sábado, 5 de novembro de 2011

Beatrix Heintze: Angola nos séculos XVI e XVII. Estudos sobre Fontes, Métodos e História



Beatrix Heintze: o seu longo caminho para Angola

A etnóloga alemã Beatrix Heintze, que trabalha há 40 anos em assuntos ligados à Angola dos sec. XVI e XVII, é pouco conhecida em Portugal e relativamente pouco citada. No entanto, este ano foi escolhida para correspondente da classe de Letras da Academia das Ciências de Lisboa. A partir da independência de Angola e após o fim da guerra civil, tem-se relacionado com gente de Luanda, onde agora foi editado este livro, republicando com acrescentos uma série de artigos que tinha publicado ao longo dos últimos decénios.
Sendo embora poliglota, a autora só deveria estar à vontade a redigir em alemão, o que dificultava algo a difusão da sua obra. Por isso, foi conhecida em Portugal, sobretudo através  de traduções para português, inglês e francês, nem sempre completas e, por vezes, indevidamente truncadas. Daí a utilidade deste livro que inclusive traduz para português alguns textos que apenas existiam em alemão. Só é pena que um mínimo de cooperação cultural luso-angolana não tenha permitido uma co-edição que tornasse o livro mais barato e não obrigasse uma obra, impressa em Viseu, a ser levada para Angola. Aliás, o livro não aparece à venda em Lisboa.
Valerá a pena folhear uma pouco a vida da autora, de que ela não faz segredo, pois publicou em 2007, na revista de que foi editora, a Paideuma, um extenso artigo autobiográfico com o título sugestivo de “O meu longo caminho para “Angola”.
Nasceu ela no início da guerra em Korneuburg, na Áustria, em 13 de Janeiro de 1939, filha de pais alemães. O seu pai Hans-Georg Heintze foi mobilizado para a guerra; feito prisioneiro dos russos em Estalinegrado, esteve vários anos dado como desaparecido e foi depois libertado apenas em 1955. A mãe, com dois filhos para criar, foi evacuada em 1944 para Leipzig, para junto dos pais dela.  O seu avô materno, Walter Cramer, foi preso dois dias após o atentado contra Hitler de 20 de Julho de 1944, condenado à morte e executado em 14 de Novembro de 1944; todos os seus bens foram confiscados. É hoje considerado um herói da luta contra o nazismo. B. Heintze escreveu vários textos sobre ele, depois da reunificação (Wiedervereinigung) da Alemanha, quando teve acesso à documentação existente em Leipzig. A sua memória é lembrada num monumento no Johanna-Park, em Leipzig, inaugurado em 1996.
Passando por dificuldades económicas, sua mãe enviou-a para junto dos avós paternos, em Hannover, já que era na altura ainda permitido passar a fronteira de leste para oeste aos menores de 14 anos. Ali acabou o Liceu (Abitur) na Primavera de 1959. A sua mãe gostaria de a ver seguir Direito. Mas a leitura de “Winnetou” de Karl May (1842-1912), seguida de outros livros sobre os indianos da América, deixou-a apaixonada pela Etnologia. Conseguiu autorização dos pais para se dedicar a este ramo, desde que estudasse ao mesmo tempo Filologia Românica, História e Filosofia.
Iniciou em Munique os estudos universitários no ano lectivo 1959/1960. Em Etnologia, trabalhou com Hermann Baumann que desviou a sua atenção para África central. Foram também seus professores Johannes W. Raum e László Vajda. Note-se que H. Baumann tinha feito investigação em Angola em 1930 e 1954 e publicado um livro sobre a Lunda.
No semestre do Verão de 1968, terminou B. Heintze o seu doutoramento com a tese “Besessenheitsphänomene im Mittleren Bantu-Gebiet”.
Não sendo fácil arranjar emprego como etnóloga, conseguiu ela um lugar no célebre Frobenius-Institut da Johann Wolfgang Goethe-Universität, em Frankfurt, dirigido por Eike Haberland; diz ela que o obteve primeiro por recomendação de H. Baumann, mas também porque agradara a Haberland um artigo que publicara no ano anterior ao doutoramento na revista Antropos, “Der südrhodesische dziva-Komplex”.
Ainda em 1968/1969, veio a Lisboa com uma bolsa da Fundação C. Gulbenkian e uma ajuda material do DFG (Deutsche Forschungsgemeinschaft), com o tema “Realeza em Angola”, sugerido por Haberland. Na altura, a guerra de libertação impedia a investigação no terreno em Angola; e o mesmo aconteceu depois de 1974, com a guerra civil. B. Heintze descobriu então em Lisboa a enorme massa de documentos existentes em relação aos primeiros séculos da ocupação de Angola. Diz ela que na altura era ainda uma “página em branco” para os portugueses, o que lhe permitia consultar à vontade toda a documentação existente. Constatou que tudo o que aqui se publicava sobre Angola tinha implícita ou explicitamente na base o ponto de vista do poder colonial. O comércio de escravos era e permaneceu por muitos anos um completo tabu. O trabalho de etnóloga que até ali se propusera levar a cabo, seria impossível. Teria de estudar as fontes existentes para construir uma base histórica. Nisso teve o apoio de Haberland.
Em 1 de Maio de 1969, mudou-se para Frankfurt e começou o seu trabalho como investigadora no Frobenius-Institut, onde permaneceria até 2004. O seu principal trabalho era a supervisão das publicações do Instituto. Neste âmbito, foi redactora, depois editora (após a morte de Haberland, em 1992), a seguir co-editora (com o novo director do Instituto, Karl Heinz-Kohl) da revista do Instituto Paideuma, Mitteilungen zur Kulturkunde  (números de 1971 a 1997) bem como da série de monografias Studien zur Kulturkunde (volumes 28 a 120 e 122). Em 1995, iniciou no Instituto uma nova série denominada “Afrika-Archiv”, dedicada à edição de fontes, difíceis de consultar ou na posse de privados.
De passagem, B. Heintze refere a maravilha que foi, no início dos anos 90, a chegada ao trabalho do PC, da Internet e do e-mail.
Como é evidente, B. Heintze vinha regularmente a Portugal recolher documentos e informação. Na Biblioteca da Ajuda, descobriu a volumosa colecção de manuscritos de Fernão de Sousa, inédita na sua quase totalidade, ainda que o P.e António Brásio tivesse transcrito um ou outro documento. Embora se refiram a um curto período da história de Angola, em que Fernão de Sousa foi Governador (1624 – 1630), contêm dados muito importantes para a história da colonização portuguesa do território, pois os dados da ocupação e da actividade económica (essencialmente, exportação de escravos) mantêm-se uniformes até ao início do sec. XIX. B. Heintze tomou a iniciativa de os transcrever para dois grossos volumes publicados na Alemanha em 1985 e 1988. Para isso, teve a colaboração da Dr.ª Maria Adélia Soares de Carvalho Mendes, anteriormente Leitora de Português na Universidade de Frankfurt. Encontrando-se já esgotados, os livros estão muito longe de ter esgotado a sua utilidade, até porque são muito pouco citados em Portugal. Aliás, a Biblioteca Nacional apenas tem o 1.º volume.
Finda a guerra civil em Angola, a autora tem desenvolvido os contactos com Luanda, e realça no seu artigo a amizade estabelecida, por exemplo, com Maria da Conceição Neto e com Rosa da Cruz e Silva, esta agora ministra da Cultura de Angola.
Em 2004, foi convidada a proferir palestras na Universidade Agostinho Neto, em Luanda. Ofereceram-lhe então um lugar de Professora Convidada, que ela declinou por “motivos pessoais”.
Sobre o livro agora publicado
O livro é muito útil porque põe à disposição do público que fala português a tradução de vários artigos publicados noutras línguas, incluindo alguns que apenas foram publicados em alemão. Um dos mais importantes é o do Capítulo 8.º, que trata das guerras do reino do Andongo (como o chamavam os portugueses) e da sua decadência. O original de 76 páginas, publicado na Paideuma n.º 27, de 1981, foi parcialmente traduzido para português num artigo de 50 páginas, da Revista internacional de estudos africanos, no 1.º semestre de 1984, que não satisfaz de modo nenhum.  Infelizmente na tradução agora apresentada do mesmo artigo, também não foram adicionadas nas notas de roda-pé as referências, nos volumes das Fontes publicados em 1985 e 1988, das citações dos manuscritos de Fernão de Sousa na Biblioteca da Ajuda. Apenas foi adicionada tal referência nalgumas notas (por ex. as n.ºs 176, 177, 178, 216, 217, 219, 309, 353, etc.). Eu esperaria que essas referências fossem adicionadas em todas…
Também se sente a falta de índices onomásticos e de locais, a final, que seriam muitos úteis.
A tradução de Marina Santos é razoável, embora nem sempre facilite a vida ao leitor. Assim, como meros exemplos:
übersee = ultramar não diz de que se trata. Refere-se à América portuguesa (em especial, ao Brasil), do outro lado do Atlântico. Seria preferível dizer além-mar.
- Uma deslocação da questão do "se" para a questão do "quem": Não se percebe de que se trata: "a deslocação da questão "se" para a questão "quem", (tal como na tradução francesa) é mais correcto.
Conteúdo do livro
Os títulos indicados em maiúsculas são repetidos na lista de publicações de Beatrix Heintze que possuo, indicadas a seguir, onde a referência está completa.
Angola nos séculos XVI e XVII. Estudos sobre Fontes, Métodos e História, de Beatrix Heintze. Luanda: Kilombelombe 2007, 633 pp., 12 mapas, 39 figuras, 5 fotografias a preto e branco e 14 estampa a cores.

          Prefácio.

O livro é basicamente a tradução dos STUDIEN ZUR GESCHICHTE ANGOLAS IM 16. UND 17. JAHRHUNDERT -  EIN LESEBUCH, mas reproduzindo os estudos originais no livro contidos, bem como as notas de referência.   Foi excluído o texto do último capítulo, L'ARRIVÉE DES PORTUGUAIS A-T-ELLE SONNÉ LE GLAS DU ROYAUME DE NDONGO? LA MARGE DE MANOEUVRE DU NGOLA 1575 – 1671 e acrescentada a tradução dos textos do Cap. 13 - NGONGA A MWIZA: UM SOBADO ANGOLANO SOB DOMÍNIO PORTUGUÊS NO SÉCULO XVII e no Cap. 2, WRITTEN SOURCES AND AFRICAN HISTORY: A PLEA FOR THE PRIMARY SOURCE. THE ANGOLAN MANUSCRIPT COLLECTION OF FERNÃO DE SOUSA. Os textos foram revistos para esta edição portuguesa.
          Parte I: Fontes e crítica de fontes.
              1.    As fontes da História pré-colonial de Angola ou A maravilhosa viagem dos Jaga através dos séculos;

“As fontes da história” provêm da primeira parte de WRITTEN SOURCES AND AFRICAN HISTORY: A PLEA FOR THE PRIMARY SOURCE. THE ANGOLAN MANUSCRIPT COLLECTION OF FERNÃO DE SOUSA; “A maravilhosa viagem dos Jaga” de um manuscrito publicado com o título THE EXTRAORDINARY JOURNEY OF THE JAGA THROUGH THE CENTURIES: CRITICAL APPROACHES TO PRECOLONIAL ANGOLAN HISTORICAL SOURCES.

              2.    As fontes escritas e a História de África: uma defesa das fontes primárias. A Colectânea Documental de Fernão de Sousa sobre Angola;

Este capítulo provém também de WRITTEN SOURCES AND AFRICAN HISTORY: A PLEA FOR THE PRIMARY SOURCE. THE ANGOLAN MANUSCRIPT COLLECTION OF FERNÃO DE SOUSA.

              3.    Problemas de interpretação de fontes escritas. Os regimentos portugueses para a política de Angola no século XVII;

O texto provém de „Probleme bei der Interpretation von Schriftquellen. Die portugiesischen Richtlinien zur Angola-Politik im 17. Jahrhundert als Beispiel”, in Rainer Voßen e Ulrike Claudi (eds.), Sprache, Geschichte und Kultur in Afrika, Hamburg. Buske, 1983, pags. 131.161.
              4.    As traduções como fontes históricas;

Texto algo redigido a partir de TRANSLATIONS AS SOURCES FOR AFRICAN HISTORY.

              5.    A obra de António de Oliveira de Cadornega: uma fonte extraordinária para a História e Etnografia de Angola no século XVII.

Versão revista do artigo “António de Oliveira de Cadornegas Geschichtswerk über Angola : Eine aussergewöhnliche Quelle des 17. Jahrhunders”, Paideuma, No. 42, 1996, pages 85-104. Stuttgart e baseada parcialmente também em ANTÓNIO DE OLIVEIRA DE CADORNEGA E A SUA “HISTÓRIA GERAL DAS GUERRAS ANGOLANAS”, UM HISTORIADOR E ÉTNOGRAFO DO SEC. XVII, NATURAL DE VILA VIÇOSA.

         Parte II: Para a História do Século XVI;
              6.    O Estado do Ndongo no século XVII;

É uma versão reduzida e revista do artigo "Unbekanntes Angola: Der Staat Ndongo im 16. Jahrhundert", in: Anthropos 72, 1977, Pags. 749-805.

              7.    A política económica e de colonização portuguesa em Angola de 1570 a 1607;

Versão redigida do artigo DIE PORTUGIESISCHE BESIEDLUNGS- UND WIRTSCHAFTSPOLITIK IN ANGOLA 1570-1607, publicado em edição inglesa com o titulo ANGOLA UNDER PORTUGUESE RULE : HOW IT ALL BEGAN. SETTLEMENT AND ECONOMIC POLICY 1570 – 1607

         Parte III: Aspectos da História do século XVII;
              8.    O fim do Ndongo como Estado independente (1617-1630);

Texto publicado na origem com o título DAS ENDE DES UNABHÄNGIGEN STAATES NDONGO (ANGOLA). NEUE CHRONOLOGIE UND REINTERPRETATION (1616 - 1630). Foi publicada uma infeliz versão truncada em português com o título ANGOLA NAS GARRAS DO TRÁFEGO DE ESCRAVOS: AS GUERRAS DO NDONGO.

              9.    O contrato de vassalagem afro-português em Angola no século XVII;

O original foi "Der portugiesische-afrikanische Vasallenvertrag in Angola im 17. Jahrhundert", in: Paideuma 25, 1979, S. 195-223. Há uma tradução inglesa com o título THE ANGOLAN VASSAL TRIBUTES OF THE 17 TH CENTURY.

           10. Os tributos angolanos no século XVII;

O original intitula-se THE ANGOLAN VASSAL TRIBUTES OF THE 17 TH CENTURY.

              11. O comércio de “peças” em Angola. Sobre a escravatura nos primeiros cem anos da ocupação portuguesa;

Versão trabalhada de TRAITE DE 'PIECES' EN ANGOLA: CE QUI N'EST PAS DIT DANS NOS SOURCES. DE L'ESCLAVAGE DURANT LE PREMIER SIECLE DE L'OCCUPATION PORTUGAISE

              12. Asilo ameaçado: Oportunidades e consequências da fuga de escravos em Angola no século XVII;

O texto original foi “Gefährdetes Asyl: Chancen und Konsequenzen der Flucht angolanischer Sklaven im 17. Jahrhundert", in: Paideuma 39, 1993, S. 321-341.  Publicado em tradução portuguesa em Luanda com o título ASILO AMEAÇADO: OPORTUNIDADES E CONSEQUÊNCIAS DA FUGA DE ESCRAVOS EM ANGOLA NO SÉCULO XVII. A redacção final publicada no livro é de Marina Santos. Foi publicada uma versão francesa: "Asiles toujours menacés: fuites d'esclaves en Angola au XVIIe siècle", in: Katia de Queirós Mattoso (Hrsg.): Esclavages. Histoire d'une diversité de l'océan Indien à l'Atlantique sud. Paris und Montreal: L'Harmattan, 1997, S. 101-122. 
              13. Ngonga a Mwiza: Um sobado angolano sob domínio português no século XVII;

Originalmente publicado como NGONGA A MWIZA: UM SOBADO ANGOLANO SOB DOMÍNIO PORTUGUÊS NO SÉCULO XVII . No livro com pequenas alterações.
          Parte IV: Um pouco de História da Cultura
          14.A cultura material dos Mbundu segundo as fontes dos séculos XVI e XVI.

Versão revista do artigo A CULTURA  DOS AMBUNDOS DE ANGOLA SEGUNDO AS FONTES DOS SÉCULOS XVI E XVII

Textos que possuo de Beatrix Heintze
ARTIGOS

1 - Beatrix Heintze
The Angolan vassal tributes of the 17 th century   In: Revista de História Económica e Social. - nº 6 (1980), p. 57-78
 
2 - Beatrix Heintze
Angola nas garras do tráfego de escravos : as guerras do Ndongo In: Revista internacional de estudos africanos. - N.º 1 (Janeiro-Junho 1984), pp. 11 – 61
 
3 - Beatrix Heintze
Asilo ameaçado: oportunidades e consequências da fuga de escravos em Angola no século XVII  tradução e redacção de Maria da Conceição Neto. - Luanda : Ministério da Cultura, Museu Nacional da Escravatura, 1995. - p. 21
 
4 - Beatrix Heintze
Ethnographic appropriations : German exploration and fieldwork in West-Central África. - Contém bibliografia.
In: History in África : a Journal of Method. - Vol. 26 (1999), p. 69-128 – Separata n.º 247 do IICT, LIsboa, 2002 972-672-899-1
 
5 - Beatrix Heintze
Historical notes on the Kisama of Angola In: The Journal of Áfrican History / Cambridge University Press. - T. 13, fasc. nº 3 (1972), p. 407-418
 
6 - Beatrix Heintze
Luso-african feudalism in Angola ? - Coimbra : S.N., 1980. - 20p. . - Revista portuguesa de História, tomo 18 , 1980,- p. 111-131
 
7 - Beatrix Heintze
Ngonga a Mwiza : um sobado angolano sob domínio português no século XVII  Tradução da introdução por Maria da Conceição Pires, controlo da transcrição do texto por Maria Adélia de Carvalho Mendes. In: Revista Internacional de Estudos Áfricanos / dir. Jill R. Dias. - Lisboa : Instituto de Investigação Científica Tropical. - Nº 8-9 (1988), p. 221-233
 
8 - Beatrix Heintze
Traite de "Pieces" em Angola : Ce qui n'est pas dit dans nos Sources / Beatrix Heintze. - Nantes : S.N., 1985. - p. 147-172. - Actas du Colloque International su la Traite des Noires, tome I
 
9 - Beatrix Heintze
Translations as sources for african history, in History in Africa, 11 (1984), 131-161
 
10 - Beatrix Heintze
“L’arrivée des Portugais a-t-elle sonné le glas du Royaume de Ndongo ? La marge de manœuvre du Ngola 1575 – 1671 », in Studia, 67/57, 2000 117-146
 
11 - Beatrix Heintze
« Angola under portuguese rule : How it all began. Settlement and economic policy 1570 – 1607”, in Ana Paula Tavares und Catarina Madeira Santos (Org.): Africae Monumenta – A apropriação da escrita pelos africanos, Lisboa , IICT 2002, pags. 535-561
 
12 - Beatrix Heintze
Written Sources and African History: A Plea for the Primary Source. The Angola Manuscript Collection of Fernao de Sousa, in History in Africa, Vol. 9, 1982 (1982), pp. 77-103
 
13 - Beatrix Heintze, 1939 –
Contra as teorias simplificadoras: o canibalismo na antropologia e história de Angola,  in
Portugal não é um País pequeno: contar o império na pós-colonialidade, organização de Manuela Ribeiro Sanches, Lisboa, 2006, pags. 215-228.
 
14 - Beatrix Heintze, 1939 –
Vestígios de um passado remoto: Fernão de Sousa em Vila Viçosa, in CALLIPOLE, n.º 1, 1993, pags. 35-47
 
15 - Beatrix Heintze, 1939 –
Wer war der “König von Banguela“? In memoriam António Jorge Dias, Lisboa, Instituto de Alta Cultura, 1974, 3 vols. - No 1.º vol., pags. 185-202
 
16 - Beatrix Heintze, 1939 –
Oral Tradition: Primary Source Only for The Collector? in History in Africa, Vol. 3, 1976, pp. 47-56
 
17 - Beatrix Heintze, 1939 –
References in the Humanities: Strategies of Being Open. Being Obscure and Being Misleading
in History in Africa, Vol. 27, 2000, pp. 437-442
 
18 - Beatrix Heintze, 1939 –
Mein langer Weg nach “Angola” in Paideuma, vol. 53 (2007) pp. 7-26
 
19 - Beatrix Heintze, 1939 –
The extraordinary journey of the Jaga through the centuries: critical approaches to precolonial Angolan historical sources*
in History in Africa, Vol. 34, 2007, pp. 67-101
  
20 - Beatrix Heintze, 1939 –
A lusofonia no Interior da África Central na Era pré-colonial. Um contributo para a sua História e Compreensão na Actualidade,
in Cadernos de Estudos Africanos, 7/8 Julho de 2004/Julho de 2005: 179-207
 
21 - Beatrix Heintze, 1939 –
Die portugiesische Besiedlungs- und Wirtschaftspolitik in Angola  1570-1607. In Aufsätze zur portugiesischen Kulturgeschichte 17 (1981-1982): 200-219
 
22 - Beatrix Heintze, 1939 –
"Das Ende des unabhängigen Staates Ndongo (Angola): Neue Chronologie und Interpretation (1617-1630)“, jn Paideuma. 27, 1981, pages 197-273. Stuttgart
 
23 - Beatrix Heintze, 1939 –
António de Oliveira de Cadornega e a sua “História Geral das Guerras Angolanas”, Um Historiador e Étnografo do Sec. XVII, natural de Vila Viçosa, in Callipole, n.º 3/4, 1995/1996, pags. 75-86, tradução e adaptação do Prof. Doutor Olívio Caeiro.
 
24 - Beatrix Heintze, 1939 –
Colonial ambitions as blind passengers : the case of german explorers in West-Central África : 1873-1886
In: A África e a instalação do sistema colonial - c.1885- c.1930 : III reunião international de história de África : actas. - dir. Maria Emilia Madeira Santos. - Lisboa : Centro de estudos de História e cartografia antiga, 2001. - p. 19- 30
 
25 - Beatrix Heintze, 1939 –
Representações visuais como fontes historicas e etnograficas sobre Angola
in: Construindo o passado angolano : as fontes e a sua interpretação - actas do II seminário internacional sobre a história de Angola / pref. Jill R. Dias, Rosa Cruz e Silva. - [S.l.] : Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2000. - p. 187-236
 
26 - Beatrix Heintze, 1939 –
In pursuit of a chameleon : early ethnographic photography from Angola in context in: History in Africa 17 (1990), pags. 131-156
 
27 - Beatrix Heintze, 1939 –
A cultura  dos Ambundos de Angola segundo as fontes dos séculos XVI e XVII
in:  Revista internacional de estudos africanos. - ISSN 0871-2344, nº 10/11 (1989), p. 15-63, il.
 
28 - Beatrix Heintze, 1939 –
Written Sources, Oral Traditions and Oral Traditions as written Sources - The Steep and Thorny Way to Early Angolan History in Paideuma, vol. 33 (1987) pp. 263 - 287
  
29 - Beatrix Heintze
Deutsche Forschungsreisende im westlichen Zentralafrika des 19. Jahrhunderts
  
LIVROS
 
Beatrix Heintze, Studien zur Geschichte Angolas im 16. Und 17. Jahrhundert, Ein Lesebuch, Köln, Rüdiger Köppe, 1996.
 
Beatrix Heintze, Pioneiros Africanos. Caravanas de carregadores na África Centro-Ocidental (1850-1890), Editorial Caminho, Lisboa, 1.ª edição, 2005, Colecção Estudos Africanos, Tradução de Marina Santos, ISBN 972-21-1670-3
 
Fontes para a história de Angola do século XVII, I / Beatrix Heintze (Ed.), colab. Maria Adélia de Carvalho Mendes. –
Stuttgart : Franz Steiner Verlag Wiesbaden, 1985. - 419 p. : mapas, quadros. - Studien zur Kulturkunde. 75). - Memórias, relações e outros manuscritos da colectânea documental de Fernão de Sousa
 
Fontes para a história de Angola do século XVII, II / Beatrix Heintze (Ed.), colab. Maria Adélia de Carvalho Mendes. –
Stuttgart : Franz Steiner Verlag Wiesbaden, 1988. - 430 p. : fotos, quadros. - Studien zur Kulturkunde. 88). - Cartas e documentos oficiais da colectânea documental de Fernão de Sousa
 
Beatrix Heintze, Angola nos séculos XVI e XVII. Estudos sobre Fontes, Métodos e História, Luanda: Kilombelombe 2007, 633 pp.
Beatrix Heintze, EXPLORADORES  ALEMÃES  EM  ANGOLA (1611-1954),  Apropriações etnográficas entre comércio de escravos, colonialismo e ciência, Tradução de Rita Coelho-Brandes e Marina Santos, 479 p., 14 fotografias, 2 mapas; publicação provisória online 2010 esperando a publicação do livro em Angola
Lista completa das publicações de Beatrix Heintze, aqui                                      
obras online:  clicar aqui


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Os Anos da guerra, 1961-1975: os portugueses em Africa : crónica, ficção e história

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Os nossos irmãos Bailundos por Alfredo Baeta Garcia





Um pormenor relevante mas quase ignorado da guerra em Angola
 
 
Uma das vitimas esquecidas ou ignoradas da guerra em Angola, antes e logo após a independência, como se nunca tivesse existido, foram os largos milhares de trabalhadores contratados provenientes do planalto central, conhecidos por bailundos,  qualquer que fosse a sua origem do centro e sul de Angola. Eles constituíam, então, a totalidade da mão de obra não especializada das fazendas de café a norte do Cuanza e foram abandonados pela força das circunstâncias, por aqueles que já não tinham qualquer capacidade para os proteger, os seus patrões. Destes, os que lá ficaram até pouco antes da independência, pode dizer-se que estavam na mesma situação, menos na possibilidade de se irem escapando de avião para Luanda e daí para Lisboa.


Os Bailundos não podiam fazê-lo, apesar de estarem mais perto das suas terras de origem, pois todas as vias de comunicação que levavam para Sul até ao Cuanza ficaram cortadas a partir dos primeiros meses de 1975.
Os europeus e alguns seus acompanhantes que teimaram em ficar, tiveram mais tarde de fugir rumo a Kinshasa, única saída com os caminhos ainda abertos, mas pouco seguros, e que também não servia os Bailundos por os afastar mais das suas origens, correndo os mesmos riscos dos caminhos do Sul. Assim, o último destes grupos que saiu do Quitexe com aquele destino só o conseguiu alcançar fazendo a pé as últimas etapas, pois as viaturas em que seguiam foram ficando pelo caminho avariadas, nenhuma chegando ao seu destino.

Os pobres Bailundos, agora ex-contratados, lá ficaram entregues à sua sorte, não se sabendo exactamente como terminaram. Alguns, que tentaram fazer a viagem de regresso a pé, foram quase sempre apanhados pelos Movimentos que cedo passaram a guerrear-se, transformando-os, depois, em seus carregadores, o menos que lhes podia acontecer.

Se bem que todos tenham sofrido os horrores da guerra, estes segregados no seu país, por força das diferenças étnicas, vivendo, por essa razão num ambiente que lhes era hostil, agravado por nunca terem apoiado qualquer um dos dois movimentos implantados na região a que eram completamente estranhos e, ainda menos, se terem envolvido nas lutas sangrentas que travaram entre si, estes sofreram por razões que lhe eram alheias.

Para compreender esta situação é necessário ter em consideração a base de formação dos Movimentos de Libertação que funcionavam cada um à volta de determinada etnia, não sendo por isso, nenhum deles de âmbito nacional, nem podiam sê-lo, dada a constituição fragmentada da população, como se viu depois.

Por esse seu comportamento, já nos momentos de aflição de 1961, quando era fácil trair-nos e nunca o fizeram, foram, também eles, vítimas fáceis da ira assassina da UPA. Por isso, durante os dois primeiros anos, que foram os mais difíceis de toda a guerra, passaram a chamar-lhes no único jornal que então se publicava no Uíge, o Jornal do Congo, “Os nossos irmãos Bailundos”.

Os Brancos e os Bailundos, como não faziam parte de grupos étnicos autócnes do local onde vivíam, foram irresponsavelmente esquecidos, abandonados, enxovalhados e espoliados, vítimas da descolonização. Só que, dos Bailundos, parece que intencionalmente encalhados nos recessos escusos da indiferença, nada reza a seu respeito a história já feita. É pena, pois ficará para sempre desconhecido um dos factores mais importante dessa guerra, especialmente no Norte de Angola, região onde os seus efeitos foram mais perversos. Pode dizer-se, sem exagerar, que os Bailundos representaram numa altura critica um papel decisivo, a par de outros factores, na estabilização que se conseguiu nos anos seguintes a 61, o que representa uma injustiça e adulteração da nossa história desse período em Angola.

Como os Movimentos de Libertação, pela voz dos seus responsáveis chamavam e ainda chamam traidores e vendidos uns aos outros, é possível que os Bailundos não escapem a uma qualquer categoria neste tipo de classificações.

Este período da história de Angola quando for  estudado com isenção , já liberto pelo tempo das paixões sectárias e do poder, estará em condições de dizer os que se venderam, a quem e como foram pagos. Hoje já é possível adiantar alguns factos incontroversos desse mercado.

Actualmente são muito poucas as testemunhas válidas que passaram efectivamente a guerra nas zonas do café no Norte de Angola, que possam estar em condições de avaliar este facto na sua real dimensão. Os outros, quase todos já emigraram para onde não se pode voltar a ser retornado, deixando um vazio na nossa memória colectiva.


publicado por Quimbanze

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Caderno de notas de um Mais Velho (13) > Emigração para as colónias e a "Carta de Chamada" . Por que Salazar não deixou "europeizar" em força as colónias?





Caderno de notas de um Mais Velho (13) > Emigração para as colónias e a "Carta de Chamada" . Por que Salazar não deixou "europeizar" em força as colónias?


A Carta de Chamada  consistia em um termo de responsabilidade assinado por um comerciante ou um funcionário público residente na colónia, a responsabilizar-se por um candidato à emigração, o que fazia que muita gente que,  não tendo familiares ou amigos para assinar essa carta, desistia e ia para a América ou Brasil onde tinha parentes que o mandavam ir.

Escreve-se tanto sobre Salazar, muitas coisas não passam mesmo de deduções de quem escreve, pois o homem nunca se abriu muito, que podemos perguntar a nós mesmos, e falava-se efectivamente, porque Salazar viu tanta gente ir para o Brasil e EUA, nos anos 50, e não encaminhou essa gente para Angola, Guiné e Moçambique.

Exceptuando os militares ou funcionários em comissão de serviço, ou deportados para o Tarrafal, Salazar só deixava ir par as colónias, colonos, selecionados, ou emigrantes com carta de chamada como se fossem para o estrangeiro. Isto nos anos 50 do outro século, no imediatamente antes da guerra do ultramar, ou seja, já estavam em marcha as independências francófonas e anglófonas, e Agostinho Neto, Amílcar, Luandino Vieira, etc. já tinham ideias formadas.

Havia várias dificuldades para se emigrar para as colónias portuguesas, até que apareceu a guerra do ultramar em 1961, acabando a maioria das complicações. A partir dessa data já não era preciso ter um familiar em Angola para o mandar ir. Não recorrendo a documentos, falando apenas de casos popularmente conhecidos ou propalados, houve casos como o Zé do Telhado [, 1818-1875,] que foi para Angola como degredado [em 1861] e, recorro a este exemplo, porque foi um processo usado pela Justiça durante séculos para punir criminosos e simultaneamente ajudar à colonização por portugueses.

Ainda durante a chamada 1.ª República, foram pensados uns colonatos em Angola para serem enviados colonos brancos para esses lugares, portanto era uma maneira de se emigrar com a família para as colónias por convite, ou aliciamento, ou como quisermos interpretar esse processo. Salazar também usou esse processo do colonato, mas no caso de Angola não foi muito numerosa essa emigração, como às vezes se ouve em certos escritos, e no caso da Guiné, penso que nem existiu essa prática. Em Angola havia o colonato da Cela no planalto central e Capelongo junto do Cunene, os que verdadeiramente chegavam a formar uma pequena vila rural portuguesa.

Quem foi muito apologista da emigração branca para Angola, de uma maneira maciça, foi o célebre anti-salazarista General Norton de Matos [, 1867-1955], muito conhecedor de Angola devido aos anos passados lá como governador e outras atividades políticas dedicadas ao ultramar. Sobre Norton de Matos, fundador da cidade de Nova Lisboa (Huambo),  em Angola, diziam muitos africanistas angolanos que tinha ele uma visão de desenvolvimento para as colónias, que,  a ser seguida a política dele, transformava Portugal e as suas colónias numa grande potência económica. Alguns mais entusiastas por Angola, até imaginavam uma capital portuguesa em Nova Lisboa. Mas, diziam os africanistas e antisalazaristas, que o Salazar atrofiava as ideias dos portugueses empreendedores, usando processos e burocracias atrasadas.

E aí, aparece a burocracia da CARTA DE CHAMADA, da qual Salazar não abria mão. Acompanhada de outras burocracias como vacinas, registo criminal e três contos e quinhentos por cabeça, para viajar de porão. Não sei se crianças, normalmente muitas, pagavam por igual.

Para evitar a burocracia da Carta de Chamada havia uma solução, era pagar as viagens de ida e volta, com direito a receber a devolução das viagens de regresso, quando passassem seis meses ou um ano, conforme as informações sobre a adaptação à nova terra.

Também era dispensada a Carta de Chamada, a quem casasse por procuração com um residente nas colónias. Foi um meio usado com muita frequência.

Quem era a favor de uma forte ocupação branca das colónias, principalmente Angola, condenava a política de Salazar em que este se contradizia, em que ao mesmo tempo que dizia que era tudo Portugal, e ao mesmo tempo tinha que haver a tal carta de chamada.

Também se dizia que Salazar não deixava colonizar e desenvolver fortemente Angola, por medo de os brancos fazerem como os da Africa do Sul, isto é, abandonar o "pobre rectângulo".

Já se ouvia antes da guerra bocas como aquela em que Angola valia a pena, mas a Guiné e Cabo Verde era só prejuízo, e outras coisas deste género. Mas não era o Salazar que dizia isso, antes pelo contrário, o que transparecia era que nem um centímetro quadrado era para ceder.

Isto eram conversas à mesa do café, sem medo da PIDE, à vontade, em toda a Angola, menos nuns certos cafés da baixa de Luanda onde circulavam uns tantos popularíssimos inspectores da dita policia, conhecidos de todos os frequentadores habituais. Em Luanda, toda a gente se conhecia, não sei explicar como, mas era assim mesmo.

Penso que PIDE tinha instalações apenas em Luanda, no resto de Angola nunca ouvi falar, a não ser depois de 1961.

Antes de a guerra começar, já era conhecido o petróleo de Angola, os diamantes, o algodão, o café, o cobre etc, e aquilo que hoje ouvimos sobre o que as riquezas angolanas estão a fazer, desde ter mantido uma guerra de quase 30 anos, e hoje dá trabalho a milhares de chineses, brasileiros e portugueses, pergunta-se muita gente, porque Salazar não criou riqueza, desenvolveu, ocupou... com aquela riqueza toda à mão de semear.

Mas ninguém que escreve sobre Salazar tenta outra explicação para o impedimento de um grande povoamento europeu, que não fosse o medo de perder o controle e haver uma independência.

E, porque depois de tantos anos que passaram, sabendo que Salazar não fazia nada sem ser tudo bem pensado, não será de imaginar que haveria naquela cabeça certezas bem desastrosas, com as piores consequências de uma qualquer independência, havendo uma enorme ocupação europeia?

Para já, tenho a dizer que conhecendo a Guiné como conhecemos, em que a capital era numa ilha, Bolama, e cidades com direito a esse nome era Bissau e Bafatá, bem diminutas, todos consideramos que Portugal nunca fez grande colonização, nem asfalto, nem escolas, mas apenas uns postos administrativos espalhados em grandes áreas.

Se alguém pusesse em dúvida o nosso direito a considerar a Guiné, colónia portuguesa, não sabemos num caso de conflito, se não aconteceria o mesmo como Goa e depois com Timor.

Mas se a Guiné estava naquele atraso em 1963 que todos conhecem, talvez leiam pela primeira vez, mas Angola, proporcionalmente estava várias vezes mais "isenta" de qualquer colonização. Isto vi eu, porque conheço exaustivamente as duas ex-colónias. Para isso, não tive tempo de viajar para lá de Olivença, pelo que não me considero europeísta.

Para dar um exemplo dessa falta de colonização, refiro a quantidade de asfalto em Angola em 1961: havia asfalto nas principais ruas das principais cidades; mas nas estradas, viajava-se em asfalto de Luanda a Catete, aproximadamente 70Km, entre Benguela e Lobito, 20Km, um troço experimental de asfalto de 30Km, entre Lucala e Camabatela, e acabou.

O resto eram picadas e jangadas, ou seja, como exemplo ir de Lisboa a Paris, (de Luanda ao Cazombo) íamos de asfalto até Pegões, daí em frente preparávamo-nos com alimentação, roupa, combustível para semanas em tempo seco, e para meses em tempo de chuva até chegar a Paris.

Qualquer colonização europeia que se encontrasse no caminho não passava de comerciantes isolados ou chefes de posto, sem comunicação rádio, e se tivessem um jeep Willys, era um luxo.

Quando se chegava a uma capital de distrito ou a uma missão católica ou protestante, aproveitava-se para reabastecer combustíveis gerais e actualizar novidades.

Como Salazar sabia melhor que ninguém que de 1933, quando fica com as rédeas do poder na mão, até 1961 não tinha ocupado nem desenvolvido as colónias (Uns anos antes de Salazar, Lisboa não acendia as luzes em Lisboa por falta de dinheiro para o carvão que vinha da Inglatera). Salazar sabia também que dando muita visibilidade às riquezas angolanas ficava sem "passada" para acompanhar os ventos da história, que era mais tufões do que vento.

Ninguém tinha o mais pequeno respeito pela "nossa missão colonizadora", e desde os tripulantes de barcos nórdicos até aos americanos que aportavam em Luanda a carregar café, algodão, etc, dia e noite os guindastes em movimento, achavam escandaloso, ridículo, e com uns brandys no bucho perguntavam-nos na cara se não tínhamos vergonha de ser tão pequenos e pobres, e explorar aquela terra tão grande e rica.

Hoje vemos os americanos a gozar com a compra dos submarinos pelo tal de Portas e vemos o que se passa hoje com os nossos europeístas a serem gozados em Berlim e Bruxelas por causa dos orçamentos, porque tal como antes, hoje também queremos dar passadas maiores que as nossas pernas, e todos acham que é um descaramento querermos ser do clube dos grandes.

Podemos hoje conjecturar que as dificuldades portuguesas de há 50 anos eram historicamente das mais complicadas dos nossos 800 anos, (os 800 anos foram lembrados em Berlim, recentemente à Frau Merkel) e que Salazar usou de muitas manhas para atingir os fins.

E podemos conjecturar que,  graças à Carta de Chamada, provavelmente no 25 de Abril houve um número inferior a um milhão de portugueses retornados. O que seria se não fosse essa Carta que Salazar cuidadosamente exigia?

Será que Salazar não previa um fim de império? É que os estudiosos portugueses falam sempre do que Salazar nos obrigava a enfrentar: emigração, manter as colónias, manter uma agricultura arcaica e uma pesca controlada pelo Tenreiro, uma indústria insignificante, etc. e uns direitos sociais miseráveis, mas esses estudiosos já estão a tempo de escrever que há muitas dúvidas hoje, qual o perigo de darmos passadas maiores que as nossas pernas.

E esses estudiosos de Salazar já estão a tempo de escrever que a ditadura ganhava vida com as dificuldades que lhe eram criadas com casos como as revoltas nas colónias, o assalto ao Santa Maria por Henrique Galvão e, até quando Humberto Delgado foi assassinado, a ditadura aproveitou para espalhar que a oposição (os do contra, como se dizia), é que o atraiçoou e o conduziu a uma cilada.

Escreve-se sempre que estes casos "abanavam os alicerces da ditadura" mas não era essa a sensação, e hoje vemos que Salazar cai da cadeira em 1968 e apenas em 1974 se dá o "o fim do império e da ditadura".

 Não estou com isto a armar-me em salazarista, mas considero que o papel de Salazar no que toca ao assunto colonial, que ele também herda de uma maneira muito complicada, não é analisada de uma maneira isenta de preconceitos, nem os que apoiam nem os que condenam o Botas.

E, aquilo que hoje é dado como ponto assente sobre o pensamento de Salazar, que estava ultrapassado e isolado internacionalmente, é fácil de mostrar o contrário.

Termino para dizer que o homem que assinou a minha CARTA de CHAMADA para eu emigrar para Angola, foi assassinado no Norte de Angola nos massacres da UPA.

O Norte de Angola, zona cafeeira, podia considerar-se provavelmente que era a única área verdadeiramente colonizada com missões, escolas e uma economia cafeeira importante.

Um abraço e desejo boa disposição aos editores para continuarem com ânimo

Anº Rosinha

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A diáspora feminina: degredadas para Angola no século XIX (1865-1898) (1865-1898)

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