quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

ANGOLA in Converss de Café por Carlos Mário Alexandrino da Silva

 
Antes de responder objectivamente, permitam que decalque a seguinte definição de História, da autoria do Dr. John Henrik Clarke:

" A História é um relógio que as pessoas usam para saber o seu registo de tempo - político e cultural. Quem são e o que são. Acima de tudo, a história indica às pessoas para onde elas têm de ir e o que devem ser. Existe entre as pessoas e a história uma relação idêntica à que se verifica entre mãe e filho."

Será que alguém em Angola já ponderou, com conhecimento de causa, a história dos seus povos ? Tudo indica que não...A meu ver, Angola é e enquanto tiver tal topônimo sê-lo-à ainda por muitas dezenas de anos, talvez mesmo ao longo de todo este século, uma ficção...geopolítica, uma criação de conveniência, improvisada, artificiosa, de raiz ambundo, adaptada às pressas pelo ex- (será mesmo ex?- SERÁ QUE SAÍU...DEVERAS? MESMO... MESMO?!!!)... colonizador para denominar uma área do ecúmeno que, ao tempo da Conferência de Berlim de 1884/85, nem sequer estava delimitada topograficamente. Como escreveu um dos mais renomados historiadores angolanos da actualidade, o Dr.Carlos Pacheco, "os políticos, em geral, falam muito da guerra em Angola, todavia escapa-lhes sempre o essencial: escapa-lhes a história que, mesmo sem a conhecerem em profundidade, os incomoda e, por isso, preferem ignorá-la" (in OPINIÃO, no EXPRESSO, 31/07/99, sob o título "MPLA e UNITA: não se entendem, porquê?"). Noutro passo do seu importante artigo, Pacheco destaca: "O conflito vem de longe, é secular e radica na própria geografia social, étnica e cultural de Angola."

Com a devida vénia ao autor e ao EXPRESSO, ousamos transcrever desse inédito escrito a seguinte passagem que, em poucas palavras, explicita tudo sobre a etiologia do trágico fenômeno da guerra, já endêmica, a que se vem assistindo naquele pedaço significativo (1.246.700 km2 se... Cabinda fosse realmente Angola mas não o é senão por vil traição dos revolucionários da JSN e pseudo-socialistas portugueses ao Tratado de Simulambuco!) da primeva placa tectônica, a que geólogos e geógrafos chamam de Gonduana, fragmento do Pangéa, geratriz de vários continentes e subcontinentes (Austrália, Península Hindustânica, Antártida, América do Sul):

"No século passado, e mesmo antes, foram permanentes os conflitos, de natureza militar, entre o litoral e o que se convencionou chamar "os povos do vasto sertão" salienta o referido pesquisador, que acrescenta: " A Coroa portuguesa em vão tentou, até à Conferência de Berlim, em 1885, subjugar e avassalar todos esses povos e só alguns, próximos da raia litorânea, se submeteram.". E como não poucas vezes a HISTÓRIA fatìdicamente se repete, assistimos no último quarto de século ao que adiante reproduzo, escrito por Carlos Pacheco, onde relata, em ordem a esse passado, uma situação também vigente em nossos dias, depois da proclamada... "libertação", a qual, na verdade, não foi derrota de ninguém como se propala, com ufania despida de veracidade, pois o que houve, tanto em Angola como em Moçambique, foi uma intencional entrega espúria e desonesta de testemunho em bandeja dourada, do "desistente" ao menos apto dos três opositores, porque já desmantelado e dividido - o MPLA - mas a quem foi passada a programação elaborada pela camarilha criptocomunista do MFA e pelos patrões do Kremlin de Moscovo, ao tempo da URSS; isto quando era indiscutível já uma vitória real, total do ponto de vista militar mas também psicológica e socioeconómica, indesmentível, do colonizador (vidé "SALAZAR, O ULTRAMAR e o 25 de ABRIL", do general Silvino Silvério Marques, editora NOVA ARRANCADA, Abril 2001, Largo do Carmo, Lisboa, Portugal, páginas 92 e 93):
"Nessas acções militares contra o interior - prossegue o precitado historiador -, houve um produto da sociedade híbrida que se plasmou no litoral, resultante do contacto de europeus e indígenas e cujas peculiaridades, do ponto de vista etnocultural, se podem observar ainda hoje em muitos comportamentos, hábitos e atitudes mentais. Esse segmento, constituído por filhos do país, angolanos, em suma - brancos, negros e mulatos -, desde sempre se polarizou no papel de classe intermédia no contacto dos portugueses com o sertão. Foram eles que, praticamente, em regime de monopólio exploraram os caminhos de entrada e saída do sertão, e concentraram nas suas mãos, pelo menos até meados do século XIX, uma parcela significativa do comércio atlântico com o interior, sendo famosas algumas empresas suas cujo tráfico se fazia privilegiadamente com o Brasil, Montevidéu, Argentina e América Setentrional.".

Repare, prezado internauta que está acompanhando esta conversa no Café Luso, no trecho a seguir focalizado:
"Mas esses crioulos não controlavam unicamente as redes de comércio. A sua influência e poder nos escalões superiores da administração pública era indiscutível; como o era também nas forças militares de 1ª e 2ª linhas, onde o seu ascendente numérico foi uma constante até ao 4º decênio de oitocentos. Eram eles que, maioritariamente, governavam os presídios do interior. Porém, os abusos de autoridade e extorsões praticados contra as populações foram tantos, que um ou outro governador mais consciencioso não deixou de os denunciar para Lisboa."

Em particular é bastante elucidativa a passagem seguinte. Nela, o preclaro pesquisador angolano, que foi militante do MPLA... antigo, observa que, na falta de tropa européia "foram esses crioulos - no comando sobretudo dos corpos de infantaria - que levaram a guerra ao interior contra os "gentios", com vista a pacificá-los." E, noutro passo, o autor sublinha que tanto a UNITA como a FNLA, entre outros agrupamentos menos expressivos, "nasceram ou tiveram suporte sociológico e cultural em espaços situados fora da influência tradicional da colonização portuguesa". Um atestado da autenticidade, da "Africanidade", este, que diríamos, se aceitável face ao paradoxo de sua origem etimológica não autóctone porém, isto sim, alienígena, a favor dos dois rivais daquele que é, desde 11 de Novembro de 1975, traído que foi por Portugal, ou melhor, por inescrupulosos militares e políticos socialistas (ou antes... sucialistas) portugueses, o Acordo de Alvor, o DONO DO PODER... e que era o derrotado, o esfrangalhado já muito antes do 25 de Abril de 1974: o MPLA... versão 2 ( a do Neto/Lara...). Um privilegiado "clone"..."quod erat demonstrandum" que até aos nossos dias continua sendo apadrinhado por uma estranha "troika" visivelmente imbuída de paternalismo cìnicamente... neocolonialista. Mas mais significativa ainda, é a afirmação de que o MPLA constitui, na verdade, o corolário cultural resultante da prolongada inserção dos portugueses "na geografia litorânea de Angola", na medida em que, tanto os seus fundadores (todos já desaparecidos e de que não fazia parte o poeta-médico militante do Partido Comunista Português Agostinho Neto... que entrou tardiamente pela porta dos fundos, convidado de conveniência por ter a epiderme mais tisnada pela pigmentação, o que poderia conferir ao incipiente movimento, que não a estava conseguindo em 61/62, maior aceitação entre as massas de pura etnia banto tanto dos muceques lunadenses como de Bengulea, Lobito e demais regiões a sul do rio Kuanza , do norte Bakongo e do Leste, já não falando em Cabinda majoritariamente indiferente até hoje) como os dirigentes civis e militares mais destacados, transportam consigo a chancela inapagável da colonização "quais filhos dilectos da lusitanidade"... Ou seja: clones do colonizador!!!. Pacheco, corajosa e honestamente, ressalta: "Vezes sem conta, ouvi figuras da "nomenklatura" do MPLA citar os adversários como gentios, dizendo arrogantemente: "NÃO TÊM ALTERNATIVA; QUER QUEIRAM QUER NÃO ESTÃO CONDENADOS A SER GOVERNADOS POR NÓS." ...

Silvino Silvério Marques na obra já citada, a páginas 93, escreve:
"É talvez, a mesma característica de guerra civil (e não a de traição) que explica que, em fins de 1973, num gabinete do Ministério do Ultramar, onde se encontravam três Inspectores Superiores do Ultramar que, depois de 1961, haviam ocupado altos cargos governativos em Angola, e um jornalista de Angola, todos felizmente vivos, tivéssemos, pessoalmente, sido solicitados por um delegado do MPLA, vindo do estrangeiro, e que a todos contou a situação catastrófica em que o MPLA se encontrava, para o conduzirmos junto dos responsáveis militares portugueses a fim de lhes propor, em nome do MPLA, a junção do que restava das forças deste movimento às nossas Forças Armadas. Desejavam que, em conjunto, se combatesse o inimigo comum... Tratava-se de um delegado que estava em contacto com um elemento da Polícia Internacional que era, segundo ele, a pessoa que melhor conhecia o MPLA por dentro... Infelizmente o livro do Gen. Spínola e os acontecimentos posteriores obstaram ao seguimento do assunto.(1)"
(1) Cf. J. da Luz Cunha, Kaúlza de Arriaga, Bethencourt Rodrigues e S. Silvério Marques, ÁFRICA.A VITÓRIA TRAÍDA, editora Intervenção, Lisboa, 1977, pág. 255.
Para bom entendedor... Afinal, quem é que estava traindo... os "angolanos"? A UNITA?! A FNLA?!. E ali mais pode ser lido a respeito dessas tentativas de capitulação negociada a que Iko Carreira não ficou alheio, pelo contrário... Que pena o Daniel Chipenda ter falecido, já resignado, sem deixar "testamento político"e Américo Boavida, estranhamente morto (e não pelos "tugas"...) na Frente Leste, não poder ressuscitar como Cristo para contar o muito que sabia...

Questionam-me se valeu a pena a... "independência".!!! Boa piada! Mas...mas... "independência" de quem? Dos povos daqueles quase retângulos geográficos, o pequenino, Cabinda, dos cabindas e iombés, e o grande, a que chamam Angola, que vai do rio Zaire ou Congo até ao rio Kunene e faixa do Caprivi e do litoral Atlántico à divisa Leste com a Zâmbia e a R.D. do Congo? Não de nenhum desses coitados, enganados, espoliados, violentados, aterrorizados por bombardeamentos aéreos da moderna força áerea angolana e dos lançadores múltiplos de projecteis de fragmentação sistemática que matam e mutilam , não desses deslocados em número de milhões dentro e para fora do território, que sofrem privações sem fim, que passam fome, que estão cheios de moléstias tropicais que o colonialista há muito havia erradicado e agora padecem de uma novidade mortífera - a SIDA que já atinge 2 milhões de almas entre 12 milhões que, sem censo confiável, dizem ser a provável popukação das ... "angolas" !!! Posto isto, acham que valeu a pena essa falsa ilusão de "independência", face à situação calamitosa a que estamos assistindo num estado de criação "fantoche" e denominação de fantasia da inspiração do ex-... colonizador, e cujo supremo magistrado, de "jus solis" ao que parece são-tomense (sendo ele, portanto, se essa acusação for vera,um "angolar" e não um "angolano"!!!... tal como o era Hugo Azancout de Meneses, outro são-tomense, que, ao contrário do judeu russo que tem agora o monopólio do comércio internacional dos diamantes angolanos, não pôde ser aceite !!!) é hoje, apesar de, nos idos de 60, ter sido um paupérrimo jovem de família humilde, impreparado, residente num bidonville, num muceque,sem dotes de inteligência privilegiados nem diplomas de Doutorado feito por ele mesmo que o contemplem com um elevado Q.I. o homem mais rico do continente dito "africano". Essa denominação África é aberrante para nós, porque ela também, criação colonialista, de inspiração romana, do latim afirika ou afirigah, pois pêga do latim foi atribuída à nova província criada na actual Tunísia após a destruição de Cartago, e mais tarde pacificamente alargada pelos europeus a todo o continente em tempos recentes e ingenuamente aceite pelos resignados colonizados). Sim, Angola é uma colônia de exploração, ou melhor um grande latifúndio que pertence há 26 anos a um partideco outrora em processo necrótico cujo cacique enfileira hoje entre os plutocratas mais abonados do Orbe sem ter herdado nada de algum Cresus ou beneficiado de um vencimento que a tanto consinta ! Como foi isso? Pois, pois, a troika que pesquise e nos dê a resposta mais convincente que puder bolar... Todavia, parece que a capacidade de aforro do personagem é tão espantosa que pôde adquirir por um preço fabuloso a maior propriedade rural murada , com 700 hectares, existente em Portugal, segundo o jornal O DIABO, vendida não pelo Duque de Bragança, como referiu o autor da reportagem daquele periódico lisboeta, mas pelo Duque de Cadaval. Por seu turno, além de propriedades urbanas que possui em Portugal, nos Estados Unidos, na França e no Brasil, ao que consta, a sua actual esposa teria adquirido mais uma luxuosa mansão em região de lazer sem paralelo... perante a indioferença dos políticos do seu partido e da Assembléia Nacional "angolana"...

Esse enorme espaço geopolítico a que chamam ANGOLA (Mobutu e alguns mais não acolheram o baptismo dado pelo ex-colonizador e rebaptizaram a denominação do estado nacional - Zaire, Zâmbia, Zimbabué, Namíbia, Burkina Fasso, Ambazonia, Tanzânia, etc...) de conteúdo humano multicultural e multilingue, tão diversificado, onde se produz diariamente 1 milhão de barris de petróleo (e não 750 mil como anuncia o governo do MPLA...), ouro negro da mais alta octanagem e não de qualidade média como é o brasileiro ( o Brasil pouo mais produz diariamente), extraido e vendido a baixo preço, dilapidado o seu valor em mobilização de tropas, compra de engenhos de destruição e em proveito de corruptos... "NGOLANOS" (ALTAMENTE COLOCADOS) internacionalmente já identificados por suas escandalosas parcerias com certo aventureiro amigo de Putin, o tal Leviev, judeu russo, israelense, francês, brasileiro.., angolano por concessão especial de seu amigo especial JES e outros estrangeiros (entre os quais Monsieur... Afrique e Mitterrand Filho) que lavam seus ilícitos rendimentos graças a Fundações como a Eduardo Santos e seu patrocinador carioca ODEBRECHT) e de empresas transnacionais...
Esse espaço geográfico 14 vezes maior do que o minúsculo Portugal mas com uma população quase idêntica, poderia, se bem desenvolvido, alimentar fartamente 100 milhões de habitantes e ainda exportar bens essenciais (café, de que Angola já foi, na época colonial, o 4º produtor mundial - e hoje???-, produtos agropecuários, algodão, óleos vegetais, madeiras nobres, açúcar, pescado da rica corrente fria de Benguela que se estende ao longo de todo o seu litoral, por oposição à paupérima corrente quente Brasileira que, como tal, não beneficia a pesca do país-irmão, mármores namibenses idênticos aos mais valiosos que são exportados por Carrara, na Itália, e minérios ricos, inclusive diamantes, ouro, urânio, e os pelets de Kassinga que contêm, em cada tonelada, tanto ouro que só com ele os japoneses (de origem afro, conforme nos explicou o falecido presidente senegalense Dr. Leopold Sedar Senghor referindo-se aos primeiros habitantes do arquipélago do DAÍ-NIPON), realizavam, depois de feita a depuração, o valor do minério importado); esse território, tem agora, repetimos, se tanto 12 milhões de habitantes (menos do que a população da cidade brasileira de São Paulo) a maior parte dos quais, deserdada, ali campeando a morte por todos os lados, sendo, dentre esses, dois milhões e 600 mil deslocados, e cerca de 440 mil refugiados na diáspora vizinha. Nada menos do que 1 milhão são alimentados somente graças a ajudas externas, havendo centenas de milhar de mutilados ( em sua maior parte civis vitimados por minas anti-pessoal, bombardeamentos aéreos ( a UNITA não tem aviação...) e terrestres que destruíram totalmente as mais belas cidades interioranas, indústrias, hospitais, pontes, bairros residenciais, infra-estruturas em geral, actos esses de terrorismo oficial praticados por modernos aviões de bombardeamento e reconheciimento de fabricação brasileira, fornecidos pela EMBRAER e pilotados por mercenários ( até miltares portugueses continuam cooperando com as forças armadas do ... MPLA) ou por estilhaços de projécteis de mortíferos lançadores ASTROS II produzidos pela Avibras de São José dos Campos, Brasil, ou por órgãos de Staline de origem russa... E a dívida externa angolana à Rússia do "czar" kagebista Vladimir Putin, parece que já galgou os 13 bilhões de dólares só com aquisições de armamentos e engenhos diversos destinados a destruir e não a construir nada, em nome dos interesses dos privilegiados clones instalados ao que tudo indica a título vitalício no PODER, em Luanda. Usam processos autoritários, de repressaão policial e da desprezo absoluto pela liberdade de informação carcaterizando-se a sua administraçãode por práticas corruptas que nem na época colonial se registravam com tamanho descaramento e impunidade. O que está em Luanda é um Governo de modelo colonialistal... mas mal copiado dos desistentes quanto a metodologia e ritmo de trabalho produtivo, somente prevalecendo vistosos trajos europeus, inclusive os uniformes militares, as instituições, sistema democrático aparente, etc. não esquecendo certos maus costumes de rapacidade "empresarial". E não faltam, no meio da populaça de Luanda que se alimenta de manjares catados no lixo dos ricos membros do apparatchik do Partido do... TRABALHO (boa piada!!!), nesses mais de 2 milhões de famintos devoradodres de ratos numa cidade que mal comportava meio milhão de habitantes, os que abrem alas para passarem os sumptuosos Mercedes de luxo, privilégio modesto dos Donos do Poder.
Que pena!. Afinal, para quê descolonizar? Teria sido melhor fazer como Salazar - o judeu Elazar que nunca quis ser presidente da república nem enriquecer...- planejava: dar tempo ao tempo, ir autonomizando por etapas, paulatinamente, e preparando negros, brancos e pardos, para essa independência com quadros preparados, de paz e progresso, não de retrocesso, depredação e destruição de patrimonios e direitos... das pessoas.

-Salazar afirmou uma vez :"Ainda não existe uma elite em Angola capaz de administrar o pais independente. Nem na comunidade branca nem na comunidade negra". Terá sido uma afirmação profética ?
Indubitavelmente. O ex-clérigo-ditador, o judeu da família ELAZAR (que, por corruptela deu Salazar, como ele próprio disse a um embaixador de Israel a quem chamou ao seu gabinete numa altura em que Tel-Aviv estava fornecendo armas aos movimentos ditos de "libertação" das colônias portuguesas, manifestando sua decepção porque também ele era de origem judaica... como demonstrou) era um político muito astuto, super-inteligente, mas a meu ver nada simpático (conclusão que sempre extraí das duas ocasiões em que, em condições normais, tive acesso a ele, pois da terceira vez o "todo poderoso ditador" via-se que estava completamente imbecilizado, conquanto na véspera tivessem aparecido no Diário de Notícias, A Voz, Diário da Manhã, etc, transcrições de uma sua muito recente "entrevista" -impossivel!- a um jornal francês de direita, cristão, nem sequer deu mostras de entender o que lhe diziam integrantes de um grupo de deputados puxa-sacos madeirenses, açoreanos e goeses, a que me associei por curiosidade a fim de verificar se ele estava de facto se recuperando milagrosamente como diziam. A D. Maria, sua... "governanta", autorizara a que o víssemos por meia hora (depois de ter recomendado que em hipótese alguma aludíssemos à sua substituição pelo prof. Marcelo Caetano, já efectivada há meses, pois que ele não fôra - e será que entenderia se lho dissessem?!...- informado a esse respeito!!!...). Ocorreu a terceira e última visita na modesta casa que ele habitava e que tinha sido, segundo nos disseram, a do jardineiro e porteiro da assembléia nacional, portanto bem diferente da mansão do Futungo de Belas ... Quando no primeiro semestre de 1966, integrando um grupo de 7 políticos angolanos, após posse em Luanda, fomos recebidos por Salazar no Forte do Estoril, ele nos surpreendeu ao perguntar o que pensaríamos a respeito de uma independência de Angola (vidé www.portugal-linha.pt, Ecmnésia Histórica Colonial), questão a que respondeu o vice- presidente da União Nacional em Angola, deputado Dr. Fernando Sá Viana Rebelo, CONSIDERANDO-A INEVITÁVEL mas a longo prazo e após preparação de quadros e de realizadas condições que a viabilizassem sem conseqüências desastrosas como as do ex-Congo Belga... Eu e o engº Humberto Bessa Victor, que veio a ser director-geral da Aeronáutica Civil de Angola do governo de Agostinho Neto, fomos os únicos que demos respaldo áquele digno e distinto colega que, injustiçado e perseguido, ele que tanto fez pelos angolanos, faleceu em São Paulo, como modesto servidor (supervisor de perecíveis porque era médico veterinário) do Grupo Pão de Açúcar há uma dezena de anos. Salazar desenvolveu o tema, sem oposição, tecendo considerações, na verdade judiciosas como o tempo veio demonstrar, considerações essas que, por não terem sido observadas pelos tecelões abrilistas de independências coloniais "aceleradas" e entrega da soberania a aventureiros imprepoarados e inescrupulosos (leucodermes de, passe o paradoxo, de epiderme tisnada de cor ébano) deram os trágicos resultados que estão à vista... Ele parecia estar cônscio de que o sistema europeu de estado-nação, que afinal foi imposto à África, nada tinha a ver com a realidade humana, econômica, institucional, cultural e psicológica, ali existente.
Impunha-se um período preparatório, de certo modo prolongado, uma espécie de incubação assistida... Mas sem capacetes azuis que, afinal, para nada servem (como aliás também a ONU ... e a ora em extinção OUA que foi feita para cuidar de estados-membros institucional e geograficamente demarcados pelos ex-colonizadores sem nenhum respeito pelos valores tradicionais e culturais e pela verdadeira história dos povos do continente). O sistema Vestfaliano, nascido do tratado de Westphalia em 1648, deu origem pela primeira vez ao estado-nação na Europa. É coisa de data relativamente "fresca"... Os estados Africanos são, na verdade, repito, criações artificiais, improvisações precipitadas pois como Salazar bem sabia, certos estados Europeus são fruto de um crescimento lentamente processado, amadurecido ao longo de centenas de anos... A independência da ex-colônia belga do Congo devia ter servido de "amostragem" para o que poderia acontecer se houvesse em Angola e Moçambique, como ali aconteceu nos fins da década de 60, um processo precipitado de "abandono"... como infelizmente aconteceu.
Por outro lado, vejam bem: Portugal é minúsculo, mal cabem nele os 10,5 milhões de habitantes que possui, Angola tem hoje quase a mesma população e pode, como nos disse o professor de Geografia do Desenvolvimento da Universidade da Florida, Doutor Niddrie, em 1963, no Grande Hotel do Uije, em Carmona (hoje cidade do Uije), alimentar 100 milhões de habitantes (e o Brasil 800 milhões) se souberem aproveitar sua vocação natural de produtor de matérias primas essenciais e de alimentos. Podendo além disso ser um dos raros grandes celeiros do mundo!!! Por que razão há ser só para pessoas de "pele negra" se seus primitivos autóctones eram os boschimanes, que não são negros nem bantos, e sim khoi-sán, de tipo mongol [oide e pele amarelo-terrosa, sim os khoi-sán que os banto recalcaram para sul cometendo já então, há centenas de anos, impiedoso e inumano genocídio, eles que foram como os portugueses porém em escala maior e pior, invasores vindos do Leste africano?
Certa feita eu perguntei ao chefe do gabinete do governadoir-geral Cor. Rebocho Vaz, por que não tinha ido àvante o projecto do governador geral (1961/62) general da Força Aérea Venâncio Deslandes de povoar Angola com imigrantes de outras proveniências extra-africanas, como chineses da Formosa, para o que ali se deslocara o então Director do CITA, coronel ( mais tarde general) Cardoso (mas não o major Carlos Alves Cardoso, que só assumiu, para desgraça do CITA; mais tarde, em 64/65), búlgaros (para o que em 1966 se deslocara a Angola o actual primeiro ministro da Bulgária e ex-rei daquele país Simeão II, ao tempo do governador geral Silvério Marques) e ainda um plano que chegara a ser proposto de colonização do Kuamza Norte e Kuanza Sul por italianos vindos da antiga Somália italiana, e de Malanje por ex-colonos britânicos do Quênia e da Zâmbia (antiga Rodésia do Norte). O dito chefe de gabinete era o tenente-coronel de infantaria Álvaro de Moura Koch Fritz que lestamente me respondeu: "Isso seria desnacionalizante, senhor inspector provincial. Desnacionlizante!" Perplexo e insatisfeito com essa resposta, a meu ver incoerente e colonialista, INQUIRI-O: "SENHOR CORONEL, MAS SEU SOBRENOME PATERNO É ALEMÃO - KOCH FRITZ (SERÁ QUE A TRADUÇÃO SERIA MESMO "COZINHEIRO FRANCISCO?)!. Ele respondeu-me: MEU PAI ERA ALEMÃO. E então eu retorqui-lhe: O Senhor, afinal, está me dando razão. Fala alemão? Resposta pronta: NÃO, NÃO FALO. De novo o interpelei: Acha que é menos português do que os seus camaradas? Resposta: NÃO, EU SOU PORTUGUÊS. Paradoxal, não acham?

Pois os Estados Unidos, a Austrália, a Nova Zelândia, o Brasil, o Canadá, já foram "angolas" subpovoadas e subdesenvolvidas e hoje são grandes e pujantes estados-nações pluriculturais mas em parte a-raciais (sem etnocentrismos muito sensíveis) desenvolviodos e de populações em que , salvo os índios no Brasil que nele querem constituir um estado independente na região central e com reconhecimento da ONU, segundo entrevista recente publicada pelo jornal O Estado de São Paulo, de diveferentes origens geográficas, étnicas e culturais, falando todos a mesma língua por aculturação livremente aceite. A África como um todo, nos seus 30,5 milhões de km2 é um continente enorme, em grande parte potencialmente muito rico e subpovoado, onde o progresso não entra porque, com pouco mais de meia centena de estados mal formados, de que na região subsaariana apenas uns 7 ou 8 talvez possam ser viáveis, na opinião do próprio secretário geral da OUA, tanto administrativa como economicamente - é um desastre global, nela campeando a incompetência, a preguiça, a corrupção, o nepotismo e os sistemas autocráticos militarizados... Uma imensidão perdida para o mundo, enquanto no nordeste brasileiro há quem morra de fome porque não há água para irrigar culturas e a migração para as cidades do Sul produz tremendos fenômenos sóciopatológicos resultantes de inchaços urbanos. Por que não a transferência espacial nestes casos? Não há decassegues (brasileiros descendentes de nipónicos) no Japão em número superior a 200 mil? Por que motivo a África não há-de ser aberta à imigração de qualquer parte do Globo, num planeta que tende para a globalização total como única solução econômica e social e caminha mesmo na direção do governo mundial? Eu desejaria ser "de jure" cidaddão do Mundo e não de A, B. C, D, etc..

Sim, infelizmente, o que eu e alguns outros representantes de Angola ouvimos da boca do velho ex-clérigo... ditador, está batendo certo. Esse estadista, que não encontra paralelo em nenhum outro do finado século, era um estupor, sim, mas um judeu sagaz, experiente, tarimbado e foi realmente profético... Seu único erro foi não ter deixado o Poder após a Segunda Guerra Mundial da qual ele preservou o seu ingrato povo e os das colônias... (duzentos mil africano, negros, morreram na segunda guerra mundial combatendo omo soldados da França e da África do Sul e colônias de Sua Majestade Britãnica). Se houvesse deixado o Poder então, hoje teria uma estátua destacada numa praça pública de Lisboa, em vez de lhe terem decapitado a cabeça na estátua que lhe erigiram em Santa Comba Dão, onde nascera. Os seus opositores, auto-rotulados de "socialistas", "liberais" ou "sociais-democratas", quase todos eles burgueses emergentes sem nenhuma experiência administrativa nem cultura histórica ultramarina, a par de falta de conhecimento feito na vivência colonial, julgando-se "libertadores" e arautos da defsa dos direitos dos povos à autodeterminação e independência queriam ser glorificados e imortalizados nas páginas da sua História Pátria como "heróis da Democracia"e sem nenhum senso de dignidade responsável comportaram-se de forma zoila, irracional, precipitada e leviana, abrindo assim o espinhoso caminho do caos, desde Cabo Verde (cuja inviabilidade econômica, tal como São Tomé e Príncipe, de há muito estava demonstrada) e como Mário Soares já admite, até à longínqua princesinha da Oceania - Timor-Leste onde o próprio Prémio Nobel da Paz Bispo Ximenes Belo, um verdadeiro "timorense" e não um "half-cast" como os que ali estão sendo alcandorados a Donos do Poder, foi de opinião que a independência deveria ser adiada por 10 anos ficando o novo estado ligado a Portugal no quadro de uma união... de estados! Gato escaldado até da água fria tem medo...

- As causas dos erros em Angola. O que é que correu mal em Angola ?

Os erros já vinham de longa data... Mas inegavelmente, a partir de 1961 a política do colonizador foi orientada para um rumo progressivamente autonômico que culminaria com a concessão de independencia algum dia... E Marcello Caetano preparava-a secretamente para 15 de Agosto de 1974, no que concerne a Angola, e para 1975 em relação a Moçambique. Tudo indica que não seria uma independência do tipo "iansmithista"... Seu plano foi traído por um criptocomunista que era um dos seus homens de confiança e que a Moscovo levou a notícia em 73, a tempo de preparar a farsa do "25 de Abril", manipulando ignorantes e usando o narcisismo e a ambição spinolista...

Mas os erros maiores já vinham detrás... Sobretudo desde que a terceira dinastia começou a governar (ou desgovernar?) Portugal em 1º de Dezembro de 1640... A primeira descolonização vergonhosa operou-se em Mazagão, norte de África, no século XVIII. Nem com a implantação da República, em 5 de Outubro de 1910, os socialistas, já os daquele tempo, souberam construir comunidades solidárias, interligadas num grande complexo multi-cultural e unionista, globalizante e cooperante, a-racial ( e não estupidamente voltado para um soi-disant plurracialismo que em si mesmo, como conceito, já contém o vírus do preconceito etnico e etnocultural). Salazar, um judeu lusocentrista ou portugocentrista, apesar da sua indiscutível vocação para administrar, somente pensava nos interesses do seu quintal portucalense, às custas do sacrifício e exploração dos povos colonizados e dos descendentes dos colonos em proveito dos empresários, dos banqueiros e do proletariado têxtil do seu País... Jamais quis visitar os territórios coloniais. Seu Império Colonial era um conjunto de áreas geoeconômicas para exploração e abastecimento de matérias primas a bon-marchée e aquisição de vinho e têxteis, à Metrópole.
Depois das guerras da reconquista e a partir da expansão ultramarina iniciada pela gesta dos continuadores em Portugal da obra dos Monges-Cavaleiros Templários (de que nos primeiros anos do século XIV, 500 foram imolados pelo fogo em Paris, em acto da Inquisição, com a benção do Papa francês a quem o desonesto Rei Filipe O BELO prestava obediência e exercia influência nefasta), pela mão do Rei D.Diniz transformados em Cavaleiros da Ordem Militar dos Cavaleiros de Cristo, por ele criada, sempre os portugueses se revelaram acima de tudo mercadores com entrepostos ao longo do litoral africano, refugiados na doutrina Cristã que os cobria de indulgências, através delas plasmando a sua insaciável ganância e justificando a sua crueldade... Quando a Inquisição se implantou com vigor em Portugal, nos fins do século XV, não hesitaram em arrancar aos pais, judeus, marranos, 2000 crianças numa leva de escravos destinada a povoar, sobretudo com meninas, as desertas ilhas de S. Tomé e Príncipe. Ao fim de um ano 1.400 não haviam resitido à inclemência do clima equatorial. Foram outros desses infelizes obrigados a, juntamente com condenados e vadios, irem povoar ilhas dos arquipélagos de Cabo Verde, onde a Brava se destaca. Dos enviados como escravos para S.Tomé e Príncipe, os sobreviventes miscigenarm-se com negros, escravos, idos do norte do que hoje se chama ANGOLA (antepassados dos angolares). Esses povoadores judeus escravizados pelo Santo Ofício, ou melhor por D. João II, cujo tio-avô D. Afonso, Duque de Bragança, era também um judeu, filho bastardo de D.João I e da sua relação extra-conjugal com a bela judia Inês Pereira, filha de um sapateiro (profissão considerada, pela sua arte, importante nesse tempo, deram origem ao que poderia ser considerado como a primeira nação israelense fora da Palestina, antes mesmo de existir Israel... Azancout de Meneses delas descendia. No século XVII o governo de S. Tomé esteve confiado aos chamados cônegos pardos, "mulatos" (perdoem-me o termo) do Reino do Congo que realizaram uma notável obra de administração.

Na segunda dinastia, no entanto, não pode dizer-se que houvesse a preocupação de impor o dialecto galaico-português de que nasceu a "língua" dita "portuguesa", mas logo a religião cristã, que, a par de obras sãs, tantas crueldades e genocídeos haveria de disseminar, iniciou a sua expansão trucidando, numa acção de inaceitável colonialismo místico, as crenças autóctones, a tal ponto que hoje, em Angola e em Cabinda, os sincretismos como o Tocoísmo (que em 1974 já tinha 100 000 membros em Angola, devidamente enquadradois e organizados, e aos quais o antigo presidente da UN , o caboverdiano Ten..Cor. Piloto Aviador Henrique Medina dera grande apóio que lhe valeu caír em desgraça), o Lassismo e o Kimbanguismo que já tiveram sua época áurea nos anos entre 40 e 70 do século XX, são hoje praticamente inexpressivos... ou inexistentes. Não mais tivemos notícias dos nossos amigos do Grande Conselho dos Anciãos (17 ) da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo em Àfrica de Simão Gonçalves Toco. Poderiam, se Almeida Santos os houvesse recebido quando foi a Angola como ministro em 1974, ter evitado muitos massacres e violências contra europeus em Luanda e noutras cidades de Angola. Mas não foram ouvidos porque um sujeito do MPLA, um tal Álvaro da Silva Franco, mulato de Benguela, chefe de gabinete do Almirante Vermelho R.C., a isso se opôs. Eles só queriam cooperar, mas não foram aceites... Voltando à monarquia Bragantina:
Na terceira dinastia, avolumaram-se os erros da administração colonial seguindo o sistema dito assimilador que não logrou vencer as culturas e línguas autóctones. ANGOLA é um país multi-étnico, multi-cultural, multi-religioso e por isso as elites dirigentes necessitam, para agradar ao eurocentrismo dos "brancos" que lhes contamina as maneiras de pensar e de agir, forjar um sistema que tome em devida conta o que o ex-colonizador não quis nunca acolher com sinceridade apesar de, a todo o momento, proclamar o seu respeito pelos usos e costumes dos vizinhos das "regedorias tradicionais"... Depois das independências na África subsaariana adotaram os diferentes paises, demarcados geograficamente segundo limites de autoria européia e cindindo grupos e subgrupos etnoculturais, como línguia oficial, a do ex-colonizador. A Tanzânia constitui, todavia, a mais interessante excepção pois ali foi adoptada como língua nacional o KISWAHILI. Mobutu, por seu turno, no ora rebaptizado Congo, então Zaire, encorajou o LINGALA.. que não vingou como língua nacional..

Bem, respondendo à sua questão, eu acho que teria sido preferível esperar estes mesmos 26 anos sem nada ter sido selvaticamente destruído; educando, preparando quadros, cuidando da saúde, da habitação, do saneamento básico, da alimentação e do bem-estar geral da população, desenvolvendo o país, entregando o seu, ou os seus (pois Cabinda não é Angola e há outras diversidades regionais a estudar e a contemplar num quadro federativo) governos, aos mais aptos num sistema sem conotações eurocentristas, conforme à cultura, às tradições e à vontade dos povos..._

A descolonização como todos sabem foi um desastre com vergonhosa repercussão internacional. O meu ilustre Amigo sr. General Silvino Silvério Marques, ex-governador geral de Angola antes e depois de 25 de Abril de 1974, recentemente teve que tecer reparos a propósito de uma programa da TV2 que abordou equivocadamente aspectos históricos da antecãmara dessa descolonização de ANGOLA. COM SUA PERMISSÃO, PARA DIFUSÃO EM CONVERSA NO CAFÉ LUSO, DOU A CONHECER O TEXTO QUE AQUELE ILUSTRE OFICIAL GENERAL ME ENVIOU EM MENSAGEM ELETRONICA E QUE É O SEGUINTE:

REPAROS A UM PROGRAMA DATV2

Pessoas amigas chamaram a minha atenção para o programa da TV2 intitulado "Independência Já" que, em 4 episódios de "Africanidade", foi exibido às 23h00 de sexta-feira, entre 21/9 e 12/10. Não fui entrevistado para o programa e a minha intervenção no 1º episódio, que perdi, foi obtida por Joaquim Furtado numa entrevista que me fez, no fim da qual me pediu resposta a umas perguntas, resposta para ser cedida ao autor do programa referido. O programa tem interesse histórico, especialmente quanto a algumas revelações chocantes e tristíssimas , e manteve, segundo me pareceu, relativa isenção. Merecem-me reparos duas afirmações e duas informações, aquelas de políticos de prestígio e estas do programador.

O Dr.Almeida Santos tem a preocupação de esclarecer que divergia do Gen. Spínola quanto à ideia de consultar a população acerca do destino da Província .Tenho de admitir tratar-se de uma evolução sofrida pelo espírito do Ministro da Coordenação Interterritorial, talvez por acção do prec, uma vez que há declarações suas nas quais defende, com o brilho habitual, essa consulta, tal como o Gen. Spínola igualmente fez.. E sobretudo porque me deu como orientação prepará-la, como referi nas palavras que preferi em Luanda, ao assumir o Governo. Não creio que me tenha dado uma orientação em que então não acreditasse.

Grande confusão deve ter levado o Eng. Cardoso e Cunha a declarar, perante as câmaras, que não aceitara o convite para Secretário de Estado da Economia ( por lapso o eng. disse Ministro) do meu Governo e, talvez para justificar a recusa, a dar uma opinião arrasadora quanto à composição do Governo. Foi deselegante e, quanto a mim, injusto. Não só não o convidei, como, cumprimentado no Gabinete, por seu sogro, conhecido empresário de Angola, foi-me sugerido, durante a conversa, que convidasse seu genro para o lugar referido da Economia Informando que se tratava de uma das pessoas que me havia sido recomendada pelas suas qualidades, esclareci que tal não era possível, uma vez que o lugar já se encontrava preenchido. O sogro do Eng. Cardoso e Cunha revelava com essa diligência ter uma opinião diferente quanto à composição do Governo. Este fora constituído por pessoas conhecedoras de Angola e das suas gentes, prestigiadas pelos serviços anteriormente ali prestados, e certamente preparadas para a evolução pacífica que uma consulta às populações viesse a determinar. Acrescento que quem preencheu o lugar que o Eng. disse ter recusado, foi um economista distinto, posteriormente membro de um dos Governos do País.

Quando muito mais tarde encontrei, pela primeira vez, o Eng. Cardoso e Cunha no Congresso dos Quadros Angolanos, falámos e manifestei-lhe a minha consideração pelo seu desempenho na complexa tarefa de organizar a Expo 98. No desenvolvimento da nossa conversa revelei-lhe que o seu era um dos nomes recomendados para Secretário de Estado de Economia que constava de uma relação trazida de Lisboa e que, após troca de impressões, em Angola, com os meus colaboradores, havia optado por outra pessoa, incluída na mesma relação e que também não conhecia. E contei-lhe a diligência que seu parente havia feito.

O programador entendeu referir a criação de 40 "partidos" em Angola e pareceu deixar insinuado que isso aconteceu no meu tempo e evidenciar "descontrole". Trata-se, penso, de reprodução de uma afirmação feita em "O Jornal" de12 de Março de 1976 que dizia: (cit) "Silvino Silvério Marques e o governo por ele formado vinha favorecendo, então, grandemente, o aparecimento de "partidos políticos"... Na vigência do governo de Silvério Marques tinham aparecido, à luz do dia, em Angola, mais de 30 partidos inexistentes antes do 25 de Abril..."(fcit)
Respondi em "O Tempo" de 15 de Abril (e publiquei em "Portugal, E Agora?" Ed. do Templo, 1978, pág. 166) o seguinte: (cit) "A verdade é totalmente diferente. Não ajudei, não apadrinhei, a formação de nenhuma associação política ou partido. Mas não persegui nenhum dos que encontrei. Creio que nos escassos dias do meu governo ( de 15 de Junho a 19 de Julho) nenhum partido novo apareceu em Angola. Sem tempo para consultar os jornais de então da Província, socorro-me da "Revolução das Flores", "dossier" (dirigido e coordenado por Barrilaro Ruas) editado pela Ed. Aster. No 2º. Vol., a pág. 185, em citação de "O Século", informa-se que a 12 de Junho (ainda eu não tinha chegado a Angola) e criados, naturalmente, a partir do 25 de Abril, havia só na capital angolana, mais de 40 partidos..." (fcit)

Não é referida no programa a origem da informação de terem ocorrido 400* mortos nos tristíssimos e graves incidentes que tiveram lugar em Luanda durante a última semana do meu 2º Governo de Angola, incidentes provocados pelo assassinato de um taxista europeu. Na horrível chacina que se lhe seguiu, foram mortos 7 africanos e 1 europeu. Na altura foi propalado que os mortos haviam sido 70, o que me levou a anuir, correndo sérios riscos, ao pedido que me foi feito para que o funeral das vítimas fosse organizado colectivamente em cortejo de pesar público. Tinha-se empolado então o número de vítimas em dez vezes. Sucederam-se tumultos nos muceques com perseguições aos modestos cantineiros, muitos cabo-verdianos, e roubos e destruições de cantinas, o que se admitiu ser preparação para o saque dos estabelecimentos da baixa, como ocorria em outros lugares de África.

Também agora se faz o mesmo empolamento no número total de mortos citado no programa. Na verdade, consultado o 3º. Vol. de "A Revolução das Flores", entre páginas 199 e 215, verifica-se que "O Século" de 18 de Julho de 1974 refere que (cit) "segundo as informações dos hospitais e do Governo o número de pessoas mortas instantaneamente ou em consequência de ferimentos recebidos na semana passada totaliza 40".(fcit) Parece significar isto que é a mesma a origem dos números 70 e 400 e que foi a essa que o programador recorreu. Dir-se-ia que o horror de 7 e 40 vítimas não era considerado suficiente para o efeito que se pretendia obter...

Assinale-se que, poucos dias antes de chegarmos a Luanda, o Posto Administrativo de S. Nicolau havia sido encerrado e os presos comuns haviam sido postos em liberdade, situação que teria facilitado o desencadeamento dos tumultos. O Comando-Chefe a cuja dependência o Gen. Costa Gomes tinha passado todas as Forças militarizadas (Polícia de Segurança Pública e Organização de Voluntários), antes da minha chegada e sem que me fosse dado conhecimento, e que dispunha, conforme o Programa das Forças Armadas, da Polícia Internacional como Polícia de Informação, "controlou" o melhor que lhe foi possível os incidentes, coordenadas algumas medidas com o Governo-Geral.
Refira-se que os dirigentes do MFA local se encontravam sediados no Comando-Chefe. Somente esporadicamente tive contactos com alguns oficiais do MFA. Nomeado Governador-Geral, após consulta efectuada em Luanda pelo Ministro Almeida Santos, era do Ministro que dependia.

Com altos e baixos, os incidentes continuaram até desembocarem, na triste situação actual. Após, o terrorismo de 15 de Março com as suas estimadas (e tão omitidas!) 5 a 6 mil** horrorosas vítimas (número da ordem das vítimas do também brutal acto terrorista de Manhattan) que sucedeu ao sequestro do Sta. Maria e à chacina do 4 de Fevereiro, a paz em Luanda fora mantida até Abril de 1974. Entre nós, foi finalmente entendido por responsáveis pós Abril, em afirmações recentes do Ministro dos Estrangeiros e agora do Comissário na União Europeia, que o terrorismo (por sequestro ou por chacina) não pode servir de meio para obter fins políticos. Tudo, obviamente, de acordo com oportuna (e felizmente moralizadora) política ocidental. Para o Portugal-todo foi pena ser já tão tarde!...

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* Por lapso, referi este número que no Programa era o dos feridos, estes indicados em o "Século" de 18 de Julho como "elevando-se a mais de 160". O número de mortos que o Programa refere é de 186, cerca de cinco, e não de dez vezes, empolado em relação aos 40 de o "Século". Lamentei, em "o Diabo" de 30 de Outubro, o juizo injusto que, com base no meu lapso, havia feito sobre o programador e considerei tal juizo retirado do texto.

** Franco Nogueira, Salazar Vol V A Resistência, Ed.Civilização, 1984, pag. 218

Como se verifica pela leitura do texto acima, a desorientação da cúpula política da Revolução era tal que gerou distorções de informação e incidentes graves, com efeitos calamitosos, e que não foram da responsabilidade do governador geral Silvino Silvério Marques

- Mais recentemente,uma organização não governamental britânica , a Oxfam, chegou à conclusão de que a população angolana só é pobre porque os recursos do pais são mal administrados. O relatório desta organização secundariza a guerra como factor de pobreza extrema em Angola.

A Oxfam - e não só - foi autêntica e sincera e isso está às vistas de todos nós.

As civilizações nunca foram construídas pela força das armas. A veiculação das idéias, das técnicas é sempre o resultado de uma troca, de um acto de consenso. O militar, o soldado olha o outro, o desconhecido, o diferente, como inimigo a abater. O mercador, o comerciante, olha-o, naturalmente, como potencial cliente. Nos meios rurais, é muito forte a permanência de hábitos culturais, ao contrário do ambiente portuário e urbano onde a veiculação de novas idéias desenvolveu um inevitável cosmopolitismo, em Angola dominado pelos circuitos urbanos europeistas; é mister que os que governam entendam que a época colonial não deve prevalecer como síndrome, impõe-se adotar uma nova ordem que respeite os interioranos que são a maioria e ausculte os seus anseios. Mas, aos membros da "troika" (EUA+Rússia+Portugal... sucialista), louvaminhadora de um "ditador- presidente" que continua ilicitamente à frente do Poder Executivo, à revelia da própria Constituição, e com menosprezo por um Parlamento que há muito expirou o seu mandato, interessa a manutenção desse escandaloso "status quo ante" para poderem se locupletar com as riquezas do(s) território(s) de Angola e de Cabinda. E encontram o respaldo de certos sectores econômicos e políticos do Brasil já fortemente implantados em Angola (em 25 de Abril de 1974 havia no País somente 25 brasileiros, hoje devem ser uns largos milhares... Até padres!). Interessa às transnacionais que essa má (aliás, péssima e corrupta...) administração continue e que agências de "marketing político", brasileiras, como a PROPEG e a ORION, a primeira das quais recebeu de JES, em 1992, 100 milhões de dólares US (tão necessários às tarefas de paz que apenas contam com a ajuda dos Médicos Sem Fronteiras e outras ONG´s) pelo seu sujo trabalho de propaganda eleitoral descaradamente apregoado por esses brasileiros até em Portugal, publicamente, em busca de novos clientes entre os partidos políticos portugueses, depois de distorcido o resultado eleitoral [embora devesse ter havido uma segunda volta que nunca se realizou porque terroristas "ninjas" do MPLA assassinaram, impunemente, em Luanda, o vice-presidente e as mais destacadas personalidades da cúpula da UNITA], prossigam - e aí estão de novo, agora com reforço das Organizações Globo, do macróbio Roberto Irineu Marinho, junto da TV Pública de Angola - a sua nefanda acção psicológica, robotizando o cérebro e a vontade das populações urbanas das cidades-chave, já que aos meios rurais, praticamente despovoados, essa media não chega, nem valeria a pena levá-la ao "deserto"... aonde as urnas não chegam. Só essa atitude do JES no Brasil poderia valer-lhe uma comissão parlamentar de inquérito e uma manifestação de "caras pintadas", universiários, a exigirem seu "impeachment" como aconteceu ao Collor de Melo também eleito com a "ajuda" desses dispendiosos "meios de wash-brain"! É espantoso como agora, o novo embaixador norte-americano, mr.William Dell, quiçá bem relacionado com os lobbies afectos à texana Chevron e à Gulf Oil International, etc..., etc.., se entregou a descobrir afinidades entre o governo que representa e o "governo-desgoverno" ilícito de Angola que gasta milhares de milhões de dólares em tanques, aviões, artilharia, treinamentos de Batalhões de Caçadores especiais por... INSTRUTORES COMUNISTAS NORTE-COREANOS que certamente mataram, no passado, muitos soldados americanos naquela terrível guerra lá para as bandas do paralelo 38°, entre as duas Coréias... Para esse embaixador que em Luanda se sente em casa... parece que, quem estiver contra o usurpador do Poder e usuário das mais tenebrosas armas de destruição, morte e desolação, é terrorista; ao contrário do que pensava Papai George Bush quando era Presidente dos StatesI It´s amazing!!!... Seria interessante se ele oferecesse, lá na sua embaixada, um "Pôr-do-sol" à boa maneira "neocolonialista" convidando, para o mesmo, o general cubano que está, como atento conselheiro e comandante da segurança presidencial máxima, no palácio de verão do Futungo de Belas, sempre à ilharga do seu "Bem-Amado" pagante "angolano", que afinal vai dcerto ceder o seu ... "trono" a um "amigo do peito" - da mamadeira do MPLA que não é... o verdadeiro MPLA de Viriato Cruz e dos demais fundadores na década de 50 - e os oficiais norte-coreanos que estão fazendo o treinamento especial dos tais Batalhões de Caçadores de 1.500 homens cada, especiais. Quem teria apresentado esses terroristas norte-coreanos aos altos comandos das FAA? E quem está pagando a conta?

- Tem havido algumas correntes que defendem para Cabinda um estatuto como o da região autônoma da Madeira em relação a Portugal ao invés da autodeterminação que poderia abrir uma outra frente de conflito com os Congos vizinhos.

Na minha opinião, também os arquipélagos de Madeira e Porto Santo e dos Açores, hoje regiões autônomas que já tiveram abos esboços de movimentos de "libertação" que feneceram, deviam ser estados federados. Mummmar Al-Qathafi sempre defendeu o princípio de que o primeiro dos referidos arquipélagos, tal como as Ilhas Canária, fazem parte da África Setentrional e Ocidental, pela sua localização geográfica e tipo de povoamento, e como ele agora é o grande mentor e impulsionador da União Africana, que a partir do próximo ano vai substituir a ineficaz e falida OUA, não se admirem que qualquer dia venha a retomar essa "luta" geoestratégica e ideológica... Por outro lado, a FLA teve nos Açores alguma expressão, conquanto efêmera, talvez amparada pela sua proximidade geográfica com os Estados Unidos, afinidades devido à grande emigração que sempre deu para aquele País e importãncia estratégica de uma base aérea e de uma base naval que foram essenciais tanto na IIª Guerra Mundial como a primeira no socorro a Israel no passado.

O governo de Luanda diz que Cabinda já goza de um estatuto autônomo, mas todos sabem que é um estatuto para "matumbo" ouvir falar e não entender do que se trata... Cruz Gomes denunciou essa farsa num dos seu primorosos e objectivos artigos a respeito de Cabinda Penso que a solução preconizada pelo Arcebispo do Lubango se choca com a opinião do Bispo de Cabinda... Popr quê Timor e por que não Cabinda?!.

Qualquer dia, dentro da mesma linha de pensamento, um qualquer governo de Espanha acaba por jogar na lata do lixo todos os tratados e acordos celebrados com Portugal e exigir a reintegração desse minúsculo retângulo, afinal também um enclave, semelhante ao de Cabinda, no seu espaço nacional, pois fisicamente está ligado ao grande irmão Ibérico, o que não acontece - sublinha Cruz Gomes - com Cabinda e Angola. Cuide-se, senhor Guterres, cuide-se...

- O Governo quer realizar eleições no próximo ano mesmo sem alcançar a paz..

Sem Paz entendo que não existem as mínimas condições para se realizarem eleições e creio bem que esta é também a opinião do Presidente Bush e do Secretário de Estado General Collin Powel. Por outro lado, afigura-se-me que esse processo será moroso e delicado, o controle da eleição terá de ser efectivo e isento, será uma eleição ao sabor do... MPLA. Nada feito. Que a sociedade civil e a Igreja, a par das entidades internacionais que terão de secundar e fiscalizar esse processo, se manifestem sem cair em armadilhas.. A sociedade civil e os movimentos religiosos devem ser ouvidos e exigida a retirada de Angola de agências de marketing político como a PROPEG brasileira que em 1992 para ali fazer "wasbrain" em proveito de dos Santos e do MPLA que temiam o resultado do pleito, recebeu 100 milhões de dólares US... E lá está ela novamente em ação... no território e na mídia oficial angolana.
Rafael Marques tem razão. A fiscalização terá que excluir da troika Portugal e a Rússia para haver credibilidade... e isenção, bem como... o Brasil que tem interesses demais quer pela Braspetro-Petrobras, quer pela EMBRAER vendendo aviões de guerra, quer pela AVIBRAS vendendo engenhos mortíferos, quer pela ODEBRECHT com seus interesses em vários negócios algo sombrios...
Mas sem paz e sossego não deve haver eleições. Confiemos no bom senso do Presidente Bush e do General Powell, únicos de quem se pode ainda esperar uma solução aceitável e merecedora de crédito... Quanto ao sr. Kofi Annam parece que nem vale a pena falar mais nele. Já se sabe para onde pende, com NOBEL e tudo mais... mas o Nobel está tão avacalhado que nem merece qualquer respeito neste século em que entramos. É velharia sucialista lá do Norte do continente europeu.

Carlos Mário Alexandrino da Silva

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

GUERRA NUNCA MAIS!







COMBATENTES
Na mais perfumada flor da mocidade,
Deixaram para trás os que mais amavam;
Para cumprir as ordens que emanavam,
Dos defensores da nacionalidade!

Num exemplo da mais pura lealdade,
Não discutiram a razão porque lutavam;
Mas muitas vezes as suas almas sangravam,
Por temor, angústia e saudade!

Muitos milhares para sempre tombaram,
Mas muitos mais à terra regressaram,
Do corpo e da mente estropiados!

A alguns mortos há quem lhe leve flores,
Porque estes já não se queixam das dores!
Porém os vivos continuam desprezados!

A. Bastos (Júnior)


E A GUERRA CONTINUOU DEPOIS DA INDEPENDENCIA DA PATRIA MARTIR...




LAVRA DE MORTE

Lá em baixo
na margem do Cubango
p’rós lados do Cuangar
Karungu João
foi na lavra.
Filho na cacunda
quinda na cabeça
foi na lavra
Karungu João
no Cuando-Cubango
p’rós lados do Cuangar
Karungu João
foi na lavra
procurar mandioca
filho na cacunda
quinda na cabeça
que fome é bicho
roendo, mordendo...
foi na lavra
Karungu João
só encontrou mina
debaixo do pé
as pernas perdeu
e o filho morreu
pequeno, pequenino
na cacunda
de Karungu João
Aiuê, Suku ianguê!

Namibiano Ferreira


http://namibianoferreira.blogspot.com/
http://guerracolonial.blogs.sapo.pt/

Mia Couto -- "Há quem tenha medo que o medo acabe"

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

MARIO PINTO DE ANDRADE: O REGRESSO DA MEMORIA



SOU, ASSIM, UM AFRICANO DE ANGOLA

"É justamente porque nasci em Angola, país africano em que vivi e aprendi a conhecer a realidade colonial, que afirmo e defendo a minha angolanidade. E sobretudo: ajudei e continuo a ajudar, na medida das minhas capacidades intelectuais, a fazer respeitar internacionalmente o direito do povo angolano a dispor de si próprio."



CONTINUA...

Militares portugueses para o Ultramar....

Não iam para Angola, mas para a Guiné. Dá para se fazer uma ideia.
 
Guiné > Rio Geba > 1970 > Soldados, G3, malas, tudo a monte, como era de uso. A viagem da CCAÇ 2700 de Bissau para o Xime, ao longo do rio Geba, pelas 6 da manhã do dia 5 de Maio de 1970. A LDG é a célebre Montante que participou na Operação Mar Verde, invasão de Conacri, a 22 de Novembro de 1970, sob o comando de Alpoim Galvão). Depois seguir-se-ia a viagem, por terra, em camiões, militares e civis, rumo a Dulombi. DAQUI

domingo, 11 de dezembro de 2011

FUA - FRENTE DE UNIDADE ANGOLANA: OPORTUNIDADE PERDIDA POR PORTUGAL





Carlos Mário Alexandrino da Silva Carlos Mário Alexandrino da Silva     


6. NO LUBANGO: O PRIMEIRO MANIFESTO


Mas, qual era o conteúdo desses panfletos? O que diziam eles?

Nesses impressos anunciava-se a Frente de Unidade Angolana - F.U.A - que fazia as seguintes reivindicações:
a) o direito da população de Angola dispor do seu próprio destino;
b) a abertura imediata de negociações com os representantes da Oposição ao governo, para solução pacífica do problema angolano;
c) necessidade de todos os habitantes de Angola se unirem para a construção de um grande país multirracial;
d) libertação de todos os presos políticos;
e) eleições gerais, com inteira liberdade de propaganda eleitoral e ampla representação de todas as tendências politicas;
f) formação de um governo autônomo de Angola;
g) liberdade de consciência , de religião, de imprensa, de reunião e associação;
h) elevação e representação das massas africanas "hoje sem liberdade, sem garantias e sem direitos";
i) livre acesso aos cargos públicos: a trabalho igual, salário igual;
j) liberdade de comércio com todos os povos e estabelecimento de relações diplomáticas com todos os países;
k) política de franca amizade e sólida cooperação com os povos de expressão portuguesa.

Portanto, prégava-se já a lusofonia que, pese a aparente contradição no plano ideológico, Salazar... também defendia.

Na alínea b) - as alíneas são de nossa inspiração - evidencia-se a preocupação de se estabelecer "diálogo" para encontrar uma "solução pacífica", numa altura - 17 de Abril de 1961 - em que se completavam dois meses sobre uma situação tensa: o "4 de Fevereiro" , em Luanda, caraterizara-se por uma ação relâmpago, ineficaz e mal organizada, mas com impacto na mídia internacional, do incipiente MPLA, e o"15 de Março" (e os três dias subseqüentes) pela macabra e sanguinolenta chacina, no Norte de Angola, de milhares de Negros bailundos (Ovimbundus, da etnia do Dr. Jonas Savimbi...), de brancos e mestiços (litorâneos pois eram raríssimos, devido ao xenofobismo imperante nos bacongos, os"mulatos" nortistas...) praticada pelas endemoninhadas e drogadas hordas a mando do "francofonizado" Holden Roberto.

Por conseguinte, à partida a FUA era pacifista. Foi essa, a nosso ver, a oportunidade, talvez a maior para aquela época histórica, perdida pelo governo central...

Nesse manifesto afirmava-se ainda que "a FUA é um movimento ordeiro e proclama a necessidade de soluções legais e ordeiras"; logo, sua índole nessa fase era legalista e não terrorista. Sublinhava no entanto:"nada poderá impedir que Angola aceda à autonomia a que todos os povos têm direito."


7.- AVERIGUAÇÕES DA PIDE ....
 
 
CONTINUA....

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Agostinho Neto, a vida e a obra

http://cc3413.files.wordpress.com/2011/11/an1.jpg


Acácio Barradas (editor)
Este livro formato 24x28cm com 221 páginas foi escrito com a colaboração de diversos autores que conheceram Agostinho Neto. Não tem “copyright” e foi patrocinado pela A.A.A – SEGUROS & PENSÕES. O lucro resultante da sua venda reverterá em benefício da Fundação Agostinho Neto (em organização). Em Angola encontrar-se-á à venda nas principais livrarias mas, dado o seu preço, pensamos que não estará ao alcance da maioria das pessoas. Por isso, para que todos aqueles que tiverem internet possam também saber quem foi Agostinho Neto, Primeiro Presidente de Angola, fizemos um extracto das partes essenciais do texto colocando-as pela sua sequência cronológica com as respectivas fotografias.
Não foi um trabalho fácil sintetisá-lo porque haveria muito mais para escrever mas, mesmo assim, esperamos ter conseguido o nosso objectivo, isto é, dar a conhecer ao Mundo Lusófono com acesso à internet, a biografia de Agostinho Neto descrita neste livro.

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Aquele que viria a ser o fundador da nação Angolana abriu os olhos ao mundo na aldeia de Kaxicane, banhada pelas águas caudalosas do rio Kuanza, na região de Catete, a 60 km de Luanda. Corria o ano de 1922. Como era hábito na altura, o parto decorreu em família, na casa modesta do pastor metodista Agostinho Pedro Neto e de sua mulher, a professora primária Maria da Silva Neto. O menino viria a chamar-se António Agostinho Neto, nome que não tardaria a andar nas bocas do mundo.

 
Agostinho Neto com os pais e irmãos (último em pé do lado direito).

Os primeiros tempos da sua formação foram bastantes irregulares, pois a inegável capacidade que demonstrou para os estudos não foi devidamente estimulada pelos pais. Feita a instrução primária, acabou por se arrastar no liceu durante dez anos para um curso de sete, não obstante figurar no Quadro de Honra. Tudo porque os pais capricharam em que acompanhasse a par e passo o irmão mais velho, Pedro, o qual se atrasara nos estudos e não tinha idêntico aproveitamento. Deste modo, se o Pedro reprovava num ano, Agostinho Neto suspendia a preparação e esperava por ele. Assim se explica que, tendo-se matriculado no Liceu Nacional Salvador Correia (hoje Mutu-ya-Kevela) em 14 de Fevereiro de 1934, só concluísse o 7º ano em Janeiro de 1944. (…)
Conta Arménio Ferreira, a fim de demonstrar a inteligência precoce de Neto, que no Salvador Correia, então predominantemente frequentado por brancos, determinado professor “resolveu fazer testes de inteligência entre os estudantes. E, como Neto “solucionava rapidamente os testes apresentados”, o professor deixou de lhos dar, entregando-os só aos outros alunos e “dizendo-lhes que, se não os resolvessem depressa, os daria ao “preto”, que num minuto os resolveria”. (…)
Mercê de tais antecedentes, seria de esperar que, terminado o liceu, além do mais com alta classificação, Agostinho Neto tivesse de acesso imediato a estudos superiores. Mas não havia universidade em Angola e a sua frequência na Metrópole (como então se aludia a Portugal) era onerosa demais para os modestos recursos familiares. E a única possibilidade de tornear tal obstáculo acabaria por ser-lhe vedada.
Na altura, o Governo colonial dispunha de uma bolsa de estudo anualmente atribuída ao estudante finalista do liceu com melhor classificação. António Agostinho Neto era um forte candidato, mas com ele rivalizava outro estudante oriundo de Cabinda, de seu nome António Pinheiro da Silva.Segundo recorda Adriano Sebastião, gerou-se polémica entre facções apoiantes dos dois Antónios, tendo a balança pendido para Pinheiro da Silva. Este tinha a vantagem de ser mestiço e católico, enquanto Agostinho Neto era negro e protestante. Ou seja: a religião e a raça tiveram razões que a razão desconhece.
Não deixa de ser curioso observar que a evolução futura dos finalistas rivais viria a acentuar as suas diferenças, pois enquanto Agostinho Neto se tornou o líder revolucionário, Pinheiro da Silva foi sempre um apaniguado do regime colonialista e chegou, nos anos 60, a assumir responsabilidades governativas em Angola, como secretário provincial da Educação.
Enfim com 22 anos feitos e gorada no imediato a hipótese da bolsa de estudo, a solução de Agostinho Neto foi arranjar trabalho. Mediante um concurso público, ingressou no quadro administrativo dos Serviços de Saúde e Higiene de Angola, sendo colocado primeiro em Malange e depois no Bié. Ao chegar a Malange, ver-se-ia de novo confrontado, agora de uma forma directa, com o preconceito racial. Conforme mais tarde recordou, num documento escrito da prisão, fora-lhe “recusada a entrada num hotel de inferior categoria, onde normalmente se hospedavam operários brancos, muitos deles analfabetos”.
O confronto com este tipo de situações humilhantes, a par do regime esclavagista que testemunhara na infância junto dos trabalhadores de algodão de Icolo o Bengo, ou dos contratados para as plantações de café na região dos Dembos, no Piri, para onde os seus pais havia sido entretanto transferidos, despertaram-lhe a consciência para as duras realidades do colonialismo que, no seu espírito, cedo se perfilou como inimigo a abater. (…)
Mas é sobretudo na poesia que Agostinho Neto virá a encontrar a expressão mais adequada para dar voz à sua indignação perante a injustiça e transmitir a “sagrada esperança” na vitória dos fracos sobre os fortes, dos humilhados e ofendidos sobre os orgulhosos e arrogantes detentores do poder colonial e imperialista, não apenas em Portugal mas no mundo inteiro. (…)
Sem nunca ter desistido de subir a corda mais alto, finalmente Agostinho Neto conseguiu, três anos depois de ter iniciado carreira como funcionário público, reunir condições para estudar na Metrópole. Fê-lo, inicialmente, com as economias que conseguiu realizar dos seus magos proventos. Só dois anos mais tarde, segundo refere Marga Holness, lhe terá sido atribuída uma bolsa de estudos da Igreja Americana Metodista. (…) Esta bolsa é invariavelmente referida como o único apoio de que beneficiou. Trata-se, porém, de um equívoco.
De facto, Agostinho Neto recebeu outra bolsa (cujo início não conseguimos determinar) que lhe foi concedida por uma instituição portuguesa, o IASA – Instituto de Assistência Social Angola. Tal bolsa, no valor de três mil escudos (quantia bastante elevada para a época), deixou, porém de ser levantada por Agostinho Neto no Ministério do Ultramar, em consequência de ter sido preso e pronunciado por “actividades subversivas” no Tribunal Criminal do Porto. Alertado pela PIDE para este facto, o IASA suspenderia a atribuição da bolsa em 1955.
Neto na CEI em Coimbra com os seus colegas
(último da direita ao lado de Lúcio Lara).

Recuando à data em que iniciou os estudos superiores na Metrópole, ou seja em 1947, vamos encontrar Agostinho Neto na Universidade de Coimbra, em cuja faculdade de Medicina se matriculou. A sua integração no meio foi imediata, para o que concorreu a circunstância de ser ter familiarizado rapidamente com os outros estudantes de origem africana, embora na sua maioria brancos e mestiços. Um deles, Lúcio Lara, seria o seu companheiro até ao fim da vida. O pólo aglutinador era a Delegação da CEI (Casa dos Estudantes do Império), que nessa época se distinguia – de acordo com o testemunho de Edmundo Rocha – por ter uma actividade mais radical e efervescente que a respectiva sede, em Lisboa. (…)
A sua conduta não passa despercebida à autoridades fascistas. Num ofício dirigido à PIDE, em 11 de Julho de 1949, o Comando-Geral da Legião Portuguesa de Coimbra refere-se às actividades da CEI e do MUD Juvenil, afirmando a dado passo: “Quanto aos pretos, o que mais se tem evidenciado, embora não o demonstre, é o Agostinho Neto do MUD Juvenil”, ao qual é atribuída a responsabilidade (partilhada por Antero e Vergílio Simões Moreira) de convidar Norton de Matos a visitar Coimbra durante a campanha eleitoral.
Entretanto, transfere-se de Coimbra para Lisboa, onde a sua actividade política de intensifica. E em Março de 1952 verifica-se a sua primeira detenção, por um período de três meses. Crime de que era acusado: “ser portador de panfletos subversivos”. Segundo o boletim Juventude, editado ao copiador pela Comissão Central do MUD Juvenil, a prisão verificou-se quando Neto, em companhia dos colegas Marília Branco e Carlos Veiga Pereira, recolhia assinaturas para o “Apelo para um Pacto de Paz”.(…)
Entre os frequentadores dos salões literários da Tia Andreza (no nº37 da rua Actor Vale, Lisboa) figuravam, além de Agostinho Neto, outros angolanos, como Mário Pinto de Andrade, Lúcio Lara e Humberto Machado, os poetas santomenses Francisco José Tenreiro e Alda do Espírito Santo, o guineense Amílcar Cabral e a poetisa moçambicana Noémia de Sousa. A todos animava, segundo Mário Pinto de Andrade, “o retorno às fontes, a redescoberta do “eu” africano, a “reafricanização”. Tratava-se, afinal, da réplica lisboeta de um movimento universal africano (liderado por Nicolás Guillén, Sédar Denghor, Aimé Césaire e outros), que implantaria com o nome de “negritude” e que em Luanda encontraria equivalência na corrente literária “Vamos descobrir Angola”.(…)
Se a PIDE estava atenta às actividades de todos estes jovens, bem como de muitos outros que os visitavam, a verdade é que a sua movimentação também não passava despercebida a uma bonita jovem que morava na mesma rua que o CMA tinha a sua sede. Essa jovem assomava por vezes à janela e assistia às permanentes entradas e saídas de estudantes e marítimos na casa da frente da sua rua. Até que um dia chegaram à conversa e estabeleceram relações de amizade. A jovem em questão chamava-se Maria Eugénia da Silva e viria a contrair, pelo casamento, o apelido de Neto.
A própria Maria Eugénia, na entrevista que concedeu a Artur Queiroz para esta edição, relembra com algum detalhe a forma como foi feita a aproximação com Agostinho Neto e como essa relação evoluiu para o forte desenvolvimento que se tornaria um amor para toda a vida. O período de namoro, foi, no entanto repleto de adversidades, visto que se fortaleceu durante dois anos e meio em que Agostinho Neto esteve preso e foi pronunciado pelo Tribunal do Porto.
Preso de novo pela PIDE em 9 de Fevereiro de 1955, Agostinho Neto passou dois anos e meio nos cárceres da polícia política portuguesa e depois na Cadeia do Aljube, no Porto, só sendo libertado em 12 de Junho de 1957. (…)
Fotografias de Agostinho Neto na PIDE.
Mal se apanhou em liberdade, Agostinho Neto reatou os contactos políticos com os seus antigos companheiros de luta, a tempo de participar na fundação do MAC – Movimento Anti-Colonialista, de que foi personalidade impulsionadora o guineense Amílcar Cabral embora o respectivo Manifesto viesse a ser da autoria de Viriato da Cruz, com alterações introduzidas por Mário Pinto de Andrade e Lúcio Lara.(…)
Agostinho Neto e o Pe. Pinto de Andrade
Mas como nem só de política vive o homem, mesmo que esse homem se chame Agostinho Neto, ei-lo de novo a braços com os estudos de medicina, procurando recuperar o tempo perdido e obter a licenciatura. É o que finalmente acontece em 27 de Outubro de 1958, onze anos depois de se ter matriculado em Coimbra. Tinha então 35 anos, e Maria Eugénia, a sua noiva, 23. Reunindo dois motivos de festa, casaram-se no próprio dia da formatura, indiferentes à advertência da mãe de Maria Eugénia, segundo a qual “um político não faz felicidade de ninguém”. Lúcio Lara é um dos padrinhos.
Segue-se um breve período em que Agostinho Neto parece um cidadão normal, feito chefe de família e com uma profissão prestigiada, a de médico hospitalar. O que não quer dizer que tenha cessado as reuniões políticas, pois estas continuaram a preencher os momentos que os vulgares chefes de família dedicam ao ócio. Entretanto, havia que pensar no futuro e tomar opções decisivas. (…)
Regressar a Angola é que seria a hipótese a excluir, pois os incómodos que teria se suportar no seu próprio meio seriam por certo avassaladores.(…) Se Neto regressasse à sua terra, era mais que certo que não ficaria incólume. Pois foi exactamente esta solução, a pior do ponto de vista da sua comodidade e segurança, que Agostinho escolheu para si e para a sua família, entretanto já ampliada com o nascimento do primeiro filho.
Prestando-lhe homenagem por estas decisão, Edmundo Rocha escreve: “Depois de acabar o seu acidentado curso de Medicina, Agostinho Neto decide investir contra a cidadela inimiga, a Jóia da Coroa do colonialismo português. Podia ter escolhido o exílio seguro que lhe permitiria frequentar os salões intelectuais africanos, em Paris, como fizeram durante anos Mário de Andrade, Viriato Cruz, Lúcio Lara e outros nacionalistas. Mas (…) instala-se em Luanda em fins de 1959, como médico dos bairros pobres (…), seis meses após a vaga de prisões da maior parte dos nacionalistas africanos, de angolanos brancos e de portugueses progressistas, revelando neste acto uma grande coragem moral e física, sabendo de vigilância apertada que a PIDE exercia sobre ele”.
Como era de prever, Agostinho Neto não estaria muito tempo em liberdade. Em 8 de Junho de 1960, ainda não se tinham completado seis meses desde a sua chegada, o próprio subdirector da PIDE, São José Lopes, irrompeu no seu consultório e deu-lhe voz de prisão. (…) Depois levaram-no, no meio dos protestos da mulher dele, a quem também ameaçaram prender, mas que lhes respondeu não ter medo deles. E ao marido dela disseram: seu negro!, como se ser negro fosse um anátema. E prenderam mas cinco homens negros.
Se, em Luanda, a prisão de Agostinho Neto deu origem à movimentação acima referida, entre outras reacções de que não terá ficado registo, algo bem mais dramático viria a acontecer na terra da sua naturalidade. Os acontecimentos aí verificados – e que ficaram conhecidos pela designação de “massacre de Icolo e Bengo” – seriam internamente abafados pela censura, mas através do método primitivo da transmissão oral, acabaram por chegar ao domínio público e ser noticiados por vários jornais e emissoras estrangeiros. (…)
Perante a violência das reacções suscitadas pela prisão de Agostinho Neto e também do chanceler da arquidiocese de Luanda, Joaquim Pinto de Andrade, a PIDE considerou ser mais prudente retirá-los de Angola, onde a sua presença causaria permanentes problemas. E assim, após um breve período de interrogatórios a fim de apurar as responsabilidades de cada um, com a garantia – que veio a tornar-se improcedente – de que seriam restituídos à liberdade mal chegassem a Lisboa, ali ficando com residência fixa para poderem trabalhar.(…)
O embarque de Neto para Lisboa verificou-se num avião militar que fez escalas em São Tomé e Bissau, tendo chegado à capital portuguesa em 8 de Agosto de 1960, precisamente dois meses após a prisão de Luanda. Contrariamente ao que fora prometido – e que se apurou ter sido acordado entre o ministro do Ultramar e o governador-geral de Angola, para evitar maior alarido no plano internacional -, Agostinho Neto ficou encarcerado na Cadeia do Aljube, em Lisboa, em regime de isolamento.
Segue-se um troca de ofícios entre a PIDE e o Ministério do Ultramar, com propostas e contrapropostas relativas ao destino que deveria dar-se aos dois prisioneiros incómodos: Agostinho Neto e Joaquim Pinto de Andrade.(…)
O Gabinete do ministro do Ultramar mostra-se de acordo com estas precauções e é de parecer “que deveria proporcionar ao Dr. Agostinho Neto o exercício da sua profissão em local onde os perigos anteriormente apontados pudessem ser prevenidos”. Neste sentido, apresenta “como aconselhável a sua deslocação para qualquer das ilhas adjacentes”, ou seja, Madeira e Açores. (…)
Como contrapartida, o director-geral da PIDE, propôs a fixação de residência a Agostinho Neto em Cabo Verde e a Joaquim Pinto de Andrade em São Tomé e Príncipe, “desde que, como é evidente, fiquem sujeitos a determinadas condições e à adequada vigilância” (…)
Na sequência da aprovação desta proposta, o subsecretário de Estado da Administração Interna, Adriano Moreira, exara um despacho, pelo qual fixa a residência a Agostinho Neto na ilha de Santo Antão, em Cabo Verde, e a Joaquim Pinto de Andrade em São Tomé, num local a designar pelo respectivo governador, que indicaria para o efeito a ilha do Príncipe. Cinco dias depois, verificava-se no aeroporto da portela o embarque, sob prisão, de Agostinho Neto para Cabo Verde, em companhia de sua mulher, Maria Eugénia, e Mário Jorge, o filho de onze meses. (…)
Reconfortado com a inesperada manifestação de apoio de que foi alvo na aerogare da Portela em Lisboa, no dia 15 de Outubro de 1960, ao embarcar sob prisão para Cabo Verde, Agostinho Neto chegou de madrugada ao aeroporto dos Espargos, na Ilha do Sal. Com a mulher e o filho, que o acompanhavam, ficou hospedado no Hotel Atlântico. No dia 18, de manhã, embarcou num avião dos Transportes Aéreos de Cabo Verde para a ilha de São Vicente. “No mesmo avião” – segundo refere o comandante da PSP, Fradinho da Costa – “seguiu da cidade da Praia um agente desta polícia com a missão de o vigiar discretamente”. Em São Vicente hospedou-se na Pensão Chave de Ouro e, na madrugada do dia seguinte, embarcou no navio mercante “Gavião dos Mares” com destino à Ponta do Sol, em Santo Antão, onde lhe fora marcada residência. (…)
Chegou ao destino no mesmo dia, tendo ficado sob a vigilância do administrador do concelho de Ribeira Grande, João Coelho Pereira Serra, o qual – de acordo com o já referido comandante da PSP – é “pessoa de absoluta confiança”, sendo também, “por inerência, o comissário político do Mindelo”.
Em Santo Antão, onde chegou a 19 de Outubro, a família Neto começou por ficar alojada na pousada municipal, ali se mantendo até 2 de Novembro, data em que transitou para a moradia destinada ao Delegado de saúde, função que Agostinho Neto passou a desempenhar, auferindo o vencimento mensal de seis mil escudos. (…)
Em 10 de Junho, acompanhada pelo filho Mário Jorge, Maria Eugénia Neto embarcava em São Vicente no navio “Manuel Alfredo” com destino a Lisboa, a fim de ali ter a devida assistência ao novo parto que se aproximava. Para se despedir da mulher e do filho, Agostinho Neto foi autorizado pelo Governador de cabo Verde a deslocar-se a São Vicente, onde chegou a 1 de Maio. (…)
Hospital em Cabo Verde onde Neto trabalhou como Delegado de Saúde.
Mas como o homem dispõe e a providência dispões, Agostinho Neto mão seguiria para a Boa Vista (para onde tinha sido proposta a sua transferência) nem ficaria na Praia, onde o hospital em que trabalhou ostenta hoje o seu nome. Outras razões se interpuseram que mudariam o curso da História. Tudo aconteceu com a chegada da sua mulher e dos filhos, que desembarcaram do navio “Alfredo da Silva” no dia 17 de Setembro, por coincidência a data de aniversário de Agostinho Neto. Esse dia, em que completava 39 anos, foi por certo um dos mais felizes da sua vida. Além do reencontro com a mulher e o filho Mário Jorge, via pela primeira vez a filha Irene, apenas com dois meses. Ainda por cima, devido a uma providencial distracção dos CTT, teve o raro privilégio de receber vários telegramas de felicitações enviados da Alemanha, de França e de Inglaterra. (…)
Passados que eram oito dias desde a chegada de Eugénia Neto à cidade da Praia, precisamente na véspera da data em que deviam seguir para a Boavista, eis que rebentou a “bomba” que levaria Agostinho Neto a ser novamente preso e a regressar a Lisboa para os cárceres da polícia política. O motivo é registado pelo chefe da PIDE de Cabo Verde, numa informação que o governador datava de 25 de Setembro. Eis o que nela se diz: “Parece que a mulher do Dr. Agostinho Neto (Maria Eugénia Neto), que recentemente regressou da Metrópole, trouxe para esta cidade uma fotografia onde se vê um grupo de militares europeus com a cabeça de um preto espetada num pau. Diz-se que a fotografia em referência foi tirada em Angola, mas certamente tratar-se-á de uma falsificação destinada à propaganda política. Que se saiba, o Dr. Agostinho Neto tem mostrado a aludida fotografia a alguns indivíduos do grupo com quem se relacionou na cidade da Praia. (…)”
O certo é que Agostinho Neto foi preso e o governador ordenou o seu embarque sob custódia de um agente da PIDE, embora na companhia da mulher e dos filhos, no primeiro barco com destino a Lisboa que fizesse escala da Praia. Esse barco seria o “Manuel Alfredo”, que partiu em 10 de Outubro, tendo atracado a Lisboa no dia 17. Agostinho Neto seguiu para a cadeia do Aljube, enquanto Maria Eugénia Neto, com as crianças, voltaria a casa da mãe. (…)
Atendendo, porém, às condições de insegurança relativamente ao futuro – e que o impedia de contrair um empréstimo para montar consultório próprio -, Agostinho Neto voltou a escrever, em 18 de Maio, ao ministro dom Ultramar, solicitando os seus bons ofícios “no sentido de ser autorizado a partir com a minha família para qualquer país da América Latina”, afim de “poder viver livre de receios e de dificuldades”. (…)
Solicitado a pronunciar-se sobre este pedido, o director-geral da PIDE não esteve com meias medidas, afirmando: ” A sua pretensão de seguir agora com a família para um dos países da América Latina assenta no propósito de – como todos aqueles que se dizem no “exílio” – vira desenvolver mais facilmente a acção nefasta contra o seu país. Em todo o tempo, porém, e em qualquer local, segundo a experiência mostra, o Dr. António Agostinho Neto é um elemento pernicioso, o que significa, por isso, que tanto o é na metrópole, como no Ultramar, como no estrangeiro”.
Vedada, pois, a possibilidade de sair de Portugal a bem, restava a Agostinho Neto a hipótese de fuga. Assim, aproveitando a situação de vigilância atenuada a que estava sujeito no regime de residência fixa, reuniu as condições para dar o salto para o exterior, o que acabou por se verificar no dia 30 de Junho. (…)
O facto de Agostinho Neto ter regressado subitamente a Portugal, sendo libertado com residência fixa após seis meses na prisão do Aljube, deu ensejo a nova estratégia de fuga, desta vez com êxito absoluto. Além de Dias Loureiro, participaram no plano na concepção os seus camaradas Blanqui Teixeira e Arménio Ferreira, médico cardiologista, este último um dos mis indefectíveis amigos que Neto encontrou em toda a sua vida.
Ávaro Cunhal, Presidente do PCP
(patrocinador da fuga)
De acordo com o plano gizado pelo PCP (Partido Comunista Português) começou por adquirir um pequeno iate de recreio, por intermédio de um oficial da Marinha ideologicamente afecto, que para todos os efeitos legais era o respectivo proprietário. A esse oficial, o então primeiro-tenente da Armada José Nogueira, foi atribuída, além da compra do barco e dos respectivos mantimentos, a incumbência de pilotar a embarcação até ao destino escolhido: Tânger, no norte de Marrocos.
Entretanto, Agostinho Neto e a família saíram da residência que habitavam em Alfama – e onde estavam sob a mais intensa vigilância da PIDE -, indo instalar-se em Sintra, perto da Praia das Maçãs, numa casa de férias pertencente a Maria Amélia da Silva, mãe de Maria Eugénia Neto. (…)
Agostinho Neto e a esposa Maria Eugénia aguardando a fuga.
“Foi nesta casa” – conta Dias Lourenço – “que nos reunimos, eu, o Arménio Ferreira e o Agostinho Neto, para combinarmos os pormenores da fuga, sem esquecer as ligações internacionais que era preciso estabelecer com vista a garantir o apoio no destino. Assim, entrámos em contacto com o Istiqlal, partido no poder em Marrocos, para dar cobertura à entrada clandestina dos fugitivos para Tânger, possibilitando-lhes depois a saída para Argel e outros destinos”. (…)
Casa na Praia das Maçãs onde Agostinho Neto e a esposa se refugiaram
enquanto aguardavam a fuga.
Mas como nem só de fugitivos se faz uma longa viagem por mar, sobretudo se estas não forem bons mareantes, havia que ter em conta que um só piloto não bastava para assegurar todas as tarefas de bordo. E é assim que surge o nome de Jaime Serra, militante do PCP desde a adolescência e em cujo currículo, figuram várias prisões e numerosas fugas, qual delas a mais arriscada e espectacular, como aquela em que se evadiu do Forte de Peniche juntamente com Álvaro Cunhal. (…)
Dias Loureiro, Jaime Serra e José Nogueira do PCP, protagonistas na fuga de Neto.

Finalmente, no dia “D” (30 de Junho, segundo os registos de Jaime Serra, embora Cunhal se refira a 6 de Julho), Arménio Ferreira foi à Praia das Maçãs buscar Agostinho Neto, a mulher, Eugénia Neto e o filhos Mário Jorge e Irene Neto, ele com um ano e meio e ela com menos de um ano. Bagagem, a mais elementar, até para não dar nas vistas. (…) 

Conta Jaime Serra que o embarque “fez-se calmamente, como se tratasse de uma família burguesa que fosse dar um passeio ou fazer uma pescaria na costa num fim-de-semana. Tudo isto ali mesmo nas barbas da Guarda Fiscal, que tinha próximo um posto de vigilância da fronteira marítima, então à sua guarda”.
Pouco a pouco, o “José Gabriel” encaminhou-se para a barra do Tejo, ganhou a linha do horizonte e perdeu-se na distância. Refira-se que o barco foi baptizado e registado na Brigada Naval por José Nogueira, tendo por “padrinho” involuntário o seu filho com o mesmo nome e que, na altura, andaria pelos seis ou sete anos. (…)

José Nogueira – que não só comprou, como equipou e abasteceu o “José Gabriel”, servindo-lhe de piloto despenseiro – recorda que a primeira parte da viagem decorreu sem problemas: “Fizemos a navegação costeira, dobrando o Cabo de São Vicente já de manhã. Lembro-me de que o Neto, com a sua sensibilidade de poeta, ficou impressionado com o promontório de Sagres, sem dúvida espectacular visto de bordo, que me pediu para ali para um bocadinho, a fim de apreciar devidamente a majestosa paisagem”. (…)
“A meio da tarde – é ainda José Nogueira a falar – partimos para a navegação oceânica rumo a Cádis, cujas luzes avistámos ao cair da noite”. Foi no percurso seguinte, que, sobretudo ao largo do cabo de Trafalgar, as coisas se complicaram. O movimento agitado das marés, associado a uma intensa ventania e às fortes sacudidelas produzidas pelas vagas alterosas, transformaram o “Gabriel” num indefeso joguete nas mãos do destino. Perdida que foi uma âncora (felizmente havia outra sobressalente), o barco andou momentaneamente à deriva e foi difícil domá-lo. Os “turcos” (designação escravocrata dos ganchos que seguram os salva vidas) cederam à fúria dos elementos. Um dos botes soltou-se e foi arrastado no turbilhão das águas revoltosas, desaparecendo para sempre.
Perante este cenário dantesco, não é difícil imaginar o horror dos passageiros a bordo, todos envergando coletes de salvação. “Para as crianças, e sobretudo, para a mulher de Agostinho Neto – conta Jaime Serra – ,”foram horas de grande angústia. (…)
Agarrada às duas crianças, o desespero de Maria Eugénia atingiu tal paroxismo que Agostinho Neto chegou a pedir que se interrompesse a viagem e se desembarcasse na costa espanhola. Foi aí que Jaime Serra assumiu por inteiro o papel de responsável político, opondo-se terminantemente ao que classificou de “falsa solução”. Se o grupo fugia de Portugal e dos fascismo do ditador Salazar, não era para se entregar em Espanha e o fascismo do ditador Franco. Claro que todos acabaram por concordar que seria pior a emenda que o soneto.

Felizmente a situação melhorou e – conta José Nogueira – “passámos a noite numa acolhedora baía de Tarifa e daí seguimos directamente para Tânger, onde chegámos à hora do almoço. Fizemos a refeição a bordo e procedemos em seguida ao desembarque no salva-vidas a remos que nos restara”. Tinham decorrido três dias desde a partida de Lisboa. O desembarque verificou-se segundo Jaime Serra, em várias etapas: “Começámos por transportar Maria Eugénia e as crianças para a praia, depois as bagagens e, finalmente, Agostinho Neto e Vasco Cabral”. (…)

E quanto aos fugitivos desembarcados em Tânger? Tal como se previa, foram prontamente acolhidos pelas autoridades marroquinas, sendo encaminhados para Rabat, onde Maria Eugénia ficou alojada com os filhos, em casa da sua cunhada Ruth Neto, enquanto Agostinho Neto seguia para Léopoldville (actual Kinshasa). Ali realizou uma conferência de imprensa, na qual anunciou ao mundo o propósito que então o animava: “a unificação das forças nacionalistas numa frente comum”.(…)

Entretanto, Álvaro Cunhal que se encontrava em Argel no desfecho da odisseia marítima, soube imediatamente que a operação terminara em êxito e, em telegrama cifrado, deu conta disso a Dias Lourenço, segundo este nos asseverou. (…)

Neto desce de Rabat para Léopoldville, hoje Kinshasa, onde está instalado o Comité Director do MPLA. Logo condena pública e severamente o brutal erro estratégico da UPA, de que só sobrava um fogo de canhangulo contra armas de repetição, canhões e aviões do exército português. Da guerra resulta o início de um boom económico. O Governo colonial pratica algumas reformas para melhorar a vida dos “indígenas”, até aí sem direito a Bilhete de Identidade. Por razões militares, estradas asfaltadas, pontes em betão e pequenos aeroportos começaram a abrir o país. A guerra, para alguns, é sempre um bom negócio. Para o povo, não, nunca foi.

Antes de acabar o ano de 62, Agostinho Neto é eleito presidente do MPLA, durante a 1ª Conferência Nacional do Movimento, em Léopoldville. (…)
A representação do movimento instala-se perto de Dar-es-Salam, em Kurasini, numa velhíssima casa. No quintal, estacionavam os camiões “Kratze”, capazes de transportar, com os atrelados, mais de vinte toneladas. Mas antes de eles os “Volvo” oferecidos chegarem, eram bem menos modernos os transportes da logística, que atravessavam a Zâmbia de ponta a ponta até descarregarem na fronteira de Angola. Como uma vetusta “Bedford”, saída há tanto tempo da linha de montagem que quando partiu um semieixo, não se lhe encontrou substituto.
Perto da representação ficava o kimbo, conjunto de edifícios onde viviam as famílias de Neto e de outros quadros, como Daniel Chipenda, que viria a dar no que deu. Mas essa é a estória a contar mais adiante. (…)

“A luta continua, a vitória é certa” são, como de costuma, as palavras de Agostinho Neto a fechar o texto de abertura lido em conferência de imprensa, em Brazza, corria o mes de Janeiro de 1967. Nesta ocasião, revelou: “O movimento que dirige a luta de libertação do povo angolano lançou a palavra de ordem “generalização da luta armada a toda a extensão do território nacional”. Estamos orgulhosos – disse nessa ocasião – “por poder afirmar hoje que, durante o ano que há pouco findou, a luta do nosso povo registou as vitórias mais significativas, que nos permitem prever para um futuro próximo o estado de insurreição geral da população, o qual o conduzirá à vitória final sobre o colonialismo”.

Neto refere, ainda o reforço da presença militar portuguesa para fazer frente aos “nacionalistas” cujo grau de aperfeiçoamento militar melhora e cuja consciência política aumenta proporcionalmente à extensão do território controlado, que compreende uma região bastante mais vasta e extensa que Portugal”. (…)

Havia território libertado e população em demasia para os quadros existentes, mesmo com o reforço dos que foram transferidos, com suas famílias, da Frente de Cabinda. Por isso mesmo a 3 de Janeiro de 1968, Agostinho Neto utiliza os microfones de “Angola Combatente”, também a irradiar de Dar-es-Salam, para lançar uma ordem, ou um apelo: “Todos os angolanos devem regressar a Angola e viver aí uma vida verdadeiramente livre, dentro das dificuldades da luta”, pois “existem hoje áreas, dentro do país, controladas pelo MPLA.
Numa dessa áreas está estabelecido o Quartel-General do nosso Movimento”. Dirige-se directamente “aos nacionalistas angolanos refugiados nos países vizinhos” e insiste: “Todos os angolanos sinceramente patriotas têm de regressar agora ao interior do país. Têm de trabalhar”.
Agostinho Neto preside a uma reunião de guerrilheiros do MPLA
numa Chana do Leste
Ao sucesso da luta armada, ao sucesso da organização de células clandestinas nos centros urbanos, juntam-se sucessos no plano internacional. Na Europa, há comités de apoio aos movimentos de libertação das colónias portuguesas em quase todos os países, mesmo numa França que recusa sempre visto de entrada a Agostinho Neto. Nas Nações Unidas, a posição de Portugal torna-se difícil. Nesta frente, a mais importante das vitórias ocorre a 20 de Junho de 1968, data em que a OUA reconhece o MPLA como único representante e organização combatente do povo angolano retira todo o apoio à FNLA.

Também em 1968, o ditador português, António de Oliveira Salazar, cai de uma cadeira e sai de cena, sendo substituído por Marcelo Caetano, que promete reformas, tenta liberalizar e modernizar o sistema, mas não consegue senão aumentar o descontentamento em todos os sectores, menos o dos velhos salazaristas. (…)

Não crê que o sucessor de Salazar mude a política colonial portuguesa mas refere, com satisfação, que todas as organizações democráticas se pronunciam contra a guerra colonial. “Os portugueses antifascistas e os anti-colonialistas são nossos aliados”, disse Neto em Cartum, “e isso dá-nos a certeza de que não existem contradições insolúveis entre o povo de Angola e o povo português”. (…)

Sobre a situação em Angola, revela a chegada das forças da guerrilha à 5ª Região, o estratégico Bié, coração do país onde sonhava construir uma nova capital, enquanto nas zonas libertadas novas escolas primárias foram criadas, nelas se estudando por livros concebidos e editados pelo MPLA, enquanto “centenas de militantes recebiam treino no exterior, em países amigos”. (…)

Em Outubro e Novembro, dezenas de prisões levam à transformação do forte de S. Pedro da Barra – que protegia a entrada da baía de Luanda no tempo dos navios à vela – numa das piores cadeias políticas da colónia. Outras serão abertas, incluindo a de S. Nicolau, em Moçâmedes. Manuel Pedro Pacavira, um dos muitos patriotas que por lá passou, guarda na pele das costas e na memória as recordações desses tempos. (…)

Não houve 25 de Abril em Angola. Nem 1º de Maio. Durante quase duas semanas, quem vive em Angola vive num tempo suspenso. O último governador-geral, Santos e Castro, cumpre o programa pré-estabelecido de visitar uma fábrica quando em Lisboa nascem cravos no cano das espingardas. Interrogado por um jornalista, diz simplesmente: “Manterei a totalidade das minhas funções e responsabilidades enquanto não receber ordens em contrário…”


O golpe militar em Portugal encontra Agostinho Neto no Canadá, em busca de apoio ocidental para o MPLA e a manter contactos com a Cabinda Gulf Oil. Mais tarde, assistir-se-ia ao impensável: militares cubanos a protegeram as instalações petrolíferas americanas, americanas, de angolanos financiados e armados pelos Estados Unidos e pela China.

Agostinho Neto, perante as hesitações do general Spínola em reconhecer o direito à autodeterminação e à independência das colónias portuguesas, faz saber que a luta armada só terminará quando quem manda em Portugal aceitar “a independência imediata e total de Angola”. (…)

Uma trégua tácita já parou a guerra com a potência colonial quando o acordo de Lunhameje, assinado a 21 de Outro numa tenda levantada no meio da chana do Lucusse, lhe põe um fim com carimbo oficial. Agostinho Neto chefia a delegação angolana, que chega ao local do encontro por uma picada aberta a pulso, onde um camião “Kratze” não consegue passar.

Neto e o almirante Cardoso assinam o acordo de tréguas.
Do lado português, a delegação, presidida pelo almirante Leonel Cardoso, virá de helicóptero e, com ela, alguns angolanos. O que poderia ter sido um momento feliz foi, também de mágoa. Costa Andrade (Ndunduma), um dos presentes, conta que entre os guerrilheiros e alguns recém chegados de Luanda estalou acesa discussão. Estes últimos defendiam a tese de o direito à nacionalidade ser reservado apenas aos angolanos negros, enquanto os brancos e mestiços que tivessem participado na luta a deveriam requerer. Quando veio à baila “a esposa de raça branca”, Neto levantou-se, abandonou o local e foi sentar-se debaixo de uma árvore, caderno de apontamentos sobre o joelho, ensimesmado e triste, como documenta uma foto hoje célebre, tirada por Marise Taveira.
“Se as coisas estão assim em Luanda, depois destes anos todos, penso que então chegou para mim o momento de descansar. Vou dedicar-me à medicina, estar mais tempo com a minha família e deixar a presidência do MPLA”, desabafou Neto para “Ndunduma”. (…)

A 8 de Novembro chega a Luanda, de avião, a primeira delegação oficial do MPLA, chefiada por Lúcio Lara, integrando membros do Comité Central e das organizações de massas. Instala-se no nº. 100 da Rua João de Almeida, à Vila Alice, vivenda de dois pisos com quintal à frente e traseiras para a estrada de Catete. A maioria do que restava da população branca, já consciente de que a miríade de “partidos políticos” por ela recém-formados não seriam ouvidos nem achados, e falhada uma tentativa de independência unilateral, “à rodesiana”, torna-se sobretudo “simpatizante” da FNLA e da UNITA, também já instaladas na capital.

A chegada de Agostinho Neto a Luanda, na manhã de 4 de Fevereiro de 1975, é apoteótica. Nunca se viu, antes, nada assim, tão espontâneo, tão sentido, tão exaltante. Cálculos por alto apontam mais de cem mil pessoas, a fazerem o que podiam para caber no aeroporto e na pista de aterragem, invadida mal o avião parou. Uma desta única, global, aquela de que se guarda recordação e de que quem a viveu falará sempre.
Chegada de Agostinho Neto a Luanda.
Neto, ficou demonstrado ali, era aquele por quem se esperava. A acenar do alto de um pequeno carro blindado do exército português, todas as medidas de segurança completamente rotas, acabou por conseguir chegar ao edifício do aeroporto. Da varanda de ver chegar as partidas, o presidente do MPLA, quando consegue dominar a emoção, agradece de improviso a extraordinária recepção e lembra:

“O nosso Movimento, O MPLA, tem simplesmente um desejo: é que a partir de agora harmonizemos os nossos esforços. Nós temos de fazer com que o nosso povo se sinta realmente senhor do seu país, que seja livre, que a unidade e a democracia não sejam palavras que nós pronunciemos simplesmente diante dos microfones, mas que sejam os ideais que na realidade nós defendemos”. O seu desejo não foi ouvido.
Ainda nessa ocasião, Agostinho Neto faz o que pode para sossegar a população de origem europeia. Refere que o piloto do avião que o trouxe, o comandante Casanova Pinto, foi seu colega de liceu, e refere a maneira como foi recebido na escala pela base aérea de Henrique de Carvalho, que “mostra que a colaboração é possível dentro da independência, que a amizade é possível dentro da democracia”. (…)
Após o Acordo de Alvor Neto  visitou a Associação Portuguesa de Escritores.
“Na pequena vila algarvia do Alvor, na baía de Lagos, acaba enfim por ser assinado, a 15 de Janeiro de 1975, entre o MFA, o MPLA a UNITA e a FNLA, o acordo final, em que Portugal se compromete a conceder a independência total e completa a Angola em 11 de Novembro, após um governo constituído por elementos provenientes dos três movimentos”. (…)
Agostinho Neto visitando a prisão do Aljube da PIDE onde esteve.
No mesmo mês das assinaturas do Alvor, a CIA fornece ajuda militar à FNLA no valor de 300 mil dólares. A parada sobe para os 14 milhões de dólares, quando o MPLA, com o apoio da população, expulsa os homens de Holden Roberto de Luanda. Estes reconhecem-se facilmente: a maioria só fala lingala e quase todos, usam óculos escuros de aro metálico.

A família de Neto chega à capital a 25 de Abril de 1975 e instala-se numa vivenda no bairro do Saneamento, perto do Palácio do Governo. Está decretado o recolher obrigatório das 9 da noite às 6 de manhã. É o tempo de as balas tracejantes abrirem caminho alto à outras que não se vêem. A morte em combate do comandante Jika, em Cabinda, agrava ainda mais a situação. De dia, o ritmo é outro: um barulho surdo e continuado, de gente a pregar caixotes na cidade do asfalto. De gente que desiste e só pensa em partir. O mesmo se passa noutras cidades de Angola. (…)

Em Agosto, o Governo de transição desfaz-se. Os ministros da UNITA partem para o Sul, os da FNLA para o Norte. Começa a segunda guerra de libertação. Do Norte desce uma FNLA carente de oficiais, devido ao fuzilamento, em Kinkuzo, dos mais de setenta que se revoltaram contra Holden Roberto, dois anos antes. Com ela, a elite da tropa de Mobutu e mercenários portugueses e de outras nacionalidades. A Sul, Jonas Savimbi espera o exército regular sul-africano, que entra em Angola pela Namíbia e sobe pela Huíla, Huambo, parte do Bié e Benguela, chegando uma das suas pontas de avanço até cerca de 150 quilómetros de Luanda. No meio, o MPLA parece presa fácil, tanto mais que a URSS pouca ou nenhuma ajuda fornece. Essa virá, sim, da Jugoslávia, sobretudo em armamento; de Cuba, em homens experimentados e combativos; também de Moçambique e da Guiné-Bissau e ainda de alguns outros países africanos, poucos. Da Argélia, da Nigéria e da Guiné-Conakry de Sekou Touré, que envia um batalhão, armas e meios logísticos. Rosa Coutinho, um dos Altos-comissários, ajudara tanto quanto pudera. Muitas armas passaram dos quartéis para outras mãos. (…)
Arrear da Bandeira portuguesa no Palário do Governador.
Ao pôr do Sol do dia 10 de Novembro, a bandeira portuguesa é arriada pela última vez no Palácio do Governo e na Fortaleza de Luanda. De manhã, no salão nobre do Palácio, o último alto-comissário, Leonel Cardoso, fizera a declaração de despedida: “Portugal entrega a Angola aos angolanos, após quase 500 anos de presença. (…) Portugal parte sem sentimento de culpa e sem ter de que se envergonhar. (…) A única recriminação que poderá aceitar é a de ter dado provas de extrema ingenuidade política quando concordou com certas cláusulas do Acordo de Alvor”.

Uma semana antes, a cidade branca acabara de se esvaziar. Quase meio milhão de portugueses, em ponte aérea ou de barco, regressou a Portugal. Um país a nascer ficou sem quadros essenciais. Alguns, poucos, permanecem. Para esses, tornou-se há muito automático um certo aperto de mão em três movimentos, espécie de sinal de reconhecimento de que é do “M”.

 

Êxodo dos portugueses abandonando tudo o que tinham devido
à falta de segurança que lhes tornou a vida em Angola impossível.
No dia da independência, Luanda está praticamente cercada. A norte, na margem direita do Bengo, tinham tomado posições forças militares da UPA, seus aliados do Zaire e mercenários comandados por um coronel português Santos e Castro. Os canhões térmicos fornecidos por Pretória, que também apoia esta frente, têm a capital ao seu alcance. A Sul, perto da margem esquerda do Cuanza, preparavam-se para o assalto as forças da UNITA, apoiadas e reforçadas pelas tropas regulares da África do Sul. (…)
Às zero horas de 11 de Novembro de 1975, a bandeira da República Popular de Angola sobre no mastro, com elementos sobreviventes do 4 de Fevereiro de 1961 a prestar-lhe guarda de honra e sob o olhar de todos os luandenses que conseguiam vê-la, mesmo de longe.

“Em nome do Povo Angolano, o Comité Central do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) proclama solenemente, perante a África e o Mundo, a independência de Angola”. – foram as primeiras palavras de Agostinho Neto. “Nesta hora, o Povo Angolano e o Comité Central do MPLA observam um minuto de silêncio e determinam que vivam para sempre os heróis tombados pela independência da Pátria”, prosseguiu. E foi no silencio que subiu e se desfraldou a bandeira da catana e da roda dentada ao centro, sobre as cores de sempre do “M”, o vermelho e o amarelo. Não está presente nenhum representante de Portugal. (…)

As formalidades de investidura no cargo de Presidente da República serão cumpridas, nesse mesmo dia, no salão nobre da então extinta Câmara Municipal. Do Largo da Mutamba, onde não cabe mais ninguém, levanta-se uma explosão de aplausos, abafando o som das armas pesadas que troam ao longe. A tenaz fecha-se sobre Luanda. A Norte, a três dezenas de quilómetros mal medidos, está estabelecida a primeira e única linha de defesa, em posição elevada. Tudo quanto é capaz de atirar está ali, mesmo peças da II Guerra Mundial deixadas para trás pelo exército português. Nas trincheiras ouvem-se línguas de muitos países. Numa ponta do morro há marinheiros portugueses, os que foram maltratados pela FNLA em Santo António do Zaire e estão sedentos de vingança.
A “arma secreta” é constituída por dois grandes camiões de origem soviética que disparam salvas de 40 mísseis, os chamados “monakaxitos”. Tudo está pronto para o que ficará na história de Angola como a vitoriosa batalha de Kifangondo. Que se trava ainda as emoções da “Dipanda” estão quentes. (…)
Agostinho Neto em 1975 com alguns dirigentes principais do MPLA
Poucas horas antes, (Agostinho Neto) tocaria um outro ponto, muito sensível: a presença de milhares de militares cubanos, à altura cerca de 10 mil. E a quantidade de material de guerra de origem soviética constituíam motivo de forte preocupação para as potencia ocidentais. Falando nas comemorações da 19º aniversário da fundação do MPLA, Agostinho Neto separou as águas: “Não nos venham dizer que pelo facto de sermos ajudados por países socialistas, isso significa que nós estamos a seguir a sua política. Não é nada disso. No MPLA sempre seguimos uma política de não alinhamento. Nenhum país no mundo pode dizer que ditou, que orientou, a política do MPLA”.(…)
Agostinho Neto  Presidente de Angola
Como Presidente da República Popular de Angola, Neto continuou a ser o mesmo homem de gostos simples, a exigir de si sempre mais do que pedia aos outros, para exemplo. (…)
Morreria sem sequer prover a segurança financeira da família, (o sublinhado é nosso) agora a viver no enorme Palácio, com os constrangimentos protocolares e outros daí resultantes. A pretexto de que o edifício precisava de obras, O presidente muda-se para uma vivenda no Futungo de Belas, onde se mantém hoje a verdadeira sede do poder. (…)
Maria Eugénia Neto
(viúva de Neto, foto actual)
Nesse mesmo ano de 77, em que o 1º Congresso Nacional proclama a constituição do MPLA em Partido do Trabalho e define a via socialista, Luanda assistirá a uma tentativa de golpe de Estado, com a mão escondida da União Soviética e, bem à mostra, a de pessoas politicamente formadas em Portugal, agindo conta própria ou não, vá lá saber-se…O “golpe” ocorre a 27 de maioe custa a vida a sete membros do Comité Central. A sua preparação vem de muito antes, com três nomes à cabeça: José Van-Dúnem, Nito Alves e a portuguesa Sita Valles.

No regresso de uma demorada visita à União Soviética, o ex-comandante da 1ª Região Político-Militar, geralmente tido como o “delfim” de Agostinho Neto, inicia na antiga Câmara Municipal uma série de conferências, duas das quais publicadas no Jornal de Angola. Utiliza uma linguagem hermética, adoptada pelos que viriam a ser conhecidos por “fraccionistas” que se infiltraram até aos mais altos níveis do aparelho do MPLA, governo e exército incluídos.

O pretexto utilizado é a política económica, que consideram demasiado moderada; a urgência de uma industrialização capaz de formar uma classe operária forte; e a presença de demasiados brancos e mestiços no Governo. Em Outubro de 1976, uma reunião do Comité Central condena Nito Alves por fraccionismo e extingue o Ministério do Interior que ele dirige. Uma comissão de inquérito recebe o encargo de investigar informações que Van-Dúnem e Nito Alves provocaram uma deliberada quebra nos abastecimentos e atrasaram o pagamento de salários à FAPLA, a fim de criarem uma vaga de descontentamento. A comissão dá as acusações como provadas e ambos são expulsos do Comité-Central, em princípios de Maio.

A 27, tem lugar o golpe: a cidade acorda com soldados armados nas principais artérias, a Rádio Nacional cai nas mãos dos revoltosos e começa a transmitir propaganda nitista. Antes, homens armados raptaram elementos-chave. Um dele, Hélder Neto, chefe de Segurança, prefere suicidar-se.

Não há qualquer reacção até se revelar quem, no Quartel-General, participa na acção. Logo que tal acontece, os “putchistas” são esmagados. Segue-se dura repressão. Oito governadores provinciais, nomeados por Nito, são demitidos. Os principais responsáveis, julgados e fuzilados. Centenas de “nitistas” são colocados em campos de reeducação. Angola, já exangue de quadros, ficou-o ainda mais – e mais dependente do exterior. Em consequência do Movimento de Rectificação que se seguiu, o número de militantes do MPLA baixou de 110 mil para 32 mil membros. E esta é, ainda hoje, uma das páginas mais sombrias da história de Angola independente. (…)
Presidente Agostino Neto já doente
(foto particular).
Já doente, Agostinho Neto percorre o Moxico, Bié, Cuando-Cubango, Malange e Uíge, como que a despedir-se do país a que se consagrou. De uma das vezes em que dirige à população, dirá mesmo não haver homens insubstituíveis. A 10 de Setembro de 1979, morre (assassinado) numa mesa de operações do principal hospital de Moscovo. Foi assim…
Funeral de Agostinho Neto em Luanda.
A vida de um homem do tamanho deste filho de África não se conta numa noite. Ficou muito por falar, muitos nomes por dizer, muitas estórias pequenas, algumas grandes também, guardadas para outra fogueira, se for o caso…Não se pode chorar mais.
O povo em Luanda chorando a morte do seu Presidente.
O povo já chorou tudo quanto podia, quando lhe foi receber o corpo embalsamado ao mesmo aeroporto que transbordara de alegria naquele 4 de Fevereiro de 75, aos gritos de “Neto” Neto! Neto”. Agora gritou, sem ser em coro: “Mataram-no, mataram-no!”, com as mulheres a rasgarem os panos e a cobrirem a cabeça de terra. Já chorámos tudo. Nem komba (ritual de luto com carpideiras) teve, nosso Pai da Pátria, guardado num caixão de vidro para a gente o ver, aiué!, para a gente o ver como ele não estivesse connosco, dentro de nós, sagrada esperança.
NR: Faz hoje 36 anos o primeiro dia da independência de Angola, pelo que se recorda aqui a vida do primeiro presidente da República Popular de Angola.


Tráfico de escravos africanos por muculmanos-árabes


La traite négrière arabo-musulmane por Alalamein


 Ver também AQUI importante video sobre tráfico de escravos africanos por muculmanos-árabes


...Muito antes das aventuras náuticas lusas começarem, negros se escravizavam uns aos outros, seja para se venderem entre si, seja para se venderem aos árabes. É certo que, dos séc. XVI ao XIX, pelo menos tantos negros escravizados atravessaram o Atlântico quantos atravessaram o Saara. Como o tráfico trans-saariano data do tempo dos faraós, é claro que muitíssimos mais negros foram levados para os sultanatos árabes do que para as Américas. Esse tráfico só foi extinto após a primeira guerra mundial, pelas potências coloniais, e não por negros ou por árabes; se dependesse deles, o tráfico teria continuado até os dias de hoje, pois essa prática fazia parte de sua ‘identidade cultural’. Já o tráfico pelo “Rio Atlântico” (designação criada, se não me engano, por Alberto Costa e Silva) praticamente acabou em meados do sec. XIX, em função de interesses e crenças da potência colonial maior, à época, o que evidencia que a escravidão não era um legado importante na cultura européia, apesar das teorizações, sobretudo  religiosas, quanto à maldição de Caim. Ou seja: se o mercantilismo renascentista serviu-se da escravidão negra para sua expansão, foi o desenvolvimento desse mercantilismo, transformado em capitalismo, que selou o fim da escravidão na forma como foi praticada por europeus dos sec. XVI ao XIX. Enquanto isso, árabes e negros mantinham sua evolução... estacionária, quando comparada ao que ocorreu, no mesmo período, na Europa. Felizmente, a cultura européia inventou o estado laico, dificilmente aceitável pelos árabes, e que é muito ficcional nos pseudo-países negros − muito embora fundamentalismos, sempre religiosos, nos EUA e também no Brasil, preguem a volta ao Estado por princípio divino 
Havia uma mercadoria muito apreciada pelos árabes: o negro castrado, fornecidos por regiões especializadas da África Negra aos caravaneiros do Saara. Não sei de exportação dessa mercadoria para as Américas, mas dezenas e, talvez, centenas de milhares de pares de testículos foram arrancados para fornecer castrados aos compradores interessados − os árabes, claro. Ainda na África negra havia cerimônias no enterro de sobas que consistiam em desviar o leito de um rio para lá depositar o defunto, acompanhado de seus bens, que incluíam escravos vivos; depois, era só fazer o leito do rio voltar ao normal. Cultura, identidade cultural também é isso aí.

É clara a intenção anti-ocidente das denúncias oportunistas da escravidão nas Américas: tudo é feito no sentido de inocentar os próprios negros e os pobres árabes de sua ativa, essencial e histórico-cultural participação no tráfico. Apela-se, inclusive, para chavões do tipo “direito inalienável à liberdade”,  “dignidade essencial do ser humano”, “igualdade de direitos” etc., como se esses fossem princípios universais, encontráveis em toda e qualquer cultura. Na realidade, eles foram cimentados a partir do séc. XVII, na Europa, com as idéias de “liberté, égalité, fraternité”: “la liberté des nègres” foi um dos temas debatidos por ideólogos da Revolução Francesa, tendo sido, inclusive objeto de cantigas que celebravam esse ideal. É claro que esses ideais libertários e igualitários ficaram muito nos mundos das idéias, mas o movimento intelectual que lhes deu origem é essencialmente europeu e datado. Sua raiz é judaico-cristã, mas foi sua laicização que lhes deu a força necessária para combater certas desigualdades.
Quanto ao chamado preconceito de raça, ele deriva, basicamente, da desconfiança ancestral de tudo o que é diferente. Os negros não se escravizavam uns aos outros por serem racistas, mas por serem ‘etnistas’, ‘grupistas’, ‘tribalistas’: quem não pertencesse a determinado grupo era, naturalmente, suspeito, ou inimigo, e, portanto escravizável. Essa desconfiança ancestral do diferente tem um enunciado muito simples: as pessoas boas e confiáveis são como eu; o diferente é, por natureza, suspeito, pouco confiável e, muito possivelmente, culpado, seja lá do que for. Superar essa atitude primitiva exige um enorme esforço pessoal, uma quase ascese no sentido de não se achar o centro da verdade, da bondade. Mas o diferente não é, necessariamente, bom: o pedófilo, o matador serial, são diferentes e são culpados.
A idéia de preconceito é, essencialmente, preconceituosa... no mau sentido. Eu, que sou bom, não tenho preconceitos: os conceitos prévios que eu tiver não serão, jamais, preconceitos (no mau sentido), mas idéias amplas, generosas, verdadeiras etc. − ou seja, preconceitos bons. Quem tem preconceito − isto é “conceitos maus” − são os outros, os que não pensam como eu; preconceito é o conceito do outro. Esse tipo de argumento é muito utilizado para infirmar ou ridicularizar pensamentos contrários ao meu. Mas é impossível pensar, ou dar um passo, sem ter conceitos prévios, ou preconceitos. A cultura é uma estratificação de conceitos; ela é essencialmente preconceituosa. Há culturas cujos preconceitos têm uma capacidade de mobilidade, de transformação, que não ocorre em outras culturas. O lugar em que essas culturas móveis mass se desenvolveram foi a Europa, a partir de pressupostos cristãos, que se banquetearam com um pensamento grego transmitido pelos árabes e que chegaram à definição do estado laico, como já referido.
Foi observado que o problema essencial do negro escravo, no Brasil (pelo menos), não era a liberdade (conceito estranho às culturas negro-africanas e árabes), mas não poder ter escravos. Escravos havia em Palmares, e quando negros conseguiam, em nosso país, comprar alforria, logo que podiam também compravam escravos − sem esquecer os que voltaram à África e se tornaram traficantes de escravos, ou que, mesmo continuando escravos, ganhavam a confiança de seus senhores e serviam de intermediários para o comércio que eles tão bem conheciam em suas terras de origem. Gostaria de saber, aliás, se havia, no mundo árabe ou nos EUA, instituto equivalente ao da compra de alforria, praticado no Brasil colônia.

TEXTO INTEGRAL AQUI

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Viriato da Cruz, poeta angolano



MAKÈZÚ

— «Kuakié!... Makèzú, Makèzú...»

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O pregão da avó Ximinha
É mesmo como os seus panos,
Já não tem a cor berrante
Que tinha nos outros anos.

Avó Xima está velhinha
Mas de manhã, manhãzinha,
Pede licença ao reumático
E num passo nada prático
Rasga estradinhas na areia...

Lá vai para um cajueiro
Que se levanta altaneiro
No cruzeiro dos caminhos
Das gentes que vão p'ra Baixa.

Nem criados, nem pedreiros
Nem alegres lavadeiras
Dessa nova geração
Das «venidas de alcatrão»
Ouvem o fraco pregão
Da velhinha quintadeira.

— «Kuakié!... Makèzu, Makèzu...»
— «Antão, véia, hoje nada?»
— «Nada, mano Filisberto...
Hoje os tempo tá mudado...»

— «Mas tá passá gente perto...
Como é aqui tás fazendo isso?»

— «Não sabe?! Todo esse povo
Pegô um costume novo
Qui diz qué civrização:
Come só pão com chouriço
Ou toma café com pão...

E diz ainda pru cima,
(Hum... mbundo kène muxima...)
Qui o nosso bom makèzú
É pra véios como tu».

— «Eles não sabe o que diz...
Pru qué qui vivi filiz
E tem cem ano eu e tu?»

— «É pruquê nossas raiz
Tem força de makèzú!...»

in Poemas,
Colecção Autores Ultramarinos,
Casa dos Estudantes do Império, Lisboa, 1961