sábado, 5 de novembro de 2011

Beatrix Heintze: Angola nos séculos XVI e XVII. Estudos sobre Fontes, Métodos e História



Beatrix Heintze: o seu longo caminho para Angola

A etnóloga alemã Beatrix Heintze, que trabalha há 40 anos em assuntos ligados à Angola dos sec. XVI e XVII, é pouco conhecida em Portugal e relativamente pouco citada. No entanto, este ano foi escolhida para correspondente da classe de Letras da Academia das Ciências de Lisboa. A partir da independência de Angola e após o fim da guerra civil, tem-se relacionado com gente de Luanda, onde agora foi editado este livro, republicando com acrescentos uma série de artigos que tinha publicado ao longo dos últimos decénios.
Sendo embora poliglota, a autora só deveria estar à vontade a redigir em alemão, o que dificultava algo a difusão da sua obra. Por isso, foi conhecida em Portugal, sobretudo através  de traduções para português, inglês e francês, nem sempre completas e, por vezes, indevidamente truncadas. Daí a utilidade deste livro que inclusive traduz para português alguns textos que apenas existiam em alemão. Só é pena que um mínimo de cooperação cultural luso-angolana não tenha permitido uma co-edição que tornasse o livro mais barato e não obrigasse uma obra, impressa em Viseu, a ser levada para Angola. Aliás, o livro não aparece à venda em Lisboa.
Valerá a pena folhear uma pouco a vida da autora, de que ela não faz segredo, pois publicou em 2007, na revista de que foi editora, a Paideuma, um extenso artigo autobiográfico com o título sugestivo de “O meu longo caminho para “Angola”.
Nasceu ela no início da guerra em Korneuburg, na Áustria, em 13 de Janeiro de 1939, filha de pais alemães. O seu pai Hans-Georg Heintze foi mobilizado para a guerra; feito prisioneiro dos russos em Estalinegrado, esteve vários anos dado como desaparecido e foi depois libertado apenas em 1955. A mãe, com dois filhos para criar, foi evacuada em 1944 para Leipzig, para junto dos pais dela.  O seu avô materno, Walter Cramer, foi preso dois dias após o atentado contra Hitler de 20 de Julho de 1944, condenado à morte e executado em 14 de Novembro de 1944; todos os seus bens foram confiscados. É hoje considerado um herói da luta contra o nazismo. B. Heintze escreveu vários textos sobre ele, depois da reunificação (Wiedervereinigung) da Alemanha, quando teve acesso à documentação existente em Leipzig. A sua memória é lembrada num monumento no Johanna-Park, em Leipzig, inaugurado em 1996.
Passando por dificuldades económicas, sua mãe enviou-a para junto dos avós paternos, em Hannover, já que era na altura ainda permitido passar a fronteira de leste para oeste aos menores de 14 anos. Ali acabou o Liceu (Abitur) na Primavera de 1959. A sua mãe gostaria de a ver seguir Direito. Mas a leitura de “Winnetou” de Karl May (1842-1912), seguida de outros livros sobre os indianos da América, deixou-a apaixonada pela Etnologia. Conseguiu autorização dos pais para se dedicar a este ramo, desde que estudasse ao mesmo tempo Filologia Românica, História e Filosofia.
Iniciou em Munique os estudos universitários no ano lectivo 1959/1960. Em Etnologia, trabalhou com Hermann Baumann que desviou a sua atenção para África central. Foram também seus professores Johannes W. Raum e László Vajda. Note-se que H. Baumann tinha feito investigação em Angola em 1930 e 1954 e publicado um livro sobre a Lunda.
No semestre do Verão de 1968, terminou B. Heintze o seu doutoramento com a tese “Besessenheitsphänomene im Mittleren Bantu-Gebiet”.
Não sendo fácil arranjar emprego como etnóloga, conseguiu ela um lugar no célebre Frobenius-Institut da Johann Wolfgang Goethe-Universität, em Frankfurt, dirigido por Eike Haberland; diz ela que o obteve primeiro por recomendação de H. Baumann, mas também porque agradara a Haberland um artigo que publicara no ano anterior ao doutoramento na revista Antropos, “Der südrhodesische dziva-Komplex”.
Ainda em 1968/1969, veio a Lisboa com uma bolsa da Fundação C. Gulbenkian e uma ajuda material do DFG (Deutsche Forschungsgemeinschaft), com o tema “Realeza em Angola”, sugerido por Haberland. Na altura, a guerra de libertação impedia a investigação no terreno em Angola; e o mesmo aconteceu depois de 1974, com a guerra civil. B. Heintze descobriu então em Lisboa a enorme massa de documentos existentes em relação aos primeiros séculos da ocupação de Angola. Diz ela que na altura era ainda uma “página em branco” para os portugueses, o que lhe permitia consultar à vontade toda a documentação existente. Constatou que tudo o que aqui se publicava sobre Angola tinha implícita ou explicitamente na base o ponto de vista do poder colonial. O comércio de escravos era e permaneceu por muitos anos um completo tabu. O trabalho de etnóloga que até ali se propusera levar a cabo, seria impossível. Teria de estudar as fontes existentes para construir uma base histórica. Nisso teve o apoio de Haberland.
Em 1 de Maio de 1969, mudou-se para Frankfurt e começou o seu trabalho como investigadora no Frobenius-Institut, onde permaneceria até 2004. O seu principal trabalho era a supervisão das publicações do Instituto. Neste âmbito, foi redactora, depois editora (após a morte de Haberland, em 1992), a seguir co-editora (com o novo director do Instituto, Karl Heinz-Kohl) da revista do Instituto Paideuma, Mitteilungen zur Kulturkunde  (números de 1971 a 1997) bem como da série de monografias Studien zur Kulturkunde (volumes 28 a 120 e 122). Em 1995, iniciou no Instituto uma nova série denominada “Afrika-Archiv”, dedicada à edição de fontes, difíceis de consultar ou na posse de privados.
De passagem, B. Heintze refere a maravilha que foi, no início dos anos 90, a chegada ao trabalho do PC, da Internet e do e-mail.
Como é evidente, B. Heintze vinha regularmente a Portugal recolher documentos e informação. Na Biblioteca da Ajuda, descobriu a volumosa colecção de manuscritos de Fernão de Sousa, inédita na sua quase totalidade, ainda que o P.e António Brásio tivesse transcrito um ou outro documento. Embora se refiram a um curto período da história de Angola, em que Fernão de Sousa foi Governador (1624 – 1630), contêm dados muito importantes para a história da colonização portuguesa do território, pois os dados da ocupação e da actividade económica (essencialmente, exportação de escravos) mantêm-se uniformes até ao início do sec. XIX. B. Heintze tomou a iniciativa de os transcrever para dois grossos volumes publicados na Alemanha em 1985 e 1988. Para isso, teve a colaboração da Dr.ª Maria Adélia Soares de Carvalho Mendes, anteriormente Leitora de Português na Universidade de Frankfurt. Encontrando-se já esgotados, os livros estão muito longe de ter esgotado a sua utilidade, até porque são muito pouco citados em Portugal. Aliás, a Biblioteca Nacional apenas tem o 1.º volume.
Finda a guerra civil em Angola, a autora tem desenvolvido os contactos com Luanda, e realça no seu artigo a amizade estabelecida, por exemplo, com Maria da Conceição Neto e com Rosa da Cruz e Silva, esta agora ministra da Cultura de Angola.
Em 2004, foi convidada a proferir palestras na Universidade Agostinho Neto, em Luanda. Ofereceram-lhe então um lugar de Professora Convidada, que ela declinou por “motivos pessoais”.
Sobre o livro agora publicado
O livro é muito útil porque põe à disposição do público que fala português a tradução de vários artigos publicados noutras línguas, incluindo alguns que apenas foram publicados em alemão. Um dos mais importantes é o do Capítulo 8.º, que trata das guerras do reino do Andongo (como o chamavam os portugueses) e da sua decadência. O original de 76 páginas, publicado na Paideuma n.º 27, de 1981, foi parcialmente traduzido para português num artigo de 50 páginas, da Revista internacional de estudos africanos, no 1.º semestre de 1984, que não satisfaz de modo nenhum.  Infelizmente na tradução agora apresentada do mesmo artigo, também não foram adicionadas nas notas de roda-pé as referências, nos volumes das Fontes publicados em 1985 e 1988, das citações dos manuscritos de Fernão de Sousa na Biblioteca da Ajuda. Apenas foi adicionada tal referência nalgumas notas (por ex. as n.ºs 176, 177, 178, 216, 217, 219, 309, 353, etc.). Eu esperaria que essas referências fossem adicionadas em todas…
Também se sente a falta de índices onomásticos e de locais, a final, que seriam muitos úteis.
A tradução de Marina Santos é razoável, embora nem sempre facilite a vida ao leitor. Assim, como meros exemplos:
übersee = ultramar não diz de que se trata. Refere-se à América portuguesa (em especial, ao Brasil), do outro lado do Atlântico. Seria preferível dizer além-mar.
- Uma deslocação da questão do "se" para a questão do "quem": Não se percebe de que se trata: "a deslocação da questão "se" para a questão "quem", (tal como na tradução francesa) é mais correcto.
Conteúdo do livro
Os títulos indicados em maiúsculas são repetidos na lista de publicações de Beatrix Heintze que possuo, indicadas a seguir, onde a referência está completa.
Angola nos séculos XVI e XVII. Estudos sobre Fontes, Métodos e História, de Beatrix Heintze. Luanda: Kilombelombe 2007, 633 pp., 12 mapas, 39 figuras, 5 fotografias a preto e branco e 14 estampa a cores.

          Prefácio.

O livro é basicamente a tradução dos STUDIEN ZUR GESCHICHTE ANGOLAS IM 16. UND 17. JAHRHUNDERT -  EIN LESEBUCH, mas reproduzindo os estudos originais no livro contidos, bem como as notas de referência.   Foi excluído o texto do último capítulo, L'ARRIVÉE DES PORTUGUAIS A-T-ELLE SONNÉ LE GLAS DU ROYAUME DE NDONGO? LA MARGE DE MANOEUVRE DU NGOLA 1575 – 1671 e acrescentada a tradução dos textos do Cap. 13 - NGONGA A MWIZA: UM SOBADO ANGOLANO SOB DOMÍNIO PORTUGUÊS NO SÉCULO XVII e no Cap. 2, WRITTEN SOURCES AND AFRICAN HISTORY: A PLEA FOR THE PRIMARY SOURCE. THE ANGOLAN MANUSCRIPT COLLECTION OF FERNÃO DE SOUSA. Os textos foram revistos para esta edição portuguesa.
          Parte I: Fontes e crítica de fontes.
              1.    As fontes da História pré-colonial de Angola ou A maravilhosa viagem dos Jaga através dos séculos;

“As fontes da história” provêm da primeira parte de WRITTEN SOURCES AND AFRICAN HISTORY: A PLEA FOR THE PRIMARY SOURCE. THE ANGOLAN MANUSCRIPT COLLECTION OF FERNÃO DE SOUSA; “A maravilhosa viagem dos Jaga” de um manuscrito publicado com o título THE EXTRAORDINARY JOURNEY OF THE JAGA THROUGH THE CENTURIES: CRITICAL APPROACHES TO PRECOLONIAL ANGOLAN HISTORICAL SOURCES.

              2.    As fontes escritas e a História de África: uma defesa das fontes primárias. A Colectânea Documental de Fernão de Sousa sobre Angola;

Este capítulo provém também de WRITTEN SOURCES AND AFRICAN HISTORY: A PLEA FOR THE PRIMARY SOURCE. THE ANGOLAN MANUSCRIPT COLLECTION OF FERNÃO DE SOUSA.

              3.    Problemas de interpretação de fontes escritas. Os regimentos portugueses para a política de Angola no século XVII;

O texto provém de „Probleme bei der Interpretation von Schriftquellen. Die portugiesischen Richtlinien zur Angola-Politik im 17. Jahrhundert als Beispiel”, in Rainer Voßen e Ulrike Claudi (eds.), Sprache, Geschichte und Kultur in Afrika, Hamburg. Buske, 1983, pags. 131.161.
              4.    As traduções como fontes históricas;

Texto algo redigido a partir de TRANSLATIONS AS SOURCES FOR AFRICAN HISTORY.

              5.    A obra de António de Oliveira de Cadornega: uma fonte extraordinária para a História e Etnografia de Angola no século XVII.

Versão revista do artigo “António de Oliveira de Cadornegas Geschichtswerk über Angola : Eine aussergewöhnliche Quelle des 17. Jahrhunders”, Paideuma, No. 42, 1996, pages 85-104. Stuttgart e baseada parcialmente também em ANTÓNIO DE OLIVEIRA DE CADORNEGA E A SUA “HISTÓRIA GERAL DAS GUERRAS ANGOLANAS”, UM HISTORIADOR E ÉTNOGRAFO DO SEC. XVII, NATURAL DE VILA VIÇOSA.

         Parte II: Para a História do Século XVI;
              6.    O Estado do Ndongo no século XVII;

É uma versão reduzida e revista do artigo "Unbekanntes Angola: Der Staat Ndongo im 16. Jahrhundert", in: Anthropos 72, 1977, Pags. 749-805.

              7.    A política económica e de colonização portuguesa em Angola de 1570 a 1607;

Versão redigida do artigo DIE PORTUGIESISCHE BESIEDLUNGS- UND WIRTSCHAFTSPOLITIK IN ANGOLA 1570-1607, publicado em edição inglesa com o titulo ANGOLA UNDER PORTUGUESE RULE : HOW IT ALL BEGAN. SETTLEMENT AND ECONOMIC POLICY 1570 – 1607

         Parte III: Aspectos da História do século XVII;
              8.    O fim do Ndongo como Estado independente (1617-1630);

Texto publicado na origem com o título DAS ENDE DES UNABHÄNGIGEN STAATES NDONGO (ANGOLA). NEUE CHRONOLOGIE UND REINTERPRETATION (1616 - 1630). Foi publicada uma infeliz versão truncada em português com o título ANGOLA NAS GARRAS DO TRÁFEGO DE ESCRAVOS: AS GUERRAS DO NDONGO.

              9.    O contrato de vassalagem afro-português em Angola no século XVII;

O original foi "Der portugiesische-afrikanische Vasallenvertrag in Angola im 17. Jahrhundert", in: Paideuma 25, 1979, S. 195-223. Há uma tradução inglesa com o título THE ANGOLAN VASSAL TRIBUTES OF THE 17 TH CENTURY.

           10. Os tributos angolanos no século XVII;

O original intitula-se THE ANGOLAN VASSAL TRIBUTES OF THE 17 TH CENTURY.

              11. O comércio de “peças” em Angola. Sobre a escravatura nos primeiros cem anos da ocupação portuguesa;

Versão trabalhada de TRAITE DE 'PIECES' EN ANGOLA: CE QUI N'EST PAS DIT DANS NOS SOURCES. DE L'ESCLAVAGE DURANT LE PREMIER SIECLE DE L'OCCUPATION PORTUGAISE

              12. Asilo ameaçado: Oportunidades e consequências da fuga de escravos em Angola no século XVII;

O texto original foi “Gefährdetes Asyl: Chancen und Konsequenzen der Flucht angolanischer Sklaven im 17. Jahrhundert", in: Paideuma 39, 1993, S. 321-341.  Publicado em tradução portuguesa em Luanda com o título ASILO AMEAÇADO: OPORTUNIDADES E CONSEQUÊNCIAS DA FUGA DE ESCRAVOS EM ANGOLA NO SÉCULO XVII. A redacção final publicada no livro é de Marina Santos. Foi publicada uma versão francesa: "Asiles toujours menacés: fuites d'esclaves en Angola au XVIIe siècle", in: Katia de Queirós Mattoso (Hrsg.): Esclavages. Histoire d'une diversité de l'océan Indien à l'Atlantique sud. Paris und Montreal: L'Harmattan, 1997, S. 101-122. 
              13. Ngonga a Mwiza: Um sobado angolano sob domínio português no século XVII;

Originalmente publicado como NGONGA A MWIZA: UM SOBADO ANGOLANO SOB DOMÍNIO PORTUGUÊS NO SÉCULO XVII . No livro com pequenas alterações.
          Parte IV: Um pouco de História da Cultura
          14.A cultura material dos Mbundu segundo as fontes dos séculos XVI e XVI.

Versão revista do artigo A CULTURA  DOS AMBUNDOS DE ANGOLA SEGUNDO AS FONTES DOS SÉCULOS XVI E XVII

Textos que possuo de Beatrix Heintze
ARTIGOS

1 - Beatrix Heintze
The Angolan vassal tributes of the 17 th century   In: Revista de História Económica e Social. - nº 6 (1980), p. 57-78
 
2 - Beatrix Heintze
Angola nas garras do tráfego de escravos : as guerras do Ndongo In: Revista internacional de estudos africanos. - N.º 1 (Janeiro-Junho 1984), pp. 11 – 61
 
3 - Beatrix Heintze
Asilo ameaçado: oportunidades e consequências da fuga de escravos em Angola no século XVII  tradução e redacção de Maria da Conceição Neto. - Luanda : Ministério da Cultura, Museu Nacional da Escravatura, 1995. - p. 21
 
4 - Beatrix Heintze
Ethnographic appropriations : German exploration and fieldwork in West-Central África. - Contém bibliografia.
In: History in África : a Journal of Method. - Vol. 26 (1999), p. 69-128 – Separata n.º 247 do IICT, LIsboa, 2002 972-672-899-1
 
5 - Beatrix Heintze
Historical notes on the Kisama of Angola In: The Journal of Áfrican History / Cambridge University Press. - T. 13, fasc. nº 3 (1972), p. 407-418
 
6 - Beatrix Heintze
Luso-african feudalism in Angola ? - Coimbra : S.N., 1980. - 20p. . - Revista portuguesa de História, tomo 18 , 1980,- p. 111-131
 
7 - Beatrix Heintze
Ngonga a Mwiza : um sobado angolano sob domínio português no século XVII  Tradução da introdução por Maria da Conceição Pires, controlo da transcrição do texto por Maria Adélia de Carvalho Mendes. In: Revista Internacional de Estudos Áfricanos / dir. Jill R. Dias. - Lisboa : Instituto de Investigação Científica Tropical. - Nº 8-9 (1988), p. 221-233
 
8 - Beatrix Heintze
Traite de "Pieces" em Angola : Ce qui n'est pas dit dans nos Sources / Beatrix Heintze. - Nantes : S.N., 1985. - p. 147-172. - Actas du Colloque International su la Traite des Noires, tome I
 
9 - Beatrix Heintze
Translations as sources for african history, in History in Africa, 11 (1984), 131-161
 
10 - Beatrix Heintze
“L’arrivée des Portugais a-t-elle sonné le glas du Royaume de Ndongo ? La marge de manœuvre du Ngola 1575 – 1671 », in Studia, 67/57, 2000 117-146
 
11 - Beatrix Heintze
« Angola under portuguese rule : How it all began. Settlement and economic policy 1570 – 1607”, in Ana Paula Tavares und Catarina Madeira Santos (Org.): Africae Monumenta – A apropriação da escrita pelos africanos, Lisboa , IICT 2002, pags. 535-561
 
12 - Beatrix Heintze
Written Sources and African History: A Plea for the Primary Source. The Angola Manuscript Collection of Fernao de Sousa, in History in Africa, Vol. 9, 1982 (1982), pp. 77-103
 
13 - Beatrix Heintze, 1939 –
Contra as teorias simplificadoras: o canibalismo na antropologia e história de Angola,  in
Portugal não é um País pequeno: contar o império na pós-colonialidade, organização de Manuela Ribeiro Sanches, Lisboa, 2006, pags. 215-228.
 
14 - Beatrix Heintze, 1939 –
Vestígios de um passado remoto: Fernão de Sousa em Vila Viçosa, in CALLIPOLE, n.º 1, 1993, pags. 35-47
 
15 - Beatrix Heintze, 1939 –
Wer war der “König von Banguela“? In memoriam António Jorge Dias, Lisboa, Instituto de Alta Cultura, 1974, 3 vols. - No 1.º vol., pags. 185-202
 
16 - Beatrix Heintze, 1939 –
Oral Tradition: Primary Source Only for The Collector? in History in Africa, Vol. 3, 1976, pp. 47-56
 
17 - Beatrix Heintze, 1939 –
References in the Humanities: Strategies of Being Open. Being Obscure and Being Misleading
in History in Africa, Vol. 27, 2000, pp. 437-442
 
18 - Beatrix Heintze, 1939 –
Mein langer Weg nach “Angola” in Paideuma, vol. 53 (2007) pp. 7-26
 
19 - Beatrix Heintze, 1939 –
The extraordinary journey of the Jaga through the centuries: critical approaches to precolonial Angolan historical sources*
in History in Africa, Vol. 34, 2007, pp. 67-101
  
20 - Beatrix Heintze, 1939 –
A lusofonia no Interior da África Central na Era pré-colonial. Um contributo para a sua História e Compreensão na Actualidade,
in Cadernos de Estudos Africanos, 7/8 Julho de 2004/Julho de 2005: 179-207
 
21 - Beatrix Heintze, 1939 –
Die portugiesische Besiedlungs- und Wirtschaftspolitik in Angola  1570-1607. In Aufsätze zur portugiesischen Kulturgeschichte 17 (1981-1982): 200-219
 
22 - Beatrix Heintze, 1939 –
"Das Ende des unabhängigen Staates Ndongo (Angola): Neue Chronologie und Interpretation (1617-1630)“, jn Paideuma. 27, 1981, pages 197-273. Stuttgart
 
23 - Beatrix Heintze, 1939 –
António de Oliveira de Cadornega e a sua “História Geral das Guerras Angolanas”, Um Historiador e Étnografo do Sec. XVII, natural de Vila Viçosa, in Callipole, n.º 3/4, 1995/1996, pags. 75-86, tradução e adaptação do Prof. Doutor Olívio Caeiro.
 
24 - Beatrix Heintze, 1939 –
Colonial ambitions as blind passengers : the case of german explorers in West-Central África : 1873-1886
In: A África e a instalação do sistema colonial - c.1885- c.1930 : III reunião international de história de África : actas. - dir. Maria Emilia Madeira Santos. - Lisboa : Centro de estudos de História e cartografia antiga, 2001. - p. 19- 30
 
25 - Beatrix Heintze, 1939 –
Representações visuais como fontes historicas e etnograficas sobre Angola
in: Construindo o passado angolano : as fontes e a sua interpretação - actas do II seminário internacional sobre a história de Angola / pref. Jill R. Dias, Rosa Cruz e Silva. - [S.l.] : Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2000. - p. 187-236
 
26 - Beatrix Heintze, 1939 –
In pursuit of a chameleon : early ethnographic photography from Angola in context in: History in Africa 17 (1990), pags. 131-156
 
27 - Beatrix Heintze, 1939 –
A cultura  dos Ambundos de Angola segundo as fontes dos séculos XVI e XVII
in:  Revista internacional de estudos africanos. - ISSN 0871-2344, nº 10/11 (1989), p. 15-63, il.
 
28 - Beatrix Heintze, 1939 –
Written Sources, Oral Traditions and Oral Traditions as written Sources - The Steep and Thorny Way to Early Angolan History in Paideuma, vol. 33 (1987) pp. 263 - 287
  
29 - Beatrix Heintze
Deutsche Forschungsreisende im westlichen Zentralafrika des 19. Jahrhunderts
  
LIVROS
 
Beatrix Heintze, Studien zur Geschichte Angolas im 16. Und 17. Jahrhundert, Ein Lesebuch, Köln, Rüdiger Köppe, 1996.
 
Beatrix Heintze, Pioneiros Africanos. Caravanas de carregadores na África Centro-Ocidental (1850-1890), Editorial Caminho, Lisboa, 1.ª edição, 2005, Colecção Estudos Africanos, Tradução de Marina Santos, ISBN 972-21-1670-3
 
Fontes para a história de Angola do século XVII, I / Beatrix Heintze (Ed.), colab. Maria Adélia de Carvalho Mendes. –
Stuttgart : Franz Steiner Verlag Wiesbaden, 1985. - 419 p. : mapas, quadros. - Studien zur Kulturkunde. 75). - Memórias, relações e outros manuscritos da colectânea documental de Fernão de Sousa
 
Fontes para a história de Angola do século XVII, II / Beatrix Heintze (Ed.), colab. Maria Adélia de Carvalho Mendes. –
Stuttgart : Franz Steiner Verlag Wiesbaden, 1988. - 430 p. : fotos, quadros. - Studien zur Kulturkunde. 88). - Cartas e documentos oficiais da colectânea documental de Fernão de Sousa
 
Beatrix Heintze, Angola nos séculos XVI e XVII. Estudos sobre Fontes, Métodos e História, Luanda: Kilombelombe 2007, 633 pp.
Beatrix Heintze, EXPLORADORES  ALEMÃES  EM  ANGOLA (1611-1954),  Apropriações etnográficas entre comércio de escravos, colonialismo e ciência, Tradução de Rita Coelho-Brandes e Marina Santos, 479 p., 14 fotografias, 2 mapas; publicação provisória online 2010 esperando a publicação do livro em Angola
Lista completa das publicações de Beatrix Heintze, aqui                                      
obras online:  clicar aqui


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Os Anos da guerra, 1961-1975: os portugueses em Africa : crónica, ficção e história

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Os nossos irmãos Bailundos por Alfredo Baeta Garcia





Um pormenor relevante mas quase ignorado da guerra em Angola
 
 
Uma das vitimas esquecidas ou ignoradas da guerra em Angola, antes e logo após a independência, como se nunca tivesse existido, foram os largos milhares de trabalhadores contratados provenientes do planalto central, conhecidos por bailundos,  qualquer que fosse a sua origem do centro e sul de Angola. Eles constituíam, então, a totalidade da mão de obra não especializada das fazendas de café a norte do Cuanza e foram abandonados pela força das circunstâncias, por aqueles que já não tinham qualquer capacidade para os proteger, os seus patrões. Destes, os que lá ficaram até pouco antes da independência, pode dizer-se que estavam na mesma situação, menos na possibilidade de se irem escapando de avião para Luanda e daí para Lisboa.


Os Bailundos não podiam fazê-lo, apesar de estarem mais perto das suas terras de origem, pois todas as vias de comunicação que levavam para Sul até ao Cuanza ficaram cortadas a partir dos primeiros meses de 1975.
Os europeus e alguns seus acompanhantes que teimaram em ficar, tiveram mais tarde de fugir rumo a Kinshasa, única saída com os caminhos ainda abertos, mas pouco seguros, e que também não servia os Bailundos por os afastar mais das suas origens, correndo os mesmos riscos dos caminhos do Sul. Assim, o último destes grupos que saiu do Quitexe com aquele destino só o conseguiu alcançar fazendo a pé as últimas etapas, pois as viaturas em que seguiam foram ficando pelo caminho avariadas, nenhuma chegando ao seu destino.

Os pobres Bailundos, agora ex-contratados, lá ficaram entregues à sua sorte, não se sabendo exactamente como terminaram. Alguns, que tentaram fazer a viagem de regresso a pé, foram quase sempre apanhados pelos Movimentos que cedo passaram a guerrear-se, transformando-os, depois, em seus carregadores, o menos que lhes podia acontecer.

Se bem que todos tenham sofrido os horrores da guerra, estes segregados no seu país, por força das diferenças étnicas, vivendo, por essa razão num ambiente que lhes era hostil, agravado por nunca terem apoiado qualquer um dos dois movimentos implantados na região a que eram completamente estranhos e, ainda menos, se terem envolvido nas lutas sangrentas que travaram entre si, estes sofreram por razões que lhe eram alheias.

Para compreender esta situação é necessário ter em consideração a base de formação dos Movimentos de Libertação que funcionavam cada um à volta de determinada etnia, não sendo por isso, nenhum deles de âmbito nacional, nem podiam sê-lo, dada a constituição fragmentada da população, como se viu depois.

Por esse seu comportamento, já nos momentos de aflição de 1961, quando era fácil trair-nos e nunca o fizeram, foram, também eles, vítimas fáceis da ira assassina da UPA. Por isso, durante os dois primeiros anos, que foram os mais difíceis de toda a guerra, passaram a chamar-lhes no único jornal que então se publicava no Uíge, o Jornal do Congo, “Os nossos irmãos Bailundos”.

Os Brancos e os Bailundos, como não faziam parte de grupos étnicos autócnes do local onde vivíam, foram irresponsavelmente esquecidos, abandonados, enxovalhados e espoliados, vítimas da descolonização. Só que, dos Bailundos, parece que intencionalmente encalhados nos recessos escusos da indiferença, nada reza a seu respeito a história já feita. É pena, pois ficará para sempre desconhecido um dos factores mais importante dessa guerra, especialmente no Norte de Angola, região onde os seus efeitos foram mais perversos. Pode dizer-se, sem exagerar, que os Bailundos representaram numa altura critica um papel decisivo, a par de outros factores, na estabilização que se conseguiu nos anos seguintes a 61, o que representa uma injustiça e adulteração da nossa história desse período em Angola.

Como os Movimentos de Libertação, pela voz dos seus responsáveis chamavam e ainda chamam traidores e vendidos uns aos outros, é possível que os Bailundos não escapem a uma qualquer categoria neste tipo de classificações.

Este período da história de Angola quando for  estudado com isenção , já liberto pelo tempo das paixões sectárias e do poder, estará em condições de dizer os que se venderam, a quem e como foram pagos. Hoje já é possível adiantar alguns factos incontroversos desse mercado.

Actualmente são muito poucas as testemunhas válidas que passaram efectivamente a guerra nas zonas do café no Norte de Angola, que possam estar em condições de avaliar este facto na sua real dimensão. Os outros, quase todos já emigraram para onde não se pode voltar a ser retornado, deixando um vazio na nossa memória colectiva.


publicado por Quimbanze

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Caderno de notas de um Mais Velho (13) > Emigração para as colónias e a "Carta de Chamada" . Por que Salazar não deixou "europeizar" em força as colónias?





Caderno de notas de um Mais Velho (13) > Emigração para as colónias e a "Carta de Chamada" . Por que Salazar não deixou "europeizar" em força as colónias?


A Carta de Chamada  consistia em um termo de responsabilidade assinado por um comerciante ou um funcionário público residente na colónia, a responsabilizar-se por um candidato à emigração, o que fazia que muita gente que,  não tendo familiares ou amigos para assinar essa carta, desistia e ia para a América ou Brasil onde tinha parentes que o mandavam ir.

Escreve-se tanto sobre Salazar, muitas coisas não passam mesmo de deduções de quem escreve, pois o homem nunca se abriu muito, que podemos perguntar a nós mesmos, e falava-se efectivamente, porque Salazar viu tanta gente ir para o Brasil e EUA, nos anos 50, e não encaminhou essa gente para Angola, Guiné e Moçambique.

Exceptuando os militares ou funcionários em comissão de serviço, ou deportados para o Tarrafal, Salazar só deixava ir par as colónias, colonos, selecionados, ou emigrantes com carta de chamada como se fossem para o estrangeiro. Isto nos anos 50 do outro século, no imediatamente antes da guerra do ultramar, ou seja, já estavam em marcha as independências francófonas e anglófonas, e Agostinho Neto, Amílcar, Luandino Vieira, etc. já tinham ideias formadas.

Havia várias dificuldades para se emigrar para as colónias portuguesas, até que apareceu a guerra do ultramar em 1961, acabando a maioria das complicações. A partir dessa data já não era preciso ter um familiar em Angola para o mandar ir. Não recorrendo a documentos, falando apenas de casos popularmente conhecidos ou propalados, houve casos como o Zé do Telhado [, 1818-1875,] que foi para Angola como degredado [em 1861] e, recorro a este exemplo, porque foi um processo usado pela Justiça durante séculos para punir criminosos e simultaneamente ajudar à colonização por portugueses.

Ainda durante a chamada 1.ª República, foram pensados uns colonatos em Angola para serem enviados colonos brancos para esses lugares, portanto era uma maneira de se emigrar com a família para as colónias por convite, ou aliciamento, ou como quisermos interpretar esse processo. Salazar também usou esse processo do colonato, mas no caso de Angola não foi muito numerosa essa emigração, como às vezes se ouve em certos escritos, e no caso da Guiné, penso que nem existiu essa prática. Em Angola havia o colonato da Cela no planalto central e Capelongo junto do Cunene, os que verdadeiramente chegavam a formar uma pequena vila rural portuguesa.

Quem foi muito apologista da emigração branca para Angola, de uma maneira maciça, foi o célebre anti-salazarista General Norton de Matos [, 1867-1955], muito conhecedor de Angola devido aos anos passados lá como governador e outras atividades políticas dedicadas ao ultramar. Sobre Norton de Matos, fundador da cidade de Nova Lisboa (Huambo),  em Angola, diziam muitos africanistas angolanos que tinha ele uma visão de desenvolvimento para as colónias, que,  a ser seguida a política dele, transformava Portugal e as suas colónias numa grande potência económica. Alguns mais entusiastas por Angola, até imaginavam uma capital portuguesa em Nova Lisboa. Mas, diziam os africanistas e antisalazaristas, que o Salazar atrofiava as ideias dos portugueses empreendedores, usando processos e burocracias atrasadas.

E aí, aparece a burocracia da CARTA DE CHAMADA, da qual Salazar não abria mão. Acompanhada de outras burocracias como vacinas, registo criminal e três contos e quinhentos por cabeça, para viajar de porão. Não sei se crianças, normalmente muitas, pagavam por igual.

Para evitar a burocracia da Carta de Chamada havia uma solução, era pagar as viagens de ida e volta, com direito a receber a devolução das viagens de regresso, quando passassem seis meses ou um ano, conforme as informações sobre a adaptação à nova terra.

Também era dispensada a Carta de Chamada, a quem casasse por procuração com um residente nas colónias. Foi um meio usado com muita frequência.

Quem era a favor de uma forte ocupação branca das colónias, principalmente Angola, condenava a política de Salazar em que este se contradizia, em que ao mesmo tempo que dizia que era tudo Portugal, e ao mesmo tempo tinha que haver a tal carta de chamada.

Também se dizia que Salazar não deixava colonizar e desenvolver fortemente Angola, por medo de os brancos fazerem como os da Africa do Sul, isto é, abandonar o "pobre rectângulo".

Já se ouvia antes da guerra bocas como aquela em que Angola valia a pena, mas a Guiné e Cabo Verde era só prejuízo, e outras coisas deste género. Mas não era o Salazar que dizia isso, antes pelo contrário, o que transparecia era que nem um centímetro quadrado era para ceder.

Isto eram conversas à mesa do café, sem medo da PIDE, à vontade, em toda a Angola, menos nuns certos cafés da baixa de Luanda onde circulavam uns tantos popularíssimos inspectores da dita policia, conhecidos de todos os frequentadores habituais. Em Luanda, toda a gente se conhecia, não sei explicar como, mas era assim mesmo.

Penso que PIDE tinha instalações apenas em Luanda, no resto de Angola nunca ouvi falar, a não ser depois de 1961.

Antes de a guerra começar, já era conhecido o petróleo de Angola, os diamantes, o algodão, o café, o cobre etc, e aquilo que hoje ouvimos sobre o que as riquezas angolanas estão a fazer, desde ter mantido uma guerra de quase 30 anos, e hoje dá trabalho a milhares de chineses, brasileiros e portugueses, pergunta-se muita gente, porque Salazar não criou riqueza, desenvolveu, ocupou... com aquela riqueza toda à mão de semear.

Mas ninguém que escreve sobre Salazar tenta outra explicação para o impedimento de um grande povoamento europeu, que não fosse o medo de perder o controle e haver uma independência.

E, porque depois de tantos anos que passaram, sabendo que Salazar não fazia nada sem ser tudo bem pensado, não será de imaginar que haveria naquela cabeça certezas bem desastrosas, com as piores consequências de uma qualquer independência, havendo uma enorme ocupação europeia?

Para já, tenho a dizer que conhecendo a Guiné como conhecemos, em que a capital era numa ilha, Bolama, e cidades com direito a esse nome era Bissau e Bafatá, bem diminutas, todos consideramos que Portugal nunca fez grande colonização, nem asfalto, nem escolas, mas apenas uns postos administrativos espalhados em grandes áreas.

Se alguém pusesse em dúvida o nosso direito a considerar a Guiné, colónia portuguesa, não sabemos num caso de conflito, se não aconteceria o mesmo como Goa e depois com Timor.

Mas se a Guiné estava naquele atraso em 1963 que todos conhecem, talvez leiam pela primeira vez, mas Angola, proporcionalmente estava várias vezes mais "isenta" de qualquer colonização. Isto vi eu, porque conheço exaustivamente as duas ex-colónias. Para isso, não tive tempo de viajar para lá de Olivença, pelo que não me considero europeísta.

Para dar um exemplo dessa falta de colonização, refiro a quantidade de asfalto em Angola em 1961: havia asfalto nas principais ruas das principais cidades; mas nas estradas, viajava-se em asfalto de Luanda a Catete, aproximadamente 70Km, entre Benguela e Lobito, 20Km, um troço experimental de asfalto de 30Km, entre Lucala e Camabatela, e acabou.

O resto eram picadas e jangadas, ou seja, como exemplo ir de Lisboa a Paris, (de Luanda ao Cazombo) íamos de asfalto até Pegões, daí em frente preparávamo-nos com alimentação, roupa, combustível para semanas em tempo seco, e para meses em tempo de chuva até chegar a Paris.

Qualquer colonização europeia que se encontrasse no caminho não passava de comerciantes isolados ou chefes de posto, sem comunicação rádio, e se tivessem um jeep Willys, era um luxo.

Quando se chegava a uma capital de distrito ou a uma missão católica ou protestante, aproveitava-se para reabastecer combustíveis gerais e actualizar novidades.

Como Salazar sabia melhor que ninguém que de 1933, quando fica com as rédeas do poder na mão, até 1961 não tinha ocupado nem desenvolvido as colónias (Uns anos antes de Salazar, Lisboa não acendia as luzes em Lisboa por falta de dinheiro para o carvão que vinha da Inglatera). Salazar sabia também que dando muita visibilidade às riquezas angolanas ficava sem "passada" para acompanhar os ventos da história, que era mais tufões do que vento.

Ninguém tinha o mais pequeno respeito pela "nossa missão colonizadora", e desde os tripulantes de barcos nórdicos até aos americanos que aportavam em Luanda a carregar café, algodão, etc, dia e noite os guindastes em movimento, achavam escandaloso, ridículo, e com uns brandys no bucho perguntavam-nos na cara se não tínhamos vergonha de ser tão pequenos e pobres, e explorar aquela terra tão grande e rica.

Hoje vemos os americanos a gozar com a compra dos submarinos pelo tal de Portas e vemos o que se passa hoje com os nossos europeístas a serem gozados em Berlim e Bruxelas por causa dos orçamentos, porque tal como antes, hoje também queremos dar passadas maiores que as nossas pernas, e todos acham que é um descaramento querermos ser do clube dos grandes.

Podemos hoje conjecturar que as dificuldades portuguesas de há 50 anos eram historicamente das mais complicadas dos nossos 800 anos, (os 800 anos foram lembrados em Berlim, recentemente à Frau Merkel) e que Salazar usou de muitas manhas para atingir os fins.

E podemos conjecturar que,  graças à Carta de Chamada, provavelmente no 25 de Abril houve um número inferior a um milhão de portugueses retornados. O que seria se não fosse essa Carta que Salazar cuidadosamente exigia?

Será que Salazar não previa um fim de império? É que os estudiosos portugueses falam sempre do que Salazar nos obrigava a enfrentar: emigração, manter as colónias, manter uma agricultura arcaica e uma pesca controlada pelo Tenreiro, uma indústria insignificante, etc. e uns direitos sociais miseráveis, mas esses estudiosos já estão a tempo de escrever que há muitas dúvidas hoje, qual o perigo de darmos passadas maiores que as nossas pernas.

E esses estudiosos de Salazar já estão a tempo de escrever que a ditadura ganhava vida com as dificuldades que lhe eram criadas com casos como as revoltas nas colónias, o assalto ao Santa Maria por Henrique Galvão e, até quando Humberto Delgado foi assassinado, a ditadura aproveitou para espalhar que a oposição (os do contra, como se dizia), é que o atraiçoou e o conduziu a uma cilada.

Escreve-se sempre que estes casos "abanavam os alicerces da ditadura" mas não era essa a sensação, e hoje vemos que Salazar cai da cadeira em 1968 e apenas em 1974 se dá o "o fim do império e da ditadura".

 Não estou com isto a armar-me em salazarista, mas considero que o papel de Salazar no que toca ao assunto colonial, que ele também herda de uma maneira muito complicada, não é analisada de uma maneira isenta de preconceitos, nem os que apoiam nem os que condenam o Botas.

E, aquilo que hoje é dado como ponto assente sobre o pensamento de Salazar, que estava ultrapassado e isolado internacionalmente, é fácil de mostrar o contrário.

Termino para dizer que o homem que assinou a minha CARTA de CHAMADA para eu emigrar para Angola, foi assassinado no Norte de Angola nos massacres da UPA.

O Norte de Angola, zona cafeeira, podia considerar-se provavelmente que era a única área verdadeiramente colonizada com missões, escolas e uma economia cafeeira importante.

Um abraço e desejo boa disposição aos editores para continuarem com ânimo

Anº Rosinha

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A diáspora feminina: degredadas para Angola no século XIX (1865-1898) (1865-1898)

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sábado, 29 de outubro de 2011

Sebastião Lopes de Calheiros e Menezes, Governador de Angola 1861-1862 e o "incidente Birnie"



Entre os homens que por qualidades de mando avultam nas gerações passadas, encontra-se um, cujo nome, pelo seu desprendimento de vaidades e pompas, é do vulgo pouco conhecido, o general e ministro de estado Sebastião Lopes de Calheiros e Menezes.
A sua vida, desde a adolescência é de uma larga acção, foi bastante preenchida; como soldado, como engenheiro, governador de provincia ou ministro, distingui-se sempre pelo seu valor pessoal, decisão energica, sábia administração e incontestável rectidão de carácter.
O seu governo da provincia de Angola, de 1861 a 1862, é uma página brilhante. Encontrando a provincia na mais desastrosa situação,conseguiu, em tão curto prazo, transforma-la militar e civilmente, corrigindo abusos, reorganizando as forças, melhorando as povoações, animando a agricultura e o comercio, e impondo o respeito ao gentio (aquele que professa a religião pagã) e aos estrangeiros, fazendo inteira justiça.
Um facto notável do seu governo, foi o incidente Birnie, basta para demonstrar a energia desassombrada deste homem e quanto dessa qualidade importa reter aos que dispõem do superior mando.
Navegava por aqueles mares uma esquadra Norte Americana, que foi aportar à nossa costa ocidental de África, onde o comissário americano, Eduardo Birnie cometeu um crime punível pelo direito comum, sendo preso e entregue à autoridade judicial de Luanda.
O Almirante ao saber da prisão do comissário, reclamou-o energicamente ao governador, o qual respondeu com uma formal recusa da sua entrega.
Então o almirante retorquiu a ameaça de que libertaria Birnie pela força, e que, sendo necessário, bombardearia a cidade.
Sebastião de Calheiros não se atemorizou, dispôs tudo para a recepção do terrível hospede, e mandou-lhe repetir que por forma alguma entregaria Birnie, pois que este tinha sido justamente preso, e, quanto à violência podia empregar a que quisesse, mas que à primeira bala disparada contra a cidade mandava enforcar o comissário na praia em frente da esquadra.
O almirante em vista da destemida resposta de Sebastião de Calheiros e dos preparativos de defesa fez-se ao largo, sendo Birnie pouco depois julgado e segundo as nossas leis condenado.
Soube o governo dos Estados Unidos justamente apreciar este enérgico acto do governador de Angola, e mandou a corveta de guerra Mohican dar-lhe uma satisfação, oferecendo-lhe um festivo banquete a bordo.
O comandante da esquadra francesa, naquelas paragens por ocasião do incidente, felicitou o corajoso governador pela firmeza com que soube manter os direitos do seu pais, manifestando-lhe o alto apreço e grande estima que o seu carácter e o seu valor lhe mereciam, e que iriam reflectir-se na nação tão dignamente ali por ele representada.

Excerto do Relatório Por Angola: Sebastião Lopes de Calheiros e Menezes, governador geral. 1861-1862


Sebastião Lopes de Calheiros e Menezes, governador geral. 1861-1862
"...  E este o estado em que ficou a colonia a meu cargo no fim do anno, a que este relatorio se refere. Se não ha grandes resultados obtidos, alguma cousa todavia me parece poder notar-se com vantagem em relação ao que por mim foi encontrado, e sobretudo mais alguma cousa ha a esperar da semente qne lancei á terra, e que é de crer que germine e fructifique.... 
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     Poderia concluir aqui o meu trabalho; parece-me porém conveniente levar ao conhecimento de Sua Magestade o meu juizo sobre o futuro da provincia, assim como as minhas vistas sobre o modo de promover o seu desenvolvimento e prosperidade.

Os dominios portuguezes d'esta parte da África comprehendem, como já demonstrei, uma immensa extensão de territorio, que pôde adiantar-se extraordinariamente para o interior. Esse territorio é cortado de rios, que correm para a costa occidental, e os seus valles são notavelmente ferteis, assim como as entranhas da terra se mostram ricas de metaes. Podem portanto esses dominios offerecer valiosos recursos, e a metropole deve aproveita-los. É essa com effeito uma lhes e irrefutavel. O que resta é determinar os meios para se alcançar o fim. 

Este paiz jaz sob o sol dos tropicos, e é habitado por pretos. Estes, se não são em geral uma raça inferior, são-no porventura em especial, e os de Angola são talvez da especialidade; mas quando o não sejam, acham-se em completo estado de rudeza.

Estes pretos conservam-se quasi completamente no estado da natureza, a preta é como escrava e obrigada aos trabalhos mais rudes, não conhecem as necessidades da civilisação, e as naturaes, n'esta zona, em que são muilo mais limitadas, e onde a terra produz, quasi espontaneamente, o sufficiente em relação á sua população, póde dizer-se que as satisfazem sem trabalho. Por outro lado o calor tropical, se não mesmo a sua propria natureza, convida os pretos á indolencia e ao ocio. E portanto muito preguiçosa toda essa população indigena, e muito diminuta relativamente á immensa extensão de territorio.

    Como pois aproveitar os recursos d'esta terra, se os seus habitantes não offerecem os precisos meios de trabalho? Dir-se-ha que importando no paiz a raça branca com a sua intelligencia, energia, amor e habitos de trabalhar. Mas os valles de Angola, onde se produzem os generos coloniaes, não permiltem o trabalho aos brancos; e se com o devido resguardo ahi poderiam viver e fazer cultivar a terra dirigindo o trabalho dos pretos, falta-lhes a precisa acção sobre elles pela quasi completa isenção do trabalho forçado. E nos pontos elevados da provincia, onde, dizem uns, e suppõem outros, que o branco vive bem, ou não se produzem os generos coloniaes, ou ficam a tão grande distancia que o preço do transporte torna sem valor a cultura, resta é determinar os meios para se alcançar o fim. 
    Quando porém com mais ou menos sacrificios a colonisação branca fosse possivel, d'onde havia de vir essa colonisação? O reino e as ilhas adjacentes, que gente poderão dar annualmente para colonisar a nossa África? Não é bem sabida a escassez de braços, que a emigração para o Brazil ahi tem produzido? Ainda que se dirigisse para Angola toda essa emigração (o que não devia tentar-se, porque uma parte d'ella será mais util á metropole no Brazil, do que em Africa), não era isso um grão de areia lançado annualmente n'esse vasto deserto? E a emigração da Europa, emquanto estiverem ermos os sertões da America do norte e da Australia meridional, tão saudaveis como os valles europeus, e os sertões do Brazil mais saudaveis que os de Angola, poderemos nós ter a pretensão de a chamar aqui?
    Dir-se-ha que não se tem ainda explorado este paiz á luz da sciencia ou mesmo da inteligencia, que ainda se não fizeram esforços de colonisação e aclimatação, de modo que possa deduzir-se, que lhes da impossibilidade do trabalho dos brancos está demonstrada. Suppondo, mas não concedendo que assim seja, estamos nós em circumstancias de arriscar gente e dinheiro em experiencias, que pelos argumentos àpriori não devem dar bom resultado ? Deveremos despovoar o sul do reino, o Minho e os Açores para correr o risco de inutilisar colonos nos nossos sertões africanos?
Mal guiadas vão pois, quanto a mim, as idéas d'aquelles que pensam no grande impulso agricola que dizem poder e dever dar-se á provincia de Angola, enviando meios e gente do reino. Eu não posso ter illusões a esse respeito, em vista do conhecimento que pessoalmente adquiri d'esta provincia, e da de Cabo Verde, percorrendo a costa e o interior.

A agricultura dos brancos em Angola, em generos coloniaes, póde dizer-se impossivel sem o trabalho forçado; e mesmo assim nunca será tão productiva como em S. Thomé, na Havana, no Brazil e Estados Unidos, pela facilidade que têem os pretos de subtrahir-se á acção dos brancos, fugindo para onde não é possivel ir busca-los, o que não succede nos paizes citados.
Trabalho livre dos pretos, prestado aos brancos pela remuneração, que o producto da agricultura dos tropicos permite dar, é um sonho, ao menos por ora. Os pretos que, por excepção, forem laboriosos, trabalham para si, que de pouco carecem, e não para os agricultores brancos; cultivam a sua propriedade tão facil de obter, e que lhe dá mais lucro com relação ás suas necessidades, que o salario do lavrador, do qual não supportam a sujeição, incómmoda aos seus habitos e desnecessaria ás suas limitadas aspirações; quanto aos preguiçosos, podarão agricultor dar-lhes salario que os convide?
Como os precedentes do governo de Sua Magestade são todos contrarios ao trabalho forçado nas colonias africanas, seria ocioso fazer indicações em tal sentido, e pelo mesmo motivo cumpre dizer, que se não deve ter illusões a respeito do seu grande desenvolvimento agricola.
Partindo d'estas bases, e sendo taes as minhas convicções, é claro que sou de opinião, que as vistas do governo se devem dirigir particularmente sobre a exploração commercial d'este paiz, e sobre os meios de educar e aportuguezar a raça preta, pois que será com ella e por ella, que poderá levar, se é possivel, n'um futuro mais ou menos remoto, este paiz ao gremio da civilisação. Não digo que se despreze a agricultura, onde ella seja verdadeiramente util e productiva, e a distancia que possa facilmente proteger-se, e receber o impulso da intelligencia e esforço dos europeus que venham estabelecer-se n'esta provincia. Para isso bastará, durante muitos annos, ulilisar os terrenos proximos da costa e o dos valles dos rios, que são os mais promettedores e os que merecem consideração.
É de primeira necessidade tomar os nossos limites legaes n'esta colonia, e occuparmos devidamente a costa entre 5° e 12', e 18° de latitude, de modo que passe pelas nossas alfandegas todo o commercio de importação e exportação que n'ellas se faça, e assim cessará o trafico entre o Ambriz e Molembo, onde estou convencido que não acaba senão com essa occupação pela nossa parte. Devemos estabelecer communicações para o interior pelos rios como o Cunene, que constituirá ao sul a nossa fronteira, não convindo estender a occupação pela costa alem da sua foz por um paiz deserto e esteril; e tambem seguir pelo Zaire, que constituirá ao norte uma grande linha commercial, garantida pela occupação da cosla até 5° e 12' de latitude meridional (1).

1 Em 2 de dezembro de 1861 foram pedidos ao governo dois botes de ferro, para com eltes se proceder ao reconhecimento do rio Lucatla. Estes botes acham-se hoje em Loanda. O Lucatla (em grande desenvolvimento desde as terras da Ginga até á sua confluencia em Massangano com o rio Quanza; e poderá tatvez tornar-se uma grande via industrial, aindaque a navegação aio se verifique, senão passando os generos por terra em curtas distancias do plano superior para o plano inferior das cachoeiras ou obstaculos; o que é facil, mandando estabelecer nos pontos adequados povoações, que se prestarão a esse trabatho, mediante diminuto salario.
Em seguida cumpre chamar os pretos ás nossas relações e sujeição pelo bom trato, sem vexames, ou exigencias pecuniarias, como signal de vassallagem. Sejam as alfandegas a fonte de receita da provincia. Se pois nos não temos gente (nem a teriam outras nações) para colonisar a provincia e explora-la agricolamente desde já; e so pelo systema indicado da occupação, o commercio viria espontaneamente aos nossos estabelecimentos, não lendo outra parte onde comprar e vender; segue-se que as occupações no interior, pelo centro, não deverão estender-se alem de certos limites, porque o contrario será nocivo e perigoso, ao passo que é desnecessario. Temos uma linha de occupação no interior, já em verdade bastante avançada, desde S. Salvador do Congo, ao pé do Zaire, até ao Humbe sobre o Cunene, interrompida, comojámostrei, por grande extensão de territorio, não guarnecido, entre o districto do Golungo Alto e o do Ambriz ao norte, entre o mesmo districto e o de Benguella no centro, e entre este ultimo e o de Mossamedes ao sul. Conservar essa linha, senão mesmo reduzi-la a limites convenientes, e em qualquer dos casos fortifica-la e guarnece-la, estabelecendo n'ella colonias militares, e collocar n'estas Iodos os degradados, que podérem e deverem ser dispensados do serviço militar, entendo ser uma medida de grande alcance para o futuro d'esta provincia. Não se deve exceder esta linha: contentemo-nos com a zona comprehendida entra ella e a costa, sendo bem occupada e defendida, e com os interesses do commercio, que o gentio do interior não pôde deixar de entreter comnosco.

Já demonstrei que as occupações do interior de Mossamedes não tem valor. So a do Humbe o poderá vir a ter mui remotamente, quando subirmos, como devemos, pelo valle do Cunene, em cuja margem assenta o posto que occupâmos. N'este ponto julgo devermos tomar por limite a serra da Chella, cuja uba occidental, e o valle de Capangombe e Bumbo, offerecerão, durante muilo tempo, espaçoso campo á actividade dos colonos e emprehendedores.

    Com a exposta ordem de idéas va e de accordo a fortificação que ordenei em Maiange, centro da linha interior; está em harmonia com ellasacolonisação que procuro estabelecer em Caconda; e n'essas vistas tenciono, logo que se me offereça occasião, abrir as communicaçoes para o Bcmbe por Encoge, ligando assim os concelbos populosos-e bem avassallados dos valles do Quanza, Bengo e Dande com o norte da provincia, assim como entendo que, logoque seja possivel, se deve trabalhar no mesmo sentido, correndo de Pungo Andongo para o sul até Caconda, através do territorio, nãooccupado, do Libolo, Bailando e Bibé, e d'abi até os limites do sul do lado do Humbe.
   Devo comtudo observar que os pontos occupados n'essa linha, e as colonias militares ali estabelecidas, deverão ler por fim tomar pontos estrategicos para segurar a dominação, crear estancias para o commercio do sertão interior, e estabelecer centros de população branca, ou mesmo preta educada ao contacto dos brancos, como fóco de civilisação, sem que deva pensar-se, quanto a mim, em d'ahi tirar resultado para agricultura de generos coloniaes, a não ser em futuro muito distante.
   Occupada assim a provincia, tomadas por este modo n'esse immenso tracto de terreno as couve
mo n Ies linhas delimite, com sujeição e dominio effectivo, conviria actuar sobre a sua população para educa-la. Como porém realisar tão ardua empreza?
Já acima disse, e é obvio, que só o contacto dos brancos, e as suas relações podem educar os pretos, que convem chamar e afagar, fazendo-lhes ver que o nosso dominio não é pesado, para que elles o não evitem. É mister que o preto conheça que a auctoridade do funccionario branco é mais suave e mais benefica que a do sóba preto.
   Cumpre portanto mudar de systema, acabar com as camaras, as juntas de parochia, as com missões municipaes, os juizes ordinarios, e os subdelegados, que não têem sido no interior senão fontes perennes de vexames para os prelos. Eu mesmo observei em todo o sertão, que essas administrações e justiças de brancos desempenhadas pelos pretos, como são e não podem em geral deixar de ser, eram absolutamente odiosas tanto aos brancos como aos mesmos pretos. (Doe. n.° 25.)
É preciso dar uma boa posição aos chefes, e empregar os meios para se lhes fazer effectiva toda a responsabilidade dos seus actos, e, concentrar n'elles toda a auctoridade; podendo assim esperar-se os effeitos da acção benefica e mando que se lhes confia.
O chefe para a administração, e o padre para a instrucção e educação intellectual, moral e religiosa, eis-aqui lodo o funccionalismo que convem conservar n'esse sertão.
O chefe será juiz de paz e ordinario, será administrador e commandante militar; mas não será collector, pois entendo que essa entidade deve ser desconhecida no sertão, onde não convem pedir ao preto um real de imposto. Toda a população da provincia pagará bem o seu tributo na alfandega, concorrendo assim, mais ou menos directamente, para a producção ou para o consumo.
    Exceptuando os concelhos, onde os costumes dos pretos tenham já sido muito alterados pelo trato com os brancos, e raros são elles n'esta provincia, é minha opinião que a instituição dos sobas deve ser conservada, pois como auctoridade tradicional, é, e será sempre, a mais respeitada de todas.
   Que um grande concelho composto de muitos sobas seja dividido em divisões, e que o commandante da divisão seja o chefe dos sobas da sua circumscripção, pôde por excepção admiltir-se; mas que os prelos se entendam directamente com os sobas. Se houver alguns brancos estabelecidos nos sobados, ou gente de cor e mesmo pretos que se possam dizer educados e civilisados, esses que dependam directamente do chefe, ou do commandante da divisão, quando o haja, e não do soba; e so convirá dispensar o valor d'esta instituição quando o numero d'aquelles se tornar grande, e a sua força moral e influencia dominar a dos sobas.
    Julgo dever lembrar aqui que 5 Inglaterra e a Hollanda, habeis nações coloniaes, lêem sempre seguido com proveito o systema de utilisar, quanto possivel, as instituições dos indigenas, como já remotamente outros povos dominadores ensinaram e praticaram cm suas vastas conquistas.
   Não posso tambem dispensar-me de apresentar uma idéa que considero capital a respeito do assumpto de que se trata. Se é conveniente aceitar c aproveitar a instituição e auctoridade dos sobas, é tambem preciso educa-los e aos seus macotas; indispensavel aportugucza-los, c, como um poderoso meio de o conseguir, devemos ensinar-lhes a ler, escrever e contar em portuguez. Saibam portuguez, quanto possivel, os grandes de um sobado, que os pequenos o irão aprendendo. Se Portugal não pôde quasi com certeza crear aqui uma nação da sua raça, como creou do outro lado do Atlantico, ao menos eduque um povo que falle a sua lingua, e tenha mais ou menos a sua religião e costumes, a fim de lançar mais este novo cimento na causa da civilisação do mundo, e de tirar depois mais partido das suas relações e esforços humanitarios.
Demos pois aos pretos boas auctoridades na pessoa dos chefes, bons mestres e directores na pessoa dos padres, não imponhâmos aos sobas senão a obrigação de dar soldados para a força militar, e de ensinar a ler, escrever e contar a seus filhos,  aos de seus parentes e macotas; e deixemos que o tempo, a religião e a instrucção façam o seu dever.
Do que fica exposto, vê o governo de Sua Magestade que eu voto pela maior simplificação possivel da administração no interior da provincia, e nem podia deixar de assim pensar em vista do estado intellectual e moral da sua população. E um povo na infancia, portanto deve dar-se-lhe, mais ou menos, uma organisação patriarcha. O regimen municipal e as justiças ordinarias poderão apenas convir em dois ou tres pontos do litoral; e ainda ahi a auctoridade administrativa local deve presidir á municipalidade. Nem estão menos em desaccordo com o estado selvagem da provincia as franquezas eleitoraes. que lhe foram concedidas, dando em resultado, por um lado a decepção e a burla, por outro a desmoralisação.
E preciso pois retrogradar; não tenho duvida em affirma-lo ao governo de Sua Magestade, e sou insuspeilo, porque desde muilo moço combati pela causa das instituições que nos regem. Não posso convencer-me de que aos povos selvagens dos serlões de Africa se devam applicar as garantias e conceder as immunidades constitucionaes implantadas em Portugal em 1834, nem tambem creio que a pouca e vacillante população europea, que habita Angola, e a diminuta população indigena, que se considera civilisada, em Loanda ou Benguella, aprecie essas instituições e saiba fazer uso d'ellas.
   Julgo necessario fazer-se uma grande reforma politica e economica em Angola. Feita ella, ficarão lançados os alicerces da prosperidade da colonia, e cessarão os sacrificios por parte da metropole, ou serão de pequena importancia os que haja de fazer para realisa-la.
   Essa grande reforma deverá ser acompanhada de differentes providencias, entre as quaes passarei a enumerar as seguintes: 

1.a, a exploração scientifica da provincia, melhorando-a, no que for possivel, quanto á aclimação dos brancos nos pontos mais proprios para o estabelecimento d'estes, e com relação aos recursos mineralogicos; 

2.° uma lei que facilite inteiramente a acquisição de terras, dando, com as menores formalidades que for possivel, ao cultivador a propriedade do baldio que tiver cultivado, e ao pesquisador a da mina que houver descoberto e pozer em exploração; 

3.° providencias tendentes a facilitar a emigração espontanea do reino e ilhas, apresentando-a com as vantagens que offerece a do Brazil, e proporcionando tambem os meios á reemigração do imperio, aos que ali se acharem descontentes, adiantando a passagem nos navios de commercio, e dando-a gratuitamente nos do estado; 

4.° uma lei de melhoramento na situação actual dos funccionarios, assegurando-lhes também um futuro, sem o que a administração central não tem força no mando, nem podem aproveitar as suas mais justas e necessarias disposições, nem tão pouco se pôde esperar que o funccionario se a ÍTei coe á colo n ia, e n'el Ia se estabeleça, como convem aos interesses do paiz1

5.° uma disposição que facilite a introducção, o derramamento, a creacão e a conservação de animaes que auxiliem as differentes industrias; 

6.° a creação de um banco em Loanda, e do estabelecimento de navegação a vapor particular á costa, medida de grande auxilio geral, mas especialmente para o commercio; 

7.° a construcção de algumas estradas auxiliares das communicações fluviaes, e grande desenvolvimento de obras publicas, boje largamente possivel com o producto do imposto de 3 por cento ad valorem;  

8.° a educação e instrucção da população, attendendo a que na provincia não é possivel grande applicação ás sciencias, nem aos europeus nem mesmo aos indigenas, pois apenas convirá organisar aqui um bom lyceu, alem de algum collegio para a infancia; e os padres serão mais bem educados nos seminarios de Portugal, ficarão mais portuguezes, e continuarão a sê-lo voltando ao seu paiz, e aprenderão melhor a lingua, que depois devem aqui ensinar; 

9.° a troca de recrutamento de pretos entre Angola, S. Thomé, Cabo Verde, e mesmo Moçambique, unico meio de ter bons soldados pretos de 1.a linha n'esta provincia,,visto a propensão dos nativos para a deserção, a facilidade de a realisar, e a difficuldade de a punir, e porque, resistindo os brancos difficilmente á vida de soldado, seria esta a maneira de dispensar mais ou menos completamente o seu serviço militar, empregando-os mais utilmente, tendo tambem em attenção o preciso augmento de força de 1.a linha em harmonia com o augmento do numero dos pontos occupados na provincia, e ouIras circumstancias que o reclamam; 

10.° uma organisação geral dos diferentes serviços publicos tendente á sua maior simplificação possivel, de maneira que se empregue o menor numero de individuos, pela extrema dificuldade de os obter idoneos, a cujo respeito não me dispenso de indicar a suppressão das delegações de fazenda, substituindo-lhe o systema que vigora em Cabo Verde;

11.º, uma providencia combinada com differentes nações a bem da causa da humanidade, se este sentimento é real e unanime, prohibindo a venda de armas e polvora, objectos que alimentam o trafico da escravatura, exclusivamente fornecidos pelos inglezes e americanos, com o que ficará segura a obediencia dos prelos avassallados, e inoffensivo o gentio diante da nossa força armada; 

12.°, especialmente uma reforma no serviço judicial, de modo que os empregados do juizo de paz sejam muito interessados nas conciliações, e que n'este juizo se terminem a maxima parto dos pleitos, deixando aos sóbas decidir as questões entre filhos (vassallos) até certa alçada, embora com a conservação de prejuizos, que só o tempo e a educação poderão acabar; e deixar aos chefes, como juizes ordinarios que são na maxima parte dos concelhos(1), o decidir a maior parte das causas crimes, de modo que ás instancias superiores não subam a infinidade de processos, que hoje sobem, com grave prejuizo publico, e borrorosos vexames e injustiça para as partes; 

(1)  A antiga instituição do julgamento summario em tribunal composto pelo chefe, como juiz, do escrivao e do tendala (interprete) com voto consultivo, compreeendia a do juizo de paz, era e é adequada áquelle povo e estima por elle ; offerece as precisas garantias de justica ao paiz que tanto a carece, ordem e paz a administracao e forca ao governo.

13.°, o estabelecimento de uma estação naval a vapor, que possa auxiliar a administração nas suas relações entre os postos da costa, e que de accordo com as auctoridades dos differentes pontos responda, perante o paiz, pela completa execução das leis contra ò trafico, que comtudo pôde dizer-se acabado no territorio avassallado, salvo alguma muito rara transgressão, e que assim se poderia dizer cxtincto em toda a costa, desde 5° e 12' até 18°, cessando a humilhação que muitas vezes soffremos dos estrangeiros; estação naval, que bem organisada e bem dirigida não causaria muito maior despeza que essa abi sustentada inutilmente, porque o trafico so se faz ao norte do Ambriz,e geralmente em navios com bandeira que os cruzeiros não podem deixar de respeitar; 

14.°, a melhor organisação do serviço de saude, de sorte que abundem na colonia os facultativos e os pbarmaceuticos, animando assim os brancos a procurar aqui fortuna, certos de que se o clima não é salubre, Ibes não faltarão os recursos para se tratarem em suas molestias; 

15.°, a adopção de uma pauta geral das alfandegas, apropriada á provincia, desprendendo-se o governo de principios que, por incontestáveis que sejam na sua applicação á Europa civilisada,  são da mais duvidosa vantagem, se não de reconhecida inapplicação, na Africa selvagem; 
16.°, e finalmente essa grande reforma deve ser acompanhada, como medida da mais subida transcendencia, da fixação da boa intelligencia das leis e tratados sobre o transporte de escravos e libertos por mar entre os portos da provincia, e entre ella e a de S. Thome, a fim de que não subsista a interpretação erronea que se deu ao n.° 4.* do artigo 5.° do tratado de 3 de julho de 1842, com grave prejuizo publico, e particular das duas colonias.
Outras providencias de menor importancia poderia lembrar, que não apresentarei agora para não tornar este relatorio demasiadamente extenso, convindo apenas especialisar o estabelecimento de alguns pontos fortificados na costa, segundo o indicar um bem entendido systema de defe/a, habilitar a provincia com o material de guerra preciso e apropriado, que hoje não possue, e constituir devidamente a auctoridade elevando-a e centralisando a sua acção, porque a auctoridade-é a maior força productora em Africa. O governo da metropole deve empregar o maior cuidado na escolha do seu delegado no governo geral, e depositando n'elle toda a confiança, e demittindo-o, quando não a mereça, deve julgar e obrar pelas informações officiaes, por via de regra mais desinteressadas e sempre responsaveis, e não por indicações e insinuações incompetentes, senão malevolas e interesseiras; nem tão pouco pelas representações suspeitas, dirigidas por vias incompetentes.
   Tenho pois exposto o meu juizo e as minhas vistas a respeito da provincia que governo; e segundo ellas dirigirei portanto a minha administração, excepto quando contrariarem as disposições da lei, e as ordens do governo de Sua Magestade, que me cumpre respeitar, executando-as, ou representando respeitosamente, quando assim convier aos interesses publicos.

E agora, aindaque, como disse acima, os precedentes do governo são contrarios ao trabalho forçado nas colonias de Africa, tendo declarado, que sem elle julgo impossivel a grande agricultura colonial por emprehendimento dos europeus, a cultura civilisadora, intelligente, e verdadeiramente productiva, parece-me que não devo deixar de apresentar aqui, em conclusão do meu trabalho, algumas indicações sobre o assumpto. Se o governo de Sua Magestade se decidir a reconsiderar, como disse que seria mister, sobre muitas das providencias ultimamente adoptadas, talvez lambem se decida a adoptar algumas disposições com relação a este assumpto, onde não é por ventura indispensavel que retrograde.
 
Já indiquei como era difficil, senão é impossivel, que os colonos ou os indigenas emprehendedores podessem aqui estabelecer emprezas agricolas com trabalho livre, porque as contingencias da cultura e os lucros que produzem os generos coloniaes não lhes permiltem dar salarios que convidem a população indolente e preguiçosa a fornecer-lhes o trabalho, que precisam; assim como disse, que os poucos pretos que porventura forem laboriosos, trabalharão para si e não para estranhos. Tenho esta asserção como irrefutavel. A escravidão acha-se abolida por lei, e não é de crer que reviva, porém a lei admilte a condição de liberto, ou preto livre obrigado a dez annos de serviço em favor d'aquelle que o remiu da escravidão. Talvez d'esta sorte, apesar do praso ser curto (1), possa haver ainda uma esperança para a agricultura, se o colono ou emprehendedor agricola podér contar com esses dez annos de trabalho do liberto. Segure-se ao emprehendedor de trabalhos agricolas, mais ou menos completamente, o trabalho do escravo que remiu, sempre que esteja valido, durante o praso que a lei concede, e poderá ainda haver em Angola agricultura com algum valor. Terá porém o colono seguro o trabalho do liberto no estado actual das cousas? Não tem, porque o preto, vindo do sertão, sabe o caminho d'esse sertão, e na primeira occasião opportuna foge, ou para ali, ou para o primeiro motolo (couto de bandidos), que encontra, ou para qualquer ponto do gentio não avassallado, que não dista muito da estancia do agricultor, a quem deve o serviço (1).

1 O preto de menor idade, resgatado da escravidão no gentio, fica livre quando está educado e em estado de prestar algum servico.
   1 Veja-se a nota inseria a pag. 19 relativamente á fuga de 111 pretos, pertencentes ao cultivador de Cazengo Costa Magalhães.
A difficuldade, o problema a resolver para que haja agricultura nesta provincia, consiste em segurar ao agricultor o trabalho do seu liberto. Não será promettendo distincções honorificas, isentando os productos agricolas de todo o imposto de exportação, fornecendo utensilios, machinas e sementes, ou offerecendo valiosos premios pecuniarios; será dando aos emprehendedores segurança de braços para o trabalho que o governo de Sua Magestade promoverá a agricultura das colonias do continente africano.
Mas actualmente não ha meio de evitar tão grande mal. Não se tendo interpretado o tratado de 3 de julho de modo a não comprehender o transporte de escravos por mar entre os portos d'esta costa, nas disposições que no tratado se estatuiram a respeito das ilhas de S. Thomé, como é evidente que não são comprehendidos pela letra do tratado, e se alem d'isto se não houvesse ampliado infundamentadamente a sua applicação lilleral, comprehendendo n'ella os libertos, quando no tratado só se falia de escravos, ainda se poderia remediar, trocando os individuos do norte com os do sul. N'este caso todavia ainda a questão ficava sem resolução completamente satisfactoria para o centro da provincia, que é a parte mais importante, e os emprehcndedores ou não apparecerão, ou alguns raros que tentem, esmorecerão e abandonarão promplamente em presença de tacs difficuldades e embaraços.

Emquanto não passar muito grande numero de annos, e esse territorio comprehendido entre a costa e a linha interior de occupação acima descripta, não for domado complctamentc, e mais ou menos assimilado, emquanto ao menos os motolos, e o gentio não avassallado não deixarem de existir no meio do territorio sujeito, os libertos, vindos do interior, não offerecem ao emprehendedor agricola trabalho certo e seguro como elle precisa, e portanto não podem affluir para Angola esses emprehendedores.
O governo de Sua Magestade teria ainda um meio proficuo de promover a agricultura permittindo que os emprehendedores agricolas possam trazer libertos de paizes para onde elles não fujam, e de raças e linguas que os tornem estranhos ao gentio d'esta provincia. Foi por se darem estas circumstancias com os pretos transportados para a America, que ali se creou a agricultura tropical. Se em troca fossem trazidos para Angola indigenas americanos, ter-se-ia ella, naturalmente, estabelecido aqui do mesmo modo.
É portanto um grande meio civilisador permitlir que as provincias de Angola e Moçambique possam trocar libertos pela via maritima. Não ha n'isto a menor offensa ao tratado de 3 de julho de 1842, nem ao decreto de 14 de dezembro de 1854 e mais legislação em vigor, não ha a menor derrogação dos principios recebidos entre as nações, poisqtie se é licilo engajar pretos em África com obrigação de certo tempo de serviço, e leva-los para as colonias francezas (Doe. n.° 53), ou engajar colonos ou coolis na índia e na China com a mesma obrigação, e leva-los para as colonias francezas, hespanholas e inglezas; é ainda mais licito trazer, de uma colonia portugueza para outra da mesma nação, pretos obrigados por lei a certo lempo de serviço, findo o qual, ficam desembaraçados e poderão tomar o expediente que lhes convier.
É este um assumpto a cujo respeito o governo de Sua Magestade é livre de obrar como lhe aprouver, sem otfensa dos principios de justiça e de equidade, e pôde proceder desassombradamente sem receio de merecer censura. Assim como se trocam recrutas para o exercito, tambem se podem trocar esses recrutas para o trabalho agricola, o mais poderoso, talvez, o unico meio efficaz de civilisação para as selvagens raças africanas. Entendo pois, considerando e estudando detidamente o assumpto, que poderá talvez d'esta sorte com a legislação existente haver desenvolvimento agricola n'esta provincia.
  Aproveito esta occasião para dizer que de quasi igual medida depende todo o desenvolvimento agricola que promette o archipelago de S. Thomé e Principe. Ali so se precisa de braços, libertos, se por outro meio melhor se não obtêem, e Angola fornecer-lhe-ha largamente dos que não pôde utilisar. Deve advertir-se que Angola interessa no desenvolvimento agricola d'aquelle archipelago, porque, quando ali tenha chegado a certa altura, ha de refluir poderosa e beneficamente sobre este continente.
    Quanto porém á troca de libertos entre Angola e Moçambique, devo ainda reflectir, que este expediente so pôde ser proficuo quando em ambas as provincias haja gente pecuniosa, ou se organisem emprezas poderosas dedicadas á agricultura. Com os meios de que dispõem as pessoas, que em ambas as provincias podem hoje tentar trabalhos agricolas não lhes é possivel negociar em larga escala o serviço dos libertos trocados entre ellas, em consequencia do preço a que se elevaria a despeza de transporte; nem os armadores se animarão, como convinha, a dedicar os seus navios a tão longa navegação.
     Quando haverá porém nas duas provincias essas pessoas e essas emprezas poderosas? Tarde, sem duvida, por falta de meios, e sobretudo de impulsão protectora. Para fomentar agricultura valiosa na nossa África, na continental pelo menos, haverá inquestionavelmente necessidade de tomar-se uma medida rasgada de organisação do trabalho da população indigena, adoptando, por exemplo, um conveniente systema de servidão, do que já ha n'esta provincia uma similhança nos chamados forros, que é uma tutela rasoavel em troco de protecção condicional.

   Dou por concluido o meu trabalho. Oxalá que o governo de Sua Magestade julgue que cumpri, e n'elle encontre indicações e propostas, que mereçam ser consideradas e possam ser adoptadas com proveito da provincia e do paiz.
   Deus guarde a v. ex.a Loanda, 31 de janeiro de 1862. — Ill.mo e ex.mo sr. ministro e secretario de estado dos negocios da marinha e ultramar.= Sebastião Lopes de Calheiros e Menezes, governador geral.

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