quinta-feira, 3 de maio de 2012

UM TESTEMUNHO PARA A HISTÓRIA DE ANGOLA: A grande debandada: retornados e adidos. Sócrates Dáskalos


CEI em Coimbra


DE "
UM TESTEMUNHO PARA A HISTÓRIA DE ANGOLA": Do Huambo ao Huambo por Sócrates Dáskalos

Capítulo VIII: A grande debandada: retornados e adidos............................................................ 107

...Mas, logo após a tomada de posse do Governo de Transição, em 31 de Janeiro de 1975, as coisas começaram a complicar-se para os funcionários do Quadro Administrativo. Os administradores da Ganda, Cubal, Balombo, Chongoroi, Bocoio e Baía Farta que me tinham dado um apoio leal e que tinham, quase todos uma boa aceitação por parte das populações negras dos seus territórios, quando começaram a aparecer os ministros e delegações dos movimentos emancipalistas fazendo exigências despropositadas e ameaças veladas de prisão e despedimento, começaram a vacilar nas
suas intenções de ficar depois da independência. E quando o Governo Português inventou o Quadro de Adidos para nele integrar
os funcionários do Q.A das colónias, garantindo-lhes em Portugal emprego e reforma, aumentaram as hesitações que, depois de ter sido propalado que o “MPLA iria julgar todos os funcionários do Q.A depois da independência” se transformaram em desejo ansioso de partir o mais depressa possível. 



Além do Q. Adidos o governo português também criou o Instituto de Auxílio aos Retornados Nacionais (IARN) e como na altura os naturais de Angola brancos, mestiços e assimilados eram considerados portugueses, este Instituto alargou ou restringiu a sua acção como muito bem entendeu, dando ou negando auxílio de acordo com os interesses dos dirigentes.
 

Em consequência criou-se em Angola um ambiente de tal ordem que até o branco mais pobre que no interior do país ou na periferia das cidades tinha sempre vivido e convivido com a comunidade negra, se deixou contaminar pela histeria do medo sem razões válidas que o justificassem, excepto em Luanda e no Huambo onde as refregas armadas entre movimentos eram aproveitadas para molestar e até, às vezes, vitimar elementos brancos e não brancos, perante .a passividade das forças armadas portugueses que, dizendo-se neutras, deixavam-se influenciar quando se tratava de combater os “comunistas angolanos” ou seja os amigos, simpatizantes e militantes do MPLA.

No seio da comunidade branca gerou-se uma histeria de fuga a qualquer preço que o estabelecimento de pontes aéreas e de carreiras marítimas levou ao paroxismo. Esta histeria deu origem a uma “música” jamais ouvida nesta terra: a “música” das marteladas nos caixotes ouvia-se noite e dia, monótona e enervante. Nos caixotes metiase tudo o que era possível, até as garrafas de gás e os panos de cozinha! No porto do Lobito, extensas bichas de viaturas esperavam longas horas aguardando embarque. Esta ânsia de partir, em Benguela, contrastava com a atitude de alguns portugueses e angolanos que se preocupavam mais em resolver os problemas do
quotidiano do que pensar nos problemas futuros. São prova disso os episódios que vou contar.
 
Vindos da Ganda, apresentaram-se no meu gabinete dois casais de portugueses acompanhados de cinco meninos e de uma senhora ainda nova. As senhoras e meninos estavam lacrimejantes e os dois homens faziam cara de mártir olhando fixamente para baixo. Quando lhes pedi para explicar a razão que os trouxera até mim, falaram as duas senhoras com ar de queixume dizendo que os maridos tinham sido maltratados pelos pretos até ao ponto de terem levado uma carga de porrada. Pediam a minha protecção e a correcção dos atrevidos. Como eu não percebera a causa da maka e como os dois homens se conservassem calados, perguntei-lhes como é que explicavam a razão das cargas de porrada que tinham levado. Então um deles começou; “sabe, eu tinha um camião de fuba para vender e como o não conseguisse, fiz constar que, se me comprassem toda a fuba, então cairia a chuva que não vinha há muito tempo. Eles compraram a fuba toda, a chuva não veio e eles deram-me uma carga de porrada”. E o senhor? - perguntei ao outro português. “Eu tinha fuba na loja que nunca mais vendia porque a seca continuava e o povo estava com falta de lombongo (dinheiro). Para conseguir vendê-la resolvi fazer um feitiço: arranjei uma panela velha, ossos, pêlos e rabos de boi e uns pauzinhos e fui para o quintal consultar os cazumbis (almas do outro mundo). Cercado de muito povo, fiz as minhas consultas com os ritos convenientes e anunciei que os cazumbis mandariam a chuva dois dias depois de eu ter vendido a fuba toda. A fuba foi vendida, passaram dois dias, a chuva não veio e eu levei uma grande carga de porrada...ainda tenho aqui algumas manchas...”. Eu fiquei perplexo, quase que não continha o riso e tive que recorrer ao Camões dos varões assinalados que conquistaram mundos ao mundo sem um tostão na algibeira para poder responder condignamente a estes lusíadas perdidos nas matas da Ganda. e com ar convicto e um tanto protector garanti-lhes que podiam regressar à Ganda sem receio algum. E eles regressaram ao som da música dos caixotes.
 
Um outro exemplo revelador do clima em que se vivia foi o que descrevo adiante. Uma manhã, quando saía do palácio para o meu gabinete, encontrei no jardimem frente deste, cerca de cinco dezenas de mucubais, homens e mulheres, que logo se acercaram de mim com atitudes decididas mas não agressivas e um deles explicou-me que queriam apresentar-me uma reclamação. Vinham todos tradicionalmente meio vestidos, as mulheres exibindo anéis, argolas e cabeleiras que eram pouco vulgares em pleno centro da cidade. Disse ao emissário que não podia receber tanta gente e que escolhesse um grupo de dez para falar comigo. Depois de estarem todos sentados à volta da mesa do comissariado, verifiquei que alguns deles estavam de cócoras em cima da cadeira.(Não estranhei nem tive vontade de rir porque me lembrei de uma velhota portuguesa que eu vira há bem pouco tempo lá na terra civilizada dos portugas, “sentar-se”, também de cócoras, no assento de um automóvel) Percebi que o grupo estava satisfeito mas um tanto constrangido. Explicaram-me a razão da sua vinda: “lá para as bandas do Dombe Grande, um comerciante tinha-lhes comprado algumas cabeças de gado para pagar, em parte, com mercadorias. O prazo já tinha passado e ele não pagava. Pediam a minha intervenção para resolver a maka. Antes de lhes dar uma resposta consultei os meus funcionários e um deles disseme que conhecia o assunto e que podia ser facilmente resolvido. Assim pude assegurar aos reclamantes que o assunto estaria resolvido dentro de um prazo de oito dias e que podiam regressar às suas terras. Mas os amigos mucubais, em vez de retirarem, preferiram acampar ali mesmo e esperar pela solução da maka. Ali ficaram os oito dias, durante os quais todas as manhãs eu correspondia aos seus cumprimentos com o “V” da vitória que se reflectia nos seus alvos e largos sorrisos
 
À medida que se aproximava a data da independência crescia a azáfama dos caixotes e o número dos transportes, aviões e barcos, para a debandada que tomava cada vez mais o aspecto de uma fuga desenfreada. Em Julho e Agosto, aviões da TAP e da Suisse Air, transportavam diariamente cerca de mil passageiros para Lisboa. Mas o afluxo a Luanda de refugiados vindos das terras do interior em aviões da Força Aérea e de outros vindos via marítima das províncias do litoral era de tal ordem que tiveram que ser utilizados transportes cedidos pelos Estados Unidos da América e pela União Soviética. No início de Setembro participaram na ponte aérea aviões da França, Alemanha Federal, RDA, Grã Bretanha e URSS. Chegou a haver 15 voos diários para Lisboa. Só entre 1 de Agosto a 31 de Outubro calcula-se que foram transportados pela ponte aérea cerca de 230.000 pessoas das quais cerca de 54.000 foram transportadas por aviões estrangeiros, com os E.U.A à cabeça. Esta fuga dos portugueses de Angola começou em Maio e terminou em 9 de Novembro, dois dias antes da proclamação da independência. 


A partir de Maio de 1975 a população branca do Huambo viu-se entre dois fogos, MPLA e UNITA, esta procurando assanhadamente os comunistas, isto é, todos os que cheiravam a MPLA. Os homens armados da UNITA entravam nos aviões à busca de comunistas ante o olhar pasmado das sentinelas portuguesas que não sabiam ou não queriam intervir face à tácita aceitação dos seus oficiais que colaboravam assim na caça aos comunistas. Os dirigentes do EME, Machado e Kapango foram arrancados da aeronave pronta a arrancar para Luanda, nas referidas condições, isto é, diante da passividade dos oficiais portugueses que preferiram “lavar as mãos” como Pilatos, em vez de usarem da sua autoridade.
 
Naquela altura estavam em Angola cerca de 30 mil militares portugueses,número mais que suficiente para manter a ordem e a disciplina evitando que as populações, os habitantes civis, fossem molestados pelos militares dos movimentos rivais.
Do Magazine n.º 277 de 2 de Julho de 1995, de cuja publicação é responsável o jornal português “O Público”, extraímos do artigo aí publicado sob o título “Há vinte anos, de Angola a Lisboa - A maior ponte aérea do História” os elementos que comprovam a tese que sempre defendi de que “esta fuga massiva de residentes de Angola, poucos meses antes da proclamação da sua independência, se não foi preparada, foi pelo menos habilmente aproveitada pelas potências interessadas em fazer de Angola mais um país africano independente, mas obrigado a obedecer aos seus protectores para manter essa independência”, ou melhor utilizando uma linguagem política em vias de ser esquecida, “pelas potências interessadas em substituir o colonialismo português pelo neocolonialismo”.
 
Assim, extraímos do referido artigo as seguintes passagens:

“Houve brancos que foram mortos, outros que foram alvo de sevícias, afirma Vasco Vieira de Almeida (ministro da economia do governo de transição) e contínua: “não se pode dizer que a guerra era dirigida contra a população branca. Só que, numa cidade ocupada por homens armados, todos se sentiam alvos potenciais. Mesmo em casa, tínhamos medo. Havia sempre o perigo de balas perdidas.” São ainda de Vieira de Almeida, cidadão português, com raízes afectivas e familiares ligadas a Angola, com grande simpatia por Angola mas sem ligações partidárias, as seguintes afirmações: “A desmotivação era total no seio das forças armadas portuguesas. O governo de transição não passava de uma farsa trágica. Os efectivos das forças armadas portuguesas e os meios de que dispunham eram mais que suficientes para impedir a escalada da guerra civil” “faltava contudo vontade par tal e faltavam também orientações inequívocas de Lisboa”... .Não são de espantar estas afirmações de Vieira de Almeida. São verdadeiras, reflectem a realidade, o que não sucede com as afirmações que no mesmo artigo são feitas por grandes responsáveis pela descolonização, que decidiram então muita coisa mas que não tiveram até agora a honestidade de reconhecerem os erros que cometeram. Assim, o que era nesse tempo ministro da administração do território depois de ter transferido a sua fortuna de Moçambique para Lisboa, afirma: “Os civis tinham deixado de encarar a presença dos 30 mil militares portugueses como uma
protecção...Havia alguma, diz Almeida Santos. “Mas as tropas portuguesas estavam desmotivadas. Muitos dos militares iam já na terceira, quarta e até quinta comissão de serviço, o significava que estavam a abeirar-se de uma situação de exaustão. Com o “25 de Abril” gerou-se a convicção de que a guerra acabara, de que já tinham cumprido a sua missão O atraso nas negociações com os movimentos de libertação levou a que se continuasse a lutar e a morrer tanto ou mais, nos tempos seguintes ao “25 de Abril”, do que antes. E era incompreensível para as tropas, chegando mesmo a gerar uma situação de indisciplina militar”. Mas vinte anos passados, Almeida Santos, um dos responsáveis pela descolonização, não tem a certeza das causas que originaram a ponte aérea pois afirma: “a ponte aérea resultou de uma decisão conjunta do Governo e da Presidência da República”, mas acrescentou: ”eu diria que o Conselho da Revolução também teve alguma coisa a ver com isso...”. E para cúmulo ainda acrescentou:” Este era um capítulo que o governo procurava evitar: escaldava e já havia problemas de sobra a nível interno!”. E para prova do desencontro de opiniões dos políticos portugueses, oiçamos Melo Antunes, uma das cabeças da descolonização: “a perspectiva do governo português não era estimular o regresso da população branca, e sim, ajudá-la a continuar no território. Mas era tarde demais...” (porquê, pergunto eu). “Por essa altura, em Julho, a população branca de Angola só pensava em rotas de fuga, deixara de acreditar nos bons ofícios de Lisboa; mais de 2.500 veículos partiram, por terra até Marrocos e, em meados de
Agosto, 2 mil portugueses tinham cruzado a fronteira a caminho da África do Sul”.
 
Face a tantas opiniões desencontradas e da consequente falta de coordenação e de decisão é fácil compreender porque é que Vieira de Almeida acabou por afirmar: “Nunca mais vi as pessoas do mesmo modo. Nem este país (Angola) Foi absolutamente incrível a cobardia colectiva de que então se deu provas”. Face ao que atrás se disse torna-se fácil compreender porque é que a tal “comissão de descolonização” de que fiz parte tivesse sido completamente inoperante e inútil. Mas no artigo em referência, “A maior ponte da história ”citam-se duas conclusões “históricas” que parecem querer interpretar para a posteridade o que foi a descolonização de Angola. Lê-se no artigo em referência: Hoje, no último volume da colecção de História coordenada pelo professor José Matoso pode ler-se: A atitude das autoridades portuguesas acabou por favorecer objectivamente a estratégia do MPLA (...) mesmo o fenómeno do retorno da população branca através de uma ponte aérea cujo terminal era Luanda favoreceu essa coexistência” . E ainda no mesmo artigo: ”Numa outra colecção de história dirigida pelo professor João Medina, Melo Antunes escreve: em Agosto de 1975, face à situação crítica que se vivia em Luanda, já ameaçada a Norte pelas forças da FNLA, dei instruções precisas, logo em seguida confirmadas pelo Presidente da República para que as forças portuguesas defendessem a todo o custo a cidade (...)!!! (os pontos de admiração são do autor). As decisões foram tomadas com inteira consciência de que, objectivamente, naquele momento, se fazia o jogo da MPLA.
 
Ora os factos demonstraram que a atitude portuguesa nunca favoreceu a estratégia do MPLA mesmo com as “instruções precisas” dadas por Melo Antunes, simplesmente porque essas instruções não chegaram cá ou não foram cumpridas, nem tão pouco podiam favorecer a estratégia do MPLA porque grande parte dos oficiais do exército português era furiosamente anti comunista, assim como alguns comandos a alto nível...que para cumprir essas ordens, nas vésperas da independência, deitaram ao mar milhares e milhares de culatras das armas que eles não queriam que caísse nas mãos do
MPLA e que pouco antes das zero horas do dia 11 de Novembro convocara os jornalistas para fazer a entrega de Angola ao Povo Angolano, ali representado por...ninguém! E falta acrescentar nessas duas referências históricas que, às zero horas do dia 11 de Novembro, o Presidente da República Popular de Angola não permitiu que a bandeira portuguesa fosse queimada pelos exaltados que não aceitavam a maneira inqualificável de proceder...entregando Angola ao Povo Angolano...sem um representante daqueles que dizem ter favorecido! Não restam dúvidas de que alguns dos adeptos do MPLA, com as suas atitudes extremistas e por vezes racistas, também contribuíram para a fuga dos portugueses, muitos deles já indecisos face às ameaças de nacionalizações sem compensação. Mas também não restam dúvidas de que, apesar da propalada ajuda portuguesa, se não fora a presença, embora tardia, dos cubanos e soviéticos, o MPLA não teria saído triunfante do caos dos últimos dias do colonialismo e dos primeiros dias da independência apesar das “decisões do governo português tomadas com plena consciência de que, objectivamente, naquele momento se fazia o jogo do MPLA”.
 
Outra opinião que ainda persiste e é afirmada por muitos dos que tudo perderam, é de que “as forças armadas portuguesas deram um importante e significativo apoio ao MPLA”. É uma opinião redondamente errada pois a grande maioria dos oficiais e soldados das FAP eram figadais inimigos do comunismo para eles representado em Angola pelos, como já disse, militantes, simpatizantes e amigos do MPLA. Alguns dos acontecimentos a seguir relatados são prova disso.

Continua in
Um testemunho para a História de Angola Do Huambo ao Huambo por Sócrates Dáskalos



INDICE
Preâmbulo de Adelino Torres........................................................................................ I
Prefácio de Manuel Rui................................................................................................. 1
Introdução.................................................................................................................... 4
Capítulo I - Das brumas da meninice ao alvor da juventude....................................8
Capítulo II - Na capital dos “Heróis do Mar”......................................................... 21
Capítulo III - Regresso à terra natal....................................................................... 30
.. - Na cidade das acácias rubras................................................................................. 35
Capítulo IV - A Frende de Unidade Angolana (FUA)..............................................37
... - Advertência........................................................................................................... 37
... - Gestação e nascimento.......................................................................................... 38
... - Nas prisões do colonial-fascismo........................................................................... 43
... - Residência fixa na capital do Império.....................................................................47
... - O salto: fuga e primeiros passos na capital da liberdade.........................................51
... - No labirinto do socialismo “sem véu” e “com véu”................................................53
... - Argel, capital da “revolução africana”....................................................................60
... - O ocaso da FUA................................................................................................... 64
... - O General Humberto Delgado na capital argelina...................................................70
... - Uma república socialista nas montanhas de Angola................................................72
... - Um golpe de Estado.............................................................................................. 74
Capítulo V - Na República Popular da China..........................................................
76
... - Na Guiné Conacri.................................................................................................. 83
... - Na Costa do Marfim............................................................................................. 87
Capítulo VI - Treze anos depois............................................................................... 90
... - Regresso do exílio................................................................................................. 90
... - Na Comissão de Descolonização enviada por Portugal
... à 29ª Assembleia Geral das Nações Unidas............................................. 91
Capítulo VII - A evolução sócio-económica do Huambo
... nas últimas décadas da colonização................................................ 93
... - O Ensino e a saúde no Huambo nas vésperas da independência.............................97
... - As congregações religiosas e a emancipação dos angolanos..................................99
Capítulo VIII - No governo da Província de Benguela......................................... 105
... - A grande debandada: retornados e adidos............................................................ 107
... - A corrida aos confiscos e nacionalizações............................................................ 111
... - O Gabinete de Estudos........................................................................................ 112
... - A visita do Presidente do MPLA a Benguela........................................................ 113
... - A primeira visita oficial do Presidente da UNITA à Província de Benguela.........114
... - A fuga dos dois barcos bacalhoeiros em construção na SOREFAME de
Angola..................................................................................................................... 115
... - O regicídio falhado - Início das confrontações armadas........................................ 116
... - O comboio fantasma............................................................................................ 118
... - O hastear da bandeira de Angola independente na Província de Benguela........... 120
Capítulo IX - No comando dos estaleiros navais do Lobito.................................. 123
... - Nos organismos políticos da Província de Benguela..............................................128
Capítulo X - Angola no coração.............................................................................. 132
... - A casa................................................................................................................. 133
... - A ferro e fogo...................................................................................................... 137
... - Angola ferida no coração: sangue e lágrimas enxutas............................................141
Capítulo XI - O lobo e o cordeiro........................................................................... 146
... - A Terra em que nascemos................................................................................... 149
... - Quando as acácias murcham................................................................................ 154
... - A homenagem..................................................................................................... 157
... - Epílogo................................................................................................................ 161
... - Posfácio ............................................................................................................. 165A 



Nota: Sócrates Dáskalos, enquanto  estudante de engenharia no Instituto Superior Técnico foi um dos inspiradores da criação da Casa do Estudantes do Império, e já nos anos 40 era um oposicionista ao regime de Salazar. Mais tarde em Angola foi professor do Liceu de Benguela, e conjuntamente com Fernando Falcão, Luís Portocarrero, Carlos Costa, Manuel Brazão Farinha, Carlos Morais e outros, fundou a FUA, Frente de Unidade Angolana o que lhe valeu a prisão e a expulsão de Angola com residência fixa em Lisboa, acabando por  fugir para o estrangeiro com outros companheiros. Viveu no exílio durante vários anos -  França, a Argélia, a China, a Costa do Marfim e a Guiné-Conacry- e  regressou a Angola em 1974, onde foi  nomeado membro da Comissão de Descolonização nas Nações Unidas e, algum tempo depois, Governador da Província de Benguela onde viverá momentos conturbados. Mais tarde assumirá a direcção dos estaleiros navais do Lobito e aí termina a sua carreira profissional activa.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

ANGOLA - COMANDOS ESPECIAIS CONTRA OS CUBANOS. PORQUE NÃO CONQUISTAMOS LUANDA

 Ouvir com webReader



É esta uma obra, já publicada em 1978, de Pedro Silva, Francisco Esteves e Valdemar Moreira e colaboração do então Ten. Cor. Gilberto Santos e Castro, sobre a acção dos próprios como Comandos Especiais em Angola e dos autores posteriormente em Moçambique, onde colaboraram na fundação da RENAMO.
Dela extraí 2 capítulos:
- PORQUE NÃO CONQUISTÁMOS LUANDA, em Download Gilberto Santos e Castro
- COMANDOS ESPECIAIS EM MOÇAMBIQUE, em Download Comandos Especiais em Moçambique
Veja também http://www.macua.org/livros/opcaoespada.html






PORQUE NÃO CONQUISTÁMOS LUANDA


Estamos em Agosto de 1975. Um pequeno grupo de portugueses desembarca em Angola para ajudar a impedir a sua entrega ao colonialismo soviético.
Eram poucos. Iriam porém, mostrar em valentia sem par e altruísmo sem preço, a vontade de todo o povo real que, perplexo e traumatizado, estava incapaz de reagir à mais aviltante farsa de toda a sua História. Em nome de um povo imaginário e de liberdades paranóicas — aliás tolhidas a cada passo em pesados preços de sangue e de fome — todos assistimos à maior mentira do século: a "independência" de Angola.

Qual Angola?

A que víramos próspera, virada ao futuro, na preocupação do bem estar das suas gentes, na riqueza da sua história, no valor da sua cultura, na grandeza e na dimensão do seu viver? Ou a que encontramos destruída, com os povos famintos a fugir de um lado a outro, para morrerem mais tarde? A que encontrámos em gritos de dor e pedindo a nossa ajuda, uma palavra de esperança, uma afirmação de que tudo era pesadelo e de que voltariam à tranquilidade do seu viver?

Qual independência?

A que trouxe a Angola a ocupação colonial por um exército estrangeiro, em flagrante conquista militar, sem quaisquer laços que liguem o povo aos ocupantes, para além da anuência de uma minoria dirigente e totalitária e porque um governo, em Lisboa — provisório mas definitivamente irresponsável — o consentiu também? O que pensa realmente deste facto trágico o povo português e desgraçadamente o que pensará o povo de Angola?

Foi um grupo pequeno que se bateu contra isto tudo. Merecem por isso o respeito e a consideração de todos os portugueses. Por se terem batido e porque se bateram bem.

Alguns pagaram cara a sua dádiva. E quando no pequeno cemitério do Ambriz desceram à terra, com toda a população a assistir em religioso silêncio, com as honras devidas e cobertos com a Bandeira
Portuguesa, repetia-se apenas o que ao longo dos séculos acontecera. Mais uma vez aquela terra acolhia generoso sangue português. Ali estivemos também, meditando e sentindo mais vontade para continuar.
A história deste livro, na simplicidade do relato de uma boa parte dos combates que tiveram de travar-se, dá bem conta do que foi essa luta. Não podemos, porém, deixar de recordar também com sentido respeito os que pelo sul de Angola e em combates de gigantes, libertaram sucessivamente Pereira de Eça, Sá da Bandeira, Moçâmedes e Lobito. Ali tombaram outros tantos, que recordamos com saudade e a maior veneração.

O relatar de uma guerra, na verdade dos factos e com humildade, é privilégio dos que sabem bater-se. É este o caso, na óptica de quem o soube fazer e fazer bem. A outra história, a dos basti-dores da intriga política, ficará para ser contada oportunamente. Ela terá de ser contada um dia e sê-lo-á...
Fomos derrotados naquela batalha, mas ven-cidos ainda não. Em Julho de 1975 os soldados cubanos começaram a desembarcar em Angola. Faltavam cinco meses para a independência estabelecida nos Acordos de Alvor, e o exército cubano, apoiado por material de guerra russo pesado e sofisticado (tanques e mísseis), começou a invadir Angola.

O povo português desconhecia em absoluto es-te facto, porque a Informação (imprensa, rádio e TV) "mais livre do mundo" simplesmente o ocul-tava. Aliás, em Julho de 75 tinha também co-meçado no norte do país o célebre "Verão quen-te". O povo andava atarefado em travar a escalada comunista e tinha perfeita consciência de que se o conseguisse a tempo, Angola nunca cairia sob o domínio soviético. Mas o povo do norte foi traído pelas mesmas pessoas que traíram os angolanos. Não foi por acaso que o "25 de Novembro" só aconteceu depois de consumado o "11 de Novem-bro", data da entrega oficial de Angola à Rússia.

A primeira importância deste livro, escrito por três Comandos Especiais que tive o orgulho de comandar, é a de provar, com a simplicidade de uma prova visível e concreta, que o exército cu-bano invadiu Angola antes da independência. Eu próprio comandei os combates que os Comandos Especiais travaram contra os cubanos em Angola, durante os meses de Agosto, Setembro, Outubro e Novembro de 1975... Só na parte norte de Luanda, para "defender" a cidade, estacionavam seis batalhões cubanos completamente equipados, ar-mados e municiados.Feita a prova desta terrível verdade, surge a segunda importância deste livro: — Quem au-torizou ou quem facilitou a entrada dos cubanos? Quem constituía, nessa época, o Poder em Por-tugal? Presidente da República, Governo e Con-selho da Revolução. Muitos membros-desses ór-gãos do Poder continuam hoje a ser governantes. Grande parte deles são os mesmos. Como é isto possível? Sobre os ombros desses homens pesa a responsabilidade da morte de milhares e milhares de homens, de mulheres e de crianças. Pesa ainda a gravíssima responsabilidade de terem impedido a libertação da nação angolana. Que povo pode ser livre, quando ocupado por um exército de 30 000 soldados estrangeiros?

Quem autorizou a entrada do exército cubano em Angola, quando o poder soberano ain-da pertencia (e pertenceria durante vários meses) ao governo português?

Enquanto esta pergunta não for respondida, que importância podem ter os escândalos em que se envolvem altas figuras do regime e o que podem significar os delitos, os compromissos ou os com-padrios que os levaram ao Poder?

Mas enquanto houver portugueses da raça destes Comandos Especiais que foram lutar contra os cubanos, aquela pergunta há-de ter uma res-posta. Não se saberá quando, mas terá de ser dada às centenas de milhar de mortos, aos que per-deram a dimensão de viver e aos que vagueiam apátridas e atónitos...
*
Visto à luz da História, os Comandos Especiais eram em número ridiculamente pequeno. Apenas um punhado de homens: pouco mais de uma cen-tena e meia.
Vieram de todos os cantos do mundo. Alguns tinham já sido Comandos, ao tempo da sua vida de militares em Angola ou em Moçambique.

Vieram espontaneamente. Nada lhes foi oferecido, e eles nenhumas condições impuseram. Claramente lhes foi dito que os Comandos Es-peciais iriam apenas ser a resposta altiva dum punhado de portugueses à cobardia e à traição dos que entregavam a Pátria às potências estrangeiras.
Vieram por sua própria e livre iniciativa, na louca esperança de ainda salvar o nosso povo duma desonra afrontosa e de uma perda irre-parável.

Logo no primeiro recrutamento surgiram aqueles que iriam constituir a mais extraordinária, a mais inconcebível, a mais desesperada força militar que alguma vez se propôs fazer frente ao
10império comunista: 156 homens dispondo de reduzidíssimo armamento, dependendo quase que exclusivamente de si próprios, pois o apoio logís-tico era praticamente inexistente. Estavam dispos-tos a enfrentar o MPLA comunista, mas não sabiam ainda que uma das mais poderosas má-quinas político-militares do mundo iria lançar abertamente todo o seu peso na luta a favor do MPLA. Igualmente ignoravam que as autoridades portuguesas iriam dar cobertura aos comunistas.

Mas mesmo que o soubessem, na altura em que se dispuseram a lutar para defender Angola da estratégia soviética, isso não os faria recuar.

Na realidade a acção desse punhado de ho-mens começou no Verão de 75. O "Verão Quente" de Angola.
Quando se verificaram os primeiros incidentes graves, em Maio/Junho de 75, em Luanda e nas áreas que impropriamente designaram como "zonas de influência", esses incidentes deram-se apenas entre os "movimentos de libertação", MPLA incluído.

A cruzada parecia fácil. Se os Comandos Especiais tivessem de enfrentar apenas o MPLA, as coisas teriam seguido um outro rumo: nunca os comunistas teriam tido a possibilidade de tomar conta de Angola. O Alto-Comissário que representava nessa al-tura o Governo Português em Angola teve uma ac-ção claramente definida: de acordo com a letra e o espírito dos tratados, não concedeu nem conce-deria qualquer privilégio especial a nenhum dos três movimentos. Fixada a data da independência de Angola para 11 de Novembro, seriam até lá tratados em plena igualdade as três forças que en-tre si disputavam a supremacia em Angola. Mas essa correcta e imparcial acção contrariava os secretos desígnios dos chefes comunistas. O Alto-Comissário juntamente com o Comandante Militar, foram chamados de urgência a Lisboa. Em contrapartida, Rosa Coutinho foi para Luanda. Por curiosa coincidência, precisamente na al-tura em que eu próprio cheguei também a Angola. Estávamos em Agosto: exactamente no dia 5, desse ano de 1975.

A situação ali já não constituía segredo para ninguém: desde Junho que cubanos e russos man-tinham, sem quaisquer preocupações de segredo, o seu Quartel-General em Luanda, na casa que fora do Administrador da Petrangol. Aí funcionava abertamente esse Quartel-General, com todas as secções e com todo o pessoal. Estávamos ainda então sob o controle do governo português, esse mes-mo governo que num tratado de cariz interna-cional acordara não dar nem permitir que fosse dada qualquer espécie de tratamento preferencial a nenhum dos três movimentos competidores.

No entanto os soldados cubanos desembar-cavam em vagas cada vez maiores em Luanda, nesse Verão de 75. Todo o material de guerra que consigo traziam, ali desembarcou à vista de toda a gente.

Quando os desembarques começaram a ser feitos em massa, em meados de Agosto, passaram a ter lugar em Novo Redondo. E era às claras que diariamente rolavam as colunas militares de sol-dados e material cubano e russo, rumo a Luanda. Quanto ao MPLA, o movimento que servia de cobertura a essa clara invasão comunista, estava completamente subordinado ao Quartel-General cubano de Angola.
Quem poderia ignorar estes factos? Na rea-lidade, ninguém. Nem em Angola nem mesmo nos países vizinhos. E muito menos o governo por-tuguês, ou pelo menos o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Mário Soares.

Foi na própria Emissora oficial de Angola — ainda sob a tutela de Portugal e das autoridades portuguesas — foi através da própria Emissora oficial que se fizeram constantes e insistentesapelos para que voluntários se apresentassem no cais para trabalhar na descarga desse material cubano e russo. E muitos foram os trabalhadores que acabaram por ser apanhados à força — bran-cos e negros — e obrigados a ir para o porto trabalhar forçadamente no desembarque desse material.

O facto dos Comandos Especiais terem lutado contra o MPLA — e contra os cubanos e russos que os apoiavam — ao lado de Holden Roberto, poderá levar a pensar que esse punhado de homens fazia parte da FNLA.

Não é verdade.

A FNLA serviu de ponto de apoio para esses homens, cujo único objectivo não era nem o da conquista de riqueza ou fortuna, nem sequer o de passageira glória. Era simplesmente o desejo de manter Angola como nação livre e sem interferên-cias estrangeiras no caminho do seu progresso.

Os Comandos Especiais e eu próprio demos o nosso apoio à FNLA, por ser essa a via mais rápida para tentarmos deter a avalanche comunista que ameaçava ocupar Angola.

Foi esse o teor do acordo inicial com Holden Roberto a quem clara e iniludivelmente afirmei que nunca seriamos enquadrados nas fileiras da FNLA — com o que ele plenamente concordou.

De resto — e importa que se diga — Holden Roberto mal conhecia a realidade de Angola.

Para todos nós, para os que ali tínhamos nascido ou os que dali tinham feito a sua terra-mãe, era quase chocante ver o espanto que Holden demonstrava perante o progresso duma terra que ele tinha esperado encontrar primitiva e escra-vizada, árida e abandonada como a propaganda estrangeira proclamava. Como nota curiosa, posso revelar que perante uma barragem (as Molubas) já colocada fora de uso por obsoleta e apta apenas a servir em curtos períodos de emergência de apoio à barragem que servia Luanda, vimos Holden abrir os olhos de espanto perante tão "extraordinária realização"...

Noutra ocasião, na Fazenda "Tentativa", Hol-den viu uma fábrica de açúcar também já ul-trapassada por não ter capacidade de laboração para a matéria prima que ali se produzia e que por tal motivo estava para ser desmanchada. Era uma fábrica que eu conhecia desde menino. Pois Hol-den Roberto não escondeu o seu espanto perante a sua "grandiosidade"...

Talvez por tudo isso, e também porque ele podia verificar que muitos de nós conhecíamos Angola desde Cabinda ao Cunene e que todos amávamos aquela terra que queríamos que continuasse a ser também nossa, talvez por isso ele nos respeitava e nos dava todo o apoio que podia.
No entanto todo o esforço desesperado desses homens que quiseram defender Angola do inimigo soviético se perdeu.

Ingloriamente, diga-se. Por vil traição.

Tanto os angolanos como os portugueses acreditaram que os representantes do governo português honrariam os seus compromissos de imparcialidade tal como haviam sido assumidos em Alvor. Não o fizeram. É já um facto historicamente comprovado que o governo português apoiou, muito antes da data da independência, a invasão dos cubanos, checos, húngaros e russos em Angola, tal como aprovou e consentiu no estabelecimento de quartéis e na distribuição de armamento, desde o mais simples ao mais sofisticado, desde as armas ligeiras aos mísseis russos, os célebres "órgãos de Staline"...

Quem permitiu, quem sancionou, quem colaborou nessa monstruosa traição que veio a culminar na entrega de Angola e Moçambique ao colonialismo soviético?

Gilberto Santos e Castro





Entrevistas sobre a descolonização de Angola


 
INSTITUTO DE CIENCIAS SOCIAIS DA UNIVERSIDADE DE LISBOA


O Arquivo de História Social publica nesta página uma série de entrevistas sobre a descolonização portuguesa de 1974/1975, fruto de um projecto do Instituto de Ciências Sociais apoiado pela Fundação Oriente. Maria de Fátima Patriarca, Carlos Gaspar, Luís Salgado de Matos e Manuel de Lucena que coordenou, entrevistaram grandes protagonistas desse processo: por um lado, governantes, chefes militares, dirigentes do MFA e outros que então actuaram na Guiné-Bissau, em Cabo Verde, Angola e Moçambique; por outro lado, responsáveis metropolitanos ou íntimos colaboradores seus. Não procurando promover qualquer interpretação, chegar a juízos gerais ou encerrar os eventos abordados numa dada problemática, o grupo entrevistador foi seguindo os relatos e aceitando as visões dos seus interlocutores, embora não deixasse de lhes solicitar esclarecimentos por vezes incómodos.

Angola
Sessão de 31 de Agosto de 1995
Intervenientes: general António Soares Carneiro, brigadeiro Fernando
Passos Ramos, brigadeiro Pedro Pezarat Correia, coronel Rui Antunes Tomás.

Sessão de 28 de Agosto de 1996
Intervenientes: brigadeiro Fernando Passos Ramos, brigadeiro Pedro Pezarat Correia,
almirante António Rosa Coutinho, comandante Jorge Correia Jesuíno.

Sessão de 31 de Julho de 1997
Intervenientes: general António Silva Cardoso, brigadeiro Heitor
Almendra, general António Gonçalves Ribeiro.

Sessão de 1 de Outubro de 1998
Intervenientes: Vasco Vieira de Almeida, brigadeiro Passos Ramos.


ORIGEM

segunda-feira, 30 de abril de 2012

FILME "OS DONOS DE PORTUGAL"

(clique sobre a imagem para ampliar)

Donos de Portugal é um documentário de Jorge Costa sobre cem anos de poder económico. O filme retrata a proteção do Estado às famílias que dominaram a economia do país, as suas estratégias de conservação de poder e acumulação de riqueza. Mello, Champalimaud, Espírito Santo – as fortunas cruzam-se pelo casamento e integram-se na finança. Ameaçado pelo fim da ditadura, o seu poder reconstitui-se sob a democracia, a partir das privatizações e da promiscuidade com o poder político. Novos grupos económicos – Amorim, Sonae, Jerónimo Martins - afirmam-se sobre a mesma base.

No momento em que a crise desvenda todos os limites do modelo de desenvolvimento económico português, este filme apresenta os protagonistas e as grandes opções que nos trouxeram até aqui. Produzido para a RTP 2 no âmbito do Instituto de História Contemporânea, o filme tem montagem de Edgar Feldman e locução de Fernando Alves.

A estreia televisiva teve lugar na RTP2 a 25 de Abril de 2012. Desde esse momento, o documentário está disponível na Net

Para ver, clicar aqui:

domingo, 29 de abril de 2012

Mário Pinto de Andrade: a lucidez é um sorriso triste

 

Em 1948, Lisboa devia ser triste. O regime fascista asfixiava, os ecos de um pós-guerra aportavam, anunciando, ainda num murmúrio surdo, o início de uma era que mudaria a correlação de poderes até então instituída. A maquilhagem imperial começava-se a borratar na cara da velha cidade-madrasta.
Nas ruas da capital da metrópole, os estudantes das colónias, entre os quais um recém-chegado jovem de vinte anos, vindo de Golungo Alto - Mário Pinto de Andrade. “Foi em Lisboa que o conheci, no final da década de 40, estudantes da mesma escola, tentando ele fazer jornalismo para se poder manter aqui; procurando transmitir os testemunhos culturais dos africanos que nas colónias viviam, a dos disseminados pela Europa e Américas”. Recordação do editor João Sá da Costa, no texto de apresentação dos livros A Guerra do Povo na Guiné-Bissau (Mário Pinto de Andrade), Sagrada Esperança (Agostinho Neto) e Nós, os do Makulusu (Luandino Vieira), em 9 de Dezembro de 1974.

Na Casa dos Estudantes do Império, Mário conhece Amílcar Cabral, Agostinho Neto e outros nomes fortes que acabariam por empurrar do pedestal o colonialismo português. Os debates e tertúlias sucediam-se. “Mário era capaz de ouvir uma pessoa durante uma hora seguida, sem interromper. Quando tomava a palavra comentava, ponto por ponto, os vários argumentos. Ao contrário de outros políticos de movimentos nacionalistas que pareciam usar uma dupla linguagem - a política e a pessoal - , com o Mário tive sempre a impressão de estar a falar com uma ‘pessoa inteira’”, recorda Carlos Moore, etnólogo cubano-jamaicano que conheceu o nacionalista angolano nos anos 80. “Sempre que não estava de acordo com alguma ideia, sorria, mas não de forma irónica. Ele era muito aberto e fraterno, com ele a conversa era possível”, remata.
com Amílcar Cabral 

com Amílcar CabralEsta postura remontava já aos primeiros tempos de Lisboa. “Quem o ouvisse falar, fosse à mesa do café Chave d’Ouro, ou na casa do [poeta santomense da negritude] Francisco Tenreiro, ou no café-clube perto do Museu das Janelas Verdes (onde se juntavam africanos residentes em Lisboa e os que vinham e iam de Angola com as últimas notícias clandestinas), aperceber-se-ia que o que dele vinha era uma constante batalha de pregação da lucidez de espírito”, descreve o editor João Sá da Costa. “Era isso que o apaixonava: a lucidez.”

Aprendiz de ensaísta

“Surpreendido pela História num lugar e tempo determinado”, como escreveria muitos anos depois, Mário Pinto de Andrade desde logo apontou baterias para a luta contra o sistema colonial. Depois de cinco anos em Portugal, salta para Paris onde frequenta a Sorbonne, edita a Présence Africaine e convive com Jean Paul-Sartre, Anta Diop, Léopold Senghor e com uma figura para ele determinante na interpretação e teorização do pan-africanismo e da negritude: o antilhano Aimé Césaire, que Mário colocava “muito alto na hierarquia das suas relações”, como recorda o intelectual e economista egípcio Samir Amin na mensagem de condolências enviada a Sarah Maldoror, depois da morte do seu amigo angolano. Carlos Moore recorda também “o conhecimento profundo” que Mário de Andrade tinha “sobre as origens e diferentes tendências do pan-africanismo”, que relacionava com “as diásporas africanas, o que não era corrente naquela época entre dirigentes políticos africanos, à excepção de Kwame Nkrumah.” “Ele achava necessário recuperar a auto-estima dos africanos negros, mas ao mesmo tempo identificava algumas contradições que teriam que ser resolvidas”. 

A reflexão sobre a negritude, o panafricanismo e as lutas de libertação foi uma das preocupações constantes do intelectual angolano. Nos últimos anos de vida, colaborou com a UNESCO. Assinou uma bibliografia que inclui títulos como Origens do Nacionalismo Africano, Amílcar Cabral – Éssai de biographie politique, e inúmeros artigos e crónicas.

Numa entrevista inacabada a José Eduardo Agualusa (Público, 11 de Setembro de 1991), Mário Pinto de Andrade relembra que começou a sua produção intelectual com “poesia, como toda a gente”. “Poesia incipiente”. Continuou com contos até se transformar no que dizia ser num “aprendiz de ensaísta”. Apesar desta auto-apreciação, vários intelectuais consideram o pensamento deste personagem do nacionalismo angolano essencial. René Depestre, poeta do Haiti e amigo de Mário, observa que o angolano “era todo o contrário de um intelectual ‘superficial’”. “A seriedade dos seus propósitos e do seu pensamento escondia uma viva sensibilidade de poeta”, lê-se na mensagem de condolências que Depestre enviou a Sarah Maldoror.

“Ele era um pensador”, considera, por sua vez, Carlos Moore, que se recorda de longas conversas sobre “marxismo e a revolução em Cuba” com “uma pessoa muito curiosa”. Um “dandy da escrita”, chamou-lhe Carlos Lopes, sociólogo guineense e brasileiro, no artigo “Mário Pinto de Andrade: A Grande Ausência” (Soronde, Janeiro de 1991. “[Ele] era capaz de se corrigir a si mesmo cinquenta vezes antes de considerar o acto de parir palavra como consumado e autêntico”. “Esse rigor à disciplina”, reflecte, “traiu-no muitas vezes e, incompreendido por alguns, não provocava por espontaneidade o mérito que merecia. Tal atitude não o atemorizava e parecia-lhe como que o preço a pagar pela ‘integridade intelectual’”.

E o momento fê-lo político

Os contactos de Mário Pinto de Andrade com os movimentos independentistas africanos começam em Paris, ainda nos anos 50. O agora político desdobra-se em contactos em Argel, Casablanca, Accra e Conakry, num processo que culminou em 1960, ao tornar-se no primeiro presidente do MPLA. Ocupa o cargo durante dois anos, até à fuga de Agostinho Neto de Portugal. Em 1961 é eleito secretário-geral da Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas. 

Rabat Kesha (ANC), Marcelino dos Santos (CONCP, FRELIMO), Amália Fonseca (CONCP, PAIGC), Nelson Mandela (ANC), Mário Pinto de Andrade (CONCP, MPLA) e Aquino de Bragança (CONCP) em Rabat, Marrocos, em 1962.  
Rabat Kesha (ANC), Marcelino dos Santos (CONCP, FRELIMO), Amália Fonseca (CONCP, PAIGC), Nelson Mandela (ANC), Mário Pinto de Andrade (CONCP, MPLA) e Aquino de Bragança (CONCP) em Rabat, Marrocos, em 1962. 

Mário travava a sua luta pela independência “com uma caneta e não com um fuzil”, aponta Carlos Lopes, facto que não escapava desapercebido dentro do partido. “Troçavam dele porque não ia ao Maqui, mas ele (…) era incapaz de matar”, defende a companheira do nacionalista, Sarah Maldoror. “Ele não era um combatente de armas. Era um combatente de espírito”.

Na verdade, a estrutura partidária pouco teria a ver com o nacionalista, sugerem os seus amigos. “Ele era um homem da esquerda marxista, mas não marxista-leninista. Preocupava-se muito com a liberdade de criação e independência intelectual. Era um pensador, não era um homem de aparelho”, salienta Carlos Moore. “No entanto, compreendia que, no mundo moderno, para se desenvolver uma luta de emancipação, era necessário criar um partido político”.

Na mesma linha, o amigo Carlos Lopes não hesita em escrever que “Mário, apenas por equívoco ocupou cargos de responsabilidade governativa, ele que, pelo seu diálogo permanente, interrogação fértil e contestação rápida dos princípios instituídos, preferia esta do lado da inversão, senão subversão intelectual”. Classificando-o como um “democrata socialista, internacionalista”, o egípcio Samir Amin não duvida que o nacionalista angolano “sabia o que fazia” e que “estava “perfeitamente consciente dos limites históricos do combate do momento, dos problemas novos e das dificuldades que a vitória certa traria”. Como o exílio.

Deixar Angola e a utopia

Em 1974, depois de protagonizar, com o seu irmão Joaquim Pinto de Andrade, a chamada “Revolta Activa”, em oposição a Agostinho Neto, Mário abandona Angola, onde nunca mais volta em vida.
Parte então para a Guiné-Bissau, onde já tinha estado durante a guerra colonial, e onde ficou conhecido por “Bibi” entre “os camaradas mais chegados” do PAIGC, relembra o amigo José Araújo no artigo “No Tempo dos Aviões” (Tribuna, 1 de Setembro de 1990). No país dos grandes rios, torna-se, a convite de Luís Cabral, o Primeiro Comissário de Informação e Cultura e, mais, tarde, no Ministro da Cultura, trabalhando com os artistas locais, entre os quais o célebre poeta, compositor e intérprete José Carlos Schwarz, que o dirigente “tanto encorajou”, recorda José Araújo. Em 1980, Nino Vieira derruba Luís Cabral, atirando Mário para uma nova errância que se prolongou ao longo dos dez anos de vida que lhe restavam entre França, Portugal e Moçambique.

“O exílio torturava-o”, relembra Carlos Moore. “Havia várias camadas de sofrimento no seu sorriso. Quando falava na guerra civil em Angola ficava com o olhar perdido e interrogava-se: ‘quem imaginaria que isto pudesse acontecer?’” E havia “a distância da família”, aponta, costante desde os tempos da luta nacionalista, e que terá deixado mais marcas nele próprio que nas suas duas filhas. “Soube desde cedo que o meu pai não estava connosco, porque tinha algo de muito importante a fazer. Independentemente da ausência, recebi muitas referências dele, através de cartas e dos momentos em que estávamos juntos e em que ele nos transmitia conhecimentos e despertava interesses”, conta a filha mais nova, Henda Ducados.

Mário Pinto de Andrade faleceu a 26 de Agosto de 1990. Voltou então “a casa”, onde foi sepultado no Cemitério Alto das Cruzes,em Luanda. Sarah Maldoror, em take final: “Creio que o Mário vai ter importância daqui a 10 anos, quando os angolanos escreverem verdadeiramente a história do seu país. (…) Nessa altura toda a sua dimensão – política e intelectual – será reconhecida (…) Podemos opinar tudo o que queremos sobre Mário Pinto de Andrade menos questionar a sua integridade intelectual ao longo de toda a história do MPLA. Morreu como se devia – na maior pobreza. Morreu sem deixar nada às filhas. Mas era dono de uma honestidade e rectidão fora do comum”.


*As cartas e artigos citados fazem parte do espólio de Mário Pinto de Andrade reunido na Fundação Mário Soares, e que está disponível em www.fmsoares.pt/aeb/dossier13


artigo originalmente publicado no Novo Jornal, Angola, Agosto de 2009
  por Pedro Cardoso


 O valioso tempo dos maduros

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.
'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!


Mário Pinto de Andrade


(Para quem não conhece, político angolano, co-fundador do MPLA)
 http://forum.angolaxyami.com/angola/129100-o-valioso-tempo-dos-maduros-por-mario-pinto-de-andrade.html

Gentil Viana, um dos fundadores do MPLA: o preço da divergência



                          Lisboa 1999. Gentil Viana, Mário Pinto de Andrade e Adolfo Maria (foto Net
 

Conheci o Dr. Gentil Viana — um dos fundadores do MPLA — na Cadeia de São Paulo. Estávamos em sectores diferentes da cadeia, mas, a partir de um contacto fortuito no posto de socorros, a 2 de Março de 1978, iniciámos uma relação de partilha e solidariedade que me apraz, ainda hoje, recordar.

Ele sabia já da minha presença nas prisões de Angola e conhecia os gestos e lugares de tortura por onde eu havia passado. Ele próprio era peregrino na mesma viagem de violências gratuitas. Naquele momento, a sua tristeza era maior porque o estado de saúde dos seus olhos tinha piorado, em consequência das agressões cubanas, e temia o abismo da cegueira. Contou-me, aliás, num dos encontros posteriores, que era um amante do desporto, mas que naquele estado nada feito... "quando a bola está a uns três metros, vejo-a com o olho direito, mas o esquerdo apenas vê uma sombra".

Este primeiro encontro ficou-se pela timidez que a presença vigilante dos carcereiros impunha. Ainda teve tempo de me contar que havia sido, em Portugal, Delegado do Ministério Público; a partir de Portugal iniciou uma travessia exílica até à independência de Angola. A conversa não podia ir muito mais longe. Deixei-lhe o Paris Match e o desejo de outro encontro.

O dia 4 de Março deu-nos uma nova oportunidade de encontro, oportunidade que se repetiu frequentemente durante o ano de 78. Apesar da situação dos seus olhos pediu-me algumas revistas para tentar ler. Ofereci-lhe o Lê Nouvel Observateur, o L 'Express e o Paris Match. Apercebi-me então de que este membro-fundador do MPLA havia perdido já a vista esquerda em consequência das agressões de que tinha sido vítima, sobretudo aquelas que tiveram lugar no comboio. Quando lia algum tempo com continuidade era atacado por espasmos que o obrigavam a largar a leitura de imediato.

No dia seguinte encontrámo-nos num lugar discreto, na hora do sol. Foi um diálogo cheio de interesse. Falou-me da sua estadia, durante dez anos, na China, e das traduções para português dos pensamentos de Mão que aí realizou. Pude saber que Gentil Viana tinha chegado a fazer uma "greve de fome" em protesto contra as agressões, acto que o conduziu moribundo ao Hospital Militar. Ficou na enfermaria-prisão, junto do combatente americano Marcello Grillo. Este mesmo me deu testemunho da situação humilhante e desmoralizante em que o deixaram na enfermaria — a soro e com as mãos atadas à cama. Só o desamarravam para comer e ir à casa de banho. O estado de debilidade era tal que os seus passos, quando se deslocava à casa de banho, não ultrapassavam uns dez centímetros. Ali permaneceu seis meses. Proibiram-lhe toda a leitura e privaram-no das visitas da esposa.


O acordo de Alvor = pedaço de papel

O acordo de Alvor = pedaço de papel

14-01-2005 | Fonte: Lusa (Vera Magarreiro)

O acordo de Alvor, que há 30 anos permitiu a independência de Angola e previa a paz na antiga colónia portuguesa, representa para António Almeida Santos (na foto), um dos signatários, apenas “um pedaço de papel” que “não valeu nada”.
Em entrevista à Agência Lusa, o dirigente do Partido Socialista Português, que a 15 de Janeiro de 1975 era ministro da Coordenação Interterritorial e integrava a delegação portuguesa que assinou com os líderes dos três movimentos de libertação de Angola o acordo de Alvor, no Algarve, refere que, assim que viu o documento, soube que “aquilo não resultaria”.
O acordo “previa a eleição de uma assembleia política disputada por três partidos, que tinham por detrás três exércitos e três países cheios de ambições económicas, materiais”, afirma o deputado, para justificar a sua certeza de que a solução era “inexequível”.
Além das disputas internas, estava em causa o apoio aos movimentos de três potências mundiais, em plena guerra-fria – o MLPA era apoiado pela URSS, a UNITA pela África do Sul e, num plano de fundo a própria China, e a FNLA pelos Estados Unidos, “não apenas politicamente, mas com dinheiro, material e formação”.
“Era um tabuleiro em que as grandes potências jogavam o xadrez ligado ao petróleo e aos diamantes”, afirma Almeida Santos, que na altura propôs ao “amigo” Agostinho Neto, colega dos tempos de Coimbra, uma reunião com os líderes dos três movimentos “à margem” da cimeira de seis dias, que decorreu no Hotel Penina, em Alvor.
O encontro prolongou-se pela madrugada e Almeida Santos transmitiu a sua oposição à solução encontrada: “Com este esquema vocês vão continuar aos tiros”.
“Com um órgão de cúpula em que havia uma representação dos três movimentos, ou seja dos três exércitos, que decisões é que eles iriam conseguir tomar? Como era possível conseguir uma maioria? O que ficasse em minoria desataria aos tiros”, argumenta.
Propôs então uma solução alternativa que previa uma presidência rotativa. Cada um dos líderes assumia rotativamente o cargo de presidente, de primeiro-ministro e de chefe das forças armadas ou presidente do parlamento.
A solução assentava ainda na criação de uma Constituição, que seria referendada e serviria para estruturar o novo Estado. As eleições realizar-se-iam apenas quando o país estivesse estabilizado e não antes da independência como ficou estabelecido no Acordo de Alvor.
Os três aceitaram mas, à saída, Agostinho Neto disse que tinha ainda de consultar o comité central do MPLA sobre a proposta.
“No dia seguinte a resposta foi negativa”, lamenta o deputado socialista, para quem esta solução, de que muito se orgulha, podia ter traçado um rumo diferente dos acontecimentos.
Resignou-se à solução, mas tem pena de ter sido apenas um “escriba” do documento.
“O acordo já vinha pré-estabelecido pelos líderes dos movimentos. Eu e Mário Soares (então ministro dos Negócios Estrangeiros) limitámo-nos a meter o acordo em bom português”, destaca.
“Do acordo de Alvor sou apenas um escriba, não sou mais do que isso”, reforça, lembrando que Portugal não teve outra alternativa, senão assinar por baixo o que os líderes dos movimentos decidiram uma semana antes de Alvor, em Mombaça, no Quénia.
Sobre a reunião de Mombaça, diz que “foi quase um milagre conseguir sentá-los (aos líderes dos movimentos) à mesma mesa, porque a guerra civil já estava no auge, principalmente em Luanda, onde já se estavam a matar uns aos outros”.
Para Almeida Santos, Portugal teve “um atraso mínimo de dez anos e máximo de 20″ no processo de descolonização em relação a outros países como a França, a Inglaterra, a Holanda ou a Bélgica e era preciso “encontrar uma solução” urgentemente.
“As nossas tropas estavam saturadas da guerra, o que, de certo modo levou à revolução do 25 de Abril” e originou uma “psicose de pressa”, refere, lembrando que, além disso, as tropas portuguesas estavam “à beira de uma derrota na Guiné-Bissau e em Moçambique a situação estava a deteriorar-se cada vez mais”.
“Era um castelo de cartas. Sabia-se que quando caísse a primeira carta, cairiam todas as outras. Em resultado disso a descolonização foi feita em condições péssimas”, refere.
A descolonização devia ter sido feita progressivamente, porque a própria opinião pública portuguesa “não estava preparada para um salto rápido” que implicava “a perda das colónias” mas isto gerou a desconfiança nos movimentos de libertação, que exigiram a negociação simultânea de um processo de paz.
A guerra colonial prolongou-se por mais alguns meses após o 25 de Abril, o que “agravou a revolta dos militares”. “Não percebiam porque continuava a matar-se a morrer-se”, sublinha o deputado.
“Gerou-se então um clima de indisciplina, já ninguém mandava em ninguém, já não havia respeito por qualquer tipo de ordem”, uma situação “perigosíssima para quem tinha que negociar a descolonização”, agravada pelo facto de ser necessário chegar a acordo “com três e não apenas um movimento de libertação”, analisa.
“Nas circunstâncias, o acordo de Alvor foi o acordo possível, em extremo de causa. É preciso ver que é um acordo entre três beligerantes, entre três exércitos em luta uns contra os outros. É mais um armistício do que um acordo de descolonização”, considera.
No entanto, com este acordo, Portugal ganhou legitimidade para dizer “isto é um problema deles, fizemos o que tínhamos a fazer, agora entendam-se”, destaca Almeida Santos. “De certa forma legitimámos a nossa saída”.
Sem desistir da proposta apresentada em Alvor aos três dirigentes angolanos, Almeida Santos reapareceu com um documento “na mesma base”, em Junho de 1975, aproveitando a ideia de que o acordo devia ser revisto porque não estava a ser cumprido.
“O governo concordou, o Presidente da República também, mas infelizmente o Melo Antunes (na altura ministro sem pasta responsável pelos processos de descolonização) discordou, não sei porquê”, recorda.
O dirigente socialista considera que Melo Antunes estava “agarrado” à esperança de que ainda era possível que os três movimentos chegassem a acordo e recorda uma visita que ambos fizeram posteriormente a Luanda, em que conseguiram “uma trégua de duas ou três semanas”.
Estas tréguas, diz, eram, no entanto, “precárias” dado que “as razões por que eles lutavam eram tanto internas como de fora, porque naquela altura a guerra-fria mobilizava paixões terríveis”.
“Cada um defendia os seus interesses, interesses que cheiravam a petróleo e brilhavam como os diamantes, eram interesses muito fortes”, reforça.
“Fomos ultrapassados pelos acontecimentos e aquele acordo de Alvor é um acordo que não valeu nada”, sublinha Almeida Santos.
O deputado recorda o seu discurso durante a tomada de posse, em Luanda, do governo provisório acordado em Alvor, em que afirmou: “este acordo tanto pode vir a ser um bom acordo para salvar Angola como pode vir a ser apenas um pedaço de papel”.
“Infelizmente, foi apenas um pedaço de papel”, diz, 30 anos depois.
Questionado pela Lusa sobre se Portugal cometeu o mesmo erro com as negociações de paz de Bicesse, em 1991, Almeida Santos responde que não percebe por que não resultou, dado que terminara a guerra- fria, mas avança uma hipótese: “provavelmente era cedo demais, ainda não havia a saturação da guerra”.
Sobre o fim do conflito armado em 2002, possível após a morte de Savimbi, o socialista responde com uma declaração que fez há anos em Angola e que, na altura, “chocou os jornalistas”: “Angola está condenada a que a guerra dure até que um dos contendores vença o outro”.
Sobre se o cenário seria diferente caso a UNITA tivesse assumido o poder em Luanda em vez do MPLA, Almeida Santos defende que diferente seria certamente, mas que não sabe se melhor.
“Tenho as minhas dúvidas. Se ganhasse a FNLA, ficávamos debaixo da pata do Mobutu (ditador do ex-Zaire), que não era flor que se cheirasse, se ganhasse o Savimbi, ficávamos não só debaixo da pata do Savimbi mas também da África do Sul, racista. Das três hipóteses viesse o diabo e escolhesse”.
O acordo de Alvor, composto por 60 artigos, acabou por ser suspenso temporariamente três meses antes da independência de Angola, a 11 de Novembro de 1975, pelo então presidente da República, Francisco da Costa Gomes, que invocou a sua violação constante.
De Alvor, os líderes dos três movimentos de libertação – Agostinho Neto, pelo MPLA, Jonas Savimbi pela UNITA e Holden Roberto pela FNLA – levaram pelo menos a garantia de serem “únicos e legítimos representantes do povo angolano” No seu discurso, após a assinatura do acordo de Alvor, que considerou de “transcendental importância”, o presidente Costa Gomes deixou aos dirigentes dos três movimentos o desafio de encontrarem “soluções angolanas autênticas, baseadas na capacidade de diálogo, no espírito de cooperação e na boa vontade de servir” o país, apesar das “diferenças sociais, filosóficas e políticas”.
Prevaleceram as diferenças e foi abandonado o diálogo. O resultado foi mais 27 anos de guerra, desta vez civil, num país que Costa Gomes qualificou na altura como dos “mais florescentes do continente africano”.
  14-01-2005 | Fonte: Lusa (Vera Magarreiro)

RETIRADO DAQUI

ANGOLA 38 anos de guerra...


 
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"....38 anos de guerra não produziram apenas uma tragédia em Angola. Produziram milhões de tragédias: 2 milhões de mortos, 1,7 milhão de refugiados, milhares de órfãos, 200 pessoas mortas de fome por dia, 80 mil crianças, velhos, homens e mulheres mutilados pelas milhões de minas semeadas pelo país afora. Em Angola, são milhões de tragédias, cada qual com um nome e uma história de final infeliz.

      A tragédia que se chama Margarida João fecha os olhos e vê de novo o obus (artefato explosivo em forma de bala gigante, disparado de longa distância) caindo sobre o prédio onde morava em 1993, na cidade de Huambo, matando 35 vizinhos e amigos. Abre os olhos e vê a mãe, a filha Joelma, de 16 anos, um tio e dois sobrinhos assassinados a sangue frio pela guerrilha da Unita. Dorme e sonha com a fuga em direção a Luanda, 20 dias a pé, bebendo água da chuva, meio morta de fome. Acorda espremida com outras 15 pessoas numa tenda de lona verde puída no campo de deslocados de guerra Comandante Gika, na capital do país, onde mora há seis anos e onde talvez viva até morrer.

      Miquirina Jambo, Félix e Maurício são os nomes de três outras tragédias. Em1993, Miquirina, que tinha 23 anos, foi com o primo Félix cortar lenha no mato. Félix, que ainda não tinha sete anos de idade, pisou numa mina. Desesperada, Miquirina correu para buscar ajuda. E pisou em outra mina.

      Félix morreu perfurado pelos estilhaços. Miquirina perdeu a perna esquerda, mas sobreviveu para botar no mundo quatro filhos doentes. Um deles, Maurício, de três anos, está agora largado no chão do acampamento de deslocados de Huambo, capital da província de mesmo nome, onde a família vive desde que chegou em dezembro do ano passado, fugindo da guerra civil. Maurício não sabe falar. Um dia, ardeu de febre, quase morreu de diarréia e perdeu também para sempre, como descreve a mãe, "a força de andar". Maurício vê o mundo triste do acampamento com olhar distante, o rosto meio coberto de moscas. De vez em quando, tirando forças ninguém sabe de onde, ergue a mãozinha muito magra e espanta as moscas. Mas elas voltam.

      Quando nasceu, Maurício não tinha esperanças de viver mais que 42 anos: é essa a expectativa de vida em Angola, a quinta mais baixa do mundo. Com o passar do tempo, diminuem as chances de envelhecer: doente e desnutrido, Maurício corre o risco de engordar as estatísticas de mortalidade infantil, uma das mais altas do planeta: nada menos que um quarto das crianças morrem antes de completar cinco anos de vida. De sarampo, pólio, meningite, malária, diarréia, fome.

      Maurício tem a pele meio devorada pela sarna. Não é o único. Por falta de sabão para lavar o corpo e a única roupa do corpo, segue a sarna a comer a pele de boa parte dos 22 mil deslocados de guerra desse acampamento conhecido como Coalfa porque está instalado nos galpões varados de tiros de fuzil da antiga fábrica homônima. Por ironia do destino _ como se estivesse escrito em algum livro santo que o destino da Angola é morrer em guerra _ a Coalfa fabricava sabão...

      Em Kuito, capital da província de Bié, que já foi uma cidade florida e hoje tem mortos da guerra plantados nos jardins e quintais das casas, cada rosto que espia por trás de paredes e muros destruídos pela fuzilaria e pelos obuses conta uma tragédia, pelo menos uma. Mas Manuela Marinho, sozinha, carrega oito: o marido Francisco e os sete filhos (Solange, 16 anos; os gêmeos Maximiano e Helder, 14; Letícia, 11; as gêmeas Ana e Joana, 9; e a caçula Rossana, 7), mortos por um obus quando tomavam café da manhã. As oito tragédias de Manuela estão enterradas numa única cova, neste país de cruzes em vez de flores.


CONTINUE A LÊR  SOBRE AQUILO QUE FOI A TRAGÉDIA QUE SE ABATEU SOBRE O POVO ANGOLANO APÓS A  RETIRADA DE ANGOLA DOS PORTUGUESES EM  1975...





Descolonização de Angola, desmbarque de cubanos, luta entre os movimentos de libertação e fuga dos portugueses...


MEMÓRIAS José Carlos Rodrigues


Imbondeiro (foto do autor)
Entrei hoje casualmente no seu Site e devo dar-lhe parabéns pois está muito bem escrito e documentado com boas fotos.
Em 27 de Outubro de 1975, exactamente da mesma forma e pelos mesmo motivos de todos que vieram nessa altura, o mesmo já depois de independência, enfim também tenho as minha Memórias para descrever e vou fazê-lo quando tiver mais tempo.
Tenho 55 anos de idade, nasci em 1951 e saí de Angola há quase 31 anos. O motivo de lhe mandar este mail, são apenas dois e são os factos que mais marcaram a minha vida: o primeiro, é uma pequena correcção, que de tanto ser repetida em tudo quanto é livro e até documentação oficial, passou a ser verdade, mas a verdade e essa, vivi eu e vi com estes olhos que a terra há-de comer, é que os cubanos chegaram a Angola, não em Outubro mas muito antes, embora já não precisando a data foi em meados de Agosto de 1975, sempre desmentido por todos o canais oficiais da altura e pelo próprio "careca" Rosa Coutinho, que exactamente no dia que os cubanos desembarcaram que foi num sábado, nunca mais esqueço pois foi exactamente em Porto Amboim que eles desembarcaram em solo angolano.
Eu estava na altura em Novo Redondo onde era o chefe da fábrica de algodão do Chingo, estava casado há pouco tempo e vivia numa suite do Hotel Senador na Avenida da Praia.


No dia que fiz um mês de casado em Julho, dia 29, pelas 15 horas da tarde começaram os tiros em Novo Redondo, obrigando a população a resguardar-se durante três longos dias no Palácio do Governo à espera de uma coluna militar portuguesa. Enfim, várias peripécias foram vividas depois disso e acabámos sempre em fuga aos tiros que no Lobito, para onde fomos, quer em Benguela, quer em Nova Lisboa onde fui sozinho porque tinha lá deixado o meu carro a reparar e pintar (uma viagem dramática e cheia de casos onde vi a morte por perto várias vezes).
Mesmo depois disto tudo pensei sempre que sendo angolano deveria ficar na minha terra. Ajudei muita gente a por os caixotes das suas coisas nos barcos do Porto do Lobito, mas nunca pensei vir. Entretanto as coisas acalmaram um pouco em Novo Redondo e eu que tinha prometido e fechar o balanço da empresa onde estava, regressei a Novo Redondo sozinho e fui terminar o que tinha prometido.
Entretanto, como tinha os meus pais e família em Posto Amboim onde nasci, ia aos fim de semana para lá e foi num desses fins de semanada de Agosto quando vim à rua num sábado, vi com os meus olhos todo aquele aparato de militares que se posicionavam de 100 em 100 metros de metralhadoras apontadas às pessoas, e descarregavam e arrancavam de imediato para as frentes de combate de Luanda e Huambo, camiões, carros blindados, tanques e milhares de soldados.
Acredite que ainda hoje vejo e sinto a cena como tal, mais parecendo que estava a ver aqueles filmes da II Guerra Mundial (o material dos cubanos era muito parecido e antiquado).
Fiquei quieto e mudo pois nesse dia perdi a esperança de ficar em Angola e de ver aquela terra evoluir num sentido positivo, convivendo nela toda a sociedade multirracial que ninguém acreditava que existia, mas quem lá esteve sabe que era assim e também sabe que hoje seria um verdadeiro país desenvolvido e com 50 ou 60 milhões de habitantes seria mesmo o maior país de África e um dos maiores do mundo. Mas não deixaram, não quiseram, tiveram medo de mostrar para o resto do mundo que seria possível viveram brancos negros e mestiços todos juntos viverem em ambiente saudável de paz em alegria. Não deixaram!!!
Nesse sábado que parece ontem ainda, cheguei a casa e ouvi na rádio ao almoço exactamente o "careca" (almirante vermelho Rosa Coutinho) dizer aos jornalista: cubanos em Angola?, vocês inventam cada uma? Nem pensar.
Foi nesse dia que disse ao meu pai português da Sertã que estava desde 1917 em Angola sem nunca ter vindo mais a Portugal, pela primeira vez: "Pai isto acabou. Já não vai ter fim e o país está tramado e nós também". Vou arrumar as minhas coisas e vou na ponte aérea, seja o que Deus quiser mas Angola jamais será a minha Angola. 
O meu pai que sempre nos dissera vocês são angolanos devem lutar e viver na vossa terra apenas olhou para mim (e ainda hoje choro quando me lembro da sua cara, choro ainda também) pôs-me as mãos em cima dos ombros e disse: "vai filho, tu és novo e ainda tens uma vida pela frente, vai e vai de cabeça levantada".
Eu disse-lhe: "pai vamos todos isto não vai ser nada". E ele disse-me: "eu sou um velho e tenho 75 anos nunca voltei a Portugal também eu não vou agora a mim eles não me fazem mal precisam de mim mas tu vais e não voltamos a falar nisto, vais e tratas amanhã de tudo que precisas".
Nesse sábado chorei sozinho nessa praia de Porto Amboim, olhando para os batelões que descarregavam continuamente o material e os soldados cubanos. 


O autor na praia (foto do autor)

É preciso notar que esta costa tinha de praia dum morro ao outro cerca de 6 km. E deste morro ao outro lado que se vê na outra  foto da Vila de Porto Amboim até ao morro dos "3caminhos" (?) havia mais de 15 km de praias. Uma verdadeira  maravilha da natureza. Também eu eu vi entrar os Cubanos, penso que os primeiros que puseram pé em terras de Angola, em meados de Agosto de 1975. Foi por ali que descarregaram todo o seu material bélico e de imediato avançaram para as frentes dos combates. Não ficaram mais que dois dias em Porto Amboim. Parecendo aquilo que é, este era o 4º. Porto em tonelagens de cargas e descargas de Angola. Por aqui passavam todo o café, algodão, óleo de palma e outros que saíam de Angola e entrava o vinho por exemplo que vinha em barris de madeira. Todos os grandes navios de carga ou mistos da altura paravam aqui, Ambrizete, Ganda, Pátria, Zaire etc. E ficavam à cerca de 300 m da praia, sendo depois o transbordo feito por batelões. Nesses dias trabalhava-se 24 horas sobre 24 horas. Hoje desta bela imagem apenas existe a areia, o morro, o cais embora maltratado e o mar. Tudo o resto da Restinga, o cinema novo que ali foi construído e o campo de desportos de salão, tudo desapareceu engolido pelo mar e pela falta de cuidados. Nada, mesmo nada, desse sítio lindo onde se passaram belos momentos, ali existe mais.  
E assim foi. Saí de Angola depois de vários problemas (tive que dormir no meu carro uma semana inteira no Lobito para conseguir pô-lo no último navio de carros que saiu de Angola e no dia 27 de Outro) aterrei no aeroporto de Lisboa com 10.000$00 de Angola e outra de algumas recordações pessoais deixando para trás uma vida que estava no inicio e bem bonita já, mas sobretudo deixando para trás as ilusões, os sonhos, a família, os amigos (muitos deles ou quase todos pretos e mestiços) o coração muito especialmente o espírito, a alma ficou lá e ainda deve andar por lá a vaguear.
Desculpe o tempo que levei a descrever isto mas também um dia terei de descarregar em memórias escritas todas as emoções que ainda estão acumuladas dentro de mim me fazem constantemente sofrer e assim há-de ser até à minha morte. 
Mas foi exactamente esse sábado de Agosto e esses cubanos que ainda não estavam em Angola( apenas deviam ser fardas e bonecos de madeira), que decidiram a minha retirada e cortaram aos pedaços o meu coração de angolano.
Portanto não acredite nas datas dos documentos. Acredite que os cubanos chegaram a Porto Amboim a primeira terra de Angola a porem os pés (uns dias depois acho que também desembarcaram na zona do Ambriz e Ambrizete).
Infelizmente tinha fotos deste facto bem como outras colhidas do meu tempo da tropa no comando chefe da Fortaleza de Luanda, mas tudo por lá ficou e alguns desses foram destruídos e roubados em dois controles dos pioneiros (miúdos armados em soldados do MPLA mas que se fosse preciso disparavam sem saber porquê).
Esta é a verdade acredite. Tão verdade que os meus olhos ainda vêem a imagem e verão sempre.
O segundo facto que queria dizer, era apenas a constatação de que provavelmente o 25 de Abril ter sido uma guerra de terrorismo ter acabado em Angola. Entrei para a tropa em 22 de Outubro de 1971 (emocionei-me um bocado depois ao fim destes anos todos vi hoje aqui no seu Site a foto da porta do Regimento do quartel de Nova Lisboa onde fiz a recruta) e depois de um mês de mato onde nada acontecia quase sempre, fui colocado em Luanda na fortaleza como um dos responsáveis da cantina da messe dos oficiais, assistia e dava apoio às reuniões que lá se faziam com as mais altas patentes militares, portuguesas e por vezes também estrangeiras com o general Luz da Cunha na altura e até ao 25 de Abril o Chefe do Estado Maior em Angola. 

Além disso também estive destacado alguns meses nos serviços de psicologia na guerra, também lá na fortaleza e embora sem os poder mostrar porque me foram destruídos, tive várias vezes na mão cópias dos mapas do controle do terrorismo, cartas das organizações que apoiavam os movimento turras e outros documentos e posso afirmar sem dúvidas que em 74 não havia qualquer zona (repito qualquer zona) do território angolano ocupado por qualquer movimento (UNITA, MPLA, FNLA ou qualquer outro) e também esses movimentos já não tinham apoios de armas apenas de medicamentos, cobertores e mantimentos que lhes eram dados pelos americanos, russos, suecos noruegueses e outros países que pela democracia os apoiavam.
Portanto já não havia guerra. Os movimentos estavam dominados e passavam fome, apenas fazer combates de emboscadas e fuga em algumas zonas do Leste de Angola (aliás quem os viu entrar em Angola depois do 25 de Abril) sabe muito bem como eles se apresentaram, esfarrapados, esfomeados e com uma maioria de canhangulos tendo apenas o FNLA que recrutou zairenses e recebeu fardas novinhas bem com metralhadoras que ainda brilhavam. Lembra-se disso com certeza.

Ora bem não havendo guerra em Angola, a paz interessava a quem? E sem guerra como seria as fortunas que os nossos militaras (alguns claro) fizeram. Então não havia luta a altura mais indicada para o 25 de Abril. Um dia veremos alguns destes valorosos e briosos heróis, como Soares, Otelo Saraiva & Cª entrar a história deste 25 de Abril. Agora não me venham é a dizer que se perdeu a Guerra em Angola por isso é a mentira mais infame que se poderá contar e pelos menos a memória dos que morreram naquela terra não merecem isso.
Bem já vou longo mais poderia dizer, mas apenas queria referir estes dois factos. Pelo menos é a minha verdade e não a verdade da história mas quantas verdades nós aprendemos ao longo dos anos na escola, no liceu e nos livros que são apenas as verdades possíveis ou as verdades que a política deixou escrever?

Acho que esta pergunta é uma bela forma de terminar. (...) Nós fomos impedidos de ser um país e quando digo nós, refiro-me aos que nasceram em Angola e aos portugueses que eram tão angolanos também mas não seremos nunca impedidos de ter memória, de ter coração, de ter alma, de ter espírito e de ter saudades.


  José Carlos Rodrigues NV034970@netvisao.pt