sábado, 21 de abril de 2012

Dr. DAVID BERNARDINO - Pioneiro dos Cuidados Primários em Angola assassinado pela UNITA





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Sócrates Dáskalos, David Bernardino e Alexandre Dáskalos (in Recordar Angola
 
 
 


Dr. DAVID BERNARDINO - Pioneiro dos Cuidados Primários em Angola
excertos da Tabanka do Huambo

 

Muitos dos que trilham este fio, certamente que não se lembrarão, mas alguns haverá que se recordam bem do Dr. David Bernardino.
Mas quem era este médico, que tratava da mesma forma os angolanos e os portugueses? Nascido no Huambo em 23 de Março de 1932 aí iniciou a sua formação como homem.Crescido e educado como mais um irmão dos Dáskalos, era na verdade primo. Fez os estudos primários numa escola privada na casa comboio da Rua Castro Soromenho, propriedade da família Dáskalos, cuja direcção era pertença da sua avó. Por esta escola passaram os seus irmãos, a Carmita, o Zé, o Luis e a Morena. Aqui adquiriram hábitos de estudo, de comportamento e de análise que vão marcar os seus futuros.
A infância e a juventude são passadas com algumas dificuldades. Aos onze anos levanta-se de madrugada para ajudar o pai na padaria e no conserto de bicicletas. À noite colaborava também na padaria pesando farinha e pão. As suas brincadeiras eram no quintal de sua casa com os filhos da lavadeira, comendo com eles peixe seco e pirão.
Esta fase difícil da vida teve o condão de transformar o David Bernardino num ser solidário e dos mais competentes da sua geração o que aliado à sua jovialidade e dinamismo lhe grajeam amizades e simpatias por todo o mundo. O curso de Medicina é terminado, em 1958, em Lisboa.
Exercendo a sua actividade como médico em várias províncias angolanas, é no Huambo que atinge plano de destaque. Em 1971, além da sua actividade privada, o médico David Bernardino é o pioneiro angolano do princípio " saúde para todos até ao ano 2000 ". Cria e mantem, a expensas próprias e com dádivas que consegue obter, o primeiro Centro de Saúde de Angola. Com este Centro pretende demonstrar que, utilizando meios locais, é possível formar pessoal preparado e que num curto espaço de tempo e com um mínimo de gastos financeiros conseguir cobrir toda Angola de Centros de Saúde. Divulga, por todo o país, os cuidados primários de saúde. Desta forma o David pretendía adaptar as condições locais à satisfação dos cuidados básicos de saúde.
Este Centro de Saúde é construido num dos bairros mais populosos do Huambo, o bairro de Cacilhas, com material local e com uma arquitectura local e clássica como é a estrutura de um jango. Apesar da inovação não consegue expandir nem materializar a sua ideia nem os seus intentos e mesmo depois da independência de Angola, em 1975, e quando os princípios por ele defendidos eram universalmente consagrados e aceites, também não encontrou o apoio oficial que esperava.
No seu Centro de Saúde de Cacilhas, considerado o barómetro mais efecaz para avaliar a situação angolana, pode sentir-se, a partir de 1988, uma galopante degradação das estruturas de saúde e sociais do Huambo. As crianças do bairro eram uma amostra evidente das precárias condições de vida existentes. Os seus ventres grandes e luzidios assentes em magras e frágeis pernas vacilantes espelhavam a real situação vivida. Eram todas atendidas no Centro.
Mostravam uma comovente gratidão ao doutor David, não por ofertas, actos ou palavras, mas através dos seus olhos alvinegros. Grandes como o Mundo onde despontavam uma fugidia centelha de alegria mesclada de incontida incerteza. O Huambo encontrava-se num confrangedor abandono e o ambiente tinha-se tornado sombrio, de espessa e evidente desconfiança. Mas apesar das condições traumáticas que se viviam, David consegue o mínimo indespensável e mantém a refeição matinal a que habituara a criançada do Centro. Com o apoio dos amigos, das ONG's e da OMS. Nesta época escapa milagrosamente à morte ao pisar uma mina que fez accionar mas não explodiu, quando se aventurava por estradas e caminhos levando saúde e conforto aos que mais precisavam.
O seu empenhamento como homem, médico e intelectual, lutador desde a primeira hora contra o facismo e pela independência de Angola, não lhe vai ser perdoado. Docente universitário, director do jornal independente " Jango ", fundador dos cuidados primários de saúde angolanos, empenhado em diversas acções no campo da investigação científica e histórica, residente no seu Huambo que nunca abandonou, envolvido no apoio social a uma população fustigada por anos sucessivos de uma guerra impiedosa, são outros dos pecados que nunca lhe vão ser perdoados.
E é a 4 de Dezembro de 1992, à saída duma consulta médica no seu Centro de Saúde no Huambo, que David Bernardino é assassinado por um esquadrão da morte dos galos negros. Morto em consequência da sua vida de militância, de coerência, de abnegação, generosidade e coragem.
E como escreveu António Gedeão:


 
 
Eles virão e eu morrerei
Sem lhes pedir socorro
E sem lhes perguntar
Porque maltratam.
Eu sei porque é que morro
Eles é que não sabem
Porque matam.
Um cordial abraço a todos
Cláudio Silva
(Calenga) 

sexta-feira, 20 de abril de 2012

A campanha do Cuamato em 1907: breve narrativa acompanhada de photographias (1908)

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 Clicar sobre a imagem para lêr este livro
 
Author: Alferes Velloso de Castro 
Publisher: Imprensa Nacional 
Year: 1908 
 
Esta é uma cópia digital de um livro que foi preservado por gerações em prateleirade
 bibliotecas até ser cuidadosamente digitalizado pelo Google, como 
parte de um projeto que visa disponibilizar livros do mundo todo na Internet. Este
livro sobreviveu tempo suficiente para que os direitos autorais expirassem e ele se
tornasse então parte do domínio público. Um livro de domínio público 6 aquele que
nunca esteve sujeito a direitos autorais ou cujos direitos autorais expiraram.A 
condição de domínio público de um livro pode variar de país para país. Os livros de
domínio público são as nossas portas de acesso ao passado e representam uma 
grande riqueza histórica, cultural e de conhecimentos, normalmente difíceis de 
serem descobertos. As marcas, observações e outras notas nas margens do 
volume original aparecerão neste arquivo um reflexo da longa jornada pela qual o 
livro passou: do editor à biblioteca, e finalmente até você. 
 
I — PRELIMINARES 





Ao sul da nossa província de Angola e no interior do chamado dístricto da Huilla, correm de norte para  sul dois importantes rios, o Cunene e o Cubango, que,  nascendo ambos nas proximidades d" Bailundo, se afastam sensivelmente um do outro no seu curso superior, correm quasi parailclantente durante "curso médio", para no curso inferior divergirem cada um para seu lado: o Cuncne, partindo para leste, lança-se pouco depois  no Oceano ao sul da bahia dos Tigres; o Cubango, fugindo para leste, interna-se no curação da Africa do sul perdendo-se nasgrandes depressões centraes onde fica o lago NGami.

Estes dois rios, nos seus cursos inferiores de direcções oppostas, a oeste e a leste, dividem a nossa colónia de Angola da Africa Occidental allemã e entre elesa fronteira é marcada, na extensão de quatrocentos e cincoenta kilometros approximadamente, por uma linha de direcção oeste-leste que, partindo de uma das  cataractas do Cunene, na Hinga, alcança o Cubango no Cuangar.

É n'esta ultima parte do território africano que fica a grande região Ovampo, que na nossa colónia está  representada principalmente pelos povos do Kva!e, Cuanhama e Cuamato, vivendo entre o Cunene e a grande mulola Cavungo, importante linha de agua que, des- cendo do Cahundo, quasi divide ao meio a região entre o Cunene e o Cubango.

Só muito tarde, ahi por meiados do século passado, é que estes povos principiaram a ser conhecidos, pois até então era para nós um mysterio impenetrável a região a leste do Cunene; e as noticias que dessa gente nostrouxeram os raros viajantes que se aventuravam então em regiões tão afastadas da esphera do nosso domínio, davam esses povos, de que o Cunhama era a principal tribu, como aguerridos e sanguinários, difficilmente domáveis á influencia da civilisacão.

Isto, nessa epocha, pouco nos podia interessar: limitada ao littoral de Mossamedes, ou pouco mais alem, a acção da nossa soberania,pouco importava anatureza rebelde desses povos longínquos.

Mas o planalto da Huilla povoou-se de elementos boers e europeus; a esphera de acção do nosso domínio alargava-se cada vez mais, chegando ao Humbe; e os direitos de soberania que para nós reivindicávamos no sul de Angola até quasi ao Zambeze, impunham-nos a obrigação de reduzir á obediência e de manterlivres e seguras ao commercio e á civilisacão, essas e outras regiões importantes.


África não precisa de Sociedades Secretas

A história principal na edição de fevereiro da revista Nova Africano sugere que as sociedades secretas são "o caminho a seguir para a África." Ele argumenta, e com razão, que: "poderosas sociedades secretas do Ocidente e em outros lugares governar seus países e do mundo nos bastidores. Reúnem-se anualmente ou menos em locais secretos. Eles discutem e tomam decisões sobre as principais políticas que afectam os seus países no mundo. "
Ele continua: "Os cortes de adesão em toda a política, negócios, mídia, militares, diplomacia, academia, etc E eles gel coisas como o planejado. Sendo parte do mesmo mundo, não a África também precisa de suas próprias sociedades secretas (múltiplos deles, menos seu lado sinistro) para defender seus interesses a nível global e acelerar o seu desenvolvimento? "
Baffour Ankomah, editor da revista, em uma paz abrangente, então passa a argumentar que é hora de África juntaram-se à festa.
Em sua argumentação, ele chama proveitosamente sobre o que ele considera ter sido ambas as experiências positivas e negativas com as sociedades secretas ao redor do mundo, incluindo: Skulls and Bones, The Bohemian Grove, A Mesa Redonda, o inquérito, o Conselho de Relações Exteriores, Comissão Trilateral , Bilderberg e Afrikaner Broderbund.
É um segredo de polichinelo que as figuras mais proeminentes no comércio global, política, religião e cultura estão associadas a essas e várias outras sociedades.
Ao sugerir que a África diz que maneira, Ankomah levanta várias hipóteses, a maioria com defeito.
Primeiro, é assumido que a África não tem sociedades secretas, mas nada poderia estar mais longe da verdade.
África tradicional teve suas próprias sociedades secretas, algumas das quais foram chave na nacionalistas do continente e os movimentos de luta pela independência.
Igualmente importante, alguns dos pré-independência da África líderes, como, aliás, aqueles que os seguiram, são conhecidos por se juntaram as sociedades secretas que nós convencionalmente associados com o Norte global.
Na minha Quênia da década de 1990, as investigações oficiais tinham de ser lançado para as atividades de algumas das sociedades devido à sua influência na vida pública, o governo nunca divulgou suas descobertas como pensava-se também muitas figuras proeminentes foram para essas sociedades.
O fracasso do governo queniano para liberar o relatório aponta para a hipótese de outro pedaço Ankomah - de que essas sociedades podem ser usados ​​para o bem, ao contrário de experiências em países do continente Africano.
Interagindo e conversando com amigos em todo o continente, eu vim à conclusão de que os motores mais africanos e agitadores estão ligados à maioria das sociedades secretas discutidos na peça Ankomah; as profissões de conhecimento da academia direito e jornalismo são cruciais para este tendência na África.
Também estreitamente ligada a este são aqueles em política e fé, bem como aqueles que temos vindo a designar como capitães da indústria.
Não deve ser deixado para trás, alguns que funcionam alguns sistemas de segurança das nações são igualmente para isso.
A sociedade secreta mais influente na África, até agora, parece ser a Maçonaria.
Em última análise, afigura-se como se já temos a nossa política, da economia e da cultura popular infiltrada por sociedades secretas.
Eu pertenço a nenhuma sociedade secreta mim mesmo, e anseiam por unisse, já que as minhas experiências como um queniano político jovem jornalista, e Christian tiveram-me concluir que as sociedades secretas pressagiam pouco bom para o meu país e sociedade em geral.
A crise política após eleições contestadas do meu país em dezembro de 2007, um evento no qual participei como um aspirante a parlamentar na zona rural do Quênia teve-me a apreciar a natureza e os efeitos dessas sociedades na condução dos assuntos públicos e políticas em meu próprio país um pouco mais intimamente.
As sociedades secretas no Quênia, como aliás o resto da África, têm provocado o surgimento ea existência de um grupo de interesse especial, cujo sócio-econômico e político visão tem me perguntando se Ankomah realmente aprecia o que isso pode ser tudo.
Autor David Yallop é que, em seu livro Em nome de Deus, sugeriu que ele não é tão róseo no grande esquema das coisas com tais sociedades - não menos uma pessoa do que o papa Albino Luciani foi morto sobre ele, ele assevera.
Ele estava no cargo por cerca de 33 dias apenas, mas foi morto supostamente porque ele não conseguia encaixar os interesses concorrentes secretos que tinham uma intenção, no Vaticano.
Uma nação certa Europeia teria também teve que reformar sua força policial inteira por conta de um take-over por uma sociedade secreta determinada.
Vamos manter nossos segredos de estado, onde podemos e devemos, mas pelo amor de Deus está permitem afastar-se de sociedades secretas.


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A OUTRA FACE DO 25 DE ABRIL. OS EUA e a política para os territórios ultramarinos...


A OUTRA FACE DO 25 DE ABRIL

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Newsletter Boston Em 1941, Franklim Delano Roosevelt endereçou uma carta ao Kremlin (carta que o Le Figaro publicou em 7/2/51) onde, a dado passo, afirmava: «... quanto à África, será preciso dar à Espanha e a Portugal compensações pela renúncia dos seus territórios ultramarinos, para um melhor equilíbrio mundial.
Os Estados Unidos instalar‑se‑ão aí por direito de conquista e reclamarão inevitavelmente alguns pontos vitais para a zona de tutela americana. Será mais do que justo. Queira transmitir a Estaline, meu caro senhor Zabrusky, que, para o bem geral e para o aniquilamento de Reich, lhe cederemos as colónia africanas se ele refrear a sua propaganda na América e cessar a interferência nos meios liberais.»
Porquê Portugal e as suas províncias ultramarinas? Terá sido apenas mais um Yalta?
Para a compreensão destas questões, transcrevemos uma passagem muito interessante de Washington Observer de 15/1/75: «A verdadeira razão da rápida mudança da situação na África Austral reside no plano Rockfeller, Rotschild e Oppenheimer, que prevê a criação de um super‑governo económico na parte sul de continente africano. Este plano implica a integração em um todo económico de Angola, Zaire, Zâmbia, Zimbawe, Sudoeste Africano, Moçambique e República da África do Sul. Este plano vai permitir que a Gulf Oil Corporation (propriedade dos Rockfeller) explore em exclusivo o petróleo de Cabinda, com igual .proveito da URSS, de Cuba e de Angola. Foi esta associação, aparentemente sui generis, que, em 1973, tomou a decisão de mudar o curso dos acontecimentos em Portugal e suas colónias «para um melhor equilíbrio mundial».
Em princípios de 1973, realizou‑se em Paris uma conferência convocada pelo PCP, na qual todos ou prementes da esquerda portuguesa se comprometeram a levar a cabo uma sublevação em Portugal, o mais tardar até 1975. Estavam presentes a PCP, a Acção Socialista Portuguesa e cerca de uma dezena de militares, católicos progressistas e representantes da Maçonaria. Esteve igualmente presente uma delegação de PCUS, com instruções e poderes para assumir compromissos financeiras.

«Nesta conferência ficou acordado o reforço das infiltrações marxistas nas forças armadas portuguesas e elaborado um plano para a intensificação do terrorismo nas províncias ultramarinas. O sucesso da revolução implicaria a instalação na metrópole de um regime democrático a caminho do socialismos e poria termo à guerra colonial.» — Faits et Idées, de Agosto de 1976.
«A independência da Guiné, de Angola e de Moçambique seria concedida aos movimentos terroristas de obediência comunista, sem condições políticas ou económicas nem indemnizações. Ou colonos deveriam ser repatriados a expensas de Portugal.» — Liquidação do Ultramar, Jornal Português de Economia e Finanças, 1980.

O n.º 2 de Agosto de 1976 de Newsletter de Boston, numa reportagem de John C. Wahnon, refere a celebração em Paris de um acorde entre «... os secretários‑gerais do PCP e de PS, juntamente com membros de outro partidos, para estudar a possibilidade de canalizarem o descontentamento então evidente em certos sectores das forças armadas portuguesas, no sentido de estruturar um movimente capaz de derrubar o governo português. O PS tomou o comando da subversão enquanto que o PCP financiou ao operação. Moscovo, a fonte desses fundos, só impôs uma condição: a independência imediata de todas ao colónias portuguesas e a transferência imediata das respectivas soberanias, sem eleições para os movimentos pré‑russos.»
O acordo final respeitante «condições impostas pela União Soviética foi amainado por cinco comunistas e quatro socialistas e constava de duas cláusulas:
1.ª - Entrega de dinheiro. A URSS contribuiria inicialmente com 2 milhões de dólares para financiar a organização do golpe de Estado que derrubaria o governo português.
2.ª - Compromisso. O PCP e o PS comprometiam‑se a dar a independência, imediata às colónias, representadas na reunião respectivamente pelo PAIGC, MPLA e Frelimo.
Em Setembro desse mesmo ano, o PCP e o PS subscreveram um comunicado em que afirmavam ser objectivo das forças democráticas portuguesas pôr termo à guerra colonial, propondo imediatamente negociações com vista à independência dos povos de Angola, Guiné e Moçambique.
Entretanto em Julho tinha‑se formado o Movimento dos Capitães que logo nesse Outono abandonou as suas reivindicações iniciais para lhe dar um cariz nitidamente político. Este segunda programa foi redigido por Melo Antunes e revisto e aprovado por uma comissão composta por Vasco Gonçalves, Franco Charais, Costa Brás e Vítor Alves.
Em 15 de Abril de 1974, D. António Ferreira, Geres encontrou‑se em Roma com o cardeal Villot e regressa a Lisboa com a garantia de que a solução spinolista é bem vista por Sua Santidade o Papa Paulo VI (o judeu oculto Montini).
Nesse mesmo dia, em Madrid, Spínola recebe de Arias Navarro, chefe do governo espanhol, a promessa de neutralidade.
No que respeita à NATO, Thorsten Anderssen, director da Lisnave, é o intermediário nas negociações com Joseph Luns.
Nos dias 19, 20 e 21, reuniram‑se no hotel Mont d`Arbois numerosos membros da Trilateral e de Club de Bildberger para reflectir sobre a revolução que se preparava para Portugal. O hotel pertence ao barão de Rotschild e situa‑se em Mégeve, França. Num anexo de mesmo hotel reuniram‑se na mesma altura e com a mesma agenda representantes da RFA, EUA, NATO, Itália e revoltosos portugueses. Reunião idêntica decorreu no castelo de Gyminich, perto de Bona, e reuniu os ministros dos Negócios Estrangeiros da CEE.
No dia 22, um grupo de 15 «turistas» portugueses chegaram a Badajoz e foram conduzidos em viaturas oficiais espanholas ao aeroporto internacional de Barajas, Madrid. Cada um deles era portador de uma carta lacrada de Spínola, e nos aeroportos de Paris, Bruxelas, Roma, Haia, Berna, Londres, Cidade do Cabo, Luanda, Lourenço Marques, Bissau, Brasília, Dacar e Nova Iorque, são recebidos por «representantes de diversas sociedades internacionais». As cartas destinam‑se aos Ministros dos Negócios Estrangeiros ou no caso das colónias aos representantes do governo de Lisboa, mas com ordem de apenas seres entregues no dia 25 de Abril.
No dia 23, Spínola tem à sua disposição um sistema permanente de comunicação com todos os seus mensageiros, por intermédio de uma embaixada europeia e com o apoio de um iate especial, de seu nome Apolo, posto à sua disposição e fundeado no Tejo.
Nesse mesmo dia, unidades da NATO entram em Lisboa, a pretexto de manobras integradas nas operações Dawn Patrol 74.
Quanto à situação político‑militar nas colónias pós‑25 de Abril, Kissinger e Gromyko assinam um acordo secreto estabelecendo a neutralidade dos Estados Unidos face à presença cubana e de material cubano em Angola, a troco da neutralidade soviética em Portugal. Tal acordo permite à Gulf Oil prosseguir a exploração petrolífera em Cabinda, com benefício para a URSS,
Africa a vitoria traida 
Cuba, MPLA e para a própria Gulf Oil.
Sobre a situação militar nas províncias ultramarinas antes da Revolução dos Cravos, remetemos tal esclarecimento para o general Silvino Silvério Marques, que no seu livro África ‑ Vitó­ria Traída, afirma apenas o seguinte:«Em Angola, a guerra estava a caminho de ser, prática e definitivamente, ganha económica, sócio‑politica e militarmente. A subversão ti­nha igualmente os dias contados em Moçambique. Na Guiné, a situação modificar‑se‑ia. Iss­o seria a sucesso da política ultramarina portuguesa.»
Livro Negro do 25 de Abril - Jose Fonseca 
A revolução do 25 de Abril não foi uma revolta de povo contra a ditadura nem contra uma guerra colonial perdida. Foi sim mais uma vitória da fria estratégia dos mundialis­tas, que teve o seu epílogo numa madrugada de Abril mas que começara muito antes, com a primavera da marcelice e a consequente assalto ao poder da incontável caterva de pu­lhas, bandidos e com alguns inocentes úteis à mistura.
Franco Vale
In Último Reduto, n.º 6, 1984, págs. 8/9.
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quinta-feira, 19 de abril de 2012

LUANDA , edifício e modos de vida, na pena do autor do Livro "Quarenta e cinco dias em Angola"



Luanda. Uma linda panorâmica da cidade hà mais de 150 anos
(foto Era Uma Vez...Angola, Paulo Salvador, in Pissaro site)


Transcreve-se na íntegra algumas páginas deste livro:


"....É tempo de fazer a descripção da Cidade de S. Paulo de Loanda. A Capital da Provincia d'Angola acha-se situada a 23 — 8 graus de latitude sul, no fundo de uma grande bahia formada pelo continente e pelas ilhas de Loanda e de Cazeange, grande orla d'areia de uns quatrocentos melros de largura, que corre parallelamente á costa, desde as proximidades do Coanza até ao moiro das Lagostas, na extremidade norte da cidade. E' n'estas ilhas que moram os Muxiloandas , raça de pretos que se occupam unicamente da pesca. Existem alli modernas casas de campo, mandadas construir por alguns negociantes de Loanda, e um elegante deposito para os mantimentos da estação americana. 

Vista da bahia, Loanda apresenta um lindo pano- rama, devido á configuração do terreno em que está edificada, e que muito se parece com Setúbal. O aspecto da vegetação é encantador, sobretudo para europeus que não estejam afeitos a ver sitios onde brotem plantas tropicaes, e cujo tom verde é tão agradável á vista, que apenas podemos comparal-o ao do nosso linho de prado. Os palmares, os coqueiros, os tamarinheiros, as cajueiras, as bananeiras, as mangueiras, e muitas outras arvores, cujos nomes me não occorrem agora, dão á cidade e a seus arrabaldes um colorido tão bello, que mal se pôde acreditar que alli em vez de ar puro e saudável, só se respirem miasmas pestilenciaes. Da mesma forma que em quasi toda a costa africana, o terreno em que Loanda se acha edificada é areento, misturado de barro vermelho e amarellado.

A Capital divide-se em cidade baixa e cidade alta : a cidade baixa, a — commercial — é construida sobre uma restinga de areia que parece ter sido formada pelo assoreamento de parte da bahia, onde as aguas mortas não tinham, por causa do pequeno cabo da fortaleza, a necessária corrente, e pelas terras acarretadas da cidade alta nas occasiões de grandes chuvas. Estes assoreamentos vão augmentando sempre, e dimi- nuindo consideravelmente a área da bahia. Os navios d'alto bordo, que d'antes se aproximavam muito da terra, fundeiam actualmente a uma distancia talvez su- perior a mil e quinhentos metros do cases. A cidade alta fica situada sobre um monte cortado a pique, que circunda a baixa em toda a sua extensão. A differença de nivel entre as duas partes da cidade é proximamente de setenta metros, o que as tornaria quasi incommunicaveis, se não fossem duas fortissimas rampas, construidas sobre muros de supporte, nos dous pontos mais accessiveis da cidade alta. Loanda deve ter hoje perto de onze mil almas, sendo a maior parte de seus habitantes de raça preta e mestiça. A cidade baixa contém grande numero de casas; algumas d'ellas, ainda que construidas sem elegância, e sem gosto algum architectonico, denotam terem sido edificadas em tempos remotos por alguns nobres des- contentes da sua sorte, e que áquellas praias foram ten- tar fortuna nos azares da guerra ou nos do negocio licito d'aquelle tempo. 

As modernas construcções, apesar de muito mais regulares do que as antigas, deixam ainda muito que desejar. É no centro d'esta parte da cidade que se acha a igreja de Nossa Senhora dos Remédios, templo mal conservado e de pobríssima apparencia, mas que gosa das honras de Sé nova, desde que a antiga passou a servir de curral ! Em qualquer aldeia do nosso Minho, se encontra uma igreja com mais aceio e esplendor, do que em Loanda, e isso não é para estranhar attendendo ao pouco uso que d'ellas se faz. Ainda não encontrei terra, por mais desmoralisada que fosse, onde se cumprissem menos os preceitos da nossa religião. As próprias mulheres, que por natureza são sempre mais inclinadas ás práticas religiosas, essas mesmas pouco ou nada frequentam os templos! Geralmente, em toda a Africa, tractam mais do corpo, do que da alma. Ha tal, que de manhã negaria uma libra para as obras da igreja, em quanto que de tarde perderia um conto de reis ao monte. Não sei se a desmoralisação das nossas possessões é devida á falta de bons parochos, se aos maus exemplos que alguns teem dado ; o que é certo, é que geralmente a gente branca tem os padres em pouca consideração, e talvez que também para isso concorra pertencerem muitos d'estes á raça mestiça. Notei sempre nos pretos maior predilecção pelos ecclesiasticos do que nos brancos, mesmo os mais rústicos, e varias pessoas me afirmaram, que o primeiro cuidado do preto do interior, quando apparece alguma expedição militar, é de perguntar se vem padre. Muitos pretos vivem e morrem sem baptismo, por não ter havido padres que se dedi- cassem a percorrer o interior, a fim de instruir uma infinidade de creaturas, das quaes se conseguiria muito mais com a cruz, do que com a clavina. Ignoro se o novo Bispo, que dentro em breve deve seguir viagem para Angola, terá força sufficiente e poderá dispor dos meios necessários para reformar os templos da sua diocese, entregal-os a parochos honestos e dedicados, e tractar seriamente da propaganda religiosa. Dizem-me que lhe não falta talento e boa vontade : isto já não é pouco, mas terá elle animo bastante e saúde para resistir a um clima tão mau e tão desanimador? Deus o queira. Persuado-me que foi um erro enorme, a abolição dos conventos no Ultramar. Dessem-lhes embora uma organisação mais adequada ao paiz, e ao lim a que se deveriam propor, mas da sua conservação se colheria o maior proveito, tanto para a Provincia, como para o Estado. Verdade é, que os frades mandados dos nossos conventos nem sempre eram de exemplar conducta, mas isso mesmo seria fácil de remediar na occasiao em que se aboliram as ordens religiosas, porque é provável que d'entre tantos indivíduos que por ahi ficaram ao desamparo, muitos acceilassem passar para o Ultramar se lh'o tivessem proposto. 
Quando medito no passado, vejo que ás ordens religiosas se deve a maior parte de tudo quanto na Africa ha, ou houve soffrivel. Os Jesuítas construíram em Loanda um bello templo e um grande convento, onde os pobres recebiam a educação, e que hoje se acha transformado em Palácio episcopal. Foram elles que, pelas missões, espalharam no seio de immensas povoações selváticas, o gérmen do catholicismo, que tão enraizado ficou no coração d'aquella gente, que apesar de terrem decorrido cerca de trinta annos sem que os ministros de Christo tornassem a apparecer entre elles, ainda hoje pedem padres, desejam ser baptisados, e cederiam de boa vontade a algumas exigências nossas, se houvessem governadores de districto, bastante intelligentes e desinteressados, para dispender alguma quantia na reediicação dos primitivos templos, que o tempo e o abandono reduziram a ruinas ! Para prova da fé viva e profundo respeito, que aquelles povos consagram á nossa religião, bastaria talvez lembrar que em vários silios onde as igrejas desabaram, e onde ha muito por falta de padres se não exerce o culto divino, tem os pretos, apesar do grande apreço pelos objectos de prata, guardado escrupulosamente todos os adornos, e alfaias que os nossos Bispos e Governadores para lá lhes mandaram no tempo em que os seus rendimentos eram mais avultados. E' realmente para estranhar que o Collegio do Bombarral, destinado para as missões, não tenha enviado para Angola ministros da religião, que incalculáveis serviços prestariam á civlisação e á humanidade. No interior, grande numero de povoações onde nunca chegaram a apparecer os nossos pregadores, conservam ainda as crenças barbaras e fanáticas que se assemelham ás dos Gaulezes: — é o druidismo, com pequena differença. Acreditam na metempsycose , ou transmissão da alma de uns para outros corpos; na vida eterna, passada n'um mundo de delicias, para onde a alma vôa d'este que veio habitar como prova ou castigo. Ha bastantes exemplos de pretos atacados de nostalgia que depois de transportados para a America se tem suicidado, para escaparem aos castigos d'este mundo e irem gozar a bemaventurança que no outro esperam encon- trar. Como os Druidas, também teem os seus adivinhos, — gangas — que não devemos confundir com os feiti- ceiros, por serem estes, objecto de especial aversão para o gentio. Teem igualmente curandeiros, ou distribuidores de especificos milagrosos compostos de summos de certas plantas, que descobrem a moléstia, e a sua origem pela magia, recorrendo a certos signaes mysteriosos e invocando inspirações de um ente sobrenatural que é vulgarmente o idolo, objecto das suas adorações. Fazem uso de talismans — milongos — para combater o feitiço, e tal é a superstição que ainda hoje os domina, que frequentemente celebram horrendos sacrifícios humanos, debaixo mesmo dos muros dos nossos reductos. Quando as missões não alcançassem outra cousa mais do que pôr termo a esses horriveis espectáculos, nao fariamos nós um grande serviço á humanidade? Quasi todos os conventos que ha em Loanda estão já em completa ruina; existe comtudo o de S. José a curta distancia da cidade, e n'uma situação deliciosa, que apezar de deteriorado é susceptível de grandes melhoramentos. N'esse convento é que o Governo deveria estabelecer um seminário, onde recolhesse e educasse gente natural do paiz, com o fim de percorrer o interior, e propagar até ás povoações mais longínquas a doutrina christã. D'ahi haviam dimanar os elementos civilisadores para firmar a paz tão desejada, e sem duvida alguma resultaria o engrandecimento e prosperidade dos estados Ião vastos em que ainda predominamos. Essas expedições eram mil vezes mais proveitosas, e infinitamente menos desbumanas, do que as dos soldados europeus que a ignorância dos nossos governantes votou barbaramente á miséria e soffrimento. É incontestavelmente um crime inaudito, aquelle que presenciamos dos meios que se empregam para an- gariar gente para servir no Ultramar : illudindo uns com postos d'accesso, que afinal lhes regateam com chicanas miseráveis ; a outros pintando-lhes Angola qual outro Eldorado, paiz de fadas e d'encantos; engodando outros com soldos dobrados, adiantamentos e gratificações, e finalmente empregando-se até com alguns desgraçados o terror e as ameaças ! E tudo isso para que? Para lançar nas praias d'um paiz inhospito, cente- nares de creaturas, que vão partilhar da triste sorte que as nossas leis reservam para os criminosos condemnados á pena ultima, e que a clemência real, ou a moderna civilisação commulou em degredo perpetuo. Que bello quadro de perversidade ! Não é possivel que haja coração, por mais insensivel que seja, que se não constranja, sabendo a que misero estado ficaram em tão pouco tempo reduzidos aquelles bellos corpos que d'aqui sahiram ha um anno, e que a morte tem ceifado inexoravelmente. Aspecto cadavérico, cabellos arripiados, olhar espantado, ventre in- chado, e as pernas cobertas d'asquerosas chagas, eis o desgraçado estado a que se acha reduzida a maior parte  d'aquelles infelizes, a quem a morte parece ter poupado só para lhes prolongar os padecimentos. Repetidas vezes vi alguns d'esses pbantasmas fazendo guardas. Julguei a principio que iam recolher ao hospital, mas soube depois que de lá tinham sahido; a sciencia dera-os por promptos para todo o serviço ! Quasi diariamente pela força do verão, tiveram esíes infelizes de conduzir com bastante custo e fadiga ao cemitério do Alto das cruzes, os cadáveres dos seus companheiros fallecidos no hospital. Ao recolher ao quartel, era fácil divisar no seu ar abatido e melancólico, o mau efeito que aquelle acto deve produzir no espirito enfraquecido do soldado, que ve rarear todos os dias o numero dos seus camaradas. É provável que esta ceremonia fúnebre faça parte dos regulamentos militares, mas muita cousa ha suppor- tavel em Portugal e intolerável em Angola, onde se vive constantemente debaixo de impressões aterradoras, e onde estas scenas lúgubres concorrem para mais facil- mente ser atacado das moléstias do paiz. Porque se não ha de organisar o exercito com os indigenas, que são os únicos que podem resistir á perni- ciosa influencia d'aquelle clima? Haja muito embora um corpo d'europeus, gente de confiança do Governador geral, mas que seja um corpo fixo, e não o obriguem a sahir da capital e a entranhar-se nos matos do interior, onde vão acabar de perder o garbo e energia que mal se podem conservar ainda assim em Loanda. O preto depois de fardado e disciplinado é um excellente soldado. O espirito de corpo domina-o do mesmo modo que os brancos; e nas expedições que se teem feito nota-se que não é elle o que melhor tracta os gentios. Tive occasião de ver, que o soldado preto além de ser muito aceado, tem muita propensão para a vida militar, porque só assim se pôde ver bem vestido e calçado, o que lhe dá um subido grau de superioridade sobre aquelles que só trajam panos e andam descal- ços. Depois de fardado e calçado, elle mesmo se consi- dera branco, e tracta de — negros — os da sua espécie, que não andam calçados. Esta vaidade deveria até ser aproveitada, para d'ella tirar bom partido, o que era facillimo dando á tropa preta um uniforme commodo e de cores vistosas, pois é bem sabido que elles se deixara fascinar pelos enfeites abrilhantados. Isto não é ideia nova: — ha muito que os inglezes na India, e os francezes em Argel, a pozeram em prática e assim poupam os seus soldados e utilisam braços que despresados lhes poderiam ser funestos. 
Ha em Angola muita rapaziada parda que sabe ler e escrever: são esses os que deveriam ser escolhidos para officiaes inferiores, entregando o commando dos corpos e das companhias a officiaes brancos do exercito do Ultramar, filhos do paiz, ou europeus aclimatados já pelos muitos annos de residência, ou a officiaes do exercito de Portugal, que por sua livre vontade queiram ir para Africa. É muito conveniente que os officiaes superiores sejam brancos, não só por serem muito mais intelligentes e terem mais conhecimentos práticos do que os mulatos. mas também por ser um facto de todos bem sabido, que os pretos preferem ser commandados pelos brancos, que lhes inspiram maior confiança. A superioridade do soldado preto sobre o branco torna-se bem notável todas as vezes que ha qualquer marcha para o interior: os brancos são os primeiros que cançam, os que mais sofrem com a falta d'agua, e quando chegam a algum ponto em que o mato os obriga a parar, são sempre os empacaceiros que passam para a frente a abrir-lhes caminho. Não nos devemos admirar que a nossa gente de a direita á tropa preta n'essas diftcultosas marchas, porque raro é o branco, por mais robusto que seja, que possa aturar por muito tempo o terrível calor do verão, e resistir ás febres, fadigas, e privações, a que muitos d'elles succumbem desgraçadamente por falta de remédios e de facultativos. Pára terminar sobre este assumpto, farei ainda uma consideração. Causa espanto que se tivesse abolido no exercito o castigo da chibata, único elemento de disciplina que restava, para o substituir por um castigo mil vezes mais bárbaro e immoral! Actualmente todos os soldados do nosso exercito que cornmettem três faltas de certa gravidade, que d'an- tes expiavam com umas tantas chibatadas, são condem- nados a servir nas companhias disciplinarias do Ultramar, onde morrem victimas da febre, ou onde vivem promiscuamente com facinorosos e malvados de toda a espécie. Aquelles que teem a fortuna de escapar, vol- tam de lá mais desmoralisados, se não mais viciosos do saque foram. Será isto de algum modo proveitoso para o exercito e para o paiz? As impressões de uma viagem, por mais sucinto que se queira ser na sua narração, obrigam sempre a certas reflexões que a importância do assumpto suggere : é o que nos tem acontecido, e é natural que ainda torne acontecer. Por em quanto voltemos á descripção de Loanda, Foi, como já dissemos, para a igreja de Nossa Senhora dos Remédios — que os modernos Bispos transportaram a sua cadeira, e é n'este templo que se celebram immensos ofíicios de corpo presente. E' também alli, que os novos Governadores se dirigem depois do desembarque para assistirem ao Te-Deum, acompanhados pelo Governador que vão substituir. De lá seguem para o Palácio, onde se reúnem na sala do docel as authoridades civis, militares, e ecclesiasticas, e grande numero de empregados públicos, e commerciantes para assistirem ao auto da posse. É costume trocarem os Governadores entre si phrases lisonjeiras e cordiaes, aproveitando-se o recem-chegado da occasião, para dirigir ao auditório uma espécie de programma do seu futuro governo. O desembarque de um novo Governador é cousa bastante curiosa a presenciar, por uma particularidade que a torna assaz caricata, e que já por varias vezes tem feito encordoar os recem-chegados. N'essa occasião o povo todo de Loanda reune-se na praia, junto ao cães do desembarque, para vêr e festejar o seu novo Governador, a quem os pretos chamam  Maniputo mas como o numero d'estes, é muito superior ao dos brancos, fácil é de comprehender que a sua alegria e ovações devem predominar e tornar-se muito salientes. Com efeito assim acontece, e creio que não é fácil presenciar um acto de ridículo tão sublime como o do regosijo dos pretos de Loanda. Ao troar do canhão das fortalezas e dos navios surtos na bahia, junte-se o estalido das girandolas de foguetes, os repiques de sinos, a musica regimental, as estrepitosas acclamações, os pulos desordenados e a inferneira produzida por alguns milhares d'apitos e de gaitas capadeiras, e mal se poderá formar ideia da impressão causada no espirito de um europeu, que pela primeira vez presenceia tão delirante espectáculo. Se o desembarque tem lugar no verão de meado de Novembro a Maio — enxames de cigarras juntam o seu canto ruidoso ao immenso alarido da multidão. Estas scenas de efusão devem ser presenciadas para poderem ser comprehendidas. Supponho, mas não ò affirmo, que aos Bispos fazem iguaes recepções. Não é só na nova Sé, que se exerce o culto divino: também se diz missa todos os dias santificados n'uma igreja da cidade alta, cujo orago é S.João Baptista, e á qual assiste de ordinário o Governador com seu estado maior, e os destacamentos da guarnição com a musica do 1. de linha, uma das melhores cousas que encontrei em Loanda, e á qual na realidade me não esperava. Na cidade baixa ha ainda a igreja do Corpo Santo, e (') Também dão este nome ao Rei de Portugal mais duas capellas. Não é de certo por falta de templos que em Loanda se não ouve missa; talvez seja por falta de padres. Já disse que a igreja dos Jesuitas está em completo estado de ruioa: apenas existem as quatro paredes, ás quaes encostaram uns pequenos alojamentos ou barracas de feira, a que chamam — officinas das obras publicas — onde vi executar algumas obras de ferreiro, espitigardeiro, funileiro, correeiro, tanoeiro, torneiro e carpinteiro, parte d'ellas feitas por operários degredados, e outras, por operários a jornal. Parece que este estabelecimento, á testa do qual se acha um capitão, deveria ser de grande proveito n'um paiz onde tudo vai de fora por subido preço; infelizmente não acontece assim, visto que a mão d'obra e o valor dos materiaes empregados, importam em muito mais do que a receita das officinas. No mesmo edifício, mas na parte do antigo convento, conhecido ainda hoje por — Collegio — é que se recolhem os pretos provenientes das apprehensões feitas pelos cruzeiros portuguezes, chamados por isso libertos, e não porque elles gozem da sua liberdade, porque não saem senão para fazer algum serviço no Palácio do Governo, ou nas repartições publicas, e sempre acompanhados por soldados. Alguns vi também n'uma immunda enxovia que existe dentro do próprio estabelecimento. É tão pouca a confiança que o Director tem n'esta gente, que quando os emprega no transporte de objectos de algum valor, costuma pôr-lhes umas gargalheiras de ferro que os prendem uns aos outros, e assim percorrem as ruas da capital comboios de pretos que muito se assemelham ás recuas dos nossos almocreves. Existe ainda a capella mór separada do resto do edifício por uma divisão de madeira, e serve de deposito da agua para os libertos e operários. Alli um d'estes, escondido atraz do altar mór, exerceu por algum tempo a honesta profissão de moedeiro falso, que já em Portugal tinha exercido com algum proveito, até que os nossos tribunaes pouco admiradores das bellas artes, o expatriaram para longe da Izabelinha, terra da sua naturalidade. O altar mór, é de mosaico, ido de Itália, e muito semelhante a um do Convento da Batalha. Apesar de muito sujo e mal conservado, não me pareceu deteriorado: apenas lhe faltam quatro bellas columnas torcidas, de mármore côr de rosa, que adornavam o retábulo, e que o Governador Féo mandou tirar, para figurarem na construcção de um monumento para commemorar a acclamação d'El-Rei D. João VI, e o mau gosto de que era dotado.

 O embellezamento da actual praça de D. Pedro V, perto do Palácio do Governo, onde se achava tão apre- ciável monumento, exigiu a sua remoção para sitio mais adequado; por isso o apearam, e depositaram em monte a um lado da praça os materiaes de que se compunha. Ha annos que alli existem e naturalmente continuarão a existir, com o que nada se perde ; seria no entanto conveniente que as columnas voltassem para o seu primitivo logar d'onde nunca deveriam ter sabido, removendo-se aquelle altar mór, a melhor obra d'arte que existe em Angola, para alguma igreja onde se lhe desse o apreço que merece. Também lá encontrei, meio enterrado no chão e coberto com pontas e aparas de madeira, um lindo obuz de bronze, notável pela sua grande antiguidade e bello desenho: — é uma peça muito digna de figurar n'um museu d'artilheria. 
A Sé velha, que inculca ter sido um sumptuoso edifício, apenas tem hoje quatro paredes desmanteladas: depois de ter servido de curral, é agora o deposito de lixos e immundicias. Estas ruinas pertencem também á cidade alta, na qual se acham os melhores edifícios pulcos, e para onde os primeiros Governadores tentaram chamar a povoação, porém os interesses commerciaes tiveram maior poder, e assentaram a cidade no sitio menos próprio para esse fím. O convento deS. José, de que fallei quando lembrei a instituição de um seminário em Loanda, era também um bom monumento, e n'elle esteve por muito tempo o hospital militar, mas como se acha um tanto afastado da cidade, o Physico mór e mais facultativos, incommodados com este pequeno passeio que tinham de fazer uma vez por dia, entenderam que o melhor era desacreditar o local e edifício ; e transportaram os doentes para o Hospital da Misericórdia, onde de certo o Physico mór está mais á sua vontade do que os enfermos. Não cheguei a visitar esse estabelecimento, porque me não agradam taes visitas; mas pelas informações que tive, é uma das repartições que mais notável se tem tornado tanto pela falta de aceio, como dos objectos mais necessários para commodidade e bem-eslar dos doentes. No tempo das aguas, chove, por toda a parte, e mais de uma pessoa me asseverou que os facultativos se viam obrigados, por vezes, a fazerem a visita aos doentes, de guarda cbuva aberto. Pôde ser que n'isto haja exageração; porém o que posso aliançar, é que tendo sido atacado da febre, um dos meus companheiros de viagem, e sendo obrigado a recolher-se ao hospital, por o nao quererem conservar na casa onde se achava hospe- dado, depois de ter dado entrada no hospital, mandou pedir ao Governador, pelo amor de Deus, que lhe man- dasse uma enxerga e lençoes, porque a cama que lhe ti- nham dado se achava em tal estado, que elle preferia morrer debaixo de uma arvore, do que deitar-se n'ella! Nada posso dizer com fundamento do modo porque alli são traclados os enfermos; sei que o sulfato de qui- nino é a base de todos os tractamentos, e d'elle se faz um consumo espantoso. As raras visitas do Physico mór ao hospital, obrigam-me a acreditar que aquelle estabe- lecimento não é mais do que um recolhimento para as pessoas atacadas de moléstias, e que ninguém quer con- sentir em casa; um deposito de moribundos: — o ponto de tranzição da vida para a morte infallivel. Feliz aquelle que se pôde tractar em sua casa, e a quem Deus deu mulher e filhas estremosas que lhe pro- digalizam os seus cuidados! O homem solteiro, que vive só com escravos, é sempre victima do abandono em que o deixam os seus servos, e algumas vezes os amigos com quem vivia. Junto ao hospital está a igreja da Misericórdia, e exteriormente não me pareceu mal conservada. Existem ainda na cidade alta as ruinas do convento do Carmo e do hospicio de Santo António, em parte habitado por alguns pobres, onde provavelmente se abrigam de graça : é um triste remédio de que podem um dia ser victimas. Junto ao collegio ou repartição das obras publicas, ve-se o Paço do Bispo, que era o corpo principal do antigo convento dos Jesuítas, edifício bastante deteriorado, mas susceptível de melhoramento. N'uma parte d'elle está estabelecida á Secretaria do Governo, que é uma das repartições que me pareceu mais bem montada. No andar térreo acha-se a imprensa da Província, onde se imprime o Boletim de Angola, pequeno periódico semanal que publica os actos oficiaes, e alguns annuncios. No mesmo pavimento servem uns quartos d'arrecadação ás companhias expedicionárias que d'aqui foram . Pegado á Secretaria, e com communicação interior, temos o Palácio do Governo, que é a obra mais solida que vi em Loanda. As madeiras empregadas na sua construcção foram todas do Brazil : só assim é que po- deram dar ás salas, dimensões que não seria possível obter com as madeiras da Província, as quaes, por falta de meios de transporte, são apparelhadas em dimensões tão acanhadas, que se tornam impossíveis construcções de grandes vãos. 
No interior do paiz existem excellentes madeiras tão boas como as da America, taes como a malanga, jacarandá, páco, pau ferro y pau coleo?, espinheiro, tacula, imhondeiro cujo tronco serve de cortiço ás abelhas tão abundantes em Africa, que apesar do bárbaro e absurdo processo empregado pelos naturaes do paiz para a colheita da cera, sua producção não parece ter diminuido muito. Os pretos lançam o fogo ás tocas das abelhas, queimam enxames inteiros, perdem o mel, e deterioram a cera, que poderia ser um dos mais bellos e mais rendosos productosdas nossas colónias. Ha tambem graIha?, cujos ramos, apenas tocam no chão, pegam raiz, e assim vão com o decorrer dos annos reproduzindo em volta do tronco successivas galerias concêntricas de uma belleza admirável. Os pretos por não fazerem uso da serra, e se verem obrigados a apparelhar tudo a machado e machadinha, escolhem sempre as menos duras e de menor bitola. Não ha nada mais curioso do que vêl-os chegar ao mercado com taboas de quatro centimetros d'espessura, e de oito a dez metros de comprimento, desbastadas a machado e empenadas em todos os sentidos. Não é menos para admirar o modo extravagante que os indígenas empregam para as confeccionar, pois que para obter uma laboa, desperdiçam, reduzindo a cavacos, uma arvore que lhes poderia dar seis ou sete boas taboas, se empre- gassem a serra braçal. Dir-se-ia que praticaram no nosso arsenal de marinha! O Palácio do Governo tem uma bella escadaria de dous lanços, dando para uma sala d'espera. Segue-se um salão de reuniões, taes como a da commissão mixta (na qual a nossa fiel alliada deveria ter um mais digno representante, a que preside o Governador geral, mobilado ad hoc; e onde estão os retratos de D. João VT, D. Maria II, e de dous ou três Governadores, sendo um d'elles o do Visconde do Pinheiro, de tamanho natural, fazendo pendant ao da Rainha ; e o do celebre general, restaurador d'Angola, Salvador Corrêa de Sá Benevides, que em 1648 expulsou os Hollandezes d'aquelle território, que o Governador Pedro Cezar de Menezes não soubera conservar. A este salão segue-se o do docel, ou de recepções officiaes, que é o melhor de lodos, mas está adornado com demasiada simplicidade. Parallelamente a estas três salas, que occupam toda a fachada do corpo princi- pal do edifício, ha um corredor, á entrada do qual se acha o gabinete dos ajudantes d'ordens, e que dá com- municação para três saletas particulares, sala de jantar, e habitação do Governador e de seus familiares. A sala de jantar fica virada para o lado do mar, e d'ella se descobre grande parte da ilha de Loanda: é uma espécie de varanda envidraçada de quinze metros proximamente de comprido por cinco de largo. Todo o lado do Palácio exposto ao poente está mais damnificado, que o resto; sobretudo a sala de jantar, que já tem parle do travejamento rendido. O telhado acha-se em tão mau estado, que das vinte oito repartições de que se compõe a distribuição interna, apenas na sala do docel é que não chove. A quarta parte do espaço occupadopelo andar terreo está inutilisada : é uma enorme cozinha com dous grandes fornos, e numerosas fornalhas, em tudo própria de um convento de Bernardos. Os modernos Governadores teem feito uso de uma cozinha que ha perto da sala de jantar, não só por maior commodidade, mas também para mostrar que se não come hoje tanto como antiga- mente. Nas trazeiras do Palácio ha uns quintaes com algumas arvores, perdidas entre uma immensidade de hervas bravas e de plantas silvestres, entre as quaes abunda o carrapateiro, do qual se poderia tirar maior proveito, extrahindo o óleo de mamona, que tão boa acceitação teria nos mercados da Europa, era vez de venderem o carrapato a granel como agora fazem. Esta planta nasce espontaneamente em todo o território da Provincia. O anil, esse rico producto tão procurado pelos diíferentes ramos da industria, cresce abundante- mente, mesmo nos subúrbios de Loanda. Os Jesuitas occuparam-se muito da extracção d'este producto, mas depois ninguém mais cuidou n'isso. Junto ao Palácio do Governo está o quartel do 1.° de linha, que é composto de degredados válidos, e o dos destacamentos de caçadores. Este edifício, como todos os mais que pertencem ao Estado, ameaça desabar; parte d'elle já está abandonado. Em frente depara-se com a casa da Junta da Fazenda obra solida, mas pesada e pouco elegante: tem cento e dez annos de existência. Foi mal escolhido o local para a sua edificação, porque assim privaram o Palácio do Governo da magnifica vista que tinha para a bahia e cidade baixa. Ao lado da casa da Junta da Fazenda existe a cadêa, pequena construcção de um andar, que primitivamente serviu de casa da Camará, e me pareceu mais aceada exterior, do que interiormente. Próximo fica o quartel da companhia dos artífices. Esta companhia é commandada por um alferes já maduro, e que não pertence ao corpo d'engenharia militar, apesar de usar d'esse uniforme. Estes artifices são na maior parte degredados : não ha entre elles um bom operário, e pareceram-me quasi todos não só veteranos, mas inválidos. Se artifice quer dizer incapaz en- tão a companhia de Loanda está perfeitamente organisada. 
Concluirei esta ligeira descripção da cidade alta, mencionando a fortaleza de S. Miguel, onde está o telegrapho, collocada n'uma eminência em frente da hahia, dominando toda a cidade baixa e parte da alta, e d'onde se avistam as embarcações apenas despontam em qualquer lado do horisonte : é n'ella que os officiaes cumprem o tempo de detenção, a que por vezes são condemnados. Uma das cortinas que ficam viradas para a cidade baixa, destacando-se um dia do resto da construcção, deixou-se escorregar pela encosta do monte, até que encontrou um obstáculo que a deteve no sitio onde agora existe. Isto não nos deve causar admiração, porque em Portugal temos muitas fortalezas em peor estado. Não tive occasião de visitar a fortaleza, mas ouvi dizer que não está mal conservada, faltando-lhie apenas artilheria soffrivel, porque tanto a que a guarnece, como a da fortaleza do Penedo, é tão ordinária, que mal serve para as salvas; comtudo manda a justiça que se diga, que as peças d'artilheria, tanto em Loanda, como em Benguella e Mossamedes, tem feito o seu dever, e de maravilha se darão tantas salvas em parte alguma como por lá. A entrada e sabida dos cruzeiros estrangeiros, e os embarques e desembarques dos Governadores, são causa de se gastar muita pólvora, que apesar de ser ordinária, fica á Provincia pelo preço da boa. Fallando com alguns sujeitos a este respeito, disseram-me, que um polaco de olho azul, governador de uma fortaleza, e que vive em Angola ha muitos annos, onde tem feito casa, costuma comprar quanta pólvora avariada apparece para substituir com ella a que o Estado lhe fornece, a qual depois é vendida por bom preço, não só aos pretos do interior, mas até a certos logistas da baixa. — São transferencias que pôde executar commodamente por ser o depositário de toda a pólvora que os negociantes recebem para negocio, e que são obri- gados a arrecadar no paiol da fortaleza de que elle é go- vernador. Estas falcatruas e muitas outras que taes, são vul- gares em toda a costa d'Africa : creio poder dizer, sem grande risco de me enganar, que o são em todas as nossas possessões. Ha em Portugal um funccionarlo publico, de quem me não declararam o nome, que gosa de credito, e que não deixou em Loanda a melhor reputação. Parece que este digno homem, quando teve a seu cargo o deposito de mantimentos da nossa estação naval, fazia ao vi- nho, á aguardente, e ao azeite a mesma operação que o  outro faz á pólvora ; isto é, misturando agua e. azeite de mendui n'aquelles géneros. Foi assim que se juntaram alguns contos de reis, e se fez jus a certas distineções, como remuneração de serviços prestados ao paiz!
Desçamos agora á cidade baixa, e vejamos de
 re- lance quaes são os principaes edifícios do Estado. 


CONTINUA ....




In  QUARENTA E CINCO DIAS EM ANGOLA. APONTAMENTOS DE VIAGEM
Porto editora: 1862 — typ. de sebastião josé pereira, 
Ruado Almada, 641

quarta-feira, 18 de abril de 2012

A destruição de uma Nação:A política dos Estados Unidos com relação a Angola desde 1945

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The Destruction of a Nation: United States' Policy Towards Angola Since 1945

 Por George Wright

sexta-feira, 13 de abril de 2012