domingo, 16 de outubro de 2011

OS LANDINS EM MACAU "da leitura das estrelas ao pragmatismo"



 de Pedro Dá Mesquita, em Lisboa
Revista Nam Van nº 23 - 1 de Abril de 1986



Quis o destino que os landins, povo aliado com os deuses, que o fizeram feiticeiro, se tornasse no exemplo mais acabado de soldado africano ao serviço do exército colonial português.

Estávamos em 1904 e pelo regulamento assinado pelo comissário régio de Moçambique, Mousinho de Albuquerque, todos os homens válidos seriam sujeitos a uma inspecção, a ter lugar de dois em dois anos, para servirem nas companhias expedicionárias e nas companhias de indígenas, estas integradas exclusivamente por elemento landins.

Da passagem de uma vida que se perdia na memória dos tempos, feita pela leitura das estrelas, dos ventos e das nuvens, colocando cada landim numa posição superior e desta superioridade vivendo, a história militar portuguesa coloca estes homens de sorriso permanente e de selváticas paixões, numa alta estima a julgar pelo testemunho do próprio herói do aprisionamento do Gungunhana, que escreveu a dado passo no seu livro «Moçambique» que os landins eram de todas as tropas de negros ao serviço de Portugal as que revelaram «maior instinto guerreiro».

Com tão boas referências, depressa estes homens deixaram a sua terra para servirem em Angola, Timor e Macau, tendo chegado a este último território no ano de 1911, marcando nas cinco décadas seguintes uma presença regular naquele enclave, então colónia portuguesa.

Para quem conhecesse os landins por alturas dos finais do século passado, dificilmente imaginaria que este povo orgulhoso se tornasse alguma vez num soldado disciplinado, temerário, ao serviço de um exército regular.

Armado de escudo, adornado de peles e com zagaias, com as quais desferiam o primeiro golpe em direcção aos rins da vítima, os landins eram uma das etnias mais temidas e conhecidas de todo o Moçambique.

Contam as crónicas que qualquer número de landins, por mais insignificante, que passasse por qualquer aldeia, por mais pobre que ela fosse, quase que por magia - não fossem eles feiticeiros surgia logo farinha para fabricarem o seu pão favorito, sempre acompanhado por um bom número de cabritos e galinhas

As principais vítimas desta pilhagem permanente era o povo quiteve, que para além de se ver despojado de boa parte dos seus bens, era obrigado a carregar todos os mantimentos dos landins, pois estes nunca tinham «pegado em cargas».

Aliás, conta-se uma história bem curiosa sobre os costumes deste povo que fez um pacto com o céu.

Nas suas permanentes deambulações, os landins conceberam uma forma assaz curiosa de tributação: abriam um furo no alto da cobertura cónica das palhotas circulares, obrigando depois a enchê-Ias até que estas se recusassem a receber mais.

Esta tendência de acumular veio a manifestar-se bem mais tarde em Macau, embora já a nível individual e sob a forma de pré (2 mil escudos em 1950) por todos os elementos voluntários que estiveram em comissão de serviço no território, ficando célebre um desembarque em Lourenço Marques, em 1932, que vinha de tal forma provido de mercadoria que pagou 18 contos de réis em direitos aduaneiros, e isto não obstante a «vista grossa» por parte dos funcionários da alfândega.


O primeiro par de botas

Providos de uma excelente compleição física - cuja média ultrapassava o metro e setenta de altura - com uma boa capacidade de aprendizagem, com um bom espírito combativo e de tempera­mento alegre, os landins foram considerados as melhores tropas coloniais portuguesas.

Após um recenseamento, eram sujeitos a uma recruta de três a seis meses onde lhes era ministrado o manejo das armas, o aprumo mili­tar e uma instrução mínima. De­pois eram enviados para Angola, Timor e Índia na situação de obrigatoriedade, tendo sido recrutados mais de cem mil entre 1916 e 1918, durante a I Grande Guerra.

O primeiro contigente a embarcar para Macau deixou Lourenço Marques em 11 de Dezembro de 1911 com a 8ª Companhia Indígena, acompanhada de uma secção de bateria mista.

Com um par de botas - as primeiras que calçavam na sua vida - um capacete de ferro, que lhes dava um ar muito mais marcial, e com um uniforme do qual ressaltavam uns largos calções, cerca de duas centenas de landins desembarcaram em Macau nos primeiros dias de 1912, deixando desde logo uma forte impressão, quer na comunidade portuguesa, quer mesmo na chinesa ao realizarem um batuque no qual teve papel importante o manejo das terríveis zagaIas.

Devido ao facto de serem tropas muito bem treinadas e muito disciplinadas, e de serem - segundo Mousinho que as utilizou em primeiro lugar - «umas sentinelas admiráveis» foram colocados nas Portas do Cerco, ponto nevrálgico, sobretudo após a implementação da República Chinesa e onde se tinham registado alguns incidentes.




A coronhada landim

Com fortificações que permitiam a presença de uma companhia, a unidade estacionada nas Portas do Cerco estava sujeita a um trabalho violento, quer no aspecto físico, devido às constantes vigias nas 24 horas do dia, quer pelos incidentes que se repetiam quase diariamente com as tropas colocadas do outro lado da fronteIra.

O dia começava com o retirar dos cavalos-de-frisa pelas 8 horas, que eram colocados a cerca de 30 metros diante das Portas do Cerco, seguindo-se-Ihe o manejo de armas, colocação nos postos e instrução vária. A tarde, os soldados estavam encarregados de diversos melhoramentos nas instalações, encerrando a fronteira pelas 18 horas.

Equipados com espingardas de bom alcance, bazucas, canhões, anti-tanques e várias metralhadoras, as tropas landins colocavam-se em menos de três minutos nos seus postos após soar o alarme, facto que acontecia nas ocasiões mais díspares para manter a eficiência da unidade.

Após a natural apreensão relativamente à recepção que iriam dar aos landins, estes foram bem aceites pelas três comunidades em questão (portuguesa, chinesa el colegas de armas).

Depressa ganharam fama de soldados disciplinados, não só através das inúmeras histórias mas também pelas anedotas que se contavam a seu respeito. Uma delas conta o sucedido com um soldado landim que estava de serviço à residência do governador de Moçambique e deu uma forte coronhada num director dos caminhos de ferro do Transval, que na ocasião (uma greve) insistiu em transpor uma vedação, e que mais tarde iria provocar certos dissabores ao próprio Mousinho. Instado a defender-se por ocasião de um breve inquérito que ficou arquivado e das razões que o tinham levado a tomar aquela atitude, o soldado limitou-se a responder: - «Faça, alto, palavra de honra, faça fogo».

O prestígio junto das comunidades em Macau foi subindo à medida que eles se iam integrando na vida normal da cidade, sendo vistos nos dias de folga, sempre em grupos, invadindo as lojas centralizadas na Rua Almeida Ribeiro numa azáfama em adquirirem um conjunto mais ou menos fixo de bens: bicicletas, fatos, máquinas fotográficas, arcas em cânfora e outros objectos que afanosamente guardavam como penhor de dois anos de comissão de serviço voluntário em Macau com um bom pré (2 mil escudos em 1950) e isto numa altura em que Macau tinha uma vida mais barata do que em Moçambique ou Portugal.

Por outro lado, um dos passatempos favoritos dos landins ao chegarem a Macau - conforme nos relata o coronel Pedro Barcelos que comandou uma companhia dej landins nas Portas do Cerco entrei Junho de 1951 e Setembro de 19521 - era o de se fazerem transportar nos riquexós, já que parece que «lhes dava um grande prazer o serem levados a custa de braço, pelas ruas de Macau e perante um clima tão extenuante.



A fotografia de rectaguarda

Fora disso e para além de umas visitas esporádicas à rua da Felicidade (ninguém poderia ter escolhido um nome mais sugestivo...), o seu relacionamento foi sempre muito bom, sendo somente de recordar, pelo seu aspecto caricato, um episódio ocorrido em 1931, quando um grupo de dez soldados e 2 cabos landins foi escolhido para representar as forças expedicionárias de Moçambique na exposição colonial de Paris.

Como já dissemos, os landins são dotados de uma excelente estatura física, tendo sido escolhido um deles para servir de soldado tipo para uma fotografia que iria incentivar os seus conterrâneos por altura do recrutamento.

A semelhança do que se fez para o «poster» do recrutamento, foi escolhido um grupo que estava estacionado em Macau, que por tradição recebia os melhores homens; só que na foto em que se via o oficial branco no meio dos soldados o seu tamanho era nitidamente mais baixo do que o dos seus subordinados, o que, de acordo com a mentalidade da época, era visto como uma prova de inferioridade.

A solução encontrada foi simples: preparou-se uma segunda foto, tirada no campo onde se vê uma coluna seguindo na frente os landins e na rectaguarda o guia, dando assim maior corpulência ao europeu.

Mas a vida dos landins não foi só este ritual de compras e de actividade militar, facilmente notado pelo «Bayte», uma saudação tipicamente landim, uma espécie de mistura de sinais que fazem lembrar um aceno e uma continência e que servia como factor de unidade na vida civil, já que todos os antigos soldados se cumprimentavam deste modo, o que dava ainda mais animação as já animadas ruas de Macau.

Na sequência de incidentes fronteiriços o comando militar de Macau achou por bem transferir para uma unidade estacionada na ilha da Taipa a companhia que tinha estado envolvida, não só para desanuviar a situação como também para evitar futuros incidentes com uma unidade já por si excitada.

Até ao final, a companhia limitou-se a fazer missões de observação e de defesa da ilha e a participar, com o acostumado brilho, na cerimónia do 10 de Junho por ocasião do juramento de bandeira de vários recrutas de Macau, onde realizavam exercícios físicos e demonstrações militares, completados com um concerto dado pela orquestra de corda e de um coro formado inteiramente por landins, tudo isto com o mesmo aprumo com que combatiam.

Para definir estes homens alegres damos a voz ao coronel Pedra Barcelos: «o landim é um pragmático, cumpre sempre à risca aquilo que lhe dizem», daí talvez o facto de muitos deles terem dado coronhadas na cabeça de muitos imprevidentes transeuntes, que fugindo ao sol estival numa procura de uma árvore passavam por detrás das guaritas instaladas nas Portas do Cerco...



Vértices de uma presença

Rua da Felicidade, cachaça, danças tribais

A partir de 1948, os contingentes africanos (da Guiné, Angola e Moçambique) recrutados para Macau, totalizavam, entre praças e cabos, cerca de 500 elementos, e estavam aquartelados na Fortaleza da Guia, em Mong-Há, na Ilha Verde e nas ilhas de Coloane e da Taipa.

Entre as 15 e as 18 horas, isto é, durante o período de licença, os soldados africanos, ou visitavam a Rua da Felicidade, ou passeavam pelas ruas de Macau, nos riquexós (alguns já bastante afectados pela cachaça).

À noite, no quartel, e quando as circunstâncias o permitiam, acendiam uma fogueira, onde uma conversa algarviada tentava evocar, sem desânimo, os horizontes longínquos da terra natal.

Apesar disso, o soldado tentava adaptar-se à vida ocidental. Uma forma de aculturação - e talvez a principal- terá sido a religião já que quase todos estavam baptizados, ou pelo catolicismo, ou por tendências cristãs protestantes. Ambas as tendências tiveram muito sucesso na sua influência junto das tropas africanas.

No que diz respeito aos católicos, havia em todos os quartéis uma delegação da Legião de Maria e na Gruta de Nossa Senhora de Fátima, cantava-se o terço todas as noites. Saliente-se também que alguns africanos chegavam a catequizar os seus conterrâneos.

As suas funções no quartel consistiam, para além dos exercícios militares diários, em trabalhos de faxina e de conservação de estradas.

Apesar das doenças que, muitas vezes faziam abater ao afectivo em tantos soldados africanos, estes ficavam em Macau normalmente durante o período duma comissão de dois anos.

Em 1974 já não existiam referências à sua presença e em 1975 é extinto o Comando Territorial Independente de Macau, apagando-se, assim, todos os traços da mentalidade africana que foi utilizada para diversos propósitos, mas que também nunca abdicou da sua originalidade e tradições. (P.J.L.)

* PMM: o autor do último artigo identificou-se apenas através das iniciais P.J.L.

Revista Nam Van foi uma publicação do Gabinete de Comunicação Social do Governo de Macau
Nossos Agradecimentos

Publicação Agosto 2010

Um pouco de História de Angola:

Debruço-me hoje sobre a eventual perspectiva da existência de um bastião branco em África, no século XX, como há dias foi aqui aflorado. É o direito de uma opinião e alguma gente concorda com ela, especialmente alguns que se sentem derrotados pelo Império. Mas mais uma vez, pela premissa de considerar que o outro império, o império da opinião é igual para todos, não estando eu condicionado ou diminuído pelo papel da liberdade que me assiste para apontar o dedo a quem não gosta que se lho aponte, digo que essa perceptiva foi uma verdadeira idiotice. No mínimo!... Pois nem os ultras da direita do regime que apoiavam Salazar defendiam essa tese, pois já esperavam o nosso desastre em África. Eles sabiam que era só uma questão de tempo.

Bastaria tão só aos copistas estudarem, mesmo superficialmente, um pouco da História de Angola e da própria África, para se convencerem que não era possível a criação de um bastião branco a Sul do continente africano.

Para aqueles que no passado tiveram alguma pretensão nesse sentido, recordem-se dos exemplos dos rodesianos de Ian Smith ou dos sul-africanos de John Voster ou de Pick Botha. Basta olhar para o estado caótico em que o primeiro país se encontra e no actual charco onde chafurda o segundo. Onde mora o tal bastião branco?

A única verdade existente e que mundo ocidental aceitou desde o século passado, é amplamente redutora: África para os africanos.
Mas vamos incidir o nosso olhar apenas na história de Angola para percebermos onde ela nos conduz e perceber também a posição e o estado do leuconacionalismo angolano o qual vem demonstrar que a tese proposta para a implementação de um bastião branco em África não tinha qualquer viabilidade.
Após 500 anos Diogo Cão ter aportado em território angolano, é um facto indesmentível que deixámos um país de que os angolanos se podiam orgulhar.

No entanto, esses 500 anos não representam de maneira nenhuma uma efectiva colonização. E é esta tese que tenho defendido publicamente e não vi ninguém contrariá-la com bases sustentáveis.

Mas quais cinco séculos de colonização? Esta é outra grande mentira, explorada não só em Portugal pelos partidos e políticos pantrampistas, que desconhecem a verdadeira História de Angola e que a maioria da populaça, ignorante, subserviente, encaixou.

Quando referem os 500 anos de exploração colonialista em Angola, esquecem-se que a verdadeira colonização só teve lugar a partir dos finais do século XIX e apenas nalgumas zonas litorais desse vasto território. Como falar de “cinco séculos” de colonização/exploração em que o colonizador não aparece, senão na viragem do século XIX para o século XX? Antes, existiam apenas algumas feitorias a longo da costa de África, para darem apoio aos descobrimentos, complementados por mais meia dúzia de presídios militares. Todo o interior encontrava-se abandonado. E é preciso não esquecer os anos que entretanto os holandeses governaram Luanda. Para além disso, é uma evidência que para haver colonização tinham que existir colonos e ocupação territorial.

Porque eles não dizem a verdade?

Até ao ano de 1914, a administração portuguesa estava apenas instalada em duas cidades do litoral, Luanda e Benguela. Por isso eram considerados apenas dois reinos em Angola: o reino de Luanda e o reino de Benguela, este último estendia-se à Catumbela, que durante dois séculos foi o maior entreposto comercial do reino de Benguela

No interior do território a acção reduzia-se a uma política que dependia das alianças frágeis, ambíguas, com os chefes locais. E esta cambada de pantrampistas, intelectualmente desonestos, fala de 500 anos de colonização porque são gente ignorante que não conhece o mínimo de História daquele país. Angola nunca foi o Jardim do Éden, mas foi muito pior nas outras colónias europeias. A grande diferença é que as suas metrópoles nunca reivindicaram nem cinco, nem quatro, nem três séculos de colonização, excepto o caso da África do Sul.

Até 1914, o país Ovambo no Sul era totalmente independente. A Leste, na Lunda, as terras Tshokwe, só foram ocupadas em 1920 A Norte, entre os Congo, a oposição durou até 1919, enquanto que os Dembos só foram pacificados em 1918. A verdadeira colonização só começou a partir de 1945 e a partir das terras do Sul, do Cuamato, Huíla, Humpata, etc., o resto, são tretas desses ignorantes. É preciso não esquecer também a utilização, ocupação e exploração do interior do território, pelos ingleses, holandeses, alemães durante a nossa administração.

Agora tudo, mas tudo, tem de girar à volta de tudo isso que é o enquadramento da independência. A menos que se diga de caras, como dizem alguns, que o outro tempo era melhor. Então aí a conversa é outr
É preciso que se saiba, que os brancos do antigamente, tanto colonos como filhos de colonos, desempenharam um papel de relevo no seio do fenómeno nacionalista angolano. Primeiro foi um protesto autonomista nas primeiras décadas do século XX e depois, promovendo uma corrente nacionalista própria, com os seus movimentos e organizações partidárias, com os seus presos e exilados políticos, vítimas da violência e do autoritarismo do colonialismo português.

Naquele tempo havia três correntes; a progressista, a liberal e a conservadora. A corrente progressista defendia uma independência sob o governo de maioria negra considerando o respeito do princípio de “uma cabeça, um voto”. Depois existia a liberal, que propunha uma independência conduzida por uma minoria branca mas integrando politicamente as elites mestiças e negras europeizadas, os tais chamados assimilados e propunha também a abolição das estruturas de exploração colonial, tendo como modelo o Brasil. Por último, tínhamos a corrente conservadora, que apontava para uma independência selectiva sob o domínio, ou pelo menos, a hegemonia da minoria branca e a manutenção das estruturas de exploração económica que recaíam sobre a população negra, a exemplo do que se passava ao lado na África do Sul onde existia um regime de supremacia branca.

No entanto o nacionalismo dos brancos angolanos foi rejeitado pelas elites negras e mestiças dos três movimentos de libertação, tendo assim contribuído fortemente para essa mesma rejeição a instrumentalização da ideia de raça.

Em Angola, a ideia de raça teve um papel importante no duplo processo de exclusão política do branco e de identificação do negro e do mestiço com o africano. Este processo teve as suas raízes no próprio sistema colonial português, pois durante a dominação colonial, a ideia de raça foi utilizada como elemento para se distinguirem os ditos “civilizados” dos “indígenas”. Para isso contribuiu um instrumento jurídico que foi por excelência o mecanismo mais evidente do racismo português, o chamado Estatuto do Indigenato, abolido em 61, que determinava que os brancos, só porque eram brancos, eram automaticamente considerados civilizados, enquanto os negros, e até certo ponto os mestiços, tinham de provar a sua civilização, através de testes estabelecidos pelas autoridades coloniais, e se fossem aprovados, tornar-se-iam “assimilados”. Isto porque os colonialistas portugueses entendiam que os negros, que eram 95% da população, eram à priori incivilizados, sendo por isso remetidos para a categoria de indígenas. Assim, as diferenças entre civilizados e indígenas eram enormes: os primeiros eram cidadãos portugueses, os segundos meros sujeitos colonizados, sem direitos cívicos e políticos e compelidos ao trabalho obrigatório.

Mas no movimento nacionalista angolano procedeu-se a uma inversão de posições. O negro era entendido como o homem autenticamente africano, o colonizado, enquanto o branco era considerado um elemento estranho a África, o colonialista europeu. A raça serviu assim, novamente, de elemento de distinção e de exclusão. Distinguiu os brancos dos negros e mestiços e legitimou a africanidade dos dois últimos, da qual os brancos foram quase sempre excluídos. Por outras palavras, o branco não podia ser africano porque era branco, enquanto o negro era africano só porque era negro. Assim, segundo os pensadores da época, cabia ao negro exclusivamente a missão histórica da libertação dos povos africanos. Libertação essa que em Angola foi pensada sem a participação dos brancos, como também à custa da sua expulsão.

Muitos dos que se proclamavam anti-racistas, tinham dificuldade em aceitar os brancos na luta nacionalista, como se temessem a sua concorrência numa futura nação independente.

Resumindo: foi a cristalização duma forma de racismo anti-racista ou do racismo dos anti-racistas. Aliás, isso já tinha sido bastante notório quando em finais dos anos 50, o Cadima, o Manuel Dores, mais um operário português, criaram no Huambo a primeira célula do Partido Comunista Angolano. Eram todos os quatro “branquinhos” da Silva. Um engenheiro, dois doutores e um operário. Claro que não durou muito tempo, porque os mentores europeus dos partidos comunistas não queriam brancos nos PC africanos. Inclusive, o Partido Comunista Português que até era o seu mentor, só reconheceu os direitos dos povos colonizados à independência apenas em 1957. Até aí, os comunistas sempre defenderam a política colonial de Salazar.

Os tipos defendiam o princípio de que os nacionalistas tinham de ser todos negros ou árabes. Mais tarde quando estavam no exílio em Paris, aquele grupo já organizado como FUA, tirando uma jovem mulata, era constituído por brancos, o que causava grande confusão aos comunistas franceses que davam apoio à sua rede, pois tal como já acontecera com os comunistas portugueses, também pensavam que os comunistas angolanos só podiam mesmo ser negros. Por essa razão nos seus apoiantes começavam a criar-se dúvidas o facto desse grupo ser todo constituído por brancos. Mas eles conseguiram demonstrar que não eram um grupo de ignorantes políticos, mas sim pessoas honestas, obstinados, sacrificados e bem organizados, pois já dispunham de uma rede clandestina de ligações muito eficazes com Portugal e Angola, Assim não convinha à rede francesa cortar o seu apoio, pelo menos enquanto não conseguissem entrar no esquemas destas ligações.

Faziam parte desse grupo, Ernesto Lara Filho, Avidago, Mário Nobre João, Maria do Céu Carmo Reis, Artur Pestana (Pepetela), Adelino Torres, Sócrates Dáskalos, João Mendes, Adolfo Maria, entre outros.
Durante o processo de transição para a independência, as elites brancas, foram as primeiras a ficarem de fora da corrida pelo poder, pois eram a que menos argumentos nacionalistas podiam apresentar no quadro da luta pela independência. Os brancos, após reduzidos ao seu significado étnico, foram publicamente apresentados como os principais agentes e beneficiários da exploração colonial portuguesa, retomando-se argumentos anteriormente avançados durante o genocídio no Norte de Angola em 1961. Convém não esquecer que nós brancos totalizávamos apenas 4% da população angolana e existiam apenas cerca de 1% de mestiços.

No último censo devidamente organizado com pés e cabeça, feito em 1970, a minoria branca angolana totalizava apenas 290.000 pessoas ou seja, 5,1% efectivos numa população total de 5.673.050 habitantes. Mas se verificarmos, antes disso éramos muito, mas mesmo muito menos: em 1930 - 30.000 brancos; em 1940 - 44.083 pessoas brancas; em 1950 - 78.826 e em 1960 - 172.529 brancos, crescendo nesta década fruto do conflito de 61 e da abertura que o mesmo obrigou e gerou.

Politicamente estávamos limitados e quase não se reconhecendo na nossa própria nacionalidade, nós, brancos angolanos, servimos de bode expiatório, quer aos anos de exploração colonial portuguesa, quer às limitações e desinteligências do nacionalismo angolano. Face a isto, tornam-se menos obscuras as causas do êxodo dos brancos angolanos, durante o período de transição para a independência do país. Ou já se esqueceram do velho deitado: quem tem cu tem medo?
O colonialismo português tinha uma originalidade que era ser mais centralizado e arcaico de todos, de tal modo que os próprios brancos angolanos se encontravam totalmente subjugados aos interesses de Lisboa e, em especial, aos interesses da burguesia portuguesa, que além de ser atrasada, vivia parasitariamente do sistema colonialAo contrário do que acontecia noutras colónias europeias, os brancos em Angola nunca dispuseram de influência efectiva sobre a colónia pois a governação estava solidamente nas mãos dos ministros de Lisboa, devendo nós em Angola, obedecer cegamente e integralmente às ordens que vinham do Terreiro do Paço. E essas ordens foram sempre contrárias aos interesses dos angolanos e frequentemente aos dos próprios brancos metropolitanos instalados na colónia. E isso traduzia-se em leis e práticas administrativas e económicas. Por exemplo, o branco natural de Angola não tinha o direito de passar do posto de capitão no exército e não tinha o direito também de desempenhar os mais altos cargos na administração pública e nem sequer tinha direito a licença graciosa como os restantes brancos. Os brancos de Angola eram preteridos nos empregos a favor dos brancos metropolitanos, sendo mesmo relegados para uma posição não muito diferente da compartilhada pelos mestiços. Existia mesmo uma descriminação no trabalho, na escola e na vida social e cultural. Aliás, nós filhos daquela terra, tínhamos plena consciência que tanto o governo português como uma grande parte da malta da metrópole, nos consideravam como “brancos de segunda”.


Oficialmente até éramos considerados como euro-africanos. Por outro lado, temos que considerar que a comunidade branca angolana, socialmente estava bem dividida, geograficamente muito dispersa e além do mais, mais ou menos fracturada. E essa fractura era bem acentuada entre os brancos naturais, já angolanizados, e os indivíduos recém-chegados do continente.

De facto, até 1961, a gula do governo português e de uma meia dúzia de famílias poderosas seus aliados foram insaciáveis. Eles levavam dali pelos preços mais irrisórios que entendiam pagar, tudo o que Angola produzia de bom. Em sentido contrário, os tipos enviavam toda a trampa da sua arcaica produção industrial e agrícola. E isso motivou tensões entre a nossa burguesia e a portuguesa. Habilmente, os tipos submeteram o nosso mercado de exportação a uma escassa meia dúzia de famílias poderosas que a exploraram até ao tutano com o alto patrocínio dos próprios governantes, muitos deles com interesses nesses mesmos grupos financeiros. O governo português até 1961 nunca permitiu que Angola progredisse. Proibiu-nos sempre de lançarmo-nos livremente no caminho da industrialização. Para além do facto de todo dinheiro gerado pela riqueza ali foi produzida, que seria lógico e legítimo que ali ficasse para beneficiar quem a produzia, esse dinheiro era todo transferido para os cofres dessa meia dúzia de grandes famílias e para o Banco de Portugal.

A vida naquele tempo era de facto uma puta muito explorada que dava muito dinheiro aos seus “chulos”. Disso, não tenho a mínima dúvida!

Por exemplo: eles deviam contar, a nós que somos "ignorantes", como é que o Banco de Portugal em princípios dos anos 70 possuía a maiores reserva de ouro do mundo, (700 Ton.) só ultrapassado pelos EUA. Onde é que foram buscar todo aquele ouro? Falam muito em transparência, mas essa não contam eles, que esse bagulho todo resultou do aproveitamento de escravos moçambicanos que aos milhares foram trabalhar nas minas sul-africanas. E já agora que falamos em poderosas famílias, são essas quase sempre as mesmas que hoje continuam a ter o poder financeiro, tanto lá, como cá e, estão a voltar para Angola, em peso, agora com investimentos de outra ordem. É vê-los!

Angola sempre foi uma árvore das patacas, explorada por esses capitalistas de sempre que só levavam e nada traziam. Hoje lixam-se, começam por entrar com as massas, depois passam a ficar com fifty-fifty ou com a maioria do capital, depois numa segunda fase, passam a minoritários e um dia destes se não se põem a pau ficam a olhar para o ar e tornam a levar com um pontapé no mataco. A verdade é que já existem alguns exemplos desses.
Voltemos então novamente à História do passado. É isso que aqui interessa.
Os nacionalistas brancos sempre tiveram pouco peso dentro do nacionalismo angolano. Por outro lado, a acção desses brancos recebia mais hostilidade e indiferença do que simpatia, da maior parte dos membros da população branca.

Apesar desse pouco peso dos brancos, temos que acabar com esse mito de que o nacionalismo angolano foi apenas resultante da acção da maioria negra. Claro, hoje contrariar essa tese não é conveniente nem é politicamente correcto. Disso estou bem ciente. Mas não podemos esquecer o nacionalismo dos brancos e também dos mestiços, filhos dos colonos. Por isso deixem de continuar a manipular a História para tentarem justificar a legitimidade de uns e a qualidade da acção nacionalista de outros. Os brancos angolanos foram os primeiros a contribuir para a criação de uma identidade nacional angolana. A construção de uma cultura nacional e a consciencialização política de muitos nacionalistas negros e mestiços foi a maior herança que nós, apenas uma minoria de brancos angolanos, deixámos em Angola. Essa questão do nacionalismo dos angolanos brancos é propositadamente de há muito ignorada pelos historiadores e políticos, tanto angolanos como portugueses. Mas tal não aconteceu por parte de historiadores estrangeiros consagrados, tais como Jonh Marcum, Thomas Okuma, Douglas Wheelen ou do mais conhecido, o francês René Pélissier, que teve a experiência de conhecer a realidade angolana pois andou por lá, no terreno, nos anos 60 e 70.
Existe um velho provérbio que diz tudo: a História é feita pelos vencedores, comprovado com a ideia mais comum de que o nacionalismo angolano se resume à velha história das lutas de negros contra brancos. É do mais falso que existe. Só mesmo de ignorantes, esquecendo-se deliberadamente do fenómeno nacionalista dos africanos brancos.
É um facto histórico, na constituição do nacionalismo angolano, que foram os brancos os primeiros a manifestarem-se contra Portugal, com o objectivo de obterem, primeiro a autonomia e depois a independência. Por exemplo, em Benguela em 1823 foi criada a chamada "Confederação Brasílica", cujo objectivo mais que transparente era conseguir a independência de Angola no quadro de uma relação federal com o Brasil, que tinha ascendido à sua independência em 7 de Setembro de 1922, o que poria termo dos dois lados do Atlântico à dominação da burguesia portuguesa da Europa. O apoio que foi dado aos independentistas brasileiros conheceu em Benguela, com o contributo importante da Maçonaria, a forma de revolta aberta contra o domínio português, a qual só foi debelada com o envio e ocupação da cidade por três companhias militares de infantaria, enviadas propositadamente de Portugal.
Mais tarde, em 1891 foi encenado um golpe de estado militar também em Benguela que terá falhado, sobretudo, devido a uma burguesia demasiado frágil. A constituição de lojas maçónicas, a militância nos ideais republicanos, assim como a promoção de uma imprensa de brancos radicais, foram instrumentos utilizados por uma burguesia angolana principalmente de Benguela, Catumbela, Huila e Moçâmedes. Foi nestas regiões onde despertou o autonomismo e nacionalismo branco e se desenvolveu um conjunto de protestos e reivindicações económicas suportado pelas lojas maçónicas ali existentes. A maçonaria angolana tradicionalmente identificada como uma organização secreta denominada pelo termo ovibundu, Kuribeka, o que só por si já representou um elemento de diferenciação e de autonomia em relação a Portugal. ( Kuribeka significa “apresentar-se”; oferecer-se”; vir sem ser chamado ).
A Kuribeka era um importante grupo de poder como instituição organizada, a maçonaria , e existia em Angola pelo menos desde 1860. Tinha apenas “lojas” em Benguela, Catumbela e Moçâmedes. Por via disso, em Janeiro de 1906 foi criada na Catumbela a Associação Beneficente dos Empregados do Comércio, cujos membros pertenciam todos à loja maçónica local, assim como todos os membros que nesse mesmo ano fundaram a Associação Comercial de Benguela. Foram instituições económicas das mais importantes em Angola em todo o período colonial, tendo tomado posições muito polémicas, em momentos cruciais da vida política angolana.

Em Dezembro de 1906 foi fundada na Catumbela o Grémio Pró-Pátria, loja maçónica de inspiração republicana e autonomista que perdurou até finais dos anos sessenta. Não esqueçamos que Benguela e, na altura, o concelho da Catumbela, foram dos três municípios angolanos (o outro foi o de Novo Redondo), em que o Partido Republicano ganhou as eleições autárquicas em 1906.



Em 1918/1920 houve um enorme e violento protesto organizado em Benguela, no qual se incluiu o bloqueio de estradas, destruição de pontes e uma greve de trabalhadores que teve forte impacto na economia. A partir de 1923, as manifestações e protestos conheceram uma violência invulgar, inclusive, uma greve de trabalhadores do Caminho-de-Ferro no Lobito teve de ser dominada pelos militares e em 1926 outra greve de trabalhadores brancos paralisou a economia de todo o território. Em resultado disso, nasceu em Benguela e com filial na Catumbela, a UDA – União dos Defensores de Angola. Fica assim demonstrado a importância da corrente autonomista que segundo o historiador René Pélissier, terá assumido laivos de separatismo nos finais da 1ª República, quando a actividade económica está semi-paralisada e quando a crise financeira atinge o ponto mais alto. Foi um grupo de elementos da UDA, que olhos nos olhos, deixaram bem claro ao presidente Carmona aquando da sua vista em 1938, que “Angola não pode continuar a ser uma quinta de luxo, gerida à distância, a bel-prazer de quem desconhece as suas ansiedades”.
Já em 1940 apareceu um movimento em Angola com o fim de promover a emancipação da colónia. Chamou-se OSA, ou seja, Organização Socialista de Angola. De que foi secretário-geral Sócrates Dáskalos, figura que se vem a destacar na oposição angolana.

Foi esse o maior despertar que levou a juventude angolana a um profundo anseio pela liberdade. A OSA teve uma vida muito breve, pois foi violentamente suprimida através de uma vaga de prisões e de deportações, feita pela Polícia de Segurança Pública, o que levou toda uma geração de nacionalistas angolanos à primeira fase do protesto dos brancos angolanos. Nessa altura ainda não existia a PIDE em Angola. (nem bufos informadores, nem legionários e seus quejandos. A PIDE só se instala em Angola em 1957). Assim, foi graças a esse sentimento de revolta que resultou a ideia da criação da FUA - Frente para Unidade dos Angolanos. Apesar disso, a OSA foi uma vitória política dos angolanos brancos face ao despotismo do governo português, tendo sido um movimento percursor do nacionalismo branco angolano no Centro e Sul de Angola

A OSA tinha objectivos bem precisos e o principal era de por qualquer meio, alcançar a independência de Angola. A expansão da OSA foi facilitada pelo descontentamento que começou a alastrar-se entre a juventude, filhos de europeus, nados e criados ali, que sofriam restrições impostas por Lisboa. Por exemplo, antes de 61 nenhum de nós podia ser oficial do exército ou ter a veleidade de ascender a cargos importantes na administração pública. Embora não existissem leis escritas, existia uma enorme barreira invisível a marcar a nossa exclusão. Éramos tratados como portugueses e brancos de 2ª, euro-africanos, colonizados, ainda que não fossemos tão descriminados como a população negra.

Em 1943 quando estudavam em Lisboa foi fundada, por iniciativa do Sócrates Dáskalos e do Fernando Falcão e outros mais, (acima referidos) a CEA – Casa dos Estudantes de Angola, mas só após 1948 surgem os primeiros africanos negros na CEA bem como um número relevante de mestiços. É aí que se vê surgir pela primeira vez um negro, o Agostinho Neto e dois mestiços, o Mário Pinto de Andrade e o Lúcio Lara. Estes dois últimos como não conseguiram dominar a CEA, acabaram por criar organizações paralelas como por exemplo o Centro de Estudos Africanos, que durou pouco tempo após Mário Pinto de Andrade partir para Paris em 1954.
Até que chegamos à década de 60.

Em Maio desse ano, no Lobito e em Sá da Bandeira, o Américo de Carvalho, o Aires de Almeida Santos e o João Mendes presidiram à formação da Frente Unida de Libertação de Angola – FULA que deu em nada. Então em Janeiro de 1961, Sócrates Dáskalos, o Luis Portocarrero, o Fernando Falcão, o Carlos Costa e o Manuel Farinha, meteram-se num carro e segundo eles, tomaram a picada que ligava a estrada de saída para a Catumbela ao aeroporto. (contado por Sócrates Dáskalos no seu livro “Um Testemunho para a História de Angola do Huambo ao Huambo” / editora Vega / 2000”: «Foi ali, numa tarde que apresentava um lindo pôr de sol que demos à luz a FUA, Frente de Unidade Angolana, que veio a tornar-se num movimento político bastante importante».

Chegaram a publicar um jornal com o título de Kovaso, que em língua umbundu significava Avante.

Em Angola sempre foi diferente a situação a Sul, particularmente em Benguela, onde Sócrates e tipos como o Portocarrero, o Farinha, o Mira Dores e o Falcão, encontraram uma mínima margem de manobra para actuarem.


Só após os acontecimentos do Norte em 61, a FUA, entrou em contacto com membros da Sociedade Cultural e com alguns elementos da burguesia liberal de Luanda, chegando a realizarem-se reuniões com eles em Abril de 61. A FUA procurava apoios em Luanda, a fim de acabar com a repressão colonial e apresentar uma solução ao Governador-Geral para o problema imediato da guerra.

No Sul, estavam organizados e acalentavam a ideia da independência de Angola que fosse precedida de um período de transição, na qual gozaríamos do estatuto de autonomia. Já em Luanda, não existia uma organização da burguesia branca pronta a actuar. Nem em Luanda e muito menos nos outros centros populacionais. Somente nos já citados: Benguela Catumbela, Huíla, Moçamedes e acrescente-se, Nova Lisboa. Para agravar a situação, os liberais luandenses consideravam que só uma pequena parte da população angolana é que contava, isto é, os brancos, os mestiços e uma minoria de negros já considerados assimilados. Era no fundo, a continuação da política existente.
No entanto, houve membros da burguesia de Angola que pareciam ter compreendido a mudança dos tempos. Um deles, o grande industrial Manuel Vinhas, em 1961, fez uma viagem de Lisboa a Luanda passando por Leopoldville. Ali, procurou contactar pessoal nacionalista, nomeadamente o MPLA. Parece que sem êxito, pois nessa altura ainda esse partido era um pouco incipiente. No regresso, quando chegou ao aeroporto de Luanda, o senhor Manuel Vinhas foi preso e interrogado pela PIDE durante várias horas antes de ser posto em liberdade.

Na época, o MPLA era quase emblemático, ou mesmo inexistente. Essa a razão , técnicamente sustentável, porque se pode afirmar que a ligação do MPLA aos acontecimentos do 4 de Fevereiro em Luanda não é verdadeira. Segundo o testemunho do companheiro de Neto no exílio, Adolfo Maria, no livro “Angola No Percurso de Um Nacionalista – Edições Afrontamento / 2006 ou também como escreve Iko Carreira no seu livro “O Pensamento Estratégico de Agostinho Neto / publicações D. Quixote / 1996, a sua formação como movimento nacionalista tinha acabado de se dar em 1960 durante a 2ª Conferência Pan-Africana de Tunis. O 4 de Fevereiro não foi mais que um golpe de nacionalistas desesperados, comandados por um antigo membro do Conselho Legislativo de Angola, o velho cónego Manuel das Neves. Apenas isso! Tudo o resto foi oportunismo político.
Continuando: após o genocídio de Março e Abril provocado pelos Bacongos da UPA o terror instalou-se nos muceques da capital quando centenas de brancos num acto de vingança, invadiram os bairros populares, matando indiscriminadamente todos os “suspeitos” que encontravam pela frente. O caos e o medo instalaram-se em todo o Norte e as autoridades portuguesas foram incapazes de parar os tipos da UPA e reporem a ordem pública.

A FUA, em Benguela, na Catumbela e no Lobito, organizaram-se e comandaram milícias compostas por negros, brancos e mestiços com a finalidade de impedir a repetição dos massacres da capital. Foi graças a essa organização paramilitar que conseguiram controlar a situação, pois no distrito as forças policiais da PSP eram bastante exíguas. Foi logo nessa altura, finais de Abril, que resolveram lançar o Manifesto Político dirigido à população de Angola, onde apelavam ao seu apoio para a causa da emancipação, para a imediata autonomia de Angola, o direito dessa mesma população dispor do seu próprio destino. Esse Manifesto foi recebido pela população com grande entusiasmo, resultando logo daí num abaixo-assinado subscrito por mais de seis mil e quinhentas pessoas. Este abaixo-assinado foi logo aproveitado para ser dirigido ao Ministro do Ultramar a pedir a autodeterminação.

Mas acontece que as elites brancas de Luanda, recusaram reconhecer o princípio de independência sob o governo da maioria, recusando mesmo colaborar com a FUA. Concluindo: apenas no Centro e o Sul existia um protesto nacionalista branco. Perante esta situação, a dimensão e a força das actividades nacionalistas entre a população branca a Sul, o governo de Lisboa enviou a Benguela o Adriano Moreira, que tinha sido empossado recentemente como Ministro do Ultramar, sendo ele nessa altura um acérrimo defensor do luso-tropicalismo.

Houve uma reunião com o dito ministro em Benguela, que antes foi precedida de uma gigantesca manifestação de trabalhadores negros, brancos e mestiços frente ao palácio do Governador, convocada pela FUA através do Rádio Clube de Benguela. Nessa reunião o ministro Adriano Moreira ouviu atentamente os dirigentes da FUA, concordando várias vezes gestualmente com a cabeça e no final pediu-lhes que elaborassem um documento em pormenor em que se debatessem os objectivos a atingir e os meios que julgassem necessários para esse fim, que o entregaria depois a Salazar. Esse documento foi de imediato preparado e foi-lhe entregue no jantar que o obsequiavam nessa mesma noite na Associação Comercial de Benguela

Só que a sua simpatia durante a reunião e o constante gesticular da sua cabeça em sinal de concordância com o que ali foi exposto, foi um enorme engodo. Passados poucos dias, chegou a Benguela um contingente militar que ocupou logo os pontos estratégicos necessários ao controlo e domínio da cidade, se necessário fosse. Depois em princípios de Junho de 61 foi a vez da PIDE entrar em acção, lançando uma vasta operação que resultou na prisão de quase todos os dirigentes da FUA.

A fúria da repressão salazarista abateu-se como uma bomba sobre toda a FUA, tanto em Benguela, como na Catumbela e no Lobito. Incapazes de se organizarem em tão pouco tempo, politica e militarmente contra as forças colonialistas, adicionado ao facto da existência de traição duma minoria da população de Luanda que preferiu a ilusória segurança de um regime colonial, reaccionário e antidemocrático, levou a FUA a desmoronar-se rapidamente.
A PIDE continuou a fazer prisões em massa. No Sul foram presos e deportados para Portugal vários membros da FUA: o João Mendes, o Fernando Falcão, o Carlos Morais, o Adolfo Maria, o Luis Portocarrero, o poeta Aires de Almeida Santos entre muitos e muitos outros. Outros fugiram para o exterior e foram-se juntar ao pessoal que já se encontrava em Argel, cidade onde se começaram a levantar problemas de racismo por parte de uns quantos negros, segundo Sócrates.

Logo de seguida a Ditadura fascista, acirrou a legislação racista e a separação entre brancos, negros e mestiços com o objectivo de sempre: dividir para reinar, evitando assim qualquer aliança política entre as três comunidades. E o genocídio cometido pela UPA em 61, contribuiu ainda mais para afastamento de muitos brancos da causa nacionalista porque chegaram à conclusão, logo naquela altura, que não tinham lugar numa Angola governada por uma maioria negra. E isso ficou provado em 1975 com o êxodo dos brancos antes da data da independência. Foi principalmente esse o motivo: o medo e a incerteza, que nos levou (a maioria) a abandonar o país.
Em 1961, já existiam no seio do MPLA problemas do foro racial chegando ao ponto de Viriato da Cruz, ter proposto que a direcção fosse composta exclusivamente por negros, afim de dar credibilidade internacional ao movimento na sua luta política e diplomática, contra a UPA de Holden Roberto, enquanto os mestiços deveriam permanecer na retaguarda dessa direcção. Isso gerou mesmo um enorme mal-estar entre eles.

O aparecimento em Paris de brancos de Angola, refugiados políticos, exercendo actividades em prol do nacionalismo angolano, causou perturbações em vários meios. Para os sectores políticos e humanitários franceses ligados ao apoio a movimentos anti colonialistas, foi grande a novidade da existência de brancos nacionalistas em Angola. Só conheciam nacionalistas negros e era assim que concebiam África.

De facto, a presença de brancos no nacionalismo angolano era então uma surpresa nos meios intelectuais e políticos europeus. Mas foi uma surpresa positiva, à medida que se aprofundavam os contactos com os brancos no exílio, pois verificaram que eles tinham uma total identificação com o nacionalismo progressista negro. Naquela altura, 1961, o branco ou mesmo o mestiço, não podiam continuar a sua luta política a não ser aderindo à FUA, pois era impossível um branco ou mestiço serem militantes do MPLA.

A FUA nunca foi um entrave para o MPLA, antes pelo contrário, foi um apoio seguro. E isso provou-se durante todo o exílio, pois após a repressão, todos os elementos activos da FUA acabaram por se identificar com o MPLA que, na época, era quase só emblemático. Assim a decisão de ir para Argel foi motivado quer pelos contactos que a FUA mantinha com as organizações nacionalistas e progressistas das colónias portuguesas, quer pelo simbolismo da própria cidade, a qual era considerada a “capital” da Revolução Africana.

Certamente que o governo argelino não os teria acolhido se o MPLA se opusesse à sua ida. Quando chegaram a Argel, era delegado do MPLA o doutor Eduardo dos Santos, não este actual presidente, mas sim um grande intelectual, que logo se mostrou preocupado com a possibilidade da imagem do MPLA ser afectada se existissem relações estreitas com membros da FUA, tendo dado indicação para esses militantes serem discretos.

Mas a FUA durou pouco tempo. A FUA saiu moribunda da reunião de Blida na Argélia em Agosto de 1963, embora a sua dissolução só ocorresse oficialmente em 1964, pela mão de João Mendes, mantendo-se algumas células adormecidas, como o caso do Lobito. Ali no Lobito, voltou a renascer já em 1974, após a revolução em Portugal, mas pareceu-me terem acordado tarde para denunciarem a traição que envolveu o processo de descolonização, que eram confirmadas pelas falsas declarações dos principais responsáveis quanto à participação de outras forças políticas. Só em princípio de Dezembro de 1974, o Fernando Falcão tomou consciência do logro em que tinha caído, com as falsas promessas de Rosa Coutinho, do Pezarat Correia e do Melo Antunes.
Falcão agora reside em Portugal (ainda quarta-feira passei ao lado da sua quinta perto de Setúbal). Falcão foi o verdadeiro líder da FUA. O verdadeiro motor. Foi um homem flexível, um reformista, mas não um revolucionário. Assegurou as ligações do movimento com as actividades económicas quando pensámos no movimento como plataforma para a independência multirracial de Angola.

De referir Mário Soares que, mesmo antes do enunciado dos princípios que deviam presidir a descolonização de Angola pela Junta de Salvação Nacional, já afirmava que os únicos e legítimos representantes das suas populações eram os movimentos de libertação. Foi essa a razão. Como o cozido à “portuguesa” já estava há muito mais que cozinhado, que em finais de Janeiro de 1975 a FUA emitiu um comunicado a informar que iam suspender toda a sua actividade política, decorrente da marginalização a que tinham sido votados em todas as negociações para a independência de Angola. Todos esses grandes homens que desde 1961 lutaram ao lado do MPLA, no exílio tiveram esse castigo, embora alguns voltassem a Angola e desmpenharam lugares de destraque. Agostinho Neto pelos menos não se esqueceu desses companheiros de exílio.
Depois daquela infâmia, aqueles energúmenos irresponsáveis viraram-nos as costas. De Lisboa, nem Presidente da República, nem Governo, nem Comissão Nacional de Descolonização nem Conselho da Revolução, nem Mário Soares, nem Rosa Coutinho, nem Pezarat Correia, nem toda a sua escumalha de acólitos, tiveram a coragem de se fazerem representar no arrear da Bandeira no dia da Independência de Angola. Ninguém assumiu. Os magnatas, traidores, cobardes, gasoseiros, chulos, parasitas políticos, fugiram todos. Nem um só esteve presente. Após criarem o monstro, foi aquela a solução encontrada pela grande maioria dos seus promotores. Muitas vezes pus-me a magicar com os meus botões o que pensariam eles naquele momento, quais os sentimentos que mantiveram afastados aquela escumalha daquele momento tão grande para Angola e para o seu povo? Era simplesmente o remorso, a vergonha, o medo, a cobardia e o sentimento de traição! Isto tudo e muito mais. São verdades que a História e o Tempo vão dando a conhecer aos dois povos irmãos: angolanos e portugueses. Da parte dos socialistas e dos comunistas, nunca houve qualquer preocupação com os povos ultramarinos, fossem eles, brancos, negros ou mestiços. As lamentações hipócritas desses políticos, não têm outro objectivo do que dissimular o verdadeiro carácter de maquinação mundial cuja cobertura ideológica serviam e asseguravam. E o povo angolano? Ao povo angolano apenas haviam prometido a independência a 11 de Novembro de 1975. A felicidade ou tragédia não faziam parte dos seus compromissos. Essa corja de traidores, ficaram com a “consciência bastante tranquila” podendo assim continuarem a passearem-se pelo mundo, amealhando fortunas de duvidosa origem, sempre com um sorriso imbecil nos lábios, com que marcaram o seu gigantesco crime, que depois resultou num crime ainda maior que foram os vinte cinco anos de guerra e o genocídio do povo angolano. Uma luta feroz entre irmãos do mesmo país. Foi um absurdo incompreensível.

Na minha óptica!... Evidentemente.


quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Entre caravanas de marfim, o comércio da urzela e o tráfico de escravos: Georg Tams, José Ribeiro dos Santos e os negócios da África centro-ocidental na década de 1840. Angola


Programa Nacional de Apoio à Pesquisa
Fundação Biblioteca Nacional - MinC
Maria Cristina Cortez Wissenbach

 (...)
pg.  18

“A ordem dos negreiros”: os mercadores de escravos no relato de Tams e nas relações com Ribeiro dos Santos


Embora sempre muito preocupado em não deixar transparecer intimidade, as personagens dos negreiros aparecem de forma recorrentes no texto de Tams, e muito próximos às atuações de Ribeiro dos Santos: particularmente Arsênio Pompílio Pompeu de Carpo, Ana Francisca Ferreira Ubertaly, Ana Joaquina dos Santos Silva, e talvez, Manoel ou Joaquim Pinto da Fonseca. Como também outros menos conhecidos, mas tão expressivos quanto os demais, como Nicolau Tabana. A princípio, este fato poderia ser visto como corriqueiro, uma vez que, segundo Tams, a sociedade de Angola encontrava-se imersa no trato da escravatura e em seus altíssimos lucros, dos quais se valiam quase todos os habitantes de Luanda, de Benguela e dos demais núcleos lusoafricanos: 
E, contudo, de certa forma, todos eram iguais; porque duvido que houvesse um só que não fosse negociante de escravatura, e que recusasse entrar em qualquer transação criminosa, contanto que por meio dela pudesse aumentar os seus lucros. Tais eram os elementos de que se compunha a sociedade em Luanda; e nem por momentos um estrangeiro se poderá esquecer da companhia porque se há visto rodeado. [...] A dança durava geralmente até as onze horas da noite, e neste decurso, serviam chá e limonadas conforme o estilo da terra, com simples doces de farinha de trigo, fabricados por padeiros portugueses estabelecidos na cidade. Os negros condutores, no entanto, deitavam-se junto as suas tipóias defronte do palácio, esperando o momento em que a reunião terminasse. Despediam-se então aqueles indivíduos com ridículas formalidades uns dos outros, e os que queriam afetar importância, se deitavam em suas tipóias, fazendo-se assim conduzir até casa, rodeados por uma comitiva de negros, uns como portadores de tochas, outros como criados. (VPP, I, 227) 
Mas seria sobre Arsênio Pompílio Pompeu de Carpo, um dos mais controversos personagens da sociedade dos anos de 1840, que recaia as observações mais sugestivas de Tams, quando o escolheu para ilustrar tanto a arrogância dos mercadores, como as estratégias que usavam. Além de se referir ao escravo branco que o acompanhava ostensivamente em suas caminhadas pelas ruas da cidade (VPP, 1, 212) ou sua rica morada urbana, Tams sinalizava a dose de audácia com que Arsênio enfrentava as autoridades britânicas ligadas aos tratados luso-britânicos e em passagem pela cidade de Luanda, entabulando com elas ora cortesias, ora desafios (VPP, 1, 194). Uma grande agilidade era a característica central de sua atuação: 
O costume de viajar com rapidez era indispensável ao senhor Arsênio, porque elle se via freqüentemente obrigado a fazer jornadas mui cumpridas a cavalo, durante a noite, quando no sitio de desembarque de seus escravos se tornava precisa a sua prompta assistência. Consideráveis e repetidos prejuízos, o haviam induzido a adoptar o plano de os embarcar no decurso da noite, a alguma distância de Loanda.


Uma manhã, por ocasião de fazer-lhe uma visita medicinal, em conseqüência de um padecimento crônico no fígado, que lhe tinha sobrevindo em razão de prolongadas residências em diferentes partes do Brasil, me disse ele que não obstante achar-se assim doente, havia andado a noite anterior dezesseis léguas a cavalo, para poder assistir ao embarque de escravos seus no sul do rio Dande. (VPP, p. 212) 
Pelo que foi possível constatar a partir de documentos alfandegários da ex-colônia brasileira, os contatos de Ribeiro dos Santos com Arsênio de Carpo precederam a expedição de 1841 e foram notificados em Pernambuco, grande reduto de negociantes portugueses e seus agentes vindos de Luanda e de Benguela e de outras partes da costa centro-oeste africana. Entre os mapas do ano de 1838 que controlavam a entrada e saída das embarcações com bandeira lusa no porto, o nome do cônsul aparecia assinalado como consignatário de uma embarcação de propriedade de Arsênio de Carpo, dois anos antes da expedição africana.38 Numa época em que a carreira de Arsênio encontrava-se no apogeu: havia saído do anonimato e depois de tempos em que transitara por diversos pontos do Atlântico e por várias profissões, finalmente enriquecera, tendo como principal negócio o da escravatura e como base, sua própria atuação política, bem como as alianças com os dirigentes de Angola.39 De outra parte, era também este o momento em que Ribeiro dos Santos planejava sua virada africana, concebida quando se encontrava afastado dos assuntos consulares, e segundo a trajetória levantada por seu biógrafo, em “digressão pelo Brasil”, na antevéspera do empreendimento: 
Recolhendo-se de uma digressão ao Brasil, em 1839, e miudamente informado das circunstâncias do mercado da África Occidental portugueza, concebeu um projeto que logo tratou de por em obra, empregando consideráveis cabedaes em compra de urzela, despachando alguns navios com carga sua, própria para aqueles povos, e estabelecendo feitorias nos portos importantes da costa.40   
As mulheres comerciantes de Luanda também são freqüentes no relato do médico alemão, ao se referir preferencialmente a Ana Francisca Ferreira Ubertaly por quem não consegue disfarçar sua predileção. Africana, viúva do médico natural da Sardenha, Carlos Ubertaly, degredado estabelecido em Luanda, negociante que exercia as funções de almoxarife do governo angolano, e de quem, por certo, ela havia herdado navios e o comércio de escravos em direção a Cuba e a Pernambuco.41
D. Anna tinha nascido no interior da África e havia sido trazida como escrava para Loanda, onde vivia então com pompa, manejando um prospero negócio d´escravatura; mas eu farei justiça ao seu procedimento, pois que ella nunca praticava crueldades, antes tratava seus subordinados com grande humanidade. (VPP, 1, 215)
 Descrevia Tams também a aparição da dama africana numa festa da sociedade luandense, da qual participava, destacando-a em meio a uma multidão de pretos, brancos e mulatos:  Por entre os caracteres deste matizado grupo, divisava-se uma mulher ricamente adornada d´ouro e jóias, que tendo vindo para este paiz, havia poucos annos, d´uma província do interior como miserável escrava, por sua belleza e astucia tinha obtido a liberdade e riquezas. (VPP, 1,226) E ilustrava, por meio de sua viva inteligência, a “propensão intelectual dos africanos”: 
Freqüentes vezes encontrei negros, que havendo apenas quatro semanas que existiam na costa, podiam neste incrível pequeno espaço de tempo, não só entender o portuguez, como fazerem-se entender neste idioma. Uma das pessoas que maior negocio tinha d´escravatura em Loanda, era uma mulher que primeiro havia sido escrava igualmente; a qual depois de ter obtido a liberdade, havia estudado a língua portugueza de per si mesmo com tal energia, que não só a fallava correctamente, mas até por sua propria mão fazia a correspondência commercial neste dialecto.(VPP, 2, 98)
As relações comerciais que Ribeiro dos Santos manteve com dona Ana Francisca concretizaram-se na venda a ela da pequena escuna Esperanza, de sua propriedade, e que, segundo Tams, seria empregada no comércio de “produtos autorizados” e na  “condução de fazendas para os seus estabelecimentos de Mossamedes e na ilha de S. Tomé”. (VPP, 2, 52 e 112)


Também é matéria a ser referida o encontro de Ribeiro dos Santos com o obscuro Nicolau Tabana – ou Nicolau Tavama, como aparece mencionado na correspondência provincial dirigida à metrópole.42 Estabelecido numa aldeia fortificada em Novo Redondo, atual Sumbe e chamada pelos africanos, na época, de Quisala, Nicolau era de origem italiana, napolitano de nascimento, mas criminoso e degradado para as costas da África pelas autoridades portuguesas havia 25 anos. Segundo Tams, instruído nos usos e costumes dos povos da região, aclimatado aos ares e às doenças do lugar, casado com uma mulata e com muitos filhos, dispunha de uma fortuna calculada em cerca de 20:000.000 de piastras, cerca de 40 milhões de cruzados, segundo o tradutor (VPP, I, 176). Verdadeiro potentado branco monopolizava o comércio e a vida política deste trecho da costa, possuía feitorias espalhadas nas enseadas próximas a Novo Redondo, em Inandanha e Quicumbo, onde mantinha agentes e comercializava escravos, mas também marfim e cera que vinham nas caravanas do interior, bem como óleo de palma, obtido nas proximidades da pequena fortaleza em que vivia. Era servido por uma milícia composta por 25 soldados escravos, constantemente em armas e, nos negócios, por comissários, alguns cativos, extremamente leais a ele e que faziam longas incursões no interior, comprando marfim e escravos (VPP, 1, 187). No que diz respeito às suas relações com o comendador, após a morte deste, estas haviam perdido a razão de ser:
“havia transtornado todas as esperanças de transações commerciais para as quais Nicolau Tabana havia feito disposições”. (VPP, 2, 59).
Outro nome de mercador referido por Tams é o de um snr. Fonseca que ocupava o posto de agente da casa de Ribeiro dos Santos, na ilha de Santo Antão, arquipélago do Cabo Verde, em 1841, e que, estabelecido junto a sua mulher inglesa neste local, “estava próximo a remover-se para Benguela em utilidade da casa”, (VPP, I, 82) junto à expedição. Uma vez no continente, diria Tams, converter-se-ia definitivamente aos negócios escusos de tráfico, devido a seu intento de “uma prompta aquisição de riqueza”. É contra ele as palavras de desaprovação mais contundente usadas por Tams:
Enquanto a mulher receava o clima da costa, o marido não prestava attenção com seus rogos; porque o seu único intento era o de uma prompta acquisição de riqueza; e enlevado só neste desejo, de boa vontade se sujeitava a todos os inconvenientes. O thema que absorvia todas as suas conversações durante nossa subseqüente viagem, era riqueza, unicamente a riqueza [...] Logo que desembarcamos naquelle reino, o seu vil, abjecto e avarento espírito o fez instantaneamente adoptar o meio mais efficaz de alcançar aquillo que elle somente ambicionava; e sem hesitar um momento se profanou, empregando-se no tráfico da escravatura.
 (VPP, I, 83)


Segundo o médico, a noticia da morte de Fonseca chegou-lhe anos após, quando ele jáse encontrava de volta à Europa. Os irmãos Fonsecas (Manoel Pinto da Fonseca, Joaquim e possivelmente Antonio), da mesma forma que todos os demais negreiros acima referidos, são constantes na documentação produzida pelas autoridades que controlavam o tráfico, a partir das décadas de 1830 e 1840. Na base de dados sobre as viagens dos tumbeiros, Manoel Pinto da Fonseca é, em 1837, proprietário do brigue Especulador, de bandeira portuguesa, agindo a partir das ilhas do Cabo Verde e comercializando cerca de 490 escravos, provenientes da Senegâmbia em direção ao Rio de Janeiro43– coincidentemente a mesma região e local onde Tams o encontrara, como um dos agentes da casa Santos & Monteiro. Embora lidando no terreno movediço das suposições, estas informações podem trazer luzes à trajetória de enriquecimento dos traficantes, uma vez que não tem sido possível localizar exatamente as origens da família Fonseca. Como quer Conrad, talvez vinda de algumas das ilhas do Atlântico, tendo sido Manuel, caixeiro de uma casa mercantil, até pelo menos os finais dos anos de 1830.44 No texto de Tams, a referência a ele reaparece quando da morte de Ribeiro dos Santos, sendo Fonseca o consignatário de grande parte das mercadorias pertencentes àcasa, num momento em que, não se sabe exatamente por que, eram cobiçadas pelas autoridades alfandegárias de Luanda que procuravam confiscá-las: 
A nossa casa de Loanda, depois de ter estado fechada e sellada, foi igualmente alliviada do seqüestro, por uma porção de tempo, pela authentica prova que deu o senhor Fonseca, de ser o verdadeiro dono de tudo o que havia sido confiado ao seu cuidado; e desde então, pode elle continuar com o seu negócio sem estorvos, por sua própria conta. Immediatamente levantamos ancora... (VPP, II, 63)
Nos textos de época, os mercadores de escravos aparecem próximos a outros ramos denegócios e interesses. As relações que este grupo mantém entre si, bem como as indicações feitas sobre eles, denotam o processo de diversificação dos negócios africanos, talvez como a resposta mais imediata às tentativas de conter o tráfico, desde a medida de Sá da Bandeira, de 1836, mas que não implicou sua desarticulação imediata. De Arsênio à Ana Francisca, passando por Ana Joaquina ou mesmo pelo obscuro e solitário Nicolau Tabana, encontramos historicamente configuradas as situações de investimento de parte dos lucros altíssimos do tráfico de escravo em outros empreendimentos ou pensados em projetos futuros. Tanto Ana Joaquina quanto Ana Francisca possuíam plantações de açúcar na região do rio Bengo, ao norte de Luanda e em Mossamedes, e tanto uma como a outra subscreviam novos projetos. Ambas haviam participado da fundação da colônia de Mossamedes, onde mantinham agentes de suas firmas luandenses, para tocarem propriedades, mas também para gerenciar a mercadoria recebida em barracões escondidos longe do mar.45 As Anas comerciantes de escravos eram também senhoras de roças em São Tomé.
Por sua vez, embora não diretamente ligado à sociedade luandense, antes um agente informal dos portugueses, os interesses de Nicolau Tabana prenunciam a transformação das posses comunais sob a tutela tradicional dos sobas em terras e palmares privativos dos europeus em territórios africanos. “Nunca eu havia visto tão bellas florestas de palmeiras”, diria Tams sobre as áreas pertencentes ao italiano (VPP, I, 178):


Na margem direita do rio [o Novo Redondo], havia uma interminável floresta de palmeiras, a qual vista d´uma altura que a dominava, parecia communicar ao vale, que se estendia do lado do norte parallelo com a costa, uma extraordinária belleza. Nicolau tinha comprado aos negros visinhos, uma considerável porção desta floresta por uma insignificante pensão annual, para della extrahir o vinho que formava o ramo mias importante do seu negocio. Os seus grandes rebanhos e manadas de gado, se alimentavam também nesta extensa floresta; ao passo que um grande número de pequenos hortos ou plantações, abundamentemente o suppriam de tudo o que mais necessitava para o sustento da vida. (VPP, I, 182)
Tratava-se de movimento similar ao que ocorria com a implantação dos arimos europeus existentes desde o século XVII e instalados às margens do Bengo, mas também em Cazengo, nos meados dos oitocentos. Distrito habitado por cerca de 17 chefes africanos vassalos de Portugal que se mantinham em “ilhas de posses africanas” em meio às concessões fornecidas pela Coroa aos chamados “barões do café”, alguns deles brasileiros, e onde se estruturava uma sociedade baseada no trabalho escravo, “proto-colonial” na expressão de David Birmingham.46
O poder destes mercadores era digno de nota e por este motivo apareceu registrado em quase todos os relatos produzidos nas décadas de 1840, e naqueles que, décadas depois, procuraram traçar a história das sociedades da região. Enquanto a fama de Ana Francisca e sua história quase romanceada são a tônica do texto de Tams, a figura mais notável nos demais relatos é a de Ana Joaquina, mencionada raramente pelo autor.47 Escritores da época, entre eles o comissário Francisco Valdez, ligado à comissão mista instaurada em Luanda em 1844, referiam-se aos atributos da dama chamada pelos oficiais franceses que se hospedaram junto a sua casa, como a Rainha do Bengo.48 Não se tratava da única dona de arimos, de escravos e de navios com projeção junto à sociedade angolana; segundo Aida Freudenthal:

Entre as numerosas centenas de proprietários revelados pela documentação sobressaem varias “donas” de arimos e de escravos pertencentes à sociedade luandense e benguelense de meados do século como Ana Ubertali, Apolinária Mattoso e Ana Joaquina dos Santos Silva. Os dados obtidos permitem afirmar que a acumulação de riqueza em suas mãos resultou não apenas dos benefícios alcançados através do tráfico, como da prática do comércio licito e da exploração das terras que lhes pertenciam por herança ou por doação, recorrendo ao trabalho escravo. Destes casos o mais eloqüente no domínio da iniciativa empresarial, materializada em investimentos no tráfico, no comércio e na agricultura e transformação da cana, é o de D. Ana Joaquina, eminente figura da sociedade luandense, traficante e proprietária de arimos no Bengo, curiosa personagem de compromisso entre a economia mercantil, a agricultura “tradicional” e as novas estratégias empresariais. Sendo proprietária de vários prédios urbanos e de numerosos e extensos arimos.49 
De outra parte, o poder social de que dispunha esta classe de mercadores deve ser entendido também a partir da proeminência entre os grupos africanos, principalmente com seus parceiros de negócio dos quais dependiam para a obtenção de mercadorias, para o livre trânsito das caravanas, ou ainda os que formavam suas clientelas. Entre os habitantes da cidade de Novo Redondo que haviam construído suas cabanas em torno da moradia fortificada de Nicolau Tabana, Georg Tams nota, além da extrema fidelidade e devoção a ele, o fato de comporem seus comissários nas negociações com o interior e sua guarda particular. Um poder inconteste emanava das aparições econômicas e pontuais:
No dia em que ali chegamos, celebrava-se nella uma festividade, em honra da qual o senhor Nicolau apresentou um refresco que se prolongou por toda a noite. Uma porção de mesas cobertas de abundante mantimento estava collocada em frente da igreja, às quaes tinham livre acesso todos os habitantes. [...] O senhor Nicolau, não tomou parte alguma neste entretenimento, e apparecendo somente por acaso à sua porta, era sempre nessas occasiões saudado como príncipe por toda aquella gente com altas aclamações. Já se aproximava a madrugada, quando a multidão se foi pouco a pouco retirando. (VPP, I, 179-180) 

Também a fama de dona Ana Joaquina atravessava os sertões e atingia o longínquo reino dos lundas com o qual ela procurava fazer acordos comerciais, enviando seus intermediários, entre eles o sertanejo brasileiro Rodrigues Graça, que realizaria, entre os anos de 1843-46, a seu mando, uma expedição ou missão diplomática ao reino dos Lundas.50 Anos mais tarde, percorrendo as mesmas regiões, Henrique de Carvalho ouvia falar de Gá-Andêmbo, senhora considerada muito poderosa em razão de sua proximidade com o Muatiânvua Noéji e da riqueza de seus armazéns. Também expressivo é o testemunho de Antonio Gil:


Vi pretos da Lunda em Loanda na casa de uma senhora que ao tempo era das que mais negociava para o sertão. Tinham vindo atrahidos pela fama de seu negócio e suppunham-a talvez uma das grandes princezas do Moeniputo. Contou-me que quando chegaram se haviam prostrado diante della ao costume da terra, tributandolhe uma espécie de adoração. Accrescentou que todos se reputavam escravos de seu dinasta, cujo poder é tão grande que não pode jamais sair do âmbito da casa em que habita, e que provavelmente não passa de vasta galeria de casas ou cubatas de palha, fechadas em torno.51

É preciso considerar, como demonstra Vellut, que as dinâmicas comerciais africanas eram distintas das que aconteciam nas áreas costeiras e suas regras de negociação com os mercadores estrangeiros e intermediários passavam por dispositivos da diplomacia, entre eles embaixadas, presentes e acordos imprescindíveis para o livre trânsito das caravanas e para o fluxo das mercadorias, em suas diferentes naturezas – homens e produtos.52 Isso não pressupõe, afirma o mesmo autor, que as sociedades africanas do interior não estivessem sujeitas às flutuações do comercio mundial.53  
Arsênio Pompílio Pompeu de Carpo é um dos mais controversos personagens da história da sociedade luandense do século XIX; nem mesmo a historiografia atual se mostra unânime na avaliação de sua figura histórica, sendo possível observar entre os estudiosos, os seus partidários e os seus críticos, bem como aqueles que o consideram expoente de um proto-nacionalismo angolano.54
Na época, sua trajetória foi marcada por altos e baixos. Depois de uma fase de grande proeminência política e econômica, Major das Ilhas Adjacentes à cidade de Luanda, na província de Angola (1840),55 Coronel Comandante das províncias de Bié, Bailundo e Embo (1842)56 e Comendador da Ordem de Cristo (1843),57 e da Ordem da Conceição (1844)58, cargos e honraria outorgados pela rainha D. Maria II, Arsênio de Carpo transforma-se em inimigo número um do bem público, descrito como o grande traficante de escravos nos numerosos relatórios às autoridades metropolitanas, sobretudo nos relatórios endereçados ao ministro Sá da Bandeira, que demonstrava sinais de execrar seu pretenso aliado.59
Em 1845, foi preso e depois expulso de Luanda por conta dos vínculos com o comércio dito ilícito, sendo este o primeiro ato do recém empossado governador, Pedro Alexandrino da Cunha.60 
No entanto, muito próximo a estes fatos, em 1848, o mercador reaparece pronto a executar planos destinados a viabilizar e reativar economicamente Angola por  Portugal e a abolição do tráfico de escravos (1834-51), op. cit., 329. 59 AHU, Sá da Bandeira, documentos, Ordem 825; entre eles, cartas de Arsênio de Carpo ao ministro português, advertindo-o sobre várias questões: o contrabando de escravos e o de urzela, os territórios do norte de Angola, fora de controle; e finalmente, em 1851, o oferecimento de sua ajuda para o combate ao tráfico. Na fórmula de despedida “Loanda 20-5-51 Amigo muito obrigado e criado fiel Arcenio P. P. de Carpo”, a palavra “amigo” encontra-se riscada, possivelmente pelo ministro.meio da proposta de criação de uma companhia para explorar “um caminho de ferro com carros movidos a vapor”, da cidade de Loanda até o distrito de Calumbo, bem como de “levantar nas matas do rio Quanza uma Serraria de madeira também a vapor”.61
É significativo, para o presente estudo, notar que entre os parceiros mencionados encontravam-se negociantes ingleses e portugueses, como também o Cônsul português em Hamburgo na época, André van Randvyk Schut, velho conhecido dos ofícios vindos do mesmo consulado à época de Ribeiro dos Santos, e como mostra a mesma documentação, sócio na firma Ribeiro & Monteiro. Como veremos adiante, é indicativa a eventual presença do mesmo Schut em Ambriz após a morte do comendador, sendo mencionado por Tams sem, no entanto, explicitar exatamente o vínculo que este mantinha com os negócios da casa mercantil hamburguesa. Uma evidente tentativa do escritor alemão de camuflar alguns personagens e ligações que era impossível que lhe fosse desconhecida?
É de supor que o poder de Arsênio se estendia em direção ao interior. Embora no relato de Tams não fique evidenciadas as redes mercantis e sociais articuladas por ele com as populações africanas, depois da expulsão de Luanda, em 1851, parece ter transferido a base de seus negócios para as feiras existentes na hinterlândia de Luanda ou um pouco além dela. Isabel de Castro Henriques, seguindo as indicações feitas nas obras de Henrique de Carvalho, localiza-o aí, aguardando as caravanas imbangalas de marfim, cera e borracha, em Cassange, mas especialmente em Malange, um dos principais centros de trocas do interior angolano, a partir da década da metade do século.62 
Em outro trecho, a mesma historiadora utiliza-se de um oficio do chefe da feira de Cassange ao Governador Geral, citado também por Henrique de Carvalho, em que se noticia a passagem de uma caravana conduzida pelo “senhor comendador Arsênio Pompílio Pompeu”, composta por cerca de 800 serviçais, carregados de mercadorias – fazendas, pólvora e miçangas, estimadas em 86 contos de réis.63
Por fim, no mesmo período, é destacada a participação de Arsênio na recuperação da feira de Cassage e na pacificação do comércio do interior, aparecendo ora como emissário do poder português em embaixadas, ora conduzindo presentes e realizando acordos com os jagas locais. 

O estado do commercio aqui é o mais lisonjeiro possível em todo o sentido, porque os pretos estão muito submissos, não usando já das impertinências que d'antes esgotavam a paciência ao comprador: de maneira que o negociante Carvalho, que em menos de dois dias depois da sua chegada comprou sem grandes esforços para mais de mil e quinhentas libras de cêra e algum marfim, ficou admirado de assim o ter conseguido, pela experiência que tinha do modo extremamente moroso como antigamente se fazia aqui o negocio.64
Nesta linha de raciocínio, é preciso acrescentar, no entanto, um elemento a mais que  reiterado na interpretação de Jill Dias: de que após a proibição e o efetivo estancamento do tráfico em direção ao Brasil, e pouco depois a Cuba, parte da “elite crioula” de Angola havia se movimentado em direção ao interior, agindo uma vez mais como intermediária no comércio de escravos, direcionado agora para os setores dasplantations africanas, entre elas as grandes plantações de cacau em São Tomé.65

TEXTO COMPLETO:

Colonização de Angola: Luanda 1886. Fotos de Cunha Morais

[006+Colonos+Ã]
[007+Moleques+Angola,+cerca+1880.+Fotografo+José+Augusto+da+Cunha+Moraes.+Dim.+16++cm+x+22+cm.+Colecção+António+Faria+e+Ângela+Camila.jpg]


Albumina de José Augusto da Cunha Moraes Luanda 1886. À mesa Angola s/d fotografo não identificado Colecção de Ângela Camila Castelo-Branco e António Faria.

Sobas dos Dembos, Angola, na era colonial e sua corte


Soba: Dembos - Quitexefotos da Agência Geral do Ultramar