quinta-feira, 22 de março de 2012

FRANCISCO JOSÉ VIEIRA MACHADO (1898-1972) E A ESTRATÉGIA ECONÓMICA, IMPERIAL PORTUGUESA, NA CONJUNTURA DA 2ª GUERRA MUNDIAL



Francisco José Vieira Machado (1898-1972), filho do general Francisco José Machado, licenciou-se em Direito na Universidade de Lisboa em 1919. Posteriormente, tirou em Paris um Curso de Ciências Económicas que lhe permitiu ser integrado nos quadros do Banco Nacional Ultramarino e alçar-se a banqueiro de instituições financeiras coloniais. Da sua carreira político-administrativa, durante o Estado Novo, salientou-se no cargo de Subsectretário de Estado das Colónias (1934-1936), de Ministro das Colónias (1936-1944) e de Governador do Banco Nacional Ultramarino (1951-1972).

De facto, foi ministro no período crítico da história universal em que se iria desenrolar a Segunda Grande Guerra (1939-1945). Na sua concepção ideológica, o reforço das relações económicas no espaço imperial foi decisivo no concretizar daquilo a que ficou conhecido pelos historiadores como “Pacto Colonial”, isto é, a interdependência económica dos produtos metropolitanos e coloniais. Pretendeu, no seu longo “consulado”, à frente da pasta das colónias que as matérias-primas das terras de "além-mar" fossem absorvidas pela metrópole e que os produtos manufacturados metropolitanos fossem consumidos nas colónias.

Em suma, procurar materializar o conceito de império na vertente económica da relação comercial entre a metrópole e as colónias. Deste modo, assume que as colónias estavam ao serviço dos interesses económicos metropolitanos. Foi neste sentido, que impôs limites ao crescimento industrial das colónias, que tornou obrigatórias algumas culturas agrícolas nas colónias, que reforçou o regime do trabalho forçado dos "indígenas", que procurou impulsionar a exploração dos produtos coloniais e garantir o mercado colonial como mercado privilegiado para o consumo dos produtos industriais metropolitanos através de um sistema aduaneiro filtrador do comércio externo[1].

 Estas medidas técnicas tomadas por Francisco José Vieira Machado enquadram-se numa resposta à pressão sofrida por Portugal em Junho de 1937 na qual diversos autores estrangeiros contestam a nossa capacidade económica e legitimidade histórica de administrar as próprias colónias. Foi neste contexto histórico antecedente ao grande conflito mundial que a imprensa nacional e estrangeira invoca a possibilidade de algumas potências europeias pretenderem ceder territórios das colónias portuguesas à Alemanha e à Itália como forma de apaziguar os impulsos de expansionismo bélico de Adolfo Hitler e de Benito Mussolini.

A sua acção promotora da propaganda da ideologia colonial fomentou Congressos, Comemorações e Exposições Coloniais, das quais se destacou, nesta fase, a Exposição do Mundo Português de 1940, comemorativa do duplo centenário da nacionalidade (1140 e 1640) que permitiu a revalorização urbanística do sítio de Belém, à frente do Mosteiro dos Jerónimos, uma vez que essa zona estava ocupada por uma importante aglomeração industrial. Esta Exposição procurou patentear o mundo português, que se espraiava no tempo e no espaço, através dos diversos Pavilhões que rodeavam a Praça do Império, requalificando esteticamente essa área urbana de Lisboa.

Nuno Sotto Mayor Ferrão


[1] João Carlos Paulo, “Franscisco José Vieira Machado”, in Dicionário de História do Estado Novo, vol. II, Lisboa, Editora Bertrand, 1996, pp. 535-536.






ARMINDO DE STTAU MONTEIRO (1896-1955) E O SEU PENSAMENTO POLÍTICO COLONIAL Junho 03 2011


 

Armindo Rodrigues de Sttau Monteiro (1896-1955)[1], pai de Luís de Sttau Monteiro, foi um importante professor universitário, diplomata, empresário e político do Estado Novo. Foi ministro das colónias, ministro dos negócios estrangeiros e embaixador de Portugal em Londres durante a 2ª Guerra Mundial. Apoiou o golpe de Estado do 28 de Maio de 1926 que degolou o regime pluripartidário da 1ª República, porque fustigou criticamente o descalabro financeiro deste regime. Em 1921 tinha-se Doutorado, com uma tese intitulada “Orçamento Português”, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.         

A sua intervenção pública começou a destacar-se com a sua integração na delegação que liquidou a dívida de guerra à Inglaterra em 1926-1927 e a sua posterior colaboração com António de Oliveira Salazar, desde 1928, até aos anos da 2ª Guerra Mundial. O seu relevante papel político encontra-se inscrito na contribuição que concedeu à redacção dos textos jurídicos fundamentais do Estado Novo e à criação da mítica colonial.

Na segunda metade dos anos 30, a sua intervenção como diplomata irá levá-lo a polemizar com Salazar, mas a sua anglofilia irá permitir-lhe ser agraciado pela Monarquia Britânica com a honorífica “Ordem do Banho” na presença de Winston Churchill e de Robert Anthony Eden. No início dos anos 40, no estrangeiro era visto como um possível substituto de Salazar, capaz de levar o país de regresso às lides democráticas.

Durante o início do Estado Novo, como ministro “das terras de além-mar”, considerou que a doutrina colonial portuguesa se deveria inspirar na experiência histórica do país, em vez de procurar imitar os modelos administrativos estrangeiros. Meditou na necessidade de haver uma estabilidade no rumo doutrinário da administração colonial enaltecendo a vantagem de se criar uma doutrina única que garantisse a coerência entre as opções do governo central e as emanadas dos decisores coloniais[2]. Assim, concebia que a harmonia administrativa nas colónias dependia duma doutrina colonial única que valesse, no longo prazo, para vários ministros e várias colónias, pois esta fórmula permitiria articular de forma habilidosa os interesses comuns e específicos, de cada colónia, sem conflitualidade institucional.

Frisou ter sido excessivo o grau de autonomia administrativa colonial consagrado na 1ª República, daí a sua rejeição de que os administradores coloniais devessem tomar, primeiro, em linha de conta as necessidades das colónias, porquanto do seu prisma a prioridade devia ser o interesse geral da nação, baseado num poder central forte, e numa intensa fiscalização e coordenação da máquina administrativa colonial que assegurasse uma eficácia e uma coerência governativa imperial[3].

Na verdade, a doutrina imperial de Armindo Monteiro resultou da percepção nacionalista de que os interesses coloniais do país seriam melhor defendidos perante as ameaças externas através dum sistema politicamente centralizado[4]. Esta concepção desdobra-se em quatro princípios coloniais fundamentais, a saber:
  1.  a centralização da administração colonial era a garantia da solidariedade nacional entre as várias partes do império português;
  2. o equilíbrio das finanças de cada colónia deveria condicionar as suas capacidades de investimento;
  3. havia a conveniência de conciliar a centralização política que salvaguardava os interesses comuns com a descentralização da administração colonial que proporcionaria a satisafação dos interesses locais;
  4. as regras de funcionamento da administração colonial deviam ser uniformizadas em conformidade com a concepção imperial.

Armindo Monteiro concebia os autóctones africanos como racial e civilizacionalmente inferiores aos metropolitanos. Deste modo, meditava que a política indígena devia proteger os direitos dos nativos dos abusos de alguns empresários pouco escrupulosos e que, concomitantemente, lhes deveria impor o dever moral de trabalhar. Por outro lado, achava que o Estado e os colonos deveriam contribuir para o aperfeiçoamento civilizacional dos indígenas, enquadrando-os dentro de hábitos culturais europeus. 

Nuno Sotto Mayor Ferrão


[1] Júlia Leitão de Barros, “Armindo Rodrigues de Sttau Monteiro”, in Dicionário de História do Estado Novo, coordenação Fernando Rosas e J.M. Brandão de Brito, vol. II, Lisboa, Editora Bertand, 2000, pp. 622-623.
[2] Armindo Monteiro, “Necessidade de uma doutrina colonial portuguesa”, in Antologia Colonial Portuguesa, vol. I, Lisboa, 1946, pp.-243-254
[3] Idem, “As grandes directrizes da governação ultramarina portuguesa no período que decorreu entre as duas guerras mundiais”, in História da Expansão Portuguesa no Mundo, dir. António Baião e Manuel Múrias, Lisboa, Editorial Ática, 1940, pp. 431-454. Na opinião de Armindo Monteiro não houve preocupação na gestão financeira colonial de 1921 a 1926, o que se reflectiu no descalabro económico de Angola proveniente dos elevados défices e dos constantes pedidos de empréstimos. Este cenário calamitoso aconteceu, a seu ver, devido à falta de uma gestão sustentável no desenvolvimento económico do Ultramar, que tinha de partir de uma aplicação moderada dos recursos nacionais. Por esta razão, criticou o facto da autonomia colonial ter possibiltado desmesurados investimentos em obras de fomento que quebraram os equílibrios financeiros das contas anuais, o que obrigou à paragem das obras públicas e a um endividamente exorbitante em Angola. Como reacção a esta tendência despesista ficou consagrado no Acto Colonial o princípio de que o ministro das colónias tinha a competência de fiscalizar os orçamentos coloniais, no sentido de evitar novas situações de ruptura financeira.
[4] Pedro Aires Oliveira, Armindo Monteiro – uma biografia política, Lisboa, Bertrand Editora, 2000, pp. 89-97.

A ADMINISTRAÇÂO COLONIAL PORTUGUESA

SILVA RAMOS E M. DE SOUSA, Administração colonial, segundo as prelecções do Dr. José Tavares: 1914-1915, 1914      Obra (Texto Integral)   (PDF)

SEBASTIÃO LOPES CALHEIROS DE MENEZES (1816-1899), Relatório do Governador Geral da Província de Angola referido ao ano de 1861, 1867    Obra (Texto Integral)  (PDF)

SÁ DA BANDEIRA (1795-1876), O trabalho rural africano e a Administração Colonial, 1873  Obra (Texto Integral)  (PDF)

RUY ENNES ULRICH (1883-1966), Finanças Coloniais, 1912   Obra (Texto Integral)  (PDF)


RUY ENNES ULRICH (1883-1966), Ciência e administração colonial I: introdução, lições feitas ao curso do 4º anno jurídico no anno de 1907-1908, 1908 Obra (Texto Integral)  (PDF)



RUY ENNES ULRICH (1883-1966), Política Colonial. Lições feitas ao curso do 4º anno jurídico do anno de 1908-1909, 1909 Obra (Texto Integral) (PDF)


RUY ENNES ULRICH (1883-1966), Economia Colonial, Lições na Universidade (1909-1910), 1910
 Obra (Texto Integral)  (PDF)

Administração Colonial , by Tomás de Almeida Garrett (1883-1929)



Administração Colonial

TOMÁS DE AQUINO DE ALMEIDA GARRETT (1883-1929)


I
Demostração da necessidade de em Portugal se assentar numa  politica colonial definida, firmada em bases cientificas


Pg 12
O primeiro periodo da historia colonial foi correspondente ao século XV e parte do XVl, das descobertas, das consquistas, do Infante D. Henrique, de Gana, Almeida, Albuquerque, Cabral, Castro e tantos outros d'uma pleíade  de ilustres. Foi o periodo aureo ao fim do qual dominavamos todas as costas do Congo e Guiné e na Oriental africana; tinhamos enorme influência na política da Abissínia cujo rei era nosso aliado; a costa da Arábia desde Raz-El-Had ao Eufrates, ou era nossa , ou nos pagava tributo; eramos senhores do litoral da India e da Pérsia,  dominando toda a costa do Malabar, desde o cabo Diu ao Camorim, na de Coromandel, no Golfo de Bengala e na península de Malaca; O Ceilão e as ilhas de Sonda eram tributários da coroa portuguesa; dominavamos nas Molucas e eram-nos abertos os portos da China e do Japão.

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O segundo periodo dessa história é o desmoronar do Império da India nas mãos de bandidos ou ineptos, à mercê de intrigas e de invejas, sem planos, sem ideias, tendo por único móbil o capricho ou o ciume; é o periodo da devassidão que dessora os costumes viris d'uma raça e a leva, com Alcácer Kibir, à perda da independência.
Toda a política se reduzia então na série de monopólios e barreiras em proveito da metrópole. A Lisboa vinham os produtos das industrias de toda a Europa a trocar pelas riquezas do Oriente e da Africa, as sedas da China, os tapetes da Pérsia, o sândalo de Timor, as especiarias e as pedras preciosas da India e o marfim da Guiné.
A riqueza era enorme, mas as despesas eram maiores ainda. E os juros dos empréstimos em Flandes cresciam com a devassidão dos costumes , ajudando à perda da Nação.
Sofriam os interesses particulares, diminuiam os rendimentos das alfândegas, as armadas destinadas à carreira da India absorviam ao Estado todos os anos enorme quantias; era a ruina material, acompanhando a dos homens, dia a dia mais corrompidos.

E a tanta baixeza chegamos que, querendo os próprios invasores lutar com a concorrencia de dos holandeses e ingleses na India, por meio de fortes companhias, portugueses houve que a isso se opuseram, por verem que assim terminariam os lucros à sombra do monopílio do  Estado ilicitamente arrecadados.
E entretanto ia o tesouro  perdendo todos os anos grande quantia,  que as especiarias da India já escassamente valiam um milhão de cruzados, insignificante para a enorme despeza de manutenção dos nossos estabelecimentos.

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O terceiro periodo começa no século XVII , quando Portugal consegue libertar-se da Espanha. Era a ocasião para um sólido ressurgimento. Soubemos aproveitá-lo? A meu ver, não.
O ouro e as pedrarias do Brasil inundaram Lisboa. Foi esse riqueza, numa sábia previsão empregada em desenvolver a agricultura e as indústrias fabris na metrópole, melhorando assim as condições económicas?
Que o digam os breves, bulas, etc. , vindos de Itãlia, e a Inglaterra fornecedora da farinha e artigos com que se vestia bem e alimentava optimamente uma multidão de fidalgotes e burgueses, muitos deles devassos e bêbados, e de que vestia mal. quase morrendo de fome, uma população escrava.
Imperava uma politica colonial mista de sujeição e de assimilação pela fusão de raças.
Os pretos e pretas do Brasil eram muito bem tratados. E abarrotavam Lisboa de mulatos...
Do resto da metrópole ninguém queroa saber.
E a Africa e a India? Viviam conforme podiam a braços com as companhias que brutalmente as exploravam; e a Africa mandava negros e negras que os senhores e burgueses ricos tomavam ao seu serviço, no receio apavorado  de falta de sucessão.
A Companhia Geral do Brasil, criada por D. João IV logo a seguir à Restauração, vinha depois de acidentada vida a morrer em 1720, às mãos dos inquisidores que não perdoavam que no estatuto da Companhia se tivesse declarado não poderem ser sequestrados ou confiscados os capitais que nela se empregassem, ainda mesmo quando pertencessem a cristãos novos penitenciados pelo Santo Ofício.

A Companhia de Cachéu e Rios da Guiné, criada 1676 pouco durou, o que também se deu com a do Maranhão. A de Cabo Verde e Rios da Guiné e a de Cacheu e de Cabo Verde que lhe sucedeu só serviram , pelos privilégios que lhes foram concedidos para nos desacreditar ainda mais. Entre a dos Baneanes e a da India, fundada em 1694, levantaram-se conflitos que só vieram a acabar com a extinção da da India em 1699. A dos Baneanes açambarcara o comércio da ilha de Moçambique , primeiro, e pouco depois o da colónia toda. Era este o estado de coisas nos meados do século XVIII.

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Aparece então Pombal, e com ele começa o quarto periodo da história colonial portuguesa, tentativa de ressurgimento cedo abafada.
Volta-se desta vez à politica das companhias coloniais, procurando estabelecê-las de forma a barantur-lhes um futuro mais próspero do que rinham tido as antigas, da qual só restavam as dos Baneanes de Diu, continuando o seu monopólio de  comércio entre Moçambique e a India.
Não foi feliz a primeira tentativa, a da Companhia da Asia Portuguesa, empresa  particular que criada em 1753 logo em  1760 quebrava com a falencia do concessionário. 
Satiszazendo um pedido que ao Rei haviam feito os portugueses do Pará, criou o Marquez de Pombal, em 1755 a Companhia do Grã Pará e Maranhão, a que deu largas regalias e privilégios, pugnando sempre pelos seus interesses. 
A Companhia fazia bons lucros, prestava reais servimos às capitanias do Grão Pará e Maranhão,  e ontribuia para o alargamento do comércio portuguez no Brasil, que pouco tempo depois, em 1778. já tinha entrado nos mercados de Mato Grosso, Cuyaba e outros. Tinha sido uma sábia medida. Era preciso destrui-la ...
A Companhia de Jesus que no Brasil fazia também farto negócio tinha na pombalina um terrivel combatente que precisava abater. Só o consegue em 78, depois da queda de Pombal.

Tomando como modelo a do Grão Pará e Maranhão, funda-se a Companhia de Pernambuco e Paraiba, que valioso auxílio havia de prestar à agricultura e comércio dos territórios sob a sua jurisdição. Mas estava condenada també.. E àqueles que liquidavam a do pará era dada igual tarefa para a de Pernambuco.  
Em 1765 criava-se a Companhia dos Mujaus e Macuas, para pôr cobro aos roubos que aos indígenas de Moçambique os negociantes indios faziam constantemente. Pouco durou, que dez anos mais tarde, em 1768, mandavam de lisboa dissolvê-la. A dos Bancanes, só em 77 o seria.

Ao mesmo tenpo que assim cuidava do dominio ultramarino, Pombal , aproveitando o dinheiro do Brasil criava na metrópole fabricas e industrias, de modo a não continuarmos na  carissima dependencia do estrangeiros com que até aí estiveramos. 
Não cabe aqui estudar o que foi esse parentesis na vida pobre desta nação. Era um futuro que se abria risonho; era, sim, mas desapareceu com o seu construtor. 

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Começa aqui o periodo doloroso que vai de 1777 a 1869. Noventa e dois anos!....
Quase um século de anarquia absoluta e completa, a todos desvairando, fazendo perder de todo a noção das responsabilidades a esta gente mal educada e corrupta.

De portas a dentro é a vergonha da derrota da Jerumenha, Olivença, Arronches e Flor de Rosa, acabando pela perda para sempre da praça de Olivença.  

Desde o Tratado de Metween que eramos serventuários da Inglaterra.  Quiz Pombal libertar-nos desse jugo. Era-se estúpido demais em Portugal para se compreender o alcance da medida. Tinhamo-nos agora ainda mais submetido à canga.Vem Napoleão. A Inglaterra ocupa a Madeira e ordena à Companhia das Indias a ocupação de Goa.

Depos, as invasões; e com elas perdemos rios de gente e dinheiro, esgotando-se por completo as forças da nacão. O Tratado de 1810 vem completar esta jornada.

O que era feito das colónias?

Da África ninguém queria saber que não fosse para forneceimento de mulatos. Só do Brasil, cujos portos D. João XVI abrira ao comércio de todas as nações,  se cuidava, a ver se  podia mandar dinheiro que acudisse à ruina completa de Portugal.

As guerras em que andaramos tinham-nos destruido qiase o comercio e a industria. E a corte quando fugida com medo dos soldados de Napoleão  guardara, só do Brasil, o melhor  de 15 milhões de cruzados cada ano. 

O Brasil agora rendia escassamente metade do que rendera antes das invasões francesas ; e a exportação para as colónias de manufacturas portuguesas diminuira de 97%. Era a ruina.

Nesta altura reune-se o Congresso de Viena (1815). Na orientação que pela Inglaterra nos era imposta. aderimos a ele e condenamos o tráfico de escravos (1). A ideia era generosa; adoptamo-la logo. Veremos pois quantos vexames nos trouxe este monopólio de filantropia.
Em 1825 é ratificado em Lisboa o Tratado da  independência do Brasil. Foi um erro grave, cujas consequências nunca mais conseguimos nem conseguiremos desfazer.
Dez anos depois é proibida nos dominios portugueses a importação e exportação  de esxcravos. Cumpriamos assim nobremente os compromissos que tomaramos.
Reconheceram-nos lá fora esta maneira de proceder?

Não . E a prova é que em 1832 os ingleses disputam-nos a posse da Guiné , e praticam actos de extrema violência contra nós, queimando as casas e quebrando o armamento dos poucos soldados que lé havia. e não se ficou por aqui.


A política desvairada da metrópole tem o seu reflexo no ultramar. e a defender este, ee procurar administrá-lo de uma forma inteligente, só aparecem , num periodo de quarenta anos, Subserra, Vieira de Castro, Palmela, Falcão, Lavradio, Sá da Bandeira, e pouco mais em verdade.
Lá nas colónias batiam-se heroicamente pela soberania portuguesa ; mas na metrópole não havia a consciencia do que valiam os domínios de além mar. 
Em 42 é assinado o tratado com a Inglaterra para a repressão do tráfico da escravatura.  E começa a vigorar no ultramar o novo código administrativo. 
Em 48 organizou Falcão a Secretaria do ultramar de forma a acabar com a uniformidade defeituosa que até aí imperada. Era uma medida boa -- pouco durou...
Em 45 declaramos Macau porto franco.

Entretanto em Africa, à custa de muito sacrificio, conseguiam os governadores  e a marinha cumprir o compromisso tomado em 42.
Em 53 desembarcaram tropas inglesas no Ambriz, sendo necessário que dali as faça sair o então tenente Baptista de Andrade.
Um decreto de 56 declarou livres os filhos da mulher escrava que nascessem nas provinciais ultramarinas portuguesas. A  carta de lei de 18 de Agosto do mesmo ano declarou livres todos os escravos embarcados em navios portugueses, que entrassem nos portos ou qualquer ancoradouro de Portugal, Ilhas Adjacentes, e Estado da India e Macau, os que no mesmos portos desembarcassem de navios estrangeiros, e os que entrassem no reino pela raia seca.   O decreto de 29 de Abril de 58 declarou a abolida a escravidão em todas as provincias ultramarinas , 20 anos pasasados a contar daquela data. 
Em 58 mesmo, tomam os ingleses conta de Bolama.  E as vergonhas sucedem-se, mercê da ausência completa , nos governos de Portugal, da menor noção sobre o que fosse um plano de administração colonial.
E, entretanto, já nesta época a Inglaterra comelçara a construir inteligentemente o seu domínio do Canadá, onde desde 1841 vigorava o sistema parlamentar. Já na Austrlia se inaugurara um caminho de ferro de Champion Bay a Northampton. Já a Nova Gales do Sul, a Nova Escócia e a Nova Brunswick tinham adoptado o governo parlamentar, e já o Cabo  , em 1854, tinha sido dotado com instituições representativas.

E o que era o ultramar português?
Vejamos:

Em Angola a situação não era em extremo desafogada . As minas do Bembe continuavam em laboração, empregando 150 a 200 homens; as feitorias de pesca, apanha de urzela e os estabelecimentos agrícolas entre Benguela e Mossamedes, continuavam uma vida relativamente próspera. No Cuio, ao sul de Benguela, ia-se começar a exploração de minas de cobre, e ao Quanza e Libongo, a descoberta de carvão e petróleo tinha vinso trazer uma risonha esperança; tentava-se criar, com os degredados, uma colónia em Capangombe, entre Mossamedes e a Huila, por detrás da serra da Chela, a ver se esta experiencia seria de mais felizes resultados que os que tinha tido a que anos atrás fora tentada na Huila com a companhia agrícola de caçadores 3; por toda a parte, em suma, se trabalhava com afinco pelo desenvolvimento da provincia. Mas por toda ela era funda a anarquia.
No interior de Mossamedes, no distrito de Ambriz, nos concelhos de Malange e Cassange, e até na vila de Mossamedes não era cobrado um real de imposto; em Encoge, apesar da antiguidade da ocupação , raro era pagarem o "dizimo" e fornecerem recrutas , como prova de sujeição e obediência; de Encoje para Duque de Bragança não se podia passar; entre Duque de Bragança e Malange o caminho , infestado pelos gingas e mabangas não oferecia a menor segurança; em toda a zina do Quanza a Caconda, 500 kilometros, andavam mercadejando portugueses, mas não havia ocupação oficial , o que também secedia nas 60 léguas de Caconda ao Humbe; de Malange a Cassange a nossa ocupação era limitada à costa, e no Humbe andávamos em constantes guerras. 
E no meio de tudo isto continuava a política de assimilação produzindo os seus funestos e ridiculos resultados.
Ao lado das autoridades administrativas, lá estavam as instituições municipais e judiciais. Mal compreendidas e entregues a gente absolutamente incapaz, só eram fonte de vexames e obataculo poderoso à acção enérgica e unidade dopensamento do governo indispensáveis sempre, mas mais ainda numa colónia em rebelião. Não oferecendo a menor vantagem. eram ainda, a maior parte das vezes ridiculas. O concelho de Massangano, um dos mais atrazados e de menor importancia, possuia-as desde a independencia dos holandeses! O resultados escusado será dizê-los!

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