quinta-feira, 19 de abril de 2012

LUANDA , edifício e modos de vida, na pena do autor do Livro "Quarenta e cinco dias em Angola"



Luanda. Uma linda panorâmica da cidade hà mais de 150 anos
(foto Era Uma Vez...Angola, Paulo Salvador, in Pissaro site)


Transcreve-se na íntegra algumas páginas deste livro:


"....É tempo de fazer a descripção da Cidade de S. Paulo de Loanda. A Capital da Provincia d'Angola acha-se situada a 23 — 8 graus de latitude sul, no fundo de uma grande bahia formada pelo continente e pelas ilhas de Loanda e de Cazeange, grande orla d'areia de uns quatrocentos melros de largura, que corre parallelamente á costa, desde as proximidades do Coanza até ao moiro das Lagostas, na extremidade norte da cidade. E' n'estas ilhas que moram os Muxiloandas , raça de pretos que se occupam unicamente da pesca. Existem alli modernas casas de campo, mandadas construir por alguns negociantes de Loanda, e um elegante deposito para os mantimentos da estação americana. 

Vista da bahia, Loanda apresenta um lindo pano- rama, devido á configuração do terreno em que está edificada, e que muito se parece com Setúbal. O aspecto da vegetação é encantador, sobretudo para europeus que não estejam afeitos a ver sitios onde brotem plantas tropicaes, e cujo tom verde é tão agradável á vista, que apenas podemos comparal-o ao do nosso linho de prado. Os palmares, os coqueiros, os tamarinheiros, as cajueiras, as bananeiras, as mangueiras, e muitas outras arvores, cujos nomes me não occorrem agora, dão á cidade e a seus arrabaldes um colorido tão bello, que mal se pôde acreditar que alli em vez de ar puro e saudável, só se respirem miasmas pestilenciaes. Da mesma forma que em quasi toda a costa africana, o terreno em que Loanda se acha edificada é areento, misturado de barro vermelho e amarellado.

A Capital divide-se em cidade baixa e cidade alta : a cidade baixa, a — commercial — é construida sobre uma restinga de areia que parece ter sido formada pelo assoreamento de parte da bahia, onde as aguas mortas não tinham, por causa do pequeno cabo da fortaleza, a necessária corrente, e pelas terras acarretadas da cidade alta nas occasiões de grandes chuvas. Estes assoreamentos vão augmentando sempre, e dimi- nuindo consideravelmente a área da bahia. Os navios d'alto bordo, que d'antes se aproximavam muito da terra, fundeiam actualmente a uma distancia talvez su- perior a mil e quinhentos metros do cases. A cidade alta fica situada sobre um monte cortado a pique, que circunda a baixa em toda a sua extensão. A differença de nivel entre as duas partes da cidade é proximamente de setenta metros, o que as tornaria quasi incommunicaveis, se não fossem duas fortissimas rampas, construidas sobre muros de supporte, nos dous pontos mais accessiveis da cidade alta. Loanda deve ter hoje perto de onze mil almas, sendo a maior parte de seus habitantes de raça preta e mestiça. A cidade baixa contém grande numero de casas; algumas d'ellas, ainda que construidas sem elegância, e sem gosto algum architectonico, denotam terem sido edificadas em tempos remotos por alguns nobres des- contentes da sua sorte, e que áquellas praias foram ten- tar fortuna nos azares da guerra ou nos do negocio licito d'aquelle tempo. 

As modernas construcções, apesar de muito mais regulares do que as antigas, deixam ainda muito que desejar. É no centro d'esta parte da cidade que se acha a igreja de Nossa Senhora dos Remédios, templo mal conservado e de pobríssima apparencia, mas que gosa das honras de Sé nova, desde que a antiga passou a servir de curral ! Em qualquer aldeia do nosso Minho, se encontra uma igreja com mais aceio e esplendor, do que em Loanda, e isso não é para estranhar attendendo ao pouco uso que d'ellas se faz. Ainda não encontrei terra, por mais desmoralisada que fosse, onde se cumprissem menos os preceitos da nossa religião. As próprias mulheres, que por natureza são sempre mais inclinadas ás práticas religiosas, essas mesmas pouco ou nada frequentam os templos! Geralmente, em toda a Africa, tractam mais do corpo, do que da alma. Ha tal, que de manhã negaria uma libra para as obras da igreja, em quanto que de tarde perderia um conto de reis ao monte. Não sei se a desmoralisação das nossas possessões é devida á falta de bons parochos, se aos maus exemplos que alguns teem dado ; o que é certo, é que geralmente a gente branca tem os padres em pouca consideração, e talvez que também para isso concorra pertencerem muitos d'estes á raça mestiça. Notei sempre nos pretos maior predilecção pelos ecclesiasticos do que nos brancos, mesmo os mais rústicos, e varias pessoas me afirmaram, que o primeiro cuidado do preto do interior, quando apparece alguma expedição militar, é de perguntar se vem padre. Muitos pretos vivem e morrem sem baptismo, por não ter havido padres que se dedi- cassem a percorrer o interior, a fim de instruir uma infinidade de creaturas, das quaes se conseguiria muito mais com a cruz, do que com a clavina. Ignoro se o novo Bispo, que dentro em breve deve seguir viagem para Angola, terá força sufficiente e poderá dispor dos meios necessários para reformar os templos da sua diocese, entregal-os a parochos honestos e dedicados, e tractar seriamente da propaganda religiosa. Dizem-me que lhe não falta talento e boa vontade : isto já não é pouco, mas terá elle animo bastante e saúde para resistir a um clima tão mau e tão desanimador? Deus o queira. Persuado-me que foi um erro enorme, a abolição dos conventos no Ultramar. Dessem-lhes embora uma organisação mais adequada ao paiz, e ao lim a que se deveriam propor, mas da sua conservação se colheria o maior proveito, tanto para a Provincia, como para o Estado. Verdade é, que os frades mandados dos nossos conventos nem sempre eram de exemplar conducta, mas isso mesmo seria fácil de remediar na occasiao em que se aboliram as ordens religiosas, porque é provável que d'entre tantos indivíduos que por ahi ficaram ao desamparo, muitos acceilassem passar para o Ultramar se lh'o tivessem proposto. 
Quando medito no passado, vejo que ás ordens religiosas se deve a maior parte de tudo quanto na Africa ha, ou houve soffrivel. Os Jesuítas construíram em Loanda um bello templo e um grande convento, onde os pobres recebiam a educação, e que hoje se acha transformado em Palácio episcopal. Foram elles que, pelas missões, espalharam no seio de immensas povoações selváticas, o gérmen do catholicismo, que tão enraizado ficou no coração d'aquella gente, que apesar de terrem decorrido cerca de trinta annos sem que os ministros de Christo tornassem a apparecer entre elles, ainda hoje pedem padres, desejam ser baptisados, e cederiam de boa vontade a algumas exigências nossas, se houvessem governadores de districto, bastante intelligentes e desinteressados, para dispender alguma quantia na reediicação dos primitivos templos, que o tempo e o abandono reduziram a ruinas ! Para prova da fé viva e profundo respeito, que aquelles povos consagram á nossa religião, bastaria talvez lembrar que em vários silios onde as igrejas desabaram, e onde ha muito por falta de padres se não exerce o culto divino, tem os pretos, apesar do grande apreço pelos objectos de prata, guardado escrupulosamente todos os adornos, e alfaias que os nossos Bispos e Governadores para lá lhes mandaram no tempo em que os seus rendimentos eram mais avultados. E' realmente para estranhar que o Collegio do Bombarral, destinado para as missões, não tenha enviado para Angola ministros da religião, que incalculáveis serviços prestariam á civlisação e á humanidade. No interior, grande numero de povoações onde nunca chegaram a apparecer os nossos pregadores, conservam ainda as crenças barbaras e fanáticas que se assemelham ás dos Gaulezes: — é o druidismo, com pequena differença. Acreditam na metempsycose , ou transmissão da alma de uns para outros corpos; na vida eterna, passada n'um mundo de delicias, para onde a alma vôa d'este que veio habitar como prova ou castigo. Ha bastantes exemplos de pretos atacados de nostalgia que depois de transportados para a America se tem suicidado, para escaparem aos castigos d'este mundo e irem gozar a bemaventurança que no outro esperam encon- trar. Como os Druidas, também teem os seus adivinhos, — gangas — que não devemos confundir com os feiti- ceiros, por serem estes, objecto de especial aversão para o gentio. Teem igualmente curandeiros, ou distribuidores de especificos milagrosos compostos de summos de certas plantas, que descobrem a moléstia, e a sua origem pela magia, recorrendo a certos signaes mysteriosos e invocando inspirações de um ente sobrenatural que é vulgarmente o idolo, objecto das suas adorações. Fazem uso de talismans — milongos — para combater o feitiço, e tal é a superstição que ainda hoje os domina, que frequentemente celebram horrendos sacrifícios humanos, debaixo mesmo dos muros dos nossos reductos. Quando as missões não alcançassem outra cousa mais do que pôr termo a esses horriveis espectáculos, nao fariamos nós um grande serviço á humanidade? Quasi todos os conventos que ha em Loanda estão já em completa ruina; existe comtudo o de S. José a curta distancia da cidade, e n'uma situação deliciosa, que apezar de deteriorado é susceptível de grandes melhoramentos. N'esse convento é que o Governo deveria estabelecer um seminário, onde recolhesse e educasse gente natural do paiz, com o fim de percorrer o interior, e propagar até ás povoações mais longínquas a doutrina christã. D'ahi haviam dimanar os elementos civilisadores para firmar a paz tão desejada, e sem duvida alguma resultaria o engrandecimento e prosperidade dos estados Ião vastos em que ainda predominamos. Essas expedições eram mil vezes mais proveitosas, e infinitamente menos desbumanas, do que as dos soldados europeus que a ignorância dos nossos governantes votou barbaramente á miséria e soffrimento. É incontestavelmente um crime inaudito, aquelle que presenciamos dos meios que se empregam para an- gariar gente para servir no Ultramar : illudindo uns com postos d'accesso, que afinal lhes regateam com chicanas miseráveis ; a outros pintando-lhes Angola qual outro Eldorado, paiz de fadas e d'encantos; engodando outros com soldos dobrados, adiantamentos e gratificações, e finalmente empregando-se até com alguns desgraçados o terror e as ameaças ! E tudo isso para que? Para lançar nas praias d'um paiz inhospito, cente- nares de creaturas, que vão partilhar da triste sorte que as nossas leis reservam para os criminosos condemnados á pena ultima, e que a clemência real, ou a moderna civilisação commulou em degredo perpetuo. Que bello quadro de perversidade ! Não é possivel que haja coração, por mais insensivel que seja, que se não constranja, sabendo a que misero estado ficaram em tão pouco tempo reduzidos aquelles bellos corpos que d'aqui sahiram ha um anno, e que a morte tem ceifado inexoravelmente. Aspecto cadavérico, cabellos arripiados, olhar espantado, ventre in- chado, e as pernas cobertas d'asquerosas chagas, eis o desgraçado estado a que se acha reduzida a maior parte  d'aquelles infelizes, a quem a morte parece ter poupado só para lhes prolongar os padecimentos. Repetidas vezes vi alguns d'esses pbantasmas fazendo guardas. Julguei a principio que iam recolher ao hospital, mas soube depois que de lá tinham sahido; a sciencia dera-os por promptos para todo o serviço ! Quasi diariamente pela força do verão, tiveram esíes infelizes de conduzir com bastante custo e fadiga ao cemitério do Alto das cruzes, os cadáveres dos seus companheiros fallecidos no hospital. Ao recolher ao quartel, era fácil divisar no seu ar abatido e melancólico, o mau efeito que aquelle acto deve produzir no espirito enfraquecido do soldado, que ve rarear todos os dias o numero dos seus camaradas. É provável que esta ceremonia fúnebre faça parte dos regulamentos militares, mas muita cousa ha suppor- tavel em Portugal e intolerável em Angola, onde se vive constantemente debaixo de impressões aterradoras, e onde estas scenas lúgubres concorrem para mais facil- mente ser atacado das moléstias do paiz. Porque se não ha de organisar o exercito com os indigenas, que são os únicos que podem resistir á perni- ciosa influencia d'aquelle clima? Haja muito embora um corpo d'europeus, gente de confiança do Governador geral, mas que seja um corpo fixo, e não o obriguem a sahir da capital e a entranhar-se nos matos do interior, onde vão acabar de perder o garbo e energia que mal se podem conservar ainda assim em Loanda. O preto depois de fardado e disciplinado é um excellente soldado. O espirito de corpo domina-o do mesmo modo que os brancos; e nas expedições que se teem feito nota-se que não é elle o que melhor tracta os gentios. Tive occasião de ver, que o soldado preto além de ser muito aceado, tem muita propensão para a vida militar, porque só assim se pôde ver bem vestido e calçado, o que lhe dá um subido grau de superioridade sobre aquelles que só trajam panos e andam descal- ços. Depois de fardado e calçado, elle mesmo se consi- dera branco, e tracta de — negros — os da sua espécie, que não andam calçados. Esta vaidade deveria até ser aproveitada, para d'ella tirar bom partido, o que era facillimo dando á tropa preta um uniforme commodo e de cores vistosas, pois é bem sabido que elles se deixara fascinar pelos enfeites abrilhantados. Isto não é ideia nova: — ha muito que os inglezes na India, e os francezes em Argel, a pozeram em prática e assim poupam os seus soldados e utilisam braços que despresados lhes poderiam ser funestos. 
Ha em Angola muita rapaziada parda que sabe ler e escrever: são esses os que deveriam ser escolhidos para officiaes inferiores, entregando o commando dos corpos e das companhias a officiaes brancos do exercito do Ultramar, filhos do paiz, ou europeus aclimatados já pelos muitos annos de residência, ou a officiaes do exercito de Portugal, que por sua livre vontade queiram ir para Africa. É muito conveniente que os officiaes superiores sejam brancos, não só por serem muito mais intelligentes e terem mais conhecimentos práticos do que os mulatos. mas também por ser um facto de todos bem sabido, que os pretos preferem ser commandados pelos brancos, que lhes inspiram maior confiança. A superioridade do soldado preto sobre o branco torna-se bem notável todas as vezes que ha qualquer marcha para o interior: os brancos são os primeiros que cançam, os que mais sofrem com a falta d'agua, e quando chegam a algum ponto em que o mato os obriga a parar, são sempre os empacaceiros que passam para a frente a abrir-lhes caminho. Não nos devemos admirar que a nossa gente de a direita á tropa preta n'essas diftcultosas marchas, porque raro é o branco, por mais robusto que seja, que possa aturar por muito tempo o terrível calor do verão, e resistir ás febres, fadigas, e privações, a que muitos d'elles succumbem desgraçadamente por falta de remédios e de facultativos. Pára terminar sobre este assumpto, farei ainda uma consideração. Causa espanto que se tivesse abolido no exercito o castigo da chibata, único elemento de disciplina que restava, para o substituir por um castigo mil vezes mais bárbaro e immoral! Actualmente todos os soldados do nosso exercito que cornmettem três faltas de certa gravidade, que d'an- tes expiavam com umas tantas chibatadas, são condem- nados a servir nas companhias disciplinarias do Ultramar, onde morrem victimas da febre, ou onde vivem promiscuamente com facinorosos e malvados de toda a espécie. Aquelles que teem a fortuna de escapar, vol- tam de lá mais desmoralisados, se não mais viciosos do saque foram. Será isto de algum modo proveitoso para o exercito e para o paiz? As impressões de uma viagem, por mais sucinto que se queira ser na sua narração, obrigam sempre a certas reflexões que a importância do assumpto suggere : é o que nos tem acontecido, e é natural que ainda torne acontecer. Por em quanto voltemos á descripção de Loanda, Foi, como já dissemos, para a igreja de Nossa Senhora dos Remédios — que os modernos Bispos transportaram a sua cadeira, e é n'este templo que se celebram immensos ofíicios de corpo presente. E' também alli, que os novos Governadores se dirigem depois do desembarque para assistirem ao Te-Deum, acompanhados pelo Governador que vão substituir. De lá seguem para o Palácio, onde se reúnem na sala do docel as authoridades civis, militares, e ecclesiasticas, e grande numero de empregados públicos, e commerciantes para assistirem ao auto da posse. É costume trocarem os Governadores entre si phrases lisonjeiras e cordiaes, aproveitando-se o recem-chegado da occasião, para dirigir ao auditório uma espécie de programma do seu futuro governo. O desembarque de um novo Governador é cousa bastante curiosa a presenciar, por uma particularidade que a torna assaz caricata, e que já por varias vezes tem feito encordoar os recem-chegados. N'essa occasião o povo todo de Loanda reune-se na praia, junto ao cães do desembarque, para vêr e festejar o seu novo Governador, a quem os pretos chamam  Maniputo mas como o numero d'estes, é muito superior ao dos brancos, fácil é de comprehender que a sua alegria e ovações devem predominar e tornar-se muito salientes. Com efeito assim acontece, e creio que não é fácil presenciar um acto de ridículo tão sublime como o do regosijo dos pretos de Loanda. Ao troar do canhão das fortalezas e dos navios surtos na bahia, junte-se o estalido das girandolas de foguetes, os repiques de sinos, a musica regimental, as estrepitosas acclamações, os pulos desordenados e a inferneira produzida por alguns milhares d'apitos e de gaitas capadeiras, e mal se poderá formar ideia da impressão causada no espirito de um europeu, que pela primeira vez presenceia tão delirante espectáculo. Se o desembarque tem lugar no verão de meado de Novembro a Maio — enxames de cigarras juntam o seu canto ruidoso ao immenso alarido da multidão. Estas scenas de efusão devem ser presenciadas para poderem ser comprehendidas. Supponho, mas não ò affirmo, que aos Bispos fazem iguaes recepções. Não é só na nova Sé, que se exerce o culto divino: também se diz missa todos os dias santificados n'uma igreja da cidade alta, cujo orago é S.João Baptista, e á qual assiste de ordinário o Governador com seu estado maior, e os destacamentos da guarnição com a musica do 1. de linha, uma das melhores cousas que encontrei em Loanda, e á qual na realidade me não esperava. Na cidade baixa ha ainda a igreja do Corpo Santo, e (') Também dão este nome ao Rei de Portugal mais duas capellas. Não é de certo por falta de templos que em Loanda se não ouve missa; talvez seja por falta de padres. Já disse que a igreja dos Jesuitas está em completo estado de ruioa: apenas existem as quatro paredes, ás quaes encostaram uns pequenos alojamentos ou barracas de feira, a que chamam — officinas das obras publicas — onde vi executar algumas obras de ferreiro, espitigardeiro, funileiro, correeiro, tanoeiro, torneiro e carpinteiro, parte d'ellas feitas por operários degredados, e outras, por operários a jornal. Parece que este estabelecimento, á testa do qual se acha um capitão, deveria ser de grande proveito n'um paiz onde tudo vai de fora por subido preço; infelizmente não acontece assim, visto que a mão d'obra e o valor dos materiaes empregados, importam em muito mais do que a receita das officinas. No mesmo edifício, mas na parte do antigo convento, conhecido ainda hoje por — Collegio — é que se recolhem os pretos provenientes das apprehensões feitas pelos cruzeiros portuguezes, chamados por isso libertos, e não porque elles gozem da sua liberdade, porque não saem senão para fazer algum serviço no Palácio do Governo, ou nas repartições publicas, e sempre acompanhados por soldados. Alguns vi também n'uma immunda enxovia que existe dentro do próprio estabelecimento. É tão pouca a confiança que o Director tem n'esta gente, que quando os emprega no transporte de objectos de algum valor, costuma pôr-lhes umas gargalheiras de ferro que os prendem uns aos outros, e assim percorrem as ruas da capital comboios de pretos que muito se assemelham ás recuas dos nossos almocreves. Existe ainda a capella mór separada do resto do edifício por uma divisão de madeira, e serve de deposito da agua para os libertos e operários. Alli um d'estes, escondido atraz do altar mór, exerceu por algum tempo a honesta profissão de moedeiro falso, que já em Portugal tinha exercido com algum proveito, até que os nossos tribunaes pouco admiradores das bellas artes, o expatriaram para longe da Izabelinha, terra da sua naturalidade. O altar mór, é de mosaico, ido de Itália, e muito semelhante a um do Convento da Batalha. Apesar de muito sujo e mal conservado, não me pareceu deteriorado: apenas lhe faltam quatro bellas columnas torcidas, de mármore côr de rosa, que adornavam o retábulo, e que o Governador Féo mandou tirar, para figurarem na construcção de um monumento para commemorar a acclamação d'El-Rei D. João VI, e o mau gosto de que era dotado.

 O embellezamento da actual praça de D. Pedro V, perto do Palácio do Governo, onde se achava tão apre- ciável monumento, exigiu a sua remoção para sitio mais adequado; por isso o apearam, e depositaram em monte a um lado da praça os materiaes de que se compunha. Ha annos que alli existem e naturalmente continuarão a existir, com o que nada se perde ; seria no entanto conveniente que as columnas voltassem para o seu primitivo logar d'onde nunca deveriam ter sabido, removendo-se aquelle altar mór, a melhor obra d'arte que existe em Angola, para alguma igreja onde se lhe desse o apreço que merece. Também lá encontrei, meio enterrado no chão e coberto com pontas e aparas de madeira, um lindo obuz de bronze, notável pela sua grande antiguidade e bello desenho: — é uma peça muito digna de figurar n'um museu d'artilheria. 
A Sé velha, que inculca ter sido um sumptuoso edifício, apenas tem hoje quatro paredes desmanteladas: depois de ter servido de curral, é agora o deposito de lixos e immundicias. Estas ruinas pertencem também á cidade alta, na qual se acham os melhores edifícios pulcos, e para onde os primeiros Governadores tentaram chamar a povoação, porém os interesses commerciaes tiveram maior poder, e assentaram a cidade no sitio menos próprio para esse fím. O convento deS. José, de que fallei quando lembrei a instituição de um seminário em Loanda, era também um bom monumento, e n'elle esteve por muito tempo o hospital militar, mas como se acha um tanto afastado da cidade, o Physico mór e mais facultativos, incommodados com este pequeno passeio que tinham de fazer uma vez por dia, entenderam que o melhor era desacreditar o local e edifício ; e transportaram os doentes para o Hospital da Misericórdia, onde de certo o Physico mór está mais á sua vontade do que os enfermos. Não cheguei a visitar esse estabelecimento, porque me não agradam taes visitas; mas pelas informações que tive, é uma das repartições que mais notável se tem tornado tanto pela falta de aceio, como dos objectos mais necessários para commodidade e bem-eslar dos doentes. No tempo das aguas, chove, por toda a parte, e mais de uma pessoa me asseverou que os facultativos se viam obrigados, por vezes, a fazerem a visita aos doentes, de guarda cbuva aberto. Pôde ser que n'isto haja exageração; porém o que posso aliançar, é que tendo sido atacado da febre, um dos meus companheiros de viagem, e sendo obrigado a recolher-se ao hospital, por o nao quererem conservar na casa onde se achava hospe- dado, depois de ter dado entrada no hospital, mandou pedir ao Governador, pelo amor de Deus, que lhe man- dasse uma enxerga e lençoes, porque a cama que lhe ti- nham dado se achava em tal estado, que elle preferia morrer debaixo de uma arvore, do que deitar-se n'ella! Nada posso dizer com fundamento do modo porque alli são traclados os enfermos; sei que o sulfato de qui- nino é a base de todos os tractamentos, e d'elle se faz um consumo espantoso. As raras visitas do Physico mór ao hospital, obrigam-me a acreditar que aquelle estabe- lecimento não é mais do que um recolhimento para as pessoas atacadas de moléstias, e que ninguém quer con- sentir em casa; um deposito de moribundos: — o ponto de tranzição da vida para a morte infallivel. Feliz aquelle que se pôde tractar em sua casa, e a quem Deus deu mulher e filhas estremosas que lhe pro- digalizam os seus cuidados! O homem solteiro, que vive só com escravos, é sempre victima do abandono em que o deixam os seus servos, e algumas vezes os amigos com quem vivia. Junto ao hospital está a igreja da Misericórdia, e exteriormente não me pareceu mal conservada. Existem ainda na cidade alta as ruinas do convento do Carmo e do hospicio de Santo António, em parte habitado por alguns pobres, onde provavelmente se abrigam de graça : é um triste remédio de que podem um dia ser victimas. Junto ao collegio ou repartição das obras publicas, ve-se o Paço do Bispo, que era o corpo principal do antigo convento dos Jesuítas, edifício bastante deteriorado, mas susceptível de melhoramento. N'uma parte d'elle está estabelecida á Secretaria do Governo, que é uma das repartições que me pareceu mais bem montada. No andar térreo acha-se a imprensa da Província, onde se imprime o Boletim de Angola, pequeno periódico semanal que publica os actos oficiaes, e alguns annuncios. No mesmo pavimento servem uns quartos d'arrecadação ás companhias expedicionárias que d'aqui foram . Pegado á Secretaria, e com communicação interior, temos o Palácio do Governo, que é a obra mais solida que vi em Loanda. As madeiras empregadas na sua construcção foram todas do Brazil : só assim é que po- deram dar ás salas, dimensões que não seria possível obter com as madeiras da Província, as quaes, por falta de meios de transporte, são apparelhadas em dimensões tão acanhadas, que se tornam impossíveis construcções de grandes vãos. 
No interior do paiz existem excellentes madeiras tão boas como as da America, taes como a malanga, jacarandá, páco, pau ferro y pau coleo?, espinheiro, tacula, imhondeiro cujo tronco serve de cortiço ás abelhas tão abundantes em Africa, que apesar do bárbaro e absurdo processo empregado pelos naturaes do paiz para a colheita da cera, sua producção não parece ter diminuido muito. Os pretos lançam o fogo ás tocas das abelhas, queimam enxames inteiros, perdem o mel, e deterioram a cera, que poderia ser um dos mais bellos e mais rendosos productosdas nossas colónias. Ha tambem graIha?, cujos ramos, apenas tocam no chão, pegam raiz, e assim vão com o decorrer dos annos reproduzindo em volta do tronco successivas galerias concêntricas de uma belleza admirável. Os pretos por não fazerem uso da serra, e se verem obrigados a apparelhar tudo a machado e machadinha, escolhem sempre as menos duras e de menor bitola. Não ha nada mais curioso do que vêl-os chegar ao mercado com taboas de quatro centimetros d'espessura, e de oito a dez metros de comprimento, desbastadas a machado e empenadas em todos os sentidos. Não é menos para admirar o modo extravagante que os indígenas empregam para as confeccionar, pois que para obter uma laboa, desperdiçam, reduzindo a cavacos, uma arvore que lhes poderia dar seis ou sete boas taboas, se empre- gassem a serra braçal. Dir-se-ia que praticaram no nosso arsenal de marinha! O Palácio do Governo tem uma bella escadaria de dous lanços, dando para uma sala d'espera. Segue-se um salão de reuniões, taes como a da commissão mixta (na qual a nossa fiel alliada deveria ter um mais digno representante, a que preside o Governador geral, mobilado ad hoc; e onde estão os retratos de D. João VT, D. Maria II, e de dous ou três Governadores, sendo um d'elles o do Visconde do Pinheiro, de tamanho natural, fazendo pendant ao da Rainha ; e o do celebre general, restaurador d'Angola, Salvador Corrêa de Sá Benevides, que em 1648 expulsou os Hollandezes d'aquelle território, que o Governador Pedro Cezar de Menezes não soubera conservar. A este salão segue-se o do docel, ou de recepções officiaes, que é o melhor de lodos, mas está adornado com demasiada simplicidade. Parallelamente a estas três salas, que occupam toda a fachada do corpo princi- pal do edifício, ha um corredor, á entrada do qual se acha o gabinete dos ajudantes d'ordens, e que dá com- municação para três saletas particulares, sala de jantar, e habitação do Governador e de seus familiares. A sala de jantar fica virada para o lado do mar, e d'ella se descobre grande parte da ilha de Loanda: é uma espécie de varanda envidraçada de quinze metros proximamente de comprido por cinco de largo. Todo o lado do Palácio exposto ao poente está mais damnificado, que o resto; sobretudo a sala de jantar, que já tem parle do travejamento rendido. O telhado acha-se em tão mau estado, que das vinte oito repartições de que se compõe a distribuição interna, apenas na sala do docel é que não chove. A quarta parte do espaço occupadopelo andar terreo está inutilisada : é uma enorme cozinha com dous grandes fornos, e numerosas fornalhas, em tudo própria de um convento de Bernardos. Os modernos Governadores teem feito uso de uma cozinha que ha perto da sala de jantar, não só por maior commodidade, mas também para mostrar que se não come hoje tanto como antiga- mente. Nas trazeiras do Palácio ha uns quintaes com algumas arvores, perdidas entre uma immensidade de hervas bravas e de plantas silvestres, entre as quaes abunda o carrapateiro, do qual se poderia tirar maior proveito, extrahindo o óleo de mamona, que tão boa acceitação teria nos mercados da Europa, era vez de venderem o carrapato a granel como agora fazem. Esta planta nasce espontaneamente em todo o território da Provincia. O anil, esse rico producto tão procurado pelos diíferentes ramos da industria, cresce abundante- mente, mesmo nos subúrbios de Loanda. Os Jesuitas occuparam-se muito da extracção d'este producto, mas depois ninguém mais cuidou n'isso. Junto ao Palácio do Governo está o quartel do 1.° de linha, que é composto de degredados válidos, e o dos destacamentos de caçadores. Este edifício, como todos os mais que pertencem ao Estado, ameaça desabar; parte d'elle já está abandonado. Em frente depara-se com a casa da Junta da Fazenda obra solida, mas pesada e pouco elegante: tem cento e dez annos de existência. Foi mal escolhido o local para a sua edificação, porque assim privaram o Palácio do Governo da magnifica vista que tinha para a bahia e cidade baixa. Ao lado da casa da Junta da Fazenda existe a cadêa, pequena construcção de um andar, que primitivamente serviu de casa da Camará, e me pareceu mais aceada exterior, do que interiormente. Próximo fica o quartel da companhia dos artífices. Esta companhia é commandada por um alferes já maduro, e que não pertence ao corpo d'engenharia militar, apesar de usar d'esse uniforme. Estes artifices são na maior parte degredados : não ha entre elles um bom operário, e pareceram-me quasi todos não só veteranos, mas inválidos. Se artifice quer dizer incapaz en- tão a companhia de Loanda está perfeitamente organisada. 
Concluirei esta ligeira descripção da cidade alta, mencionando a fortaleza de S. Miguel, onde está o telegrapho, collocada n'uma eminência em frente da hahia, dominando toda a cidade baixa e parte da alta, e d'onde se avistam as embarcações apenas despontam em qualquer lado do horisonte : é n'ella que os officiaes cumprem o tempo de detenção, a que por vezes são condemnados. Uma das cortinas que ficam viradas para a cidade baixa, destacando-se um dia do resto da construcção, deixou-se escorregar pela encosta do monte, até que encontrou um obstáculo que a deteve no sitio onde agora existe. Isto não nos deve causar admiração, porque em Portugal temos muitas fortalezas em peor estado. Não tive occasião de visitar a fortaleza, mas ouvi dizer que não está mal conservada, faltando-lhie apenas artilheria soffrivel, porque tanto a que a guarnece, como a da fortaleza do Penedo, é tão ordinária, que mal serve para as salvas; comtudo manda a justiça que se diga, que as peças d'artilheria, tanto em Loanda, como em Benguella e Mossamedes, tem feito o seu dever, e de maravilha se darão tantas salvas em parte alguma como por lá. A entrada e sabida dos cruzeiros estrangeiros, e os embarques e desembarques dos Governadores, são causa de se gastar muita pólvora, que apesar de ser ordinária, fica á Provincia pelo preço da boa. Fallando com alguns sujeitos a este respeito, disseram-me, que um polaco de olho azul, governador de uma fortaleza, e que vive em Angola ha muitos annos, onde tem feito casa, costuma comprar quanta pólvora avariada apparece para substituir com ella a que o Estado lhe fornece, a qual depois é vendida por bom preço, não só aos pretos do interior, mas até a certos logistas da baixa. — São transferencias que pôde executar commodamente por ser o depositário de toda a pólvora que os negociantes recebem para negocio, e que são obri- gados a arrecadar no paiol da fortaleza de que elle é go- vernador. Estas falcatruas e muitas outras que taes, são vul- gares em toda a costa d'Africa : creio poder dizer, sem grande risco de me enganar, que o são em todas as nossas possessões. Ha em Portugal um funccionarlo publico, de quem me não declararam o nome, que gosa de credito, e que não deixou em Loanda a melhor reputação. Parece que este digno homem, quando teve a seu cargo o deposito de mantimentos da nossa estação naval, fazia ao vi- nho, á aguardente, e ao azeite a mesma operação que o  outro faz á pólvora ; isto é, misturando agua e. azeite de mendui n'aquelles géneros. Foi assim que se juntaram alguns contos de reis, e se fez jus a certas distineções, como remuneração de serviços prestados ao paiz!
Desçamos agora á cidade baixa, e vejamos de
 re- lance quaes são os principaes edifícios do Estado. 


CONTINUA ....




In  QUARENTA E CINCO DIAS EM ANGOLA. APONTAMENTOS DE VIAGEM
Porto editora: 1862 — typ. de sebastião josé pereira, 
Ruado Almada, 641

quarta-feira, 18 de abril de 2012

A destruição de uma Nação:A política dos Estados Unidos com relação a Angola desde 1945

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The Destruction of a Nation: United States' Policy Towards Angola Since 1945

 Por George Wright

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O belo povo simples de Angola



O ENSINO PRIMÁRIO EM ANGOLA NO SÉCULO XIX



A 10 de Outubro de 1864, uma portaria assinada pelo ministro da Marinha e Ultramar, José da Silva Mendes Leal, referia o seguinte: “Sendo as escolas primárias o alicerce e a base da instrução pública e um agente de civilização que, pelo seu influxo nos progressos humanos, deve merecer a mais esmerada solicitude e aturados desvelos a todas as autoridades, manda Sua Majestade El-Rei, pela Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar, que o governador-geral da província de Angola, tomando na maior consideração quanto respeita a este assunto, frequentemente, inspeccione e faça inspeccionar as escolas da província, para que nelas se cumpra o que determinam as leis, que de instruções convenientes, formule os regulamentos respectivos, faça as recomendações oportunas e adopte todos os meios eficazes para que nas ditas escolas se estabeleça um regime carinhoso e atractivo, que trate ao mesmo tempo de instituir pequenos prémios para os alunos que se distinguirem e, finalmente, que acerca de tudo isto informe assiduamente, bem como no que se refere ao mérito, capacidade e diligência dos professores”.
No dia 25 de Janeiro de 1865, o governador-geral acusava recepção da portaria, comprometia-se a envidar todos os esforços e a utilizar todos os meios que estivesse ao seu alcance, para executar as ordens que havia recebido. De certo modo, a partir de meados do século XIX, a política portuguesa começou a modificar-se. Isto porque partiu do princípio que, educando os autóctones na base de uma mentalidade europeia, melhor preservava as colónias. Por outro lado, verificou que a perseguição às missões, levantava outro tipo de problemas, que não deixavam de se reflectir no conjunto dos problemas nacionais. Nesta conformidade, em 1871 chegaram a Angola os primeiros cinco sacerdotes goeses, dos 23 sacerdotes indianos que, naquela altura, exerceram actividade missionária em Angola.
A 3 de Junho de 1876, o Dr. Alfredo Troni, ilustre advogado de Luanda, recebeu a incumbência de inspeccionar as escolas da cidade, por parte do governador-geral Caetano Alexandre de Almeida e Albuquerque. Devia informá-lo sobre o conhecimento e competência dos mestres, métodos de ensino adoptados, grau de aproveitamento dos alunos, estado físico das escolas, condições oferecidas pelos edifícios, utilização prática dos meios de que cada escola dispunha… Alfredo Troni, autor da novela “Nga Mutúri” faleceu na cidade de Luanda em 1904, tendo deixado o nome ligado ao desenvolvimento cultural angolano. Em 1913, os seus herdeiros fizeram a entrega de 3.273 volumes da biblioteca particular de seu pai para serem incorporados ao recheio da Biblioteca Municipal da cidade de Luanda.
Poder dizer-se que a escola secundária existia, teoricamente, em Angola, desde 14 de Agosto de 1845, através da Escola Principal de Luanda. Na prática, era uma escola de ensino primário complementar, com vocação profissional, pois estava dirigida à preparação de futuros professores. O seu programa previa o ensino da Gramática Portuguesa, Geometria, Desenho e Escrituração Comercial. Desde 1772, funcionava também neste estabelecimento de ensino, com bastante irregularidade, a aula de latim, também conhecida por aula de gramática latina, especificamente frequentada por aqueles que desejavam seguir a vida eclesiástica. Esta escola veio mais tarde a alargar o leque de disciplinas, passando também a ministrar, francês ou inglês, História Universal, geografia mundial, matemática, física e economia política. Mas foi nesta fase que mais decaiu, chegando, a dada altura, a fechar portas, apesar de haver professores em exercício.
Em 1867, foi nomeada uma comissão encarregada de elaborar o regulamento para a Escola Principal de Luanda, chegando mesmo a pensar-se em estabelecer um internato, que permitisse ministrar a instrução e fornecer alimentação e meios de ensino a todos os alunos em situação de carência. “Apontava o interesse que tinha para o país a difusão da língua portuguesa, prejudicada pelo uso corrente dos idiomas nativos, sobretudo a língua bunda, que exercia profunda influência social.” Por outro lado, havia muitas crianças com dificuldade na aquisição de material escolar, algumas delas órfãs.
Se considerarmos colono, o indivíduo que sai da Europa com a intenção de viver permanentemente na colónia – não sendo portanto, soldado, degredado ou membro do serviço colonial – podemos então entender que a colonização portuguesa em Angola não começou antes de meados do século XIX (1849-1851), altura em que cerca de 500 “brasileiros” chegaram ao porto de Moçâmedes (Namibe). No entanto, isso aconteceu por se ter dado, entre 1847-1848, uma insurreição armada na cidade brasileira de Pernambuco. Angola, segundo Gerald Bender, não era, naquela altura, suficientemente atractiva para os portugueses vindos da Europa ou do Brasil. Logo, para que este primeiro processo de colonização pudesse resultar com alguma eficácia, teve o governo de usar métodos de intervenção directa, fornecendo passagens grátis para Angola. Uma vez chegados, era-lhes dado terra, habitação, animais, sementes e subsídios. A este processo chamou-se “colonização dirigida”. De entre as causas impeditivas do desenvolvimento do ensino em Angola, ainda em meados do século XIX, está certamente a escravatura, a dominação espanhola, a carência de um plano, a falta de acção dos governantes e a expulsão dos religiosos. Também para o laxismo colectivo em Portugal, na primeira metade do século XIX, haviam antes concorrido as invasões francesas, a divulgação das ideias liberais, a independência do Brasil, as guerras civis e as sucessivas revoluções que se registaram. Mas, sobretudo, deve realçar-se que a grande maioria dos emigrantes que partiram de Portugal para Angola eram em regra gente de baixo nível moral, com muitos degredados à mistura – massa rude, inculta, analfabeta, boçal, ambiciosa e cruel. Um exemplo deste facto aparece numa citação do governador e comandante-geral de Angola de 1764 a 1772, Sousa Coutinho: “ [Devemos] proibir, de uma vez para sempre, as penas que sobrecarregam
Um outro exemplo aparece na descrição de Joachin Monteiro, sobre Luanda, entre 1860-1870:
“Os mais selectos espécimens de facínoras e assassinos de grande quilate são enviados para Luanda para serem tratados com a maior consideração pelas autoridades. Ao chegarem à costa, alguns são alistados como soldados, mas aos assassinos mais importantes geralmente dá-se-lhes dinheiro e cartas de recomendação, para lhes garantir a sua liberdade instantânea, e eles começam por abrir tabernas, etc, onde roubam e vigarizam, tornando-se em poucos anos ricos e independentes e mesmo personagens influentes”.
Segundo Orlando Ribeiro, “Angola foi o principal lugar de degredo: no final do século XIX os degredados representavam 12 por cento da população branca, vivendo em Luanda numa liberdade surpreendente; muitos eram proprietários de casas de comidas. Nunca foi por diante o projecto de criar na Huíla uma colónia penal agrária. Só em 1932 cessou a remessa de condenados, umas vezes trabalhadores úteis, outras vezes, ociosos e turbulentos. Um relatório do governador-geral Sebastião Lopes de Calheiros e Meneses, datado de 31 de Janeiro de 1862, apresenta-nos, de certa forma, uma proposta de estratégia de desenvolvimento para Angola, de acordo com o pensamento da época. Atendendo ao facto deste relatório se nos apresentar um pouco longo, achámos por bem, retermo-nos apenas na sua parte final: “ (…) se é conveniente aceitar e aproveitar a instituição e autoridade dos sobas, é preciso também educá-los e aos seus macotas; é indispensável aportuguesá-los e, como meio poderoso de o conseguir, devemos ensinar-lhes a ler, escrever e contar, em português. Saibam português, quanto possível o grande de um sobado, que os pequenos o irão aprendendo. Se Portugal não pode, quase com certeza, criar aqui uma nação da sua raça, como criou do outro lado do Atlântico, ao menos eduque um povo que fale a sua língua e tenha mais ou menos a sua Religião e os seus costumes, a fim de lançar mais este cimento da causa da civilização do mundo e de tirar depois mais partido das suas relações e esforços humanitários. Dêmos, pois, aos pretos boas autoridades na pessoa dos chefes, bons mestres e directores nas pessoas dos padres, não imponhamos aos sobas senão a obrigação de dar soldados para a força militar e de ensinar a ler, escrever e contar a seus filhos e aos seus parentes e macotas, e deixemos que o tempo, a Religião e a instrução façam o seu dever.”
Em 1863, chegou a haver em Angola, 24 escolas primárias públicas, mas em 1869, o número baixaria para 16. De entre as principais razões, que contribuíram para o fracasso do ensino primário em Angola, podemos apontar as seguintes: “O perfil de saída dos alunos que frequentavam as escolas primárias era efectivamente fraco; os estudantes que se encontravam motivados para dar continuidade aos seus estudos acabavam por esmorecer e desistir; os conhecimentos adquiridos estavam desajustados das necessidades do meio, daí a escola não se tornar atractiva; as autoridades minoravam os problemas existentes, chegando a nomear professores sem que houvesse alunos.”
Em 1864, foi editada pelo angolano Manuel Alves de Castro Francina e por Saturnino de Sousa Oliveira, que tinha desempenhado a missão de cônsul-geral de Brasil, em Angola, a obra intitulada “Elementos Gramaticais da Língua N’Bundu”, que se dizia, na altura, ser o único compêndio gramatical de que se dispunha, para fazer o estudo do idioma qimbundo, vulgarmente designado naquele tempo por “idioma angolense”. Saturnino de Sousa e Oliveira organizou também um vocabulário da língua qimbundo, que foi editado pela Imprensa Nacional.
A 16 de Novembro de 1868, uma portaria ministerial aprovava a decisão do governador-geral, quanto à educação dos dois filhos do barão de Cabinda, Manuel José Puna, serem educados por conta do Estado. Ainda de acordo com Martins dos Santos, “este mostrou-se ser sempre muito dedicado a Portugal; deve-se-lhe em boa parte a integração das terras do enclave e distrito de Cabinda no conjunto do património territorial português, quando se desenrolou a famosa questão do Zaire. Abre-se aqui um parêntesis para, de acordo com Orlando Ribeiro, referir que “a República Democrática do Congo, nasceu de um conceito teórico de Geografia Política: um Estado tende a ocupar uma bacia hidrográfica e a buscar saída para o mar. Com 2.331.000 quilómetros quadrados é o mais vasto país da África negra, embora a bacia do Congo se estenda por 3.700.000 quilómetros. Para buscar um corredor de acesso ao Atlântico separou-se Cabinda do resto de Angola e o ex-Zaire, afinal, foi belga na margem direita e apenas na esquerda permaneceu português. Manuel José Puna havia sido educado no Rio de Janeiro a expensas do Governo de Portugal, já depois da independência do Brasil, o que aconteceu com outros naturais de Angola. Deslocou-se a Lisboa, em visita aos filhos, talvez em 1871, tendo sido gentilmente hospedado pelo monarca. Recebeu o baptismo na capital portuguesa, apadrinhando o acto o rei D. Luís e a rainha D. Maria Pia.”
Uma outra portaria ministerial de 3 de Dezembro do mesmo ano, comunicava que os dois educandos já haviam chegado a Lisboa e sido “confiados a um dos melhores estabelecimentos do ensino particular da capital portuguesa, a Escola Académica. Mais tarde regressaram às suas terras e exerceram as funções de professores do ensino primário. Um deles, Vicente Puna, mostrou possuir qualidades aceitáveis, ao contrário do irmão, João Puna, cujo comportamento mereceu críticas e até castigos.” Este último acabou por ser exonerado compulsivamente por ter sido acusado “de não cumprir as suas obrigações, abandonando a escola e dando mau exemplo de decoro e dignidade, não apresentava qualquer resultado do seu trabalho, pois lhe faltavam elementos indispensáveis para exercer o cargo, tendo qualidades más que dizia não ser capaz de coibir”.
Ainda por volta de 1868, Moçâmedes (Namibe), segundo dados oficiais da época, tinha 1.211 habitantes, sendo 837 escravos, 99 libertos e 275 indivíduos livres. Destes últimos, havia 210 pessoas de cor branca, os restantes eram negros ou mestiços. Já Luanda, segundo dados referentes a 18 de Janeiro de 1856, só em escravos tinha 14.124 que, segundo Martins dos Santos, “o comentador da situação reconhecia que era altamente desproporcional à população livre da cidade.”
Filipe Zau |*
* Ph. D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

 O ensino em Angola em Outubro de 1881

Na esteira de Martins dos Santos, chegam a Lisboa, em Outubro de 1881, algumas religiosas de S. José de Cluny para, de acordo com o governo, darem início a uma fundação que fornecesse pessoal para as missões. As portuguesas deram início, em Janeiro de 1883, à sua actividade religiosa em Lândana, que não era ainda uma missão portuguesa. No dia 3 de Março, desse ano, a pedido do bispo diocesiano D. José Neto, desembarcaram em Luanda as primeiras irmãs hospitaleiras, religiosas terceiras franciscanas, para prestarem serviço no novo Hospital Maria Pia, inaugurado no dia 1 de Julho de 1883. Foram estas as primeiras religiosas a estabelecerem-se na diocese de Angola e Congo. No dia 8 de Julho de 1885, as mesmas chegaram a Moçâmedes (Namibe), onde abriram um colégio e uma escola. Entre 1892 e 1897 estabelecem-se na Huíla, Caconda, Malange, Luanda, Luáli e Cabinda.
A cartilha de João de Deus
Em 21 de Maio de 1883, determinou-se que fosse adoptado, em todas as escolas oficiais da província de Angola, o Método de João de Deus. Ordenou-se que nenhum professor fosse provido no seu cargo, se não demonstrasse, por documento ou perante um júri competente, que sabia empregar este método no ensino das primeiras letras. A fim de se divulgar mais facilmente este método de ensino, as autoridades em Angola mandaram vir do reino mil exemplares da Cartilha Maternal. Para o desempenho de diversos cargos públicos, incluindo o do magistério, declarava-se, no mesmo diploma, que seria dada preferência, em igualdade de circunstâncias, aos indivíduos que tivessem obtido o seu diploma em Angola.

No dia 7 de Outubro desse mesmo ano, foi nomeado o júri, que devia examinar os candidatos a professores, com o propósito de averiguar, se os mesmos tinham ou não capacidade e aptidão para aplicarem o referido método pedagógico. O júri era constituído pelo Dr. Francisco António Pinto, que seria o presidente; pelo P. António Castanheira Nunes e por Alfredo de Sousa Neto, professores em Luanda.
No dia 22 de Fevereiro de 1885, o bispo da diocese de Angola e Congo, D. António Tomás da Silva Leitão e Castro, na altura em que o seminário-liceu funcionava na missão católica da Huíla, criou, em Luanda, uma aula de línguas africanas. Na mesma era usado o antigo livro do missionário capuchinho Frei Jacinto de Vetralha, que havia sido reeditado, sendo professor dessa aula, o angolense João Inácio de Pinho. A aula era frequentada por missionários e catequistas que tivessem que trabalhar no interior, podendo-se, no entanto, admitir outros alunos, uma vez que era pública. O mestre tinha por tarefa escrever as lendas, as tradições religiosas, as narrativas de costumes, as canções nas línguas africanas, com o intuito de, posteriormente, as fazer publicar. No entanto, não há notícia de que tal tenha ocorrido.

  
Organização e Gestão
Em 15 de Setembro de 1885, solicitou-se às autoridades de Angola, o envio de uma lista com a indicação das escolas primárias e secundárias, que tinham funcionado no ano de 1884, para além da frequência de alunos em cada uma delas. Pretendia-se assim, organizar a estatística da instrução pública nas colónias. Num informe confidencial do governador-geral Guilherme Capelo, a respeito do funcionamento das escolas em Angola, era comunicado ao ministro o seguinte: “Nesta Província a instrução é deficientíssima, não só pela ignorância dos professores, como pela incúria dos chefes de família, que deixam em desgraçado abandono a educação das crianças. O geral da população vive menos que modestamente, e raros são os pais que mandam educar os filhos para a Europa. Não há aqui o menor interesse pela educação da mocidade, que é julgada completa e terminada com umas leves noções de leitura, escrita e algumas operações de aritmética. A própria Escola Principal apenas é frequentada por meia dúzia de alunos sem habilitações para poderem compreender o que ali se ensina, e se a frequentam é a pedido dos professores, que desejam conservar os lugares em que estão inteiramente providos e que não têm tirado o menor resultado do ensino das matérias que leccionam.”
A 27 de Junho de 1888, foram os administradores e chefes dos concelhos orientados, no sentido de procederem a visitas de inspecção às escolas oficiais, durante o mês de Agosto, último do ano escolar, informando depois, o Governo-Geral, acerca da capacidade e comportamento dos professores, sua pontualidade e assiduidade às aulas, número de alunos leccionados, respectivo aproveitamento escolar, para além de outras informações dignas de menção.
A 30 de Setembro de 1888, no bairro das Ingombotas, em Luanda, próximo da Igreja do Carmo, começou a funcionar uma escola primária sustentada pela Câmara Municipal, destinada, sobretudo, aos filhos das famílias mais carenciadas de recursos, pois os alunos podiam frequentá-la usando apenas uma tanga, caso não tivessem outra roupa.
Em 1891, era introduzido em Portugal um organismo que havia nascido em França e tinha sido recomendado pelos Papas Pio IX e Leão XIII  A Associação de Orações e Boas Obras pela Conversão dos Pretos þu que, no caso português, começou por publicar um boletim, em que se inseriam notícias relativas à actividade missionária, sobretudo em Angola.
Mário Pinto de Andrade afirma-nos, em “Origens do Nacionalismo Africano” que “as elites letradas nas sociedades africanas emergiam entre as camadas sociais privilegiadas, pelo jogo da mobilidade vertical induzida pela necessidade de quadros subalternos para o exercício da vida administrativa, no âmbito do sistema político e económico vigente. Além dos agentes da função pública, contavam-se proprietários agrícolas, professores do ensino privado e advogados provisionários. Produtos dos aparelhos ideológicos dominantes (igreja, escola, exército) são particularmente os clérigos, antigos discípulos dos seminários que, graças à anterioridade e preeminência do ensino religioso, formam o primeiro núcleo de letrados”. Acrescenta ainda que “encarados no seu conjunto, trata-se de ‘autodidactas’ que desempenham o papel de reprodutores de um saber essencialmente humanista. A eles estiveram cometidos, nas últimas décadas do século XIX, o culto e a difusão da instrução. As obras de criação literária, respondendo a um rigoroso critério estético, ocupam um lugar relativamente modesto mas abundam os escritos esparsos no jornalismo de opinião nas ilhas crioulas, em Angola e na província da Zambézia.”

Livros escolares
Em 14 de Maio de 1892, foi publicada a lista de livros e compêndios, que poderiam ser escolhidos pelos professores, para uso nas escolas de Angola: “Cartilha Maternal”, de João de Deus; “O Discípulo de Leitura Portuguesa”, do P. António Castanheira Nunes; “Leituras Correntes”, de F. Adolfo Coelho; “Livro de História” (1ª e 2ª partes), de E. Vidigal Salgado; “Quadros da História Portuguesa”, de Silveira da Mota; “Leituras Correntes”, de João de Deus; “Portugueses Ilustres”, de Pinheiro Chagas; “Selecta Portuguesa”, de Luís F. Leite e Moreira de Sá; “Gramática Portuguesa”, de Manuel Francisco de Medeiros Botelho; “Aritmética e Sistema Métrico”, de Júlio Alberto Vidal; e Dicionários portáteis, sem indicação de autor.
Em 8 de Dezembro de 1905, foi publicada uma nova lista de livros escolares, cuja adopção seria feita em Angola: “Deveres dos filhos”, de João de Deus; “Livro de leitura” (2ª, 3ª e 4ª classes), de D João da Câmara, Maximiliano de Azevedo e Raul Brandão; “Pautas e Exemplares Caligráficos”, de Carlos Silva; “Conjugação dos Verbos e Sinopses Gramaticais”, organizado pela Direcção-Geral de Instrução Primária; “Compêndio de Moral e Doutrina Cristã”, de M. Anaquim; “Aritmética e Geometria”, de Almeida Lima; “Corografia de Portugal”, de Almeida de Eça; “História de Portugal”, de H. Lopes de Mendonça; “Rudimentos de Agricultura”, de A.X. Pereira Coutinho.
Podia-se utilizar ainda a Cartilha Maternal, de João de Deus, na aprendizagem da leitura, não se excluindo a possibilidade do professor adoptar outro método, no ensino das primeiras letras. Mas a carência de livros didácticos constituiu sempre um grave problema escolar em Angola, deste que o ensino oficial foi instituído. Um mal que se arrastou por longos anos e atingiu o período imediatamente anterior à Independência.
Em 28 de Outubro de 1897, o inspector da Fazenda, em Luanda, solicitava ao Ministério da Marinha e Ultramar a remessa urgente dos compêndios escolares previstos nos diplomas legais e que, anualmente, deveriam ser enviados para Angola, como subsídio material para as suas escolas. Informava ainda que os mesmos estavam a ser muito necessários, visto que não havia nenhum em depósito, deixando, por isso, de ser atendidas, as requisições dirigidas aos serviços da Fazenda Pública.

Calendário escolar e nomeações de professores
Através da portaria de 7 de Agosto de 1890, o governador-geral António Duarte Ramada Curto, por proposta do secretário-geral de Angola, Dr. Joaquim de Almeida da Cunha, determinava que, nas escolas de Angola, o mês de Setembro fosse tempo lectivo, e as férias fossem dadas em Março. Era a primeira tentativa de mudança do ano escolar do tipo português para o tipo nitidamente angolano, uma vez que não se justificava que as férias grandes fossem em Setembro, como em Portugal, pois em Angola, esse não era o tempo de praia, nem o tempo de colheitas, como na Europa. De salientar ainda que as férias escolares de maior duração, não ultrapassavam um mês.
O relatório do Pe. José Maria Antunes, de 1 de Dezembro de 1894, foi levado ao exame da Junta Geral das Missões e propunha que as missões deveriam distanciar entre si, em média 1 grau no sentido ocidente-oriente e 2 graus no sentido norte-sul.
Um outro documento, datado de 26 de Novembro de 1895, dá-nos informações sobre missões católicas em funcionamento, sem contudo indicar o número de paróquias e a sua respectiva localização. As escolas seriam providas por nomeação vitalícia, precedida de concurso documental, sob despacho do governador-geral, sujeito a confirmação régia.
Eram exigidos para concurso: diploma de habilitações legais; atestado de bom comportamento; atestado médico comprovativo de não sofrer de moléstia contagiosa; comprovante do cumprimento das leis militares, para os candidatos do sexo masculino; Documentos comprovativos de habilitações literárias e serviço público (em carácter facultativo).
Para se estabelecer a classificação dos candidatos, ter-se-ia em conta a categoria dos diplomas e a qualidade ou antiguidade do serviço de magistério oficial, a valorização dos documentos e as classificações comprovadas. Se não houvesse concorrentes, o lugar poderia ser provido por transferência, se houvesse professores a requerê-la. Se o concurso ficasse deserto, seria provido um indivíduo sem as habilitações legais, mas que oferecesse idoneidade para desempenhar o cargo.
As nomeações interinas eram da competência do governador-geral e a sua validade, a não ser em casos extraordinários, não deveria exceder três meses.
Os professores podiam ser transferidos dentro de cada território, por conveniência de serviço e para tal, seria ouvido o agente considerado e solicitada a concordância do Conselho Inspector de Instrução Pública. Não havia limitação de tempo, mas no final o professor voltaria a ocupar o seu posto anterior. Nos lugares onde não pudesse ser ministrado o ensino em língua portuguesa, por se falarem apenas línguas africanas, deveriam fazer-se exercícios de aprendizagem de português. O Conselho Inspector de Instrução Pública teria em conta as determinações referidas, ao elaborar os programas do ensino.

Filipe Zau*/Jornal de Angola
Ph. D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Poesia angolana. Viriato da Cruz: MAMA NEGRA


VIRIATO DA CRUZ


MAMÁ NEGRA
(Canto de esperança)
        (À memória do poeta haitiano Jacques Roumain)
Tua presença, minha Mãe - drama vivo duma Raça,
Drama de carne e sangue
Que a Vida escreveu com a pena dos séculos!
 
Pela tua voz
Vozes vindas dos canaviais dos arrozais dos cafezais
    [dos seringais dos algodoais!...
Vozes das plantações de Virgínia
dos campos das Carolinas
Alabama
    Cuba
        Brasil...
Vozes dos engenhos dos bangüês das tongas dos eitos
    [das pampas das minas! 
Vozes de Harlem Hill District South
    vozes das sanzalas!
Vozes gemendo blues, subindo do Mississipi, ecoando
    [dos vagões!
Vozes chorando na voz de Corrothers:
    Lord God, what will have we done
- Vozes de toda América! Vozes de toda África!
Voz de todas as vozes, na voz altiva de Langston
Na bela voz de Guillén...
Pelo teu dorso
Rebrilhantes dorsos aso sóis mais fortes do mundo!
    Rebrilhantes dorsos, fecundando com sangue, com suor
        [amaciando as mais ricas terras do mundo!
Rebrilhantes dorsos (ai, a cor desses dorsos...)
Rebrilhantes dorsos torcidos no "tronco", pendentes da
    [forca, caídos por Lynch!
Rebrilhantes dorsos (Ah, como brilham esses dorsos!)
ressuscitados em Zumbi, em Toussaint alevantados!
Rebrilhantes dorsos...
     brilhem, brilhem, batedores de jazz
     rebentem, rebentem, grilhetas da Alma
     evade-te, ó Alma, nas asas da Música!
 ...do brilho do Sol, do Sol fecundo
 imortal
 e belo...

Pelo teu regaço, minha Mãe,
Outras gentes embaladas
à voz da ternura ninadas
do teu leite alimentadas
de bondade e poesia
de música ritmo e graça...
santos poetas e sábios...
Outras gentes... não teus filhos,
que estes nascendo alimárias
semoventes, coisas várias,
mais são filhos da desgraça:
a enxada é o seu brinquedo
trabalho escravo - folguedo...
Pelos teus olhos, minha Mãe
Vejo oceanos de dor
Claridades de sol-posto, paisagens
Roxas paisagens
Dramas de Cam e Jafé...
Mas vejo (Oh! se vejo!...)
mas vejo também que a luz roubada aos teus
    [olhos, ora esplende
demoniacamente tentadora - como a Certeza...
cintilantemente firme - como a Esperança...
em nós outros, teus filhos,
gerando, formando, anunciando -
o dia da humanidade
O DIA DA HUMANIDADE!...
 
Obra Poética:
Poemas, 1961, Lisboa, Casa dos Estudantes do Império.

Poesia angolana. Fernando Ferreira de Loanda (1924-2002): Ode para Bartolomeu Dias



FERNANDO FERREIRA DE LOANDA




ODE PARA BARTOLOMEU DIAS*



Ah, Bartolomeu Dias,
marinheiro sem mulheres,
sem cais,
tanto suaste para divisar o Índico
além da tempestade e da fábula,
tanto quiseste ver-te senhor do Oriente,
plantar as quinas e a cruz muito além do teu sonho,
tantas estrelas seguiste,
louco e lúcido,
e outros tantos alfarrábios e adivinhos consultaste,
fundindo o real ao fantástico -
- e os poetas não falaram de ti, o proficiente,
nem dos teus sonhos,
nem dos fantasmas que evocaste,
embora sulcasses a cortina que envolvia
as palavras e o abismo.
.
Pensavas servir a pátria
e serviste a muitas,
Bartolomeu Dias da minha infância,
símbolo da minha raça,
fremes e estuas no meu peito,
e te apegas às minhas veias
para alevantar ao vento as velas
e me arrastar ao Índico.
.
Ah, Bartolomeu Dias,
meu Ulisses lusíada,
eu te sagrarei na pedra,
com a palavra e ante Deus!
Do outrora te lançarei ao porvir,
e não há tempestade
que te abata mais uma vez.


*Bartolomeu Dias, célebre navegador português, que dobrou, numa viagem ocorrida em 1487-1488, o extremo sul da África (Cabo das Tormentas ou da Boa Esperança), na busca lusitana da passagem para a Índia. Nasceu em data incerta e faleceu em 1500, em consequência do naufrágio da nau que capitaneava e que seguia integrada na armada de Pedro Álvares Cabral, descobridor do Brasil.

Poesia angolana. Ernesto Lara Filho: Poesia da manhã e Quando eu morrer...


 
ERNESTO LARA FILHO

Poema da manhã

Os nossos filhos
Negra
hão-de trazer as ambições estampadas
nos olhos claros.

Os nossos filhos
Negra
hão-de trazer a vida à flor da pele escura.

Os nossos filhos
Negra
hão-de gargalhar o seu desprezo pelas Universidades da Europa
e hão-de rir-se dos que ficarem atrás nas classificações.

Os nossos filhos
Negra
hão-de ser belos
hão-de trazer nas veias o sangue mais puro e mais vermelho
das raças de Angola
e os seus peitos
hão-de chegar primeiro nas competições desportivas
da América, da Europa e do Mundo.

Os nossos filhos
Negra
serão os construtores, os engenheiros, os médicos, os
            [cientistas do Mundo que vem

Eles pisarão quem se lhes atravessar na frente
Eles hão-de fazer soar os "Boogie-woogies" de
                                      [Armstrong e Peters
nas "boites" de Paris, Londres, Moscovo e Nova Iorque
e não mais terão lugares secundários nas bichas de autocarros de Joburgo.

E principalmente
Negra
os nossos filhos

chegarão sempre primeiro
nas competições espirituais e desportivas
da Europa
da América
e do Mundo.

E principalmente
Negra
eles serão
OS NOSSOS FILHOS



Quando eu morrer 

(para o Aniceto Vieira Dias e "Liceu" de "N'Gola Ritmos")

Quando eu morrer
eu quero que o N'Gola Ritmos
vá tocar no meu enterro.

Como Sidney Bechet
como Armstrong
eu gostarei de saber

que vocês
tocaram no meu enterro.

Lá no céu também há "angelitos negros"
e eu gostarei de saber
que vocês
me tocaram no enterro.

Se não puder ser
deixem lá
tocarão noutro lado qualquer
com lágrimas nos olhos
como naquela noite
em casa do Araújo
lembrarão o companheiro
das noites de Luanda
das noites de boémia
das tardes de moamba.

Ah! Quando eu morrer
já sabem
quero que o meu caixão
vá no maxibombo da linha do Cemitério
quero que toquem
a Cidralha
ou convidem a marcha dos Invejados.

É assim que eu quero ir
acompanhado da vossa alegria
bebedeiras seguindo o enterro
as velhas carpideiras de panos escuros
quero um kombaritókué dos antigos
que vai ser muito falado.

Não convidem mulatas
que sempre estragam tudo
Se vierem
não lhes vou rejeitar.
Cantem apenas
alguns dos meus poemas
até enrouquecer.

Ah! quando eu morrer
eu quero o N´Gola Ritmos
tocando no meu enterro.


Picada de marimbondo

          (Para o Pila – companheiro de infância)

Junto da mandioqueira
perto do muro de adobe
vi surgir um marimbondo

Vinha zunindo
cazuza!
Vinha zunindo
cazuza!

Era uma tarde em Janeiro
tinha flores nas acácias
tinha abelhas nos jardins
e vento nas casuarinas,
quando vi o marimbondo
vinha voando e zunindo
vinha zunindo e voando!

Cazuza!
Marimbondo
mordeu tua filha no olho!

Cazuza!
Marimbondo
foi branco que inventou...