terça-feira, 8 de maio de 2012

Um pouco de História de Angola


Debruço-me hoje sobre a eventual perspectiva da existência de um bastião branco em África, no século XX, como há dias foi aqui aflorado. É o direito de uma opinião e alguma gente concorda com ela, especialmente alguns que se sentem derrotados pelo Império. Mas mais uma vez, pela premissa de considerar que o outro império, o império da opinião é igual para todos, não estando eu condicionado ou diminuído pelo papel da liberdade que me assiste para apontar o dedo a quem não gosta que se lho aponte, digo que essa perceptiva foi uma verdadeira idiotice. No mínimo!... Pois nem os ultras da direita do regime que apoiavam Salazar defendiam essa tese, pois já esperavam o nosso desastre em África. Eles sabiam que era só uma questão de tempo.Bastaria tão só aos copistas estudarem, mesmo superficialmente, um pouco da História de Angola e da própria África, para se convencerem que não era possível a criação de um bastião branco a Sul do continente africano.Para aqueles que no passado tiveram alguma pretensão nesse sentido, recordem-se dos exemplos dos rodesianos de Ian Smith ou dos sul-africanos de John Voster ou de Pick Botha. Basta olhar para o estado caótico em que o primeiro país se encontra e no actual charco onde chafurda o segundo. Onde mora o tal bastião branco?
A única verdade existente e que mundo ocidental aceitou desde o século passado, é amplamente redutora: África para os africanos.

Mas vamos incidir o nosso olhar apenas na história de Angola para percebermos onde ela nos conduz e perceber também a posição e o estado do leuconacionalismo angolano o qual vem demonstrar que a tese proposta para a implementação de um bastião branco em África não tinha qualquer viabilidade.

Após 500 anos Diogo Cão ter aportado em território angolano, é um facto indesmentível que deixámos um país de que os angolanos se podiam orgulhar.

No entanto, esses 500 anos não representam de maneira nenhuma uma efectiva colonização. E é esta tese que tenho defendido publicamente e não vi ninguém contrariá-la com bases sustentáveis.
Mas quais cinco séculos de colonização? Esta é outra grande mentira, explorada não só em Portugal pelos partidos e políticos pantrampistas, que desconhecem a verdadeira História de Angola e que a maioria da populaça, ignorante, subserviente, encaixou.
Quando referem os 500 anos de exploração colonialista em Angola, esquecem-se que a verdadeira colonização só teve lugar a partir dos finais do século XIX e apenas nalgumas zonas litorais desse vasto território. Como falar de “cinco séculos” de colonização/exploração em que o colonizador não aparece, senão na viragem do século XIX para o século XX? Antes, existiam apenas algumas feitorias a longo da costa de África, para darem apoio aos descobrimentos, complementados por mais meia dúzia de presídios militares. Todo o interior encontrava-se abandonado. E é preciso não esquecer os anos que entretanto os holandeses governaram Luanda. Para além disso, é uma evidência que para haver colonização tinham que existir colonos e ocupação territorial.

Porque eles não dizem a verdade?

Até ao ano de 1914, a administração portuguesa estava apenas instalada em duas cidades do litoral, Luanda e Benguela. Por isso eram considerados apenas dois reinos em Angola: o reino de Luanda e o reino de Benguela, este último estendia-se à Catumbela, que durante dois séculos foi o maior entreposto comercial do reino de Benguela

No interior do território a acção reduzia-se a uma política que dependia das alianças frágeis, ambíguas, com os chefes locais. E esta cambada de pantrampistas, intelectualmente desonestos, fala de 500 anos de colonização porque são gente ignorante que não conhece o mínimo de História daquele país. Angola nunca foi o Jardim do Éden, mas foi muito pior nas outras colónias europeias. A grande diferença é que as suas metrópoles nunca reivindicaram nem cinco, nem quatro, nem três séculos de colonização, excepto o caso da África do Sul.

Até 1914, o país Ovambo no Sul era totalmente independente. A Leste, na Lunda, as terras Tshokwe, só foram ocupadas em 1920 A Norte, entre os Congo, a oposição durou até 1919, enquanto que os Dembos só foram pacificados em 1918. A verdadeira colonização só começou a partir de 1945 e a partir das terras do Sul, do Cuamato, Huíla, Humpata, etc., o resto, são tretas desses ignorantes. É preciso não esquecer também a utilização, ocupação e exploração do interior do território, pelos ingleses, holandeses, alemães durante a nossa administração.

Agora tudo, mas tudo, tem de girar à volta de tudo isso que é o enquadramento da independência. A menos que se diga de caras, como dizem alguns, que o outro tempo era melhor. Então aí a conversa é outra.

É preciso que se saiba, que os brancos do antigamente, tanto colonos como filhos de colonos, desempenharam um papel de relevo no seio do fenómeno nacionalista angolano. Primeiro foi um protesto autonomista nas primeiras décadas do século XX e depois, promovendo uma corrente nacionalista própria, com os seus movimentos e organizações partidárias, com os seus presos e exilados políticos, vítimas da violência e do autoritarismo do colonialismo português.

Naquele tempo havia três correntes; a progressista, a liberal e a conservadora. A corrente progressista defendia uma independência sob o governo de maioria negra considerando o respeito do princípio de “uma cabeça, um voto”. Depois existia a liberal, que propunha uma independência conduzida por uma minoria branca mas integrando politicamente as elites mestiças e negras europeizadas, os tais chamados assimilados e propunha também a abolição das estruturas de exploração colonial, tendo como modelo o Brasil. Por último, tínhamos a corrente conservadora, que apontava para uma independência selectiva sob o domínio, ou pelo menos, a hegemonia da minoria branca e a manutenção das estruturas de exploração económica que recaíam sobre a população negra, a exemplo do que se passava ao lado na África do Sul onde existia um regime de supremacia branca.

No entanto o nacionalismo dos brancos angolanos foi rejeitado pelas elites negras e mestiças dos três movimentos de libertação, tendo assim contribuído fortemente para essa mesma rejeição a instrumentalização da ideia de raça.

Em Angola, a ideia de raça teve um papel importante no duplo processo de exclusão política do branco e de identificação do negro e do mestiço com o africano. Este processo teve as suas raízes no próprio sistema colonial português, pois durante a dominação colonial, a ideia de raça foi utilizada como elemento para se distinguirem os ditos “civilizados” dos “indígenas”. Para isso contribuiu um instrumento jurídico que foi por excelência o mecanismo mais evidente do racismo português, o chamado Estatuto do Indigenato, abolido em 61, que determinava que os brancos, só porque eram brancos, eram automaticamente considerados civilizados, enquanto os negros, e até certo ponto os mestiços, tinham de provar a sua civilização, através de testes estabelecidos pelas autoridades coloniais, e se fossem aprovados, tornar-se-iam “assimilados”. Isto porque os colonialistas portugueses entendiam que os negros, que eram 95% da população, eram à priori incivilizados, sendo por isso remetidos para a categoria de indígenas. Assim, as diferenças entre civilizados e indígenas eram enormes: os primeiros eram cidadãos portugueses, os segundos meros sujeitos colonizados, sem direitos cívicos e políticos e compelidos ao trabalho obrigatório.

Mas no movimento nacionalista angolano procedeu-se a uma inversão de posições. O negro era entendido como o homem autenticamente africano, o colonizado, enquanto o branco era considerado um elemento estranho a África, o colonialista europeu. A raça serviu assim, novamente, de elemento de distinção e de exclusão. Distinguiu os brancos dos negros e mestiços e legitimou a africanidade dos dois últimos, da qual os brancos foram quase sempre excluídos. Por outras palavras, o branco não podia ser africano porque era branco, enquanto o negro era africano só porque era negro. Assim, segundo os pensadores da época, cabia ao negro exclusivamente a missão histórica da libertação dos povos africanos. Libertação essa que em Angola foi pensada sem a participação dos brancos, como também à custa da sua expulsão.

Muitos dos que se proclamavam anti-racistas, tinham dificuldade em aceitar os brancos na luta nacionalista, como se temessem a sua concorrência numa futura nação independente.
Resumindo: foi a cristalização duma forma de racismo anti-racista ou do racismo dos anti-racistas. Aliás, isso já tinha sido bastante notório quando em finais dos anos 50, o Cadima, o Manuel Dores, mais um operário português, criaram no Huambo a primeira célula do Partido Comunista Angolano. Eram todos os quatro “branquinhos” da Silva. Um engenheiro, dois doutores e um operário. Claro que não durou muito tempo, porque os mentores europeus dos partidos comunistas não queriam brancos nos PC africanos. Inclusive, o Partido Comunista Português que até era o seu mentor, só reconheceu os direitos dos povos colonizados à independência apenas em 1957. Até aí, os comunistas sempre defenderam a política colonial de Salazar.

Os tipos defendiam o princípio de que os nacionalistas tinham de ser todos negros ou árabes. Mais tarde quando estavam no exílio em Paris, aquele grupo já organizado como FUA, tirando uma jovem mulata, era constituído por brancos, o que causava grande confusão aos comunistas franceses que davam apoio à sua rede, pois tal como já acontecera com os comunistas portugueses, também pensavam que os comunistas angolanos só podiam mesmo ser negros. Por essa razão nos seus apoiantes começavam a criar-se dúvidas o facto desse grupo ser todo constituído por brancos. Mas eles conseguiram demonstrar que não eram um grupo de ignorantes políticos, mas sim pessoas honestas, obstinados, sacrificados e bem organizados, pois já dispunham de uma rede clandestina de ligações muito eficazes com Portugal e Angola, Assim não convinha à rede francesa cortar o seu apoio, pelo menos enquanto não conseguissem entrar no esquemas destas ligações.

Faziam parte desse grupo, Ernesto Lara Filho, Avidago, Mário Nobre João, Maria do Céu Carmo Reis, Artur Pestana (Pepetela), Adelino Torres, Sócrates Dáskalos, João Mendes, Adolfo Maria, entre outros.

Durante o processo de transição para a independência, as elites brancas, foram as primeiras a ficarem de fora da corrida pelo poder, pois eram a que menos argumentos nacionalistas podiam apresentar no quadro da luta pela independência. Os brancos, após reduzidos ao seu significado étnico, foram publicamente apresentados como os principais agentes e beneficiários da exploração colonial portuguesa, retomando-se argumentos anteriormente avançados durante o genocídio no Norte de Angola em 1961. Convém não esquecer que nós brancos totalizávamos apenas 4% da população angolana e existiam apenas cerca de 1% de mestiços.

No último censo devidamente organizado com pés e cabeça, feito em 1970, a minoria branca angolana totalizava apenas 290.000 pessoas ou seja, 5,1% efectivos numa população total de 5.673.050 habitantes. Mas se verificarmos, antes disso éramos muito, mas mesmo muito menos: em 1930 - 30.000 brancos; em 1940 - 44.083 pessoas brancas; em 1950 - 78.826 e em 1960 - 172.529 brancos, crescendo nesta década fruto do conflito de 61 e da abertura que o mesmo obrigou e gerou.
Politicamente estávamos limitados e quase não se reconhecendo na nossa própria nacionalidade, nós, brancos angolanos, servimos de bode expiatório, quer aos anos de exploração colonial portuguesa, quer às limitações e desinteligências do nacionalismo angolano. Face a isto, tornam-se menos obscuras as causas do êxodo dos brancos angolanos, durante o período de transição para a independência do país. Ou já se esqueceram do velho deitado: quem tem cu tem medo?

O colonialismo português tinha uma originalidade que era ser mais centralizado e arcaico de todos, de tal modo que os próprios brancos angolanos se encontravam totalmente subjugados aos interesses de Lisboa e, em especial, aos interesses da burguesia portuguesa, que além de ser atrasada, vivia parasitariamente do sistema colonial.
Ao contrário do que acontecia noutras colónias europeias, os brancos em Angola nunca dispuseram de influência efectiva sobre a colónia pois a governação estava solidamente nas mãos dos ministros de Lisboa, devendo nós em Angola, obedecer cegamente e integralmente às ordens que vinham do Terreiro do Paço. E essas ordens foram sempre contrárias aos interesses dos angolanos e frequentemente aos dos próprios brancos metropolitanos instalados na colónia. E isso traduzia-se em leis e práticas administrativas e económicas. Por exemplo, o branco natural de Angola não tinha o direito de passar do posto de capitão no exército e não tinha o direito também de desempenhar os mais altos cargos na administração pública e nem sequer tinha direito a licença graciosa como os restantes brancos. Os brancos de Angola eram preteridos nos empregos a favor dos brancos metropolitanos, sendo mesmo relegados para uma posição não muito diferente da compartilhada pelos mestiços. Existia mesmo uma descriminação no trabalho, na escola e na vida social e cultural. Aliás, nós filhos daquela terra, tínhamos plena consciência que tanto o governo português como uma grande parte da malta da metrópole, nos consideravam como “brancos de segunda”.

Oficialmente até éramos considerados como euro-africanos. Por outro lado, temos que considerar que a comunidade branca angolana, socialmente estava bem dividida, geograficamente muito dispersa e além do mais, mais ou menos fracturada. E essa fractura era bem acentuada entre os brancos naturais, já angolanizados, e os indivíduos recém-chegados do continente.

De facto, até 1961, a gula do governo português e de uma meia dúzia de famílias poderosas seus aliados foram insaciáveis. Eles levavam dali pelos preços mais irrisórios que entendiam pagar, tudo o que Angola produzia de bom. Em sentido contrário, os tipos enviavam toda a trampa da sua arcaica produção industrial e agrícola. E isso motivou tensões entre a nossa burguesia e a portuguesa. Habilmente, os tipos submeteram o nosso mercado de exportação a uma escassa meia dúzia de famílias poderosas que a exploraram até ao tutano com o alto patrocínio dos próprios governantes, muitos deles com interesses nesses mesmos grupos financeiros. O governo português até 1961 nunca permitiu que Angola progredisse. Proibiu-nos sempre de lançarmo-nos livremente no caminho da industrialização. Para além do facto de todo dinheiro gerado pela riqueza ali foi produzida, que seria lógico e legítimo que ali ficasse para beneficiar quem a produzia, esse dinheiro era todo transferido para os cofres dessa meia dúzia de grandes famílias e para o Banco de Portugal.

A vida naquele tempo era de facto uma puta muito explorada que dava muito dinheiro aos seus “chulos”. Disso, não tenho a mínima dúvida!

Por exemplo: eles deviam contar, a nós que somos "ignorantes", como é que o Banco de Portugal em princípios dos anos 70 possuía a maiores reserva de ouro do mundo, (700 Ton.) só ultrapassado pelos EUA. Onde é que foram buscar todo aquele ouro? Falam muito em transparência, mas essa não contam eles, que esse bagulho todo resultou do aproveitamento de escravos moçambicanos que aos milhares foram trabalhar nas minas sul-africanas. E já agora que falamos em poderosas famílias, são essas quase sempre as mesmas que hoje continuam a ter o poder financeiro, tanto lá, como cá e, estão a voltar para Angola, em peso, agora com investimentos de outra ordem. É vê-los!
Angola sempre foi uma árvore das patacas, explorada por esses capitalistas de sempre que só levavam e nada traziam. Hoje lixam-se, começam por entrar com as massas, depois passam a ficar com fifty-fifty ou com a maioria do capital, depois numa segunda fase, passam a minoritários e um dia destes se não se põem a pau ficam a olhar para o ar e tornam a levar com um pontapé no mataco. A verdade é que já existem alguns exemplos desses.

Voltemos então novamente à História do passado. É isso que aqui interessa.

Os nacionalistas brancos sempre tiveram pouco peso dentro do nacionalismo angolano. Por outro lado, a acção desses brancos recebia mais hostilidade e indiferença do que simpatia, da maior parte dos membros da população branca.

Apesar desse pouco peso dos brancos, temos que acabar com esse mito de que o nacionalismo angolano foi apenas resultante da acção da maioria negra. Claro, hoje contrariar essa tese não é conveniente nem é politicamente correcto. Disso estou bem ciente. Mas não podemos esquecer o nacionalismo dos brancos e também dos mestiços, filhos dos colonos. Por isso deixem de continuar a manipular a História para tentarem justificar a legitimidade de uns e a qualidade da acção nacionalista de outros. Os brancos angolanos foram os primeiros a contribuir para a criação de uma identidade nacional angolana. A construção de uma cultura nacional e a consciencialização política de muitos nacionalistas negros e mestiços foi a maior herança que nós, apenas uma minoria de brancos angolanos, deixámos em Angola. Essa questão do nacionalismo dos angolanos brancos é propositadamente de há muito ignorada pelos historiadores e políticos, tanto angolanos como portugueses. Mas tal não aconteceu por parte de historiadores estrangeiros consagrados, tais como Jonh Marcum, Thomas Okuma, Douglas Wheelen ou do mais conhecido, o francês René Pélissier, que teve a experiência de conhecer a realidade angolana pois andou por lá, no terreno, nos anos 60 e 70.

Existe um velho provérbio que diz tudo: a História é feita pelos vencedores, comprovado com a ideia mais comum de que o nacionalismo angolano se resume à velha história das lutas de negros contra brancos. É do mais falso que existe. Só mesmo de ignorantes, esquecendo-se deliberadamente do fenómeno nacionalista dos africanos brancos.

É um facto histórico, na constituição do nacionalismo angolano, que foram os brancos os primeiros a manifestarem-se contra Portugal, com o objectivo de obterem, primeiro a autonomia e depois a independência. Por exemplo, em Benguela em 1823 foi criada a chamada "Confederação Brasílica", cujo objectivo mais que transparente era conseguir a independência de Angola no quadro de uma relação federal com o Brasil, que tinha ascendido à sua independência em 7 de Setembro de 1922, o que poria termo dos dois lados do Atlântico à dominação da burguesia portuguesa da Europa. O apoio que foi dado aos independentistas brasileiros conheceu em Benguela, com o contributo importante da Maçonaria, a forma de revolta aberta contra o domínio português, a qual só foi debelada com o envio e ocupação da cidade por três companhias militares de infantaria, enviadas propositadamente de Portugal.

Mais tarde, em 1891 foi encenado um golpe de estado militar também em Benguela que terá falhado, sobretudo, devido a uma burguesia demasiado frágil. A constituição de lojas maçónicas, a militância nos ideais republicanos, assim como a promoção de uma imprensa de brancos radicais, foram instrumentos utilizados por uma burguesia angolana principalmente de Benguela, Catumbela, Huila e Moçâmedes. Foi nestas regiões onde despertou o autonomismo e nacionalismo branco e se desenvolveu um conjunto de protestos e reivindicações económicas suportado pelas lojas maçónicas ali existentes. A maçonaria angolana tradicionalmente identificada como uma organização secreta denominada pelo termo ovibundu, Kuribeka, o que só por si já representou um elemento de diferenciação e de autonomia em relação a Portugal. ( Kuribeka significa “apresentar-se”; oferecer-se”; vir sem ser chamado ).

A Kuribeka era um importante grupo de poder como instituição organizada, a maçonaria , e existia em Angola pelo menos desde 1860. Tinha apenas “lojas” em Benguela, Catumbela e Moçâmedes. Por via disso, em Janeiro de 1906 foi criada na Catumbela a Associação Beneficente dos Empregados do Comércio, cujos membros pertenciam todos à loja maçónica local, assim como todos os membros que nesse mesmo ano fundaram a Associação Comercial de Benguela. Foram instituições económicas das mais importantes em Angola em todo o período colonial, tendo tomado posições muito polémicas, em momentos cruciais da vida política angolana.

Em Dezembro de 1906 foi fundada na Catumbela o Grémio Pró-Pátria, loja maçónica de inspiração republicana e autonomista que perdurou até finais dos anos sessenta. Não esqueçamos que Benguela e, na altura, o concelho da Catumbela, foram dos três municípios angolanos (o outro foi o de Novo Redondo), em que o Partido Republicano ganhou as eleições autárquicas em 1906.

Em 1918/1920 houve um enorme e violento protesto organizado em Benguela, no qual se incluiu o bloqueio de estradas, destruição de pontes e uma greve de trabalhadores que teve forte impacto na economia. A partir de 1923, as manifestações e protestos conheceram uma violência invulgar, inclusive, uma greve de trabalhadores do Caminho-de-Ferro no Lobito teve de ser dominada pelos militares e em 1926 outra greve de trabalhadores brancos paralisou a economia de todo o território. Em resultado disso, nasceu em Benguela e com filial na Catumbela, a UDA – União dos Defensores de Angola. Fica assim demonstrado a importância da corrente autonomista que segundo o historiador René Pélissier, terá assumido laivos de separatismo nos finais da 1ª República, quando a actividade económica está semi-paralisada e quando a crise financeira atinge o ponto mais alto. Foi um grupo de elementos da UDA, que olhos nos olhos, deixaram bem claro ao presidente Carmona aquando da sua vista em 1938, que Angola não pode continuar a ser uma quinta de luxo, gerida à distância, a bel-prazer de quem desconhece as suas ansiedades”.

Já em 1940 apareceu um movimento em Angola com o fim de promover a emancipação da colónia. Chamou-se OSA, ou seja, Organização Socialista de Angola. De que foi secretário-geral Sócrates Dáskalos, figura que se vem a destacar na oposição angolana.
Foi esse o maior despertar que levou a juventude angolana a um profundo anseio pela liberdade. A OSA teve uma vida muito breve, pois foi violentamente suprimida através de uma vaga de prisões e de deportações, feita pela Polícia de Segurança Pública, o que levou toda uma geração de nacionalistas angolanos à primeira fase do protesto dos brancos angolanos. Nessa altura ainda não existia a PIDE em Angola. (nem bufos informadores, nem legionários e seus quejandos. A PIDE só se instala em Angola em 1957). Assim, foi graças a esse sentimento de revolta que resultou a ideia da criação da FUA - Frente para Unidade dos Angolanos. Apesar disso, a OSA foi uma vitória política dos angolanos brancos face ao despotismo do governo português, tendo sido um movimento percursor do nacionalismo branco angolano no Centro e Sul de Angola

A OSA tinha objectivos bem precisos e o principal era de por qualquer meio, alcançar a independência de Angola. A expansão da OSA foi facilitada pelo descontentamento que começou a alastrar-se entre a juventude, filhos de europeus, nados e criados ali, que sofriam restrições impostas por Lisboa. Por exemplo, antes de 61 nenhum de nós podia ser oficial do exército ou ter a veleidade de ascender a cargos importantes na administração pública. Embora não existissem leis escritas, existia uma enorme barreira invisível a marcar a nossa exclusão. Éramos tratados como portugueses e brancos de 2ª, euro-africanos, colonizados, ainda que não fossemos tão descriminados como a população negra.

Em 1943 quando estudavam em Lisboa foi fundada, por iniciativa do Sócrates Dáskalos e do Fernando Falcão e outros mais, (acima referidos) a CEA – Casa dos Estudantes de Angola, mas só após 1948 surgem os primeiros africanos negros na CEA bem como um número relevante de mestiços. É aí que se vê surgir pela primeira vez um negro, o Agostinho Neto e dois mestiços, o Mário Pinto de Andrade e o Lúcio Lara. Estes dois últimos como não conseguiram dominar a CEA, acabaram por criar organizações paralelas como por exemplo o Centro de Estudos Africanos, que durou pouco tempo após Mário Pinto de Andrade partir para Paris em 1954.

Até que chegamos à década de 60.
Em Maio desse ano, no Lobito e em Sá da Bandeira, o Américo de Carvalho, o Aires de Almeida Santos e o João Mendes presidiram à formação da Frente Unida de Libertação de Angola – FULA que deu em nada. Então em Janeiro de 1961, Sócrates Dáskalos, o Luis Portocarrero, o Fernando Falcão, o Carlos Costa e o Manuel Farinha, meteram-se num carro e segundo eles, tomaram a picada que ligava a estrada de saída para a Catumbela ao aeroporto. (contado por Sócrates Dáskalos no seu livro “Um Testemunho para a História de Angola do Huambo ao Huambo” / editora Vega / 2000”: «Foi ali, numa tarde que apresentava um lindo pôr de sol que demos à luz a FUA, Frente de Unidade Angolana, que veio a tornar-se num movimento político bastante importante».

Chegaram a publicar um jornal com o título de Kovaso, que em língua umbundu significava Avante.
Em Angola sempre foi diferente a situação a Sul, particularmente em Benguela, onde Sócrates e tipos como o Portocarrero, o Farinha, o Mira Dores e o Falcão, encontraram uma mínima margem de manobra para actuarem.

Só após os acontecimentos do Norte em 61, a FUA, entrou em contacto com membros da Sociedade Cultural e com alguns elementos da burguesia liberal de Luanda, chegando a realizarem-se reuniões com eles em Abril de 61. A FUA procurava apoios em Luanda, a fim de acabar com a repressão colonial e apresentar uma solução ao Governador-Geral para o problema imediato da guerra.
No Sul, estavam organizados e acalentavam a ideia da independência de Angola que fosse precedida de um período de transição, na qual gozaríamos do estatuto de autonomia. Já em Luanda, não existia uma organização da burguesia branca pronta a actuar. Nem em Luanda e muito menos nos outros centros populacionais. Somente nos já citados: Benguela Catumbela, Huíla, Moçamedes e acrescente-se, Nova Lisboa. Para agravar a situação, os liberais luandenses consideravam que só uma pequena parte da população angolana é que contava, isto é, os brancos, os mestiços e uma minoria de negros já considerados assimilados. Era no fundo, a continuação da política existente.

No entanto, houve membros da burguesia de Angola que pareciam ter compreendido a mudança dos tempos. Um deles, o grande industrial Manuel Vinhas, em 1961, fez uma viagem de Lisboa a Luanda passando por Leopoldville. Ali, procurou contactar pessoal nacionalista, nomeadamente o MPLA. Parece que sem êxito, pois nessa altura ainda esse partido era um pouco incipiente. No regresso, quando chegou ao aeroporto de Luanda, o senhor Manuel Vinhas foi preso e interrogado pela PIDE durante várias horas antes de ser posto em liberdade.

Na época, o MPLA era quase emblemático, ou mesmo inexistente. Essa a razão , técnicamente sustentável, porque se pode afirmar que a ligação do MPLA aos acontecimentos do 4 de Fevereiro em Luanda não é verdadeira. Segundo o testemunho do companheiro de Neto no exílio, Adolfo Maria, no livro “Angola No Percurso de Um Nacionalista – Edições Afrontamento / 2006 ou também como escreve Iko Carreira no seu livro “O Pensamento Estratégico de Agostinho Neto / publicações D. Quixote / 1996, a sua formação como movimento nacionalista tinha acabado de se dar em 1960 durante a 2ª Conferência Pan-Africana de Tunis. O 4 de Fevereiro não foi mais que um golpe de nacionalistas desesperados, comandados por um antigo membro do Conselho Legislativo de Angola, o velho cónego Manuel das Neves. Apenas isso! Tudo o resto foi oportunismo político.

Continuando: após o genocídio de Março e Abril provocado pelos Bacongos da UPA o terror instalou-se nos muceques da capital quando centenas de brancos num acto de vingança, invadiram os bairros populares, matando indiscriminadamente todos os “suspeitos” que encontravam pela frente. O caos e o medo instalaram-se em todo o Norte e as autoridades portuguesas foram incapazes de parar os tipos da UPA e reporem a ordem pública.

A FUA, em Benguela, na Catumbela e no Lobito, organizaram-se e comandaram milícias compostas por negros, brancos e mestiços com a finalidade de impedir a repetição dos massacres da capital. Foi graças a essa organização paramilitar que conseguiram controlar a situação, pois no distrito as forças policiais da PSP eram bastante exíguas. Foi logo nessa altura, finais de Abril, que resolveram lançar o Manifesto Político dirigido à população de Angola, onde apelavam ao seu apoio para a causa da emancipação, para a imediata autonomia de Angola, o direito dessa mesma população dispor do seu próprio destino. Esse Manifesto foi recebido pela população com grande entusiasmo, resultando logo daí num abaixo-assinado subscrito por mais de seis mil e quinhentas pessoas. Este abaixo-assinado foi logo aproveitado para ser dirigido ao Ministro do Ultramar a pedir a autodeterminação.

Mas acontece que as elites brancas de Luanda, recusaram reconhecer o princípio de independência sob o governo da maioria, recusando mesmo colaborar com a FUA. Concluindo: apenas no Centro e o Sul existia um protesto nacionalista branco. Perante esta situação, a dimensão e a força das actividades nacionalistas entre a população branca a Sul, o governo de Lisboa enviou a Benguela o Adriano Moreira, que tinha sido empossado recentemente como Ministro do Ultramar, sendo ele nessa altura um acérrimo defensor do luso-tropicalismo.

Houve uma reunião com o dito ministro em Benguela, que antes foi precedida de uma gigantesca manifestação de trabalhadores negros, brancos e mestiços frente ao palácio do Governador, convocada pela FUA através do Rádio Clube de Benguela. Nessa reunião o ministro Adriano Moreira ouviu atentamente os dirigentes da FUA, concordando várias vezes gestualmente com a cabeça e no final pediu-lhes que elaborassem um documento em pormenor em que se debatessem os objectivos a atingir e os meios que julgassem necessários para esse fim, que o entregaria depois a Salazar. Esse documento foi de imediato preparado e foi-lhe entregue no jantar que o obsequiavam nessa mesma noite na Associação Comercial de Benguela

Só que a sua simpatia durante a reunião e o constante gesticular da sua cabeça em sinal de concordância com o que ali foi exposto, foi um enorme engodo. Passados poucos dias, chegou a Benguela um contingente militar que ocupou logo os pontos estratégicos necessários ao controlo e domínio da cidade, se necessário fosse. Depois em princípios de Junho de 61 foi a vez da PIDE entrar em acção, lançando uma vasta operação que resultou na prisão de quase todos os dirigentes da FUA.
A fúria da repressão salazarista abateu-se como uma bomba sobre toda a FUA, tanto em Benguela, como na Catumbela e no Lobito. Incapazes de se organizarem em tão pouco tempo, politica e militarmente contra as forças colonialistas, adicionado ao facto da existência de traição duma minoria da população de Luanda que preferiu a ilusória segurança de um regime colonial, reaccionário e antidemocrático, levou a FUA a desmoronar-se rapidamente.

A PIDE continuou a fazer prisões em massa. No Sul foram presos e deportados para Portugal vários membros da FUA: o João Mendes, o Fernando Falcão, o Carlos Morais, o Adolfo Maria, o Luis Portocarrero, o poeta Aires de Almeida Santos entre muitos e muitos outros. Outros fugiram para o exterior e foram-se juntar ao pessoal que já se encontrava em Argel, cidade onde se começaram a levantar problemas de racismo por parte de uns quantos negros, segundo Sócrates.
Logo de seguida a Ditadura fascista, acirrou a legislação racista e a separação entre brancos, negros e mestiços com o objectivo de sempre: dividir para reinar, evitando assim qualquer aliança política entre as três comunidades. E o genocídio cometido pela UPA em 61, contribuiu ainda mais para afastamento de muitos brancos da causa nacionalista porque chegaram à conclusão, logo naquela altura, que não tinham lugar numa Angola governada por uma maioria negra. E isso ficou provado em 1975 com o êxodo dos brancos antes da data da independência. Foi principalmente esse o motivo: o medo e a incerteza, que nos levou (a maioria) a abandonar o país.

Em 1961, já existiam no seio do MPLA problemas do foro racial chegando ao ponto de Viriato da Cruz, ter proposto que a direcção fosse composta exclusivamente por negros, afim de dar credibilidade internacional ao movimento na sua luta política e diplomática, contra a UPA de Holden Roberto, enquanto os mestiços deveriam permanecer na retaguarda dessa direcção. Isso gerou mesmo um enorme mal-estar entre eles.

O aparecimento em Paris de brancos de Angola, refugiados políticos, exercendo actividades em prol do nacionalismo angolano, causou perturbações em vários meios. Para os sectores políticos e humanitários franceses ligados ao apoio a movimentos anti colonialistas, foi grande a novidade da existência de brancos nacionalistas em Angola. Só conheciam nacionalistas negros e era assim que concebiam África.
De facto, a presença de brancos no nacionalismo angolano era então uma surpresa nos meios intelectuais e políticos europeus. Mas foi uma surpresa positiva, à medida que se aprofundavam os contactos com os brancos no exílio, pois verificaram que eles tinham uma total identificação com o nacionalismo progressista negro. Naquela altura, 1961, o branco ou mesmo o mestiço, não podiam continuar a sua luta política a não ser aderindo à FUA, pois era impossível um branco ou mestiço serem militantes do MPLA.

A FUA nunca foi um entrave para o MPLA, antes pelo contrário, foi um apoio seguro. E isso provou-se durante todo o exílio, pois após a repressão, todos os elementos activos da FUA acabaram por se identificar com o MPLA que, na época, era quase só emblemático. Assim a decisão de ir para Argel foi motivado quer pelos contactos que a FUA mantinha com as organizações nacionalistas e progressistas das colónias portuguesas, quer pelo simbolismo da própria cidade, a qual era considerada a “capital” da Revolução Africana.

Certamente que o governo argelino não os teria acolhido se o MPLA se opusesse à sua ida. Quando chegaram a Argel, era delegado do MPLA o doutor Eduardo dos Santos, não este actual presidente, mas sim um grande intelectual, que logo se mostrou preocupado com a possibilidade da imagem do MPLA ser afectada se existissem relações estreitas com membros da FUA, tendo dado indicação para esses militantes serem discretos.

Mas a FUA durou pouco tempo. A FUA saiu moribunda da reunião de Blida na Argélia em Agosto de 1963, embora a sua dissolução só ocorresse oficialmente em 1964, pela mão de João Mendes, mantendo-se algumas células adormecidas, como o caso do Lobito. Ali no Lobito, voltou a renascer já em 1974, após a revolução em Portugal, mas pareceu-me terem acordado tarde para denunciarem a traição que envolveu o processo de descolonização, que eram confirmadas pelas falsas declarações dos principais responsáveis quanto à participação de outras forças políticas. Só em princípio de Dezembro de 1974, o Fernando Falcão tomou consciência do logro em que tinha caído, com as falsas promessas de Rosa Coutinho, do Pezarat Correia e do Melo Antunes.

Falcão agora reside em Portugal (ainda quarta-feira passei ao lado da sua quinta perto de Setúbal). Falcão foi o verdadeiro líder da FUA. O verdadeiro motor. Foi um homem flexível, um reformista, mas não um revolucionário. Assegurou as ligações do movimento com as actividades económicas quando pensámos no movimento como plataforma para a independência multirracial de Angola.
De referir Mário Soares que, mesmo antes do enunciado dos princípios que deviam presidir a descolonização de Angola pela Junta de Salvação Nacional, já afirmava que os únicos e legítimos representantes das suas populações eram os movimentos de libertação. Foi essa a razão. Como o cozido à “portuguesa” já estava há muito mais que cozinhado, que em finais de Janeiro de 1975 a FUA emitiu um comunicado a informar que iam suspender toda a sua actividade política, decorrente da marginalização a que tinham sido votados em todas as negociações para a independência de Angola. Todos esses grandes homens que desde 1961 lutaram ao lado do MPLA, no exílio tiveram esse castigo, embora alguns voltassem a Angola e desmpenharam lugares de destraque. Agostinho Neto pelos menos não se esqueceu desses companheiros de exílio.

Depois daquela infâmia, aqueles energúmenos irresponsáveis viraram-nos as costas. De Lisboa, nem Presidente da República, nem Governo, nem Comissão Nacional de Descolonização nem Conselho da Revolução, nem Mário Soares, nem Rosa Coutinho, nem Pezarat Correia, nem toda a sua escumalha de acólitos, tiveram a coragem de se fazerem representar no arrear da Bandeira no dia da Independência de Angola. Ninguém assumiu. Os magnatas, traidores, cobardes, gasoseiros, chulos, parasitas políticos, fugiram todos. Nem um só esteve presente. Após criarem o monstro, foi aquela a solução encontrada pela grande maioria dos seus promotores. Muitas vezes pus-me a magicar com os meus botões o que pensariam eles naquele momento, quais os sentimentos que mantiveram afastados aquela escumalha daquele momento tão grande para Angola e para o seu povo? Era simplesmente o remorso, a vergonha, o medo, a cobardia e o sentimento de traição! Isto tudo e muito mais. São verdades que a História e o Tempo vão dando a conhecer aos dois povos irmãos: angolanos e portugueses. Da parte dos socialistas e dos comunistas, nunca houve qualquer preocupação com os povos ultramarinos, fossem eles, brancos, negros ou mestiços. As lamentações hipócritas desses políticos, não têm outro objectivo do que dissimular o verdadeiro carácter de maquinação mundial cuja cobertura ideológica serviam e asseguravam. E o povo angolano? Ao povo angolano apenas haviam prometido a independência a 11 de Novembro de 1975. A felicidade ou tragédia não faziam parte dos seus compromissos. Essa corja de traidores, ficaram com a “consciência bastante tranquila” podendo assim continuarem a passearem-se pelo mundo, amealhando fortunas de duvidosa origem, sempre com um sorriso imbecil nos lábios, com que marcaram o seu gigantesco crime, que depois resultou num crime ainda maior que foram os vinte cinco anos de guerra e o genocídio do povo angolano. Uma luta feroz entre irmãos do mesmo país. Foi um absurdo incompreensível.

Na minha óptica!... Evidentemente.


C.Ganhão 
 

sábado, 5 de maio de 2012

A língua portuguesa em Angola – língua materna vs. língua madrasta. Uma proposta de paz José Eduardo Agualusa

Nos últimos anos da época colonial, apenas uma pequena percentagem de angolanos falava português, como língua materna. Era, claramente, a pequena burguesia urbana: brancos, mestiços  e negros, descendentes, em muitos casos, das velhas famílias escravocratas que prosperaram em Luanda até ao século XIX. Um quarto de século após a independência, esse número cresceu de forma impressionante, devendo o português ser hoje a segunda língua materna mais falada em Angola, logo depois do umbundo

quinta-feira, 3 de maio de 2012

UM TESTEMUNHO PARA A HISTÓRIA DE ANGOLA: A grande debandada: retornados e adidos. Sócrates Dáskalos


CEI em Coimbra


DE "
UM TESTEMUNHO PARA A HISTÓRIA DE ANGOLA": Do Huambo ao Huambo por Sócrates Dáskalos

Capítulo VIII: A grande debandada: retornados e adidos............................................................ 107

...Mas, logo após a tomada de posse do Governo de Transição, em 31 de Janeiro de 1975, as coisas começaram a complicar-se para os funcionários do Quadro Administrativo. Os administradores da Ganda, Cubal, Balombo, Chongoroi, Bocoio e Baía Farta que me tinham dado um apoio leal e que tinham, quase todos uma boa aceitação por parte das populações negras dos seus territórios, quando começaram a aparecer os ministros e delegações dos movimentos emancipalistas fazendo exigências despropositadas e ameaças veladas de prisão e despedimento, começaram a vacilar nas
suas intenções de ficar depois da independência. E quando o Governo Português inventou o Quadro de Adidos para nele integrar
os funcionários do Q.A das colónias, garantindo-lhes em Portugal emprego e reforma, aumentaram as hesitações que, depois de ter sido propalado que o “MPLA iria julgar todos os funcionários do Q.A depois da independência” se transformaram em desejo ansioso de partir o mais depressa possível. 



Além do Q. Adidos o governo português também criou o Instituto de Auxílio aos Retornados Nacionais (IARN) e como na altura os naturais de Angola brancos, mestiços e assimilados eram considerados portugueses, este Instituto alargou ou restringiu a sua acção como muito bem entendeu, dando ou negando auxílio de acordo com os interesses dos dirigentes.
 

Em consequência criou-se em Angola um ambiente de tal ordem que até o branco mais pobre que no interior do país ou na periferia das cidades tinha sempre vivido e convivido com a comunidade negra, se deixou contaminar pela histeria do medo sem razões válidas que o justificassem, excepto em Luanda e no Huambo onde as refregas armadas entre movimentos eram aproveitadas para molestar e até, às vezes, vitimar elementos brancos e não brancos, perante .a passividade das forças armadas portugueses que, dizendo-se neutras, deixavam-se influenciar quando se tratava de combater os “comunistas angolanos” ou seja os amigos, simpatizantes e militantes do MPLA.

No seio da comunidade branca gerou-se uma histeria de fuga a qualquer preço que o estabelecimento de pontes aéreas e de carreiras marítimas levou ao paroxismo. Esta histeria deu origem a uma “música” jamais ouvida nesta terra: a “música” das marteladas nos caixotes ouvia-se noite e dia, monótona e enervante. Nos caixotes metiase tudo o que era possível, até as garrafas de gás e os panos de cozinha! No porto do Lobito, extensas bichas de viaturas esperavam longas horas aguardando embarque. Esta ânsia de partir, em Benguela, contrastava com a atitude de alguns portugueses e angolanos que se preocupavam mais em resolver os problemas do
quotidiano do que pensar nos problemas futuros. São prova disso os episódios que vou contar.
 
Vindos da Ganda, apresentaram-se no meu gabinete dois casais de portugueses acompanhados de cinco meninos e de uma senhora ainda nova. As senhoras e meninos estavam lacrimejantes e os dois homens faziam cara de mártir olhando fixamente para baixo. Quando lhes pedi para explicar a razão que os trouxera até mim, falaram as duas senhoras com ar de queixume dizendo que os maridos tinham sido maltratados pelos pretos até ao ponto de terem levado uma carga de porrada. Pediam a minha protecção e a correcção dos atrevidos. Como eu não percebera a causa da maka e como os dois homens se conservassem calados, perguntei-lhes como é que explicavam a razão das cargas de porrada que tinham levado. Então um deles começou; “sabe, eu tinha um camião de fuba para vender e como o não conseguisse, fiz constar que, se me comprassem toda a fuba, então cairia a chuva que não vinha há muito tempo. Eles compraram a fuba toda, a chuva não veio e eles deram-me uma carga de porrada”. E o senhor? - perguntei ao outro português. “Eu tinha fuba na loja que nunca mais vendia porque a seca continuava e o povo estava com falta de lombongo (dinheiro). Para conseguir vendê-la resolvi fazer um feitiço: arranjei uma panela velha, ossos, pêlos e rabos de boi e uns pauzinhos e fui para o quintal consultar os cazumbis (almas do outro mundo). Cercado de muito povo, fiz as minhas consultas com os ritos convenientes e anunciei que os cazumbis mandariam a chuva dois dias depois de eu ter vendido a fuba toda. A fuba foi vendida, passaram dois dias, a chuva não veio e eu levei uma grande carga de porrada...ainda tenho aqui algumas manchas...”. Eu fiquei perplexo, quase que não continha o riso e tive que recorrer ao Camões dos varões assinalados que conquistaram mundos ao mundo sem um tostão na algibeira para poder responder condignamente a estes lusíadas perdidos nas matas da Ganda. e com ar convicto e um tanto protector garanti-lhes que podiam regressar à Ganda sem receio algum. E eles regressaram ao som da música dos caixotes.
 
Um outro exemplo revelador do clima em que se vivia foi o que descrevo adiante. Uma manhã, quando saía do palácio para o meu gabinete, encontrei no jardimem frente deste, cerca de cinco dezenas de mucubais, homens e mulheres, que logo se acercaram de mim com atitudes decididas mas não agressivas e um deles explicou-me que queriam apresentar-me uma reclamação. Vinham todos tradicionalmente meio vestidos, as mulheres exibindo anéis, argolas e cabeleiras que eram pouco vulgares em pleno centro da cidade. Disse ao emissário que não podia receber tanta gente e que escolhesse um grupo de dez para falar comigo. Depois de estarem todos sentados à volta da mesa do comissariado, verifiquei que alguns deles estavam de cócoras em cima da cadeira.(Não estranhei nem tive vontade de rir porque me lembrei de uma velhota portuguesa que eu vira há bem pouco tempo lá na terra civilizada dos portugas, “sentar-se”, também de cócoras, no assento de um automóvel) Percebi que o grupo estava satisfeito mas um tanto constrangido. Explicaram-me a razão da sua vinda: “lá para as bandas do Dombe Grande, um comerciante tinha-lhes comprado algumas cabeças de gado para pagar, em parte, com mercadorias. O prazo já tinha passado e ele não pagava. Pediam a minha intervenção para resolver a maka. Antes de lhes dar uma resposta consultei os meus funcionários e um deles disseme que conhecia o assunto e que podia ser facilmente resolvido. Assim pude assegurar aos reclamantes que o assunto estaria resolvido dentro de um prazo de oito dias e que podiam regressar às suas terras. Mas os amigos mucubais, em vez de retirarem, preferiram acampar ali mesmo e esperar pela solução da maka. Ali ficaram os oito dias, durante os quais todas as manhãs eu correspondia aos seus cumprimentos com o “V” da vitória que se reflectia nos seus alvos e largos sorrisos
 
À medida que se aproximava a data da independência crescia a azáfama dos caixotes e o número dos transportes, aviões e barcos, para a debandada que tomava cada vez mais o aspecto de uma fuga desenfreada. Em Julho e Agosto, aviões da TAP e da Suisse Air, transportavam diariamente cerca de mil passageiros para Lisboa. Mas o afluxo a Luanda de refugiados vindos das terras do interior em aviões da Força Aérea e de outros vindos via marítima das províncias do litoral era de tal ordem que tiveram que ser utilizados transportes cedidos pelos Estados Unidos da América e pela União Soviética. No início de Setembro participaram na ponte aérea aviões da França, Alemanha Federal, RDA, Grã Bretanha e URSS. Chegou a haver 15 voos diários para Lisboa. Só entre 1 de Agosto a 31 de Outubro calcula-se que foram transportados pela ponte aérea cerca de 230.000 pessoas das quais cerca de 54.000 foram transportadas por aviões estrangeiros, com os E.U.A à cabeça. Esta fuga dos portugueses de Angola começou em Maio e terminou em 9 de Novembro, dois dias antes da proclamação da independência. 


A partir de Maio de 1975 a população branca do Huambo viu-se entre dois fogos, MPLA e UNITA, esta procurando assanhadamente os comunistas, isto é, todos os que cheiravam a MPLA. Os homens armados da UNITA entravam nos aviões à busca de comunistas ante o olhar pasmado das sentinelas portuguesas que não sabiam ou não queriam intervir face à tácita aceitação dos seus oficiais que colaboravam assim na caça aos comunistas. Os dirigentes do EME, Machado e Kapango foram arrancados da aeronave pronta a arrancar para Luanda, nas referidas condições, isto é, diante da passividade dos oficiais portugueses que preferiram “lavar as mãos” como Pilatos, em vez de usarem da sua autoridade.
 
Naquela altura estavam em Angola cerca de 30 mil militares portugueses,número mais que suficiente para manter a ordem e a disciplina evitando que as populações, os habitantes civis, fossem molestados pelos militares dos movimentos rivais.
Do Magazine n.º 277 de 2 de Julho de 1995, de cuja publicação é responsável o jornal português “O Público”, extraímos do artigo aí publicado sob o título “Há vinte anos, de Angola a Lisboa - A maior ponte aérea do História” os elementos que comprovam a tese que sempre defendi de que “esta fuga massiva de residentes de Angola, poucos meses antes da proclamação da sua independência, se não foi preparada, foi pelo menos habilmente aproveitada pelas potências interessadas em fazer de Angola mais um país africano independente, mas obrigado a obedecer aos seus protectores para manter essa independência”, ou melhor utilizando uma linguagem política em vias de ser esquecida, “pelas potências interessadas em substituir o colonialismo português pelo neocolonialismo”.
 
Assim, extraímos do referido artigo as seguintes passagens:

“Houve brancos que foram mortos, outros que foram alvo de sevícias, afirma Vasco Vieira de Almeida (ministro da economia do governo de transição) e contínua: “não se pode dizer que a guerra era dirigida contra a população branca. Só que, numa cidade ocupada por homens armados, todos se sentiam alvos potenciais. Mesmo em casa, tínhamos medo. Havia sempre o perigo de balas perdidas.” São ainda de Vieira de Almeida, cidadão português, com raízes afectivas e familiares ligadas a Angola, com grande simpatia por Angola mas sem ligações partidárias, as seguintes afirmações: “A desmotivação era total no seio das forças armadas portuguesas. O governo de transição não passava de uma farsa trágica. Os efectivos das forças armadas portuguesas e os meios de que dispunham eram mais que suficientes para impedir a escalada da guerra civil” “faltava contudo vontade par tal e faltavam também orientações inequívocas de Lisboa”... .Não são de espantar estas afirmações de Vieira de Almeida. São verdadeiras, reflectem a realidade, o que não sucede com as afirmações que no mesmo artigo são feitas por grandes responsáveis pela descolonização, que decidiram então muita coisa mas que não tiveram até agora a honestidade de reconhecerem os erros que cometeram. Assim, o que era nesse tempo ministro da administração do território depois de ter transferido a sua fortuna de Moçambique para Lisboa, afirma: “Os civis tinham deixado de encarar a presença dos 30 mil militares portugueses como uma
protecção...Havia alguma, diz Almeida Santos. “Mas as tropas portuguesas estavam desmotivadas. Muitos dos militares iam já na terceira, quarta e até quinta comissão de serviço, o significava que estavam a abeirar-se de uma situação de exaustão. Com o “25 de Abril” gerou-se a convicção de que a guerra acabara, de que já tinham cumprido a sua missão O atraso nas negociações com os movimentos de libertação levou a que se continuasse a lutar e a morrer tanto ou mais, nos tempos seguintes ao “25 de Abril”, do que antes. E era incompreensível para as tropas, chegando mesmo a gerar uma situação de indisciplina militar”. Mas vinte anos passados, Almeida Santos, um dos responsáveis pela descolonização, não tem a certeza das causas que originaram a ponte aérea pois afirma: “a ponte aérea resultou de uma decisão conjunta do Governo e da Presidência da República”, mas acrescentou: ”eu diria que o Conselho da Revolução também teve alguma coisa a ver com isso...”. E para cúmulo ainda acrescentou:” Este era um capítulo que o governo procurava evitar: escaldava e já havia problemas de sobra a nível interno!”. E para prova do desencontro de opiniões dos políticos portugueses, oiçamos Melo Antunes, uma das cabeças da descolonização: “a perspectiva do governo português não era estimular o regresso da população branca, e sim, ajudá-la a continuar no território. Mas era tarde demais...” (porquê, pergunto eu). “Por essa altura, em Julho, a população branca de Angola só pensava em rotas de fuga, deixara de acreditar nos bons ofícios de Lisboa; mais de 2.500 veículos partiram, por terra até Marrocos e, em meados de
Agosto, 2 mil portugueses tinham cruzado a fronteira a caminho da África do Sul”.
 
Face a tantas opiniões desencontradas e da consequente falta de coordenação e de decisão é fácil compreender porque é que Vieira de Almeida acabou por afirmar: “Nunca mais vi as pessoas do mesmo modo. Nem este país (Angola) Foi absolutamente incrível a cobardia colectiva de que então se deu provas”. Face ao que atrás se disse torna-se fácil compreender porque é que a tal “comissão de descolonização” de que fiz parte tivesse sido completamente inoperante e inútil. Mas no artigo em referência, “A maior ponte da história ”citam-se duas conclusões “históricas” que parecem querer interpretar para a posteridade o que foi a descolonização de Angola. Lê-se no artigo em referência: Hoje, no último volume da colecção de História coordenada pelo professor José Matoso pode ler-se: A atitude das autoridades portuguesas acabou por favorecer objectivamente a estratégia do MPLA (...) mesmo o fenómeno do retorno da população branca através de uma ponte aérea cujo terminal era Luanda favoreceu essa coexistência” . E ainda no mesmo artigo: ”Numa outra colecção de história dirigida pelo professor João Medina, Melo Antunes escreve: em Agosto de 1975, face à situação crítica que se vivia em Luanda, já ameaçada a Norte pelas forças da FNLA, dei instruções precisas, logo em seguida confirmadas pelo Presidente da República para que as forças portuguesas defendessem a todo o custo a cidade (...)!!! (os pontos de admiração são do autor). As decisões foram tomadas com inteira consciência de que, objectivamente, naquele momento, se fazia o jogo da MPLA.
 
Ora os factos demonstraram que a atitude portuguesa nunca favoreceu a estratégia do MPLA mesmo com as “instruções precisas” dadas por Melo Antunes, simplesmente porque essas instruções não chegaram cá ou não foram cumpridas, nem tão pouco podiam favorecer a estratégia do MPLA porque grande parte dos oficiais do exército português era furiosamente anti comunista, assim como alguns comandos a alto nível...que para cumprir essas ordens, nas vésperas da independência, deitaram ao mar milhares e milhares de culatras das armas que eles não queriam que caísse nas mãos do
MPLA e que pouco antes das zero horas do dia 11 de Novembro convocara os jornalistas para fazer a entrega de Angola ao Povo Angolano, ali representado por...ninguém! E falta acrescentar nessas duas referências históricas que, às zero horas do dia 11 de Novembro, o Presidente da República Popular de Angola não permitiu que a bandeira portuguesa fosse queimada pelos exaltados que não aceitavam a maneira inqualificável de proceder...entregando Angola ao Povo Angolano...sem um representante daqueles que dizem ter favorecido! Não restam dúvidas de que alguns dos adeptos do MPLA, com as suas atitudes extremistas e por vezes racistas, também contribuíram para a fuga dos portugueses, muitos deles já indecisos face às ameaças de nacionalizações sem compensação. Mas também não restam dúvidas de que, apesar da propalada ajuda portuguesa, se não fora a presença, embora tardia, dos cubanos e soviéticos, o MPLA não teria saído triunfante do caos dos últimos dias do colonialismo e dos primeiros dias da independência apesar das “decisões do governo português tomadas com plena consciência de que, objectivamente, naquele momento se fazia o jogo do MPLA”.
 
Outra opinião que ainda persiste e é afirmada por muitos dos que tudo perderam, é de que “as forças armadas portuguesas deram um importante e significativo apoio ao MPLA”. É uma opinião redondamente errada pois a grande maioria dos oficiais e soldados das FAP eram figadais inimigos do comunismo para eles representado em Angola pelos, como já disse, militantes, simpatizantes e amigos do MPLA. Alguns dos acontecimentos a seguir relatados são prova disso.

Continua in
Um testemunho para a História de Angola Do Huambo ao Huambo por Sócrates Dáskalos



INDICE
Preâmbulo de Adelino Torres........................................................................................ I
Prefácio de Manuel Rui................................................................................................. 1
Introdução.................................................................................................................... 4
Capítulo I - Das brumas da meninice ao alvor da juventude....................................8
Capítulo II - Na capital dos “Heróis do Mar”......................................................... 21
Capítulo III - Regresso à terra natal....................................................................... 30
.. - Na cidade das acácias rubras................................................................................. 35
Capítulo IV - A Frende de Unidade Angolana (FUA)..............................................37
... - Advertência........................................................................................................... 37
... - Gestação e nascimento.......................................................................................... 38
... - Nas prisões do colonial-fascismo........................................................................... 43
... - Residência fixa na capital do Império.....................................................................47
... - O salto: fuga e primeiros passos na capital da liberdade.........................................51
... - No labirinto do socialismo “sem véu” e “com véu”................................................53
... - Argel, capital da “revolução africana”....................................................................60
... - O ocaso da FUA................................................................................................... 64
... - O General Humberto Delgado na capital argelina...................................................70
... - Uma república socialista nas montanhas de Angola................................................72
... - Um golpe de Estado.............................................................................................. 74
Capítulo V - Na República Popular da China..........................................................
76
... - Na Guiné Conacri.................................................................................................. 83
... - Na Costa do Marfim............................................................................................. 87
Capítulo VI - Treze anos depois............................................................................... 90
... - Regresso do exílio................................................................................................. 90
... - Na Comissão de Descolonização enviada por Portugal
... à 29ª Assembleia Geral das Nações Unidas............................................. 91
Capítulo VII - A evolução sócio-económica do Huambo
... nas últimas décadas da colonização................................................ 93
... - O Ensino e a saúde no Huambo nas vésperas da independência.............................97
... - As congregações religiosas e a emancipação dos angolanos..................................99
Capítulo VIII - No governo da Província de Benguela......................................... 105
... - A grande debandada: retornados e adidos............................................................ 107
... - A corrida aos confiscos e nacionalizações............................................................ 111
... - O Gabinete de Estudos........................................................................................ 112
... - A visita do Presidente do MPLA a Benguela........................................................ 113
... - A primeira visita oficial do Presidente da UNITA à Província de Benguela.........114
... - A fuga dos dois barcos bacalhoeiros em construção na SOREFAME de
Angola..................................................................................................................... 115
... - O regicídio falhado - Início das confrontações armadas........................................ 116
... - O comboio fantasma............................................................................................ 118
... - O hastear da bandeira de Angola independente na Província de Benguela........... 120
Capítulo IX - No comando dos estaleiros navais do Lobito.................................. 123
... - Nos organismos políticos da Província de Benguela..............................................128
Capítulo X - Angola no coração.............................................................................. 132
... - A casa................................................................................................................. 133
... - A ferro e fogo...................................................................................................... 137
... - Angola ferida no coração: sangue e lágrimas enxutas............................................141
Capítulo XI - O lobo e o cordeiro........................................................................... 146
... - A Terra em que nascemos................................................................................... 149
... - Quando as acácias murcham................................................................................ 154
... - A homenagem..................................................................................................... 157
... - Epílogo................................................................................................................ 161
... - Posfácio ............................................................................................................. 165A 



Nota: Sócrates Dáskalos, enquanto  estudante de engenharia no Instituto Superior Técnico foi um dos inspiradores da criação da Casa do Estudantes do Império, e já nos anos 40 era um oposicionista ao regime de Salazar. Mais tarde em Angola foi professor do Liceu de Benguela, e conjuntamente com Fernando Falcão, Luís Portocarrero, Carlos Costa, Manuel Brazão Farinha, Carlos Morais e outros, fundou a FUA, Frente de Unidade Angolana o que lhe valeu a prisão e a expulsão de Angola com residência fixa em Lisboa, acabando por  fugir para o estrangeiro com outros companheiros. Viveu no exílio durante vários anos -  França, a Argélia, a China, a Costa do Marfim e a Guiné-Conacry- e  regressou a Angola em 1974, onde foi  nomeado membro da Comissão de Descolonização nas Nações Unidas e, algum tempo depois, Governador da Província de Benguela onde viverá momentos conturbados. Mais tarde assumirá a direcção dos estaleiros navais do Lobito e aí termina a sua carreira profissional activa.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

ANGOLA - COMANDOS ESPECIAIS CONTRA OS CUBANOS. PORQUE NÃO CONQUISTAMOS LUANDA

 Ouvir com webReader



É esta uma obra, já publicada em 1978, de Pedro Silva, Francisco Esteves e Valdemar Moreira e colaboração do então Ten. Cor. Gilberto Santos e Castro, sobre a acção dos próprios como Comandos Especiais em Angola e dos autores posteriormente em Moçambique, onde colaboraram na fundação da RENAMO.
Dela extraí 2 capítulos:
- PORQUE NÃO CONQUISTÁMOS LUANDA, em Download Gilberto Santos e Castro
- COMANDOS ESPECIAIS EM MOÇAMBIQUE, em Download Comandos Especiais em Moçambique
Veja também http://www.macua.org/livros/opcaoespada.html






PORQUE NÃO CONQUISTÁMOS LUANDA


Estamos em Agosto de 1975. Um pequeno grupo de portugueses desembarca em Angola para ajudar a impedir a sua entrega ao colonialismo soviético.
Eram poucos. Iriam porém, mostrar em valentia sem par e altruísmo sem preço, a vontade de todo o povo real que, perplexo e traumatizado, estava incapaz de reagir à mais aviltante farsa de toda a sua História. Em nome de um povo imaginário e de liberdades paranóicas — aliás tolhidas a cada passo em pesados preços de sangue e de fome — todos assistimos à maior mentira do século: a "independência" de Angola.

Qual Angola?

A que víramos próspera, virada ao futuro, na preocupação do bem estar das suas gentes, na riqueza da sua história, no valor da sua cultura, na grandeza e na dimensão do seu viver? Ou a que encontramos destruída, com os povos famintos a fugir de um lado a outro, para morrerem mais tarde? A que encontrámos em gritos de dor e pedindo a nossa ajuda, uma palavra de esperança, uma afirmação de que tudo era pesadelo e de que voltariam à tranquilidade do seu viver?

Qual independência?

A que trouxe a Angola a ocupação colonial por um exército estrangeiro, em flagrante conquista militar, sem quaisquer laços que liguem o povo aos ocupantes, para além da anuência de uma minoria dirigente e totalitária e porque um governo, em Lisboa — provisório mas definitivamente irresponsável — o consentiu também? O que pensa realmente deste facto trágico o povo português e desgraçadamente o que pensará o povo de Angola?

Foi um grupo pequeno que se bateu contra isto tudo. Merecem por isso o respeito e a consideração de todos os portugueses. Por se terem batido e porque se bateram bem.

Alguns pagaram cara a sua dádiva. E quando no pequeno cemitério do Ambriz desceram à terra, com toda a população a assistir em religioso silêncio, com as honras devidas e cobertos com a Bandeira
Portuguesa, repetia-se apenas o que ao longo dos séculos acontecera. Mais uma vez aquela terra acolhia generoso sangue português. Ali estivemos também, meditando e sentindo mais vontade para continuar.
A história deste livro, na simplicidade do relato de uma boa parte dos combates que tiveram de travar-se, dá bem conta do que foi essa luta. Não podemos, porém, deixar de recordar também com sentido respeito os que pelo sul de Angola e em combates de gigantes, libertaram sucessivamente Pereira de Eça, Sá da Bandeira, Moçâmedes e Lobito. Ali tombaram outros tantos, que recordamos com saudade e a maior veneração.

O relatar de uma guerra, na verdade dos factos e com humildade, é privilégio dos que sabem bater-se. É este o caso, na óptica de quem o soube fazer e fazer bem. A outra história, a dos basti-dores da intriga política, ficará para ser contada oportunamente. Ela terá de ser contada um dia e sê-lo-á...
Fomos derrotados naquela batalha, mas ven-cidos ainda não. Em Julho de 1975 os soldados cubanos começaram a desembarcar em Angola. Faltavam cinco meses para a independência estabelecida nos Acordos de Alvor, e o exército cubano, apoiado por material de guerra russo pesado e sofisticado (tanques e mísseis), começou a invadir Angola.

O povo português desconhecia em absoluto es-te facto, porque a Informação (imprensa, rádio e TV) "mais livre do mundo" simplesmente o ocul-tava. Aliás, em Julho de 75 tinha também co-meçado no norte do país o célebre "Verão quen-te". O povo andava atarefado em travar a escalada comunista e tinha perfeita consciência de que se o conseguisse a tempo, Angola nunca cairia sob o domínio soviético. Mas o povo do norte foi traído pelas mesmas pessoas que traíram os angolanos. Não foi por acaso que o "25 de Novembro" só aconteceu depois de consumado o "11 de Novem-bro", data da entrega oficial de Angola à Rússia.

A primeira importância deste livro, escrito por três Comandos Especiais que tive o orgulho de comandar, é a de provar, com a simplicidade de uma prova visível e concreta, que o exército cu-bano invadiu Angola antes da independência. Eu próprio comandei os combates que os Comandos Especiais travaram contra os cubanos em Angola, durante os meses de Agosto, Setembro, Outubro e Novembro de 1975... Só na parte norte de Luanda, para "defender" a cidade, estacionavam seis batalhões cubanos completamente equipados, ar-mados e municiados.Feita a prova desta terrível verdade, surge a segunda importância deste livro: — Quem au-torizou ou quem facilitou a entrada dos cubanos? Quem constituía, nessa época, o Poder em Por-tugal? Presidente da República, Governo e Con-selho da Revolução. Muitos membros-desses ór-gãos do Poder continuam hoje a ser governantes. Grande parte deles são os mesmos. Como é isto possível? Sobre os ombros desses homens pesa a responsabilidade da morte de milhares e milhares de homens, de mulheres e de crianças. Pesa ainda a gravíssima responsabilidade de terem impedido a libertação da nação angolana. Que povo pode ser livre, quando ocupado por um exército de 30 000 soldados estrangeiros?

Quem autorizou a entrada do exército cubano em Angola, quando o poder soberano ain-da pertencia (e pertenceria durante vários meses) ao governo português?

Enquanto esta pergunta não for respondida, que importância podem ter os escândalos em que se envolvem altas figuras do regime e o que podem significar os delitos, os compromissos ou os com-padrios que os levaram ao Poder?

Mas enquanto houver portugueses da raça destes Comandos Especiais que foram lutar contra os cubanos, aquela pergunta há-de ter uma res-posta. Não se saberá quando, mas terá de ser dada às centenas de milhar de mortos, aos que per-deram a dimensão de viver e aos que vagueiam apátridas e atónitos...
*
Visto à luz da História, os Comandos Especiais eram em número ridiculamente pequeno. Apenas um punhado de homens: pouco mais de uma cen-tena e meia.
Vieram de todos os cantos do mundo. Alguns tinham já sido Comandos, ao tempo da sua vida de militares em Angola ou em Moçambique.

Vieram espontaneamente. Nada lhes foi oferecido, e eles nenhumas condições impuseram. Claramente lhes foi dito que os Comandos Es-peciais iriam apenas ser a resposta altiva dum punhado de portugueses à cobardia e à traição dos que entregavam a Pátria às potências estrangeiras.
Vieram por sua própria e livre iniciativa, na louca esperança de ainda salvar o nosso povo duma desonra afrontosa e de uma perda irre-parável.

Logo no primeiro recrutamento surgiram aqueles que iriam constituir a mais extraordinária, a mais inconcebível, a mais desesperada força militar que alguma vez se propôs fazer frente ao
10império comunista: 156 homens dispondo de reduzidíssimo armamento, dependendo quase que exclusivamente de si próprios, pois o apoio logís-tico era praticamente inexistente. Estavam dispos-tos a enfrentar o MPLA comunista, mas não sabiam ainda que uma das mais poderosas má-quinas político-militares do mundo iria lançar abertamente todo o seu peso na luta a favor do MPLA. Igualmente ignoravam que as autoridades portuguesas iriam dar cobertura aos comunistas.

Mas mesmo que o soubessem, na altura em que se dispuseram a lutar para defender Angola da estratégia soviética, isso não os faria recuar.

Na realidade a acção desse punhado de ho-mens começou no Verão de 75. O "Verão Quente" de Angola.
Quando se verificaram os primeiros incidentes graves, em Maio/Junho de 75, em Luanda e nas áreas que impropriamente designaram como "zonas de influência", esses incidentes deram-se apenas entre os "movimentos de libertação", MPLA incluído.

A cruzada parecia fácil. Se os Comandos Especiais tivessem de enfrentar apenas o MPLA, as coisas teriam seguido um outro rumo: nunca os comunistas teriam tido a possibilidade de tomar conta de Angola. O Alto-Comissário que representava nessa al-tura o Governo Português em Angola teve uma ac-ção claramente definida: de acordo com a letra e o espírito dos tratados, não concedeu nem conce-deria qualquer privilégio especial a nenhum dos três movimentos. Fixada a data da independência de Angola para 11 de Novembro, seriam até lá tratados em plena igualdade as três forças que en-tre si disputavam a supremacia em Angola. Mas essa correcta e imparcial acção contrariava os secretos desígnios dos chefes comunistas. O Alto-Comissário juntamente com o Comandante Militar, foram chamados de urgência a Lisboa. Em contrapartida, Rosa Coutinho foi para Luanda. Por curiosa coincidência, precisamente na al-tura em que eu próprio cheguei também a Angola. Estávamos em Agosto: exactamente no dia 5, desse ano de 1975.

A situação ali já não constituía segredo para ninguém: desde Junho que cubanos e russos man-tinham, sem quaisquer preocupações de segredo, o seu Quartel-General em Luanda, na casa que fora do Administrador da Petrangol. Aí funcionava abertamente esse Quartel-General, com todas as secções e com todo o pessoal. Estávamos ainda então sob o controle do governo português, esse mes-mo governo que num tratado de cariz interna-cional acordara não dar nem permitir que fosse dada qualquer espécie de tratamento preferencial a nenhum dos três movimentos competidores.

No entanto os soldados cubanos desembar-cavam em vagas cada vez maiores em Luanda, nesse Verão de 75. Todo o material de guerra que consigo traziam, ali desembarcou à vista de toda a gente.

Quando os desembarques começaram a ser feitos em massa, em meados de Agosto, passaram a ter lugar em Novo Redondo. E era às claras que diariamente rolavam as colunas militares de sol-dados e material cubano e russo, rumo a Luanda. Quanto ao MPLA, o movimento que servia de cobertura a essa clara invasão comunista, estava completamente subordinado ao Quartel-General cubano de Angola.
Quem poderia ignorar estes factos? Na rea-lidade, ninguém. Nem em Angola nem mesmo nos países vizinhos. E muito menos o governo por-tuguês, ou pelo menos o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Mário Soares.

Foi na própria Emissora oficial de Angola — ainda sob a tutela de Portugal e das autoridades portuguesas — foi através da própria Emissora oficial que se fizeram constantes e insistentesapelos para que voluntários se apresentassem no cais para trabalhar na descarga desse material cubano e russo. E muitos foram os trabalhadores que acabaram por ser apanhados à força — bran-cos e negros — e obrigados a ir para o porto trabalhar forçadamente no desembarque desse material.

O facto dos Comandos Especiais terem lutado contra o MPLA — e contra os cubanos e russos que os apoiavam — ao lado de Holden Roberto, poderá levar a pensar que esse punhado de homens fazia parte da FNLA.

Não é verdade.

A FNLA serviu de ponto de apoio para esses homens, cujo único objectivo não era nem o da conquista de riqueza ou fortuna, nem sequer o de passageira glória. Era simplesmente o desejo de manter Angola como nação livre e sem interferên-cias estrangeiras no caminho do seu progresso.

Os Comandos Especiais e eu próprio demos o nosso apoio à FNLA, por ser essa a via mais rápida para tentarmos deter a avalanche comunista que ameaçava ocupar Angola.

Foi esse o teor do acordo inicial com Holden Roberto a quem clara e iniludivelmente afirmei que nunca seriamos enquadrados nas fileiras da FNLA — com o que ele plenamente concordou.

De resto — e importa que se diga — Holden Roberto mal conhecia a realidade de Angola.

Para todos nós, para os que ali tínhamos nascido ou os que dali tinham feito a sua terra-mãe, era quase chocante ver o espanto que Holden demonstrava perante o progresso duma terra que ele tinha esperado encontrar primitiva e escra-vizada, árida e abandonada como a propaganda estrangeira proclamava. Como nota curiosa, posso revelar que perante uma barragem (as Molubas) já colocada fora de uso por obsoleta e apta apenas a servir em curtos períodos de emergência de apoio à barragem que servia Luanda, vimos Holden abrir os olhos de espanto perante tão "extraordinária realização"...

Noutra ocasião, na Fazenda "Tentativa", Hol-den viu uma fábrica de açúcar também já ul-trapassada por não ter capacidade de laboração para a matéria prima que ali se produzia e que por tal motivo estava para ser desmanchada. Era uma fábrica que eu conhecia desde menino. Pois Hol-den Roberto não escondeu o seu espanto perante a sua "grandiosidade"...

Talvez por tudo isso, e também porque ele podia verificar que muitos de nós conhecíamos Angola desde Cabinda ao Cunene e que todos amávamos aquela terra que queríamos que continuasse a ser também nossa, talvez por isso ele nos respeitava e nos dava todo o apoio que podia.
No entanto todo o esforço desesperado desses homens que quiseram defender Angola do inimigo soviético se perdeu.

Ingloriamente, diga-se. Por vil traição.

Tanto os angolanos como os portugueses acreditaram que os representantes do governo português honrariam os seus compromissos de imparcialidade tal como haviam sido assumidos em Alvor. Não o fizeram. É já um facto historicamente comprovado que o governo português apoiou, muito antes da data da independência, a invasão dos cubanos, checos, húngaros e russos em Angola, tal como aprovou e consentiu no estabelecimento de quartéis e na distribuição de armamento, desde o mais simples ao mais sofisticado, desde as armas ligeiras aos mísseis russos, os célebres "órgãos de Staline"...

Quem permitiu, quem sancionou, quem colaborou nessa monstruosa traição que veio a culminar na entrega de Angola e Moçambique ao colonialismo soviético?

Gilberto Santos e Castro





Entrevistas sobre a descolonização de Angola


 
INSTITUTO DE CIENCIAS SOCIAIS DA UNIVERSIDADE DE LISBOA


O Arquivo de História Social publica nesta página uma série de entrevistas sobre a descolonização portuguesa de 1974/1975, fruto de um projecto do Instituto de Ciências Sociais apoiado pela Fundação Oriente. Maria de Fátima Patriarca, Carlos Gaspar, Luís Salgado de Matos e Manuel de Lucena que coordenou, entrevistaram grandes protagonistas desse processo: por um lado, governantes, chefes militares, dirigentes do MFA e outros que então actuaram na Guiné-Bissau, em Cabo Verde, Angola e Moçambique; por outro lado, responsáveis metropolitanos ou íntimos colaboradores seus. Não procurando promover qualquer interpretação, chegar a juízos gerais ou encerrar os eventos abordados numa dada problemática, o grupo entrevistador foi seguindo os relatos e aceitando as visões dos seus interlocutores, embora não deixasse de lhes solicitar esclarecimentos por vezes incómodos.

Angola
Sessão de 31 de Agosto de 1995
Intervenientes: general António Soares Carneiro, brigadeiro Fernando
Passos Ramos, brigadeiro Pedro Pezarat Correia, coronel Rui Antunes Tomás.

Sessão de 28 de Agosto de 1996
Intervenientes: brigadeiro Fernando Passos Ramos, brigadeiro Pedro Pezarat Correia,
almirante António Rosa Coutinho, comandante Jorge Correia Jesuíno.

Sessão de 31 de Julho de 1997
Intervenientes: general António Silva Cardoso, brigadeiro Heitor
Almendra, general António Gonçalves Ribeiro.

Sessão de 1 de Outubro de 1998
Intervenientes: Vasco Vieira de Almeida, brigadeiro Passos Ramos.


ORIGEM

segunda-feira, 30 de abril de 2012

FILME "OS DONOS DE PORTUGAL"

(clique sobre a imagem para ampliar)

Donos de Portugal é um documentário de Jorge Costa sobre cem anos de poder económico. O filme retrata a proteção do Estado às famílias que dominaram a economia do país, as suas estratégias de conservação de poder e acumulação de riqueza. Mello, Champalimaud, Espírito Santo – as fortunas cruzam-se pelo casamento e integram-se na finança. Ameaçado pelo fim da ditadura, o seu poder reconstitui-se sob a democracia, a partir das privatizações e da promiscuidade com o poder político. Novos grupos económicos – Amorim, Sonae, Jerónimo Martins - afirmam-se sobre a mesma base.

No momento em que a crise desvenda todos os limites do modelo de desenvolvimento económico português, este filme apresenta os protagonistas e as grandes opções que nos trouxeram até aqui. Produzido para a RTP 2 no âmbito do Instituto de História Contemporânea, o filme tem montagem de Edgar Feldman e locução de Fernando Alves.

A estreia televisiva teve lugar na RTP2 a 25 de Abril de 2012. Desde esse momento, o documentário está disponível na Net

Para ver, clicar aqui:

domingo, 29 de abril de 2012

Mário Pinto de Andrade: a lucidez é um sorriso triste

 

Em 1948, Lisboa devia ser triste. O regime fascista asfixiava, os ecos de um pós-guerra aportavam, anunciando, ainda num murmúrio surdo, o início de uma era que mudaria a correlação de poderes até então instituída. A maquilhagem imperial começava-se a borratar na cara da velha cidade-madrasta.
Nas ruas da capital da metrópole, os estudantes das colónias, entre os quais um recém-chegado jovem de vinte anos, vindo de Golungo Alto - Mário Pinto de Andrade. “Foi em Lisboa que o conheci, no final da década de 40, estudantes da mesma escola, tentando ele fazer jornalismo para se poder manter aqui; procurando transmitir os testemunhos culturais dos africanos que nas colónias viviam, a dos disseminados pela Europa e Américas”. Recordação do editor João Sá da Costa, no texto de apresentação dos livros A Guerra do Povo na Guiné-Bissau (Mário Pinto de Andrade), Sagrada Esperança (Agostinho Neto) e Nós, os do Makulusu (Luandino Vieira), em 9 de Dezembro de 1974.

Na Casa dos Estudantes do Império, Mário conhece Amílcar Cabral, Agostinho Neto e outros nomes fortes que acabariam por empurrar do pedestal o colonialismo português. Os debates e tertúlias sucediam-se. “Mário era capaz de ouvir uma pessoa durante uma hora seguida, sem interromper. Quando tomava a palavra comentava, ponto por ponto, os vários argumentos. Ao contrário de outros políticos de movimentos nacionalistas que pareciam usar uma dupla linguagem - a política e a pessoal - , com o Mário tive sempre a impressão de estar a falar com uma ‘pessoa inteira’”, recorda Carlos Moore, etnólogo cubano-jamaicano que conheceu o nacionalista angolano nos anos 80. “Sempre que não estava de acordo com alguma ideia, sorria, mas não de forma irónica. Ele era muito aberto e fraterno, com ele a conversa era possível”, remata.
com Amílcar Cabral 

com Amílcar CabralEsta postura remontava já aos primeiros tempos de Lisboa. “Quem o ouvisse falar, fosse à mesa do café Chave d’Ouro, ou na casa do [poeta santomense da negritude] Francisco Tenreiro, ou no café-clube perto do Museu das Janelas Verdes (onde se juntavam africanos residentes em Lisboa e os que vinham e iam de Angola com as últimas notícias clandestinas), aperceber-se-ia que o que dele vinha era uma constante batalha de pregação da lucidez de espírito”, descreve o editor João Sá da Costa. “Era isso que o apaixonava: a lucidez.”

Aprendiz de ensaísta

“Surpreendido pela História num lugar e tempo determinado”, como escreveria muitos anos depois, Mário Pinto de Andrade desde logo apontou baterias para a luta contra o sistema colonial. Depois de cinco anos em Portugal, salta para Paris onde frequenta a Sorbonne, edita a Présence Africaine e convive com Jean Paul-Sartre, Anta Diop, Léopold Senghor e com uma figura para ele determinante na interpretação e teorização do pan-africanismo e da negritude: o antilhano Aimé Césaire, que Mário colocava “muito alto na hierarquia das suas relações”, como recorda o intelectual e economista egípcio Samir Amin na mensagem de condolências enviada a Sarah Maldoror, depois da morte do seu amigo angolano. Carlos Moore recorda também “o conhecimento profundo” que Mário de Andrade tinha “sobre as origens e diferentes tendências do pan-africanismo”, que relacionava com “as diásporas africanas, o que não era corrente naquela época entre dirigentes políticos africanos, à excepção de Kwame Nkrumah.” “Ele achava necessário recuperar a auto-estima dos africanos negros, mas ao mesmo tempo identificava algumas contradições que teriam que ser resolvidas”. 

A reflexão sobre a negritude, o panafricanismo e as lutas de libertação foi uma das preocupações constantes do intelectual angolano. Nos últimos anos de vida, colaborou com a UNESCO. Assinou uma bibliografia que inclui títulos como Origens do Nacionalismo Africano, Amílcar Cabral – Éssai de biographie politique, e inúmeros artigos e crónicas.

Numa entrevista inacabada a José Eduardo Agualusa (Público, 11 de Setembro de 1991), Mário Pinto de Andrade relembra que começou a sua produção intelectual com “poesia, como toda a gente”. “Poesia incipiente”. Continuou com contos até se transformar no que dizia ser num “aprendiz de ensaísta”. Apesar desta auto-apreciação, vários intelectuais consideram o pensamento deste personagem do nacionalismo angolano essencial. René Depestre, poeta do Haiti e amigo de Mário, observa que o angolano “era todo o contrário de um intelectual ‘superficial’”. “A seriedade dos seus propósitos e do seu pensamento escondia uma viva sensibilidade de poeta”, lê-se na mensagem de condolências que Depestre enviou a Sarah Maldoror.

“Ele era um pensador”, considera, por sua vez, Carlos Moore, que se recorda de longas conversas sobre “marxismo e a revolução em Cuba” com “uma pessoa muito curiosa”. Um “dandy da escrita”, chamou-lhe Carlos Lopes, sociólogo guineense e brasileiro, no artigo “Mário Pinto de Andrade: A Grande Ausência” (Soronde, Janeiro de 1991. “[Ele] era capaz de se corrigir a si mesmo cinquenta vezes antes de considerar o acto de parir palavra como consumado e autêntico”. “Esse rigor à disciplina”, reflecte, “traiu-no muitas vezes e, incompreendido por alguns, não provocava por espontaneidade o mérito que merecia. Tal atitude não o atemorizava e parecia-lhe como que o preço a pagar pela ‘integridade intelectual’”.

E o momento fê-lo político

Os contactos de Mário Pinto de Andrade com os movimentos independentistas africanos começam em Paris, ainda nos anos 50. O agora político desdobra-se em contactos em Argel, Casablanca, Accra e Conakry, num processo que culminou em 1960, ao tornar-se no primeiro presidente do MPLA. Ocupa o cargo durante dois anos, até à fuga de Agostinho Neto de Portugal. Em 1961 é eleito secretário-geral da Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas. 

Rabat Kesha (ANC), Marcelino dos Santos (CONCP, FRELIMO), Amália Fonseca (CONCP, PAIGC), Nelson Mandela (ANC), Mário Pinto de Andrade (CONCP, MPLA) e Aquino de Bragança (CONCP) em Rabat, Marrocos, em 1962.  
Rabat Kesha (ANC), Marcelino dos Santos (CONCP, FRELIMO), Amália Fonseca (CONCP, PAIGC), Nelson Mandela (ANC), Mário Pinto de Andrade (CONCP, MPLA) e Aquino de Bragança (CONCP) em Rabat, Marrocos, em 1962. 

Mário travava a sua luta pela independência “com uma caneta e não com um fuzil”, aponta Carlos Lopes, facto que não escapava desapercebido dentro do partido. “Troçavam dele porque não ia ao Maqui, mas ele (…) era incapaz de matar”, defende a companheira do nacionalista, Sarah Maldoror. “Ele não era um combatente de armas. Era um combatente de espírito”.

Na verdade, a estrutura partidária pouco teria a ver com o nacionalista, sugerem os seus amigos. “Ele era um homem da esquerda marxista, mas não marxista-leninista. Preocupava-se muito com a liberdade de criação e independência intelectual. Era um pensador, não era um homem de aparelho”, salienta Carlos Moore. “No entanto, compreendia que, no mundo moderno, para se desenvolver uma luta de emancipação, era necessário criar um partido político”.

Na mesma linha, o amigo Carlos Lopes não hesita em escrever que “Mário, apenas por equívoco ocupou cargos de responsabilidade governativa, ele que, pelo seu diálogo permanente, interrogação fértil e contestação rápida dos princípios instituídos, preferia esta do lado da inversão, senão subversão intelectual”. Classificando-o como um “democrata socialista, internacionalista”, o egípcio Samir Amin não duvida que o nacionalista angolano “sabia o que fazia” e que “estava “perfeitamente consciente dos limites históricos do combate do momento, dos problemas novos e das dificuldades que a vitória certa traria”. Como o exílio.

Deixar Angola e a utopia

Em 1974, depois de protagonizar, com o seu irmão Joaquim Pinto de Andrade, a chamada “Revolta Activa”, em oposição a Agostinho Neto, Mário abandona Angola, onde nunca mais volta em vida.
Parte então para a Guiné-Bissau, onde já tinha estado durante a guerra colonial, e onde ficou conhecido por “Bibi” entre “os camaradas mais chegados” do PAIGC, relembra o amigo José Araújo no artigo “No Tempo dos Aviões” (Tribuna, 1 de Setembro de 1990). No país dos grandes rios, torna-se, a convite de Luís Cabral, o Primeiro Comissário de Informação e Cultura e, mais, tarde, no Ministro da Cultura, trabalhando com os artistas locais, entre os quais o célebre poeta, compositor e intérprete José Carlos Schwarz, que o dirigente “tanto encorajou”, recorda José Araújo. Em 1980, Nino Vieira derruba Luís Cabral, atirando Mário para uma nova errância que se prolongou ao longo dos dez anos de vida que lhe restavam entre França, Portugal e Moçambique.

“O exílio torturava-o”, relembra Carlos Moore. “Havia várias camadas de sofrimento no seu sorriso. Quando falava na guerra civil em Angola ficava com o olhar perdido e interrogava-se: ‘quem imaginaria que isto pudesse acontecer?’” E havia “a distância da família”, aponta, costante desde os tempos da luta nacionalista, e que terá deixado mais marcas nele próprio que nas suas duas filhas. “Soube desde cedo que o meu pai não estava connosco, porque tinha algo de muito importante a fazer. Independentemente da ausência, recebi muitas referências dele, através de cartas e dos momentos em que estávamos juntos e em que ele nos transmitia conhecimentos e despertava interesses”, conta a filha mais nova, Henda Ducados.

Mário Pinto de Andrade faleceu a 26 de Agosto de 1990. Voltou então “a casa”, onde foi sepultado no Cemitério Alto das Cruzes,em Luanda. Sarah Maldoror, em take final: “Creio que o Mário vai ter importância daqui a 10 anos, quando os angolanos escreverem verdadeiramente a história do seu país. (…) Nessa altura toda a sua dimensão – política e intelectual – será reconhecida (…) Podemos opinar tudo o que queremos sobre Mário Pinto de Andrade menos questionar a sua integridade intelectual ao longo de toda a história do MPLA. Morreu como se devia – na maior pobreza. Morreu sem deixar nada às filhas. Mas era dono de uma honestidade e rectidão fora do comum”.


*As cartas e artigos citados fazem parte do espólio de Mário Pinto de Andrade reunido na Fundação Mário Soares, e que está disponível em www.fmsoares.pt/aeb/dossier13


artigo originalmente publicado no Novo Jornal, Angola, Agosto de 2009
  por Pedro Cardoso


 O valioso tempo dos maduros

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.
'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!


Mário Pinto de Andrade


(Para quem não conhece, político angolano, co-fundador do MPLA)
 http://forum.angolaxyami.com/angola/129100-o-valioso-tempo-dos-maduros-por-mario-pinto-de-andrade.html