domingo, 29 de abril de 2012

Descolonização de Angola, desmbarque de cubanos, luta entre os movimentos de libertação e fuga dos portugueses...


MEMÓRIAS José Carlos Rodrigues


Imbondeiro (foto do autor)
Entrei hoje casualmente no seu Site e devo dar-lhe parabéns pois está muito bem escrito e documentado com boas fotos.
Em 27 de Outubro de 1975, exactamente da mesma forma e pelos mesmo motivos de todos que vieram nessa altura, o mesmo já depois de independência, enfim também tenho as minha Memórias para descrever e vou fazê-lo quando tiver mais tempo.
Tenho 55 anos de idade, nasci em 1951 e saí de Angola há quase 31 anos. O motivo de lhe mandar este mail, são apenas dois e são os factos que mais marcaram a minha vida: o primeiro, é uma pequena correcção, que de tanto ser repetida em tudo quanto é livro e até documentação oficial, passou a ser verdade, mas a verdade e essa, vivi eu e vi com estes olhos que a terra há-de comer, é que os cubanos chegaram a Angola, não em Outubro mas muito antes, embora já não precisando a data foi em meados de Agosto de 1975, sempre desmentido por todos o canais oficiais da altura e pelo próprio "careca" Rosa Coutinho, que exactamente no dia que os cubanos desembarcaram que foi num sábado, nunca mais esqueço pois foi exactamente em Porto Amboim que eles desembarcaram em solo angolano.
Eu estava na altura em Novo Redondo onde era o chefe da fábrica de algodão do Chingo, estava casado há pouco tempo e vivia numa suite do Hotel Senador na Avenida da Praia.


No dia que fiz um mês de casado em Julho, dia 29, pelas 15 horas da tarde começaram os tiros em Novo Redondo, obrigando a população a resguardar-se durante três longos dias no Palácio do Governo à espera de uma coluna militar portuguesa. Enfim, várias peripécias foram vividas depois disso e acabámos sempre em fuga aos tiros que no Lobito, para onde fomos, quer em Benguela, quer em Nova Lisboa onde fui sozinho porque tinha lá deixado o meu carro a reparar e pintar (uma viagem dramática e cheia de casos onde vi a morte por perto várias vezes).
Mesmo depois disto tudo pensei sempre que sendo angolano deveria ficar na minha terra. Ajudei muita gente a por os caixotes das suas coisas nos barcos do Porto do Lobito, mas nunca pensei vir. Entretanto as coisas acalmaram um pouco em Novo Redondo e eu que tinha prometido e fechar o balanço da empresa onde estava, regressei a Novo Redondo sozinho e fui terminar o que tinha prometido.
Entretanto, como tinha os meus pais e família em Posto Amboim onde nasci, ia aos fim de semana para lá e foi num desses fins de semanada de Agosto quando vim à rua num sábado, vi com os meus olhos todo aquele aparato de militares que se posicionavam de 100 em 100 metros de metralhadoras apontadas às pessoas, e descarregavam e arrancavam de imediato para as frentes de combate de Luanda e Huambo, camiões, carros blindados, tanques e milhares de soldados.
Acredite que ainda hoje vejo e sinto a cena como tal, mais parecendo que estava a ver aqueles filmes da II Guerra Mundial (o material dos cubanos era muito parecido e antiquado).
Fiquei quieto e mudo pois nesse dia perdi a esperança de ficar em Angola e de ver aquela terra evoluir num sentido positivo, convivendo nela toda a sociedade multirracial que ninguém acreditava que existia, mas quem lá esteve sabe que era assim e também sabe que hoje seria um verdadeiro país desenvolvido e com 50 ou 60 milhões de habitantes seria mesmo o maior país de África e um dos maiores do mundo. Mas não deixaram, não quiseram, tiveram medo de mostrar para o resto do mundo que seria possível viveram brancos negros e mestiços todos juntos viverem em ambiente saudável de paz em alegria. Não deixaram!!!
Nesse sábado que parece ontem ainda, cheguei a casa e ouvi na rádio ao almoço exactamente o "careca" (almirante vermelho Rosa Coutinho) dizer aos jornalista: cubanos em Angola?, vocês inventam cada uma? Nem pensar.
Foi nesse dia que disse ao meu pai português da Sertã que estava desde 1917 em Angola sem nunca ter vindo mais a Portugal, pela primeira vez: "Pai isto acabou. Já não vai ter fim e o país está tramado e nós também". Vou arrumar as minhas coisas e vou na ponte aérea, seja o que Deus quiser mas Angola jamais será a minha Angola. 
O meu pai que sempre nos dissera vocês são angolanos devem lutar e viver na vossa terra apenas olhou para mim (e ainda hoje choro quando me lembro da sua cara, choro ainda também) pôs-me as mãos em cima dos ombros e disse: "vai filho, tu és novo e ainda tens uma vida pela frente, vai e vai de cabeça levantada".
Eu disse-lhe: "pai vamos todos isto não vai ser nada". E ele disse-me: "eu sou um velho e tenho 75 anos nunca voltei a Portugal também eu não vou agora a mim eles não me fazem mal precisam de mim mas tu vais e não voltamos a falar nisto, vais e tratas amanhã de tudo que precisas".
Nesse sábado chorei sozinho nessa praia de Porto Amboim, olhando para os batelões que descarregavam continuamente o material e os soldados cubanos. 


O autor na praia (foto do autor)

É preciso notar que esta costa tinha de praia dum morro ao outro cerca de 6 km. E deste morro ao outro lado que se vê na outra  foto da Vila de Porto Amboim até ao morro dos "3caminhos" (?) havia mais de 15 km de praias. Uma verdadeira  maravilha da natureza. Também eu eu vi entrar os Cubanos, penso que os primeiros que puseram pé em terras de Angola, em meados de Agosto de 1975. Foi por ali que descarregaram todo o seu material bélico e de imediato avançaram para as frentes dos combates. Não ficaram mais que dois dias em Porto Amboim. Parecendo aquilo que é, este era o 4º. Porto em tonelagens de cargas e descargas de Angola. Por aqui passavam todo o café, algodão, óleo de palma e outros que saíam de Angola e entrava o vinho por exemplo que vinha em barris de madeira. Todos os grandes navios de carga ou mistos da altura paravam aqui, Ambrizete, Ganda, Pátria, Zaire etc. E ficavam à cerca de 300 m da praia, sendo depois o transbordo feito por batelões. Nesses dias trabalhava-se 24 horas sobre 24 horas. Hoje desta bela imagem apenas existe a areia, o morro, o cais embora maltratado e o mar. Tudo o resto da Restinga, o cinema novo que ali foi construído e o campo de desportos de salão, tudo desapareceu engolido pelo mar e pela falta de cuidados. Nada, mesmo nada, desse sítio lindo onde se passaram belos momentos, ali existe mais.  
E assim foi. Saí de Angola depois de vários problemas (tive que dormir no meu carro uma semana inteira no Lobito para conseguir pô-lo no último navio de carros que saiu de Angola e no dia 27 de Outro) aterrei no aeroporto de Lisboa com 10.000$00 de Angola e outra de algumas recordações pessoais deixando para trás uma vida que estava no inicio e bem bonita já, mas sobretudo deixando para trás as ilusões, os sonhos, a família, os amigos (muitos deles ou quase todos pretos e mestiços) o coração muito especialmente o espírito, a alma ficou lá e ainda deve andar por lá a vaguear.
Desculpe o tempo que levei a descrever isto mas também um dia terei de descarregar em memórias escritas todas as emoções que ainda estão acumuladas dentro de mim me fazem constantemente sofrer e assim há-de ser até à minha morte. 
Mas foi exactamente esse sábado de Agosto e esses cubanos que ainda não estavam em Angola( apenas deviam ser fardas e bonecos de madeira), que decidiram a minha retirada e cortaram aos pedaços o meu coração de angolano.
Portanto não acredite nas datas dos documentos. Acredite que os cubanos chegaram a Porto Amboim a primeira terra de Angola a porem os pés (uns dias depois acho que também desembarcaram na zona do Ambriz e Ambrizete).
Infelizmente tinha fotos deste facto bem como outras colhidas do meu tempo da tropa no comando chefe da Fortaleza de Luanda, mas tudo por lá ficou e alguns desses foram destruídos e roubados em dois controles dos pioneiros (miúdos armados em soldados do MPLA mas que se fosse preciso disparavam sem saber porquê).
Esta é a verdade acredite. Tão verdade que os meus olhos ainda vêem a imagem e verão sempre.
O segundo facto que queria dizer, era apenas a constatação de que provavelmente o 25 de Abril ter sido uma guerra de terrorismo ter acabado em Angola. Entrei para a tropa em 22 de Outubro de 1971 (emocionei-me um bocado depois ao fim destes anos todos vi hoje aqui no seu Site a foto da porta do Regimento do quartel de Nova Lisboa onde fiz a recruta) e depois de um mês de mato onde nada acontecia quase sempre, fui colocado em Luanda na fortaleza como um dos responsáveis da cantina da messe dos oficiais, assistia e dava apoio às reuniões que lá se faziam com as mais altas patentes militares, portuguesas e por vezes também estrangeiras com o general Luz da Cunha na altura e até ao 25 de Abril o Chefe do Estado Maior em Angola. 

Além disso também estive destacado alguns meses nos serviços de psicologia na guerra, também lá na fortaleza e embora sem os poder mostrar porque me foram destruídos, tive várias vezes na mão cópias dos mapas do controle do terrorismo, cartas das organizações que apoiavam os movimento turras e outros documentos e posso afirmar sem dúvidas que em 74 não havia qualquer zona (repito qualquer zona) do território angolano ocupado por qualquer movimento (UNITA, MPLA, FNLA ou qualquer outro) e também esses movimentos já não tinham apoios de armas apenas de medicamentos, cobertores e mantimentos que lhes eram dados pelos americanos, russos, suecos noruegueses e outros países que pela democracia os apoiavam.
Portanto já não havia guerra. Os movimentos estavam dominados e passavam fome, apenas fazer combates de emboscadas e fuga em algumas zonas do Leste de Angola (aliás quem os viu entrar em Angola depois do 25 de Abril) sabe muito bem como eles se apresentaram, esfarrapados, esfomeados e com uma maioria de canhangulos tendo apenas o FNLA que recrutou zairenses e recebeu fardas novinhas bem com metralhadoras que ainda brilhavam. Lembra-se disso com certeza.

Ora bem não havendo guerra em Angola, a paz interessava a quem? E sem guerra como seria as fortunas que os nossos militaras (alguns claro) fizeram. Então não havia luta a altura mais indicada para o 25 de Abril. Um dia veremos alguns destes valorosos e briosos heróis, como Soares, Otelo Saraiva & Cª entrar a história deste 25 de Abril. Agora não me venham é a dizer que se perdeu a Guerra em Angola por isso é a mentira mais infame que se poderá contar e pelos menos a memória dos que morreram naquela terra não merecem isso.
Bem já vou longo mais poderia dizer, mas apenas queria referir estes dois factos. Pelo menos é a minha verdade e não a verdade da história mas quantas verdades nós aprendemos ao longo dos anos na escola, no liceu e nos livros que são apenas as verdades possíveis ou as verdades que a política deixou escrever?

Acho que esta pergunta é uma bela forma de terminar. (...) Nós fomos impedidos de ser um país e quando digo nós, refiro-me aos que nasceram em Angola e aos portugueses que eram tão angolanos também mas não seremos nunca impedidos de ter memória, de ter coração, de ter alma, de ter espírito e de ter saudades.


  José Carlos Rodrigues NV034970@netvisao.pt
 


sexta-feira, 27 de abril de 2012

Notas sobre as conclusões do Seminário Guerra de África - Portugal Militar em Africa 1961-1974 - Actividade Militar, realizado no IESM em 12 e 13 de Abril de 2012. Por Carlos de Matos Gomes e Aniceto Afonso

O texto que segue, da autoria dos Coronéis Matos Gomes e Aniceto Afonso, dois  militares insuspeitos que viveram a guerra colonial (61/74), dá-nos uma explicação para a Revolução dos Cravos, para a descolonização, para a construção da Democracia em Portugal, e vem contrariar com dados concretos e factuais, muitos desconhecidos da maior parte, algumas teorias ideológicas que afirmam que a Guerra do (então) Ultramar estava ganha ou controlada. Os autores explicam a situção concreta na Guiné, Angola e Moçambique, bem como as questões politico-militares e sociais que se viviam nas 3 Províncias Ultramarinas, bem como em Portugal. Que cada um tire as suas conclusões!


guerra ultramarAA e CMG Conclusões do colóquioIESM1213april2012.pdfguerra ultramarAA e CMG Conclusões do colóquioIESM1213april2012.pdf
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ERA UMA VEZ UM MILÉNIO. Entrevista com Tenente-Coronel Aniceto Afonso e Fernando Rosas “Em tempo de mudança, a História do Século XX”


 
 


Por Franklin Rodrigues, Ana Colaço, Maria dos Anjos Pinheiro e Esmeralda Serrano.

A 4 de fevereiro de 1961 elementos do MPLA assaltam em Luanda a casa de reclusão militar, o quartel da PSP e a delegação da Emissora Nacional. 4 de Fevereiro de 1961 marca o início das guerras coloniais em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique. Em Portugal o Rádio Português recebia a 4 de Fevereiro a crónica do correspondente em Luanda.
Atenção Luanda, atenção Humberto esperamos com interesse as tuas informações.
Depois da conversa que tivemos há pouco, a situação em Luanda está perfeitamente calma. Podem tranquilizar-se aí em Lisboa. Estabelecimentos prisionais à mesma hora. Denunciam-se manobras do exterior pois parece não restarem dúvidas dada a acção que de relaciona com as directrizes da chamada Junta Revolucionária de Libertação Ibérica, mas como aconteceu...
Era esta a visão dos factos do correspondente do Rádio Clube Português em Luanda ano de 1961. A guerra colonial 36 anos depois, é hoje o tema do nosso programa como sempre com a colaboração do professor Fernando Rosas e o convidado é o tenente-coronel Aniceto Afonso.


Fernando Rosas - Um convidado muito especialmente para nos falar deste assunto. Ele está neste momento juntamente com o coronel Matos Gomes e outros colaboradores a escrever aquilo que é o primeiro ensaio de história da guerra colonial. Sai semanalmente num jornal diário. Senhor tenente-coronel há condições para se começar a escrever a guerra colonial do ponto de vista quer subjectivo da opinião das pessoas quer do ponto de vista do acesso às fontes
Tenente-coronel Aniceto Afonso - Bem, de facto, em primeiro lugar, nós devemos ser muito prudentes quando tratamos de questões complexas da História recente, mas isso aplica-se a todos os âmbitos e a todos os campos da História. Muitas vezes não temos acesso a todas as fontes, temos menos certezas do que de outras épocas em que as fontes estão acessíveis, mas não pode marcar-se uma data a partir da qual se pode começar a falar das coisas. Relativamente à acessibilidade da documentação, há documentação acessível. Ao nível do Exército a documentação está acessível com trinta anos, portanto está acessível até 1966 e para além disso há muito testemunho e alguma obra já escrita sobre a guerra.
Fernando Rosas - Tem tido colaboração nesse trabalho de antigos combatentes, mesmo fora da instituição militar, ou seja gente que queira dar testemunho, fotografia, documento.
Tenente-coronel Aniceto Afonso - Sim. Principalmente tivemos muita colaboração relativamente às fotografias. Portanto, nesse aspecto como a obra é uma obra de divulgação e tem que ser profusamente ilustrada e então tivemos que recorrer a muitas fontes e a muitas pessoas que possuíam arquivos pessoais fotográficos importantes e nesse aspecto sim, tivemos a colaboração de muita gente.
Fernando Rosas – E da parte da instituição militar há disponibilidade no sentido de a investigação e nomeadamente a investigação não militar poder ter acesso às fontes sobre esse período?
 
Tenente-coronel Aniceto Afonso – O acesso às fontes tem normas e a norma que o Exército utiliza hoje é a norma europeia, isto é, trinta anos após os acontecimentos os arquivos são abertos, só que em Portugal há um problema que sempre vem ao de cima, é a questão do tratamento da documentação. O tratamento da documentação é um processo lento, é um processo que exige muito pessoal e pessoal preparado tecnicamente e nem sempre as instituições dispõem desse pessoal e por isso, embora se acumulem nos arquivos muita documentação e muitos fundos arquivísticos que são fundamentais para o estudo desse período, a verdade é que não existe disponibilidade para se fazer o seu tratamento e portanto existe sempre dificuldade em colocá-lo em acesso ao público. No exército todo o material que está tratado arquivisticamente até 1966, portanto, que já fez trinta anos, está aberto ao público. Está a acessível.
Fernando Rosas – Haveria mais questões a tratar sobre esta questão da acessibilidade, mas eu penso que para não transformar isto numa conversa excessivamente técnica sobre acesso aos arquivos, eu ia pôr-lhe uma questão sobre o nosso objecto que é esta. Há uma questão que se nos impõe. Como é que um país como Portugal, economicamente pouco desenvolvido nos anos sessenta, consegue aguentar durante treze anos uma guerra em três frentes, mobilizando cerca de, mais de 100 000 mil homens, com despesas naturalmente vultuosas. Como é que do seu ponto de vista de historiador do assunto, como é que se conseguiu aguentar esta guerra. Porque era barata? Por fraqueza do inimigo? Porquê?
Tenente-coronel Aniceto Afonso – Bem, eu julgo que talvez um pouco de todos esses factores. Digamos a situação que se colocava, que se colocou a Portugal era de sustentar uma guerra em três teatros de operações extremamente distantes uns dos outros, extremamente distantes da retaguarda, uma guerra que, sendo no terreno, principalmente na primeira fase da guerra, portanto digamos até meio da guerra, barata era, no entanto, por estas circunstâncias de distância uma guerra cara.
Fernando Rosas – Porque é que se tornou mais cara?
Tenente-coronel Aniceto Afonso – Tornou-se mais cara porque as guerras como sempre têm tendência para evoluir tecnicamente e dá-se a evolução dos dois lados e à medida que se dá essa evolução tem sempre que se equilibrar aquilo que se chama potenciais de combate e ao equilibrar potenciais de combate aumentam-se substancialmente as despesas relacionadas com o material que são normalmente as despesas mais pesadas na guerra, na condução da guerra. De modo que eu julgo que os motivos por que se manteve uma guerra dessas durante tanto tempo podemos dissecá-los em vários campos. São questões de natureza política e são depois também questões de natureza de aplicação militar ou doutrinário, digamos, de princípios militares da guerra de guerrilhas. Eu julgo que aí, apesar de tudo, devemos reconhecer às forças armadas portuguesas uma capacidade que não parecia ao seu alcance e que elas conseguiram compreender o tipo de guerra que iam enfrentar e conseguiram opor-lhe uma doutrina que talvez seja em alguns aspectos inovadora.
Fernando Rosas – No campo da contra-guerrilha.
Tenente-coronel Aniceto Afonso – No campo da contra-guerrilha. É verdade que o adversário, portanto, os movimentos de libertação nas colónias portuguesas só começaram a estruturar-se, portanto a ser mais fortes em termos militares, já passados alguns anos do início da luta armada, mas não é menos verdade que noutros territórios coloniais isso também aconteceu e no entanto rapidamente a guerra evoluiu ou para soluções que não eram só de natureza militar, para soluções de natureza política ou evoluiu para confrontos mais de outra natureza, portanto que ultrapassou a natureza da guerrilha e que obrigou exactamente a encontrarem-se soluções políticas. Nas colónias portuguesas isso não aconteceu, portanto prolongou-se esse estado, digamos, um pouco de irresolução, não é. Portanto, sem se saber de facto em que sentido caminhar. Se para uma solução política, para a exigência, as próprias circunstâncias exigirem uma solução política ou para a continuação do mesmo nível da ...
Fernando Rosas – O senhor tenente-coronel referiu há pouco que as forças armadas portuguesas assimilaram com rapidez a problemática das novas condições desse tipo de guerra. Tinham tido, ao que sei, alguma experiência anterior ao próprio começo da guerra, na Argélia e noutros centros de instrução. Creio que os franceses e os ingleses terão sido as fontes dos conhecimentos principais. A pergunta que eu queria fazer, no entanto, era esta. Acha que a partir de algum momento da guerra da parte das chefias há a noção de que a guerra não tem solução militar e acha que por virtude dessa consciência se terá aberto uma conflitualidade com o poder político?
Tenente-coronel Aniceto Afonso – Quase temos que separar caso a caso, pessoa a pessoa. De facto houve, em primeiro lugar, houve esse contacto prévio com outros teatros de operações, principalmente na Argélia, que trouxeram um conhecimento a esses oficiais que frequentaram.
Fernando Rosas – Antes mesmo de começar...

Tenente-coronel Aniceto Afonso – Antes mesmo de começar a guerra e o facto é que nós, em 1961, o Exército produziu um manual que se manteve em execução até ao final da guerra. Com pouquíssimas alterações que é “O Exército na guerra subversiva” e esse foi o manual de todos os militares que fizeram a guerra e como ele se manteve sempre, praticamente não precisou de alterações é porque, de facto, esses militares perceberam o que é que era essencial numa guerra de guerrilhas porque, digamos que o meio da guerra de guerrilhas não é o terreno e perceberam rapidamente que é a população. Digamos há na manobra militar, há várias manobras e a manobra militar aqui é talvez a manobra menos importante. A grande manobra é a manobra das populações.
Fernando Rosas – Da qual a militar é complementar.
Tenente-coronel Aniceto Afonso – A manobra militar é complementar e na guerra de guerrilhas, digamos, o Exército português percebeu isso. Julgo eu que percebeu isso duma forma geral muito cedo e por isso a organização do Exército em quadrícula nos teatros de operações foi fundamental para resolver esse problema do enquadramento das populações. Os militares que se situavam numa zona de acção, numa área apercebiam-se rapidamente dos problemas fundamentais dessa área e principalmente das populações dessa área e souberam, portanto arranjaram soluções para, de alguma forma, furtar a população à acção dos movimentos de libertação. Julgo que isso foi fundamental. A outra questão...
Fernando Rosas – Da parte das chefias. Falava eu da questão da consciência das chefias. Se terá ou não desenvolvido
Tenente-coronel Aniceto Afonso – Esse é outro problema [Fernando Rosas – Irresolução militar da guerra] Esse é outro problema. Houve chefes que compreenderam isso bastante cedo e à medida que nós aprofundamos o conhecimento que temos deles e dos seus documentos vamos percebendo que muito cedo se aperceberam disso e houve chefes que nunca se aperceberam disso. Isto é fizeram a guerra sem se aperceber. [Fernando Rosas – O general Spínola, o general Costa Gomes]. Eu julgo que podemos falar de nomes, eu julgo que podemos falar de nomes. Julgo que os dois que referiu se aperceberam que a solução da guerra não podia ser militar. [Fernando Rosas – E esses homens criaram escola nas Forças Armadas do ponto de vista...?] Mais o general Spínola criou, mais o general Spínola criou escola do que o general Costa Gomes até porque isso está de acordo com as suas próprias características pessoais, a sua personalidade. O general Costa Gomes, já falando em cada um dos casos, o general Costa Gomes digamos aplicou a sua solução no Leste de Angola e quando ele é comandante chefe de Angola e aplicou uma solução de certa forma por antecipação. Ele percebeu que a guerra ia ter uma segunda fase em Angola que era o Leste e antes que se desse a abertura dessa frente, ele instalou as tropas no terreno, fez a sua quadrícula e portanto adiantou-se de alguma maneira ao início da guerra por parte dos Movimentos de Libertação [Fernando Rosas – Dificultou a abertura da frente Leste ao MPLA] Dificultou exactamente, dificultou e muito para além de outras medidas que foram concorrentes com esta, complementares desta. A criação de forças irregulares que foi o acordo a que depois chegou com a UNITA. Portanto a própria existência de mais do que um Movimento facilitou também o papel das Forças Armadas.
Fernando Rosas – Mas ele tinha a consciência de que todas essas medidas eram medidas tendentes a ganhar tempo para uma solução política.
Tenente-coronel Aniceto Afonso – Há isso sempre. Parece-me hoje evidente que mesmo nos escritos oficiais e mesmo naquilo que veio a ser publicado, dito pelo general Costa Gomes na altura que é evidente que ele acha sempre, deixa sempre uma mensagem de que a guerra não se podia resolver só por meios militares.
Fernando Rosas – Mas de qualquer maneira, encontrará, creio que não me engano, se sugerisse ao senhor tenente-coronel que é difícil encontrar mais oficiais generais a partilhando desse ponto de vista na altura.
Tenente-coronel Aniceto Afonso – Vamos do outro que é o general Spínola.
“Há que entrar no âmago do movimento africano, detectar as aspirações comuns e sobre estas construir esquemas de cooperação e interdependência que liguem de facto africanos e europeus e permitam sobre essa solidariedade afirmação de sólida unidade político-económica. Não se nos afigure porém impossível tal solução, senão pela via da construção de sociedades individualizadas, unificadas sob um estatuto que, garantindo a pluralidade, constituem na ordem externa uma unidade suficientemente flexível para que pelo seu seio as diversas partes possam prosperar, afirmar-se e realizar-se”.
(Excerto de discurso do general Spínola)
O general Spínola foi para a Guiné em 1968 como Comandante Chefe e Governador Geral, é uma situação pouco comum. Se reparar bem em todo o... [Fernando Rosas – Concentrar o poder político e o poder civil] Concentrar o poder político e o poder militar na mesma pessoa num teatro de operações. Ele foi para lá nessa situação em 1968 e logo em 19668 ele fez um estudo de situação em que anuncia, de alguma forma, aquilo que virá a ser a sua acção durante os cinco anos que ele lá esteve e em que não nos deixa dúvidas nenhumas ao ler os seus escritos e essas suas directivas, não nos deixa dúvida nenhuma que ele percebeu, desde o princípio, que aquilo era uma guerra sem solução militar e que era preciso conjugar uma solução política, arranjar uma solução política, que necessariamente passaria por negociações com os Movimentos de Libertação, o PAICG, para chegar a uma solução. É claro que essa solução era na altura compreendida, uma solução dentro dum, uma solução portuguesa, se assim quisermos dizer, mas que fosse partilhada com o PAIGC, evidentemente.
Fernando Rosas – Evidentemente, isso no general Spínola vai ela própria evoluindo.
Tenente-coronel Aniceto Afonso – Vai também, vai também. Não tenho é tanto a certeza em que sentido em que ela evolui. [Fernando Rosas – Se para trás, se para a frente] Sim. Não tenho a certeza. Parece-me que ele em 1968 faz um diagnóstico exaustivo da situação e chega exactamente à conclusão que são necessárias negociações.

 Fernando Rosas – E acha que a partir de certa altura ele terá pensado que é possível ganhar militarmente a guerra?
Tenente-coronel Aniceto Afonso – Julgo que não, julgo que no terreno não. Agora poderia ser  [Fernando Rosas – Como explica a Operação Mar Verde no sul da Guiné] Talvez essa seja das atitudes inexplicáveis. Talvez seja porque [Fernando Rosas – Talvez pressão do seu ´staff´] Talvez sim. Também não tenho um conhecimento suficiente, em termos dos acontecimentos, para situar a Operação Mar Verde no conjunto de acções que ele estava a fazer onde a Operação Mar Verde parece não ter lugar.
Locutora - Já agora, desculpem, como é que foi a Operação Mar Verde?
Tenente-coronel Aniceto Afonso – Estamos a falar duma Operação que nós chamamos irregular que é uma Operação feita no exterior, portanto feita no exterior do território do teatro de operações, na Guiné-Conacri, com tropas de certa forma irregulares também, embora sendo constituídas também por militares, eram também, de alguma forma, irregulares. Era uma operação feita no exterior, com finalidades políticas. [Fernando Rosas – Só para os ouvintes saberem, finalidades essas que consistiriam em derrubar o Sekou Touré e aparentemente liquidar fisicamente Amilcar Cabral]. Esse segundo objectivo que tem constado parece tão incongruente que o general Spínola vinha fazendo e com a aproximação que ele vinha fazendo exactamente ao Amilcar Cabral através do Senghor que de certa forma não encontramos uma explicação muito válida ainda hoje não encontramos uma explicação muito válida para saber o que é que ele poderia ter feito, quer dizer, o que é que o general Spínola e mesmo Portugal poderia ter feito com uma vitória, se tivessem alcançado esses objectivos de derrubar o Sekou Touré e matar o Amilcar Cabral, se esse era verdadeiramente o objectivo. [Fernando Rosas – Libertar os presos, etc.] Sim, esse foi o objectivo atingido, mas os outros se tivessem sido atingidos talvez hoje não se perceba muito bem o que é que se teria feito com isso porque o Governo Português, Portugal iria ficar numa situação extremamente incómoda em termos internacionais e o general Spínola também iria ficar ele próprio também numa situação extremamente incómoda, quase insustentável, portanto, continuamos a interrogarmo-nos sobre essa questão da Operação Mar Verde. Mas essa não nos parece ser a linha de pensamento do general Spínola. Parece-nos ser alguma coisa que estaria fora do pensamento dele com [Fernando Rosas – Constato que temos um chefe militar com o pensamento de conjugação da solução militar com a política em Angola, um na Guiné, em Moçambique falta um chefe militar desse género.] Faltou, Julgo que faltou.

Fernando Rosas – E isso teve repercussões na condução da guerra?
Tenente-coronel Aniceto Afonso – Teve muito, muitas repercussões.
Fernando Rosas – Diga-me um pouco como é que observa esse problema.
Tenente-coronel Aniceto Afonso – Esse, portanto, o chefe que se associa à guerra em Moçambique é o general Kaulza de Arriaga. O general Kaulza de Arriaga foi Comandante-chefe a partir de 1970 e desde logo fez uma coisa que os mais prudentes generais, mesmo os menos prudentes generais portugueses já não faziam em 1970. Já tinham aprendido muito com a guerra e já sabiam que neste tipo de guerra não de faziam grandes operações. As grandes operações que se fizeram, fizeram-se no início da guerra, fizeram-se em Angola, foi a operação que levou à reocupação de Nambuongongo, a Operação Viriato, é uma grande operação que envolve grandes efectivos. Fez-se na Guiné com a Operação Tridente de ocupação da ilha de Como, também uma operação conjunta com os três ramos das Forças Armadas e com grandes efectivos. [Fernando Rosas – Estamos a falar de operações de guerra clássica] Um pouco de guerra clássica, não é. Começando uma guerra seguinte como forma de acabar a de guerra anterior, não é. Na segunda guerra e portanto aplicou-se nestes territórios essa grande operação. Em Moçambique também se fez uma grande operação no planalto dos Macondes, em Cabo Delgado, que foi a Operação Águia, também um pouco com esta dimensão [Fernando Rosas – Antes da Nó Górdio] Muito antes, logo no início da guerra. Estamos a falar nas três grandes operações que se fez uma em cada teatro, logo no início da guerra. [Fernando Rosas – Portanto naquilo que se pode chamar uma primeira fase da guerra.] Uma espécie de primeira fase. Isso até é uma fase muito rápida. Rapidamente se percebeu que isso não era o tipo de operações daquela guerra. Aquela guerra era uma guerra de pequenas operações, de grande dispersão de tropas, de presença de tropas no terreno, com forças de quadrícula, ocupando todo o terreno e depois forças de intervenção que fariam as tais operações mais concretas, não é. Kaulza de Arriaga em 1970 parece que ainda não teria percebido este princípio da guerra de guerrilhas e em 1970...
Fernando Rosas – Qual era a filosofia da Operação Nó Górdio?
Tenente-coronel Aniceto Afonso – Em 1970 a filosofia era praticamente igual a esta filosofia que se aplicou em 61 até 64, nestas grandes operações. São grandes operações que se destinam a expulsar o inimigo duma zona e foi o que aconteceu. O que estava em causa era o planalto dos Macondes onde a FRELIMO tinha bases, bases que já vinham desde há vários anos e que toda sabia que elas existiam e onde estavam, mas que na condução duma guerra de guerrilhas eram encaradas duma certa maneira pelas forças portuguesas a quem não incomodava que as bases da FRELIMO estivessem naqueles locais desde que elas não saíssem daquela área ou daquela zona de acção e desde que a guerra não se estendesse para além de certos limites. Os limites que eram fixados, a zona de guerra, digamos, era fixada o que se pretendia principalmentalmente era que a guerra não alastrasse a outras zonas. Digamos era uma guerra morna não é, que se desenvolvia naquelas áreas. Quando o general Kaulza de Arriaga prepara a Operação Nó Górdio, Operação de grande dimensão, com muitos efectivos, que vai actuar nesse planalto dos Macondes onde a FRELIMO estava instalada, com assalto às bases da FRELIMO. É uma Operação preparada com alguma antecedência.
Fernando Rosas – Era possível um Comandante-Chefe de Moçambique ter completa autonomia para desencadear uma operação que contrariava um pouco a doutrina militar em vigor nas Forças Armadas nesse momento.
Tenente-coronel Aniceto Afonso – Eu não posso afirmar se ele teve ou não teve autorização para fazer essa Operação. Julgo que sim.

 Fernando Rosas – O Chefe Maior General já era o general...
Tenente-coronel Aniceto Afonso – Em 1970 sim. Mas julgo que Costa Gomes. Não, julgo que ainda não era. Eu julgo que o Comandante-Chefe tinha autonomia para fazer esta operação ou outro tipo de operação. Digamos na sua carta de comando não se lhe impunha o tipo de operação que devia fazer. A condução da guerra, digamos, após ser nomeado [Fernando Rosas – Pode-se dizer não havia uma doutrina militar vigente acerca da condução da guerra.] Havia, mas não neste aspecto. Havia, a doutrina militar que havia era nesses aspectos do dia a dia, da ligação, da condução das pequenas operações, das emboscadas, do golpe de mão, de patrulhamentos, portanto todas essas pequenas operações e da relação com as populações. Aí sim, havia doutrina. Se se fazia uma grande operação ou uma pequena operação isso depende do chefe. Se estrategicamente é importante fazer ou não fazer.
Fernando Rosas – Corrigir-me-á, mas o que julgo perceber é que se está instalada uma doutrina militar de quadrícula para a condução da guerra e de repente se mete em cima dessa doutrina uma operação deste género isto desarticula completamente todo o esquema militar que está em vigor.
Tenente-coronel Aniceto Afonso – Até certo ponto podemos admitir que sim. Até certo ponto podemos admitir que sim porque as forças militares que forem empregues nessa operação foram principalmente forças militares de intervenção, portanto não são as forças militares de quadrícula. Portanto, são aquelas forças que estão de reserva sob o comando directo do Comandante-Chefe, embora vários batalhões de quadrícula tenham participado também nas acções que são complementares propriamente dos assaltos e dos golpes de mão às bases da FRELIMO. O que aconteceu é que isto foi sabido pela FRELIMO com muita antecedência porque os sistemas de informação funcionam para os dois lados, e quando se deu o assalto evidentemente as bases da FRELIMO estavam desocupadas, já não estava lá ninguém da FRELIMO e digamos todos os guerrilheiros ou a maior parte dos guerrilheiros estavam fora da área que foi definida para a grande operação e portanto os resultados digamos, em termos da aplicação de meios, os resultados foram bastante diminutos.
“Portugal, anos 60: a guerra colonial”. Com a colaboração do professor Fernando Rosas e do tenente-coronel Aniceto Afonso, tema ainda dos próximos programas.
Fizeram este programa Franklin Rodrigues, Maria dos Anjos Pinheiro e Esmeralda Serrano.

(Programa gravado da Antena 2 no dia 21 de Novembro de 1997)





2ª Parte


CONTINUA...

Monografias, Dissertações e Teses

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Os Zombo e o futuro (Nzil’a Bazombo): na Tradição, na Colónia e na Independência, by Jose Carlos de Oliveira

 Tese de Doutoramento
Os Zombo Este subgrupo étnico, também conhecido por Bazombo, Bambata (Ba Mbata), foi considerado como a elite mercantil da região de M’Bata e parte integrante do célebre Reino do Kongo . O seu chefe ancestral, Nsaku Ne Vunda ou...   [More]
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quarta-feira, 25 de abril de 2012

"As Portas que Abril Abriu" poema de José Carlos Ary dos Santos








«As Portas que Abril Abriu»
José Carlos Ary dos Santos



Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra. 

Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.

Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado.

Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado.

Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra.

Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos.

Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.

Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.

Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração. 


Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

Esses que tinham lutado
a defender um irmão
esses que tinham passado
o horror da solidão
esses que tinham jurado
sobre uma côdea de pão
ver o povo libertado
do terror da opressão.

Não tinham armas é certo
mas tinham toda a razão
quando um homem morre perto
tem de haver distanciação
uma pistola guardada
nas dobras da sua opção
uma bala disparada
contra a sua própria mão
e uma força perseguida
que na escolha do mais forte
faz com que a força da vida
seja maior do que a morte.

Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

Posta a semente do cravo
começou a floração
do capitão ao soldado
do soldado ao capitão.

Foi então que o povo armado
percebeu qual a razão
porque o povo despojado
lhe punha as armas na mão.

Pois também ele humilhado
em sua própria grandeza
era soldado forçado
contra a pátria portuguesa.

Era preso e exilado
e no seu próprio país
muitas vezes estrangulado
pelos generais senis.

Capitão que não comanda
não pode ficar calado
é o povo que lhe manda
ser capitão revoltado
é o povo que lhe diz
que não ceda e não hesite
– pode nascer um país
do ventre duma chaimite.

Porque a força bem empregue
contra a posição contrária
nunca oprime nem persegue
– é força revolucionária!
Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.

Disse a primeira palavra
na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena.

E então por vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
desceram homens sem medo
marujos soldados «páras»
que não queriam o degredo
dum povo que se separa. 


E chegaram à cidade
onde os monstros se acoitavam
era a hora da verdade
para as hienas que mandavam
a hora da claridade
para os sóis que despontavam
e a hora da vontade
para os homens que lutavam.

Em idas vindas esperas
encontros esquinas e praças
não se pouparam as feras
arrancaram-se as mordaças
e o povo saiu à rua
com sete pedras na mão
e uma pedra de lua
no lugar do coração.

Dizia soldado amigo
meu camarada e irmão
este povo está contigo
nascemos do mesmo chão
trazemos a mesma chama
temos a mesma ração
dormimos na mesma cama
comendo do mesmo pão. 


Camarada e meu amigo
soldadinho ou capitão
este povo está contigo
a malta dá-te razão.

Foi esta força sem tiros
de antes quebrar que torcer
esta ausência de suspiros
esta fúria de viver
este mar de vozes livres
sempre a crescer a crescer
que das espingardas fez livros
para aprendermos a ler
que dos canhões fez enxadas
para lavrarmos a terra
e das balas disparadas
apenas o fim da guerra.

Foi esta força viril
de antes quebrar que torcer
que em vinte e cinco de Abril 

fez Portugal renascer.
E em Lisboa capital
dos novos mestres de Aviz
o povo de Portugal
deu o poder a quem quis.

Mesmo que tenha passado
às vezes por mãos estranhas
o poder que ali foi dado
saiu das nossas entranhas. 


Saiu das vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
onde um povo se curvava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.

E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe. 


Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu.

Essas portas que em Caxias
se escancararam de vez
essas janelas vazias
que se encheram outra vez
e essas celas tão frias
tão cheias de sordidez
que espreitavam como espias
todo o povo português.

Agora que já floriu
a esperança na nossa terra
as portas que Abril abriu
nunca mais ninguém as cerra.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.

Quando o povo desfilou
nas ruas em procissão
de novo se processou
a própria revolução.

Mas eram olhos as balas
abraços punhais e lanças
enamoradas as alas
dos soldados e crianças.

E o grito que foi ouvido
tantas vezes repetido
dizia que o povo unido
jamais seria vencido.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.

E então operários mineiros
pescadores e ganhões
marçanos e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
souberam que o seu dinheiro
era presa dos patrões.

A seu lado também estavam
jornalistas que escreviam
actores que se desdobravam
cientistas que aprendiam
poetas que estrebuchavam
cantores que não se vendiam
mas enquanto estes lutavam
é certo que não sentiam
a fome com que apertavam
os cintos dos que os ouviam.

Porém cantar é ternura
escrever constrói liberdade
e não há coisa mais pura
do que dizer a verdade.

E uns e outros irmanados
na mesma luta de ideais
ambos sectores explorados
ficaram partes iguais.

Entanto não descansavam
entre pragas e perjúrios
agulhas que se espetavam
silêncios boatos murmúrios
risinhos que se calavam
palácios contra tugúrios
fortunas que levantavam
promessas de maus augúrios
os que em vida se enterravam
por serem falsos e espúrios
maiorais da minoria
que diziam silenciosa
e que em silêncio fazia
a coisa mais horrorosa:


minar como um sinapismo
e com ordenados régios
o alvor do socialismo
e o fim dos privilégios.

Foi então se bem vos lembro
que sucedeu a vindima
quando pisámos Setembro
a verdade veio acima.

E foi um mosto tão forte
que sabia tanto a Abril
que nem o medo da morte
nos fez voltar ao redil.

Ali ficámos de pé
juntos soldados e povo
para mostrarmos como é
que se faz um país novo.

Ali dissemos não passa!
E a reacção não passou.


Quem já viveu a desgraça
odeia a quem desgraçou.
Foi a força do Outono
mais forte que a Primavera
que trouxe os homens sem dono
de que o povo estava à espera.

Foi a força dos mineiros
pescadores e ganhões
operários e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
que deu o poder cimeiro
a quem não queria patrões.

Desde esse dia em que todos
nós repartimos o pão
é que acabaram os bodos
— cumpriu-se a revolução.

Porém em quintas vivendas
palácios e palacetes
os generais com prebendas
caciques e cacetetes
os que montavam cavalos
para caçarem veados
os que davam dois estalos
na cara dos empregados
os que tinham bons amigos
no consórcio dos sabões
e coçavam os umbigos
como quem coça os galões
os generais subalternos
que aceitavam os patrões
os generais inimigos
os generais garanhões
teciam teias de aranha
e eram mais camaleões
que a lombriga que se amanha
com os próprios cagalhões. 


Com generais desta apanha
já não há revoluções.

Por isso o onze de Março
foi um baile de Tartufos
uma alternância de terços
entre ricaços e bufos.

E tivemos de pagar
com o sangue de um soldado
o preço de já não estar
Portugal suicidado.

Fugiram como cobardes
e para terras de Espanha
os que faziam alardes
dos combates em campanha.

E aqui ficaram de pé
capitães de pedra e cal
os homens que na Guiné
aprenderam Portugal.
Os tais homens que sentiram
que um animal racional
opõe àqueles que o firam
consciência nacional.

Os tais homens que souberam
fazer a revolução
porque na guerra entenderam
o que era a libertação.

Os que viram claramente
e com os cinco sentidos
morrer tanta tanta gente
que todos ficaram vivos.

Os tais homens feitos de aço
temperado com a tristeza
que envolveram num abraço
toda a história portuguesa.

Essa história tão bonita
e depois tão maltratada
por quem herdou a desdita
da história colonizada.

Dai ao povo o que é do povo
pois o mar não tem patrões.


– Não havia estado novo
nos poemas de Camões!
Havia sim a lonjura
e uma vela desfraldada
para levar a ternura
à distância imaginada.

Foi este lado da história
que os capitães descobriram
que ficará na memória
das naus que de Abril partiram
das naves que transportaram
o nosso abraço profundo
aos povos que agora deram
novos países ao mundo.

Por saberem como é
ficaram de pedra e cal
capitães que na Guiné
descobriram Portugal.

E em sua pátria fizeram
o que deviam fazer:


ao seu povo devolveram
o que o povo tinha a haver:


Bancos seguros petróleos
que ficarão a render
ao invés dos monopólios
para o trabalho crescer. 


Guindastes portos navios
e outras coisas para erguer
antenas centrais e fios
dum país que vai nascer.

Mesmo que seja com frio
é preciso é aquecer
pensar que somos um rio
que vai dar onde quiser
pensar que somos um mar
que nunca mais tem fronteiras
e havemos de navegar
de muitíssimas maneiras.

No Minho com pés de linho
no Alentejo com pão
no Ribatejo com vinho
na Beira com requeijão
e trocando agora as voltas
ao vira da produção
no Alentejo bolotas
no Algarve maçapão
vindimas no Alto Douro
tomates em Azeitão
azeite da cor do ouro
que é verde ao pé do Fundão
e fica amarelo puro
nos campos do Baleizão. 


Quando a terra for do povo
o povo deita-lhe a mão!

É isto a reforma agrária
em sua própria expressão:
a maneira mais primária
de que nós temos um quinhão
da semente proletária
da nossa revolução.
Quem a fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um menino que sorriu
uma porta que se abrisse
um fruto que se expandiu
um pão que se repartisse
um capitão que seguiu
o que a história lhe predisse
e entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo que levantava
sobre um rio de pobreza
a bandeira em que ondulava
a sua própria grandeza! 


De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse. 


Só nos faltava que os cães
viessem ferrar o dente
na carne dos capitães
que se arriscaram na frente.

Na frente de todos nós
povo soberano e total
que ao mesmo tempo é a voz
e o braço de Portugal.
Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisas em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder! 


E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!


Lisboa, Julho-Agosto de 1975

terça-feira, 24 de abril de 2012

O ‘Tocoismo’ e o Pensamento Político Religioso Zombo Contemporâneo

 
 
 
Embora já tenhamos, por diversas vezes, citado o conceito Zeitgeist, temos aqui, mais uma vez, a oportunidade de apelar para a sua relevância, por se tratar da ideia do "espírito da época" ou "espírito dos tempos" e daí partirmos para o estudo do fenómeno do tocoísmo.
 
No princípio do capítulo referente à colonização, ‘Algumas Especificidades da ‘Situação Colonial’ entre os Zombo Desde 1910 até ao final da 2ª Guerra Mundial (1945)‘, mencionámos os autores que suportariam a análise e o nosso pensamento sobre os zombo. Cabe agora a vez de nos auxiliarmos do pensamento do quinto e último autor: Arthur Ramos de Araújo Pereira, médico psiquiatra, psicólogo social, indigenista, etnólogo, folklorista e antropólogo. Evidenciamos que o que mais nos aproxima deste autor são as comparações que podemos estabelecer, muito nitidamente, com os kongo e, por consequência, com os zombo através de três obras de sua autoria: O Negro Brasileiro (1934)25, O Folklore Negro do Brasil (1935)26 e finalmente Estudos de Folk‑Lore (1951)27.
 
Demos a preferência ao citado autor, neste capítulo, para nos aproximarmos dos conceitos do profeta Simão Gonçalves Toco e da sua obra, dentro das igrejas cristocêntricas predominantemente existentes no Congo e especialmente entre os zombo.
 
Se Arthur Ramos, em 1934, na obra ‘O Negro Brasileiro’, não receia debruçar‑se sobre as propostas do pensamento de Lévy Bruhl, através do ‘método etno‑comparativo’ sobre A Mentalidade Pré‑lógica28 e a Lei da Participação e, com elas, construir o seu próprio pensamento, também nós, embora com ‘luvas de veludo’ mas mão firme e, apesar dos riscos inerentes à questão da Mentalidade Pré‑lógica, onde estão sempre presentes os termos civilizado e o primitivo ou selvagem, expressões que nos obrigam a enquadrar o significado na linguagem da sua época, começamos por, acerca deste último conceito citar Ramos (1934: 208) quando ele propõe:
“(…) É essa persistencia da mentalidade pre‑logica que vem a explicar todos os factos de survival fetichista entre os negros bahianos de nossos dias. Em outro logar, procurei demonstrar que as praticas do curandeirismo, nos meios incultos do Brasil, revelavam a persistencia desta mentalidade pre‑logica, ou como diz Bleuler, do “pensamento indisciplinado e autistico”. O “paganismo contemporaneo”, o folk‑lore das sociedades adiantadas, evidenciam a persistencia destes elementos pre‑logicos que podem coexistir ao lado dos pensamentos logicos.
Mas o pensamento logico não pode pretender supplantar inteiramente a mentalidade pre‑logica. Os responsaveis pela cultura e progresso sociaes devem attentar bem nesse problema (…)”.
 
Aqui temos uma achega bem forte para compreender o pensamento religioso e político zombo e tudo mais que acerca deles temos vindo a escrever. Porém, o outro pensamento que é a lei da participação (1934:207) vai entroncar no conceito mencionado acima:
“(…) A ligação das representações, no primitivo, foge, assim, às leis da logica formal. Ha nella, relações mysticas que implicam uma participação entre sêres e objectos entreligados nas representações collectivas. Lévy‑Bruhl deu o nome de lei da participação ao “principio proprio da mentalidade primitiva que rege as ligações e as préligações destas representações”. Só com muita difficuldade apprehende a nossa mentalidade a significação desta lei, e, por esse motivo, torna‑se difficil enunciá‑la sob forma abstracta. (…)”
 
Em 31 de Julho de 2005, fomos convidados, mais uma vez, por anciãos conselheiros, para assistir e participar no congresso tocoísta desse ano, que se realizou nos arredores de Lisboa, em sede própria, na rua Senhor Roubado LT1, Vale do Forno, Odivelas (será simples coincidência o nome da rua?). Relataremos o que nos parece essencial, a fim de construirmos o corpo desta secção. Por feliz permissão da direcção da mesa, foi‑nos concedido o registo em vídeo de toda a cerimónia, por isso, as considerações que fazemos são cópia fiel do que ali se passou.
Os trabalhos foram iniciados com as seguintes palavras:
“– Zulumongo é a cidade santa do Ntaya em Maquela do Zombo (…)”
 
O termo Zulumongo, pela tradução à letra, sugere‑nos o seguinte: Zulu quer dizer céu e Mongo significa monte. Ocorre‑nos então fazer uma breve extrapolação: Zulu Mongo significaria para os tocoístas, o que o Monte Sinai significa para os judeus (Êxodo 19:20).
 
Da cerimónia, retiramos dois excertos que nos parecem reflectir o seu espírito. Um dos participantes, com cerca de sessenta e cinco anos de idade, deu o seu testemunho sobre factos passados há cinquenta anos atrás, (previamente autorizado pela mesa a usar da palavra) proferindo as seguintes palavras:
“(…) – Quando Simão Toco no norte começou a percorrer as aldeias, as populações que acompanhavam Simão Toco eram vestidas de branco. Nós, naquela altura éramos muito crianças, mas ouvimos a canção que cantavam era GUNGA GUELA, que quer dizer “o sino tocava’ e tinha um significado: era o despertar das populações para um reino melhor. Eu acho que a canção GUNGA GUELA, GUELA, era uma canção fetiche que despertava as almas das populações. Não me alongo mais porque estou totalmente comovido pelos cânticos que hoje ouvimos. (…)“
 
Esta intervenção terminou com a referência ao termo fetiche que nós transferimos para o kikongo por nkisi e ao qual nos referimos, em pormenor, no capítulo quatro, na secção Particularidades do Processo Mágico.
 
A leitura do discurso do dia esteve a cargo do ‘irmão’ José António Malanga, de que salientamos as seguintes palavras:
“(…) Ao 56º aniversário da descida do Espírito Santo sobre a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo, com Sede Espiritual, em Sadi Zulumongo, Ntaya Makela do Zombo, a direcção Nacional da Igreja, em Portugal, no dia 25 de Julho de 2005, informa:
Em Julho de 1946, realizou‑se a conferência missionária internacional das missões protestantes de todo o mundo, em Leopoldville, capital do ex‑Congo Belga, com a presença de indivíduos de todas as partes do globo, na qual se tratou a educação em geral dos Africanos, o aumento da civilização, dos direitos cívicos e outros e finalmente o aumento da luz do Evangelho de Cristo. Antes do encerramento da conferência foram escolhidos três nativos de Angola para dirigirem petições a Deus.
O 1º interveniente o Reverendo Gaspar de Almeida da missão episcopal Evangélica de Luanda que orou a Deus para aumentar a instrução, educação e progresso de unificação entre brancos e negros. O 2º orador pedia a melhoria das condições sociais e que os negros pudessem ganhar dinheiro como os brancos. Esse africano chamava‑se José Jesser Chipenda. O terceiro orador foi Simão Gonçalves Toco, foi‑lhe dito pelos missionários nomeadamente pelo Dr. Tocker (?) da missão do Dondi, província do Huambo, e o Dr. Brech (?) da missão Africana de Kalukembe, província da Huíla, que pedisse apenas ao Espírito Santo afim de converter o povo africano que se encontrava nas trevas do pecado visto que sem a força do Espírito Santo, África continuaria nas trevas, assim procedeu o orador, pedindo ao Espírito Santo o aumento da luz do Evangelho em África.
Em Julho de 1949, Simão Gonçalves Toco reuniu um grupo de 3*12, que corresponde a 36 pessoas, em Leopoldville, de noite a fim de perguntar a Deus se ouviu ou não a oração dirigida, em 1946, com o pedido do Espírito Santo. À meia‑noite ouviu‑se um grande ruído e viu‑se uma luz. Muitos tremiam, outros falavam muitas línguas, coisas se passaram naquela noite. (…)”
 
 
1991, Luanda, festa tocoista que não se realizava há dezassete anos e a que assistimos.
 
Muito significativo é um relatório que encontrámos no Arquivo Histórico Militar com a referência 69 02 08, já desclassificado, com o título ‘Apontamentos sobre Simão Toco e a sua seita tomados em 1951 por um sacerdote africano da missão de Kimpangu ex Congo belga’, mencionado por Eduardo dos Santos (1972:365), na obra Movimentos Proféticos e Mágicos de Angola. Este autor deverá, na nossa opinião, ser consultado, sempre que se estudem os aspectos mágico religiosos zombo. O que importa aqui referir é a persistência com que, de tempos a tempos, (como se se tratasse de uma doença endémica), de acontecimentos revolucionários, nesta zona, a região banhada pelo rio Fulége, por nós assinalado na secção ‘A 5ª Companhia de Caçadores Indígenas versus Batalhão de Caçadores 88’ e aqui grafado como Mfuelesi, com povoações célebres como o Kimpangu com o seu mercado Kiantanu, o posto de Masseke e também de Sadi Kiloango, sendo interessante reflectirmos por momentos, no conteúdo das duas secções. Por nós, que conhecemos muito bem a região, embora deixássemos de por lá passar, vai para trinta e dois anos, admitimos que as suas características geográficas, a riqueza do seu solo e subsolo, bem como o significado simbólico que ela comporta fará com que os factos vividos e a viver pelas populações zombo, nela perdurem por muito tempo.
Do relatório, acima referido, extraímos o seguinte trecho:
“(…) Durante a leitura da Bíblia, sobretudo de noite, verificam‑se frequentemente casos de pessoas iluminadas, dizem eles, as quais recebem a inspiração sagrada do Alto. Os Iluminados começam a tremer e a ter esgares; os tremores acentuam‑se, o inspirado agita‑se fortemente e indica aos leitores da Bíblia o capítulo cuja inspiração ele acaba de receber. Os leitores lêm então o capítulo indicado… os assistentes cercam o iluminado e excitam‑no a comunicar‑lhes as ideias inspiradas…É depois aclamado e levantado pelos assistentes em sinal de honra e veneração. Acontece com frequência que na mesma reunião se assiste a dois ou três casos de iluminados, inspirados pelo “Mpeve a Mvuluzi” – Sopro divino.29(…)”
 
O sublinhado é nosso, procedemos assim para reforçar a ideia.
Ao falarmos de Simão Toco não podemos deixar de referir a figura central do profeta Simão Kimbangu, porventura, a mais representativa personagem da Teologia Cristã Africana Kongo. Não receamos colocar o termo profeta porque os teólogos católicos e protestantes kongoleses e angolanos referem‑se tanto a Simão Kimbangu como a Simão Toco como profetas, tendo nós assistido, há dias, a uma tese de doutoramento na Universidade Católica em Lisboa em que aquelas personagens foram textualmente referidas naqueles termos. São, especialmente eles, que norteiam as convicções políticas e religiosas dos zombo. A seguir daremos testemunho, com o devido destaque, a factos vividos entre os zombo, desde meados da década de cinquenta do século passado até aos anos noventa seguintes, de situações que tiveram como protagonistas destacados tocoístas de então.
 
 
António Povoa, o Mensageiro Tocoista
 
Muitos mfumu a kanda, chefes e ao mesmo tempo conselheiros tradicionais kongo, faleciam de velhos ou de doença, sem poderem transmitir os seus segredos rigidamente guardados. Desses segredos, dependia o equilíbrio da vida do clã. A sabedoria de viverem sob a tutela da administração colonial portuguesa, fazia com que aparentemente a vida não tivesse nada para transmitir. Ora, é exactamente a história da ‘Vida Vivida’ que tem o poder de orientar os povos. Alguns responsáveis transmitem às gerações seguintes conselhos que, para eles, são paradigmas do seu tempo e do que vem a seguir, escolhem então entre os seus, o que, por vezes, tem a ver com indivíduos que não pertencem por consanguinidade ao grupo de parentesco.
 
Foi o que aconteceu connosco. António Povoa, responsável tocoísta e pertencente ao ‘conselho de anciãos’, na época em que pertencer ao grupo religioso era extremamente delicado, foi‑nos educando de forma muito especial. Em carta que nos dirigiu a 20 de Julho de 1986 e com uma relação de muita proximidade diz‑nos, a determinado momento, o seguinte:
“Apesar de ser esta a primeira vez que lhes escrevo peço‑lhes que não deixem de ter confiança em mim pois tal facto deve‑se à falta de alguém que pudesse entregar a carta pessoalmente, porquanto como é do vosso conhecimento nem todos os segredos devem de ser revelados a toda a gente e em qualquer momento. Como o caso concreto desta conversa que constitui segredo religioso e que em nada agradaria a indivíduos não crentes. (…)”
 
Em 1991, por ocasião das grandes festividades tocoístas (realizadas nesse ano, pela primeira vez, após a independência) durante a nossa estada em Luanda, ficámos alojados no hotel Panorama, situado na ilha. António Povoa fez questão de ‘conversar’ connosco. Não o fez no hotel, fomos ‘conversar’ para a praia. Do muito que continuou a ensinar‑nos, ficou a forma de nos prepararmos para encontrar os caminhos que nos permitiram discernir e encarar muitos assuntos sobre os zombo, em geral. As conversas só aconteceram depois de se ter realizado a tal grande festividade tocoísta que não tinha lugar há mais de dezassete anos. Para que pudéssemos assistir às celebrações, teve lugar uma reunião especial, em casa do, na altura, ‘Velho Simão’. Nas festividades estiveram presentes grupos tocoístas de toda a Angola, foi um privilégio termos assistido, a tantos momentos que ficaram registados em fotografias.
 
O agora pastor António Mário a apresentar‑nos à Assembleia
 
António Povoa era um professor tradicional zombo e, além de conselheiro, entre os doze do ‘Mais Velho Simão’, ou seja, do profeta Simão Gonçalves Toco era ainda um excelente alfaiate, ‘tailleur’, como gostava de ser chamado. Conhecia toda a metodologia da modelagem do vestuário masculino.
 
Este aspecto da profissão teve sempre grande relevância entre os zombo tocoistas. Para Simão Toco, a realização económica do seu povo e logicamente a sua auto‑suficiência, face a outros aglomerados populacionais, era factor de primordial importância. Para que se possa avaliar a forma, como já na altura, escolhia o seu ‘Conselho Director’ citamos do relatório30 do padre católico Alberto Ndandu o seguinte trecho:
“(…) Em Sadi, povo natal de Simão, a seita funciona sob a direcção de Nkemi, o mesmo Mbongo‑Mpassi, sucessor imediato de Minguiedi Mfinda.
Este Nkembi é assistido por um conselho formado por um tesoureiro, por um económico, por alguns anciãos, por um secretário, por catequistas que ensinam nas aldeias, pelos alfaiates, etc. (…)”
 
 
Aliás, os melhores alfaiates zombo foram, nos anos cinquenta, sessenta e setenta do século passado, quase todos tocoístas. O perfil humanista de António Povoa, no que se refere ao respeito que guardava àqueles com quem convivia, fossem o que fossem, fazia dele um homem muito respeitado. Foi‑nos apresentado por Samuel Eduardo, outro tocoísta, condutor auto de profissão, que com António Bala constituíam a nossa protecção, eram os nossos informadores e companheiros de confiança. Deixemos aqui muito claro que nunca fizeram o mínimo gesto para atraiçoar os seus, bem pelo contrário, se de algum modo, a nossa actuação os prejudicava, não deixavam, estamos certos, de ponderar sobre a questão e resolvê‑la, em conformidade. A fotografia que acima foi tirada, por volta de 1965, na povoação de Taya, a célebre Zulu Mongo dos seguidores de Simão Toco. Hoje, entre a sua gente, é tratado por Sua Santidade. A postura do grupo, homens, mulheres e crianças, não deixam margem para dúvidas. Estava‑se naquele tempo, perante o melhor das elites zombo e até kongo.
 
Mais tarde, o acima referido António Bala ao apresentar‑se para servir em determinada firma comercial, (sabemo‑lo fidedignamente) informou com a maior naturalidade, a sua entidade patronal que teria que faltar, uma manhã por semana, para se apresentar à Policia de Defesa do Estado, em Maquela do Zombo. Em 1975, fazia parte dos duzentos e cinquenta trabalhadores da fábrica de vestuário CIV, em Luanda.
 
Uma manhã de Fevereiro, desse ano, o pessoal da fábrica encontrava‑se todo reunido, à porta principal do estabelecimento fabril. O técnico responsável pela produção, à chegada, perguntou‑lhes o que faziam à porta. Foi‑lhe respondido que faziam greve. Inquiridos se sabiam o que significava a palavra greve, responderam que não, só sabiam que não podiam entrar. O director de produção chamou então, de lado, António Bala e pediu‑lhe que o ajudasse a resolver a questão. Este, muito calmo, abriu a Bíblia protestante que trazia sempre consigo (escrita em kikongo) e com ar de quem os reprovava (apesar de ele mesmo se encontrar à porta quando o responsável chegou) dirigiu‑se aos colegas de serviço, mais ou menos, por estas palavras:
“Conheço muito bem a palavra de Jesus. Quero lembrar‑vos a seguinte passagem e começou: Vocês, para serem admitidos ao serviço, entraram por aquela porta estreita, se querem sair pelo portão largo e espaçoso estão a ir pelo caminho que conduz à perdição, não façam isso, vamos ao trabalho”
 
Referia‑se à passagem do Novo Testamento, Mateus 7:13. Entre os trabalhadores estavam vários tocoístas, que perceberam a intenção do seu conterrâneo. Assim que Bala entrou, todos o seguiram. Até que, em 1975, os partidos políticos começaram a defrontar‑se gravemente, nunca mais houve problemas na fábrica e António Bala continuou a apresentar‑se impreterivelmente todas as semanas à PIDE. Sabemos que, por volta dos finais dos anos oitenta, faleceu.
 
 
António Povoa explicava‑nos então que, as famílias zombo não tocoístas, dividiam os seus filhos para seguirem a religião católica ou protestante. De uma forma geral, este procedimento era seguido por todos. Por exemplo, o pai ia à igreja católica mas a mãe e a avó iam à igreja protestante. Havia uma grande diferença nas missas. A igreja protestante adoptou, desde muito cedo, um ritual mais africano, com cânticos que compreendiam, por isso as mães e avós gostavam mais de ir lá, fazendo‑se acompanhar pelos netos. Ultimamente, deu‑se um facto curioso na igreja católica no norte de Angola – foi introduzido na missa o batuque. Após o início da guerra colonial, os elementos responsáveis pela igreja evangélica baptista foram expulsos e parte das suas instalações destruídas. Os zombo daquele tempo, ainda hoje, têm saudades dos cânticos cantados em kikongo pela congregação protestante.
 
A fotografia, ao lado, foi tirada no dia do casamento de António Povoa, já em Luanda. Pensamos que não seria o seu primeiro casamento. A correspondência, que trocámos até 1995, é testemunha de uma amizade recíproca. Depois de todos estes anos, temos muita dificuldade em aceitar que, alguma vez e propositadamente, o António Povoa quisesse deliberadamente prejudicar‑nos. Apesar disso, ele sempre soube que a sua gente disputou, utilizando todos os argumentos, segundo os zombo válidos, as instalações ‘abandonadas’ pelos comerciantes europeus do zombo.
Para a frase ‘utilizando todos os argumentos’ recorremos a M. L. Rodrigues de Areia31 (1974:35) quando, a propósito da figura estruturante do sistema mágico religioso kongo, refere:
“(…) Nos princípios deste século John Weeks, estudando os Kongo, foi um dos primeiros autores a reconhecer que os nganga exercem uma acção benéfica, positiva, no seio da comunidade: «Eles (os nganga) libertam o povo dos maus espíritos e curam as doenças» (Weeks, 1909a:182). A competência destes operadores benéficos viria, segundo o mesmo autor, do recurso à medicina tradicional e também do efeito psicossomático exercido pelas danças, cânticos e imprecações aos espíritos malignos, elementos que acompanham a aplicação dos remédios ritualizando a doença e a cura (Weeks, 1909:53). (…)”
 
A estas linhas de Areia podemos, pelo seu valor documental, acrescentar o que o testemunho ocular do padre Alberto Ndandu32, em 1951, diz a determinada altura do seu relatório:
“Foi assim que neste dia pudemos encontrar ao longo do caminho do nosso percurso vários grupos de homens e mulheres, com os bébés às costas que iam consultar o afamado Nganga Ngongo. Na varanda de sua casa, feita de blocos, pudemos reconhecer algumas pessoas do Ngongo, acocoradas ou assentadas em troncos de árvores, à espera de serem atendidas. Atravessando o Mfwelesi e subida a montanha, eis‑nos chegados à aldeia de Sadi‑Kiloango. O escriturário Alberto que conhecia bem a aldeia onde havia estado várias vezes, e até no domingo anterior, disse‑me: ‘É aqui. Acolá está a casa deixada por Simão Toco. Serve actualmente de templo da seita.’ (…)”
 
Uma outra oportunidade para reflectirmos sobre o assunto desta secção apresentou‑se‑nos, em 1995, com a satisfação de conhecermos David José, estudante finalista de Sociologia, numa universidade de Lisboa. Tivemos longas conversas, aproveitávamos jantar e conversar. Entre cerca de trinta horas de conversa gravada, falamos de tocoístas e do fenómeno da possessão. David disse a certa altura:
Os tocoístas tiveram a possibilidade (paradoxalmente), uma vez que foram dispersados em pequenos grupos de ao “serem concentrados” enriquecerem todos os seus conhecimentos da vida. Em grupo, foram mais fortes que todos os outros grupos que conseguiram juntar o pai a mãe e os filhos. Nos seus cânticos sentiam e comungavam do mesmo tipo de sentimento e isso trazia‑lhes alegria, ou melhor, parece que, desse modo, transbordavam o seu “ser” para o Além. É como que fossem possuídos pelo Espírito, é como se estivessem tão livres, tão à vontade, tão felizes que a voz lhes brotava com alegria. Talvez por isso, algumas pessoas às vezes levantavam‑se a saltitar e um indivíduo estranho ao assunto, era capaz de ir a passar e, inadvertidamente, dizer que aquele fulano estava exagerar, porém o que estaria dentro de tal pessoa, é por o de fora do grupo ignorado, pensar‑se‑ia que estaria bêbado. Há até pessoas que ficam muito concentradas e são até capazes de saltar e bater em alguém. Nós podemos até dizer que de tanto saltarem perdem a atenção, mas geralmente a perca de atenção é também uma grande concentração. A minha filosofia é que quando vejo alguém na rua a andar e vendo o poste à sua frente vai lá bater. Nós dizemos que ele ia muito distraído, mas não! Eu sou capaz de responder que ele ia demasiado concentrado. As pessoas libertam‑se, criam um mundo à sua volta, concentram o pensamento, estão tão concentrados que o que os rodeia não interfere em nada no que estão a fazer e no geral nós dizemos que as pessoas estão com falta de atenção (...)”
 
Nunca mais nos saiu do pensamento esta lição, consideramo‑la extraordinária. Será bom que reflictamos um pouco, porque também faz sentido para o que se passou com os “retornados” portugueses que vieram em difíceis condições, para Portugal, em 1975, referindo‑nos só aos que trouxeram de seu a roupa do corpo e, hoje, conseguiram, a pulso, orientar (os que puderam ou quiseram) as suas famílias.
 
Este texto faz parte de um texto mais vasto intitulado " Os Zombo na Tradição, na Colónia e na Independência (III Parte). O Comércio de Fronteira em Tempo de Guerra",  do Professor Doutor José Carlos de Oliveira, retirado  DAQUI

Albinismo: a natureza contra o racismo!

O albinismo



"Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, ou por sua origem, ou sua religião.
 podem ser ensinadas a amar, Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se elas aprendem a odiar, pois o amor chega mais naturalmente ao coração humano do que o seu oposto. A bondade humana é uma chama que pode ser oculta, jamais extinta"
 Nelson Mandela



Ver também:



segunda-feira, 23 de abril de 2012

A Exposição Colonial realizada no Porto em 1934

Amélia Rey Colaço (1898-1990),no Teatro Gil Vicente na Exposição Colonial do Porto, com um vestido de António Amorim tendo ao colo o miúdo guineense Augusto. Foto Domingos Alvão, Porto Museu Nacional do Teatro




Em 1934 o Regime já consolidado e inspirado pela Exposição Colonial de Paris de 1931, promove no Porto a primeira das suas grandes exposições - a Exposição Colonial do Porto – destinada a propagandear o Estado Novo como um regime moderno, activo num Portugal Imperial.
O regime é desde o seu início despertado para a questão colonial já que em Março de 1930 surgira em Angola, um confronto entre funcionários civis e militares contestando a autoridade do poder central, e sobretudo em torno da Sociedade das Nações, gera-se, nesta época, um movimento no sentido de ilegalizar e acabar com os trabalhos forçados nas colónias.
Coincidindo com Salazar ocupando o Ministério das Colónias, é aprovado em 1930, O Acto Colonial (Decreto n.º 18 570, de 8 de Julho de 1930).
Salazar, reage na instituição e na defesa do Império Colonial, como uma unidade orgânica e indivisível, consagrando o Acto Colonial na Constituição de 1933, alterando a denominação dos territórios do Ultramar português, de "províncias ultramarinas" para "colónias" . (Em 1951 regressará à primitiva terminologia na revisão da Constituição que revoga o Acto Colonial).
"Somos sobretudo uma potência atlântica, presos pela natureza à Espanha, política e economicamente debruçados sobre o mar e as colónias, antigas descobertas e conquistas. Nem sempre a nossa política se fez de Lisboa ou da parte continental, mas de outros pontos, tal a ideia de que a colónias não o foram à maneira corrente mas partes integrantes do mesmo todo nacional."
" Portugal constitui com as suas colónias um todo, em virtude de um pensamento político que se fez pelos tempos fora realidade política."
“Alheios a todos os conluios, não vendemos, não cedemos, não arrendamos, não partilhamos as nossas Colónias com reserva ou sem ela de qualquer parcela de soberania nominal para satisfação dos nossos brios patrióticos. Não no-lo permitem as nossas leis constitucionais; e, na ausência desses textos, não no-lo permitiria a consciência nacional." (António de Oliveira Salazar - Discursos e Notas Políticas)
É neste quadro que se insere a participação de Portugal na Exposition Coloniale de Paris em 1931 de que resulta a Exposição Colonial de 1934 como afirma Henrique Galvão: "A Primeira Exposição Colonial Portuguesa é filha de um pensamento de política Imperial que, na larga e brilhante representação portuguesa na Exposição Internacional de Paris teve a sua realização inicial." .
A Exposição Colonial do Porto em 1934, em muitos aspectos, servirá ainda de ensaio à Exposição do Duplo Centenário (ou do Mundo Português) de 1940.




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