quarta-feira, 11 de abril de 2012

Poesia angolana : Cantiga da Mulata


Cantiga da Mulata

Lencinho à cabeça
Lá vai a mulata
Luxenta e com pressa
Ao negro maltrata

Faceira e amorosa
Ao branco se abraça
E sempre vaidosa
Ao negro escorraça


Esperando o casório
Ao negro escarnece
E com riso ilusório

A mãe ela esquece

Mas ...

O branco enriquece
E deixa a mulata
Que sofre e padece
Perdida e sem prata


Depois d' enganada
Procura a mãe que padece
Com olhar resignada

O neto que cresce

A mulata chorosa
Lamenta a desgraça
Mas sempre vaidosa
Sorri a quem passa

Lá vai a mulata ...
Agora,

Modesta e sem pressa

Subindo o musseque
Ao negro se abraça
Olhando em desdém
O branco que passa
 
 BETO VAN-DÚNEM

Pomas de ANA PAULA TAVARES


ANA PAULA TAVARES
ANA PAULA TAVARES

Poetisa e historiadora nascida em Lubango, na província de Huila, em 1952. Obteve o grau de Mestre em Literaturas Africanas pela Universidade de Lisboa.
Obra poética: Ritos de Passagem, Luanda, União dos Escritores Angolanos; 1985; O Lago da Lua,  Lisboa, Editorial Caminho, 1999; Dizes-me coisas amargas como os frutos, Lisboa, Editorial Caminho, 2001.

RAPARIGA

Cresce comigo o boi com que me vão trocar
Amarraram-me às costas, a tábua Eylekessa

Filha de Tembo
organizo o milho

Trago nas pernas as pulseira pesadas
Dos dias que passaram...

Sou do clã do boi —

Dos meus ancestrais ficou-me a paciência
O sono profundo do deserto,

a falta de limite...

Da mistura do boi e da árvore
a efervescência
o desejo
a intranqüilidade
a proximidade
do mar

Filha de Huco
Com a sua primeira esposa
Uma vaca sagrada,
concedeu-me
o favor das suas tetas úberes
        

A MÃE E A IRMÃ

A mãe não trouxe a irmã pela mão
viajou toda a noite sobre os seus próprios passos
toda a noite, esta noite, muitas noites
A mãe vinha sozinha sem o cesto e o peixe fumado
a garrafa de óleo de palma e o vinho fresco das espigas
                                               [vermelhas
A mãe viajou toda a noite esta noite muitas noites
                                               [todas as noites
com os seus pés nus subiu a montanha pelo leste
e só trazia a lua em fase pequena por companhia
e as vozes altas dos mabecos.
A mãe viajou sem as pulseiras e os óleos de proteção
no pano mal amarrado
nas mãos abertas de dor
estava escrito:
meu filho, meu filho único
não toma banho no rio
meu filho único foi sem bois
para as pastagens do céu
que são vastas
mas onde não cresce o capim.
A mãe sentou-se
fez um fogo novo com os paus antigos
preparou uma nova boneca de casamento.
Nem era trabalho dela
mas a mãe não descurou o fogo
enrolou também um fumo comprido para o cachimbo.
As tias do lado do leão choraram duas vezes
e os homens do lado do boi
afiaram as lanças.
A mãe preparou as palavras devagarinho
mas o que saiu da sua boca
não tinha sentido.
A mãe olhou as entranhas com tristeza
espremeu os seios murchos
ficou calada
no meio do dia.

               (Dizes-me coisas amargas como os frutos)


O CERCADO

De que cor era o meu cinto de missangas, mãe
feito pelas tuas mãos
e fios do teu cabelo
cortado na lua cheia
guardado do cacimbo
no cesto trançado das coisas da avó

Onde está a panela do provérbio, mãe
a das três pernas
e asa partida
que me deste antes das chuvas grandes
no dia do noivado

De que cor era a minha voz, mãe
quando anunciava a manhã junto à cascata
e descia devagarinho pelos dias

Onde está o tempo prometido p'ra viver, mãe
se tudo se guarda e recolhe no tempo da espera
p'ra lá do cercado


    (Dizes-me coisas amargas como os frutos)


BOI  À VELA

Os bens nascidos na huíla
são altos, magros
navegáveis
de cedo lhes nascem
cornos
leite
cobertura

os cornos são volantes
indicam o sul
as patas lavram o solo
deixando espaço para
a semente
a palavra
a solidão>


A ABÓBORA MENINA

Tão gentil de distante, tão macia aos olhos
vacuda, gordinha,
de segredos bem escondidos

estende-se à distância
procurando ser terra
quem sabe possa
acontecer o milagre:
folhinhas verdes
flor amarela
ventre redondo
depois é só esperar
nela deságüem todos os rapazes.


NOVEMBER WITHOUT WATER


Olha-me p´ra estas crianças de vidro
cheias de água até às lágrimas
enchendo a cidade de estilhaços
procurando a vida
nos caixotes de lixo.

Olha-me estas crianças
transporte
animais de cargas sobre os dias
percorrendo a cidade até os bordos
carregam a morte sobre os ombros
despejam-se sobre o espaço
enchendo a cidade de estilhaços.

*
Chegas
eu digo sede as mãos
fico
bebendo do ar que respiras
a brevidade

assim as águas
a espera
o cansaço.


Inexplicavelmente, escolheram o nome Paula Tavares para a edição brasileira de sua obra reunida, quando a poeta é mais conhecida por Ana Paula Tavares, e vamos usar ambos nomes na identificação para facilitar a vida dos internautas. Ana Paula ou Paula, sua poesia é sempre excelente. Em boa hora é publicada no Brasil!

EX-VOTO

O tempo pode medir-se
No corpo

As palavras de volta tecem cadeias de sombra
Tombando sobre os ombros

A cera derrete
No altar do corpo

Depois de perdida, podem tirar-se
Os relevos

ADORNO

Toda a noite chorei na casa velha
Provei, da terra, as veias finas,
Um nome um nome a causa das coisas
Eu terra eu árvore eu sinto
todas as veias da terra
em mim e
o doce silêncio da noite.

CIRCUM-NAVEGAÇÃO

Em volta da flor fez
          a abelha
a primeira viagem
circum-navegando
          a esfera

Achado o perímetro
suicidou-se, LÚCIDA
no rio de pólen
          descoberto.




Página publicada em novembro de 2008; ampliada em setembro de 2009. ampliada e republicada em dezembro de 2011.
http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_africana/angola/ana_paula_tavares.html

É da África do Sul... mas podia ser de outro ponto de África...



Foi dito pelo actor Kiefer Sutherland...

"Não entendo como é que a África do Sul tem aqueles palácios e a um quilómetro não há água nem electricidade"

Kiefer Sutherland, actor, in Correio da Manhã, 29-4-2009




terça-feira, 10 de abril de 2012

Exposição em Luanda em 1938: Imagens fugazes - a viagem presidencial às colónias 1938/39

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Exposição-Feira de Angola, 1938 / Álbum comemorativo da exposição-feira de Angola. Luanda XCMXXXVIII ,  Imagens fugazes - a viagem presidencial às colónias 1938/39

segunda-feira, 9 de abril de 2012

O Batalhão de Marinha Expedicionário a Angola (1914)

Abraço de Despedida: partida de um Fuzileiro Naval do Batalhão de Marinha Expedicionário a Angola  (1914). Foto Benoliel,Ilustração Portuguesa n.º 456, de 16 de Novembro de 1914.
Capa da Ilustração Portuguesa n.º 456, de 16 de Novembro de 1914

O Batalhão de Marinha Expedicionário a Angola (1914)


A Partida de Lisboa

A preparação  de um batalhão de marinheiros iniciou-se em Outubro de 1914, tendo para tal sido efectuado um aviso a oficiais e praças, para obtenção de voluntários. Como é apanágio da marinha houve voluntários para mais de um batalhão, o que levou à necessidade de efectuar uma selecção. Refira-se que 2º Tenente Carvalho Araújo, foi dado como incapaz na junta médica de selecção de voluntários, mas que dentro do seu espírito intervencionista fez de tudo para ser integrado, conseguindo o comando da 1ª secção de metralhadoras.  
 
A 31 de Outubro de 1914 foram efectuadas as nomeações dos oficiais do Batalhão de Marinha Expedicionário a Angola, cabendo ao antigo governador de Mossâmedes, Capitão-tenente Alberto Coriolando da Costa, o comando da missão.
 
Os voluntários vindos de todo o país reuniram-se no Quartel de Alcântara em 5 dias, perfazendo um total de 18 oficiais, 2 sargentos e 509 praças. (2)
 
A partida do Batalhão de Marinha aconteceu dentro de um espírito patriótico e de elevado moral, com um sentimento geral que a missão se destinava a proteger o território nacional em África. Encontravam-se aquartelados em Alcântara quando, ao meio-dia de 5 de Novembro de 1914, começaram a desfilar pela Av. 24 de Julho e passaram pelo Terreiro do Paço para chegar ao cais de embarque no Arsenal da Armada, onde embarcaram no vapor "Beira", rumo a Angola.  (1)


O Capitão-de-mar-e-guerra Nunes da Silva, comandante do Corpo de Marinheiros e o Capitão-tenente Alberto Coriolano Ferreira da Costa, comandante do Batalhão Expedicionário de Marinha a Angola, passando revista às tropas, 18 de Novembro de 1914, em Alcântara.Ilustração Portuguesa, n.º 456
O Capitão-de-mar-e-guerra Nunes da Silva, comandante do Corpo de Marinheiros e o Capitão-tenente Alberto Coriolano Ferreira da Costa, comandante do Batalhão Expedicionário de Marinha a Angola, passando revista às tropas, 18 de Novembro de 1914, em Alcântara. (Foto de Benoliel)


Desfile do Batalhão de Marinha na parada Sul do Quartel de Alcântara, quando da partida para Angola. (Foto de Benoliel)

Guarda de honra à Bandeira Nacional que acompanhou o Batalhão de Marinha durante toda a sua Expedição em Angola. (Foto de Benoliel)
 
O desfile do Batalhão deu-se entre o delírio do manifestações de orgulho e lágrimas de saudade, num adeus de quem parte para combater pela defesa da terra natal. (3)

Batalhão de Marinha. Desfile no Terreiro do Paço 1914. Foto Benoliel, Ilustração Portuguesa, n.º 456.
O Batalhão a desfilar no lado ocidental do Terreiro do Paço por entre a multidão e precedido de uma banda musical, em continência ao Presidente da República, que assistiu ao desfile de uma das janelas do Ministério das Finanças. (Foto de Benoliel)

Durante a viagem os marinheiros receberam instrução sobre o manuseamento da espingarda "Kropatcheck" e normas sobre como se defenderem do principal inimigo, a sede e a doença. A motivação e o moral dos marinheiros era alto, o que levou a que entrasse mais um marinheiro voluntário para o Batalhão quando pararam no Porto Grande, em São Vicente de Cabo Verde. 
O vapor "Beira" acostou em Luanda, onde o Comandante Alberto Coriolando da Costa apresentou cumprimentos ao Governador Geral Norton de Matos, e depois seguiu para Mossâmedes, onde chegou a 30 de Novembro.

O Batalhão de Marinha em Mossâmedes

O primeiro acto oficial do Batalhão de Marinha, após a chegada à cidade de Mossâmedes, em 30 de Novembro de 1914, foi um desfile pelas ruas da cidade, ao som de música, no qual mostrou o seu aprumo de corpo de elite. (4)


Tiveram de preparar, e em parte improvisar, as instalações para o seu depósito de material, munições e viveres, uma vez que nada estava preparado para os receber.  Foi durante este período que os marinheiros tiveram de aprender a tratar dos solípedes e aprender a arte de cavalgar.

A 1 de Dezembro o Batalhão voltou a desfilar integrado nas comemorações do "Dia da Independência", com a particularidade de os oficiais já desfilarem montados a cavalo.

A 11 de Dezembro o Batalhão de Marinha partiu de Mossâmedes em direcção ao Cuamato, onde se  encontrava o Tenente-coronel Alves Roçadas. A primeira etapa foi feita pela via férrea, que ligava Mossâmedes a Bela Vista. Foram precisos cinco comboios para transportar o Batalhão. 

Após reunidos em Bela Vista seguiram a pé até Lubango, onde chegaram no dia seguinte.


O Batalhão de Marinha no Lubango

A 12 de Dezembro de 1914 o Batalhão de Marinha Expedicionário a Angola encontrava-se em Lubango.

Lubango. Fotos retirada da Ilustração Portuguesa n. 468, de 15 de Fevereiro de 1915
O Batalhão de Marinha esteve estacionado no Lubango antes de partir para o Cuamato. (Foto de Teles Grilo)

Lubango. Ilustração portuguesa n. 488, de 28 de Junho de 1915
Grupo de marinheiros, no Lubango, pertencentes à Lancha "NRP Rio Minho" que foram desembarcados para integrar o Batalhão de Marinha,   (Foto de Teles Grilo)

As notícias da frente de combate eram alarmantes e os itinerários marcados para atingir o rio Cunene, em Forte Humbe, pelos Gambos tinha dois difíceis obstáculos, carência de água e de capim para o gado.

A 21 de Dezembro recebem notícia que uma unidade alemã de cerca de 200 homens, teria bivacado nas redondezas de Lubango, o que fez com que tomassem posições defensivas à volta da localidade. Não chegou a haver qualquer confronto com a força alemã.
Pormenor do acampamento, onde se localizava o posto de TSF. (Foto de Teles Grilo)

1ª e 2ª Secções de Metralhadoras  do Batalhão de Marinha no Lubango. (Foto de Teles Grilo)

Nesta mesma data o Tenente-coronel Alves Roçadas informa os marinheiros do sucedido em Naulila e ordena que estes avencem sobre Chibia.  O Batalhão levou apenas 10 horas para se aprontar e partiram em direcção de Humbe, onde se encontravam as tropas do Tenente-coronel Alves Roçadas em retirada.

Carregamento dos carros Boers com o material de guerra. (Foto de Teles Grilo)

Em Lubango, a descarga dos camelos que transportaram o material militar e viveres para as forças que avançam sobre o Sul de Angola.  (Foto de Alberto de Castro)

A velocidade a que se deslocavam os carros boer, puxados a bois, não conseguiam acompanhar o passo da marcha do Batalhão de Marinha, o que fez com que no final da primeira etapa, em Pituaco, não houvesse barracas e mantas para a pernoita. No dia seguinte 24 de Dezembro de 1914 alcançaram Chibia. Durante as etapas o maior problema foi a falta de água, por escassez de "cacimbas" (pequenas chuvas) e de quase inexistência de "mololas" (poços). (8)

Começaram no Natal a aparecer as primeiros febres entre os oficiais e praças, mas continuam a caminhar em direcção ao Quartel General do Tenente-coronel Alves Roçadas, que se encontrava à data em Gambos.  Chegam a Gambos a 3 de Janeiro de 1915.

O Batalhão de Marinha em Forte Gambos (Forno da Cal)

Chegados a 3 de Janeiro de 1915 a Gambos, o Tenente-coronel Alves Roçadas coloca o Batalhão de Marinha num posto avançado, lugar do Forno da Cal, que viria a ser a base de operações do Batalhão durante algum tempo.

O estrado de saúde do Batalhão foi piorando, muito também por causa das condições do local  onde estavam estacionados. No entanto, construíram a base com as melhores condições possíveis, tendo em consideração o principal inimigo, a febre tifóide e o paludismo. (9)

O clima encontrado neste lugar variava entre 4ºC à noite e 39ºC de dia, com chuvas. Ao clima acrescia os problemas de escassez de alimentação por causa da falta de transportes. 
  
Durante o tempo em que estiveram nesta posto, aproximadamente 3 meses, sofreram duas mortes por doença e tiveram de repatriar 21 praças para a Metrópole por doença.

Em 21 de Março chegou a Luanda o novo comandante militar de Angola, o General Pereira de Eça, e com ele iria recomeçar a ofensiva sobre os alemães. Em Abril o General visitou o posto de Forno de Cal, tendo comentado com o Capitão-tenente Alberto Coriolano Ferreira da Costa ter apreciado as boas condições em que o posto se encontrava.(10)

No dia 5 de Maio de 1915 o Batalhão, integrado nas manobras sobre o Sul de Angola, fez avançar sobre Cahama, lugar  também conhecido como "cemitério dos brancos", uma coluna comandada pelo 1º Tenente Afonso Júlio Cerqueira, composta pela 1ª Companhia do Batalhão de Marinha e a 15º Indígena Expedicionária de Moçambique.

O avanço deu-se entre a hostilidade do população local, mas chegou-se a Cahama e ainda se avanõu mais um pouco até Tchicusse, onde se construiu um posto militar e se efectuaram vários trabalhos defensivos. A coluna de Cahama mantinha-se na posição até que em 26 de Maio recebeu um pedido de auxílio do Padre Bellet (francês), superior da missão do Espírito Santo, com sede no Tchipelongo, que estava a ser ameaçada pelos locais.

O 1º Tenente Afonso Júlio Cerqueira, após solicitar autorização ao comandante do Batalhão de Marinha, organizou um grupo de socorro à missão de Espírito Santo, composto por 51 marinheiros e uns outros tantos Landins, chefiados pelo 1º Tenente Cerqueira, o 2º Tenente Botelheiro, o Tenente de Infantaria Humberto de Ataíde e o Alferes de Infantaria Loza, ambos pertencentes à 15ª Companhia Indígena Expedicionária de Moçambique.

Assim que chegaram à missão do Espírito Santo, dia 28 de Maio,  começaram a ser atacados pelos locais, que se encontravam bem organizados e equipados com Mausers. O combate durou algumas horas até que os rebeldes  desmoralizaram e fugiram deixando para trás no terreno mortos e feridos. Foi o baptismo de fogo do Batalhão de Marinha e o seu primeiro sucesso militar.

O grupo de socorro regressou ao posto de Tchicusse com vários feridos, entre os quais o Tenente de Infantaria Ataíde e o 1º Tenente Cerqueira.

Entretanto, as restantes forças do Batalhão de Marinha foram-se juntar à coluna em Tchicusse, onde permaneceram até Junho, data em que o Batalhão recebeu ordem para avançar para Humbe.

O estado de saúde do Batalhão de Marinha foi piorando, o que levou inclusive a que o comandante Coriolano da Costa e o Tenente Carvalho Araújo, colhidos pela enfermidade tivessem de ser repatriados. Isto levou a que o 1º Tenente Afonso de Cerqueira fosse promovido a Capitão-tenente e assumisse o comando do Batalhão de Marinha. No relatório do do 2º Tenente-médico Júlio Gonçalves, de 2 de Junho, há a indicação que 25% dos praças estão doentes e incapacitados para o serviço.  

A 4 de Junho de 1915, deu-se início à marcha em direcção ao Forte Humbe. Junto com o Batalhão de Marinha seguiam o Batalhão de Infantaria n.º 17, comandado pelo Major Pires Viegas, a 15ª Companhia Indígena Expedicionária de Moçambique, um grupo de auxiliares damaras, duas baterias de artilharia divididas em quatro secções,  quatro baterias de metralhadoras, uma pertencente ao Batalhão de Marinha, e dois Esquadrões de Cavalaria, um do Regimento de Cavalaria n.º 4 e outro do Regimento de Cavalaria n.º 11, ambos comandados pelo Major de Cavalaria Vieira da Rocha.(12)
 

O Batalhão de Marinha em Forte Humbe  

O Batalhão de Marinha chegou a Humbe a 7 de Junho de 1915. O local estava reduzida a destroços. Tiveram de montar o bivaque em quadrado e improvisar defesas. Nesta data o Batalhão estava reduzido a 12 oficiais e 303 praças. Entretanto foram chegando as restantes forças militares da coluna.
 
Entretanto, receberam ordens para ocupar Ngiva, centro administrativo dos rebeldes do Cuamhama e sede do soba. A partida para o Cuanhama deu-se 10 de Agosto. Com o Batalhão de Marinha na frente da coluna, seguiu-se a 15ª Companhia Indígena e o Batalhão de Infantaria n.º 17.

Humbe. Ilustração Portuguesa n. 498, 6 de Setembro de 1915
Metralhadoras do Batalhão de Marinha, numa dos flancos do quadrado do bivaque

O Batalhão de Marinha no Cuanhama (O Quadrado de Mongua)

A chegada à região Cuanhama, a 15 de Agosto de 1915, foi comemorada com uma salva de artilharia, que serviu para também indicar propositadamente aos rebeldes a nossa presença e a intenção de restabelecer a administração portuguesa da região. (12)

As forças continuaram a avançar dentro do território hostil e foi em Mongua, a 18 de Agosto de 1915, que os rebeldes iniciam os ataques às forças portuguesas, os quais duram durante 3 dias.
 
A coluna formou o seu dispositivo defensivo em quadrado e coube ao Batalhão de Marinha a ocupação da face da frente (Leste) do quadrado, sob o comando do Capitão-tenente Afonso de Cerqueira. A face da direita (Sul) do quadrado foi ocupada por duas companhias do Batalhão de Infantaria n.º 17, sob o comando do Major Pires Viegas. A face esquerda (Norte) do quadrado foi ocupada por uma companhia do regimento de Infantaria n.º 17, a 15ª Companhia Indígena Expedicionária de Moçambique e o grupo de auxiliares damaras, sob o comando do Capitão de metralhadoras Henrique Cameira. A face da retaguarda (Oeste) era ocupada pela última companhia do Batalhão de Infantaria n.º 17, sob o comando do Capitão de metralhadoras Teles de Azevedo. (13)
 
No dia 18 e 19 de Agosto o fogo inimigo foi esporádico e por vezes intenso, mas as patrulhas que saíam do quadrado não encontravam muita resistência. Entretanto, no dia 19 ficaram completos os trabalhos de entrincheiramento, que se tornaram necessários devido à capacidade de fogo do inimigo.(15)
 
No dia 20 de Agosto, os rebeldes comandados pelo soba Mandume, do Cuanhama, que concentraram entre 50.000 a 60.000 homens (cuanhamas. cuamatos. evales, alguns cuambis e muitos foragidos do Humbe) e com cinco carros boers de munições, todos armados com "Martini Henry" e algumas centenas de "Mauser" iniciaram o ataque contra os 3.000 homens portugueses. (14)
 
O fogo dos rebeldes era intenso e certeiro o que levou a que se desse ordem para os praças se deitassem e se protegessem com sacos de terra. O quadrado estava muito denso uma vez que englobava dentro de si perto de duas centenas de carros de transporte e atrelados e ainda dos dois esquadrões de cavalaria.
 
As secções de artilharia, colocadas nos cantos do quadrado, fizeram mais de 2.000 disparos durante o combate, se bem que não por igual, já que a maior intensidade do ataque inimigo se deu na face frontal (Batalhão de Marinha) e face esquerda (Infantaria n.º 17, landins e damaras). Nas outras faces do quadrado os feridos derivavam do fogo cruzado com a face frontal e esquerda, que os atingia de costas.
 
Os combates duraram desde as 7 horas da manhã até às 17 horas da tarde. O General Pereira Eça às 17 horas ordenou uma carga por forças do Batalhão de Infantaria 17, 15ª Companhia de Indígenas e do Batalhão de Marinha, e os Esquadrões de Cavalaria, para aliviar a pressão sobre o quadrado.
 
Ao lado direito do quadrado formou o Esquadrão de Cavalaria n.º4, comandado pelo Capitão Luiseno Godinho e do lado esquerdo do quadrado formou o Esquadrão de Cavalaria n.º 11, comandado pelo Capitão Cunha e Costa. A atitude impassível da cavalaria sob o fogo inimigo, arrancou dos praças um sonoro "viva a cavalaria portuguesa", que foi respondido com um "viva a nossa infantaria". Sem cuidar do fogo inimigo todos pararam de disparar e começaram a cantar a "Portuguesa", e os landins como não o sabiam o nosso hino começaram a cantar a sua canção guerreira "Baiete Incoce".

A carga da cavalaria, apesar das pesadas baixas e de praticamente ficaram sem montadas, consguiram por em fuga soba Mandume e com ele fugiram todas as suas tropas. Mais tarde, a 6 de Fevereiro de 1917, já em território da Namíbia o soba Mandume foi encontrado morto, terminando com ele o último reino Ovambo independente.

O Batalhão de Marinha no final do dia tinha sofrido inúmeros feridos e dois praças mortos.
 
Em resultado dos três dias de combate as tropas portuguesas tiveram: 4 oficias e 32 praças (2 da marinha) mortos e 11 oficiais (4 da Marinha) e 44 praças (parte marinheiros).

Cuanhama. Ilustração Portuguesa n. 507, de 8 de Novembro de 1915
Acampamento do combate de 20 de Agosto de 1915, Posto de Socorro na face direita do quadrado (posição da Infantaria 17).


Posto de Socorro na face da frente do quadrado (posição do Batalhão de Marinha)


  
Capitão-de-fragata médico Vasconcelos e Sá, Chefe dos serviços de saúde do Batalhão de Marinha, e a Barraca da ambulância central da coluna militar.

Os reforços de munições e mantimentos só chegaram a 24 de Agosto, após uma longa marcha forçada da coluna que partiu do Cuamato.

A 2 de Setembro a coluna, comandada pelo Coronel António Veríssimo de Sousa, partiu com destino a Ngiva, composta pelo Batalhão de Infantaria n.º 17, o Batalhão de Marinha, duas Baterias de Artilharia, duas Baterias de metralhadoras e dois Esquadrões de Cavalaria. Depois de um árduo percurso chegaram e tomaram Ngiva.

O Batalhão de Marinha Expedicionário a Angola regressou à Metrópole a 30 de Setembro de 1915,embarcados em Mossâmedes no vapor "Zaire". Neste navio regressaram 13 oficiais e 346 praças, tendo ficado eternamente em Angola 15 marinheiros, 2 mortos em combate, 12 por doença e um assassinado por indígenas em Lubango. Chegaram a Lisboa a 15 de Outubro de 1915.  

O Batalhão de Marinha Expedicionário a Moçambique (1918)


A Partida de Lisboa

DTA - Divisão de Exploração dos Transportes Aéreos de Angola

Citando Lino Cardoso in "Mazungue"

Bem, amigos do Huambo, após uma pausa no cansaço da poda, volto a este espaço para iniciar a história da DAT, na visão do senhor José Vilhena, a quem transmitimos o nosso agradecimento. As imagens são do blog de alguém que usa o codinome dessa instituição e, igualmente, endereçamos o nosso agradecimento pelo involuntário compartilhar.
Voltarei... A qualquer momento, daqui ou do lado de lá da fronteira.

Lino
Posted Image

DTA - Divisão de Exploração dos Transportes Aéreos de Angola


O Klemm K1.31A-14 “CR-LAS”, um dos primeiros aviões da DTA.



Corria o ano de 1937 quando o Major Joaquim de Almeida Baltazar foi encarregue pelo então Ministro das Colónias Vieira Machado de formar a primeira companhia de transportes aéreos em Angola. Foi ele o verdadeiro criador desta empresa. Chegou a Angola a pedido do então Governador-Geral General Lopes Mateus com a finalidade de formar os novos pilotos do recém-formado Aero Clube de Angola. A sua primeira missão nestas terras africanas foi levar o primeiro avião deste Aero Clube de Leopoldeville a Luanda, em parceria com o piloto Fernando Albuquerque Bossa, outro dos primeiros pilotos da futura DTA. Divisão de Exploração dos Transportes Aéreos de Angola (DTA), assim se chamou a companhia criada a 8 de Setembro de 1938, pela Portaria nº 11, do Boletim Oficial nº 36, 1ª série de 8 de Setembro do mesmo ano, que de uma forma semelhante ao já passado em Moçambique, funcionou na dependência da Administração da Direcção dos Serviços de Portos, Caminhos de Ferro e Transportes de Angola.

domingo, 8 de abril de 2012

Autonomia de Angola - Estudo de Administraçao Colonia by José de Macedo


  1. [PDF] 

    Autonomia de Angola - Estudo de Administraçao Colonial

    www.fd.unl.pt/Anexos/Investigacao/1753.pdf
    Formato do ficheiro: PDF/Adobe Acrobat
    riegociaçBer anglci-alemas sobre Angola e depois com a Grande ...... 1857-58. 185g-59. 1859-60. 1860-61. 1361-62. 1862-63. 1dG3-64. 1864-65. 1865-G6 ...

sexta-feira, 6 de abril de 2012

FUA e o Engº Fernando Falcão (entrevista).



Fernando Falcão, 87 anos, angolano, engenheiro civil. Nasceu no Namibe, neto dos primeiros colonos que aportaram no deserto no fim do século XIX vindos do Brasil. Estudou no Liceu Diogo Cão e formou-se em Engenharia no Porto no distante ano de1947 . Fixou-se no Lobito, onde desenvolveu marcada actividade política, empresarial e associativa durante muitas décadas, acabando por ser uma das figuras de referência da cidade e de todo o Sul de Angola.
NJ- Enquanto estudante a sua participação no combate à ditadura e à sociedade colonial prevalecente em Angola foi marcada pela fundação da Casa de Estudantes de Angola, depois Casa dos Estudantes do Império, no MUD juvenil, onde partilhou cumplicidades políticas, companheiros de percurso e também a marcação cerrada de uma PIDE que nunca o esqueceu até 25 de Abril de 1974. Fale-nos do Falcão da “juventude”.
FF – Pouco tenho a acrescentar ao que é conhecido. Direi que fiz a instrução primária em Moçâmedes (hoje Namibe), fiz o 7º ano do Liceu em Sá da Bandeira (hoje Lubango) e a Faculdade em Coimbra na parte dos Preparatórios e Porto na Faculdade de Engenharia.Fui da Mocidade Portuguesa, onde atingi o posto de comandante de castelo, e evolui sempre para a oposição ao regime de Salazar.
NJ- Pode parecer algo impertinente, mas de tudo que se vai lendo e sabendo fica-se com a sensação que no início havia “divergências” entre os estudantes que tinham saído do Liceu Diogo Cão ( “Os sulistas”) e os que saiam do Salvador Correia (Luanda e Norte) para estudar no exterior. Se isso de facto aconteceu contextualize tendo em consideração as origens dos estudantes dos dois estabelecimentos de ensino?FF – As divergências entre os estudantes saídos do Liceu Diogo Cão, em Sá da Bandeira, e os do Liceu Salvador Correia, em Luanda, eram fruto de um bairrismo salutar que nunca destruiu a amizade entre jovens de idade aproximada.
NJ- Quais as razões ponderaveis na sua decisão de se radicar no Lobito, há mais de cinquenta anos?FF – Eu não quis radicar-me no Lobito, mas quando cheguei a Luanda, vindo de Lisboa, onde fui contratado como engenheiro praticante para o Serviço de Portos, Caminhos de Ferro e Transportes, o então subdirector destes serviços – Engº Melo Vieira – que tinha sido meu professor no Liceu, obrigou-me a ir para o Lobito para a Direcção do Porto do Lobito.
NJ-A cidade cresceu consigo e não se pode ignorar que o seu desenvolvimento urbano, a expansão do seu tecido empresarial tem uma marca sua. À distância de umas décadas quer-nos falar um pouco desse percurso e também um pouco do vivificar do Lobito.FF – Rapidamente me tornei “Lobitanga”, tornando-me vereador do Municipio, presidente de um clube de futebol – O Lusitano – fundador e primeiro presidente dos Bombeiros, presidente da direcção da Associação Comercial e Industrial, durante vários anos e de um modo geral participei em todas as realizações que valorizassem a cidade do Lobito e da vila da Catumbela,
NJ- O Eng. Falcão teve ao longo do seu percurso de cidadão uma participação política activa que nalguns momentos lhe terá criado situações embaraçosas. Foi delegado no distrito de Benguela da candidatura do general oposicionista a Salazar, Humberto Delgado; Foi um dos poucos sítios onde o general Delgado ganhou, numas eleições que se revelaram fraudulentas, onde o declarado vencedor foi Américo Tomás, o candidato de Salazar. Fale-nos um pouco desse período e do que aconteceu nesse longínquo 1958.FF – Não fui delegado no distrito de Benguela do general Humbero Delgado, mas sim do Dr. Arlindo Vicente, Por desistência deste a favor daquele, acatei a deliberação superior de colaborar com a comissão distrital do general Humberto Delgado.
Foi intenso o meu trabalho nesta comissão e suportei algumas intriguices que puseram em risco o meu lugar de engenheiro adjunto do director do Porto do Lobito. Valeu-me a compreensão do então Governador Geral de Angola, capitão Agapito da Silva Carvalho, que foi sempre muito compreensivo a meu respeito.
NJ- Quando começou a sentir que poderia organizar alguma coisa que pudesse ter alguma consistência na luta pela autodeterminação e independência do País?FF – Após os incidentes no norte de Angola provocados pela UPA e mais tarde a FNLA, traduzidos por barbaros assassinatos, senti a necessidade de contrariar tais atitudes. Daqui resultou a criação da FUA (Frente de Unidade Angolana), da qual fui o primeiro e único presidente.
NJ- Ainda que lhe peça de forma sucinta, com quem partilhou esses primeiros tempos que foram, ou poderão ter sido o embrião de uma organização em que o Engenheiro Falcão é a maior referencia, a FUA (Frente de Unidade Angolana)?FF – Nesta tarefa tive a colaboração de muitos, destacando o eng. Manuel Brazão Farinha, o Luís Portocarrero, o Carlos Morais, o Socrates Daskalos, etc.
NJ- Num tempo em que as ideologias estão a ser constantemente relegadas para segundo plano, peço-lhe que enquadre a FUA num contexto ideológico de uma Angola colonial.FF – A FUA era uma amalgama de vários partidos notando-se nos seus dirigentes uma tendência pro-MPLA. No entanto, a FUA nunca esteve subordinada a qualquer partido político. Foram na altura publicados os seus princípios básicos que não ofendem qualquer ideologia política.
NJ- Sem qualquer sinal de provocação pergunto-lhe se a FUA não era um movimento progressista de colonos e circunscrito ao Sul do território?FF - A FUA não era um movimento progressista de colonos e circunscrito ao sul do território, pois foi estendida a todo e território angolano e bem implantado no seio de todas as etnias.
NJ- Sem constrangimento de qualquer ordem peço-lhe que me diga qual a posição da FUA em relação ao MPLA e à UPA, no dealbar dos anos 60 e num contexto de forte repressão das autoridades coloniais portuguesas.FF – A FUA teve sempre as melhores relações com o MPLA o que não sucedeu com a UPA que consideramos responsáveis pelos massacres no norte de Angola.
NJ- Em 1961 reuniu-se com o novel Ministro do Ultramar de Salazar, Adriano Moreira, que lhe terá deixado muto boa impressão, e que depois de acolher algumas das suas propostas o mandou prender. Gostava de ouvir esse episódio, mas não gostava de deixar de dizer que o percurso dessa figura, um misto de seráfico e sórdido, continua a ser motivo de divergência nas questões coloniais de matizes diferentes.FF - Em Maio de 1961 veio a Angola como ministro do ultramar de Salazar. A FUA , encapotadamente, pediu a audiência que foi concedida a vários dirigentes exceptuando o eng. Manuel Braxão Farinha que se tinha refugiado a bordo de um barco que se encontrava acostado ao porto do Lobito.
Adriano Moreira ouviu as considerações e prometeu corrigir algumas contradições coloniais. Em vez disso pucos dias depois começou a prisão de dirigentes sendo a maioria desterrada para Portugal.
NJ- O Senhor Engenheiro Falcão era um homem de sucesso em termos empresariais, mas nunca deixou de defender as suas posições, que lhe valeram bastantes dissabores e até algumas calúnias, de sinais bem contrários, quando por exemplo numa atitude de cortesia e amizade foi ao paquete “Infante D. Henrique” despedir-se do deposto governador colonial Santos e Castro. Porque foi uma atitude muito contestada por alguns jornais de Luanda, ainda na esteira de um 25 de Abril de 1974, e permitiu especulações diversas sobre os reais propósitos do encontro, gostava de poder ter a S. versão de uma situação que julgo ter sido pouco mais que nada, embora julgo ter tido o eco do que se passou.FF - O episódio da minha ida a bordo do paquete “Infante D. Henrique” cumprimentar o então governador geral de Angola (Santos e Castro) não passsou senão de uma atitude de cortesia para com o governante que sempre atendeu da melhor maneira os nossos dirigentes, contrariando o comportamento daqueles que o deveriam ter feito.
NJ- Que FUA pretendeu fazer renascer no período que se seguiu ao 25 de Abril de 1974? FF – Pretendi fazer renascer a FUA de 1974 nos mesmos moldes da FUA de 1961, tentando assim promover a unidade das forças em presença evitando o derramamento de sangue que mais tarde aconteceu.
NJ- O Senhor Engenheiro permaneceu no Lobito , como administrador do CFB nomeado pelo governo de Angola e simultaneamente desempenhou funções de Director do Porto do Lobito, onde teve alguns atritos com os sindicatos. Não sei se é verdade a história que se conta que terá despedido um determinado número de trabalhadores com elevado absentismo, e contratado o mesmo número para os substituir. Perante a contestação do Sindicato, o Engº Falcão apenas terá respondido que o número de desempregados se mantinha exactamente igual. É ficção ou aconteceu alguma coisa parecida?FF - Desde que assumi a direcção do porto do Lobito tive a preocupação de sanear hábitos pouco correctos dos seus recursos humanos. Os trabalhadores tinham direito a um cartão de abastecimento e por esse motivo o porto estava cheio de gente que se limitava a ir levantar o vencimento e a fazer o abastecimento que vendia na kandonga. Foi assim que realmente demiti cerca de 200 pseudo trabalhadores mas não os substitui, o que provocou protestos da UNTA, tendo contudo tido o apoio das entidades superiores.
NJ- Como encara o desenvolvimento de Angola nunca esquecendo que o Senhor foi sempre contundente na sua análise em diversas ocasiões de Angola enquanto País.FF – O desenvolvimento de Angola não deve ser circunscrito a meia dúzia de dirigentes em Luanda mas deve estender-se a todas as províncias e suas populações.
NJ- Para finalizar, agradecendo a sua disponibilidade por nos dar esta entrevista, aliás necessária, pergunto-lhe se a sua luta valeu a pena?FF – Como diz o poeta “tudo vale a pena se a alma não é pequena”.

Fernando Pereira
15/6/2011


Ver também 

FUA - FRENTE DE UNIDADE ANGOLANA: OPORTUNIDADE PERDIDA POR PORTUGAL PARTE IV

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Maria do Céu Carmo Reis, a FUA, e o nacionalismo angolano


 


PREÂMBULO
ao livro de Sócrates Dáskalos:
Um testemunho para a História de Angola
Do Huambo ao Huambo
por Adelino Torres

"....Ao concluir a história da FUA no exílio não posso deixar de fazer referência ao congresso que lhe pôs termo e também quero deixar aqui bem claro o que pensei e penso dos meus companheiros fuistas do exílio com quem vivi acontecimentos que, se não deixaram saudades deixaram marcas inesquecíveis em cada um de nós. 

".... Existem documentos desse congresso e caricaturas feitas por mim alusivas ao mesmo, conforme me disseram a minha sobrinha Maria Alexandre e o Adelino Torres que os têm bem guardados. Quanto às minhas impressões sobre os meus companheiros fuistas do exílio, elas aqui ficam e vou começar pela Maria do Céu Carmo Reis. 

Esta, ao tempo, era muito jovem e além de atraente despertava a cobiça dos homens não só por ser um exemplo vivo e dinâmico de mulher emancipada como também por ser uma mestiça fortemente influenciada pelas Gabrielas e Quitérias de Jorge Amado. Tão fortemente influenciada que, quando se juntou ao Mário João, este passou a chamar-se o Berro da Quitéria. Juntos conceberam um rebento, hoje um respeitável latagão, a quem puseram o nome de Raul Fidel, o que demonstra as suas simpatias políticas pois foi uma homenagem ao Fidel de Castro e a seu irmão Raul.

A Céu era uma materialista no sentido político do termo e uma sentimental quase romântica e tinha um particular respeito e afecto pela minha pessoa. Quando a FUA começou a encontrar as primeiras grandes contrariedades por ser dirigida só por brancos e por quererem reduzi-la a um movimento só para brancos, contrariedades que se concretizaram com a retirada do apoio material já conseguido e prometido, a Maria do Céu pegou numa caneta e sacou um poema em que, com muita mestria e sentimento, revela a sua indignação.

Eis o poema da Céu:

Aqueles irmãos brancos
Que como tu irmão negro
Traziam no coração
Uma Angola mutilada e ensanguentada
Chorando ódios, dores e humilhações
Corpo em chaga sob a bota do inimigo
Mas sentindo nas veias latejar
Raivoso, um sangue escarnecido e desprezado
Mas sangue!
Aqueles irmãos brancos
Que sentiram doer na consciência
O chicote no dorso do contratado
Que como tu gemiam aiué
Que com tu gemiam aiué
Quando a palmatória gemia nos teus dedos
Que choraram com a mamã negra
O drama do filho parido futuro escravo
Não homem
Que cantaram contigo
A triste canção de asas infinitas
Numa gaiola fechada
Sonhando com a liberdade
Que um dia gritaram como tu : Basta!
Aqueles irmãos brancos
Irmão negro
Ecos do teu grito
Olhos brilhantes e punhos cerrados
Deixaram a terra
Por ti
Pés exangues subiram montanhas
E atravessaram fronteiras
Por ti
Sofreram cansaços e humilhações
Por ti
Choraram lágrimas e foram sangue
Por ti
Foram morte para ser vida
Por ti
Foram tudo, tudo, tudo!
Por ti
Compreendes agora irmão negro
Compreendes porque grito

E porque lhes chamo IRMÃOS ?
Neste poema é evidente o exagero em relação ao branco revolucionário do colonialismo mas deixa de ser exagero em relação ao branco de depois da independência que foi colocado por alguns dos responsáveis ex-colonisados ao mesmo nível do sofrimento e da dor da grande maioria dos oprimidos, sacrificados pela desmedida ambição e louca teimosia de alguns pela tomada do poder pela força.

Este poema nunca viu a luz do dia porque, quando acabou de ser concebido, não mereceu a concordância dos emepelistas entre os quais o médico Eduardo dos Santos e permaneceu nos meus esfarelados e amarelos arquivos durante estes últimos trinta e tal anos, pois foi parido em Paris aos 3 de Janeiro de 1963. A Céu era demasiado culta e altiva para poder suportar as por vezes mesquinhas querelas políticas e a confusão de sentimentos entre nacionalistas angolanos e, depois de ter aprofundado os seus conhecimentos em Paris está trabalhando em Moçambique donde sai de quando em vez para carregar as baterias do seu saber. Ao concluir a história da FUA no exílio não posso deixar de fazer referência ao congresso que lhe pôs termo e também quero deixar aqui bem claro o que pensei e penso dos meus companheiros fuistas do exílio com quem vivi acontecimentos que, se não deixaram saudades deixaram marcas inesquecíveis em cada um de nós.

"... Existem documentos desse congresso e caricaturas feitas por mim alusivas ao mesmo, conforme me disseram a minha sobrinha Maria Alexandre e o Adelino Torres que os têm bem guardados. Quanto às minhas impressões sobre os meus companheiros fuistas do exílio, elas aqui ficam e vou começar pela Maria do Céu Carmo Reis. Esta, ao tempo, era muito jovem e além de atraente despertava a cobiça dos homens não só por ser um exemplo vivo e dinâmico de mulher emancipada como também por ser uma mestiça fortemente influenciada pelas Gabrielas e Quitérias de Jorge Amado. Tão fortemente influenciada que, quando se juntou ao Mário João, este passou a chamar-se o Berro da Quitéria.
 
Juntos conceberam um rebento, hoje um respeitável latagão, a quem puseram o nome de Raul Fidel, o que demonstra as suas simpatias políticas pois foi uma homenagem ao Fidel de Castro e a seu irmão Raul.


"....A verdade é que nunca, até 1974, os dirigentes do MPLA (para não falar sequer do FNLA) manifestaram interesse na participação de brancos no movimento nacionalista13.
Uma ou outra excepção depois de 1968 é sem relevância para o problema. Os angolanos de origem portuguesa ouviram mais do que uma vez a frase sacramental: “Camarada: as massas ainda não estão preparadas para ver brancos nas nossas fileiras” (sic), falsa sentença14 que, para mais, irá contrastar cruelmente, a partir de 1974, com o febril, indiscriminado e oportunista recrutamento de afiliados brancos em que todos (MPLA, UNITA e FNLA), de regresso a Angola, se empenharam pressurosamente, quando verificaram que a realidade interna era assaz diferente dos clichés imaginados no exterior15.


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