava uma mulher negra e dizia mais ou menos isto: “Eu já fui escrava. Você é racista. Eu pelo menos evoluí”!
Se esses meninos se tivessem dado ao trabalho de estudar a história de África poderiam ter escrito uma frase mais completa: “Eu já fui escrava. Também fui colonizadora e até genocida. Você é racista mas eu ainda sou mais. Será que evoluí alguma coisa?”
Talvez...

É evidente que isto não foi sempre a regra. Houve também miscigenação. Por exemplo o povo xhosa de Nelson Mandela não pode esconder os seus genes khoisan. Mas os zulus já não aparentam possuí-los.
E a escravatura? Nós não começámos a escravatura em África. Foram os árabes os primeiros, dos tempos modernos, a traficar com os escravos africanos. E eles eram apenas intermediários. Quem caçava os negros, eram OUTROS negros. Houve tribos que se especializaram nisso. Houve reinos africanos que viveram épocas de grande prosperidade à pala do negócio da escravatura. Só mais tarde os nossos antepassados começaram a cobrir todas as fases do “negócio”.

Eu não estou a tentar legitimar a escravatura. Ela foi algo de horrível. Só peço é que as coisas sejam vistas na devida perspectiva. Não é justo que os nossos antepassados sejam retratados como os piores monstros, responsáveis por tudo o que de mau aconteceu aos negros, sobretudo quando os próprios negros têm o palmarés que já descrevi.

Portugal, que na altura se chamava Lusitânia, também foi durante três séculos uma colónia do Império Romano. É quase certo que muitos dos nossos antepassados também foram escravizados. Alguma vez nos lembramos de ir cobrar dívidas morais à Itália?

O nosso país também foi ocupado por árabes durante cinco séculos. Perdemos a soberania para Espanha durante 75 anos, sofremos as invasões francesas. Durante o século XIX as coisas corriam-nos tão mal que Portugal quase se transformou numa colónia de Inglaterra; eles eram os donos das nossas maiores empresas, controlavam uma significativa porção do nosso comércio externo, etc.

De cada vez que nos livramos dessas situações de subjugação passamos as décadas seguintes a culpar o “inimigo” por todos os nossos males? Não tenho conhecimento de que tenha sido essa a nossa actuação. Aliás todos os países europeus passaram por situações difíceis. E todos eles reagiram da mesma maneira: Lamberam as feridas e seguiram em frente!

Só os africanos negros parecem estar determinados a passar o resto da eternidade a usar o colonialismo europeu como bode expiatório para todos os males que afligem os seus países.
E durante mais quanto tempo vão eles fazer isso? Mais 50 anos? Mais 500 anos? Mais 5000 anos?
E quanto à obrigação de os educar? Eu não percebo estas pessoas. Por um lado desfazem-se em rasgados elogios aos heróis africanos que resistiram durante 500 anos à aculturação europeia. Por outro, acham que eles são ignorantes por nossa culpa e é nossa obrigação educá-los! Em que é que ficamos? Decidam-se de uma vez por todas.

Bom, uma vez que estamos a falar de dívidas, temos que falar em amortizações: Durante os séculos XVIII, XIX e grande parte do século XX as colónias africanas nunca deram lucro. Elas eram antes um pesado fardo para o Estado português. Só na década de 50 é que Angola e Moçambique começaram a conseguir bastar-se com os seus próprios recursos. Cabo Verde, Guiné e São Tomé NUNCA chegaram a ser economicamente independentes. Foram os portugueses da metrópole que pagaram as cidades que deixamos em África, bem planeadas, espaçosas e melhores do que as que tínhamos em Portugal. O mesmo se passou com as infra-estruturas, as escolas, os hospitais, etc. A ideia bastante divulgada de que nós vivíamos à conta das colónias africanas é falsa. Pelo menos até aos anos 50 foi precisamente o contrário que se passou. Isto não abate nada na dívida?

Nessas colónias montámos um sistema educativo e de cuidados médicos que eram justamente considerados dos melhores de toda a África. Isso não abate nada na nossa dívida histórica?
E os portugueses que dedicaram a sua vida a esses territórios, que com o seu trabalho contribuíram para o seu progresso e prosperidade e que no fim tiveram que regressar quase só com a roupa que traziam vestida? Isso não abate nada na nossa dívida?

Na década de 60 rebeldes da UPA, no norte de Angola atacaram fazendas dos colonos portugueses. Mataram com armas primitivas homens, mulheres e crianças, na maioria dos casos com requintes de malvadez e no fim declararam-se não arrependidos e disseram que hoje repetiam tudo. Isso também não desconta nada?

E os arquipélagos de Cabo Verde e São Tomé que estavam desertos quando os encontrámos? Nós fomos os primeiros habitantes dessas ilhas. O facto de lhes termos concedido a independência foi um acto de generosidade ao qual não estávamos obrigados. Isso também não amortiza nada.
E o que temos gasto em programas de cooperação, em perdões de dívidas, em ajudas alimentares, em apoio a refugiados, em reservar nas nossas universidades lugares para africanos?
Mas afinal quanto é que ainda devemos?

E daqui por umas décadas vão cobrar aos nossos descendentes a dívida da forma como os trabalhadores imigrantes ilegais estão a ser tratados pelos “patos-bravos” desde a década de 80?


NOTA: Mais pormenores sobre a pré-história recente de África podem ser encontrados no artigo «How Africa became black» de Jared Diamond publicado na revista “Discover magazine”.



Colocado em Geral às 20:57 de Segunda 12 Março por causanac
http://www.causanacional.net/index.php?itemid=319
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“Colonialismo não pode continuar a ser o bode expiatório para o atraso de África”

Relatório da ONU afirma: “Colonialismo não pode continuar a ser o bode expiatório para o atraso de África”


Publicado 20 20UTC Agosto 20UTC 2009 Uncategorized Deixar um Comentário

Tags:Colonialismo, História & Cultura, ONU, Política


Finalmente a ONU reconhece oficialmente que o Colonialismo não pode continuar a ser o bode expiatório para o atraso de África.
Na próxima Assembleia Geral das Nações Unidas, a decorrer em Setembro em Nova Iorque, o Secretário-geral da organização, o Sul Coreano Ban Ki-Moon, irá apresentar um novo relatório sobre África, o seu desenvolvimento e os seus desafios. Este novo documento, da autoria do Português Rodrigo Tavares, revela-se um novo olhar sobre África.

O Continente Negro enfrenta, como todo o mundo, a crise financeira e económica que abalou as mais fortes economias mundiais. Dependente da exportação de matérias-primas como as madeiras ou o petróleo, os países africanos estão a combater a actual crise com um custo muito superior ao dos restantes Estados. Pobreza, corrupção, má gestão, guerras civis, desemprego, violência e falta de unidade e consciência nacional são alguns dos muitos problemas que cronicamente afectam a maioria dos Estados de África.

Até há pouco tempo atrás, o Colonialismo servia de bode expiatório para todo e qualquer mal que África tinha. Não havia união nacional (jamais se poderia falar em Estados Nação como no Velho Continente) pois, às custas das políticas expansionistas das potências europeias, África tinha sido dividida a régua e esquadro. Não se podia falar em desenvolvimento económico pois as velhas potências não tinham criado as condições ideais para o desenvolvimento sustentado da população. Não se podia falar em muita coisa! O Colonialismo era a razão para todo o atraso de África!
Hoje o panorama é diferente! E hoje a ONU reconhece que o Colonialismo não pode ser mais usado como forma de desculpar todo o subdesenvolvimento de África.

É verdade que este tema continua a ser tabu em muitos países do continente e que, na realidade, o período colonial deixou feridas profundas que ainda hoje têm cicatrizes visíveis em quase todos os países. É verdade que o Colonialismo é reprovável e que teve consequências no desenvolvimento de muitas jovens nações. Mas, também é verdade que o Colonialismo já acabou. Acabou em 1994 quando a África do Sul reconheceu o direito à independência da Namíbia, mas, de facto, os últimos actos de Colonialismo tiveram lugar na década de 70 do século passado. A independência das 5 antigas colónias Portuguesas neste continente encerrou o processo de colonização em África. Desde então, as nações africanas ficaram por sua conta e risco. Não foi um processo pacífico: houve muitas guerras civis pelo meio, houve muitos golpes de Estado, houve muita propaganda e houve, também, muita má gestão.
Rodrigo Tavares, o autor do relatório, revela que é uma falta de respeito os líderes africanos acusarem sistematicamente as antigas potências pelo seu atraso: “É impensável criticar os antepassados coloniais relativamente ao que está a acontecer diariamente naquele continente. Isso negligencia a própria capacidade dos africanos de serem responsáveis pelos seus actos, é uma desconsideração“, afirma a investigador.
Nem mais, os Estados Africanos e os seus líderes deixaram de ter no período colonial a desculpa para a sua situação actual. E, não é a primeira vez que este tema vem às luzes da ribalta. Recentemente, Lula da Silva, Presidente do Brasil, e Barack Obama, Presidente dos EUA, afirmaram esta mesma ideia em deslocações a alguns países africanos.
“São os próprios africanos – adoptando muitas vezes discursos vitimizadores que culpabilizam o colonialismo como raiz de todos os seus problema – que patrocinam o assistencialismo. Sem ajuda da União Europeia, a União Africana dificilmente teria condições para continuar a exercer as suas funções“
Apesar da oficialização desta ideia por parte da ONU ser a grande novidade do relatório, e reconhecendo que tal não será bem recebido por muitas elites africanas, pois de certa forma vai ao desencontro da ideologia defendida por alguns líderes africanos, nem todo o panorama apresentado é baseado nesta nova perspectiva. A par da actual crise, que tanto tem afectado África – só para se ter uma ideia, o relatório prevê 28 milhões de desempregados em 2009, 110 milhões de cidadãos na pobreza total, 44 milhões de pessoas subnutridas além de uma descida abrupta Investimento Directo Estrangeiro – em África ainda acontecem milagres: o crescimento económico, com excepção neste período de crise, tem mantido em média uma subida superior a 5% ao ano; houve uma diminuição dos conflitos internos e a percentagem de crianças a frequentar a escola tem subido consideravelmente. Alguns Estados Africanos têm prosseguido com excelentes políticas de boa governação (vejam-se os casos da Namíbia, Botsuana ou Cabo Verde).
Mas, se a ajuda internacional continuar a baixar como tem acontecido até ao momento, os “Objectivos de Desenvolvimento do Milénio” jamais poderão ser alcançados. Tal como diz o investigar autor deste novo relatório, a Europa tem um papel fundamental em todo o processo de desenvolvimento de África. Pondo desde já de lado a questão do Colonialismo, “a Europa está apenas a 20kms de distância” de África e, além disso, há uma encruzilhada histórica que liga e ligará os dois continentes. Aos muitos interesses encómicos europeus na região, sempre houve uma atenção especial com África (especialmente de países como Portugal, a Inglaterra ou a França). A Cimeira Europa – África (organizada sempre por iniciativa de Lisboa) é um dos exemplos que põe África no topo das prioridades de desenvolvimento humano dos europeus.


Este post baseou-se nas reportagens do “Expresso” e do semanário moçambicano “A Verdade”
 
ORIGEM

Racismo, Xenofobia e Discriminação



A questão do racismo, xenofobia e discriminação atribuídas aos portugueses continua a ser um tema recorrente na sociedade Moçambicana. Esta questão parece preocupar mais os moçambicanos, passados 27 anos sobre a sua Independência, que a pobreza da população. O problema é que não se percebe, muitas vezes, a que portugueses é atribuído tão pouco dignificante estatuto: a) aos que viviam em Moçambique antes de 1974 (cerca de 250 mil); b) aos que agora aí vivem (cerca de 13 mil); c) aos que residiam em Portugal antes de 1974; d) aos que residem actualmentel; f) a todos os portugueses, incluindo os de origem africana; g) apenas os brancos; etc.

O Racismo dos Portugueses
A frequência com que o tema do alegado racismo dos portugueses surge na Internet em Moçambique, tem um evidente conteúdo político que importa perceber. A perspectiva dos colonizados, não é naturalmente coincidente com a do colonizado.

Perspectiva dos Colonizados.

1. É sabido que as relações entre os países colonizados e os colonizadores nunca são pacifícas. Pelo meio existe toda uma história em comum, que tanto estimula sentimentos de simpatia como de ódio.

2.Os antigos colonizados tendem a encarar os colonizadores, como a fonte de todos os seus problemas passados, presentes e futuros. Em geral produzem um discurso que repete sem cessar os mesmos temas: Eles viviam nas suas terras pacificamente até que um dia foram assaltados, desapossados das suas terras e recursos naturais, escravizados. Os colonizadores não se preocuparam em desenvolver o país, mas apenas em roubar e humilharam as populações, etc.
3.Aos olhos dos colonizados, os colonizadores, tem uma "divida eterna" para com eles. Quando um emigrante de um país colonizado volta a uma antiga colónia, frequentemente sucedem-se as queixas de roubos, saques com a conivência das autoridades locais. Ao nível do discurso popular, este tipo de roubos é assumido como uma modesta reparação. Tudo o que lhes conseguiram extrair é sempre pouco, dado que os seus antepassados colonos fizeram muito pior.
4. As relações entre países colonizados e colonizadores, raramente são colocadas em termos de reciprocidade. Uns tem mais obrigações que outros.Uns sentem-se no direito de receber, outros estão moralmente obrigados a pagar.

5.Os casos de alegada discriminação dos seus emigrantes nas antigas potências colonizadoras, são percepcionados como a confirmação de uma ideia feita.É a prova que os antigos colonizadores continuam a ser tão racistas como antes.
Há muito de Verdade nestas afirmações, mas raramente exprimem toda a Verdade.

6.O certo é que à força de tanto ser repetido este discurso, os antigos colonizadores acabam por se tornarem numa espécie de personificação do Mal, transformando-se num "bode espiatório" para todas as frustrações e insuficiências sentidas no quotidiano. Não há mal nenhum que não lhes possa ser atribuído.
7.Os mais pobres entre os colonos, quase sempre os únicos que aceitavam os trabalhos mais humildes junto das populações locais são erigidos à condição de protótipo do antigo Colono. Tornam-se objecto de anedotas onde encarnam a figuras de pacóvios, estúpidos, burros, ignorantes, etc. Desta forma procura-se ridicularizar o pertenço domínio ou superioridade do colonizador. Quase dois séculos depois da Independência do Brasil, a figura do "português", como sinónimo de ignorante e espertalhão está ainda bem presente nas anedotas no Brasil.

Perspectiva dos Colonizadores
8. Os antigos colonizadores, por seu lado, tendem a encarar os ex-colonizados como uns ingratos, dado que eles não reconhecem o esforço de gerações de colonos a desbravarem terras, criarem plantações, abrirem estradas, portos, etc etc.
9. Aos seus olhos os habitantes das antigas colónia apenas vêem os aspectos negativos da colonização, estão amarrados ao lado negro de um passado comum.Na sua perspectiva, existem outros problemas mais importantes para serem discutidos. O passado passou, e tudo deve ser visto em função do respectivo contexto histórico, em suma, relativizado.

10. O diálogo entre "colonizadores" e "colonizados" acaba frequentemente num monólogo cada um esgrimindo as suas ideias feitas sobre o Outro.
Diálogo Portugal - Moçambique

O caso das relações entre Moçambique e Portugal, apresenta alguns aspectos curiosos. Lendo as acusações sobre o racismo dos portugueses descobre-se a ideia que estaria no horizonte uma alegada invasão de Moçambique pelos portugueses. O que analisando a sociedade portuguesa e os seus fluxos emigratórios, tal situação está longe de ser perspectivar. Há outros destinos mais lucrativos para quem quer emigra. A baixa taxa de natalidade em Portugal transformou-o também o pais, deixou de ser um tipíco exportar de mão-de-obra, para ser um destino para imigrantes. É também pouco provável que a comunidade portuguesa na África do Sul (cerca de 500 mil pessoas) se desloque para Moçambique. Tudo leva a crer que a unica comunidade que tende a aumentar é a dos moçambicanos em Portugal, à semelhança do que acontece com as restantes ex-colónias, nomeadamente com o Brasil.

O que justifica então esta continua referencia ao racismo do portugueses? Apenas a necessidade de encontrar um "bode expiatório" para as frustração quotidianas? Uma desculpa para a incompetência dos governantes?.

A insistência no alegado racismo dos portugueses, remete-nos para duas hipóteses explicativas que continuam a ter eco na sociedade moçambicana:
a) O alegado racismo e xenofobia dos brancos (portugueses), ao permitir uma clara distinção racial, possibilita igualmente a criação de uma clima que favorece a coesão nacional entre negros, induzindo-os a uma consciência de unidade cultural por oposição ao branco;

b)A denuncia do alegado racismo dos brancos (portugueses), deixa transparecer a intenção de criar uma tensão entre dois tipos de culturas: a Ocidental (racista, xenofoba, etc) e a Islâmica (dominante no norte de Moçambique).

Em qualquer dos casos, trata-se de cortar ou enfraquecer as ligações de Moçambique com as suas raízes europeias (portuguesas), abrindo caminho ao reforço de outras influências.

Carlos Fontes

Conceitos

.Xenofobia: Aversão aos estrangeiros, ao Outro (o Diferente).

Nenhum povo é intrinsecamente xenofobo, no entanto, muitos assumem com maior frequência estas posições que outros. Em certas épocas esta aversão é mais notória também que noutras. A xenofobia não parece ter haver com o nível de desenvolvimento do país. Presentemente assistimos uma vaga de xenofobia nos países economicamente mais desenvolvidos. A razão deste fenómeno que atinge toda a Europa, EUA, Austrália, etc, é simples: o estrangeiro (imigrante,etc) é apontado como a causa do aumento da criminalidade, mas também como uma ameaça às regalias duramente conquistadas pelos trabalhadores locais. Na verdade, o estrangeiro (o imigrante) está, em geral, disposto a trabalhar com salários inferiores aos praticados no país e em condições mais precárias. Esta situação acaba por provocar certa animosidade contra os mesmos por parte dos trabalhadores desses países. Em França, entre os apoiantes da extrema-direita (xenofoba) contava-se centenas de milhares de operários. Um dos maiores problemas da xenofobia é quando esta se manifesta sob a forma de um nacionalismo exacerbado, chauvinismo, etc. É nesta alturas que ocorrem perseguições colectivas às minorias, às quais são atribuídos todos os males.
Racismo: Conceito ideológico segundo o qual todos os homens distinguem-se em função da sua raça, sendo que umas são melhores que outras devido certas características inatas ( melhor inteligência, mais valentia, etc.).O discurso racista, fundado numa alegada superioridade biológica foi durante muito tempo o discurso dos que detinham o poder, ou dos que se acham que tinham NATURALMENTE direito ao mesmo. O Branco achava-se superior ao Negro, o Nobre superior ao Plebeu,o Inglês superior ao Irlandes Católico, etc. Desta forma legitimavam a exploração que faziam de outros seres humanos.
Discriminação: Exclusão de seres humanos no acesso a determinadas ocupações, baseada em factores arbitrários como o sexo, raça, nacionalidade, etnia, etc.
Outros temas:

Racismo e Xenofobia. Identidade Nacional . Pobreza e Vitimismo . A Democracia é Possível. Democracia e Corrupção.

ORIGEM DESTE TEXTO

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Memoria geografica, e politica das possessões portuguezas n'Affrica occidental, que diz respeito aos reinos de Angola, Benguela, e suas dependencias...Joaquim Antonio de Carvalho e Menezes 1834

Capa
Joaquim Antonio de Carvalho e Menezes
Typografia Carvalhense, 1834 - 41 páginas
Google EBook

Demonstração geografica e politica do territorio portuguez na Guiné inferior: Joaquim Antonio Menezes.1848


Front Cover

Demonstração geografica e politica do territorio portuguez na Guiné inferior que abrange o reino de Angola, Benguella e suas dependencias ; causas da sua decadencia e atrasamento, suas conhecidas producções e os meios que se podem applicar para o seu melhoramento e utilidade geral da nação (Google eBook)


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Em 1834 escrevi e publiquei em Lisboa uma Memoria relativa á Provincia de Angola e suas dependencias, levado unicamente do desejo de chamar a attençao de todos os Portuguezes , quer collocados no poder , quer na classe dos capitalistas e commerciantes, sobre as vantagens e recursos que a Metropole poderia recolher dos importantissimos productos que offerece aquelle vasto e rico territorio, empregando os meios que me occorreram e apontei.

   Toda a Nação parecia então animada de um só desejo, de um só sentir: o espirito de associação dominava todas as cabeças, os capitães afuiam sem a menor difficuldade para todas as emprezas agricolas e industriaes. O mau fado porém, que em quasi todas as épocas (depois da administração vigorosa e civilisadora do grande Pombal) fora guiado os destinos do malfadado Portugal, em pouco espaço destruiu as beneficas disposições, que se haviam apresentado de tornar florecentes as Provincias d'além mar, e, se ellas então mal estavam, peor ficaram, agravando-se progressivamente a sua decadencia.

Em 1842, dezesseis annos depois da minha ultima estada em Angola, voltei pela segunda vez ao paiz que me vio nascer essa penivel viagem na escuna de guerra Amelia naufragamos miseravelmente na baía de Mossamedes, e percorrendo alguns pontos da costa até Loanda, capital da Provincia, esta mesma apresentava já os symptomas de uma vida quasi extincta! Azares da fortuna, ou antes, uma guerra desleal e iniqua, cuja relação pertence a outro lugar, me reconduziu á Lisboa em 1845.

  Apezar de atrozmente perseguido, tal era a minha boa fé, tal era o conceito que formava da administração, que me pareceu poder ainda prestar algum serviço a Nação a que pertenço, mas a minha illusão foi de pouca duração! Nas duas primeiras entrevistas, que tive com o Ministro Joaquim José Falcao, de todo me convenci que jamais o poderia conseguir. As conveniencias da cruzada, que devasta a infeliz Provincia de Angola, tinham mais imperio no seu animo do que o bom nome, do que a honra e do que o engrandecimento da Monarchia: os factos o provam de sobejo....

  Esta dolorosa convicção longe de me enfraquecer  o espirito, produziu um effeito contrario. O meu ardor pela prosperidade da patria, e pela gloria da coroa portuguesa tomou o primeiro lugar. Olhei com desprezo para todos os damnos que se me poderiam seguir reimprimindo a historia da devastada Angola com mais algumas observações filhas da experiencia, e com todas as occurrencias recentes, não para conseguir remedio immediato, mas para preparar o futuro, bem persuadido que um governo illustrado, e verdadeiramente patriotico apparecerá um dia em Portugal, que aproveite a riqueza de suas vastas possessões; e estava a ponto de a publicar em Lisboa, quando uma nova perfidia me privou totalmente de a dar á luz.

Agora, posto que longe do theatro onde mais interessa esperar a acção do tempo tem grande imperio sobre as cousas e sobre os homens, e a integridade guerreada pela corrupção e immoralidade reassumirá , talvez em breve, o lugar que lhe compele. No entanto estou intimamente convencido, que a vil intriga e a calumnia, armas favoritas da tyrannia colonial, disparar-se-hao novamente contra mim; mas se dentre os — Cruzados — ha cavalheiros como se tem querido inculcar, espero não ser ferido pelas costas, como succedeu sempre que em Lisboa me apresentei por este modo, e pelos meus discursos no Parlamento.  A imprensa offerece campo vasto e legal para uma refutação, compromettendo-me desde já, e em toda a parte do mundo onde a sorte me conduzir, a retirar qualquer allusão injusta, e a declarar-me vencido, se osjgeus combatentes poderem conseguir no todo ou em parte a destruição da minha demonstração o conhecimento dos factos, que em seguido se acham exarados. Não creia alguem que por uma vez tenho desapparecido da scenna, não, a ella voltarei quando menos se esperar... A acção do tempo tem um grande império sobre as cousas e sobre os homens, e a integridade guerreada pela corrupção e pela immoralidade reassumirá. telvez em breve, o lugar que lhe compete.
Nunca aspirei ás honras de escriptor, nunca tive pretençoes de politico; tenho as minhas convicções sem ter sido nunca conspirador. Desejo sinceramente o bem da Nação a que pertenço, emitto as minhas opiniões, ou as minhas idéas como as tenho concebido, c apresento os factos como elles sào, uns por mim observados, alguns colhidos de fragmentos historicos e outros transmittidos pela voz publica, e coordenados sem os ornatos da eloquencia, que só se encontra nos grandes talentos. Depois desta ingenua confissão conto, que o leitor instruido e benevolo desculpará os defeitos ou faltas que encontrar nesta pequena obra , que teria sido mais circumstanciada se não fossem tão crescidas nesta Corte as despezas da impressão.
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s.n., 1848 - Nature - 206 pages
  

O Districto de Mossâmedes by J. Pereira do Nascimento. 1892



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Portuguezes em Africa, Asia, America, e Occeania: Obra classica, Volumes 7-8 (Google eBook)


Capa
Typ. de Borges, 1850
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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Centro de Estudos Africanos I: O Descontínuo Processo de Desenvolvimento Democrático em Angola

O Descontínuo Processo de Desenvolvimento Democrático em Angola
José Gonçalves
PARA LER CLICAR AQUI

Quizeram correr com os brancos de Angola...

 

Entrevista com Leonor Figueiredo  e pré publicação do seu livro "Ficheiros Secretos da Descolonização de Angola"

Texto completo: 
 in HUKALILE

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Rainha Njinga mandava matar quem lhe representasse ameaça, revela pesquisadora

Terça, 14 Dezembro
Luanda - A Doutora Beatrix  Heintze, investigadora da História e Etnologia de Angola e da África Centro-Ocidental, que, ao longo de quarenta anos, desenvolveu o seu trabalho no Instituto Frobenius em Frankfurt am Main (Alemanha), tendo sido também editora de todas as publicações do Instituto durante trinta e cinco anos, esteve em Luanda a participar do IV Encontro sobre a História de Angola,  numa profícua iniciativa do Ministério angolano da Cultura, que decorreu no final do mês Agosto do corrente, foi a margem deste evento que o Semanário Angolense aproveitou a grata oportunidade para ouvir, os argumentos de razão à volta da sua obra intitulada « Angola nos séculos XVI e XVII» cuja edição em português já está disposição dos leitores de língua portuguesa Angola, estes e outros motivos, presidiram à conversa que o Semanário Angolense manteve com uma das mais respeitadas investigadoras da nossa história, no velho continente, eis a conversa.
             
  
Fonte: SA
Ela adoptou ritos e leis sanguinárias
SA- Dr.ª B. Heintze, que influência as identidades africanas podem ter nos processos de coesão nacional de Angola?
BH- Acho que podem ser muito importantes, porque Angola é uma nação muito jovem e, depois de muitas décadas de guerra, deve haver um sentido de unidade e de identidade nacional. As identidades africanas podem ajudar a consolidar essa unidade, mas espero que os angolanos tenham uma solidariedade não somente étnica. Porque, depois de muitos séculos de escravidão e de opressão, existe agora uma oportunidade para terem um futuro mais positivo e estarem mais unidos; as rigorosas distinções entre as etnias foram muitas vezes criadas só pelos colonialistas. Por exemplo, quando se lêem atentamente as obras de Henrique Dias de Carvalho vê-se que naquela altura as distinções entre os Lunda, os Chokwe e os Mbangala ainda eram bastante fluidas. As distinções étnicas não são muito importantes para uma nação, o que importa é que um grande Estado como Angola preserve também, neste mundo moderno, o essencial da sua diversidade cultural sem menosprezar as diferenças que vem da sua História. Mas para se formar uma “angolanidade” é preciso conhecer a sua própria história e cultura e não esquecer as suas riquezas culturais, incluindo as línguas angolanas, em que ainda faltam muitos dicionários e gramáticas. Quanto à cultura, a divisa talvez pudesse ser: unidade e solidariedade baseadas na diversidade histórica.

SA- Dr.ª B. Heintze, ao longo da sua comunicação fez várias vezes referência aos Mbangala. Parece-nos que eles tinham a característica de serem um povo guerreiro e combativo. O que nos pode dizer em função das suas pesquisas? 
BH- Há muito tempo, isto é nos séculos XVI e XVII, no princípio de sua formação, os Mbangala eram guerreiros, também estimulados pelo comércio dos escravos na costa atlântica. Tinham nessa altura uma ideologia guerreira com leis e ritos muito sanguinários; depois, por volta de 1630, fundaram o seu Estado e reino na baixa de Cassange, e depois não foram tão diferentes dos outros povos vizinhos. Tornaram-se agricultores e comerciantes afamados, misturaram-se com os outros povos, e tiveram uma posição estratégica perto do Kwango, entre os povos do Oeste e os do Leste deste rio. No século XVIII, ou mais tarde formava-se pouco a pouco, a Leste do Kwango, o grande Reino dos Lunda, denominado pelo grande historiador belga-americano Jan Vansina o “commonwealth lunda” (porque não foi um reino no sentido habitual). Então passou a haver de um lado do Kwango as regiões dominadas pelos Lunda, e do outro as regiões conquistadas ou fortemente influenciadas pelos portugueses. Por consequência, coube ao reino dos Mbangala no Kwango uma posição central entre o Oeste e o Leste deste rio. Os Mbangala conseguiam controlar todo o comércio que passava pelo seu país e impedir qualquer comunicação directa entre os Lunda e os portugueses até ao menos metade do século XIX.

SA- Qual era a semelhança que existia entre os Mbangala e os Lunda?
BH- São povos diferentes, têm uma língua e cultura diferente; os Mbangala falavam naquela altura um kimbundu um pouco diferente dos Mbundu à Oeste, no Ndongo; os Lunda falavam a língua lunda; embora ambas as línguas sejam línguas bantu, são bastante diferentes uma da outra. Mas havia também semelhanças entre estes povos. Por exemplo, em relação ao seu sistema de parentesco político, havia aquilo que os académicos chamam de “parentesco posicional” e “parentesco perpétuo”, que criaram uma rede ficcional de “parentesco” político no tempo e no espaço, um sistema que existe em toda esta região da África Central, e também entre os Mbangala, Chokwe e Lunda. O comércio de grande distância em que participaram primeiro os Mbangala e depois os luso-africanos (os chamados “Ambaquistas”), Chokwe e outros povos, criava também novas relações e conflitos entre os povos do interior do continente. No foco deste comércio distante, cada vez maior entre a costa atlântico e o interior, estava primeiro a exportação de escravos de um lado e a importação de têxteis e armas do outro; com o fim oficial do tráfico de escravos em 1836, procurou-se na costa cada vez mais o marfim, e mais tarde a borracha. Mas no interior da África Central os escravos continuaram de ser procurados ainda entre os africanos durante quase todo o século XIX. Os Mbangala compravam os escravos a leste do Kwango vendendo os homens aos portugueses e integrando as mulheres na sua própria sociedade. Estas relações intensas foram muito importantes. Penso que eles criaram a ideia de uma origem comum, e ajudavam, ao menos de vez em quando, a tornar as relações comerciais mais seguras.

SA- Dr.ª B. Heintze, o que é abordado neste seu livro sobre Angola nos séculos XVI e XVII?
BH- Este livro é o resultado de estudos feitos já há muito tempo e estou muito satisfeita por ter sido agora publicado aqui em Angola em português, porque sempre defendi a tese de que não valia a pena escrever sobre estes assuntos só em alemão; para mim o mais importante é dar a conhecer os meus trabalhos aqui em Angola. Quando eu comecei a estudar a História de Angola, fui a Portugal no fim do regime Salazarista. Naquela altura, era um grande tabu falar do tráfico português de escravos. Questionava: “Então não havia comércio de escravos em Angola?” Não era um assunto a discutir. Para mim que estudei na universidade dos anos sessenta uma Etnografia muito estática e sem historiografia documental crítica foi uma grande revelação poder encontrar no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa centenas de caixas cheias de documentos tratando do tráfico de escravos em Angola desde o século XVI. Por esta razão cresceu em mim a convicção de que não me seria possível continuar com a Etnografia de então. Eu deveria primeiro conhecer e estudar a História de Angola mais recuada através dos documentos existentes. Consegui receber bolsas para poder trabalhar nos arquivos de Lisboa e outros arquivos de Portugal, e conclui que não era possível escrever sobre as culturas actuais de Angola sem conhecer aquela História longínqua. Também aprendi que naquela altura quase todos os livros foram escritos do ponto de vista colonial; David Birmingham, Joseph Miller, eu e muito poucos outros investigadores fomos dos primeiros académicos na Europa e nos Estados Unidos, que tentamos escrever a História de Angola com base nas mesmas fontes, mas o mais possível do ponto de vista dos Africanos. Porque até então, as coisas só eram vistas na perspectiva dos colonizadores; foi por isso que tentei escrever sobre a escravatura e sobre a influência da Administração portuguesa em Angola, sobre a cultura material. Foi também muito importante terem sido publicadas, alguns anos mais tarde, aquelas imagens de pinturas feitas por Cardonega e Cavazzi, que foram as primeiras pinturas conhecidas do século XVII e que nos fornecem um conhecimento visualizado do mito do primeiro rei do Ndongo. Estas pinturas contêm também estes ornamentos muito interessantes e muito importantes que se encontram pintados sobre o trono e nos têxteis da corte do Ndongo, ornamentos que foram também encontrados no século XX, a Leste de Angola, nos desenhos ou ideogramas de areia (os sona) dos Chokwe, Luchazi e Ngangela, e que representam com as suas explicações toda uma filosofia, os valores centrais e uma grande parte do saber histórico destas sociedades, sendo contadas aos jovens aquando dos ritos de iniciação.

SA- As fontes em África, orais e até mesmo as escritas, têm sido um grande problema para os investigadores europeus na interpretação da História de África, pela falta de fontes escritas. Como é que conseguiu fazer a recolha de material para desenvolver este seu projecto de investigação?
BH- No tempo em que fui estudante ninguém trabalhava nos arquivos portugueses e o meu professor dizia-me que teríamos ir consultar os arquivos em Lisboa, ver o que existe sobre Angola e sobre a África Central em geral. Naquela altura, eu não sabia o que havia de encontrar. Na Alemanha por exemplo, ainda havia livros sobre a História do Reino do Congo escritos apenas com informações em alemão tiradas dos livros de exploradores em África, faltando toda a investigação e pesquisa dos documentos existentes nos arquivos. Havia ainda historiadores europeus que diziam que África era um continente sem História. Quando pude estudar esta grande quantidade de documentação em Lisboa, tive a certeza: Temos que escrever a história de Angola do ponto de vista dos africanos com estes documentos. Como naquela altura em Angola houve primeiro a guerra de independência e depois a guerra civil e como não sou uma pessoa muito prática e nunca tive uma saúde muito estável, uma pesquisa de campo não me foi possível. Mas em Portugal consegui descobrir muitas coisas novas, sobretudo um grande código em dois volumes do governador de Angola Fernão de Sousa (1624-1630). A partir daí escrevi uma reinterpretação da história do reino do Ndongo na primeira metade do século XVII. Para fazer aquele trabalho foi preciso fazer toda a transcrição difícil deste volumoso corpo de documentos. Depois de acabar com a minha investigação, pensei que seria pena de não publicar também essa fonte importantíssima para a História de Angola do século XVII, facilitando assim aos próprios angolanos e outros investigadores o seu uso. Não tive muitas esperanças de conseguir, mas finalmente encontrei uma casa editora mesmo na Alemanha que publicou essa fonte em dois volumes, em português (1985 e 1988)! Como essa publicação foi um grande sucesso, agora já está esgotada. Talvez seja possível um dia fazer uma reprodução facsimile (porque nesse tempo ainda não havia manuscrito digitalizado). Geralmente, na Alemanha de então, não havia muito interesse por Angola. Mas fui ter com a nossa casa editora que propôs dar vinte cópias dessa obra a Angola e a Embaixada de Angola em Berlim predispôs-se a garantir o seu transporte para Angola sem qualquer custo. Assim foi possível terem aqui esta fonte sobre os séculos XVI e XVII.

SA- Nesta sua obra, a senhora fala em Estado do Ndongo e não Reino do Ndongo porquê?
BH- O Reino foi um Estado e vice-versa. Pode-se utilizar os dois conceitos. Os relatos do governador Fernão de Sousa são muito importantes para a História do Ndongo – eu mesmo diria que é uma das mais importantes fontes da primeira metade do século XVII. Por isso acho que hoje não se pode escrever a história sem fazer uso desta fonte. As suas informações estão ligadas sobretudo ao começo da década de 1620, ou até mesmo antes. Porque ele relata também em pormenor a grande guerra contra o Ndongo começada por um dos governadores anteriores com a ajuda dos Jaga/Mbangala. O rei do Ndongo de então era o irmão da famosa rainha Njinga a Mbande, que sendo combatida pelos Portugueses teve de refugiar-se numa ilha do Kwanza; depois houve algumas tentativas de reconciliação, mas todos os governadores portugueses, incluindo o próprio Fernão de Sousa, não ousavam concluir o tratado discutido. Neste período a Njinga terá vindo duas vezes para Luanda como diplomata, para tratar desta paz e terá sido baptizada aí, em 1622, com o nome de Ana de Sousa. Penso que já naquela altura ela era uma personagem excepcional. Depois da morte do seu irmão, ela teria recebido as insígnias para as guardar, enquanto o filho do seu irmão era ainda pequeno demais para governar. Foi este o primeiro passo para ela ascender ao poder, visto que até então nunca houvera uma mulher a governar este reino. Mas Njinga foi muito ambiciosa e era possuidora de um grande talento diplomático na luta pela sua sobrevivência política. Sem escrúpulos, com dureza e crueldade conseguiu contrariar todos os condicionamentos de género e impor o seu direito ao cargo de governante. Juntou-se aos Jaga (mais tarde conhecidos como Mbangala), cujos ritos e leis sanguinários ela adoptou. Njinga não ficou com grande poder de armas, mas tinha influência bastante para se sempre impor de novo, não hesitando na escolha de seus meios. Todas as pessoas ao seu redor que eventualmente pudessem representar algum perigo, ela mandava matar. Tal como o seu irmão, também Njinga tentou fazer a paz com os portugueses, mas sem ter de se tornar vassalo deles. Naquela época, havia mudanças frequentes dos governadores portugueses, cada um deles prometendo um tratado de paz, que no entanto nunca foi realizado.

O problema da rainha Njinga foi que os portugueses tinham avançado um dos seus presídios mais a Leste, à Ambaca, que era muito próximo do centro de poder do Ndongo. Um dos pontos mais importantes do tratado previsto era que este presídio de Ambaca deveria ser retirado. Todos os governadores sucessivos concordaram que deveria ser assim, mas ninguém teve a coragem de o fazer. Porque para os portugueses, retroceder significava mostrar fraqueza, e por isso não aconteceu. Quando chegou Fernão de Sousa, ele também queria fazer paz para promover o comércio dos escravos. Ele foi um dos poucos governadores de Angola que teve um carácter integro; antes do seu mandato, havia muita corrupção no governo português em Angola e a escolha de Fernão de Sousa pela Coroa foi feita porque se estava à procura de uma pessoa integra. Mas este governador não ousava tomar decisões por si mesmo, sem consulta e parecer prévios da Coroa. Foi por isso que chamei a Fernão de Sousa o “cunctator” (hesitador). Como se sabe, o correio entre Angola e Portugal/Espanha levava nesta época muito tempo. Finalmente Fernão de Sousa convenceu-se de que não tinha alternativa senão instalar outro rei no Ndongo e fazê-lo vassalo português. Com a resistência de Njinga contra esse rei que ela e os seus julgavam ilegítimo, e com a paragem do comércio de escravos, Fernão de Sousa julgou poder começar “uma guerra justa” contra a Njinga. A rainha juntou-se com os Jaga/Mbangala para se salvar, primeiro com Casa Angola, depois com João Cassanje. Fernão de Sousa recebeu a notícia de que este último disse à Njinga: se ela queria juntar-se a ele havia de ser sem a sua lunga (que era um gongue grande e insígnia da guerra), que ele havia de governar e não haverá dois senhores no seu quilombo, e que ela havia de ser a sua mulher. – Após Njinga ter sido definitivamente expulsa pelos portugueses do seu reino ancestral do Ndongo, ela conquistou o Reino de Matamba junto ao Kwango e criou aí uma nova base para o seu domínio. Aliada aos Jaga/Mbangala ou aos holandeses constituiu depois, durante décadas, uma séria ameaça para os portugueses. Mas tal como para estes, o comércio de escravos serviu também para ela como base material e política do exercício do seu poder. Morreu em Matamba no ano de 1663, em paz com os portugueses e reconciliada com a fé católica. A rainha Njinga foi certamente a maior política da história de Angola e para os angolanos modernos, esta figura invulgar tornou-se um símbolo da resistência angolana contra o domínio colonial português. E assim parece que já faz parte da sua memória cultural.

SA- Temos a impressão que nesta sua obra, terá faltado uma fonte fundamental para um estudo sobre a história de África no geral e de Angola em particular, que é a fonte oral; até que ponto é que acha que seria importante incluí-la neste seu valioso estudo?
BH- Bem! Os dois grupos de fontes são igualmente importantes, mas têm qualidades diferentes e podem ser utilizadas de modos diferentes. Respondem a diferentes questões. Quando nós temos notícias escritas de fontes antigas, sabemos que são sempre feitas de uma perspectiva europeia e muitas vezes colonialista. Mas sem elas faltar-nos-iam muitos conhecimentos essenciais da História desta parte de África. Por outro lado, existem algumas informações nos documentos dos séculos XVI e XVII tiradas de tradições orais que são muito valiosas para nós. Mas muitas vezes trata-se de compilações sem informação sobre quem, quando e onde essas tradições foram relatadas. Como as tradições orais são adaptadas, com o decorrer do tempo, às necessidades e pontos de vista actuais, causam-nos grandes dificuldades de interpretação quando queremos saber alguma coisa exacta dos séculos passados, como tentei de mostrar no exemplo da História antiga dos Jaga/Mbangala (em 2007 na revista americana History in Africa). Mas apesar disso, é uma grande pena que as décadas de guerra em Angola tenham impedido a recolha profissional de tradições orais. No entanto sei que há agora tentativas de documentar tudo o que ainda existe.

Quero dar um pequeno exemplo. Em meados do século XIX foi registada uma tradição oral postulando entre outras coisas que o Jaga Cassanje teria encontrado Njinga em Luanda e que foi o Jaga que foi o protagonista de toda esta história envolvendo os três interveniêntes. No entanto, pelos documentos sabe-se que nenhum Jaga encontrou a rainha Njinga em Luanda. Esta informação oral não se deve tomar literalmente, mas ela pode exprimir simbolicamente uma vista africana desejada do passado e das relações entre os Jaga/Mbangala, Njinga e os Portugueses. Portanto tal interpretação não se pode generalizar, será sempre preciso de analisar todos os dados que temos. Por exemplo, é muito difícil para nós escrever a História dos séculos anteriores da Lunda, porque aí faltam os documentos antigos. Como já disse, creio que todos elementos de cada sociedade e cultura estão sujeitos a um processo permanente de mudança. Mudam como todos os elementos da nossa cultura e de nosso ambiente orgânico e inorgânico. Também mudam os sistemas de parentesco e as tradições orais. Só a escrita fixa e divulga, imprimindo-a, essa versão escolhida e muito especial para sempre. A minha convicção é muito contrária ao que se ensinava antigamente na universidade: Lembro-me que enquanto fui estudante, falava-se do “presente estático”, que dizia que a cultura dos chamados “naturais”, “indígenas” ou “primitivos” nunca mudava desde há meio milhão de anos, e que seria preciso esperar ainda inúmeros anos até que eles se tornarem “civilizados”.

Felizmente, já há algumas décadas que não mais se diz isto. Hoje sabe-se, por exemplo, que houve sociedades que mudaram em pouco tempo o seu sistema de parentesco patrilineal para um sistema matrilineal. Da mesma maneira entendemos hoje o universo (ao menos os académicos das ciências naturais), sabemos que este não foi sempre o que conhecemos agora. O nosso universo foi resultado do big bang, que ocorreu há milhões de anos antes de nós: depois houve sempre muitas transformações, houve mesmo mundos que desapareceram e outros que nasceram; as plantas que se desenvolveram e os animais, e nós, os homens, também; acho que é uma lei geral do nosso universo. Mas para mais uma vez responder à sua pergunta: Tal como os textos documentais, também as tradições orais constituem parte da nossa cultura e são importantíssimas para a investigação histórica e todas devem ser recolhidas onde ainda existem. Mas sem omitir as informações sobre o contexto especial de cada um. Podem ensinar-nos muitas coisas valiosas, entre elas, como um grupo de um certo tempo e lugar viu a sua História e as suas relações com os seus vizinhos. Por isso utilizei recentemente com grande ênfase as tradições orais dos Lunda, Chokwe e Mbangala, documentadas por Henrique Dias de Carvalho na Lunda, na década de 1880. O importante e excepcional do seu testemunho é que no seu tempo estas tradições não só faziam parte de entrevistas de investigação, mas eram ainda utilizadas na grande política interétnica para evitar conflitos armados.

SA- Nos últimos tempos quais têm sido os seus objectos de pesquisa?
BH- Agora, já estou reformada, já não tenho o apoio financeiro do meu Instituto, já não posso viajar tanto, mas acho que existem hoje muitos jovens com muito paciência, com possibilidade de fazerem pesquisas de campo e de arquivos. Espero que muitos deles venham a realizar projectos de M.A. e doutoramento nos arquivos de Angola que ainda esconde muitos tesouros a descobrir. Quanto a mim gostaria publicar uma versão portuguesa de dois manuscritos e vários artigos, num livro sobre a História da África-Centro Ocidental no século XIX, isto é, principalmente sobre a região a Leste do Kwango. Um outro projecto seria a edição dum grande manuscrito que foi oferta ao Instituto Frobenius: Trata-se do longo diário do militar e geógrafo alemão Alexander von Mechow acerca da sua expedição ao Kwango (1879-1881); ele foi aplaudido pelo seu mapa muito pormenorizado deste rio. Ficou entusiasmado com paisagem, mas infelizmente não se interessou muito pelos homens e suas culturas. Como já publiquei (em alemão) os escritos de dois outros exploradores alemães, de Max Buchner na Lunda (1878-1882) e de Alfred Schachtzabel na região dos Ngangela e Chokwe no Sudeste de Angola (1913-1914) – publiquei este último texto com notícias pessoais do espólio do autor e com as imagens dos objectos recolhidos por ele durante a sua expedição – talvez fosse também um projecto útil para os angolanos preparar uma versão portuguesa destes livros para uma futura publicação. Como as fontes sobre a História e Etnografia de Angola estão escritas em mais de oito línguas seria irrealista pensar que os investigadores angolanos devem e podem aprender todas estas línguas para conhecer estas fontes, mesmo quando parecem ser indispensáveis.

SA- Qual é o conselho que gostaria de dar aos novos investigadores angolanos?
BH- Há! Que façam o melhor que puderem, espero que possa haver bons professores e que mantenham o seu idealismo, porque acho que um dos grandes tesouros que tem este país são os jovens que se interessam pela História de Angola; estive alguns anos atrás em Luanda para dar umas palestras. Realizaram-se no período da tarde e eu perguntei aos estudantes como é que eles fazem a sua vida estudantil. Responderam-me que durante o dia trabalham para ganhar a vida e poder pagar a universidade e no final da tarde têm os cursos da Universidade, e a Universidade permite-lhes com estes cursos pós-laborais estudar: Isto impressionou-me muito, é fantástico, para quem conhece o trânsito em Luanda, em que é preciso perder-se muitas horas para chegar de um lado ao outro. Espero que este entusiasmo e interesse pela a História e cultura do seu país não se percam e que nunca faltem os meios para a investigação científica e a publicação das fontes e análises importantes!

* Cláudio Fortuna

Frantz Fanon: Pele negra máscaras brancas



(...)
A maioria dos negros, inclusive na África, está obcecada em “fixar-se”. Esta obsessão, sugere a argumentação de Fanon, é resultado da impotência social. Não conseguindo exercer um impacto sobre o mundo social, eles se voltam para dentro de si mesmos. O principal problema desta atitude está na contradição em buscar a liberdade escondendo-se dela. A liberdade requer visibilidade, mas, para que isto aconteça, faz-se necessário um mundo de outros. Esquivar-se do mundo é uma ladeira escorregadia que, no final das contas, leva à perda de si. Até mesmo o auto-reconhecimento requer uma colocação sob o ponto de vista de um outro. Esta é uma verdade difícil de aceitar, e não é por acaso que Fanon enfrenta essa discussão após oferecer lágrimas no final do quinto capítulo. Ele está nos dizendo que nós devemos nos livrar de nossas barreiras, rumo a um corajoso engajamento com a realidade.

A liberdade requer um mundo de outros. Mas o que acontece quando os outros não nos oferecem reconhecimento? Um dos desafios instigantes de Fanon para o mundo moderno aparece aqui. Na maioria das discussões sobre racismo e colonialismo, há uma crítica da alteridade, da possibilidade de tornar-se o Outro. Fanon, entretanto, argumenta que o racismo força um grupo de pessoas a sair da relação dialética entre o Eu e o Outro, uma relação que é a base da vida ética. A conseqüência é que quase tudo é permitido contra tais pessoas, e, como a violenta história do racismo e da escravidão revela, tal licença é freqüentemente aceita com um zelo sádico. A luta contra o racismo anti-negro não é, portanto, contra ser o Outro. É uma luta paraentrar na dialética do Eu e do Outro.

Fanon mostra também que tal luta acontece não apenas no âmbito das interações sociais, mas também em relação à razão e ao conhecimento. Nas palavras de Fanon:


(A razão assegurava a vitória em todas as frentes. Eu era readmitido nas assembléias. Mas tive de perder as ilusões. A vitória brincava de gato e rato; ela zombava de mim. Como dizia o outro, quando estou lá, ela não está, quando ela está, não estou mais.) 
Parafraseando-o, poderíamos dizer que, ao entrarmos na sala a razão sai. A razão, em outras palavras, não está sendo razoável. Encontramos aqui a situação neurótica e a melancolia dos negros no mundo moderno. Reivindicar a razão, agarrá-la, seria exibir a não-razão, mesmo diante da razão sendo irracional. Aqui Fanon, como os negros, deve argumentar com a razão. Este desafio, isto é, ser de fato mais razoável do que se espera que os outros, especialmente os brancos, o sejam, situa o negro como sofrendo uma perda antes mesmo que ele comece a lutar pela existência. Isso sinaliza a melancolia da existência negra. Na verdade, espera-se que os negros não tenham sido negros a fim de legitimarem-se como negros, o que é uma tarefa impossível. Caso o negro deseje uma condição pré-moderna, ou pré-enegrecida, isto requereria uma contradição: um negro que não fosse negro. Os negros, em outras palavras, enfrentam o problema de sua relação com a razão e com o Eu enquanto indígenas do mundo moderno. Tal Eu sofre de melancolia, uma perda pela qual eles não podem ser o que ou quem são.

Como o leitor verá, tal dilema não é um convite ao pessimismo. Fanon nos lembra que parte da nossa luta envolve entender as dimensões críticas do ato de questionar, o que ele exemplifica encerrando o livro com uma oração. Dadas as muitas traduções e comentários sobre o seu trabalho, a grande quantidade de novos grupos de pensadores influenciados por suas reflexões, e as instituições, criadas em prol da dignidade humana, que trazem seu nome e seu legado, fica claro que suas indagações têm encontrado eco neste novo século.
Lewis R. Gordon

Tradução de Renato da Silveira
Prefácio de Lewis R. Gordon


TEXTO COMPLETO

domingo, 14 de agosto de 2011

TABELA 2: Número de Brancos que Viviam em Angola (1848-1974)



ANO
NÚMERO
1845
1832
1900
9198
1920
20200
1940
44085
1950
78286
1960
172529
1961
162387
1970(*)
290000
1974(*)
335000
Fonte: MANUEL, J. R. Z. Angola - Entre o presente e o futuro

(*) Estimativa
Os dados de censo populacional em Angola são contraditórios, primeiro, em função das estratégias coloniais para ocupação, segundo, nos censos realizados, todos os resultados ficavam sob a tutela do conselho ultra-marino que entendia que tais dados facilitaram a organização militar para aqueles que lutavam contra a metrópole.
De acordo com a Tabela 2, somente neste século, houve um incremento considerável da população européia, consolidando, então, o processo da ocupação colonial. Ao mesmo tempo, criava-se entraves para uma futura aglutinação populacional, já que essa população européia tinha como função prioritária uma "ação civilizadora", voltada, na prática, para a exploração máxima da colônia, devastadora do ponto de vista cultural para a nação Angolana, fortalecendo adversidades locais e regionais no campo étnico, o que irá retardar o processo de independência devido à lenta unificação das forças políticas nacionais.(...)


sexta-feira, 12 de agosto de 2011

NAÇÃO E IMPÉRIO


XII

Após a crise. Sopro Modernizador (1869-1879)

Passada a crise, em finais da década de 1860, a polémica sobre os destinos do império estabelece-se e nos anos subsequentes são cada vez menos as vozes daqueles que viam no ultramar um campo privilegiado de afirmação da nação portuguesa.
Em 1869, chegam notícias da descoberta de «importantíssimos jazigos auríferos e de pedra preciosa na África austral». O jornal do Comércio de 1-4,9-4 e 13-10-1869, noticiou a «extensíssima, tão rica e fertilíssima província de Moçambique», de novo transformada em Eldorado. Assim, nos começos de setenta há um breve período de euforia colonial por informações vindas de Angola, testemunhando o desenvolvimento comercial da colónia (iniciava-se, então, o ciclo da borracha); como também de Moçambique, embora em menor escala, que beneficiava da crescente relação com o Natal e da abertura do canal Suez em 1869.
ReformasÉ neste contexto que a política de reformas e desenvolvimento do sistema colonial é conduzida, na década de 1870, por Andrade Corvo, na dupla qualidade de ministro dos Negócios Estrangeiros e de ministro da Marinha. A conjuntura, embora breve, favorecida pela prosperidade de alguns territórios ultramarinos, sobretudo Angola, terá facilitado a acção do ministro e novamente o nascimento do impulso imperial. Agora por preocupações de ordem mais genéricas. Andrade Corvo, ainda antes de assumir responsabilidades governativas, suscitava a reflexão sobre a questão nacional na sua Obra opúsculos «Perigos», escrito em 1870, quando decorria o «conflito franco-prussiano» e na península hispânica se agitava o fantasma da união ibérica. Os tratados de Viena de 1815, textos invocados por Andrade Corvo, em que analisava os princípios do novo direito internacional: O «Principio das nacionalidades», completado pelo da «soberania popular», o «sistema do equilíbrio europeu»; e a «teoria das raças». Esta teoria opõe uma recusa frontal, vendo na «sua monstruosidade aplicação à divisão dos impérios (…) um ataque a todos os princípios morais da organização das sociedades, conduzindo fatalmente à guerra, não sendo possível construir impérios. Quanto ao «sistema de equilíbrio europeu», para além de forçosamente instável, servia ultimamente de pretexto às grandes potências para reclamarem compensações territoriais (sempre às custas dos pequenos Estados, que para tal davam a «matéria-prima», não sendo nunca ouvidos sobre tão «cruéis e brutais atentados». Por último, o «princípio das nacionalidades» a que Andrade Corvo dava claramente preferência, desde que expurgado das manipulações que dele se vinham fazendo, cobrindo as anexações com o «aparente assentimento dos povos». Para que se lhe pudesse conferir um «valor real», para que não fosse um mero pretexto para refazer a carta da Europa segundo os desejos e as ambições dos grandes Estados», tornava-se indispensável tomar por base uma concepção precisa de nação, como «reunião de homens agrupados sobre um certo território, constituindo pelo assentimento geral, no que respeita à manifestação e defesa dos interesses comuns (…). Era uma perspectiva de nação de raiz contratual, assente na vontade livremente expressa dos povos. A única ressalva estava na exigência da «unidade de poder político, representando e dirigindo os comuns interesses perante os estrangeiros», como condição da existência da nação. O sentido era de conservar tanto quanto possível o traçada das fronteiras na Europa, evitando tanto os processos de fragmentação como os da unificação de Estados. A salvaguarda das pequenas potências estaria precisamente na estabilidade do sistema internacional, assente em «princípios claros, fundados na liberdade e independência das nações», bem como na sua cooperação. Como contraponto aos «grandes impérios» Corvo contava com as «grandes alianças» dos mais fracos, nas quais via o «meio profícuo de limitar e restringir a perigosa tendência que se manifestava na Europa, para a concentração das raças.
Fotos:
1-D.Luís I, rei de Portugal ( 18691-1869) à época
2- Andrade Corvo (ministro dos Negócios Estrangeiros e da Marinha)
Texto de Apoio: História da Expansão Portuguesa, Vol.4 (Direcção Francisco Bethencourt e Kirti Chauhuri/Círculo de Leitores), autor Valentim Alexandre.
 
 
 
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O Luso-tropicalismo




A viagem oficial de estudo e de pesquisa que o sociólogo brasileiro Gilberto Freyre efectuou durante cerca de seis meses pelas províncias portuguesas entre Agosto de 1951 e Fevereiro de 1952, a convite do Ministro do Ultramar Sarmento Rodrigues, constituiria ponto de partida para a apropriação das suas teorias pelo regime salazarista. É nesta data que é utilizada pela primeira vez a expressão “ luso-tropicalismo”.

Gilberto Freyre esteve em Macau, Timor, Ilha de São Tomé e Príncipe, seguido pelas autoridades locais e mandatado por Lisboa, visitando também a Madeira, Guiné, Cabo-Verde, São Tomé, Angola e Moçambique. Da visita a estes territórios é publicado no Brasil, em 1953 e um depois em Portugal, o livro “ Aventura e Rotina”, uma espécie de diário de viagem, tendo como subtítulo “ sugestões de uma viagem à procura das constantes portuguesas de carácter e de acção” e Um brasileiro em Terra Portuguesa. Salazar que desconhecia em parte a obra do sociólogo no verão de 1951, ia progressivamente familiarizando-se com ela.

A teoria do luso-tropicalismo, iria inspirar numerosos investigadores e universitários portugueses, entre os quais o Prof. Adriano Moreira, especialista em relações internacionais e bom conhecedor do funcionamento das Nações Unidas. Foi Professor na antiga Escola Superior Colonial, que mais tarde passou a Instituto Superior de Estudos Ultramarinos para o qual foi nomeado Director ( 1958 ). O Prof. Adriano Moreira dirigia ainda o Centro de Estudos Políticos e Sociais da Junta de Investigações, dependente do Ministério do Ultramar. Enquanto docente, Adriano Moreira desempenhou um papel importantíssimo na difusão e ensino do luso-tropicalismo.

Os fundamentos do luso-tropicalismo baseavam-se na miscigenação, fusão cultural e ausência de preconceito racista. Tratava-se de uma crença muito partilhada em Portugal à época, fundada na originalidade de uma colonização sem preconceito racial e propícia a mestiçagem. Era o papel histórico de Portugal, apresentado como missão evangelizadora: Uma Mística Luso-Cristã de Integração. Esta teoria quase é defendida nas comemorações henriquinas – V Centenário Henriquino, em 1960 – por Gilberto Freyre, enaltecendo a figura do Infante D. Henrique que “concorreu decisivamente para dar às relações de europeus com não-europeus, de brancos com povos de cor, um rumo peculiarmente luso-cristão. Esta homenagem agradava sobremaneira a Salazar que tinha o Infante D. Henrique como figura mitológica: o “sábio de Sagres” e percursor da “missão evangelizadora”. Desta forma, com cinco séculos de distância, o círculo estava praticamente fechado: Iniciado no século XV com D. Henrique, a mística luso-cristã de integração, cumpria-se com a política ultramarina de Salazar.
O Estado Novo, passou da “ mística imperial “, impulsionada por Armindo Monteiro ( 1930 ) para a “mística luso-cristã de integração”, inspirada por Gilberto Freyre ( 1960).
(Texto de apoioHistória da expansão portuguesa, volume V – Círculo dos Leitores – Direcção Francisco Bethencout

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