domingo, 22 de janeiro de 2012

A saga dos Chingunji



 Em Janeiro de 1975, em trânsito para Luena, fiquei umas horas na cidade do Kuito. Estavam ali a minha mãe e os meus dois irmãos. Eles participavam numa Conferência da Unita, que ficou célebre por ter criado a organização infantil desse partido, a Alvorada. Eu estava muito longe de imaginar que me iria cruzar com uma família muito especial; digo especial, por ela ter povoado a minha mente com sentimentos de admiração. Mas também por ela estar marcada, como se viu mais tarde, pela mais terrível saga que podia imaginar. Recordo-me de tudo tal como se fosse hoje: num dos intervalos da Conferência, a mãe, logo que deu por nós, pediu que a acompanhássemos. Furámos a multidão que, no pátio, conversava sobre a impressão que o Líder do partido lhes causara. Detemo-nos diante de uma senhora que, segundo a mãe, fora sua colega na Escola Means do Dôndi. Ela respondia pelo nome de Violeta Jamba. Era uma mulher possuidora de uma forte personalidade e de um aprumo próprio de uma rainha.

Pelo tempo, já não disponho dos pormenores da conversa que se seguiu entre elas. Mas não me esqueci de a “tia” Violeta ter-nos olhado com respeito, ternura e admiração e ter dito à minha mãe:”cuide-os bem e faça tudo para que eles saibam tomar conta deles próprios”. Mentiria se dissesse que essas palavras não me haviam impressionado. Tinha dezasseis anos, mas isso não evitou que pensasse em algo que comentei depois com os meus entes queridos: embora indirectamente, aquela senhora estava a fazer uma apologia à vida. E, não foi por acaso que a minha mãe, retorquiu:” só reconhece o valor de um objecto ou de uma pessoa, aquele que o perdeu”. Dito por outras palavras, a "tia" Violeta já estava a viver os efeitos de uma saga que os iria envolver tal qual os tentáculos de um polvo gigante.

Uma saga é definida em qualquer dicionário em várias acepções: para os escandinavos, as sagas são lendas redigidas na Islândia do século XII ao século XIV. Para os romanos, a saga era encarada como bruxa ou feitiçaria. Actualmente, há quem defina a saga como a história, pejada de dramas, de determinadas pessoas ou mesmo como uma maldição. Esta acepção pode ser encontrada nos livros “A saga dos Kennedy” ou “ A maldição dos Kennedy” de Rose Fitzgerald Kennedy e Edward Klein, respectivamente.

Na verdade, é possível estabelecer um paralelo entre os Kennedy e os Chingunji. Isso poderia ser útil para se encontrar alguns pontos em comum sobre as fontes de uma saga. As sagas acontecem, por norma, em famílias numerosas, inteligentes, dinâmicas, empreendedoras, com um grande protagonismo social e político, que agem em função do projecto familiar de um patriarca. Diz-nos Klein que, para o caso dos Kennedy, a saga abateu-se sobre esta família pelo facto de Patrick Kennedy, um irlandês, que emigrou para os Estados Unidos da América, em 1858, ter deixado um legado de humilhação que estimulou a “imprudência e o comportamento arriscado dos seus descendentes”. Patrick Kennedy morreu aos 35 anos de tuberculose.


jonatão chingunjiTalvez não seja o caso do patriarca dos Chingunji, Eduardo Jonatão Chingunji. No entanto, não resta dúvida alguma de que o legado por ele deixado – meter-se na vida política – tenha, sob o efeito de bola de neve, levado todos os seus descendentes para o caminho dramático que se conhece.
Eduardo Jonatão Chingunji foi um professor de prestígio e Director das escolas da Missão da Chissamba. Em 1975, depois da expulsão do Mpla do Centro de Angola, foi nomeado pela Unita, como governador da província do Bié. Militante pioneiro e activo da Unita desde o tempo colonial, sofrera o desterro nas prisões do Tarrafal de onde viria a sair em 1975. O lado mais aberrante do seu contencioso com as autoridades coloniais foi o facto destes o terem separado da sua esposa, Violeta Jamba, que fora enviada para S. Nicolau.
Eduardo Jonatão Chingunji, tal como o patriarca dos Kennedy, teve várias filhos. Destes, David Jonatão Chingunji (Samuimbila), tal como o seu irmão Samuel Piedoso Chingunji (Kafundanga) não chegaram a ver a independência do país. Logo após o 25 de kafundangaAbril, com a entrada da Unita nas cidades, falava-se, de viva voz, desses dois David Jonantão Chingunjiirmãos, elevados à categoria de heróis míticos pela Unita: Samuel Piedoso Chingunji (Kafundanga) foi o primeiro chefe de Estado - Maior da Unita e viria a falecer, em 1973, de malária. David Jonantão Chingunji (Samuimbila) perdera a vida três anos atrás num ataque a um ATM do exército colonial. Mas também já se falava de uma possível participação de Jonas Savimbi na morte dos dois por rivalidades. Mas, como em todas as sagas, o mistério prevalece até hoje (recordemo-nos do mistério que envolveu a morte do presidente Kennedy).

A independência do país chegou com os Chingunji praticamente completos, à excepção dois irmãos.
Conheci Eduardo Jonatão Chingunji no Bié, em finais de 1975, durante um culto numa das igrejas evangélicas do Kuito. Um homem calmo, que inspirava respeito e admiração, pareceu-me, no entanto, demasiado conservador. Lembro-me de, nesse culto, ter-se voltado contra nós, as mulheres, que usávamos saias e calças, defendendo, com ardor e paixão, a moda africana, de as mulheres usarem panos. Atreveu-se, inclusivamente, a dizer que iria meter a polícia nas ruas, a fim de punir, com prisão, as jovens e as mulheres que se atravessem a trajar de calças e de saias. Óbvio que isso tenha caído mal a Jonas Savimbi. Este, sempre de olhos posto aos movimentos dos Chingunji, aproveitou este deslize para o atacar pública e veementemente num comício. Tratava-se da gota de água que fizera transbordar o copo. Já se sabia, na altura, que as ideias de Eduardo Jonatão Chingunji colidiam com as do Líder da Unita. Para um religioso, nacionalista lúcido, embora conservador, como Eduardo Jonatão Chingunji era difícil aceitar algumas posturas, escolhas, posições e comportamentos promíscuos de Jonas Savimbi. Isso para não falar da amálgama de ideologias e posições contraditórias do mesmo (maoísmo, alianças com o apartheid e Americanos, Negritude, etc.). Eduardo Jonatão Chingunji era um visionário nacionalista e Jonas Savimbi um estratega que agia em função dos preceitos maoístas “não importa a cor do gato, o que importa é que cace ratos”.

Em 1976, ainda na ressaca da fuga das cidades, e no meio da “Longa Marcha”, chegava a notícia da morte de Estevão Chingunji. Fora a única vítima de um ataque perpetrado pelas forças do Mpla. No entanto, e para não variar, também se ouviu dizer que a bala o havia atingido pelas costas, o que levava a crer que fora morto por um dos seus companheiros. Ou seja, por ordens de Jonas Savimbi.
unitaCruzei-me com Estevão Chingunji na cidade do Luena, em meados de 1975, muito antes de ser nomeado governador da província de Benguela e de se ter casado com Anita Chimbili. Era um homem de carácter afável, elegante. Nunca me esqueci do orgulho com que ostentava o seu certificado, postado na parede, que atestava a sua participação num concurso de piano em Nova York onde vivia e saíra vencedor. No entanto, isso era apenas o prelúdio. O pior ainda estava para chegar.

paulo chingunjiEm 1978, numa das minhas viagens à cidade do Lubango, uma colega, no tempo colonial, de Paulo Chingunji - outro filho do patriarca - do curso de História, na Faculdade de Letras, da Universidade de Angola, falava da sua morte num acidente de viação que ocorreu algures na província da Huíla.

Alice ChingunjiEm 1979, foi assassinado o patriarca dos Chingunji, Estevão Jonatão Chingunji, sua esposa Violeta Jamba, e seus dois filhos Dino Chingunji (também foi morta Aida Henda- sua esposa, a irmã desta, Vande, e o seu filho mais novo Eduardinho) e Alice Chingunji (Lulu). Esta teve, por sorte, da relação com Isaías Chitombi, uma filha. Uma das poucas sobreviventes.
Um dos traços característicos das sagas é o facto de não afectarem apenas as famílias implicadas, mas também as pessoas que se envolvem com elas. Basta, para isso, recordarmo-nos de Carolyn Bassette Kennedy e Lauren Bessette, mulher e cunhada de John F. Kennedy Jr. (filho do ex-presidente Kennedy), respectivamente. Estas pereceram juntamente com John, em 1996, num acidente de aviação.
Helena Jamba Chingunji dos SantosRealizou-se, em 1975, na Chissamba um casamento muito falado onde estive presente. O mesmo ficou famoso por duas razões: primeiro, pelos cônjuges, pois tratava-se do enlace matrimonial de Wilson Santos com Helena Jamba Chingunji dos Santos (irmã gémea de Tito Chinguji); segundo, por ter sido realizado conforme os ditames da cultura Ovimbundu. Era algo impensável para cristãos devotos e assimilados à cultura ocidental. A maldição viria, no entanto, a manifestar-se nesta família desasseis anos mais tarde. Em 1991, o mundo ficou boquiaberto quando soube da boca de Nzau Puna e Tony da Costa Fernandes, o inimaginável: Haviam sido mortos Tito Chingunji, sua esposa Raquel (Romy) e os três filhos, dois dos quais eram gémeos. A par disso, Wilson Santos, Helena Chingunji e os seus filhos (Koly, Rady e Paizinho) tiveram a mesma sorte.
A morte dos gémeos de Tito, mostrava a intenção deliberada do mandante em limpar da face da terra a família Chingunji. Tito era um homem culto, poliglota, bem-parecido que, em 1975, era visto, na qualidade de guarda-costas, Tito Chingunjisempre ao lado de Jonas Savimbi. Diplomata hábil, passou por Londres e, mais tarde, por Washington, como representante da Unita. Tito viria a sucumbir depois de ter vivido como um animal num zoo, na Jamba, acusado de ter tido um affair com Ana Savimbi (antiga namorada), e de ter sido acusado de liderar uma intentona contra Jonas Savimbi. O que se passou efectivamente foi que os americanos olhavam para ele como a melhor alternativa para a Unita. No fundo, Tito apercebera-se da influência que ganhara a nível dos americanos e consciencializara-se de que havia incidente de mais na sua família. Pelo que se sabe, procurou fugir da base onde se encontrava, tendo sido apanhado mais tarde e assassinado às catanadas. Irrelevante que é saber quem perpetrou o assassinato, não é difícil excluir a ideia de que o mandante tenha sido Jonas Malheiro Savimbi e os executores Miguel Nzau Puna, General Epalanga e o temível e terrível sobrinho de Jonas Savimbi, Kami.
DinhoNão existem sagas sem sobreviventes. Este é o caso de Eduardo Jonatão Chingunji (Dinho) filho de Samuel Chingunji (Kafundanga). Sobreviveu por estar no exterior, a estudar, e juntar-se a um grupo de intelectuais dissidentes da Unita (Jorge Chicoty, Sousa Jamba, Dias Kanombo, Lindo Kanjunju e Yamba Yamba), que cedo se distanciaram da liderança de Jonas Savimbi. Foi ministro do Turismo e, na véspera das últimas eleições, bateu com a porta.

Fica apenas por responder a questão se uma saga é ou não uma maldição sobrenatural. É claro que a racionalidade não nos permite chegar a tanto. Resta-nos apenas dizer que existem condutas propiciadoras, na geração descendente, de comportamentos de risco (poder, ambição, promiscuidade, etc.) que devem ser acautelados na medida do possível. Talvez seja uma ideia a reter pelos poucos descendentes dos Chingunji.

Voto? Votar é abdicar.

sábado, 21 de janeiro de 2012

A polémica personalidade de Jonas Malheiro Savimbi, o líder da UNITA



                                                 



 
Jonas Savimbi com Reagan e com Bush.  Os interesses em jogo levaram à  internacionalização do conflito.
  no quadro da chamada "guerra fria" entre EUA e URSS. Em termos econômicos a interferência residia nas riquezas de Angola, nomeadamente no petróleo e nos diamantes.
                                                        Ninguém dá nada a ninguém ...


Tentativas falhadas de conciliação: 
Agostinho Neto, Jonas Savimbi e Holden Roberto, com Mário Soares, Almeida Santos e Melo Antunes...
Quem era Portugal para conseguir virar o rumo traçado pelas grandes potências...  

Tentativas falhadas de conciliação: 
Sinceridade ou cinismo? Rosa Coutinho entre Savimbi e Agostinho Neto, com Lúcio Lara por detrás. Rosa Coutinho, figura polémica da descolonização, endeusado por uns, acusado por outros de favorecer o MPLA e de provocar o êxodo dos brancos de Angola e uma guerra fraticida entre povos irmãos... Será? Apesar dos esforços, Portugal não era mais que uma peça minúscula nos jogos da política internacional.


 

 Tentativas falhadas de conciliação: Agostinho Neto e Savimbi. O que estariam neste momento a congeminar?



  Tentativas falhadas de conciliação: 
Holden Roberto, Savimbi e Agostinho Neto. Seria de prever que com a internacionalização do conflito os Acordos de Alvôr nunca iriam ser cumpridos!


 Jamba


  Demonstração de poder através de armas e de ..."carne para canhão" !


 José Ndele, Jonas Savimbi, Miguel N'zau Puna e António Dembo

 O triunvirato e mais um: Miguel Nzau Puna, Sangumba, J. Savimbi e J. Chiwale. Sangumba (comandante em chefe) que seria impiedosamente fuzilado

 Fotos retiradas do facebook

Quem era Jonas Malheiro Savimbi?

" Jonas Savimbi era um homem altamente complexo e cheio de contradições.  Gostava muito de livros e da educação, mas matou muitos intelectuais que divergiram dele. Afirmava ser um lutador pela democracia e pela economia livre, mas criou escolas para quadros, onde eu próprio me  licenciei, que ensinavam o maoismo. Dizia-se um democrata, mas não tolerava as críticas. Para alguns angolanos, Savimbi é a encarnação do diabo; para outros, é um dos líderes mais inteligentes, mais determinados e mais corajosos que Angola teve até hoje. Qual será, então, a verdade?

A vida de Jonas Savimbi pode ser dividida em três  fases: o Savimbi da etapa inicial, o Savimbi da etapa intermédia e o Savimbi da etapa final. O da etapa inicial foi um produto do sistema colonial português. Nasceu em 1934 em Munhango, estação da linha de  caminho-de-ferro de Benguela, onde o pai era chefe de estação - na época, um lugar impressionante para um africano. Savimbi sofreu a humilhação por que passaram muitos negros angolanos, inteligentes e ambiciosos. Tinha antipatia pelos «assimilados» e por alguns mulatos quefaziam então parte da classe privilegiada. (Mais tarde, Savimbi iria atenuar a sua hostilidade em relação aos brancos, criando grandes amizades com alguns deles). 
Em finais dos anos 50 obteve uma bolsa de estudo para Lisboa a fim de estudar Medicina, mas, depois de muitas perseguições movidas pelas autoridades portuguesas, fugiu para a Suíça onde estudou Ciências Políticas. Voltou para África, aderiu à FNLA e tornou-se seu secretário para os Assuntos Externos. Viajou por todo o mundo e estabeleceu ligações com muitos nacionalistas africanos incluindo Jomo Kenyata, do Quénia, e o falecido Felix Houphouêt-Boigny, da Costa do Marfim. Savimbi foi para a China, onde conheceu o Presidente Mão, e adoptou a revolução chinesa como modelo.

Regressou clandestinamente a Angola e, em Dezembro de 1966, levou a cabo o  primeiro ataque, em Luau, na província do Moxico. Em 1974, por ocasião da revolução em Lisboa que derrubou o regime colonial fascista, a UNITA, de Savimbi tornou-se num dos três movimentos de libertação que competiram entre si pelo apoio dos angolanos. Os outros dois eram a FNLA e o MPLA. O MPLA seria o vencedor da guerra civil que se seguiu à partida dos portugueses.

O Savimbi da etapa intermédia vai de 1975, quando os apoiantes da UNITA foram forçados a fugir das cidades para o mato, até 1983, quando, com a ajuda dos americanos e dos  sul-africanos, o movimento atingiu o seu apogeu. O Savimbi da etapa intermédia era carismático, eficiente e amado pelos seus colaboradores mais próximos.

Sem Savimbi a UNITA teria desaparecido nessa altura. Savimbi conseguiu, habilmente, atrair muitos professores, enfermeiros, mecânicos e burocratas, que vinham das terras altas centrais para o mato a fim de participarem na administração dos territórios que controlava e que, a certa altura, abrangiam grande parte do território de Angola. O Savimbi da etapa intermédia falava em nome dos angolanos pobres que sempre tinham sido marginalizados.
Milhares de jovens, especialmente do grupo étnico ovimbundo, viam em Savimbi um pai adoptivo. Aqui estava, finalmente, um homem que infundia respeito em alguns círculos internacionais e que também sabia relacionar-se com os mais humildes camponeses angolanos.

Savimbi era igualmente eficiente a descobrir e a estimular talentos. As figuras que estavam nas posições cruciais subiam não através de nepotismo, mas sim pela sua competência. Se este Savimbi tivesse sido Presidente de Angola, o país teria tido uma história mais risonha. Contudo, o Savimbi da etapa intermédia começou a manifestar características que o haviam de  marcar até ao fim da vida matando opositores políticos, por vezes por razões infundadas. Este Savimbi começou a ver-se como a encarnação da causa da UNITA e permitiu que um culto da personalidade se desenvolvesse à sua volta. Os músicos só podiam cantar canções em seu louvor; outros podiam escrever poemas desde que tivessem uma estrofe de glorificação do líder. Este culto foi estimulado por informadores ansiosos de estar nasboas graças do líder. Alguns deles viriam, mais tarde, a passar-se parao lado governamental.

O Savimbi da etapa intermédia também começou a abandonar qualquer ideia de liderança colectiva para o movimento. O destacado secretário para os Assuntos Externos, Orneias Sangumba, foi morto por ser alegadamente um agente da CIA. Apesar das ligações estreitas que acabou por estabelecer com americanos e sul-africanos, Savimbi nutria uma grande desconfiança em relação à CIA. Nessa altura, o então chefe do Estado Maior, Waldemar Chindondo, militar distinto que foi um dos primeiros oficiais negros do Exército português, foi igualmente morto devido a acusações infundadas. Kashaka Va-kulukuta, anteriormente um colaborador muito próximo de Savimbi, foi metido numa prisão e acabou por morrer de doença. Segundo a direcção do movimento - a qual toda a gente tinha de aceitar - figuras como Sangumba estavam numa qualquer região remota do território controlado pela UNITA. Mas era uma grande mentira.
A mentira, especialmente aos órgãos de informação internacionais, era possível porque Savimbi tinha o controlo completo do movimento. Tudo o que os seus seguidores faziam devia depender do facto de serem ou não leais à sua causa. A UNITA não tardou a desenvolver uma intrincada rede de informadores que reportavam sempre ao líder. Ele sabia tudo - pelo menos era isso o que as pessoas pensavam.
Em 1990, Savimbi entrou em litígio com Tito Chingunji, o seu secretário para Assuntos Externos, um homem igualmente brilhante, acusando-o de se ter tornado demasiado próximo dos americanos. Apesar de todas as suas qualidades, é difícil perdoar Savimbi pelo modo como se vingou da família de Chingunji: os outros três irmãos de Tito e os seus filhos foram executados.

Savimbi devia pensar que ia ganhar as eleições de 1992 e realizar o sonho da sua vida de ser Presidente de Angola, e que todos aqueles que ele tinha matado seriam esquecidos. Mas não foi isso o que aconteceu. A UNITA perdeu as eleições, disse que os resultados tinham sido fraudulentos e Savimbi e os seus colegas voltaram a pegar nas armas. Este período, desde 1992 até à sua morte, marca o Savimbi da etapa final.
O Savimbi da etapa final nunca se poderia ter adaptado a uma sociedade digna e com regras. Tratava-se de um Savimbi cuja única motivação era o poder e o controlo absoluto. Este Savimbi tinha pouco respeito ou consideração por aqueles que lhe estavam próximos - incluindo as suas mulheres e amantes. É um segredo por todos conhecido que Savimbi tinha  uma intrincada vida doméstica. Os filhos tinham de lutar entre si para atrair a atenção paternal. Oficialmente tinha uma mulher, Ana Paulino, mas também uma série de amantes; estas teriam sortes diversas, tais como os membros do seu gabinete ou do alto comando. O círculo íntimo de  Savimbi era como uma corte medieval: os cortesãos disputavam entre si influência e poder (principalmente para serem ouvidos pelo «rei») através de intrigas.

O Savimbi da etapa final  também sabia lançar as famílias mais influentes umas contra as outras, através do seu sistema clientelar. Jonas Savimbi nunca se interessava pelo dinheiro em si. Isto talvez derivasse da sua educação de protestante. Contudo, estava mais interessado no poder do que naquilo que o dinheiro poderia dar a alguém. Um dos fracassos da UNITA foi o de ser um movimento cujo líder tinha ilusões de vir a governar um Estado.

Ainda me recordo dos tempos em que os líderes da UNITA diziam que esta tinha tanto dinheiro que dava para envergonhar o tesouro de muitos países africanos. O próprio Savimbi gabou-se um dia numa entrevista que havia africanos que vinham ter com ele para lhe pedirem lições de economia. (Quem recusaria tais lições se, no fim, lhes era entregue um envelope com alguns diamantes?).

O Savimbi da segunda fase, a do apogeu, era carismática, eficiente e amado pelos mais próximos Claro que ninguém se atrevia a dizer que este tipo de comportamento não era digno de um líder. (Alguns dos comandantes mais jovens de Savimbi começaram a imitá-lo e acabaram por ter uma série de mulheres e filhos, alguns dos quais vivem agora em condições terríveis nos campos de refugiados na Zâmbia). É chocante como estes jovens comandantes começaram a imitar Savimbi em todos os aspectos - incluindo o modo como ele andava, falava ou dançava. Era estranho, por exemplo, ver um grupo de homens na casa dos vinte anos, todos calçando botas mexicanas iguais porque era assim que o líder gostava. Também começaram a copiar a sua inflexibilidade e tendência para personalizar todos os problemas.

É verdade que, depois de 1992, o Governo angolano tratou mal os apoiantesda UNITA em Luanda tendo sido assassinadas pessoas inocentes das etnias ovimbundo e kinkongo, apenas em consequência das suas origens. Contudo, depois de ambos os lados terem aceite, no acordo de Lusaka, que o caminho para a frente era a reconciliação, a importância que estava a ser dada ao estatuto do Dr. Savimbi fez passar para segundo plano o verdadeiro problema. Houve então momentos em que pareceu que a UNITA tinha estado no mato unicamente para dar um posto importante a Jonas Savimbi em Angola.

O Savimbi da etapa final era impiedoso e estava pronto a sacrificar centenas de vidas pela sua causa.Savimbi queria, acima de tudo, estar no comando - e este desejo de um controlo total tinha atingido proporções patológicas. Era também altamente caprichoso - e, face a diversos reveses militares, começou a assacar todas as culpas aos seus comandantes.
Cientes do futuro que  lhes estava reservado, muitos deles acabaram por desertar para as fileiras do Governo, onde eram devidamente recompensados compostos aliciantes. Muitas famílias importantes da etnia ovimbundo, a maior de Angola, confiavam em Savimbi e entregavam-lhe os seus filhos. Por ocasião da sua morte, muitos destes falaram mal dele. Muitos perceberam que Savimbi queria implantar um estado totalitário em Angola. Não foi o Governo angolano enquanto tal que destruiu o falecido líder da UNITA; Jonas Savimbi foi o pior inimigo de si próprio. Isto explica a estranha apreensão da elite governamental de Angola na sequência da morte de Savimbi: agora que o papão nacional desapareceu eles terão de provar do que são capazes. Por exemplo, será que vão continuar a desviar a riquezada nação para contas em bancos estrangeiros, será que vai haver uma verdadeira democracia nos assuntos do Estado?

O Savimbi da última fase nunca poderia ter-se adaptado a uma sociedade digna e com regras Mascomo é que Savimbi, o nacionalista empenhado, se transformou num potencial ditador africano? Há muitos anos que, como ovimbundo que sou, me interrogo como foi possível que uma pessoa que eu tanto admirei se tivesse transformado numa de quem me envergonho de dizer que fui colaborador.

Ninguém duvida de que era um homem extremamente inteligente, cuja capacidade de trabalho e boa memória o colocaram acima dos outros. Trabalhei durante pouco tempo como tradutor no gabinete de Savimbi - e não hesito em dizer que ele foi uma das pessoas mais brilhantes que conheci. Foi também muito corajoso até ao fim. Foi isto, inevitavelmente, que levou muitas pessoas - especialmente da etnia ovimbundo, a maior de Angola - a segui-lo. Contudo, ultimamente, muitos ovimbundos começaram a perder a fé nele. Isto não significa que tenham agora começado a aceitar a cleptocracia de Luanda - . com as suas passagens de modelos e sumptuosas mansões em Palm Beach contrastando comtanta miséria. O que acontece é que tinham seguido um líder com muitos defeitos e que lhes estava a sair demasiado caro.

Jonas Savimbi tinha profetizado em diversas ocasiões a sua morte. Num discurso na Jamba, então o quartel-general da UNITA no leste de Angola, disse que iria morrer de morte violenta. Em vida, Savimbi já se tinha tornado numa lenda. Na morte, poderá, para muitos dos seus ardentes apoiantes, tornar-se no perfeito mártir. Tanto a UNITA como o MPLA têm heróis - alguns são uma pura criação dos departamentos de propaganda - que disseram terem posto o interesse colectivo acima dos seus interesses individuais. No entanto, todos concordam que Savimbi se manteve fiel aos seus princípios - ou seja, a conquista do poder - até ao último momento. Não parou de disparar mesmo depois de sete balas se terem alojado no seu corpo.

Fonte: "Jonas Savimbi foi o pior inimigo de si próprio", por    Sousa Jamba* escritor angolano

Ver também : A saga dos Chingunji

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Cultura angolana na fase final época colonial angolana: Os irmãos Eleutério Sanches e Lily Tchumba


 Os irmãos Eleutério Sanches ( Pintor, Poeta, Compositor e Interprete),
 e Lily Tchiumba (cantora)
Videos com canções de Eleutério e Lily :
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=PDpuPMK5ob0
http://videos.sapo.tl/93sfUGmNKE7vnVhyiulp
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=UdG-ymA6HKM
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=_Iz3MPYORRM

Imagem de Fred Kradolfer, 1931. Exposição Colonial Portuguesa em Paris




Independência de Angola, a expulsão dos brancos e o afastamento e liquidação de quadros angolanos em 1977

"...Angola tinha, de facto, uma enorme falta de quadros. Compreende-se porquê. Em 1974, pronunciando-se sobre a presença branca em Angola, Agostinho Neto declarava ter «dúvidas sobre se, neste momento, os mesmos indivíduos que têm sido privilegiados durante o regime colonial terão o direito de continuar no país». E em vésperas da independência, aparentemente esquecido de que a maioria dos portugueses eram simples trabalhadores, afirmava na rádio que tinham de sair de Angola antes do 11 de Novembro.

O coronel Melo Antunes, um dos homens do 25 de Abril, afirmou que a principal responsabilidade pela saída dos portugueses dos novos países foi dos movimentos de libertação porque, «contrariamente à letra e ao espírito dos acordos», se gerara «um clima de total repúdio da permanência de portugueses, um clima muitas vezes de perseguição, de insegurança de tal modo intolerável, que culminou num pânico generalizado».

Em Angola, engenheiros e quadros técnicos, médicos e professores, gestores e trabalhadores qualificados eram, na esmagadora maioria, brancos. Sem eles, a economia e as empresas, as escolas e os hospitais ou funcionariam mal ou deixariam mesmo de funcionar. Ora, depois da expulsão dos brancos, mataram-se, prenderam-se e afastaram-se dezenas de quadros angolanos, a pretexto de que estavam metidos na conjura nitista.

De modo que, muitos dos poucos quadros de que Angola dispunha foram liquidados ou afastados, sendo substituídos por gente sem qualificação. Quem acabou por pagar por tudo isso? A resposta é simples: o país e os angolanos.

Em Portugal, alguns antigos colonos aparecem a dizer que a expulsão foi inspirada pelos comunistas, pelos russos. Acusação totalmente falsa. Os teóricos da revolução davam indicações no sentido de cuidar, «como das meninas dos olhos, de cada especialista que trabalhe conscientemente, com conhecimento do seu trabalho e amor por ele». Por isso o general russo Valentim Varennikov, que cumpriu duas missões de serviço em Angola, sublinhou os enormes problemas criados pelo facto de terem sido «expulsos impensadamente todos os portugueses, que constituíam a principal força na economia, na direcção dos serviços municipais e na organização da gestão do país…».




Parte de um texto retirado do Blog "Recordações da Casa Amarela" :

entrevista  para o Novo Jornal de 27-05-2011 a Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus sobre o 27 de Maio de 1977, a  "Purga em Angola".
Para consultar o texto integral, clicar AQUI

Angola, o meu grito... o meu apelo! Contra a indiferença...

Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009
Escrevo sobre Angola, país que me viu nascer, já lá vão 57 anos. Porque decidi uma vez por todas na minha vida sobrepor ao “politicamente correcto” o “humanamente correcto” e porque já não aguento assistir à tragédia da grande maioria dos angolanos, e porque o meu silêncio se tornou ensurdecedor perante a minha consciência, quero lançar aqui um grito de dor e de protesto assim como um veemente apelo em nome de um povo heróico, mártir e esquecido: o povo angolano, o meu povo irmão. Na tragédia em curso há décadas, só e apenas ele é merecedor de carinho, respeito e admiração porque só e apenas ele está isento de culpas.

Culpados foram e são, porque se deixaram moldar pelas teias da política internacional e pela corrupção, uma boa parte dos seus dirigentes, passados ou presentes, no governo ou na oposição, a comunidade internacional com as suas gananciosas interferências e os seus planos de (des)ajustamento estrutural e certos governantes portugueses perfeitamente ignorantes da História e das gentes (tão merecedoras de carinho, respeito e admiração) de África em geral e de Angola em particular. A todos eles acuso de serem os responsáveis directos do genocídio passado e do sofrimento ainda em curso, em Angola. Nenhuma dessas entidades pode, nem poderá nunca furtar-se, em consciência, das enormes responsabilidades que teve e tem no germinar, no eclodir e no arrastar do indizível sofrimento e morticínio que esmagou e continua a esmagar o povo angolano. Activa ou passivamente, embora em diversos graus, todos incentivaram (ou cinicamente fingiram que não era nada com eles) o desentendimento e a desconfiança mortais, a corrupção escandalosa, o armamento desenfreado, a ganância sem limites, a indiferença assassina, a cobardia irresponsável... Em suma, o desgoverno total que engendrou uma Angola, sofrida e mutilada por várias gerações, onde coexistem um punhado de multimilionários cleptopatas e milhões de miseráveis que deambulam perdidos e deslocados, na esperança muitas vezes vã de encontrarem uma instituição que lhes acuda com um pouco de arroz, alguns medicamentos e um agasalho, ou, na sua falta, uns restos num contentor de lixo, com que enganar a fome e morrerem silenciosamente...ignorados!

Conseguiram assim, transformar um grande e riquíssimo país (talvez por isso mesmo!), embora hoje em fase de recuperação, sobretudo em Luanda e nas capitais provinciais, num dos países com maior grau de destruição, com maior número de amputados e de minas antipessoais e com menor índice de desenvolvimento do Mundo: a nefasta sinergia da corrupção, da incompetência, da cobiça e indiferença internacional perante o sofrimento alheio, assim como a mortífera intolerância entre os angolanos fizeram de Angola, com as suas fabulosas potencialidades humanas, agrícolas, pecuárias, piscatórias, mineiras (diamantiferas, petrolíferas e muito mais), cinegéticas, turísticas ... um amontoado de miséria que deveria comover o mais insensível e empedernido dos homens fosse ele angolano ou estrangeiro, simples cidadão ou governante. Pelos vistos, os responsáveis directos por todo esse descalabro ainda não se comoveram... a matança dos inocentes continua! Anonimamente…

Angola tem hoje, finda a guerra civil mortífera em 2002 que para os responsáveis directos tudo parecia explicar e justificar..., a derradeira ocasião de se reencontrar. Essa ocasião não pode ser desperdiçada: acabaram os subterfúgios, as mentiras e as desculpas descabidas. Os angolanos, e essencialmente eles, com particular responsabilidade para os seus dirigentes, têm o dever e a possibilidade de reporem Angola no mapa do Mundo, tornando-a num exemplo para toda a África. Tal só acontecerá se os governantes e a sociedade civil angolana agarrarem com unhas e dentes os poucos trunfos de que Angola dispõe, nomeadamente o seu povo, os seus minérios, as suas enormes potencialidades agropecuárias, piscatórias, turísticas e o petróleo. Desde já lanço um alerta aos dirigentes africanos mais clarividentes e responsáveis: em certos círculos geopolíticos anglosaxonicos já se ousa falar e escrever da necessidade, como sempre em nome do bem dos povos, de se começar a pensar na eventualidade da utilidade de uma nova recolonização...noutros moldes... evidentemente... CUIDADO! Tal não pode acontecer mas só não acontecerá se, de uma vez por todas, os dirigentes interiorizarem que o maior património dos seus países é o seu povo, sendo por isso fundamental investir na educação, na saúde e numa agricultura diversificada, em vez de se iludirem com o agastado discurso do país “Grande” e “Rico”; se fizerem as leituras correctas, com as implicações decorrentes, do que está a acontecer na perversa e nada ética revolução mundial em curso, e se pugnarem verdadeiramente pela tolerância e concórdia nacional (estou a pensar especificamente em Cabinda, atropelada pela História da descolonização e sempre sofredora) e implementarem a Democracia e uma Boa Governação que, como é óbvio, não se coaduna de modo nenhum com a tentacular corrupção que foi e é, quanto a mim, a maior responsável do estado em que Angola e África estão, com nefastos e devastadores efeitos equiparados, ou até superiores, aos da guerra. É tempo de se assumir esta verdade!

Só assim, acredito, é o meu sonho!, o povo angolano alicerçado no seu sofrimento e sustentado pela sua sociedade civil, embora ainda fraca e dispersa mas cada vez mais sensibilizada, organizada, interveniente e exigente poderá enfim construir uma sociedade democrática e encontrar o caminho da Paz, da Concórdia e da Responsabilidade que o conduzirá ao amanhã radioso com que há tanto sonha e ao qual tem direito, como todos os povos. É da mais elementar justiça e não lhe resta outra alternativa para sobreviver!

Não posso terminar sem fazer um último apelo: que o povo português nunca esqueça, apoiando-os, os povos irmãos angolano e cabinda com o qual partilha tantos laços de sangue e de História. Eles merecem.
 

 Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre
ORIGEM


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Terça-feira, 25 de Maio de 2010
Hoje comemora-se o Dia de África.

Hoje, não vos falar em números, vou falar-vos de sonhos…
Como disse o meu querido amigo José Manuel Barata Feyo num brilhante artigo que escreveu na revista Grande Reportagem sobre “O fim das ilusões”, “Os números são sempre enfadonhos. Em África, são cruéis”.

Esses números aterradores (avanço dos desertos, guerras civis, máfias diversas, tráfico de armas, mortes infantis, malária, tuberculose, fome, corrupção, prostituição infantil, pobreza, refugiados, etc.) sobejamente conhecidos de todos, são autênticas explosões que só não acordam as consciências mais indiferentes ou em coma. Quanto aos homens e mulheres ainda vivos só lhes resta darem as mãos e fazerem frente pois o grito da revolta pela justiça nunca morrerá.

Tenho o sonho de que o Homem seja protegido e acarinhado como o mais precioso dos “monumentos” pois qualquer Homem, como ser vivo, é sem dúvida a obra-prima mais perfeita e única que jamais surgiu no nosso planeta.

Sonho em fortalecer o movimento humanitário para que, actuando no terreno e sensibilizando a nossa opinião pública e os nossos governantes, consigamos construir um mundo onde o sofrimento e a miséria deixem de insultar a nossa consciência quantas vezes adormecida. Se assim não for, tornar-nos-emos em breve todos uns desumanos e o próprio conceito de Humanidade será posto em causa.

Sonho em construir um mundo melhor, onde os nossos filhos e netos possam viver em paz e harmonia, onde todos possam satisfazer as necessidades básicas vitais e onde a (re)distribuição da riqueza e do conhecimento seja mais equitativa, mais justa.

É pois com saudável esperança que observo, participo e incentivo o despertar da sociedade civil que quer a valorização do Homem como centro das estratégias e preocupações políticas. Esta orientação, fundamental para o futuro da Humanidade, é espontânea e mundial, e traduz-se na criação massiva de ONG (Organizações Não governamentais) em todos os países.

A emergência forte e global da sociedade civil organizada à volta de temas dominantes como a solidariedade, a participação, o combate à pobreza, a tolerância, a ecologia, os direitos humanos, o humanitário é quanto a mim a maior esperança, para não dizer única, de um mundo melhor para os nossos filhos.

Utopia? Penso sinceramente que não, ainda que não seja por Humanidade mas por  simples pragmatismo e sobrevivência da espécie. Estou convicto que os governos muitas vezes pressionados pelas suas sociedades civis cada vez mais informadas e exigentes (ainda bem!) vão ter que entender que mais importante que o mercado-rei é a política, mais importante que a política é o social, e que mais importante que o social são a moral e a ética humanas. Para a quadratura do círculo em que a minha geração está entalada não há outra alternativa. Só esta mudança radical de comportamento, de mentalidades e de visão nos conduzirá a um mundo melhor. Possam os governantes do mundo ter ousadia, rasgo, vontade política para que, como verdadeiros estadistas, deixem de viver a curto prazo ao sabor das ondas bolsistas e olhem para o infinito sem esquecerem o amanhã.

Temos todos um longo caminho a percorrer. Estou consciente que morrerei sem ter alcançado a meta tão desejada mas considero ainda assim que, todos juntos, temos obrigação de não desistir para que outros a venham a alcançar. É essa a nossa única obrigação como seres livres e humanos: tentar lá chegar sem esmorecer mesmo se perdidas algumas ilusões e alguns sonhos.

Continuarei a gritar a favor do Homem, a favor de África e contra o absurdo cinismo internacional que permite tanto sofrimento.

Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre
 ORIGEM

Em Portugal, cada ex-combatente que morre é uma biblioteca que se queima: O POVO QUIÔCO - CONVERSAS COM SÁ MOÇO

Aqueles que leram o meu trabalho, Tchicapa, o final da viagem, certamente deram conta de algumas críticas e comentários.
Independentemente do juízo feito, procurei ser justo, e evitei a ficção.

Neste segundo trabalho, Conversas, com Sá Moço, elas vão voltar a aparecer, aqui e acolá, sempre sem intenções políticas ou de rancor.


As reflexões, deixo-as a outros mais doutos.

Como no primeiro trabalho, apresento-me tal como sou, com defeitos e a virtude de ser sincero e interessado com quanto se passou na nossa passagem por África, por vezes com desgraçados dias.
Os meus próximos textos, evitando a fixação psico-traumática, vão abordar a singeleza da vida, não esquecendo que sou, somente, um dos muitos militares milicianos que passaram por Angola e que a tais memórias dedica um olhar calmo e enternecido.

Em consequência, tratarei, a partir de hoje, de rebuscar recordações e conversas com um homem natural da região do Tchicapa, para, ao mesmo tempo que as partilho, lhes devolver alguma da antiga e perdida clareza.

Nas minhas muitas vidas (não de nascimento), entre sonhadas e verdadeiras, nos distantes anos da década de 1970, encontrei o Sá Moço, um homem katchokwe (quiôco) com cerca de 40 anos de idade. Um ser humano, auto-suficiente, que tinha falta de tudo, mas não sentia falta de nada

Recordo-o com admiração.

Sem o ser, era engenheiro, médico, psicólogo, pisteiro, e… na maior das calmas e com muita inocência lá ia dizendo que o IN (inimigo) também precisava de ajuda, quando aparecia na aldeia.
Quem, algum dia, foi militar, costuma ser um pródigo contador de histórias, umas ligadas à guerrilha e outras, de coisas mais singelas, no entanto, nos textos que se seguem, vou escrever sobre a vida de um povo que foi importante na minha formação e me transformou num eterno enamorado da natureza e das coisas belas e boas que ela nos proporciona.

Enfim, vou escrever sobre, as minhas vivências com o Sá Moço, a vida no quimbo, as festas, os modos de vida e de figuras típicas que por lá encontrei, das muitas pessoas, boas e interessantes que conheci, e ainda, só um pouco, dos seres francamente racistas, grosseiros, brutos e porcos, que também os havia, e… que hoje, em 2009, à sombra da democracia e aproveitando a ingenuidade de muitos, aparecem, ora disfarçados de rambos ora de defensores da verdade, que lhes convém.

Termino com a seguinte frase: Em Portugal, cada ex-combatente que morre é uma biblioteca que se queima.

Carlos Alberto Santos


Capítulos:
1.-Coisas e sensações do leste de Angola
2.-Formação do povo Quiôco
3.-Contador de histórias
4.-Batuque do Samunge
5.-Mulheres de fogo
6.-Batuque dos Muquixes
7.-Medos e feitiços
8.-A doença
9.-A Mahamba
10.-A morte
11.-O fim do luto
12.-As núpcias
     -A iniciação das raparigas
13.-O nascimento
14.-A poligamia
15.-Adultério
16.-A mulher quiôca
17.-A alimentação
18.-Afrodisíacos
19.-O homem
     -A iniciação dos rapazes
20.-O Pensador
21.-Notas soltas
22.-Sá Moço
CONTINUA.... (CLICAR AQUI)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Angola, entre o mito e a realidade...




"Tenho lido com alguma frequencia que Angola era uma terra cheia de oportunidades, o que realmente é verdade, não deixa contudo de ser puro engano dizer-se que bastava alguém ser bom trabalhador para enriquecer. Li recentemente um livro cujo autor diz ter vivido alguns anos em Angola e espanta-me que também ele ajude a passar esta idéia enganadora. Embora seja um romance e por isso à partida classificado de pura ficção, não deixa contudo de cair neste erro. Lê-se ali que um casal chegado a Luanda, em pouco tempo já tinha negócios espalhados por toda a cidade e logo a seguir pelas principais cidades de Angola, isto sem falar da compra de uma "casa" na Vila Alice. Não espantava se esse casal fosse endinheirado e procurasse Angola para investir, o que não é o caso. Por vezes parece que existem duas Angolas diferentes, aquela que eu e a maioria conhecemos e uma outra, onde se chegava e se encontrava prontamente uma "àrvore das patacas" e se enriquecia duma hora para a outra. Eu nasci em Angola e embora houvesse diferenças de classes como na maioria dos países, a verdade é que era necessário muito trabalho para se viver com algum desafogo e a maioria pode atestar que também não dava para se fazerem muitas "avarias". Assim, das duas uma, ou eu e muitos outros fomos pouco inteligentes e nunca soubemos ver os "grandes negócios", ou simplesmente nunca encontramos a tal " árvore das patacas". É bom que se diga a verdade, era uma linda terra, um povo hospitaleiro e humilde, mas quem começasse do nada como o meu pai e muitos outros que ali chegaram na década de 50, mesmo com muito trabalho, nunca chegaram a ter essa tal vida faustosa que se encontram ilustradas nalguns romances. Lá como cá, se houvesse respeito pelo "próximo", creio que as oportunidades eram iguais! "

By Facra

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

“Contra os Bretões marchar, marchar!”




Manuel Luciano da Silva,  
Médico   

Nós podemos medir o nível de carácter dum povo pelas verdades históricas que os responsáveis pela educação nacional ensinam à sua juventude.

O exemplo mais flagrante que temos em Portugal é a composição lírica do Hino Nacional a chamada “A Portuguesa!”

Contra os canhões, marchar, marchar!” Este verso significa: “Darmos o nosso corpo aos canhões!”Que declaração estúpida e p’ra mais no Hino Nacional!...

Porque é que se não ensina a verdade: “Contra os Bretões, marchar, marchar!” Que quer dizer: “Contra os ingleses, marchar, marchar”!

É curioso que presentemente em Portugal só no Mirandês é que se ensina a verdade: “Contra ls Bretones caminar, caminar!

O Ultimato Inglês de 1890

No dia 11 de Janeiro de 1890, a Inglaterra mandou um Ultimato a Portugal exigindo que se retirasse do domínio dos territórios africanos localizados entre Angola e Moçambique, os quais no seu conjunto constituíam o chamado “Mapa Cor de Rosa”.

Esta exigência britânica, tão ofensiva para Portugal, despertou uma onda de revolta no povo português de tal maneira que um grupo de patriotas portugueses incitaram o compositor musical Afredo Keil, português de descendência alemã, a escrever um hino musical a exaltar os portugueses a defender a Pátria e pediu ao poeta Henriques Lopes de Mendonça para escrever os versos a protestar veementemente contra os Bretões.
Foi este Hino que serviu de inspiração para a Revolução de 31 de Janeiro de 1891,
na Cidade do Porto, iniciada pelo Movimento Republicano, que acabou por ser sufocada
pelas forças leais ao Rei D. Carlos I.

Porém 20 anos depois, em 1911, este mesmo Hino passou a ser chamado “A Portuguesa
e tem funcionado como Hino Nacional da República Portuguesa há mais de cem anos!

Não sei quem é que trocou, em 1911, o último verso que dizia com convicção:

Contra os Bretões, marchar, marchar!” e o substituiu por este verso HIPÓCRICA e ESTÚPIDO:



Contra os canhões, marchar, marchar!”   

Mesmo hoje, se a Assembleia Nacional Portuguesa tivesse testículos, iria aprovar uma Lei para substituir “canhões” por “LADRÕES” e assim incluiria os ingleses e os outros ladrões de Portugal!


Ladrões Ingleses

Desde o princípio da Aliança em 1385 entre o Rei D. João I com a Inglaterra os ingleses têm sido os maiores ladrões de Portugal!

Depois do casamento da Princesa Catarina de Bragança com o Rei Carlos II da Inglaterra, em 1663, os ingleses obtiveram licença para entrar gratuitamente em todos portos marítimos do Império Português e desde essa altura começaram a açambarcar cada vez mais as propriedades portuguesas para poder desenvolver o Império Britânico!

Todas as vezes que os ingleses vieram para Portugal para nos defender contra os espanhóis ou contra as tropas de Napoleão, aproveitaram sempre a oportunidade para nos roubar!

Eu tinha apenas oito anos quando fui morar para Leixões com a minha mãe e meu irmão. Foi nesta altura que vi pela primeira vez um automóvel, mas confesso que o que mais me impressionou foram os carros eléctricos. Vim a saber que pertenciam a uma companhia inglesa. Que os telefones também eram controlados pelos ingleses e que o Vinho do Porto a maior parte pertencia igualmente aos ingleses!

Quando em 1946 emigrei para Brooklyn, New York, verifiquei que os americanos não gostavam nada dos ingleses, por serem peneirentos, lordóticos e megalomaníacos, disse para comigo, "até que enfim, encontrei alguém que concorda comigo!"

A maior velhacaria dos ingleses foi aquela que o Primeiro-ministro inglês, Chamberlain cometeu em 30 de Setembro de 1938 (appeasement = apaziguamento) quando visitou Hitler em Munique e lhe disse, se a Alemanha precisava de terreno para expandir a população alemã que tomasse conta da Angola porque Portugal não iria oferecer resistência nenhuma! Hitler disse-lhe que não iria fazer uma coisa dessas.

Salazar veio a saber mais tarde deste segredo político e foi por isso que ele também nunca engraçou muito com os ingleses… e apesar de ser aliando da Inglaterra nunca quis que Portugal entrasse na II Guerra Mundial. Bem bom!
Não tem permissões para colocar comentários

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Angola, 38 anos de guerra...


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sobe
   
 
fotos de Cláudio Versiani >>

       38 anos de guerra não produziram apenas uma tragédia em Angola. Produziram milhões de tragédias: 2 milhões de mortos, 1,7 milhão de refugiados, milhares de órfãos, 200 pessoas mortas de fome por dia, 80 mil crianças, velhos, homens e mulheres mutilados pelas milhões de minas semeadas pelo país afora. Em Angola, são milhões de tragédias, cada qual com um nome e uma história de final infeliz.

CONTINUA....
http://www.joserezendejr.jor.br/reportag/angola.htm

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O ‘INDÍGENA’ AFRICANO E O COLONO ‘EUROPEU’: A CONSTRUÇÃO DA DIFERENÇA POR PROCESSOS LEGAIS1

O ‘INDÍGENA’ AFRICANO E O COLONO ‘EUROPEU’: A CONSTRUÇÃO DA DIFERENÇA POR PROCESSOS LEGAIS1

MARIA PAULA G. MENESES

CENTRO DE ESTUDOS SOCIAIS, UNIVERSIDADE DE COIMBRA 

Resumo: As representações da história medeiam as relações sociais e os processos
identitários, sendo instrumentais na criação e gestão identitária, ao determinar, de forma
fundamental, que projectos e perspectivas são vistos como legítimos e validados através de
actos de memória. As lutas pelas memórias no reconstituir de sentidos e de novos espaços
geopolíticos continuam marcadas pelos impactos da fractura abissal colonial moderna.
Numa leitura que privilegia Moçambique como espaço de referência, este artigo, que se
conjuga na intersecção entre a antropologia e a história, procura questionar continuidades
coloniais no presente, revisitando, ao espelho, os complexos debates que formatam a
intervenção colonial portuguesa a partir da República.
Palavras-chave: Missão civilizadora, Portugal, Moçambique, colonialismo, República.



1 Este texto foi produzido no âmbito de uma reflexão mais ampla realizada no Centro de Estudos Sociais, sob
coordenação de Silvia Maeso, em torno a indígenas, nativos e nações. Parte da análise aqui apresentada
reflecte os resultados de um projecto de investigação, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia
– Portugal (PTDC/CED/64626), coordenado por Marta Araújo. A ambas o meu agradecimento pelos diálogos
sobre o tema; ao comentador anónimo, o meu obrigado pela leitura cuidadosa e pelas interpelações.
2 Convém ressalvar que longe de se constituir como uma política estática, a missão civilizadora conheceu
várias transformações no panorama político colonial português.



CONTINUA...

TEXTO INTEGRAL

"Assumi o fardo do homem branco...": "Imperialismo, um estudo", ecnonomista inglês Hobson



Um dos aspectos mais importantes do sistema capitalista, na sua passagem do conteúdo liberal ao monopolista, é a associação entre: os interesses bancários e os capitais oriundos da produção agrícola na forma do capital financeiro. o capital bancário e o capital industrial na forma do capital financeiro. o capital financeiro e o capital fundiário como forma de conservação dos ideais fisiocratas. o Estado e a economia garantindo a manutenção da posição não-intervencionista do Estado na produção industrial. o Estado e a economia através da distribuição dos lucros da produção industrial aos pequenos agricultores.

O processo de expansão do Imperialismo, na segunda metade do século XIX, relaciona-se corretamente com o(a): fortalecimento do protecionismo comercial que, através da imposição de barreiras alfandegárias e da definição de zonas de influência dos países europeus na África e na Ásia, substituiu as práticas liberais pelo pacto colonial. busca de novas áreas fornecedoras de capitais que garantissem os investimentos necessários à manutenção do crescimento econômico dos países europeus recém-industrializados, tais como a França e a Bélgica. necessidade do estabelecimento de colônias fornecedoras de mão-de-obra especializada, que fossem, ao mesmo tempo, consumidoras de matérias-primas. transformação do capitalismo industrial, em seu conjunto de atividades produtivas e comerciais, em capitalismo financeiro ou monopolista, controlado por grandes conglomerados financeiros. retração demográfica européia e a conseqüente necessidade de reposição de mão-de-obra em diversas regiões industrializadas da Europa, tais como Londres e Manchester.

O fenômeno do Imperialismo ou Neocolonialismo no século XIX, que determinou a partilha da África e a dominação na Ásia, pelas potências européias, foi resultado da expansão do próprio capitalismo e da sua necessidade, sempre constante, de ampliação de mercados e áreas fornecedoras de matérias-primas e gêneros alimentícios. Assim sendo, é correto afirmar que a expansão imperialista: deu-se por meios pacíficos, porque os povos africanos e asiáticos não possuíam uma tradição belicosa e guerreira e não desenvolveram nenhuma resistência à penetração européia em seus países. deu-se com a elaboração de fortes justificativas ideológicas que enfatizavam a necessidade da missão civilizadora e humanitária dos europeus sobre os povos conquistados, considerados cultural e racialmente inferiores. ocorreu em virtude da necessidade de se levar, para as novas áreas conquistadas, as grandes levas de trabalhadores desempregados pela utilização de maquinismos, em escala cada vez maior, na indústria européia, que eram vistos como uma ameaça à estabilidade social. encontrou facilidades para se concretizar, em virtude das sangrentas lutas internas, travadas pelos povos africanos e asiáticos e da disposição das elites dirigentes de entregar o poder às potências européias para se beneficiarem economicamente. manteve as estruturas políticas e sociais dos povos africanos e asiáticos, conquistados com a estratégia de garantir-lhes a autonomia para a obtenção de maiores lucros e benefícios .

"... a 'missão civilizadora' dos povos brancos utilizou-se das ciências da época para provar sua superioridade. (...) teorias proclamavam a desigualdade dos homens e das raças como lei irrevogável, destacando-se a biologia e a etnografia..." O texto contém elementos que, servindo de respaldo ideológico, foram utilizados pelos europeus, no século XIX, para justificar a reação dos americanos à política colonialista da Inglaterra. ação colonizadora das missões jesuíticas nas colônias. dominação e a aniquilação de povos pré-colombianos. exploração e a subjugação de africanos e asiáticos. expulsão dos povos árabes do mar Mediterrâneo.

A expansão neocolonial do final do século XIX pode ser associada a busca de novas oportunidades de investimentos lucrativos para o capital excedente nos países industriais. atração pelo entesouramento permitido pela conquista de regiões com jazidas de metais preciosos. necessidade de expansão da influência da Igreja Católica frente ao aumento dos seguidores da Reforma. divisão internacional do trabalho entre produtores de matérias primas e consumidores de produtos industrializados.

"Assumi o fardo do homem branco, Enviai os melhores dos vossos filhos,Condenai vossos filhos ao exíliopara que sejam os servidores de seus cativos" Rudyard Kipling A ideologia expressa por esse poeta, que recebeu em 1907 o prêmio Nobel de literatura, serviu para justificar o: socialismo. anarquismo. imperialismo. iluminismo. mercantilismo.

O desenvolvimento capitalista desencadeado pela Segunda Revolução Industrial provocou movimentos de ampliação de mercados consumidores e de aplicação de capitais. Como resultado da expansão do capitalismo no século XIX pode-se destacar o neocolonialismo europeu na África e na Ásia. a influência dos capitais norte-americanos na economia européia. a disputa entre as potências ibéricas pelos mercados latino-americanos. o fortalecimento econômico da Alemanha com o Tratado de Versalhes. a elaboração de leis anti-trustes, com o objetivo de consolidar o poder dos cartéis.

A revolução Meiji é um evento da história do Japão que determinou: o processo de avanço do capitalismo internacional na área da Ásia e o movimento de defesa de um Japão socialista, próximo da experiência da China; o movimento de defesa das tradições orientais que propunha a união com a China a fim de fortalecer as áreas orientais contra o imperialismo ocidental; divisões internas das elites dirigentes decorrentes das diferentes visões com relação à cultura ocidental - os progressistas, aliados da China, e os conservadores, aliados dos países ocidentais reconheciam que a manutenção de uma estrutura fragmentada das ilhas limitava o desenvolvimento da agricultura e que a saída era a industrialização; a modernização da estrutura econômica japonesa, facilitou a entrada de capital estrangeiro, o processo de urbanização e a alteração de valores, desencadeando a ocidentalização do Japão; a defesa da propriedade privada com a eliminação das formas feudais de organização da terra e o incentivo às reformas agrárias vinculadas ao socialismo, bem como a manutenção das tradições, mediante o fechamento das relações com os países ocidentais e o avanço militar sobre o Império Russo.

A expansão capitalista no século XIX ficou conhecida como imperialismo, e o domínio dos países europeus sobre a África e a Ásia foi denominado neocolonialismo. Sobre o resultado da junção desses dois fenômenos - o imperialismo e o colonialismo - na África e na Ásia, assinale a seguir a alternativa correta. O imperialismo e o neocolonialismo ajudaram os povos africanos e asiáticos a saírem de seu atraso secular, possibilitando-lhes o acesso ao progresso tecnológico. A segunda revolução industrial, o capitalismo monopolista e os ideais de progresso estão associados ao imperialismo, ao neocolonialismo e ao completo domínio dos Estados Unidos, no final do século XIX. Os maiores beneficiários de todo o domínio imperialista e do neocolonialismo na Ásia e África foi a classe operária européia, em face do pleno emprego da indústria. Através do imperialismo e do neocolonialismo, as elites econômicas e políticas inglesas construíram a imagem de que eram o modelo de cultura e civilização, a ser imitado em todo o mundo. Entre as nações da África, as que transferiram maiores quantidades de pedras preciosas para a Inglaterra foram Angola e Moçambique, em razão do neocolonialismo.

Com a publicação do livro do economista inglês Hobson, "Imperialismo, um estudo", em 1902, difundiu-se o significado moderno da expressão "imperialismo", que passou a ser entendido como um esforço despendido pelas economias centrais, no sentido de promover as economias periféricas. a condição prévia e necessária ao incremento do desenvolvimento industrial nos países capitalistas. um acordo entre as potências capitalistas, visando dividir, de forma pacífica, os mercados mundiais. a expansão econômica e política em escala mundial das economias capitalistas na fase monopolista. o "fardo do homem branco", um empreendimento europeu, procurando expandir a civilização na África.

ORIGEM
Ver tb
http://neh.no.sapo.pt/documentos/imperialismo.htm

ver também: http://historiacontemporaneaufs.blogspot.com/2010/10/o-fardo-do-homem-branco-1899.html
e outras interpretações em comentários....

http://www.anovademocracia.com.br/no-35/287-a-recolonizacao-programada-da-africa

POVOS DO SUL DE ANGOLA EM 1900


segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

RUMO - Alda Lara, poetisa angolana

RUMO

É tempo, companheiro!
Caminhemos...
Longe, a terra chama por nós,
e ningém resiste à voz
Da terra...
Nela,
O mesmo sol ardente nos queimou
a mesma lua triste nos acariciou,
e se tu és negro e eu sou branco,
a mesma terra nos gerou!
Vamos, companheiro...
É tempo!
Que o meu coração
se abra à mágoa das tuas mágoas
e ao prazer dos teus prazeres
Irmão
Que as minhas mãos brancas se estendam
para estreitar com amor
as tuas longas mãos negras...
E o meu suor,
se junte ao teu suor,
quando rasgamos os trilhos
de um mundo melhor!
Vamos!
que outro oceano nos inflama...
Ouves?
É a terra que nos chama...
É tempo companheiro!
Caminhemos...

Alda Lara, poetisa angolana 



Compreender o racismo e a discriminacao:
ComTeoria Evolucionista
Evolucionismo: dogma cientiifico ou tese teosofica?

sábado, 7 de janeiro de 2012

Carregadores em Angola no seculo XIX e inicio do seculo XX

 
.
 
Fotografia do álbum de Cunha Morais, 1908
 
Esse Desconhecido Carregador de Caravanas
 
Recordarei aqui o que escrevi na dissertação de mestrado “O Comerciante do Mato” sobre essa figura, sem a qual, os companheiros de Diogo Cão, os missionários, os negociadores de escravos, de cera, de diamantes, de ouro, e especialmente as forças expedicionárias da ocupação efectiva de Angola, não poderiam levar a bom porto de destino as suas mercadorias, fossem elas quais fossem.
 
 
Dambu Amburi, fotografia de Veloso e Castro, 1909
 
Refiro-me aos carregadores, eram reunidos em caravanas para assim poderem atravessar o sertão com mais confiança e sem o risco de serem assaltados e roubados pelos homens de guerra de etnias não submetidas ao governo português, cujas terras tinham de atravessar. Transportavam consigo uma esteira, ou um cobertor que o chefe de caravana lhes fornecia, a que por vezes juntavam também uma pele de cabra, a servir-lhes de cama estendida no chão em qualquer parte onde acampavam; uma panela de barro para fazerem o infundi (massa de farinha de mandioca ou de milho) e uma cabaça para a água eram os utensílios indispensáveis para seguirem viagem. As caravanas aproveitavam a manhã para iniciarem a marcha descansando ao pino do sol e reiniciando mais pela tarde.
 
As caravanas das expedições militares eram compostas por mais de mil carregadores, chegavam a atingir os três mil. Os chefes de caravana sabiam que o inimigo dificilmente tentaria atacar uma caravana tão numerosa e, por outro lado, se houvesse casos de deserção ou doença entre os carregadores, facilmente, se redistribuiria a carga.
 
A viagem era sempre muito penosa. A condição física dos carregadores, a fome, as chuvas tropicais e as doenças grassavam, ao longo das semanas entre os componentes das caravanas, não escolhendo a condição de ser carregador ou chefe de caravana; transpunham rios a vau, de muito difícil acesso, subidas e descidas onde os mais fracos sucumbiam, sendo deixados, por vezes, moribundos. Não raro, a escassez de alimentos a isso obrigava. A caravana era completada por exploradores, os célebres pisteiros. Conheciam na perfeição, todos os traços “ocultos” dos caminhos. Dos seus conhecimentos dependia uma grande parte do êxito (compreenda-se o maior rendimento com o menor custo) das caravanas. Foi assim por exemplo na conquista do Oeste, pela mesma altura, nos Estados Unidos da América. Com uma enorme diferença: a razia das diferentes etnias de Índios.
 
Os primeiros militares que formaram os corpos expedicionários no Kuamato em 1906 sob o comando do então major Alves Roçadas, tiveram guias excepcionais como Calipalula[33], conhecedor profundo da região. Orientava Roçadas não só em momentos próprios de paragem da coluna como conhecia as veias de água mais próximas, aconselhando permanentemente o comandante sobre os movimentos do inimigo. Naquele tempo, estes factores eram incontornáveis para o necessário descanso de uma pequena unidade militar, que quase sempre só parava já exaurida.
 
Demoravam em marcha forçada (sem impedimentos de qualquer ordem como por exemplo ataques inimigos ou chuvadas torrenciais), entre quatro a cinco dias, para perfazer entre 50 a 70 quilómetros, com a agravante de terem de levar todo o material às costas. Cabe aqui referir o papel dos carregadores.
 
 
 
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Não eram escolhidos ao acaso. Os portugueses já deambulavam por aquelas paragens há quatro séculos, internando-se cada vez mais pelo perigosíssimo trilho das caravanas comerciais de longo curso, sabiam quais eram os mais resistentes carregadores e a que etnia pertenciam. Deles muito dependia a progressão no terreno de toda a coluna. Na prática, basicamente não se mudou de transporte de energia animal; homens, mulas, bois e até camelos, para os camiões com capacidade para duas toneladas de carga, importados e adaptados, tendo em atenção a época das chuvas com incontornáveis lamaçais, como a estrutura das pontes operacionais.
 
Os carregadores continuaram a ser, durante ainda cerca de duas décadas absolutamente indispensáveis. Pereira d,Eça bem pode avaliar o seu préstimo depois da inovação do serviço de transporte por camiões “A causa do corte de comunicações foi uma única. Os camiões terem, quase na totalidade, condutores civis, que depois de assistirem aos combates dos dias 17 e 18 de Agosto, ficaram aterrados, e logo se viram atacados, não pensaram senão em fugir[34]. Portanto apesar da concorrência dos camiões, continuaram, prestavam grande e eficaz serviço, eram recrutados pelos seus próprios chefes de aldeia, que aproveitavam compelir os homens válidos do povoado, para, não raro, lhes ficarem com as mulheres e o gado. Curiosamente, os novos carregadores solteiros eram estimulados pelo salário a obter e com ele garantiam o dinheiro suficiente para o lobolo (preço da noiva) que de outra maneira não conseguiriam nunca. O peso dos volumes transportados estavam relacionados primordialmente com as etapas a vencer, a forma do terreno, a presença de forças inimigas e a época seca ou das chuvas. Este assunto dá-me oportunidade de recordar um episódio vivido pelo general Pereira d’Eça[35].
 
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Carregadores Angola. Fotografia do álbum de Cunha Morais, 1908
 Ambaquistas

" ...As caravanas de carregadores, no século xix, criaram uma densa rede comercial e de comunicação no interior de África. O mérito próprio dos africanos na exploração da África Central, nomeadamente de Luanda às Lundas, é realçado no livro da antropóloga e historiadora alemã Beatrix Heintze através de uma multiplicidade de perspectivas, com especial relevo para o papel dos chefes das caravanas, intérpretes e carregadores. Nessa altura, os exploradores europeus olhavam os Africanos como seres menores. Eram muito poucos os que os consideravam como «indivíduos por direito próprio». A literatura de viagens do século xix está cheia de preconceitos e da subestimação dos autóctones.

A interligação destes empreendimentos africanos com o desenvolvimento transatlântico e o desenvolvimento interno africano, as condições quotidianas das viagens em caravana, assim como as suas estruturas complexas, são outros aspectos centrais do trabalho de Heintze. O processo que essas caravanas desencadearam ultrapassou a importante dimensão político-económica que tiveram na época. Percorrendo longas distâncias, criaram novos espaços de comunicação: ligando os locais entre si, criaram espaços supra-regionais. Os chamados Ambaquistas, detentores de uma cultura mista luso-africana e predominantemente negros, desempenharam um papel muito importante e em diversos aspectos foram os pioneiros africanos por excelência no Ocidente da África Central.

No livro, traduzido por Ana Paula Tavares com o apoio do Goethe Institut, uma série de documentos preciosos – desenhos e fotos –, ajudam a construir o retrato de tempos em que a mais ousada determinação e a mais completa desumanidade se conjugaram para concretizar as colónias que meia dúzia de potências europeias dividiram entre si, desenhando uns quantos traços num mapa da África. "
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